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ADVOCACIA PINTO DE ARRUDA GUIMARÃES &

ADVOGADOS ASSOCIADOS

____________________________________________________________________________________________________________
EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA _____ª VARA
DA COMARCA DE JUÍNA – ESTADO DE MATO GROSSO.

LUIZ BENEDITO MARTINS, brasileiro, casado,


agricultor aposentado, portador da Cédula de Identidade/RG nº 18.521.657,
expedida pela SSP/SP e inscrito no CPF sob o nº 072.353.561-20, residente e
domiciliado no Sitio Boa Sorte, Linha 01, Comunidade Nossa Senhora de
Fátima, Zona Rural, Juína/MT, por sua advogada que subscreve (mandato
incluso), vem, respeitosamente, perante Vossa Excelência, com fundamento no
art. 319 do Código de Processo Civil/2015, propor a presente

AÇÃO ANULATÓRIA DE DÉBITO FISCAL com PEDIDO DE TUTELA


ANTECIPADA

em face do ESTADO DE MATO GROSSO -


FAZENDA PÚBLICA DO ESTADO DE MATO GROSSO, por meio da
Procuradoria Geral do Estado, com endereço à Rua Tenente Alcides Duarte de
Souza, nº. 275 – Espaço Sagres, bairro Duque de Caxias, na cidade de
Cuiabá/MT, CEP 78.043-263, pelas razões de fato e de direito a seguir
aduzidas:

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Rua Cristiane Casquet, nº 557-N, módulo I, Juina-MT. CEP 78.320-000. Tel-fax (66) 3566-1826.
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I - DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA

O Autor requer, preliminarmente, que lhe sejam


concedidos os benefícios da Justiça Gratuita, por não poder arcar com as
despesas judiciais e honorários advocatícios, sem comprometer sua mantença
e de sua família, na forma da Lei 1.060/50 e CPC/2015, porquanto apresenta
anexa declaração de hipossuficiência e comprovante de rendimento.

II - DOS FATOS

O requerente - LUIZ BENEDITO MARTINS,


atualmente com 74 anos de idade e aposentado como segurado especial pelo
INSS desde 07/06/2004, há décadas reside e exerce atividade rural em regime
familiar em área rural denominada Sítio Boa Sorte, localizado na Linha 1,
Comunidade Nossa Senhora de Fátima, no município de Juina/MT.

Na data de 08 de março de 2018, o autor recebeu


uma notificação do CARTÓRIO DE PROTESTOS DE JUINA (2º OFÍCIO)
acerca do protesto registrado sob n. 128652 pela Procuradoria Geral do Estado
de Mato Grosso – PGE/MT, no valor de R$ 4.362,31 (quatro mil trezentos e
sessenta e dois reais e trinta e um centavos), consistente na primeira parcela
de uma dívida fiscal total de R$ 65.005,67 (sessenta e cinco mil e cinco reais e
sessenta e sete centavos) representada pela Certidão da Dívida Ativa n.
20176786, emitida no Processo Administrativo nº. 641769/2008 junto à SEMA
– Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, este oriundo do
Auto de Infração n. 113577/2008, tudo conforme consta nos documentos
apresentados em anexo.

De fato, o requerente se recordou de uma autuação


ocorrida em seu Sítio no ano de 2008, em ocasião em que estava presente
apenas sua esposa, mas que, após receber o recado, o requerente procurou
informações perante a agência de atendimento da SEMA, na cidade de

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Juina/MT, a fim de solucionar qualquer irregularidade porventura existente,
tendo acreditado que tudo teria sido resolvido à época, notadamente porque
não mais recebeu qualquer notificação ou informação sobre o caso.

Assim, a fim de compreender o que ocorreu durante


o trâmite daquele processo administrativo, o requerente necessitou buscar
auxílio jurídico e solicitar cópia dos autos do processo n. 641769/2008 perante
a SEMA/MT, o qual foi entregue à sua advogada no dia 06/04/2018, para
extração de cópias, as quais apresenta integralmente em arquivo anexo para
instrução da presente ação.

Pela cópia integral do referido processo SEMA nº.


641769/2008 foi possível verificar que, na data de 13/10/2008, o Requerente foi
autuado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA/MT) por suposta
infração ao artigo 70 da Lei 9.605/98 c/c o artigo 66 do Decreto n° 6.514 de 22
de julho 2008, sob seguinte descrição de fatos: “Por estar explorando atividade
agropecuária sem a devida licença ambiental exigida pela autoridade
competente.” Ou seja, sem constatação de efetivo dano ambiental.

No caso, o autuado não tomou ciência dos termos


do auto de infração por não estar presente no momento da autuação,
porquanto não há sua assinatura do AI. Porém, conforma já relatado, o
requerente procurou a agência de atendimento da SEMA na cidade de Juina, a
fim de tomar as providencias necessárias para resolução de eventual
irregularidade, sendo que, no dia 11/11/2008, foi confeccionado requerimento
em nome do autuado com solicitação de prazo para apresentação do
Licenciamento Ambiental, sendo este assinado pelo requerente, porquanto é
certo que tal requerimento assinado pelo requerente no dia 11/11/2008 foi
suficiente para suprir o vício do auto de infração quanto à ciência do autuado.

Não obstante, importa consignar que o requerente é


pessoa de pouca instrução e acreditou que, após seu comparecimento na
agencia da SEMA de Juina/MT, a questão teria sido resolvida, bem como não
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chegou a tomar conhecimento real sobre o motivo da autuação e/ou
necessidade de apresentação de licença ambiental específica para o exercício
da atividade agropecuária desenvolvida em seu Sítio, a qual, aliás, trata-se
apenas de bovinocultura de corte (extensiva), ou seja, gado criado solto em
pastagem, sendo que sobre a matrícula do imóvel rural pertencente ao autuado
já existia averbação de TERMO DE RESPONSABILIDADE E PRESERVAÇÃO
DE FLORESTA, datado de 29/04/1988, bem como o autuado já possuía
inscrição estadual como micro produtor rural perante a SEFAZ desde
17/03/1988, conforme consta no cartão de identificação em anexo.

Voltando à análise do trâmite do processo SEMA nº.


641769/2008, verifica-se que no corpo no mesmo requerimento protocolado em
nome do autuado aos 11/11/2008 foi anotado despacho de deferimento do
pedido com concessão de prazo de 120, sendo, entretanto, anotada como data
do despacho o dia 11/08/2008, ou seja, data flagrantemente errada por
retroceder 3 meses do próprio protocolo do pedido.

Quanto ao referido despacho de deferimento de


prazo, não foi sequer tentada a cientificação do autuado.

Após, com o fito de averiguar eventual reincidência


do requerente, o próximo ato administrativo praticado nos autos foi a
certificação de inexistência de outros procedimentos administrativos similares
instaurados em desfavor do autuado, em documento datado de 28/08/2009.

Na sequencia, no dia 14/09/2009, a autoridade


administrativa proferiu decisão interlocutória determinando a notificação
do requerente para apresentar alegações finais no prazo de 10 (dez) dias, a
fim de instruir o procedimento.

Com a determinação exarada, somente no dia


28/06/2010 expediu-se ofício para a tentativa de notificação do requerente
acerca do prazo para apresentar suas alegações finais, a qual, entretanto, NÃO
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foi endereçada ao Sitio Boa Sorte, Linha 01, Comunidade Nossa Senhora de
Fátima, Zona Rural, Juína/MT (único endereço do autor), mas sim à Caixa
Postal nº. 138, a qual nunca pertenceu ao autuado, sendo desconhecida a
origem desta incorreta informação de número de Caixa Postal anotada no AI.

Assim, por ter sido encaminhada para endereço


incorreto, restou infrutífera a tentativa de notificação pessoal do requerente,
porquanto expediu-se edital para concretização da intimação na data de
26/01/2011 (publicação), muito embora não efetuada qualquer tentativa de
intimação ao autuado no endereço de residência e domicílio constantes no
Auto de Infração e requerimento apresentado à fl. 06 daqueles autos, qual seja,
Linha 01, Comunidade Nossa Senhora de Fátima, Juína/MT.

