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Adler Homero Fonseca de Castro

Orientadores

Flávio Gomes, PPGHC-UFRJ


Carlos Eugênio Líbano Soares, UFRRJ.

Tese apresentada como requisito


para a obtenção do título de doutor
no Curso de Pós-Graduação em
História Comparada da UFRJ
(PPGHC-UFRJ).

Rio de Janeiro – UFRJ – Junho de 2017


Ficha catalográfica

Ficha catalográfica

II
Sumário

Sumário

Ficha catalográfica ............................................................................................................ II


Sumário ........................................................................................................................... III
Índice de figuras ............................................................................................................ VII
Índice de gráficos............................................................................................................ IX
Índice de tabelas ...............................................................................................................X
Agradecimentos. ............................................................................................................. XI
Resumo ........................................................................................................................ XIV
Abstract..........................................................................................................................XV
1. Introdução ................................................................................................................. 2
1.1 Proposta............................................................................................................ 13
1.2 Quadro teórico ................................................................................................. 18
1.3 Metodologia ..................................................................................................... 24
1.4 Plano da obra.................................................................................................... 28
1.5 Passos tomados. ............................................................................................... 30
2. Modelos explicativos da economia brasileira. ........................................................ 33
2.1 A questão dos modelos. ................................................................................... 35
2.2 Modelos sobre o Brasil Colonial...................................................................... 39
2.2.1 O modelo dos ciclos econômicos. ............................................................ 40
2.2.2 O modelo da dependência estrutural – Caio Prado Jr............................... 48
2.2.3 Celso Furtado e a Formação Econômica do Brasil................................... 53
2.2.4 O Antigo Sistema Colonial. ...................................................................... 60
2.2.5 O modo de produção escravista colonial .................................................. 61
2.3 O fim da procura por modelos ......................................................................... 63
2.4 O início da industrialização ............................................................................. 65
2.5 Algumas considerações.................................................................................... 71
3. As forças armadas como consumidora de mercadorias .......................................... 77
3.1. Suprindo os soldados. ...................................................................................... 78
3.2 Logística ........................................................................................................... 81
3.3 Revolução Militar ............................................................................................ 87
3.3.1 A cultura da guerra ................................................................................. 102
3.4 A supremacia europeia ................................................................................... 106
3.5 Necessidades logísticas – Portugal e Brasil ................................................... 111
3.5.1 A vida sobre permanente tensão ............................................................. 111
3.5.2 O Brasil, país de conflitos....................................................................... 116
3.5.3 Milícias, Ordenanças, Guarda Nacional: o apoio ao exército. ............... 119
3.6 O exército no Brasil ....................................................................................... 121
3.7 O exército nacional, do Brasil. ....................................................................... 129
3.8 Um novo exército em formação ..................................................................... 133
3.9 O exército como consumidor. ........................................................................ 136
3.10 Observações preliminares sobre a questão dos exércitos............................... 140
4 Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil ..................................... 146
4.1 O incentivo governamental as manufaturas ................................................... 151
4.2 A situação das manufaturas no Rio de Janeiro na 1ª metade do século XIX. 157
4.3 Observações preliminares sobre a mão de obra escrava ................................ 160
4.4 Uso de motores em uma economia pré-industrial.......................................... 164
4.5 Alguns exemplos de manufaturas ligados às forças armadas ........................ 168

III
Sumário

4.5.1 A Fábrica São Pedro de Alcântara.......................................................... 169


4.5.2 Sapatos Carioclave ................................................................................. 172
4.6 A Ponta da Areia ............................................................................................ 174
4.7 Siderúrgicas.................................................................................................... 183
4.8 Encerrando o capítulo .................................................................................... 186
5 A pré-indústria e a produção de artigos militares ................................................. 192
5.1 Uniformes ...................................................................................................... 199
5.2 Fabricação de Canhões .................................................................................. 207
5.2.1 Aspectos técnicos ................................................................................... 208
5.2.2 O sistema Gribeauval e a padronização .................................................. 213
5.3 Manufatura de armas de fogo ........................................................................ 219
5.3.1 As peças intercambiáveis........................................................................ 232
5.4 A fábrica de moitões. ..................................................................................... 240
5.5 O surgimento da moderna indústria ............................................................... 241
5.6 A Fábrica moderna ......................................................................................... 253
6 A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil ............................ 256
6.1 A fase inicial .................................................................................................. 256
6.1.1 Os Arsenais de Marinha .............................................................................. 257
6.1.1.1 O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro ........................................ 259
6.1.2 Os Trens .................................................................................................. 271
6.2 As fábricas de armas das capitanias ............................................................... 274
6.2.1 A Fábrica de Armas de São Paulo .......................................................... 276
6.2.2 Laboratórios pirotécnicos ....................................................................... 279
6.2.3 A Fábrica de Ferro de São João Batista de Ipanema .............................. 281
6.2.4 A fábrica de Pólvora ............................................................................... 291
6.3 Arsenais provinciais ....................................................................................... 295
6.3.1 Arsenal do Pará....................................................................................... 298
6.3.2 Arsenal de Pernambuco .......................................................................... 300
6.3.3 Arsenal da Bahia ..................................................................................... 301
6.3.4 Arsenal de Mato Grosso ......................................................................... 302
6.3.5 Arsenal do Rio Grande do Sul ................................................................ 306
6.4 Algumas considerações preliminares............................................................. 308
7 O arsenal de Guerra do Rio de Janeiro como unidade administrativa.................. 314
7.1 História ........................................................................................................... 314
7.2 Estrutura administrativa ................................................................................. 326
7.2.1 A Junta dos Arsenais .............................................................................. 326
7.2.2 O novo regulamento, 1832 ..................................................................... 330
7.2.3 Preparo técnico da direção...................................................................... 334
7.2.4 O corpo de engenheiros .......................................................................... 337
7.2.5 As Comissões Prática de Artilharia e de Melhoramentos ...................... 340
7.2.6 A reforma de 1853 .................................................................................. 342
7.2.7 Os ajudantes............................................................................................ 343
7.2.8 Almoxarifado .......................................................................................... 347
7.2.9 O setor de Compras ................................................................................ 351
8 Uma manufatura, muitas oficinas. ........................................................................ 364
8.1 Oficinas existentes antes do regulamento de 1832. ....................................... 368
8.1.1 Abridores ................................................................................................ 368
8.1.2 Lavrantes ................................................................................................ 368
8.1.3 Fundição de artilharia ............................................................................. 369
8.2 Oficinas do regulamento de 1832 .................................................................. 370

IV
Sumário

8.2.1 Primeira classe: ....................................................................................... 371


8.2.1.1 Construção....................................................................................... 371
8.2.1.2 Carpintaria de obra branca .............................................................. 377
8.2.1.3 Torneiros ......................................................................................... 378
8.2.1.4 Tanoeiros ......................................................................................... 380
8.2.2 A segunda classe ..................................................................................... 381
8.2.2.1 Coronheiros ..................................................................................... 381
8.2.3 Terceira classe ........................................................................................ 383
8.2.3.1 Ferreiros .......................................................................................... 383
8.2.3.2 Serralheiros...................................................................................... 385
8.2.3.3 Espingardeiros ................................................................................. 386
8.2.4 A quarta classe ........................................................................................ 391
8.2.4.1 Latoeiros.......................................................................................... 391
8.2.4.2 Instrumentos Bélicos ....................................................................... 393
8.2.4.3 Funileiros ......................................................................................... 394
8.2.5 A quinta classe ........................................................................................ 395
8.2.5.1 Correeiros ........................................................................................ 395
8.2.5.2 Seleiros ............................................................................................ 396
8.2.5.3 Sapateiros ........................................................................................ 398
8.2.6 Sexta classe ............................................................................................. 398
8.2.6.1 Alfaiates .......................................................................................... 398
8.2.6.2 Bandeireiros .................................................................................... 400
8.2.6.3 Barraqueiros .................................................................................... 401
8.2.7 Sétima classe........................................................................................... 401
8.2.7.1 Pintores............................................................................................ 402
8.2.7.2 Escultores ........................................................................................ 403
8.2.7.3 Desenhadores .................................................................................. 403
8.2.7.4 Gravadores ...................................................................................... 405
8.2.8 Oficinas criadas depois de 1844 ............................................................. 406
8.2.8.1 Instrumentos matemáticos ............................................................... 406
8.2.8.2 Maquinistas ..................................................................................... 408
8.2.8.3 Troço ............................................................................................... 410
8.2.8.4 Pedreiros.......................................................................................... 411
8.3 Remadores...................................................................................................... 412
8.4 A Repartição de Costuras............................................................................... 412
8.5 Mecanização das oficinas .............................................................................. 419
8.6 Notas sobre as oficinas................................................................................... 423
9 Repartições Externas ............................................................................................ 428
9.1 O laboratório do Castelo ................................................................................ 428
9.2 A Casa de Armas da Conceição. .................................................................... 431
9.2.1 Os armeiros alemães ............................................................................... 433
9.2.2 A Fábrica de Armas da Conceição ......................................................... 437
9.2.3 A Nova Fábrica da Conceição ................................................................ 445
9.3 A Oficina de foguetes/Laboratório Pirotécnico do Campinho ...................... 458
9.4 Um projeto de fábricas................................................................................... 468
10 Mão de obra em uma manufatura inserida numa sociedade escravista ................ 472
10.1 Artesões livres ................................................................................................ 472
10.1.1 O Construtor ........................................................................................... 475
10.1.2 Mestrança................................................................................................ 482
10.1.3 Oficiais e mancebos ................................................................................ 487

V
Sumário

10.1.4 Serventes e remadores ............................................................................ 499


10.1.5 Aprendizes .............................................................................................. 503
10.2 Os cativos ....................................................................................................... 510
10.3 A militarização da mão de obra ..................................................................... 526
10.3.1 Os Artífices ............................................................................................. 527
10.3.2 Aprendizes menores ............................................................................... 538
10.4 Breves considerações sobre o quadro de pessoal. .......................................... 548
11 Conclusão – uma tentativa malograda de incentivo manufatureiro...................... 552
12 Glossário: .............................................................................................................. 564
12.1 Nota sobre as fontes ....................................................................................... 564
12.2 A-E ................................................................................................................. 565
12.3 F-J. ................................................................................................................. 570
12.4 K-P. ................................................................................................................ 573
12.5 R-Z. ................................................................................................................ 575
13 Bibliografia. .......................................................................................................... 580
13.1 Livros. ............................................................................................................ 580
13.2 Fontes impressas. ........................................................................................... 588
13.3 Manuscritos. ................................................................................................... 595
13.4 Legislação ...................................................................................................... 615
13.5 Obras não impressas. ..................................................................................... 618

VI
Sumário

Índice de figuras

Figura 1 – Caricatura de Benedito Calixto. ...................................................................... 5


Figura 2 – Planta do atual conjunto do Museu Histórico Nacional. ................................. 7
Figura 3 – Planta da Fábrica de Pólvora da Bahia, 1751................................................ 11
Figura 4 – Companhia de infantaria em linha. ............................................................... 88
Figura 5 – Treinamento de um arcabuzeiro. ................................................................... 89
Figura 6 – Plano de baluartes e ataque a uma brecha. .................................................... 93
Figura 7 – Distribuição das forças militares no Brasil. ................................................ 132
Figura 8 – Soldados equipados, 1850. .......................................................................... 138
Figura 9 – Reconstituição da Casa dos Pilões .............................................................. 153
Figura 10 – Loja de Sapateiro....................................................................................... 162
Figura 11 – Motor estático fabricado por Miers & Maylor. ......................................... 166
Figura 12 – Anúncio da manufatura de Costa & Braga. .............................................. 167
Figura 13 – Estaleiro da ponta Ponta de Areia, c. 1857 ............................................... 179
Figura 14 – Canhão feito na Fundição Ponta da Areia, 1857. ...................................... 181
Figura 15 – Peças de armamento e equipamento pedidas para Minas Gerais, 1766. ... 197
Figura 16 – Forte de Tabatinga, no Rio Amazonas, fronteira com o Peru. .................. 202
Figura 17 – Colagem de imagem de soldados de regimentos no Brasil. ...................... 204
Figura 18 – Preparo para a fundição de canhões. ......................................................... 209
Figura 19 – Fundição de canhões. ................................................................................ 210
Figura 20 – Acabamento das peças de artilharia. ......................................................... 211
Figura 21 – Fundição de Douai, c. 1770....................................................................... 211
Figura 22 – Croquis de um torno horizontal de canhões. ............................................. 214
Figura 23 – Manufaturas das forças armadas francesas antes de 1789. ....................... 215
Figura 24 – Reparo de varais do sistema Gribeauval. .................................................. 217
Figura 25 – Localização de oficinas em Saint-Étienne. ............................................... 221
Figura 26 – Oficina de um armeiro, 1718. ................................................................... 222
Figura 27 – Oficina de desbaste de canos, 1751........................................................... 224
Figura 28 – Peças de um fecho. .................................................................................... 226
Figura 29 – réplica de um torno copiador de Blanchard. ............................................. 249
Figura 30 – Conjunto de gabaritos de William Thornton. ............................................ 250
Figura 31 – Etapas da fabricação de espingardas, Arsenal de Springfield. .................. 252
Figura 32 – Planta do Arsenal de Marinha, Henry Law, 1858. .................................... 263
Figura 33 – Projeto para a Casa do Trem de Belém, 1686. Arquivo Ultramarino. ...... 272
Figura 34 – Detalhe do projeto da fábrica de ferro de Ipanema, 1810. ........................ 283
Figura 35 – Canhão fundido em Ipanema .................................................................... 284
Figura 36 – Distribuição de manufaturas militares, 1852-65. ...................................... 304
Figura 37 – Rotas de comunicação com Cuiabá........................................................... 306
Figura 38 – Detalhe da planta do Rio de Janeiro de 1758. ........................................... 316
Figura 39 – Projeto de expansão do Arsenal de Guerra, 1770. .................................... 321
Figura 40 – “Saracura” e carro alegórico das festividades. .......................................... 323
Figura 41 – Beco da Batalha......................................................................................... 325
Figura 42 – Detalhe de planta dos arredores do Arsenal, 1869. ................................... 334
Figura 43 – Arma selada. .............................................................................................. 361
Figura 44 – Desdobradores, Debret, 1822. ................................................................... 365
Figura 45 – Peça de 6 libras curta fundida no Arsenal do Rio de Janeiro em 1820. .... 370
Figura 46 – Plano do Arsenal Real do Exército, c. 1815.............................................. 374
Figura 47 – Duas fases da fabricação de reparos, Arsenal de Watervliet, EUA. ......... 376
Figura 48 – Planta (detalhe) da oficina de ferreiros, 1879. .......................................... 384

VII
Sumário

Figura 49 – Barretina do 21º Batalhão de Caçadores, c. 1850. .................................... 392


Figura 50 – Interior do antigo Arsenal, 1921. .............................................................. 397
Figura 51 – Detalhe de espingarda de brinquedo, 1834. .............................................. 406
Figura 52 – Vista da Casa de Armas da Colônia de Sacramento, Uruguai, 1735. ....... 431
Figura 53 – Plano da fortaleza da Conceição, 1771. .................................................... 433
Figura 54 – Estabelecimentos ligados ao AGC, 1851-1863. ........................................ 441
Figura 55 – Fechos de armas trabalhadas na Conceição. ............................................. 449
Figura 56 – Fecho transformado na Conceição, 1859. ................................................. 450
Figura 57 – Dois mosquetões Minié, do modelo adotado em 1857. ............................ 457
Figura 58 – Material necessário para fazer um cartucho de arma Minié, 1860............ 468
Figura 59 – Reparo a Onofre. ....................................................................................... 476
Figura 60 – Detalhe de gravura de Bertichen da entrada do Arsenal de Guerra, s.d.... 527
Figura 61 – Desenho da Semana Ilustrada, sobre os menores da Correção. ............... 544

VIII
Sumário

Índice de gráficos

Gráfico 1 – Evolução da população urbana versus a rural no Brasil. ............................. 39


Gráfico 2 – Valores da pauta de exportações brasileiras no período colonial. ............... 44
Gráfico 3 – Pauta de exportações no Império, por percentagem do total. ...................... 45
Gráfico 4 – Saldos e déficits do orçamento do Império. ................................................ 47
Gráfico 5 – Receita governamental no Brasil – 1823-1865. .......................................... 52
Gráfico 6 – Modelo dos ciclos de Kondratieff e de um índice econômico real. ............ 59
Gráfico 7 – Taxa de câmbio médio (mil réis por libra esterlina), 1808-1865. ............... 68
Gráfico 8 – Proporção geral das forças de combate norte-americanas (1917-2005)...... 82
Gráfico 9 – Navios enviados para as Índias – 1500-1580. ............................................. 95
Gráfico 10 – Aumento do exército francês até o século XIX. ........................................ 97
Gráfico 11 – Evolução dos efetivos do exército Português. ......................................... 112
Gráfico 12 – Quadro mostrando das guerras em território brasileiro. .......................... 118
Gráfico 13 – Distribuição da Guarda Nacional no Império.......................................... 120
Gráfico 14 – Tropas no Brasil, logo após a Independência. ......................................... 129
Gráfico 15 – Evolução dos efetivos do exército durante o império. ............................ 133
Gráfico 16 – Despesas militares no Império. ............................................................... 135
Gráfico 17 – Despesas do ministério da Guerra. .......................................................... 136
Gráfico 18 – Sumário dos privilégios industriais ......................................................... 157
Gráfico 19 – Evolução do pessoal do Estaleiro da Ponta da Areia. ............................. 176
Gráfico 20 – Produção de máquinas de costura da Wheeler and Wilson ..................... 253
Gráfico 21 – Percentuais das despesas dos Arsenais provinciais, 1850. ...................... 297
Gráfico 22 – Número de operários do AGC ao longo dos anos. .................................. 400
Gráfico 23 – Percentagem de serventes no corpo de trabalhadores do AGC. .............. 503

IX
Sumário

Índice de tabelas

Tabela 1 – População do Brasil em 1819. ...................................................................... 73


Tabela 2 – Quadro tamanho das armadas europeias, 1689-1815. .................................. 99
Tabela 3 – Despesa e receita da Inglaterra em tempo de guerra, 1688-1815. .............. 101
Tabela 4 – Parcelas relativas de produção manufatureira mundial 1750-1860. ........... 107
Tabela 5 – Níveis per capita de industrialização. 1750-1860 ...................................... 107
Tabela 6 – Estabelecimentos manufatureiros 1855 e 1856. ......................................... 160
Tabela 7 – Empresas estabelecidas no Rio de Janeiro.................................................. 163
Tabela 8 – Mapa do pessoal empregado no estaleiro da Ponta da Areia em 1848. ...... 177
Tabela 9 – Navios produzidos nos estaleiros do País. .................................................. 260
Tabela 10 – Funcionários do Arsenal de Marinha em 1845. ........................................ 264
Tabela 11 – Produção de ferro da Fábrica de Ipanema – 1823-1827. .......................... 282
Tabela 12 – Corpo funcional da Fábrica de Ferro de Ipanema em 1838...................... 288
Tabela 13 – Trabalhadores nas manufaturas do Exército em 1845. ............................. 308
Tabela 14 – Compras de armas pelo Arsenal de Guerra. ............................................. 357
Tabela 15 – Quadro de trabalhadores do Arsenal de Guerra da Corte em 1845. ......... 410
Tabela 16 – Profissionais necessários para uma fábrica de armas. .............................. 434
Tabela 17 – Operários alemães enviados para o Brasil em 1810. ................................ 438
Tabela 18 – Trabalhadores na Fábrica de Armas da Conceição em 1827. ................... 442
Tabela 19 – Relação do pessoal na Fábrica de Armas da Conceição, 1864. ................ 456
Tabela 20 – Pessoal das oficinas pirotécnicas do Campinho, 1861-1862. ................... 467
Tabela 21 – Tabela de jornais do AGC em réis, 1854. ................................................. 497
Tabela 22 – Tabela de vencimentos militares, 1852. ................................................... 498
Tabela 23 – Mapa da força das Companhias de Artífices do AGC 1842. .................... 536
Tabela 24 – Aprendizes menores empregados em oficinas em 1862. .......................... 547

X
Agradecimentos

Agradecimentos.

O autor dessas linhas não gosta de escrever agradecimentos. Isso não por que
não sejam devidos, mas por serem sempre injustos: é impossível em uma obra de grande
extensão fazer justiça, reconhecendo o trabalho de todos que apoiaram sua execução.
Neste caso, a situação é ainda mais complicada, considerando que a tese foi o resultado
de uma pesquisa iniciada há mais de trinta anos. Várias pessoas ajudaram nas institui-
ções de pesquisa como no Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional e Arquivo do Exérci-
to, um número difícil até de quantificar e impossível de nomear isoladamente.

Para manter uma tradição, no entanto, resolvi mesmo assim fazer uma declara-
ção de dívida a várias pessoas. Começo por minha família, especialmente meu pai, Jair
Homero, professor de história que apreciava assuntos ligados à história militar, mas não
o militarismo e que sempre incentivou a leitura, uma ferramenta indispensável para os
profissionais de nossa área. Foi seguindo o exemplo desse interesse que comecei a ler
cada vez mais sobre o tema e o que me levou a ter meu primeiro emprego, ainda antes
de entrar na universidade. Nesse, trabalhei com a pesquisa histórica sobre uniformes
militares da América do Sul para uma companhia irlandesa que fabricava soldadinhos
de chumbo, mostrando o caminho dos estudos de história material.

Isso me levou a meu segundo emprego, ainda na área de pesquisa de história, só


que com fortificações, sob a chefia de Diocleciano Azambuja. Um excelente amigo e
que incentivou a ampliar os conhecimentos específicos para a execução do trabalho que
estava sendo feito, sobre a história das fortificações brasileiras. Um projeto que desen-
volvo até os dias de hoje, deixando aqui meu agradecimento a ele e aos colegas do ex-
tinto Grupo de Pesquisas de Fortificações Tombadas, da Fundação Pró-Memória.

Na lista de dívidas, que estou tratando de forma abreviada, devo deixar meu tri-
buto de gratidão aos colegas do Museu Histórico Nacional, especialmente aos da Reser-
va Técnica. Entre todos eles, seleciono o nome de Juarez Guerra, com quem conversei
muito sobre o trabalho de catalogação de armas. Ele ajudou na redação desse texto, pro-
curando, encontrando e dando acesso às peças que precisava para ilustrar alguns pontos
da tese, algumas delas que me lembrava apenas vagamente de existir entre as dezenas
de milhares de objetos da variadíssima e estranha coleção do Museu.

XI
Agradecimentos

Também prestaram uma valiosa ajuda dando acesso às suas armas históricas os
colecionadores Sebastião Oliveira e Carlos Almeida Costa. Ambos possuem excelentes
coleções, com peças que não estão disponíveis em museus oficiais. Sebastião Oliveira,
além da troca de ideias sobre o tema, prestou o imenso favor de desmontar algumas de
suas armas, para poderem ser examinadas para a redação desta tese, algo que só poderia
ser feito em um museu público com imensa dificuldade, nem que seja pelo fato dos mu-
seus, normalmente, não terem as ferramentas adequadas para fazer essa desmontagem.

Voltando ao Museu Histórico, lá trabalhei com o amigo José Neves, também in-
teressado em história militar e com quem mantenho até hoje conversas sobre um tema
que é pouco conhecido e desenvolvido no Brasil. José Neves até auxiliou diretamente
nessa tese, como pode ser visto na fotografia da “Saracura” do mestre Valentim, uma
escultura de bronze que se encontra no Museu da Cidade do Rio de Janeiro e que ele
encontrou e deu acesso durante sua passagem por aquela instituição, há mais de vinte
anos atrás.

Aos colegas do IPHAN agradeço a compreensão por terem convivido com uma
pessoa que trabalha, por opção, com um assunto estranho e por terem aceitado a incor-
poração de algumas ideias na mecânica de trabalho da instituição. Infelizmente não pos-
so estender esse agradecimento a todos os chefes: alguns apoiaram a pesquisa direta-
mente, outros só merecem um “agradecimento” às avessas, por trem abandonado o setor
onde trabalhava – às vezes por anos. Isso deu tempo para a execução das pesquisas.
Nesse número de maus funcionários, não incluo Monica Costa, a quem agradeço por
rapidamente liberar a licença para completar esse trabalho. Isso depois do pedido ter
ficado parado mais de um ano e meio na mesa do chefe anterior, sem resposta, positiva
ou negativa. Coisas do serviço público.

Não posso deixar de mencionar Márcia, a secretária do programa de pós-


graduação em história comparada da UFRJ, por sua inacreditável paciência e eficiência
em resolver todos os problemas criados por mim ao longo do curso. Sem esse auxílio, o
presente trabalho não teria sido possível.

Para encerrar esses agradecimentos, deixo registrada minha dívida com Carlos
Eugênio, por discutir por horas e horas esse assunto tão árido, dando sugestões que en-
riqueceram o trabalho. Também noto minha gratidão para com Flávio Gomes, colega
desde os bancos da graduação, que acolheu a proposta de orientar essa tese tão fora da

XII
Agradecimentos

normalidade dos trabalhos acadêmicos, aceitando os muitos atrasos e percalços criados


ao longo da escrita dessa tese.

Há problemas no texto, tudo por minha culpa. Não foram causados por falta de
apoio dos amigos, para quem termino escrevendo: obrigado!

XIII
Resumo

Resumo

Este trabalho faz um levantamento dos modelos explicativos clássicos – isto é, aqueles
que procuraram elucidar de forma geral a história nacional através de sua formação
econômica até a segunda metade do século XIX. A partir desse levantamento, aponta-
mos que ponto normalmente ignorado, mas que não é irrelevante, o papel das forças
armadas como criadores de uma demanda de fornecimento de produtos manufaturados,
levando ao surgimento de vários estabelecimentos especializados no atendimento das
necessidades das forças armadas. Vamos então tratar como algumas dessas instalações
se organizavam até o século XIX, numa situação que pode ser chamada de pré-indústria,
ou seja, quando não havia ainda ocorrido a transição para a fábrica moderna. Mesmo
assim, essas manufaturas militares estiveram à frente do processo de mudança da situa-
ção de manufatura para instalações fabris, com maior ou menor sucesso, na França, In-
glaterra e Estados Unidos. No caso do Brasil, entre essas manufaturas militares, desde o
século XVII, se encontravam vários estabelecimentos, os mais relevantes sendo os
trens, organizações destinadas ao fabrico e armazenamento de equipamentos bélicos, o
maior e mais relevante de todos sendo o do Rio de Janeiro, que se tornaria no Arsenal
de Guerra do Rio de Janeiro. A partir desses elementos podemos traçar uma comparação
entre uma situação pouco estudada, a das manufaturas militares – com base no Arsenal
do Rio –, com a apresentada nos modelos explicativos tradicionais da historiografia
brasileira, centrados em aspectos de econômicos da dependência de uma economia agrá-
ria, baseada em uma mão de obra pouco qualificada, a escrava. A proposta governamen-
tal no Brasil da primeira metade do século XIX, entre outros aspectos, era usar essas
manufaturas para criar uma base de industrialização para o País, seguindo um processo
que foi adotado nos Estados Unidos no mesmo período, mas com resultados muito dife-
rentes para o Brasil.

XIV
Abstract

Abstract

The present thesis makes a study of the classical explicating models of Brazilian history
– that is, those that envision elucidating the national history in general, through the eco-
nomic structures of the country up to the second half of the 19th Century. From this
study, we make a note about a question that usually is ignored, but should not be con-
sidered irrelevant, the role of the armed forces as originators of demands for the provi-
sion of manufactured goods. Those demands resulted in the creation of various manu-
facturing plants specialized in the supply of the needs of the armed forces. From those
starting points we will study how some of those installations organised themselves up to
the 19th century, in a situation that can be called pre-industrial, a moment when the tran-
sition from manufacture to modern industry had not occurred yet. Even so, those army
suppliers were in the forefront of the process of changing the production organization,
from one based in artisanal manufactures to the modern factory. This process had vary-
ing degrees of success in France, United Kingdom and the United States of America. In
the case of Brazil, among the military manufactures there were many army plants, the
most important being the trens, organizations created to make and store military equip-
ment, the biggest of all being the Trem of Rio de Janeiro, that would became the Arse-
nal de Guerra do Rio de Janeiro [Rio de Janeiro Army Arsenal]. From these elements,
we can trace a comparison between a understudied situation, the one of the military
manufactories – concentrating in the Rio de Janeiro Arsenal –, with the one presented
by the traditional explicating models created by the Brazilian historiography, centred in
aspects of economic history of an dependent agrarian economy, based on the use of an
unqualified workforce – the slave labour. The government proposal in the first half of
the 19th century, among other aspects, was to use those military manufactories to create
an industrialization base in the country, following a process that was adopted in the
United States of America in the same period, but with much different results.

XV
Introdução

Sumário
1. Introdução
1.1. Proposta
1.2. Quadro teórico
1.3. Metodologia
1.4. Plano da obra
1.5. Passos tomados

1
Introdução

1. Introdução

O presente trabalho originou-se de uma necessidade eminentemente prática: o


autor trabalhou por dez anos no Museu Histórico Nacional (MHN) em diversas ativida-
des. Uma dessas foi o estudo da história da instituição, situada no centro do Rio de Ja-
neiro, também realizando pesquisas sobre parte de seu acervo – entre o qual se inclui o
próprio prédio do conjunto.1 Para se ter uma noção da relevância disso, deve-se dizer
que o museu foi fundado em 1922 no antigo complexo de prédios da Casa do Trem2 e
do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro. Este conjunto, segundo a historiografia, teve
sua construção iniciada em 1762 para abrigar a principal manufatura3 do exército, vol-
tada para o fornecimento de material bélico para aquela força. A manufatura continuaria
a ocupar as instalações até 1903, quando foi transferida para o bairro do Caju, subúrbio
da cidade.

Depois de um curto período sem uso militar maior, o grande conjunto de edifí-
cios – que no início do século XX ocupava toda a ponta do Calabouço e boa parte do
bairro da Misericórdia – foi aproveitado em 1922 para ser parte das festividades da Ex-
posição Internacional do Centenário da Independência e parte dessa adaptação incluía a
criação de um Museu Histórico. Este seria o primeiro a ter um caráter genérico no cam-
po com uma abrangência nacional: antes da sua criação já havia alguns museus históri-
cos, como o do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, particular, ou os museus do
Exército e da Marinha, mas esses últimos eram monográficos, ligados às duas forças
armadas. O Museu Paulista se aproximava muito da proposta do MHN, mas era uma
instituição estadual.

O Museu Histórico, que ao ser criado era muito pequeno, abrangendo apenas
duas salas do antigo complexo do Arsenal, teve em suas origens algumas condicionan-

1
Esse entendimento foi consagrado em 1998, quando o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o prédio e acervo do Museu Histórico Nacional, o
prédio sendo considerado como parte da coleção museológica. Ver: BRASIL – Instituto do Patrimô-
nio Histórico e Artístico Nacional. Processo de tombamento 1.392-T-97, Prédios do Museu Histórico
Nacional e Coleções que ali se abrigam, com exclusão da Coleção Bibliográfica. Arquivo Noronha
Santos, IPHAN. (mimeo.)
2
No final do trabalho incluímos um glossário com os termos e conceitos usados na presente tese, estes
estando marcados em itálico no texto.
3
Entende-se manufatura, no sentido estrito, como um local concentrado onde produtos são fabricados a
mão, isto é, sem o uso de máquinas. Difere da oficina por os meios de produção não pertencerem aos
trabalhadores. MARX, Karl. Capital. London, Encyclopaedia Britannica, c. 1952. Edição completa e
comentada p. 164.

2
Introdução

tes que hoje seriam consideradas como exóticas: a formação do acervo por parte de seu
primeiro diretor, Gustavo Dodt Barroso, foi direcionada por suas ideias e pelo poder que
lhe foi concedido pelo presidente Epitácio Pessoa.4

Gustavo Barroso nasceu em 1888 e era advogado, escritor e jornalista, sendo


eleito deputado federal pelo Ceará em 1915. O intelectual cearense era amigo do presi-
dente Epitácio Pessoa, pois fora secretário da delegação brasileira à Convenção de Ver-
salhes, em 1919, chefiada pelo futuro mandatário nacional. 5 Já antes disso vinha bata-
lhando por um museu voltado para assuntos militares no País, tendo escrito um artigo
no Jornal do Comércio de 1911, com o título de “Museu Militar”, defendendo a criação
de uma instituição voltada para a preservação do passado pátrio, do ponto de vista mar-
cial. 6

A proposta de criação não foi adiante naquele momento, tendo sido reiterada em
outros textos do mesmo autor, reproduzidos no livro Ideias e Palavras,7 de 1917, pois
Barroso tinha um forte interesse no campo da história militar. Fora o defensor de que o
1º Regimento de Cavalaria passasse a usar um uniforme histórico baseado na Imperial
Guarda de Honra e passasse a ser chamado de Imperial Guarda de Honra,8 o que acon-
teceu justo em 1922, ano das comemorações do centenário da Independência. Naquele
ano ele também lançou, junto com Washt Rodrigues, o livro Uniformes do Exército
Brasileiro,9 obra que ainda hoje é referência sobre o assunto, apesar do mérito disso
recair mais sobre o trabalho de pesquisa e de ilustração de Rodrigues.

Mais tarde, Barroso se tornou um autor prolifico de livros – escreveu 128 deles,
muitos dos quais voltados para a crônica de assuntos bélicos. Não eram obras de história
propriamente dita, misturavam fantasia com fatos, sem citar referências, mas no contex-

4
Ver: BRASIL – Decreto nº 15.596, de 2 de agosto de 1922. Cria o Museu Histórico Nacional e aprova
o seu regulamento. Ver especialmente o artigo 83, que autoriza o recolhimento de acervos de outras
instituições federais.
5
ABREU, Regina. A fabricação do imortal: memória, história e estratégias de consagração no Brasil.
Rio de Janeiro: Lapa: Rocco, 1996. pp. 107 e segs.
6
DUMANS, Adolpho. A ideia de Criação do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpi-
ca, 1947. p. 98.
7
BARROSO, Gustavo. Ideias e Palavras. Rio de Janeiro, Leite Ribeiro e Maurilio, 1917.
8
Id. pp. 27 e segs. Este é um caso explícito de construção de uma memória, já que a Imperial Guarda de
Honra nunca foi uma tropa do exército, pertencendo à casa Imperial, até sua extinção em 1831, na
Regência. Além disso, o uniforme histórico da unidade é de 1825, não tendo relação direta com a In-
dependência. Finalmente, a unidade nunca foi de dragões, infantaria montada, sendo de cavalaria pe-
sada – a única do tipo a existir no Brasil.
9
BARROSO, Gustavo Dodt & RODRIGUES, Washt. Uniformes do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1922.

3
Introdução

to da época tinham forte apelo popular por sua temática extremamente ufanista e nacio-
nalista. Nesse sentido, não podemos deixar de mencionar que Gustavo Barroso foi um
dos ideólogos do integralismo e chefe da milícia do partido, além de ser o maior autor
do antissemitismo brasileiro. Foi o tradutor da edição brasileira do folheto “Os protoco-
los dos sábios do Sião”, 10 um falso plano judeu para domínio do mundo, forjado no iní-
cio do século XIX na Rússia – isso além de escrever outras obras nessa linha. Apesar
disso, e de suas ligações com os políticos da “República Velha”, ele teve uma imensa
resiliência política, conseguindo sobreviver na direção do Museu mesmo em face de
fortes mudanças do poder, como a Revolução de 1930, a Intentona Integralista de 1938
e a redemocratização de 1945, perdendo seu cargo por apenas curtos períodos e efeti-
vamente permanecendo na direção da Instituição até sua morte, em 1957.

Desta forma, apesar do mundo ter passado por um momento traumático, a 1ª


Guerra Mundial, quando toda uma geração fora massacrada nas trincheiras europeias, e
que afetou a forma como a história era escrita – na França, é o momento do surgimento
da escola dos Annales, que se preocupava em ir contra a história nacionalista do século
XIX –, isso não se refletiu na historiografia apresentada nas exposições do Museu His-
tórico. O projeto do diretor da instituição era a de criação de um museu voltado para a
glorificação do passado bélico brasileiro e, desta forma, com o apoio da presidência da
República, ele conseguiu reunir uma grande quantidade de peças museológicas ligadas a
sua ideia, como o acervo do antigo Museu de Artilharia ou as armas da coleção Victor
Meirelles, que estavam na Escola Nacional de Belas Artes e que tinham sido usadas
pelo pintor nos seus estudos para a preparação de quadros famosos, como a Batalha de
Guararapes. O mesmo aconteceu com o Museu Naval, extinto em 1932 e incorporado
ao MHN. 11 Vale ressaltar que, mesmo considerando que as décadas de 20 e 30 seriam
de crise política e econômica, Barroso conseguiu créditos extras para fazer a compra de
objetos preservados por particulares, muitos deles voltadas para o patrimônio das forças
armadas, como a coleção de armas de José Washt Rodrigues.

O resultado é que, mesmo com a mudança nos modelos museológicos e historio-


gráficos que se consolidaram no Brasil após a década de 1960, as coleções feitas por
Barroso são numericamente muito importantes – milhares de objetos – e apesar de ser
uma instituição civil, não há outro acervo militar semelhante no País em termos de

10
OS PROTOCOLOS dos Sábios do Sião. São Paulo: Agencia Minerva. 1936.
11
O museu foi recriado quarenta anos depois, com um grande número de peças devolvidas pelo MHN.

4
Introdução

abrangência temporal e de qualidade. Esse material não é o mais o centro das exposi-
ções há décadas e as coleções como um todo hoje são muito variadas, incluindo desde
objetos de uso cotidiano, como eletrodomésticos, até ícones tradicionais da museologia
clássica, ligados aos “próceres nacionais” e aos grandes eventos. Dessa forma, o acervo
formado anteriormente à década de 1960, não poderia – nem deveria – ser descartado e
ignorado e o autor desse texto foi designado para estudar e catalogar a coleção de arma-
ria, que hoje se encontra quase toda em Reserva técnica, isto é armazenada, mas que
precisava ser processada para usos eventuais tendo em vista. Isso se fazia mais necessá-
rio quando vemos que Gustavo Barroso tinha formado o acervo visando uma determi-
nada posição historiográfica, como colocamos acima, em ocasiões falseando a interpre-
tação sobre as peças museológicas. Um exemplo disso são as peças das Guerras Holan-
desas usadas por Barroso em suas exposições. Estas incluíam algumas que ele sabia que
não eram do período, mas que foram “reclassificadas” como sendo pertinentes ao as-
sunto, para enriquecer as exposições do tema, caro à historiografia militar nacional.12
Isso já era percebido na época da fundação do Museu, como vemos na crítica de Calix-
to, na imagem abaixo (Figura 1). Para o museu, era preciso revisar a catalogação do
acervo.

Figura 1 – Caricatura de Benedito Calixto.


Alusiva à formação do acervo do Museu Histórico Nacional por Gustavo Barroso, com peças de questio-
nável valor histórico. No caso, cremos que Calixto, ele mesmo um autor de livros de história, referia-se
não há uma visão de sobre a existência ou não de um eventual valor histórico de cada objeto, mas sim a
postura do fundador do museu, de criar suas próprias interpretações, fossem estas baseadas em fatos ou
não, e difundir essas em seus livros. Fon-Fon, 1922. Arquivo do Museu Histórico Nacional.

12
Para uma discussão disso, ver o trabalho do autor da presente tese: Armas que documentam as Guerras
Holandesas: revisitando um texto dos Anais e uma coleção do Museu Histórico Nacional. Anais do
Museu Histórico Nacional n° 32, 2000.

5
Introdução

O relevante nessa discussão inicial é que no trabalho com as peças museológicas


recolhidas por Barroso, desde cedo percebemos que alguns pontos muito caros à histo-
riografia tradicional não combinavam com a situação real ilustrada pelos testemunhos
da cultura material preservados nas coleções do museu. Quando se fala na incapacidade
técnica e econômica para a criação de manufaturas no Brasil até a primeira metade do
século XIX, isso ignora a existência de uma série de peças fabricadas localmente, que
incluem até itens de extrema complexidade, como canhões, alguns deles experimentais13
(ver Figura 14). Isso seria, no mínimo, um indicativo de que o exército nacional não era
um simples comprador de produtos acabados importados, mas podia também os fabricar
e que procurava modelos próprios, para se adequar às necessidades brasileiras. Tal situ-
ação não se restringia a objetos do final do século XIX, mas alguns da primeira metade
daquele século, o que, como dissemos, nos levava a questionar os modelos de explica-
ção da situação econômica do Brasil em termos de uma situação de total desindustriali-
zação.

Outro aspecto que nos levou a conceber o tema da presente tese é o conjunto ar-
quitetônico do Museu – como dissemos, ele foi o antigo Arsenal de Guerra do Rio de
Janeiro, depois “da Corte”. Os edifícios que existem hoje, com 19.000 metros quadra-
dos, apesar de ocuparem uma imensa área (Figura 2), são apenas uma parcela reduzida
daqueles que compunham o conjunto original (ver Figura 42), já que muitos dos seus
prédios foram demolidos nas obras de preparação da Exposição Comemorativa do Cen-
tenário da Independência, para criar espaços abertos para ela.

Como parte de nossas atividades no MHN incluíam a pesquisa sobre o edifício, a


questão que se colocava imediatamente era o que teria impelido o governo colonial – os
primeiros elementos do conjunto de hoje datam de 1762, repetimos – e depois o Imperi-
al –, a fazerem investimentos tão grandes em uma instalação manufatureira, se a eco-
nomia do País era, supostamente, de subsistência e todos os produtos mais elaborados
deveriam ser importados?

13
No Museu há um canhão de alma oblonga, para disparar duas balas ao mesmo tempo, de invenção de
um operário do Arsenal, José Francisco Barriga, em 1856. CASTRO, Adler Homero Fonseca de &
ANDRADA, Ruth Beatriz S. Caldeira de. O pátio Epitácio Pessoa: seu histórico e acervo. Rio de
Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1993 (mimeo). Peça nº 015884 (ver Figura 14).

6
Introdução

Figura 2 – Planta do atual conjunto do Museu Histórico Nacional.


Contém suas principais ampliações que sobreviveram até os dias de hoje e servem para ilustrar o imenso
tamanho do complexo arquitetônico do Arsenal de Guerra já no século XVIII e as várias ampliações por
que o conjunto passou ao longo dos séculos.
Também consideramos válido apontar que um dos pontos da historiografia revi-
sionista das décadas de 1970 e 1980 é que a Guerra do Paraguai, o maior conflito da
história da América do Sul, teria sido originário de uma pressão inglesa para eliminar
uma possível competição paraguaia aos produtos manufaturados ingleses. 14 Entretanto,
os dados usados para sustentar essa hipótese, referente a uma suposta industrialização
paraguaia, mostram que aquele país tinha uma infraestrutura mínima em termos compa-
rativos com o Brasil de então, tornando toda a proposta risível, para dizer o mínimo.
Isso, contudo, não fica evidente na historiografia brasileira, que ignora as manufaturas
existentes no Brasil da época da guerra. Ou seja, o desconhecimento da situação real
propiciou a difusão de uma hipótese que não tem sustentação factual.

Consideramos essas colocações pertinentes, pois o setor público manufatureiro


não é muito trabalhado nos estudos de história econômica colonial ou da primeira meta-
de do século XIX – na verdade, é praticamente ignorado até o momento dos grandes
investimentos do Governo Vargas na indústria, em meados do século XX. Cremos parte
desta explicação pode ser vista nos modelos explicativos de origem marxista, voltados
para a questão da acumulação e reprodução do capital, pelos quais os envolvimentos

14
Esta tese foi inicialmente desenvolvida por POMER, León. A Guerra do Paraguai: a grande tragédia
rio-platense. São Paulo: Global, 1981 (primeira edição em espanhol de 1965). O livro mais difundi-
do no Brasil a defender esse ponto de vista é: CHIAVENATTO, Júlio José. Genocídio americano: a
Guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1987. A primeira edição da obra é de 1979 – houve, pe-
lo menos, 32 edições.

7
Introdução

governamentais não são considerados como relevantes ou eficientes,15 sendo ignorados,


mesmo quando conhecemos seu evidente impacto na economia e sociedade. Por exem-
plo, as forças armadas, seja de regulares ou de milícias, chegaram a corresponder até a
4% da população colonial16 e no início do Império essa proporção era de, pelo menos,
2,7% da população.17

Desta forma, a presença militar era certamente era uma questão presente e im-
portante no Brasil até a segunda metade do século XIX. Esta questão se torna mais visí-
vel quando se percebe que a percentagem de participação militar na população acima
citada desconsidera as crianças (abaixo de 14 anos), idosos (homens com mais de 50
anos), todas as pessoas de sexo feminino e os escravos. Levando essas parcelas em con-
ta, temos uma cifra em que um em cada quatro ou cinco adultos livres do sexo masculi-
no estava ligado à atividade militar. Pessoal que tinha que ser suprido de alimentação,
uniformes, armas e munições, mesmo que isso fosse feito de forma precária, pois de
outra maneira não teriam efetividade alguma como força militar – e a própria história
nacional, com seus vários conflitos, prova que o exército funcionava bem o suficiente
para garantir a existência do País.

Notamos que o papel dos militares com a sociedade é um ponto central de al-
guns estudos sobre a história recente do Brasil, em termos de intervencionismo dos mi-
litares, 18 mas esses se preocupam com a questão política, uma visão tradicional da histó-
ria. A “nova história militar”19 tem uma aproximação mais ampla, em se tratando do
efeito dos militares na sociedade como um todo e vice-versa. Consideramos essa apro-

15
Frisamos que aqui estamos falando em termos de acumulação do capital, algo que é restrito à iniciativa
privada.
16
NOGUEIRA, Shirley. Razões para Desertar: a institucionalização do Exército no Grão-Pará no últi-
mo quartel dos setecentos. Belém: UFPA, 2000. (Dissertação de mestrado). p. 59. Dados de uma sé-
rie de 1784-1794.
17
MAPA da força militar das províncias, incluindo-se o Rio de Janeiro. Sl [182_]. Supostamente 1825.
Mss. BN. II-30,28,001.
18
Há uma grande bibliografia sobre o tema, que foge ao nosso trabalho. Apesar de ser uma obra antiga,
pode-se consultar o levantamento crítico feito Edmundo de Campos: CAMPOS, Edmundo de. A Ins-
tituição Militar no Brasil. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais-BIB.
Rio de Janeiro, n. 19, 1.º semestre de 1985. pp. 5 e segs.
19
A nova história militar propõe-se a trabalhar com outros aspectos do envolvimento dos militares com a
sociedade que não o estudo das ações de combate. O termo se tornou popular por meio de dois li-
vros: BARATA, Manuel Temudo & TEIXEIRA, Nuno Severiano. Nova história militar de Portu-
gal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 (5 vols.) e, do mesmo ano, a obra: CASTRO, Celso; IZECK-
SOHN, Vitor; KRAAY, Hendrik. Nova história militar brasileira. Rio de Janeiro: Editora FGV,
2004. Não simpatizamos com o uso do termo, pois o mesmo teria sua definição baseada em um outro
conceito, qual seja, uma oposição a uma “velha história militar”, não tendo, portanto, significado por
si. Preferimos a prática inglesa, que chama o mesmo conceito de história social da guerra. A expres-
são, contudo, já se popularizou no uso da historiografia brasileira.

8
Introdução

ximação importante, pois é evidente que não se pode pensar o papel das forças armadas
como uma questão específica ou limitada aos períodos de conflito armado ou apenas ao
campo político. Tropas, equipamentos, fortificações e belonaves tinham que existir e ser
mantidas mesmo quando não havia uma guerra em andamento e isso envolvia um imen-
so aparato fiscal e logístico que não podia ser criado a partir do nada quando era neces-
sário. Há mesmo todo um campo de pesquisa, o ligado à teoria da “Revolução Militar”,
que aponta que a necessidade dos monarcas de obterem o monopólio da violência legí-
tima e a criação de exércitos permanentes e sua infraestrutura teria sido o elemento fun-
damental na formação dos estados nacionais.20

A ideia da Revolução Militar não se resume a isso, mas cabe apontar que antes
do período moderno (1452-1789) havia uma situação de extrema precariedade, na qual
os grandes proprietários de terras – e não os governos centrais – eram responsáveis por
todos os aspectos de sustento das forças envolvidas em uma campanha. A partir de en-
tão houve um processo de crescente envolvimento dos governos na montagem de es-
quemas em que a administração central assumia essas responsabilidades, inicialmente
com o fornecimento das munições, depois das armas, que passaram a ser padronizadas,
assim como o equipamento e a alimentação. Isso até chegar ao ponto do uso de fardas,
roupas uniformizadas, fornecidas pelo governo.

Neste caso, devemos lembrar que, ao contrário do que os filmes de Hollywood


mostram, o uso de fardas é muito recente, só se iniciando no século XVII e o processo
de uniformização das roupas de uso por militares de um país só tendo se concluído na
Primeira Guerra Mundial, em pleno século XX, com a adoção de vestimentas que pro-
curavam mimetizar o terreno. Na verdade, a padronização no equipamento das forças
armadas foi um processo básico que se estendeu, de forma geral do século XVI até o
XVIII, mas que não se encerrou naquela época. Até hoje ainda há uma preocupação das
lideranças em moldar não só a aparência externa dos homens alistados, mas até a sua
forma de pensar – e isso não sendo um entendimento restrito às ditaduras, pois mesmo
os exércitos de países democráticos dependem disso para funcionarem de forma regular.

Uma solução para fornecer os materiais padronizados, necessários para o funci-


onamento dos exércitos era tentar fazer com que os diversos fornecedores das forças

20
Para a questão do monopólio da violência, ver: WEBER, Max. Ensaios de Sociologia Rio de Janeiro:
Ed. Guanabara, 1982. p. 301 e segs. Sobre a revolução militar: ROBERTS, Michael. The Military
Revolution, 1560-1660. Belfast: Queen’s University, 1956.

9
Introdução

armadas produzissem equipamentos idênticos. Tal proposta era complicada por causa
dos problemas que isso implicava: não havia sequer unidades de medidas padronizadas
– o sistema métrico data da Revolução Francesa, antes disso cada país, às vezes cada
região de um mesmo país, usavam suas próprias medidas, incompatíveis com as dos
outros. Outra solução, que teve muita importância, foi a de concentrar a produção de
artigos militares em instalações manufatureiras governamentais, os Arsenais, que passa-
ram a adquirir grande importância em todos os países.

Em uma perspectiva comparativa, se o processo descrito acima é válido para as


forças armadas europeias, sempre nos perguntamos por que tal assunto, o do forneci-
mento de equipamentos militares não foi estudado no Brasil, levando em conta a evi-
dente importância dos assuntos bélicos na história do País nos quatro primeiros séculos
de sua existência. O fato é que, como dissemos, as forças armadas como uma forma de
mercado consumidor e, mais ainda, o papel das manufaturas do governo é praticamente
ignorado pela historiografia.

Há alguns trabalhos que tratam da história corporativa das instituições fabris mi-
litares, entre elas a Fábrica de Ferro de Ipanema (SP), administrada pelo Exército, sendo
um dos assuntos mais pesquisados, 21 mas a complexa rede das organizações de produ-
ção de artigos militares não é muito conhecida. Além das conhecidas Fábrica de Ferro e
Fábrica de Pólvora do Rio de Janeiro (inicialmente no Jardim Botânico, na Corte, de-
pois no município de Magé), tinha havido um estabelecimento de fabricação de Pólvora
em Salvador, no século XVIII 22 (ver Figura 3), sendo uma instituição que, ate onde sa-
bemos, não é citada em nenhum trabalho que trata da história da economia colonial, um
ponto importante, quando lembramos que a pólvora era um dos itens usados no escam-
bo de escravos na África.

A “Ribeira das Naus” da Bahia é outro elemento importante, normalmente rele-


vado na historiografia, apesar de ter sido instalada no século XVII e elevada à categoria

21
Podemos citar as obras de FELICÍSSIMO Jr. J. História da Siderurgia de São Paulo, seus persona-
gens, seus feitos. São Paulo: ABM, 1969. E SANTOS, Nilton Pereira dos. A Fábrica de Ferro de
Ipanema: economia e política nas últimas décadas do Segundo Reinado (1860-1889). Dissertação de
Mestrado. Universidade de São Paulo, 2009.
22
PLANTA, Perfil, fachada e a metade do telhado da casa, em que se fabricou a pólvora na Cidade da
Bahia. 1751. Mss. Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Lisboa. Cópia disponível no Arquivo do
IPHAN.

10
Introdução

de Arsenal de Marinha em 1714 – era uma das duas instalações do gênero em todo o
Império Português, o outro arsenal naval sendo o de Lisboa. 23

Também são desconsiderados pela historiografia os Arsenais do Exército do Pa-


rá,24 Pernambuco,25 Bahia, Rio de Janeiro (este divido em duas unidades, o Arsenal
propriamente dito e a Fábrica de Armas do Morro da Conceição), Rio Grande do Sul e
Mato Grosso 26 – na Revolução Farroupilha chegou a haver um Arsenal de Guerra rebel-
de, funcionando em Pelotas e, depois, em Caçapava.27

Figura 3 – Planta da Fábrica de Pólvora da Bahia, 1751.28


Esta instalação ficava no “campo dos Aflitos”, onde hoje se situa o quartel do Comando Geral da Policia
Militar da Bahia. Originalmente, no local havia uma Casa do Trem, substituído pelo prédio ilustrado,
construído em 1705. Depois o edifício voltaria a ser usada como Casa do Trem.

23
SELVAGEM, Carlos. Portugal Militar: compêndio de história militar e naval de Portugal, desde as
origens do estado Portucalense até o fim da Dinastia de Bragança. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 1991. p. 467. Deve-se dizer que havia outras instalações que construíam navios no Impé-
rio Português, como em Goa ou em outras capitanias do Brasil, mas essas não tinham o status de Ar-
senal.
24
Há um trabalho que trata tangencialmente do Arsenal de Guerra do Pará, sob o ponto de vista dos Afri-
canos livres: BEZERRA NETO, José Maia. O africano indesejado. Combate ao tráfico, segurança
pública e reforma civilizadora (Grão-Pará, 1850-1860). Afro-Ásia, nº 44, 2011.
25
Deve-se dizer que o Arsenal de Pernambuco é um dos com mais trabalhos acadêmicos, podendo-se
citar a dissertação de mestrado: CATARINO, Acácio José Lopes. Da oficina ao Arsenal: Estado e
redefinições urbanas no limiar da descolonização. Recife: UFPE, 1993. De forma mais resumida,
também há: VIEIRA, Hugo Coelho. Aprendizes castigados: a infância sem destino nos labirintos do
arsenal de guerra - 1827-1835. https://goo.gl/LwvuJa (acesso em outubro de 2015).
26
Há um trabalho interessante sobre os aprendizes menores do Arsenal de Mato Grosso: CRUDO, Matil-
de Araki. Infância, trabalho e educação : os aprendizes do Arsenal de Guerra de Mato Grosso
(Cuiabá, 1842-1899). Campinas: Unicamp, 2005. (tese de doutorado).
27
REPÚBLICA Rio Grandense – Regulamento para a administração geral do Comissariado de víveres e
transportes do exército republicano Rio-Grandense. Título II. Anais do Arquivo Histórico do Rio
Grande do Sul. Porto Alegre, 1980. vol.V. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1981. 5. Cole-
ção Alfredo Varela. Correspondência ativa. p. 69 e segs.
28
PLANTA, Profil (1751), op. cit.

11
Introdução

A série de manufaturas militares continua, havendo ainda os Arsenais de Mari-


nha do Pará, Pernambuco, Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Alagoas e
Rio Grande do Sul; os Laboratórios Pirotécnicos, em todas as províncias; a já mencio-
nada Fábrica de Armas da Conceição e a Oficina de Foguetes, no Rio de Janeiro. 29 Por
essa época – meados do século XIX – praticamente todas as províncias tinham seus la-
boratórios pirotécnicos e depósitos de artigos bélicos, onde eram feitos reparos em ar-
mas, apesar desses dois tipos de instalação, na maior parte dos casos, serem de pequeno
porte. Passando quase despercebidas são as fábricas de armas em São Paulo e Minas
Gerais, que são mencionadas na legislação e em livros de cronistas, mas sobre as quais
as informações são, para todos os efeitos, inexistentes.30

As obras de maior fôlego tratando das manufaturas do governo que existem fo-
ram escritas há muito tempo, seguindo padrões que hoje não se adequam à norma aca-
dêmica. É o caso da obra de Juvenal Greenhalgh, 31 um oficial que tratou do Arsenal de
Marinha do Rio de Janeiro, escrevendo mais uma crônica do que um trabalho de caráter
histórico e mesmo assim, com falhas e lapsos de informação. Outra obra sobre arsenais
é a de Pimentel Winz, a História da Casa do Trem, 32 que trabalha com a descrição dos
fatos em torno do conjunto arquitetônico do Museu Histórico Nacional e suas proximi-
dades, usando uma grande quantidade de fontes – o livro tem 677 páginas, justamente
por causa da reprodução integral de dezenas de documentos.

Nenhum dos dois livros acima procura fazer uma interpretação da história das
instalações inseridas em um contexto maior, tanto em termos de história regional ou
nacional. Também não fazem uma crítica sobre os conceitos universalmente aceitos pela

29
Os laboratórios Pirotécnicos do Castelo e do Campinho (originalmente, a Oficina de Foguetes), assim
como a Fábrica de Armas da Conceição foram subordinados ao Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro.
Para um estudo da Oficina de Foguetes, há nosso trabalho: Os primórdios da Indústria aeroespacial
no Brasil – o foguete de Halle do Museu Histórico Nacional. Anais do Museu Histórico Nacional
n° 34, 2002.
30
Alice Canabrava cita os decretos de 13 de maio de 1810, 12 de novembro de 1811 e a carta régia de 24-
1-1812, que tratam da Fábrica de Canos de Espingarda, CANABRAVA, A. P. Manufaturas e indús-
tria no período de D. João VI no Brasil. IN: PILLA, Luiz (org.). Uma experiência de intercâmbio
cultural. Porto Alegre: Universidade do Rio Grande do Sul, 1963. p. 166. Enquanto Saint-Hilaire tra-
tou brevemente da Fábrica de Armas de São Paulo. SAINT-HILAIRE, Augusto de. Viagem à Pro-
víncia de São Paulo e resumo das viagens ao Brasil., Província Cisplatina e missões do Paraguai.
São Paulo: Livraria Martins, 1972. p. 163. Mas os dados sobre essas instituições são sumaríssimos.
Ver também: CANABRAVA, op. cit.
31
GREENHALGH, Juvenal. O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História: 1763-1822. Rio de
Janeiro: Editora a Noite, 1951. Fazemos a ressalva que só depois de concluída nossa pesquisa toma-
mos conhecimento da obra: MALVASIO, Ney Paes Loureiro. Distantes estaleiros: arsenais de ma-
rinha e a reforma naval pombalina. São Paulo: Paco editorial, 2012.
32
WINZ, Pimentel. História da casa do Trem. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1962.

12
Introdução

historiografia, apesar das instituições estudadas obviamente não se encaixarem nesses


conceitos – são livros que refletem o momento histórico em que foram feitos e das habi-
litações de seus autores, que não eram ligados à academia (Winz, funcionário do MHN,
depois passou a ser sócio do IHGB), não escreviam pensando nela e sim em um público
mais amplo.

Desta forma, consideramos que há uma oportunidade de se fazer uma ligação do


nosso trabalho no Museu Histórico Nacional, com um assunto que consideramos como
inédito. Para isso apontamos uma visão que cremos ser intrigante, pois é ignorada pela
historiografia: o papel do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro como instalação manufa-
tureira do governo na primeira metade do século XIX, numa perspectiva de história
comparada.

1.1 Proposta
Conforme escrito acima, ainda não foi feito um estudo aprofundado sobre as ins-
talações fabris/manufatureiras do governo, pelo menos no que tange ao século XIX.
Entretanto, o número delas era muito grande – no levantamento que fizemos, apenas
tratando das instalações diretamente administradas pelas forças armadas, essas excedem
o número de vinte, algumas de porte muito grande. Esse número não inclui as empresas
civis relacionadas diretamente ao suprimento da atividade militar, mas que não eram
administradas pelas forças armadas, como as Fábricas de Armas das províncias e até
instalações que seriam consideradas inteiramente privadas, mas que se atrelavam a um
projeto de incentivo industrial do governo. Um exemplo dessas seriam as manufaturas
de algodão, as quais receberiam incentivos na forma de compras obrigatórias de tecidos
para as tropas.33

Outro problema desta temática, além de sua complexidade, é sua extensão cro-
nológica: o papel do governo na manufatura de artigos militares se iniciou, até onde
podemos constatar, com a fundição de canhões de Olinda, que funcionou naquela cidade
nas primeiras décadas do século XVII. 34 Apesar daquela instalação não ter sido bem

33
PORTUGAL – Alvará de 28 de abril de 1809. Isenta de direitos as matérias primas do uso das fabri-
cas e concede outros favores aos fabricantes e da navegação Nacional. Inciso III: “Todos os farda-
mentos das minhas Tropas serão comprados ás fabricas nacionais do Reino, e ás que se houverem de
estabelecer no Brasil”.
34
MORENO, Diogo de Campos [suposto autor]. Livro que dá razão ao Estado do Brasil. Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro, 1969. Edição fac-similar de manuscrito de 1612, sem numeração de pá-
ginas.

13
Introdução

sucedida, não houve uma solução de continuidade na atividade como um todo: há men-
ções à existência de Casas do Trem ao longo dos séculos XVII e XVIII, bem como a
outras instalações, como a já citada Fábrica de Pólvora de Salvador. O marquês de
Pombal implantou no Brasil uma rede de trens, com instalações no Rio de Janeiro, Ba-
hia, Pernambuco e Pará. Dessas bases, o esforço fabril das forças armadas continuou a
ser importante até a década de 1970.

A quantidade de fontes sobre essas manufaturas é muito grande, especialmente


considerando a disponibilização de fundos arquivísticos que ocorreu na última década,
com a internet. São centenas e centenas de documentos, que não tratam apenas das ma-
nufaturas em si, mas do suprimento das forças armadas e que nos trazem informações
sobre a estrutura produtiva criada para atender às necessidades bélicas das administra-
ções militares, portuguesa e do Brasil.

Desta forma, tornava-se óbvio que um estudo que procurasse abarcar em pro-
fundidade toda a complexidade da história das manufaturas e fábricas do exército estaria
fadado ao fracasso, devido à complexidade e extensão do tema. Era necessário estabele-
cer recortes temporais e espaciais que permitissem uma análise de fenômenos nacionais
a partir de estudos mais objetivos, refletidos em um tema mais limitado, o Arsenal de
Guerra.

Entretanto, deparamo-nos com um problema que é o referente às fontes: essas


são numerosas e volumosas, mas não se pode dizer que formam um corpo documental
homogêneo e compacto: os documentos estão espalhados por vários arquivos e institui-
ções e houve consideráveis perdas de material ao longo dos anos, criando fundos irregu-
lares em seu conteúdo. Estes, em nossa opinião não permitem o estudo de um tema mui-
to específico, como a formação da mão de obra dentro das manufaturas militares. Mes-
mo algumas instalações complementares menores, como a oficina de foguetes, não dis-
põem de arquivos completos o suficiente para se fazer um estudo conclusivo. Isso foi
reconhecido já no século XIX, quando os textos oficiais falavam nas “escriturações e
ajustes de contas que, em consequência do atropelo que houve, ficaram em tal estado de
atraso e confusão, que só muita paciência e perseverança poderiam remediar,”35 se refe-
rindo ao período da Guerra do Paraguai. Como já tínhamos levantado a história e a do-

35
BRASIL – Laboratório Pirotécnico do Campinho. Relatório da Diretoria do laboratório Pirotécnico do
Campinho relativo ao ano de 1872. Augusto Fausto de Souza, Capitão Diretor Interino. Rio de Ja-
neiro, 13 de fevereiro de 1873. Mss. ANRJ, GIFI OI 5B 267.

14
Introdução

cumentação sobre o Arsenal de Guerra, mesmo com todas as suas falhas, parecia-nos
que a escolha dessa instalação específica parecia ser óbvia, constituindo-se assim um
primeiro recorte dentro do conjunto de manufaturas militares.

Outra escolha necessária de se estabelecer era a temporal – em uma primeira op-


ção, gostaríamos de ter trabalhado com o Arsenal no período Colonial, por ser um caso
que consideramos mais marcante de exceção à linha de um modelo explicativo da histó-
ria econômica do Brasil. Infelizmente, isso apresenta suas próprias dificuldades, a maior
delas sendo a irregularidade das fontes disponíveis, muito esparsas. É possível que em
Portugal haja mais dados, mas isso não era uma hipótese que pudesse ser verificada a
priori, por causa da dificuldade de acesso aos arquivos militares de lá. Aqui cremos que
vale mencionar um caso de natureza anedótica: na década de 1980 um particular ofere-
ceu à venda no Museu Histórico Nacional um documento de 94 páginas36 contendo uma
relação de tudo o que foi fornecido pelo Arsenal do Rio de Janeiro de 1769 até 1777,
um período crítico, por englobar as Guerras no Sul do País. Não encontramos outras
cópias de tal documento, que consideramos ter sido extraído de um arquivo oficial e sua
própria existência seria desconhecida, se não fosse o acesso que tivemos a ele na ocasi-
ão de sua oferta ao museu, quando o fotografamos. Infelizmente, essa situação de extra-
vio, longe de ser a exceção, parece ser representativa da situação dos arquivos sobre
assuntos militares no Brasil.

Sendo assim, e considerando que o fundo documental mais rico que encontra-
mos é o da série Arsenal de Guerra do Arquivo Nacional (IG7) e que este fundo concen-
tra-se no período posterior à chegada da família Real e, mais especificamente, após a
criação da Junta da Fazenda dos Arsenais, Fábricas e Fundição, pelo alvará de 1º de
março de 1811, nossa opção foi escolher o ano de 1808 como o momento inicial de nos-
sa pesquisa no que tange especificamente ao Arsenal. Isso permite trabalhar com uma
situação onde o País ainda se encontrava no período colonial tanto em termos formais
como políticos.

O recorte final seria um problema mais complexo, pois há uma série de fatos
marcantes que aconteceram do Brasil que poderiam ser usados como marcos delimita-

36
SILVA, Crispim Teixeira, Sargento Mor Intendente. Relação das Obras, Munições e mais Petrechos
que se tem feito no Trem de S. Majestade Fidelíssima do Rio de Janeiro, no tempo Governo do Il.mo e
Ex.mo Sr. Marquês do Lavradio Vice Rei e Capitam General de Mar e Terra do Estado do Brasil,
continuado de 31 de outubro de 1769, até 31 de Agosto de 1776. Mss. Coleção Particular.

15
Introdução

dores: a Independência (1822) e a consequente autonomia política; a Regência (1831),


com a proposta de redução das forças armadas; ou o período de 1850, com o fim do
tráfico de escravos e a redução no uso de cativos no Arsenal no ano anterior. Preferi-
mos, contudo, usar um recorte mais amplo, indo até 1864, excluindo o ano inicial das
operações da Guerra do Paraguai, 1865.

Os motivos para a escolha de um período tão amplo são diversos, mas um dos
principais é o relativo à base documental. Trabalhar com um período mais curto impli-
caria em fazer um estudo não tão completo quanto o consideraríamos desejável, já que a
própria complexidade administrativa do Arsenal de Guerra aumentou ao longo dos
anos, com uma crescente produção de documentos que esclarecem a forma de funcio-
namento do sistema. Na verdade, ao longo da redação desta tese vimo-nos forçados a
tratar de assuntos vários de períodos anteriores ao recorte acima, para poder contextua-
lizar o tema, especialmente quando falamos nos termos de nossas comparações.

O ano de 1864 parece ser uma escolha necessária. Por um lado, a produção de
material bélico cresceu de forma exponencial a partir daquele ano, de forma que seria
complicado trabalhar com o que aconteceu durante o conflito (1865-1870) – este pode-
ria ser, por si, o objeto de uma dissertação de mestrado ou mesmo um trabalho de dou-
torado, pela complexidade dos acontecimentos e seus efeitos na sociedade brasileira.

O ano de 1864 trás também outros acontecimentos relevantes, como o fim defi-
nitivo do uso de escravos no estabelecimento fabril, se adiantando em alguns anos no
que ocorreu no resto da sociedade brasileira e mesmo com relação ao caso de outras
manufaturas do governo, como a Fábrica de Pólvora, que continuou a usar cativos na
sua força de trabalho por mais alguns anos. 37

Por fim, devemos dizer que, em termos de história econômica, o período de


1808 a 1850 é visto como anômalo: o Antigo Sistema Colonial tinha acabado formal-
mente em 1808 e o sistema político do Brasil se alteraria em 1815, com o Reino Unido,
a separação definitiva de Portugal se dando sete anos depois. Contudo, a historiografia
não descreve que a economia brasileira tenha sofrido uma mudança radical até a década
de 1850, quando o fim do tráfico e o crescimento da economia cafeeira já se fazia sentir.

37
BRASIL – Arsenal de Guerra. Relação nominal dos escravos e escravas da nação sujeitos ao Arsenal
de guerra da Corte. Arsenal de Guerra da Corte, escritório da 1a Seção. Major Joaquim Jerônimo
Barrão, 1º ajudante. Rio de Janeiro, 23 de julho de 1865. Mss. ANRJ. IG7 27.

16
Introdução

Para alguns autores o período é um “hiato”,38 um período sem mudanças marcantes.


Para nós é óbvio que essa explicação, que ignora mudanças de quase meio século é,
para dizer o mínimo, de entendimento questionável, ainda mais quando vemos que a
introdução de medidas tarifárias em 1844 criaram condições para o desenvolvimento de
manufaturas no País, ainda que por um curto período, até a década de 1860. Dessa for-
ma, tratar desse espaço de tempo, de pouco mais de cinquenta anos, permitiria entender
a evolução de uma instalação manufatureira inserida em um contexto em alteração, o
que não seria possível em se tratando de um recorte cronológico mais restrito.

Nesse sentido, um primeiro momento a ser trabalhado é o da instalação da corte


portuguesa no Brasil. Então, alguns aspectos do mercantilismo francês de Colbert che-
garam a fazer parte do projeto do príncipe regente D. João, quando este permitiu a insta-
lação de manufaturas no Brasil. Estas medidas, em uma conjuntura bem diferente, tive-
ram resultados igualmente limitados, nem que fosse por uma oposição do pensamento
liberal, cujas premissas eram convenientes para as elites governantes daquele período.39

Consideramos de vital importância para o trabalho uma análise dos modelos ex-
plicativos da economia brasileira na historiografia, com relação a uma manufatura no
período cronológico relacionado. Como foi dito, esse é um momento que é visto como
um “hiato”, entre um suposto término do artesanato colonial, em 1808 e um surgimento
de uma indústria brasileiro, a partir da tarifa Alves Branco (1844), sem ter havido mu-
danças sérias em termos de economia com relação à prática colonial, apesar de todos os
problemas que essa premissa traz. Consideramos que entender os modelos clássicos
tendo em vista nosso objeto de pesquisa torna-se um dos objetivos a serem alcançados,
tendo em vista as incongruências que se observam mesmo em uma análise sumária do
tema.

Assim sendo, fizemos um estudo entre uma instalação manufatureira específica


– o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro – no período de 1808 a 1864. Além disso,
apresentamos uma análise que insere a manufatura militar dentro de um modelo que é
difundido na historiografia do Brasil, como sendo uma sociedade escravista, voltada
inteiramente para a produção de produtos primários para exportação. Trataremos tam-

38
Este termo é usado por: PRADO Júnior, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense,
1977. p. 257.
39
LISBOA, José da Silva. Observações sobre a franqueza da indústria, e estabelecimento de fábricas no
Brasil. Brasília: Senado Federal, 1999.

17
Introdução

bém, do passado do Arsenal e sua instituição em um sistema maior, de manufaturas mi-


litares voltadas para o abastecimento das forças armadas e, secundariamente, para o
desenvolvimento econômico do País. O resultado é uma discussão sobre a validade des-
se modelo, pelo menos quando comparado com a realidade restrita de uma instalação
manufatureira do governo.

1.2 Quadro teórico


Ao fazermos o levantamento da bibliografia relativa à tese encontramos uma
obra de características muito relevantes para o trabalho por seu conteúdo de pesquisa: a
dissertação de mestrado de Luiz Carlos Soares, defendida em 1980.40 Esta, seguindo o
padrão normal das dissertações, faz uma revisão bibliográfica, listando e fazendo a críti-
ca das obras sobre o tema, apontando um problema que também encontramos em nossas
pesquisas e que se transformaria em um dos objetos do trabalho. Isto seria o fato de que
os “estudos geralmente realizados sobre as atividades industriais no ‘Brasil’ no século
passado se caracterizam pela generalidade e são muito pouco fundamentados em infor-
mações de fontes primárias”.41 Esta é uma afirmação com a qual concordamos inteira-
mente. O autor faz, contudo, uma exceção para os estudos de Stanley Stein (The Brazi-
lian cotton manufacture) e de Maria Eulália Lahmeyer Lobo (História do Rio de Janei-
ro). Mesmo assim, Soares critica a esses dois trabalhos, afirmando que “são obras muito
descritivas e não se lançam a uma abordagem teórica mais aprofundada”.42

No caso, consideramos a última sentença de Soares relevante, pois aponta um


problema típico da historiografia daquele período, marcada por uma visão da teoria
marxista do desenvolvimento social. Por esta, haveria uma “lei geral” que as sociedades
seguiriam, passando inevitavelmente de um estágio pré-determinado de desenvolvimen-
to das forças produtivas para outro, mais “avançado”, em direção a um modelo teórico
ideal, ainda não alcançado. Assim, o estudo da situação das especificidades do Brasil
ajudaria a entender como o País se enquadraria nesses modelos.

A questão teórica tinha, portanto, mais valor do que os trabalhos empíricos indu-
tivos, que partiam do levantamento dos dados para montar uma visão mais compreensi-

40
SOARES, Luiz Carlos. A manufatura na formação econômica e social escravista no sudeste : um estu-
do das atividades manufatureiras na região fluminense, 1840-1880. Niterói: UFF, 1980. (Disserta-
ção de mestrado).
41
id. p. 2.
42
id. pp. 2-3.

18
Introdução

va de um determinado processo histórico. Tal abordagem evidentemente se alterou ao


longo dos anos.

A nosso ver, a questão teórica adquire outro ponto de vista – a questão do de-
senvolvimento ou aplicação de uma teoria específica nunca foi primordial nas pesquisas
desenvolvidas. O problema que se colocava inicialmente e que nos levou aos estudos
foi, como colocado anteriormente, uma exigência do trabalho no Museu Histórico Naci-
onal, que demandava uma pesquisa empírica. Esta era voltada para a busca de respostas
a perguntas práticas e de uso imediato, sobre a história institucional do Museu, de seu
prédio e da formação de uma coleção específica, a das armas.

No entanto, a leitura do trabalho de Soares e outros, especialmente o de Geraldo


Beauclair,43 apontam um caminho que acreditamos ser válido seguir, por permitir a aná-
lise do Arsenal como uma unidade produtiva que se enquadra em uma situação de tran-
sição. Este seria o conceito de pré-indústria, pelo qual teríamos uma situação que, como
o nome indica, seria antes da indústria, mas com o empresa já inserida em uma econo-
mia plenamente capitalista, antes de se passar a uma situação de fábrica. Ou seja, era
uma economia onde havia manufaturas, mas estas não eram mecanizadas, uma situação
em que o Arsenal de Guerra, bem como uma série de outros empreendimentos no Brasil
e do resto do mundo, como as manufaturas militares francesas da primeira metade do
século XIX se enquadram perfeitamente.

Considerando o que foi colocado acima, o método comparativo nos parecia ser o
mais adequado para realizar um trabalho que processasse de forma sistemática o materi-
al que já tinha sido recolhido, bem como o que seria obtido nas pesquisas específicas do
doutorado. A razão dessa escolha pode ser dita que foi oriunda de uma perspectiva tra-
dicional na abordagem da história econômica, que sempre se valeu de estudos compara-
tivos para a montagem de seus modelos teóricos, desde pelo menos o trabalho de Adam
Smith, A riqueza das nações, de 1776, onde ele procurava explicar uma dada conjuntura
em face da situação de outros países. É claro que esses estudos não são propriamente de
história comparada, tal como a entendemos hoje, mas podem ser considerados como
precursores do método.44

43
OLIVEIRA, Geraldo de Beauclair Mendes de. A pré-indústria fluminense: 1808/1860. São Paulo:
1987. (Tese de doutorado). pp. 6 e segs.
44
Deve-se dizer que os estudos de história econômica que faziam comparações baseavam-se, muitas
vezes, em um preconceito explícito, criando uma “escala evolutiva”, de economias menos complexas
Continua –––––––

19
Introdução

Não cremos que caiba aqui uma discussão maior sobre a evolução da historio-
grafia que trabalha usando uma forma ou outra de comparação econômica.45 Contudo é
necessário apontar que na histórica econômica brasileira a comparação foi um elemento
de grande relevância, a partir de uma pergunta simples: por que o Brasil e os Estados
Unidos, partindo de bases semelhantes – ou até melhores para o país sul-americano,
como coloca Roberto Simonsen 46 – não desenvolveu uma sociedade industrializada no
século XIX?47 Ou seja, partiu-se de um problema acadêmico específico, sincrônico –
isto é, uma situação ocorrendo em dois países em um mesmo período histórico –, para
se tentar obter uma explicação para a situação contemporânea do Brasil na época em
que os livros foram escritos, meados do século XX, quando o País estava efetivamente
se industrializando depois de um período de atraso.

Esse problema acadêmico relativo ao não desenvolvimento industrial do Brasil


foi tratado de várias formas, voltadas para se obter uma explicação que seguisse os mo-
delos teóricos aceitos. Por exemplo, se coloca que haveria um modo de produção escra-
vista que caracterizaria a sociedade brasileira colonial e aquela que existiria durante boa
parte do século XIX, por meio do uso extensivo de cativos. Este era um modo de produ-
ção que seria, naturalmente, um entrave ao desenvolvimento econômico do país, impe-
dindo o surgimento de indústrias, pois o “caminho natural” a ser seguido seria o da ex-
ploração agrícola em latifúndios, para exportação.

Outras pesquisas não adotaram esta opção metodológica, sendo baseados em li-
nhas sociológicas, buscando uma lei geral, um “sentido da colonização”,48 sem se fun-
damentarem, contudo, em uma pesquisa empírica profunda. Tal tipo de trabalho, abran-
gendo todo o território brasileiro em trezentos anos de história, seria extremamente difí-
cil de realizar, se levarmos em consideração o volume de informações que seria neces-
Continuação–––––––––––
para as mais avançadas, em um caminho unidirecional de desenvolvimento para um sistema visto
como o ideal, fosse este último um modelo utópico ou a própria sociedade ocidental contemporânea,
visão que era – ainda é – comum na historiografia ocidental.
45
Para uma discussão da história do método comparativo na história econômica, ver: BARROS, José
d’Assunção. História Comparada. Petrópolis: Vozes, 2014. pp. 8 e segs. e MAIER, Charles S. La
historia comparada. Studia Historica Contemporanea. Vol. X-XI (1992-93). pp. 11-32
46
SIMONSEN, Roberto C. Evolução industrial do Brasil e outros estudos. São Paulo: Companhia Edito-
ra Nacional, 1973. pp. 6 e segs.
47
Para outros autores que colocam essa pergunta, ver: LIMA, Heitor Ferreira. História político-
econômica e industrial do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973. pp. 271-272. e,
mais conhecido, FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora
Nacional: Publifolha, 2000. p. 106.
48
PRADO Júnior, op. cit. Para o autor, o primeiro a desenvolver o tema, haveria uma síntese do caráter
geral da economia brasileira, que seria a exploração de recursos naturais em proveito do comércio
europeu. p. 102.

20
Introdução

sário processar sobre o passado do País, especialmente considerando a falta de pesqui-


sas setoriais mais profundas. Desta forma, em nossa opinião, estes trabalhos resultaram
em modelos que decididamente “explicam” a situação do Brasil de hoje – era essa sua
preocupação. Mas isso não quer dizer que sua fundamentação empírica fosse suficiente.
De fato, há muitas pesquisas mais recentes mostrando justamente o contrário, em diver-
sos níveis – por exemplo, as explicações gerais tendem a ignorar o papel e importância
do comércio interno, em função de um mercado consumidor que existia e era relevante,
se preocupando com o modelo de uma sociedade escravista, supostamente dividida em
apenas senhores e escravos.49

Sendo assim, queremos deixar claro alguns dos sentidos seguidos em nossa pes-
quisa. Sem nos propormos a fazer um trabalho de histórica econômica, usando a termi-
nologia e metodologia específica da área, estudamos uma unidade manufatureira inseri-
da em um contexto em que, pelos modelos teóricos, ela não deveria existir.

Essa proposta resultou de uma pesquisa tradicional, buscando levantar nos fun-
dos documentais existentes as informações sobre a organização militar do Arsenal de
Guerra, através de suas especificidades, a partir de uma perspectiva de história instituci-
onal.50 Tratamos de sua organização, funcionamento, quadro funcional e, mais impor-
tante, a demanda que levou à sua existência e o resultado de seus trabalhos: os produtos
militares como uma parte dos mecanismos que o Governo tinha para assegurar sua exis-
tência. Também consideramos relevante à questão do quadro de operários, pois o Arse-
nal não era apenas uma manufatura, mas também era uma instalação inserida em um
universo onde a escravidão era dominante, a instituição tendo, portanto, que se adequar
à situação reinante, apesar desta estar em alteração, isso sendo bem evidente no caso do
Arsenal.

Entretanto, um trabalho de pesquisa na tradição acadêmica brasileira, não pode


ser meramente indutivo, surgido a partir do conhecimento das fontes, para então se en-
caixar o estudo em uma teoria já existente ou elaborar uma própria. Seria necessário
direcionar a pesquisa em termos de um modelo teórico existente. No caso, utilizando-se

49
Há várias obras nesse tema. Uma recente é: CALDEIRA, Jorge. História do Brasil com Empreendedo-
res. São Paulo: Mameluco, 2009.
50
No sentido de campo que trabalha com “a análise histórica das instituições que integram a organização
administrativa do estado”. PORRAS, Juan Daniel Flórez. Guía Metodológica para las investigacio-
nes de história institucionales : modelo de orientación general. Bogotá: Alcadía Mayor de Bogotá,
2005. p. 35.

