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AULA 1

NEUROCIÊNCIA DA
LINGUAGEM

Profª Tammy Ribeiro


CONVERSA INICIAL

Com o surgimento das ciências cognitivas na segunda metade do XX,


tendo como intuito compreender como o sistema nervoso controla o
comportamento humano, investigando as questões do conhecimento humano,
atualmente os estudos das ciências cognitivas englobam algumas disciplinas;
dentre elas, vamos destacar aqui as neurociências da linguagem.
Hoje, muitos estudos e pesquisas se voltam para estudar a linguagem e o
cérebro, desde seu funcionamento no campo da fonética, passando pela leitura
até o encadeamento da fala. Cabe ressaltar que estes estudos contribuem de
forma significativa para a compreensão da linguagem em suas diversas áreas,
como no processo de alfabetização e também no processo de ensino e
aprendizagem da escrita e da leitura. Relacionar a linguagem com as
neurociências é uma forma de entender uma aproximação sincronizada entre as
bases biológicas e psicológicas.
A linguagem pode ser entendida como a primeira forma de socialização
do ser humano, ainda enquanto criança. Seja por estímulo dos adultos, por meio
de conversas diretas, pelas instruções que são passadas e pelas histórias
contadas, que expressam valores culturais ou ainda de forma implícita, ao
participar de interações verbais (Borges e Salomão, 2003).
Por isso, se pode considerar a linguagem como um ente principalmente
cultural. É no processo de aquisição da linguagem que o indivíduo apreende os
valores, crenças e normas implícitas em sua comunidade.
No entanto, não podemos esquecer que há uma parcela importante de
carga biológica no processo de desenvolvimento da linguagem, por isso é
importante compreender a linguagem a partir de sua construção social/cultural e,
também, biológica. As neurociências se encarregam de explicar como o universo
biológico interno se comporta no processo do desenvolvimento da linguagem.
São as centenas de milhões de pequenas células nervosas que, por meio
de impulsos eletroquímicos, realizam a comunicação do cérebro com o sistema
nervoso, dando ao ser humano a capacidade de realizar atividades muito
especiais, entre elas pensar, sentir, sonhar, se emocionar, se movimentar e
muitas outras funções mentais e físicas comandadas pelo cérebro, sem as quais
não seria possível a expressão de toda a riqueza interna do ser humano, nem

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perceber o mundo externo, através dos sons, cores, texturas, sabores, etc.
(Relvas, 2009).
As disciplinas que estudam o sistema nervoso a partir da biologia são
denominadas neurociências. Estas disciplinas buscam investigar o cérebro em
sua estrutura, funcionamento, anatomia, química e fisiologia, em pessoas
consideradas normais, doentes ou até com deficiências. Juntamente com outras
disciplinas, como a linguística e a semiótica, as neurociências conseguem
entender como o sistema nervoso central funciona e como as pessoas podem
melhorar no seu processo de cognição, principalmente aqueles que têm alguma
necessidade educacional especial.
Sendo assim, esta aula tem como objetivo apresentar a estrutura da
aquisição da linguagem, dando destaque, primeiramente, ao seu
desenvolvimento, apresentando os principais fatores que estão ligados a este.
Sucedendo-se a esse tema, discutiremos sobre as principais teorias que
norteiam os estudos sobre o desenvolvimento da linguagem nos seres humanos,
discutindo autores como Piaget, Vygotsky, Chomsky, Skinner e outros.
Perpassaremos pela compreensão na naturalidade do ser humano em
adquirir a linguagem, desde a primeira infância à vida adulta, buscando entender
as fases das quais a criança precisa passar para desenvolver-se a partir da
linguagem.
Por fim, faremos um paralelo entre os conceitos de língua e linguagem,
buscando compreender as definições que cada termo apresenta.