Novamente, em 15/12/2013, a autoridade


administrativa exarou decisão determinando a expedição de nova certidão para
averiguar a existência de procedimentos administrativos pendentes e/ou
julgados em desfavor do requerente, o que já havia sido feito em 28/08/2008,
sob o pretexto de reconhecer na sentença a ser prolatada eventual incidência
de atenuantes e agravantes, sendo a referida certidão expedida novamente
somente aos 26/03/2015.

Nesse intervalo, para fins de cumprimento do


disposto na Lei 12.651/2012, aos 22/10/2014, o requerente obteve inscrição de
seu imóvel rural junto ao Cadastro Ambiental Rural – CAR, regulado pela
própria SEMA, conforme comprovante em anexo. Todavia, nesse particular,
não houve qualquer busca ou informação registrada nos autos do processo
administrativo em foco.

Poucos dias depois, aos 01/04/2015, foi proferido


despacho de mera remessa dos autos para análise e emissão de decisão
administrativa, sendo esta decisão administrativa proferida e homologada
somente em 06 de abril de 2015, ou seja, 5 anos 6 meses e 23 dias depois da

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última decisão interlocutória que havia determinado a notificação do autuado
para apresentação de alegações finais aos 14/09/2009.

Aos 05/02/2016 proferiu-se despacho de remessa


dos autos para Coordenadoria de Arrecadação para certificação quanto ao
pagamento da multa e notificação do autuado, sendo cumprida a certificação
de não pagamento da multa pela Coordenadoria de Arrecadação aos
18/02/2016 e expedida carta de notificação ao autuado, novamente
endereçada à Caixa Postal n º. 138 e devolvida AO REMETENTE, sem
anotação quanto ao motivo da devolução, sendo cediço, entretanto, que a
correspondência jamais chegaria ao seu destinatário, tendo em vista que a
referida caixa postal não pertence e nunca pertenceu ao autuado, ora
requerente.

Contudo, não constam atos posteriormente


registrados no processo administrativo nº. 641769/2008 (SEMA), não havendo
notícia de notificação ao autuado, sequer por edital, quanto ao teor da decisão
administrativa condenatória exarada aos 06/04/2015 (fls. 20/0-v) e
correspondente prazo para interposição de recurso administrativo.

Ainda assim, junto à Procuradoria Geral do Estado


de Mato Grosso – PGE/MT, consta a expedição de Certidão de Dívida Ativa nº.
20176786, com inscrição datada de 05/05/2017, oriunda do referido processo
administrativo nº. 641769/2008 (SEMA) em desfavor do requerente, da qual o
requerente apenas tomou conhecimento ao ser notificado pessoalmente por
oficial do Cartório de Notas de Juina/MT sobre o PROTESTO realizado.

Ante o exposto, considerando os diversos vícios


processuais existentes nos autos no processo administrativo nº. 641769/2008
(SEMA) e, especialmente, o cerceamento de defesa operado em desfavor do
autuado, não restou outra alternativa ao administrado senão o ajuizamento da
presente ação anulatória de débito fiscal, a fim de buscar a desconstituição a

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Certidão de Dívida Ativa irregularmente inscrita em seu nome por suposta
infração ambiental não efetivamente cometida.

III – DO DIREITO

III.I – DA NULIDADE DA NOTIFICAÇÃO EDITALÍCIA / DESCONSTITUIÇÃO


DO CRÉDITO POR CERCEAMENTO DE DEFESA:

A Lei n° 7.692, de 1º de julho de 2002, regula o


processo administrativo no âmbito da Administração Pública Estadual e dispõe
o seguinte sobre as intimações no âmbito do processo administrativo:

Art. 39 A intimação deverá conter:


I - a identificação do intimado e nome do órgão ou
entidade administrativa;
II - finalidade da intimação;
III - indicação dos fatos e fundamentos legais
pertinentes;
IV - informação da continuidade do processo
independentemente do seu comparecimento;
V - se necessário, data, hora e local em que deve
comparecer.
§ 1° A intimação pode ser efetuada por ciência no
processo, por via postal com aviso de recebimento,
por telegrama ou por outro meio que assegure a
certeza da ciência do interessado.
§ 2° No caso de interessados
indeterminados, desconhecidos com
domicílio indefinido, a intimação deve ser
feita por meio de publicação o Diário Oficial do
Estado de Mato Grosso.
§ 3° As intimações serão nulas quando feitas sem
observância das prescrições legais, mas o
comparecimento do administrado supre sua falta ou
irregularidade.

No mesmo enfoque, a Lei Complementar nº 38, de


21 de novembro de 1995, que dispõe sobre o Código Estadual do Meio
Ambiente e dá outras providências, com redação dada pela LC 232/2005, trata

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da matéria atinente às intimações no processo administrativo e outros atos
relevantes ao caso em apreço. Vejamos:

Art. 119 As infrações à legislação ambiental serão


apuradas em procedimento administrativo próprio e
sua instauração dar-se-á com a lavratura do Auto de
Infração, em 3 (três) vias, devendo a segunda via ser
destinada a formalização do procedimento.
Art. 120 O agente autuante, ao lavrar o auto de
infração, indicará a multa prevista para a conduta,
bem como, se for o caso, as demais sanções
previstas na legislação ambiental em vigor.
Art. 121 A primeira via do Auto de Infração será
entregue ao autuado, pessoa física ou jurídica,
oportunidade em que será, também, cientificado de
que terá o prazo de 20 (vinte) dias para
apresentação de defesa ou impugnação perante o
órgão ambiental.
§ 1º A intimação a que se refere este artigo dar-
se-á, sucessivamente, da seguinte forma:
I – pessoalmente;
II - por seu representante legal;
III - por carta registrada com aviso de recebimento;
IV - por edital, se estiver o infrator autuado
em lugar incerto ou não sabido.
§ 2º Se o infrator, cientificado pessoalmente, se
recusar a apor o seu "ciente", essa circunstância
será expressamente mencionada pelo agente
encarregado da diligência.
§ 3º O edital a que se refere o § 1º será publicado
uma só vez, na imprensa oficial do Estado,
considerando-se efetivada a intimação 5 (cinco) dias
após a publicação.
§ 4º Nos municípios do interior, o edital será
publicado também em jornal de circulação
local.
§ 5º Decorrido o prazo sem apresentação de defesa,
será o autuado considerado revel, caso em que os
prazos, a partir daí, correrão independentemente de
intimação, salvo se, posteriormente, habilitar-se
regularmente nos autos, quando então será intimado
dos atos verificados após essa habilitação.
Art. 122 Os agentes dos órgãos ambientais são
responsáveis administrativa e criminalmente pelas
declarações constantes do Auto de Infração que
subscreverem.

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Art. 123 Constatada a revelia do infrator, ou após a
apresentação de sua defesa, o processo será
encaminhado à Superintendência de Assuntos
Jurídicos da SEMA, cabendo à autoridade julgadora
formar sua convicção mediante o exame das provas
constantes dos autos proferindo, no prazo de 30
(trinta) dias, sua decisão.
Art. 124 As decisões da Superintendência de
Assuntos Jurídicos proferidas no julgamento de
autuações administrativas serão homologadas pelo
Secretário de Estado do Meio Ambiente.
Art. 125 Da decisão proferida no julgamento de
autuações administrativas caberá recurso para o
CONSEMA no prazo de 20 (vinte) dias contados
da intimação do autuado.
(...)
Art. 126 Transitada em julgado a decisão
administrativa será o infrator notificado a
recolher, no prazo de trinta dias, a multa.
Art. 127 As multas previstas nesta lei complementar
podem ter a sua exigibilidade suspensa, quando o
infrator, por Termo de Compromisso aprovado pela
autoridade competente, obrigar-se à adoção de
medidas específicas, para fazer cessar ou corrigir a
degradação ambiental.

No caso, não é preciso muito esforço para se


constatar que a intimação editalícia publicada para fins de intimação do
requerente nos autos do processo administrativo em comento não atendeu os
rigores da lei, a teor do dispositivo acima citado.