21
Introdução

da metodologia da história comparada, nosso objetivo era observar até que ponto a ins-
talação manufatureira do Arsenal se encaixa no modelo tradicional da economia escra-
vista no Brasil.

Nesse ponto, deve-se dizer que a historiografia dá uma grande relevância aos es-
critos e ações do Visconde de Cairu,51 um ardente defensor do liberalismo econômico,
que seria o representante intelectual de uma elite que teria retardado a industrialização
do País,52 este sendo um modelo que deve ser discutido, pois, apesar da influência do
visconde na política, o que ele defendia não se encaixa, pelo menos em parte, em uma
realidade observável nas ações do ministério da guerra, tal como já colocamos anteri-
ormente.

Sendo assim, fizemos, em parte, fazer uma comparação sobre uma realidade
palpável e os modelos teóricos tradicionais, discutidos no primeiro capítulo, para verifi-
car a validade do mesmo, ressalvando que o objetivo do trabalho não é elaborar a ques-
tão de forma de uma nova teoria ou modelo explicativo, mas sim centrar-se em eventos
concretos. Ou seja, a questão teórica, ao contrário do comentado por Soares mais acima,
não é um objetivo em si, apenas uma ferramenta analítica.

Nesse sentido, consideramos o caso francês como particularmente relevante,


pois algumas formas de ação do Governo com relação ao incentivo ao surgimento de
manufaturas adotadas no Brasil, tanto em termos gerais, como específicos, espelham-se
na experiência daquele país. Isso tendo em vista especificamente uma faceta do mercan-
tilismo daquele país, que procurava incentivar a balança comercial através do protecio-
nismo e o incentivo direto às manufaturas, tal como fez D. João assim que liberou as
manufaturas o Brasil. Pelo Alvará de 28 de Abril de 1809, que “isenta de direitos as
matérias primas do uso das fabricas”, se dava uma série de privilégios para as manufatu-
ras locais, 53 com mecanismos semelhantes aos usados na França 150 anos antes para a
proteção da indústria e que iam contra a política liberal que estava se consolidando no
mundo.

Mais tarde, no século XIX, o caso dos Estados Unidos, baseado em técnicas in-
troduzidas pelos franceses no século anterior, adquire maior importância, pois lá o papel
51
LISBOA, op. cit.
52
Entre outros, ver: ANDRADE, Rômulo Garcia de. Burocracia e economia na primeira metade do sécu-
lo XIX (a Junta de Comércio e as atividades artesanais e manufatureiras na cidade do Rio de Janei-
ro: 1808-50). Niterói: UFF, 1980. (Dissertação de mestrado). pp. 58-60.
53
PORTUGAL. Alvará de 28 de abril de 1809, op. cit.

22
Introdução

das forças armadas no desenvolvimento de novas técnicas fabris é marcante, pela neces-
sidade de se equipar forças de centenas de milhares de homens. Mesmo considerando
sua proximidade cronológica, o modelo fabril norte-americano não foi adotado pelo
Exército Brasileiro, tendo havido um conflito básico de entendimento de como estas
manufaturas deveriam funcionar.

Apesar do modelo de protecionismo na indústria civil no Brasil ter se esgotado


nos primeiros anos do século XIX, já que o incentivo direto a algumas manufaturas pau-
latinamente deixou de ser praticado, isto não foi uma questão que tenha sido abandona-
da de todo. Uma das razões disso foi porque o interesse do governo em criar suas pró-
prias instituições e canais de abastecimento locais era grande. Isso é um ponto relevante:
ao contrário de muitos países, que dependiam inteiramente de importações, mesmo para
seus produtos militares, no Brasil havia uma proposta de autossuficiência nesse campo,
inclusive com a fabricação de armas e, para isso, era necessário haver manufaturas, al-
gumas delas sendo bem complexas.

Tendo em vista a singularidade da situação brasileira, de um sistema escravista


inserido em um contexto radicalmente diferente do francês, é necessário procurar um
termo de comparação e, como dissemos antes, vamos usar o conceito de pré-indústria,54
pelo qual as organizações que se encaixam nesse esquema, segundo Braudel, se dividi-
riam em três tipos principais. A primeira, de oficinas familiares, não se encaixa na situ-
ação das atividades manufatureiras governamentais e a segunda forma de organização,
as oficinas dispersas, teve um papel muito limitado. 55 Do ponto de vista de maior inte-
resse para nós é o terceiro caso, o da manufatura aglomerada, que reúne em só lugar as
atividades manufatureiras.

Marx faz uma divisão diferente, mencionando a manufatura heterogênea, onde


cada artesão, ou oficina, é responsável pela fabricação de um determinado segmento de
um todo complexo, retendo, porém, certa independência umas das outras. A outra forma
de manufatura é a serial, onde os “artigos passam através de fases de desenvolvimento

54
OLIVEIRA, op. cit. pp. 6 e segs.
55
Trata-se de “uma sucessão de trabalhos que dependem um dos outros, até ao acabamento do produto
fabricado e à operação mercantil”, mas sem estarem reunidos em um local específico. OLIVEIRA,
op. cit. pp. 9-10. apud BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, economia e capitalismo. t.2 (os
jogos das trocas). Lisboa, cosmos, 1985. p. 281. No caso, a repartição de costuras do Arsenal de
Guerra funcionaria nesse esquema.

23
Introdução

conectadas passo a passo, como o fio metálico na manufatura de agulhas, que passa
através das mãos de 72 trabalhadores”.56

Ainda outra etapa do desenvolvimento das manufaturas surge da combinação de


manufaturas, com a integração vertical: Marx usa o exemplo dos fabricantes de vidros
ingleses, que fabricavam seus próprios cadinhos de cerâmica, por a qualidade destes
cadinhos ser decisiva para o processo de preparo dos vidros. O mesmo tipo de manufa-
tura podia estar combinada com o corte dos vidros e fundição de latão, para preparar um
produto acabado de vidro. Nestes casos, as várias oficinas combinadas formam seções
de uma empresa maior, ainda que fossem processos independentes. Segundo Marx, ape-
sar das vantagens desse processo, ele “nunca se transforma em um sistema técnico com-
pleto em suas próprias fundações. Isto somente acontecesse em uma indústria [fábrica]
movida por máquinas”. 57

Para Marx, a conclusão do processo de formação das manufaturas seria o uso de


maquinas, que já tinha sido iniciado desde a antiguidade, ele citando o caso das manufa-
turas primitivas de papel, onde os trapos eram macerados em moinhos de papel ou o das
metalurgias, onde o bater dos minérios era feito por moinhos de apiloamento. No entan-
to, o ponto principal da fábrica seria o uso do trabalho dividido em especialidades ex-
clusivas, potencializado com o uso de máquinas, que acabam lentamente com o trabalho
artesanal, ao mesmo tempo em que se amplia a produção.58

Este último ponto é importante para nosso objeto de estudo, pois o Arsenal de
Guerra da Corte (AGC) tem uma situação anômala, se encarado em diversas dessas de-
finições, tendo características mistas, com aspectos de diferentes tipos de manufatura e
até de fábrica.

1.3 Metodologia
Em termos de história comparada, onde o método é relevante para se definir os
caminhos a serem seguidos em uma pesquisa, a questão que se coloca é a respeito de
quais seriam os parâmetros de comparação a serem seguidos. Esses já foram delineados
acima e seriam, inicialmente, como se deu, de forma geral, o incentivo governamental
ao desenvolvimento manufatureiro. Isso quando se observa especialmente o campo lo-

56
MARX, op. cit. p. 168.
57
id. p. 170.
58
Ver SOARES (1980), op. cit. pp. 100-111 para uma ampla discussão das definições de Marx sobre
manufaturas e fábricas.

24
Introdução

gístico militar – processos de produção, composição da força de trabalho, uso de má-


quinas e o “mercado consumidor” que eram atendidos por esses produtos, tendo por
base uma formação ideológica condicionada por fatores locais.

Assim, no caso do Arsenal do Rio de Janeiro, procuraremos analisar não somen-


te as implicações da questão econômica e sua inserção no mercado brasileiro, mas tam-
bém os problemas de organização e funcionamento técnico de manufaturas em uma
economia dependente. Isso no que tange a aquisição/uso de máquinas e meios de produ-
ção e as propostas que guiavam a ação dos planejadores no que tange a esta unidade
governamental. Igualmente, pretendemos dar uma maior atenção a questão da mão de
obra , em especial vendo sua inserção em uma economia escravista, avaliando as pre-
missas e consequências que esta inserção geraria em grandes oficinas, como as dos ar-
senais, onde havia certa especialização de atividades e, até certo ponto, uma divisão do
trabalho.

Sendo um programa de história comparada, consideramos necessário entender a


questão central acima mencionada em quadro maior, da conjuntura internacional e as-
sim apontamos que o estudo do papel do governo, através de seus arsenais estatais, no
surgimento de indústria ou pelo menos de precursores “modernos” da produção indus-
trial, é apontado como marcante em pelo menos três países: França,59 Inglaterra e Esta-
dos Unidos, 60 países em que as manufaturas militares serviram como motivador do sur-
gimento das primeiras fábricas em série e, a partir dessas, para o surgimento de proces-
sos industriais visando aumentar a escala e a qualidade da produção.

O caso da França é particularmente interessante na análise a que nos propomos,


pois o papel do governo como empreendedor industrial é marcante, especialmente no
período anterior à Revolução Francesa. Este foi tomado como um modelo teórico a ser
seguido na organização das fábricas do exército Brasileiro do século XIX, apesar das
mudanças mais marcantes, como a adoção da produção de peças intercambiáveis, de
fundamental importância para o surgimento da indústria moderna, não ter sido seguida
aqui. Na Europa, ao longo da primeira metade do século XIX, os governos se responsa-

59
Para a França, ver ALDER, Ken. Engineering the revolution: arms & enlightenment in France, 1763-
1815. Chicago: University of Chicago, 1992.
60
Podemos citar textos que trabalham com essa questão os de CREVELD, Martin van. Technology and
War: from 2.000 b.C. to the Present. London: Brassey`s, 1991 ou MCNEILL, William H. The Pur-
suit of Power: Technology, Armed Force, and Society since a.D. 1000. Chicago: University of Chi-
cago, 1984.

25
Introdução

bilizaram por cada vez mais fábricas e arsenais de produção, que serviram como incen-
tivo ao surgimento de indústrias civis que pudessem fornecer os artigos necessários às
forças armadas.

Outro elemento comparado seria o do modelo desenvolvido pela historiografia


tratando do desenvolvimento manufatureiro, de processos de produção, composição da
força de trabalho, uso de máquinas e o “mercado consumidor”. Pontos que, em tese, não
seriam atendidos por instalações nacionais, tendo por base as limitações de uma socie-
dade escravista.

Do ponto de vista dos modelos explicativos, a análise será bem menos comple-
xa, feita a partir da bibliografia já produzida sobre a história econômica do País, pois a
ideia é fazer a comparação com modelos, construções teóricas nacionais, isso não impli-
cando na produção de pesquisas empíricas sobre os fatos relativos aos temas desenvol-
vidos pelos diversos autores.

Do ponto de vista dos modelos explicativos, a análise será bem menos comple-
xa, feita a partir da bibliografia já produzida sobre a história econômica do País, pois a
ideia é fazer a comparação com modelos, construções teóricas nacionais, isso não impli-
cando na produção de pesquisas empíricas sobre os fatos relativos aos temas desenvol-
vidos pelos diversos autores.

No caso de nosso texto, este se baseia em comparações simples, pois o objeto de


estudo seria montado com base em situações culturalmente muito próximas e cronologi-
camente não muito diferenciadas. Como colocou Marc Bloch, é um caso de estudar
“dois ou vários fenômenos que parecem à primeira vista, apresentar certas analogias
entre si”.61

Para os leitores que não estão acostumados com a metodologia da história com-
parada, cremos ser relevante apontar que a proposta metodológica desse ramo da histó-
ria não implica, necessariamente, na análise de dois ou mais aspectos que tenham seme-
lhança entre si, que tenham proximidade geográfica ou mesmo que sejam contemporâ-
neos. Assim, segundo José Assunção de Barros ao tratar do primeiro autor a sistemati-
zar a moderna história comparada, “o intuito de [Marc] Bloch era também o de liberar o
historiador das fronteiras artificiais que até então vinham sendo delimitadas pelas clau-

61
BLOCH, Marc. História e Historiadores: textos reunidos por Étienne Bloch. Lisboa: Editorial Teore-
ma, 1998. p. 121.

26
Introdução

suras nacionais e governamentais da velha história política no século XIX”.62 Isso é


muito importante para nossa análise, pois estudamos casos aparentemente bem diversos
entre si, especificamente os processos de modernização manufatureira com base na ati-
vidade militar, mas que não são síncronos ou ocorreram em áreas geográficas aproxi-
madas. De fato, como colocou Kocka:

A abordagem comparativa pressupõe que as unidades de comparação


possam ser separas uma das outras. Não é a continuidade entre dois
fenômenos nem as influências mútuas entre eles que os constituem
como casos para comparação. Ao invés, eles são vistos como casos
independentes que são reunidos analiticamente ao perguntar sobre se-
melhanças e diferenças entre eles. Em outras palavras, a comparação
rompe continuidades, corta emaranhados e interrompe o fluxo da nar-
rativa. Entretanto, a reconstrução das continuidades, a ênfase na inter-
dependência, assim como formas narrativas de apresentação são ele-
mentos clássicos da História como disciplina.63
Não nos propomos a fazer um estudo multidisciplinar e que permitisse a compa-
ração entre eventos muito distintos, como propõe Detienne, em seu livro Comparar o
Incomparável,64 mas dele tiramos a nossa proposta chave, que seria a comparação de
mentalidades, de forma de pensar, que podem ter relação entre si, mesmo que os objetos
de estudo estejam muito afastados entre si. Para nós, como trataremos na tese, não foi
uma questão técnica, de mão de obra ou econômica que levou a um determinado desen-
volvimento nas atividades manufatureiras do Brasil, mas sim uma forma de pensar es-
pecífica. Isso explica por que trabalhamos com problemas das manufaturas militares
francesas do século XVIII com relação as do Brasil do século seguinte: problemas não
de todo dissemelhantes tiveram resultados bem diferentes por causa da forma com os
problemas foram tratados nos dois países.

Voltando para a questão metodológica, observamos que uma proposta inicial,


que até embasou a primeira ideia desta pesquisa, foi usar a cultura material como um
dos elementos para fundamentar a argumentação do trabalho. Esses itens seriam, basi-
camente, os objetos produzidos no Arsenal de Guerra65 e manufaturas militares france-
sas para se verificar, dentro dos períodos de pesquisa, similaridades e diferenças entre
62
BARROS, José Assunção de. História Comparada. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. p. 47.
63
KOCKA, Jürgen. Comparison and Beyond. History and Theory, 42. February 2003. p. 40.
64
DETIENNE, Marcel. Comparar o incomparável. Aparecida: Idéias e Letras, 2004.
65
Devido à natureza de seus produtos, as fábricas de pólvora, os laboratórios pirotécnicos, assim como os
estaleiros, não deixaram vestígios materiais analisáveis destes. Estes, contudo, são encontráveis no
caso dos Arsenais do Exército, através de armas e outros petrechos existentes em coleções particula-
res ou acervos de museus, alguns dos quais já foram estudados pelo abaixo assinado em suas ativi-
dades como pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. CASTRO (1993),
op. cit.

27
Introdução

os processos adotados nos dois países. Entretanto, desistimos desse caminho por causa
do reduzido número de peças francesas existentes em coleções de museus brasileiros66 –
apenas dois canhões, um deles do período mais recente,67 bem como algumas armas
portáteis, menos de dez peças – inviabilizando a criação de séries de objetos e, com isso,
essa linha de pesquisa. Mesmo assim, pretendemos usar alguns objetos para ilustrar cer-
tos aspectos específicos da pesquisa.

Também usaremos uma grande quantidade de ilustrações – isso não por ser ne-
cessário em termos da proposta de pesquisa escrita, mas por causa da formação do au-
tor: fomos influenciados pela experiência de trabalho em um museu e no IPHAN, ór-
gãos onde o uso de imagens é fundamental em qualquer trabalho escrito, por serem ins-
tituições que trabalham com a cultura material. Desta forma, o procedimento de usar
figuras para ilustrar e documentar alguns pontos tornou-se uma segunda natureza para o
autor, que é difícil de ser ignorada.

Deve ficar claro que não pretendemos inovar com a metodologia de pesquisa a
ser adotada. A existência de fontes arquivistas e bibliográficas em quantidade permitiu
dispensar o uso de recursos especiais, como a análise de objetos da cultura material. O
trabalho de pesquisa propriamente dito, se resumiu nas tradicionais etapas de levanta-
mento e correlação de dados, visando a montagem de um arcabouço de fatos que nos
possibilitou a análise do assunto dentro do quadro teórico escolhido, para verificar a
validade das hipóteses, objetivos e conceitos apresentados, seguindo a formação e expe-
riência profissional deste autor.

1.4 Plano da obra


Consideramos como indispensável em uma tese de doutorado um capítulo inicial
que faça uma recapitulação das pesquisas, em termos de bibliografia que discutem o
assunto do ponto de vista das explicações sobre a economia brasileira no período da
primeira metade do século XIX – e até um pouco antes, por causa de peculiaridades que
serão abordados no local apropriado. No nosso caso, cremos que essa parte do texto é

66
Obviamente, há muitos desses objetos preservados em museus Europeus. De fato, há mais armas brasi-
leiras preservadas em museus Belgas do que existentes aqui (ver: GAIER, Claude. Prestige de
l’armuriere portugaise. La part de Liège. Liège, Musee D’Armes de Liège, 1991), mas não havia
previsão de fazer um trabalho de levantamento de campo no exterior, de forma que tivemos que nos
contentar com os acervos disponíveis no Rio de Janeiro, muito limitados.
67
Peças 015888 e 006920, o primeiro fundido em Rocheford, em 1793 e o segundo um canhão em data
não especificada, no reinado de Luís XIV. Cf. id.

28
Introdução

fundamental e deve ser vista como expandida, levando em conta não apenas as publica-
ções correntes, mas também as que fundamentaram as teorias sobre a formação econô-
mica do Brasil. Isso por ser parte da própria proposta da tese, a discussão dos modelos
teóricos sobre a questão econômica e como o nosso objeto de estudo se enquadra – ou
deixa de se enquadrar – nos citados modelos teóricos.

Para se entender o problema que se levanta com o estudo que está sendo feito,
foi feito um capítulo que trata dos motivadores de toda a questão do envolvimento dos
militares com um aspecto que pareceria ser estranho à sua cultura, o da fabricação de
produtos. Para isso é importante entender as demandas que a sociedade do mundo mo-
derno e contemporâneo criaram para a formação de grandes exércitos, que têm que ser
providos de equipamentos. Estes, por sua vez, são, de forma geral, inúteis para uma
sociedade em paz – um canhão não serve para nada a não ser para destruir, mas o faz de
forma muito ineficiente, se for analisado simplesmente como uma ferramenta de demo-
lição. No entanto, esses equipamentos são indispensáveis para a própria existência e
consolidação dos Estados modernos, criando uma lógica própria. Esta é aceita como se
fosse “natural” por todos, até hoje, mas que tem suas origens em necessidades específi-
cas, como é o caso do uso de uniformes – nada obriga que um exército os use e, na ver-
dade, o próprio termo “uniforme” é pouco apropriado para o período em estudo, já que
as roupas usadas pelos militares nada tinham de uniformes, variando para cada batalhão.
No entanto, as fardas são elementos fundamentais à própria cultura militar. Dessa for-
ma, abordar as condicionantes da produção de artigos voltados para esse “mercado con-
sumidor” específico é de fundamental importância para se entender uma das razões que
levaram a implantação de uma estrutura fabril nos países que estamos estudando.

O corpo do texto, que servirá de ponto base para o estudo, será a forma como os
governos organizaram a produção industrial voltada para o atendimento do consumo de
suas tropas, dando ênfase a organização do trabalho; a introdução de técnicas de produ-
ção de equipamentos com peças intercambiáveis e a mecanização da produção. Em se-
guida será feito uma análise da estrutura geral criada no Brasil para resolver o problema
do abastecimento militar, com suas unidades específicas, desde a Fábrica de Pólvora até
os Laboratórios Pirotécnicos.

Seguiremos com o ponto principal de nossa proposta, o Arsenal de Guerra do


Rio de Janeiro e instalações congéneres na França, com uma discussão sobre a organi-
zação e funcionamento dessas instalações, abordando a questão da mão de obra – no

29
Introdução

caso do Brasil, incluindo o uso de escravos, alguns altamente especializados –, sua es-
trutura de funcionamento, instalações, máquinas, ferramentas e processos produtivos.

A conclusão do trabalho sumarizará o que foi discutido acima, procurando apre-


sentar os resultados da pesquisa em função dos objetivos propostos nesta teste.

1.5 Passos tomados.


Como parte de qualquer pesquisa, os passos iniciais foram o levantamento do
corpus documental existente sobre o tema “Arsenal de Guerra”, em repositórios como o
Arquivo Nacional, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Arquivo do Exército e
Biblioteca Nacional. Tal trabalho foi feito, em grande parte, quando ainda estávamos
trabalhando no Museu Histórico Nacional e continuado no Instituto do Patrimônio His-
tórico e Artístico Nacional, onde a proposta, especialmente com relação ao Arquivo
Nacional, foi a de esgotar toda a série referente ao Arsenal (fundo IG7) 68, o que foi feito.
Também se pesquisaram alguns outros fundos específicos, tais como os referentes ao
Laboratório Pirotécnico do Campinho e à Comissão de Melhoramentos do Material do
Exército, órgão criado em 1849 para tratar de aspectos técnicos do suprimento militar,
tais como a padronização, modelos a serem adotados e assim por diante.

Não se pode dizer que todas as fontes possíveis tenham sido consultadas, já que
a organização da documentação é precária, havendo material disperso em muitos outros
fundos e arquivos. Na verdade, alguns fundos de documentos, dependem até de uma
consulta direta, simplesmente para se saber qual é a sua temática geral, pois as indica-
ções arquivistas sobre eles sequer dão noção sobre qual instituição ou período tratam,
tornando qualquer pesquisa maior excessivamente exaustiva e improdutiva. Não esta-
mos falando do conteúdo específico dos documentos, mas sim do assunto geral dos ma-
ços, que apesar de terem a indicação de que eram relativos ao Arsenal de Guerra, podi-
am conter textos sem nenhuma relação com a instituição. Este seria o caso de papeis
gerados pelo ministério da Marinha ou da Justiça que, por um motivo ou outro, foram
incorporados ao acervo do Arsenal de Guerra e, depois, enviados para o Arquivo Naci-
onal.

De qualquer maneira, foram consultados perto de 600 maços de documentos,


com o conteúdo variando de umas poucas páginas – mesmo apenas uma – até algumas

68
O fundo “Arsenais de Guerra” do Arquivo Nacional (ANRJ) contém 516 maços de documentos.

30
Introdução

centenas de folhas por maço, a documentação se concentrando no período final da pes-


quisa, referente às décadas de 1840 e 1850. Isso reflete um aumento da própria comple-
xidade das demandas do Exército, assolado por várias rebeliões no período da Regência
e o aumento das exigências burocráticas, com um maior controle sobre as atividades de
cada aspecto da vida cotidiana militar.

Curiosamente, o Arquivo Histórico do Exército (AHEx) proveu poucas fontes


documentais, pois o Arsenal ainda é uma instituição em funcionamento e o AHEx des-
tina-se a receber acervos de organizações militares extintas. Por sua vez, quando traba-
lhávamos no Museu Histórico Nacional tivemos poucas oportunidades de fazer pesqui-
sas no Arsenal, devido à sua inacessibilidade (é distante do centro e uma organização
operacional, com preocupações de segurança). Voltando ao local mais recentemente,
pudemos constatar que a pouca documentação que havia sobrevivido sobre os momen-
tos iniciais da história da instituição tinha sido descartada, dentro de programas de “qua-
lidade total”, considerando que não eram mais documentos correntes. De qualquer for-
ma, tivemos acesso a uma série de plantas da mapoteca do AHEx e do extinto Centro de
Documentação do Exército (Brasília), que permitem entender melhor o funcionamento
da instituição – suas expansões, funcionamento, organização etc., ao longo dos anos.

Várias outras instituições tiveram seus arquivos pesquisados, para se comple-


mentar os dados obtidos de forma central no Arquivo Nacional, se destacando nesse
conjunto a Biblioteca Nacional, em suas seções de periódicos, obras raras e manuscri-
tos, e a Biblioteca Noronha Santos, do IPHAN, Biblioteca do Exército e Biblioteca da
Marinha, em termos de recuperação de fontes bibliográficas coevas aos períodos estu-
dados.

Finalmente – e apesar de não formar um corpo “documental” coeso –, se usaram


os objetos disponíveis no acervo do Museu Histórico Nacional para se obterem infor-
mações complementares sobre os temas abordados no trabalho.

31
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Sumário

2. Modelos explicativos da economia brasileira.

2.1 A questão dos modelos.


2.2 Modelos sobre o Brasil Colonial.
2.2.1 O modelo dos ciclos econômicos.
2.2.2 O modelo da dependência estrutural – Caio Prado Jr.
2.2.3 Celso Furtado e a Formação Econômica do Brasil.
2.2.4 O Antigo Sistema Colonial.
2.2.5 O modo de produção escravista colonial
2.3 O fim da procura por modelos
2.5 O início da industrialização
2.6 Algumas considerações

32
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

2. Modelos explicativos da economia brasileira.

Antes de iniciarmos essa parte do texto, gostaríamos de repetir uma observação


de fundamental importância para a leitura do capítulo: esta tese não é para ser uma obra
de história econômica ou de historiografia sobre o tema. Usando a metodologia da his-
tória comparada, queremos realizar uma história militar mais atualizada, voltada para
alguns aspectos que tem uma interface com a questão econômica, de forma que a ênfase
não pretende, nem poderia ser, de história econômica. Essa consideração é muito rele-
vante, pois existe uma longa bibliografia “revisionista”, recente, que aborda que a situa-
ção da economia brasileira na primeira metade do século XIX não se conforma aos mo-
delos tradicionais. 1 Entretanto, não é nosso objetivo trabalhar com esta nova bibliogra-
fia, mas sim lidar apenas com a visão já estabelecida e consolidada, que pode ser cha-
mada de clássica, e que teve uma imensa importância na construção da visão de País
ainda imperante.

Apontamos também que há uma imensa quantidade de trabalhos sobre a situação


econômica do Brasil, elaborados usando uma série de técnicas, algumas altamente com-
plexas, escritos com um imenso cuidado com relação à metodologia e terminologia. Só
que isso, novamente, não é nosso caso, queremos estudar apenas uma unidade manufa-
tureira, inserida em uma sociedade escravista e uma das consequências dessa proposta é
que aceitamos os diferentes usos da terminologia, algumas vezes questionáveis, feitos
pelos vários autores. Por exemplo, apesar de ser um termo de uso comum na bibliogra-
fia, a palavra “industrialização” seria de uso complicado para o momento histórico ana-
lisado, pois não havia fábricas no País, apenas manufaturas. Dessa forma, não dedicar-
mos um grande tempo em nosso estudo tratando de homogeneizar o uso do vocabulário
e estudando conceitos que, para nós, seriam de uso restrito: apontamos que foi elabora-
do um glossário, que está inserido no final do texto, com os termos e definições usados
ao longo do texto, que estão marcados em itálico na primeira vez que aparecem.

Finalmente, um problema que afeta a questão dos modelos é que eles, com ape-
nas pequenas exceções, não trabalham com nosso objeto de trabalho explícito, as manu-
faturas do governo, representadas no caso específico pelo Arsenal de Guerra do Rio de

1
Para alguns breves comentários sobre essa bibliografia revisionista ver: TENA-JUNGUITO, Antonio &
ABSELL, Christopher David. Brazilian export growth and divergence in the tropics during the nine-
teenth century. IN: Working Papers in Economic History. WP15-03, May 2015.
https://goo.gl/7sp2SK (acesso em março de 2016).

33
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Janeiro. Isso por que as teorias clássicas econômicas desconsideram, em larga parte, o
papel do governo na economia, classificando seus gastos como “inúteis” ou “estéreis”.
Por exemplo, Adam Smith, no livro “A riqueza das Nações”, escreveu:

O soberano, por exemplo, com todos os oficiais de justiça e de guerra


que servem sob suas ordens, todo o Exército e Marinha, são trabalha-
dores improdutivos. São servidores públicos e são mantidos por uma
parte da produção da indústria de outros cidadãos. Seu serviço, por
mais honroso, útil ou necessário que seja, não produz nada que seme-
lhante que uma igual quantidade possa obter posteriormente. A prote-
ção, segurança e defesa da comunidade, o efeito de seu trabalho neste
ano, não comprará sua proteção, segurança e defesa para o ano seguin-
te.2
Adam Smith continuava, colocando na mesma categoria de trabalhadores im-
produtivos, os clérigos, advogados, médicos, intelectuais, artistas, palhaços, bufões,
músicos, etc. O trabalho deles “não produz nada que possa depois comprar ou obter
igual quantidade de trabalho (...) o trabalho de todos eles perece no mesmo momento de
sua produção”.3 Em suma, para Smith, todo setor de serviços não gera riqueza, só a faz
circular e, como os militares – junto com todos os produtos feitos pelo governo – são
colocados nessa categoria, seu trabalho era inútil.

Esse pensamento é reproduzido por Marx, apesar dele não tratar especificamente
do caso das manufaturas do governo. Para ele, o objeto da acumulação do capital é a
colocação das mercadorias em circulação, “elas tem que ser vendidas, seu valor trans-
formado em dinheiro, este dinheiro novamente convertido em capital e assim uma e
outra vez”.4 Ou seja, a produção de bens e serviços que não sejam voltados para a circu-
lação geral resultaria na esterilização do capital, se aplicando o mesmo colocado por
Adam Smith com relação aos gastos públicos ou do setor de serviços – eram gastos pior
do que inúteis, pois prejudicavam a economia. No caso, vale a pena repetir, que a ques-
tão importante para Marx era a acumulação de capital, visando a sua reprodução, algo
que o governo não faria.

No entanto, ambas as visões, se faziam certo sentido nos séculos XVIII e XIX,
são complicadas hoje, pois ignoram boa parte das economias nacionais, o setor de servi-

2
SMITH, Adam. An Inquiry into the nature and causes of the wealth of Nations. London: Encyclopaedia
Britannica, c. 1952. p. 143.
3
id. p. 143.
4
MARX, Karl. Capital. London: Encyclopaedia Britannica, c. 1952. p. 279.

34
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

ços.5 No caso das manufaturas do governo, podemos apontar que estas tinham outros
efeitos, além de sua relevância econômica direta, como será tratado nas páginas seguin-
tes. Podemos adiantar que havia seu papel indutor em outros setores da economia, atra-
vés da compra de insumos e produtos acabados já que as forças armadas constituíam um
importante “mercado consumidor” de produtos manufaturados.

De nosso ponto de vista, a inserção do setor governamental na economia não


pode ser ignorada, especialmente nos séculos XVI à XIX, onde as questões relacionadas
à defesa não eram apenas importantes para os governos, mas também para as sociedades
como um todo, como trabalharemos nos capítulos seguintes. Assim, o estudo dos mode-
los seria importante pelos contrastes que suas limitações trazem ao tópico da atuação da
manufatura militar em estudo.

Com essas ressalvas em mente, iniciamos trabalhando com um aspecto que con-
sideramos importante para se entender a singularidade do Arsenal, que seria a forma
como a história econômica vê a questão do surgimento de manufaturas no Brasil, a par-
tir dos modelos idealizados criados para fazer essa questão.

2.1 A questão dos modelos.


Podemos começar este capítulo com uma pergunta que é muito comum nos ban-
cos escolares ou mesmo na sociedade em geral, que às vezes questiona a necessidade da
existência de disciplinas “inúteis”,6 ao contrário das “exatas”, como a matemática, que
teria usos imediatos para todos: para que serve a história? Há várias respostas, uma de-
las é a clássica, a de Cícero,7 que ela seria a “mestre da vida” e isso, seja verdade ou
não, é aceito pela sociedade em geral.

Daí se entende perfeitamente uma pergunta que se colocou de forma bem clara
no início do século XX: porque éramos – e ainda somos – um país subdesenvolvido, ao
contrário do que acontece com as potências europeias ou os Estados Unidos, mesmo

5
HAKSEVER, Cengiz & RENDER, Barry. The Important Role Services Play in an Economy. July 25,
2013. http://www.ftpress.com/articles/article.aspx?p=2095734&seqNum=3 (acesso em março de
2016).
6
Não se referindo especificamente à história, mas sim a filosofia e a sociologia, a própria presidente do
Brasil fez uma colocação sobre o excesso de disciplinas no ensino médio. Bom dia Brasil entrevista
Dilma Roussef. 22 de setembro de 2014. https://goo.gl/wZdbnO (acesso em fevereiro de 2016). Tal
visão é compartilhada por outras pessoas, que não questionam, contudo, a necessidade da existência
das disciplinas exatas.
7
Marco Túlio Cícero, filósofo, orador, político e advogado. CICERO, Marco Túlio. De Oratore. Cambri-
ge: Harvad University Press, 1967. p. 233.

35
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

considerando que as condições iniciais do Brasil e dos EUA, no século XVIII, eram
semelhantes, ou até melhores para o Brasil, pois este último tinha um território maior e
exportações mais relevantes no período, por causa da exploração do ouro?8

A resposta para o questionamento básico, de como a sociedade do Brasil tinha se


formado em termos econômicos, seria obtida pelo estudo histórico, o que levou à reda-
ção de uma série de estudos explicativos de como o País se constituiu como tal. Estes
podem ser chamados de “modelos explicativos” 9 da nação, pelos quais se procurava a
construção de uma teoria de como a sociedade funcionava no passado. O objetivo dessa
operação seria entender o presente e isso seria feito através da elaboração de uma visão
teórica de como a organização social deveria ter funcionado. Tal demanda por uma ex-
plicação não teve uma resposta imediata, o que se fez foi o resultado de uma construção
da historiografia brasileira, que levou décadas até a chegar a uma fruição.

Na construção dos modelos podemos dizer que há uma divisão cronológica usual
divide a historiografia nacional em três períodos: um anterior a 1838, o segundo inici-
ando naquele ano, com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)
e o terceiro a partir de 1931, quando alguns trabalhos hoje fundamentais foram escri-
tos.10 De fato, antes do século XIX, autores como Rocha Pita11 e Southey12, apesar de
terem sua utilidade, podem ser classificados não como historiadores, mas sim como
cronistas, relatando apenas os fatos, sem um embasamento ou mesmo uma abordagem
científica, em termos teóricos. Também não havia critérios que sustentassem suas pro-
postas de manejo das fontes, de forma que é muito difícil uma crítica ao trabalho de
pesquisa feito por esses autores. Mais importante, contudo, é que esses livros se dedica-
vam, quase que exclusivamente, aos campos político-militar e diplomático, ignorando
muitos outros aspectos, mesmo aqueles que mais tarde seriam considerados como liga-
dos a uma “história oficial”, como os econômicos.

8
Essa pergunta aparece tanto na obra de SIMONSEN, Roberto C. Evolução industrial do Brasil e outros
estudos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973. p. 6, quanto na de FURTADO, Celso. For-
mação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional : Publifolha, 2000. p. 106. As
notas sobre a existência de melhores condições no Brasil com relação aos Estados Unidos no século
XVIII estão no livro de Simonsen.
9
Usamos o conceito de modelo explicativo tal como apresentado na obra: FONTES, Virgínia. História e
Modelos. In: CARDOSO, Ciro Flamarion Santana & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da Historia:
Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. pp. 355 e segs.
10
IGLÉSIAS, Francisco. Os historiadores do Brasil, capitulo de historiografia brasileira. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira; Belo Horizonte, MG: UFMG, IPEA, 2000.
11
PITA, Sebastião da Rocha. História da América portuguesa. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo,
EDUSP, 1976.
12
SOUTHEY, Robert. História do Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia : São Paulo, EDUSP, 1981.

36
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Uma segunda fase teria sido iniciada com a fundação do IHGB: anteriormente
tinham existido as academias dos “Esquecidos”, de 1724 e dos “Renascidos”, esta de
1759, ambas de curta duração – cerca de um ano. Estas tinham entre suas propostas es-
crever histórias do País, como seus membros efetivamente fizeram: Sebastião da Rocha
Pita, com sua História da América Portuguesa, de 1730 e Frei Gaspar da Madre de
Deus, com as Memórias para a História da Capitania de São Paulo (1797) ou José de
Miralles, com a História Militar do Brasil (1762).13 Dessa forma, o IHGB não foi a
primeira iniciativa sistemática de estudo de história do Brasil, mas foi a instituição que
apresentou resultados mais concretos, existindo até os dias de hoje, tendo se replicado
em cópias estaduais e órgãos especializados, como o Instituto de Geografia e História
Militar do Brasil (IGHMB), de forma que ele certamente marcou uma época.

Os estudos feitos pelo Instituto Histórico trazem a diferença, talvez fundamental,


com relação aos anteriores, pelo uso maciço de fontes primárias, apesar de muitas vezes
essas fontes não serem referenciadas de forma alguma. De qualquer forma, uma das
visões da história “positivista”, e não apenas aquela ligada ao positivismo formal, de
Augusto Comte, era uma procura de uma aproximação científica ao objeto de estudo,
vendo que “a história não era uma arte; é ciência pura. Ela não consiste em contar um
conto14 agradável ou em filosofar profundamente. Como todas as ciências, ela consiste
em exprimir os fatos, em analisá-los, em agrupá-los, e fazer as conexões entre eles”.15

A ênfase nessa visão de história era, como dissemos, na coleta e organização dos
fatos, de forma que foi feito um esforço para esse trabalho, através da Revista do Institu-
to Histórico e Geográfico Brasileiro. Esta ainda é uma importante fonte de informações
sobre o passado brasileiro, justamente por esse trabalho de sistematização de documen-
tos e livros raros. Essa ideia de que o Instituto não se restringiria apenas à coleta e re-
produção de textos é muito aceita pelos que comentam a historiografia do período, se
enfatizando que os trabalhos da época teriam uma visão acrítica, o que consideramos
uma injustiça ou, no mínimo, um anacronismo. Por exemplo, já no início da história da

13
RODRIGUES, José Honório. História da História do Brasil: 1ª parte historiografia colonial. São Pau-
lo: Companhia Editora Nacional, 1979. p. 144.
14
No original “story”, uma palavra que normalmente é traduzida como história, apesar do termo estória,
estar se tornando comum em Português, para designar um texto de ficção, em oposição ao estudo do
passado. Para evitar confusão, usamos o termo “conto”, que nos parece adequado.
15
FUSTEL DE COULANGES, citado em: REWALD, John. The History of Impressionism. IN:
O’BRIAN, John (ed.). Clement Greenberg: The collected essays and criticism. Volume 2: Arrogant
Purpose, 1945-1949. Chicago: University of Chicago, 1987. p. 235. (todas as traduções no texto são
nossas, a não ser que especificado em contrário).

37
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

instituição foi feito um concurso para uma monografia sobre como se deveria escrever a
história do país, propondo, de forma implícita, que o historiador tivesse uma postura
crítica, reflexiva.16

É certo que esses autores do IHGB não tinham uma proposta que consideraría-
mos “moderna” ou “atual”, que criticasse a situação. Por outro lado, podemos dizer que
tinham posições políticas, expressas em seus trabalhos: Martius defendia o unitarismo
sob o Império e Varnhagen, em seus trabalhos, era conservador, favorável aos grupos
dominantes e a Portugal.17 Rio Branco,18 por sua vez, tinha uma forte visão militarista
da sociedade, tendo em vista a importância desse tema para as questões de relações in-
ternacionais naquele momento e podem-se citar muitos outros autores com propostas
embutidas na redação de seus trabalhos.

Uma última ressalva que é feita aos historiadores do período do IHGB é que al-
guns deles não fizeram trabalhos de síntese geral,19 uma crítica que vemos como parti-
cularmente estranha, considerando que poucos autores – até os dias de hoje – se pro-
põem a fazer tal tipo de trabalho e não parece ser coerente apontar uma falha em um
texto que não tinha o objetivo de atender a esse ponto. No entanto, a objeção faz sentido
quando analisamos o período subsequente na historiografia nacional – aquele definido
por Iglésias como sendo o momento da “contribuição da universidade”,20 que foi mar-
cado, justamente, por grandes trabalhos de síntese, que procuravam estabelecer modelos
explicativos, buscando entender o País de então como resultando de determinantes ori-
undos de seu passado colonial.

Alguns dos estudos da fase da “contribuição universitária” foram revolucioná-


rios no campo. Estes seriam os de Caio Prado Júnior, Gilberto Freire e Sérgio Buarque
de Holanda, por estarem preocupados em achar um “sentido” para o Brasil. Eram textos
que se encaixavam na conjuntura da época, bem específica, na qual se buscava de forma
redobrada os elementos para a construção de uma identidade nacional própria, com raí-
zes específicas. Dava-se ênfase não mais a uma história política, diplomática ou militar
e sim aos estudos que privilegiavam os conflitos de classe e as conjunturas que impedi-
am o desenvolvimento nacional. Tudo isso ocorrendo em um momento de forte contes-

16
Comentários em IGLÉSIAS, op. cit. p. 67.
17
Id. p. 70 e 83.
18
RIO BRANCO, Barão de. Efemérides Brasileiras. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946.
19
Por exemplo, Iglésias crítica Capistrano de Abreu por Isso. IGLÉSIAS, op. cit. p. 123.
20
id. p. 181.

38
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

tação à situação política vigente, vista como inadequada para o Brasil de então. Isso em
um contexto da crise mundial causada pelo crack da bolsa de 1929 e da transição pela
qual o País passava, indo de uma sociedade agrária para uma mais urbanizada, na qual o
processo de industrialização era visto como vital (ver gráfico 1).

100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0

População urbana (%) População rural (%)

Gráfico 1 – Evolução da população urbana versus a rural no Brasil. 21


Apesar de na década de 1930 a população rural ainda ser três vezes maior do que a urbana, a tendência
pela alteração da proporção, que ocorreria na década de 1960, já era evidente, conforme se observa no
gráfico acima.
Um ponto importante para o presente texto é que esses trabalhos explicativos
que começaram a ser feitos na década de 1930 se dedicaram ao passado colonial, na
procura das “raízes” do Brasil. Isso, para nós, apresenta um problema, pois poucos des-
ses estudos que resultaram em modelos trabalham com o Império, que era um passado
recente, enquanto a República ainda estava em construção. Desta forma, o recorte de
interesse para a questão do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, a primeira metade do
século XIX, em teoria, não seria abordado. Isso por aquele momento, na visão da época,
não ser fundamental para se entender o Brasil, pois o período sequer era visto como de
transição com relação às estruturas econômicas do período colonial – este último sim
seria fundamental para entender a construção do que viria a ser o Brasil. Como colocou
Caio Prado era o momento que permitiria entender o Brasil contemporâneo.22

2.2 Modelos sobre o Brasil Colonial.


No século XX foram escritos vários livros sobre a história econômica em geral,
sem contar obras específicas, como a de Pandiá Calógeras, que tratava de política finan-

21
BRASIL – IBGE. Malhas territoriais, municípios. https://goo.gl/ixVST9 (acesso em julho de 2017).
22
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo : colônia. São Paulo: Brasiliense, 2000.
p. 1.

39
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

ceira.23 O primeiro a ser escrito com uma proposta de trabalhar a economia de forma
geral foi o de Vitor Viana, de 1922,24 elaborado no contexto das comemorações do cen-
tenário da Independência do Brasil. Entretanto, apesar de seu título, História da forma-
ção econômica do Brasil, realmente não se pode considerar como tendo atingido seu
objetivo – cremos que o impacto dessa obra na historiografia foi nulo, pois não passava
de uma coletânea de dados esparsos.25 O livro não tem uma clara ideia unificadora, a
não ser a de uma forte defesa dos princípios do liberalismo econômico. De forma geral,
contudo, deixa evidente que sua ideia era a de um país com uma economia dependente e
complementar a da Europa.26

No ano seguinte (1923), foi publicada a obra de Lemos de Brito, Pontos de par-
tida para a história econômica do Brasil,27que se liga mais a tradição documentarista da
história, do tipo estabelecido pelos historiadores ligados ao IHGB. É uma obra que, ape-
sar de seu título genérico, é dedicada ao período Colonial, sendo bem embasada em uma
pesquisa documental – em fontes secundárias, é verdade. Mesmo assim, foi o pioneiro
ao notar a existência de manufaturas militares no Brasil colonial, como a fundição de
Olinda e, principalmente, a questão da construção naval, apontada por ele como “a ver-
dadeira indústria fabril da colônia”. 28 Não é uma obra, contudo, que apresente uma sín-
tese analítica, uma conclusão ou mesmo uma proposta de explicação do porque a eco-
nomia nacional tinha evoluído como acontecera.

2.2.1 O modelo dos ciclos econômicos.


A obra seguinte que foi publicada no Brasil sobre a história econômica, a Histó-
ria econômica do Brasil,29de Roberto Simonsen, datada de 1937, teve – e ainda tem –
um profundo impacto sobre a historiografia brasileira, pois seus efeitos perduram até
hoje. Isso apesar a proposta teórica do livro já ter sido contestada, com sucesso, prati-
camente desde o lançamento do livro.

23
CALÓGERAS, João Pandiá. A Política Monetária do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1960.
24
VIANA, Victor. História da formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1922.
25
id. p. 75.
26
id. Ver, por exemplo, a página 14 do livro.
27
BRITO, Lemos. Pontos de partida para a história econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1980.
28
id. p. 252.
29
SIMONSEN, Robert C. História econômica do Brasil (1500/1820). São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1977.

40
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Roberto Simonsen era um paulista, engenheiro, empresário, fundador da Confe-


deração das Indústrias de São Paulo (1928), responsável pela mobilização industrial
daquele estado durante a Revolução Constitucionalista e deputado constituinte em 1933.
Três anos depois lecionou a disciplina de História Econômica Nacional na Escola de
Sociologia e Política da Universidade de São Paulo, seu livro sendo o resultado dessas
aulas. Sua carreira continuou por muitos mais anos, publicando, também, os livros Pos-
sibilidades da expansão industrial brasileira (1937), A indústria em face da economia
nacional (1937), A evolução industrial do Brasil (1939), A evolução industrial do Bra-
sil e outros estudos (1973),30 Recursos econômicos e movimentos das populações
(1940), Níveis de vida e a economia nacional (1940) e As indústrias e as pesquisas tec-
nológicas (1941).31

A obra de Simonsen era um estudo eminentemente empírico, fazendo o levan-


tamento de séries econômicas e atualizando os valores monetários, suas propostas teóri-
cas se fundamentando em um trabalho anterior, de João Lúcio de Azevedo,32 de 1929.
Nesse último, se fazia uma história econômica de Portugal baseada na ideia de ciclos,
que seriam momentos sucessivos da história, em que a atividade econômica do país se
voltava para um produto ou atividade específica, que superava a importância de todos os
outros. Azevedo apontava os “ciclos” da pimenta (relativo à exploração colonial portu-
guesa na Ásia), do açúcar, do ouro e diamantes, discutindo também outros assuntos,
como a relevância do tratado de Methuen.

Simonsen seguiu o mesmo esquema geral, detalhando os ciclos (ou fases) no


Brasil referentes ao extrativismo; o ciclo do açúcar, com economias subsidiárias a ele,
como a da pecuária; e a mineração, tratando, de forma periférica, de outros assuntos,
como aquilo que ele chamava eufemisticamente de ciclo do despovoamento do interior
do Brasil, ao se referir às expedições de bandeirantes em caça de escravos indígenas.33
O livro termina abordando os preliminares do “ciclo” seguinte, o do café, mas não se
aprofunda no tema, não indo além do período colonial. Conforme colocaram com muita

30
Coletânea publicada pós mortem.
31
FUNDAÇÃO Getúlio Vargas. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Dhbb. Verbete Roberto
Cocharane Simonsen. https://goo.gl/vdWjgS. (acesso em fevereiro de 2016).
32
AZEVEDO, J. Lúcio de. Épocas de Portugal económico: esboços de história. Lisboa: Livraria Clássica
Editora, 1978.
33
SIMONSEN (1977), op. cit. p. 293.

41
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

propriedade Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira, 34 era uma proposta que
se adequava bem à visão conservadora da política do momento, pois pelos ciclos, o que
mudava era apenas a conjuntura – técnicas e/ou produto –, “permanecendo o essencial,
a inserção no mercado mundial”. 35

Simonsen estabelece um modelo explicativo para a economia do Brasil, justa-


mente o dos ciclos, uma proposta que, como dito, teve enorme influência na historiogra-
fia nacional, pois permitia a elaboração de um quadro evolutivo simples e facilmente
compreensível sobre o desenvolvimento econômico. Neste fica implícita não só a de-
pendência da colônia em relação à metrópole, mas a total vinculação da mesma às ques-
tões europeias. Por ele o Brasil existia em função e como complemento das necessida-
des portuguesas, por ser apenas um exportador de produtos primários (açúcar e ouro).
Por sua vez, isso também implicava que a economia do País se concentrava em produtos
pouco elaborados e que a exportação e distribuição eram controladas por pessoas não
ligadas diretamente à produção, ou seja, que não tinham nascido ou viviam no Brasil.

Dentro da análise de Simonsen, um ponto importante em sua explicação para o


não desenvolvimento do Brasil foi:

A ausência de capitais, de organizações técnicas e a política de livre-


câmbio, que fomos forçados a adotar até 1844 – impediram aqui a im-
plantação de indústrias e a possível melhoria do nosso padrão de vida,
por um intenso intercâmbio interno. 36
Uma conclusão que repetiria em sua obra sobre a história da industrialização, o
autor apontando que havia falta de mercados e que sem uma política protecionista seria
impossível iniciar-se um processo de industrialização.37 Para ele, era uma situação que
se prolongava na década de 1930 – e Simonsen era, por causa disso, um defensor do
intervencionismo e planejamento estatal para incentivar a indústria, chegando a apresen-
tar ao governo do Presidente Vargas um plano para isso, que não chegou a ser implan-
tado, por oposição de políticos de vertente liberal.

Em termos de crítica, a proposta dos ciclos econômicos tinha vários problemas.


Por exemplo, deixa de considerar a existência de lavradores independentes ou pequenos
produtores familiares na pecuária, ou seja, ignora os aspectos relativos ao mercado in-

34
LINHARES, Maria Yedda & Francisco Carlos Teixeira da Silva. História da Agricultura Brasileira :
combates e controvérsias. São Paulo: Brasiliense, 1981.
35
Id. p. 19.
36
SIMONSEN (1977), op. cit. p. 436.
37
SIMONSEN (1973), op. cit. pp. 8-9.

42
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

terno, conforme apontado por Maria Yedda e Francisco Carlos Teixeira. 38 Maria Yedda
também faz outras críticas aos conceitos embutidos nos ciclos, como o fato da proposta
só ter “favorecido uma visão compartimentada e estanque da história, como numa pro-
jeção de diapositivos: sai o pau-brasil, entra o açúcar e assim por diante”.39 Considera-
mos essa a principal e mais válida observação que é feita à teoria de Simonsen, pois a
tendência seria aceitar que houve de fato um processo de substituição de um produto por
outro, o item substituído “desaparecendo” da agenda econômica nacional, o que é um
absurdo.

Curiosamente, o próprio livro de Simonsen demonstra a falácia do raciocínio dos


ciclos, pois o autor faz um levantamento da renda obtida pelas exportações de açúcar e
ouro durante o período colonial e pelos dados obtidos (ver Gráfico 2 abaixo). Neste ob-
serva-se que, apesar de ter havido uma retração nas rendas obtidas na exportação de
açúcar depois do fim das Guerras Holandesas (1630-1654), o valor com o produto agrí-
cola sempre foi superior ao obtido com as exportações de metal precioso, mesmo no
período de maior rendimento da atividade mineradora, em meados do século XVIII.
Além disso, apesar da atividade mineradora ter realmente se esgotado, o mesmo não é
perceptível com o açúcar, que se manteve como uma importante parcela da pauta de
exportações brasileiras, pelo menos até a década de 1870.40

38
LINHARES, op. cit. p. 11.
39
id. p. 11.
40
SINGER, Paul. O Brasil no Contexto do Capitalismo Internacional : 1889-1930. IN: FAUSTO, Boris
(dir.). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo. III. O Brasil Republicano. Volume 1. Estrutu-
ra de poder e economia (1889-1930). São Paulo DIFEL, 1985. p. 355.

43
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Exportações Brasileiras em libras exterlinas

4000000
3500000
3000000
2500000
2000000
1500000
1000000
500000
0

Anos

Açúcar Ouro

Gráfico 2 – Valores da pauta de exportações brasileiras no período colonial.


Baseado em dados da obra de Simonsen, 41 demonstra graficamente que a ideia de uma economia de ciclos
sucessivos, de um produto que substituía outro, não pode ser considerada como válida: mesmo levando
em contra o período de maior produção do metal precioso, a década de 1760, os valores do ouro exporta-
do oficialmente nunca ultrapassaram os obtidos com a lavoura de um só produto. É verdade que se deve
fazer uma ressalva: a obtenção de dados oficiais para a exportação de açúcar, uma mercadoria de baixo
valor e grande volume, era mais simples e confiável do que para o ouro, muito mais fácil de ser contra-
bandeado do que o produto agrícola. Simonsen estima que 40% do ouro retirado do Brasil não pagou o
quinto,42 ou seja, não seria registrado nos dados governamentais. De qualquer forma, isso não afeta o
entendimento do gráfico, pois ele ainda mostra a permanência da importância do açúcar na pauta de ex-
portações, independente dos valores reais enviados para o exterior.
Em termos da presente tese, devemos notar que o livro de Simonsen apresenta
outro problema, que se repete em praticamente todos os autores que o seguiram: apre-
senta seus “ciclos”, terminando com o início da exploração do café, na década de 1820,
um momento considerado como fundamental para eles. Contudo, naquele momento esse
produto não era um elemento fundamental na balança de comércio nacional, os valores
de sua exportação (18,6% da pauta) pouco excedendo os do couro (13,6%), sendo infe-
riores até aos obtidos com a exportação do algodão, que eram de 20,6% (ver Gráfico
3).43 Isso apresenta um problema conceitual para a teoria dos ciclos: se a fase da mine-
ração tinha se encerrado no século XVIII e o do café só começaria a se fazer dominante
na década de 1830, quando passou a representar mais de 40% da pauta de exportações,
como se caracterizaria o período do início do século XIX?

Consideramos a questão acima como tendo particular relevância, tendo em vista


que esse momento não se encaixa em nenhum dos “ciclos” propostos, ainda mais tendo
em vista que não havia, segundo Simonsen, realmente uma mercadoria dominante na
produção agrícola daquele período. Essa é uma pergunta que merece uma análise, mes-

41
SIMONSEN (1977), op. cit. p. 383.
42
id. p. 253.
43
SINGER, op. cit. p. 355.

44
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

mo por aqueles que apoiam a teoria dos ciclos, pois existiria um momento em que a
economia não teria um “motor”, devendo ter caído em profunda depressão, o que não
ocorreu, pelo menos em termos facilmente observáveis. Deve-se dizer que os livros que
tratam da questão de modelos econômicos no Brasil, praticamente sem exceção, têm
dificuldade de trabalhar com esse período, pois ele não se encaixa facilmente nas noções
preconcebidas sobre o funcionamento da economia.

Produtos de exportação (1821-1870)

100%

80%
Percentuais

60%

40%

20%

0%
1821-30 1831-40 1841-50 1851-60 1861-60
café Açúcar Algodão Outros

Gráfico 3 – Pauta de exportações no Império, por percentagem do total. 44


Somente na década de 1830 é que o café se torna o produto de exportação mais importante do País, mas
no período analisado, nunca chegou a superar a marca de 50% das exportações. Certamente não se pode
dizer que fosse o produto dominante no período anterior à Independência.
Ainda com relação à pergunta sobre o que teria acontecido nas primeiras déca-
das do século XIX, apontamos que Simonsen deixa claro que a industrialização do País
teria ocorrido depois da década de 1870, com apenas um período inicial a partir da Tari-
fa Alves Branco, de 1844.45

Aqui vale fazer um interlúdio para falar da tarifa, já que essa é central em várias
obras que tratam da economia no Império. Esse imposto foi criada pelo decreto de 12 de
agosto de 1844, assinado pelo ministro da fazenda Manoel Alves Branco, o texto legal
estabelecendo alíquotas que iam de 60% até 2% para a importação de produtos.46 Houve
vários motivos para a implantação da tarifa, um deles, apontado no próprio relatório do
Ministro da Fazenda, seria uma retaliação contra uma medida Inglesa que aumentava o
taxação sobre o açúcar brasileiro. 47 Assim, os artigos 20 e 21 do decreto de criação da

44
id. p. 355.
45
SIMONSEN (1973), op. cit. p. 14.
46
BRASIL – Decreto nº 376, de 12 de Agosto de 1844. Manda executar o Regulamento e Tarifa para as
Alfandegas do Império.
47
BRASIL – Ministério da Fazenda. Proposta e Relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa
na 1ª Sessão da 6ª Legislatura, pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, Ma-
noel Alves Branco. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1845. p. 33. Eram cobrados 63 shillings e
5% do valor açúcar brasileiro, 34 shillings e 5% do açúcar asiático e apenas 24 shillings do produto
vindo das colônias inglesas.

45
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

tarifa explicitam que ela era uma reparação com relação aos países que “cobrarem sobre
quaisquer gêneros importados (...) maiores direitos de consumo”. 48

Não podemos deixar de conjecturar, também, que as tensões com a Inglaterra,


por causa da questão do Pirara, justamente em 1844 e que quase tinham resultado em
um conflito com os britânicos, tenham influenciado na adoção da tarifa.49 Por sua vez,
se coloca que o Bill Aberdeen, que aumentava a intervenção inglesa contra o comércio
de escravos para o Brasil, teria sido uma reação britânica ao aumento dos impostos, pois
estes afetariam principalmente os interesses ingleses. 50

De qualquer forma, o próprio relatório do ministro Alves Branco, explicitava


que os motivadores da tarifa foram duplos: o imposto por um lado destinar-se-ia a “pro-
teger os capitais nacionais já empregados dentro do país em alguma indústria fabril, e
animar outros a procurarem igual destino”. 51 Só que o texto frisava também que “o pri-
meiro objeto da tarifa [era] preencher o déficit, em que há anos labora o país”,52 ou seja,
queria-se aumentar a arrecadação. De qualquer forma, a questão da proteção às indús-
trias não pode ser descartada, apenas devendo-se notar que o imposto não foi dirigido
diretamente e unicamente para esse objetivo.53

48
BRASIL – Decreto nº 376, op. cit.
49
Para um breve relato sobre intenção de guerra criada pela intervenção inglesa em Roraima, ver: CA-
LÓGERAS, Pandiá. A política exterior do Império. vol. III. Da Regência à queda de Rosas. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933. pp. 311-312.
50
IGLÉSIAS, op. cit. p. 42.
51
id. p. 34.
52
id. p. 34.
53
id. p. 37.

46
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Balança orçamentária

80
Bilhões

60

40

20

0
1823

1825

1827

1829

1831

1833

1835

1837

1839

1841

1843

1845

1847

1849

1851

1853

1855

1857

1859

1861

1863
-20

-40
-60

-80

-100
Gráfico 4 – Saldos e déficits do orçamento do Império.54
O gráfico mostra, em bilhões de libras esterlinas (valores atualizados), a longa série negativa de valores
da despesa orçamentária, quando comparada com as receitas governamentais, a situação sendo bem grave
pouco antes da implantação da tarifa Alves Branco. O problema só passaria a ser menos crítico bem mais
para o final do século XIX.
A tarifa e seus efeitos são controversos. Para alguns, ela não poderia ser conside-
rada como protecionista, “porque não havia indústria a defender”,55 mas, independente
de uma relação causal, o fato é que por essa época surgiram as primeiras manufaturas
civis de grande porte – as do governo, como os arsenais, já existiam há décadas. Desta
forma, sua importância como elemento relacionado com o processo de aceleração indus-
trial não pode ser descartada, sendo ela um elemento recorrente nos modelos explicati-
vos que tratam da industrialização brasileira, como dissemos acima, apesar de seus efei-
tos serem considerados como transitórios.

Retornando às propostas de Simonsen, devemos dizer que o modelo dos ciclos


econômicos teve um enorme efeito na historiografia nacional. Em parte, por ser usado
em outras obras, mesmo muito depois do embasamento da proposta ter sido criticado
com sucesso.56 Por exemplo, Weber Baer, escrevendo na década de 1970, adotava a
periodização de ciclos, afirmando que teria havido “estagnação” do açúcar no século
XVII, seguido pelo período do ouro, que foi sucedido por outro período de estagnação,
pois a economia era, de acordo com o autor, totalmente dependente do exterior.

54
Dados extraídos de: CARREIRA, Liberato de Castro. História Financeira e Orçamentária do Império
do Brasil. Brasília: Senado, 1980. pp. 127 e segs. Os valores foram atualizados usando as cotações
médias da libra esterlina em cada ano, com a correção monetária sendo feita com os dados obtidos
em: https://goo.gl/rtcTbc. (acesso em dezembro de 2015). O parâmetro de conversão foi o do “valor
real” da moeda britânica, a menor de todas as atualizações monetárias disponíveis.
55
Comentário de Ferreira Lima, que rebate essa visão, apontando a importância da tarifa para o surgimen-
to de manufaturas. LIMA, Heitor Ferreira. História político-econômica e industrial do Brasil. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973. p. 263.
56
BAER, Werner. A industrialização e o desenvolvimento econômico do Brasil. Rio de Janeiro: FGV,
1977. pp. 4 e segs.

47
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Apesar da resistência da ideia dos ciclos, esse modelo explicativo foi questiona-
do, com sucesso, por Caio Prado Jr., em sua obra publicada em 1945. Não que ele negue
a sucessão de produtos primários na economia do Brasil, ele a reconhece explicitamen-
te,57 mas o autor aponta que não é a simples alternância desses que poderia explicar a
economia nacional.

2.2.2 O modelo da dependência estrutural – Caio Prado Jr.


O próximo livro sobre história econômica teria um efeito igualmente forte e pro-
longado na historiografia nacional: a obra de Caio Prado Jr.58 O autor era um advogado
que tinha se envolvido na política já no final da década de 1920, pouco depois de se
formar na faculdade. Se filiou ao Partido Comunista em 1931, sendo, contudo, rejeitado
pela direção do partido por suas origens burguesas. Dois anos depois publicou o Evolu-
ção política do Brasil, livro interessante por não aceitar uma visão marxista simplista,
de que o Brasil estaria em um momento de transição entre o feudalismo e o capitalismo,
já que por ele não tinha havido feudalismo no País. 59 Como dito acima, em 1942, Caio
Prado escreveu o livro Formação do Brasil contemporâneo, que é considerado como
uma das dez obras mais importantes para se compreender o Brasil. 60 Neste livro se apre-
sentavam as bases de suas teses sobre as origens da situação econômica do Brasil con-
temporâneo, que seriam desenvolvidas três anos depois, com o História Econômica do
Brasil.

Em suas obras, Caio Prado faz algumas observações de extrema relevância para
o entendimento do assunto da história econômica, a começar por sua contestação da
teoria dos ciclos. Apontava que havia problemas estruturais que perpassavam toda a
história do País e que, portanto, as conjunturas momentâneas, relativas a um determina-
do tipo de produto (açúcar, ouro ou café) não seriam fundamentais para a explicação do
Brasil. Esse último ponto é importante, pois para o autor havia a necessidade de se
compreender a estrutura e historicidade da sociedade, o seu “sentido”, algo que, em suas
palavras “se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e
acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo”.61 Continua-

57
PRADO JÚNIOR, op. cit. p. 20.
58
id. & PRADO JÚNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo : Brasiliense, 1977.
59
FUNDAÇÃO Getúlio Vargas, op. cit. Verbete Caio Prado Júnior. https://goo.gl/5xxBsU. (acesso em
fevereiro de 2016).
60
LEÃO, Igor Zanoni Constant Carneiro & SILVA, Newton Gracia da. A relação entre Caio Prado e
Celso Furtado. Economia & Tecnologia. Ano 07, vol. 27, out. /dez. de 2011. p. 100.
61
PRADO JÚNIOR (2000), op. cit. p. 7.

48
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

va, apresentando a necessidade que havia de se estudar uma nação não em seus fatos
isolados, mas sua estrutura e organicidade – Caio Prado colocaria que a colonização “é
apenas parte de um todo, incompleto sem a visão deste todo”.62

Dentro dessa forma estrutural de se ver a história é que se entenderia a coloniza-


ção do Brasil – e da América Hispânica – como um vasto empreendimento comercial
visando complementar as economias europeias, em uma atividade que no Brasil se es-
tende desde o século XVI ao XVIII. Assim, Caio Prado apresenta como sua síntese da
economia nacional a questão de sua dependência do comércio europeu, com base na
produção de produtos primários para exportação para as potências coloniais, no caso,
Portugal. Também apontava como um dos determinantes da colonização do território o
fato do Brasil ser uma colônia de exploração e não uma de ocupação, como ocorreria na
América, o que seria ocasionado pela necessidade do Europeu encontrar nas zonas tro-
picais meios econômicos que justificassem sua vinda para uma região de clima não hos-
pitaleiro. 63

Como consequência do estabelecimento de colônias de exploração, voltadas para


a exportação de produtos agrícolas ao contrário do que ocorria na América temperada,
era necessário que os empreendedores tivessem vultosos capitais, necessários para a
montagem de grandes unidades produtoras latifundiárias, o engenho e suas plantações.
Estas, por sua vez, teriam que ter uma grande força de trabalho, que seria majoritaria-
mente composta por cativos, já que não havia braços livres para isso. Um processo que
teria inferências culturais, como grande a aversão ao exercício de atividades mecânicas.
Como escreveria o autor, havia uma

proporção considerável de populações que, com o tempo, vão ficando


à margem da atividade produtiva normal da colonização. O círculo
dessa atividade se encerra quase exclusivamente com os dois termos
fundamentais da organização econômica e social da colônia: senhores
e escravos; os primeiros promotores e dirigentes da colonização; os
outros, seus agentes.64
De forma resumida, pode-se dizer que a proposta estabelecia as seguintes carac-
terísticas para o Brasil colonial: seu sentido seria o de uma economia agrícola, de expor-
tação, completamente dependente da Europeia, a quem devera fornecer gêneros tropi-

62
id. p. 9.
63
id. pp. 16-17.
64
id. p. 369.

49
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

cais, sem ter uma produção local de produtos manufaturados. Conforme o autor escre-
veu:

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos


constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais
tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o
comércio europeu. Nada mais que isto. E com tal objetivo, objetivo
exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que
não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a socie-
dade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a es-
trutura, bem como as atividades do país.65
A proposta de Caio Prado seria criticada mais tarde justamente por sua premissa
central, de que a sociedade nacional seria totalmente dependente das demandas de Por-
tugal, o que implicaria não haver movimentos econômicos internos de relevância. De
um ponto de vista muito simples já era evidente que isso era incorreto na época em que
escreveu, havendo dados sobre a produção de alguns produtos que não se destinavam
primordialmente para o mercado europeu, tais como o tabaco.

O autor, ao se concentrar no latifúndio exportador, divide a sociedade entre


grandes proprietários e escravos, descartando o resto da população como “agregados”
ou “desocupados permanentes”,66 por estes não produzirem para o mercado. Usa até
palavras fortes, dizendo que em torno do núcleo escravista havia um “vácuo” – uma
posição difícil de ser defendida, quando se olha, mesmo que de forma passageira, a di-
nâmica da população colonial, com pequenos produtores, tais como proprietários de
currais no Rio São Francisco, depois citados por Maria Yedda.

Em se tratando da presente tese, devemos dizer que o livro Formação do Brasil


Contemporâneo deveria ser uma obra de vários volumes, mas só foi publicado o refe-
rente ao período colonial. A obra História Econômica do Brasil, contudo, prossegue
com a análise ate períodos mais recentes – nas últimas edições, chega até a década de
1960. O livro em sua parte inicial repete o que foi colocado na Formação do Brasil Con-
temporâneo, em especial a questão básica, do que seria o sentido do Brasil, o de uma
economia dependente, seu caráter geral sendo a exploração de recursos naturais em pro-
veito da metrópole, todas as atividades girando em torno de fornecimento ao comércio
internacional de alguns produtos tropicais. 67

65
PRADO JÚNIOR (2000), op. cit. p. 20.
66
id. p. 290.
67
PRADO JÚNIOR (2007), op. cit. pp. 102-103.

50
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Após o término formal do período colonial, ou seja, 1808, Caio Prado aponta
que não houve nenhuma mudança brusca. Em primeiro lugar, havia a questão estrutural,
que não teria se alterado, pois a situação era dificultada pela ausência de uma postura
protecionista. A tarifa de 15% implantada junto com a abertura dos portos em 1808, não
permitia uma efetiva competição local com os produtos europeus,68 de forma que as
iniciativas de industrialização intentadas na 1ª metade do século XIX fracassaram. O
fim do protecionismo causado pelo exclusivo colonial causaria, segundo o autor, a ruína
do artesanato local, a ponto de haver uma interrupção no desenvolvimento econômico
do País, como ele coloca:

Entre a primitiva indústria artesanal da colônia e a moderna maquino-


fatura, interpõe-se na evolução econômica do Brasil um grande hi-
ato. Aquela decaiu e praticamente se anulou antes que a outra surgis-
se. Assinalei em capítulo anterior que a abertura dos portos ao livre
comércio exterior em 1808, aniquilou a rudimentar indústria artesanal
que existia na colônia. Não somente se abriram os portos, mas permi-
tiu-se que as mercadorias estrangeiras viessem a concorrer no merca-
do brasileiro em igualdades de condições com a produção interna,
graças a tarifas alfandegárias muito baixas (15% ad valorem) que se
mantiveram até 1844. As débeis manufaturas brasileiras, já tão
embaraçadas pelas precárias condições econômicas e sociais do
país, sofrem com isto um golpe de morte. Diante da concorrência
dos produtos da indústria europeia, de qualidade superior, muito mais
variados e de baixo custo, elas não somente se tornavam incapazes de
progredir, mas praticamente se paralisam. E quando, mercê de novas
circunstâncias, a indústria brasileira se restabelece, terá por isso que
partir do nada, já sem tradição manufatureira, sem condições materiais
e sobretudo elemento humano aproveitáveis.69
Uma posição que consideramos como complicada, pois parte do princípio de que
o fim do período colonial, ou seja, o início da obtenção da autonomia política represen-
tou que as condições internas se degradaram em termos de economia. Não há dados
empíricos apontando para isso e há vários trabalhos notando que houve um crescimento
do mercado interno, o que implicaria que houve um aumento da demanda local e não o
contrário, como fica implícito no livro de Caio Prado.70

Outro problema, mais visível nessa descrição da situação econômica apresentada


por Caio Prado para a primeira metade do século XIX ainda está associado à questão
dos ciclos: segundo seu modelo explicativo, entre o fim da exploração do ouro e o início

68
id. p. 134.
69
id. p. 257. Os grifos são nossos.
70
Para uma longa e bem fundamentada discussão sobre os problemas da tese de Caio Prado, ver CAL-
DEIRA, Jorge. História do Brasil com Empreendedores. São Paulo: Mameluco, 2009.

51
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

do “ciclo” seguinte, o do café – quando finalmente teria começado a industrialização do


Brasil –, teria que haver um período de estagnação e declínio, o que não é observável
em dados empíricos (ver Gráfico 5).

Receita do Império

45
40
35
30
25
20
15
10
5
0

Gráfico 5 – Receita governamental no Brasil – 1823-1865.


Apesar de não ser uma real representação do produto interno bruto do País, o gráfico, em bilhões de libras
esterlinas (valores atualizados para 2014), mostra que não houve um período prolongado de retração
econômica na primeira metade do século XIX, ao contrário do que seria de se esperar no modelo dos
“ciclos” ou na proposta estrutural de Caio Prado Jr. Se constata que houve um lento, porém constante,
aumento das despesas governamentais, o que pode ser tomado como um índice de uma crescente ativida-
de econômica.71
Independente de seus problemas, o texto de Caio Prado é sem dúvida, até os dias
de hoje, uma das obras consideradas como das mais relevantes como modelo explicati-
vo do Brasil, tendo sido escritos diversos trabalhos discutindo sua visão sobre o desen-
volvimento histórico nacional. Isto por seu modelo ser, aparentemente, suficiente para
explicar em termos iniciais a situação do Brasil tal como existia na década de 1940, ape-
sar de trabalhos acadêmicos posteriores terem, crescentemente mostrado que o mesmo
não é adequado quando se leva em consideração detalhes de como funcionava de fato o
sistema.

71
Dados extraídos de: CARREIRA, op. cit. pp. 127 e segs. A atualização monetária foi feita com base e m
no “preço real” da moeda britânica, atualizado a partir do sítio: Measuring Worth.
https://goo.gl/rtcTbc. (acesso em dezembro de 2015). Observe-se que o aumento da receita no final
da década de 1820 pode ser atribuído a uma taxa de câmbio mais favorável naquele momento, con-
forme pode ser visto no Gráfico 7, abaixo).

52
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

2.2.3 Celso Furtado e a Formação Econômica do Brasil.


Um terceiro livro sobre história econômica que teve grande influência na histo-
riografia nacional foi o de Celso Furtado, o Formação econômica do Brasil, publicado
em 1959. O autor era formado em direito, tendo ingressado no serviço público em 1943.
Serviu na Força Expedicionária Brasileira na Itália como oficial de ligação junto ao V
Exército Norte-Americano, sendo ferido em combate. Depois de um curto período de
tempo de volta ao Brasil, retornou à Europa, inscrevendo-se no doutorado em economia
na Sorbonne. Em 1947 fez um período de estudos na London School of Economics, de-
fendendo no ano seguinte sua tese sobre a economia colonial brasileira.

Celso Furtado trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina (CE-


PAL), da ONU, sendo nomeado diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da
CEPAL, no cargo “defendendo a teoria que propunha o desenvolvimento para a Améri-
ca Latina através de transformações da estrutura econômica, tais como a reforma agrária
e mudanças radicais nas relações de comércio exterior”.72 Esta foi uma posição política
que manteria ao longo de toda a sua carreira política e acadêmica e que ser refletiria em
suas obras de 1954 e 1956, os livros A economia brasileira: contribuição à análise de
seu desenvolvimento e o Uma economia dependente, nas quais analisava as estruturas da
economia nacional e seu passado colonial. Indo para a Inglaterra para ministrar um cur-
so e para realizar um ano de estudos de pós-graduação no King’s College, quando es-
creveu o livro Formação econômica do Brasil, de 1959, talvez sua obra mais conhecida
pelos historiadores.

Não nos alongaremos em sua trajetória profissional posterior, pois apesar de ser
muito longa, prolífica e extremamente importante em termos sociais e políticos, 73 não
nos parece ser relevante ao presente trabalho. Basta dizer que, segundo Francisco Iglé-
sias, a obra de Celso Furtado, a Formação Econômica do Brasil, é o “livro mais ecoante
dos últimos tempos no campo das ciências sociais e da historiografia”, Iglesias continu-
ando, dizendo que é “um livro seminal a bibliografia nativa: quanto se produz em ciên-
cia social o leva em conta”.74

72
FUNDAÇÃO Getúlio Vargas, op. cit. Verbete Celso Furtado. https://goo.gl/lPoBEJ. (acesso em feve-
reiro de 2016).
73
id.
74
IGLÉSIAS, op. cit. p. 226.

53
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Do ponto de vista da construção de seu modelo da economia colonial, são evi-


dentes as influências da vida profissional de Celso Furtado em suas conclusões. Por
exemplo, o conceito fundamental de sua obra é a questão da dependência, com a divisão
internacional da economia. Nesta situação haveria um centro capitalista, a Europa, em
desenvolvimento e que seria encarregado dos produtos manufaturados e uma periferia
que forneceria produtos primários a baixo custo para as áreas centrais. Isso gerava uma
crescente diferenciação entre a situação econômica das duas regiões, com uma igual-
mente crescente dependência da periferia com relação às áreas desenvolvidas. Uma si-
tuação que era agravada no caso específico do Brasil, pois Portugal, para Furtado, era
um simples “entreposto”, repassando os produtos agrícolas para outras economias euro-
peias, em troca de produtos manufaturados, também feitos fora do território nacional,
para a colônia.75

Decorrente do modelo de Celso Furtado havia o fato de que não haveria necessi-
dade de um mercado consumidor interno na colônia, isso por dois motivos: primordial-
mente, a dinâmica da economia, sendo dependente da venda de produtos para a Europa,
não criaria esse mercado. Os engenhos e fazendas, geradores de renda seriam adminis-
trados por um grupo muito reduzido de pessoas, cujas necessidades podiam ser supridas
localmente, por uma produção de autoabastecimento ou por pequenas importações, en-
quanto a força de trabalho era escrava, ou seja, excluída do circuito de consumo.

Segundo ele, não havia sequer uma classe de grandes comerciantes locais, pois
essa atividade seria dominada por interesses da metrópole. 76 Portanto, fica implícito que
não havia outros grupos economicamente relevantes na colônia, só senhores e escravos.
A inexistência de pessoas que pudessem se conformar como um mercado consumidor é
de fundamental importância na explicação de Furtado, pois o autor, como resposta à
pergunta de que “porque o Brasil não se industrializou como os norte-americanos?”
responderia que os domínios portugueses na América do Sul foram criados como uma
colônia de exploração. Ai o objetivo, o sentido da colonização seria o da produção agrí-
cola para exportação, enquanto os Estados Unidos teriam sido estabelecidos como uma
“colônia de povoamento”, para o estabelecimento de excedentes populacionais ingle-

75
FURTADO (2000), op. cit. p. 100.
76
id. p. 100.

54
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

ses,77 criando um mercado e a possibilidade de estabelecimento de manufaturas locais,


tal como já colocado por Caio Prado Júnior.

Aqui devemos fazer uma observação: em vários momentos de sua obra Celso
Furtado, tal como Caio Prado, faz suposições e extrapolações, como quando diz que a
renda no Brasil deve (sic) ter diminuído com a queda dos preços do açúcar e a redução
da produção do ouro em Minas Gerais. 78 Não aponta, contudo, dados empíricos que
sustentem essas conjecturas, algumas contestadas em pesquisas posteriores de outros
autores. Tal é o caso da dinâmica econômica de Minas Gerais, que, segundo essas pes-
quisas posteriores, não sofreu uma retração e depressão com o fim da mineração como
seria de se esperar de seu modelo e como Furtado aponta que teria acontecido em sua
obra. A explicação para a manutenção de atividades econômicas relevantes na região
sendo que lá havia um mercado consumidor, a economia local tendo se realinhado para
superar os problemas da decadência da produção do ouro.79

Outro fator que também pode ser questionado é a relevância – ou mesmo a hipó-
tese – dos Estados Unidos terem sido criados como uma colônia de povoamento. Isso
independentemente da própria validade do próprio conceito de “colônia de povoamento
versus colônia de exploração”. A simples ocupação do espaço físico não era o pensa-
mento inglês que levou à colonização do território e essa classificação, de “povoamen-
to”, certamente não se aplica à região sulina dos EUA. Mais importante, a população
das treze colônias não era significativamente diferente da do Brasil no momento de suas
independências – era de cerca de dois milhões e meio em 1775 nos EUA e de dois mi-
lhões no Brasil de 1800. 80 A rápida diferenciação na quantidade de moradores das duas
áreas podendo ser facilmente explicável pela imensa imigração feita para os Estados
Unidos após a independência de lá: havia lá seis milhões de habitantes em 1800 e 24
milhões em 1850. 81 Um crescimento que o Brasil não acompanhou, mas essa diferença

77
id. p. 106.
78
id. p. 102.
79
Ver, por exemplo, LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista:
Minas no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1988.
80
Não incluindo 800.000 índios não assimilados que existiriam em 1819. Com esses, a população brasi-
leira perto da Independência ultrapassaria a norte americana na mesma época. Contudo, não se pode
considerar os nativos como parte do mercado consumidor. Os dados sobre os indígenas foram retira-
dos de: MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento Histórico da População Brasileira até 1872.
https://goo.gl/7zTD4f. (acesso em março de 2016).
81
MCEVEDY, Colin & JONES, Richard. Atlas of world population history. Harmondsworth: Penguin,
1978. pp. 286 e 306. É bem verdade que a população de escravos no Brasil, de 30% em 1819, era
Continua –––––––

55
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

não pode ser atribuída ao fato de um país ser colônia de exploração ou de povoamento,
já que o período colonial tinha se encerrado nos dois casos.

Esses pontos polêmicos, tendo em vista a falta de estudos empíricos por parte de
Celso Furtado geraram, inclusive, severas críticas, como a de Maurício Coutinho:

Das Minas, Furtado conhecia muito pouco; e menos ainda do que su-
cedeu à região mineira no século XIX. Suas conclusões, desse modo,
estão pouco referidas ao quadro histórico real. Pode-se dizer que se
sustentam, em grau bem maior do que no restante do livro, em racio-
nalizações construídas com base em um modelo geral de história eco-
nômica brasileira.82
Retornando à análise da obra de Celso Furtado, como apontamos, para ele havia
uma situação de total dependência, que resultaria em um modelo de economia interna
com as seguintes características:

1. Preponderância do latifúndio agroexportador, de fazendas e engenhos;

2. As propriedades agrícolas seriam autossuficientes, produzindo tanto os bens exportá-


veis, centrais da economia, quanto os alimentos e produtos necessários à subsistên-
cia dos cativos;

3. Os segmentos intermediários na economia seriam virtualmente inexistentes e haveria


uma polarização entre dois extremos bem afastados entre si: um pequeno núcleo de
proprietários de terras e uma massa de trabalhadores escravos, que não tinham ren-
da própria, pois esta pertencia aos senhores;

Como consequência do colocado acima, não havia setores intermediários, ou se-


ja, mão de obra livre com renda própria, capaz de criar um mercado consumidor. Por-
tanto:

4. O restante da economia colonial podia ser desconsiderado, pois não haveria um mer-
cado que absorvesse excedentes: era uma economia de subsistência, que não tinha
valor econômico 83;

5. Decorre daí que não havia monetização na economia interna, pois não havia também
um comércio interno significativo, nem o pagamento de salários, toda a renda se
concentrando na mão dos proprietários. Os senhores de escravos, por sua vez, rein-
Continuação–––––––––––
consideravelmente maior do que nos EUA pouco depois da Independência de lá – os cativos eram
apenas 18% da população norte-americana em 1790.
82
COUTINHO, Maurício C. Economia de Minas e economia da mineração em Celso Furtado. Nova Eco-
nomia. Belo Horizonte 18 (3), set./dez.de 2008. p. 362.
83
FURTADO, op. cit. p. 126.

