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Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

CONCEPÇÕES SOBRE A PESQUISA NA EDUCAÇÃO BÁSICA E AS


DEMANDAS PARA A FORMAÇÃO DO PROFESSOR PESQUISADOR

Maria Vitória Campos Mamede Maia (Universidade Federal do Rio de Janeiro)


Michele Pereira de Souza da Fonseca - (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Kátia Regina Xavier da Silva (Colégio Pedro II)

RESUMO

A presente proposta discute sobre o conceito de pesquisa e suas características no


contexto da formação de professores. Na área do Ensino esse debate tem se
intensificado nos últimos anos, na medida em que o status do professor como mero
consumidor de ciência vem dando lugar ao de produtor de conhecimento. O presente
artigo tem como objetivo analisar as concepções sobre a pesquisa na educação básica e
as demandas para a formação do professor pesquisador nesse nível de ensino em
publicações open acess produzidas entre o ano de 2004 a 2014. Para atingir o objetivo
proposto foi realizada uma pesquisa de revisão de literatura baseada na técnica da
Revisão Sistemática. Conseguiu-se identificar 22 publicações potencialmente relevantes
e selecionou-se, para a revisão, 5 artigos. Dentre os resultados obtidos destaca-se a
recorrência no uso das referências por parte dos autores podendo isto denotar a
utilização de um campo conceitual compartilhado e aceito como base para definir e
compreender certos aspectos do conhecimento. Segundo os autores, o grau de
sistematização das reflexões é que irá legitimar a ação do professor-pesquisador. Fatores
como as lacunas no conhecimento teórico e metodológico oferecido na formação
inicial/continuada e a ausência ou escassez de apoio estrutural, administrativo e
pedagógico constituem barreiras à realização de pesquisas por professores da educação
básica. A pesquisa-ação, a pesquisa participante e a pesquisa colaborativa constituem
alternativas metodológicas viáveis para articular teoria e prática. Cabe, entretanto,
questionar se a forma de se fazer pesquisa educacional se adéqua ao moldes propostos
pela pesquisa científica e reconhecer a possibilidade de se ajustar a alguns parâmetros
utilizados nas pesquisas científicas com vistas à sistematização, aprimoramento e
legitimação das pesquisas educacionais. Afinal, o que está em jogo é, sobretudo, a
qualidade da educação e do ensino.

Palavras-chave: Formação de Professores; Pesquisa; Educação Básica

INTRODUÇÃO
A discussão sobre o que é pesquisa, suas características e qual a sua importância
para o desenvolvimento da humanidade tem sido levada a efeito em diferentes áreas do
conhecimento. Na área do Ensino, esse debate tem se intensificado nos últimos anos, na
medida em que o status do professor como mero consumidor de Ciência vem sendo
substituído pelo de produtor de conhecimento.

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A presente pesquisa foi motivada pelas discussões realizadas durante as aulas de


Metodologia da Pesquisa do Mestrado Profissional em Práticas de Educação Básica do
Colégio Pedro II (MPPEB-CPII), cuja primeira turma ingressou em 2013. Entre os
inúmeros sentimentos que permeiam o ingresso nesse outro nível de ensino e a
progressiva assunção do status de professor-pesquisador, podemos mencionar o medo e
a incerteza. Por um lado, o medo de não atender as expectativas de um campo até então
desconhecido e o sentimento de incerteza ao se deparar com outras possibilidades e
sentidos que tendem a desestabilizar as estruturas cognitivas, atitudinais e os valores já
conhecidos e dominados. Aliado a isso, também são recorrentes as dúvidas acerca do
que vem a ser pesquisa e como concretizá-la na educação básica. O MPPEB-CPII
Objetiva integrar a construção de conhecimentos pedagógicos e saberes
disciplinares, de modo a produzir resultados mais efetivos nas salas de aula
dos diversos sistemas escolares. Destina-se à formação de professores para o
exercício da atividade docente, promovendo o desenvolvimento de
competências e habilidades em suas áreas de conhecimento e contribuindo
para a promoção de alternativas práticas às demandas do processo de ensino-
aprendizagem dos alunos, em diferentes níveis e modalidades da Educação
Básica. O programa pretende unir o aprofundamento teórico com a
experimentação didática, a reflexão e a pesquisa durante a atuação docente,
de modo que o processo ensino-aprendizagem seja objeto e objetivo do ato de
pensar e de fazer do professor em formação. (MPPEB, CPII)