Inicialmente, é certo que o comparecimento do


autuado, por meio do requerimento protocolado em seu nome aos 11/11/2008,
supriu a ausência de ciência deste quanto à autuação realizada por meio do AI
nº. 113577 de 13/10/2008.

Entretanto, ao ser determinada a intimação do


autuado para apresentar alegações finais em sua defesa, esta foi encaminhada
pelo correio e endereçada à Caixa Postal não pertencente ao autuado, sendo
devolvida por motivo não esclarecido na certidão de fl. 14 do processo
administrativo ou em qualquer parte dos autos.
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Nessa situação, NÃO estaria legalmente autorizada


a intimação por edital, uma vez que o interessado NÃO se tratava de pessoa
indeterminada, desconhecida ou de domicílio indefinido. Muito pelo contrário,
pois, conforme constou no próprio Auto de Infração e Requerimento de fl. 06
em nome do autuado, este residia, como até hoje reside, na Linha 1,
Comunidade Nossa Senhora de Fátima, na cidade de Juina/MT.

Aliás, o local de domicílio do autuado requerente é


informação notoriamente conhecida pela Administração Pública Estadual, uma
vez que o mesmo possui cadastro de Inscrição Estadual de microprodutor rural
nº. 13.272.158-9 perante a Secretaria de Estado de Fazenda desde
02/07/1998, no qual consta o seguinte endereço: Lote n. 181, 1ª Fase
Secção, s/n, Linha 01, Comunidade Nossa Senhora de Fátima,
Juina-MT, CEP 78.320-000.

Vejamos:

Da mesma forma, em consulta ao processo


administrativo em enfoque, via SAD/MT, verifica-se que o nome da parte

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interessada está precedido do nome do sítio onde reside o requerente, da
seguinte forma: “SÍTIO BOA SORTE – LUIZ BENEDITO MARTINS”:

Destarte, é evidente que o endereço de domicílio do


interessado, embora localizado em zona rural, nunca foi indefinido e tampouco
desconhecido pela Administração Autuante.

Por outro lado, no tocante ao endereço para


correspondência erroneamente anotado no Auto de Infração como sendo Caixa
Postal nº. 138, além de não pertencer ao interessado, importa ressalta que tal
endereço não foi confirmado pelo autuado, uma vez que no próprio AI não há
assinatura do autuado e no requerimento apresentado em seu nome
posteriormente às fls. 06 dos autos administrativos não foi informado o referido
endereço para correspondência, mas tão somente o endereço residencial do
interessado, ou seja, Linha 1, Comunidade Nossa Senhora de Fátima, na
cidade de Juina/MT.

Ocorre que, na realidade, o interessado LUIZ


BENEDITO MARTINS não possui qualquer caixa postal ou endereço na zona
urbana para fins de recebimento de correspondências, mas apenas o seu
domicílio residencial e profissional no Sítio Boa Sorte, Lote 181, Linha 1,
Comunidade Nossa Senhora de Fátima, no município de Juina-MT, fato que
não deveria impedir a intimação pessoal do interessado, notadamente porque
os agentes da SEMA estiveram pessoalmente no mesmo Sítio de domicílio do
requerente na data da autuação (13/10/2008), não havendo justificativa de

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impossibilidade para igual comparecimento quando da necessária entrega de
intimação tão relevante à defesa do autuado.

Igualmente, verifica-se que o requerente foi


facilmente encontrado pelo Oficial do Cartório de Notas para entrega da
notificação de protesto que possibilitou a ciência do administrado quanto à
inscrição de CDA em seu nome proveniente do referido processo
administrativo, no qual NÃO teve oportunidade de apresentar alegações finais,
recurso, pedido de suspensão de exigibilidade ou mesmo de realizar o
pagamento da multa fixada com abatimento legal.

Além disso, em se tratando de pessoa devidamente


inscrita perante a SEFAZ com Inscrição Estadual ativa como microprodutor
rural, é certo que não seria difícil a intimação do interessado em qualquer das
oportunidade em que o mesmo comparece pessoalmente à Sefaz para fins de
atualização cadastral, emissão de guias, apresentação e emissão de notas,
entre outros serviços de rotina regular, comumente mensal.

Quanto à intimação por edital, apesar da


aparente banalização na esfera administrativa, na se pode olvidar o
caráter excepcional de sua aplicação, uma vez que nela NÃO é alcançado
o fim principal da intimação consistente na CERTEZA DE CIÊNCIA do
interessado. Tanto é que, in casu, o interessado somente teve ciência sobre
os atos processuais, decisões proferidas e prazos perdidos para defesa após
solicitar cópia dos autos já arquivados à época em que foi pessoalmente
notificado quanto ao protesto efetuado em cartório pela PGE/MT.

Nesse sentido, segue jurisprudência relevante


proferida em caso análogo:

Trata-se recurso extraordinário com agravo


interposto em face do acórdão do Tribunal Regional Federal da
4ª Região, cuja ementa reproduz-se a seguir:
APELAÇÃO/REMESSA OFICIAL. TRIBUTÁRIO. ARTIGO 514
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DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. OFENSA NÃO
CONFIGURADA. TAXA DE CONTROLE E FISCALIZAÇÃO
AMBIENTAL (TCFA). NOTIFICAÇÃO VIA EDITAL. NULIDADE.
A reprodução, no apelo, dos argumentos desenvolvidos na inicial
ou na defesa, não deve levar à sua inadmissibilidade (art. 514 do
Código de Processo Civil), máxime quando as alegações são
suficientes para demonstrar interesse da parte na reforma da
sentença. O direito de ampla defesa é um dos mais sagrados
direitos do cidadão e não foi assegurado ao executado, sendo
então nula a notificação realizada por edital e os atos
posteriores praticados no processo administrativo, bem
como a inscrição em dívida ativa ora embargada.” (eDOC 1,
p. 258). No recurso extraordinário (eDOC 1, p. 265-269), com
fundamento no art. 102, III, “a”, da Constituição Federal, aponta-
se ofensa ao artigo 5º, LIV e LV, do Texto Constitucional. Nas
razões recursais, sustenta-se, em síntese, o seguinte: “Não há
que se falar em nulidade da intimação e em ausência de
constituição do crédito fiscal, como concluiu o Regional, quando
a via do edital é utilizada somente após tentativa de cientificar o
devedor pela via postal ou qualquer outro meio. É evidente que a
lei (e o legislador) – ao estabelecer que a Administração deve
intentar a notificação do administrado por qualquer meio “que
assegure a certeza da ciência do interessado” - agiu com zelo e
correção. O que se assegura, nos termos dos artigos 23 do
Decreto 70.235 e 26 da Lei 9784, sem dúvida, é a garantia de
que o administrado deve ser intimado/notificado em seu
domicílio, por quaisquer dos meios de comunicação que
permitam certeza de tal ato.” (eDOC 1, p. 267). A Vice-
Presidência do TRF da 4ª Região inadmitiu o recurso
extraordinário pela natureza reflexa da ofensa constitucional
apontada. (eDOC 1, p. 283-284). É o relatório. Decido.
Inicialmente, convém reproduzir o assentado pelo Tribunal de
origem: “Após a análise dos documentos trazidos com a
impugnação (evento 3/contesta10), entendo ter a magistrada de
primeiro grau – Juíza Federal Subst.ª Clarides Rahmeier –
apreciado com a propriedade a questão, de modo que, para
evitar tautologia, tomo a liberdade de reproduzir a sentença de
sua lavra (naquilo que interessa ao julgamento do apelo),
adotando-a como razões de decidir: (…) (c) entretanto, embora a
TCFA fosse exigível, o executado não foi regularmente
notificado, havendo irregularidade na constituição do
crédito. O IBAMA não observou as regras do devido
processo legal, prejudicando a ampla defesa do executado
(art 5º-LIV e LV da CF/88). O IBAMA somente estaria
autorizado à notificação por edital do executado se
estivesse presente uma das hipóteses do art 26-parágrafo 4º
da Lei 9.784/99, isto é, se o executado fosse indeterminado,
desconhecido ou com domicílio indefinido. Nenhuma dessas
situações está presente porque o executado tem endereço
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fixo e conhecido, que podia facilmente ser localizado, sendo
idêntico o endereço declinado na petição inicial dessa ação
e às fls 14 e 86 com aquele que constou na correspondência
devolvida (fls 96). Aliás, esse foi o endereço indicado na inicial
da execução e foi nesse endereço que o executado foi citado (fls
36-37 da execução). É certo que o IBAMA tentou notificar o
executado mediante correspondência com aviso de
recebimento (fls 96), mas a correspondência retornou com a
observação 'não procurado' (fls 96), sem que exista
qualquer indicação nos autos do processo administrativo
sobre o motivo dessa observação. Daí que cabia ao IBAMA
adotar as cautelas mínimas de conferir novamente o
endereço e se certificar das razões da devolução antes de
partir para a notificação ficta por edital, mas isso não foi
observado. Ressalte-se que, a segunda tentativa de
notificação (fls 101) também restou inexitosa porque o
IBAMA endereçou a correspondência incorretamente (fls
111), e que, mesmo que tivesse sido corretamente
endereçada, provavelmente não seria recebida e não
atingiria sua finalidade, já que o executado não desenvolve
suas atividades naquele local. Ora, o direito de ampla defesa
é um dos mais sagrados direitos do cidadão e não foi
assegurado ao executado, sendo então nulo a notificação
realizada por edital e os atos posteriores praticados no
processo administrativo, bem como a inscrição em dívida
ativa ora embargada.” (eDOC 1, p. 256). Desta forma, constata-
se que eventual divergência em relação ao entendimento
adotado pelo juízo a quo, a respeito da nulidade da citação,
demandaria o reexame de fatos e provas e o da legislação
infraconstitucional aplicável à espécie, notadamente a Lei nº
9.784/1999, o que inviabiliza o processamento do apelo extremo,
tendo em vista a Súmula 279 do STF. Nesse sentido, cito os
seguintes precedentes: ARE-AgR 866.797, Rel. Min. Marco
Aurélio, Primeira Turma, DJe 19.05.2015 e AI-AgR 710.371, Rel.
Min. Ayres Britto, Segunda Turma, DJe 08.10.2010, este último
assim ementado: “AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE
INSTRUMENTO. CONTROVÉRSIA DECIDIDA
EXCLUSIVAMENTE À LUZ DA LEGISLAÇÃO
INFRACONSTITUCIONAL E DO CONJUNTO FÁTICO-
PROBATÓRIO DOS AUTOS. INCIDÊNCIA DA SÚMULA
279/STF. ALEGAÇÃO DE AFRONTA ÀS GARANTIAS
CONSTITUCIONAIS DO PROCESSO. OFENSA REFLEXA. 1.
Caso em que entendimento diverso do adotado pelo Tribunal de
Justiça do Estado de São Paulo demandaria o reexame da
legislação ordinária aplicada à espécie e a análise dos fatos e
provas constantes dos autos. Providências vedadas na instância
extraordinária. 2. Violação às garantias constitucionais do
processo, se existente, apenas ocorreria de modo reflexo ou
indireto. Precedentes. 3. Agravo regimental desprovido.” Ante o
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exposto, conheço do agravo para negar seguimento ao recurso
extraordinário, nos termos do art. 21, §1º, do RISTF. Publique-
se. Brasília, 04 de fevereiro de 2016. Ministro Edson Fachin
Relator Documento assinado digitalmente (ARE 935936,
Relator(a): Min. EDSON FACHIN, julgado em 04/02/2016,
publicado em PROCESSO ELETRÔNICO DJe-024 DIVULG
10/02/2016 PUBLIC 11/02/2016).

Com efeito, a realização de intimação ficta por edital


quando o interessado possui domicílio certo e conhecido, ainda que em área
rural, evidentemente fere o devido processo legal e o direito à ampla defesa do
interessado, a ensejar afronta à norma constitucional, a teor do artigo 5º,
incisos LIV e LV, da CF/88, in verbis:

Art. 5º (...)
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus
bens sem o devido processo legal;
LV - aos litigantes, em processo judicial ou
administrativo, e aos acusados em geral são
assegurados o contraditório e ampla defesa, com os
meios e recursos a ela inerentes;

Na linha de entendimento do julgado supra,


evidencia-se a nulidade por cerceamento do direito de defesa no processo
administrativo movido em desfavor do requerente LUIZ BENEDITO MARTINS
pela existência de atos e procedimentos defeituosos que prejudicaram
flagrantemente o exercício do amplo direito de defesa, já que o interessado não
tomou ciência do teor das decisões proferidas, de seu prazo para apresentar
alegações finais, de seu prazo para recurso ou mesmo de seu prazo para
eventual pagamento da multa arbitrada.

De outro norte, importa registrar que, ainda que


fosse admissível a intimação por edital no caso em apreço, haveria que se
atentar a Administração à necessidade de publicação do edital em jornal de
circulação local, nos termos do §4º, do artigo 121 da LC n. 38/95 1,

1 LC 38/1995 - Art. 121 § 4º Nos municípios do interior, o edital será publicado também em
jornal de circulação local
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especialmente porque, no mínimo, a autoridade processante tinha
conhecimento quanto à cidade de domicílio do autuado, qual seja Juina/MT,
tratando-se, pois, de município do interior.

Assim sendo, é notório que a intimação por edital, no


caso, não possuiu amparo legal, porquanto se trata de ato nulo de pleno direito,
a ensejar a desconstituição do crédito e respectiva CDA, bem como a nulidade
de todos os atos posteriores à intimação editalícia nula e conseguinte
reabertura do processo administrativo e prazo para que o interessado
apresente suas alegações finais nos autos do processo SEMA nº.
641769/2008.

III.II - DA PRESCRIÇÃO:

O Decreto nº 6.514, de 2008, dentre outras


providências, estabelece o procedimento administrativo federal para apuração
das infrações administrativas ao meio ambiente e as sanções aplicáveis.

Segundo o referido diploma legal, o procedimento


administrativo ambiental inaugura-se pela lavratura do auto de infração pelo
agente de fiscalização, o qual deverá conter a identificação do autuado, a
descrição clara e objetiva das infrações ambientais constatadas e a indicação
dos respectivos dispositivos legais e regulamentares infringidos (arts. 96 e 97).

A autuação decorre do exercício do poder de polícia


ambiental conferido a todos os órgãos integrantes do SISNAMA (Lei nº
6.938/81, art. 6º) e que deverá observar o prazo legal, sob pena da perda do
direito de ação para apurar a prática de infrações contra o meio-ambiente e,
consequentemente, da possibilidade de se impor sanções.

O tema é tratado pela Lei nº 9.873, de 1999, a qual


estabelece o prazo prescricional de cinco anos para o exercício da ação

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punitiva da Administração Pública Federal, Direta ou Indireta, contados da
data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada,
do dia em que tiver cessado:

Art. 1o Prescreve em cinco anos a ação punitiva da


Administração Pública Federal, direta e indireta, no
exercício do poder de polícia, objetivando apurar
infração à legislação em vigor, contados da data da
prática do ato ou, no caso de infração permanente
ou continuada, do dia em que tiver cessado.
§ 1o Incide a prescrição no procedimento
administrativo paralisado por mais de três anos,
pendente de julgamento ou despacho, cujos autos
serão arquivados de ofício ou mediante
requerimento da parte interessada, sem prejuízo da
apuração da responsabilidade funcional decorrente
da paralisação, se for o caso.

O Decreto nº 6.514, de 2008, seguindo o prazo


prescricional comum fixado na Lei nº 9.873, de 1999, acima referida,
estabelece que “prescreve em cinco anos a ação da administração objetivando
apurar a prática de infrações contra o meio ambiente, contada da data da
prática do ato, ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em
que esta tiver cessado”.

Assim, uma vez praticado o ato ilícito contra o


meio ambiente, ou, no caso das infrações permanentes ou continuadas,
quando da cessação da atividade ilegal, iniciará para a Administração
Pública a contagem do prazo de cinco anos para a instauração do
processo administrativo ambiental e apuração da conduta ilícita.