56
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

vestiam na produção, consumiam produtos de luxo importados ou esterilizavam o


capital, fazendo gastos com bens de luxo não relacionados com a acumulação de
capital, como obras suntuárias. Tudo isso dificultava o surgimento de um comércio
interno;

6. Como decorrência da concentração da renda em um grupo de exportadores, as trocas


monetárias praticamente se restringem a uma relação com a metrópole, tendo em
vista que havia apenas a renda da exportação de produtos primários. Os fluxos mo-
netários seriam centrados na esfera das relações internacionais, pela receita de ex-
portação, remessas de pagamentos e importação de bens para os proprietários.84

Em suma, para Celso Furtado a economia nacional no período colonial, se vista


fora do contexto de sua subordinação ao mercado externo, simplesmente não existia ou
era completamente irrelevante. Para o autor, o único setor do mercado interno que tinha
alguma importância era o da pecuária e esta era voltada para o apoio às atividades de
exportação, não tendo uma dinâmica própria relevante.

Do ponto de vista do presente trabalho, Celso Furtado prossegue com a constru-


ção de seu modelo, este indo além do período colonial. Uma sequência lógica, já que
procurava esclarecer a situação do Brasil no seu período contemporâneo, as décadas de
1940 e 1950. No entanto, seu modelo cria uma situação complicada, que seria o que
teria acontecido no final do período colonial – ou, mais propriamente, no final do século
XVIII. Naquele momento, a produção de ouro diminuiu e, segundo suas palavras, “ex-
cluído o núcleo maranhense, todo o resto da economia atravessou uma etapa de séria
prostração nos últimos anos do século”.85

Tal situação de decadência, segundo o autor teria continuado até a “fase” seguin-
te, a da produção do café, que teria começado na década de 1830 e que só resultaria em
mudanças estruturais mais tarde. Furtado se referia a um período de três quartos de sé-
culo (1775 a 1850), o qual, por seu modelo, seria um de estagnação e retração econômi-
ca. Segundo suas colocações, o Brasil era um país dependente do mercado externo e não
havia, até o café, um produto de exportação que desse embasamento ao “sentido” da

84
COUTINHO, op. cit. pp. 363-364.
85
FURTADO (2000), op. cit. p. 97.

57
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

econômica nacional. “A causa principal do grande atraso relativo da economia brasileira


na primeira metade do século XIX foi, portanto, o estancamento de suas exportações”.86

Para Furtado, a retração econômica dos primeiros anos do Império seria a expli-
cação para a longa série de revoluções da Regência, bem como para o sentimento de
revolta que a população sentia com relação aos portugueses. Estes eram vistos como
responsáveis pela inflação e pela contração dos rendimentos, a renda sendo menor do
que no final do período colonial. 87 A retração econômica também seria uma das expli-
cações da não industrialização nacional, pois, como já colocado, não haveria um merca-
do interno para os produtos.

Desta forma, as tentativas de industrialização de D. João VI estavam fadadas ao


fracasso, pois, segundo ele “nenhuma indústria cria mercado para si mesma”.88 Mais
importante, apesar de fugir ao assunto desta tese, essa suposta retração seria a explica-
ção da situação do País em meados do século XX:

Esse atraso tem sua causa não no ritmo de desenvolvimento dos últi-
mos cem anos [1850-1950], o qual parece ter sido razoavelmente in-
tenso, mas no retrocesso ocorrido nos três quartos de século anteriores
[1775-1850]. Não conseguindo o Brasil integrar-se nas correntes em
expansão do comércio mundial durante essa etapa de rápida transfor-
mação das estruturas econômicas dos países mais avançados, criaram-
se profundas dissimilitudes entre seu sistema econômico e os daqueles
países.89
Uma argumentação lógica, que se encaixava na situação observável, pelo menos
aparentemente. No entanto, tem alguns problemas, os quais seriam, para o autor da pre-
sente tese, o “súbito” surgimento de um mercado interno a partir da década de 1850.
Este teria permitido as mudanças econômicas do período posterior, apesar da situação
estrutural, tal como definida por Furtado, de uma economia dependente, não ter se alte-
rado de forma fundamental. A base ainda era o latifúndio agroexportador, só havia mu-
dado o produto de exportação, do açúcar para o café. A introdução do trabalho assalari-
ado com o fim do tráfico negreiro poderia ser uma resposta para essa questão, mas não
se pode afirmar que seus efeitos tenham sido imediatos e instantâneos, como pareceria
ser o caso se colocarmos o momento de inflexão justamente no ano de 1850, quando
cessou o tráfico.

86
id. p. 112.
87
id. p. 103 e p. 113.
88
id. p. 111.
89
id. pp. 153-154.

58
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Do ponto de vista da existência de um período de estagnação, a afirmação não é


comprovável em dados empíricos. É um fato que, segundo a análise econômica clássica,
o período de 1815 a 1850 é marcado, na Europa, por uma fase econômica recessiva (ver
Gráfico 6), mas essa não se reflete no Brasil. De fato, houve o movimento contrário, o
que se reflete no crescimento da atividade econômica.

Gráfico 6 – Modelo dos ciclos de Kondratieff e de um índice econômico real.90


Nikolai Kondratieff, um economista soviético, preconizou em seu livro Os grandes ciclos econômicos, a
existência de alternâncias de períodos de crescimento e recessão econômica (superciclos), de quarenta a
sessenta anos de duração, relacionados diretamente com o aparecimento de novas tecnologias e a suplan-
tação da importância dessas por outras novas. Por essa visão, o 1º ciclo de Kondratieff, ligado ao surgi-
mento das máquinas a vapor por volta de 1780, estava em sua fase recessiva a partir de 1815 (na Europa),
no fim das Guerras Napoleônicas.
Exemplos dessa situação de crescimento do Brasil nesse momento são visíveis
em dados tais como os dos orçamentos do Império (ver Gráfico 5) ou no fato de ter ha-
vido um aumento de 4% ao ano nas importações de escravos no Rio de Janeiro entre
1815 e 1830, a principal força de trabalho no período. 91 Informações que não são com-
patíveis com uma visão de uma economia estagnada ou em recessão, como colocamos.
Dessa forma, Fragoso e Florentino 92 apontam que o quadro na primeira metade do sécu-
lo XIX, no Brasil, não é recessivo, havendo, portanto, um descolamento do mercado
internacional. Isso é uma prova de que a economia brasileira era mais complexa e, prin-

90
Gráfico adaptado de The Kondratieff Theory. https://goo.gl/gMlGDK (acesso em março de 2016).
91
FRAGOSO, João Luís R. Homens de Grossa Ventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do
Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992. p. 18.
92
FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade
agracia e elite mercantil em uma economia colonial tardia. Rio de Janeiro, c. 1790-c.1840. São
Paulo: Civilização Brasileira, 2001. p. 96.

59
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

cipalmente, não podia ser vista apenas como um apenso dependente do mercado inter-
nacional.

2.2.4 O Antigo Sistema Colonial.


Um livro seguinte que foi – e é – de fundamental importância para a historiogra-
fia nacional, foi o de Fernando Novais,93 resultado de sua tese de doutoramento de
1973. Este, em linhas muito gerais, estabelece o funcionamento do antigo sistema colo-
nial (ASC), por ele definido como sendo o período de relações econômicas exclusivas
entre a metrópole e a colônia. Não cremos caber aqui discutir os detalhes de seu mode-
lo, justamente por trabalhar só com o ASC, encerrado com a abertura dos portos às na-
ções amigas em 1808, o que ficaria fora do recorte por nós trabalhado. Contudo, pode-
mos sumarizar dizendo que ele aponta algumas caraterísticas que já tinham sido desen-
volvidas antes, como a da economia colonial ser voltada para o mercado externo, de
forma que a situação econômica do Brasil seria regida pelas flutuações do mercado eu-
ropeu. Por seu modelo era uma economia subordinada, não tendo uma autonomia pró-
pria e, um ponto que consideramos importante, o autor apontava as dificuldades de sur-
gimento de um mercado interno, pois os senhores fariam que seus escravos produzissem
para sua subsistência.94 Além disso, para ele, a primazia econômica no Brasil Colônia
ficaria no setor comercial internacional e não na área de produção agrícola.

Duas características, contudo, fazem a obra de Novais merecedora de nota, pelo


menos no que tange ao presente trabalho. Primeiro, ele faz um questionamento sobre as
leis proibindo a existência de manufaturas no Brasil colônia, argumentando que sua
eficácia foi reduzida no tocante aos têxteis. 95 O autor também coloca dados colocando
em dúvida a afirmação de que Portugal seria um simples “entreposto” inglês, apontando
o certo sucesso que teve a política de industrialização portuguesa no período pombali-
no,96 que também teve iniciativas no Brasil, entre as quais citaríamos as manufaturas
militares. Ou seja, Novais começa um processo de revisão dos princípios estabelecidos

93
NOVAIS, Fernando. Portugal e o Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo:
Hucitec, 1986. Observamos que Novais, ao contrário do que Iglésias coloca, foi o primeiro represen-
tante de uma instituição acadêmica no período da “contribuição da Universidade”. Simonsen, que era
professor universitário, era primordialmente um empresário, Furtado, após se formar, tornou-se um
pesquisador no serviço público.
94
id. p. 109.
95
id. p. 274.
96
id. p. 295.

60
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

pelos modelos que previam a total dependência econômica, não só do Brasil, mas tam-
bém a de Portugal.

2.2.5 O modo de produção escravista colonial


Na década de 70, Ciro Flamarion Santana Cardoso apresentou uma contraposi-
ção à posição de seus antecessores. Colocou que a colonização só se entenderia tendo
em vista a questão de sua inserção em um mercado internacional, mas questiona a ideia
de que haveria um sentido da colonização, ao qual todas as atividades da colônia se su-
bordinariam, apresentando a ideia que as colônias

possuem uma lógica que não se reduz exclusivamente ao impacto da


sua ligação com o mercado mundial em formação e com as metrópo-
les europeias. Por isso, a sua concepção em termos de anexos com-
plementares, de partes constitutivas de conjuntos mais amplos, mesmo
sendo – como é – um momento central da pesquisa, é claramente insu-
ficiente. Sem analisar as estruturas internas das colônias em si mes-
mas, na sua maneira de funcionar, o quadro fica incompleto, insatisfa-
tório, por não poderem ser explicadas algumas das questões mais es-
senciais (como o porquê das diferenças profundas constatáveis na
época colonial como na atualidade, entre as estruturas econômico-
sociais do México, da Costa Rica e do Brasil, por exemplo).97
Para Ciro Flamarion, haveria no Brasil, em termos marxistas, o modo de produ-
ção “escravista colonial”, que seria definido por uma série de características:

1 – havia uma ligação inseparável entre o funcionamento do sistema e o capital mercan-


til;

2 – o sistema dependia dos mercados externos, para os quais a produção se voltava;

3 – existia um setor dominante, de exportação de produtos primários. Mas o sistema não


se restringiria a isso, havendo outro, voltado para a subsistência. Este era, em parte,
função dos escravos;

4 – o modo de produção escravista colonial teria problemas pela uma tendência geral de
estagnação técnica, com um crescimento da atividade produtiva sendo efetuada de
forma quantitativa e extensiva, de baixa produtividade;

5 – associado ao colocado acima, a rentabilidade dos empreendimentos escravistas de-


pendia da redução dos custos de produção. Isso especialmente a mão de obra , e in-
sumos, procurando-se a autossuficiência no tocante a esses últimos;
97
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. As concepções acerca do ‘Sistema Econômico Mundial’ e do
‘Antigo Sistema Colonial’: a preocupação obsessiva com a ‘extração de excedente’. IN: LAPA, José
Roberto Amaral (ed.) Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.

61
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

6 – a reprodução do sistema seria garantida pela importação de mão de obra escrava e


por fatores extraeconômicos.

Em 1978 Jacob Gorender deu continuidade a essas ideias. 98 Tal como Caio Pra-
do Júnior, Gorender tinha uma ligação com o Partido Comunista, apresentando uma
visão de que a escravidão colonial do Brasil teria suas leis próprias, podendo ser classi-
ficada dentro de um modo de produção específico e totalmente novo, o já citado escra-
vista-colonial. Neste ficaria clara a natureza capitalista do escravismo que havia no
Brasil, ao contrário do que ocorria no mundo antigo, onde haveria o escravismo patriar-
cal.99 Essa visão é importante, pois ele, tal como Ciro Flamarion, criticava a postura de
que o sistema colonial só existia para transferir o excedente da colônia para a metrópole,
como desenvolvido pelos autores anteriormente mencionados. Por outro lado, Gorender
reforça a visão tradicional apresentada pelos autores das décadas anteriores, de que o
escravismo colonial não gerou um mercado interno e que a economia colonial, basica-
mente, acompanhava a situação conjuntural dos mercados dos países desenvolvidos, a
situação na colônia sendo incapaz de gerar, por si mesma, uma dinâmica própria.

O que consideramos importante nesse modelo é que ele não estaria restrito ao
período colonial. Tal como Caio Prado e Celso Furtado, e se encaixando na visão mar-
xista, o modelo considera que a questão fundamental da economia brasileira é estrutural
– Ciro Flamarion deixaria isso claro ao tratar do modo de produção escravista colonial,
dizendo que

o termo ‘colonial’ emprega-se no sentido de definir uma relação estru-


tural de dependência e não um sentido político; desta forma, por
exemplo, a Independência do Brasil em 1822 não significou a derru-
bada do modo de produção escravista colonial no País, o qual conti-
nuou sendo dominante até mais ou menos 1850, para desaparecer so-
mente em 1888.100
Portanto, questões superestruturais, tais como o tipo de mercadoria explorado ou
mesmo a situação social – ou a política – não seriam relevantes, mas sim o como funci-
ona o modo de produção. Neste, segundo Gorender, a ferramenta fundamental de sua
reprodução era o tráfico de escravos e o trabalho dos cativos era a forma de funciona-

98
GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1988.
99
id. p. 42.
100
CARDOSO, Ciro F. S. Sobre los modos de producción colônias de América. apud FRAGOSO, João
Luís. Homens de grossa ventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro –
1790-1830. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990. 81.

62
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

mento do modo de produção: enquanto se usassem escravos de forma capitalista, seu


modelo seria válido.

A proposta do autor é interessante para lidar com a questão de um modelo expli-


cativo que abrangesse o período que estamos estudando, o posterior à colônia. Isso ape-
sar dele se concentrar nos elementos que considerava fundamentais ao entendimento do
modo de produção, o trabalho escravo na agricultura – em seu livro ele dedica apenas
três páginas à “escravidão e industrialização”.101 Deve-se dizer que ele, tal como Ciro
Flamarion, praticamente descarta o papel dos escravos nas atividades manufatureiras,
argumentando que o modo de produção escravista colonial seria caracterizado pela es-
tagnação técnica. Mesmo nas áreas urbanas, onde havia a possibilidade de escravos tra-
balharem em atividades que exigiam maior habilidade técnica, o sistema de exploração
seria “hostil à formação de trabalhadores qualificados para tarefas complexas e de alta
precisão”,102 enquanto a própria lógica de um sistema baseado na exploração fazia com
que o trabalhador não tivesse nenhum incentivo em fornecer um serviço de maior pro-
dutividade.

Como nos trabalhos anteriores, era claro a visão de que a economia colonial,
apesar de poder ter uma dinâmica própria, não era uma que permitisse a geração de ma-
nufaturas locais, novamente por não haver um mercado consumidor.

2.3 O fim da procura por modelos


Do ponto de vista da presente tese, que procura uma comparação com modelos
ideais sobre o sentido da formação histórica do Brasil, podemos dizer que o grande au-
mento de trabalhos acadêmicos produzidos nas décadas de 80 colocaram em cheque as
noções anteriores, de que seria ideal procurar um “sentido” geral para o Brasil. É desse
momento o surgimento de diversos empíricos questionaram vários pontos dos modelos
explicativos mais tradicionais. Não cabe aqui apontar a longa série de trabalhos acadê-
micos que apontam para as inconsistências dos modelos tradicionais no que tange à de-
pendência exclusiva da economia brasileira de fatores externos.103 Como colocou José
do Amaral Lapa sobre esse tema:

Somente quase 500 anos depois, alguns autores começam a perceber


que essa, afinal, é a perspectiva ideológica do colonizador que o colo-

101
GORENDER, op. cit. pp. 481-484.
102
id. p 482.
103
Uma discussão disso pode ser vista em FRAGOSO, op. cit. pp. 74 e segs.

63
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

nizado assumiu e arrastou até ontem, provocando equívocos em dife-


rentes níveis, colocando-nos agentes e ideias fora do seu exato lugar...
Somos o que eles queriam ou querem que sejamos. Mas, do nível ide-
ológico é preciso descer ao nível empírico e/ou subir ao científico, pa-
ra reprojetarmos outra imagem que, sem descartar propriamente as te-
orias, quer da colonização, quer da dependência, demonstre em todo
caso que tanto esta quanto a subordinação não anulam a capacidade de
gerar uma economia com certo grau de autonomia ou pelo menos cer-
ta dinâmica que lhe é imanente. 104

Daí se entende que para Lapa não se possa explicar o comércio colonial em um
esquema meramente bipolar, como colocariam Novais, Ciro Cardoso 105 e Gorender,106
mas multipolar, no qual se deve levar em conta as transações entre:

1 – Metrópoles-Metrópoles;

2 – Metrópoles-Colônias;

3 – Colônia-Colônia de uma mesma metrópole;

4 – Colônia-Colônia de metrópoles diferentes;

5 – Economias regionais de uma mesma metrópole.

Ou seja, um esquema bem mais complexo do que qualquer noção de dependên-


cia relativa ou absoluta da colônia com relação à metrópole. Também é um que se ade-
qua bem para mostrar certa continuidade de relações econômicas com a situação no
Império, quando certamente não havia uma continuação da dependência direta. Mesmo
com a predominância do comércio inglês depois da abertura dos portos, em 1808, havia
uma liberdade de ação muito grande impedindo a formação de uma situação de exclusi-
vo, de relações únicas com uma metrópole neocolonial.

A partir desse momento, como dissemos, a procura de um modelo geral deixou


de ser uma realidade, apesar da procura de uma “lei geral” ainda ser um ideal para al-
guns, havendo diversos e excelentes trabalhos que mostram como a questão de uma
“explicação” geral para o País é complexa e difícil – se não impossível – de se obter.

104
LAPA, José Roberto do Amaral. O Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Brasiliense, 1982.
p. 42.
105
Lapa cita: CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. As concepções acerca do ‘Sistema Econômico Mun-
dial’ e do ‘Antigo Sistema Colonial’. IN: LAPA, José Roberto do Amaral (org.). Modos de produção
e realidade brasileira. Petrópolis: vozes, 1980.
106
GORENDER op. cit. 1980.

64
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

2.4 O início da industrialização


Todos os textos acima tratam da questão de modelos explicativos da economia
colonial e isso supostamente não se referiria estritamente ao recorte escolhido por nós,
de 1808 a 1864. Contudo, como se nota ao longo do texto acima, todos os autores não
tomaram como um fator decisivo, ou mesmo relevante, a questão da autonomia política.
Ou seja, o fim do antigo sistema colonial, que deveria representar uma clara ruptura
com os sistemas de exploração por parte da metrópole, não teria criado alterações maio-
res em termos econômicos. Para os autores dos modelos “clássicos”, os que enfatizam a
dependência, a questão era estrutural, de uma economia com base na produção latifun-
diária de exportação.

A questão chega ao ponto de se desconsiderar a própria Independência política,


se alongando um “período colonial”, ainda que “tardio”, até a década de 1840, como
fazem Manolo e Fragoso, 107 apesar de todos os problemas conceituais que isso trás, de
se fazer essa extensão do conceito de dependência colonial em um momento em que
essa não existia em termos políticos.

Sendo assim, como se trataria da questão da industrialização? De início, pode-


mos apontar que esta não ocorreu no Brasil até o século XX, pelo menos no sentido
preciso do termo, do surgimento de uma economia capaz de alterar a situação do modo
de produção imperante no País,108 do capital comercial passando a ser subordinado ao
industrial. 109 Mas, e quanto a uma mudança menos radical, o simples crescimento da
capacidade manufatureira e fabril, o que o uso tradicional chama de industrialização?

Simonsen, em seu livro Evolução Industrial do Brasil, trata da falha do Brasil


em se industrializar como os Estados Unidos – uma questão que para ele fazia sentido,
já que o País na época em escreveu estava iniciando o processo de mudança de uma
economia agrária para uma industrializada. Sua explicação era baseada em parte em
motivos ecológicos – os EUA teriam recursos naturais necessários ao processo de cria-
ção de fábricas: riquezas naturais, especialmente o ferro para siderurgias e carvão aces-
sível, para a força motriz. Para o autor e outros, isso seria importante, pois o vapor per-
107
FRAGOSO & FLORENTINO (2001). op. cit.
108
HEES, Felipe. A industrialização brasileira em perspectiva histórica (1808-1956). Em Tempo de His-
tórias - Publicação do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília PPG-
HIS, nº. 18, Brasília, jan./jul. 2011. p. 31.
109
ANDRADE, Rômulo Garcia de. Burocracia e economia na primeira metade do século XIX (a Junta
de Comércio e as atividades artesanais e manufatureiras na cidade do Rio de Janeiro: 1808-50).
Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF, 1980 (mimeo). p. 62

65
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

mitiria o desenvolvimento das máquinas e dai às indústrias manufatureiras.110 Outro


fator seria o histórico local, a situação relativamente pacífica do continente norte-
americano, não afetado pelas guerras europeias, que teriam facilitado o surgimento de
uma grande corrente migratória para a América do Norte. Este aumentaria a capacidade
produtora e consumidora daquele país. Finalmente, os Estados Unidos se beneficiaram
de uma forte política protecionista, que abrigou o surgimento de indústrias locais.

No seu modelo para o Brasil, Simonsen argumenta que as condições aqui não
eram tão favoráveis. A economia da colônia se baseava na exportação de produtos agrí-
colas tropicas e, se havia ferro e carvão, houve uma falha do governo em desenvolver
uma indústria siderúrgica. Isto por causa dos custos de transporte dos itens e devido a
não haver um mercado consumidor, uma observação que vai aparecer de forma recor-
rendo nos escritos de outros autores.

Para o autor, tal como descrito em sua História Econômica, a política de não
protecionismo e a falta de capitais seriam fatores predominantes até a instalação da tari-
fa Alves Branco, a qual, junto com o surgimento do café como produto de exportação,
teria permitido um primeiro movimento em direção à industrialização.111

Caio Prado Júnior aponta que no Brasil Colônia havia pequenas manufaturas:
olarias, caieiras (preparo de cal), cerâmicas, curtumes, cordoarias, têxteis e até de ferro,
algumas “relativamente grandes”,112 pois, de forma contraditória com o que escrevia,
para ele haveria um mercado local igualmente grande, em termos relativos. Contudo,
estas manufaturas teriam sido extintas pelo alvará de D. Maria, de 1785, que proibiu a
fabricação de têxteis mais elaborados. 113 Como Simonsen, o autor aponta que uma baixa
tarifa de importação de 15% (após 1808), impediria o surgimento de uma produção lo-
cal, bem como os problemas geográficos, de deficiência de fontes de energia (carvão) e
dificuldades de acesso ao minério de ferro.

Entretanto, dentro da proposta do autor, ele não considerava esses fatores con-
junturais, de tarifas e condições geográficas, como decisivos. Como já descrito, para ele
a questão era estrutural, de que a economia local era uma de agricultura de exportação,
fator que só começaria a ser corrigido a partir de 1880 – ou seja, no período de nosso
110
SIMONSEN (1973), op. cit. p. 7.
111
SIMONSEN (1977), op. cit. p. 436.
112
PRADO JÚNIOR (1977), op. cit. p. 107.
113
id. p. 107. Mais adiante no livro, ele aponta que as indústrias têxteis e de metais teriam conseguido se
estabelecer no período colonial, apesar da oposição portuguesa (p. 136).

66
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

estudo, de 1808 a 1864, não haveria industrialização. Seria o hiato no desenvolvimento


da economia nacional, entre o fim da mineração do ouro e os efeitos da mudança do
produto de exportação para o café (ver a citação na página 51, acima).

Celso Furtado não altera em muito o quadro acima descrito para a industrializa-
ção, apesar de dar mais detalhes sobre os problemas da industrialização. Por exemplo,
no capítulo que compara o Brasil com os Estados Unidos, tece interessantes considera-
ções sobre o período logo após a abertura dos portos até a assinatura do Tratado de Tra-
tado de Amizade, Navegação, e Comércio, de 1827. Esse manteve as taxas de importa-
ção vantajosas para a Inglaterra: naquela época havia um forte déficit do governo impe-
rial, por causa das guerras de Independência (1822-1826) e Cisplatina (1825-1828), e
isso levou a uma desvalorização da moeda (o câmbio realmente caiu pela metade entre
1823 e 1831).114 Uma consequência relevante apontada por Celso Furtado é que essa
desvalorização da moeda teria sido uma “medida protecionista” equivalente à criação de
uma taxa de importação de 50%, o que o levaria a questionar a afirmação sobre a não
existência de uma política protecionista teria sido a motivadora da não industrialização,
feita por Simonsen e outros.

No entanto, é verdade que a desvalorização da moeda não auxiliou as manufatu-


ras locais, Celso Furtado argumentando que isso seria, em parte, devido a uma questão
de mentalidade. Nos Estados Unidos teria havido pessoas, como Alexander Hamilton,115
que apoiariam a industrialização, enquanto no Brasil os pensadores que obtiveram he-
gemonia, como o visconde de Cairu, 116 tinham um pensamento liberal, defendendo o
livre comércio e o papel da agricultura na economia, não se criando condições para a
industrialização local.

114
CARREIRA, op. cit. vol. II p. 742.
115
Alexander Hamilton nasceu nas Antilhas Britânicas em 1755. Mudando para o que é hoje os Estados
Unidos, tomou parte das operações militares da Guerra de Independência norte-americana, sendo se-
cretário do general do General Washington, comandante em chefe norte-americano. Depois da Inde-
pendência, foi membro do congresso, tendo sido um dos assinantes da constituição. Foi o primeiro
secretário do tesouro (ministro da fazenda) dos Estados Unidos, na presidência de Washington e,
nesta função, publicou em 1791 um artigo sobre as manufaturas, propondo sua defesa por meio de
pagamento de bônus e tarifas protetivas contra importações, em linhas Colbertistas. No governo, su-
as posições políticas eram conservadoras e centralizadoras, defendendo um forte governo central.
Alexander Hamilton morreu em um duelo travado com Aaron Burr, em 1804. ENCYCLOPAEDIA
Britannica. London: Encyclopeaedia Britannica, 1952. Verbete Alexander Hamilton, pp. 121-125.
116
LISBOA, José da Silva [Visconde de Cairu]. Observações sobre a franqueza da indústria, e estabele-
cimento de fábricas no Brasil. Brasília: Senado Federal, 1999.

67
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

12
10
8
6
4
2
0

Gráfico 7 – Taxa de câmbio médio (mil réis por libra esterlina), 1808-1865.117
Em vermelho, a linha de tendência do crescimento em longo prazo do câmbio. A abrupta queda do valor
do mil réis no período da guerra da Cisplatina (1825-1828 - seta) poderia ter atuado como uma barreira às
importações, mas não teve esse efeito. De qualquer forma, o câmbio, de forma geral, se estabilizou a
partir da maioridade do Imperador Pedro II, deixando de ser um fator contrário ao aumento de importa-
ções e inviabilizando a hipótese de Celso Furtado de que a taxa de câmbio atuava como política protecio-
nista.
Outro aspecto que Furtado aponta como tendo impedido a industrialização nesse
momento foi a falta de mercados: as tentativas de criação de siderurgia feitas por D.
João VI teriam falhado por não haver quem consumisse esses produtos. Segundo ele
uma proposta de industrialização tendo que começar por um mercado já existente, ci-
tando a situação dos têxteis grosseiros, para escravos.118 Fica explícito em seu livro a
visão de que a população local era insignificante para poder se considerada como con-
sumidora devido ao domínio do trabalho escravo na economia, o que impediria o sur-
gimento de uma economia de mercado interno.119 Isso foi um fator central na sua análi-
se, podendo ser usado como explicação por que o primeiro surto industrial do Brasil só
teria ocorrido no século XX, quando, após a abolição, já havia um mercado consumidor
suficiente para absorver a produção de manufaturados local.

Nícia Vilela da Luz, que tem alguns trabalhos especializados no estudo da indus-
trialização na primeira metade do século XIX120 e que trabalha mais de forma factual do
que em termos de modelos idealizados, aponta que houve um esforço de implantação de
manufaturas executado no período da primeira metade do século XIX, este esforço sen-
117
MOURA FILHO, Heitor Pinto de. Câmbio de longo prazo do mil-réis: uma abordagem empírica refe-
rente às taxas contra a libra esterlina e o dólar (1795-1913). Cadernos de História, PUC Minas Ge-
rais, v. 11, n. 15 (2010). pp. 23 e segs.
118
FURTADO, op. cit. p. 111.
119
id. p. 156.
120
LUZ, Nícia Vilela. A luta pela industrialização do Brasil. São Paulo: Difusão Europeia do Livro,
1961. LUZ, Nícia Vilela. A política de D. João VI e a primeira tentativa de industrialização no Bra-
sil. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, USP, n 5, 1968 e LUZ, Nícia Vilela. O industrialis-
mo e o desenvolvimento econômico do Brasil: 1808-1920. Revista de História, USP, nº 56, 4º Tri-
mestre de 1963. p. 7.

68
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

do caracterizado por dois momentos. O primeiro, no reinado de D. João, foi baseado em


medidas mercantilistas, de incentivo direto a indústrias específicas, através de privilé-
gios. Estes seriam a isenção de recrutamento de artesãos; loterias para financiar empre-
endimentos; prioridade de compra por parte do governo, como no caso do algodão, usa-
do em uniformes militares; e isenção de impostos de importação, só que esse processo
não teve um sucesso maior.

Nícia Luz aponta que houve um segundo momento, de movimento de industria-


lização “inusitado”, em meados do século, este sendo reflexo da tarifa Alves Branco e
da expansão econômica do Brasil na época, mas este surto não teria sido suficiente para
garantir um movimento autossustentável, ela conjecturando que, talvez, uma tarifa ul-
traprotecionsta teria permitido enfrentar a competição europeia. Isso não teria sido pos-
sível devido à forma de pensar das elites da época, voltadas mais a políticas liberais,
pois o livre comércio atenderia mais aos seus interesses de importadores de produtos
manufaturados.121

Francisco Iglesias em 1963 lançou um livro sobre a periodização do processo


econômico brasileiro, 122 que aparentemente foi resumido em um opúsculo posterior. 123
Nesta, o autor aponta quatro períodos para a história da industrialização do Brasil: um
na colônia; outro se iniciando em 1808; o terceiro com a abolição do tráfico escravidão,
em 1850; o quarto e último sendo correspondente ao período após a abolição, em 1888,
ficando clara a ligação básica da economia com o problema do trabalho cativo. Quanto
ao período colonial ele lista uma série de fatores que teriam impedido o surgimento de
manufaturas: o pacto colonial; a falta de tradição tecnológica; a menor contribuição do
índio com relação à importância do escravo africano; e a predominância da monocultura
de exportação, associada à agricultura de subsistência e, portanto, a autossuficiência das
fazendas.124

Iglésias colocava como central, contudo, a inexistência de um mercado consu-


midor e a incompatibilidade da monocultura escravista de grandes propriedades com um

121
LUZ, (1961). op. cit. p. 29.
122
Não conseguimos localizar sequer um exemplar dela nas bibliotecas universitárias do Rio de Janeiro,
apesar dela ter sido usada como obra básica de ensino nas universidades. Cf. SANTOS, Alessandra
Soares. Francisco Iglésias e as interpretações do Brasil: notas sobre um discurso historiográfico.
ANPUH – XXV Simpósio nacional de história – Fortaleza, 2009, Anais. https://goo.gl/2476Vv.
(acesso em fevereiro de 2016).
123
IGLÉSIAS, Francisco. A industrialização Brasileira. São Paulo : Brasiliense, 1986.
124
IGLÉSIAS, op. cit. p. 12.

69
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

esforço manufatureiro. Ainda segundo ele, a falta de protecionismo em 1808 teria signi-
ficado o fracasso da tentativa da implantação de manufaturas por D. João VI, enquanto
o impulso dado com a tarifa Alves Branco teria sido meramente conjuntural, esta tendo
sido introduzida por causa de necessidades fiscais e não por uma proposta de incentivo a
manufaturas.

Ferreira Lima, escrevendo em 1973,125 faz um levantamento interessante das


muitas manufaturas existentes no período colonial, normalmente desprezadas na histo-
riografia. Na verdade, faz uma observação que escapa à maior parte dos autores, a que
os engenhos de açúcar são uma forma de manufatura,126 processando uma matéria pri-
ma, a cana de açúcar, em um produto acabado, o açúcar, para exportação. Além disso,
apesar dele não colocar dessa forma, no engenho havia certa divisão de trabalho, repe-
tindo o que Antonil127 escreveu com relação ao pessoal de um engenho, onde haveria
feitores (feitores, “mor” e “menores”: de partidos ou roças), mestre de açúcar, banquei-
ro, contra banqueiro, purgador, caixeiro no engenho e outro na cidade. Na base da pi-
râmide de trabalho no engenho ficavam os escravos, mas deve-se deixar claro que os
trabalhadores mencionados anteriormente eram assalariados, o que normalmente escapa
em uma visão tradicional, de divisão entre “senhores e escravos”

Ferreira Lima coloca que essas manufaturas coloniais teriam “um papel nada in-
significante, se levarmos em conta a época e o conjunto das suas realizações.”128 O au-
tor então passa a descrever as razões por que não houve um processo de surgimento de
manufaturas no final do século XVIII, repetindo o que já tinha sido colocado anterior-
mente, ou seja, a existência de leis restritivas; impostos sobre a produção (tecidos); a
existência de um mercado limitado, de três milhões de habitantes, com metade deles
escravos e trezentos mil índios; a autossuficiência das fazendas e engenhos; uma popu-
lação proletária que não consumia; limitações do progresso técnico; dispersão do agro-
negócio; deficiências dos meios de transporte e a escassez de capitais.129

125
LIMA, op. cit. Na introdução, o autor aponta que o livro estava pronto, basicamente, em 1961.
126
Oliveira Viana, que foi uma das fontes inspiradoras de Caio Prado Júnior, já apontava que o engenho
era uma “cultura industrial”, que “exige grandes cabedais”. VIANA, Oliveira. Evolução do povo
brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. p. 73. No entanto, essa passagem, ao con-
trário de outras, não foi usada por Caio Prado.
127
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. p. 81 e segs.
128
id. p. 120. Geraldo Beauclair faz também um levantamento das manufaturas existentes na Colônia:
OLIVEIRA, Geraldo Beauclair Mendes de. A construção inacabada: a economia brasileira, 1822-
1860. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2001.
129
LIMA, op. cit. pp. 121-125.

70
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Quanto ao período do Império, Ferreira Lima apontava ainda à elevada taxa de


juros local e, principalmente, a inconsistência das taxas aduaneiras, como fatores que
não criaram uma política protecionista. Apenas a tarifa Alves Branco e a existência de
um mercado consumidor, permitiriam o aparecimento de algumas manufaturas e indús-
trias em meados do século. Neste caso, cabe notar que o autor nota como componentes
deste mercado consumidor em surgimento a burguesia urbana, caixeiros, ferroviários,
bancários, pequenos comerciantes, artesões, funcionários públicos e, de forma que se
encaixa na proposta da presente tese, no aumento do Exército, como uma forma de mer-
cado consumidor. 130

2.5 Algumas considerações


De forma geral há alguns consensos quanto a uma periodização sobre a industri-
alização no Brasil – afinal, não importando as causas, em um estudo sobre o tema é evi-
dente que efetivamente há uma grande diferença do que aconteceu em termos de indus-
trialização entre o Brasil e os Estados Unidos. Dessa forma, como já colocamos, a pro-
cura dos motivos dessas diferenças foi uma das questões básicas da historiografia da
década de 1940.

De um ponto de vista central para nós, devemos dizer que todos os autores con-
cordam com uma periodização que mostra uma continuidade entre a colônia e a primei-
ra metade do século XIX. Mesmo aqueles que apontam que houve um esforço de im-
plantação de manufaturas no País entre 1808 e 1850 notam que esses fracassaram, de
forma que o estudo da situação do período colonial é relevante para se entender a situa-
ção na primeira metade do Império. Autores como Manolo e Fragoso chegam até a
afirmar que esse período seria uma continuação da situação anterior, um “colonial tar-
dio”, posterior a 1822, 131 apesar de todos os problemas conceituais que isso trás, por
causa da evidente mudança estrutural que foi o fim do Antigo Sistema Colonial e a In-
dependência.

No sentido de uma análise sobre a situação econômica, há uma unanimidade na


historiografia: uma das razões da não industrialização do País seria a questão da inexis-
tência de um mercado consumidor, já que todos os autores “clássicos” apontam que a

130
id. pp. 272-273.
131
FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo, op. cit. pp. 83 e 84. Tal assunto seria retomado e m
FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo. Notas sobre o colonial tardio. Locus, vol. 6, 2000.

71
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

força de trabalho existente no País era escrava. Segundo eles, o país ser uma colônia de
exploração, voltada para a exportação de produtos agrícolas primários.

A visão acima relatada certamente se encaixa nos modelos tradicionais, mas es-
barra em alguns problemas que não foram considerados, especificamente o simplismo
de sua premissa básica. Esta seria a de que o país seria dividido apenas entre senhores e
escravos – conforme colocou Caio Prado Júnior, o setor inorgânico, ou seja, o não en-
volvido diretamente com a agroexportação, seria composto por uma “nebulosa social
incoerente e desconexa”,132 sendo desconsiderada.

Entretanto, uma simples análise populacional brasileira demonstra a dificuldade


de se aceitar essa premissa. Por exemplo, no final do período colonial, cerca de um terço
dos habitantes do país era composta de escravos – mas isso implica que outros dois ter-
ços não era de cativos (ver Tabela 1). Como nem todos os brancos eram senhores de
engenho, a pergunta que fica é: toda essa população restante eram apenas “agregados”
dos proprietários? Uma afirmação que não tem base em pesquisas empíricas e que nos
parece ser muito difícil – se não impossível – de ser provada. A imensa ênfase que se dá
a questão dos mercados chega a praticamente se criar um raciocínio circular: não havia
mercados por não haver manufaturas que gerassem empregos assalariados e não havia
manufaturas por não haver mercados de consumo!

Outra hipótese sobre a massa da população seria a que esse grosso da população
formava uma “ralé”, sem destino, como colocou uma autora:

Assim, numa sociedade em que há concentração de meios de produ-


ção, onde vagarosa mas progressivamente aumentam os mercados, pa-
ralelamente forma-se um conjunto de homens livres e expropriados
que não conhecem os rigores do trabalho forçado e não se proletariza-
ram. Formou-se, antes, uma ‘ralé’ que cresceu e vagou ao longo de
quatro séculos: homens a rigor dispensáveis, desvinculados dos pro-
cessos essenciais à sociedade. A agricultura baseada na escravidão si-
multaneamente abria espaço para sua existência e os deixava sem ra-
zão de ser.133
Seria esse o caso? Não queremos tecer considerações sem maiores pesquisas,
mas nos parece muito estranha essa afirmação, que coloca uma massa de pessoas como
“desvinculada dos processos essenciais à sociedade”, especialmente quando lembramos

132
PRADO JÚNIOR, op. cit. p. 355.
133
FRANCO, Maria Sylvia Carvalho. Homens Livres na ordem escravocrata. São Paulo: IEB, 1969. p.
12. Apud MELLO, João Manuel Cardoso. O capitalismo tardio : contribuição à revisão crítica da
formação e do desenvolvimento da economia brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 77.

72
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

que estamos falando de um número de pessoas que é numericamente, superior aos traba-
lhadores cativos, como se pode ver na tabela abaixo.

Então, considerando que as elites econômicas são, necessariamente, reduzidas,


ficaria a questão de qual seria o papel do restante da população branca – um assunto que
abordaremos nos capítulos seguintes era seu uso como parte das forças armadas, o que,
com a exceção de uma breve menção de Ferreira Lima, não foi tratado nos livros de
história.

Regiões Livres Escravos % Soma


Norte 104211 39040 27,2% 143251
Nordeste 1135900 567211 33,0% 1703111
Sudeste 1090262 422733 27,9% 1512995
Sul 98786 37425 27,5% 136211
Centro-Oeste 59584 40980 40,8% 100564
TOTAIS 2488743 1107389 30,8% 3596132
Tabela 1 – População do Brasil em 1819.
Dividida em livres, escravos e a percentagem de cativos no todo. 134 Os dados da tabela não são totalmente
confiáveis, considerando a situação do Brasil na época. Por exemplo, a altíssima percentagem de escravos
na região centro-oeste, maior do que às das áreas agroexportadoras tradicionais, não parece ter uma expli-
cação aceitável, considerando que, depois do final do período de mineração do ouro, a região era uma
área periférica, apartada do circuito de abastecimento colonial por causa de seu isolamento geográfico. 135
De qualquer forma, as percentagens mostram que a população escrava não era majoritária em lugar al-
gum. Observe-se ainda que aos números acima devem ser acrescentados 800.000 “índios errantes”, que
pelo menos um autor 136 considera como inseridos na economia, pois podiam participar de processos
econômicos de troca. Não é essa nossa opinião, contudo, pois cremos que isso confunde índios fora de
sua cultura tradicional (os “civilizados”), inseridos nas aldeias já contatadas e que produziam para o mer-
cado, com os nativos ainda totalmente livres, só muito ocasionalmente empregados em atividades de
interesse para a sociedade colonial.
De forma mais direta ao tema em estudo, também há um consenso entre os histo-
riadores sobre a irrelevância das atividades manufatureiras no período colonial e na
primeira metade do século XIX. Isso apesar de trabalhos mais recentes terem começado
a questionar essa afirmação, apontando a existência de uma variedade de empreendi-
mentos do gênero no Brasil. Para nós, o caso mais notável por ser ignorado pelos auto-
res “clássicos” é o que Ferreira Lima nota, reproduzindo Oliveira Viana, que os enge-
nhos de açúcar eram uma manufatura de certa escala o que, frisamos, implicava em cer-
ta divisão de trabalho entre os diversos especialistas, esses sendo assalariados.

134
MARCÍLIO, op. cit.
135
Por exemplo, em 1787 um momento mais próximo do auge da atividade da mineração, a população
escrava do Mato Grosso correspondia a apenas 48,6% do total. SERRA, Ricardo Franco de Almeida.
Plano de Guerra e defesa da capitania do Mato Grosso enviado ao governador Caetano Pinto da
Miranda Monte Negro. Coimbra, 31 de janeiro de 1800. Mss BN. I-29,6,48.
136
CALDEIRA, op. cit. p. 15.

73
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

Outro tipo de manufatura importante, citada por Ferreira Lima e muitos outros,
era a de construção naval – esta já foi objeto de alguns estudos, mas que carecem de
maior profundidade, pois não basta saber que se produziam navios no Brasil. Isso mes-
mo que considerarmos que o processo se iniciou mesmo antes da implantação das pri-
meiras vilas no Brasil, pois se construiu um bergantim em São Vicente, em 1527.137
Também não se leva em conta que a atividade teria uma constante e grande importância
ao longo de toda a Colônia e Império, inclusive com construção de embarcações de
grande porte, como naus de guerra e navios de longo curso, para o comércio de escra-
vos. É famoso o caso do galeão Padre Eterno, tratado na obra de Boxer. Esta observa
que, pela documentação da época, não faltavam carpinteiros e construtores navais no
Brasil e o trabalho desses resultou na construção “de um dos maiores navios construídos
no século XVII”. 138 Esta embarcação, lançada em 1659 foi incorporada à memória da
cidade, pois o local de sua construção ainda é conhecido como “ponta do Galeão”.

A questão relevante, que parece escapar aos que estudam do impacto da constru-
ção naval, é que para lançar um navio ao mar é necessária uma imensa série de insumos,
que demandam trabalhadores especializados para supri-los: cordoeiros, tanoeiros (para
os vasos usados a bordo), veleiros (e os tecelões que fabricavam as lonas), polieiros e
madeireiros (para o abate das árvores usadas na construção). Tudo isso afora os artesãos
que trabalhavam diretamente nas ribeiras, os estaleiros, como carpinteiros, ferreiros,
fundidores (para peças de bronze, tais como cavilhas e roldanas), calafates, torneiros e
feitores. Mesmo que se considere que parte desses trabalhadores era escrava, os mestres
destes seriam assalariados e constituíram um relevante “classe média” na colônia.

O parágrafo acima nos leva a um aspecto que gostaríamos de frisar e que será
abordado nos capítulos seguintes: a questão do papel indutor das manufaturas do gover-
no, inclusive os arsenais do exército, que não é abordado nos estudos de história eco-
nômica do Brasil Colonial. A própria existência desses é ignorada, assim como o papel
das forças armadas como um tipo de mercado consumidor.

Obviamente, a existência de atividades manufatureiras, em maior ou menor es-


cala, assim como a de um mercado consumidor não alteram o fato básico, de que o país

137
SANTOS, Francisco Martins dos. História de Santos: 1532-1936. Vol. I. São Paulo: Revista dos Tri-
bunais, 1937. p. 27.
138
BOXER, C.R. Salvador de Sá and the Struggle for Brazil and Angola: 1602-1686. London: Athlone
Press, 1952. p. 310.

74
Capítulo 2 – Modelos explicativos da economia brasileira

não se industrializou no recorte de nosso estudo – isso é um fato inquestionável. A


questão, portanto, seria qual a explicação para o evento. Neste caso, devemos lembrar
que os modelos explicativos são apenas isso, modelos, não se propõem a reproduzir a
realidade. Como colocou Virgínia Fontes:

O modelo jamais e idêntico, por definição, a realidade observada. Ele


permite captar a dinâmica – movimento de um conjunto – ou a estru-
tura – formas de articulação de um grupo de fenômenos. Mas, em sua
elaboração, o modelo remete necessariamente a formas especificas – a
priori – de apreensão da realidade.139
No entanto, a própria variedade dos modelos apresentados, bem como suas inco-
erências internas, colocam em dúvida a sua validade para responder a pergunta básica
apresentada por Caio Prado e Roberto Simonsen: porque o Brasil não se industrializou?
Cremos que a resposta a essa pergunta seja bem complexa e que esteja além de nossas
possibilidades. O que podemos fazer é seguir no caminho de tantos outros, mostrando
como os modelos acima não atendem à realidade, no caso, tratando especificamente de
um aspecto que não foi priorizado em pesquisas, ou seja, o papel da guerra nas socieda-
des e como o suprimento militar seria relevante para se entender qualquer organização
social e econômica nos séculos XVIII e XIX.

139
FONTES, op. cit. p. 356.

75
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Sumário

3. As forças armadas como consumidora de mercadorias


3.1. Suprindo os soldados.
3.2 Logística
3.3 Revolução Militar
3.3.1 A cultura da Guerra
3.4 A supremacia europeia
3.5 Necessidades logísticas – Portugal e Brasil
3.5.1 A vida sobre permanente tensão
3.5.2 O Brasil, país de conflitos
3.5.3 Milícias, Ordenanças, Guarda Nacional: o apoio ao exército.
3.6 O exército no Brasil
3.7 O exército nacional, do Brasil.
3.8 Um novo exército em formação
3.9 O exército como consumidor
3.10 Observações preliminares sobre a questão dos exércitos

76
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

3. As forças armadas como consumidora de mercadorias

Antes de iniciarmos a trabalhar com a questão das forças armadas como uma
forma de mercado, ou seja, a dinâmica de suprimentos militares, é necessário definir
uma questão básica: o que é guerra ou, mais importante, o que é a história social da
guerra, o que no Brasil recentemente se convencionou chamar de “nova história mili-
tar”.

De início, nos parece que a definição de Clausewitz, 1 de que a guerra é “(...) um


ato de violência destinado a compelir nosso oponente a obedecer nosso desejos”2 ainda
é a mais adequada, especialmente quando levamos em contra que a força física, para o
autor, é o meio, enquanto a submissão do inimigo a nossa vontade é o objeto último da
ação. Ou seja, a força é apenas um instrumento da política ou, como é dito na já muito
batida frase: “guerra é a continuação da política por outros meios”.3 Devendo-se fazer a
nota que Clausewitz subentende que se trata de uma ação entre governos e não outras
formas mais genéricas de violência.

A definição de Clausewitz nos parece ser particularmente interessante por não


partir do princípio que seriam necessárias hostilidades abertas para se caracterizar uma
situação de guerra – o uso da violência pode estar apenas implícito nas ações dos parti-
cipantes, o caso mais claro sendo o de um ultimatum, uma demanda cuja recusa é segui-
da do início de hostilidades. Há também uma grande graduação de nuances diplomáticas
no uso da violência, como “demonstrações de força”, embargos etc. Assim, a definição
de Hobbes para a guerra é esclarecedora de uma ideia que é de fundamental importância
para o presente texto:

Pois a guerra consiste não somente na batalha, ou no ato de lutar, mas


num período, onde o desejo de competir pelo combate é suficiente-
mente conhecido: e assim a noção de tempo deve ser considerada na
natureza da guerra como na natureza do clima, pois a natureza do cli-
ma ruim não fica em uma pancada ou duas de chuva, mas numa incli-
nação de ser assim por muitos dias seguidos; assim a natureza da guer-
ra não consiste no combate real, mas na disposição conhecida para

1
Militar prussiano (1780-1831), chegou ao posto de general de divisão e sua esposa publicou postuma-
mente seu opus magnus, o livro “da Guerra”, que é considerado o trabalho mais influente na filosofia
da guerra, tendo sido traduzido em todas as principais línguas do mundo. BASSFORD, Christopher.
Carl von Clausewitz. https://goo.gl/v8h54h (acesso em novembro de 2015).
2
CLAUSEWITZ, Carl Von. On War. Harmondsworth: Penguin Books, 1984. p. 101.
3
id. p. 119.

77
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

tanto, durante todo o tempo não havendo segurança para o contrário.


Todo o outro tempo é paz.4
Isso deve ser visto como um ponto central da presente obra, pois, apesar do
grande número e extensão de conflitos abertos que houve no mundo, isso não implica
que nos períodos de paz tenham se desmontado as estruturas criadas para lidar com as
questões militares em tempo de hostilidades. Basta lembrar a famosa frase de Vegetius,
ci vis pacem parabelum: “se queres a paz, prepara-te para a guerra”.5

Desta maneira, a história social da guerra – ou a nova história militar – ao traba-


lhar com a influência do esforço militar sobre a sociedade, em oposição apenas ao estu-
do dos períodos em que houve guerra aberta, se concentra justamente nos momentos em
que não há operações bélicas. Isso por os efeitos da preparação para o embate militar
sobre as sociedades são permanentes e marcantes – até os dias de hoje –, apesar de não
serem claramente visíveis quando não há operações militares em andamento. Assim, o
campo de estudo dessa linha de história não é somente a questão das forças armadas em
momento de conflito, trata dos “vínculos de sociabilidade, as operações formais e in-
formais das hierarquias, os sistemas de progressão e punição operantes (...)”.6

Do nosso ponto de vista, o importante é que esse tipo de estudo aborda, também,
todo o sistema de apoio, formal e conceitual, criado para o funcionamento das forças
armadas, incluindo todos os aspectos materiais, como os objetos, bem como os imateri-
ais, as pessoas e a criação de um suporte mental para sustentar moralmente os exércitos.
Esse esquema de apoio tem profundas implicações sociais, cujo conhecimento ajudaria
a entender a sociedade de cada região e tempo: um desses sistemas de apoio, talvez o
mais importante, é o referente à logística, a parte da organização governamental que
trata do sustento das forças militares através do fornecimento de meios e serviços. 7

3.1. Suprindo os soldados.


Sobre esse tema, os militares norte-americanos têm um ditado que citam muito:
“amadores pensam em estratégia, generais em logística”, para apontar uma questão que

4
HOBBES, Thomas. Leviathan. Chicago: University of Chicago, 1952. p. 85. (grifos nossos).
5
VEGETIUS, Públius Flavius. Vegetius: epitome of military Science. Liverpool: Liverpool University,
1993. p. 63.
6
CASTRO, Celso, et alii. Da história militar à nova história militar. IN: CASTRO, Celso; IZECKSOHN,
Vitor; KRAAY, Hendrik. Nova história militar brasileira. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p 12
7
BIBLIEX - BIBLIOTECA DO EXÉRCITO. Dicionário militar brasileiro. Rio de Janeiro: Bibliex,
2005. p. 548.

78
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

muitas vezes é ignorada até pelos profissionais do ramo, os próprios militares8: sem os
meios de subsistência adequados não existe um exército. Os soldados são seres huma-
nos, têm que se alimentar e receber alojamento como qualquer outra pessoa para pode-
rem sobreviver, sendo que eles sofrem de uma necessidade específica, que não afeta à
sociedade civil como um todo: têm que ser armados, municiados e receberem fardamen-
to.

São imperativos de abastecimento importantes e, ao contrário do que aparece em


algumas ocasiões em livros, de que um exército em campanha pode “viver da terra”,
isso só é possível em termos muito limitados. Na verdade, é um problema para qualquer
grupo humano maior: fantasia-se muito sobre uma situação idílica, de se viver em har-
monia com a natureza, mas isso só é possível com grupos muito reduzidos de pessoas,
que são obrigadas a estarem em movimentação constante, em busca de novas fontes de
recursos, uma vez que os produtos locais tenham se esgotado.

Assim, à guisa de exemplo, para se entender o problema logístico, deve-se ver


que a alimentação mais comum nas forças armadas brasileiras até o século XX era a
farinha de mandioca, que provê 3.640 calorias e 100 gramas de proteína por quilo, de
forma que um quilograma dela teria, em tese, a quantidade mínima de energia para ali-
mentar uma pessoa por um dia, ignorando-se perdas, a ausência total de algumas vita-
minas etc. Na prática – ou mesmo na teoria – a alimentação não era tão monótona, res-
trita e insalubre, a legislação que regulava o pagamento das etapas, a alimentação diária
dos soldados, 9 previa uma ração básica de 1/40 alqueire de farinha (725 gramas),10 uma
libra (459 gramas) de carne fresca, quatro onças (115 gramas) de arroz, duas onças (58
gramas) de toucinho e uma onça (29 gramas) de sal. Ou seja, aproximadamente 1,4 kg
de gêneros. A lei previa ainda 24 onças (688 gramas) de lenha, para cozinhar os alimen-
tos – para cada pessoa, por dia, era necessária disponibilizar 2.100 gramas de material

8
Martin van Creveld, autor de dezessete livros sobre história militar, na sua obra Supplying War (abaste-
cendo a guerra), aponta que a falha em tratar aspectos logísticos é comum tanto aos historiadores ci-
vis quanto aos militares. Contudo, ele observa que os exércitos ao longo da história não podem se
mover independente de sua cadeia de suprimentos. CREVELD, Martin van. Supplying war:
logísticas from Wallenstein to Patton. New York: Cambridge University Press, 1990. p. 2.
9
BRASIL – Lei de 24 de setembro de 1828. Regula o fornecimento das rações de etapa do Exercito. A
lei previa que a carne fresca e o arroz podiam ser substituídos por meia libra de carne seca e 1/160 de
alqueire de feijão. Essa tabela de etapas permaneceu em curso até a década de 1880.
10
A transformação de unidades arcaicas de volume em peso depende da densidade do produto que, por
sua vez, é condicionada por uma série de fatores, como o tipo de farinha, granulação, humidade etc.
De forma muito geral trabalhamos com a densidade da farinha de mandioca como sendo de 800
gramas por litro e o alqueire como tendo 36,37 litros.

79
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

para alimentação, isso sem contar com dois litros de água, que normalmente podia ser
obtida na natureza. Tais números, que podem parecer pequenos, crescem de forma as-
sustadora quando pensamos que a alimentação não era fornecida para um homem, mas
sim para pelo menos um batalhão, a unidade militar formalmente devendo ter 800 sol-
dados (na prática, o normal era a metade disso). Desta forma, os valores a serem forne-
cidos passam então a serem bem mais críticos. Para um exército então, como o que ope-
rava contra os Farrapos, em 1845, com 9.254 homens, 11 isso implicava em um consumo
de diário de vinte toneladas, só de comida para os soldados. Essa questão, que é descon-
siderada por muitos, aparece aqui para mostrar as necessidades logísticas de uma força
militar, que podem escapar da visão de um leitor desavisado. Torna-se mais relevante
em nosso caso quando vemos que havia sistemas centralizados de abastecimento de
alimentos, que passavam pela burocracia do Arsenal de Guerra.

Tais fatores, como dissemos, são muitas vezes ignorados por amadores até por
profissionais. A tendência normal é achar que o poderio de um exército é medida pelo
número de “baionetas”, soldados armados, que se pode colocar em um campo de bata-
lha. Entretanto, isso é um erro, já que uma força que não tenha um mínimo de meios
para se alimentar desaparece rapidamente. O caso mais visível dessa situação é o das
tropas cercadas onde, apesar do chavão das ordens de “resistir até o último homem”,
isso raramente acontece. O problema não é a falta de coragem das pessoas e seus líde-
res, mas sua incapacidade de continuarem a combater sem combustível (lenha), comida
e, muito secundariamente, munições. Essas últimas se esgotam de forma muito mais
lenta do que os outros itens,12 apesar disso acontecer, como foi o caso da rendição do
Forte de Coimbra em 1864, no Mato Grosso do Sul, que teve que ser abandonado quan-
do as munições disponíveis acabaram. Isso por uma falha do sistema de suprimento do
exército imperial – especificamente o Arsenal de Guerra local –, que não enviou cartu-
chos do tipo adequado para o forte.13

11
BRASIL – Exército em Operações na Província de São Pedro. Mapa da Força do exército, quartel ge-
neral em Porto Alegre, 11 de março de 1846. IN: Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.
v. 7. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1983. Coleção de Alfredo Varela. Correspondência
ativa. pp. 52-53. O mapa não inclui a força da Guarda Nacional destacada, possivelmente um núme-
ro semelhante aos soldados de linha citados.
12
CREVELD, op. cit. p. 35.
13
FRAGOSO, Augusto Tasso. História da Guerra entre a tríplice aliança e o Paraguai. I volume. Rio de
Janeiro: Imprensa do Estado Maior do Exército, 1934. p. 229.

80
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

O problema do suprimento de uma força militar em marcha é, portanto, comple-


xo e no Brasil ainda não foram feitos muitos estudos sobre o tema de como se abastecia
um exército – uma questão que consideramos uma falha da historiografia tradicional
que trata do estudo das operações bélicas e isso até o século XX. Uma das condicionan-
tes disso é que este objeto de estudos é pouco atraente, pois não trata de combates e re-
sistências heroicas ou da capacidade dos líderes nacionais, mas sim de simples – mas
vitais – aspectos administrativos.

No caso do fornecimento das unidades militares em tempo de paz o problema


militar não é tão crítico, pois a estabilidade de localização e a redução dos números en-
volvidos permitiam que se estabelecessem, com economia, canais de suprimento fixos
com fornecedores civis, meios que podiam ser mantidos com regularidade. Isso é espe-
cialmente verdadeiro para os itens de consumo regular, como a comida e forragem, mas
há dificuldades a serem tratadas que são específicas do campo militar, como o forneci-
mento de armas, e fardas, que são o objeto principal de trabalho dos arsenais, no campo
que é conhecido como da logística militar.

3.2 Logística
Apesar de o termo logística ter sido incorporado na linguagem diária das pesso-
as, por causa de seu uso na área de administração, onde tem o significado dos processos
usados para o eficiente e efetivo transporte e armazenamento de mercadorias,14 a pala-
vra tem uma origem muito mais antiga e abrangente, sendo formalmente definido da
seguinte maneira pelo Exército Brasileiro:

Logística, S.f. (Mil) Parte da arte da guerra que trata do planejamento


e execução das atividades de sustentação das forças em campanha, pe-
la obtenção e provisão de meios de toda sorte e pela obtenção e pres-
tação de serviços de natureza administrativa e técnica.15
Ou seja, não é um assunto restrito ao movimento de bens, como no campo civil,
mas inclui serviços prestados às tropas, tais como o sanitário, religioso16 e, é claro, o
fornecimento de alimentos, armas, uniformes e munição. O termo tem uma etimologia

14
COUNCIL of Supply Chain Management Professionals. Glossary of terms. https://goo.gl/xHihpo
(acesso em novembro de 2015).
15
BIBLIEX, op cit. p. 548
16
Pode parecer estranho, mas os Arsenais eram responsáveis pelo fornecimento de material de saúde e,
até, religioso, como as alfaias usadas em capelas e para missas campais. Há muitos documentos so-
bre isso, como o: BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do ministro ao diretor do Arsenal, José de
Vitória Soares de Andréa, mandando fornecer alfaias à colônia de Santa Thereza. Rio de Janeiro, 11
de Novembro de 1863. Mss. ANRJ. IG7 356.

81
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

recente, a maior parte dos autores concordando que vem do francês loger, alojar. No
entanto, outra origem da palavra, mais aproximada com o sentido moderno seria o ter-
mo grego logistike, significando cálculo, palavra usada pelos exércitos bizantinos no
século X para designar um oficial encarregado dos problemas administrativos das forças
armadas. Eram, portanto, atividades que sempre foram necessárias para garantir a pró-
pria guerra. 17

Hoje em dia, tal atividade cresceu a tal ponto que houve uma inversão da aparen-
te lógica da formação das forças militares: há mais pessoal empregado em atividades
administrativas e de apoio do que em combate. Na prosaica frase usada pelo exército
americano, a relação tooth to tail ratio (T³R), ou “relação dente para rabo”, referente ao
número de tropas empregadas em funções de combate em relação aos de apoio, a situa-
ção hoje é tal que há um homem na linha de combate (o dente) sendo servido por nove
na retaguarda, o “rabo” logístico, na pitoresca gíria do exército norte-americano.

Tropas de combate e de apoio


% de tropas de combate no total
28

19
17

11
7,5 7,2

Gráfico 8 – Proporção geral das forças de combate norte-americanas (1917-2005).18


Os dados usados no gráfico acima incluem não apenas o pessoal empregado no
suprimento normal das tropas, mais também aqueles que, no Brasil, seriam considera-
dos como forças de combate, como a polícia militar ou unidades de comando, mas a
estimativa americana parece ser mais correta, pois essas forças não se destinam, primor-
dialmente, a usar seus equipamentos diretamente contra um inimigo, como é o caso das

17
BREEMEN, Henk van den (ed.). Breaktrough: from innovation to impact. Lunteren: The Owls Foun-
dation, 2014. p. 21.
18
MCGRATH, John J. The other end of the spear: the tooth-to-tail ratio (T3R) in modern military opera-
tions. Fort Leavenworth: Combat Studies Institute Press, 2007. p. 105.

82
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

unidades de combate, mas sim a dar apoio para que estas sim possam exercer a força
contra um oponente.

Também deve ser visto que o crescimento da estrutura de apoio é, em parte, um


fenômeno do século XX, principalmente após a 1ª Guerra Mundial, devido à motoriza-
ção dos exércitos: é necessário manter veículos em funcionamento e para isso são indis-
pensáveis mecânicos; pessoal de abastecimento; almoxarifado; reposição de peças; for-
necimento de lubrificantes; combustível e assim por diante. Além disso, a maior com-
plexidade administrativa fez crescer em muito os trabalhos burocráticos, ainda que le-
vemos em consideração os modernos meios de registro e manipulação de dados. Por
exemplo, na França, em 1515, havia um funcionário governamental para cada 115 qui-
lômetros quadrados de território e 950 habitantes, cem anos depois, a relação era de um
burocrata para cada 10 quilômetros quadrados e 76 habitantes.19 Estes dedicados, basi-
camente a dar apoio burocrático e fiscal necessário para as atividades bélicas do país.

De um ponto de vista de condicionantes das operações, os exércitos, até meados


do século XIX, tinham que sobreviver da terra ao seu redor, seja pela compra de supri-
mentos, seja, em parte, pelo saque. Isso gerava uma série de condicionantes militares:
por exemplo, as campanhas eram relativamente curtas, pois não se conseguia alimenta-
ção no inverno e primavera, quando não havia grandes excedentes agrícolas e era neces-
sário guardar os suprimentos até a próxima colheita. Na verdade, o período preferido
para a execução de operações militares era o verão, já que na primavera e outono, o pe-
ríodo de plantio e colheita, os soldados tinham que cuidar de suas plantações. Por
exemplo, em 1602, Maurício de Nassau, com um exército de 24.000 holandeses se mo-
veu contra as forças espanholas em Flandres, mas lançou a expedição muito cedo: cru-
zando o rio Mosa em 20 de junho, chegou ao teatro de operações antes que os cereais
estivessem maduros para colheita, tendo que encerrar suas operações por falta de ali-
mentos que pudessem ser saqueados.20 Aqui no Brasil, o governador do Rio Grande do
Sul comunicava que “atendendo a ser tempo de colher os trigos, e charquear as carnes,
determinei que só marchassem (...) para as fronteiras (...) os indivíduos que menos falta

19
LANGINS, Janis. Conserving the Enlightenment: French Military Engineering from Vauban to the
Revolution. Cambridge: MIT Press, 2004. p. 125
20
CREVELD, op. cit. p. 11.

83
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

fizerem naqueles ofícios”,21 um indicador da gravidade do problema de mobilização,


pois se tratava de um período logo depois da Invasão do Uruguai em 1811, quando as
tensões nas fronteiras ainda estavam elevadas.

Outra consequência é que os exércitos não tinham condições de se manter por


muito tempo estacionados em um local, pois rapidamente esgotavam os recursos de uma
área, mesmo os que eram comprados a dinheiro. Dessa forma, as forças combatentes
tinham que se manter em movimento, para poder usufruir dos produtos de áreas que não
tinham sido explorados até a exaustão. Esse é um dos princípios atrás da estratégia da
“terra arrasada”, onde um lado destrói tudo em seu caminho, para que os produtos de
uma área fossem negados ao inimigo, obrigando-o a procurar outras fontes de suprimen-
to. Na guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714), na batalha de Caia (1709), os aliados
anglo-portugueses sofreram uma derrota esmagadora, com a perda de 4.000 homens,
por que os portugueses tinham sido forçados a combater em uma situação desfavorável,
para tentar impedir que os espanhóis queimassem a colheita. Dois anos depois, o co-
mando espanhol conseguiu parar uma invasão portuguesa quando começou a destruir as
plantações nas fronteiras.22

De forma prática, as forças armadas tinha crescido astronomicamente depois da


Idade Média, o que foi acompanhado pelas demandas de suprimento em campanha, cri-
ando novos problemas que tiveram que ser abordados. No entanto, as alterações na or-
ganização militar se deram gradualmente, não foram, de forma alguma, instantâneas.
Como já dissemos os governos, militares e até os cidadãos comuns têm uma percepção
de quantos mais homens armados na frente de combate, melhor seria para um exército,
só que havia – e ainda há –, dificuldades específicas de se manter as forças em opera-
ções, ainda mais levando em conta o seu crescimento no período.

No início tentou-se um sistema de abastecimento em que os próprios soldados


procuravam obter sua subsistência, através do saque. Uma situação que gerava quebra
de disciplina, pois os homens tinham que agir como se fossem bandidos. Além disso, as
operações militares tinham que ficar restritas a regiões onde pudessem se coletar as
“contribuições” dos civis ou que permitissem o abastecimento por meio de barcos, ca-

21
OFÍCIO de D. Diogo de Souza ao Conde de Linhares, Porto Alegre, 16 de dezembro de 1811. Revista
do Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Setembro de 1923, nº 11. Porto Alegre: Escola de Enge-
nharia de Porto Alegre, s.d. p. 17.
22
CHILDS, John, Armies and warfare in Europe: 1648-1789. New York: Holmes and Meier, 1982. p.
154.

84
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

pazes de transportar os suprimentos necessários para um exército. Isso limitava as pos-


sibilidades de ação em locais onde a população fosse escassa ou pobre – uma situação
particularmente comum no Brasil e na região do Cone Sul. Lá havia uma baixa densida-
de populacional, sendo habitada por índios seminômades, a não ser pelas reduções je-
suíticas. Estas, portanto, se tornavam os alvos militares das operações de guerra, não por
só motivos estratégicos, mas também logísticos. O cardeal Richelieu sumarizou bem os
problemas de abastecimento, ao dizer que a:

história conhece mais exércitos arruinados pela necessidade e desor-


dem do que pelos esforços de seus inimigos; e testemunhei como to-
dos os empreendimentos que foram iniciados nos meus dias eram fa-
lhos por essa razão.23
Na Europa, a crescente complexidade do sistema de fornecimento militar come-
ça a se tornar evidente no século XVII: Michel Le Tellier iniciou um processo de mo-
dernização do sistema logístico francês assim que assumiu o cargo de secretário de es-
tado (ministro) da guerra, estabelecendo, antes de qualquer coisa, um sistema que defi-
nisse as necessidades das tropas: quanto pão era consumido, a quantidade de equipa-
mento que era necessária para cada pessoa e regimento, a de carroças e cavalos da
bagagem e assim por diante. Um sistema básico, que permitia ao comandante prever, de
início, as necessidades logísticas de sua tropa.

Le Tellier também estabeleceu um sistema de abastecimento móvel, a equipage


de vivres, um trem de transporte sob controle militar, que acompanharia o exército, le-
vando as necessidades básicas da tropa, por um tempo limitado, é verdade.24 Também
foi criada uma cadeia de depósitos de suprimento nas principais fortalezas e cidades de
fronteira, que podiam abastecer um exército que começasse a operar em território ini-
migo. Finalmente, foi estabelecida uma rede de quartéis, que reduzia ou acabava com o
sistema de aboletamento, o costume dos soldados se alojarem em casas de civis.

Em termos do presente trabalho, o período de Le Tellier marca uma mudança de


fundamental importância, através da implantação um sistema de fornecimento de armas
padronizadas. Dois dos grandes arsenais franceses, as fábricas de armas de Saint-

23
CREVELD, op. cit. p. 17.
24
MACCASKILL, Douglas C. Logistics in the Age of Marlborough. Strategy & Tactics Magazine, nr.
78. Jul-Aug. 1978. p. 36.

85
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Étienne e de Charleville 25, foram criados por ele. Produziram 600.000 fuzis na última
década do século XVII e este modelo, pelo qual o governo se responsabilizava pelo for-
necimento de equipamentos uniformes para suas tropas, foi copiado pelos outros países,
apesar do processo desse procedimento ter sido lento.26 Na própria França o sistema de
fábricas governamental conviveu com os fornecedores privados, mas a simples ideia de
que a administração pública devia assumir essa função foi uma revolução na forma de
se pensar a guerra na Idade Moderna.

De qualquer forma, a medida mais básica e talvez de maior importância foi defi-
nir as necessidades das forças, tal como foi dito: isso teve uma influência marcante, até
os dias de hoje. Por exemplo, até aquele momento não se forneciam uniformes para as
tropas, essas indo para campanha com suas próprias roupas, o que resultava que, ao lon-
go de alguns meses, os homens estavam descalços e maltrapilhos. Le Tellier introduziu
um sistema de fornecimento de roupas, em prazos definidos, sem descontos no paga-
mento dos soldados. Isso abriu o caminho para o uso de uniformes, que se generalizaria
ao correr do século XVII, se tornando universal nas forças armadas do ocidente no sécu-
lo seguinte. Ou seja, o estado passava a assumir a responsabilidade por equipar suas
forças, mesmo em tempo de paz, um passo importantíssimo em termos de montagem de
um aparato logístico tal como entendemos hoje em dia.

O que é evidente nessas breves linhas é que houve todo um processo de transi-
ção, de um sistema logístico praticamente inexistente, para um cada vez mais complexo,
a ponto de que hoje em dia, como colocamos anteriormente, haja mais pessoas empre-
gadas em atividades de apoio do que propriamente combatendo. Esse foi um processo
mais ou menos universal, afetando mesmo economias atrasadas, já que a importação de
alguns produtos era inviável, como era o caso de uniformes. Uma das soluções foi, co-
mo no caso da França, a implantação de arsenais, para o fornecimento de peças de repo-
sição, armamento, equipamento e, principalmente uniformes e isso teve uma grande
influência na formação dos estados nacionais, como veremos a seguir. No entanto, vale
um aparte para apontar que, mesmo numa colônia como o Brasil, a ocupação das diver-
sas regiões foi acompanhada pela implantação de depósitos de artigos bélicos, trens e,

25
Criados respectivamente, em 1665 e 1675. MORTAL, Patrick. Les armuriers de l’État: du Grand Siè-
cle a la globalisation, 1665-1989. Villeneuve d’Ascq: Presses Universitaires du Septentrion, 2007.
p. 38.
26
LYNN, John A. Giant of the Grande Siècle: the French army, 1610-1715. Cambridge: Cambridge
University Press, 2006. p. 181.

86
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

mais tarde, os Arsenais, o principal deles sendo o do Rio de Janeiro, como será tratado
mais além.

3.3 Revolução Militar


Em 1955 o prof. Michael Roberts, da Queen’s University de Belfast, apresentou
uma aula inaugural onde desenvolveu a proposta teórica de que havia uma relação direta
e específica entre mudanças na arte da guerra que ocorreram no Renascimento e a for-
mação dos estados nacionais, ao longo do período de 1560 a 1660. Chamou as conse-
quências dessas alterações de Revolução Militar,27 um termo que se consolidou na bi-
bliografia, havendo diversos livros publicados sobre esse tema.28

Segundo o autor, transformações alterações na organização dos exércitos intro-


duzidas pelo holandês Maurício de Orange e pelo rei sueco Gustavo Adolfo teriam tido
grande influência tática. Basicamente, o processo seria uma mudança de ênfase na com-
posição dos exércitos, estes deixando de serem baseados em forças de cavalaria, relati-
vamente pouco numerosas, para terem como fundamento uma infantaria mais forte.
Uma transformação que já vinha ocorrendo desde o século XV, quando os piqueiros
suíços conseguiram derrotar de forma consistente e regular a cavalaria medieval. No
entanto, as mudanças táticas dos dois generais citados representaram um retorno a for-
mações lineares (ver figura 4), de pouca profundidade, em substituição às técnicas inici-
ais do Renascimento, de tropas dispostas em grandes massas. Isso para que as tropas
pudessem usar as armas de fogo – que começavam a ser tornar comuns – de forma mais
eficiente.

27
ROBERTS, Michael. The Military Revolution, 1560-1660. Belfast: Queen’s University, 1956. O Texto
foi revisado e reeditado em ROBERTS, Michael (ed.) Essays in Swedish History. London:
Weidnfeld & Nicolson, 1967. A obra foi novamente reeditada em 1995, como parte da coletânea
preparada por Clifford J. Rogers: The Military Revolution Debate : Readings on the Military Trans-
formation of Early Modern Europe. Oxford: Westview Press, 1995. pp. 13-35.
28
Podemos citar, entre muitas outras obras, as de PARKER, Geoffrey. The military revolution, 1550-
1660 - a myth? Journal of Modern History, 48, June, 1976. e The Military Revolution : Military in-
novation and the Rise of the West, 1500-1800. Cambridge: Cambridge University Press, 1988, bem
como a de BLACK, Jeremy. A military revolution : military change and European society - 1550-
1800. London: Macmillan, 1991. e DUFFY, Michael (ed.): The military revolution and the State :
1500-1800. Exeter: Exeter University Press, 1986. Em português, o livro que mais trabalha com o
conceito é o de KENNEDY, Paul. Ascenção e queda das grandes potências: transformação econô-
mica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

87
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Figura 4 – Companhia de infantaria em linha. 29


Desenho de um manual espanhol do século XVIII que, apesar da data, ainda mostra a organização básica
introduzida por Gustavo Adolfo, com quatro fileiras. No centro do dispositivo, piqueiros, usados no com-
bate de choque, com arcabuzeiros no lado e mosqueteiros nos flancos. Os homens adiante das linhas estão
armados com alabardas, indicando que eram sargentos, e o homem a cavalo é o capitão, o comandante da
tropa. Atrás da segunda fileira está um alferes, o oficial que portava o estandarte e seis tambores com dois
tocadores de pífano, indispensáveis para transmitir as ordens e manter o compasso dos homens em movi-
mento.
As formações lineares necessitavam que os soldados se movessem em forma
uníssona e compassada, assim como exigiam que houvesse um número maior de oficiais
para coordenar seu movimento. Como escreveu Roberts:

O exército não deveria mais ser uma massa bruta, no estilo suíço, nem
uma coleção de indivíduos belicosos, no estilo feudal; era para ser um
organismo articulado do qual cada parte respondia aos impulsos de
cima. A demanda por unanimidade e precisão de movimento levou na-
turalmente a inovação da marcha em cadência.30
Para tudo isso funcionar, era necessário que os soldados fossem treinados em
complexas manobras de grupo, aplicando sua força de forma combinada, como se fos-
sem peças de uma máquina. Como consequência, não era mais viável, como antigamen-
te, montar-se um exército a partir do nada, para apenas uma campanha, dispensando-o
em seguida: sem a mobilização permanente não seria possível manter o nível de conhe-
cimento das tropas de uma estação de campanha para a seguinte. Aqui cremos ser inte-
ressante notar que Nassau ordenou a preparação do primeiro manual de treinamento de
soldados, o Kriegskunst zu Fuss (ver Figura 5), que foi copiado por diversos países: só
na Inglaterra foram feitas três versões dele. O livro, feito objetivando atender um exérci-

29
ZUÑIGA, Melchor de Alcazar. Arte de esquadronar, y exercicios de la infanteria por el Maestro del
Campo D. Melchor de Alcazar y Zuñiga, Marqués del Valle de la Paloma. Madrid: Juan Garcia
Infanzon, 1703. p. 14.
30
ROBERTS, op. cit. p. 198.

88
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

to composto de analfabetos, era composto de uma série de desenhos mostrando cada


passo que o soldado deveria tomar para executar sua tarefa: esgrimir com um pique, dar
um tiro com um arcabuz ou com um mosquete.

Figura 5 – Treinamento de um arcabuzeiro.31


A figura mostra o 12º passo no carregamento de um arcabuz: “abaixe sua peça e a balance na sua mão
esquerda, com o cano para o ar”. O Manual, Kriegskunst zu Fuss (1607), de Jacob de Gheyn, mostrava 42
passos para carregar e disparar um arcabuz, 43 para um mosquete (uma arma mais pesada) e 32 posições
de manejo de piques: a proposta era que todos os soldados fossem treinados para executar esses movi-
mentos de forma idêntica, ao mesmo tempo, seguindo os comandos de seus superiores.
Outra consequência da adoção da tática linear era que o uso eficaz das armas de-
pendia que essas fossem padronizadas. Não era possível que cada um trouxesse seu
próprio equipamento de casa, como tinha sido o caso nas hostes medievais, pois assim o
combate não seria possível. Todos os homens teriam que ter equipamentos mais ou me-
nos iguais, como piques do mesmo comprimento, para formar uma defesa eficaz contra
a cavalaria e as armas de fogo tinham que ser do mesmo calibre, para que munição pa-
dronizada pudesse ser distribuída, pelo menos dentro de uma mesma unidade do exérci-
to. Mais um motivo para que as armas fossem semelhantes era que o treinamento tinha
que ser aplicado de forma coletiva, de forma que a eficiência da tropa não dependesse
mais da proficiência individual de cada membro do exército. A implicação disse sendo a
necessidade de existência de um sistema de fornecimento para esses equipamentos pa-
dronizados, em muitos casos a solução sendo a construção de manufaturas governamen-
tais, os futuros arsenais.

Outra mudança tática associada ao período Moderno é relativa à composição das


forças combatentes: apesar das normas do direito feudal preverem o emprego não remu-

31
GHEYN, Jacob de. The Renaissance drill book. London: Greenhill books, 2003. p. 33.

89
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

nerado dos vassalos de um senhor, na prática, no final do período medieval as tropas já


eram compostas, em larga escala, por mercenários, soldados que lutavam por dinheiro,
sendo dispensados quando a campanha acabava. Só que à medida que as operações mili-
tares se prolongavam e aumentavam os efetivos mobilizados, como ocorreu no período,
o procedimento de formar exércitos com mercenários foi se tornando caro, tendo sido
necessário buscar alternativas.

O ponto central da teoria de Roberts é que as inovações táticas foram apenas o


“gatilho” para mudanças sociais profundas, pois a própria existência dessas novas forças
demostram que surgiram estruturas logísticas e, mais importante, administrativas e fis-
cais, para que os novos exércitos pudessem funcionar e serem financiados.

Logo de início, era necessário um sistema de fornecimento de armas mais ou


menos padronizadas, pois, como dissemos, a prática comum do próprio soldado se
equipar não era mais adequada. Outro aspecto importante da formação dos novos exér-
citos é que eles, por serem mais bem treinados, equipados, supridos e com mais oficiais
profissionais, permitiam o desdobramento das operações militares em um número maior
de frentes, sem a supervisão direta do líder de cada país, como tinha sido a prática usual.
Isso dava possibilidades militares muito amplas para as grandes potências e, por isso, se
via a necessidade de criar um sistema de oficiais, profissionais, fiéis aos governos e que
controlassem as tropas em nome dos monarcas. Esse foi um dos passos decisivos visan-
do à obtenção do monopólio da violência legítima, tal como colocado por Weber.32

Dessa forma, a característica desse momento, causada pela mudança na forma de


combate, foi o crescimento tanto das forças combatentes, como da escala das operações:
o exército espanhol passou de vinte mil homens em 1475, para trezentos mil 160 anos
depois, um crescimento de 1.400%, muito maior do que o aumento populacional. 33

As possibilidades de haver maiores e mais numerosos exércitos em operação ao


mesmo tempo, levaram a uma mudança conceitual de maior relevância, que foi a altera-
ção da escala das operações: agora a guerra não era mais travada apenas em termos lo-
cais ou mesmo regionais, havendo esforços em todo o continente Europeu. Também,
diferente do que tinha ocorrido até então, em todas as culturas, em todo o mundo, come-

32
WEBER, Max. Ensaios de Sociologia Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1982. p. 301 e segs. Ver tam-
bém: FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes,
1989. p. 257 e segs.
33
BLACK, op. cit. p. 6.