Segundo Jorge (2014), os Programas de Pós-Graduação (PPG) na área do Ensino


tem crescido exponencialmente nos últimos seis anos. De acordo com os dados
divulgados no documento de área da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (CAPES, 2013), do total de 116 cursos de PG existentes nas instituições
de ensino superior (IES) públicas e privadas, “são 24 cursos de Doutorado (...) 38
cursos de Mestrado Acadêmico e 54 cursos de Mestrado Profissional”, tendo sido
titulados “mais de 5200 mestres e quase 500 doutores” (p.3). O público-alvo dos
Mestrados Profissionais da área de Ensino (MP) são os profissionais da Educação
Básica. Espera-se, portanto, que as produções provenientes dos MP, típicas da pesquisa
aplicada, contribuam de maneira concreta para a melhoria da qualidade da educação,
tendo em vista que “geram produtos educacionais disponibilizados nos sites dos PPGs
para uso em escolas públicas do país, além das dissertações e artigos derivados do relato
descritivo e analítico destas experiências” (idem).
Para Goldemberg (1998), fazer pesquisa significa aprender a pôr ordem nas
próprias ideias, a partir da formulação de um problema que surge da imersão
sistemática no campo, das leituras e estudos sobre o assunto ou da observação da
própria prática. A autora também afirma que a pesquisa exige, sobretudo, o exercício

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permanente da crítica e da autocrítica e que o conhecimento a respeito do que é pesquisa


e de como pesquisar propicia um novo olhar sobre os conteúdos aprendidos ao longo da
formação acadêmica em suas relações com as práticas profissionais.
Contudo, a organização das ideias não é aleatória, quando se trata de pesquisa
científica. Segundo Mazzotti (2004) “um bom cientista não se limita a resolver
problemas, mas também formula perguntas originais e descobre problemas onde outros
viam apenas fatos banais” (p.66). A formulação e resolução de problemas de pesquisa
requer o conhecimento profundo das teorias, tendo em vista que a Ciência tem como
objetivo encontrar explicações, leis, teorias, passíveis de serem generalizados.
Deste modo, o mérito do pesquisador não é obtido apenas ao final do processo
de pesquisa a partir dos resultados encontrados. Segundo Castro (2006) a escolha do
tema a ser pesquisado é fundamental para que os resultados sejam, de fato, relevantes
para a sociedade em geral. O tema de pesquisa, desde a sua concepção, deve ser
importante por estar “de alguma forma ligado a uma questão crucial que polariza ou
afeta um segmento substancial da sociedade” ou, ainda, por se relacionar “a uma
questão teórica que merece atenção continuada na literatura especializada” (p.56). O
tema também deve ser original, promovendo o surgimento de ideias e respostas
completamente novas ou de novas formas de abordar as antigas respostas ou ideias.
Para Castro (idem) “um tema original é aquele cujos resultados têm potencial para nos
surpreender” (p.57). O terceiro critério é a viabilidade. A pesquisa precisa ser passível
de ser realizada pelo pesquisador, considerando “os prazos, os recursos financeiros, a
competência do futuro autor, a disponibilidade potencial de informações, o estado da
teorização a respeito” (ibidem).
O debate sobre a pesquisa na educação básica e a formação do professor
pesquisador se inserem esse contexto. A profissão docente, tradicionalmente
reconhecida pela função de transmitir o conhecimento socialmente acumulado pelas
antigas gerações as gerações futuras, tem sido ressignificada com novas atribuições e
responsabilidades entre as quais a de produzir conhecimento. Segundo Alves (2011),

(...) atualmente, no âmbito educacional, ouve-se falar com frequência da


necessidade de a práticapedagógica situar-se no incessante movimento da
investigação e da pesquisa, conforme osconceitos de professor reflexivo
(SCHÖN, 2000) ou professor-pesquisador (PIMENTA,2005). Entretanto,
dificilmente, o conteúdo expresso contém uma única e absolutainterpretação.
Professores, ao se depararem com o referido discurso, são obrigados
aquestionar, no mínimo, a respeito de: possuo uma prática investigativa? Sou
uma pessoaaberta à reflexão e investigo o que faço? Se sim ou não, em que se
constitui a atitude deinvestigação/reflexão? (p.39)