A prescrição punitiva ambiental terá prazo


semelhante ao previsto na legislação penal quando o fato objeto da infração
também constituir crime. Sobre tema escreve Milaré, “quando se estiver
diante de suposta infração administrativa que também configure infração
penal, para a definição do prazo de prescrição deve-se verificar qual o
tipo penal do ato cometido e, a partir do máximo da pena privativa de
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liberdade cominada ao respectivo crime, aplicar a tabela de prazos
prevista no art. 109 do Código Penal” (MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: A
gestão ambiental em foco. Doutrina. Jurisprudência. Glossário. p. 1233).

Uma vez instaurado o procedimento administrativo


ambiental (art. 98 do Decreto nº 6.514/2008), o prazo quinquenal da prescrição
da pretensão punitiva poderá ser interrompido se ocorrer quaisquer das
hipóteses elencadas no rol meramente exemplificativo do artigo 22 do Decreto
nº 6.514, de 2008. Vejamos:

“Art. 22. Interrompe-se a prescrição:


I - pelo recebimento do auto de infração ou pela
cientificação do infrator por qualquer outro meio,
inclusive por edital;
II - por qualquer ato inequívoco da administração
que importe apuração do fato;
III - pela decisão condenatória recorrível.
Parágrafo único. Considera-se ato inequívoco da
administração, para o efeito do que dispõe o inciso
II, aqueles que impliquem instrução do processo.”

Além do já citado art. 22 do Decreto 6514/2008, no


que toca às hipóteses de interrupção da prescrição, será observado o art. 2° da
Lei n.° 9.873/1999, com as alterações introduzidas pela Lei n.° 11.491/2009.

"Art. 2o Interrompe-se a prescrição da ação


punitiva:
I - notificação ou citação do indiciado ou acusado,
inclusive por meio de edital;
II - por qualquer ato inequívoco, que importe
apuração do fato;
III - pela decisão condenatória recorrível.
IV – por qualquer ato inequívoco que importe em
manifestação expressa de tentativa de solução
conciliatória no âmbito interno da administração
pública federal.”

A notificação ou citação a que se refere o inciso I


ocorre SOMENTE após a lavratura do auto de infração, quando o autuado é

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convocado para defender-se ou para prestar quaisquer outros esclarecimentos,
uma vez que a redação do dispositivo se refere a "indiciado" e "acusado".

Já para fins de aplicação do inciso II, se


consideram a lavratura de auto de infração, a notificação anterior e
posterior à lavratura e dirigida ao particular para apresentar
documentação, a realização de vistorias, contraditas do agente autuante,
elaboração do parecer instrutório e do parecer saneador etc. A elaboração
de parecer jurídico, contudo, por não ser ato que importe na apuração do fato,
não tem o condão de interromper a prescrição da pretensão punitiva.

Defesas ou quaisquer requerimentos de


contradita ou de diligências formulados pelo autuado ou pelo IBAMA não
se confundem com atos inequívocos que visam à apuração do fato.
Apenas a realização efetiva desses atos possui tal escopo. De igual modo,
o saneamento de um vício formal do processo não produz qualquer
interrupção.

Cabe aqui mencionar uma hipótese de ato


apuratório inequívoco previsto no art. 20 da Instrução Normativa n.° 14/2009.
Trata-se de notificação antes da lavratura do auto de infração, quando ainda
não está confirmada a autoria ou algum elemento que componha a
materialidade da infração. IN 14/2009:

"Art. 20. Havendo incerteza sobre autoria ou algum


elemento que componha a materialidade da
infração, o agente fiscal poderá notificar o
administrado para que apresente informações ou
documentos ou ainda para que adote providências
pertinentes à proteção do meio ambiente."

Assim, desde que o notificado seja posteriormente


autuado, tal notificação valerá como causa interruptiva porque foi com os
esclarecimentos prestados que se pôde chegar à autoria do fato. Ressalte-se
que a interrupção se dará com base no inciso II, ou seja, pela prática de ato
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inequívoco que importe apuração do fato, e não com respaldo no inciso I, que,
como dito, apenas se aplica antes da lavratura do auto de infração.

Por sua vez, nas hipóteses de aplicação dos citados


incisos III e IV do art. 2° da Lei n.° 9.873/1999, se enquadram o protocolo de
pedido de regularização/licença/autorização, a proposta de celebração de
termo de compromisso ou termo de ajustamento de conduta, dentre outros.

Nas infrações permanentes, é cediço que a


prescrição inicia-se somente na data em que cessada a conduta ou o dano
ambiental (art. 1º, Lei 9873/99), porém, este não é o caso dos autos. São
exemplos de infrações permanentes os delitos previstos no art. 48 (impedir
regeneração), utilizar APP (art. 43, parte final), guardar, manter em cativeiro,
etc (art. 24), todos do Decreto 6.514/2008. Em tais casos, enquanto o infrator
não fizer cessar o estado de contínua lesão a bens ambientais, permanece
cometendo infração ambiental, porquanto a Administração poderá exercer o
poder de polícia a qualquer momento.

Importa ressaltar ressalta ao disposto no §4° do


art. 21 do Decreto n.° 6514/2008, segundo o qual a prescrição atinge
somente a sanção pecuniária ou outras sanções impostas
administrativamente, não abrangendo a obrigação de reparar o dano causado
ao meio ambiente, prevista no art. 225 da Constituição, que pode e deve ser
intentada a qualquer tempo.

“Art. 21.
(...)
"§ 4º A prescrição da pretensão punitiva da
administração não elide a obrigação de reparar o
dano ambiental. (Incluído pelo Decreto nº 6.686, de
2008)."

Assim, no caso concreto, pelo período transcrito no


auto de infração 113577/2008, datado de 13/10/2008, anexo a presente inicial,
fica evidente que o direito da Fazenda Publica prescreveu, uma vez que
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transcorrido período superior a 05 (cinco) anos, contados da data da
decisão proferida em 14/09/2009 determinando a notificação do
requerente até a data da prolação da sentença que o condenou ao
pagamento da multa que deu origem ao débito fiscal que lhe foi atribuído
(06/04/2015).

O que se verificou, no caso, foi a mera repetição de


atos para notificar o requerente e verificar se o mesmo possuía outros
procedimentos administrativos pendentes e/ou julgados com a clara
intenção de se evitar a ocorrência da prescrição intercorrente (prazo de
03 anos), constante do §1º do art. 1° da Lei n.° 9.873/1999.

Nesse contexto, impende assinalar que a ocorrência


da prescrição independe da procedência do pleito anterior quanto à nulidade da
intimação editalícia, muito embora seja ainda mais evidente nessa hipótese.

Isso porque, conforme explicitado alhures, o ato de


intimação intercorrente, ainda que fosse válido, não seria suficiente para fins de
interrupção da prescrição qüinqüenal, sendo considerada para essa finalidade
apenas a citação ou notificação do interessado quanto à autuação precípua, à
oportunidade em que o autuado é convocado para defender-se ou para prestar
quaisquer outros esclarecimentos, enquanto demais intimações realizadas nos
autos, desde que válidas, seriam suficientes apenas para interrupção da
prescrição trienal intercorrente.

Portanto, com ou sem o acolhimento da preliminar


anterior quanto ao reconhecimento da nulidade da intimação editalícia e
demais atos seguintes, de rigor que seja reconhecida a ocorrência da
prescrição qüinqüenal com relação ao direito de a Administração Púbica em
constituir crédito proveniente do Auto de Infração n. 113577, lavrado aos
13/10/2008, e, por conseguinte, que seja determinada a anulação do débito
fiscal ante a desconstituição da CDA n. 20176786 inscrita em desfavor do
requerente após o decurso do prazo prescricional.
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III.III – DO MÉRITO DO PROCESSO ADMINISTRATIVO –


MULTA INDEVIDA:

Passando à análise do mérito do processo


administrativo SEMA nº. 641769/2008, verifica-se que, no dia 13/10/2008, o
Requerente foi autuado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente
(SEMA/MT) por suposta infração ao artigo 70 da Lei 9.605/98 c/c o artigo 66
do Decreto n° 6.514 de 22 de julho 2008, respectivamente transcritos abaixo:

Lei 9.605/09
Art. 70. Considera-se infração administrativa
ambiental toda ação ou omissão que viole as regras
jurídicas de uso, gozo, promoção, proteção e
recuperação do meio ambiente.