90
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

çaram a haver ações operações militares que se desdobravam em escala global. A gran-
de potência do período, a Espanha, era o império onde “o sol nunca se punha”, tendo
colônias espalhadas das Américas ao Oceano Pacífico, incluindo, depois de 1580, as
possessões portuguesas na África, Ásia e América. Com a contestação das Províncias
Unidas dos Países Baixos34 ao domínio espanhol, a luta se expandiria para envolver
todos os continentes habitados, transformando o conflito, quando se generalizou na
Guerra dos Trinta Anos, no que alguns autores chamam da “Primeira Guerra Mundi-
al”.35

É importante apontar que esse crescimento das forças armadas ampliou em mui-
to o impacto da guerra e o da preparação para o conflito nas sociedades. Estamos falan-
do de dezenas de milhares de homens “improdutivos”, já que os soldados, em tese, estão
alijados do circuito econômico, pois em uma visão estritamente clássica de economia,
eles não produzem nada, como tratamos anteriormente. Além disso, seu potencial como
consumidores individuais é reduzido, eles sobrevivendo em um nível básico, de subsis-
tência, com fornecimento de necessidades mínimas pelo estado, apesar deles serem as-
salariados. Ver as forças armadas por esse aspecto improdutivo, contudo, é uma visão
simplista e que consideramos equivocada.

Apesar de poder parecer polêmico em termos de uma análise simplesmente eco-


nômica, cremos ser importante notar que os militares atendiam à uma demanda essenci-
al das comunidades, pelo menos até a segunda metade do século XX. Eles são, ou eram,
responsáveis pelo sentimento de segurança para a sociedade, pois sem eles as pessoas,
ou pelo menos os governos, se sentiriam indefesos ante uma imensidade de perigos.
Estes iam desde guerras externas até revoluções e rebeliões internas, criando um receio
que não é familiar a uma pessoa dos dias de hoje, mas cuja prevenção pelos exércitos
era tão fundamental quanto a necessidade de existência no mundo ocidental de um gru-
po que fizesse a intermediação entre o divino e a sociedade, o clero. Sem a visão de que

34
Na terminologia brasileira usa-se a palavra Holanda, para designar os Países Baixos (Nederland). Con-
sideramos o uso do nome como complexo, especialmente tendo em vista que a Holanda é apenas
uma das sete províncias que originalmente compunham a confederação. Na verdade, um dos nomes
do país, em holandês, é Republiek der Zeven Verenigde Nederlanden, a República das Sete
Províncias dos Países Baixos.
35
Durante a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), de independência dos Países Baixos, estes iriam ata-
car as colônias luso-espanholas na América, como na invasão de Pernambuco, em 1630; na África,
com a conquista de Angola, em 1641 e, principalmente, na Ásia. Nesta última região, o conflito pra-
ticamente eliminou o império lusitano que existia ali. ISRAEL, Jonathan I. The Dutch Republic and
the Spanish world, 1606-1661. Oxford, Oxford University Press, 1986. pp. 117, 197, 271 e segs.

91
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

as necessidades psicológicas estavam sendo atendidas, a sociedade daquela época não


poderia funcionar. Mais importante, no caso dos militares, a necessidade de produção de
um sentimento de segurança não era apenas psicológica como dissemos e como vere-
mos mais adiante: havia, de fato, vários riscos reais, que se concretizaram ao longo dos
séculos, exigindo a presença de um aparato militar para os mitigar.

Isso sem falar no uso das tropas na expansão da base econômica dos países, co-
mo foi o caso das forças do Rio de Janeiro que participaram na Reconquista de Angola,
em 1648,36 uma das principais fontes de escravos do Brasil. Os cativos eram um “insu-
mo” indispensável para a economia agroexportadora, que fora tornado inacessível aos
luso-brasileiros pela ação militar da Companhia das Índias Ocidentais holandesa e que
foi recuperado por outra ação bélica. Além dessas questões, os militares consumiam
uma boa parte das mercadorias produzidas pela sociedade, gerando a movimentação de
recursos avultados, o que ativava o comércio.

De qualquer forma, segundo Roberts, as consequências das mudanças tátias seri-


am profundas:

Por volta de 1660, a moderna arte da guerra tinha nascido. Exércitos


em massa, estrita disciplina, o controle do Estado, a submersão do in-
divíduo já tinham chegado; a ascendência conjunta do poder financei-
ro e da ciência aplicada já estava estabelecidas em toda a sua maligni-
dade; o uso da propaganda, guerra psicológica e terrorismo como ar-
mas militares já eram familiares para vários teóricos, bem como para
comandantes em campo. As últimas preocupações remanescentes a
respeito da legitimidade religiosa ou ética da guerra pareciam ter sido
eliminadas. A estrada estava aberta, larga e reta, para o abismo do sé-
culo XX. 37
Outros autores ampliam os conceitos apresentados por Roberts, apontando dois
pontos importantes no crescimento do esquema militar dos governos que se somavam à
questão da formação dos exércitos permanentes: as fortalezas e as frotas.

O surgimento da artilharia levou à mudança das defesas: os antigos castelos me-


dievais tinham torres colocadas a cerca de trinta metros uma das outras, pois essa era a
distância em que um arco e flecha podiam causar danos de forma mais eficiente. As
armas de fogo, entretanto, tinham um alcance muito maior, algo que se convencionou

36
BOXER, Charles. Salvador de Sá and the Struggle for Brazil and Angola: 1602-1686. London: Atho-
lone press, 1952. p. 257 e segs.
37
ROBERTS, op. cit. p. 218. (A tradução desse texto – e de todos os outros, a não ser que especificado
em contrário, é nossa).

92
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

ser de 220 metros,38 de forma que os pontos de flanqueamento podiam ficar mais distan-
tes (ver Figura 6). Na verdade, ficar mais longe uns dos outros era uma necessidade, por
causa da maior espessura das muralhas, às vezes de até 50 metros.

Essas condicionantes resultaram em tipo de planta específico, que surgiu nos


primeiros anos do século XVI em uma região onde então havia fortes conflitos entre
diversas potências: a área que hoje é conhecida como Itália. Por isso o desenho moderno
de fortes passou a ser conhecido como “traçado italiano”, tendo se consolidado lá entre
as décadas de 1500 e 1530,39 o seu desenvolvimento no resto da Europa, em meados do
século XVI, sendo igualmente rápido.

O traçado italiano era composto de uma estrutura específica, o baluarte (ver Fi-
gura 6), uma construção quadrangular, que se projetava entre dois lanços de muralha e a
partir da qual os canhões podiam flanquear os muros adjacentes.

Figura 6 – Plano de baluartes e ataque a uma brecha. 40


No alto, à esquerda, plano de um baluarte, em Troyes, na França, sobreposto às antigas muralhas da Idade
Média. Observa-se a escala da nova construção, em comparação com a das pequenas estruturas medie-
vais. Embaixo, esquema apresentando diferentes tipos de baluartes, e a maneira como o fogo de um co-
bria as faces dos outros. À direita, representação artística de um ataque contra uma brecha aberta nos
muros, mostrando como o fogo do flanco seria mortal para as tropas assaltantes.

38
O alcance com pontaria das armas de fogo era bem menor, mas essa distância, conhecida como “um
tiro de mosquete”, era a que disparos feitos em conjunto teriam efeito. Canhões tinham um alcance
muito maior, seu maior efeito sendo até a distância de quatrocentos metros. PIMENTEL, Luís Ser-
rão. Método lusitânico de Desenhar as Fortificações das Praças Regulares, & Irregulares, Fortes de
Campanha, e outras obras pertencentes a arquitetura militar. Lisboa: Antônio Craesbeeck, 1680. p.
21 e HUGHES, B. P. La puissance de Feu: L’efficacité des armes sur le champ de bataille de 1630 à
1850. Lausanne: Edita-Vilo, 1976. p. 32.
39
HALE, J. R. The Early development of the Bastion : an Italian Chronology, c. 1450-c.1534. IN: HALE,
J. R. Renaissance War Studies. London: Hambledon, 1983. p. 37
40
VIOLLET-LE-DUC, E. E. Military Architecture. London: Greenwich Books, 1990. pp. 238 e segs.

93
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Este desenho de fortes teve um imenso efeito, se espalhando de forma muito rá-
pida por toda a Europa e por suas colônias – Francisco de Holanda, que fora enviado
pelo rei de Portugal à península italiana para observar os desenvolvimentos técnicos e
artísticos da região, construiu já em 1541 uma muralha fortificada usando o traçado ita-
liano na cidade de Mazagão, no Marrocos, ocupada pelos Portugueses. Como colocou
um autor:

“Outro significativo desenvolvimento foi a forma como os engenhei-


ros italianos se dispersaram por todas as nações da Europa e algumas
de suas colônias mais distantes. Conhecimentos militares naquele pe-
ríodo ainda eram um problema de especialidade nacional. Assim como
os Suíços eram afamados por seus piqueiros ou os espanhóis por seus
mosqueteiros, os Italianos eram louvados por todos os grupos comba-
tentes como os mestres da nova ciência de fortificação de artilharia.
Nós vimos um fenômeno parecido após a Segunda Guerra Mundial,
quando americanos e russos puseram as mãos nos cientistas de mísseis
alemães”.41
Por sua vez, os novos desenhos implicavam em gastos extremamente elevados,
pois, ao contrário dos castelos, tinham que ter muralhas muito espessas e com uma mai-
or extensão, além de serem armados com um número considerável de canhões, cada um
deles custando uma fortuna. Os valores necessários para a construção de um grande
sistema fortificado eram tão elevados que mesmo alguns estados tradicionais, como as
cidades-estados italianas, tiveram dificuldades para arcar com os gastos de construção
das novas defesas. Era necessário um governo centralizado e uma grande área onde se
pudesse coletar impostos para custear a construção das novas fortificações.42

O mesmo argumento sobre a necessidade de uma máquina de arrecadação pode


ser feito com relação às belonaves, que deixam de ser navios mercantes adaptados para
o combate, passando a ser embarcações construídas especificamente para o combate.
Isso exigia uma imensa quantidade de recursos, especialmente para a compra de ca-
nhões: um navio de linha, a principal unidade de combate do período, podia ter 60 ca-
nhões, como o Santíssimo Sacramento, que naufragou na Bahia, em 1668.43

41
DUFFY, Christopher. Siege Warfare : the fortress in the early modern world 1494-1660. London:
Routledge & Keegan Paul, 1979. p. 41.
42
Para um estudo de um caso específico dos gastos em fortificações, o de Siena, na Itália, ver PEPPER,
Simon & ADAMS, Nicholas. Firearms & Fortification : Military Architecture and Siege Warfare in
Sixteenth-Century Siena. Chicago: University of Chicago Press, 1986. A cidade-estado, incapaz de
arcar com os gastos da construção de novas fortificações para suas dependências, não teve condições
de mobilizar um exército capaz de resistir às tropas do Sacro Império, sendo ocupada.
43
GUILMARTIN Jr., John F. Os canhões do Santíssimo Sacramento. IN: Navigator, Rio de Janeiro, n°
17, 1981.

94
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

O imenso custo dessa artilharia inviabilizava a manutenção de navios de guerra


por particulares ou até mesmo a montagem de grandes frotas por potências menores,
especialmente considerando que as naus não tinham outro uso que não o combate. Nos
períodos de paz podiam ser colocados em reserva, mas ainda assim tinham que ser man-
tidos, com despesas elevadas.44 Por outro lado, a mera presença de uma só belonave era
suficiente para garantir o controle dos mares, já que barcos mercantes ou piratas não
tinham condições de competir com elas: isso foi uma das ferramentas fundamentais que
explicam como Portugal conseguiu manter um monopólio do comércio no Índico, pois
nenhum dos príncipes locais conseguiu montar uma frota como as da nação europeia
(ver Gráfico 9).

120

100

80
Navios

60

40

20

Gráfico 9 – Navios enviados para as Índias – 1500-1580.45


O número de naus enviadas nos anos iniciais da formação do Estado da Índia mostra o imenso esforço
que o governo português fez para estabelecer o monopólio comercial no Índico, o número se reduzindo –
mas ainda sendo muito elevado – com a estabilização da situação.
De um ponto de vista prático, a questão central da Revolução Militar é que o fi-
nanciamento dessas tropas, fortalezas e navios se tornaram o principal problema para os
governos, obrigando ao surgimento de uma estrutura burocrática para a sua administra-
ção e, principalmente, manutenção, mesmo em períodos em que não havia um conflito.
A ideia é que o crescimento das ações governamentais no campo militar obrigou ao sur-

44
Na marinha Brasileira, chamavam-se esses navios em reserva de “desarmados”, isto é, não estavam em
situação de combater, apesar de poderem manter seus canhões e terem tripulações reduzidas. Em
1829, depois da paz com a Argentina, havia 29 navios desarmados, inclusive o maior da frota, a nau
Pedro I, de 74 canhões. No mesmo ano, apenas dezesseis navios estavam em serviço ativo. BRASIL
– Ministério da Fazenda. Documentos com que instruiu o seu relatório à Assembleia Geral Legisla-
tiva do Império do Brasil o Ministro Secretario de Estado dos Negócios da Fazenda, e Presidente do
Tesouro Nacional, Miguel Calmon Du Pin e Almeida, na sessão de 1829. Rio de Janeiro: Tip. Impe-
rial e Nacional, 1829, p. 320.
45
O ACHAMENTO do Atlântico Sul: relação anônima dos capitães-mores e Barcos do Reino se tem ido
vindo a Índia (1497-1696). IN: Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 112. Rio de Janeiro: 1994. pp. 9-
34.

95
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

gimento de toda uma estrutura governamental – civil – que aumentou as possibilidades


de ação dos governos centrais ante a sociedade. Uma proposta já desenvolvida por We-
ber, mas a qual os teóricos da Revolução Militar deslocam a origem, colocando essa,
como dissemos, nas mudanças táticas, que teriam levado ao surgimento do aparato go-
vernamental de cobrança e administração de impostos. Este aparato, por sua vez, resulta
em uma supremacia do governo central sobre a nobreza e os governos locais.

Esse processo foi um que se deu no mundo todo: as nações que não importaram
e assimilaram os valores militares europeus – e com isso sua estrutura de arrecadação
de impostos e de governo – ficaram sujeitas a serem elas mesmas conquistadas e trans-
formadas em colônias. Como disse Geoffrey Parker:

O Ocidente tinha agora realmente obtido a ascendência. Numa manei-


ra que poucos podiam ter previsto, a preocupação constante dos Esta-
dos europeus de lutar uns com os outros, por terra ou por mar, tinha
dado belos dividendos. Graças acima de tudo a sua superioridade mili-
tar, fundada na Revolução Militar dos séculos XVI e XVII, as nações
ocidentais tinham conseguido criar a primeira hegemonia global da
História.46
Esse ponto é importante, pois os efeitos da Revolução Militar foram realmente
globais. Pela primeira vez os acontecimentos de uma dada região do mundo teriam efei-
tos em todos os continentes, em maior ou menor escala. Assim, e apesar da mitologia
existente no Brasil, de que ele seria um país pacífico, a questão militar teve uma grande
influência no País, desde sua fundação.

Para a presente tese, a questão da Revolução Militar também é fundamental: ela


explica porque os governos viam a necessidade de investir, de forma crescente, os par-
cos recursos disponíveis em uma questão não produtiva, a defesa. Como razão e conse-
quência, havia a formação de grandes exércitos, que por sua vez tinham que ser alimen-
tados, vestidos, armados e municiados. Isso criava demandas específicas, uma forma de
“mercado consumidor” que tinha que ser atendido, isso sendo feito, de forma crescente,
por instalações pertencentes ao próprio governo, os Arsenais.

O processo iniciado no século XVI continuou a se firmar na Europa posterior-


mente. Para efeito do presente trabalho, o período da Revolução Industrial vai trazer
algumas modificações na estrutura administrativa dos governos para a guerra. A mais
notável foi de organização, causada principalmente pela Revolução Francesa: como a

46
id. p. 154.

96
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

oficialidade daquele país era, basicamente, de extração nobre, um grande número deles
desertou da França quando a Revolução eclodiu e o exército ficou sem suas lideranças.
Dessa forma, o combate contra exércitos profissionais, altamente treinados como eram
os das outras monarquias europeias, se dava em situação de desvantagem para as forças
revolucionárias. Uma das formas encontradas para resolver esse problema foi a mobili-
zação popular, que para funcionar dependia basicamente de um sentido de patriotismo
para que o soldado continuasse a operar – nos exércitos tradicionais, rígidos, isso era
impossível, pois as tropas desertariam. 47

Os modelos adotados pelos franceses nas guerras da Revolução e Napoleônicas,


especialmente o uso de exércitos recrutados em toda a população, onde o serviço era
visto como um dever patriótico e não como um castigo, se tornaram mais ou menos
universais ao longo do século XIX. Não houve mudanças táticas importantes, apesar de
ter havido melhoria nas armas e o crescimento dos exércitos, ainda mais do que tinha
havido anteriormente – passava a se fazer uma ligação entre nação, cidadania e serviço
militar, levando ao surgimento de exércitos de massa, de tamanho colossal se compara-
dos com os padrões anteriores – ou mesmo com os atuais.

800.000

600.000

400.000

200.000

Gráfico 10 – Aumento do exército francês até o século XIX. 48


Para efeitos de comparação, hoje em dia o efetivo do exército francês é de 110.000 homens, menos do
que tinha em 1655.
O sistema militar existente em meados do século XIX foi o ápice das mudanças
que tinham se iniciado no século XVI, cada país tendo uma evolução diferenciada na
formação de seus exércitos, relacionada com a rapidez e eficácia como essas táticas fo-

47
Vale a pena repetir a famosa frase de Frederico, o Grande: “a maior parte dos soldados precisa do olhar
de seus oficiais e o medo das punições, para induzi-los a cumprir seu dever”. LEE, Wayne E. War-
fare and Culture in World History. In: LYNN II, John A. The battle culture of Forbearance, 1660-
1789. New York: New York University, 2011. p. 97.
48
Dados obtidos em BLACK, op. cit. p. 6 e LYNN, John. The pattern of army growth, 1445-1945. In:
LYNN. John. Tools of war: instruments, ideas, and institutions of warfare, 1445-1871. Chicago:
University of Illinois, 1990. pp. 3 e segs.

97
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

ram adotadas. Mais importante, contudo, foram os passos tomados por cada país para
lidar com as necessidades militares, que não foram idênticos e não tiveram o mesmo
sucesso.

Por exemplo, a Inglaterra conseguiu sua expansão colonial não através do au-
mento da forças de terra – essas eram numericamente reduzidas até o século XX. 49 O
caminho seguido pelos britânicos foi o crescimento naval, eles se tornando a principal
força marítima mundial a partir da segunda metade do século XVII. Os meios usados
para se alcançar essa supremacia em termos militares-navais são vários, o estabeleci-
mento de uma burocracia para regular as atividades militares, como os Board of Ord-
nance (Departamento de Material Bélico) e o Navy Board (Departamento da Marinha)
sendo fundamentais. Estes eram encarregados do fornecimento de armas, com seus pró-
prios laboratórios pirotécnicos, fundições de canhões e fábricas de pólvora (Board of
Ordnance), enquanto o Navy Board mantinha vários arsenais reais, tendo sido respon-
sável, inclusive, pela criação do que é considerada como a primeira fábrica usando os
princípios de produção em massa, a fábrica de moitões de Portsmouth, que abordamos
no quinto capítulo. 50 E o papel indutor da marinha inglesa na formação de manufaturas
também foi muito grande. Como colocou Hobsbawn:

Mais ainda, a guerra – e especialmente, aquela organização de classe


média muito orientada para o comércio, a Marinha Britânica – contri-
buiu ainda mais diretamente para a inovação tecnológica e industriali-
zação. Suas demandas não eram desprezíveis: a tonelagem da marinha
multiplicou-se de 100.000 em 1685 para cerca de 325.000 em 1760 e
sua demanda por canhões cresceu substancialmente, apesar de forma
menos dramática. A guerra era certamente o maior consumidor de fer-
ro e firmas como Wilkinson, the Walkers, e a fundição Carron deviam
o tamanho de seus empreendimentos parcialmente aos contratos go-
vernamentais de canhões, enquanto a indústria de ferro de Gales meri-
dional dependia de combates. De forma mais geral, contratos gover-
namentais, ou aqueles das vastas corporações quase-governamentais,
como a Companhia das Índias Orientais, vinham em grandes blocos e
tinham que ser atendidos a tempo. Valia a pena para um homem de
negócios introduzir meios revolucionários para os atender. Volta e
meia encontramos algum inventor ou empreendedor estimulado por
um prospecto tão lucrativo. Henry Cort, que revolucionou a manufatu-
ra do ferro, começou nos anos de 1760 como um agente da Marinha,

49
Isso não quer dizer que o recrutamento para as forças armadas fosse menos severo lá. Em 1801 o par-
lamento autorizou o recrutamento de 350.000 homens para o exército, marinha e para o Ordnance
Department. Em 1811, foram autorizados 514.000 homens, um imenso esforço. DEANE, Phyllis.
War and industrialisation. WINTER, J. M. (ed.) War and economic development: Essays in memory
of David Joslin. Cambridge: Cambridge University, 1975. p. 97.
50
COOPER, Carolyn C. The Portsmouth System of Manufacture. Technology and Culture. vol. 25, nr. 2
(Apr., 1984). The Johns Hopkins University Press. pp. 182 e segs.

98
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

ansioso para melhorar a qualidade do produto inglês, ‘em relação com


o fornecimento de ferro para a marinha.’ Henry Maudslay, o pioneiro
nas máquinas-ferramentas, iniciou sua carreira no Arsenal de Wo-
olwich e seu destino (como aquele do grande engenheiro Mark Isam-
bar Brunel, anteriormente da Marinha francesa), permaneceu muito re-
lacionada com os contratos navais.51
É importante entender que a missão de abastecer a frota era, no mínimo, compli-
cada, quando vemos que a tripulação de um grande navio de guerra contava de 600 ho-
mens ou mais52 e a embarcação podia ficar seis meses no mar, com suprimentos para
todos os marinheiros durante esse período. Uma história que circula na internet53 fala do
cruzeiro da USS Constitution, uma fragata norte-americana com 475 tripulantes, que
teria zarpado para uma missão de combate em 1812, com 181 mil litros de água, 7.400
balas de canhão, cinco toneladas de pólvora e trezentos mil (sic) litros de rum. 54 Deve-se
ter em mente que uma frota como a britânica podia contar dezenas de navios desse porte
em operação ao mesmo tempo, conforme pode ser ver no quadro comparativo abaixo:
Países 1689 1739 1756 1779 1790 1815
Grã-Bretanha 100 124 105 90 195 214
Dinamarca 29 38
França 120 50 70 63 81 80
Rússia 30 40 67 40
Espanha 34 48 72 25
Suécia 40 27
Províncias Unidas 66 49 20 44
Tabela 2 – Quadro tamanho das armadas europeias, 1689-1815.55
A tabela mostra o tamanho das frotas em datas selecionadas, correspondendo à momentos de conflito na
Europa: o início da Guerra da Grande Aliança (1688-1697); o início do conflito que é conhecido nos
países anglo-saxões como “Guerra da Orelha de Jenkins”, de 1739 até 1748; o ano inicial da Guerra dos
Sete Anos (1756-1763); o momento logo antes do início das Guerras da Revolução Francesa (1790), que
continuariam praticamente sem interrupção até o Tratado de Paris, de 1815, correspondente á última co-
luna do gráfico.
O apoio à armada era facilitado pela existência de um grande número de estalei-
ros particulares e pela frota mercante: as manufaturas navais privadas usualmente não

51
HOBSBAWM, E. J. Industry and Empire : From 1750 to the Present Day. Harmondsworth: Penguin,
1985. p. 50.
52
Essa era a tripulação “em tempo de guerra”, de uma nau de 74 canhões do Brasil, a Imperador do Bra-
sil, que longe estava de ser a maior do período. Cf. MAPA de navios desarmados. Rio de Janeiro, 26
de abril de 1832, João Taylor, Chefe de Divisão. Quartel General da Marinha. IN: BRASIL – Minis-
tério da Marinha. Relatório do Ministro da Marinha do ano de 1831 apresentado à Assembleia geral
em 7 de maio de 1832. S.n.t.
53
Ver o discurso do Secretário da Marinha dos Estados Unidos, John H. Dalton, feito em Pittsburgh, 19
de setembro de 1997. DALTON, John H. Remarks as delivered by The Honorable John H. Dalton
Secretary of the Navy Biennial Convention of the Maritime Trades Department Pittsburgh, Pennsyl-
vania. 19 September 1997. https://goo.gl/VnkTEf (acesso em novembro de 2015).
54
Na época, o consumo de água doce, no mar, era complicado, pois não havia tratamento d’água eficaz e
a durabilidade da água em barris era pequena, o que não ocorria com o álcool. Dai a elevada quanti-
dade de bebidas que normalmente eram carregadas a bordo, apesar do número citado certamente ser
excessivo para um cruzeiro de seis meses: 3,5 litros, por dia, por homem.
55
KENNEDY, op. cit. p. 103.

99
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

construíam navios de maior porte para o governo, mas estavam disponíveis para dar
suporte logístico a eles e a marinha mercante era uma fonte – não inesgotável, é verdade
– de pessoal treinado.56

Talvez mais importante, foi a manutenção de um sistema fiscal que não era par-
ticularmente moderno, mas era considerado confiável, de forma que a Grã-Bretanha
conseguia financiar suas atividades governamentais em condições vantajosas. Por
exemplo, o Banco de Londres, que se tornaria um paradigma de instituição financeira,
foi fundado em 1694, facilitando a obtenção de empréstimos por parte do governo. Des-
sa solidez financeira surgiu a possibilidade de se fazerem mais gastos em tempo de
guerra: por exemplo, no período de 1600 a 1604, durante a guerra contra a Espanha, os
gastos militares corresponderam a 70,7% do orçamento inglês uma percentagem seme-
lhante aos gastos que foram feitas na Guerra da Grande Aliança (1688-1697), de 72,8%,
apesar dos valores envolvidos terem crescido nada menos do que 23 vezes (ver Tabela
3).57 Um sistema financeiro saudável permitia um nível de participação militar bem
além do que o tamanho dos exércitos de terra poderia indicar – um diferencial nas cam-
panhas militares inglesas foram os subsídios oferecidos pela coroa britânica aos seus
aliados, como as 670.000 libras esterlinas fornecidas à Frederico da Prússia pela con-
venção anglo-britânica de 1758.58

56
O termo presiganga, que no Brasil significava um navio prisão, surgiu, segundo a maior parte das fon-
tes, da expressão inglesa press gang, um grupo de recrutamento forçado para as forças armadas, uma
prática que deixou suas marcas mesmo no Brasil. Para uma discussão sobre a Presiganga, ver: SOA-
RES, Carlos Eugênio Líbano. A capoeira escrava no Rio de Janeiro: 1808-1850. Campinas: Univer-
sidade Estadual de Campinas, 1998. Tese de Doutorado.
57
WHEELER, Ames Scot. The Making of a World Power: war and the military revolution in seventy
century England. London: Sutton, 1999. p. d209.
58
SCHWEIZER, Karl W. England Prussia and the Seven Years War : Studies in allied policies and di-
plomacy. Lewiston: Edwin Mellen, 1989. p. 61.

100
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Anos Despesa total Receita total Saldo coberto Empréstimos como


por empréstimos % da despesa.
1688-1697 49.320.145 32.766.754 16.533.391 33,6
1702-1713 93.644.560 64.239.477 29.405.083 31,4
1739-1748 95.628.159 65.903.964 20.724.195 31,1
1756-1763 160.573.366 100.555.123 60.018.243 37,4
1776-1783 236.462.689 141.901.620 94.560.069 39,9
1792-1815 1.657.854.518 1.217.556.439 440.298.079 26,6
Tabela 3 – Despesa e receita da Inglaterra em tempo de guerra, 1688-1815.59
Os ciclos da tabela mostram a os momentos de conflito: as guerras da Grande Aliança (1688-1697), da
Sucessão Espanhola (1702-1713), da Orelha de Jenkins (1739-1748), a dos Sete Anos (1756-1763), da
Independência Norte-Americana (1776-1783) e as da Revolução e Napoleônicas (1792-1815), ocasiões
em que os gastos militares, principalmente os militares, excederam em muito a receita, tendo que ser
cobertos por empréstimos no mercado financeiro. Excepcional é o longo tempo que duraram esses confli-
tos: para cada ano de paz, a Inglaterra se envolveu em um ano de conflito, mas ainda assim não foi força-
da a bancarrota pelos imensos gastos.
Pode-se dizer que esses fatores levaram a que a Inglaterra tivesse uma posição,
não de supremacia, mas de “fiel da balança” na política militar europeia, com o apoio
militar e, mais importante, financeiro aos beligerantes. Servia, então, de contraponto à
França, o maior poder militar continental, mas que não podia acompanhar esses nível de
gastos ou manter uma frota semelhante à inglesa, como visto na Tabela 2 mais acima.

A França, que, como dissemos, tinha o maior exército na Europa, teve seu ativo
papel militar nos séculos XVII e XVIII possibilitado também por uma administração
eficiente dos recursos locais, fundamentada no grande aparato burocrático voltado para
a questão da manutenção das operações bélicas. Um desses aspectos foi a construção de
um cinturão de fortificações para a defesa das fronteiras francesas pelo marechal Vau-
ban, que edificou ou modernizou mais de 300 fortificações. Essas obras defensivas,
imensamente caras – Neuf-Brisach, a mais marcante de todas, custou, até 1705,
2.916.565 libras tornesas, em uma época em que o salário mensal de um trabalhador era
em média de 19 libras tornesas por mês. Isso, junto com a manutenção de imensos exér-
citos, implicava na necessidade de um aparato fiscal eficiente, que conseguiu fazer com
que a França sobrevivesse com constantes e imensos déficits durante todo o período
moderno, com só duas bancarrotas – apesar da de 1788 certamente ter sido de funda-
mental importância no fim do regime, como observou um autor:

A expansão militar (...), começando nos anos de 1620 e concluída na


década de 1680, criou o estado absolutista.60 Através de um longo
processo, administrativo, fiscal e político, o estado Francês lutou para

59
KENNEDY, op. cit. p. 87.
60
Utilizando programas de atualização monetária, este valor corresponde a oitocentos milhões de dólares
de hoje. Correção feita com base no “valor de trabalho” da moeda britânica, atualizado a partir do sí-
tio: Measuring Worth. https://goo.gl/rtcTbc. (acesso em agosto de 2017).

101
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

sustentar forças armadas de sete a dez vezes maiores do que qualquer


outra mantida no passado. Para fazer isso, a monarquia Bourbon pa-
trocinou uma dramática metamorfose política sob Luís XIII e Luís
XIV. De fato, mesmo depois de forjar o estado absolutista, os recursos
monetários da monarquia nunca igualaram as necessidades de suas
forças armadas, e a guerra continuou a ameaçar o estado com a ban-
carrota.61

3.3.1 A cultura da guerra


Um fator importante para o entendimento do funcionamento dos Arsenais brasi-
leiros vem de uma questão cultural, de como os ensinamentos militares eram difundidos
e absorvidos. Os autores que trabalhavam com as questões filosóficas da guerra procu-
ravam estudar o tema à luz de princípios gerais, racionais, como era a base do pensa-
mento iluminista, e, no século XVIII, há uma concentração em trabalhos escritos por
franceses nessas linhas. 62

A influência técnica dos autores franceses era facilitada pelo fato de que seu idi-
oma era uma espécie de língua franca à época, sendo falada nos centros das monarquias
europeias do período: por exemplo, os sete volumes sobre teoria militar do italiano
Conde de Algarotti foram publicados em Berlim, em 1772, só que em francês.63 Até no
distante Brasil, quando era necessária a comunicação entre pessoas que não dominavam
o português, se usava a língua francesa: foi o caso dos oficiais mercenários enviados
para o Brasil em meados do século XVIII. Italianos, alemães e até um sueco, como o
general Funck, se comunicavam em francês, às vezes claudicante, como informava o
próprio Rei D. José ao conde da Cunha, em 1767 sobre Funck: “parecerá a V. Ex. (...)
um homem inepto, pela grande dificuldade que tem para se explicar em qualquer língua
que não seja a de Suécia, sua pátria”.64 Mas toda a documentação produzida por eles,
pelo menos no início, era em francês.

A difusão de valores franceses no mundo era compreensível, mesmo se descon-


siderássemos a influência dos filósofos e pensadores do país. A França tinha um exérci-
to imenso, poderoso e eficiente que, para ser derrotado nas ocasiões em que isso ocor-
reu, dependeu da montagem de grandes coalisões contra ela. Desta forma, os assuntos
militares desenvolvidos lá desde o século XVIII tinham uma grande influência na di-

61
LYNN, op. cit. p. 9.
62
DUFFY, Christopher. The Military Experience in the Age of Reason. London: Routledge & Kegan
Paul, 1987. p. 18
63
AGAROTTI, Conde. Ouvres du Comte Agarotti. Berlim: G. J. Decker, 1772. 6 vols.
64
CARTA régia de 20 de junho de 1767 para o conde da Cunha. In: WINZ, Pimentel. História da Casa
do Trem. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1962. p. 524.

102
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

plomacia europeia e os efeitos do país na cultura militar não diminuíram com a Revolu-
ção Francesa, apesar dos valores da Revolução serem repulsivos às lideranças militares
do período, ligadas às nobrezas e casas reinantes nacionais.

O papel destacado dos exércitos revolucionários e napoleônicos como exemplo


foi devido a seu sucesso: apesar do corpo de oficiais franceses, nobre, ter desertado em
massa 65 ou até passado para o lado inimigo, os exércitos revolucionários foram incri-
velmente bem sucedidos, mesmo enfrentando alianças muito fortes. Até Portugal che-
gou a invadir a França, em 1794, na campanha do Rossilhão e seriam formadas sete
coalizões contra a França entre 1792 e 1815, até que esta foi derrotada, com grande difi-
culdade.

Até a Revolução Francesa os exércitos dos países, apesar de numerosos, eram


vistos como locais onde indesejáveis e pessoas não produtivas eram colocados e onde
permaneceriam por longos períodos – em alguns casos, por toda a vida.66 Mesmo em
Portugal e no Brasil o serviço militar era um fardo, tendo sido reduzido para dezesseis
anos em 1808 para os que não fossem voluntários, a justificativa dessa medida sendo
“abrandar e moderar”(!) o recrutamento67 praticado até então. Esses homens formavam
tropas treinadas e que custavam caro para manter, nas quais a obediência cega e irrefle-
tida aos comandos dos oficiais era indispensável para o funcionamento, por causa das
táticas lineares do período. Isso se tornava um problema quando vemos que as batalhas
daquela época, ainda por causa das técnicas de combate, eram muito mortíferas, de for-
ma que os generais preferiam evitar o embate direto, manobrando de forma a tentar co-
locar o adversário em uma situação desvantajosa, procurando vencer as guerras sem
haver confrontos campais.

A França revolucionária, sem um corpo de oficiais coeso e capaz, buscou uma


solução em que sua vantagem populacional e a ideologia do novo regime, popular, pu-
desse ser maximizada. Dessa forma, foi implantado o recrutamento militar obrigatório,

65
Um caso muito citado é o da batalha naval conhecida como o Glorioso Primeiro de Junho, de 1794, a
frota francesa foi comandada pelo contra-almirante Louis Thomas Villaret de Joyeuse, que era ape-
nas um tenente até 1792, quando fez o “juramente cívico” à República. GARDINER, Robert. War-
ships of the Napoleonic Era: Design, Development and Deployment. Barnsley: Seaford, 2011. p.
112.
66
O serviço militar vitalício foi introduzido por Pedro o Grande em 1699. MOON, David. The Russian
peasantry: 1600-1930, the World the Peasants Made. London: Routledge and Keegan Paul, 1999. p.
83.
67
PORTUGAL – Regência. Decreto de 13 de maio de 1808. Sobre recrutamento para os regimentos do
Brasil.

103
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

afetando todos os homens – na verdade, a ideia era incluir toda a população em um en-
saio de guerra total. O radical decreto que instituiu a medida, chamada de levée en mas-
se (conscrição em massa), deixava isso muito claro, ao especificar que:

Deste momento, até quando o inimigo tenha sido expulso do solo da


República, todos os franceses estão sob requisição permanente para o
serviço dos exércitos.
Os jovens irão ao combate; os casados forjarão as armas e transporta-
rão provisões; as mulheres farão tendas, roupas e servirão nos hospi-
tais; as crianças desfiarão roupas velhas em estopa; os idosos irão às
praças públicas, para encorajar os guerreiros, pregar o ódio aos reis e a
unidade da República.
Os prédios públicos serão convertidos em quartéis, as praças públicas
em oficinas de armas, o solo dos porões será lixiviado para extrair o
salitre [para pólvora].68
O novo regime, acabando com os privilégios da nobreza, fazia com que as tropas
revolucionárias fossem mais motivadas – e as autoridades francesas fizeram um esforço
para reforçar isso, com a implantação de mecanismos de fomento da identidade nacio-
nal, como o museu do Louvre. Este foi inaugurado em 1793 com as obras confiscadas à
monarquia e as igrejas, sua função sendo criar um sentimento de orgulho pátrio. Mais
conhecido é o caso do hino francês, a Marselhesa, cujo título original era o “canto de
guerra do Exército do Reno”, uma música de marcha dos soldados que iam de Marselha
para combater na região que hoje é a Alemanha.

A Marselhesa mostra uma inovação do ponto de visto militar, ao conclamar os


soldados a combater “pelo amor sagrado à pátria”. Isso é de extrema importância, pois a
questão militar passava a ser a nacional e de cidadania e não o combate por causa de
uma disciplina férrea ou pelo pagamento – as tropas de mercenárias deixam de ser usa-
das, por exemplo. Passava-se a se fazer uma ligação entre cidadania e serviço militar.
Isso teve importantes efeitos militares: as unidades francesas, apesar de não serem tão
treinadas quanto os exércitos do tipo do século XVIII, eram muito mais motivadas e
podiam operar em ordem aberta e com um grau de iniciativa muito maior, sem que os
generais se preocupassem excessivamente com a deserção – um problema dos antigos
exércitos. O recrutamento militar obrigatório criou um novo tipo de força armada: por
exemplo, o decreto do levée en masse, de 1793 resultou que o exército francês passasse
de 204.000 homens em fevereiro, 397.000 em maio, 554.000 em dezembro daquele ano,

68
FRANÇA – Decrét qui determine le mode de réquisition des citoyens français contre les ennemis de la
France. 24 de Agosto de 1793. Artigo 1º. IN: DUVERGIER, J. B. Lois, Décrets, Ordonnances, Ré-
glements, Avis du Conseil-D’État. Tome Sixiéme. Paris: A. Guyot, 1834. p. 107.

104
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

atingindo, 732.000 em setembro de 1794 e 804.000 em dezembro 69, tamanhos e cresci-


mento inaudito até então.

Essas forças muito numerosas e motivadas permitiram que a França Revolucio-


nária e, mais tarde, Napoleão, tivessem a capacidade de lutar em diversas frentes ao
mesmo tempo, mesmo contra grandes alianças inimigas: como já dissemos, praticamen-
te toda a Europa monárquica se voltou contra o elemento alienígena que era uma “repú-
blica regicida” e que era baseada em lemas como “igualdade e fraternidade”.

O sistema revolucionário foi tão eficiente que conseguiu derrotar os principais


exércitos europeus do período, inclusive aquele que era considerado como um dos me-
lhores da época, o prussiano, em esmagadoras vitórias em Jena e Auerstädt (1806), o
que foi tornado mais significativo por os franceses estarem em inferioridade numérica
nos dois embates. Isso obrigou a Prússia – e em seguida, a maior parte dos países – a
reformularem suas forças militares em bases mais democráticas, usando os princípios de
recrutamento compulsório, como o Francês. As tropas agora eram compostas por toda a
população, não mais pelos estratos mais baixos da sociedade, e tinham que servir por
períodos curtos de tempo, sendo treinadas e dispensadas, passando a compor reservas
mobilizáveis rapidamente em caso de necessidade. Era o surgimento dos grandes exérci-
tos de conscritos, que marcariam os conflitos da primeira metade do século XX.

Não cabe aqui discutir as campanhas de Napoleão e depois dele, basta dizer que
o exército francês surgiu, na primeira metade do século XIX, como o paradigma em
assuntos militares, que quase todos os países tentavam copiar, com maior ou menor su-
cesso. O mesmo acontecia com relação à marinha inglesa, a ponto de mesmo as tradi-
ções de um e outro serem copiadas, como o uso de uniformes de zuavos, inicialmente
uma tropa de argelinos a serviço da França, mas que tiveram unidades usando os trajes
típicos em vários países, como os Estados Unidos ou o Brasil. Em termos navais, quase
todas as marinhas do mundo (não a francesa, é claro) usam nas insígnias de seus oficiais
uma volta, lembrando o laço que o almirante Nelson usava para amarrar a manga de seu
uniforme, depois de perder o braço em combate.

Para o exército brasileiro, os franceses forneceriam o modelo teórico a ser segui-


do, o que só começou a ser questionado depois da vitória alemã na Guerra de 1870.

69
CHEMINADE, Jacques. A citizen of all places, and a contemporary of all times. Executive Intelligence
Review. Volume 26, Number 2, January 8, 1999. p. 74

105
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Mesmo assim, a influência francesa continuou no país até a 2ª Guerra Mundial, pois o
Brasil contratou uma missão militar naquele país, em 1919. Mas a adoção dos princípios
usados pelo exército europeu, tanto em termos logísticos como táticos ou de organiza-
ção nunca foi completa ou mesmo muita extensa, devido aos problemas da realidade
nacional.

3.4 A supremacia europeia


Apesar de poder parecer espacialmente e cronologicamente afastado do Brasil
do século XIX, a Europa do período moderno (1452-1789) veria uma mudança com
implicações globais, que teriam um impacto decisivo em termos de formação dos esta-
dos nacionais n resto do globo. Isso não em termos que consideraríamos agradáveis ou
familiares, como a difusão das belas artes ou da literatura – o papel dessas ferramentas
de dominação cultural modernas e contemporâneas era irrelevante no resto do mundo,
até que seus valores foram impostos de fora, por força das armas.

Por sua vez, é inegável o papel unificador e homogeneizador da cultura através


da emulação de valores militares. Por exemplo, o “passo de ganso”, introduzido pelos
alemães para que seus soldados mantivessem suas rígidas formações lineares, é pratica-
do até hoje por países que seguiram o modelo cultural do exército daquele país. Exem-
plos são o Chile e os estados que foram clientes da União Soviética, como a China, já
que a Rússia tzarista modelou seu exército no alemão no século XVIII, mostrando o
efeito cultural da eficiência militar sobre todo o mundo. 70 Em termos menos restritos, de
uma redução simplificadora da cultura, hoje em dia, 83 países têm o inglês, como sua
língua oficial e quarenta o francês, resultados da aplicação da força no domínio do
mundo, em um processo que é bem conhecido, de colonização e neocolonialismo.

Duas tabelas ilustram como a questão militar – e não a econômica ou cultural –


teve um papel decisivo na obtenção da superioridade dos europeus sobre o resto do
mundo. A primeira (Tabela 4) mostra que, apesar da Europa já ter alcançado um nível
de supremacia em termos de produção manufatureira em meados do século XVIII, ela

70
George Orwell, em nossa opinião, resumiu bem a filosofia atrás da adoção do passo de Ganso: “uma
parada militar é realmente um tipo de dança ritual, algo como o balé, expressando certa filosofia de
vida. O passo de ganso, por exemplo, é uma das visões mais horríveis no mundo, muito mais aterro-
rizante que um bombardeio de mergulho. É simplesmente uma afirmação aberta de força; contida
nele, bem consciente e intencionalmente, está a visão de uma bota espatifando um rosto. Sua feiura
é parte de sua essência, pois o que ele diz é ‘sim, sou feio, e você não se atreve a rir de mim’, como
um valentão que faz caretas para sua vítima”. ORWELL, George. England your England.
https://goo.gl/DgcZTI (acesso em dezembro de 2016).

106
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

estava longe de ser hegemônica. Os países da África, Ásia e Américas podiam atender
suas necessidades sem terem que recorrer em massa à importação de produtos europeus
– mesmo porque isso seria tecnicamente inviável, dada a tecnologia de transportes da
época. A situação se reverte com a segunda Revolução Industrial, de meados do século
XIX, mas esta mudança não foi um instrumento indispensável na conquista do mundo,
que já tinha se delineado cem anos antes.

Paises 1750 1800 1830 1860


Toda a Europa 25,2 28,1 34,2 53,2
Reino Unido 1,9 4,3 9,5 19,9
Império Habsburgo 2,9 3,2 3,2 4,2
França 4,0 4,2 5,2 7,9
Estados Alemães 2,9 3,5 3,5 4,9
Estados Italianos 2,4 2,5 2,3 2,5
Rússia 5,0 5,6 5,6 7,0
Terceiro Mundo 73,0 67,7 60,5 36,6
Tabela 4 – Parcelas relativas de produção manufatureira mundial 1750-1860.71
O mesmo se observa quando se analisa a capacidade manufatureira das princi-
pais potências da época, conforme se vê na Tabela 5, abaixo: apesar de ter havido um
imenso crescimento na capacidade econômica europeia, especialmente da Inglaterra,
não se pode dizer que o sucesso militar e colonial daquele país esteja associado a este
aspecto, mas sim as melhores escolhas e uma situação geográfica específica, que favo-
receram um melhor uso de sua marinha de Guerra na ocupação e manutenção de um
império colonial. Por outro lado, alguns países adquiriram importância diplomática, não
por causa de sua relevância econômica, mas devido ao número de “baionetas”, solda-
dos, que podiam colocar em campo de batalha, o exemplo mais visível sendo o da Rús-
sia antes da Revolução de 1917.

Países 1750 1800 1830 1860


Toda a Europa 8 8 11 16
Reino Unido 10 16 25 64
Império Habsburgo 7 7 8 11
França 9 9 12 20
Estados Alemães 8 8 12 15
Estados Italianos 8 8 8 19
Rússia 6 6 7 8
Terceiro Mundo 7 6 6 4
Tabela 5 – Níveis per capita de industrialização. 1750-186072
O índice de comparação é a Inglaterra em 1900, que corresponderia a 100.
Assim, a formação dos grandes exércitos nacionais foi o fator que deu a supre-
macia aos europeus sobre as outras nações. Por sua vez, essa hegemonia também não foi

71
KENNEDY, op. cit. p. 148.
72
Id. p. 148.

107
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

baseada em aspectos meramente técnicos – as armas, fortificações ou navios – pois es-


ses fatores não apresentavam inovações impossíveis para muitos países ditos periféri-
cos, já que eram elementos conhecidos no mundo não europeu, como nos países otoma-
nos. O que resultará na superioridade dos europeus e foi decisivo no seu desenvolvi-
mento, foi uma mudança de mentalidade e, principalmente, de organização e envolvi-
mento da administração centralizada, simbolizada em entidades tais como os Arsenais.

Os Estados passaram a se aparelhar em termos de obtenção do monopólio da vi-


olência legítima por parte do governo, não como um meio, mas como um fim em si
mesmo, 73 se valendo de estruturas de financiamento complexas para levantar e manter
suas forças armadas. O papel das marinhas e exércitos não pode, contudo, ser resumido
ao de uma tradicional história diplomática, de procura de obtenção de vantagens políti-
cas por força das armas, apesar de toda a importância que esse objetivo tenha tido no
resultado final. O mundo é o que é hoje, com valores em larga parte impostos do oci-
dente europeu, justamente por causa da maior eficiência militar dos soldados europeus
na imposição de uma cultura.

Não que a questão técnica fosse inteiramente irrelevante, o efeito indutivo das
guerras para o desenvolvimento técnico e científico do mundo ocidental também já foi
trabalhado em livros74 e o abordaremos no capítulo 5 deste trabalho. Menos trabalhado
foi o papel do surgimento e consolidação das forças armadas nas economias nacionais,
apesar desses efeitos serem conhecidos de longa data. O rei Frederico, o Grande, da
Prússia, em uma das suas cartas com o filósofo d’Alembert, escreveu:

E, depois de tudo, os grandes exércitos não despovoam o campo, nem


fazem faltar braços à indústria. Em todos os países, não pode haver
além de um número de agricultores proporcional às terras que vão cul-
tivar, e certo número de artesãos proporcionais à medida das necessi-
dades; os excedentes se tornam ou mendigos ou salteadores. Mais ain-
da, estes numerosos exércitos fazem circular a moeda e a espalham
nas províncias, com uma distribuição igual, os subsídios que o povo
fornece ao governo.75

73
Este ponto pode parecer polêmico, mas como descrito mais acima, a partir do século XVII, com a Re-
volução Militar, nenhum grande senhor teve condições de desafiar de forma bem sucedida o poder
dos monarcas. Isso, contudo, não implicou em uma mudança conceitual na proposta de que só o go-
verno pode exercer de forma legítima a violência.
74
Entre outros, ver MUNFORD, Lewis. Technics and civilization. New York, Harcourt, Brase and Co.,
1934. p. 81 e segs.
75
CARTA de Frederico da Prússia a d'Alembert, Berlim, 18 outubro 1770. IN: FREDERICO, Rei da
Prússia. Œuvres de Frédéric le Grand. Berlin: Imprimiere Royale: 1854. vol. 24. p. 506

108
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Reconhecemos que a questão dos benefícios econômicos das guerras é muito


discutível, 76 havendo aqueles que afirmam que nenhum conflito se “pagou”, ou seja,
gerou mais renda do que prejuízo. No entanto, é inegável que há benefícios econômicos
de curto prazo no próprio conflito, como o estímulo da economia nacional, redução do
desemprego, uso da capacidade ociosa de produção e assim por diante.

Mais importante nos termos do presente trabalho, a simples presença de tropas


tem um efeito positivo, provendo mercado para “alfaiates, sapateiros, empresas de
transporte, mercantes de alimentos, negociantes de cavalos, vendedores de produtos de
luxo e prostitutas”.77 Em Berlim, em 1740, no início da Guerra da Sucessão Austríaca, a
população civil de setenta mil habitantes tinha que atender uma guarnição de vinte mil
soldados, com óbvios benefícios para os negócios, já que os soldados em casernas não
estavam inseridos em uma economia de subsistência.

Deve-se dizer que as tropas podiam ser usadas para se abastecerem em tempos
de paz, como na própria Prússia, onde os soldados eram dispensados por parte de tempo
para trabalhar nas terras de seus senhores feudais. Algo semelhante acontecia na França,
onde os homens tinham autorização para exercer seus ofícios quando não estavam de
serviço – o que acontecia durante dez meses por ano, neste período eles não sendo pa-
gos pelo governo, tendo que sobreviver por seus próprios meios. 78 Mesmo no Brasil –
raras situações, é verdade –, os soldados tinham permissão para trabalhar na agricultura,
como aconteceu com o regimento enviado de Portugal para Macapá, em 1754. Mas este
era um caso de uma proposta mista, de colonização e defesa, não a situação normal das
tropas do Brasil.

No final, os soldados de toros os países tinham que ser abastecidas pelo governo
quando estavam nos quartéis, às vezes em situações que só podem ser vistas como de
tensão para os recursos locais: durante as guerras holandesas, o Padre Vieira calculava,
de forma subestimada, a população de Salvador em 3.500 pessoas, enquanto a guarnição
da cidade era de 2.500 soldados79 – praticamente um homem no serviço militar para

76
Para uma discussão do tema, ver: GOLDSTEIN, Joshua S. War and Economic History. IN: Mokyr, Joel
(ed.). The Oxford Encyclopedia of economic history. Oxford: Oxford University, 2003. Vol. 5. pp.
215-218
77
CHILDS, op. cit. p. 147.
78
Id. p. 58.
79
VIEIRA, Antônio. Discurso do Padre Antônio Vieira em que persuade a entrega de Pernambuco aos
Holandeses. s.d. [1648]. IN: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo LVI, parte
I. Rio de Janeiro: Companhia Tipográfica do Brasil, 1893. p. 42.

109
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

cada morador da cidade, certamente um grande estímulo para a economia local. O efeito
positivo era contrabalançado pelos impostos necessários para manter a tropa, que, de um
ponto de vista moderno, de “estado mínimo”, seriam considerados como “gastos esté-
reis”, mas não há dúvida que eram necessários – o documento de Vieira foi escrito em
1648, pouco tempo depois da Companhia das Índias Ocidentais ter mantido o Recônca-
vo baiano sob cerco, com uma frota estabelecida na ilha de Itaparica por vários meses.

Por sua vez, o abastecimento das forças foi se tornando cada vez mais complica-
do, à medida que as necessidades das forças foram aumentando. Não bastava mais sim-
plesmente alimentar os soldados: como já foi dito, era necessário fornecer uma série de
outros elementos, como armas, uniformes e equipamentos, de forma que os governos
começaram, crescentemente, a criar sua própria estrutura manufatureira, gerando em-
pregos nas cidades.

Dessa forma, a montagem de modernos mecanismos administrativos foi uma das


consequências e fator necessário para a criação dos estados nacionais modernos. Sem
impostos não se poderia pagar a força ou levantar fortificações e construir navios. Um
grande pessoal burocrático ligado aos governos era necessário para gerir a arrecadação e
gastos desses impostos para a construção de um aparato logístico que fornecesse as for-
ças sustentadas por esses impostos, recolocando no mercado os recursos arrecadados.
Isso criava um ciclo de retroalimentação, um fator sustentando o outro onde, no final,
todos os aspectos da vida cotidiana passaram a ser acompanhados pela burocracia esta-
tal, até os dias de hoje, apesar da questão não estar mais ligada diretamente à assuntos
militares.

A articulação desse processo com nossa proposta de trabalho pode não parecer
evidente, mas quando falamos de uma estrutura burocrática necessária para a formação
de grandes exércitos e marinhas, não estamos tratando apenas de salários. A questão do
pagamento direto às tropas, por incrível que pareça, não é um fator decisivo no funcio-
namento das tropas não mercenárias. No entanto, a arrecadação de recursos é de funda-
mental importância para sustentar as forças em campanha e para prepara-las para as
operações, com a compra de uniformes, equipamentos e armas, o que, no caso do Brasil,
era feito pelo Arsenal de Guerra. Além disso, era necessário um aparato governamental
para distribuir esses recursos para as tropas, tudo demandando pessoal e impostos.

110
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

3.5 Necessidades logísticas – Portugal e Brasil


3.5.1 A vida sobre permanente tensão
A supremacia militar é uma questão ambígua para a história de Portugal. Por um
lado, o assunto foi fundamental importância para garantir a posse da Ásia de seu impé-
rio asiático, através de navios e fortes bem superiores aos de seus oponentes asiáticos.
Por outro lado – e de forma aparentemente contraditória –, os assuntos militares não
eram uma prioridade para o país: como não podia, por si, ter uma política agressiva con-
tra a Espanha, o único país com que tinha fronteiras, sua diplomacia usual era a de evi-
tar conflitos. O que acontecia era exatamente o oposto da França e Prússia: o exército
não era uma ferramenta diplomática para os portugueses, pelo contrário, pelo menos em
assuntos metropolitanos. Com isso, a qualidade das tropas sofria, ainda mais quando se
leva em consideração que, no século XVIII, o exército espanhol, o oponente regular dos
lusitanos, não era das melhores, não sendo um inimigo formidável, que obrigasse a ma-
nutenção de um aparato militar de primeira qualidade para a defesa do reino.

O resultado de uma conjuntura desfavorável foi que as forças armadas de Portu-


gal passavam por longos períodos de estagnação e decadência, que tinham que ser re-
solvidos, muitas vezes, de forma emergencial e com apoio estrangeiro: a guerra de res-
tauração (1640-1668) foi vencida com o apoio inglês e francês e sob o comando de um
general alemão a serviço dos franceses, Friedrich Hermann von Schomberg. Na Guerra
da Sucessão Espanhola (1701-1714), houve uma pesada participação inglesa nas opera-
ções militares – apoio resultante dos famosos tratados de Methuen, tão vantajosos para a
economia Inglesa, mas que tiveram suas origens nas necessidades militares lusitanas80.
Na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), o exército português teve que ser novamente
reorganizado por um estrangeiro, o alemão Conde de Schaumburg-Lippe. Finalmente,
nas guerras napoleônicas as forças armadas portuguesas foram incapazes sequer de fa-
zer uma demonstração de força, o país sendo ocupado pelos franceses sem resistência, o
exército de lá tendo que ser, mais uma vez, novamente reorganizado por estrangeiros,
sob o comando de Wellington. Não era uma questão de números: as forças armadas

80
Apesar dos efeitos de longo prazo do tratado de comércio, ele era apenas uma parte dos textos assina-
dos. Com três artigos, é muito mais sucinto que os dois tratados militares assinados então, que lidam
com as operações bélicas na Espanha e das vantagens prometidas para Portugal por sua participação
no conflito, inclusive a garantia de posse da Colônia de Sacramento. BATISTA, Felipe de Alvaren-
ga. Os tratados de Methuen de 1703: guerra, portos, panos e vinhos. Dissertação de mestrado. Rio
de Janeiro: UFRJ, Instituto de Economia, 2014 (mimeo). pp. 114 e segs.

111
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

lusitanas eram consideráveis (ver Gráfico 11), quando vemos as dimensões e população
do país. Mas não se pode dizer que era uma força eficiente ou mesmo atualizada.

Efetivos do exército Português

70000

60000

50000

40000

30000

20000

10000

Gráfico 11 – Evolução dos efetivos do exército Português. 81


Não inclui Milícias e Ordenanças.
Para o Brasil, um dos resultados desse descaso com uma direção centralizada da
metrópole em assuntos militares era que cada capitania cuidava de sua defesa, não ha-
vendo uma cooperação regular entre elas, apesar da intenção do governo central em
realizar essa coordenação.82 Na verdade, as elites locais tinham uma autoridade muito
grande, já que os recursos para a defesa eram levantados em cada capitania, estas po-
dendo até contestar as ordens da administração central. Em 1618 o governador geral, em
visita à Paraíba, determinou a construção de um novo forte na localidade, fornecendo
três mil cruzados para a construção, pois a Paraíba era uma capitania do rei. Essa quan-
tia era insuficiente, contudo, os moradores devendo aceitar um imposto especial – só
que foi eleita uma comissão especial de colonos para analisar o assunto, que acabou
votando por pagar uma quantia menor, em um espaço maior de tempo, condições que o
governo teve que aceitar.83

Essa autonomia tinha grandes implicações militares, que afetaram toda a história
do Brasil colonial e, mais além, continuariam a ter efeitos por quase toda a primeira

81
MARQUES, Fernando Pereira. Exército e sociedade em Portugal: no declínio do Antigo Regime e
advento do Liberalismo. Lisboa: A regra do Jogo, 1981. p. 306.
82
Tal intenção é observável nos Regimentos dos Governadores Gerais, como o de Tomé de Souza. RE-
GIMENTO DE TOMÉ DE SOUZA, op. cit.
83
BRASIL- Governo geral. Auto que mandou fazer o Sr. governador e capitão geral deste estado do Bra-
sil dom Luís de Souza sobre o forte novo que sua majestade ordena se faça, para fortificação do por-
to desta capitania. IN: LIVRO PRIMEIRO do Governo do Brasil, 1607-1633. Rio de Janeiro: Minis-
tério das Relações Exteriores, 1958. p. 255.

112
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

metade do século XIX. Ao contrário do que coloca a historiografia militar, não havia
um “exército brasileiro”. Os livros de história escritos pelas forças armadas colocam as
origens da força no “compromisso de honra”, assinado por moradores de Pernambuco,
em 1645, se comemorando o dia 19 de abril de 1648, quando foi travada a batalha de
Guararapes, como o “dia do Exército brasileiro”, mas isso é uma construção que não
tem relação com a realidade. Sequer havia um “Exército português no Brasil”: cada re-
gião84 respondia, sozinha, por sua defesa, não havendo um esforço coordenado em caso
de necessidade. Sintomático disso são os bandeirantes paulistas, que quando atuavam
como parte de um programa militar governamental fora de sua região de origem, como
nas guerras contra Palmares ou contra os indígenas no Açu, faziam isso visando o lucro
pessoal e não como tropas do rei. Daí se explica a relutância deles em participar nas
guerras holandesas, onde não havia lucros a serem obtidos, os paulistas preferindo sa-
quear as reduções hispânicas que, no período da União das Coroas Ibéricas, eram parte
da mesma monarquia.

As unidades militares eram levantadas e mantidas localmente, sendo também


sustentadas por impostos administrados pelas câmaras municipais, não havendo contato
maior entre as tropas de uma capitania e outra. Até a formação de oficiais técnicos, feita
nas Aulas de Fortificação e Arquitetura Militar, eram regionalizada, com cursos nas
principais capitanias: Pará, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. O isolamento militar
implicava que um oficial que entrasse em uma unidade de uma capitania teria que fazer
toda a sua carreira nela, sem maiores contatos com as outras regiões do Brasil. Isso im-
pedia que fossem criados laços entre as capitanias e impossibilitava um treinamento
padronizado para os soldados. Um problema muito grave nas capitanias mais pobres,
onde havia menos tropas e, portanto, os soldados eram mais sobrecarregados com o
serviço diário não militar, de policiamento, atender aos governadores, cobrança de im-
postos, transporte de correio e assim por diante.

As consequências desse sistema foram que, como dissemos, não havia um exér-
cito unificado na colônia e, portanto, era muito difícil implantar uma grande infraestru-

84
No século XVII se consolidou um sistema em que havia capitanias principais e subordinadas, em ter-
mos militares: Maranhão e Pará, com o Piauí; Pernambuco, controlando toda a costa do Nordeste, do
Ceará até a área que viria a ser a província de Alagoas; a Bahia sendo responsável pela defesa de
Sergipe e Espírito Santo, enquanto o Rio de Janeiro se encarregava dos assuntos militares da costa
Sul. PORTUGAL – Decreto de 3 de setembro de 1810. Torna o Espírito Santo independente da Ba-
hia em termos militares. Estas capitanias centrais foram os locais onde mais tarde se estabeleceram
arsenais.

113
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

tura logística no Brasil. Apesar da presença militar ser muito significativa, era fragmen-
tada, como se no Brasil houvesse vários pequenos exércitos e não um maior. Dessa
forma, não havia um grande arsenal, estaleiro ou fábrica de armas, somente algumas
experiências locais, de menor impacto. São os casos da fábrica de pólvora na Bahia no
século XVIII 85 e de uma fundição de artilharia em Pernambuco no século anterior, sen-
do que há muito poucas informações sobre estas, de forma que não se sabe com certeza
se sequer chegaram a funcionar regularmente.86 Isso se entende quando percebemos que
não havia demanda suficiente em cada capitania para justificar investimentos na área
manufatureira militar, ainda mais considerando que a metrópole podia suprir diretamen-
te as necessidades locais.

Mesmo assim, havia necessidade de se fazerem gastos com a defesa: a pequena


presença portuguesa, especialmente a naval, tornava a colônia um alvo tentador para um
ataque estrangeiro. De fato, a história do Brasil pode ser vista como de permanente con-
flito, externo ou interno: no início da colonização (1500 a 1548), além da ameaça de
ataques indígenas, como o que destruiu a feitoria implantada por Américo Vespúcio no
Rio de Janeiro, havia a ação de comerciantes estrangeiros na costa, piratas e corsários.

A partir de 1548, no período do Governo Geral, o perigo de guerras contra os na-


tivos continuou, adicionado ao da revolta de escravos, a possibilidade de invasões es-
trangeiras, como a do Rio de Janeiro entre 1555 e 1567. Isso sem contar a permanente
ameaça de ataques de corsários e mesmo simples de piratas, que podiam fazer incursões
contra o país – Salvador, a capital do Brasil, sofreu um assalto desse tipo, em 1720,
quando o pirata “Black Bart”, roubou um navio carregado de ouro dentro do porto da
cidade.87

Com a União das Coroas Ibéricas (1580-1640), o risco de uma investida estran-
geira cresceu de forma, literalmente, assustadora para os moradores. Portugal passou a
ter os mesmo inimigos da Espanha – as Províncias Unidas, Inglaterra e França –, e com
isso aumentou o risco da colônia ser investida por corsários desses países, potências

85
PLANTA, Profil, fachada e a metade do telhado da casa, em que se fabricou a pólvora na Cidade da
Bahia. 1751. Mss. AHU, Lisboa. Cópia disponível no Arquivo do IPHAN.
86
Sobre a fundição de Pernambuco há alguns documentos de época, como: MORENO, op. cit. Um artigo
do Diário do Rio de Janeiro, de 1862, menciona dois canhões fundidos em 1630 na Bahia, mas não
encontramos outros dados sobre isso. Cf. A exposição Nacional. Diário do Rio de Janeiro, 16 de
março de 1862. p. 1.
87
JOHNSON, Charles. A general history of the robberies & murders of the most notorious pirates. Lon-
don: Conway, 2009. p. 171.

114
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

navais. Isso ocorreria em diversos casos, como nas expedições lideradas por Robert
Withrington e Christopher Lister, que em 1587 ficaram um mês e meio pilhando o re-
côncavo da Bahia de todos os Santos. Quatro anos depois, Thomas Cavendish atacou
Santos, em 1595 Lancaster saqueou Recife durante um mês e Oliver Van Noort fez uma
tentativa contra o Rio de Janeiro em 1599. 88 No início do século XVII haveria outra
intervenção francesa, desta vez no Maranhão, a França Equinocial.

Uma ameaça ainda mais séria ocorreu por essa época, as guerras holandesas, que
marcaram profundamente todo o século XVII. Nesse momento, o tamanho, intensidade
e frequência dos ataques, cresceu – os neerlandeses fundaram seus primeiros fortes no
Brasil, no Amazonas, em 1599 e de 1630 a 1654 eles dominariam boa parte do Nordeste
Brasileiro. A expulsão dos invasores do Recife naquele último ano não terminaria o
conflito, o que só ocorreria com a assinatura de um tratado de paz, nove anos depois. A
Guerra da Restauração contra a Espanha só acabaria em 1668, mas não houve pausa nos
embates que ocorriam no território brasileiro: já tinha começado a campanha que levaria
à destruição de Palmares (1667-1695), seguida da Guerra do Açu (1687-1720), contra
os indígenas no Nordeste do País – isso sem falar na construção da Colônia de Sacra-
mento (1680) e o imediato contra-ataque espanhol que se seguiu.

Em termos de uma ameaça europeia, mesmo sem Portugal ter participado ofici-
almente das hostilidades, houve a Guerra da Grande Aliança (1688 a 1697), com ações
militares no norte, como a destruição, pelos franceses, dos fortes de Cumaú e Parú no
Amapá e Pará, criando uma sensação de risco no resto do Brasil. O mesmo ocorreu na
guerra da Sucessão Polonesa (1733-1738), quando a França ocupou Fernando de Noro-
nha e os espanhóis colocaram a Colônia de Sacramento sob cerco.

No início do século XVIII houve a Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714),


na qual Portugal participou, com consequências nas Américas: a Colônia de Sacramento
foi novamente sitiada (1704-1705) e houve os ataques e saque do Rio de Janeiro pelos
Franceses (1710-1711). Esta guerra é interessante para ilustrar a percepção de risco, que
gerava a sensação que defesas eram necessárias: em Salvador, o medo de um ataque
francês depois do saque do Rio de Janeiro em 1711 resultou no “Segundo Motim do
Maneta”, uma revolta popular exigindo que o governo aperfeiçoasse as defesas da cida-

88
BERGER, Paulo et alii. Incursões de corsários e piratas à costa do Brasil – 1500-1622. IN: História
Naval Brasileira. Vol. I, Tomo II. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha,
1975. 486 e segs.

115
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

de,89 ainda que isso isso representasse mais impostos para a cidade. Essa sensação de
medo e de a defesa das comunidades ser necessária gerou o grande número de fortes
construídos no Brasil.

Podemos continuar com essa lista de ameaças por todo o século XVIII, como a
Guerra dos Sete Anos (1756-1763), com a tomada da Colônia de Sacramento e a do Rio
Grande do Sul; a contra os espanhóis no Sul (1763-1777), nunca declarada, mas repleta
de ações militares; finalmente as da Revolução Francesa e Napoleônicas (1794-1815),
com alguns corsários atuando o Brasil. 90

Mesmo quando não havia uma fonte de tensão aberta, questões diplomáticas fa-
ziam com que a coroa – e a população – estivesse sempre em atenção contra uma possí-
vel invasão de outra potência, como quando o marquês de Pombal alertou o vice-rei
conde da Cunha “no caso de fazerem os ingleses uma expedição contra o Rio de Janei-
ro”,91 temeroso que os britânicos tentassem se apoderar do ouro das Minas Gerais, ape-
sar da longa tradição de aliança entre os britânicos e Portugal.

O Século XIX havia a ameaça de ataque francês, além da invasão paraense da


Guiana Francesa (1809) e as operações no Uruguai contra as forças que buscavam a
independência do país, em 1812. Isso foi seguido da campanha de corsários platinos
contra o Brasil (1817-1821), por causa da incorporação da Província Cisplatina (1816),
e as revoltas em Pernambuco em 1817 e 1824.

3.5.2 O Brasil, país de conflitos


A Independência do Brasil não levaria à uma situação de paz, começando com a
esquecida Guerra de Independência (1822-1826), que mobilizou as defesas do Brasil
como nunca tinha acontecido antes, seguida da campanha contra as Províncias Unidas
do Rio da Prata, em torno da posse do Uruguai (1825-1828).

89
ROCHA PITA, Sebastião da. História da América Portuguesa. Belo Horizonte: Itatiaia, 1976, p. 200.
90
Um caso de corsários atuando nas costas do Brasil, na Bahia, pode ser visto em: FIEL relação do que
obrou a nação francesa nesta freguesia de Santa Cruz, desde o dia 8 até o dia 12 do mês de agosto
deste ano, e do valor e grandeza com que aqueles poucos moradores lhe impediram o paço. S. l.
(1796). Mss. BN, I – 4,2,38 e PORTUGAL – Rei. Provisão Régia dirigida ao Governador e Capitão
Geral da Bahia, determinando sejam premiados os oficiais da relação inclusa, que se distinguiram
na luta contra os franceses que atacaram a Coroa Vermelha nesta Capitania e castigados os que
não quiseram lutar. Lisboa, 25 de setembro de 1798. Mss. BN, II – 33,29,3.
91
PORTUGAL – Carta régia de 20 de junho de 1767 para o conde da Cunha. In: WINZ, Pimentel. Histó-
ria da Casa do Trem. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1962. p. 523.

116
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

O período da Regência (1831-1840) seria marcado por uma série de rebeliões,


que se estenderiam por longo tempo: Cabanagem (PA), Balaiada (MA e PI), Sabinada
(BA), Guerra dos Farrapos (RS e SC), Carneiradas (PE), Revolta do Guanais (BA), In-
surreição do Crato (CE), Abrilada e Novembrada (PE), Setembrada (PE e MA), Revolta
de Carrancas (MG) e Rusgas (MT). Estas rebeliões, contudo, não se interromperam com
a coroação de Pedro II: a Farroupilha continuaria até 1845 e ainda estourariam a Revolta
Liberal de 1842 (MG e SP), Revolução Praieira de 1848 (PE).92

Depois da estabilização interna, o Império se envolveu em intervenções no Prata


em 1851-1852, 1854 e 1864 (Uruguai), 1856 e 1857-1858 (Paraguai). Estes últimos são
incidentes importantes, apesar de pouco conhecidos: na ameaça, não concretizada, de
um conflito contra o Paraguai em 1857, foram comprados 11 navios e uma imensa
quantidade de armamento – foram autorizados gastos de 250 contos (250 milhões de
réis) para a compra de fuzis, clavinas e pistolas, 93 além de se manter um exército de
9.700 homens no Rio Grande do Sul, suplementado por outro de 2.700 no Mato Gros-
so.94 Nesse momento, o Arsenal de Guerra da Corte foi reequipado e o Arsenal de Mato
Grosso, ampliado.

Tudo isso sem tratar das ocasiões em que se cogitou entrar em guerra com a In-
glaterra em 1844 (Questão do Pirara), 1850 (Tráfico de Escravos) e 1863 (Questão
Christie), eventos em que o Império chegou a se preparar seriamente para um conflito
com a grande potência do período, mesmo que com poucas chances de vencer. Como
escreveu o ministro da guerra em 1844, ao falar contra a incorporação pelos britânicos
da região do Pirara, em Roraima: “antes ser vencido do que atentar contra a honra e a
dignidade nacionais”, 95 uma opção belicista, mesmo que no final o território tenha sido
cedido.

92
DONATO, Hernani. Dicionário das Batalhas Brasileiras. São Paulo: IBRASA, 1987.
93
BRASIL – Ministério da Guerra. Nota da quantidade e qualidade de armamento, equipamento, pólvora
e outros objetos cuja compra ou ajuste se encarrega de fazer na Europa o Major de Engenheiros
Francisco Primo de Sousa Aguiar. Jerônimo Francisco Coelho, ministro da guerra. Rio de Janeiro,
12 de agosto de 1857. Mss. ANRJ. IG7 376. Este valor pode ser atualizado monetariamente para a
quantia de cem milhões de dólares de hoje.
94
CASTRO, Adler Homero Fonseca de. La “cuasi guerra” de 1857-1858: Movilización brasileña para
atacar Paraguay en las negociaciones de navegación fluvial. In: CASAL, Juan Manuel. Paraguay:
investigaciones de historia social social y política (II). Estudios en homenaje a Jerry W. Cooney. IV
Jornadas Internacionales de Historia del Paraguay en la Universidad de Montevideo. Asunción:
Tiempo de Historia/Universidad de Montevideo, 2016. pp. 107 e segs.
95
CALÓGERAS, Pandiá. A política exterior do Império. Vol. III. Da Regência à queda de Rosas. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933, p. 312.

117
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

O que é importante apontar nessa longa lista de conflitos e ameaças é o quanto o


Brasil teve de paz em relação aos períodos de tensão: em 370 anos de história, de 1500 a
1870, o País teve menos de 60 de relativa tranquilidade – e frisamos o termo “relativa”,
pois não falamos do risco de revoltas de escravos, uma preocupação constante da socie-
dade do período. Ou seja, ao contrário da noção comum, aproximadamente cinco em
cada seis anos de história do Brasil foram de medo que atividades militares, revoltas ou
rebeliões poderiam resultar em ataques, destruição e mortes.

Cabe também notar que parece ser evidente que concentrar o estudo do papel das
forças armadas apenas nos momentos em que houve combates é arriscado, pois isso não
se encontra apoiado numa realidade concreta da situação vivenciada no Brasil. Mesmo
que as ameaças não afetassem todo o país, é importante levar em conta que as pessoas,
na época, muitas vezes não tinham ciência de que um problema militar era regional e
não “nacional” – a inteligência militar não era tão boa assim, como ainda não é, diga-se
de passagem. Em 1777, quando os espanhóis atacaram Santa Catarina, os moradores do
Brasil e a administração colonial não sabiam que a expedição era destinada para lá, ou
para Salvador, Rio de Janeiro ou Recife. Avisos foram emitidos para todos os governa-
dores de capitanias se prepararem para um ataque. Nada menos do que dezesseis fortifi-
cações temporárias sendo erguidas em Salvador, para lidar com a eventualidade de um
ataque espanhol naquele ano.96

Gráfico 12 – Quadro mostrando das guerras em território brasileiro.


A existência de conflitos abertos – ou a ameaça de eclosão deles – foram fatores permanentes na história
do País até a segunda metade do século XIX.
Dessa forma, ao contrário do mito muito comum, de que o brasileiro seria um
povo “pacífico”, havia um permanente estado de tensão e medo de um ataque, rebelião

96
CASTRO (2013), vol. 2, pp. 59 e segs.

118
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

ou mesmo uma invasão, o que justifica o altíssimo nível de participação militar na soci-
edade.

3.5.3 Milícias, Ordenanças, Guarda Nacional: o apoio ao exército.


Desta questão do medo permanente e generalizado se entende a ideia original de
Portugal, de que todos os moradores, de 15 a 60 anos, estariam sujeitos ao serviço mili-
tar e nas ordenanças, uma forma de milícia criada em 1570 e que dependia da adminis-
tração municipal.97 Mais tarde, seriam criados os auxiliares, outro tipo de milícia, me-
lhor organizada e efetiva do que as ordenanças, esta devendo ser treinada por oficiais
designados pelo governo e receber armamentos fornecidos pelos Arsenais, os soldados
sendo pagos em caso de mobilização e controlados pelo governo das capitanias.

Em 1831, as ordenanças e milícias foram substituídas pela Guarda Nacional. Es-


ta era uma força que estaria menos sujeita ao governo central, sendo mais uma ferra-
menta dos poderes locais. Apesar dos muitos inconvenientes que essa organização tra-
zia, a Guarda funcionou até certo ponto, exercendo funções policiais e militares, como a
vigilância de estabelecimentos do governo, no combate de revoluções ou na substituição
do exército nas fortalezas. Isso ocorreu especialmente na guerra do Paraguai, quando
foram mobilizados 14.000 guardas nacionais para substituir o exército, que tinha sido
enviado para o teatro de operações.

A força podia até fazer intervenções no estrangeiro: quando das ameaças de in-
vasão ao Paraguai em 1855 e 1857, a Guarda Nacional do Rio Grande do Sul e do Mato
Grosso foi mobilizada – 5.192 deles no Rio Grande do Sul, 98 sendo que para isso fosse
possível foi necessário que o governo baixasse um decreto, de questionável legalidade,
autorizando o emprego dos guardas no Exterior. Finalmente, na Guerra do Paraguai,
muitos batalhões de Voluntários da Pátria foram formados com base em unidades da
Guarda e a quase totalidade da cavalaria do exército em operações era de regimentos de
Cavalaria da Guarda do Rio Grande do Sul. Nas vésperas da Guerra do Paraguai, o rela-
tório do Ministério da Justiça aponta a existência de 107.116 Guardas,99 (ver Gráfico

97
Cf. LIMA, Henrique de Campos Ferreira. O exército Português. Porto: Livraria Lello, 1928.
98
RIO GRANDE DO SUL – Governo da Província. Informe do presidente da província de S. Pedro do
Rio Grande do Sul, Angelo Moniz da Silva Ferraz, apresentado à Assembléia legislativa provincial
na 1ª Sessão da 8ª Legislatura. Porto Alegre: Tipografia do Correio do Sul, 1858. p. 67.
99
FORÇA da Guarda Nacional, conforme os mapas que tem recebido essa secção. João Pedro de Almei-
da Franco. BRASIL – Ministério da Justiça. Relatório do ministério da justiça apresentado à assem-
bleia geral legislativa na terceira sessão da décima segunda legislatura pelo respectivo ministro e
Continua –––––––

119
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

13) apesar de esse número ser, ao mesmo tempo, parcial e pouco confiável, já que seria
praticamente impossível mobilizar toda essa força.

Mesmo considerando os problemas, os efetivos da Guarda podiam ser impressi-


onantes: em 1851, na crise da guerra contra Oribe e Rosas, o “mapa da força” do exérci-
to aponta que havia em serviço 20.048 soldados em serviço, abaixo do limite aprovado
para o serviço extraordinário, que seriam 27.000 homens. Mas a força era suplementada
por 8.323 guardas nacionais destacados,100 o equivalente a 41,5% do efetivo das tropas
regulares mobilizadas, um valor que não pode ser desprezado.

Guarda Nacional - 1864

60000
50000
40000
30000
20000
10000
0
AL AM MT ES PB SC Corte CE PA RN SE PI PA SP RJ MG RS BA PE

Províncias

Gráfico 13 – Distribuição da Guarda Nacional no Império.101


O gráfico, feito às vésperas da Guerra do Paraguai apesar dos números impressionantes, deve ser visto
com muito cuidado, pois não representa a realidade da força. Na verdade, a própria estatística é falha,
como o mapa demonstra, não registrando várias unidades pelas províncias e sequer listando as forças de
Goiás e Maranhão. Na prática, em ocasiões de conflito, a mobilização da Guarda sempre foi muito com-
plicada.
De qualquer forma, dois pontos são importantes quando consideramos a força:
em primeiro, o serviço da Guarda na primeira metade do século não pode ser confundi-
do com que ocorreria depois, quando ela passou a ser vista mais como um local de car-
gos honoríficos, para os famosos “coronéis”. Pelo menos em seu período inicial, era
uma tropa real, cuja existência afetava boa parte da população. Em segundo lugar, ape-
sar dos uniformes terem de ser adquiridos pelos próprios guardas, a menos que estes
Continuação–––––––––––
secretário de estado. Francisco José Furtado. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1865. Anexo H,
p. 2.
100
BRASIL – Ministério da Guerra. Mapa da Força do exército conforme os últimos mapas parciais.
Libanio Augusto da Cunha Matos, 1 de abril de 1851. IN: BRASIL – Ministério da Guerra. Relató-
rio apresentado à assembleia geral legislativa na quarta sessão da oitava legislatura, pelo ministro
e secretário de estado dos negócios da guerra, Manoel Felizardo de Souza e Mello. Rio de Janeiro:
Tipografia Nacional, 1852.
101
FORÇA da Guarda Nacional, 1865, op. cit..

120
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

estivessem “destacados”, seu equipamento e armamento eram para ser fornecido pelo
governo, como no caso das milícias. A administração central sendo, em última instân-
cia, a responsável pelo abastecimento dessa força, um encargo para o sistema logístico
militar.102

3.6 O exército no Brasil

Quanto ao Exército propriamente dito, infelizmente a historiografia das próprias


forças armadas nunca se preocupou em levantar o tamanho e composição das tropas no
período colonial103 e, mesmo com relação ao Império, os dados existentes não são dos
mais completos. 104 Dessa forma, não temos as bases para saber qual foi o real impacto
da tropa na sociedade, a não ser por alguns dados isolados, quase de natureza anedótica,
mas que mostram que sempre houve um forte impacto das questões militares no cotidi-
ano do País. Por exemplo, quando da implantação do Governo Geral, Tomé de Souza
trouxe uma tropa de 600 homens, 105 assim como instruções para a construção de embar-
cações de patrulha, mostrando uma intenção da metrópole em assumir um papel inter-
vencionista nos assuntos da colônia.