CONTEXTUALIZANDO

Como destacamos acima, as neurociências e a linguagem estabelecem


uma relação natural, visto que neste processo se relacionam bases biológicas e
psicológicas. É importante compreender que uma está ligada à outra, de forma
tão intrínseca que os aspectos psicológicos do ser humano necessitam das
bases biológicas para se desenvolverem, ao mesmo tempo que o biológico
necessita do psicológico para se adaptar melhor ao meio ambiente, mediante a
ciência, arte, filosofia e as diferentes formas de saber.
Se por um lado a linguagem é a forma como construímos nossa
comunicação, por outro, as neurociências, que são o campo de estudo científico
que mais cresce nos últimos anos, tem conseguido explicar como o cérebro

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humano funciona, como o ser humano pensa, aprende e, principalmente, como
ele se comunica.
Isso se confirma a partir do estudo de Skinner, Vygotsky, Piaget, Broca,
Chomsky, Geschwind, Fodor, Lenneberg, Miller e outros. Teóricos da Filosofia,
Psicologia, Neurologia, Memória, Linguística, Gramática, Fisiologia, Anatomia,
Antropologia e outras áreas do saber, se debruçaram sobre essa temática na
busca de entender como o homem funciona.
O primeiro aporte importante a respeito da linguagem foi realizado pelo
médico francês Paul Broca, no ano de 1864, quando, em estudo com pessoas
que não conseguiam falar, descobriu que estas apresentavam lesões no
hemisfério esquerdo do cérebro; por outro lado, Karl Wernicke, na Alemanha,
descobre que as lesões no hemisfério direito mantêm nas pessoas a fluência da
fala, mas altera sua compreensão.
Os dois aportes estão relacionados à linguagem, pois para que sua
aquisição seja completa, há que manter a compreensão da realidade,
juntamente com as estruturas básicas da audição e da fala.
A partir desses estudos, vários autores se puseram a pesquisar como a
linguagem se desenvolve nos seres humanos, desde o início da vida, buscando
compreender como as estruturas cerebrais se desenvolvem na criança e como o
surgimento e a aquisição gradativa da linguagem se dá no seu interior.

TEMA 1 – DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

Antes de falarmos do desenvolvimento da linguagem ou sua aquisição, é


interessante que compreendamos do que se trata o seu conceito. Autores como
Atkinson, Smith, Bem e Nolen-Hoeksema (2002) definem a linguagem como
sendo um processo que organiza e combina palavras para fins de comunicação
do pensamento. Neste sentido, a linguagem apresenta um caráter universal que,
como bem apresentado por Heidegger (1976), cabe somente à espécie humana.
O seu uso proporciona às pessoas a capacidade de dominar e usar um sistema
linguístico bastante complexo.
É fato que a linguagem é a primeira forma de socialização da criança, o
que possibilita que ela tenha acesso, antes de iniciar a sua fala, a crenças,
costumes, valores, regras e assim obtenha conhecimento a respeito da sua
cultura.

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A aquisição da linguagem depende de fatores sociais e neurobiológicos,
em suma, são imprescindíveis as interações sociais e um bom desenvolvimento
das estruturas cerebrais para que o seu desenvolvimento se dê
significativamente.
Essa aquisição da linguagem também se dá a partir do processo de
aprendizagem, que o indivíduo terá ao longo da primeira infância. É importante
ressaltar que no desenvolvimento da linguagem vão influenciar fatores
biológicos, psicológicos e sociais. (Mazzafera e Sordi, 2002)
Esses fatores são de extrema importância no desenvolvimento da
linguagem, por isso a relevância de estar atento ao desenvolvimento da criança,
tanto pais, familiares e responsáveis, assim como professores, pois sabemos
que muitas crianças entram nas escolas muito cedo, umas a partir dos seis
meses, e quem acaba tendo mais contato com o desenvolvimento dessa criança
é o professor.
No que diz respeito aos fatores psicológicos podemos destacar a relação
estabelecida entre a mãe e o filho; quanto maior o vínculo e quanto maior a
qualidade das trocas afetivas e emocionais entre a mãe e o filho melhor será o
desenvolvimento da linguagem. Crianças em situação de vulnerabilidade social,
que sofrem maus tratos, abandono, violência dentre outros, podem vir
apresentar dificuldades e também atrasos no desenvolvimento da linguagem. A
relação parental deve ser vista e tratada com seriedade, pois exerce grande
influencia no desenvolvimento do processo de aprendizagem infantil. (Nogueira;
Altafim; Rodrigues, 2011)
Com relação aos fatores sociais, Vygotsky (1931), a partir da sua teoria
histórico-social, destaca que as trocas que o sujeito realiza com o meio vão
influenciar no desenvolvimento da aprendizagem. O referido autor evidencia que
todo aprendizado está baseado no conjunto das experiências culturais, as fases
iniciais do desenvolvimento da linguagem estão diretamente ligados a reflexos
condicionados, ou seja, o ambiente torna-se determinante nesse processo de
desenvolvimento.
Vygotsky (1931) afirma que:

Todas as funções mentais superiores são internalizadas nas


relações sociais, são a base da estrutura social da
personalidade. Sua composição, estrutura genética e modo de
ação, em uma palavra, toda a natureza é social, portanto, o
homem mantém as funções de comunicação com ele mesmo (p.
150).

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Assim percebe-se a importância de a criança estabelecer trocas com
meios que favoreçam sua aprendizagem, distante de brigas, situações de
violência, riscos e pobreza extrema, pois estes vão contribuir negativamente,
atrasando e dificultando seu desenvolvimento.
Conforme cita Araujo (2005), "A maneira pela qual as pessoas falam do
mundo está relacionada com a maneira pela qual o mundo é compreendido e,
em última análise, como essas pessoas atuam nele, e o conceito de mudança
revolucionária depende, em grande parte, da maneira pela qual o mundo é
estruturado pela linguagem" (Ecles, R.; Nohria, N., 1992, p. 58).
A forma como se compreende o que está à sua volta está intrinsecamente
ligada à forma como o indivíduo se expressa em relação à sua realidade.
Linguagem, além de simples expressão mecânica, biológica, é compreensão de
mundo, e a compreensão do mundo influencia diretamente na forma com os
seres humanos agem no mundo.

TEMA 2 – AS TEORIAS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Nos anos que se sucederam aos primeiros estudos médicos relacionados


a como o cérebro humano funciona, vários estudiosos se propuseram a
investigar como a linguagem humana se processa desde os primeiros momentos
de vida até a fase adulta. Destes estudos surgiram várias teorias, entre elas as
teorias Inatista, Condutista, Cognitiva e Construtivista.
Entre seus principais expoentes estão Noah Chomsky, que postulou a
Teoria Inatista; Burrhus F. Skinner, que apresentou seu posicionamento
Condutista da aquisição da linguagem; enquanto que a Teoria Cognitiva é
pensada por Jean Piaget, que contemporaneamente a Lev Vygotsky, também
apresenta aspectos da muito divulgada nos dias atuais Teoria Construtivista.
Outros pensamentos e teorias surgiram nesse tempo, porém não tiveram
tanta ênfase e discussões como os apresentados nesta aula. A partir de agora
apresentamos alguns aspectos dessas teorias, evidenciando que, mesmo com
divergências muito contundentes entre elas, todas tiveram e continuam tendo
muita força na explicação de como a linguagem se desenvolve no ser humano.
Chomsky destacou que “a criança possui uma teoria inata sobre
descrições estruturais [gramaticalmente] potenciais que é suficientemente rica e
desenvolvida para lhe permitir determinar, a partir de uma situação real em que

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ocorre um sinal, quais as descrições estruturais que podem ser apropriadas a
este sinal” (Chomsky, 1975: 115).
O autor aponta que a capacidade do ser humano de falar e compreender
uma língua deve ser entendida como algo inato, nesta perspectiva suscita a
teoria que tem como foco:

O fato de crianças dominarem uma língua natural com surpreendente


rapidez, apesar da ausência de evidência negativa, da frequência com
que sentenças incompletas ou interrompidas são usadas pelos adultos,
somado ao fato de que o input a que a criança é efetivamente exposta
é finito [...] Isto é, a informação que se faz necessária e não está
disponibilizada no input linguístico recebido pelas crianças é atribuída a
princípios linguísticos inatos. (Chomsky, 2002, p.32)

Como explicar a quantidade de organizações gramaticais e frasais faladas


pelas crianças pequenas, já que não há condições de os adultos ensinarem
todas as combinações existente na língua para estas? Para Chomsky (2002) as
crianças possuem uma gramática interna, gerativa, que faz com que esta
produza novas expressões que, na maioria das vezes, já existem na língua
materna.

Chamamos a teoria da linguagem de Peter [um sujeito qualquer] de


“gramática” de sua linguagem. A língua de Peter determina uma gama
infinita de expressões, cada uma com seu som e significado. Em
termos técnicos, a língua de Peter, gera as expressões de sua
linguagem. A teoria de sua linguagem é, portanto, chamada gerativa.
(Chomsky, 2002, p.32)

Uma gramática interna, que gera uma gama infinita de expressões que
casam perfeitamente com a gramática da linguagem utilizada pelos nativos,
conterrâneos da criança. Isso se processa de dentro para fora, mas somente se
efetiva se houver o estímulo externo. Somente conversando com a criança,
interagindo com esta, este mecanismo de nascença vai ser ativado e a
linguagem na criança vai se desenvolver.
Indo por outro caminho, Skinner apresenta sua teoria, postulando que a
criança não desenvolve a linguagem por si mesma, mas necessita de uma série
de fatores externos para que esta se desenvolva. Definindo-se como um
behaviorista radical, este teórico tem por objetivo epistemológico combater todo
pensamento voltado à uma função interna na explicação dos comportamentos
onde o meio, na sua concepção, tem um papel central. (Parot, 1978)
Baseando-se em estudos do comportamento dos animais, Skinner
entende que o comportamento humano, nesse caso, o processo de aquisição da
linguagem, é compreendido mediante uma cadeia de estímulo-resposta-reforço.
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Enquanto o meio oferece os estímulos linguísticos, a criança acaba por fornecer
respostas, compreendendo ou produzindo novas fórmulas linguísticas, o que
prontamente é reforçado pelos adultos que estão em seu entorno.
Esse reforço pode ser positivo, quando há o acréscimo ao estímulo
reforçador, ou negativo, quando há a remoção de alguns estímulos.
Independentemente de ser positivo ou negativo, “em ambos os casos, o efeito
do reforço é o mesmo: a probabilidade da resposta será aumentada” (Skinner,
1970, p.49).
Diante disso, há uma valorização do ambiente escolar por parte de
Skinner (1970), pois, é um espaço onde os comportamentos são reforçados a
todo tempo, mediante boas notas, promoções, diplomas, graus, medalhas e a
aprovação. Como reforçadores negativos, por muitos anos se utilizou a
palmatória e os castigos físicos, mas até hoje ainda prevalecem em muitos
espaços educacionais de forma negativa os estímulos verbais e morais.
Indo por uma outra vertente, diferente das de Chomsky e Skinner, surge o
epistemólogo Jean Piaget, com sua teoria da Epistemologia Genética, muito
conhecida também como teoria cognitiva.
Partindo dos processos biológicos da mente, Piaget explica que a
aquisição da linguagem se dá pela evolução cognitiva. Para este, quatro fatores
intervêm no desenvolvimento da linguagem da criança:

[...] a experiência do mundo, a maturação, o meio social e o equilíbrio


que ele define como uma função biológica característica de todos os
organismos vivos e que tem por objetivo responder, por processos de
regulamentação e de compensação, . . . aos desequilíbrios provocados
pelo meio. (Parot, 1978, p.119)