Decreto n° 6.514/08
Art. 66. Construir, reformar, ampliar, instalar ou
fazer funcionar estabelecimentos, obras ou serviços
potencialmente poluidores ou utilizadores de
recursos naturais, sem licença ou autorização dos
órgãos ambientais competentes, em desacordo com
a licença obtida ou contrariando as normas legais e
regulamentos pertinentes: (Redação vigente antes
do Decreto nº 6.686, de 2008).
Multa de R$ 500,00 (quinhentos reais) a R$
10.000.000,00 (dez milhões de reais).

Nota-se, portanto, que se tratam de dispositivos de


teor genérico, impossibilitando, por si, a compreensão e identificação de
concreta infração legal.

Quanto ao suposto fato gerador da ocorrência


autuada, consta no AI n. 113577/2008 lavrado em desfavor do requerente a
seguinte descrição: “Por estar explorando atividade agropecuária sem a
devida licença ambiental exigida pela autoridade competente.”

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Logo, não houve constatação de DANO ambiental
concreto na ocorrência autuada.

No tocante ao Licenciamento Ambiental em


Propriedades Rurais do Estado de Mato Grosso, este encontra fundamento na
Lei Complementar Estadual n.º 38/1995 (Código Ambiental do Estado), sendo
que o artigo 19, inciso IV, dessa Lei, em tese, estabelecia que toda atividade de
supressão de vegetação ou desenvolvimento de atividade agropecuária estaria
sujeita à emissão da Licença Ambiental Única – LAU, nos seguintes termos:

Art. 19 A SEMA, no exercício de sua competência,


expedirá as seguintes licenças, de caráter
obrigatório:
(...)
IV - Licença Ambiental Única (LAU): é concedida nos
termos do regulamento, autorizando a exploração
florestal, desmatamento, atividades agrícolas e
pecuária;

Porém, com o advento do Código Florestal – Lei


Federal n° 12.651 de 25 de maio de 2012 – não se manteve a obrigatoriedade
ampla da figura da conhecida “LAU” – Licença Ambiental Única -, a qual era
obtida, a muito custo, através de processo administrativo junto à Secretaria de
Estado de Meio Ambiente (Sema/MT), sendo, por outro lado, criado e exigido
obrigatoriamente para todos os imóveis rurais o Cadastro Ambiental Rural
(CAR).

Entretanto, o artigo 29, §3º, da Lei n. 12.651/2012


fixou prazo para tornar obrigatória a inscrição de todas as propriedades e
posses rurais no CAR, sendo tal prazo originariamente de 1 ano contado de
sua implantação e posteriormente prorrogado para 31/12/2017, prorrogável por
mais um ano, por força da Lei 13.295/2016, respectivamente:

L 12.651/2012 – redação original:


Art. 29. É criado o Cadastro Ambiental Rural - CAR,
no âmbito do Sistema Nacional de Informação sobre
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Meio Ambiente - SINIMA, registro público eletrônico
de âmbito nacional, obrigatório para todos os
imóveis rurais, com a finalidade de integrar as
informações ambientais das propriedades e posses
rurais, compondo base de dados para controle,
monitoramento, planejamento ambiental e
econômico e combate ao desmatamento.
§ 3o A inscrição no CAR será obrigatória para todas
as propriedades e posses rurais, devendo ser
requerida no prazo de 1 (um) ano contado da sua
implantação, prorrogável, uma única vez, por igual
período por ato do Chefe do Poder Executivo.

(Redação dada pela Lei nº 13.295, de 2016)


§ 3o A inscrição no CAR será obrigatória para todas
as propriedades e posses rurais, devendo ser
requerida até 31 de dezembro de 2017, prorrogável
por mais 1 (um) ano por ato do Chefe do Poder
Executivo.

No caso, é fato que a área rural pertencente ao


requerente não possuía LAU na data da autuação – 13/10/2008, não havendo
sequer conhecimento do demandante sobre a exigência dessa licença, sendo
que, de imediato, sequer era possível o obtenção da referida LAU pelo autuado
em razão de pendência existente quanto ao registro o imóvel rural em seu
nome.

Não obstante, o autuado já possuía inscrição


estadual como micro produtor rural junto à SEFAZ desde 17/03/1988, com
CNAE principal de “Criação de bovinos para corte”, sendo esta a única
atividade efetivamente exercida, em sistema extensivo, bem como já existia
sobre o imóvel rural em questão um registro de TERMO DE
RESPONSABILIDADE E PRESERVAÇÃO DE FLORESTA, datado de
29/04/1988, conforme averbação constante na matrícula imobiliária em anexo e
recorte abaixo:

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Além disso, logo após a autuação, embora não


tenha sido cientificado do exíguo prazo concedido pela autoridade signatária do
despacho de fl. 06, o requerente deu início aos procedimentos necessários
para prévia regularização da propriedade do imóvel, a qual foi efetivada em seu
nome perante o 1º Ofício de Registro Imobiliário de Juina/MT no dia
05/06/2009.

Após, o autor deu início a uma verdadeira saga, em


busca do licenciamento ambiental exigido

Com o advento da Lei n° 12.651/2012, conforme já


dito, a exigência da LAU foi substituída pela exigência da inscrição no CAR,
porém, com concessão de prazo para cumprimento desta, sendo que, nesta
ocasião, ainda não havia decisão administrativa proferida em desfavor do
autuado nos autos do processo n. 641769/2008 junto à SEMA, razão pela qual
a norma mais benéfica deveria ser aplicada retroativamente em favor do
autuado, notadamente porque não haveria qualquer sentido em penalizar o
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administrado pela não apresentação de uma licença legalmente não mais
exigível, sendo imperiosa, ao menos, a concessão novo prazo estipulado pela
Lei n° 12.651/2012 para inscrição no CAR.

Nesse particular, importa observa que aos


22/10/2014, antes do prazo legal concedido, o requerente obteve êxito
quanto à inscrição de seu imóvel rural junto ao CAR, conforme
comprovante em anexo e recorte abaixo:

Noutro viés, somente aos 06/04/2015 foi proferida a


decisão administrativa condenatória em desfavor do autuado, o qual,
evidentemente, já se encontrava em situação totalmente regular quanto ao
cadastramento do imóvel rural perante a SEMA.

Assim, s licenças ambientais são ferramentas


obrigatórias para as atividades dos produtores rurais. A exigência legal é um
procedimento de controle dos órgãos ambientais federal e estaduais, seja ele
fiscalizador, a exemplo do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos
Naturais Renováveis (IBAMA), ou fiscalizador e licenciador como a SEMA/MT.

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O objetivo do licenciamento ambiental é a concessão de licenças, atos
administrativos pelo qual o órgão ambiental competente estabelece condições
para o exercício de determinadas atividades, conforme expõe o artigo 1º, inciso
II, da resolução nº 237/97 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA).

Com etapas complexas, o objetivo do licenciamento ambiental é,evitar


a ocorrência de abusos de poder, seja na modalidade de excesso, desvio ou
omissão de finalidade da administração. Sua negação normalmente ocorre
quando em desacordo com as normas, critérios, padrões e princípios do direito
ambiental, portanto, descumprimento de requisito observado na norma.

Em algumas atividades, o licenciamento ambiental não é necessário,


dado sua insignificante capacidade de causar dano e poluição ao Meio
Ambiente. Nesta hipótese, seria um excesso de zelo dispendioso e burocrático.
Por outro lado, estão sujeitas a um licenciamento com requisitos mais
rigorosos, tal como a exigência do Eia-RIMA, aquelas atividades que são
significativamente poluidoras ou potencialmente causadoras de expressivo
impacto ambiental.