Essa ação mais direta não se efetivou, por uma série de fatores, inclusive a resis-
tência local, pois as câmaras, como dissemos, financiavam com os impostos recolhidos
localmente as questões de defesa, não querendo perder o controle que isso permitia.
Nunca foi criado um “cofre centralizado”, que recolhesse os impostos das diversas capi-
tanias, redistribuindo o dinheiro para as regiões mais necessitadas. Os donatários das
capitanias que tiveram sucesso, especialmente a de Pernambuco, também sempre foram
muito ciosos de suas prerrogativas, restringindo as possibilidades do governo central.
Quando da criação do Governo Geral, em 1548, os colonos e o donatário de Pernambu-

102
Os armamentos da Guarda Nacional deveriam ser fornecidos pelo Ministério da Justiça. Na prática as
armas era repassadas pelo arsenal de Guerra ao Ministério da Justiça, que as entregava às unidades
da Guarda. Um desses casos pode ver no preparo de unidades Catarinenses durante a Revolução Far-
roupilha, o ministro da Guerra mandando fornecer, por conta do Ministério da Justiça, instrumentos
para oito batalhões de infantaria e dois corpos de cavalaria, bem como outros itens. BRASIL – Arse-
nal de Guerra. Aviso do Ministro, José Clemente Pereira, ao Diretor do Arsenal de Guerra, José dos
Santos Oliveira sobre o fornecimento de equipamentos e armas. Rio de Janeiro, 13 de junho de
1841. Mss. Arquivo Nacional. IG7 327.
103
Isto pode ser visto numa das histórias oficiais do Exército: BRASIL – Estado-Maior do Exército. His-
tória do Exército Brasileiro: perfil militar de um povo. Rio de Janeiro: IBGE, 1972. 3 vols. e O
EXÉRCITO na história do Brasil. Rio de Janeiro, BIBLIEX: Salvador, Odebrecht, 1998. 4 vols.
104
Ver: REGO MONTEIRO, Jônatas do. O Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Biblioteca Militar, 1939.
105
CARNEIRO, Edson. A Cidade do Salvador. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1954. pp. 128-143.

121
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

co conseguiram até que o Rei proibisse a ida do governador geral para a capitania.106
Finalmente, a própria proposta militar para o Brasil, que enfatizava a ação local, não
amparava esforços centralizadores.

Entretanto, o tipo de organização social e militar usando os recursos locais não


era ineficiente: moradores de São Vicente foram os responsáveis, já no século XVI, pela
expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, com apenas uma pequena ajuda do governo
geral. Colonos de Pernambuco fizeram a expansão para o Amazonas, conquistando o
território aos indígenas e vencendo a presença estrangeira, sucessivamente, na Paraíba,
Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará. Deve-se observar que nessas duas últi-
mas capitanias havia uma grande presença estrangeira: os franceses tinham três fortes
em São Luís e havia quinze fortes holandeses, ingleses e irlandeses no Pará e Amapá.107
Mais tarde, os paulistas, em busca de escravos, descobriram metais preciosos em Minas
Gerais e Mato Grosso, levando à ocupação dessas áreas.

O resultado foi um esforço militar de natureza diferente do feito na Europa, na


Ásia Portuguesa ou mesmo nas outras colônias europeias nas Américas. Por exemplo,
um caso importante para entender a Revolução militar e os investimentos feitos na cria-
ção de uma estrutura militar eram as fortificações. No entanto, como Portugal não cen-
tralizava as decisões militares para o Brasil, essas defesas eram feitas de acordo com os
recursos disponíveis em um momento de tensão e tendo em vista os projetos de gover-
nadores, influenciados pelas câmaras, que tinham que arrecadar os impostos. Assim, ao
contrário da Ásia, onde no século XVII se conheciam 45 praças fortes de grande porte,
no Brasil só houve sete cidades muradas durante todo o período colonial, e a manuten-
ção dessas defesas só foi levada a sério na Colônia de Sacramento, ante a ameaça per-
manente dos espanhóis vindos de Buenos Aires. A autonomia local também resultou em
projetos de má qualidade, conforme foi apontado ainda no próprio século XVIII pelo
general Böhm, enviado para modernizar o exército colonial, quando comentou sobre as
defesas do Rio de Janeiro, a sede do vice-reinado:

Gastei o tempo que me restava para fazer uma visita aos fortes e forta-
lezas nesta cidade e na baía, mas seu número é excessivo, quase como
que cada governador teve vontades diferentes das de Seus Antecesso-
res, deixando pela metade os trabalhos que cada um começou, para

106
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Governo Geral. IN: VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do
Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2000. p. 265.
107
CASTRO, Adler Homero Fonseca de. Muralhas de pedra, canhões de bronze, homens de ferro: forti-
ficações do Brasil, 1503-2006. vols 1 a 3. Rio de Janeiro: FUNCEB, 2013. pp. 25 e segs.

122
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

construir outros, de acordo com os planos de defesa, que ele mesmo


tinha feito; um terceiro fez outro tanto e desta forma as fortificações (a
maior parte das quais foi feita por oficiais talvez zelosos, mas sem
grandes conhecimentos) se acumularam e o que era necessário foi
desprezado.108
Por sua vez, a ausência de um projeto militar claro resultava em investimentos
feitos sem muita ordem. Muitas vezes, como colocou o general Böhm, os governadores
seguiam suas vontades ou das elites locais em projetos de defesa voltados para interes-
ses estritamente paroquiais. Foi feito um imenso número de fortes – pelo menos 1.200
em áreas controladas por portugueses na América do Sul. 109 Só que em termos adminis-
trativos, o extenso sistema de fortificações era um pesadelo: em longo prazo era caro,
ineficiente, desperdiçava recursos e dispersava os esforços de defesa. Contudo, era uma
consequência do modelo militar implantado no Brasil no período das capitanias heredi-
tárias. Salvador teve sete conjuntos de muralhas, as obras tendo que ser periodicamente
refeitas a cada ameaça de guerra. A razão disso sendo que os moradores não aceitavam
as limitações impostas pelos muros e defesas externas, que impediam o crescimento
urbano,110 de forma que os próprios habitantes contribuíam para derrubar as muralhas
uma vez que a sensação de perigo tivesse passado.111 Obviamente, era um sistema que
representava um esbanjamento de recursos, já que essas muralhas eram grandes empre-
endimentos de engenharia. Mas não havia uma autoridade local capaz de decidir e man-
ter um programa de construção de fortificações coerente – era mais fácil fazer uma obra
nova em um momento de risco do que aceitar o custo político e financeiro da manuten-
ção de uma antiga, que incomodava as elites das vilas e cidades.

Como as fortificações construídas no Brasil não eram eficazes e como as milí-


cias locais não eram confiáveis, pelo menos em um embate inicial, a solução foi aumen-
tar as forças regulares. Por volta de 1760 havia tropas espalhadas desde o Rio da Prata
108
CARTA de João Henrique Böhm ao conde de Oeiras, julho de 1767, citada em MAGALHÃES, J. B.
A defesa do Rio de Janeiro no Século XVIII (estudos e obras de época). IN: Revista Trimestral do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 200, 1948. pp. 7-8.
109
Este é um trabalho em andamento, mas já foi levantado um número ligeiramente maior do que 1.200
fortes no Brasil. CASTRO, Adler Homero Fonseca de. Muralhas de pedra, canhões de bronze, ho-
mens de ferro: fortificações do Brasil, 1503-2006. Vol. 3. Rio de Janeiro: FUNCEB, 2015.
110
Para mostrar como a exigência de não construir fora das muralhas podia ser um custo para as cidades,
em Gênova, onde se mantinham as fortificações de forma eficaz, por falta de espaço dentro das mu-
ralhas os cidadãos foram obrigados a construir prédios residenciais de até dez andares de altura, nu-
ma época em que não havia elevadores. CHILDS, op. cit. p. 147.
111
Um caso sintomático é o de 1725, quando a câmara municipal do Rio de Janeiro pediu autorização ao
rei para construir casas fora do muro, o que foi negado. Mesmo assim, a muralha da cidade foi anu-
lada pela expansão urbana do Rio de Janeiro. CAVALCANTI, Nireu Oliveira. O Rio de Janeiro Se-
tencentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte. Rio de Ja-
neiro: Jorge Zahar, 2004. p. 51.

123
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

(o Regimento da Colônia de Sacramento), até o Amapá, um levantamento preliminar


apontando para a existência de 24 regimentos,112 mais tropas isoladas, como os esqua-
drões de cavalaria em várias capitanias, com o efetivo de mais dois regimentos, assim
como regimentos de artilharia em algumas outras capitanias. Se formos trabalhar com
os efetivos completos, essas tropas representariam haver pelo menos 17.000 soldados no
Brasil, forças consideráveis, 1,1% da população de 1760. A proporção aumenta se le-
varmos em conta que uma boa parte da população não podia ser contada para o serviço
militar – eram escravos. O autor do presente texto não encontrou dados sobre a percen-
tagem de cativos na população como um todo em meados do século XVIII, mas, para
simples efeitos de cálculo, podemos estimar, de forma conservadora, que fossem por
volta de 30%-40% da população113. Nesse caso, a percentagem da participação militar
sobe para uma faixa de 1,4% a 1,8% – e isso em tempo de paz, sem levar em conta a
participação das forças Auxiliares e de Ordenanças mobilizadas para a defesa em caso
de conflito.

Outra questão que deve se levar em conta nessas estatísticas é que, na população
em geral, a proporção de soldados estava longe de representar a massa dos habitantes,
mesmo entre os homens: em um levantamento feito em Mato Grosso no final do século
XVIII aponta que em uma população de 24.000 pessoas, apenas 2.748 estavam em con-
dições de servir nas tropas – homens adultos livres, com mais de 14 e menos de 50 anos.
Ou seja, apenas 11,5% dos moradores da capitania.114 Neste sentido, aqueles que eram
efetivamente recrutados representavam uma parcela realmente significativa da força de
trabalho livre.

Ainda para efeito de comparação, a França, no auge da Guerra da Sucessão Es-


panhola (1702-1714), chegou a mobilizar 2,5% de sua população total115 – mas isso,

112
Um detalhe técnico que deve ser observado ao usar o termo “Regimento” no Brasil: ao contrário de
Portugal, onde os regimentos deveriam, teoricamente, ter dois batalhões, na América essas unidades
não eram divididas, tendo, portanto, metade do efetivo regulamentar das tropas europeias, pelo me-
nos até 1762, quando o Conde de Lippe transforma os Regimentos portugueses em unidades com
efetivo de batalhão. Isso, contudo, não implica que os regimentos do Brasil fossem necessariamente
menores do que os da metrópole, devido aos imensos desfalques das forças em Portugal. Cf. FER-
NANDO, Dores Costa. Guerra no tempo de Lippe e de Pombal. In: BARATA, op. cit. vol. 2. p. 341.
113
Os dados disponíveis sobre a população escrava, estimativas, variam de 33% da população no final do
século XVIII e 30% em 1650. LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre:
Brasil, 1550 -1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 33.
114
SERRA, Ricardo Franco de Almeida. Plano de Guerra e defesa da capitania do Mato Grosso enviado
ao governador Caetano Pinto da Miranda Monte Negro. Coimbra, 31 de janeiro de 1800. Mss. BN.
I-29,6,48.
115
CHILDS, op. cit. p. 43.

124
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

como colocado, foi no meio de um conflito de maiores proporções. Em termos mais


usuais, nas vésperas da revolução francesa, os Russos tinham 1,3% de sua população
em armas; a Áustria, 1,1%; enquanto a Prússia tinha 3,8%, mas em um sistema que boa
parte do exército ficava licenciada por dois terços do ano. A França, que tinha sofrido
várias reduções em suas forças armadas, tinha 0,65% de sua população alistada.116

Dessa forma, cremos ser evidente que as forças mobilizadas no Brasil colonial
eram consideráveis e elas tinham que ser alimentadas, vestidas e alojadas com recursos
levantados localmente, já que não vinham recursos financeiros de Portugal.

A década de 1760 é importante, pois então se tentou modificar a filosofia militar


vigente, tanto na metrópole quanto no Brasil. Na Europa, o marquês de Pombal contra-
tou uma série de oficiais estrangeiros, dando o comando do exército ao monarca do pe-
queno condado de Schaumburg-Lippe, parte da atual Alemanha e tomou uma série de
medidas visando aperfeiçoar as forças armadas lusitanas, que estavam em muito mal
estado, tanto em termos operacionais como logísticos. A situação era tão ruim que o
marquês foi obrigado a pedir reforço de tropas inglesas (6.500 homens), para servir de
exemplo nas operações, assim como algumas centenas de cavalos, material de artilharia
– quarenta canhões pesados e leves, munição, 26.000 mil fuzis, além de 4.800 clavinas,
pistolas e espadas de cavalaria, tendas para todo o exército e um subsídio de duzentas
mil libras esterlinas. 117 Nas tropas portuguesas, Lippe procurou regularizar a situação
dos soldos, comumente atrasados, o que gerava um grande nível de deserções, pois, nas
palavras do próprio Lippe, “a necessidade e a fome não têm lei”.118

Ou seja, antes daquele momento, Portugal tinha, reconhecidamente, uma capaci-


dade militar muito reduzida, mesmo contra o exército espanhol, por essa época conside-
rado como em situação decadente em termos militares. A perda das possibilidades logís-
ticas lusitanas – a ponto de ter que importar até tendas – é um fator importante, quando
vemos que Portugal tinha fabricado excelentes canhões nos século XVI e XVII, mas
tinha deixado de ter a capacidade de suprir suas próprias forças. A proposta, então, era
modernizar as Forças Armadas, seguindo, em parte, as linhas do exército Prussiano, um

116
DUFFY(1987), op. cit. p. 17.
117
FERNANDO, op. cit. p. 334.
118
id. p. 341. Apud SCHAUMBURG-LIPPE, conde de. Cartas ao marquês de Pombal. Boletim do Arqui-
vo Histórico Militar, nº 4, 1933. p. 244-245.

125
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

dos melhores do mundo então, para isso sendo adotados os primeiros regulamentos do
exército, escritos pelo conde de Lippe.119

Quanto ao Brasil, Pombal também tentou atualizar o exército, mandando adotar


os regulamentos do Conde de Lippe e enviando alguns oficiais estrangeiros para co-
mando e treinamento das tropas, chefiados pelo Marechal Böhm, alemão e o brigadeiro
Funck, sueco. Estes tinham instruções de adestrar as tropas locais, equiparando-as às de
Portugal, e organizar os regimentos de Auxiliares. Outra medida inédita que foi tomada
foi o envio de três regimentos portugueses para o Rio de Janeiro em 1767, os de Bra-
gança, Estremóz e Moura. Isso não para guarnecer a cidade, pois o Rio já tinha três re-
gimentos de infantaria e um de artilharia, mas para “girar”, isso é, se alternar no Brasil.
Dessa forma as tropas transmitiriam os conhecimentos adquiridos na Europa durante a
guerra dos Sete Anos, para que “todas elas constituam um só é único exército debaixo
das mesmas regras, e da mesma idêntica disciplina, sem diferença alguma”.120 A subor-
dinação do Estado do Grão Pará e Maranhão ao Vice-Reinado, que também foi decidida
nesse período, é compreensível como uma medida igualmente de alcance militar, para
unificar o comando das tropas do País.

Mais importante do ponto de vista do presente trabalho foi a tentativa de implan-


tação de uma estrutura de abastecimento das imensas (proporcionalmente) forças arma-
das do País, com o aumento da importância das Casas do Trem das principais capitani-
as: Pará, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, esta última para uma situação semelhante
ao status de arsenal, em 1764 – uma medida que corresponde à elevação da Tenência de
artilharia de Lisboa à situação de Arsenal, no mesmo ano.121 Também foi implantada
uma rede de arsenais de marinha nas mesmas cidades em que havia arsenais de guerra.

A tentativa de aperfeiçoar e unificar a situação militar deu certo por algum tem-
po, havendo no Rio Grande do Sul e Colônia do Sacramento, pela primeira vez, uma
real colaboração entre as forças da metrópole e diversas capitanias – Pernambuco, Rio

119
SCHAUMBURG LIPPE. Regulamento para o Exercício, e Disciplina, dos regimentos de Infantaria
dos Exércitos de Sua Majestade Fidelíssima – feito por ordem do mesmo Senhor por Sua Alteza o
Conde Reinante de Schaumburg Lippe, Marechal General. Lisboa: Secretaria de Estado, 1763. Ha-
via ainda outros três regulamentos escritos pelo conde.
120
PORTUGAL – Carta Régia de 20 de junho de 1767, op. cit. p. 525.
121
Devemos observar que a interpretação que o Arsenal foi criado 1764 é comum em obras secundárias,
mas todos os documentos do século XVIII chamam as instalações do Exército no Brasil Colônia de
“Trem”, ou “Arsenal do Trem” até 1811, quando de fato foi criado o Arsenal. PORTUGAL – Alvará
de 1º de março de 1811. Cria a Real Junta de Fazenda dos Arsenais, Fábricas, e Fundição da Capi-
tania do Rio de Janeiro e uma Contadoria dos mesmos Arsenais.

126
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e até uma companhia de arti-
lharia de Lagos (Portugal). No entanto, deve-se observar que o exemplo da Colônia de
Sacramento, que levou a essa ação no Sul do Brasil, é uma exceção, que se aproxima
em certos termos ao que ocorrera na Ásia Portuguesa duzentos anos antes, em um perí-
odo que o governo central português fazia investimentos diretos de defesa lá. Era uma
povoação que existia em função do comércio de contrabando, de uma mercadoria de
alto valor, a prata do Peru, sendo implantada em um terreno hostil e sem possibilidades
de se expandir, por causa do bloqueio espanhol. Ai, o esquema tradicional do Brasil,
dos colonos serem encarregados da defesa, era inviável, necessitando da intervenção
direta do governo.

De qualquer forma, o ano de 1777 marcaria o final das reformas militares no


Brasil e em Portugal. Em fevereiro, os espanhóis tomaram a ilha de Santa Catarina,
mostrando as limitações do esquema militar implantado na Colônia e Pombal renunciou
em março daquele ano. O novo regime preferiu negociar uma paz, retornando à política
de apaziguamento diplomático que era característica de Portugal, de forma que os gas-
tos militares assumiram um papel secundário, pelo menos em relação à metrópole.

Houve uma mudança de situação com a vinda da família real para o Rio de Ja-
neiro em 1808, em parte porque era necessário recriar a estrutura logística que tinha
existido na Europa, mas que não era mais acessível por causa da invasão francesa. Por
outro lado, foi necessário implantar uma administração efetivamente centralizada, que
aumentasse a eficiência do dispositivo militar na colônia. É nesse período em que Por-
tugal assume efetivamente, pela primeira vez, parte das responsabilidades militares no
Brasil, com o envio de uma Divisão de Voluntários para lutar no Uruguai, uma prática
tão estranha – e cara – que gerou descontentamento em Portugal,122 podendo ser consi-
derada como uma das causas da Revolução Liberal do Porto, de 1820.

Numa sequência, a maior presença militar na sociedade, proporcionalmente,


ocorre com a Independência: apesar da historiografia da metade do século XIX ter enfa-
tizado a questão da obtenção da autonomia política como uma transferência pacífica, de
“pai para filho”, o assunto não foi visto dessa forma na época. Havia o receio, que se
provou infundado, de que a metrópole enviaria um exército para tentar recolonizar o

122
MARQUES, Fernando Pereira. Exército e sociedade em Portugal: no declínio do Antigo Regime e
advento do Liberalismo. Lisboa: Regra do Jogo, 1981. p. 164.

127
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Brasil. Hipólito da Costa, diretor do Correio Brasiliense, publicava a seguinte notícia


em 1822:

Notícias de Espanha, referem que a Corte de Madri fez um tratado


com a de Lisboa, para esta lhe enviar um auxílio de 12.000 homens, e
adiantam mais que, com efeito, um corpo de 2.000 homens de cavala-
ria, comandados pelo General Bernardo Correia de Castro e Sepúlve-
da, e um belo parque de artilharia (...). Ora, o governo de Lisboa tem
resolvido mandar para o Brasil 8.000 homens, que com esses 12.000
da Espanha fazem 20.000.123
Havia a percepção da necessidade de se mobilizar para enfrentar esse possível
contra-ataque lusitano: o exército que combateu as unidades do brigadeiro Madeira de
Melo na Bahia tinha, pelo menos, 9.161 combatentes e 987 funcionários civis, 124 reu-
nindo tropas locais e enviadas do Rio de Janeiro e Pernambuco, em um esforço combi-
nado. As forças concentradas no Rio de Janeiro para a defesa da capital tinham perto de
10.000 homens e houve importantes ações militares no Maranhão e na Província Cispla-
tina, o atual Uruguai, último ponto da América Portuguesa a reconhecer a Independên-
cia, em 1824.

Além disso, foi criada – praticamente do nada, já que o País só tivera uma frota
baseada aqui depois da vinda da família Real – uma marinha de guerra, que logo se tor-
nou muito poderosa, tendo inclusive naus de 74 canhões. Uma força que no auge da
Guerra da Cisplatina, em 1828, teria 76 navios e 8.414 marinheiros, 125 necessitando de
imensos gastos não só para alimentar e fardar esse pessoal, mas também para comprar
canhões e navios. Da mesma forma, foram feitos programas de fortificação na costa, os
maiores da história do Brasil – só em Pernambuco foram erguidos 26 fortes inteiramen-
te novos, sem contar os que foram reparados nesse período.126

Em 1825, a atividade militar envolvia um pouco mais de 26.000 homens no


exército, perto de 9.000 na marinha, mais 109.000 mil nas Milícias127 (ver Gráfico 14 e

123
Escritos em Portugal contra o Brasil. Correio Braziliense, XXVIII, 732. Apud RODRIGUES, José
Honório. Independência: Revolução e Contra-Revolução: as forças Armadas. Rio de Janeiro: Fran-
cisco Alves, 1975. vol. III, p.51
124
BRASIL – Província da Bahia. Relatório dos trabalhos do Conselho Interino de governo da Província
da Bahia, em prol da regência e império de Sua Majestade Imperial O senhor D. Pedro I e da Inde-
pendência política do Brasil. Bahia: Tipografia Nacional, 1823. p. 10.
125
BRASIL – Câmara dos deputados. Diário da Câmara dos deputados à Assembleia Geral Legislativa
do Império do Brasil. Seção de 3 de julho de 1828. Rio de Janeiro: Imprensa Imperial e Nacional,
1828. p. 4.
126
Dados levantados em CASTRO, op. cit. Vol. 3.
127
MAPA da força militar das províncias, incluindo-se o Rio de Janeiro. S.l. [182_]. Supostamente 1825.
Mss BN, II-30,28,001.

128
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Figura 7) – e isso numa época que a população do país era quarenta vezes menor do que
na atualidade. Era um índice de participação militar de um homem para cada 34 habi-
tantes, sem incluir as Ordenanças, que por essa época já não eram mais um elemento de
defesa eficaz, apesar de ainda existirem e serem mobilizadas para treinamento. Sempre
se deve relembrar que os índices de participação militar devem ser vistos dentro do con-
texto da época, ou seja, excluindo menores de 18 anos e maiores de 50, mas também as
mulheres e, especialmente os escravos. Para efeito de comparação o Brasil hoje tem
forças armadas de 314.000 homens, com mais 404.000 policiais militares. São 718.000
pessoas dedicadas diretamente a atividade militar – 0,35% da população, ou um em ca-
da 284 habitantes do país.

Tropas de terra

15000

10000

5000 Linha
Milícias
0
GO
PI
RN
SE
SP
ES
AL
SC
MT
PB
CE
MA
MG
RS

PA
BA

PE

PC

RJ

Gráfico 14 – Tropas no Brasil, logo após a Independência.128


PC se refere à Província Cisplatina. Os elevados efetivos no Rio de Janeiro indicam que esses dados fo-
ram obtidos antes da paz com Portugal, em agosto de 1825, quando havia ainda o receio de um contra-
ataque lusitano.

3.7 O exército nacional, do Brasil.


A organização militar que começava a se implantar no Brasil após a Indepen-
dência era, finalmente a de um sistema centralizado, que permitira se falar em um exér-
cito do Brasil, não mais implementado como uma força desconexa, apenas existente no
território nacional. Este processo de formação, contudo, sofreu um baque em 1831, com
uma nova proposta. Inicialmente, a justificativa oficial era ser necessário diminuir os

128
id.

129
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

gastos militares, que tinham chegado a níveis insustentáveis com a Guerra da Cisplati-
na. Contudo, e mais importante, a Regência procurou implantar um novo modelo de
organização militar, diminuindo a importância do Exército – visto como um instrumen-
to centralizador e um fator de desestabilização – favorecendo uma nova milícia, a Guar-
da Nacional.

Isso resultou na radical diminuição de números de militares, que no biênio de


1837-1838 representavam apenas 20% dos existentes dez anos antes (ver Gráfico 15),
com dezenas de oficiais ficando desempregados, a ponto de ter sido criado uma unidade
de oficiais-soldados, o “batalhão sagrado”.129 O esquema de fortificações colonial tam-
bém foi desativado – eram 191 fortes em funcionamento em 1829,130 mas em 1857 o
exército só considerava como de “1ª e 2ª ordem” quinze deles, 131 a imensa maioria dos
outros tendo sido desativada, pois não havia pessoal para guarnecê-los.

A redução no número de fortes se entende também quando vemos que um dos


sustentáculos da defesa colonial – a ideia que os moradores deveriam pagar por suas
defesas, tinha se tornado inviável com a constituição de 1824. A partir de então não
eram mais possíveis as cobranças de pessoal e material para os serviços nas fortalezas,
sem que isso fosse indenizado. As reclamações já ocorrem em 1824, quando o governo
determinou que fossem requisitados até um em dez, ou até um em cinco, dos escravos
de proprietários com mais de cinco ou dez cativos do Rio de Janeiro para trabalhar nas
obras de defesa que se construíam na cidade, para a defesa contra um possível contra-
ataque lusitano: estavam sendo feitas 27 fortificações na província, além de reformas
em várias outras. No entanto, os proprietários logo recorreram à justiça para receber o
valor dos serviços de seus cativos, o ministro do Império informando que havia proble-
mas na requisição,

129
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do ministro da guerra Manoel, da Fonseca Lima e Silva, ao
diretor do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, José de Vasconcelos Meneses de Drummond sobre
uso do quartel do esquadrão de cavalaria para acomodar os Oficiais Soldados Voluntários da Pá-
tria. Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1831. Mss. ANRJ. IG7 44.
130
MONTEIRO, Jonathas da Costa do Rego. Relação dos fortes Existentes no Brasil em 1829 com indi-
cação de seu armamento. Revista Militar Brasileira, jul-set 1927. p. 218 e segs.
131
PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério da Guerra no
Império. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1986. p. 250

130
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

pois que os proprietários [de escravos] muito resignadamente respon-


dem com o artigo 179 da Constituição, que manda respeitar o direito
de propriedade, e que no § 22 se lhe manda pagar mui prontamente.132
A redução dos efetivos foi duradoura – só no século XX o exército alcançaria os
mesmos números que tinha tido 1829 em tempos de paz –, e por anos foi proibida a
promoção de oficiais. Uma consequência importante da diminuição da força militar foi
a interrupção na evolução do avanço técnico do exército: os arsenais continuaram a fun-
cionar e até não sofreram uma redução tão marcante quanto à da tropa, mas não havia
meios ou até incentivos para mudar a estrutura militar do período, pois os principais
problemas enfrentados eram revoluções e rebeliões, para as quais não havia a necessi-
dade de aperfeiçoamentos técnicos maiores.

Ainda como efeito da diminuição das forças armadas houve a dificuldade em


acabar com as práticas coloniais, como a divisão regional das unidades: só em 1844 foi
implantado um sistema de promoções unificado a nível nacional, representado pelo Al-
manaque do Exército. Esta era uma publicação com os nomes de todos os detentores de
patentes militares, suas graduações, tempo de serviço, condecorações e qualificações, de
forma que só então seria viável ter um oficialato verdadeiramente nacional. Antes disso,
não era possível que um membro das forças armadas estacionado em uma região sou-
besse de sua situação em termos de antiguidade com relação ao outro, estacionado em
uma província diferente, impedindo o avanço na carreira em termos nacionais. A im-
plantação efetiva de uma comissão de promoções geral ocorreria apenas em 1851, atu-
ando com base na lei de promoções do ano anterior, que acabou com os favorecimentos
que podiam ocorrer até então.

132
BRASIL – Ministério do Império. Aviso de Estevão Ribeiro Resende, ministro do Império a João
Gomes da Silveira Mendonça ministro da guerra, a quota dos escravos no serviço das Fortificações
do Barro Vermelho. Rio de Janeiro, 15 de maio de 1824. Mss. ANRJ, GIFI OI 5B 243.

131
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Figura 7 – Distribuição das forças militares no Brasil.


O mapa mostra, de forma resumida, o comprometimento militar em termos de fortificações, tropas de
linha e de Milícias em cada província do Império, no Primeiro Reinado. Em vermelho, o número de forti-
ficações nas povoações: eram 33 no Rio de Janeiro, 18 em Salvador e assim por diante.
Deve-se dizer que a diminuição no número de fortes resultou em vantagens, em
uma racionalização e maior eficiência do sistema. A ideia passara a ser que as forças
armadas, um exército e armada móveis, agissem ativamente para a defesa. Com isso, as
ações militares deixavam de ser passivas, esperando que um risco se concretizasse para
que a população local lidasse com o problema. Um rompimento conceitual fundamental
com as práticas coloniais.

132
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

70000

60000

50000

40000

30000

20000

10000

Gráfico 15 – Evolução dos efetivos do exército durante o império.133


No Império o efetivo das forças armadas tinha que ser voltado anualmente na Parlamento, o gráfico repre-
sentando essas leis anuais, que não necessariamente reproduzem a realidade. A linha vermelha mostra os
efetivos autorizados para “situações extraordinárias”, ou seja, tempo de guerra ou revoltas, enquanto a
azul os de tempo de paz.

3.8 Um novo exército em formação


A década de 1850, portanto, abriu uma série de oportunidades para que o exérci-
to se “reconstruísse” em bases mais modernas. Não foi muito cedo: a Primeira Revolu-
ção Industrial já estava se encerrando e começava a Segunda, e as mudanças técnicas
aconteciam com uma rapidez crescente. Sem um pensamento que refletisse essas mu-
danças, o Exército Imperial ficaria irremediavelmente defasado com relação aos das
potências militares de então. Isso implicaria em mudanças radicais. Um oficial, como o
futuro duque de Caxias, ao assentar praça, no início do século XIX (1805), teria uma
perspectiva clara de como era a tática e do que poderia esperar dos armamentos usados:
a espingarda (fuzil) padrão em uso, na época chamada de “granadeira”, era basicamente
a mesma que Portugal vinha usando a mais de cem anos (a adoção da espingarda de
pederneira como arma padrão da Infantaria, em Portugal, data de 1703) e, do ponto de
vista do assunto deste capítulo, deve-se dizer que só saiu de serviço no Brasil pouco
antes da Guerra do Paraguai – depois de mais de 150 anos em uso.

133
A fonte básica dos dados do gráfico é: Leis de fixação das forças de terra do Império do Brasil, 1831-
1840. SCHULZ, John. O exército na política: origens da intervenção militar: 1850-1894. São Paulo:
EDUSP, 1994. p. 204.

133
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Em meados do século XIX a situação estava se alterando de forma muito rápida


com a adoção de armas mais modernas, como as de fulminante, depois as raiadas e até
de carregar pela culatra. Assim, foi necessário um esforço para que o exército moderni-
zasse seus equipamentos e, principalmente, suas práticas, já que os antigos ensinamen-
tos não eram mais válidos.

Foi muito difícil superar as dificuldades causadas pelo descaso da Regência e


para se vencer a natural resistência psicológica do corpo de oficiais e da própria socie-
dade em se adaptar às novas tecnologias, o processo de mudança continuando bem além
da Guerra do Paraguai. Um exemplo dessa situação eram os “corpos de guarnição”,
tropas de pequeno efetivo que ficavam “estáticas” a uma província (também eram cha-
madas de “corpos fixos”) e serviam como forças policiais e em atividades de apoio ad-
ministrativo aos governadores, como era comum no antigo exército colonial. Isso apesar
dos problemas que criavam para o funcionamento efetivo do Exército.

Desta forma, é evidente que o nível de participação militar na sociedade era im-
portante na primeira metade do século XIX, pois o exército cumpria um papel social
que ia muito além de suas funções estritamente militares, servindo de polícia, fiscais nas
estradas, correios e outros serviços públicos, para os quais não havia funcionários do
governo imperial, além dos soldados dispersos pelas províncias. Isso exigia que uma
boa parcela dos recursos financeiros e administrativos fosse dedicada às forças armadas
(ver Gráfico 16), o que não era incomum no mundo – em 1838, o orçamento do governo
paraguaio dedicado a questões de defesa era de nada menos do que 94,5% do total de
gastos governamentais. 134 Ou seja, praticamente tudo o que o governo de lá arrecadava
era voltado para a questão militar. No Brasil isso não era muito diferente.

134
WHITE, Richard Alan. Paraguay’s autonomous revolution: 1810-1840. Albuquerque: University of
New Mexico Press, 1978. p. 208.

134
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

70,00%
60,00%
50,00%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00%
0,00%

Guerra Marinha Soma


Gráfico 16 – Despesas militares no Império.135
Ilustradas como percentagem do orçamento nacional, é visível que raramente se gastou abaixo do limite
de um terço do orçamento brasileiro com as forças armadas, sem contar os gastos com as Milícias e
Guarda Nacional. Apesar da diminuição das forças armadas, a série de rebeliões do período regencial
impediu uma real diminuição percentual das despesas militares, mesmo com o rápido crescimento das
receitas do Império.
Consideramos a questão dos gastos militares importante, pois as explicações tra-
dicionais mais simplistas que tratam da sociedade brasileira tendem a fazer uma divisão
da sociedade local entre “senhores e escravos”, ignorando a existência de todo um grupo
intermediário majoritário, com poder aquisitivo variável. Ninguém pode disputar o fato
de que a oficialidade – tanto das forças armadas regulamentares, quanto das Milícias,
compunham em grande parte uma classe média, pois é evidente que nem todos os mem-
bros das forças armadas tinham condições de ser grandes proprietários de terras. Por sua
vez, esse pessoal era numeroso: um só batalhão tinha 679 praças e 37 oficiais (5,4%).

Mesmo os praças (sargentos, cabos e soldados) que, de fato, eram oriundos dos
estratos mais baixos da sociedade, eram assalariados e não escravos. É verdade que seus
vencimentos eram reduzidos e que ficarem crescentemente defasados, pois só houve
poucos reajustes durante todo o período estudado. Além disso, a alimentação (etapa)
dos homens era descontada de seu soldo, de forma que restava muito pouco para eles
gastarem com si, mas mesmo assim não estavam excluídos do mercado.

135
Dados extraídos de: CARREIRA, Liberato de Castro. História Financeira e Orçamentária do Império
do Brasil. Brasília: Senado, 1980. p. 127 e segs.

135
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Orçamento da guerra em valores corrigidos


3500
3000
2500
2000
1500
1000
500
0

Gráfico 17 – Despesas do ministério da Guerra.136


O gráfico apresenta os gastos do ministério da guerra em valores constantes e atualizados (milhões de
libras esterlinas de 2014). Em vermelho, a linha de tendência de crescimento dos orçamentos militares. A
imagem é interessante quando comparada com os efetivos do exército (ver página 133). Apesar da redu-
ção do tamanho da força e sua relativa estabilidade numérica após 1839, os gastos militares tiveram uma
tendência regular de crescimento, tanto em valores absolutos como relativos, depois de atualização mone-
tária. Isso pode ser explicado pela crescente complexidade das necessidades militares.

3.9 O exército como consumidor.


Mais importante do que a questão dos militares serem consumidores diretos – is-
to é, do poder de compra de soldados e oficiais – há a questão principal que deve ser
vista: mesmo com salários reduzidos e muitas vezes em atraso, eles tinham que ser man-
tidos pelo governo: suas armas tinham que ser municiadas, de outra forma as forças
armadas não poderiam atuar – canhões sem pólvora e balas são apenas grandes e pesa-
dos pedaços de ferro velho. Soldados, sem alimento ou pagamento, desertam.

Era necessário dar um mínimo de condições para o funcionamento dessas tropas,


pois, como dissemos antes, sem meios, elas perdem a disciplina e se transformam numa
turba sem eficácia para exercer suas funções, como ocorreu em diversos momentos da
história. Por exemplo, em 1645, um ataque à vila de Itamaracá, as tropas portuguesas
que participaram do ataque dispersaram-se para poder saquear a povoação, já que o seu
pagamento e suprimento era muito irregular. Como resultado, os holandeses consegui-
ram se reorganizar e derrotar os atacantes.137

O problema do abastecimento ficaria ainda mais evidente em operações de guer-


ra, pois acertos e contratos estabelecidos em tempo de paz eram rompidos muito rapi-

136
Dados extraídos de: CARREIRA, op. cit. Correção feita com base no “valor de trabalho” da moeda
britânica, atualizado a partir do sítio: Measuring Worth. https://goo.gl/rtcTbc. (acesso em dezembro
de 2015). Observamos que o índice de preço real é o menor dos disponíveis para cálculo de inflação
da libra, não sendo, necessariamente, o mais correto. Em outros casos, preferimos usar o índice do
“custo econômico. Para efeitos de impacto econômico, contudo, os dados são suficientes para mos-
trar o crescimento dos orçamentos.
137
JESUS, Raphael de. História da Guerra entre o Brasil e a Holanda. Paris: J.P. Aillaud, 1844. p. 359.

136
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

damente e o consumo crescia de forma exponencial: na Guerra do Paraguai (1865-


1870), uma das razões porque as operações foram interrompidas logo após a entrada das
forças aliadas naquele país foi a falta de cavalos. Com um efetivo de 21.000 homens,
havia apenas seiscentos animais – devido ao atrito normal de uma campanha, a perda de
cavalos foi tanta que era impossível movimentar as forças e a cavalaria ficou a pé. No
final da Guerra, o Conde d’Eu teve que fazer contratos com fornecedores particulares
para a venda de mais de 2.000 cavalos por mês, para que seu exército mantivesse a mo-
bilidade. Os problemas de suprimentos foram bem sumarizados em um relatório do mi-
nistério da guerra, escrito no contexto da Guerra contra Oribe e Rosas (1851-1852):

Infelizmente, nas épocas calamitosas de guerra externa ou interna, na-


vegam os governos entre dois escolhos: se por má entendida econo-
mia, ou por não poderem avaliar bem a extensão das necessidades,
que tem de aparecer com os movimentos militares, deixam de pronti-
ficar todo o dispendioso provimento de artigos bélicos, são acusados
de imprevidência e de expor a graves ofensas a honra e dignidade na-
cional, ou a ordem pública. Se previram bem aquelas necessidades, se
tiveram a coragem de carregar com a responsabilidade de ordenar as
grandes despesas indispensáveis para obter o material preciso para a
eventualidade, que se aproxima, surge acusação de outra espécie – fa-
zem-se despesas desnecessárias e enormes – ficando logo esquecidas a
honra, dignidade nacional, e a ordem pública! Pior ainda é, se, na pre-
sença dos mais veementes indícios de rompimento de uma guerra, se
prepara o governo; e se depois, por meios honrosos, chega a dissipar
as causas do rompimento: então as acusações de despesas excessivas e
desnecessárias tomam enorme vulto!138
E, de fato, a administração das forças armadas era um custo elevado: em meados
do século XIX um soldado recebia como seu equipamento completo de 54 objetos, des-
de o fuzil até uma simples esteira para colocar na sua tarimba, um desembolso inicial
total de 102.600 réis, o valor de seiscentos dias de trabalho deste homem. O equipamen-
to inicial de um cavalariano custava um pouco mais, 121.470 réis, por causa dos gastos
com seus arreios. Tudo fabricado ou fornecido pelo Arsenal de Guerra.

Equipar um batalhão de infantaria, além do material fornecido diretamente aos


soldados implicaria em outros gastos: peças de uso coletivo, como material de cozinha,
instrumentos da banda, carroças de transporte – tudo produzido pelo Arsenal, assim
como material médico (comprado pela instituição mas não feito lá) e assim por diante.
Contudo, para efeito de uma ordem de grandeza, só para dar o material (ver Figura 8)

138
BRASIL – Ministério da Guerra. Relatório da Repartição dos negócios da guerra apresentado à as-
sembleia geral legislativa pelo respectivo ministro e secretário de estado Manoel Felizardo de Sou-
za e Melo. Rio de Janeiro: Laemmert, 1853. p. 14.

137
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

que cada um dos oitocentos soldados – o efetivo de um batalhão – recebia vez ao se


juntar ao exército representaria um dispêndio de 82 contos de réis, o equivalente ao pa-
gamento de 382 operários não especializados durante um ano no Arsenal de Guerra.139
Poucos anos antes, durante a revolução Farroupilha, só para se uniformizar uma força
de 8.000 homens, o ministro da Guerra pediu ao congresso uma verba suplementar de
239 contos.140

Figura 8 – Soldados equipados, 1850.141


Mostra alguns itens de equipamento que eram fornecidos para soldados de infantaria ligeira (caçadores, a
esquerda) e fuzileiros,142 a direita. A imagem mostra as fardetas, os uniformes de uso diário. Além desse,
o soldados recebiam um uniforme de gala, bem mais elaborado, para uso em ocasiões festivas e em com-
bate.

139
Cálculo baseado em um jornal, pagamento diário, de 600 réis para um servente. BRASIL – Arsenal de
Guerra. Ofício do diretor do Arsenal José Maria da Silva Bittencourt ao Ministro da Guerra, Mano-
el Felizardo de Souza e Mello, sobre vencimentos de soldados inválidos. Rio de Janeiro, 3 de outu-
bro de 1850. Mss. ANRJ. IG7 11. A listagem de equipamento de um soldado, com seus valores, po-
de ser vista no BRASIL – Decreto nº 547 de 8 de Janeiro de 1848. Aprova a Tabela dos preços de
diversos artigos de armamento, equipamento, arreios, fardamentos e mais objetos para o Exercito e
Fortalezas.
140
BRASIL – Ministério da Guerra. Relatório da repartição dos negócios da guerra apresentado à as-
sembleia geral legislativa na 1ª sessão da 6ª legislatura, pelo ministro e secretário de estado dos ne-
gócios da guerra Jerônimo Francisco Coelho. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1845. p. 29.
141
BARROSO, Gustavo Dodt & RODRIGUES, Washt. Uniformes do Exército Brasileiro. Rio de Janei-
ro: Imprensa Nacional, 1922. p. 45.
142
O autor da imagem cometeu um erro, pois em 1850 não havia tropas de granadeiros em serviço, o
equipamento mostrado é de um soldado de fuzileiros.

138
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

Esses custos não podiam ser encarados como gastos momentâneos: alguns dos
itens fornecidos aos soldados eram de longa duração, como as armas, que deveriam ofi-
cialmente resistir dez anos, mas que na prática poderiam ter um tempo de vida útil mui-
to menor, de acordo com as circunstâncias:143 o serviço em campanha representava um
atrito muito grande de todos os itens que eram fornecidos às tropas. Outras peças, con-
tudo, tinham que ser substituídas à medida que inevitavelmente se desgastavam – e isso
ocorria rapidamente e de forma constante, na paz e na guerra: sapatos tinham que ser
trocados a cada seis meses, se não antes, e o ministro da guerra, de forma muito realista,
escrevia o seguinte:

Considere-se, por exemplo, que a tabela de fardamentos em vigor


marca um par de calças, uma camisa e um par de sapatos para seis
meses, uma fardeta para um ano, uma farda para dois, um capote para
seis anos etc., e que nesta razão se costumam pedir os fundos ordiná-
rios: ora, se tais fardamentos não podem de maneira alguma durar os
prazos marcados, ainda mesmo supondo a tropa nos seus quartéis, o
que não será para o soldado em campanha, sem abrigo algum, em con-
tínuos movimentos, exposto a todas as intempéries, e nas retiradas à
perda de seus efeitos, tomados pelo inimigo?
Em tais casos a primeira necessidade em campanha é ter sempre o
soldado bem vestido e pronto, e para esse fim exige o bem do serviço
que se excedam os fundos ordinários que se votam.144
Obviamente, a munição era descartável. A cada disparo, a pólvora e bala eram
gastos e não podiam ser reutilizados, o que também gerava uma despesa elevada. Uma
salva de 21 tiros dada por canhões de médio porte, o que era comum nas fortalezas em
dias de festa ou quando um navio de guerra entrava no porto, podia consumir 29 quilos
de pólvora,145 transformados, literalmente, em fumaça. Em ocasiões especiais, o gasto
podia ser ainda maior: em um aniversário do Rei D. José, o Arsenal do Rio teve que
distribuir 710 kg de pólvora para as salvas comemorativas do evento.146

Como se pode ver, as necessidades de consumo de um exército com milhares de


homens fazem com que haja interesse na logística de uma campanha militar – de fato,
há certa bibliografia sobre o assunto no Brasil, em especial no tocante à guerra do Para-

143
Somente em 1851, com um efetivo nominal de 16.000 homens, o exército comprou 11.640 espingar-
das, bem mais do que seria necessário se as armas durassem 12 anos. Relatório da comissão de exa-
me do Arsenal de Guerra. In: BRASIL – Ministério da Guerra. Relatório de 1853, op. cit. p. XXI.
144
Id. p. 29.
145
Usamos como base de cálculo um canhão de 9 libras, como os que eram usados na Fortaleza de Ville-
gaignon para saldar os navios de guerra estrangeiros. CASTRO (2009), op. cit. p. 297.
146
SILVA, Crispim Teixeira, Sargento Mor Intendente. Relação das Obras, Munições e mais Petrechos
que se tem feito no Trem de S. Majestade Fidelíssima do Rio de Janeiro, no tempo Governo do Il.mo e
Ex.mo Sr. Marquês do Lavradio Vice Rei e Capitam General de Mar e Terra do Estado do Brasil,
continuado de 31 de outubro de 1769, até 31 de Agosto de 1776. Mss. Coleção particular.

139
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

guai. 147 Mas, e o suprimento quando não havia um conflito? Como colocamos, os exér-
citos não deixam de existir quando não há operações militares ocorrendo, mas a questão
do suporte para essas tropas não é tratada na historiografia tradicional, militar ou civil,
como se as maciças forças militares existentes no País pudessem ser ignoradas e se sus-
tentassem no ar, sem apoio. Não se sabe sequer o número e efetivos das unidades milita-
res existentes no País no período colonial e nos primeiros anos do Império – dados so-
bre a estrutura de suprimentos para sustenta-las, então, são ainda mais ignorados e difí-
ceis de obter em bibliografia publicada. Consideramos isso curioso e, talvez, um erro
dos pesquisadores, já que há uma vasta documentação histórica sobre o assunto. Boa
parte da documentação produzida pela administração militar, tanto na Colônia, quanto
no Império, diz respeito à questão do funcionamento das forças armadas, sua adminis-
tração, fardamento, alimentação e alojamento.

3.10 Observações preliminares sobre a questão dos exércitos


Do ponto de vista militar, é interessante apontar alguns pontos de comparação
nas questões abordadas até o momento: a França, a líder militar do final do Período
Moderno, era um país que dependia do seu exército para a execução de sua política ex-
terna, dando uma grande importância para o tamanho e qualidade de suas forças arma-
das – isso era parte da mentalidade do período, a nobreza francesa dependendo do exér-
cito para obter empregos para seus filhos e para manter sua situação socioeconômica no
país. 148

Portugal tinha uma situação oposta: sem ser uma potência, a monarquia lusitana
dependia do não emprego da força militar para sua sobrevivência, pois a Espanha tinha
condições de derrotá-la, se não houvesse uma coligação que pudesse proteger o país.
Dessa forma, se entende a situação de recorrente despreparo das forças portuguesas, que
não eram vistas como sendo uma ocupação de prestígio: viajantes alemães no final do
século XVIII apontavam que mesmo as reformas do Conde de Lippe não tinham tido
um efeito duradouro no País, notando, certamente de forma exagerada, que:

A maior parte dos subalternos pertencentes à guarnição de Lisboa


também tem a honra de servir como criado de algum homem rico, ou
fidalgo. Você pode ver um tenente português, completamente unifor-

147
Podemos citar as obras: BOITEUX, Nylson Reis. Aspectos Logísticos da Guerra do Paraguai. Campo
Grane: Life Editora, 2015. FIGUEIRA, Divalte Garcia. Soldados e negociantes na Guerra do Para-
guai. São Paulo: Humanitas-FFLCH/USP, 2001.
148
CHILDS, op. cit. p. 84.

140
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

mizado, com seu gorjal sobre seu queixo, deixar seu posto na guarda e
dirigir-se para seu segundo mestre, de forma a colocar suas meias, en-
tregar-lhe sua touca de dormir, ou pentear sua peruca.149
Uma das consequências desse despreparo e falta de confiança nas forças arma-
das era a confiança que era colocada nas fortificações, com a construção de grandes
praças de guerra, cidades com grandes circuitos murados, como Almeida, Elvas ou Se-
tubal. Como se escrevia na época em um memorial, perfeitamente aplicável à Portugal,
que seria “um estado medíocre”:

Um pequeno estado, que tem uma, ou duas boas, praças de guerra po-
de-se defender e manter-se algum tempo, até que algum de seus vizi-
nhos, que vê com zelos crescer o poder de um, e outro, junte as tropas
para o socorrer.
Os estados medíocres, que tem um corpo de tropa, e boas praças, po-
dem se defender por elas mesmas: Mas o corpo de tropa sem praça, é
forçado a desamparar tudo a um Exército superior: e as praças sem
tropas são obrigadas a se render, quando os víveres começam a faltar
[...].
Deve-se defender, como os estados medíocres, aqueles, em que as
províncias são separadas umas das outras.150
Inerente desse desprestígio e despreparo era uma ausência de uma cultura de
pensamento militar, havendo poucos livros publicados sobre assuntos militares em Por-
tugal, e esses com edições reduzidas. Manuais militares eram raros, os regulamentos do
Conde de Lippe – sintomaticamente escritos por um estrangeiro – continuaram a ter
validade até as guerras Napoleônicas, quando foram substituídos, em parte, pelos regu-
lamentos do marechal Beresford,151 ele também um estrangeiro.

No Brasil, que herdou muita coisa de Portugal, a situação era em parte diferente.
Aqui, o oficialato nas forças militares era visto com mais prestígio, sendo um dos cami-
nhos para o enobrecimento das pessoas. Por outro lado, era uma colônia, com limitações
muito severas – por exemplo, até 1808 não havia tipografias no País, de forma que não
seriam de se esperar publicações militares, apesar de oficiais do Brasil terem publicado

149
DUFFY (1986), op. cit. p. 298. Apud WARNERY, Charles E. Des Herrn Generalmajor von Warnery
saemtliche Schriften. Hanover: Helwing, 1786. vol. IV, p. 298.
150
MEMORIAL DA GUERRA apud MOURA, José de Almeida e. Movimentos da cavalaria com adição
para Dragões e infantaria e Obra utilíssima para todo o Militar oferecida ao Sereníssimo senhor In-
fante D. Antônio por... Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, Sargento mor de cavalaria Drago-
ens de Beja etc. Lisboa: Oficina da Música e da Sagrada Religião de Malta, 1741. p. 355-356.
151
BERESFORD, William Carr. Instruções para o exercício dos regimentos de infantaria por ordem do
ilustríssimo e excelentíssimo senhor (...), marechal e comandante em chefe dos exércitos. Bahia:
Manoel António da Silva Serva, 1817.

141
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

alguma coisa em Portugal, o exemplo mais notável sendo o brigadeiro Alpoim. 152 Mes-
mo depois, não foi parte da cultura do nosso exército a realização de pesquisas acadê-
micas ou empíricas ou mesmo a publicação de textos sobre assuntos militares.153

Também era difícil o desenvolvimento de uma teoria formal sobre a guerra, pois
a aplicação de doutrinas dependia da autorização de Portugal, onde tais assuntos não
eram vistos como atenção. Algumas formas específicas de organização militar foram
desenvolvidas no Brasil, como o uso de infantaria ligeira, mas isso por necessidades
locais, sem repercussão na metrópole. Mais importante, a estrutura militar implantada
desde o início da colonização, assim como as dimensões do País, dificultava em muito a
realização de grandes projetos militares, como a formação de um exército centralizado
ou mesmo a construção de sistemas defensivos eficazes.

Havia dezenas de fortificações, mas eram pequenas, isoladas e de pouca eficiên-


cia em face de um exército moderno, como pode ser visto no caso dos ataques ao Rio de
Janeiro em 1711 e de Santa Catarina, em 1777. Curiosamente, isso se explica em parte
por razões culturais, como dito antes: as capitanias mais ricas, como a Bahia, Recife ou
Rio de Janeiro tinham condições de construir sistemas de defesa eficazes e, de fato, os
iniciaram. Mas uma cidade murada é um grande inconveniente para os moradores, que
vem suas possibilidades de ir e vir restritas, além de se limitar a expansão urbana ao
circuito das muralhas. 154 Dessa forma, os planos de fortificação iniciados nessas cidades
fracassaram, por causa da resistência dos moradores e da incapacidade dos governos em
força-los a obedecer. Deve-se dizer que essas limitações seriam, em tese, possíveis, bas-
tando ver as grandes cidades fortificadas existentes nas Américas Hispânica e Francesa.
O caso do Brasil sendo o resultado de um problema do sistema de defesa baseado em

152
ALPOIM, José Fernandes Pinto. Exame de artilheiros. Rio de Janeiro: Xerox do Brasil, 1987. Fac-
símile da edição de: Lisboa: José Antônio Plates, 1744.
153
O primeiro texto legal falando da adoção de manuais no Exército brasileiro data de apenas de 1850.
Dois dos três manuais citados eram portugueses, um deles datando de 1816(!). BRASIL - Decreto
nº 705, de 5 de Outubro de 1850. Determina quais as Instruções por que se devem regular as mano-
bras e exercícios das diferentes armas do Exército.
154
Na Idade Média as cidades podiam se expandir além das muralhas, bastando para isso que as casas
fossem construídas além do alcance eficaz dos arcos e flechas, apenas trinta metros, de forma que is-
so aconteceu em várias ocasiões. Na Idade Moderna o problema era bem mais complexo, pois a zona
que deveria ser mantida livre de construções em torno de uma fortificação correspondia à distância
do alcance de um canhão, no mínimo oitocentos metros, inviabilizando a expansão urbana extramu-
ros. A legislação portuguesa, por exemplo, controlava a construção de edificações numa distância de
seiscentas braças (1.320 metros) das muralhas. Curiosamente, essa é uma lei que ainda é corrente no
Brasil, tendo sido revalidada por um decreto-lei de 1941. BRASIL – Decreto-lei 3.4.37 de 17 de ju-
lho de 1941. Dispõe sobre o aforamento de terrenos e a construção de edifícios em torno das fortifi-
cações. Artigo 2º e incisos.

142
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

recursos locais, que dava autonomia às câmaras municipais, que arrecadavam os impos-
tos que pagavam sua própria defesa, sem uma intermediação do governo central. Por
sua vez, as dezenas de fortificações, apesar de não serem eficientes, cumpriam um im-
portante papel social, provendo postos de comando para moradores. Estes empregos
eram, muitas vezes, meramente honoríficos, mas tinham um papel social importante,
pois davam acesso ao mundo da elite política da sua cidade.155

Não podemos deixar de frisar a importância desse último ponto: apesar do Brasil
ser uma colônia e o serviço militar ser tratado com certo desprezo na metrópole, o ofici-
alato no Brasil, era visto como uma forma de enobrecimento, o que alcançava maior
importância considerando que não havia uma nobreza de sangue nativa. Aqui havia até
tabelas do governo, fazendo a comparação de honras que deveriam ser dadas aos mem-
bros das forças armadas e os titulares da nobreza – por exemplo, um capitão do exército
ou capitão-tenente da armada teriam as honras de um cavaleiro fidalgo e um brigadeiro,
as de um barão.156 Isso resultava em um maior prestígio para o serviço militar – de ofi-
ciais, é claro –, do que ocorria em Portugal, onde a fidalguia era mais comum.

Por sua vez os governos das capitanias e, mais ainda, o do Império, não hesita-
vam em se valer das forças armadas como ferramentas diplomáticas. Um exemplo disso
sendo o caso do emprego de fortificações para se garantir a posse do território. A Colô-
nia de Sacramento é o caso mais evidente dessa política, do uso de uma instalação mili-
tar feita com a intenção de fomentar o comércio de contrabando e garantir a posse de
um território que dificilmente poderia ser considerado como português.

A situação no futuro Uruguai continuaria por um longo período e até afetou o


Império, com a guerra da Cisplatina (1825-1828), a bacia do Prata servindo também do
exemplo mais claro do uso das forças armadas como ferramenta de relações exteriores.
Foi o que ocorreu nas intervenções no Uruguai, em 1851-1852 (guerra de Oribe e Ro-
sas), 1854 (a Divisão Imperial de Observação, que entrou no Uruguai, a pedido do go-
verno), em 1855-1856, como envio dos onze navios da Divisão Naval do chefe de divi-
são (almirante) Pedro Ferreira de Oliveira, para abrir a navegação do Rio Paraguai. Um
processo que teve continuidade em 1857-1858, quando os Paraguaios renegaram os

155
FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, socieda-
de agraria e elite mercantil em uma economia colonial tardia. Rio de Janeiro, c. 1790-c.1840. São
Paulo: Civilização Brasileira, 2001. p. 69.
156
MATOS, Raimundo José da Cunha. Repertório da legislação militar atualmente em vigor no exército
e armada do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1837.vol. II, 1837. p. 285.

143
Capítulo 3 - As forças armadas como consumidora de mercadorias.

termos do acordo de navegação que lhes fora imposto, sendo necessária a mobilização
de uma grande força de terra e naval para invadir o Paraguai, caso esses não aceitassem
as imposições do governo brasileiro. 157

A questão central dessa longa apresentação sobre os problemas militares especí-


ficos é que a Revolução Militar tinha obrigado os países, mesmo o longínquo Brasil, a
seguir um modelo de exército de parâmetros bem definidos, um dos quais era a questã
do tamanho da força – quanto maior, melhor. A tática linear do período implicava na
necessidade de uma disciplina férrea, quase transformando os soldados em autônomos,
se movendo em passo cadenciado, a uma só voz, a de seus oficiais. Como parte necessá-
ria destas táticas era preciso que os homens recebessem um mesmo treinamento e equi-
pamento, o que implicou no uso de uniformes. Um encadeamento de fatores que impli-
cou na criação de uma estrutura administrativa para levantar as tropas e as manter em
funcionamento, que foi feita em maior ou menor grau em todo mundo.

No entanto, a criação de um exército verdadeiramente nacional e brasileiro, se-


guindo padrões locais, não foi um processo simples, devido a diversos condicionantes,
dois dos quais consideramos fundamentais: a situação da Regência. Naquele momento,
as forças armadas foram vistas como um risco para as elites locais, devendo ser supri-
midas e, portanto, não eram merecedoras de gastos maiores. Em segundo lugar, com a
estabilização política, quando o Exército e Marinha voltaram a ser uma ferramenta im-
portante da diplomacia do Império, para a qual era necessário fornecer os meios neces-
sários para seu funcionamento. O Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, como parte fun-
damental do funcionamento das forças armadas, se situava entre esses dois extremos,
conforme abordaremos depois.

157
CASTRO (2016), op. cit.

144
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Sumário

4. Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil


4.1 O incentivo governamental as manufaturas
4.2 A situação das manufaturas no Rio de Janeiro na 1ª metade do século
4.3 Observações preliminares sobre a mão de obra escrava
4.4 Uso de motores em uma economia pré-industrial.
4.5 Alguns exemplos de manufaturas ligados às forças armadas
4.5.1 A Fábrica São Pedro de Alcântara
4.5.2 Sapatos Carioclave
4.6 A Ponta da Areia
4.7 Encerrando o capítulo

145
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

4 Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Um conceito fundamental para se entender os arsenais de guerra na primeira me-


tade do século XIX é o de pré-indústria e, antes de principiar, devemos dizer que este é,
de fato, um conceito, tem sentido e significado precisos, 1 sendo esta uma dúvida que
deve ser tratada. Fazemos essa colocação, pois há uma corrente de pensamento que
questiona o uso de palavras adjetivadas para definir alguma coisa, seja um objeto ou um
conceito.

No caso, a palavra pré-indústria, em si, apresenta o problema de se basear em


outra, indústria, o que em termos epistemológicos não é o ideal. A pré-indústria seria
aquilo que vinha antes da indústria, uma forma de explicação que não tem existência
própria, mas depende de outra, no caso, o de indústria, o que é uma forma questionável
de se trabalhar com um conceito, qualquer que seja. Em termos práticos, contudo, é um
termo que já se firmou na bibliografia para definir o conceito, tendo sido usado por di-
versos autores, como Braudel2 ou Frederick Mauro. 3 No Brasil, o tema já foi objeto da
dissertação de Luiz Carlos Soares4 e da tese de Geraldo Beauclair de Oliveira,5 de forma
que cremos que não é necessário tratar em profundidade o assunto, nos concentrando no
seu sentido e significado.

As características de uma economia pré-industrial seriam múltiplas. Antes de tu-


do, e de forma óbvia, não era industrial, ou seja, a principal atividade econômica era a
agricultura ou, tal como colocado por Braudel, não havia uma separação clara entre a
vida agrícola e a artesanal.6 O que existia segundo o autor era

a coexistência da rigidez, das inércias e dos movimentos limitados e


minoritários, mas vivos e poderosos, de um crescimento moderno. Por
um lado, os camponeses nas aldeias, vivendo de uma forma quase au-
tônoma, quase em autarquia; por outro lado, uma economia de merca-
do e de um capitalismo em expansão, que, como uma mancha de óleo,
vai elaborando, pouco a pouco, e prefiguram já, este mundo em que

1
OLIVEIRA, Geraldo de Beauclair Mendes de. A pré-indústria fluminense: 1808/1860. Tese de Douto-
rado. São Paulo: USP, 1987. (mimeo).p. 9.
2
BRAUDEL, Fernand. Civilización material, economía y capitalismo: siglos XV-XVIII. Madrid: Alianza
Editorial, 1979. Vol. 2. p. 252.
3
MAURO, Fréderic (org.). La préindustrialisation du Brésil. Essais sur une économie en transition:
1830/50 – 1930/50. Paris: Centre National de la Recherche Scientifique, 1984.
4
SOARES, Luiz Carlos. A manufatura na formação econômica e social escravista no sudeste : um estu-
do das atividades manufatureiras na região fluminense, 1840-1880. Dissertação de mestrado. Nite-
rói: UFF, 1980. (mimeo).
5
OLIVEIRA, op. cit.
6
BRAUDEL, op. cit. p. 258.

146
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

vivemos. Temos assim dois universos, pelo menos, dois tipos de vida
alheios um ao outro e cujas massas, no entanto, se explicam mutua-
mente.7
Estamos, portanto, falando de uma situação de transição – o usual nas economias
agrícolas era que o trabalho com o plantio atraísse os trabalhadores, mesmo os do arte-
sanato, em uma situação sazonal. Como nos exércitos da época, o período de colheita
também implicava na captação dos trabalhadores para os empreendimentos agrícolas,
enquanto nos momentos de pausa no campo, essa mão de obra tendia a se dedicar a ou-
tras atividades, inclusive às das oficinas artesanais.8 Entretanto, a pré-indústria é dife-
rente desse modelo simplesmente agrícola, pois, apesar das atividades primárias ainda
serem dominantes, já há uma maior representatividade do artesanato, que é exercido de
forma permanente, mobilizando trabalhadores de forma constante. Isto em instalações
de maior porte do que a simples oficina que empregava basicamente um trabalhador
especializado, o mestre, como era o caso anterior.

Nesse sentido, é interessante apontar certa divergência na definição: para Brau-


del, a pré-indústria é um conceito amplo, que engloba toda a atividade manufatureira
antes da indústria, incluindo as pequenas oficinas existentes na área agrícola. 9 Uma de-
finição extremamente ampla, vasta demais em nossa opinião, já que abrange todo o pe-
ríodo histórico antes da industrialização.

Outra característica geral apontada para as sociedades pré-industriais é sua situa-


ção de inércia, em termos de nível de vida e produtividade. Ao contrário das economias
já afetadas pela Revolução Industrial, ela está basicamente estagnada, o crescimento que
acontece é lento e espasmódico. Finalmente, não havia integração entre as diferentes
regiões de um país, por causa de um precário sistema de comunicação.10

Os estabelecimentos manufatureiros existentes nessas sociedades são relativa-


mente primitivos. Podiam ser a oficina familiar, onde o trabalho era executado por um
artesão, sua família e aprendizes, com ferramentas e matérias primas próprios. Neste
caso, como dito acima, seria um estabelecimento permanente, ao contrário dos sazonais
das economias agrárias. Os estabelecimentos também podiam ser organizados pelo sis-

7
BRAUDEL, Fernand. A dinâmica do Capitalismo. Lisboa: Editorial Teorema, 1986. p. 13.
8
OLIVEIRA, op. cit. p. 6.
9
BRAUDEL, op. cit. p. 263.
10
OLIVEIRA, op. cit. p. 6.

147
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

tema doméstico (putting out),11 no qual os artesãos continuavam a possuir suas ferra-
mentas, mas recebiam a matéria prima de um capitalista, trabalhando em suas casas e
devolvendo o produto acabado. Funcionava, basicamente como uma oficina artesanal
doméstica tradicional, a não ser pela propriedade da matéria prima e o fato de serem
empregados por um capitalista, que gerencia as atividades. Este último tipo de organiza-
ção é marcante, pois, apesar de muito primitivo em termos de organização, define um
momento decisivo na origem das empresas, por depender de um empreendedor, um ca-
pitalista, para gerenciar a produção.

Uma discussão gerando uma definição mais restritiva do que seria pré-indústria
surgiu na década de 1960. Esta trabalhava com o conceito semelhante, mas não idêntico,
o da protoindustrialização. Esta seria uma fase intermediária, antes do surgimento da
industrialização, com cinco características básicas: não era um processo nacional ou
internacional, mas sim regional; os empreendimentos não podiam ser classificadas co-
mo as antigas oficinas artesanais, pois as empresas passavam a produzir para um merca-
do local ou regional, vendendo seus produtos para fora de suas regiões de origem; era
uma atividade principalmente de áreas rurais, surgindo de uma relação simbiótica com o
comércio agrícola. Finalmente, “era ‘dinâmica: era definida como um crescimento ao
longo do tempo do emprego industrial de trabalhadores rurais”.12 Douglas Libby, ao
trabalhar com as pequenas manufaturas têxteis e de metais em Minas Gerais, se utilizou
deste conceito, para tratar das manufaturas que surgiram no ambiente rural de Minas
Gerais do Século XIX, as têxteis e de metalurgia. 13 Em outro texto, ele faz uma distin-
ção importante, em termos de identificação do que seria a protoindústria: para Libby “a
protoindustrialização pode ser definida como a produção em grande escala de bens in-
dustriais destinados a mercados distantes, baseada em mão de obra barata e campone-
sa”.14

Geraldo Beauclair de Oliveira, faz uma distinção que nos parece muito útil na
questão que estamos trabalhando, definindo a pré-industria como um conceito diferente

11
O sistema de putting out tem uma grande relevância para o Arsenal de Guerra, pois era a forma como
funcionava a “Repartição de Costuras” da Instituição, conforme trataremos em outro capítulo.
12
OGILVIE, Sheilagh. Proto-industrialization. https://goo.gl/V4OQSW (acesso em outubro de 2016). p.
3.
13
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas no século XIX.
São Paulo: Brasiliense, 1988.
14
LIBBY, Douglas Cole. Protoindustralização em uma sociedade escravista: o caso de Minas Gerais. IN:
SZMRECSÁNY, Tamás & LAPA, José do Amaral (org). História econômica da Independência e do
Império. São Paulo: Hucitec, 2002. p. 238

148
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

do da protoindústria, por este ser um fenômeno particularmente urbano, o que se en-


quadra mais no estudo que estamos realizando.15

Nas áreas urbanas maiores, a tendência era a de começarem a surgir sistemas


mais complexos, como o de cooperação, onde um grupo de artesãos de várias especiali-
dades é reunido em um ambiente único, sob o controle de um empregador, o produto
final passando pelas mãos de todos. Marx exemplifica este caso com a manufatura de
coches,

que anteriormente era o resultado do trabalho de um grande número


de artesões independentes, tais como carpinteiros de rodas, correeiros,
alfaiates, serralheiros, estofadores, torneiros, artesões de franjas, [frin-
ge-makers], vidraceiros, pintores, polidores, douradores etc. Na manu-
fatura de coches, entretanto, todos estes artesãos são reunidos em um
só prédio, onde o trabalho segue de mão em mão. 16
Marx continua, apontando que a tendência dessa cooperação é que os artesãos,
por estarem ocupados em uma só atividade específica, gradualmente perdem a prática
do trabalho de seu ofício como um todo, passando, contudo, a se aperfeiçoar e especia-
lizar nas atividades específicas que exercem na oficina. Deixam de ser generalistas em
seu ofício e vão se especializando.

Ainda seguindo o que consta do Capital, haveria outra origem da manufatura,


que seria a reunião em um só espaço dos artesãos, todos fazendo o mesmo tipo de traba-
lho, numa forma de cooperação das mais elementares. Cada um deles produz toda a
mercadoria, fazendo em sucessão todas as operações necessárias. Contudo, a tendência
com o tempo era, novamente, pela divisão do trabalho, as atividades, passando a ser
separadas em segmentos especializados e a mercadoria “a partir de ser o produto de um
artífice individual, torna-se o produto social de uma união de artífices, cada um dos
quais realiza uma, e apenas uma, das operações parciais constituintes”. 17 Marx repetindo
então o exemplo dado por Adam Smith, do fabricante de alfinetes, onde o trabalho, an-
tes feito por vinte artesãos trabalhando lado a lado, cada um executando todas as vinte
operações necessárias para o acabamento do alfinete, passa por uma transformação, os
vinte artesãos “completos” sendo substituídos por vinte outros, especializados, cada um
deles executando apenas uma tarefa específica, aumentando em muito a produção.18

15
OLIVEIRA, op. cit. p. 6.
16
MARX, Karl. Capital. London: Encyclopaedia Britannica, c. 1952. p. 164.
17
id. p. 164.
18
SMITH, Adam. An Inquiry into the nature and causes of the wealth of Nations. London: Encyclopaedia
Britannica, c. 1952. p. 9. Adam Smith copiou esse exemplo da enciclopédia de Diderot e
Continua –––––––

149
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Esta é uma característica que voltaremos a tratar quando tratarmos do Arsenal de Guerra
da Corte.

Implícito nessas definições, ao contrário do que acontecia nas antigas oficinas


artesanais, é a separação entre o capital e o trabalho. Passa a haver um empregador, ou
organizador da força de trabalho, que controla, mesmo que em parte, os meios de pro-
dução: ferramentas, local de trabalho ou, no mínimo, as matérias primas.

Com a adoção de máquinas motrizes, a manufatura com divisão de trabalho tor-


na-se uma fábrica (ver Figura 9). Em termos de pré-indústria, a simples existência de
algumas fábricas não implica que a sociedade seja industrializada, como se pode obser-
var no Brasil, onde houve algumas poucas delas na primeira metade do século XIX, mas
estas não se consolidaram de forma suficiente para caracterizar a sociedade como um
todo. Luiz Carlos Soares coloca a pré-indústria no Rio de Janeiro como estando associ-
ado ao momento da passagem da economia do café, a partir da década de 1840,19 quan-
do havia a existência de certo número de manufaturas, mas essas não sendo um aspecto
definidor da economia, a mudança para um processo de industrialização real ocorreria
mais tarde.

De qualquer forma, o crescimento urbano começa a concentrar cada vez mais


atividades artesanais em núcleos populacionais maiores e a complexidade da organiza-
ção dessas atividades foi aumentando, a ponto do surgimento do que Braudel chama de
indústrias piloto, “que atraem os capitais, os benefícios e a mão de obra e cujos impul-
sos, em princípio, [vão] repercutir sobre os setores vizinhos e incentiva-los”, 20 servindo
de momento inicial do desenvolvimento industrial.

Ou seja, começam a aparecer manufaturas ou indústrias que permitem o surgi-


mento de um crescimento autossustentável dessas, o que se costume chamar de industri-
alização. Esta, historicamente

envolveu uma utilização mais produtiva dos fatores de produção, al-


cançada em parte através da alteração das proporções em que intervi-

Continuação–––––––––––
D’Alembert, que por sua vez citava um estudo de Perronet, de 1762. ALDER, Ken. Engineering the
revolution: arms & enlightenment in France, 1763-1815. Chicago: University of Chicago, 1992. p.
135
19
SOARES, Luiz Carlos. A manufatura na sociedade escravista: o surto manufatureiro no Rio de Janeiro
e nas suas circunvizinhanças (1840-1870). IN: MAURO, op. cit. p. 13 e segs.
20
BRAUDEL (1979), op. cit. p. 263.

150
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

nha, e também através da melhoria da sua eficiência e da introdução


de novas técnicas21.
De forma concisa, para nós, portanto, a pré-indústria é um fenômeno urbano, ca-
racterizado pela divisão entre o capital e o trabalho, que resultou na criação de oficinas e
manufaturas. Nestas havia certa divisão de trabalho e uso de máquinas, mas sem que
estes fatores permitam caracterizar as instalações como indústrias, onde o sistema já é
totalmente baseado na divisão de trabalho e uso de máquinas motrizes.

A pré-indústria no contexto do presente trabalho é, portanto, uma fase relativa-


mente curta em termos temporais, em um processo no qual a economia está em trans-
formação, de uma centrada na agricultura para outra com base industrial, indústria que
no Brasil só vai começar a ser bem percebido a partir de 1870-1880, como colocado
pelos autores que tratam da história econômica.

4.1 O incentivo governamental as manufaturas


Toda essa questão conceitual da pré-indústria é relevante em termos comparati-
vos, pois as grandes potências militares do período de nosso estudo, o início do XIX,
estavam mais ou menos no mesmo estágio na manufatura de artigos militares. Isso pelo
mens em termos qualitativos, apesar da escala da produção, a quantidade, ser muito di-
versa. No entanto, o processo de transformação da produção, de uma baseada em ofici-
nas e manufaturas para uma de fábricas, se deu de forma diferente nos países do hemis-
fério norte com relação ao Brasil, com reflexos na estrutura de produção de artigos mili-
tares, os arsenais, como será tratado nos capítulos subsequentes.

Sobre o período da pré-indústria no Brasil, os trabalhos que tratam do tópico


apontam para a existência de iniciativas governamentais no incentivo às manufaturas no
início do século, com a chegada da família real e a revogação de uma política de restri-
ção às medidas de produção local de produtos não agrícolas. Assim, o Alvará de 28 de
abril de 1809 criava incentivos para a implantação de instalações manufatureiras:22 a
isenção total de impostos de todas as matérias primas para manufaturas; isenção de im-
postos de exportação da produção e a autorização para a realização de loterias, no valor
de sessenta mil cruzados [aproximadamente 145 milhões de reais em valores de hoje],23

21
KEMP, Tom. A Revolução industrial na Europa do Século XIX. Lisboa: Edições 70, 1985. p. 23.
22
BRASIL – Alvará de 28 de abril de 1809. Isenta de direitos as matérias primas do uso das fabricas e
concede outros favores aos fabricantes e da navegação Nacional.
23
Cálculo de inflação feito usando o índice de “custo econômico”, de acordo com o sítio Measuring
Worth. https://goo.gl/rtcTbc (acesso em outubro de 2016).

151
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

cujos resultados seriam aplicados nas empresas. Finalmente, foi estabelecida uma regra
para “privilégios industriais”, semelhante ao atual sistema de patentes, onde se dava
proteção, por até vários anos, às “descobertas” tecnológicas implantadas no País, mes-
mo que essas já fossem conhecidas na Europa.

Duas das medidas de incentivo estavam diretamente relacionadas com as forças


armadas. Uma era uma vantagem todo importante: a determinação que se deveria evitar
o recrutamento onde a “agricultura e as artes necessitam de braços”. 24 Uma proteção
relevante, pois o recrutamento para o serviço militar, tanto nas tropas de linha como nas
milícias, era um pesado encargo para a sociedade, como apontado no capítulo anterior e
foi um problema apontado constantemente para o funcionamento do Arsenal de Guerra.
Na documentação da instituição há vários documentos tratando da isenção de recruta-
mento, como um relatório, de 1849, onde o diretor do Arsenal de Guerra escrevia ao
ministro da guerra nos seguintes termos, a respeito do pessoal da Fábrica de Armas da
Conceição, uma repartição do Arsenal de Guerra:

insisto pois como pedi o ano passado em seu favor por um privilégio
de isenção de todo o serviço da Guarda Nacional, pois que a decadên-
cia deste Estabelecimento provem em parte de serem os aprendizes
alistados para a dita Guarda 25
Se o serviço militar dos artesãos era uma dificuldade para uma instalação gover-
namental – e justamente uma voltada para o apoio direto ao serviço militar – podemos
ter certeza que o recrutamento era mais grave para as organizações privadas.

Além dessa norma de isenção de recrutamento, em 1809 o governo estabeleceu a


previsão que:

Todos os fardamentos das minhas Tropas serão comprados ás fábricas


nacionais do Reino, e às que se houverem de estabelecer no Brasil,
quando os cabedais que hoje têm melhor emprego na cultura das ter-
ras, puderem ser aplicados ás artes com mais vantagem; e não se po-
derão para este fim comprar manufaturas estrangeiras, senão no caso
de não terem as do Reino e Brasil com que suprir a necessidade publi-
ca. E ao Presidente do meu Real Erário hei por muito recomendado,
que procure sempre com prontos pagamentos auxiliar os fabricantes
dos meus Estados, a fim de que possam suprir o fornecimento dos
meus Exércitos, e se promova por este meio a extensão e aumento da
indústria nacional. 26

24
BRASIL – Alvará de 28 de abril de 1809, op. cit.
25
BRASIL – Arsenal de Guerra. Relatório do Marechal João Carlos Pardal, diretor do Arsenal de Guer-
ra, ao Ministro da Guerra. Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1848. Mss. ANRJ. IG7 10.
26
BRASIL – Alvará de 28 de abril de 1809, op. cit.

152
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Nessa linha, em 1813, em São Paulo, foi estabelecida uma tecelagem de algo-
dão, privada, mas que se beneficiou da proteção estabelecida pelo alvará de 28 de abril
de 1809, ficando subordinada à supervisão da Real Junta de Comércio.27

Eram ações de apoio direto e indireto, mas o texto do Alvará não continha medi-
das mais eficazes, ou seja, algo que implantasse um protecionismo fiscal – e mesmo as
previsões do alvará não foram efetivadas, em grande parte.

Outra medida tomada nesse momento inicial, logo após a chegada da família
Real, foi a ação direta do governo no estabelecimento de manufaturas próprias, como a
Fábrica de Pólvora da Lagoa, no Rio de Janeiro (ver Figura 9), a de Ferro de Ipanema
(SP), as Fábricas de Tecidos da Lagoa e do Catumbi, também no Rio de Janeiro.

Figura 9 – Reconstituição da Casa dos Pilões28


Reconstituição com base em pesquisas arqueológicas feitas na Casa dos Pilões, parte da Real Fábrica de
Pólvora, criada em 1808. Esta instalação era usada para macerar os produtos necessários para a fabricação
do explosivo. A localização da instalação, na Lagoa, se deveu ao fato de nas proximidades haver disponí-
vel água abundante para mover as máquinas, como a roda d’água copeira ilustrada. Para a levar a água até
as máquinas foi construído um aqueduto, até hoje existente. Tais equipamentos permitiriam classificar o
estabelecimento como uma fábrica e não como uma manufatura, a instalação estando adiante de seu tem-
po no Rio de Janeiro.
Talvez mais importante tenha sido o Colégio de Fábricas. Este, segundo a inter-
pretação de Oliveira, teria surgido com o objetivo de criar uma “matriz de oficinas”, que
27
MELLO, Maria Regina Ciparrone. A industrialização do algodão em São Paulo. São Paulo: Perspecti-
va, 1983. p. 40.
28
BRASIL – Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural, 6ª Coordenação Regional. Casa dos Pilões:
museu, sítio arqueológico. Rio de Janeiro: IBPC, s.d.