Partindo da ideia de que, tal qual as espécies animais, a mente humana


também é adaptável ao ambiente em que vive. Para que a adaptação aconteça,
um processo importante se sucede dentro do cérebro humano; a esse processo
Piaget chamou Equilibração. Segundo Ribeiro e Pires (2015, p.2945):

Pode-se dizer que o processo de equilibração é de fundamental


importância para o desenvolvimento da mente humana, já que
diuturnamente, por não possuir estruturas suficientes para seu
entendimento, esta é posta em desequilíbrio, sempre que surge uma
nova situação. Esses mecanismos fazem parte do processo evolutivo
da humanidade, pois são uma das formas de adaptação do ser
humano no meio ambiente em que vive.

Sempre que uma situação nova surge, uma palavra nova, uma nova
forma de utilizar a palavra dentro de uma frase, ou até um conceito novo

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relacionado a um termo conhecido, o cérebro inicia um mecanismo de
adaptação, baseado num processo de equilíbrio das estruturas virtuais do
cérebro. A essas estruturas não reais, Piaget chamou Esquemas:

Os esquemas não devem ser entendidos como estruturas reais, mas


um conjunto de padrões de comportamentos sequenciais, formando
uma totalidade organizada. Não há como observar um esquema, mas
pode-se inferi-lo a partir de ações do sujeito. Ao explicar o conceito de
esquema, Piaget apresentou alguns exemplos deste que são muito
comuns no primeiro período da infância, como os esquemas de mamar,
de enxergar, de pegar (Ribeiro; Pires 2015, p.2946).

Há esquemas para todas as experiências que o indivíduo tenha tido na


vida. Ao surgimento de cada situação nova, o cérebro se desequilibra, e num
processo adaptativo, necessita voltar a equilibrar-se. Para que isso aconteça,
dentro do processo de equilibração da cognição humana surgem dois processos
muito distintos, a assimilação e a acomodação.
Enquanto a assimilação é a ação do indivíduo sobre sua realidade, pois
trata-se de uma integração do novo dado às estruturas prévias do cérebro, sem
necessitar de um desequilíbrio aparente, a acomodação, por sua vez, obriga o
indivíduo a modificar-se em suas estruturas internas, a fim de absorver a nova
informação (Ribeiro; Pires 2015).
Isso leva a uma compreensão de que a aquisição da linguagem no ser
humano não pode ser inata, muito menos empírica, mas construtiva. O ser
humano não é passivo no desenvolvimento de sua linguagem; é a partir das
experiências que tem que constrói seu conhecimento sobre o mundo.
A teoria de Piaget é, atualmente, uma das mais discutidas no campo da
aprendizagem, tomando força mais recentemente, a partir dos estudos de
Vygotsky, que insere os processos sociais e culturais sobre os mecanismos de
desenvolvimento da aprendizagem e, por consequência, da linguagem. É da
mescla, cautelosa, das teorias desses dois estudiosos, que surgiu uma das
teorias mais discutidas atualmente entre os educadores, o Construtivismo.

Saiba mais
Para saber mais sobre essas teorias, disponibilizamos abaixo algumas
sugestões de leituras:
BARCELOS, R. da S. de. As teorias de linguagem, as concepções de língua e a
metodologia adotada de ensino de língua portuguesa. In: Cadernos do CNLF,
Vol. XVII, Nº 03 - Minicursos e Oficinas. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2013.