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Como pano de fundo dessa discussão situa-se a problemática da


distinção/aproximação entre teoria e da prática tanto na formação de professores como
na própria ação profissional. O professor da educação básica é, então, convocado a
estruturar sua prática a partir de uma lógica específica: a lógica da pesquisa.
Essa nova ordem sugere algumas interrogações que podem colaborar para a
produção de sentidos acerca da pesquisa na educação básica: quais são os fundamentos
teóricos nos quais se pauta a definição de pesquisa nesse nível de ensino? Que critérios
balizam a caracterização do que é ou não é pesquisa? Quais as barreiras para a
realização destas, por parte dos professores que atuam na educação básica?
Com vistas a fomentar a reflexão sobre as interrogações ora propostas, o
presente artigo tem como objetivo analisar as concepções sobre a pesquisa na educação
básica e as demandas para a formação do professor pesquisador nesse nível de ensino,
em publicações open acess produzidas entre o ano de 2004 a 2014. Para atingir o
objetivo proposto foi realizada uma pesquisa de revisão de literatura baseada na Revisão
Sistemática (RS), caracterizada como “uma técnica de pesquisa por evidências em
literatura científica conduzida de maneira formal, seguindo etapas bem definidas, de
acordo com um protocolo previamente elaborado” (LAPES, 2014). A RS foi realizada
com o auxílio do software SistematicReview (StArt), desenvolvido pelo Laboratório de
Pesquisa em Engenharia de Software (LaPES) da Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar). O processo de pesquisa foi adaptado às condições e necessidades das autoras
desta pesquisa, sem desconsiderar os critérios de rigor ora propostos.

MATERIAIS E MÉTODOS
A busca dos artigos a serem analisados foi realizada na base de dados Google
Acadêmico. A escolha dessa base de dados justificou-se por ser gratuita e de livre
acesso e também pela crescente relevância que o Google vem adquirindo na difusão da
produção acadêmica (DINIZ, 2012), à revelia das bases de dados que restringem sua
utilização a uma pequena parcela da população excluindo-se, em muitos casos, os
próprios professores da Educação Básica.
Foram utilizados no processo de busca os descritores, em português: educação
básica, pesquisa e professor. Também foram considerados termos e expressões
equivalentes, que caracterizam a estrutura da educação básica (educação infantil, ensino
fundamental e ensino médio), além da flexão da palavra pesquisa (pesquisador).

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Durante a busca houve o cruzamento dessas palavras. Apenas os artigos em português


foram considerados para esta revisão. Além do idioma de publicação, foi utilizado como
limite na estratégia de busca a presença obrigatória das palavras chave/palavras
equivalentes pesquisadas no título dos artigos.
Foram selecionados para esta revisão os estudos publicados no período de 2004
a 2014. Em relação aos participantes, foram selecionados e analisados os estudos que
atendiam pelo menos dois dos seguintes critérios de inclusão: (1) estão em português;
(2) apresentam análise qualitativa; (3) classificam-se como ensaios ou estudos de
revisão; (4) constituem pesquisa de campo de viés qualitativo; (5) trabalhos
apresentados em anais de congresso. Foram rejeitados os estudos que se enquadravam
em pelo menos um dos seguintes critérios de exclusão: (1) não está em português; (2)
classifica-se na categoria de artigos originais; (3) apresenta análise exclusivamente
quantitativa; (4) caracteriza-se como trabalho de conclusão de curso de graduação,
dissertação de mestrado ou tese de doutorado; (5) não contempla o foco abordado nesta
pesquisa; (6) não apresenta resumo/palavras-chave.
A análise dos artigos foi feita em três níveis. O primeiro, denominado
identificação, constituiu na busca dos artigos pelas palavras-chave e seleção daqueles
que atendiam, em primeira instância, a pelo menos dois critérios de inclusão;
identificação das publicações considerando autor, ano e título; a classificação dos
artigos por ordem de prioridade para leitura conforme os critérios hierárquicos
propostos pelo StArt: ocorrência das palavras chave no título; ocorrência das palavras
chave no resumo e ocorrência das palavras chave nas palavras chave. Cada ocorrência
foi pontuada em 5, 3 e 2 pontos, respectivamente, resultando em scores diferenciados
por artigo. O segundo nível de análise, chamado de seleção, foi concretizado através da
leitura dos resumos dos artigos e a classificação destes de acordo com três status: aceito,
rejeitado e duplicado.No terceiro nível, denominado extração, os artigos foram lidos na
íntegra e sintetizados com vistas a extração das informações relativas às principais
interrogações propostas nesta pesquisa de revisão sistemática.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS


Na pesquisa inicial, realizada na base de dados eletrônica do Google Acadêmico
foram identificados 22 artigos potencialmente relevantes. Após análise dos resumos,
foram excluídos 11 artigos, 4 por não abordarem especificamente o tema da pesquisa na
educação básica, 1 por se tratar exclusivamente de relato de experiência e 6 por estarem