153
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

pudesse servir de base para outros empreendimentos.29 Colocamos a condicional, teria,


pois o texto do decreto que estabeleceu o Colégio das Fábricas especificava que este
fora criado:

com o único fim de socorrer a subsistência e educação de alguns artis-


tas e aprendizes vindos de Portugal, enquanto se não empregassem
nos trabalhos das fabricas que os particulares exigissem30
Apesar dessa previsão, podemos dizer que havia também um ponto de vista dife-
rente, de que a proposta do colégio era realmente a do incentivo às manufaturas. Isto é
evidente em um voto do deputado da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e
Navegação, Leonardo Pinheiro de Vasconcelos, que, em 1812, escreveu que o Colégio
das Fábricas teria como objetivo:

Incentivar no Brasil o estabelecimento de fábricas, verdadeiro manan-


cial de riqueza e civilização, fechado neste continente até a chegada da
Alteza Real a estes Estados; e não foi certamente a esperança de rápi-
dos e vantajosos lucros, porque estes não se conseguem logo nesta es-
pécie de estabelecimento. 31
Como exemplo dessa atividade de geração de empresas por meio do incentivo
do governo, o deputado citava o exemplo “do estabelecimento da fábrica de sedas ao
tempo de D. João V (1734), nasceram as diversas fábricas que existem em Portugal,
onde se empregam grande número de cidadãos e suas famílias”. 32

Ainda nessa mesma linha, outro indício da preocupação do governo em criar


uma estrutura que servisse para incentivar as indústrias através da formação de mão de
obra, pode ser visto, curiosamente, na missão francesa vinda para o Brasil em 1816.
Além dos artistas de belas artes que normalmente são citados, o pessoal que veio incluía
o professor de artes mecânicas, o mestre ferreiro François Ovide; o mestre em constru-
ção naval Jean-Baptiste Level; Nicolas Magliori Enout, serralheiro; os carpinteiros e
fabricantes de carros Louis-Joseph Roy e seu filho Hippolyte Roy; os peleteiros Fabre e
Pelite; os especialistas em estereotomia,33 Charles-Henri Lavasseur e Louis Symphorien

29
OLIVEIRA, Geraldo Beclauir Mendes de. A construção inacabada: a economia brasileira, 1822-1860.
Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2001. p. 91.
30
PORTUGAL – Decreto de 31 de outubro de 1811. Comete á Real Junta do Comércio do Estado do
Brasil a inspeção do Colégio das fabricas.
31
Arquivo Nacional. Junta de Comércio. Consulta da Real Junta sobre o estabelecimento do Colégio das
fábricas. Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1812. apud OLIVEIRA (2001), op. cit. pp. 91-92.
32
id. pp. 91-92.
33
A estereotomia é o estudo das formas das pedras, tendo em vista suas possibilidades de corte e entalhe.
Tal profissão pode ser associada à escultura, no preparo de peças para estátuas. No entanto, cremos
que os profissionais da Missão Artística estivessem ligados a outro entendimento da profissão, o li-
Continua –––––––

154
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Meunié.34 Marc Ferrez, o professor de escultura da missão, seria também o mestre da


oficina de escultura do Arsenal de Guerra da Corte.35

Para a atividade de ensino, o governo instalou por decreto a Escola Real de Ci-
ências, Artes e Ofícios, que tinha um objetivo de formação de “artistas”, não como pen-
saríamos hoje, de belas artes, mas em um dos sentidos usado na época, de sinônimo de
artífice.36 No texto legal se previa também um subsídio para artesões que viessem para o
Brasil, para promover e difundir a instrução indispensável “não só aos empregos públi-
cos da administração do Estado, mas também ao progresso da agricultura, mineralogia,
indústria e comércio”.37 Vale frisar que o texto deixava claro que isso se aplicava aos
“ofícios mecânicos, cuja pratica, perfeição e utilidade depende dos conhecimentos teóri-
cos” das “ciências naturais, físicas e exatas”,38 ou seja, era uma proposta voltada para a
manufatura. Essa medida, contudo, não teve sequência, já em 1820 a escola passava a se
chamar Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura Civil, com um
currículo pouco ligado aos ofícios, esses desaparecendo totalmente das atividades da
Academia com a reforma da instituição, em 1831.39

Ainda outra medida de caráter semelhante foi a fundação da Academia Militar,


que seria a única formação superior na área de “exatas” no Brasil na primeira metade do
século XIX. O decreto de sua criação especificava que o curso formaria oficiais de arti-
lharia e engenheiros, que pudessem também “ter o útil emprego de dirigir objetos admi-
nistrativos de minas [mineração], de caminhos, portos, canais, pontes, fontes, e calça-
das”,40 o curso compreendendo as “ciências matemáticas, de ciências de observações,
quais a física, química, mineralogia, metalurgia e historia natural, que compreenderá o
reino vegetal e animal”. O texto da lei que criou a academia continuando, quase como
uma nota, que na Academia Militar seriam lecionadas, também, as “ciências milita-

Continuação–––––––––––
gado a construção civil, o tema sendo ensinado nas escolas de arquitetura no século XIX, sendo ne-
cessário o conhecimento de desenho de perspectiva isonométrica.
34
CARDOSO, Rafael. A Academia Imperial de Belas Artes e o Ensino Técnico. 19&20, Rio de Janeiro,
v. III, n. 1, jan. 2008. Disponível em: https://goo.gl/hiZ76T. (acesso em agosto de 2016).
35
ALMANAK do Rio de Janeiro para o ano de 1827. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1827. p. 214.
36
SILVA, Antônio. Dicionário da língua portuguesa - recompilado dos vocabulários impressos ate ago-
ra, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado. Lisboa: Tipografia Lacerdi-
na, 1813. Verbete artista. p. 201.
37
REINO UNIDO – Decreto de 12 de agosto de 1816. Concede pensões a diversos artistas que vieram
estabelecer-se no país.
38
Id.
39
Para uma discussão interessante sobre o tema, ver: CARDOSO, op. cit.
40
PORTUGAL – Lei de 4 de dezembro de 1810. Cria uma Academia Real Militar na Corte e Cidade do
Rio o de Janeiro.

155
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

res”.41 O ensino dos futuros oficiais durava sete anos, dos quais apenas os três últimos
tinham cadeiras voltadas para assuntos militares, apesar de nesses anos continuarem a se
ensinar matérias ligadas às ciências.

A formação bélica dos alunos da academia deixou marcas duradouras na nossa


sociedade: até hoje a especialidade da engenharia que trata do ramo da construção é a
engenharia civil, já que o curso de engenharia propriamente dita, originalmente, era
puramente militar. Sintomaticamente para a relevância da proposta da Academia, suas
instalações iniciais foram colocadas na Casa do Trem, um dos prédios vizinhos ao Ar-
senal. Situada ao lado das oficinas, as matérias que demandassem o uso de oficinas ou
aulas práticas com objetos poderiam ser dadas na instalação manufatureira.

Deve-se fazer a ressalva que essas políticas de fomento técnico não tiveram uma
continuidade nem foram uma unanimidade entre as próprias lideranças políticas do País.
Estas eram ligadas à agricultura de exportação, fator já notado por Celso Furtado42 e
elas não teriam interesse particular na questão da montagem de manufaturas locais, pois
isso não atenderia seus interesses específicos.

O maior representante dessa corrente liberal da economia certamente foi o Vis-


conde de Cairu, José da Silva Lisboa43 que argumentava: “O Brasil pode ainda por lon-
go tempo ter muita indústria e riqueza, sem estabelecer as fábricas refinadas e de luxo
que distinguem a Europa.”44 Ele era contrário aos princípios gerais estabelecidos no
Alvará de 28 de abril de 1809, que previa a possibilidade de se dar privilégios à indus-
trias nascentes, opondo-se a qualquer outra forma de protecionismo e defendendo ape-
nas que “as fábricas que por ora mais convêm no Brasil são as que proximamente se
associam à agricultura, comércio, navegação, e artes da geral acomodação do povo”45.
Só que mesmo neste caso, Cairu tinha uma posição controversa, escrevendo:

41
id.
42
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional: Publifo-
lha, 2000. p. 106.
43
José Maria da Silva Lisboa, visconde de Cairu (1756-1835), era baiano, formado em direito canônico e
filosofia em Coimbra. Teve vários cargos no serviço público, inclusive o de professor de economia
política. Escreveu vários livros, inclusive o Princípios da economia política, defendendo o liberalis-
mo. Era conservador, defensor da monarquia e foi deputado e senador do Império. BRASIL – Ar-
quivo Nacional. Mapa memória da administração pública brasileira. Verbete José Maria da Silva
Lisboa, visconde de Cairu. https://goo.gl/dFlca1 (acesso em outubro de 2016).
44
LISBOA, José da Silva. Observações sobre a franqueza da indústria, e estabelecimento de fábricas no
Brasil. Brasília: Senado Federal, 1999. p. 35.
45
Id. p. 35.

156
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Deve-se porém notar, que convém haver muita circunspecção em tras-


passar para o Brasil grandes máquinas, ainda para as manufaturas que
nos podem ser mui úteis, como as de algodão. Grandes máquinas e fá-
bricas, onde não houver vasta população serão quimeras.46
Ou seja, Cairú tinha uma postura claramente antimanufatureira e ele teve um pa-
pel importante na política econômica nacional, não só por seus escritos, mas também
por ser membro do Tribunal da Junta de Comércio, onde tinha, justamente, que apresen-
tar pareceres sobre a defesa das manufaturas.47 Essas dicotomias, entre posições que
defendiam as manufaturas e outras mais liberalistas, se refletiriam na organização da
fábricas do Governo, em diferentes momentos estas recebendo apoio, em outras sendo
relegadas, como veremos no caso do Arsenal de Guerra.

4.2 A situação das manufaturas no Rio de Janeiro na 1ª metade do século XIX


Claramente, a ideia era que essas iniciativas de incentivo no período logo após a
vinda da família real tivessem um efeito de criar uma indústria piloto, no sentido que
Braudel trabalhou, como colocado por alguns dos políticos do período. Na prática, pou-
cos privilégios industriais foram dados (ver Gráfico 18), um indicativo, nas palavras de
um autor, do “pouco desenvolvimento das forças produtivas da época”.48

Privilégios de invenção

42%

16%

10%
32%

Agricultura Outros Navegação Manufatura


Gráfico 18 – Sumário dos privilégios industriais
Concedidos pela Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação de 1808 a 1850, o gráfico
acima foi montado com base no levantamento feito por Rômulo Garcia Andrade. Como é visível, foram
concedidos apenas 35 privilégios, a maioria voltada para atividades agrícolas.49

46
Id. p. 97.
47
ANDRADE, Rômulo Garcia de. Burocracia e economia na primeira metade do século XIX (a Junta de
Comércio e as atividades artesanais e manufatureiras na cidade do Rio de Janeiro: 1808-50). Dis-
sertação de Mestrado. Niterói: UFF, 1980 (mimeo). p. 62.
48
Id. p. 24.
49
id. pp. 26 e 33 e segs.

157
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Esse pouco desenvolvimento das manufaturas também é perceptível no número


das que existiram até 1850 – Andrade cita 36 empresas que receberam apoio governa-
mental, 75% delas sendo voltadas para a produção de bens de consumo. Eram manufa-
turas de chapéus, vidros papel e assemelhados, 50 a maior parte delas com um pequeno
corpo de artesãos. Na década seguinte a situação muda um pouco, aumentando de forma
significativa o número de estabelecimentos, entre os quais passam a existir alguns de
grande porte.

Duas tabelas publicadas no Relatório do Ministro da Fazenda de 1856 listam 66


manufaturas na capital do Império. Estas tinham privilégios de isenção de impostos de
importação, exportação ou ambos. Ou seja, as tabelas não mostram o conjunto de em-
presas existentes no Rio de Janeiro, muito menos no Brasil como um todo, pois não
incluíam as que não tinham esses privilégios. 51 Mesmo assim, o número da amostragem
já mostra um claro crescimento de valores com relação à situação anterior, as informa-
ções do relatório da fazenda também são interessantes, pois ilustram a forma como se
compunha o seu quadro de pessoal. A lista por nós compilada (ver Tabela 6) relaciona
apenas as 55 empresas que apresentam dados sobre seus empregados e se nota que as
maiores manufaturas do Rio de Janeiro eram os empreendimentos do barão de Mauá:
376 trabalhadores na Fábrica Esteárica, de produtos de iluminação, e 350 no Estaleiro
da Ponta da Areia, este em Niterói. O único outro estabelecimento a exceder cem traba-
lhadores era a fundição de João e Francisco Miers, com 145 empregados.

No todo, eram 2.245 operários em manufaturas com privilégios na cidade do


Rio, o valor médio sendo de apenas de 42 trabalhadores por manufatura. A concentra-
ção de empresas ainda era na área de bens de consumo – apenas cinco eram do ramo de
metalurgia e de máquinas, apesar dessas serem grandes empregadoras, com 587 traba-
lhadores (26%). Havia ainda duas cordoarias, material importantíssimo para a navega-
ção à vela, e uma do ramo de produtos químicos.

Eram apenas oito empresas “de base” – e isso com certa latitude –, as outras tra-
tando de bens de consumo, os mais importantes sendo o setor de sabão e velas, com 15
empresas e 438 funcionários (19,5% do total) e de chapéus, com 18 estabelecimentos e

50
id. pp. 153-154.
51
O Almanaque Laemmert de 1856, lista uma imensa quantidade de empresas na cidade do Rio de Janei-
ro, mas não é possível ter uma noção de suas dimensões ou sequer se eram simplesmente lojas de re-
talho, oficinais individuais ou algo maior. ALMANAK administrativo mercantil e industrial e provín-
cia do Rio de Janeiro para o ano de 1856. Rio de Janeiro: Laemmert, 1856. pp. 597 e segs.

158
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

572 trabalhadores (25,5%). No tocante ao quadro de funcionários, vale apontar que se


desconsiderarmos na lista as empresas maiores, as de Mauá e Miers, a média de empre-
gados pelas companhias cai para 27. Algumas das companhias – oito delas – eram, para
usar uma expressão de Braudel, liliputianas,52 com menos de dez trabalhadores.

Quanto às manufaturas de chapéus, essas empresas eram resultantes do costume


da época, quando o uso de coberturas de cabeça era uma exigência social, maior até que
o uso de sapatos – não havia fabricantes de sapatos nas listas de empresas com privilé-
gios. Curiosamente, apesar da importância das manufaturas deste tipo de artigo no Rio
de Janeiro e do fato de cada soldado receber um boné e uma barretina, encontramos
poucas menções a compra de chapéus pelo Arsenal de Guerra e esses eram apenas os de
desenho mais simples, os bonés. A maior parte das peças fornecidas para o exército era
manufaturada pelo governo, pois encontramos apenas dados de compras de chapéus em
1849 (barretinas e bonés), chapéus de palha, no ano seguinte, e bonés de caçadores, em
1852.53 Em 1862 o Arsenal fez um contrato com Manoel Augusto dos Santos, aparen-
temente com a intenção de que sua empresa substituísse o Arsenal no fornecimento de
bonés, pois ordem era para dispensar os alfaiates e sirgueiros da manufatura “logo que
seus serviços não forem mais preciso”.54 Não sabemos se essa substituição chegou a se
concretizar, contudo. De qualquer maneira, o grande número de manufaturas de chapéus
da cidade aparentemente não se beneficiou das compras regulares do Exército.

52
BRAUDEL (1979), op. cit. p. 280. Braudel, na verdade, é mais contundente, considerando como em-
presas de tamanho reduzido algumas com mais empregados, como as fábricas de sabão de Marselha,
que tinham pouco mais de 26 empregados por unidade, em média.
53
Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, edições de 29 de abril de 1849, 10 de outubro de 1850 e 17
de junho de 1852.
54
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso da 3ª Diretoria, 3ª Seção, do Ministério da Guerra ao diretor
do Arsenal de Guerra informando sobre contrato com Manoel Augusto dos Santos para fabricação
de bonés a 600 réis. Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1862. Mss. ANRJ. IG7 360.

159
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Estabelecimentos Ramo Nº de Empresas Operários


Companhia de Iluminação Gás 1 376
Ponta da Areia Máquinas 1 350
Fructuoso Luís da Motta Galões 1 22
Antônio Salustiano de Castro Produtos químicos 1 9
Viúva Folco Vidros 1 8
João Henrique Habbert Vinagre 1 8
Pacova & Silva Metalurgia 1 5
Várias Couros 2 58
Id. Cerveja 2 28
Id. Cordoaria 2 17
Id. Fundição55 3 232
Id. Rapé 6 122
Id. Sabão e velas 15 438
Id. Chapéus 18 572
Soma 55 2245
Tabela 6 – Estabelecimentos manufatureiros 1855 e 1856.
Situação dos estabelecimentos manufatureiros que gozavam de isenção de impostos de importação entre
março de 1855 e março de 1856.56 Foram removidos da tabela onze empresas sobre as quais não se sabe o
número de operários, reduzindo a amostragem.
Sobre um período um pouco posterior, Soares cita que na exposição universal de
1861 participaram 163 estabelecimentos manufatureiros, dos quais 89 situados no mu-
nicípio neutro, a capital, inclusive nove dedicados à fundição e máquinas.57

4.3 Observações preliminares sobre a mão de obra escrava


Outro ponto característico da pré-indústria, este específico do Brasil, foi o uso de
mão de obra escrava. Nesse caso, é importante notar que existe a noção de que o traba-
lho escravo seria incompatível com seu uso em manufaturas, pois, como coloca um au-
tor, o cativo, “enquanto escravo, era incapaz de assimilar procedimentos técnicos um
pouco mais sofisticados”, 58 se chegando à conclusão, genérica, que a escravidão resul-
tava, necessariamente, em um baixo grau de sofisticação do processo produtivo.59

Esta é uma visão pré-concebida, que acreditamos ter origem em um pensamento,


aparentemente lógico, de que o proprietário não estaria disposto a investir no aprendiza-
do de seu cativo, pois isso não implicaria em um retorno imediato. Além desse suposto
óbice, a escravidão, em tese, impediria o aperfeiçoamento técnico das manufaturas, co-
mo colocado em um texto:

55
Inclui os estabelecimentos de Francisco Miers, com 145 trabalhadores e o de Caetano da Rocha Paco-
va, com 73
56
SOARES, op. cit. pp. 20-23
57
id. pp. 18-19.
58
MELLO, João Manuel Cardoso. O capitalismo tardio : contribuição à revisão crítica da formação e do
desenvolvimento da economia brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 33.
59
LIMA, Carlos A. M. Artífices do Rio de Janeiro (1790-1808). Rio de Janeiro: Apicuri, 2008. p. 203.

160
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Se passarmos a raciocinar (como convém) dinamicamente, veremos


que as coisas ficarão muito piores para a indústria escravista. O pro-
gresso técnico é próprio ao capitalismo, enquanto está, praticamente,
excluído da indústria escravista. Não somente porque existem limites
estreitos à técnica adotada, decorrentes da presença do escravo, mas,
também, porque é inteiramente irracional ao empresário elevar o grau
de mecanização, ‘sucateando’ parte do ‘equipamento’ representado
pelo mancípio antes que se esgote sua ‘vida útil’.
Conclua-se, pois, que o diferencial de custos subiria constantemente,
uma vez que o diferencial de produtividade aumentaria da mesma
forma. Não se pode imaginar, nem de longe, que uma possível dife-
rença entre a taxa de salários e o custo de manutenção do escravo
compensasse todos os fatores que apontamos.60
O problema desse argumento é o de ser preconceituoso, trabalha com uma visão
idealizada de como as coisas deviam se processar, em termos aparentemente lógicos,
mas ignora a realidade, de como de fato aconteciam. Nesse sentido, é evidente na do-
cumentação que o uso de mão de obra cativa era importante na pré-indústria do Brasil,
estando presente em praticamente todas as atividades, mesmo as que necessitavam de
maior habilidade e formação, e os motivos disso eram igualmente lógicos. Por exemplo,
no tocante ao aperfeiçoamento técnico dos cativos, Thomas Ewbank coloca que os
monges carmelitas tinham uma fazenda, onde se cultivava apenas mandioca e feijão,
mas não para venda:

os proprietários achavam mais lucrativo criar escravos do que [plan-


tar] café, ou qualquer outra coisa. Os jovens de certa idade são envia-
dos para a cidade e ligados aos ofícios, ‘pelo que se recebe o dobro do
que se estivessem empregados no plantio’.61
Ou seja, se percebia que a formação profissional de um cativo, mesmo custando
caro, em termos de lucros não auferidos e até para pagar sua educação em um ofício,
representava um investimento com retornos mais consideráveis em longo prazo do que
o trabalho braçal. De fato, Spix e Martius chegaram a notar uma vantagem do mercado
do trabalho no Brasil com relação à Europa do período: sem haver uma rígida estrutura
de corporações de ofício, era possível empregar os escravos em muitos desses ofícios,
sem maiores restrições, ao contrário do que ocorria no Velho Mundo naquele momento
(ver Figura 10).62

60
MELLO, op. cit. p. 75.
61
EWBANK, Thomas. Life in Brazil; or a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm. New
York: Harper & Brothers, 1856. p. 370.
62
SPIX, Johann Baptist von & MARTIUS Carl Friedrich Phillip von. Travels in Brazil in the years 1817-
1820. Vol. 1. London: Longman, 1824. p. 168.

161
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Figura 10 – Loja de Sapateiro.


Figura icônica de Debret, normalmente é tratada do ponto de vista de maus tratos aos cativos. A imagem,
contudo, é mais informativa sobre a formação de mão de obra qualificada. Segundo o texto que a acom-
panha, trata-se uma loja “opulenta de um sapateiro português”, 63 o proprietário, o mestre, sendo ilustrado
castigando um escravo de sua propriedade, enquanto os outros dois cativos são “diaristas”. O texto não
deixa claro se são escravos de aluguel ou escravos de ganho, apesar de cremos que esta última opinião ser
pouco provável, já que os demonstram ter certo conhecimento técnico, executando tarefas que exigem
maior habilitação, o que não seria de se esperar de pessoal não qualificado. Debret continua mencionando
que com a vinda da família real houve o costume de se importarem sapatos de Londres, se estabelecendo
na cidade artesãos franceses. Conclui o raciocínio dizendo que “foi então, sem dúvida, que os operários
negros ou mulatos empregados nessas lojas se tornaram os rivais de seus senhores”, Debret dando a en-
tender que esses operários tinham suas próprias lojas: “de fato, agora se encontra nas lojas dessa gente de
cor, toda a espécie de calçados perfeitamente confeccionados”. 64
O importante, no caso, é que a presença dos cativos era comum nas oficinas e
manufaturas de todas as escalas na primeira metade do século XIX, constituindo um
aspecto específico da pré-indústria no Brasil, por este ser um país escravista. O relatório
do ministro da fazenda de 1855, traz uma nova relação de manufaturas que tinham pri-
vilégios de isenção de impostos de importação ou exportação:

63
DEBRET, Jean Baptiste. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Tome II. Paris: Firmin Didot
Frers, 1835. p. 92.
64
id. p. 93.

162
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Empresa Ramo Brasileiros Estrangeiros Escravos Soma


Hom Mul Hom Mul Hom Mul
Villas Boas & Cia Cerveja - - 18 - - - 18
Braga & Rocha Chapéus - - 72 - 24 - 96
Bernardes & Raythe Chapéus 1 - 45 - 12 - 58
José de Carvalho Pinto & Cia Chapéus 4 - 6 - 40 2 52
Francisco Antônio da Costa Chapéus 5 9 31 - 4 - 49
João de Lemos Pinheiro Chapéus 6 5 7 - 12 1 31
José Calazans Outeiro Chapéus 8 5 3 - 14 - 30
Roberto Augusto d'Almeida Chapéus 2 3 12 - 5 1 23
André Maunier Chapéus - - 2 - 9 1 12
Pedro Desray Chapéus 1 - 2 2 4 - 9
Manoel Antônio da Silva Roxo Cordoaria - - 6 - 3 - 9
Alexandre Bristol Cordoaria - - 4 - 4 - 8
João e Francisco Miers Fundição 39 - 92 - 14 - 145
Adam Urbach Fundição 10 - 4 - - - 14
Fructuoso Luís da Mota Galões 3 - - - 14 - 17
Companhia de iluminação Gás 73 - 233 - 70 - 376
Pacova & Cia Metalurgia 4 - - - 1 - 5
Estevão Gasse Rapé - - 1 - 16 - 17
Napoleão Meuron & Cia Rapé - - 7 - 4 4 15
D. Clara Francisca Bernardes Rapé - - 1 - 10 - 11
João José da Rocha & Sobrinho Rapé - - 1 - 6 - 7
Joaquim José Pereira Guimarães Rapé - - - - 4 - 4
Lenoir & Filho Sabão 1 - 13 - 73 5 92
Companhia de luz Stearica Sabão 1 - 10 - 21 - 32
Lopes & Lousada Sabão 4 - 19 - - - 23
José Jacintho de Lima Sabão 3 - 10 - 8 - 21
Luís Manoel Bastos & Cia Sabão - - 6 - 13 - 19
Silva & Ferreira Sabão - - 11 - 7 - 18
Luiz Francisco da Silva Sabão 3 - 2 - 12 - 17
Antônio Pinto de Mesquita Sabão 1 4 3 - 7 1 16
Antônio José Pereira de Carvalho Sabão 2 - 2 - 10 - 14
Jerônimo Jacintho de Almeida & Cia Sabão - - 9 - 3 - 12
José Pereira de Menezes Sabão - 6 - - 4 - 10
João Henrique Habbert Vinagre 2 - - - 8 - 10
SOMAS 173 32 632 2 436 15 1290
Tabela 7 – Empresas estabelecidas no Rio de Janeiro.
Lista apenas as que tinham isenção de impostos no despacho de matérias primas, 1856.65
A tabela acima, parcial, pois só trata de empresas com isenção de impostos de
exportação, apresenta alguns dados que valem a pena ser discutidos, ainda que de forma
breve. De início, nos pareceu notável a grande participação de artesãos estrangeiros na
força de trabalho – eram 634, ou seja, quase metade (49%) do total, o que apoiaria uma
afirmação muito comum nos escritos de época, de que havia falta de operários no País.
Os trabalhadores livres brasileiros eram poucos, apenas 16% da amostragem, e o núme-
ro de mulheres, fossem estrangeiras, brasileiras ou escravas, era ainda mais reduzido,
praticamente irrelevante: eram apenas 49, ou apenas 3,8% do total, um ponto que cre-

65
BRASIL – Ministério da Fazenda. Proposta e Relatório do Ministério da Fazenda apresentados à
Assembleia Geral Legislativa na primeira sessão da décima legislatura. Rio de Janeiro: Tipografia
Nacional, 1857. Tabela 68.

163
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

mos ser interessante apontar, para futura referência quando tratarmos da repartição de
costuras do Arsenal de Guerra.

No entanto, mais importante em termos de um suposto modelo geral de funcio-


namento da economia brasileira é a questão da participação de mão de obra escrava,
que, como colocado anteriormente, por alguns aspectos supostamente lógicos de funci-
onamento empresarial, não deveria existir ou ser insignificante em manufaturas. Só que
a amostragem relaciona 451 cativos, ou um pouco mais de um terço da força de traba-
lho, 35% para ser mais preciso. Uma lista de empresas um pouco maior, com dados dis-
poníveis no mesmo relatório do ministro da Fazenda,66 mostra que em 51 manufaturas
havia 2008 operários, entre eles 886 cativos, ou 44%, uma percentagem ainda mais sig-
nificativa do quadro funcional. Ou seja, a mão de obra escrava, ainda na metade do sé-
culo XIX, era fundamental para se entender o funcionamento de uma manufatura no Rio
de Janeiro.

4.4 Uso de motores em uma economia pré-industrial.


Podemos dizer que o índice de mecanização das empresas existentes no Rio de
Janeiro também era baixo, ainda que os registros de uso de máquinas motrizes sejam
escassos: o conde de Gestas, escrevendo em 1837, menciona apenas uma manufatura
com máquinas motrizes, a de papel e papelão, do Sr. Gaillard, no Andaraí, mas essa era
movida por força hidráulica.67 O mesmo com relação à grande fábrica de Santo Aleixo –
instalada em 1849. Esta tinha um complemento de máquinas de diversos tipos, não só
cinquenta teares, mas também equipamentos para descaroçar, limpar e fiar algodão,
capazes de produzir um milhão de metros de tecidos por ano.

No caso da Santo Aleixo, cremos ser interessante fazer um aparte para notar a
proposta de criar uma integração vertical, não se preocupando só com o produto final, o
tecido, mas também com o principal insumo usado, o fio. Essa medida deve ter sido o
resultado de um problema específico do Brasil e que afetaria o Arsenal de Guerra em
todas as suas atividades, especialmente as de maior demanda, à produção de uniformes:
a falta de matéria prima produzida localmente, como trataremos no momento oportuno.

66
id. tabelas 68 e 69. Os dados dessas tabelas, contudo, devem ser vistos com certa cautela, pois há em-
presas que aparecem nas duas, com dados numéricos diferentes entre elas. Fizemos uma opção pelos
maiores valores de trabalhadores encontrados.
67
GESTAS, Aymar Marie Jacques. Conde de. A memória sobre o estado atual da indústria na cidade do
Rio de Janeiro e lugares circunvizinhos. O auxiliador da indústria Nacional. Rio de Janeiro, socie-
dade auxiliadora da indústria nacional, Rio de Janeiro, nº 3, 1837. p. 82.

164
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

De qualquer forma, na manufatura todos os equipamentos eram movidos por uma roda
d’agua, esta muito grande, de 9 metros de diâmetro, com a potência de 60 cavalos, mai-
or do que a maior parte das máquinas a vapor usadas em indústrias ou navios do perío-
do.68

Dados concretos sobre maquinas a vapor são mais escassos, mas existem: em
1820 já funcionava uma serraria a vapor no Rio, mas não encontramos dados sobre
ela.69 Mais tarde, a manufatura de chapéus de José Carvalho de Pinto e a de sabão e
velas de José Maria de Sá, ambas já existentes na década de 1840, tinham máquinas a
vapor.70

Na verdade, sabe-se que havia até oficinas de fabricação de motores no País, a


primeira menção a elas datando de 1816,71 enquanto na década de 1850 podemos citar
os estabelecimentos de Miers e o da Ponta da Areia, ambos fabricando motores a vapor
(ver Figura 11). A fundição de Miers, que tinha mais de uma centena de empregados em
1856, podia não só de produzir os equipamentos motrizes, mas também navios comple-
tos, de alta complexidade: em 1858 lá foi feito o Tamandatahy, um vapor de rodas de
casco de ferro – o primeiro feito no País –, tendo 28 toneladas72. Esse barco, que foi
feito especialmente para a Marinha equipar a Colônia Militar de Itapura, no Tietê, inte-
rior do estado de São Paulo, era totalmente desmontável, para poder subir a serra de
Cubatão e passar por terra pelas cachoeiras daquele rio, sua maior peça tendo apenas
175 kg, 73 de forma a poder ser transportada no lombo de mulas – um respeitável feito
para o período.

68
RIO DE JANEIRO – Governo Provincial. Relatório do Presidente de Província do Rio de Janeiro o
senador Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho na abertura da 1ª sessão da 7ª legislatura da As-
sembleia Provincial, no dia 1º de abril de 1848. Rio de Janeiro: Diário de N. L. Vianna, 1848. p. 45.
69
MATOS, Raimundo José da Cunha. Memória estatística, econômica e administrativa sobre o arsenal
do exército, fábricas e fundições da cidade do Rio de Janeiro. Vila Nova de Famalicão: s.ed. 1939.
p. 14.
70
ANDRADE, op. cit. pp. 132 e 134.
71
OLIVEIRA (2001), op. cit. p. 88.
72
O relatório do ministro da marinha de 1858 informa que o navio tinha 2800 toneladas, o que certamente
está errado. O Tamandatahy tinha 35 tripulantes, um canhão de 6 libras e 16 cavalos de motor. Cus-
tou 20 contos de réis (cerca de 21 milhões de reais de hoje) e calava 1,22 m a ré e 1,04 m avante.
BRASIL – Ministério da Marinha. Relatório apresentado a assembleia geral legislativa na Segunda
Sessão da Décima Legislatura pelo ministro e secretário de estado dos negócios da marinha, José
Antônio Saraiva. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1858. p. 6. A atualização monetária foi feita
usando o índice do custo econômico. Cf. Measuring Worth: op. cit. (acesso em outubro de 2016).
73
BRASIL – Ministério da Marinha (1858), op. cit. p. 6.

165
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Figura 11 – Motor estático fabricado por Miers & Maylor.


Peça constante da exposição Nacional de 1861, este motor oscilante era para uso fixo e não em navios,
sendo adequado para engenhos e manufaturas. No livro Recordações da exposição nacional de 1861,
estão ilustrados quatro motores feitos no Brasil: há também um pequeno, igualmente estático, da Fundi-
ção Ponta da Areia e dois do Arsenal de Marinha da Corte, um oscilante, de três cilindros, e outro, de alta
pressão e dois cilindros, ambos de uso naval, mostrando a difusão do conhecimento técnico especializado
no período.74
Ou seja, a questão da não mecanização não se devia especificamente a uma in-
capacidade técnica do País. Motores de alta complexidade e grande potência eram feitos
aqui, como discutiremos brevemente no trecho sobre a Fundição da Ponta da Areia. O
problema era, provavelmente, um de escala dos empreendimentos, o uso de máquinas
não sendo necessário em instalações de menor porte ou que podiam se valer de uso ex-
tensivo de mão de obra, relativamente barata. Por exemplo, por uma gravura publicada
em um jornal, podemos ver que outra manufatura tinha suas máquinas movidas por
meios mecânicos, a de Costa Braga & Cia. Esta, pelas tabelas do relatório do ministério
da Fazenda e por seus próprios anúncios tinha 96 operários, sendo a maior manufatura
do ramo no Rio de Janeiro, dai, talvez, se justificando a motorização da empresa.

74
INSTITUTO artístico de Fleuiss irmãos & Linde. Recordações da Exposição nacional de 1861. Rio de
Janeiro: Laemmert, 1862. Sem numeração de páginas.

166
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Figura 12 – Anúncio da manufatura de Costa & Braga. 75


Esta empresa, a maior do ramo no Município Neutro e no Brasil, se orgulhava de sua produção anual de
cem mil chapéus, como colocado no anúncio.
Aqui vale um aparte, pois, como dissemos, a Costa & Braga publicou um anún-
cio sobre a empresa, com uma imagem que, supostamente, representa suas instalações
(ver Figura 12). Esta adquire certa relevância para o presente estudo, pois é a única figu-
ra que encontramos que mostra, ainda que em desenho, uma instalação manufatureira no
Rio de Janeiro no período que estudamos.

A imagem ilustra com destaque, no seu centro, o motor vertical, a vapor, de um


cilindro, usado para mover algumas máquinas, como uma prensa de rolos, à esquerda.
O desenho também permite perceber parte da organização da oficina, aparentemente
com divisão de trabalho, já que as estações dos artesãos, à direita, são compartilhadas
por quatro trabalhadores. Isso dá a entender que uma etapa da produção do chapéu é
conduzida em cada estação, que teria apenas as ferramentas apropriadas para parte da
atividade – nestas estações não há espaço para todos os equipamentos necessários para o

75
Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 16 de março de 1864.

167
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

preparo do produto completo. Além disso, é visível o uso de um trabalhador, que supo-
mos que fosse um escravo, por ser negro, estar descalço e sem camisa. Este desenvolve
uma atividade não especializada, a de foguista, alimentado de carvão a caldeira. No cen-
tro, encostado a uma coluna, uma pessoa que cremos ser um feitor, por estar usando
uma casaca e chapéu, enquanto os trabalhadores (são ilustrados quinze deles) estão em
mangas de camisa ou sem camisa, mas não são ilustrados como negros. Finalmente, na
esquerda aparecem algumas pessoas usando casacas e cartolas, que talvez sejam fregue-
ses ou pessoal da administração da companhia. Um microcosmo de uma manufatura
“moderna”, com técnicas mais atualizadas do que o Arsenal de Guerra tinha no período,
conforme discutiremos em outro capítulo.

4.5 Alguns exemplos de manufaturas ligados às forças armadas


No campo das empresas existentes no Rio de Janeiro, podemos dizer que o go-
verno em determinado momento teve o interesse em apoiar o surgimento de manufatu-
ras civis que pudessem fornecer os produtos básicos necessários para o funcionamento
do Exército. Essa era uma necessidade evidente para o País na época, pois dependentes
totalmente de importações, o funcionamento das forças armadas – e de todo o país –
ficaria sujeito aos efeitos de um bloqueio, que poderia ser aplicado por uma grande po-
tência.

Essa questão não era um problema teórico, a experiência prévia com situações
semelhantes era marcante e recente: na Guerra da Cisplatina, as Províncias Unidas do
Rio da Prata, apesar de estarem muito inferiorizadas em termos navais, mantiveram uma
grande campanha de corso e mais de trezentos navios de comércio brasileiros foram
apresados pelos argentinos e uruguaios. 76 Entre 1844 e 1850, a ação antiescravidão in-
glesa capturou dezenas de navios negreiros, vários deles em águas nacionais, às vezes
sob o fogo de canhões de fortes, incapazes de impedir a ação britânica.77 Entre 1838 e
1845 uma esquadra francesa tinha mantido Buenos Aires sob bloqueio, o que se repetiu
entre 1845 e 1850, agora com uma força naval anglo-francesa. Foram ações observadas
de perto pelo Brasil, por causa de seus interesses no Uruguai. A solução para evitar os

76
RODRIGUEZ, Horacio & ARGUINDEGUY, Pablo E. El Corso Rioplantense. Buenos Aires: Instituto
Browniano, 1996. Anexo II.
77
MACKENZIE-GRIEVE, Averil. The Last of the Brazilian Slavers, 1851. In: Mariner’s Mirror, 31,
1945, p. 4.

168
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

piores problemas de um eventual bloqueio seria prover o país de uma infraestrutura mí-
nima de produção, em caso de necessidade.

Dessa forma, o ministro da Guerra, no mesmo ano da introdução da Tarifa Alves


Branco, 1844, já defendia a aplicação de taxas de importação mais elevadas, para prote-
ger a produção local, no caso, da fábrica de Pólvora. Chegava-se a falar no retorna da
proibição total de importação do produto78 como já tinha ocorrido até 1832. Os minis-
tros também procuravam proteção para a Fábrica de Ferro de Ipanema, igualmente ad-
ministrada pelo exército.79

Entretanto, a ação dos ministros na proteção das manufaturas não se restringia


àquelas que eram administradas pela força e que ofereciam produtos no mercado civil,
como as duas anteriormente citadas. Na documentação se encontram alguns casos em
que o Exército, através do Arsenal de Guerra, o órgão que gerenciava a aquisição de
material para a força, procurou apoiar empresas que surgiam. Não eram medidas visan-
do economia de gastos, pelo contrário, às vezes implicavam em aumento de despesas,
mas pretendiam efetivamente criar uma base de fornecimento de material para as forças
armadas, como veremos mais abaixo, como estudos de caso resumidos.

4.5.1 A Fábrica São Pedro de Alcântara


Uma das manufaturas que aparece bastante na documentação do Arsenal de
Guerra é a manufatura de algodão de João Diogo Hartley e cremos que ela merece um
comentário um pouco maior por causa da proteção do governo que empresário receberia
na forma de subsídios diretos. O primeiro desses seria um empréstimo de 100 contos de
réis, 80 apesar do empresário ter tido problemas com as condições do empréstimo. Mes-
mo com esse apoio, no final reduzido, o empresário chegou de fato a montar uma manu-
fatura, com 76 teares, movida por uma máquina a vapor de 30 HP a partir de 1848. Con-
tudo, o empreendimento, chamado de Fábrica São Pedro de Alcântara, situada no An-

78
BRASIL – Ministério da Guerra. Relatório da repartição dos negócios da guerra apresentado à As-
sembleia Geral Legislativa em 14 de maio de 1845 pelo respectivo ministro e secretário de estado
Jerônimo Francisco Coelho. Rio de Janeiro: Tipografia de Barros, 1845. p. 8.
79
BRASIL – Ministério da Guerra. Relatório apresentado a Assembleia Geral Legislativa na quarta
Sessão da nona legislatura pelo ministro e secretário de estado dos negócios da guerra, Marquês de
Caxias. Rio de Janeiro: Tipografia de Laemmert, 1856. p. 32.
80
BRASIL – Decreto nº 491, de 28 de Setembro de 1847 – Autoriza ao Governo a emprestar a Joaquim
Diogo Hartley a quantia de cem contos de réis para auxiliar a sua fabrica de tecidos de algodão,
debaixo de certas condições.

169
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

daraí (RJ), não se firmou e viria a falir muito pouco tempo depois – em 1855 o governo
já buscava meios de ressarcir os valores do contrato de empréstimo. 81

Aqui vale ressaltar que uma das razões apontadas para a falência do estabeleci-
mento de Hartley na historiografia mais moderna foi a competição com a produção es-
trangeira e a falta de mercados para seus produtos.82 Entretanto, no caso cremos ser im-
portante notar que essa falta de mercados deve ser relativizada. Já em 1849 encontramos
documentação do ministro da guerra, perguntando se os produtos da manufatura podiam
ser utilizados na fabricação de fardamentos.83 Isto seguiria os termos do alvará de 28 de
abril de 1809, que poderia já estar “esquecido”, mas não foi o caso. A decisão dos arte-
sãos do Arsenal de Guerra foi favorável ao uso dos tecidos e a partir daí foi dada uma
ordem do Ministro, determinando que só fossem importados tecidos da Europa se as
manufaturas nacionais não os pudessem fornecer.84 A medida, mesmo na época, era
vista como protecionista, um autor escrevendo:

Sabem todos que por diversas vezes se tem tentado nesta Corte, e em
várias Províncias a criação de semelhantes Fábricas, e que não só os
grandes embaraços que a natureza da empresa opõe, como os opostos
pelos importadores de algodão manufaturado, fizeram perecer essas
empresas muito breve, arrastando o aniquilamento daqueles que ai
empregaram seus cabedais.
Ao estabelecimento do Sr. Hartley não caberá melhor sorte, se o go-
verno Imperial o não proteger. Embora o estabelecimento esteja sofri-
velmente montado, embora o empresário não se poupe à sacrifícios
para vencer todas as dificuldades; o que pode tudo isto se os importa-
dores de algodão empreenderem destruí-lo? Só uma proteção obstina-
da do governo o pode fortificar. E o Ex. Sr. Manoel Felizardo [Minis-
tro da Guerra] tanto compreendeu esta necessidade, que põe em ação
todos os recursos para animar a dita fábrica dando grande extração aos
seus produtos.
Para o obter S. Ex. ordenou que no Hospital Militar, Arsenal de Guer-
ra e corpos desta Guarnição, sempre que fosse possível se empregasse
o algodão da Fábrica Brasileira; e se são exatas as notícias que temos,
S. Ex. tem em vista dar maior latitude à sua ordem.85

81
Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1855.
82
LAHMEYER LOBO, Eulália Maria. História do Rio de Janeiro (do capital comercial ao capital indus-
trial e financeiro). Rio de Janeiro, IBMEC, 1978. p. 117.
83
BRASIL – Ministério da Guerra. Expediente de 24 de novembro de 1849. Diário do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1849.
84
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do ministro Manoel Felizardo de Sousa e Melo ao diretor do
Arsenal de Guerra da Corte, José Maria da Silva Bitancourt. 14 de maio de 1850. Mss. ANRJ. IG7
404.
85
PROTEÇÃO à indústria manufatureira. O Liberal, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1850.

170
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

O Ministro da Guerra chegou até a autorizar que treze dos menores que faziam
aprendizado no Arsenal de Guerra fossem entregues a Hartley, para receberem ensino
sobre o ofício e para servirem de apoio à iniciativa. 86

Em nossa opinião, mais interessante do que poderia parecer apenas boas inten-
ções, há registros de diversas compras efetivas de tecidos na manufatura Pedro de Al-
cântara, publicados no Diário do Rio de Janeiro: em 26 de fevereiro de 1850 foi pago a
Hartley o valor de 765$750 referente a algodão vendido ao Arsenal, 87 quantia que foi
seguida por outras: em 2 de maio, 1:004$350 rs; 1:294$4000 rs em 13 de maio e assim
por diante. Além disso, o tecido da Fábrica foi usado em outros Arsenais, havendo men-
ções do envio, pelo Arsenal de Guerra da Corte, de 444 varas (488 metros) para o Ma-
ranhão e 8.140 varas (8.954 metros) de algodão para o Arsenal de Pernambuco, esta
última remessa no valor de 2:035$000 rs.

No total, encontramos no Diário do Rio de Janeiro pagamentos no total de


25$085:000 rs a Hartley, feitos em menos de dois anos. 88 Não temos como saber se este
foi o total dos desembolsos, cremos ser provável que não, pois não há um registro ar-
quivístico confiável dessas compras. De qualquer maneira, os dados existentes já mos-
tram uma quantia respeitável, considerando que corresponde a 25% do empréstimo pre-
tendido para a Fábrica São Pedro de Alcântara, mostrando a força do Exército como
consumidor de produtos manufaturados nacionalmente.

Sendo assim, o colocado pelo Ministro do Império, Visconde de Mont’Alegre,


em um relatório publicado em 1850, onde traçava um quadro dramático da situação do
estabelecimento de Hartley parece estranho, especialmente a menção à falta de mercado
consumidor:

“O Fabricante que até o presente não tinha dado o menor sinal de ar-
rependimento hoje parece esmorecido, apontando entre outras causas,
o alto preço do algodão, o empate do que existe fabricado, que sendo a
princípio mui procurado, não acha hoje compradores, o que lhe é tal-
vez devido à baixa do preço do algodão estrangeiro, e finalmente a es-
cassez do auxílio solicitado, pois tendo pedido 250.000$ não passou a

86
BRASIL – Arsenal de Guerra. Ofício do Diretor do Arsenal de Guerra, Jeronimo Francisco Coelho, ao
Ministro da Guerra, Pedro d’Alcantara Bellegarde sobre o retorno de treze menores ao Arsenal.
Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1854. Mss. ANRJ. IG7 14.
87
BRASIL – Ministério da Guerra. Expediente de 19 de fevereiro de 1850. Diário do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 26 de fevereiro de 1850.
88
A cotação padrão da vara (unidade de medida equivalente a 1,1 metros) de algodão da fábrica de Har-
tley era de 250 réis, de forma que os valores acima correspondem a 110.000 metros de tecido. Diário
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1850.

171
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

proteção de 100.000$ dos quais apenas recebeu metade; dificultando a


percepção da outra metade, por se entender que a Lei concedeu a pres-
tação exigindo fiança, não admite em lugar dela caução, que ele se
ofereceu a prestar. Esta circunstância dificultava muito o recebimento
da prestação; e diz o Fabricante que a não ter mui especial proteção do
Governo, deixará sua maquina de trabalhar por ser infalível o prejuí-
zo.89
O fato é que o empreendimento fracassou, e a manufatura fechou. Um último
“apoio” a companhia foi a compra da uma máquina a vapor, calculada como tendo 19
HP de força, bem como outras máquinas da empresa, aquisições decididas pelo Ministro
da Guerra, em julho de 1852, 90 para que o material fosse reaproveitado no Arsenal de
Guerra.

4.5.2 Sapatos Carioclave


Ainda no ramo de vestuário, outro tipo empreendimento que recebeu apoio do
governo foi a fabricação de calçados. Este era um item de grande consumo no exército –
as tabelas oficiais de fornecimento de material previam que os soldados de cavalaria
recebessem um par de sapatos e um de coturnos (botas de cano curto), a cada oito meses
e os de infantaria um par de sapatos a cada três meses, o “prazo de validade”, a duração
legal de cada calçado sendo reduzida pela metade em tempo de guerra,91 por causa do
desgaste normal em uma campanha militar – e devemos lembrar que no período de nos-
so estudo a situação de guerra era muito mais comum do que a paz. Eram dezenas de
milhares de pares de calçados comprados por ano: apenas em 1856, um ano em que o
Exército mantinha uma divisão de observação na fronteira do Rio Grande do Sul, mas
não estava envolvido em operações de guerra, encontramos anúncios para compra de
24.354 pares de calçado em fevereiro, 16.764 em agosto e 25.065 em setembro.92 Um
total de 66.163 pares, o número efetivo podendo até ser maior que esse, por falhas na
documentação.

89
BRASIL – Ministério do Império. Relatório da Repartição dos negócios do Império apresentado à
Assembleia Geral Legislativa na primeira sessão da oitava legislatura pelo respectivo ministro e se-
cretário de estado, Visconde de Monte Alegre. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1850. p. 33. O
grifo é nosso.
90
BRASIL – Comissão de Melhoramentos do Material do Exército. Parecer sobre a compra da Máquina
da Fábrica de Panos de Algodão de Hartley. Rio de Janeiro, 28 de junho de 1852. Mss. ANRJ. IG7
13.
91
BRASIL – DECRETO nº 547 de 8 de Janeiro de 1848. Aprova a Tabela dos preços de diversos artigos
de armamento, equipamento, arreios, fardamentos e mais objetos para o Exercito e Fortalezas.
92
BRASIL – Ministério da Guerra. Expedientes. Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, edições de 10
de fevereiro, 14 de agosto e 16 de setembro de 1856.

172
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Assim, em termos de incentivo à fabricação local, já em 1844, em um dos mui-


tos anúncios de compra de material pelo Arsenal de Guerra, foi solicitada a venda de
calçados para o exército, com a especificação de que eles “devem ser manufaturados
aqui”.93 Uma previsão que não encontramos em outros documentos, apesar de conside-
rarmos interessante essa especificação, já naquele ano. Isso por na época, ou pouco de-
pois, não haver grandes fabricantes de calçados no Rio de Janeiro: o Almanaque Laem-
mert, de 1856, por exemplo, lista apenas uma “fábrica”, apesar de haver muitas lojas de
sapatos.94

De qualquer forma, em 1850 foi concedido um privilégio por dez anos para João
Marcos Vieira de Sousa Pereira, o proprietário da Imperial manufatura de calçado cari-
oclave à prova d'agua.95 Este tipo de calçado, carioclave, ou coiroclave, na França, era
considerado apropriado aos militares e era usado desde 1816 – nele, a sola não era presa
ao resto do calçado por fios encerados, como era comum então, mas sim por cravos,
fixados no interior do sapato por peças metálicas. Os cravos faziam que a sola se gastas-
se no mesmo ritmo do tacão (salto) e o sapato durasse mais, 96 de forma que os exércitos
inglês e alemão usaram uma bota que seguia os mesmos princípios até pelo menos a
Segunda Guerra, pois era apropriada para o uso em campanhas.

Pensando justamente nesse uso militar, o governo provincial do Rio de Janeiro,


procurou o Ministério da Guerra para oferecer o produto da manufatura, estabelecida
em Petrópolis em outubro de 1850.97 O ministro da guerra ordenou o exame do calçado
e este foi aprovado pelos mestres do Arsenal de Guerra, o resultado sendo que em junho
do ano seguinte o ministro encaminhou ao Arsenal de Guerra o contrato feito com a
empresa, que previa a compra, a 1.600 réis a unidade, de 1.500 pares de sapatos por
mês, o número podendo ser aumentado de acordo com as possibilidades do fabricante.98
Parece que o exército tinha a intenção de comprar toda a produção da empresa, já que
ainda na vigência do contrato foi feito outro, com José Maria Palhares, um importador,

93
DECLARAÇÕES. Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 9 de fevereiro de 1844.
94
ALMANAK, op. cit. p. 628 e pp. 674 e segs.
95
BRASIL – Decreto nº 677, de 6 de Julho de 1850. Concede a João Marcos Vieira de Sousa Pereira
privilegio exclusivo por dez anos para estabelecer nesta Corte uma manufatura de calçado cario-
clave com o titulo de – Imperial Manufatura de calçado carioclave á prova d'agua.
96
LA CHAUSSURE corioclave. https://goo.gl/JupoHn. (Acesso em julho de 2016).
97
RIO DE JANEIRO – Governo Provincial. Expediente de 8 de outubro de 1850. Diário do Rio de Janei-
ro, Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1850.
98
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do ministro Manoel Felizardo de Sousa e Melo ao diretor do
Arsenal, José Maria da Silva Bitancourt, encaminhando o contrato estabelecido com a Imperial
Manufatura. Rio de Janeiro, 5 de junho de 1851. Mss. ANRJ. IG7 404.

173
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

para a venda de quatro mil pares por mês, em 1852 – curiosamente, estes custando 100
réis a mais do que da manufatura nacional.99 Ainda assim, a Imperial Manufatura tam-
bém procurou obter um contrato com a Marinha. Apesar do contrato com o Exército, só
encontramos na documentação do Arsenal uma referência ao recebimento de sapatos da
Imperial manufatura – apenas seiscentos pares, em abril de 1853, o fabricante se des-
culpando pela demora na entrega, usando como justificativa a falta de mão de obra em
Petrópolis. 100

Independente dos problemas de atraso, os sapatos efetivamente entregues não fo-


ram considerados de boa qualidade pelo Arsenal, se argumentando que os cravos “im-
pediam o uso prolongado”,101 ou seja, eram incômodos, o governo ordenando correções
no produto. Não é apontado na documentação, mas não podemos deixar de notar que o
nome da empresa, de “sapatos impermeáveis” era um embuste, pois eles certamente não
o eram, o que pode ter sido mais um problema na aceitação dos calçados.

O fato é que a empresa fechou em 1852, novamente, como no caso de Hartley,


não se podendo dizer que isso tenha sido por falta de um mercado, já que o Exército
tinha condições de comprar uma grande quantidade dos sapatos – o problema parece ter
sido do empresário, que não soube gerir sua companhia.

4.6 A Ponta da Areia


Outro importante estabelecimento manufatureiro que recebeu apoio do governo
foi a Fundição da Ponta da Areia, do Barão de Mauá. Não vamos entrar em detalhes
sobre essa manufatura, mas podemos dizer que ela era excepcional no País, tanto por
sua complexidade quanto por sua capacidade técnica.102 Suas origens estavam na Fundi-

99
BRASIL – Arsenal de Guerra. Ofício da diretoria do Arsenal, Marechal de Exército José Maria da
Silva Betencourt, ao Ministro da Guerra sobre a compra de sapatos a José Maria Palhares. Rio de
Janeiro, 9 de julho de 1851. Mss. ANRJ. IG7 13
100
CARTA de João Marcos Vieira de Souza Pereira ao oficial maior da Secretaria de Estado dos Negó-
cios da Guerra, Libanio Augusto da Cunha Mattos. Petrópolis, 29 de abril de 1852. Mss. ANRJ. IG7
13.
101
BRASIL – Comissão de Melhoramentos do Material do Exército. Parecer sobre os sapatos Coirocla-
ve. Rio de Janeiro, 28 de junho de 1852. Mss. ANRJ. IG7 13.
102
Existe uma grande quantidade de obras tratando dos empreendimentos de Mauá, especialmente a Pon-
ta da Areia, a começar pela própria defesa do Barão: SOUZA, Irineu Evangelista de. Exposição do
Visconde de Mauá aos credores de Mauá & C. e ao público. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1878.
Além dessa, podemos citar BESOUCHET, Lídia. Mauá e seu tempo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1978; CALDEIRA, Jorge. Mauá Empresário do Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. A
obra que mais utilizamos no presente trabalho foi a: MOMESSO, Beatriz Piva. Indústria e trabalho
no século XIX: o estabelecimento de Fundição de Máquinas de Ponta d’Areia. Dissertação de mes-
trado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2007. (mimeo).

174
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

ção com o mesmo nome, estabelecida pelo inglês Carlos [Charles] Colmann, em mea-
dos de 1844. O barão de Mauá, em sua Exposição, onde apresentava suas explicações
para o insucesso de suas empresas, chamava a empresa que fora comprada de uma mi-
niatura, do que seria o futuro estabelecimento. Mas a empresa de Colmann não era uma
manufatura pequena – em 1845 ela lançou ao mar uma barca a vapor, a Fluminense,
para a Sociedade Macaé-Campista, segundo a empresa, a maior embarcação feita no
Brasil até então,103 o estaleiro também sendo capaz de fundir ferro, uma tecnologia
complicada para o período. Ou seja, já havia uma importante base a partir da qual Mauá
poderia expandir seu empreendimento.

De qualquer forma, dois anos depois de Colmann estabelecer sua empresa, Mauá
comprou a fundição pois, segundo ele, “o Brasil precisava de alguma indústria dessas
que podem medrar sem grandes auxílios”. 104 No entanto, o próprio autor se contradiz ao
tratar dos “auxílios”, colocando a necessidade que havia de apoio governamental para o
empreendimento:

Desde que o estabelecimento da Ponta d’Areia ficou montado para


produzir em grande escala, havia-me eu aproximado dos homens de
governo do país em demanda de TRABALHO para o estabelecimento
industrial, cônscio de que essa proteção era devida, mormente preci-
sando o Estado dos serviços que eram solicitados, em concorrência
com encomendas que da Europa tinham de ser enviadas.105
Era um momento apropriado para a iniciativa, já que a introdução da tarifa Alves
Branco, de 1844, dava uma proteção adicional ao empreendimento, que teve um desen-
volvimento muito rápido.

103
Diário do Rio de Janeiro, 3 de junho de 1845.
104
SOUZA, op. cit. p. 8. Grifos do autor.
105
id. p. 13. Grifos do autor.

175
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Quadro de trabalhadores
800
700
600
500
400 441 505

300 343
281
265 273
200
122
100 148 181 162
85 130 101
73
0

Escravos Livres

Gráfico 19 – Evolução do pessoal do Estaleiro da Ponta da Areia.


Afora os Arsenais de Marinha e de Guerra do Rio de Janeiro, o estabelecimento da Ponta da Areia era o
maior empregador da região da cidade do Rio de Janeiro, apesar do estabelecimento estar sediado em
Niterói. Mesmo considerando a escala muito maior do estabelecimento, este acompanhava a tendência
das outras manufaturas do Rio de Janeiro, com a percentagem de escravos no corpo funcional nunca fi-
cando abaixo de 24,3%.
O Relatório do presidente de província do Rio de Janeiro de 1848 mencionava
que quando da incorporação da companhia, dois anos antes, o pessoal da empresa era de
80 trabalhadores – outra fonte informa que 28 deles (35%) eram escravos, comprados
com o estabelecimento,106 o mesmo relatório mostrando o rápido crescimento da fundi-
ção, ao informar que já havia 491 trabalhadores. Entretanto, manteve-se como uma em-
presa pré-industrial, com uma força de trabalho mista: ainda em 1848, 148 dos operários
eram escravos, correspondendo a 30% do quadro de pessoal, enquanto os estrangeiros
correspondiam a outros 36% (ver Tabela 8).
Outra relação de empregados, feita sete anos depois, aponta que dos 411 traba-
lhadores então no estabelecimento, 117 eram brasileiros, 119 portugueses e 45 de outras
nacionalidades, o único engenheiro do estabelecimento sendo um inglês. 107 Além disso,
havia 130 escravos (32% do total de trabalhadores), dos quais 45 eram “de particula-
res”, ou seja, escravos de aluguel. O número de operários ainda aumentaria mais, che-
gando a 667, em 1857. 108

106
MOMESSO, op. cit. p. 55.
107
id. pp. 124 e 125.
108
id. p. 123.

176
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Ocupações Estrangei. Brasileiros Aprendizes Serventes Escravos Total


Fundidores de ferro 26 5 12 14 18 75
Maquinistas 33 12 8 - 12 65
Modeladores 6 4 3 - 4 17
Caldeireiros 21 8 9 10 15 63
Ferreiros 9 7 - - 8 24
Operários de galvanismo 8 2 4 - 5 19
Fundidores de bronze 2 3 2 - 2 9
Carpinteiros de estala- 56 21 8 - 16 101
gem109
Carpinteiros obra branca 7 11 - - - 18
Calafates 7 5 3 - 7 22
Pedreiros/carpinteiros aux. - - - - 34 34
Serventes - - - - 27 27
Engenheiros/mestres 11 - - - - 11
Caixeiros 1 5 - - - 6
Soma 187 83 49 24 148 491
Tabela 8 – Mapa do pessoal empregado no estaleiro da Ponta da Areia em 1848. 110
Sobre os escravos da Ponta da Areia em 1855 é relevante notar que a tabela de
funcionários deixa perceber que eles não eram apenas trabalhadores braçais. A categoria
de pessoal normalmente associada com serviços manuais simples, os serventes, era to-
talmente composta por cativos, mas eram apenas 27 deles, ou 14% do total de cativos,
os outros estando listados como operários das diversas oficinas.

No outro extremo da escala de trabalhadores, os mais especializados, um ponto


que fica aparente nas duas listas de pessoal mencionadas é a falta de operários qualifi-
cados brasileiros. Dois anos depois da fundação da empresa todos os mestres e enge-
nheiros eram ingleses (dez deles) ou portugueses (um só), o que, em tese, tende a con-
firmar um problema que havia falta de pessoal técnico habilitado a trabalhos industriais
no País. Esta é uma situação que se repete na tabela de operários de 1855, pois então
nenhum dos mestres era brasileiro. É verdade que a primeira relação de operários, de
1848, mostra uma tentativa de solucionar a dificuldade de mão de obra qualificada, pois
estão listados 49 aprendizes, todos brasileiros, mas na segunda estes já não aparecem
mais. 111

Um último ponto a comentar sobre a divisão dos operários da Ponta da Areia era
a escala das oficinas: em 1851 eram dez: de fundição de ferro, de bronze, mecânica,
ferraria, caldeireiro de ferro, serralheiros, construção naval, modeladores, aparelho e

109
Não conseguimos descobrir qual seria essa especialidade. Pelo número de empregados, cremos que
seria algo como o carpinteiro de machado nos arsenais do exército e de marinha.
110
MOMESSO, op. cit. p. 124.
111
id. pp. 124 e 125.

177
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

velame e de galvanoplastia,112 esta última uma novidade técnica na época. Quatro anos
depois, havia seis delas funcionando, as de maquinistas, malhadores, 113 caldeireiros,
carpinteiros, modeladores, e calafates. As duas últimas eram muito especializadas e de
emprego restrito, com um pequeno quadro técnico, por outro lado, as quatro outras ti-
nham, respectivamente, 70, 85, 67 e 117 trabalhadores,114 mais um mestre em cada ofi-
cina, uma média de 84 operários, o que mostra a grande escala da empresa, já que cada
oficina, isoladamente, era maior do que a maior parte dos empreendimentos do Rio,
como visto antes (ver Tabela 7, acima).

A empresa também tinha uma alta capacidade técnica, em 1848 podendo fundir
peças de artilharia até de calibre 36 libras – um objeto pesando perto de 3,5 toneladas.
Isso nos dá um indicativo da capacidade da sua fundição, já que uma boca de fogo tem
que ser feita de uma vez só, de forma que os fornos tinham que ser capazes de derreter
essa quantidade de ferro, pelo menos. A empresa também podia fabricar motores a va-
por pesando até 500 arrobas (7.300 kg) e, naquele ano, se estava construindo um “savei-
ro de ferro”, com lotação de 6.000 arrobas, 88 toneladas (Figura 13). 115 Ao longo da
história da instituição, ela fabricaria 72 navios completos, alguns de grande porte, inclu-
sive o segundo vapor com casco de ferro construído no País, o Corumbá, lançado ao
mar em 1860.

112
RIO DE JANEIRO – Governo Provincial. Relatório apresentado ao Exmo. vice-presidente da província
do Rio de Janeiro, o comendador João Pereira Darrique Faro, pelo presidente, o conselheiro Luiz
Pedreira do Couto Ferraz, por ocasião de passar-lhe a administração da mesma província no dia 5
de maio de 1851. Rio de Janeiro: Diário do Rio de Janeiro, 1851. p. 28.
113
A categoria malhador, na Ponta da Areia tem um sentido diferente do que era usual no Arsenal de
Guerra. Na empresa de Niterói, o termo aparentemente é usado como sinônimo de oficina de ferrei-
ros, seu mestre sendo um inglês, tendo também 84 operários qualificados. No Arsenal de Guerra, o
malhador era um servente, trabalhador braçal dos ofícios de ferro, apesar de as vezes ser contato en-
tre o corpo de artesãos.
114
MOMESSO, op. cit. p. 125.
115
RIO DE JANERIO, Relatório (1848), op. cit. p. 45.

178
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

Figura 13 – Estaleiro da ponta Ponta de Areia, c. 1857116


Litografia colorizada. Mostra as instalações do empreendimento de Mauá. Na imagem, aparecem as ma-
deiras de construção naval, colocadas ao longo da paria, um esqueleto de navio em construção e, ancora-
do, um navio mercante de rodas, fluvial, de grande porte. Notável são as pequenas dimensões da instala-
ção, se comparadas com os arsenais de Marinha e, especialmente, o de Guerra.
Apesar da capacidade da indústria e das afirmações de seu dono, de que não que-
ria apoio do Estado, Mauá pediu – e conseguiu – um empréstimo subsidiado, de trezen-
tos contos de réis em 1848. Pago esse, solicitou outro, em 1857, também no valor de
trezentos contos. Em termos mais indiretos, o governo também o apoiou na medida do
possível com compras diretas, mas é claro que sendo um estaleiro a maior parte das
compras governamentais veio da Marinha – esta adquiriu oito navios feitos por Mauá,117
alguns de grande porte. Um exemplo seria o vapor de rodas Paraense, de madeira, com
59 metros de comprimento e deslocando 1.500 toneladas e que custou, só ele,
359:376$000 réis. 118 No caso, vale notar que a informação de Mauá, de que o estaleiro
estava habilitado a construir naus, é confirmada pelo Paraense. Este poderia ser classi-
ficado como uma fragata, mas seu deslocamento era o mesmo de uma nau de cinquenta
anos antes.

Também cremos ser interessante notar que Momesso,119 comentando brevemen-


te a questão da capacidade técnica do estaleiro, menciona que os motores feitos lá “eram
bastante simples”. Isso, por, segundo ela, a Ponta da Areia ter feito uma máquina de

116
BERTICHEM, Pieter Gotfried. Fábrica Ponta de Areia. BARÃO de Mauá, o empreendedor.
https://goo.gl/PZw7Yk (acesso em outubro de 2016).
117
Segundo BOITEAUX, seriam: Iguassu, Recife, Dom Pedro II, Paraense, Dom Pedro, Apa, Paraná,
Jaguarão e Corumbá, BOITEAUX, Lucas Alexandre. Das nossas naus de ontem aos submarinos de
hoje. Subsídios para a história marítima do Brasil. Diversos volumes. Rio de Janeiro, desde 1956.
118
Esse valor, pago em 1851, corresponde a aproximadamente a 540 milhões de reais de hoje. Cálculo de
inflação feito usando o índice de “custo econômico”, de acordo com o sítio Measuring Worth.
https://goo.gl/rtcTbc (acesso em outubro de 2016).
119
MOMESSO, op. cit. p. 77.

179
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

apenas cem cavalos, enquanto na Inglaterra se faziam máquinas de “4 milhões de cava-


los”. O comentário não faz muito sentido, primeiro, por o último número ser um grande
absurdo, pois até hoje não se produzem máquinas com essa capacidade – o maior motor
marítimo existente hoje, diesel, tem 107.000 HP. Na época, um dos maiores navios fei-
tos, o encouraçado Warrior, lançado em 1860, tinha seu motor com 5.770 iHP (indica-
ted horse power, potência calculada e 1.250 HP nominais). Em segundo lugar, a capaci-
dade do estaleiro não estava limitada a máquinas pequenas. Em termos de comparação,
o Paraense, construído para a Marinha pelo estaleiro da Ponta da Areia em 1851, tinha
máquinas de 900 iHP (220 HP nominais), 120 mostrando que o estaleiro não era atrasado.
Isso ainda mais considerando que o Paraense deslocava seis vezes menos do que o
Warrior, a empresa de Niterói tendo condições de fazer máquinas que mantinham a
relação potência/deslocamento com o grande encouraçado.

O exército também fez algumas compras na fundição: em 1851 tinha sido adota-
do um novo tipo de peça de artilharia, o canhão-obus João Paulo,121 e as peças necessá-
rias foram encomendadas na Ponta da Areia, cada uma custando 1:600$000 (peças de
24 libras) e 1:400$000 réis (peças de 12 libras, as mais comuns). 122 Só que eram muito
poucas armas – se destinavam a equipar a única unidade de artilharia de campanha do
Exército, que necessitava de apenas 24 peças. Uma bateria, seis canhões, também foi
fabricada, para ser presenteada ao governo do Paraguai em 1851 e outra foi enviada
para Mato Grosso em 1857, na crise com o Paraguai daquele ano.

O Arsenal fez outras encomendas junto a Mauá, como peças para foguetes de
Halle, máquinas para suas oficinas, como quatro prensas para fabricação de cartuchos,
instaladas no Laboratório Pirotécnico do Campinho e muita munição123 – desde a déca-
da de 1830 não encontramos menções ao fornecimento de projéteis pela fábrica de Ferro

120
BOITEAUX, op. cit. Vol. XXIV. Rio de Janeiro, 1971. p. 76.
121
A história desse tipo de canhão é desconhecida no País, apesar de ser o primeiro armamento desenhado
e fabricado inteiramente no Brasil. Pela documentação dispersa do Arsenal de Guerra, disponível no
Arquivo Nacional (série IG7 ) sabe-se que foi o material padrão da Artilharia de Campanha brasilei-
ra entre 1852 e 1861, ano em que começaram a ser substituídas por peças francesas, La Hitte. Algu-
mas ainda fizeram a campanha do Paraguai, sendo recolhidas aos depósitos apenas em 1868.
122
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do ministro Manoel Felizardo de Sousa e Melo ao diretor do
Arsenal, José Maria da Silva Bitancourt, sobre diversas compras na Ponta da Areia. Rio de Janeiro,
17 de abril de 1852. Mss. ANRJ. IG7 13.
123
Entre muitas encomendas de munição, podemos citar: BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do Mi-
nistro da Guerra Manoel F. de Sousa e Mello ao Diretor do Arsenal de Guerra, Alexandre Manoel
Albino de Carvalho, autorizando a mandar fundir no Estabelecimento da Ponta d’Areia vinte mil
balas de ferro para pirâmides de calibre 30 e de 24. Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1859. Mss.
ANRJ. IG7 406.

180
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

de Ipanema, que deveria fornecer este insumo para o exército – e outros equipamentos,
inclusive armas: 2.000 lanças para cavalaria, em 1860 (ver Figura 14). 124

Figura 14 – Canhão feito na Fundição Ponta da Areia, 1857.


Esta peça, resultado de um projeto do operário do Arsenal de Guerra José Francisco Barriga, foi feita na
Ponta da Areia por ordem do ministro da Guerra, Marquês de Caxias,125 como uma forma de testar um
conceito, de uma peça capaz de disparar duas balas ao mesmo tempo. Ela segue os princípios de um de-
terminado tipo de boca de fogo do Império Russo,126 mas não foi muito usado fora de lá e o experimento
não deve ter sido um sucesso no Brasil, já que não foi adotada. Este é um dos poucos objetos que se co-
nhece que foram feitos na Ponta da Areia que chegaram aos dias de hoje e representa um elevado grau de
capacidade técnica – maior do que o usado n as peças de artilharia feitas no Arsenal para a Guerra do
Paraguai.127
Deve-se dizer que todas as compras feitas pelo Exército, apesar de expressivas,
não se comparavam com a renda obtida na venda de apenas um navio como o Paraense.
Assim, não se pode considerar que o Arsenal de Guerra tenha sido decisivo para a exis-
tência da Ponta da Areia, mesmo que tenha sido feito um esforço para ajudar o empre-
endimento, na medida do possível.

O apoio indireto do governo, entretanto, sofreu um baque maior a partir de 1857,


com a mudança da política tarifária do Império. Primeiro, pelo decreto nº 1.914 daquele
ano, as matérias primas deixaram de ter isenção de impostos de importação, aumentan-
do o custo da produção e dificultando a competição com produtos importados. Isso foi

124
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do Ministro, Rego Barros, ao diretor do Arsenal de Guerra,
Coronel Alexandre Manoel Albino de Carvalho, sobre diversas encomendas feitas na Fundição da
Ponta da Areia. Rio de Janeiro, 19 de junho de 1860. Mss. ANRJ. IG7 368.
125
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do Ministro da Guerra, Marques de Caxias, ao Diretor do
Arsenal de Guerra da Corte, autorizando a fundição de José Francisco Barriga. Rio de Janeiro, 26
de fevereiro de 1856. Mss. ANRJ. IG7 522.
126
HOGG, Ian V. A History of artillery. London, Hamlyn, 1974. p. 11
127
MUSEU Histórico Nacional, peça número de inventário SIGA 15.884. Para efeito de comparação co m
um canhão fundido no Arsenal de Guerra, ver a peça nº SIGA 15.883, fabricada em 1867. Deve-se
dizer que em 1856 o Arsenal de Guerra ainda era incapaz de fabricar canhões.

181
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

uma medida que afetou até os estabelecimentos do governo, pois até então era possível
que um importador que vendesse para o Arsenal de Guerra conseguisse “isenção de
direitos”, o que ficou expressamente proibido pelo decreto, implicando em um aumento
dos preços do material adquirido pelas forças armadas.128

O golpe mais importante nas manufaturas privadas como um todo foi a tarifa
Silva Ferraz (decreto nº 2.684, de 3 de fevereiro de 1860), que diminuiu as taxas de im-
portação de diversos produtos acabados. Além disso, houve uma mudança na política do
governo, que deixou de dar o apoio a manufaturas locais que era visível na documenta-
ção anterior. Mauá reclamou disso, ao falar dos investimentos feitos em suas oficinas:

achavam-se elas preparadas para produzir em grande escala os varia-


dos produtos que ali se manipulam; porém falharam em sua totalida-
de as encomendas do governo, e o serviço particular era mínimo; foi,
portanto, preciso fechar as portas das oficinas à mingua de traba-
lho.129
Na verdade, o Arsenal de Guerra continuou a colocar encomendas junto a Ponta
da Areia por vários anos, como um contrato para seis mil granadas La Hitte, em
1861.130 Mas os próprios canhões La Hitte, que seriam a base da artilharia de campanha
do Exército por vários anos, foram comprados no exterior ou fundidos no Arsenal de
Marinha – 36 canhões foram encomendados naquela repartição governamental em
1862,131 uma medida de economia para o governo, mas que privava o estaleiro de servi-
ços.

De qualquer maneira a Tarifa Silva Ferraz, bem como medidas liberando a na-
vegação de cabotagem a navios estrangeiros (lei 177, de 9 de setembro de 1863), certa-
mente representaram sérios problemas para as manufaturas nacionais – era mais fácil
contratar um navio estrangeiro do que mandar fazer um em um estaleiro local, como o
de Mauá ou Miers & Maylor. Como colocou Ferreira Lima, a nova postura representada
pela lei de 1860 “prejudicou enormemente a Ponta da Areia, levando-a a uma decadên-

128
BRASIL – Arsenal de Guerra. Ofício do diretor do Arsenal de Guerra, Marechal João Carlos Pardal,
ao Ministro da Guerra, Manoel Felizardo de Souza, sobre a compra de quatro mil capotes salvos
dos direitos da alfândega. Rio de Janeiro, 20 de março de 1848. Mss. ANRJ. IG7 10.
129
SOUZA, op. cit. p. 10. Grifo do autor.
130
BRASIL – Ministério da Guerra. Portaria do Marques de Caxias, ministro da guerra ao diretor do
Arsenal. Autorizando mandar fundir na fábrica da ponta da areia as balas para as peças raiadas.
Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1861. Mss. ANRJ. IG7 526.
131
BRASIL – Ministério da Guerra. Aviso do ministro da Guerra, Polidoro da Fonseca Quintanilha
Jordão, ao coronel diretor do Arsenal de Guerra, José de Vitória de Soares d’Andrea, remetendo
bocas de fogo inutilizadas para o Arsenal de Marinha para fundição de trinta e seis canhões de ca-
libre quatro do sistema La Hitte. Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1862. Mss. ANRJ. IG7 515.

182
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

cia que lhe foi fatal”,132 a Fundição fechando em 1868, o encerramento de suas ativida-
des podendo ser considerado como representativo do fim do primeiro surto manufaturei-
ro civil do País.

Sendo assim, a fundição de Mauá – que foi o que consideramos ter se aproximou
mais do conceito de indústria piloto de Braudel, no Brasil, não conseguiu se firmar –
apesar dela ter apoiado a ação de outras empresas, fornecendo materiais. Não conseguiu
vencer a “rigidez e inércias” nas economias pré-industriais, como colocava Braudel.

4.7 Siderúrgicas
Fazemos essa entrada por causa da Fábrica de Ferro de São João de Ipanema,
pois esta foi parte da estrutura manufatureira do Ministério da Guerra, que vai ser abor-
dada no capitulo 6.

Sempre houve uma pequena produção de ferro no País no período colonial, arte-
sanal, usando forjas catalãs, o metal sendo usado, inclusive, na produção artesanal de
armas.133 O barão Eschwege, autor do Pluto Brasiliensis, escreveu:

Por ocasião de minha chegada a Minas, em 1811, era comum esse


processo bárbaro de produção de ferro. A maioria dos ferreiros e
grandes fazendeiros que possuíam ferraria, tinham também o seu for-
ninho de fundição, sempre diferente um do outro, pois cada proprietá-
rio, na construção, seguia suas próprias ideias.134
O barão menciona que nenhum dos fornos em Minas Gerais produzia mais que
7,5 kg de ferro por jornada, a exceção sendo de uma instalação que já tinha característi-
cas mais modernas, usando um fole movido por roda d’água, que também acionava uma
serra. Esse caso é particularmente interessante, pois: “O proprietário possuía várias for-
jas de ferreiro para fundição de ferro, e uma pequena máquina de perfurar, para fabrica-
ção de canos de espingarda”.135

Como colocado por Eschwege, a quantidade total de metal feito nessas forjas
não era muito grande: a proposta de criação da fábrica de ferro de Araçoiaba, em 1682
em São Paulo, previa a operação de cinco forjas, com a capacidade de produção de tre-

132
LIMA, Heitor Ferreira. História político-econômica e industrial do Brasil. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1973. p. 264.
133
CALDEIRA, Jorge. História do Brasil com Empreendedores. São Paulo: Mameluco, 2009. p. 137.
134
ESCHWEGE, W. L. von. Pluto Brasiliensis. Vol. II. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944. p.
341.
135
id. pp. 341-342.

183
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

zentos quilos de ferro por dia no total e 72 toneladas por ano.136 A quantidade pode pa-
recer expressiva, mas deve-se ter em mente que havia muitas perdas, pois o material
tinha que ser processado para a obtenção de metais da qualidade e quantidade necessária
para os serviços de uma indústria.

O consumo, por sua vez, era elevado: o único documento que encontramos sobre
pedidos de ferro para o Arsenal é de 1798, quando se pedia a importação de cerca de 76
toneladas de ferro em barra para as suas oficinas, tonelagem que se fosse realmente ad-
quirida equivaleria a 34,5% de todas as importações de ferro que efetivamente passaram
pela Alfândega do Rio de Janeiro naquele ano.137

Mesmo as quantidades mencionadas para apenas um trabalhador eram avultadas:


em 1849, quando foram contratados espingardeiros para servir no Arsenal de Mato
Grosso, foi preparada uma extensiva lista de materiais necessários para eles, para quatro
anos de atividades. Só de limas, de vários tipos, eram relacionadas quase três mil, todas
feitas de aço de alta qualidade, pesando perto de uma tonelada. Além disso, se requisi-
tava para cada trabalhador seiscentos quilos de ferro, dos quais 120 de aço, metal de
maior qualidade, mais difícil de obter e mais caro.138 Isso representava um gasto anual
de aproximadamente quatrocentos quilos de ferro e aço por trabalhador. O consumo
pode ser avaliado quando vemos que apenas a pequena oficina de reparos de armas do
Arsenal de Guerra no mesmo período, tinha quatorze operários e oito aprendizes, 139 sem
incluir a Fábrica de Armas da Conceição (ver capítulo 8). Obviamente, o consumo de
uma região geográfica maior era bem significativo: Eschwege menciona a passagem de
108 toneladas de ferro e vinte de aço por ano nos postos fiscais de Minas Gerais, no
final do período colonial. 140

Assim, a quantidade de forjas que existia no País – por comuns que fossem – só
tinha uma capacidade muito limitada, mesmo para atender ao próprio consumo local das
fazendas, sendo incapaz de fornecer material para as necessidades de oficinas, ainda que
136
TAUNAY, Affonso de E. História geral das bandeiras paulistas. Tomo X. São Paulo: Imprensa Ofi-
cial do Estado, 1949. p. 218.
137
Sobre requisição de ferro ver SANTOS, Manoel Francisco dos. Relação do que se precisa para forne-
cimento do real trem do Rio de Janeiro (...). Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 1798. Mss. Biblioteca
Nacional, I-31,21,40 Para ver as importações de ferro que passaram pela alfândega consultar AR-
RUDA, José Jobson de. O Brasil no Comércio Colonial. São Paulo, Ática, 1980. p. 562.
138
BRASIL – Arsenal de Guerra. Ofício Nº. 34, do diretor do Arsenal de Guerra, Antônio João Rangel de
Vasconcelos ao Ministro da Guerra, Manoel Felizardo de Souza e Mello. Rio de Janeiro, 30 de abril
de 1849. Mss. ANRJ. IG7 10.
139
id.
140
ESCHWEGE, op. cit. p. 440.

184
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

artesanais. Tentativas de fabricação de metal foram feitas, todas pré-industriais, como a


fábrica de ferro de Sorocaba, da década de 1760, uma empresa privada com apoio esta-
tal que, entre outros objetivos tinha a proposta de fornecer munição para as forças ar-
madas:

Segundo o que V. Ex.ª me refere da fábrica de ferro, eu me não desa-


nimara a poder conseguir dela as balas, bombas e granadas, em que
lhe falei, pois se poderiam fazer, suprindo-se com um proporcionado e
pequeno forno e instrumentos conducentes à mesma manufatura. 141
O documento também mencionando a possibilidade de fabricação de ferro “para
outra qualidade de obras de ferraria, armaria e serralheiros (...)”. 142 Mas o empreendi-
mento não deu certo.

No século XIX, o governo decidiu fazer investimentos diretos na fabricação de


ferro, apoiando a Real Fábrica do Morro do Pilar, em Minas Gerais, e a de Ipanema, em
Sorocaba, São Paulo. A primeira era para ter três altos-fornos e doze fornos de refino,
capazes de suprir a demanda de todo o Brasil e até para exportar para países vizinhos.
Contudo, a empresa não teve sucesso, Libby considerando como um das causas a pró-
pria grandiosidade da proposta, além de problemas administrativos e ao fato da empresa
só funcionar com pessoal técnico estrangeiro. 143 Uma segunda tentativa foi feita com a
Fábrica de Ferro de Ipanema, que trataremos no capítulo 6.

Em termos de empresas privadas, foi aberta a Fábrica de Ferro Patriótica, em


Congonhas do Campo, sob a direção do barão de Eschwege, com quatro pequenos for-
nos, produzindo uma média anual de 13,6 toneladas de ferro, 144 uma quantidade sufici-
ente para gerar lucros para a empresa, mas muito reduzida para suprir as necessidades
militares, muito menos as civis. Entretanto, ela é um sinal que havia um mercado con-
sumidor para o ferro e que a sua exploração econômica era viável, tanto é que várias
outras siderúrgicas elementares surgiram em Minas Gerais: Eschwege menciona a exis-
tência de mais de trinta delas por volta de 1821, cada uma produzindo apenas de uma
tonelada e meia a seis toneladas de ferro por ano.145 Para dez anos depois, Libby cita 35

141
CARTA de Luiz Diogo Lobo da Silva, governador da Capitania de Minas Gerais a Luís António de
Sousa Botelho Mourão, governador da Capitania de São Paulo, Vila Rica, 21 de setembro de 1766.
DOCUMENTOS interessantes. Vol. XIV. São Paulo: Industrial de São Paulo, 1895. p. 182.
142
id. p. 182.
143
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas no século XIX.
São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 136.
144
id. p. 138.
145
ESCHWEGE, op. cit. p. 442.