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Disponível em: <http://www.filologia.org.br/xvii_cnlf/min_ofic/04.pdf>. Acesso em:
25 mai. 2018.
PAROT, Françoise. Algumas notas sobre as teorias da linguagem: Piaget,
Chomsky, Skinner. In: Análise Psicológica. 1978, II, 1:115-124. Disponível em:
<http://repositorio.ispa.pt/bitstream/ 10400.12/1928/1/1978_1_115.pdf>. Acesso
em: 25 mai. 2018.
RIBEIRO, Rafael Martins; PIRES, Ennia Débora Passos Braga. Fundamentos da
Epistemologia Genética e sua crítica à psicologia e educação tradicionais. In:
Educere: XII Congresso Nacional de Educação. Curitiba. Anais: PUCPR,
2015. 29941-29954. Disponível em:
<http://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/20560_8804.pdf>. Acesso em: 25
mai. 2018.

TEMA 3 – A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM COMO FENÔMENO NATURAL

Vamos iniciar este tema pensando como a criança adquire uma língua.
Podemos dar destaque para o fato que a criança adquire, pelo menos, uma
língua, seja essa oral ou manual.
Quando falamos desse processo de aquisição da linguagem na criança,
percebemos que esta parte de uma condição inicial, em que não domina uma
língua ou uma linguagem, para uma condição final, a qual passa a dominá-la.
Podemos destacar que, à medida que a aquisição da linguagem é vista
enquanto fenômeno natural num sentido amplo, decorre de um meio verbal de
expressão e interação social. Neste sentido deve-se levar em conta a língua
natural do falante e o contexto social no qual esse se encontra, pois a criança
tende a se identificar em diálogos e atividades de interação entre adultos e
crianças (Lazarin, 2009).
O diálogo estabelecido entre a criança e o adulto torna-se significativo à
medida que esse servirá para o que chamamos de input para a língua produzida
pela criança a partir da relação de interação da língua com quem ela interage. A
respeito deste modo complementa Lemos (1989, p. 5):

É, aliás, essa noção de interação que permite discutir a validade


do termo input para designar os dados a que a criança é
exposta. Pensar esse diálogo inicial como uma mera exposição
da criança a dados da língua significa, de um lado, negar a fala
do adulto como atividade interpretativa do tipo “como se” que
recorta o comportamento da criança, atribuindo-lhe forma,
significado e intenção. De outro lado, o que isso implica é

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considerar a criança como um sujeito já constituído, capaz de
uma análise categorial dessa fala, o que é não só incompatível
com qualquer proposta construtivista como um obstáculo que
impede o investigador de identificar os processos pelos quais a
criança passa dessa dependência dialógica – ou da condição de
interpretado – para o controle efetivo de sua posição discursiva –
ou para a condição de intérprete. A saber, intérprete do outro, de
si próprio e da linguagem como geradores de significado e
intenção.

A autora ainda salienta que traçar um esquema do padrão categórico da


fala da criança é difícil, pois a mesma autora apresenta três fatores relevantes: o
primeiro tange à imprevisibilidade e à heterogeneidade na fala das crianças que
estão iniciando a construção da língua materna, isso pelo fato de que as
correspondências entre a fala e a gramática do adulto não são frequentes e não
são produtivas, ocorrendo poucas vezes. A imprevisibilidade que ocorre na
gramática do adulto e a heterogeneidade de enunciados prevalecem, causando
assim dificuldade no planejamento da criança em obter um modelo de aquisição
da língua.
O segundo fator destacado por De Lemos refere-se ao “erro” após uma
conformidade da gramática com a fala do adulto, como destaca “os erros
passaram assim a ser considerados, não como indícios de não saber, mas como
refletindo um novo estágio de desenvolvimento, levado a efeito por processos de
reorganização de formas anteriormente adquiridas” (De Lemos, 1999, p. 4).
O Terceiro fator destacado pela autora acima referido está na
impermeabilidade da criança na correção que os adultos fazem a respeito de
suas falas, ou seja, apesar da criança perceber o “erro” com relação ao
enunciado da gramática ela preserva o seu uso, de acordo com a sua vontade.
Isso faz com que futuramente a este processo ela consiga perceber seu “erro” e
tente reformular novos enunciados.
O percurso da aquisição da linguagem desenvolve quatro sistemas
correlacionados, que são definidos a partir do olhar de Schirmer, Fountoura e
Nunes (2004), o pragmático que se refere ao uso comunicável da linguagem em
um contexto social; o fonológico, este relaciona a percepção e a produção de
sons na construção das palavras; o semântico define a referência das palavras e
seu significado, por fim, o gramatical estabelece regras sintáticas e morfológicas
para organizar as palavras em frases prontas para a compreensão.