O estado de Mato Grosso foi inovador, em 1995, ao


tornar necessário o licenciamento ambiental para atividades agropecuárias. Na
legislação federal (Resolução Conama nÀ 01/1986) não havia previsão
expressa, excetuada a exigibilidade de EIA/RIMA para projetos agropecuários
acima de 1.000 hectares (art.2À), exigência que foi relativizada em face do
parágrafo único do artigo 3À da Resolução Conama nÀ 237/1997. A
Constituição Federal de 1988, em seu artigo 24, inciso VI, ao legislar sobre
proteção ambiental e controle da poluição caso da legislação sobre
licenciamento ambiental , estabeleceu a competência concorrente, o que
significa que os estados podem suplementar ou complementar a legislação
existente, desde que com ela não conflite.

A Resolução Conama nÀ 237/1997 prevê o


licenciamento ambiental de atividades agropecuárias. Essa resolução,
entretanto, não impõe a LAU, tal qual a prevista pela Lei Complementar
Estadual nÀ 38/1995, embora estabeleça que „o CONAMA definirá, quando
necessário, licenças ambientais específicas, observadas a natureza,
características e peculiaridades da atividade ou empreendimento‰ (art.9À).
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Além da Resolução do Conama, a Portaria MMA nÀ 303/2003 determina que
todas as autorizações para desmatamento na Amazônia Legal, a partir de 01
de julho de 2004, somente sejam expedidas para imóveis licenciados no órgão
ambiental. Entretanto, não há na legislação federal uma regra específica para o
licenciamento das atividades agropecuárias, uma vez que as fases clássicas do
licenciamento ambiental não se aplicam a essa categoria de atividades. Não há
conflito jurídico entre a legislação federal e a estadual, pois se trata de
competência concorrente para legislar e, portanto, pode o estado regulamentar
a matéria com certa liberdade, desde que não contrarie o disposto pela
instância superior. Assim sendo, o estado de Mato Grosso regulamentou a
Licença Ambiental Ðnica para atividades agropecuárias.

O Sistema de Licenciamento Ambiental em


Propriedades Rurais SLAPR no estado de Mato Grosso entrou em operação
no ano de 2000, após dois anos de concepção e preparação por parte da
Fema1 *. Juridicamente, está baseado na Lei Complementar Estadual nÀ
38/1995, que estabelece o Código Ambiental do Estado de Mato Grosso. Em
seu artigo 18, a referida lei determina que „as pessoas físicas ou jurídicas,
inclusive as entidades da administração pública, que vierem a construir,
instalar, ampliar e funcionar no estado de Mato Grosso, cujas atividades
possam ser causadoras de poluição ou degradação ambiental, dependerão de
prévio licenciamento ambiental‰.
A Resolução Conama nÀ 237/1997, que estabelece
regras gerais para o licenciamento ambiental no país, estabelece que projetos
agrícolas e exploração econômica de madeira ou lenha são atividades sujeitas
ao licenciamento (Anexo I). Da mesma forma, a Resolução Conama 01/1986,
alterada pela Resolução Conama 11/1986, determina que os projetos
agropecuários que contemplem área acima de 1.000 hectares não só deverão
ser licenciados, mas que só o serão mediante elaboração de EIA/RIMA (art.2,
inciso XVII).
O licenciamento ambiental de atividades
agropecuárias é aplicado em apenas uma fase, com emissão da Licença
Ambiental Ðnica LAU. Os imóveis rurais são cadastrados no sistema por
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adesão voluntária do proprietário ou por notificação da Sema. Para iniciar o
processo de licenciamento, o proprietário ou seu procurador apresenta a
documentação exigida pelo órgão ambiental, a qual segue para análise técnica
pela Sema. Exigidas eventuais correções e complementações, o órgão
ambiental emitirá a Licença, entre outros documentos necessários
relacionados. Uma vez efetuado o licenciamento, o proprietário assume cumprir
as obrigações previstas no Código Florestal (Lei Federal nÀ 4.771/1965) para
as áreas de preservação permanente e de reserva legal, e o governo
responsabiliza-se por realizar o monitoramento e fiscalização ambientais.

Embora, a rigor da lei, todas as propriedades rurais


estejam sujeitas ao licenciamento ambiental, a estratégia inicial da Fema foi
monitorar e licenciar propriedades rurais com área superior a 1.000 hectares.
Conforme anteriormente mencionado, no ato da
lavratura do auto, o autuado não tomou ciência dos termos do AI por não estar
presente no momento da autuação.

Nesse ponto, importa consignar que o requerente é


pessoa de pouca instrução e acreditou que, após seu comparecimento na
agencia da SEMA de Juina/MT, a questão teria sido resolvida, bem como não
chegou a tomar conhecimento real sobre o motivo da autuação e/ou
necessidade de apresentação de licença ambiental para o exercício da
atividade agropecuária desenvolvida em seu Sítio, a qual, aliás, trata-se
apenas de bovinocultura de corte em regime extensivo, para qual, na verdade,
não há exigência de licença ambiental.

O Decreto

Outro princípio basilar, decorrente do Estado Democrático de Direito


(art. 1º da Constituição Federal), a presidir rigidamente a atuação do aparelho
estatal na punição e sancionamento de eventuais infrações administrativas é o
princípio da proporcionalidade, vale dizer, da correspondência entre a conduta
infratora e a sanção aplicada. Esse princípio é unanimemente acolhido na doutrina

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e na jurisprudência e decorre da própria finalidade das sanções administrativas.
Significa que sanções desproporcionais implicam em desvio de finalidade,
comportamento vedado pela Constituição Federal. Vejamos o magistério do Prof.
Celso Antônio Bandeira de Mello sobre o tema (ob. cit. pp. 744/745):

"Evidentemente, a razão pela qual a lei qualifica certos comportamentos


como infrações administrativas, e prevê sanções para quem nelas
incorra, é a de desestimular a prática daquelas condutas censuradas ou
constranger ao cumprimento das obrigatórias. Assim, o objetivo da
composição das figuras infracionais e da correlata penalização é
intimidar eventuais infratores, para que não pratiquem os
comportamentos proibidos ou para induzir os administrados a atuarem
na conformidade de regra que lhes demanda comportamento positivo.
Logo, quando uma sanção é aplicada, o que se pretende com isto é tanto
despertar em quem a sofreu um estímulo para que não reincida, quanto
cumprir uma função exemplar para a sociedade.

Não se trata, portanto, de causar uma aflição, um "mal", objetivando


castigar o sujeito, levá-lo à expiação pela nocividade de sua conduta. O
direito tem como finalidade unicamente a disciplina da vida social, a
conveniente organização dela, para o bom convívio de todos e bom
sucesso do todo social, nisto se esgotando seu objeto. Donde, não
entram em pauta intentos de "represália", de castigo, de purgação moral
a quem agiu indevidamente. É claro que também não se trata, quando
em pauta sanções pecuniárias – caso das multas -, de captar proveitos
econômicos para o Poder Público, questão radicalmente estranha à
natureza das infrações e, conseqüentemente, das sanções
administrativas."

Em outro trecho, diz o mestre (ob. cit. p. 752):

"As sanções devem guardar uma relação de proporcionalidade com a


gravidade da infração.

Ainda que a aferição desta medida inúmeras vezes possa apresentar


dificuldade em ser caracterizada, em inúmeras outras, é perfeitamente
clara; ou seja: há casos em que se pode ter dúvida se tal ou qual
gravame está devidamente correlacionado com a seriedade da infração –
ainda que se possa notar que a dúvida nunca se proporá em uma escala
muito ampla, mas em um campo de variação relativamente pequeno -,
de par com outros casos em que não haverá dúvida alguma de que a
sanção é proporcional ou é desproporcional. É impossível no direito fugir-
se a situações desta compostura, e outro recurso não há para enfrentar
dificuldades desta ordem senão recorrendo ao princípio da razoabilidade,
mesmo sabendo-se que também ele comporta alguma fluidez em sua
verificação concreta. De todo modo, é certo que, flagrada a
desproporcionalidade, a sanção é inválida."