185
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

fundições, mas a produção certamente ainda era reduzida: o autor encontrou dados par-
ciais, que mostram que trabalhavam nessas instalações 242 escravos e 72 jornaleiros,
sendo que 55 escravos estavam concentrados em uma instalação, a Patriótica.146 No
caso, a média de trabalhadores era oito cativos e dois livres por unidade, obviamente
sendo pequenas oficinas artesanais, o que, com umas poucas exceções, parece caracteri-
zar a situação da produção metalúrgica de Minas Gerais na primeira metade do século
XIX. Estas empresas sobreviveram e até se desenvolveram por causa do isolamento
geográfico, como apontado em um relatório do ministério da Guerra:

Se as províncias marítimas podem fornecer-se de ferro por preço razo-


ável, independentemente de fábricas nacionais, o mesmo não acontece
às centrais.
Alguns fornos catalães mantinham-se, e talvez que ainda hoje existam
na província de Minas Gerais, dando a seus empresários benefícios,
que os convidavam a não trocarem esta por qualquer outra indústria.
O alto preço dos transportes opõe forte barreira à concorrência de gê-
neros estrangeiros da mesma qualidade; e o interesse individual se en-
carregará de melhorar a manipulação, obtendo assim melhores e mais
abundantes produtos com menor dispêndio.147
No entanto, a introdução das ferrovias em Minas Gerais levaria ao fim desse tipo
de atividade, mas isso ocorreu fora o recorte de nosso estudo. No meio tempo, o gover-
no tentou implantar suas próprias unidades de produção desse insumo vital, como será
tratado na parte sobre as manufaturas militares.

4.8 Encerrando o capítulo


Perdemos certo tempo discutindo os números acima, na tentativa de mostrar que
houve um desenvolvimento manufatureiro, com certo aprimoramento técnico, mas não
se pode dizer de forma alguma que estava se iniciando um movimento de industrializa-
ção. Era uma situação claramente pré-industrial e uma em que o trabalho escravo ainda
era um elemento fundamental para o entendimento de qualquer empreendimento, mes-
mo os mais complexos.

Os números também servirão para contextualizar a situação do Arsenal de Guer-


ra que, como veremos, era claramente excepcional no período, a única comparação pos-
sível no ramo privado sendo o Estaleiro da Ponta da Areia. Este último, em certos as-
pectos, era moderno, mas, curiosamente, em outro, especificamente o uso de mão de

146
LIBBY, op. cit. p. 164.
147
BRASIL – Ministério da Guerra. Relatório do ministério da Guerra apresentado à Assembleia Geral
Legislativa na terceira sessão da décima legislatura pelo ministro Manoel Felizardo de Souza e
Mello. Rio de Janeiro: Laemmert, 1859. p. 15.

186
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

obra escrava, assumia um aspecto mais arcaico. Como Braudel coloca, era uma instala-
ção em que convivia a rigidez, inércias de uma sociedade pré-industrial, com os “mo-
vimentos limitados e minoritários, mas vivos e poderosos, de um crescimento moder-
no”.148

Finalmente, outro problema que fica evidente, especialmente pela experiência


siderúrgica em Minas, é a não existência de integração entre as diferentes regiões do
país, por causa de um precário sistema de comunicação, um tema tratado como caracte-
rístico das economias pré-industriais. 149 A questão de mercados para as manufaturas
cariocas aparece apenas com relação ao Rio de Janeiro, os empreendimentos não se be-
neficiando muito de possibilidades abertas para o fornecimento de outras províncias.
Nesse caso, o Arsenal de Guerra da Corte, agindo como central de compras de todo o
Exército, até tendia a superar parte desse problema, como no caso do envio de tecidos
para outras instalações manufatureiras, mas é evidente que isso foi insuficiente para
garantir uma integração entre as diferentes regiões.

Quanto ao tamanho reduzido dos empreendimentos, os números ilustrados na


Tabela 7, além de permitirem uma noção de escala dos existentes, mostram um proble-
ma com relação às necessidades do Exército: as compras normais feitas pela força mili-
tar variavam muito. Assim, uma mesma relação de objetos, requisitados em 1838 para
as tropas em operações no Rio Grande do Sul contra os Farrapos, podia incluir dois sin-
gelos quadrantes e, ao mesmo tempo, dois mil chapéus, uma quantidade de vulto. 150 O
problema disso é que poucas das manufaturas existentes tinham condições de receber as
encomendas de maior porte, que podiam surgir de forma inesperada e muitas vezes ti-
nham que ser atendidas de forma emergencial.

Os problemas de fornecimento podem ser vistos no caso de 1851, quando se


mobilizou o exército para atuar no Uruguai, na campanha contra Oribe e Rosas. Isso
envolveu o envio de tropas de todo o Brasil, inclusive algumas do Norte e Nordeste. Era
necessária a compra de capotes para abrigar os soldados do frio que podia ocorrer no
Sul, de forma que foi necessário recorrer ao comércio para suplementar as peças que
eram fabricadas no Arsenal. Assim, foram colocados anúncios na imprensa para a com-

148
BRAUDEL (1979), op. cit. p. 258.
149
id. p. 6.
150
BRASIL – Exército em Operações. Relação dos objetos precisos ao Exército na Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul, Antônio Elizário de Miranda e Brito. Quartel General em Porto Alegre,
18 de dezembro de 1838. Mss. ANRJ. IG7 323.

187
Capítulo 4 - Pré-indústria e o primeiro surto manufatureiro no Brasil

pra de seis mil capotes em janeiro daquele ano.151 Todos os que se apresentaram para a
venda foram importadores, pois não havia nenhuma empresa no Rio que pudesse fazer o
fornecimento com peças fabricadas localmente, apesar do valor ser bem elevado. Pela
menor proposta, de 6$800 réis por capote, “livre de direitos”, isso é, sem pagar os im-
postos de importação, se atingia um total, nada desprezível, de 40:800$000 réis. No
entanto, o produto importado era bem mais barato do que o feito por alfaiates privados
no Brasil (14$000 réis por unidade) ou mesmo no Arsenal de Guerra (10$730 réis por
peça).

O importante é que simplesmente não havia uma empresa nacional que pudesse
atender com produtos locais as necessidades do exército naquela situação e mesmo o
Arsenal teria imensa dificuldade em fazer o fornecimento, tanto é que se preferiu a im-
portação. Nessas circunstâncias, fica evidente que a implantação de uma manufatura
nacional seria muito difícil, ainda mais considerando a competição com os preços pagos
em Londres, muito inferiores aos locais. 152

Havia algumas soluções possíveis para resolver os problemas de demandas do


exército, como a criação de estoques de reserva, ou ativar a produção das instalações
dos arsenais. Outra medida seria o apoio à formação de manufaturas locais que pudes-
sem suprir o governo em situações normais, nem que fosse como fornecedores de maté-
ria prima não processada. O exército tentou todas as opções, delas, a mais simples, já
que não dependia de fatores externos, foi a expansão e manutenção das instalações do
Arsenal, como trataremos nos capítulos seguintes.

Também se intentou o apoio direto a empresas que tentavam se instalar, como


foi o caso da Fábrica São Pedro de Alcântara e da Imperial Manufatura de calçado cari-
oclave, que foram consideradas de interesse pelo Ministério da Guerra. Estas forneceri-
am elementos indispensáveis para a entrega de um produto de maior consumo, o uni-
forme dos soldados. Entretanto, apesar da intenção dessa ação servir de apoio às empre-
sas estar claramente presente na ação do governo, nenhuma das ações resultou em um
efeito de atrair, para as empresas privadas, “os capitais, os benefícios e a mão de obra”
para “repercutir sobre os setores vizinhos e incentiva-los”, 153 como colocou Braudel.

151
Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 1851.
152
O Brasil e o Sr. Ministro da Guerra. O LIBERAL: periódico político e literário. Rio de Janeiro, 5 de
março de 1851.
153
BRAUDEL (1979), op. cit. p. 263.

188
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Sumário

5 A pré-indústria e a produção de artigos militares


5.1 Uniformes
5.2 Fabricação de Canhões
5.2.1 Aspectos técnicos
5.2.2 O sistema Gribeauval e a padronização
5.3 Manufatura de armas de fogo
5.3.1 As peças intercambiáveis
5.4 A fábrica de moitões.
5.5 O surgimento da moderna indústria
5.6 A Fábrica moderna

191
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

5 A pré-indústria e a produção de artigos militares

No capítulo anterior, ao tratarmos do conceito de pré-indústria, apontamos que a


produção de artigos militares no mundo ocidental no século XVIII não era qualitativa-
mente muito diferente do que ocorria no Brasil no mesmo período ou mesmo na primei-
ra metade do século seguinte. A principal distinção que era visível era de escala – os
grandes exércitos europeus exigiam a produção de quantidades muito superiores às ne-
cessidades das forças armadas de Portugal e da sua colônia americana ou às do Império
do Brasil. Na França, só a Fábrica de Armas de Saint-Étienne, um dos quatro arsenais
estatais franceses, produziu mais de vinte mil espingardas por ano entre 1765 e 1769,1
um total que superava em muito os efetivos, tanto do exército Português ou do Brasil
Imperial em um período posterior.

Não eram, portanto, necessárias instalações manufatureiras de porte maior em


Portugal, o que se encaixava bem na filosofia do funcionamento de suas forças armadas,
trazida em parte para o Brasil. No século XVI os lusitanos estavam na frente dos acon-
tecimentos da Revolução Militar (ver capítulo 2), pelo menos em um setor, o naval.2
Seu sistema de controle do comércio asiático dependia da presença de navios de guerra
do estilo europeu, armados com canhões, para operarem contra as galeras de remos dos
otomanos no Índico e no Mar Vermelho, seus principais inimigos no início do século
XVI. A questão chave era que os navios de alto bordo, com propulsão a vela, tinham os
costados livres para a instalação de canhões, o que era exatamente o contrário do que do
que acontecia com as galeras, onde o único espaço disponível para colocar as bocas de
fogo era a proa, que só podia acomodar umas poucas peças.

Para se aproveitar do maior poder de fogo que os navios europeus permitiam, era
necessário equipar os galeões com o maior número de canhões possível, e Portugal es-
teve adiantado nas técnicas de produção de bocas de fogo de bronze no século XVI e na
primeira metade do XVII, 3 chegando a montar fundições de Canhões na Ásia4 e até no

1
ALDER, Ken. Engineering the Revolution: Arms & Enlightenment in France, 1763-1815. Chicago: The
University of Chicago, 2007. p. 173.
2
Para uma discussão sobre a Revolução Militar na Ásia Portuguesa, ver: CASTRO, Adler Homero Fon-
seca de. Guerra e sociedade no Brasil Colonial: a influência da guerra na organização social 1500-
1665. Niterói: Dissertação de mestrado, UFF, 1995. (mimeo).
3
Para uma discussão disso ver: GUILMARTIN, John Francis. Gunpowder & Galleys: Changing Tech-
nology & Mediterranean warfare at sea in the 16th century. London: Conway, 2003. pp. 272 e segs.
4
Viterbo menciona a existência da fundição no Estado da Índia como já existindo há algum tempo em
1589. VITERBO, Sousa. Fundidores de artilharia. Lisboa: tipografia universal, 1901. p. 35.

192
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Brasil, 5 apesar de não se conhecerem maiores dados sobre essa última instalação – há,
contudo, vários exemplares de canhões feitos na Ásia Portuguesa, inclusive em museus
britânicos, como o fort Nelson, onde está um grande canhão de 48 libras, feito por Pedro
Dias Bocarro em 1640, na cidade de Chaul.6 Da mesma forma, há em museus várias
peças feitas na fundição de Lisboa no século XVII, sendo visível a grande qualidade
técnica deles, como no caso das recuperadas no naufrágio do galeão Santíssimo Sacra-
mento, que afundou em 1668.7

No entanto, depois da Guerra de Restauração (1640-1668), Portugal perdeu essa


capacidade técnica – sua marinha tinha passado a ser de segunda ordem e não havia a
mesma necessidade de fabricar boa artilharia. As bocas de fogo portuguesas existentes
no Museu Histórico Nacional e no Museu Militar de Lisboa, que datam da primeira me-
tade do século XVIII são, em sua maior parte, holandesas, havendo até algumas italia-
nas,8 feitas sob encomenda para Portugal.

A perda da capacidade técnica dos lusitanos em produzir canhões de bronze se


somava ao fato de que eles, pelo menos até o século XIX, não fabricaram canhões de
ferro fundido. Este material tinha uma série de inconvenientes para uso militar, oriundos
do próprio metal: a resistência a esforços de tensão no ferro fundido é muito mais baixa
do que a do bronze. Desta forma, para uma peça de ferro ter a mesma resistência do que
uma de bronze era necessário dar-lhes maior espessura, o que aumentava seu peso e
tornava seu uso em campanha impossível, pelo menos nos calibres maiores. 9 Um ca-
nhão de ferro de calibre 6 pesava 66% a mais do que uma arma do mesmo calibre e
comprimento feita de bronze. 10 No entanto, o preço das armas feitas de ferro era muito
inferior, de forma que elas eram as preferidas para fortificações e navios, onde a questão

5
MORENO, Diogo de Campos [suposto autor]. Livro que dá razão ao Estado do Brasil. Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro, 1969. Edição fac-similar de manuscrito de 1612, sem numeração de pá-
ginas.
6
ROTH, Rudi. Portuguese bronze Leão, drawing nº 365. Journal of the Ordnance Society, volume 7,
1995. Capa.
7
Sobre o tema, ver: GUILMARTIN, John Francis. Os canhões do Santíssimo Sacramento. Navigator, Rio
de Janeiro, Serviço de Documentação Geral da Marinha, n. 17, dez. 1981.
8
O Museu Histórico Nacional, por exemplo, tem três peças de 1714, fundidas por Giacomo Rocca, arte-
são de Gênova. Peças do Sistema Informatizado de Gerenciamento de Acervos – SIGA 015890,
015893 e 015900.
9
MONGE, Gaspard. Description de l'art de fabriquer des canons : faite en exécution de l'arrêté du Co-
mité de salut public, du 18 pluviôse de l'an II de la République française, une et indivisible. Paris:
Comité de Salut Public, [1792]. p. 42
10
CARUANA, Adrian B. The identification of British Muzzle Loading Artillery : Part 2, the piece. The
Canadian Journal of Arms Collecting. vol. 22, n° 1 (Feb. 1984). pp. 15 e 16.

193
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

do peso não era tão crítica. Como esses usos eram os que necessitavam do maior núme-
ro de bocas de fogo, a produção de peças de ferro era maior.

Apesar das vantagens do material, Portugal, no período colonial, não produziu


peças de ferro11 – estas necessitavam de um alto-forno, capaz de atingir as temperaturas
necessárias para derreter o metal, mais de 1.500 graus. Dessa forma, os lusitanos tive-
ram que procurar fornecedores alternativos quando da Guerra da Restauração e, depois
daquela data, o país passou a depender cada vez mais da importação de armamentos
pesados para o fornecimento de seus exércitos, a ponto de, em 1694, por exemplo, ter
sido o maior importador individual de canhões de ferro feitos na Suécia.12 No Brasil,
apesar de haver vários canhões suecos, especialmente no Nordeste, as peças que são
mais comuns nos fortes costeiros são inglesas, vendidos a preço de sucata para Portugal
ou para o Brasil Império. 13

De qualquer forma, o marquês de Pombal, dentro de sua política de promoção de


manufaturas, voltou a incentivar a produção de canhões de bronze em Portugal, na fun-
dição de Lisboa – a lenda dizendo que foi necessário o envio de artesãos para a Inglater-
ra para reaprenderem o ofício de fabricação deste tipo de material.14 Certamente, o
grande hiato na produção de armas incentivava, e era ao mesmo tempo o resultado, de
uma cultura em que não se dava ênfase à questão da produção de armas local, Portugal
continuando a depender da importação de material estrangeiro. Isso era ainda mais evi-
dente no campo das armas portáteis, área em que o país não tinha uma tradição, apesar
de haver armeiros locais que faziam armas de qualidade. Só que isso era em pequena
escala e mais para atender ao comércio de luxo.15

11
Refutando essa afirmação, que aparece em alguns autores, o autor do livro “A espingarda perfeita”, do
início do século XVIII, escreveu que “o nosso [ferro] tem excelentes provas na fundição de artilha-
ria”. FIOSCONI, Antônio & GUSERIO, Jordam. Espingarda Perfeyta. Lisboa: Antônio Pedrozo
Galram, 1718. p. 26.
12
CIPOLLA, Carlo M. Guns Sails and Empires: Technological innovation and the early phases of Euro-
pean Expansion, 1400-1700. Manhattan, Sunflower University Press, 1988. p. 56
13
BRASIL – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Inventário Nacional de Artilharia.
Pará e Amapá. Belém: IPHAN, 2000. (mimeo).
14
BRASIL – Museu Histórico Nacional. Inventário Geral. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional,
1990. (mimeo). Dossiê da peça SIGA 015897.
15
Chegou a haver duas obras tratando especificamente da fabricação de armas em Portugal: STOOTER,
João. Spingardeiro com conta, pezo, & medida. Anvers: Henrio & Cornelio Verdussen, 1719. Tam-
bém havia o já citado Espingarda Perfeyta.

194
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Produtos menos acabados e de um nível tecnológico mais baixo, 16 como era o


caso das armas militares em geral, certamente eram feitos em Portugal – Souza Viterbo
reproduz um contrato de 1654 de um armeiro, Antônio Cacela, para o fornecimento de
400 arcabuzes em um ano para o governo.17

O contrato com Cacela é interessante por diversos aspectos. Primeiro, o artesão


se classifica como “serralheiro” e não como armeiro, indicativo que sua profissão prin-
cipal não era no ramo. Além disso, são mencionadas as “oficinas de armas de sua ma-
jestade” em Alcobaça, uma cidade que nunca teve um arsenal, as tais oficinas se tratan-
do provavelmente de um trem para reparos de armas, do tipo que havia nas capitanias
do Brasil. Também parece relevante o próprio contrato, com um armeiro que se coloca-
va como empregado de S. Majestade, mas assumia uma obrigação comercial, uma práti-
ca comum em outros locais, como nos Arsenais franceses, como trataremos mais abai-
xo. Finalmente, o próprio número de armas contratadas – quatrocentas por ano –, apesar
de parecer pequeno, era bem mais do que um armeiro sozinho ou mesmo uma pequena
oficina, com mais um ou dois oficiais18, podia produzir em um ano – cada fecho levava
dois dias para ser feito por um armeiro especializado. 19 Tudo indica que Cacela era um
pequeno empreendedor, subcontratando a manufatura de peças entre outros armeiros,
um padrão que era comum no resto da Europa.

Uma situação semelhante ocorreu com as Reais Ferrarias de Figueró e Tomar,


que foram arrendadas a Francisco Dufour em 1663, para a produção de artigos de ferro
para o exército, especialmente folhas de espada e munição de artilharia. Apesar do no-
me, de “Reais Ferrarias”, não era uma fábrica estatal, mas sim um empreendimento pri-

16
No sentido de que determinados avanços técnicos, introduzidos visando aperfeiçoar o funcionamento
de uma arma, mas que não eram essenciais, às vezes não eram introduzidos nas armas militares. Um
exemplo disso é o rolamento colocado nas molas da bateria (ver Figura 28). Esses rolamentos eram
usadas em algumas armas militares, resultando em um funcionamento mais suave. Entretanto, o
normal era ser omitido, por não ser indispensável, pois era dispendioso. REID, Stuart. The Flintlock
Musket: Brown Bess and Charleville 1715-1865. New York: Osprey, 2106. p. 11.
17
OBRIGAÇÃO e contrato de Antônio Cacella, morador de Alcobaça, mestre das oficinas das armas de
S. Maj. que há nesta vila. Lisboa, Alcobaça, 19 de dezembro de 1644. In: VITERBO, Sousa, A ar-
maria em Portugal. Lisboa: Tipografia da Academia, 1908. p. 49-51.
18
Aqui deve-se fazer uma ressalva: o leitor deve ter cautela ao ler a palavra “oficial” no presente texto.
Esta pode se referir a um militar detentor de patente ou a um artesão de nível intermediário, a etimo-
logia de ambos os termos sendo a mesma, a de uma pessoa que exerce um ofício.
19
ALDER, op. cit. p. 268.

195
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

vado, fornecendo para o governo,20 sua situação se assemelhando às das manufaturas de


armas francesas, tratadas mais abaixo.

Independente desses dados é evidente que o exemplo de Cacela mostra que a


produção prevista era insuficiente para o consumo regular de todo o exército, mesmo
em tempo de paz, e a pesquisa de Viterbo e de outros autores não localizaram outros
contratos semelhantes. Desta forma, é evidente que Portugal dependia da importação de
armas – no ano de 1675, um momento de paz, foram importadas 5.000 espingardas da
França.21

Assim, um documento da capitania da Bahia, datado de 1721, menciona no


Trem de Salvador, armas holandesas, espanholas, Italianas e inglesas, algumas muito
antigas, ainda com baionetas de cabo de madeira, do tipo que tapava o cano da espin-
garda quando era usada e que tinham ficado obsoletas quarenta anos antes. Curiosamen-
te, o mesmo documento também cita “escopetas” (clavinas) feitas no Porto, Portugal e
espingardas aparelhadas de canos com fechos portugueses. No entanto, parece, nova-
mente, que estas eram muito antigas, pois as espingardas são listadas junto com “arca-
buzes”, um tipo de arma que também não era mais usado há décadas. Certamente, os
equipamentos mais numerosos, mesmo em tempo de paz, não eram armas feitas em
Portugal,22 apesar do livro Discursos sobre a disciplina militar, de 1737, mencionar que
já “tem bom princípio” uma fábrica de armas em Lisboa (ver Figura 15). 23

Em tempo de guerra, quando as necessidades militares cresciam de forma expo-


nencial, com o aumento de efetivos e do desgaste do material a situação se complicava.
Assim, encontra-se a menção de mais e mais importações de armas, especialmente da
Inglaterra: na Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1713), os britânicos se compromete-
ram a fornecer 13.000 armas, para os lusitanos.24 Nas Guerras Napoleônicas, em seis

20
PORTELA, Miguel Ângelo. A superintendência dos tenentes de Artilharia Francisco Dufour e Pedro
Dufour nas reais ferrarias na foz de Alge e Machuca. Atas do XXI Colóquio de História Militar. Co-
missão Portuguesa de História Militar, Lisboa, 2012. pp. 505-520.
21
PINTO, Renato Fernando Marques. As indústrias militares e as armas de fogo portáteis no exército
português. Revista Militar, Lisboa, n.º 2495, dezembro de 2009. https://goo.gl/rjKvd9 (acesso em
outubro de 2016).
22
REGISTRO da avaliação das armas e munições. Salvador, 12 de setembro de 1722. DOCUMENTOS
HISTÓRICOS. Livro 1º de Regimentos. 1684-1725. Registro de provisões da casa da moeda da Ba-
hia. 1775. Vol. LXXX. Biblioteca Nacional. s.n.t. p. 311.
23
RODRIGUES, Manoel A. Ribeiro. 300 anos de uniformes militares do exército de Portugal: 1660-
1960. Lisboa: Madeira & Madeira, 1998. p. 38.
24
INGLATERRA – War Office. CARTA sobre o envio de armas a Portugal. Nottingham ao Duque de
Marlborough, de 13 de março de 1703. National Archives, Public Record Office, Londres. Mss WO
55-343 fl. 206.

196
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

anos, de 1808 a 1814, Portugal recebeu nada menos do que 160.000 espingardas, 2.300
carabinas raiadas, 3.000 clavinas, 7.000 pistolas e 15.000 sabres da Inglaterra25 – uma
parte dos quais acabaria no Exército no Brasil.

Figura 15 – Peças de armamento e equipamento pedidas para Minas Gerais, 1766.


Desenho do Arquivo Ultramarino 26 a imagem mostra peças diversas de armamento que deveria ser pa-
dronizadas para as tropas de milícia da Capitania, com uma espingarda, uma clavina, uma pistola, um
sabre, à esquerda, um cinturão com pala para o sabre e baioneta, à direita, uma cartucheira. No documen-
to que a imagem acompanha, o governador de Minas Gerais informa que seriam necessárias 19.620 (!)
espingardas do modelo desenhado para armar as milícias da capitania, algo que certamente excedia a
capacidade de fornecimento de Portugal. Do ponto de vista do presente texto, a espingarda (figura 1)
ilustrada tem detalhes, especialmente a baioneta, em forma de “lança”, que são diferentes das armas usa-
das na Inglaterra, França, Holanda e Espanha no mesmo período. Isso nos leva a crer que seja um desenho
de arma feita em Portugal e um indicativo que havia produção de armamentos de lá, apesar de não po-
dermos afirmar isso com certeza.
Infelizmente, não temos maiores dados sobre o fornecimento em Portugal e de
suas colônias de outros artigos necessários ao abastecimento de um exército, desde
equipamentos de couro (correame) até carroças. Um problema que se repete com rela-
ção a outros países – não encontramos informações sobre como esse processo logístico
se dava no século XVIII ou mesmo no XIX. Mas certamente isso era um problema em
Portugal, ainda que com relação a artigos de baixo nível tecnológico – no contexto das
Guerras Napoleônicas, os lusitanos tiveram que importar itens como sapatos (60.000 em

25
PINTO, op. cit.
26
MINAS GERAIS – Governo. Ofício do Governador de Minas, Luís Diogo Lobo da Silva para o Secre-
tário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarino, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, so-
bre a necessidade das Tropas Auxiliares e Milícias serem equipadas com armamento do mesmo pa-
drão e igual calibre, assim como haver uma uniformização dos fardamentos. Vila Rica, 24 de agosto
de 1766. Mss. Arquivo Ultramarino. AHU_CU_017, Cx. 28, D. 28.

197
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

1810, 51.000 pares dois anos depois, 15.100 no ano seguinte), camisas (49.000 em
1813), cantis (36.000 em 1812), cartucheiras (3.000 em 1810) e até uniformes comple-
tos (30.000 em 1810).27

Mesmo no Brasil, os dados sobre o passado colonial são esparsos, mas indicam
grandes dificuldades, apesar de haver uma estrutura de produção local já no período
Colonial. Por exemplo, há menção à fabricação de cartucheiras de couro na Bahia em
172228 e em 1775, quando foi necessário enviar tropas para o Rio Grande do Sul se fez
um esforço especial para a produção de sapatos, o governador de São Paulo enviando
ordens para fazer algumas centenas de pares de calçado, empregando para isso todos os
sapateiros de Santos, além dos que estavam sendo contratados na capital.29

A ausência de informações sobre esses procedimentos manufatureiros para o


abastecimento de um exército com itens “menos bélicos”, isto é, que não tratam direta-
mente de armas, cria um problema em termos de história comparada, pois torna difícil a
utilização do método comparativo em sua plenitude. Os livros que conseguimos locali-
zar abordam a produção de artigos militares para os mais diversos exércitos, da França30
até ao arsenal da Companhia das Índias Orientais inglesa, na Índia, 31 passando pela
Rússia. 32 No entanto, essas obras tratam quase que exclusivamente de dois aspectos: a
produção de armas, portáteis ou artilharia, e a de pólvora, bens intimamente relaciona-
dos com a atividade bélica, mas que, como foi tratado anteriormente, não abrangem a
total complexidade da demanda por artigos de um exército. Os norte-americanos, consi-
derando sua cultura de armas e a importância da introdução do sistema americano, de

27
COELHO, Sérgio Veludo. Os Arsenais Reais de Lisboa e do porto: 1800-1814. Porto: Fronteira do
Caos, 2013. pp. 140 e segs. Deve-se lembrar que a ocupação francesa de Portugal foi muito curta,
por causa da revolta na Espanha. A partir de 1809 já havia um grande exército português operando
com os ingleses.
28
REGISTRO da avaliação, op. cit. p. 311.
29
SÃO PAULO – Governo. Carta do Governador, Martim Lopes Lobo de Saldanha, para o comandante
de Santos, Fernando Leite Guimarães. São Paulo, 23 de outubro de 1775. DOCUMENTOS Interes-
santes, vol. LXXIV. São Paulo, s.ed. 1954. p. 246.
30
Como a proposta da tese era tratar do estudo comparativo com a França, foram coletadas diversas obras
sobre o tema, começando com a Encyclopédie de Diderot e D’Alembert (DIDEROT, M. &
D’ALEMBERT, M. Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers. Pa-
ris: Briasson, 1751. Vol. 1. Verbete Arquebusier, p. 704) e outras que serão citadas no texto.
31
YOUNG, H.A. The East India Company’s Arsenals & Manufactories. Uckfield: The Naval & Military
Press, s.d. Facsimile de um livro publicado em 1937. Este livro é interessante, pois tem um pequeno
capítulo, de oito páginas, sobre a fabricação de correame e arreios.
32
GAMEL, Iosif. Description of the Tula Weapon Factory: in regard to historical and technical aspects.
Washington: Smithsonian Institution, 1988. Esta é uma tradução de um trabalho publicado em 1828.

198
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

produção de artigos em massa na indústria bélica, publicaram uma grande quantidade de


livros sobre o tema da produção de armamentos, mas apenas sobre isso.33

Essa questão da concentração da bibliografia em uns poucos temas se complica


quando analisamos nosso objeto de pesquisa. No Brasil, a fabricação de pólvora era de
responsabilidade de um estabelecimento fabril, também do Exército, mas não ligado ao
Arsenal de Guerra da Corte: a Fábrica de Pólvora da Lagoa (1808-1831). Esta foi depois
substituída pela Fábrica de Pólvora na Estrela (Magé), onde funciona de 1831 até os
dias de hoje, ligada à IMBEL, Indústria Brasileira de Material Bélico. Por não ser uma
instituição dependente do AGC, não consideramos apropriado nos aprofundarmos no
aspecto da produção de pólvora. Isso apesar de em alguns pontos o funcionamento da-
quela instituição no Império se assemelha em muito ao do Arsenal e deste insumo ser de
fundamental importância em algumas repartições do Arsenal de Guerra da Corte, espe-
cialmente os Laboratórios do Castelo e do Campinho e a Oficina de Foguetes, também
no Campinho.

O estudo comparativo, contudo, não fica inviabilizado. Há três assuntos que são
tratados na literatura produzida no exterior e que têm relação com a organização do Ar-
senal de Guerra da Corte: a feitura de uniformes, a de canhões e a de armas portáteis,
que serão abordados nas páginas seguintes, para que possamos apreender as condicio-
nantes que afetavam o funcionamento das manufaturas militares, para se estabelecer um
padrão de análise do Arsenal de Guerra da Corte, que será trabalhado nos capítulos sub-
sequentes.

5.1 Uniformes
A uniformidade dos Armamentos, fardamentos, equipamentos, utensí-
lios e sistema de serviço das Tropas, é muito conveniente, tanto á dis-
ciplina do Exercito, como á economia da Fazenda Nacional, e dos
próprios militares. Eles devem ser cômodos, elegantes, e pouco dis-
pendiosos. Em não havendo uniformidade, introduz-se o arbítrio, o
serviço padece, e a Fazenda Nacional fica exposta a desembolsos des-
necessários.34

33
Podemos citar: SMITH, Merritt Roe. Harpers Ferry Armory and the New Technology : the challenge of
change. Ithaca: Cornell University, 1977, THOMAS, Dean S. Confederate Arsenals, Laboratories
and Ordnance Depots. Gettysburg: Thomas Publications, 2014, 3 vols., e FARLEY, James J. Mak-
ing arms in the Machine Age: Philadelphia’s Frankford Arsenal, 1816-1870. University Park:
Pennsylvania State University, 1994.
34
MATOS, Raimundo José da Cunha. Repertório da legislação militar atualmente em vigor no exército e
armada do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Tipografia Imparcial de F. P. Brito, 1842. Vol. III. pp.
245-246.

199
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Como colocou acima o general Cunha Matos, um dos fundadores do Instituto


Histórico e Geográfico Brasileiro, a questão dos uniformes é uma de fundamental im-
portância para se entender o funcionamento do Exército e, com ele, a do Arsenal de
Guerra. Entretanto, as informações disponíveis para se fazer a comparação com outros
países são escassas por falta de bibliografia, como dito acima. Podemos, contudo, apre-
sentar algumas considerações gerais para contextualizar a questão.

De início o problema dos uniformes, apesar de hoje em dia ser considerado co-
mo algo de fundamental importância para os exércitos, pois são artigos que lhes dão sua
identidade, nem sempre foi vista como algo relevante. Nesse sentido, deve-se apontar
que a roupa usada pelos soldados tem duas espécies de função – a primeira, e que hoje
seria considerada como mais importante – é a utilitária, voltada para a proteção do ho-
mem dos efeitos negativos do clima. O outro papel da roupa militar é o diacrítico, o “de
sinalizar distinções internas e externas”35 na vestimenta, ou seja, desta servir como sím-
bolo de status, de identificação e pertencimento a um determinado grupo.

O primeiro aspecto, o utilitário, poderia ser visto como realmente de fundamen-


tal importância, já que em alguns casos a falta de roupa pode impedir que um homem
cumpra suas funções. O exemplo mais óbvio sendo o do frio, abaixo de 15º, no qual
uma pessoa, sem abrigo adequado está sujeita à hipotermia, a diminuição da temperatu-
ra corporal, que leva à letargia, falta de coordenação motora e a morte, se o problema
não for solucionado de forma relativamente rápida.

Menos danosa era a chuva, algo que não teve uma solução no período em estu-
do, além do uso de chapéus, por causa da dificuldade de manufatura de tecidos imper-
meáveis. Outro obstáculo que as roupas, supostamente, teriam que superar era a do calor
excessivo. Mas isso, por incrível que pareça ao nosso modo de ver, não era uma preocu-
pação dos militares até o século XX, as fardas simplesmente não eram pensadas nesse
aspecto. A única concessão ao conforto, em termos de proteção contra o sol sendo, no-
vamente, o uso de um chapéu. Mas mesmo este era mais usado por ser uma imposição
cultural da época, onde as pessoas normalmente os vestiam.

Aqui se deve notar que a moda tinha uma influência muito grande no traje dos
militares – até o século XVIII, as roupas usadas por eles tinham um desenho que se

35
ALMEIDA, Adilson José de. Uniformes da Guarda Nacional (1831-1852): a indumentária na organiza-
ção e funcionamento de uma associação armada. Anais do Museu Paulista: história e cultura mate-
rial. Vol. 8/9, 2000-2001. São Paulo: USP, 2003. p. 109.

200
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

aproximava muito à dos civis. Um obstáculo causado por isso era com relação ao teci-
do: na Europa, de onde vinham os padrões de luxo no vestir, o tecido preferido era a lã,
adequado à situação climática de lá. A outra opção disponível era o linho, mas este não
era usado em uniformes, por causa de seu custo. Não se usavam roupas de algodão, pelo
menos de forma generalizada, até a segunda metade do século XIX.

A lã, muito quente, junto com a questão da moda, fazia com o soldado recebesse
uma farda inadequada para um clima tropical ou equatorial. Para isso, basta ver que,
tanto no Nordeste Brasileiro quanto no Saara francês a composição do uniforme usado
até a Primeira Guerra era basicamente a mesma: uma sobrecasaca de lã, forrada, sobre
um colete (mas este deixou de ser usado no século XIX). Debaixo disso tudo, uma ca-
misa, com uma gravata de couro rígido, que impedia o soldado de abaixar a cabeça.
Complementavam os uniformes, calças e calçado, mas não roupa de baixo – as primei-
ras menções que encontramos ao fornecimento de meias e ceroulas são de apenas de
1866 e estas para prisioneiros de guerra paraguaios. 36 Obviamente, uma roupa extrema-
mente incômoda e pouca prática (Figura 16).

O uso de algodão nos uniformes só foi adotado muito tarde – no Brasil, as pri-
meiras menções que encontramos à distribuição de peças para “uniformes de verão”,
calças feitas de brim, são apenas de 1837.37 Só que depois dessa data, e até a década de
1930, se manteve o uniforme de lã para uso no “inverno”, mesmo onde esta estação não
era fria, como na Amazônia. Como um ponto anedótico, o uniforme histórico da Aca-
demia Militar de Agulhas Negras, que reproduz a farda usada no Brasil em 1852, era
confeccionado em lã até a década de 1980, quando foi substituído por uma mescla de
tecido sintético – isso por causa de problemas com cadetes, que desmaiavam em forma-
turas, por causa do calor da farda de lã.

36
BRASIL – Ministério da Guerra. Ofício da 1ª Seção da Diretoria Central, mandando fornecer peças de
fardamento aos prisioneiros de guerra Paraguaios a serviço da Escola Militar. Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 8 de outubro de 1867. Mss. ANRJ. IG7 370.
37
BRASIL – Arsenal de Guerra. Declarações. Anúncio para costuras de uniformes. Diário do Rio de
Janeiro, 26 de setembro de 1837.

201
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Figura 16 – Forte de Tabatinga, no Rio Amazonas, fronteira com o Peru.


Foto de Albert Frisch, de 1863, mostra dois soldados usando o uniforme azul, de lã, distribuído aos sol-
dados para uso no inverno, ilustrando a inadequação dos fardamentos ao clima e a pouca preocupação
com a questão do conforto dos soldados, típica do período.
Esta questão do tecido pode parecer pouco importante para o tópico do presente
trabalho, mas foi um problema recorrente na produção de uniformes no Brasil: como já
foi colocado em capítulos anteriores, mas vale repetir, o exército aqui sempre procurou
obter a autossuficiência no abastecimento de suas tropas, chegando a apoiar diretamente
empresas que produzissem os insumos necessários ao funcionamento da força. No en-
tanto, a produção de lã, que dependia de grandes rebanhos de carneiros, não era uma
grande indústria no Brasil38 ou mesmo em Portugal. Isso apesar do marquês de Pombal
ter incentivado a criação de uma tecelagem de lã, a Real Fábrica de Panos de Covilhã,
em Portugal, instituída em 1764, tendo como uma das suas funções o fornecimento de
tecido para o Exército.39 Assim, o exército Brasileiro continuou dependente da importa-
ção de tecidos até o século XX, quando, finalmente, se passou a usar trajes mais ade-
quados ao nosso clima, feitos de algodão.

A questão diacrítica dos uniformes teve uma importância maior na produção de


artigos militares, mas isso é uma construção recente e que praticamente só vai ter efeitos
muito tarde em termos históricos. Em primeiro lugar, a separação da corporação militar
da sociedade civil por meio de fardas é muito recente. Como falamos, até o final do sé-

38
O médico Sueco Gustave Beyer, ao visitar São Paulo em 1813 mencionava o elevado custo das roupas,
importadas, “apesar do país produzir lã e algodão em abundância.” BEYER, G. Ligeiras notas de vi-
agem do Rio de Janeiro à capitania de São Paulo em 1813. Revista do instituto histórico e geográfico
de São Paulo. Volume 12. São Paulo: Diário Oficial, 1907. p. 299. No entanto, não encontramos ne-
nhuma referência à compra de lã brasileira pelo Arsenal de Guerra.
39
COELHO, op. cit. p. 51. Já havia, contudo, tecelagens em Covilhã em datas anteriores. Um livro de
1737 recomendava que fossem usadas lãs dessa região para fardas as tropas. RODRIGUES, op. cit.
p. 36.

202
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

culo XVIII as roupas dos militares não eram, basicamente, diferentes das usadas pelos
civis. Até aquele momento não era uma prática dos governos fornecerem roupas – de
qualquer tipo – a seus soldados. Quando era necessário reconhecer as tropas de um lado
de outro, se usavam recursos: por exemplo, nas Guerras Holandesas, no Brasil, um Re-
gimento da Companhia das Índias Ocidentais holandesa foi subornado para desertar
para o lado Português, mas os soldados desejaram voltar para o lado da Companhia.
Como escreveu frei Manuel Calado: “e dali por diante deram todos em trazer uns pape-
linhos brancos nas tranças dos chapéus, para divisa de serem conhecidos, e nos encon-
tros que tivéssemos com os do Arrecife lhes não atirassem”, 40 ou seja, a solução era usar
um sinal privado para que os soldados fossem reconhecidos. Roche, um pesquisador
sobre a história do vestuário, cita outros recursos usados para isso, como o uso de faixas
largas, de cores distintas, amarradas na cintura, chapéus de formas diferentes e vários
sinais distintivos no chapéu ou na sobrecasaca.41

Quando a distribuição de uniformes começou, durante a Guerra dos Trinta Anos


(1630-1648), inicialmente no exército Sueco e, pouco depois, no Inglês, as roupas for-
necidas não seriam classificadas como uniformes pelos critérios de hoje. Apenas a cor
geral das sobrecasacas era generalizada: amarela para o exército sueco e vermelha para
os britânicos. Além disso, não havia um sistema centralizado de produção desses trajes,
inicialmente as roupas sequer eram distribuídas para um regimento, os capitães tendo
autonomia para vestir os soldados de suas companhias como julgassem adequado.42
Mais tarde, isso passou para a alçada dos coronéis comandantes de Regimento, que “da-
vam aos vestidos dos soldados o talhe que mais lhes agradava, e ordinariamente eram
no todo, ou pelo menos nos canhões, golas e forros das cores das suas librés”. 43

Um sistema menos irregular foi implantado na França no final do século XVII,


onde o ministro da guerra, Louvois, começou a assumir maior responsabilidade sobre o
regulamento dos uniformes. Isso, segundo Roche como parte de um projeto do governo
absolutista de Luís XIV: “outro mecanismo substitui nesse momento a eficácia da imi-
tação da moda e da necessidade imediata: o de um impulso de regulamentação coletiva

40
CALADO, Manuel. O Valeroso Lucideno. Belo Horizonte : Itatiaia ; São Paulo : EDUSP, 1987. p. 118.
41
ROCHE, Daniel. La culture des apparences: une histoire du vêtement (XVII e-XVIIIe siècle). Paris:
Fayard, 1989. p. 213.
42
ROCHE, op. cit. p. 213. Para o mesmo costume em Portugal, ver: CUNHA MATOS, op. cit. p. 246.
43
MATOS, op. cit. p. 246.

203
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

que tem lugar na constituição do absolutismo”. 44 Uma proposta vital para entender a
dinâmica dos exércitos, onde, a questão da aparência e do conforto dos soldados se su-
bordinava à ideia de criação de um sentimento de uniformidade e de ações na tropa.
Entretanto, longe de ser um sistema regular, o fornecimento de um fardamento realmen-
te padronizado por parte do governo demoraria muito tempo para se consolidar.

Mesmo uma possível “economia de escala” não se aplicava bem à questão – co-
mo colocado acima, era o costume que cada regimento de um exército tivesse seu pró-
prio “uniforme”, ainda que este seguisse padrão geral para cada país, como o vermelho
inglês ou o branco dos franceses. Os coronéis comandantes definiam como seriam os
forros das casacas, bem como alguns detalhes, como o padrão de cores dos canhões
(punhos), a colocação e desenho dos botões ou mesmo o corte da farda – como colocado
por Cunha Matos mais acima, um dos costumes era que os comandantes dos regimentos
dessem ao uniforme dos soldados de sua tropa as cores de suas casas nobres. A implica-
ção disso era que um exército “nacional” tinha tantos tipos de uniformes quantas fossem
suas unidades componentes – e esses trajes variavam com a mudança dos comandos dos
regimentos. Não havia um modelo geral que fosse seguido por toda a tropa e que pudes-
se ser facilmente copiado em uma manufatura centralizada (ver Figura 17).

Figura 17 – Colagem de imagem de soldados de regimentos no Brasil.45


Da esquerda para a direita: da Colônia de Sacramento (Uruguai); do Rio de Janeiro; Olinda (PE) e de
Macapá (AP). As fardas, todas feitas de lã, mostram a inadequação das vestimentas ao clima e a sua não
uniformidade, mais um sinal do que foi colocado no capítulo 3, sobre a existência de pequenos exércitos,
em cada capitania. A cor padrão, azul, era individualizada por regimento através das cores dos forros e
véstias, bem como o corte específico de cada farda, apesar de todas seguirem, de forma geral, o traje civil
da época. A mesma situação, de individualização de uniformes por regimento, existia em Portugal e em
outros países, decorrente da própria maneira como os trajes eram confeccionados.

44
ROCHE, op. cit. p. 213.
45
Estampas de uniformes militares do terceiro quartel do século XVIII, Mss. Arquivo Histórico do Museu
Histórico Nacional.

204
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Na prática, a solução encontrada em todos os exércitos, foi a manufatura descen-


tralizada, local, de uniformes, sem intermediação de arsenais. Um processo que conti-
nuou no Brasil até meados do século XIX, apesar dos frequentes abusos que a medida
permitia, em termos de corrupção – um livro do século XVIII descrevia que as “miude-
zas” de que se compunham o uniforme dos homens, como os galões, não eram pagos
pelo governo, de forma que os oficiais “por não faltarem ao costume, ou por se não ve-
rem excedidos dos outros”, usavam recursos questionáveis, “menos descentes e contrá-
rios à boa disciplina e arrecadação da fazenda”.46

O procedimento adotado era que os comandantes das unidades recebiam os re-


cursos para fazer as fardas de seu regimento – os regulamentos de uniformes da Ingla-
terra, ainda em 1830, previam que os coronéis recebessem quantias para certos itens de
fardamento e equipamento de sua tropa,47 dando-lhes chance de fazer economias no
fardamento, embolsando a diferença dos valores encaminhados. O costume de se “pas-
sar em revista” a tropa surgiu da necessidade do governo de verificar se os soldados a
quem se estava pagando os salários e se fornecendo roupas e armas realmente existiam e
estavam propriamente equipados. Ainda hoje se mantém uma forma dessa atividade se
mantém nas forças armadas, na forma da revista de mostra.48

A questão da produção local de uniformes ficou mais complicada no Brasil e no


mundo no início do século XIX. Nesse período, concomitantemente e por causa do sur-
gimento dos exércitos movidos por um sentimento nacional, apareceu uma nova moda
militar, na qual as fardas, propositalmente, passaram a ser bem diferentes das vestimen-
tas civis. Isso é visível pelo uso de pitorescos, multicoloridos e, normalmente, pouco
práticos trajes da época, como os usados pelos hussardos, os quais vestiam um casaco
em apenas um dos braços, a manga do outro sendo deixada pendente, a ponto do casaco
passar a ser feito de forma que não podia ser usado nos dois braços. Mais importante,
foi a introdução de coberturas de cabeça, as barretinas, que não tinham relação alguma
com os chapéus usados pela sociedade civil, às vezes empregando materiais exóticos na
sua fabricação. Este é o caso das barretinas dos granadeiros franceses, confeccionadas

46
RODRIGUES, op. cit. p. 36. TELLES DA SILVA, Tomás. Discursos sobre a disciplina militar, e
ciência de um soldado, dedicados aos soldados novos. Lisboa: Joseph Antônio da Silva, 1737. pp.
35-40.
47
SPENCER-SMITH, Jenny. Portraits for a King: the British Military Paintings of A. F. Jubois Drahone
(1791-1831). London: National Army Museum, 1990. p. 12.
48
BIBLIEX - BIBLIOTECA DO EXÉRCITO. Dicionário militar brasileiro. Rio de Janeiro: Bibliex,
2005. p. 800.

205
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

com peles de urso, como são feitas, ainda hoje, as usadas pelos granadeiros ingleses da
guarda da rainha.

Contudo, mesmo com esse aumento da complexidade na confecção dos unifor-


mes, não conseguimos perceber na documentação que tenha havida um processo de
mecanização da produção dos trajes militares. As razões disso parecem ser claras: por
um lado, uma possível divisão de trabalho na produção de roupas era limitada pelas
características dos objetos – as vestimentas até podiam ser cortadas em pequenos gru-
pos, a tesoura, mas tinham que ser costuradas individualmente. Não havia como usar em
maior escala técnicas visando acelerar a produção, como se dividindo o trabalho em
operações mais simples e repetitivas, ao contrário do que era possível em outras manu-
faturas.

Outro motivo era “fabril”: não havia como aperfeiçoar muito a produção de rou-
pas nesse período. Mesmo onde era possível aplicar os princípios de divisão de trabalho
havia problemas, como no caso da manufatura de Marc Isambar Brunel em Battershea.
Lá ele introduziu máquinas para o corte do couro e uma para rebitar os sapatos, como
no tipo Carioclave (ver página 172). Mais importante, introduziu uma estrita divisão de
trabalho, suas operações empregando 25 operários, cada um executando apenas uma
tarefa.49

Entretanto, o empreendimento de Brunel não foi bem sucedido, durando pouco


tempo: a mecanização possível era muito limitada, pois a etapa principal, a costura dos
sapatos, ainda tinha que ser feita à mão. Não havia máquinas de costura, já que o pri-
meiro modelo deste equipamento, o de Singer, data de 1851.50 As máquinas do tipo ti-
veram um desenvolvimento e difusão rápidos: no Brasil já há anúncios deste tipo de
artefato no final da década de 1850,51 mas não a ponto de modificar de forma radical
fornecimento de roupas para os militares no período que estamos estudando, pelo menos
até onde pudemos constatar.

Dessa forma, a produção de uniformes era um trabalho muito volumoso, como


pode ser constatado nos dados de importação de camisas e uniformes completos por
Portugal nas Guerras Napoleônicas, acima mencionados, contudo manteve suas caracte-
49
PHILLIPS, Kew. Morning's Walk from London to Kew. London: John Adlard, 1817. p. 47.
50
DERRY T. K. e WILLIANS, Trevor I. História de la Tecnologia. Vol. 3. Desde 1750 hasta 1900 (II).
Madrid, Siglo Veintiuno Editores, 1987. p. 841.
51
Ver: CORREIO Mercantil, ano XIV, nº 14, Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1857, anúncio de máquinas
de costura. p. 3.

206
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

rísticas antiquadas no período que estamos trabalhando, não havendo soluções para oti-
mizar a questão.

Em termos de técnicas de manufatura, as descrições disponíveis apontam que o


sistema de abastecimento de uniformes, usado geralmente, tanto no Brasil quanto no
exterior, era o de putting out, onde um empreendedor, que podia ser a próprio exército
(no caso, o Regimento que fazia a aquisição de suas fardas), distribuía os tecidos, botões
e fios para artesãos domésticos, que costuravam as roupas. Ou seja, como mencionado
anteriormente, neste importante campo da produção de artigos militares não havia dife-
rença maior entre o Arsenal de Guerra da Corte e as outras instalações fabris de forças
armadas de outros países. Isso até a década de 1860, quando começaram a se tornarem
comuns as máquinas de costura. Esse é um ponto que consideramos relevante e que
voltaremos a abordar: a Repartição de Costuras do Arsenal de Guerra do Rio de Janei-
ro.

5.2 Fabricação de Canhões


Ao contrário do que ocorre com os uniformes, há uma bibliografia bem extensa
que trata da manufatura de canhões no mundo. Isso porque as bocas de fogo, além de
seu aspecto utilitário, de armas, têm associadas a elas um grande simbolismo. Em parte,
por serem objetos muito caros, realmente dispendiosos, a ponto de, como colocamos no
segundo capítulo, apenas os monarcas poderem ter grandes trens de artilharia. Além
disso, eram os equipamentos mais destrutivos que havia na época, justificando o uso da
famosa frase que era gravada nos canhões franceses fundidos no reinado de Luís XIV.
Nesses se lia que eles eram a ultima ratio regum, o “último argumento dos reis”. Ou
seja, a força armada é a que decidia, em última instância, a discussão entre países.

Como parte do simbolismo, os canhões também tinham gravado em locais pro-


eminentes o nome dos monarcas e seu brasão, passando a ser, em parte, uma representa-
ção das próprias nações. Isso a ponto de ter se tornado comum a ação de se procurar
capturar os canhões do inimigo, não como ferramentas que podiam ser usadas, mas co-
mo uma representação da própria vitória de um país sobre outro – os museus dos países
ocidentais estão repletos de bocas de fogo capturadas, os troféus de guerra. Por exem-
plo, o Museu Histórico Nacional tem em suas coleções treze canhões de vários países,

207
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

preservados como troféus de guerra de vários conflitos. 52 A atividade de coleta de tro-


féus ainda hoje é feita – na Guerra do Golfo (1990-1991), foram levadas armas para
compor os acervos de museus dos países da coalização que derrotou Sadam Hussein.

Também se deve dizer que a feitura de uma boca de fogo exigia uma elevada ca-
pacidade técnica. O material preferido para peças de campanha, o bronze, era muito
caro, como já mencionamos. Mas era usado em quantidades prodigiosas: uma peça de 6
libras pesava perto de 250 kg e uma bateria de artilharia teria seis delas, ou seja, era
preciso uma tonelada e meia de bronze para as armas – e um canhão de 6 libras é uma
peça de pequeno porte, por qualquer padrão de medida possível. Como a arma tinha que
ser fundida de uma vez, era necessário um grande forno, capaz de derreter as quantida-
des de metal necessárias. Isso sem falar nos conhecimentos empíricos, como o ponto de
fusão de metais e as proporções dos elementos componentes da liga (cobre, estanho e
outros produtos que o fundidor julgasse necessários). A complexidade da manufatura do
produto gerava um grande interesse, não só por parte dos especialistas em assuntos mili-
tares, mas também por outros, já que as técnicas usadas na feitura dos canhões tinha
relação com a usada na fundição de sinos e estátuas.

Por sua vez, apesar do poder e simbolismo das bocas de fogo, deve-se dizer que,
apesar de algumas tentativas falhadas, o Arsenal de Guerra da Corte não produziu ca-
nhões em nosso recorte de estudos, que se encerra em 1864. Essa atividade só se tor-
nando importante na Guerra do Paraguai. No entanto, estudar os métodos de se fazer
canhões é importante em termos de comparação de como funcionava uma manufatura
militar e serve também para se entender uma questão que consideramos de fundamental
importância. Esta foi o papel dos engenheiros militares franceses na formação das bases
de uma racionalidade, valorizando o ensino técnico naquele país, algo vital para a com-
preensão dos métodos manufatureiros do final do século XVIII e primeira metade do
seguinte.

5.2.1 Aspectos técnicos


A manufatura de bocas de fogo era exatamente isso, uma manufatura – o proces-
so podia usar máquinas em aspectos secundários de sua produção, mas pela própria na-
tureza do objeto, cada canhão era feito de forma individual. Começava-se com um nú-

52
Uma discussão do papel dos troféus pode ser visto em: CASTRO, Adler Homero Fonseca de. O poder
político vem do cano de uma arma. In: MONTENEGRO, Aline (org.) 90 anos do Museu Histórico
Nacional em debate. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2014. pp. 111-123.

208
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

cleo de madeira, o mandril, sob o qual se enrolavam cordas e argila, em cima dessas, era
feita a deposição de cera, com exatamente o formato do objeto final. A camada de cera
era então recoberta com argila, que então era aquecida. O calor fazia derreter a cera – o
processo chama-se, justamente, de cera perdida – e criava um espaço vazio no interior
do molde, na forma exata da peça a ser fundida. A alma era definida por meio de uma
peça cilíndrica de argila, também chamada de mandril, que era centrado no interior do
molde (ver Figura 19).

Feito o molde, este era colocado em posição vertical, abaixo do forno e o metal
fundido derramado em seu interior (ver Figura 19 e Figura 21). Depois de um longo
período de resfriamento, o molde era quebrado – não podia ser reaproveitado frisamos –
retirando-se a arma. O mandril era removido, deixando o espaço da alma no interior,
que tinha que ser fresado, para eliminar imperfeições, e o exterior finalizado a cinzel,
em um serviço semelhante ao de um escultor, devido à riqueza de detalhes e de decora-
ções, algo inerente ao gosto barroco.53

Como se pode ver, a produção desse tipo de arma em bronze era muito cara (ver
sequência de imagens a seguir), de forma que muitos países implantaram fundições go-
vernamentais para sua produção, como foi o caso da França, em Douai, Estrasburgo,
Lyon, para o Exército e Ruelle, da Marinha; Inglaterra, em Woolwich; a Espanha em
Sevilha e Barcelona, enquanto Portugal tinha a sua em Lisboa.

e
Figura 18 – Preparo para a fundição de canhões. 54
À esquerda: forno de reverbero para fundição de canhões, mostrando a complexidade da estrutura. À
direita, dando as formas externas básicas ao canhão, usando um escantilhão – no caso, uma tábua recorta-
da com o perfil da boca de fogo. Esse passo era fundamental para se padronizar a produção das armas,
ainda que esta fosse totalmente feita de forma artesanal.
Por sua vez, os canhões de ferro fundido, apesar de serem produzidos de forma
virtualmente idêntica, eram muito mais baratos, como já apontamos acima. Isso apesar
53
Em português, há uma boa descrição do processo de fabricação de canhões em: GUILMARTIN, op. cit.
54
Todas as imagens sobre fundição de canhões foram retiradas da enciclopédia de Diderot e D’Alembert.
DIDEROT, M. & D’ALEMBERT, M. op. cit. vol. 5. Planches.

209
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

de exigirem uma infraestrutura maior para serem feitos: o ferro só se funde a 1540
graus, enquanto o bronze derrete a temperaturas de cerca de 1.000 graus. A diferença é
grande – é comum usar um forno de reverbero para fundir canhões de bronze, mas os de
ferro normalmente exigem um alto forno, uma estrutura bem mais complexa e que de-
mandava máquinas hidráulicas, para insuflar o ar necessário ao aumento da temperatura.
Curiosamente, isso poderia levar a crer que o governo teria mais condições de operar
uma fundição de ferro, no entanto, as maiores existentes, na Inglaterra e Suécia, eram
privadas, enquanto as francesas e espanholas eram governamentais.

Figura 19 – Fundição de canhões.


Molde completo: à esquerda nesta figura, um corte do mesmo, mostrando ao lado a peça que vai servir de
alma, em seções, de acordo com o material (ferro e arame no centro, com argila em volta). No centro da
imagem, ao alto, uma vista superior do poço de fundição, com os canais para o metal derretido correr, no
caso, para fundição simultânea de quatro canhões. A imagem da direita é de um torno vertical para a
fresagem da alma, movido a animais – a única máquina em uma fundição de canhões. Observe-se que
neste torno, é a fresa que gira, o canhão ficando imobilizado, só descendo à medida que era necessário, o
que gera imperfeições no trabalho.
Do ponto de vista da presente tese, a questão da fundição de canhões tem uma
importância direta no desenvolvimento de técnicas industriais modernas, apesar disso
normalmente não ser enfatizado nos livros de história administrativa. Na Guerra dos
Sete Anos a artilharia francesa tinha sido superada em muito pela ação das armas de
seus aliados austríacos. Uma das razões era que os canhões usados pelas tropas de Luís
XV eram do tipo do general Florent-Jean Vallière, que tinha introduzido o primeiro sis-
tema de peças padronizadas no exército francês, em 1732 (ver Figura 20), com a adoção
de um número reduzido de canhões, com dimensões bem específicas. Peças padroniza-
das tem uma importância fundamental para o funcionamento dos exércitos, mesmo que
a uniformidade delas não seja das maiores: é necessário saber o calibre das armas para
se poder suprir os projéteis, a pólvora e a palamenta adequada a cada peça. O peso dos
canhões tinha que ser mais ou menos conhecido, para se saber o número de cavalos ne-
cessários para puxá-los em cada tipo de terreno O desempenho das peças tinha que ser

210
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

regular, para que os artilheiros soubessem o que esperar das armas que usavam e os en-
genheiros pudessem aplicar seus conhecimentos na construção de fortificações e assim
por diante.

Figura 20 – Acabamento das peças de artilharia.


Canhões acabados, do sistema Vallière, altamente decorados – são estes os que têm a inscrição “ultima
ratio regum”. Este tipo de relevos implicava que as armas não podiam ter acabamento externo em um
torno, necessitando de um artesão qualificado para cinzelá-las.

Figura 21 – Fundição de Douai, c. 1770.55


Cena mostrando diversas fases da manufatura de um canhão. O mestre fundidor – um artesão, frisamos –
olha para o interior do forno, verificando se a liga metálica derretida está pronta para ser vertida para os
moldes, enquanto outros trabalhadores manejam uma pá, para retirar a escória. No centro da imagem um
operário está pronto para levantar a portinhola, liberando o metal para os moldes. Uma comitiva de auto-
ridades, inclusive suas esposas, observa essa fase do projeto. Deve-se notar que eles não estão olhando
para aquilo que era a parte fundamental dessa sequência: o estado do metal derretido, ou seja, não estão
supervisionando de fato o trabalho, que é controlado pelo mestre de fundição. Este, por sua vez, não se
valia de instrumentos para verificar a situação do metal em fundição, toda a operação dependendo de sua
análise subjetiva, baseada em seu conhecimento empírico.

55
Pintura de Johann Ernst Heinsius (1740-1812). DE BEER, Carel. The art of gunfounding: the casting of
bronze cannon in the late 18th century. Rotherfield: Jean Boudriot, 1991. p. 27.

211
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

O sistema de Vallière foi, de certa forma, uma revolução: antes disso apenas a
Inglaterra tinha padronizado a produção de suas bocas de fogo, com o sistema Arms-
trong, de 1727. Entretanto, mesmo que todas as peças fossem feitas com base em um
desenho padrão, o sistema inglês tinha uma imensa variedade de armas: havia, por
exemplo, pelo menos cinco comprimentos de canhão para cada calibre. Uma peça de 9
libras de ferro podia ter seis, sete, sete e meio, oito e meio e nove pés de comprimento
(de 1,82 a 2,74 metros),56 pesando de 1270 a 1570 kg. Essa variedade complicava o
trabalho dos artilheiros, que tinham que lidar com armas de desempenho e comporta-
mento bem diferente durante o disparo. Mais importante, era um problema grave para os
arsenais, pois a palamenta e, principalmente, os reparos têm que ser feitos com suas
dimensões variando de acordo com o comprimento e peso da arma.57 Vallière, no entan-
to, decidiu fazer canhões de apenas um comprimento para cada calibre, simplificando a
produção de acessórios.

Os canhões feitos de acordo com o novo sistema francês, contudo, tinham um


grande problema: eram muito pesados para uso em campanha, pois foram projetados
para terem múltiplas funções, servindo como peças de fortificação, fixas, ou como mó-
veis, em cercos a fortes e em campanha. Uma peça de 4 libras francesa tinha uma massa
de 650 kg, ou seja, 325 libras por cada libra da bala disparada e o seu grande peso difi-
cultava sua movimentação no campo de batalha, enquanto os austríacos, em 1753, ti-
nham feito experiências e adotado um sistema de artilharia (chamado de Liechtenstein,
por causa de seu autor, o príncipe Joseph Wenzel Liechtenstein). Este era composto de
armas destinadas especificamente para o uso em campanha, sendo bem mais leves (um
canhão pesava menos de metade de um do mesmo calibre francês, 152 libras por libra
de bala), sendo bem mais móveis. Além disso, tinha algumas outras inovações técnicas,
a mais notável sendo a adoção de um sistema padronizado de reparos, armões e outras
viaturas, estas com apenas dois tamanhos de roda, com uma tolerância de apenas sete
mm. Isso facilitava os consertos em campanha, permitindo, por exemplo, que uma roda

56
CARUANA, op. cit.
57
RIO GRANDE DO SUL - Presidência. Ofício do presidente de província, Francisco José de Souza
Soares de Andrea, ao Ministro da Guerra, Manoel Felizardo de Sousa e Melo, enviando as dimen-
sões das peças de 12 libras existentes em Porto Alegre, para manufatura de Reparos. Palácio do
Governo em Porto Alegre, 19 de novembro de 1849. Mss. ANRJ. IG7 336. Apesar das 36 peças se-
rem, majoritariamente, inglesas, foi necessário enviar uma relação detalhada de quatorze tamanhos
diferentes de armas, todos do mesmo calibre para que o Arsenal de Guerra da Corte fizesse novos
reparos para elas.

212
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

de um canhão danificado fosse substituída imediatamente por outra sobressalente ou


mesmo por uma de viatura menos importante, que pudesse ser descartada.58

5.2.2 O sistema Gribeauval e a padronização


Para resolver o problema da sua artilharia, os franceses fizeram um esforço de
pesquisa, visando desenvolver peças mais leves. Para isso, se valeram dos desenhos
inspirados no pensamento do General Jean-Baptiste Vaquette de Gribeauval, que tinha
servido na Áustria na Guerra dos Sete Anos, chegando ao posto de FeldMarschall-
Leutnant (tenente-general, ou general de divisão). Retornando à França em 1763 decidiu
adotar uma série de detalhes do armamento daquele País, em um sistema próprio, o que
foi possível, pois foi nomeado inspetor geral da Artilharia francesa dois anos depois de
seu retorno. Em outubro de 1765, o seu sistema de bocas de fogo foi adotado oficial-
mente, por ordem real.59

O sistema de Gribeauval seguia os princípios básicos da artilharia austríaca, de


um número reduzido de peças, estas sendo leves e de desenho externo mais simples.
Ele, contudo, introduziu algumas modificações novas, visando a melhorar à produção
do material, uma delas sendo importante para o desenvolvimento das técnicas de produ-
ção: a fundição em sólido. Como os canhões eram mais curtos, eles tinham um alcance
menor e para resolver isso, foi adotada a fundição de canhões sem o mandril que dava a
forma a alma, esta sendo furada em um torno horizontal, no qual a peça girava e não a
broca (ver Figura 22). Isso permitiu a redução nas tolerâncias, as margens de erro, das
almas, como uma forma de manter a pressão elevada durante o disparo e, com isso, o
alcance, mesmo com as peças sendo mais curtas. Junto com esse método de fabricação,
foram abolidas as decorações vistosas, as que permaneceram sendo abertas a buril e não
mais esculpidas em relevo, de forma que o canhão podia ser torneado externamente,
diminuindo o custo de produção e a necessidade de artesãos especializados.

Dentro da política de facilitar a produção, Gribeauval também introduziu um sis-


tema de viaturas e reparos padronizados e intercambiáveis, como o austríaco.

58
MACLENNAN, Ken. Liechtenstein and Gribeauval: ‘Artillery Revolution’ in Political and Cultural
Context. War In History. 2003, número 10. p. 255.
59
CHARTRAND, René. Napoleon's Guns 1792–1815 (1): Field Artillery. Elms Way: Osprey, 2003. p. 6.

213
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Figura 22 – Croquis de um torno horizontal de canhões. 60


Esta máquina era de fundamental importância nas novas peças de artilharia, do final do século XVIII em
diante, pois permitia a feitura mais precisa das almas. Ao mesmo tempo, as superfícies exteriores podiam
ser acabadas por fresas, como mostrado aqui, com dois operários fazendo o torneamento. O desenho mos-
tra um torno, instalado na fundição de Woolwich em 1795, movido por quatro ou dois cavalos, dependen-
do do tamanho do canhão sendo trabalhado.
Uma vez vencidas a resistência do pensamento conservador, a implantação dos
novos critérios na artilharia francesa foi algo fácil, já que a os oficiais dessa especiali-
dade supervisionavam as manufaturas que forneciam armas ao governo e administravam
diretamente os Arsenais de Construção (Ateliers de Construction d'affuts et Voitures –
oficinas de construção de reparos e viaturas), onde eram feitos as carretas. Estes eram
estabelecimentos que existiam em Douai, Estrasburgo, Metz, Auxonne, La Fère e Nan-
tes, junto a grandes guarnições de artilharia, sendo notável que eles se assemelhavam
em muito às funções da oficina de construção do Arsenal de Guerra do Rio (ver capítulo
8). Eram instituições que trabalhavam com obras de madeira, objetos de nível técnico
relativamente reduzido, pois apenas poucas das peças usadas eram de ferro. Também
funcionavam, em parte, como a manufatura brasileira, em bases militares. No caso da
França eram administrados por oficiais da artilharia com maior vocação técnica, que
também comandavam os batalhões de artífices militares. Estas eram unidades com 15
graduados, soldados promovidos para atuarem como feitores, e de 420 a 629 soldados
com formação artesanal, empregados nos estabelecimentos, ajudados por artesãos con-
tratados.61

O importante, contudo, é que a artilharia tinha o controle total sobre o que era
feito nos arsenais de construção, o que não era normal em outros tipos de manufaturas
francesas que supriam as forças armadas. Também se deve dizer que essas instituições
foram importantes na formação dos oficiais, pois os estudantes de engenharia militar
eram obrigados a os visitar, visando aprender

60
LANDMAN, Isaac. The founding of bronze guns, 1793. In: DE BEER, op. cit. p. 199.
61
ALDER, op. cit. p. 157.

214
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

as principais dimensões das peças de todos os reparos de artilharia, o


calibre definido para cada tipo de [canhão] fundido, o peso das princi-
pais munições e, finalmente, o preço comum da madeira, ferro e ou-
tras matérias primas nas diferentes províncias.62
Sendo que, como foi dito, os oficiais de maior vocação seguiriam na carreira de
gerenciamento da produção dos reparos de artilharia. Os melhores entre esses eram se-
lecionados para agirem como inspetores nas fundições de canhões e manufaturas de
espingardas privadas. 63

Figura 23 – Manufaturas das forças armadas francesas antes de 1789.


Tulle e Rouellé se dedicavam ao abastecimento da marinha, enquanto as outras serviam ao exército. Em
Douai e Estrasburgo havia arsenais de construção e fundições de canhões. O principal centro de produção
de armas portáteis era Saint-Étienne, onde tradicionalmente já havia um grande número de manufaturas
civis. O governo francês tendo estabelecido as manufaturas de Charleville e de Maubeuge para se apro-
veitar da mão de obra de armeiros belgas, vindos de Liège. O mesmo se deu com Klingenthal, criada para
se aproveitar do trabalho de alfagemes da região de Sühl, na Alemanha, onde, tal como em Liége, já havia
uma tradição de produção de armas. Esses arsenais situados nas fronteiras, contudo, corriam o risco de
serem ocupados por forças estrangeiras em caso de invasão, como de fato ocorreu em 1794, prejudicando
o esforço de guerra francês.
Tais detalhes, contudo, poderiam ficar mais no campo da curiosidade. O relevan-
te aqui é a importância que a nova filosofia por trás do sistema Gribeauval trouxe para a

62
ORDONNANCE du Roi concernant le Corps Royal de l’Artillerie, 3 de outubro de 1774. p. 112, Mss
Service Historique de l’Armée de Terre. Apud ALDER, op. cit. p. 74.
63
id. p. 74.

215
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

França. O general era um membro da artilharia, um serviço que na França era conhecido
como a Arme Savant, a arma intelectual ou, como era conhecida no Brasil, uma das
“armas científicas”. 64 Isso se devia ao fato da operação dos canhões e os trabalhos de
engenharia, que era subordinada à artilharia, exigir uma formação técnica, acadêmica, o
que não acontecia com os oficiais da infantaria e cavalaria, chamadas no Brasil de “ar-
mas combatentes”. Curiosamente, essa divisão entre armas “científicas” e “combaten-
tes”, fazia com que, na maior parte dos países – inclusive na França –, a artilharia fosse
um pouco menosprezada no serviço militar, justamente por ser considerada como uma
arma acadêmica, a nobreza dando preferência para o serviço nas “armas combatentes”.
Só que, na França, os artilheiros e engenheiros conseguiram superar esse problema,
usando justamente seu conhecimento científico.

A artilharia introduziu, por exemplo, novas técnicas, como a ênfase no desenho


técnico, ensinado nas academias militares e cursos técnicos como uma forma de racio-
nalizar a atividade dos profissionais de engenharia na construção e defesa de fortifica-
ções.65 Na verdade, a geometria descritiva uma disciplina criada na França, por Gaspard
Monge, 66 um professor da escola de engenharia militar em Mézières, que também de-
senvolveria técnicas de geometria analítica e geometria diferencial. Essas disciplinas
foram de fundamental importância no desenvolvimento de técnicas racionais de produ-
ção de artigos militares, pois eram formas reproduzir matematicamente o mundo real,
permitindo a construção de uma cópia mental sem o acesso aos objetos em si. Facilitou
muito a aplicação desses processos a introdução de um conjunto padronizado de medi-
das, o sistema métrico, pela Revolução Francesa, no qual trabalharam Prieur67 e Monge.

64
BRASIL – Arsenal de Guerra. Relatório do Arsenal de Guerra, relativo ao ano de 1869. Dr. Francisco
Carlos da Luz, diretor interino. Arsenal de Guerra, 18 de abril de 1870. Mss. ANRJ. IG7 24.
65
LANGINS, Janis. Conserving the Enlightenment: French Military Engineering from Vauban to the
Revolution. Cambridge: Massachusetts Institute of Technology, 2003. p. 191 e segs.
66
Gaspard Monge, (1746-1818). Matemático, inventor da geometria descritiva. Foi professor de física em
Lyons quando tinha 16 anos, e de matemática na Academia Militar de Mézières em 1768, quando ti-
nha 22. Três anos depois, foi nomeado professor de matemática na Academia. Em 1780 passou a le-
cionar também hidráulica no Liceu de Paris e se tornou membro da Academia. Escreveu vários tex-
tos sobre matemática. Tornou-se ministro da Marinha em 1792-1793. Apoiou o esforço de produção
de artigos bélicos, seguindo o pedido do Comitê de Salvação Nacional, publicando a Description de
l'art de fabriquer des canons (op. cit.). Foi fundador da Escola Normal e da Escola Politécnica. Re-
cebeu, sob Napoleão, o título de Conde de Péluse. ENCYCLOPAEDIA Britannica. London: En-
cyclopaedia Britannica, 1952. Vol. 15, Verbete Monge, Gaspard. p. 705.
67
Claude Antonie Prieur-Duvernois, também conhecido como Prieur de la Côte d’Or. Membro da As-
sembleia e da Convenção na Revolução Francesa, se tornou membro do Comité de Salvação Pública
em 1793, trabalhando com Carnot no suprimento dos exércitos. Foi um dos fundadores da Escola
Politécnica e do Instituto da França, que agrupa as cinco grandes academias francesas. Trabalhou na
adoção do sistema métrico e na criação do Bureau des Longitudes, responsável pelo estabelecimento
Continua –––––––

216
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Deve-se frisar que tudo isso se inseria numa forma de pensar iluminista, que valorizava
o pensamento racional como a principal fonte da autoridade e legitimidade 68 – pode-se
dizer que as ações dos oficiais da artilharia francesa marcariam a supremacia da corren-
te filosófica dentro das forças armadas francesas, em um processo que teria grande in-
fluência na manufatura de armas naquele país.

Como já colocamos, na França a artilharia era responsável pela administração do


que hoje seria conhecido como serviço de material bélico, o projeto, aquisição e distri-
buição de armas e equipamentos. Só que as reformas de Gribeauval tiveram uma in-
fluência que foi muito além do desenho dos canhões, o general e seus seguidores ten-
tando implantar um projeto que reformaria a sociedade francesa em um modelo tecno-
crático, centralizado, a partir do sucesso que suas reformas tiveram na aquisição de ma-
terial bélico.

Figura 24 – Reparo de varais do sistema Gribeauval.69


Carreta para peça de pequeno calibre. O interessante nesta imagem, feita para uso dos arsenais de cons-
trução, é o próprio desenho técnico, que usa projeções ortogonais (vistas superior e lateral), bem como a
geometria. Marcamos com uma hachura a parte do desenho onde se emprega um ponto central para se
definir uma curva na lateral do reparo, no caso, um arco de círculo. Tais técnicas permitiam se dispensar a
avaliação individual e subjetiva do artesão na feitura do objeto, possibilitando a produção de bens idênti-
cos por operários diferentes, mesmo em instalações afastadas uma das outras.
Não cabe aqui discutir os embates políticos em torno dessa proposta dos enge-
nheiros militares franceses – e foram muitos. 70 Mas ela teve um sucesso notável, se não
completo, representado pela ascensão de oficiais de engenharia a altos cargos durante a
Continuação–––––––––––
de dados para navegação. ENCYCLOPAEDIA Britannica, op. cit. Vol. 18. p. 483. Verbete Prieur-
Duvernois, Claude Antonie, comte.
68
BOBBIO, Noberto; MATTEUCCI, Nicola & PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. Brasí-
lia: EDUNB, 1993. Vol. I. Verbete iluminismo. p. 605.
69
Reproduzido de ALDER, op. cit. p. 123.
70
Uma discussão sobre esse tema pode ser vista em vários pontos da obra de ALDER, op. cit.

217
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Revolução, entre os quais se incluíam nomes como Carnot,71 Prieur e Monge.72 A ques-
tão que consideramos ser relevante é que os oficiais militares, responsáveis pela produ-
ção de artigos bélicos ou fiscalização das manufaturas, tiveram um importante papel na
adoção de técnicas experimentais visando aperfeiçoar o funcionamento da arma. A fa-
mosa locomotiva a vapor de Cugnot, de 1769,73 foi resultado de experimentos feitos no
Arsenal de Paris,74 visando facilitar a condução de artilharia – Cugnot era capitão da
arma.

Mais relevante em termos do presente texto, foi a procura de métodos para se


aperfeiçoar a produção manufatureira, entre os mais importantes se incluindo a adoção
de peças intercambiáveis, que seria um elemento vital da indústria moderna. Nesse sen-
tido, um autor estabeleceu quatro pré-requisitos necessários para o estabelecimento da
indústria moderna, de produção em massa: máquinas ferramentas de precisão; gabaritos
e aparelhos de medição precisos; padrões de medição uniformes e, finalmente, métodos
de desenho técnico.75 Na produção dos canhões, uma peça que por sua natureza é única,
os engenheiros militares franceses estabeleceram – na verdade, criaram –, três desses
fatores, só faltando as máquinas ferramentas. Essas só seriam introduzidas na feitura de
canhões na segunda metade do século XIX, quando se começaram a usar bocas de fogo
de ferro forjado e depois de aço, mudando a tecnologia da artilharia.

A questão das raízes da indústria moderna pode ser ainda vistas nos esforços dos
artilheiros franceses para o controle da produção de armas portáteis.

71
Lazare Carnot (1753-1823), era capitão de engenharia quando da Revolução Francesa, a quem se jun-
tou. Foi eleito deputado por Pais-de-Calais na Assembleia de 1791, sendo um dos deputados que vo-
tou a pena de morte para Luís XVI. Nomeado delegado dos Exércitos no Comité de Salvação Públi-
ca em 1793, participou de várias campanhas militares, obtendo importantes vitórias. Conseguiu so-
breviver à revolução do Thermidor, continuando a ser um membro do Diretório, o órgão executivo
da Revolução. Exilado por um curto tempo em 1797, retornou ao governo, sendo brevemente minis-
tro da Guerra, em 1800. Continuou a agir na administração militar sob Napoleão, sendo exilado em
1815, por ser um regicida. Foi o autor de um importante livro sobre fortificações em 1810. Por seu
papel nas ações logísticas ele recebeu o cognome de o “Organizador da vitória”. ENCYCLOPAE-
DIA Britannica, op. cit. Vol. 4, Verbete Carnot, Lazare Nicolas Marguerite. p. 939.
72
Não era oficial de artilharia, mas estava ligado à arma, por ser professor da Escola de Mézières. Ver
nota 66, acima.
73
DERRY e WILLIANS, op. cit. vol. I. p. 563. A carroço a vapor foi o primeiro veículo automotor da
história. A ideia que embasou o projeto sendo a obtenção de veículos para tracionar peças de artilha-
ria.
74
No século XVIII, o Arsenal de Paris não tinha mais funções fabris, servindo como residência a vários
nobres. Os prédios, contudo, ficava ao lado da Bastilha, uma casa de armas. CHEVREL, Claudine.
La Bibliothèque de L'Arsenal. https://goo.gl/zAc6EC (acesso em outubro de 2016).
75
WOODBURY, Robert S. The Legend of Eli Whitney and interchangeable parts. Technology and Cul-
ture. Vol. 1 Nr. 3, Summer 1960. p. 247.

218
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

5.3 Manufatura de armas de fogo


Ao contrário do que acontecia com os uniformes e com a artilharia, atividades
claramente pré-industriais, a manufatura de armas de fogo é uma em que as característi-
cas das manufaturas pré-industriais em mudança para uma com atributos industriais, de
fábricas mecanizadas, são mais visíveis. Na verdade a adoção prática e efetiva de toda a
série de processos necessários para a implantação da indústria moderna surgiu na manu-
fatura de armas portáteis, ao contrário do que tinha ocorrido com as de reparos de arti-
lharia e canhões, onde o processo de transição para métodos modernos tinha ficado in-
completo.

As características de transição da indústria militar são visíveis nesse campo: ini-


cialmente a produção de armas portáteis não era muito diferente da de outros produtos
feitos artesanalmente. Os mestres armeiros tinham uns poucos artesãos e aprendizes sob
sua responsabilidade, estes trabalhando na execução de alguns serviços mais simples e
atividades onde o emprego da força era necessário. O uso de máquinas era restrito a
algumas etapas do processo produtivo, o serviço dependendo, basicamente, da habilida-
de dos artesãos em avaliar o que tinha que ser feito manualmente, usando sua força físi-
ca e as próprias oficinas de trabalho eram modestas: em média 30 m² nos arsenais de
Charleville ou Maubeuge, chegando a um pouco mais de 50 m² em Klingenthal, para o
caso das cidades francesas onde havia arsenais.76

Consideramos essa questão da força hidráulica interessante, em termos de com-


paração. É evidente que o uso de máquinas movidas à água não era indispensável, nas
condições de produção descritas era possível fazer as peças inteiramente a mão. Só que
o uso de força mecânica poderia aumentar em muito a eficiência das oficinas, ao mesmo
tempo em que diminuiria os custos operacionais ao reduzir os esforços dos artesãos e
eliminando a mão de obra não qualificada que era necessária não só para mover as má-
quinas, mas também para executar certos serviços, como o desdobrar (serrar) madeiras
ou malhar o ferro nas forjas.

Por outro lado, a força hidráulica tinha alguns problemas. Eram necessários
grandes investimentos iniciais para a aquisição das máquinas, dos terrenos apropriados
e a construção dos prédios especiais. Também era preciso haver uma fonte de água com

76
MORTAL, Patrick. Les armuriers de l’État: du Grand Siècle a la globalisation, 1665-1989. Villeneuve
d’Ascq: Presses Universitaires du Septentrion, 2007. p. 31. Para efeito de comparação, a oficina do
Arsenal de Guerra da Corte ilustrada na Figura 50 (página 398), tem 450 metros quadrados.

219
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

certo volume, velocidade e, principalmente, regularidade ao longo do ano, para poder


haver o aproveitamento econômico dos engenhos ao longo de todo o período produtivo,
sem que secas paralisassem o funcionamento das rodas. Às vezes era necessário até
construir represas para garantir o fornecimento de água, como teve que ser feito na fá-
brica de armas de Ipanema. Só que mesmo esse tipo de recurso não era sempre suficien-
te: durante a Guerra da Criméia (1753-1856) a fábrica de armas norte-americana Rob-
bins & Lawrence recebeu do governo inglês uma encomenda de 20.000 armas do mode-
lo 1853, mas não conseguiram entregar, pois uma seca impediu que suas serras movidas
por rodas d’água funcionassem, resultando no cancelamento da encomenda.77

Perdemos um pouco de tempo falando das máquinas hidráulicas, pois esta era
uma questão de fundamental importância. Até a adoção generalizada dos motores a va-
por, a instalação de manufaturas que pudessem se valer das possibilidades da mecaniza-
ção dependia do terreno, como foi o caso tanto da Fábrica de Pólvora da Lagoa como a
da Estrela. Por sua vez, o Arsenal de Lisboa, localizado no centro da cidade, estava li-
mitado em suas possibilidades de uso de máquinas pesadas – o máximo que se conse-
guia lá foi a montagem de aparelhos movidos por animais, havendo uma abegoaria,78
um estábulo para abrigar os animais necessários ao funcionamento das máquinas de lá.