TEMA 4 – ETAPAS NORMAIS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

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Vamos apresentar aqui as sequências de estágios percorridos pela
criança no seu desenvolvimento da linguagem, neste sentido destaca-se que as
idades apresentadas podem variar de criança para criança, porém as
sequências dos estágios, estas não variam (Brown, 1973).
Iniciamos então falando sobre os primeiros meses de vida, de três a
quatro meses a criança começa o balbucio, ela emite sons que não apresentam
significados, estudos (Bosch e Sebastián-Gallés (1997); Christophe e Morton,
1998) demonstram que nessa etapa a criança é capaz de distinguir a língua
materna de línguas estrangeiras, demonstrando sensibilidade e distinção das
estruturas e das propriedades da fonologia da língua natural.
Aos seis meses a criança continua a balbuciar, mas agora com uma
quantidade maior de sons; aqui a criança começa a formar várias sílabas, as
quais ela vai repetir inúmeras vezes, a exemplo: bá, bá, bá, bi, bi, bi.
Entre dez meses e doze meses o balbuciar da criança cria forma e ela
emite apenas os sons que escuta, começam também a estruturar os significados
desses sons, aqui as crianças apresentam alto nível de sofisticação em suas
habilidades de percepção da língua que serão relevantes na aprendizagem do
léxico da sua língua materna. Assim as crianças se encaminham para iniciar
suas primeiras palavras (Petitto e Marentette, 1991).
Com um ano de vida completo a criança, além de balbuciar, já emite os
sons de suas primeiras palavras, que vão denominar o que está ao seu entorno
como “papai”, “mamãe”, “nhanha”, dentre outros. Nesta fase seus enunciados
são formados por apenas uma palavra que pode ter significado de uma sentença
completa. McNeil (1966) estudou um bebê de 15 meses, que usou a palavra
door (“porta”) para significar “feche a porta” e water (“água”) para significar “tem
água em meus olhos”.
Nesta fase de um ano é comum que a criança se utilize de gestos para
também se comunicar, como indicar algo que deseja ou levantar os braços para
quem está a sua frente, indicando que deseja o colo (Grolla, 2006).
A partir de um ano e meio a criança já começa a produzir de dez a
cinquenta palavras e algumas frases de no máximo duas palavras. Nesse
momento já começa a chamar a atenção para receber resposta verbal de um
adulto (Rotta, 2006).
Ainda segundo Rotta (2006), aos dois anos, já produz de cento e
cinquenta a duzentas palavras e frases de três palavras, e já tem a capacidade

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de nomear objetos quando solicitada. Aos três anos, sentenças gramaticais já
podem ser observadas (artigos, preposições, plurais), além de já formular
questões. Entre os 4 e 6 anos, já é esperada completa inteligibilidade para a
fonologia do português e do inglês.
É importante destacar que se espera que essas etapas surjam nas
crianças que possuem suas estruturas cognitivas em perfeito funcionamento, em
caso de deficiência ou patologia, esse processo muda e precisa ser
acompanhado e estudado.