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duplicados. Assim, conforme os critérios de inclusão e exclusão predeterminados, foram


selecionados para o estudo onze artigos. Desses, após a leitura dos textos na íntegra,
foram excluídos mais 6 estudos, sendo 4 por se tratarem do processo de pesquisa em
disciplinas específicas, um por ser considerado a releitura de outro texto já selecionado
(duplicado) e um por não apresentar as referências bibliográficas utilizadas pelo autor.
Desta forma, foram analisados 5 artigos neste estudo de RS.
Nunes & Cunha (2007), no artigo intitulado As políticas educacionais e o
desafio da pesquisa na formação e na prática do professor da educação básica se
dispuseram a “problematizar acerca da necessidade de se repensar a formação e a
prática docente, reativando a ideia de formar o professor/pesquisador” (p.159). Para tal,
desenvolveram uma pesquisa de viés qualitativo e analisaram o conceito de professor
pesquisador com base na literatura sobre o tema, em documentos oficiais que tratam da
formação de professores e em posicionamentos de alunos de “cursos de licenciatura da
Universidade Federal de Ouro Preto que também são professores da rede pública de
ensino” (idem).
Abreu & Almeida (2010), no artigo denominado Refletindo sobre a pesquisa e
sua importância na formação e na prática do professor do ensino fundamental tiveram
como objetivo “discutir o conceito de pesquisa e sua importância na prática e na
formação dos professores do ensino fundamental” (p.73). Para atingir o objetivo
proposto, realizaram um estudo de revisão teórica no qual definiram e caracterizaram o
conceito de pesquisa, apontando as peculiaridades da pesquisa acadêmica em educação,
da pesquisa escolar e da pesquisa da própria prática pedagógica.
Cruz & Lüdke (2010), em Avaliando pesquisas: contribuições ao debate sobre a
pesquisa do professor da educação básica desenvolveram um estudo cujo objetivo foi
discutir “sobre a pesquisa do professor da educação básica, tal como avaliada por
experientes pesquisadores da universidade” (p.1). As autoras sistematizaram um
levantamento de trabalhos que apresentavam características de pesquisa, produzidos por
professores e apresentados em congressos renomados na área da Educação.
Posteriormente, submeteram quatro artigos eleitos ao julgamento de pesquisadores
profissionais para compreender quais os critérios utilizados por eles para classificá-los
ou não como pesquisa.
Oligurski& Pachane (2010), em A possibilidade de incorporar a pesquisa na
prática cotidiana do professor do ensino fundamental, buscaram refletir sobre os
resultados de uma prática de pesquisa considerada emblemática na prática pedagógica,

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“no sentido de contribuir para a discussão teórica e para a efetivação de outras práticas
pedagógicas que tenham em seu cerne a pesquisa como princípio educativo” (p.251).
Deste modo, problematizaram o conceito de pesquisa como princípio educativo, na
tentativa de “demonstrara relação dessa concepção com a perspectiva histórico-crítica
da educação e a importância do papel dos professores como agentes transformadores da
realidade” (idem).
Buzzi (2012), no artigo Professor-pesquisador: concepções e práticas de
mestres que atuam na educação básicainvestigou “as concepções e práticas de pesquisa
de professores mestres que atuam na docência na educação básica” (p.701) através de
entrevistas semiestruturadas analisadas sob o ponto de vista qualitativo.
Em relação aos fundamentos teóricos nos quais se pauta a definição de pesquisa
nesse nível de ensino esta RS identificou, dentre as 89 referências utilizadas nos artigos
selecionados 11publicações recorrentes. Destas, 4 foram usadas em três artigos:
1. ANDRÉ, M. (Org.) O papel da pesquisa na formação e na prática dos
professores. Campinas: Papirus, 2001. p. 55-69. (3 ocorrências)
2. DEMO, P. Pesquisa: princípio científico e educativo. São Paulo: Cortez,
1991. (3 ocorrências)
3. ESTEBAN, T. M.; ZACUR, A. (Org.). Professora-pesquisadora uma
práxis em construção. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. (3 ocorrências)
4. LÜDKE, M. (Coord.). O que conta como pesquisa? São Paulo: Cortez,
2009. (3 ocorrências)

As outras 7 referências foram utilizadas em mais de um artigo:


1. FIORENTINI, D. A didática e a prática de ensino mediada pela
investigação sobre a prática. In: ROMANOWSKI, J.; MARTINS, P.;
JUNQUEIRA, S. (Org.). Conhecimento local e conhecimento universal:
pesquisa, didática e ação docente. Curitiba: ENDIPE: Champagnat, 2004. p.
243-258. (2 ocorrências)
2. LUDKE, M (Org.). O professor e a pesquisa. Campinas, SP: Papirus,
2004. (2 ocorrências)
3. LÜDKE, M. Convergências e tensões reveladas por um programa de
pesquisas sobre formação docente. In: DALBEN, A. et al. (Org.).
Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente:
didática, formação de professores e trabalho docente. Belo Horizonte:
ENDIPE: Autêntica, 2010. p. 260-272. (2 ocorrências)
4. LÜDKE, M; CRUZ, Giseli B. da. Aproximando universidade e escola de
educação básica pela pesquisa. Cadernos de Pesquisa, v. 35, n. 125, 2005. (2
ocorrências)
5. RAUSCH, R. B. A reflexividade promovida pela pesquisa na formação
inicial de professores. 2008. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade
Estadual de Campinas, Campinas, 2008. (2 ocorrências)
6. RAUSCH, R. B.; SCHROEDER, S. L. A inserção da pesquisa nas séries
iniciais do ensino fundamental. Atos de Pesquisa em Educação, v. 5, n. 3, p.
315-337, 2010. (2 ocorrências)
7. SILVA, K. A. P. Professores com formação stricto sensu e o
desenvolvimento da pesquisa na educação básica da rede pública de
Goiânia: realidade, entraves e possibilidades. 2008. Tese (Doutorado em
Educação) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2008. (2 ocorrências)

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A recorrência no uso das referências pode denotar a utilização de um campo


conceitual compartilhado pelos autores e aceito como base para definir e compreender
certos aspectos do conhecimento. Entre os aspectos considerados, chama-se atenção
para os critérios que balizam a caracterização do que é ou não é pesquisa donde se
identificou como marcante, nos textos analisados, a diferenciação entre a pesquisa
científica e a pesquisa educacional.
Por extensão, demarcam-se tipos de atitude profissional frente ao ensino e à
pesquisa por parte do professor de sala de aula, do pesquisador e do professor-
pesquisador. O primeiro restringe sua prática ao desenvolvimento dos conteúdos
curriculares. O segundo dedica-se à produção acadêmica e à construção teórica e o
terceiro, ao fazer uso da reflexão como recurso para respaldar suas práticas, desafia-se à
questionar e produzir conhecimento teórico acerca dessas práticas e a partir delas.
Sendo assim, o conceito de reflexividade constitui um elemento integrador entre
o professor de sala de aula e o pesquisador e, segundo os autores, o grau de
sistematização das reflexões é que irá legitimar a ação do professor-pesquisador.
Ressalta-se que a reflexão por si, não garante a realização de pesquisas mas, por outro
lado, a realização de pesquisas está condicionada ao processo de reflexão sistemática.
Segundo Nunes & Cunha (2007), o professor pesquisador não só faz uso da
reflexividade como “produz um saber original ancorado em normas técnicas e
científicas, as quais resultarão em um conhecimento sistematizado” (p.164).
As expressões pesquisa como princípio educativo em oposição a pesquisa como
princípio científico ambas propostas por Pedro Demo (1991) foram recorrentes nos
artigos analisados (ABREU & ALMEIDA, 2010; OLIGURSKI & PACHANE, 2010;
BUZZI, 2012). Outro aspecto ressaltado nos textos é a valorização da pesquisa como
recurso para: (1) identificar e resolver os problemas da prática; (2) compreender os
processos de desenvolvimento e aprendizagem, bem como as suas nuances; (3)
interpretar a realidade de maneira autônoma e contextualizada; (4) sistematizar os novos
conhecimentos e (5) promover mudanças pedagógicas, no âmbito das instituições de
ensino.
Também foi constatado como consenso entre os autores que o rigor do método
está para a pesquisa acadêmica, assim como o questionamento reconstrutivo está para a
pesquisa como princípio educativo, cujo objetivo é promover o “aprender a aprender”.
Segundo Oligurski & Pachane (2010),

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É necessário considerar que a pesquisa, compreendida como princípio


educativo para a educação básica, não busca a construção de conhecimentos
“novos” para a ciência, para uma área do conhecimento, mas, sim,
conhecimentos novos para aquele estudante que, por meio da atitude
investigativa, (re)constrói caminhos de descoberta de conhecimentos que já
fazem parte do arcabouço acumulado pelas gerações que o antecederam; ou
mesmo busca respostas a indagações dos alunos, a conhecimentos que ainda
não foram sistematizados, embora não pertençam diretamente ao campo da
ciência (p.260).