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O nunca assaz pranteado Hely Lopes Meirelles preleciona no mesmo
sentido ("Direito Municipal Brasileiro", 9ª ed., Malheiros, pp. 342/343):

"A proporcionalidade entre a restrição imposta pela Administração e o


benefício social que se tem em vista, sim, constitui requisito específico
para validade do ato de polícia, como, também, a correspondência entre
a infração cometida e a sanção aplicada, quando se tratar de medida
punitiva. Sacrificar um direito ou uma liberdade do indivíduo sem
vantagem para a coletividade invalida o fundamento social do ato de
polícia, pela desproporcionalidade da medida. Desproporcional é
também o ato de polícia que aniquila a propriedade ou a atividade a
pretexto de condicionar o uso do bem ou de regular a profissão. O poder
de polícia autoriza limitações, restrições, condicionamentos; nunca
supressão total do direito individual ou da propriedade particular, o que
só poderá ser feito através de desapropriação. A desproporcionalidade
do ato de polícia ou seu excesso equivale a abuso de poder e, como tal
tipifica ilegalidade nulificadora da ordem ou da sanção."

Celso Antônio Bandeira de Mello fala, inclusive, do caráter confiscatório


da multa exageradamente fixada (ob. cit. p. 756):

"Tal como as demais sanções administrativas, as multas têm que


atender ao princípio da proporcionalidade, sem o quê serão inválidas.
Além disto, por muito grave que haja sido a infração, as multas não
podem ser "confiscatórias", isto é, de valor tão elevado que acabem por
compor um verdadeiro confisco. Nisto há aprazível concórdia tanto na
doutrina como na jurisprudência."

No caso dos autos, o valor venal da área fiscalizada de 62,96 hectares


em média, para o ano de 2011 era de R$ ....................... (................centavos). Um
multa de R$ 76.860,00 (setenta e seis mil oitocentos e sessenta reais) aplicada à
época do AI e atualmente o valor de R$ 95.165,32 (noventa e cinco mil cento e
sessenta e cinco reais e trinta e dois centavos), por mais grave que possa ser a
suposta infração cometida, é absolutamente confiscatória, posto que corresponde
a mais que 100% (cem por cento) do valor da área autuada!!! É óbvia a
ilegalidade.

Não bastasse, o cálculo efetuado pelo agente ambiental responsável


pela lavratura do auto de infração, como visto em outro tópico, é absolutamente
arbitrário, sendo sua interpretação do Decreto sancionatório (sic!!!) absolutamente
descabida e desproporcional. Donde a autorização legal para que se considere
cada exemplar arbóreo supostamente suprimido como um "bem especialmente

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protegido". O abuso é evidente.

Reflui cristalina, portanto, a rotunda inconstitucionalidade do art. 37 do


Decreto 3.179/99 que, além invadir competência exclusivamente legislativa,
contém intervalo punitivo excessivo, o que afronta os princípios constitucionais da
razoabilidade e da proporcionalidade.

Também nesse particular, portanto, a multa é ilegal e nula de pleno


direito por ter infringido o princípio da proporcionalidade, seja em razão do caráter
confiscatório da multa, seja porque baseada em dispositivos regulamentares
(sequer legais) excessivos.

III.IV – DA TUTELA ANTECIPADA –


SUSPENSÃO DE PROTESTO E OUTRAS RESTRIÇÕES DE CRÉDITO:

O Decreto

Do quanto dito até aqui, fica patente a dos elementos que evidenciam a
probabilidade do direito e o perigo do dano ou risco do resultado útil do processo,
nos termos do art. 300 do Código de Processo Civil.

De fato, a probabilidade do direito é percebida de plano, "prima facie",


apenas da análise dos documentos carreados aos autos. O mais chocante é a
revoltante falta de regularidade processual administrativa, a ausência de
observância dos princípios constitucionais e normas supralegais e a ausência de
prova prévia de ocorrência real da infração na propriedade do Autor,
impossibilitando, inclusive, o exercício da ampla defesa.

As outras incongruências e afrontas aos princípios da Constituição


Federal supra demonstrados também são importantes e reforçam a inequívoca
presença do requisito probabilidade do direito.

O perigo do dano ou risco do resultado útil do processo, também se


desenha com contornos fortes. Se não houver a concessão da tutela antecipada
pretendida, poderá prosseguir a inscrição do protesto pretendida pelo Requerido,
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sem prova da infração, sem respeito ao princípio da legalidade, da
proporcionalidade, sem ampla defesa e sem devido processo legal!!!!! Pior ainda,
poderá haver a propositura de iníqua ação de execução judicial!!!!

Ressalta-se que o protesto e/ou o ajuizamento da demanda de


execução restringirá o Autor da concessão de benefício de financiamento bancário
de FCO - Fundo de Financiamento do Centro-Oeste, o qual está prestes a ser
concedido ao Autor; bem como, permanecerá o Autor na inserido na lista de protestos
e impedido de emitir em seu favor certidão negativa de débitos.

Por tudo isso, requer o Autor a concessão de tutela de urgência em


caráter liminar (art. 300, do Código de Processo Civil), para que seja determinada,
de imediato e "inaudita altera partes" a suspensão da cobrança da multa
sancionatória decorrente do Auto de Infração n. 124130 e CDA 2017221092, bem
como a suspensão de qualquer outro ato punitivo, em razão da suposta (e
inexistente, é bom frisar) infração que originou a multa "sub examine" e decorrente
inscrição do débito em Certidão de Divida Ativa – CDA.

IV - DOS PEDIDOS

Diante de todo o exposto, requer a PROCEDÊNCIA


da presente ação com o reconhecimento da prescrição do direito da
requerida em cobrar os valores acima descritos, tendo como
consequência, a desconstituição do crédito fiscal, uma vez que exaurido
o lapso temporal de 5 anos.

A citação da Requerida na pessoa do Senhor


Procurador Fiscal do Estado, para que, querendo, no prazo legal, apresente
defesa, se tiver, sob pena de revelia e que ao final seja declarado nulo o
lançamento fiscal indevido e a multa cobrada, condenando-se a Requerida ao
pagamento dos honorários de advogado e demais cominações legais.

a) a concessão de tutela de urgência em sede liminar, a fim de sustar


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quaisquer atos a serem praticados por parte do Requerido no sentido de restringir
a regularidade cadastral, protestar o débito inscrito indevidamente em dívida ativa
e ajuizar Execução Fiscal tendente à exigibilidade do crédito, nos termos do tópico
anterior;

b) seja o Requerido citado na pessoa de seu representante para, no


prazo legal, responder os termos da presente demanda;

c) ao final, seja a mesma julgada procedente, para o fim de:

c.1) reconhecer a nulidade do processo administrativo pelo


cerceamento da defesa decorrente da nulidade da notificação realizada nos
autos do processo Administrativo;

c.2) Reconhecer e declarar a nulidade da sansão administrativa


aplicada ao Autor, com o consequente cancelamento do AI nº. 124130 e CDA n.
2017221092, pelo reconhecimento da prescrição do direito punitivo do Estado;

c.3) reconhecer e declarar a ilegitimidade passiva do Autor quando para


figurar no polo passivo do AI nº. 124130 e CDA n. 2017221092, determinando-se a
anulação e cancelamento do AI e CDA, bem como, das sansões aplicadas pelo
Requerido;

d) decretar nulidade da CDA n. 2017221092 decorrente da multa


oriunda do AI n. 124130, declarando, em definitivo, a inexigibilidade da mesma,
bem como de todo e qualquer ato de caráter punitivo estribado na mesma suposta
infração e tornando definitivo o pedido antecipatório da tutela;

e) condenar a parte Requerida ao pagamento de custas processuais em


reembolso, honorários advocatícios e demais cominações legais.

Protesta provar o alegado por todos os meios de


provas em direito admitidas, especialmente documental, pericial e testemunhal.

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Atribui-se à causa o valor de R$ 65.005,67 (sessenta
e cinco mil e cinco reais e sessenta e sete centavos), para todos os efeitos
legais.

Nesses termos,
pede deferimento.
Juina/MT, 17 de maio de 2018.

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