TEMA 5 – LINGUAGEM E LÍNGUA

É importante que, ao nos aprofundarmos nessas temáticas que estamos


estudando nesta disciplina, compreendamos os conceitos de língua e linguagem.
Segundo Suassure (2004), a língua é o pensamento organizado da matéria
fônica, pois ela organiza o pensamento, sendo este uma massa amórfica e
indistinta, cuja distinção e organização são operadas pela língua, uma vez que
essa serve como intermediária entre o pensamento e o som.
É como se para que o pensamento humano se organize, exista a
necessidade de uma organização gramatical, léxica, simbológica... Essas acabam
por formar a língua.
Se a língua é a externalização do pensamento, de forma organizada, a
linguagem é a capacidade humana de expressar e externalizar uma ou mais
línguas. Nesse ponto, a linguagem se apresenta como um conceito muito mais
amplo que o da língua, pois a linguagem inclui as línguas entre suas
manifestações, mas não apenas elas (Perini, 2010).
A linguagem é a capacidade humana de externalizar sentimentos,
sensações, informações, opiniões e desejos de forma verbal, falada e escrita, e
não verbal. Isso faz com que esse termo transcenda a ideia de língua. Enquanto
a linguagem é essência, a língua é o meio de comunicação dessa essência.

FINALIZANDO

Ao homem cabe desenvolver-se linguisticamente, pois essa capacidade é


inerente a ele, faz parte de sua estrutura biológica e social. E entendendo essa
natureza humana, estudiosos da biologia e da sociologia se debruçam ao estudo
dessa capacidade humana.

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É a partir de uma busca científica, seja ela neurológica, social,
antropológica ou filosófica, que seja responsável e respeite a condição humana,
que essa capacidade que é inerente ao homem vai sendo entendida e
compreendida a cada nova descoberta.
Está muito claro que nenhuma das teorias apresentadas nesta aula
apresenta ideias conclusivas sobre as ciências que estudam a linguagem
humana. Elas estão em evolução e a cada dia aprendemos mais.
É necessário que mais estudiosos, independente de qual vertente ou área
científica sigam, se debrucem sobre essa temática e busquem compreender como
nós construímos nossa forma de falar. Somente assim poderemos nos comunicar
melhor e educar melhor.

LEITURA OBRIGATÓRIA

Texto de abordagem teórica

PAROT, F. Algumas notas sobre as teorias da linguagem: Piaget, Chomsky,


Skinner. In: Análise Psicológica, 1978, II, 1:115-124. Disponível em:
<http://repositorio.ispa.pt/bitstream/ 10400.12/1928/1/1978_1_115.pdf>. Acesso
em: 24 maio 2018.

RIBEIRO, R. M.; PIRES, E. D. P. B. Fundamentos da epistemologia genética e


sua crítica à psicologia e educação tradicionais. In: Educere: XII Congresso
Nacional de Educação. Curitiba. Anais..., PUCPR, 2015. Disponível em:
<http://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/20560_8804.pdf>. Acesso em: 24
maio 2018.

Texto de abordagem prática

BARCELOS, R. da S. de. As teorias de linguagem, as concepções de língua e a


metodologia adotada de ensino de língua portuguesa. In: Cadernos do CNLF, v.
XVII, n. 3 – Minicursos e Oficinas. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2013. Disponível em:
http://www.filologia.org.br/xvii_cnlf/min_ofic/04.pdf>. Acesso em: 24 maio 2018.

Saiba mais

ARAUJO, M. A. N. A estruturação da linguagem e a formação de conceitos na


qualificação de surdos para o trabalho. Psicol. Cienc., jun. 2005. v. 25 n. 2. p.

14
240-251. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=s>. Acesso
em: 24 maio 2018.

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REFERÊNCIAS

ARAUJO, M. A. N. A estruturação da linguagem e a formação de conceitos na


qualificação de surdos para o trabalho. Psicol. Cienc., jun. 2005, v. 25 n. 2. p.
240-251. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1414-98932005000200007. Acesso em: 25 maio 2018.

ATKINSON, R. L.; ATKINSON, R. C.; SMITH, E.E., BEM, D.J. & NOLEN-
HOEKSEMA, S. Introdução à psicologia de Hilgard. 13. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2002.

BORGES, L. C.; SALOMÃO, N. M. R. Aquisição da linguagem: considerações da


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