Apesar da importância atribuída à pesquisa realizada pelo professor da educação


básica, os autores destacam a existência de fatores que dificultam ou até mesmo
impedem sua realização, neste nível de ensino. O primeiro fator impeditivo diz respeito
às lacunas no conhecimento teórico e metodológico oferecidona formação
inicial/continuada e o segundo tangencia a ausência ou escassez de apoio estrutural,
administrativo e pedagógico para viabilizar a realização de atividades de pesquisa. De
acordo com Cruz & Lüdke (2010),
Entre esses fatores são destacados: a falta de preparação adequada dos
professores para o bom desempenho em pesquisa, o que concorre para que
seus resultados sejam considerados menos rigorosos do que os obtidos pela
pesquisa acadêmica; o valor questionável desse tipo de pesquisa, feita pelo
professor, pela dificuldade de generalização a partir da análise de situações
restritas e a falta de tempo disponível para que o professor se dedique a essa
prática (p.2).

Em relação aos aspectos metodológicos específicos, Cruz & Lüdke (2010)


indicam pontos que limitam a caracterização das produções realizadas por docentes da
educação básica como pesquisa, a saber: o uso inadequado da linguagem formal; a
necessidade de concatenação entre as ideias na estruturação formal do relato; a
formulação inadequada do problema de pesquisa; a falta de coerência entre o problema,
as questões do estudo, a metodologia e as conclusões e a ausência de articulação entre a
discussão teórica e o tratamento dos dados.
Por outro lado, a literatura analisada também aponta caminhos para a superação
dessas barreiras e menciona a pesquisa-ação, a pesquisa participante e a pesquisa
colaborativa como alternativas metodológicas viáveis para articular teoria e
prática(NUNES & CUNHA, 2007) no âmbito da pesquisa na educação básica.Esses
tipos de pesquisa promovem e incentivam, entre outros aspectos, o envolvimento do
professor no processo de reflexão ativa sobre os problemas do contexto em que atua e a
participação efetiva do professor na criação de alternativas concretas de solução.

CONCLUSÃO

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A partir deste estudo, pode-se concluir que os fundamentos teóricos nos quais se
pauta a definição de pesquisa relacionada à educação básica nos artigos analisados nesta
RS, se fundam numa perspectiva dialógica, na qual o professor não é um mero agente
passivo no processo de construção do conhecimento. Por outro lado, os critérios
utilizados para definir e caracterizar o que é ou não é pesquisa variam de acordo com o
sentido atribuído ao termo.
A pesquisa científica, desenvolvida pelos pesquisadores das Universidades,
caracteriza-se pelo uso rigoroso do método científico, tendo em vista que a intenção do
pesquisador é generalizar os resultados encontrados para outros contextos. A pesquisa
educacional, desenvolvida por professores-pesquisadores caracteriza-se como uma
estratégia através da qual busca-se a construção de sentidos para o processo de ensino
através da reflexão sistemática e rigorosa.
Os MP em ensino constituem profícuos espaços de construção de sentidos para
os professores da educação básica, sendo a disciplina Metodologia da Pesquisa
fundamental no suporte à sistematização desses sentidos. Esse suporte, por sua vez, não
deve ficar restrito a apresentação de aspectos técnicos sobre o como fazer pesquisa e sim
incluir a problematização da importância, originalidade e viabilidade dos produtos
educacionais, dissertações e artigos provenientes das pesquisas realizadas por
professores que atuam nesse nível de ensino.
Isso requer, por um lado, a disposição para questionar se a forma de se fazer
pesquisa educacional cabe nos moldes propostos pela pesquisa científica. E por outro, a
disponibilidade para reconhecer a possibilidade de adequar alguns parâmetros utilizados
nas pesquisas científicas com vistas à sistematização, aprimoramento e legitimação das
pesquisas educacionais. Finalmente, e não menos importante, gostaríamos de lembrar,
nas palavras de Cruz & Lüdke (2010), “a importância que a prática de pesquisa pelo
professor confere ao conhecimento por ele produzido” (p.8) e ressaltar que o que está
em jogo é, sobretudo, a qualidade da educação e do ensino.

REFERÊNCIAS
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EdUECE- Livro 2
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