A questão do Arsenal de Lisboa é interessante por causa da comparação que se


pode estabelecer neste aspecto com os do Brasil: no local das instalações dessas manu-
faturas, em todas as cidades em que foram feitas aqui, seria impossível o uso de máqui-
nas hidráulicas, tal como acontecia em Portugal. Por sua vez, Coelho, um autor que es-
tudo os Arsenais de Lisboa e do Porto, aponta, de forma pertinente, que a introdução do
uso de máquinas só era necessária onde esta resultaria em diminuição de custos. Onde a
mão de obra era barata, não havia um grande incentivo para isso, o que era o caso do
Arsenal de Lisboa. 79 No caso, apesar de sua natureza anedótica, consideramos interes-
sante notar que no início do século XIX, a força humana necessária para mover as má-
quinas em Lisboa era provida por cegos, 80 pessoas que não teriam outra inserção eco-
nômica na sociedade portuguesa e cujos salários seriam, necessariamente, baixos.

77
SMITHURST, Peter G. Gunmaking by machinery: birth of the consumer society. Lecture at the Impe-
rial War Museum, 20th June, 2011. https://goo.gl/LKS8H2 (acesso em outubro de 2016).
78
COELHO, op. cit. p. 233.
79
id. p. 63.
80
id. p. 245. Há sinais que essa prática continuou no Brasil, apesar de não ter sido comum: em 1827 o
Arsenal de Guerra publicou um anúncio para contratação “todos os cegos, e mutilados livres, que
Continua –––––––

220
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

De qualquer forma, a fabricação centralizada de grandes números de armas de-


pendia de locais onde rodas d’água pudessem ser instaladas (ver Figura 25) – em Paris,
durante a Revolução Francesa, as oficinas de acabamento de canos foram montadas em
barcos no rio Sena, para se aproveitar da correnteza para mover as máquinas.81 A opção
seria a descentralização na fabricação das armas ou de suas peças, instalando as oficinas
onde houvesse força hidráulica disponível.

Figura 25 – Localização de oficinas em Saint-Étienne. 82


O rio Furan era indispensável para a instalação de rodas d’águas que pudessem mover as máquinas usadas
na manufatura de armas, principalmente os rebolos usados no desbaste (esmerilhamento) dos canos. O
mapa mostra a descentralização da manufatura de armas – a maior da França – mas que era dividida em
dezenas de pequenas oficinas artesanais.
Isso nos leva a outro ponto da pré-indústria das armas militares na Europa: era
um tipo de atividade em que já havia uma clara divisão de trabalho nos maiores centros
de produção da Europa. Enquanto na produção tradicional, o mestre era responsável
pela feitura de toda a arma, do cano a coronha de madeira, em um processo complicado,
que levava mais de 21 homens-dias para ser concluído, 83 na Inglaterra, França, Bélgica

Continuação–––––––––––
possam ser empregados nos trabalhos de rodas e foles” Diário do Rio de Janeiro, nº 10. Rio de Ja-
neiro, 11 de agosto de 1827. p. 1.
81
ALDER, op. cit. p. 267.
82
Desenho baseado em: DAUMAS, Maurice. L’Archéologie industrielle em France. Paris: Éditions Rob-
ert Laffont, 1980. p. 94.
83
WOODBURY, op. cit. p. 247. Esse número refere-se ao Arsenal norte-americano de Springfield, em
1799, uma manufatura mais moderna que as oficinas tradicionais. p. 245.

221
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

e regiões da atual Alemanha, a feitura de uma arma era dividida em uma série de pro-
cessos separados, a cargo de diferentes artesãos.

Figura 26 – Oficina de um armeiro, 1718.84


A gravura mostra as ferramentas necessárias para a produção de uma arma em uma oficina artesanal tra-
dicional. Nela estão mostradas, a forja, à esquerda, com a bigorna, malhos e, no chão, as lâminas de ferro
para forjamento. Em primeiro plano, um torno, ou broca de canos, movido à força humana. Junto à janela,
a bancada, com duas morsas de ferreiro e várias ferramentas, sendo observáveis uma pequena bigorna e
várias limas, necessárias para dar o acabamento das peças metálicas. Também podem ser observadas
várias escalas e compassos para medição e controle da peça em produção. Na parede ao fundo estão pen-
durados vários mandris – que o autor chama de “espetões” –, correspondentes aos diversos calibres de
armas que podiam ser fabricados. Cremos ser notável, a direita dos mandris, a adarmeira e o escantilhão
(as duas últimas peças penduradas, à direita), reforçando a ideia que o autor da imagem queira passar com
os compassos e escalas, de um controle da produção de objetos com medidas precisas e, até certo ponto,
padronizadas. Entretanto, o mestre armeiro está examinando, a olho, um corte de uma lâmina de ferro, em
uma análise cristalográfica muito primitiva, que dependia inteiramente de seu julgamento subjetivo, base-
ado em anos de experiência.
Eram cerca de duas dúzias de especialidades: forjadores e desbastadores de ca-
nos; forjadores e limadores de culatras; fabricantes de parafusos; fabricantes de fechos;
coronheiros; fabricantes de guarnições; forjadores de baioneta e assim por diante.85 Ca-
da um, como no exemplo da manufatura de alfinetes mencionada por Adam Smith, exe-

84
FIOSCONI & GUSERIO, op. cit. entre as páginas 4 e 5.
85
ALDER, op. cit. p. 176.

222
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

cutando uma atividade repetitiva, com as ferramentas necessárias para a tarefa sobre a
qual tinham responsabilidade, aumentando em muito o volume produção. Só que, ao
contrário de um processo que consideraríamos “natural”, essa divisão de trabalho não
implicava em uma manufatura concentrada. Cada mestre tinha sua própria oficina
(Figura 25), trabalhando na produção de um componente específico, que depois era en-
viado para um atelier central, onde o produto final era montado por outro operário espe-
cializado, o ajustador.

Na prática a feitura de uma arma era dividida em uma série de processos mais
simples, mas ainda assim necessitando um elevado grau de especialização por parte dos
mestres. Em termos gerais, podemos trabalhar a fabricação da arma de fogo como com-
posta de três atividades principais: a feitura do cano, a do fecho e a ajustagem final,
sendo que alguns autores apontam a manufatura do cano como um processo que envol-
via a elite dos trabalhadores. Em Saint-Étienne, na França, na produção de cada cano
trabalhavam treze armeiros diferentes, em vários momentos do acabamento da peça.86

De fato, o forjamento do cano era um processo que demandava um grande co-


nhecimento. Primeiro, para reconhecer o melhor metal para o preparo da peça: o livro a
espingarda perfeita, um manual de fabricação de armas publicado em Portugal, 87 dedica
seis páginas a descrição do ferro apropriado para cada tarefa, material que devia ser
escolhido pela análise visual da granulação do material (ver Figura 26). Além disso,
exigia um grande cuidado na feitura: o cano era feito a partir de um pedaço retangular
de ferro, que era aquecido até estar em rubro e então esticado a força de marteladas, até
que tivesse o comprimento necessário, sendo então dobrado ao redor de um mandril. A
soldagem, a união dos metais, era feita na forja, a força de martelos do mestre e de um
ou dois artesãos, o acabamento da peça sendo feito por limas no caso das oficinas arte-
sanais comuns, ou com rebolos, em locais com disponibilidade de força hidráulica (ver
Figura 27).

86
id.
87
FIOSCONI & GUSERIO, op. cit. pp 26 a 32.

223
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Figura 27 – Oficina de desbaste de canos, 1751. 88


Uma das poucas etapas mecanizadas na produção de armas, só usada em alguns locais. Os artesãos espe-
cialistas nesse ramo trabalhavam para remover as imperfeições e dar a forma final ao cano da arma usan-
do grandes rebolos de esmeril movidos por força hidráulica. Era um serviço perigoso, pois as rodas podi-
am explodir com a pressão dos motores, ferindo os operários. Além disso, os homens estavam sujeitos a
sofrer de silicose, uma doença pulmonar, por respirarem a poeira dos rebolos. O processo, contudo, acele-
rava em muito a produção de armas, apesar de ainda demandar um artesão qualificado, para julgar visu-
almente o quanto do cano deveria ser esmerilhado.
Todo o processo era muito empírico e podia resultar em problemas – em meados
do século XVIII, em Saint-Étienne, na França, de 20 a 30% dos canos falhava no teste
no banco de prova.89 O processo de teste era vital, pois de outra forma a arma podia
explodir durante o disparo, obviamente com resultados desastrosos para o usuário.

Menos sensível a problemas, mas um elemento bem mais difícil de ser feito, era
o mecanismo de disparo, o fecho. Enquanto um cano podia ser forjado e acabado em
menos de quatro horas de trabalho total, esse tipo de peça levava, na melhor das hipóte-
ses, 14 horas.90 No caso, a divisão de trabalho não é tão visível, apesar de existir em
alguns casos. O problema é que o mecanismo de disparo é complexo, com uma série de
peças interagindo mecanicamente, devendo estas ser ajustadas com precisão: o cão, com
a pedra de sílex, tinha que atingir o fuzil em um ângulo bem preciso, de forma a forçar a

88
DIDEROT & D’ALEMBERT, op. cit. Fabrique des Armes.
89
ALDER, op. cit. p. 174.
90
DIDEROT, M. & D’ALEMBERT, M. op. cit. vol. 5. Planches.

224
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

abertura da caçoleta, ao mesmo tempo em que as fagulhas produzidas pelo impacto do


sílex contra o fuzil atingiam a escorva, permitindo o disparo. O movimento do cão era
liberado pela noz, uma peça de desenho complexo, que tinha que ser cuidadosamente
ajustada para o mecanismo funcionar (ver Figura 28).

Todo esse complicado mecanismo precisava que seus elementos componentes


fossem ajustados individualmente, de fecho para fecho – as peças de um não serviam
em outro, sendo necessário o emprego de um operário especializado, um ajustador, que
faria os trabalhos de forjamento e limagem precisos para a montagem do objeto final.
Algo que não era simples, pois tudo era feito em aço, um material difícil de trabalhar
por causa de sua dureza, apesar da têmpera final

A produção desse mecanismo não era uma atividade que pudesse ser deixada a
cargo de um aprendiz ou mesmo a de um trabalhador pouco habilitado – quando na
França Revolucionária foram montados emergencialmente diversos arsenais, usando
artesãos com diferentes ofícios para fazer os fechos, uma das oficinas, a do bairro Qua-
tre-Vingt, em Paris, subordinada ao Arsenal criado na cidade, tinha 83 operários fazen-
do essas peças. Em uma década, a semana de dez dias adotada durante a Revolução
Francesa, dezesseis desses trabalhadores fizeram três fechos completos cada, 28 deles
completaram dois e dezenove conseguiram acabar um. Os outros vinte artesãos não ti-
nham completado um mecanismo sequer em dez dias e a produtividade máxima por
artesão era de apenas três fechos por “década”. Um mestre das manufaturas tradicionais
conseguia terminar cinco desses mecanismos por década.91

91
id. p. 268.

225
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Lista das peças.92


1 – Chapa do fecho;93
2 – Cão;
3 – Fuzil;
4 – Caçoleta;
5 – Mola da bateria;
6 – Mandíbula superior;
7 – Parafuso do cão;
8 – Pederneira;
9 – Mola real;
10 – Noz;
11 – Ponte da noz;
12 – Gatilho;94
13 – Mola do gatilho.

Figura 28 – Peças de um fecho.


Desenho do mecanismo de uma arma militar, datando de 1855, 95 com a terminologia oficial do exército
brasileiro. Com os parafusos, eram vinte peças. O desenho desse mecanismo foi inventado por volta de
1615 na França – é conhecido na bibliografia como “fecho francês”. Basicamente é o mesmo tipo de
aparato que começou a ser adotado nos exércitos europeus no terceiro quartel do século XVII, permane-
cendo em uso em todos eles até a primeira metade do XIX, ou seja, por aproximadamente 175 anos. Em-
baixo, à direita, colocamos um detalhe com um desenho em projeção ortogonal de uma noz, com seu
parafuso. 96 Esta peça era considerada “o cérebro do fecho”, 97 pois transmitia a força da mola real para o
cão, depois de o gatilho ser acionado. Era um objeto de desenho e construção bem complexa, os entalhes
com os números 1 e 2 servindo, respectivamente, para engatilhar a arma ou a colocar em posição de segu-
rança (meio engatilhada), enquanto a curva depois dos entalhes era irregular, forma necessária para asse-
gurar o movimento suave do mecanismo no ato colocar a arma em situação de disparar.
Outro problema da complexidade da feitura dos fechos era a dificuldade de se
fazer uma divisão de trabalho efetiva que produzisse uma peça completa capaz de fun-
cionar sem um grande trabalho de ajustagem – Carnot, o ministro da guerra, no início da
Revolução Francesa, chegou até a ordenar que se adotasse nas manufaturas do governo
o processo antigo de produção, onde um trabalhador faria todo o fecho mecanismo sozi-
nho, sem divisão de trabalho, tentando aumentar a produção, o que se entende tendo em
vista a falta de artesãos habilitados para fazer a ajustagem.

92
Usando os termos constantes do manual do exército: PEIXOTO, Luiz Ribeiro dos Guimaraens. Ensaio
da nomenclatura das pecas de que se compõem as armas em uso na infantaria e cavalaria do Exér-
cito brasileiro. Rio de Janeiro: Litografia do Arquivo Militar, 1855. pp. 4 a 6.
93
Curiosamente, o “Ensaio da nomenclatura” não dá o nome dessa peça, nem o da contra-chapa, que
retiramos da documentação do Arsenal. Cf. id.
94
Hoje em dia gatilho é outra peça do mecanismo, que na época se chamava de “desarmador”.
95
PEIXOTO, op. cit. p. 5. (Os números em vermelho foram colocados por nós).
96
DIDEROT, M. & D’ALEMBERT, M. op. cit. vol. 5. Planches.
97
ALDER, op. cit. p. 197.

226
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Mesmo assim, em Saint-Étienne, chegava a haver 47 pessoas trabalhando na


produção de apenas um fecho, sendo que um bom número sequer vivia na cidade: em
1799 eram 584 fabricantes de fechos lá, dos quais apenas 12% viviam na povoação
Saint-Étienne. 30% até trabalhavam fora do Departamento (Província)98 o que certa-
mente implicava problemas na montagem do mecanismo. Isso justifica a maior produti-
vidade dos arsenais de Maubeuge e Charleville, cerca de 50% maior do que a de Saint-
Étienne no que tange aos fechos.99 Também explica o menor preço das armas produzi-
das pelos arsenais do governo: um fuzil feito em Maubeuge, uma manufatura concen-
trada, era 41% mais barato do que um de Saint-Étienne.100

De todas essas dificuldades, se entende o gargalo que a manufatura desses obje-


tos representava no preparo de armas de fogo: durante os 13 meses de funcionamento do
improvisado Arsenal de Paris durante a Revolução (novembro de 1793 a dezembro de
1794), foram preparadas 145.600 espingardas completas, com 11.649 canos ficando
excedentes. Entretanto, houve um déficit de mais de 100.000 fechos: só tinham sido
feitos 44.012 deles durante a existência do Arsenal, a diferença tendo que ser suprida
pelo conserto de mecanismos de armas inutilizadas em combate,101 um expediente que
não poderia ser contado como uma solução de longo prazo. A procura de métodos efici-
entes para a produção de fechos é um ponto central para se entender os esforços de mo-
dernização de processos de manufatura que seriam empreendidos inicialmente na Fran-
ça, conforme trabalharemos mais abaixo.

De qualquer forma, o processo descentralizado de fabricação de armas tinha uma


série de consequências que já eram vistas como negativas na época. Um era que as ar-
mas eram objetos individuais, feitos à mão. Mesmo que aparentemente fossem idênti-
cos, eram necessariamente diferentes. Realmente, o único elemento cuja padronização
era vital era o calibre e este, pelo menos, podia ser facilmente determinado pelo mandril
pelo qual se formava o cano da arma, de forma que não era um grande problema. Em
termos práticos isso era o mínimo necessário, pois era o elemento fundamental no for-
necimento de munições – as armas tinham que ter o mesmo calibre, para poderem rece-
ber as mesmas balas, um elemento vital em termos logísticos.
98
id. p. 335.
99
id. pp. 245-246.
100
ROUSSEAU Jean. Les manufactures d'armes sous la Révolution et l'Empire [note critique]. École
pratique des hautes études. 4e section, Sciences historiques et philologiques. Année 1970 Volume
102 Numéro 1. p. 725.
101
ALDER, op. cit. p. 288.

227
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

No entanto, a falta de justeza nas peças gerava custos de ajustagem: os franceses


tinham uma manufatura especializada em armas brancas, Klingenthal, de forma que as
baionetas prontas eram despachadas para os outros Arsenais. No caso de Saint-Étienne,
isso representava uma viagem de 530 km, obrigando a que houvesse profissionais espe-
cializados em armas brancas nessa última localidade, pois seria impossível devolver as
lâminas para Klingenthal para os ajustes necessários. Esse problema fica mais evidente
no caso de equipamentos que precisassem de consertos no campo de batalha: como não
era possível haver peças de reposição padronizadas, qualquer defeito implicava que toda
a arma tinha que ser devolvida para um Arsenal para ser reparada.

Outra das consequências dessa forma de manufatura descentralizada era que se-
ria difícil para um exército se equipar de forma rápida ou regular, negociando com de-
zenas ou mesmo centenas de armeiros individuais – novamente em Saint-Étienne, po-
demos dizer que havia de cem a duzentos mestres fazendo armas em oficinas próprias, a
maior parte deles produzindo menos de dez espingardas por ano.102 Isso ainda mais le-
vando em conta que as forças armadas tinham que competir com o mercado civil, que
em situações normais correspondia de 160% a 240% da produção de armas militares,
uma boa quantidade dessas sendo de armas baratas, mais fáceis de fazer, destinadas ao
tráfico de escravos.103

Uma solução encontrada foi a criação de departamentos centralizados para ge-


renciar a compra de armas. Um desses, na Inglaterra, foi o Board of Ordnance, que ad-
quiria os elementos separados, os inspecionava e os montava em uma instalação central,
a Torre de Londres. As armas marcadas com a palavra “Tower” (da Torre), comuns em
coleções de museus, não foram inteiramente feitas naquele Arsenal, mas montadas lá,
com peças vindas inicialmente de armeiros de Londres, aos que se somaram os de Bir-
mingham no século XVII. Ao contrário do que alguns escrevem, isso não quer dizer que
a Torre não fosse uma manufatura,104 pois o serviço de montagem da arma era compli-
cado e exigia ajustadores qualificados, como tratado acima.

No contexto emergencial das guerras Napoleônicas, os ingleses chegaram a criar


um arsenal governamental para produção de armas, situado em Lewisham, para a pro-

102
id. p. 175.
103
id. p. 176. Os dados se referem às manufaturas de Saint-Étienne, na França, mas a mesma situação se
repetia em Birmingham (Inglaterra) e em Liège, Bélgica.
104
REID, op. cit. p. 12.

228
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

dução de fechos e canos, que seriam enviados para a Torre, para serem acabados. A
manufatura de Lewisham, que começou a funcionar em 1807, usava rodas d’água e,
depois, um motor a vapor para mover diversas máquinas e tinha o objetivo de fabricar
50.000 canos por ano. Em 1810 empregavam 156 homens, entre os quais três feitores e
inspetores; 82 limadores de fecho; quatro limadores de canos; quatro fresadores de ca-
nos, sete desbastadores de canos e dez forjadores de canos. Estes conseguiram atingir
uma produção bem razoável, de 33.121 canos e 23.697 fechos em 1811 – se tomarmos
este último número como índice da quantidade de armas fabricadas, isso implicaria em
151 espingardas feitas por cada trabalhador por ano – um número bem razoável, muito à
media por trabalhadores das manufaturas do período. Mesmo assim, foram tomadas
medidas para aumentar a produção, como tornos de canos, máquinas de estampagem de
cães, a precisão sendo aferida por conjuntos de aparelhos de medição e gabaritos padro-
nizados. Curiosamente, Blackmore, um autor que estudou o assunto, aponta que o gar-
galo na produção era a fabricação de um dos elementos menos técnicos da arma, a coro-
nha, ainda feita inteiramente de forma manual, com um trabalhador especializando en-
carregado de todo o trabalho de talha para abrir os espaços para o cano e fecho, assim
como dar a forma final ao objeto. 105

O fim das guerras Napoleônicas impediu um avanço maior das técnicas de ma-
nufatura de armas na Inglaterra, apesar de uma nova manufatura governamental ter sido
instalada em Enfield em 1816. Na prática, o exército voltou a usar o sistema de compras
em armeiros privados de Birmingham. 106 A situação na Inglaterra começou a mudar em
1854. Naquele ano o país estava envolvido na Guerra da Criméia (1853-1856) e o sis-
tema de fornecimento de armas por empreendedores não estava atendendo às necessida-
des do exército. Para tentar resolver o problema, o governo criou comitê para estudar a
questão da fabricação de armas, com ênfase no estudo da possibilidade do uso dos mé-
todos dos arsenais americanos de produção de armas. O comitê executou uma série de
entrevistas com armeiros e engenheiros de renome, muitas das questões girando em
torno da viabilidade do funcionamento do sistema – havia várias autoridades que não
acreditavam ser possível fabricar armas usando primordialmente máquinas, mas a deci-
são foi pela importação de todo um conjunto de máquinas ferramentas norte-americanas

105
BLACKMORE, Howard L. Military gun manufacture in London and the adoption of interchangeabil-
ity. Arms Collecting, vol. 29, nº 4. pp. 115-117
106
id. pp. 117.

229
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

para fazer armas segundo o sistema dos arsenais dos Estados Unidos, que, como trata-
remos mais abaixo, foi revolucionário. 107

Por sua vez, a França tentou resolver o problema, como já dito anteriormente,
montando “manufaturas reais” de armas: Saint-Étienne em 1665; Charleville, dez anos
depois; Maubeuge em 1701; Klingenthal – especializada na feitura de armas brancas –
em 1730; e Tulle, que fabricava armas para a Marinha e as colônias a partir de 1690. No
entanto, não se deve pensar em uma organização moderna para essas manufaturas, espe-
cialmente a de Saint-Étienne, uma cidade que já existia como centro produtor de arma-
mentos há séculos.

Em todos os casos acima citados, o governo francês não assumiu a responsabili-


dade direta pela produção: nas fábricas criadas especificamente, era dado a um particu-
lar o direito de explorar as instalações, servindo de intermediário entre os artesãos e o
governo. Assim, a carta patente de 15 de julho de 1730, que criou a Manufatura de
Klingenthal apenas concorda com “a proposta do Senhor Anthés, de estabelecer uma
manufatura de armas de armas brancas em nossa província da Alsácia”, a fábrica sendo
vendida para o Senhor Wolf em 1736. Com este morrendo em 1755, os privilégios da
manufatura foram repassados pelo tutor dos filhos menores de Wolf a Lucien-Jacques
Maupetit, que os cedeu a Louis-Antoine Gau.108 Há outros documentos semelhantes,
dando privilégios aos “proprietários” das manufaturas reais109 que, como vimos eram
tratadas como se fossem patrimônio de um particular. Na prática, o sistema se transfor-
mava em um oligopsônio, uma estrutura de mercado caracterizada por haver um peque-
no número de compradores. No caso, o freguês final eram as forças armadas, que ti-
nham direitos exclusivos sobre certos itens: a venda de armas de calibres em uso pelas
forças armadas foi proibida na França.

107
HOUNSHELL, David A. From the American System to Mass Production: 1800-1932. Baltimore: John
Hopkins, 1984. p. 61.
108
FRANÇA – Rei. Lettres patentes du Roi qui accordent au sieur Gau le privilège pendant 30 années,
pour l'entreprise de la manufacture d’armes blanches d’Alsace. Versailles, 20 de abril de 1765. Pa-
ris: Imprimiere Royale, 1765.
109
FRANÇA – Conselho de Estado. Arrêt du conseil d'état rendu en faveur de la manufacture royale
d'armes de Charleville. 15 de dezembro de 1767. Paris: Imprimiere Royale, 1767. O documento cita
os senhores Baudard de Vaudesir e Cotheret, “proprietários da Manufatura Real de Armas de Char-
leville”. O mesmo com relação à manufatura de Tulle, que foi transformada em Manufatura Real em
1777, sendo propriedade do Senhor Fenis de Saint Victour. FRANÇA – Rei. Lettres patentes du Roi
pour l'érection de la manufacture d'armes à feu établie dans la ville de Tulle en manufacture royale
pour le servise de la Marine. Paris, 27 de dezembro de 1777. Paris: Prault, s.d.

230
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Em Saint-Étienne, o maior centro, inicialmente havia um sistema em que “em-


preendedores” (entrepeneurs) contratavam com o governo o fornecimento de armas e,
por sua vez, empregavam artesões isolados para fazer as armas ou as peças delas. Esses
empreendedores possuíam capitais para financiar a produção, adquirindo a matéria pri-
ma, adiantavam dinheiro para os artesãos e possuíam instalações que exigiam maiores
aportes financeiros, como moinhos d’água e as máquinas para fresar e esmerilhar os
canos.110 Assim, em 1755 o governo assinou um contrato com oito empresários da cida-
de para a produção de 27.000 espingardas, cinco deles devendo entregar 2.500 armas,
dois 4.500 e o maior de todos, Girard Robers, 5.500 espingardas. 111 Neste caso, deve-se
frisar que os empresários não produziam as armas por si, elas eram feitas nas pequenas
oficinas dispersas, acima citadas.

Desta forma, a fabricação de armas em Saint-Étienne se encaixa perfeitamente


no conceito de uma pré-indústria discutido anteriormente, no quarto capítulo. Na verda-
de, a situação lá se assemelha ao conceito semelhante, de proto-indústria, de uma ativi-
dade artesanal dispersa em um ambiente rural: os trabalhadores, como no modelo discu-
tido por Braudel (ver página 147), gastavam parte de seu tempo com a agricultura de
subsistência, a ponto de no início da Revolução Francesa, na crise militar que surgiu, o
governo ter baixado leis vedando que os armeiros se afastassem de suas oficinas, proi-
bindo folgas nos domingos e feriados, assim como que deixassem de trabalhar, para
cuidar de suas colheitas.112

A situação de Saint-Étienne, apesar dela também ter o título de Manufatura Real,


era diferente das outras, que funcionavam em instalações mais centralizadas, apesar de
também serem um pouco dispersas e de serem administradas por um particular. É ver-
dade, que mesmo em Saint-Étienne o sistema de empreendedores privados que atuavam
como intermediários entre o governo e os artesãos, foi substituído por um contratador
único, administrando a produção113 de modo privado, tal como nos outros arsenais, mas
a manufatura lá permaneceu como uma organização extremamente descentralizada.

110
COTTY, H. Supplément au Dicitionnarie de l’Artillerie. Paris: Librairie Militaire d’Anselin, 1832.
Verbete entrepeneurs des manufactures royales d’armas portatives. p. 188.
111
ARGENSON, Antoine-René de Voyer. Etat des fusils de soldats que les entrepreneurs de la manufac-
ture d'armes de St. Étienne sont chargés de faire fabriquer en l’anne present 1755 en consequence
des marchés qui leur ont passé le 20 decembre dernier. Mss. Biblioteque Nationale de France.
112
ALDER, op. cit. p. 324.
113
VIRET, Jéréme-Luther. L'industrie des armes portatives à Saint-Étienne,1777-1810. L'inévitable
mécanisation? Revue d’histoire moderne et contemporaine, 1/2007 (no 54-1), p. 191.

231
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

O que era semelhante nos arsenais administrados por empreendedores era o sis-
tema de supervisão: em todos os casos, como já dissemos antes, a aquisição das armas
era feita pela Artilharia. Esta, apesar de não gerenciar diretamente a feitura das armas,
tinha o poder de fiscalização sobre os resultados finais, com um inspetor trabalhando
em cada Arsenal, este oficial sendo selecionado entre aqueles que demostrassem maior
aptidão técnica.114 O inspetor era apoiado por três controladores civis, que faziam a pro-
va dos canos, dos fechos e da arma montada.

Além disso, a artilharia tinha a autoridade para estabelecer as normas de funcio-


namento do banco de prova onde se testavam as armas, definindo dessa forma padrões
mínimos de controle de qualidade. Mais importante, como compradora, podia determi-
nar o que seria feito em termos de modelo. Esse último ponto é vital na história das téc-
nicas de manufatura, pois a situação das fábricas de armas, especialmente na descentra-
lizada Saint-Étienne, não era vista como ideal pela irregularidade dos produtos. Isso se
torna importante quando reiteramos o que falamos sobre a fundição de canhões, no que
tange do pensamento iluminista que baseava a produção de canhões e a introdução de
técnicas de desenho, mencionadas acima: uma das propostas da artilharia francesa foi a
de “‘normalizar’ o desempenho de suas armas, tornar sua operação mais regular, precisa
e mortífera”.115 Para obter esse objetivo os franceses tomaram um passo fundamental
para se estabelecer alguns dos modernos princípios de fabricação em massa.

5.3.1 As peças intercambiáveis


Como tratamos brevemente acima, com a carroça a vapor de Cugnot, a artilharia
francesa tinha interesse em inovações e uma das áreas em que foram feitos investimen-
tos no desenvolvimento de novas técnicas foi na manufatura de armas. O sistema de
produção existente era muito irregular, causando prejuízos para o funcionamento das
tropas. Uma solução possível seria estender o trabalho que tinha sido feito com os ca-
nhões e reparos, de adoção de peças intercambiáveis, para as armas portáteis, algo que,
voltamos a frisar, teria uma imensa influência na formação das indústrias modernas.

Pelo sistema de peças intercambiáveis, cada elemento de uma arma deveria ser
feito de acordo com padrões rígidos de tolerância, de forma que todas as peças, do me-
nor parafuso até o cano, pudessem se encaixar em qualquer outra arma, sem ser necessá-

114
id. p. 74.
115
id. p. 128.

232
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

rio um ajuste prévio. Isso tinha evidentes vantagens em termos de peças de reposição. O
famoso químico francês Réaumur,116 que defendia a adoção de chapas de fecho feitas de
ferro fundido, descreveu bem as vantagens do sistema:

Uma espingarda com um cano quebrado se torna inútil por que seu fe-
cho, ou peças do fecho, não podem ser adaptados à outra espingarda;
contudo, desde que todas as peças sejam do mesmo calibre [dimen-
sões], as de umas podem trocadas por aquelas de outras. Umas poucas
peças quebradas não mais tornarão todas as outras inúteis. O que resta
de uma espingarda muita estraçalhada servirá para reparar outra.117
Outro ponto positivo do sistema seria que, se uma parte do conjunto se danifi-
casse, como uma mola (um defeito comum), esta poderia ser substituída por outra por
um artesão, mesmo que este estivesse fora se sua oficina, como os armeiros dos regi-
mentos,118 ele não precisando de instalações fixas ou mesmo de ferramentas mais espe-
cíficas.

Por outro lado, a ideia de peças intercambiáveis tinha suas desvantagens. A prin-
cipal era ser muito mais caro, se feito usando as técnicas tradicionais. Um exemplo dis-
so é o caso percussor da proposta. Guillaume Deschamps tinha feito seiscentos fechos
por esse sistema em 1727, os testando perante o Rei. Mas a sua produção, ainda feita à
mão, exigia um controle de qualidade muito rígido para que as peças pudessem ser re-
almente trocadas entre um mecanismo e outro, de forma que os fechos custavam sete
vezes mais do que os normais. Isso tornava sua adoção inviável naquele momento, a
manufatura de Deschamps cessando suas atividades em 1735.119

Na verdade, nas condições da época, com a produção sendo dividida entre vários
artesãos e oficinas, a produção com tais padrões rígidos de controle de qualidade era
impossível. A proposta francesa, de montagem de Arsenais centralizados, apesar de ter
sido implantada de forma incompleta, teria sido mais adequada em termos de criação de

116
René Antoine Ferchault de Réamur (1683-1757). Cientista francês, em 1710 foi encarregado de fazer
uma descrição oficial das artes e manufaturas úteis da França. Foi o autor da escala de Réaumur. Foi
autor de diversos livros, inclusive alguns da Enciclopédia de Diderot. ENCYCLOPAEDIA Britan-
nica, op. cit. Vol. 19. p. 9B. Verbete René Antoine Ferchault de Réaumur.
117
RÉAMUR, René Antoine Ferchault de. L’art de convertir le fer forgé en acier et l'art d’adoucir le fer
fondu. Paris: Michel Brunet, 1722. p. 559.
118
Era do regulamento dos exércitos português e francês que cada regimento de infantaria tivesse um
espingardeiro e um coronheiro. Para Portugal, ver: RANGEL, José Correa. Defesa da Ilha de Santa
Catarina e do Rio Grande de São Pedro dividida em duas partes: a primeira contém as fortificações
e uniformes da tropa da ilha de Santa Catarina: a segunda o que pertence ao Rio Grande. 1786. In:
TONERA, Roberto & OLIVEIRA, Mário Mendonça. As defesas da ilha de Santa Catarina e do Rio
Grande de São Pedro em 1786 de José Correia Rangel. Florianópolis: UFSC, 2015. p. 91 e segs.
119
PEAUCELLE, Jean-Louis. Du concept d’interchangeabilité à sa réalisation: le fusil des XVIIIe et XIXe
siècles. Gérer et Comprendre. Les Annales des Mines. N° 80 – Juin, 2005. pp. 58-59.

233
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

um sistema de peças intercambiáveis, por causa das vantagens da concentração dos tra-
balhadores. Nesse sentido, se entende o papel da artilharia em apoiar Honoré Blanc na
tentativa de criação de um sistema de fabricação mais racional para as armas.

Blanc, nascido em 1736, era um mestre armeiro em Avignon, depois sendo no-
meado como um dos controladores no Arsenal de Charleville. Tal função implicava no
trabalho de testes das armas enviadas pelos artesãos ou pelo próprio arsenal, para serem
examinadas, tendo em vista verificar se elas atendiam aos requisitos mínimos de funci-
onamento e segurança. Em 1763, quando os engenheiros de Gribeauval adotaram um
novo fuzil, Blanc foi nomeado como um dos controladores de Saint-Étienne, um em-
prego lucrativo, pois os contratadores e armeiros pagavam pelos testes que ele era res-
ponsável. Nessa função o armeiro atraiu a atenção do próprio general, pois um projeto
seu foi escolhido para ser o novo fuzil padrão francês, em 1777, já que o modelo anteri-
or tinha sido criticado pelas tropas, por ser muito pesado.

No entanto, Blanc – e os engenheiros militares franceses – não consideravam a


nova arma, de 1777, ideal, pois ela sofria dos mesmos problemas da artilharia de Valliè-
re: afora o calibre, a arma não era padronizada, de forma que, em caso de necessidade
de reparos em campanha, estes só poderiam ser feitos por um armeiro especializado,
que dispusesse das ferramentas e equipamentos necessários. Ao contrário dos carros
introduzidos por Gribeauval, não se podia pegar uma peça sobressalente ou mesmo reti-
rar uma de uma espingarda inutilizada, aplicando-a na que necessitasse de conserto.

De qualquer forma, a reputação de Blanc junto a Gribeauval fez com que ele
fosse nomeado como controlador geral dos três arsenais do Exército (Saint-Étienne,
Maubeuge e Charleville) em 1778, recebendo a missão de equipar essas manufaturas
com as “ferramentas e instrumentos necessários para assegurar uniformidade, acelerar o
trabalho e economizar no preço”,120 da produção. Um passo necessário, já que a adoção
de procedimentos de controle mais rígidos na feitura das armas tinha resultado em um
grande aumento no preço das mesmas: as espingardas armas do modelo de 1777 custa-
vam 40% a mais do que as de 1763 e o dobro das do modelo de 1754. A economia se
tornava uma questão premente nas circunstâncias da paz de 1783, após o fim da Guerra
de Independência dos Estados Unidos (1776-1783), que tinha sido apoiada pela França:

120
ALDER, op. cit. p. 224.

234
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

no período logo após a paz, os orçamentos da artilharia destinados à compra de armas


portáteis foram reduzidos à apenas 8,3% daqueles durante as hostilidades. 121

Após visitar os três arsenais governamentais, a proposta de Blanc para resolver


os diversos problemas na fabricação de armas portáteis foi de atacar a questão do garga-
lo da produção, os fechos. Para ele, a adoção de métodos visando à produção de peças
intercambiáveis resultaria em economia de custos, pois os artesãos qualificados seriam
substituídos por operários que apenas operariam máquinas, diminuindo o custo com
artesãos qualificados e eliminando a etapa de montagem final. Ou seja, o objetivo não
era apenas um meramente de curiosidade técnica, como os fechos feitos por Deschamps,
mas um que buscava um objetivo viável, de redução de custos, o que tinha sido o gran-
de problema da tentativa anterior.

Para atingir essa meta, Blanc montou em 1785 uma oficina visando desenvolver
as técnicas de manufatura necessárias: algumas das peças seriam estampadas, um pro-
cesso pelo qual uma peça é completada por pressão, como na cunhagem de moedas.
Além disso, ele desenhou e desenvolveu máquinas de fresagem para dar forma precisa
aos objetos, introduzindo também gabaritos para limagem, que guiariam a ação do arte-
são no processo de acabamento. Finalmente, Blanc pesquisou e introduziu técnicas vi-
sando manter as dimensões do aço depois do mesmo ser temperado – processo que alte-
ra as dimensões dos objetos –, de forma que as continuassem a ser intercambiáveis,
mesmo após todo o processo de manufatura estar concluído.

Mais importante, o armeiro tomou o cuidado de criar uma série de gabaritos para
a medição das peças sendo feitas. Isso já era uma prática das oficinas de armas e fundi-
ções de canhões, com o uso do escantilhão (ver Figura 26), que nada mais é que um
gabarito. Mas o uso deste, bem como de escalas, esquadros e outros aparelhos de medi-
ção, era reduzido a alguma peças críticas: no livro a Espingarda Perfeita, onde são cita-
dos diversos escantilhões, compassos e esquadros – o autor chega a dedicar uma das
ilustrações de seu livro a um escantilhão e a ferramenta aparece também em outras ilus-
trações (ver Figura 26). 122 Contudo estes aparelhos de medição apenas são citados pelo
autor no contexto da feitura dos canos e são visivelmente bem elementares. Blanc au-
mentou em muito o número de gabaritos, introduzindo também o conceito de tolerância,
a variação nas dimensões máxima e mínima de um objeto que ainda permitiam que o
121
id. p. 224.
122
FIOSCONI & GUSERIO, op. cit. p. 11 e segs. O escantilhão é mostrado entre as páginas 81 e 82.

235
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

mesmo pudesse ser aproveitado no fecho. Para manter essas tolerâncias constantes ao
longo do tempo, ele construiu um conjunto de padrões e gabaritos mestres de metal que
serviriam como referência na reprodução de outros instrumentos de aferição.

Não se pode confundir o processo de Blanc com a produção em massa ou mes-


mo com técnicas adequadas a uma fábrica: o uso de máquinas-ferramentas era, a princí-
pio, nulo. Mesmo as prensas de estampagem que ele usava eram manuais: os moldes de
estampagem eram colocados em pesos, que eram elevados por força humana e deixadas
cair por gravidade sobre a lâmina de metal sendo trabalhada, cortando-a no formato
desejado. Mais tarde, Blanc usou uma prensa da Casa da Moeda de Rouen, também
movida a braço. Os gabaritos para limagem eram exatamente isso, uma guia que permi-
tia ao operário atuar sobre a peça – eles eliminavam, em parte, o julgamento individual
do artesão: a guia indicava os movimentos a serem feitos, mas não a força a ser aplica-
da, a ação ainda era manual, dependia da avaliação visual do homem fazendo o traba-
lho. As máquinas de fresagem, uma das maiores inovações do processo, também eram
movidas a mão e a estrutura de todos os equipamentos era de madeira, ou seja, sujeitas a
deformações que poderiam alterar o produto final, além de serem pouco apropriadas
para a aplicação de motores.

Os resultados iniciais do experimento não foram inequívocos. O processo permi-


tiu a economia em certas etapas da produção do fecho, permitindo a substituição de ar-
tesãos qualificados por trabalhadores genéricos. Também, de forma muito apreciada
pelos engenheiros militares, racionalizou a produção, com cada peça sendo reproduzida
em desenhos ortogonais e todo o processo passando a ser reduzido a uma sequência de
passos simples, facilmente reprodutíveis. Por exemplo, a fabricação da noz (ver Figura
28), a peça mais complicada do mecanismo, foi reduzida a 22 passos, que podiam ser
descritos sem dificuldade, apesar de sua feitura ainda ser complexa.

Blanc, contudo, não conseguiu alcançar um dos objetivos propostos, que seria
eliminar a ajustagem final na montagem do produto acabado – ainda era necessário que
um artesão fizesse o acabamento do objeto durante a montagem. Quando o procedimen-
to de fabricação foi aperfeiçoado, os fechos ainda demoravam mais a ser feitos do que
pelos métodos tradicionais: 30% a mais do que um feito em Saint-Étienne e o dobro do
tempo de um dos arsenais centralizados. Também eram mais caros, apesar de se notar

236
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

uma notável melhoria em relação ao processo de Deschamps: custavam apenas de 20 a


30% a mais do que os feitos em Saint-Étienne.123

Por sua vez, o armeiro atingiu um dos objetivos caros aos oficiais de artilharia:
os fechos produzidos por ele eram completamente intercambiáveis, isso sendo demons-
trando em diversas ocasiões. Em 1785 foi feita uma experiência quando havia duzentos
fechos prontos. Na frente de uma comissão de generais, incluindo o próprio Gribeauval,
se desmontaram 25 fechos de armas do Regimento do Rei e as peças foram misturadas,
os mecanismos sendo remontados com peças escolhidas ao acaso, sem dificuldade.124

Uma das razões do insucesso parcial do projeto deve-se ao fato que os trabalhos
de Blanc eram mais de natureza experimental do que industrial. Ele era bem subsidiado:
recebera autorização para usar o castelo de Vincennes para instalar sua oficina e era
financiado pelo governo com uma quantia elevada, correspondente a 15% de todos os
gastos com a aquisição de armas portáteis entre 1785 e 1790. Só que estes valores eram
para despesas com o desenvolvimento de técnicas e não para fabricação em grande es-
cala – até 1791 ele só tinha produzido mil fechos. 125

A situação mudou com a Revolução Francesa. Como já dissemos, era necessário


equipar um imenso exército e a artilharia francesa, que administrava os Arsenais, se viu
de frente a um dos seus maiores pesadelos: os austríacos tomaram as manufaturas de
Charleville e Maubeuge, situadas nas fronteiras e ouve problemas trabalhistas com os
artesãos de Saint-Étienne, ameaçando a entrega de armas para as tropas revolucionárias.
Para lidar com o problema, foi tomada uma série de medidas. A mais famosa foi o de-
creto do recrutamento em massa, citado na página 104, que conclamava todos a colabo-
rar no esforço de guerra, mas foram feitas outras modificações importantes: todas as
manufaturas de armas foram estatizadas, passando a funcionar pelo sistema de Régie,
onde a administração das manufaturas passava a ser exercida diretamente por oficiais de
artilharia, sem o recurso a empreendedores privados.

Também foram criados vários arsenais improvisados: Moulins em 1792; o de Pa-


ris em Bretonvilliers; Clermont-Ferrand; Montauban; Charité-sur-Loire; Bergerac;

123
ALDER, op. cit. pp. 245-246.
124
id. p. 224.
125
PEAUCELLE, op. cit. p. 64

237
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Autun e Versailles, todos em 1793. 126 Também são citados os de Nantes e Thiers.127
Mais tarde acrescidos por ainda outros, como o de Vincennes (1796), Mutzig (1803) e os
feitos em cidades conquistadas em Liège (Bélgica), Turim (Itália) e Culembourg (Países
Baixos) – realmente um grande número de manufaturas. A maior de todas essas manu-
faturas improvisadas foi a de Paris, que chegou a ter cinco mil artesãos trabalhando nela,
em trinta estabelecimentos dispersos por toda a cidade.128

Blanc tinha conseguido manter sua oficina mesmo nessa conjuntura emergenci-
al: em 1790 ele tinha apresentado à Assembleia Nacional francesa uma proposta para a
montagem de uma manufatura de armas,129 agora incorporada ao Atelier de Perfection-
ment, (Oficina de Aperfeiçoamento), uma instituição criada pela Revolução Francesa,
com o objetivo de pesquisar técnicas para produção de armas com peças intercambiá-
veis, diminuindo seu custo. Era, portanto, como a oficina de Blanc em Vincennes, mas
funcionando em princípios mais científicos, sob a direção de Alexandre-Theophile
Vandermonde, um cientista, membro da academia – fora responsável pela montagem da
coleção de máquinas da instituição – e que tinha apoiado a Revolução desde o início.130
O estabelecimento começou a aumentar a produção, usando operários do Arsenal de
Paris – chegou a empregar 95 armeiros, bem como máquinas requisitadas: foi aqui que
se usou a prensa da Casa da Moeda de Rouen, anteriormente mencionada. Contudo, o
término da crise na fabricação de armas e a vitória dos exércitos revolucionários em
1794 levaram ao fechamento da manufatura de Paris e a transformação do Atelier de
Perfectionment em uma repartição voltada para a fabricação de máquinas ferramentas e
de padrões de pesos e medidas para o sistema métrico. Depois o Atelier foi reunido ao
Conservatoire National des Arts et Metiers (Conservatório Nacional das Artes e Ofí-
cios), uma espécie de instituição mista, de ensino e museu, voltada ao desenvolvimento
técnico e científico – mas isso não é do nosso interesse específico, a não ser no sentido

126
TABLE GÉNÉRALE par ordre alphabétique de matèries des lois, sénatus-consultes, décrets, arrêtés,
avis du conseil d’État, etc. Publiés dans le bulletin des lois et collections officielles. Tome 1er. Paris:
Rondonneau et Decle, 1816. p. 193. A manufatura de Versalhes foi instalada em uma das alas do pa-
lácio real. Curiosamente, apesar da maior parte dos arsenais de emergência ter sido fechadas depois
do fim da crise de 1794, a Manufatura Nacional de Versalhes continuou funcionando até 1818, fa-
zendo armas de luxo para serem presenteadas pelo governo. TAYLOR, Dean G. Nicolas-Noel Bou-
tet and the manufacture of arms at Versailles. Arms Collecting, vol. 20 nº. 4. pp. 107 e segs.
127
ROUSSEAU, op. cit. p. 724.
128
ALDER, op. cit. p. 257.
129
BLANC, Honoré. Mémoire important sur la fabrication des armes de guerre : à l'Assemblée natio-
nale. Paris: L. M. Cellot, 1790
130
GILLSPIE, Charles Coulston. Science and Polity in France: the Revolutionary and Napoleonic Years.
Princeton: Princeton University, 2004. pp. 388 e 426.

238
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

que foi uma instituição que manteve os ideias de racionalização dos ofícios, através do
ensino técnico, tal como era a mentalidade dos oficiais de artilharia no período de Gri-
beauval.131

Blanc continuaria com seus esforços de produção de fechos, montando uma ma-
nufatura, em Roanne – depois do fim do Diretório, as Manufaturas de Armas voltaram a
ser entregues a administração de empreendedores particulares. Neste caso, o armeiro já
começou a trabalhar em nível “industrial”, produzindo 1.500 fechos em 1795, usando
técnicas aperfeiçoadas, como uma melhor divisão do trabalho entre os artesãos, assim
como adotando mais máquinas, dedicadas a tarefas específicas, não precisando ser ajus-
tadas quando era necessário mudar o tipo de peça a ser feita. Usando essas técnicas,
Blanc conseguiu entregar quatro mil de fechos, dois anos depois prometendo completar
de 25.000 a 30.000 por ano, mais do que Saint-Étienne produzia antes das guerras da
Revolução.132 No entanto, Blanc faleceu em 1801, sem cumprir esse objetivo. A manu-
fatura foi comprada por outro empreendedor, que assumiu o compromisso de ir além do
que Blanc tinha feito, prometendo entregar 12.000 espingardas totalmente intercambiá-
veis por ano. Só que isso nunca foi feito – até o encerramento das atividades em Roan-
ne, em 1807, tinham sido entregues 12.000 fechos e 2.000 espingardas.

De qualquer forma, a situação tinha mudado, a lógica do novo regime francês


não era exatamente a mesma que regera as ações de Gribeauval, apesar de muitos de
seus ideais terem saído triunfantes nas revoluções sociais da virada para o século XIX.
Em termos de armas, a questão dos custos se tornara uma de maior importância, a ponto
de se ter redesenhado, de forma temporária, o fuzil padrão francês, para um mais barato
de fazer, o modelo no ano I (1792), ainda que este fosse de qualidade inferior. O impor-
tante eram os números de armas a serem colocados nas mãos dos soldados e não mais a
luta por um ideal filosófico – este tinha saído vitorioso com a Revolução. A mudança
foi uma com efeitos prolongados: depois da fábrica de Roanne ter fechado, cessaram os
esforços de fabricação de armas com peças intercambiáveis na França, o sistema de ma-
nufaturas pré-industrial, com empreendedores controlando o serviço de artesãos disse-
minados voltou a ser adotado e a França só teria um sistema de Arsenais com a produ-

131
Id. p. 426.
132
ALDER, op. cit. p. 321.

239
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

ção centralizada e mecanizada na década de 1860,133 o sistema de manufaturas militares


permanecendo até lá com um funcionamento baseado na pré-indústria.

5.4 A fábrica de moitões.


Como é visível, os franceses não levaram o sistema de peças intercambiáveis a
seu limite extremo, ou melhor dizendo, à sua conclusão natural. A etapa seguinte na
evolução das técnicas de manufatura dependia da motorização da produção, com o uso
de máquinas ferramentas movidas por energia mecânica, diminuindo o uso de artesãos
especializados, o que os métodos de Blanc nunca tinham previsto. Nesse sentido, um
passo inicial foi tomado pela Marinha Britânica, no caso da fabricação de moitões. Es-
tes, junto com as bigotas, eram peças fundamentais para o funcionamento de um navio,
um de grande porte precisando mais de mil moitões para fazer seu complicado sistema
de cabos e velas funcionar. Isso implicava em um grande custo para uma marinha como
a Britânica: só um fabricante dessas peças, um dos primeiros a mecanizar a produção,
usando rodas d’agua, chegou a fornecer cem mil moitões por ano, ao valor de 34.000
libras esterlinas, uma imensa quantia na época.134

No início do século XIX três engenheiros se associaram para produzir para a


Marinha Britânica maquinário especializado e que trabalhasse de forma coordenada
para produzir em série os moitões, cortando os componentes no tamanho apropriado.
Desta forma, não precisavam de acabamento por parte de um artesão especializado – as
peças eram intercambiáveis, apesar disso não ser um problema grave, por causa da natu-
reza do material, a madeira, muito menos suscetível a problemas de ajustagem do que
peças de metal.

A manufatura inglesa, cuja montagem terminou em 1807, tinha algumas caracte-


rísticas notáveis, que contrastam com as experiências de Blanc: cada máquina executava
apenas uma tarefa, não precisando ser ajustada para produzir diferentes peças; eram
inteiramente feitas de metal, montadas em berços de ferro fundido, rígidos, permitindo a
manutenção da precisão das operações, e as máquinas eram capazes de produzir mais de
uma peça por vez. Mais importante, eram movidas por máquinas a vapor, que tinham

133
BRUN, Jean Francois. La Mécanisation de l’Armurerie Militaire (1855-1869). Acta Universitatis
Danubius. No. 1/2010. p. 110. Na prática, a produção mecanizada na França só foi adotada em
1866, com a introdução do fuzil Chassepot.
134
COOPER, Carolyn C. The Portsmouth System of Manufacture. Technology and Culture. Vol. 25 Nr.
2, April 1984. p. 186.

240
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

sido instaladas no Estaleiro de Portsmouth na mesma época, e isso resolvia os proble-


mas da força humana, animal ou hidráulica.135 Por sua vez, a ideia básica da produção
guarda algumas semelhanças com as tentativas francesas: o processo foi feito dentro de
uma racionalidade científica, por engenheiros, e financiado pelo governo, pois era uma
proposta que não interessava e excedia as possibilidades da iniciativa privada daquele
momento.

As instalações foram um sucesso: em 1808 foram produzidos 130.000 moitões,


no valor de £ 50.000 – estima-se que a fábrica se pagou em quatro anos. Eram 45 má-
quinas, operadas por vinte operários, que faziam o serviço antes executado por 220 arte-
sãos. Mais importante, algumas máquinas eram totalmente automáticas, dispensando
uma formação maior dos operários para sua operação, reduzindo os custos de operação.
A manufatura da marinha britânica já pode ser classificada, sem nenhuma dúvida, como
uma fábrica, uma empresa em que já há divisão de trabalho, usando máquinas para au-
mentar a produção.

A proposta de Portsmouth foi tão bem sucedida que o maquinário adquirido em


1807 permaneceu em uso, sem modificações, até o fim do uso de navios a vela, bem
dentro do século XX e hoje em dias os prédios da fábrica de moitões são um patrimônio
inglês. No entanto, o sistema, como as experiências de Blanc, não teve maiores efeitos
sobre o desenvolvimento industrial: esse tipo de fábrica não era visto como sendo real-
mente necessário na maior parte dos países, de forma que a ideia não foi copiada.

5.5 O surgimento da moderna indústria


Em 1785, Thomas Jefferson, que era embaixador norte-americano na França, vi-
sitou a oficina de Honoré Blanc em Vincennes, escrevendo a seguinte carta ao secretário
de relações internacionais (ministro do exterior) dos Estados Unidos:

Um aperfeiçoamento foi feito aqui na construção de espingardas que


pode ser interessante que o Congresso conheça, caso eles em algum
momento se proponham a o encomendar. Consiste em fazer cada parte
delas tão exatamente iguais que o que pertença a uma, pode ser usada
para todas as outras espingardas no armazém. O governo aqui exami-
nou e aprovou o método e está criando uma grande manufatura para o
propósito.
Até o momento, o inventor somente terminou o fecho da espingarda
de acordo com esse plano. Ele seguirá imediatamente para ter o cano,
coronha e suas peças feitas da mesma forma. Supondo que isso possa

135
id. p. 193.

241
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

ser útil para os E.U.A., fui até o artesão e ele me mostrou as peças pa-
ra 50 fechos desmontados. Eu próprio montei vários, pegando peças
ao acaso, à medida que as pegava, e elas se encaixavam na mais per-
feita forma. As vantagens isso, quando armas precisam de consertos,
são evidentes. Ele consegue isso por ferramentas de sua própria in-
venção, que ao mesmo tempo resumem o trabalho, de forma que ele
pensa que será capaz de acabar uma espingarda por duas libras [ester-
linas] a menos do que o preço usual. Mas ainda serão precisos dois ou
três anos antes que ele seja capaz de acabar quantidade maior delas.
Eu o menciono agora, pois isso pode ter influência no plano para
equipar nossos armazéns com esta arma.136
Como escrito acima, Jefferson demonstrou um grande interesse pelo estudo das
peças intercambiáveis com armas: ele ainda escreveria três outras cartas sobre o tema,
uma para o governador do estado da Virgínia (24 de janeiro de 1786) e duas para o ge-
neral Henry Knox, o secretário (ministro) da guerra dos EUA, em 12 de setembro de
1789 e 24 de novembro 1790. Com a carta de 1789 ele enviou sete fechos completos
(seis do modelo de espingarda de oficial e um para a de soldados) feitos por Blanc, bem
como as ferramentas necessárias para a montagem dos mesmos. Nela, reiterou as vanta-
gens do sistema de peças intercambiáveis para os consertos na arma e sugeriu que Blanc
poderia ser contratado para trabalhar em uma manufatura norte-americana.137 Na última
carta, de 1790,138 ele remeteu uma cópia da memória apresentada por Blanc à Assem-
bleia Nacional sobre sua proposta de fabricação de armas (ver nota 129, acima).

Dessa forma, parece que os Estados Unidos estavam informados sobre os desen-
volvimentos no campo da manufatura de armas. Só que o passo seguinte na conforma-
ção da moderna produção fabril surgiu justamente lá e os americanos colocam em dúvi-
da o papel de seus predecessores na introdução da fabricação de armas na América do
Norte – eles preferem assumir todo o crédito pela introdução das novas técnicas. O que
é certo é que no país já havia a fabricação de armamentos, mas em pequena escala, por
armeiros privados, mas esta não era um ramo importante entre as manufaturas existentes
nos Estados Unidos. Por parte do governo, as primeiras ações foram modestas: um mo-
mento inicial na montagem de arsenais federais no país começou com a Guerra de Inde-

136
CARTA de Thomas Jefferson embaixador dos Estados Unidos na França, a John Jay, secretário de
relações exteriores, Paris, 30 de agosto de 1785. National Archives: Founders on line.
https://goo.gl/61lrzA (acesso em outubro de 2016).
137
CARTA de Thomas Jefferson embaixador dos Estados Unidos na França, a Henry Knox, secretário da
guerra, Paris, 12 de setembro de 1789. National Archives: Founders on line. https://goo.gl/lTuheF
(acesso em outubro de 2016).
138
CARTA de Thomas Jefferson embaixador dos Estados Unidos na França, a Henry Knox, secretário da
guerra, Paris, 24 de novembro de 1789. National Archives: Founders on line. https://goo.gl/48mizh
(acesso em outubro de 2016).

242
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

pendência (1776-1783). Só que no princípio essas manufaturas faziam apenas munição,


reparos de artilharia e consertos em armas, como as casas do trem no Brasil. Alguns
deles continuariam a ter apenas essa função de depósito de armas e manufatura de mu-
nição até bem tarde no século XIX.139 Durante a Guerra de Independência, o exército
norte-americano foi equipado com armas capturadas e, principalmente, por equipamen-
tos enviados da França: cópias das espingardas do modelo francês de 1763 seriam a
base do armamento dos Estados Unidos até 1819 e a artilharia do padrão Gribeauval
seria o modelo oficial adotado no país, com manuais baseados nos franceses.140

No final do século XVIII, os EUA julgaram necessário reformar seu sistema mi-
litar – inicialmente em bases bem diferentes dos de outros países, é verdade, já que a
ênfase, por muitos anos, continuaria na ideia da defesa por parte de milícias. Assim, em
1792 foi aprovada uma lei para “estabelecer uma milícia uniforme pelos Estados Uni-
dos”,141 e dois anos depois, foi aprovada outra norma legal, determinando o estabeleci-
mento de Arsenais, com um superintendente e um mestre armeiro, bem assim como
operários, desde que esses não excedessem cem, em todos os arsenais.142 Apesar da
proposta ser modesta, dois Arsenais foram estabelecidos, os de Springfield, Massachu-
setts e o de Harpers Ferry, Pensilvânia e as primeiras armas começaram a ser fabricadas
já em 1795.

Em 1802, Springfield tinha 76 operários trabalhando, que tinham crescido para


225 em 1814, no contexto da guerra com a Inglaterra de 1812-1815. Não se sabem os
números de trabalhadores inicialmente alocados para Harpers Ferry, mas segundo um
autor, eram bem menos do que os do outro arsenal estatal.143 De qualquer forma,
Springfield conseguiu fabricar 16.120 armas nos seis primeiros anos de sua existência,
um número que não é muito grande, considerando a força de trabalho – se usarmos o
número de 76 operários de 1802 como base, a produção por homem teria sido de 35

139
Ver o caso do Arsenal de Frankford: FARLEY, op. cit.
140
Por exemplo: SCHEEL, Heinrich Otto. De Scheel´s treatise on artillery. Blomefield : Museum Resto-
ration Service, 1984.
141
PALMER, Dave R. 1794: America, its Army, and the Birth of the Nation. Novato: Presidio Press,
1994. p. 217.
142
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA – An act to provide for the erecting and repairing of arsenals
and magazines and for other purposes. 2 de dezembro de 1793.
143
WOODBURY, op. cit. p. 242.

243
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

armas por ano por homem, um claro indicativo que os métodos de produção usados ini-
cialmente lá eram primitivos. 144

Entretanto – e ainda que levemos em consideração seu pequeno tamanho relati-


vo –, os dois arsenais tinham uma diferença com relação à prática das grandes potências
europeias: eram instituições públicas, administradas diretamente pelo governo, com a
manufatura dos objetos sendo centralizada em prédios dedicados a atividade, equipados
com rodas d’água. O fato de serem instituições públicas terá uma grande influência na
filosofia da produção de armamentos do país, apesar dessa relação não ser imediatamen-
te visível. Isso ainda mais considerando que os Estados Unidos mantiveram o costume
de encomendar armas em empresas privadas, como suplemento às feitas pelos órgãos
governamentais.

O que é importante frisar nesse momento é que os americanos estavam avança-


dos em relação às potências europeias, não só em termos conceituais, depois do aban-
dono da França da fabricação de armas com peças intercambiáveis, mas também em
termos práticos, efetivos, mesmo que essa vantagem não fosse evidente imediatamente.

De fato, quando o Congresso dos EUA resolveu se preparar contra uma possível
guerra contra a França, em 1798, por causa da ação de corsários na costa americana, foi
autorizada a assinatura de contratos com companhias privadas para o fornecimento de
armas. Uma dessas empresas foi a de Eli Whitney, um dos heróis do imaginário norte-
americano, por suas atividades pela industrialização do País, sendo considerado por
alguns como o responsável pela “gênese do poder industrial dos Estados Unidos”.145
Whitney tinha tido um papel importante no desenvolvimento de uma máquina para des-
caroçar algodão, vital para a agricultura do sul dos EUA, mas não obtivera lucros com
ela, por causa da lei de patentes de lá. Acossado por dívidas, o inventor se propôs a for-
necer dez mil espingardas para o exército americano, conseguindo um contrato diferente
dos outros fornecedores, com condições vantajosas, podendo receber adiantamentos
antes da entrega das armas, algo que lhe seria vital para sobreviver ao assédio de seus
credores.146

144
Certamente o número de armas por homem/ano dever ter sido maior, já que o Arsenal tinha outras
funções, como a fabricação de reparos, mas ainda assim, o número seria pequeno, bastando compa-
rar com as 150 armas feitas por ano na fábrica inglesa de Levisham, em 1811 (ver página 39).
145
MIRSKY, Jeannette. The world of Eli Whitney. New York: Macmillan, 1952. p. IX. A bibliografia
sobre o inventor é vasta, indo de artigos técnicos até livros de divulgação.
146
WOODBURY, op. cit. p. 238.

244
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Whitney não tinha experiência nenhuma na produção de armamentos, não possu-


ía uma fábrica ou empregava artesãos. Mesmo assim, seu contrato previa a fabricação
de quatro mil armas em quinze meses, com as restantes seis mil sendo entregues no ano
seguinte. Uma proposta ousada, que o autor se propunha atender com “novos métodos
de produção”147 – não se sabe quais seriam esses, mas ele tinha um problema grave, que
seria a falta de pessoal. De fato, é parte do imaginário americano que a falta de mão de
obra qualificada nos seus anos formativos teria sido compensada pela engenhosidade
local, 148 o que se encaixa no mito de Eli Whitney. A solução encontrada pelo inventor
para atender a seu contrato seria a invenção de máquinas que permitissem que trabalha-
dores não especializados executassem as tarefas técnicas dos artesãos qualificados, o
serviço sendo guiado por máquinas-ferramentas, como no sistema de Blanc. Isso ainda
que Whitney negue qualquer influência externa no seu trabalho149 e que ele tenha man-
tido contatos com Thomas Jefferson que, como vimos, fora um dos defensores da ado-
ção do sistema nos Estados Unidos.

Apesar da fama e do mito sobre o inventor, é fato que ele levou dez anos e meio
para completar seu contrato e nunca alcançou uma arma com peças intercambiáveis, que
seria um dos seus objetivos: em uma demonstração do princípio, feita em 1801, com a
presença do então presidente eleito, Thomas Jefferson, ele conseguiu colocar dez fechos
em uma mesma espingarda,150 mas isso não implica que a ajustagem mais fina, das pe-
ças do fecho, tivesse sido alcançada. Woodbury, que tem um excelente artigo desmitifi-
cando a figura de Whitney, afirma que, de fato, os fechos feitos pelo inventor não ti-
nham peças intercambiáveis, um dos elementos fundamentais para isso, o uso de gabari-
tos, não estando presente em seus processos.151

De qualquer forma, a documentação deixa claro que Whitney montou uma fábri-
ca – e usamos o termo no seu sentido estrito – centralizada, com divisão de trabalho e
máquinas ferramentas movidas a água. 152 Mais importante, ele produziu as armas com
essas técnicas, obtendo lucro, um passo importante na evolução dos processos fabris.
Sua influência foi ainda maior no meio militar, pois a ideia de armas intercambiáveis

147
MIRSKY, op. cit. p. 196.
148
WOODBURY, op. cit. 242.
149
id. p. 244.
150
SMITHURST, op. cit. p. 7.
151
WOODBURY, op. cit. p. 247 e 249.
152
Id. p. 249.

245
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

tinha vantagens inegáveis e a influência da proposta foi grande no desenvolvimento de


uma forma de pensar específica.

É verdade que a regularidade das armas feitas inicialmente para o exército norte-
americano não era das melhores, parecendo até ser pior do que em outros países. Em
1834 o mestre armeiro do Arsenal de Frankford, que atuava como uma casa do trem,
recebendo armas de fabricantes privados e de arsenais do governo para distribuição a
unidades, inspecionou uma série de 145 caixas de armas. Estas já tinham sido aceitas
para serviço e tinham sido feitas, supostamente, de acordo com os modelos aprovados.
No entanto, o armeiro encontrou canos variando de 96,5 cm até 114 cm, sendo que o
modelo oficial deveria ter 107 cm. Mais relevante, em termos de uso das armas, era que
o calibre variava até meio milímetro, o que poderia impedir o uso da espingarda com a
munição regular, se o calibre estivesse abaixo do padrão.153

O certo é que em 1812 foi criado o Ordnance Department (Departamento de


Material Bélico). Formado inicialmente por oficiais de artilharia, o departamento foi
montão como uma repartição ligada à Secretaria da Guerra, com uma série de responsa-
bilidades, como a de contatar artesãos para os arsenais, que foram colocados sob sua
administração. Eram poderes bem amplos, ainda mais que entre suas responsabilidades
estava a de fornecer armas para a milícia, 154 força numericamente maior do que o exér-
cito regular. No caso, vale dizer que o departamento foi criado com 44 oficiais, um nú-
mero muito elevado, quando consideramos que no início daquele ano todo o exército
americano tinha apenas 299 oficiais e 6.686 soldados, o que permite perceber a impor-
tância relativa do departamento dentro das forças armadas.155

Os oficiais do Ordnance Department, como os artilheiros na França, tiveram um


papel importante na introdução de novas técnicas de fabricação de armas. Em 1813,
John North, um armeiro privado, recebeu um contrato de fabricação de vinte mil pisto-
las, no qual se especificava que “as partes componentes das pistolas devem correspon-
der tão exatamente que qualquer elemento ou parte de uma pistola possa ser montado
em qualquer outra das vinte mil”. 156 Um marco, pois foi o primeiro contrato governa-

153
FARLEY, op. cit. p. 19
154
RODENBOUGH, Theo. F. & HASKIN, William L. The Army of the United States: Historical Sketch-
es of Staff and Line with Portraits of Generals-in-Chief. New York: Maynard, Merrill, 1896. p. 126.
155
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA – Department of defense. Selected manpower statistics: fiscal
year 1997. Washington: Washington headquarter services, s.d. [1997]. pp. 46 e 55.
156
HOUNSHELL, op. cit. p. 28.

246
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

mental a especificar a necessidade de peças intercambiáveis. Para atender a encomenda,


North usou algumas das técnicas já desenvolvidas por Blanc, como gabaritos e máqui-
nas especialmente feitas para a produção dos componentes específicos das armas – se
atribui ao armeiro a invenção da primeira fresadora a ser usada nos Estados Unidos. 157
No entanto, os custos elevados de produção fizeram com que ele abandonasse o princí-
pio de produção de peças intercambiáveis depois de ter feito duzentas pistolas.

Apesar da falha inicial, o contrato de North é um sinal evidente que havia um in-
teresse governamental na feitura de armas usando os princípios industriais: por exem-
plo, North visitou o Arsenal de Springfield, com o objetivo expresso fazer que “seu pla-
no de trabalho uniforme” fosse adotado na instalação.158 Essa proposta de aperfeiçoar as
instalações do governo se confirma na forma como a arma de John Hall foi introduzida
no exército americano. Este inventor, em 1811, tinha conseguiu a patente para a fabrica-
ção de um fuzil de pederneira, com mecanismo de carregamento de retrocarga.159 Neste
caso, a necessidade de vedação da culatra, para que gases não escapassem durante o
disparo era um imperativo e isso poderia ser obtido de forma mais fácil com o uso de
técnicas fabris de precisão, tais como as usadas na feitura de peças intercambiáveis –
uma coisa era decorrente da outra. As armas de Hall eram mais caras que o usual, mes-
mo assim ele foi contratado pelo governo federal para trabalhar no Arsenal de Harpers
Ferry, recebendo um salário e um royalty de um dólar por cada fuzil feito, tendo sido
encomendados mil deles, entregues em 1824. 160

A “encomenda” de Hall mostra um ponto importante: apesar de ele ser um em-


presário, trabalhava em um arsenal governamental e as técnicas e maquinário necessá-
rios para a feitura das armas foram incorporadas aos processos de trabalho da organiza-
ção estatal. Na verdade, o governo gastou uma imensa quantia no desenvolvimento das
maquinas para podê-las produzir, a ponto de ser criada uma comissão parlamentar de
inquérito, o “comité Carrington” para estudar a questão do custo das armas de Hall, a

157
id. p. 29.
158
SMITH. Merritt Roe John H. Hall, Simeon North, and the Milling Machine: The Nature of Innovation
among Antebellum Arms Makers. Technology and Culture. Vol. 14, No. 4, Oct., 1973. p. 578.
159
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA– Patent Office. John H. Hall, of Portland, Maine, and William
Thornton, of Washington, D.O. Improvement in fire-arms. Specification forming part of Letters Pa-
tent dated May 21, 1811.
160
PEAUCELLE, op. cit. p. 65.

247
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

conclusão do comité sendo muito elogiosa para a arma e processos adotados na sua ma-
nufatura.161

No entanto, deve-se frisar que os gastos investigados não podem ser associados
apenas à arma, se devendo mais aos custos de desenvolvimento e, principalmente, aqui-
sição de capital: Em 1819 foi introduzido o torno copiador de Blanchard para fazer co-
ronhas – baseado nas máquinas da fábrica de moitões de Portsmouth (ver Figura 29).162
No ano seguinte foi adquirida uma nova fresa para preparo das peças e em 1829 uma
máquina para produzir canos por laminação, substituindo o martinete movido à força
hidráulica, que já tinha sido uma inovação dos arsenais americanos.163 Hall também
desenhou maquinário para estampar peças por gravidade, o seu maior invento sendo,
contudo, novos tipos de fresa, capazes de funcionar sem supervisão de trabalhadores
especializados: nas palavras do Comitê Carrington:

[nas máquinas a] atividade é mais necessária que julgamento, pois as


máquinas, depois que o trabalho é colocado nelas, executam a opera-
ção sem mais ajuda do rapaz, e quando a operação termina, avisam o
rapaz, que durante a operação, estava ocupado em colocar e tirar o
trabalho de outras máquinas.164
Ou seja, a máquina-ferramenta fazia as operações sozinhas, o operário apenas
colocando a peça nela – algo que não demandava nenhum conhecimento, a ponto do
comitê chamar o operador de rapaz (boy), sendo provável que ele fosse realmente uma
criança. Este até podia supervisionar a operação de várias máquinas ao mesmo tempo,
com apreciáveis economias na produção, já que o maior custo na feitura e uma arma era
o da mão de obra.

161
SMITH (1973), op. cit. p. 584.
162
HOUNSHELL, op. cit. p. 35
163
KENNEDY, R.N., Jr. Notes on the model 1816 U.S. Flintlock musket. Bulletin of the American Socie-
ty of arms collectors, Nr 31, Spring, 1975. p. 41.
164
SMITH (1973), op. cit. p. 582. apud CARRINGTON Committee Report, January, 6, 1827. Grifo de
Smith.

248
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Figura 29 – réplica de um torno copiador de Blanchard.165


Esta máquina, apesar de ter uma estrutura de madeira, trabalhava a nogueira, a madeira usada em coro-
nha, de forma uniforme e regular. Isso permitia a reprodução com precisão o desenho da arma a ser feita,
já que a ferramenta de corte era movida por meio de um pantógrafo, que seguia o contorno de uma peça
mestre, copiando-a exatamente.
Segundo Hounshell, que pesquisou a introdução do sistema fabril dos arsenais
em outras indústrias, o incentivo dado pelo Departamento de Material Bélico do Exérci-
to dos Estados Unidos ao desenvolvimento de novas técnicas foi um fator fundamental
no surgimento da moderna indústria.166 Por exemplo, quando as milícias do país preci-
saram se reequipar, a venda de armas para eles, por impedimentos legais, não podia ser
feita por arsenais do governo, de forma que tiveram que se valer de empresas privadas,
apesar da intermediação do Ordnance Department.

Uma das companhias selecionadas para o fornecimento das milícias foi a de


North, que recebeu contratos, com a condição de fazer armas da patente de Hall, estas
devendo ser padronizadas com as feitas nos arsenais do governo, inclusive com peças
intercambiáveis. Isso não só com as feitas por North, mas também com as produzidas

165
Fotografado pelo autor da presente tese na exposição permanente do Museu Nacional de História
Americana, Smithsonian. 2001.
166
HOUNSHELL, op. cit. p. 3.

249
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

pelo Arsenal de Springfield. Um passo notável, considerando que se queria fazer armas,
basicamente idênticas, em duas fábricas separadas, para dois clientes distintos. No en-
tanto, o exame das peças existentes em museus, prova que esse objetivo foi atingido, o
que prova que o uso de complexos sistemas de gabaritos tinha sido desenvolvido com
sucesso, permitindo a cópia de todas as peças da arma.167

Figura 30 – Conjunto de gabaritos de William Thornton. 168


O conjunto de gabaritos, composto de dezenas de peças, com medições detalha-
das de várias partes da arma, permitia se verificar as dimensões de todas as partes da
arma. No processo dos arsenais norte-americanos, havia três tipos desses gabaritos, um
usado nas oficinas, outro, como o ilustrado (Figura 30), era para ser empregado pelos
inspetores do exército, finalmente havendo um terceiro, o “mestre”, que era mantido de
reserva, para poder ser reproduzido e ser usado para checar os outros.169 Na Figura 30
está o conjunto de gabaritos de William Thornton, um oficial, formado em West Point,
que chegou ao posto de capitão no Departamento de Material Bélico. Sua função era ir
de arsenal em arsenal, checando se as dimensões das armas – no caso, espingardas do

167
GORDON, Robert B. Simeon North, John Hall and Mechanized Manufacturing. Technology and Cul-
ture. Vol. 30. Nr. 1, Jan. 1989. p. 183.
168
Fotografado pelo autor da presente tese na exposição permanente do Museu Nacional de História
Americana, Smithsonian. 2001.
169
HOUNSHELL, op. cit. p. 41.

250
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

modelo 1841 – estavam dentro das tolerâncias aceitáveis, usando essas ferramentas.170
Vale uma comparação deste conjunto de gabaritos com o simples escantilhão usado
pelos armeiros portugueses (ver Figura 26).

Retornando à questão do desenvolvimento técnico, outro fator de incentivo do


governo para o desenvolvimento das armas ainda pode ser visto no contrato de Hall: a
transmissão de conhecimento. As máquinas do inventor foram patenteadas, apesar de
poderem ser usadas nos arsenais do governo sem pagar royalties. Só que não eram con-
sideradas segredos de estado, como seria a tendência dos dias atuais. Os oficiais de ma-
terial bélico autorizavam a visita de outros armeiros e fabricantes à Harpers Ferry, o que
foi feito por diversos deles durante os anos de 1820 e 1830. Além disso, o pessoal que
trabalhou com North foi contratado por outras empresas do ramo, difundindo o conhe-
cimento sobre as técnicas que estavam sendo desenvolvidas. 171

Na sequência do desenvolvimento das técnicas de produção, o Arsenal de


Springfield foi totalmente reequipado para a produção de uma nova espingarda, o mode-
lo 1841, esta já totalmente feita segundo os padrões de peças intercambiáveis. Essas
armas, ao contrário de todas as anteriores, foram feitas em grande quantidade: dez mil
delas foram inicialmente encomendadas e efetivamente feitas. Mais importante, os mé-
todos adotados, pela primeira vez, conseguiram atingir o objetivo proposto por Blanc,
no século XVIII: a produção das armas ficou mais barata. Para efeito de comparação,
em 1815, um forjador de canos podia fabricar 1.087 canos por ano, a um custo de 35
centavos por cano (o serviço era por empreitada). 25 anos depois, a produção tinha su-
bido para 2.207 canos por homem/ano, um crescimento da produtividade de 88 vezes.
Só que o custo tinha caído para 27 centavos por cano – as vantagens eram evidentes.172

170
LUBAR, Steven. Engines of change: an exhibition on the American Industrial Revolution at eh Na-
tional Museum of American History, Smithsonian Institution. Washington: National Museum of
American History, 1986. p. 59.
171
SMITH (1973), op. cit. p. 584.
172
KENNEDY, op. cit. p. 42.

251
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

Figura 31 – Etapas da fabricação de espingardas, Arsenal de Springfield.173


Numeramos em vermelho as diferentes etapas. A figura mostra uma série de máquinas ferramentas em-
pregadas na fabricação de um fuzil raiado modelo de 1861. Entretanto, mesmo com a introdução da divi-
são de trabalho e de máquinas ferramentas, algumas atividades continuavam a depender de artesãos espe-
cializados, como mostrado nas etapas da segunda linha da imagem: “acabamento” (4), “testando a baione-
ta” (5), “endireitando o cano” (6) e “polindo a baioneta” (7). A descrição do artigo original aponta, contu-
do, que a baioneta era fresada e não esmerilhada “e assim sua manufatura passa a ser menos destrutiva ao
trabalhador”,174 referindo-se à silicose, que afligia os operadores de rebolos (comparar com a Figura 27).
O mesmo texto faz uma observação sobre um fator que normalmente não é notado na mecanização da
produção ou, às vezes, é mesmo visto como falso: ao invés de piorar a qualidade, a mecanização podia a
aumentar. Enquanto nas manufaturas francesas do século XVIII o índice de falhas no fabrico dos canos
era de 20-30% (ver nota 89 acima), em Springfield o índice de falhas nos canos era de apenas 1,6%,175
dezenove vezes melhor do que antes. Nesse sentido, consideramos notável a máquina de laminação de
canos (3), capaz não só de acelerar a fabricação, como também aperfeiçoar a qualidade do produto, apesar
de exigir um melhor controle de qualidade na seleção do aço a ser usado no produto.

173
HARPER'S WEEKLY Sept. 21, 1861. p. 605.
174
id. p. 607.
175
id. p. 607.

252
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

5.6 A Fábrica moderna


Essa forma de manufatura, usando divisão de trabalho, máquinas específicas,
movidas a força hidráulica – e depois a vapor –, junto com trabalhadores não especiali-
zados e gabaritos para a produção, gerou a moderna fábrica, tendo uma grande influên-
cia em outras empresas, como a de revólveres de Samuel Colt. O sistema também foi
adotado por outras companhias, que empregaram funcionários oriundos dos Arsenais
para modernizar sua produção. Este foi o caso da manufatura de máquinas agrícolas de
McCormick e a de máquinas de costura de Wheeler e, depois, de Singer 176 – estas últi-
mas, sendo consideradas como um marco no desenvolvimento da fábrica moderna, por
causa do aumento gigantesco de sua produção, usando técnicas de produção em massa.

Máquinas de costura
45000
40000
35000
30000
25000
20000
15000
10000
5000
0

Gráfico 20 – Produção de máquinas de costura da Wheeler and Wilson177


A companhia de Wheeler foi estabelecida usando o sistema de produção dos arsenais, contratando em
1857 Joseph Dana Alvord, um engenheiro que tinha trabalhado no Arsenal de Springfield por oito anos.
O aumento da produção nesse ano é visível no gráfico. Outra companhia de máquinas de costura, Brown
& Sharpe, empregou Henry Leland, que posteriormente fundaria a fábrica de carros Cadillac. Este arte-
são, em seus anos formativos, também tinha sido empregado em Springfield. Mais tarde, em 1870, a
fábrica Singer subcontrataria a fabricação de uma das suas máquinas com a Providence Tool Company,
uma manufatura de armas e anos depois, empregaria L. B. Miller, que antes tinha trabalhado na Manhat-
tan Firearms Company, para modernizar seus métodos de produção178 – em 1880, Singer fabricaria
500.000 máquinas de costura, usando os princípios de fabricação dos arsenais.
O sistema dos arsenais americanos também teve um papel importante na Europa.
Apesar da experiência de Blanc na França e da fábrica de moitões de Portsmouth, a pro-
dução de armas na Europa, em meados do século XIX, ainda seguia os princípios pré-
industriais, como já dissemos antes, apesar do número de trabalhadores envolvidos po-
der ser muito grande, como era o caso da França e da Inglaterra. Desta forma, quando

176
HOUNSHELL, op. cit. p. 69 e 182.
177
id. p. 89.
178
id. pp. 70, 80 e 92.

253
Capitulo 5 - A pré-indústria e a produção de artigos militares

da introdução de processos modernos na criação da fábrica Enfield, foram usadas má-


quinas e a organização dos arsenais dos Estados Unidos, os métodos de produção usa-
dos então sendo chamados de “sistema americano”. De fato, ate hoje as fábricas que na
época usavam os princípios básicos modernos são conhecidas como seguindo tal siste-
ma, do uso de força mecânica, máquinas ferramentas e gabaritos precisos179

O sistema americano já não seria o de uma manufatura, mas sim um de fábrica


regular, onde quase todos os processos modernos estariam presentes: divisão do traba-
lho; o uso de máquinas e controle da produção por meio de desenhos e gabaritos preci-
sos, usando padrões de medição uniformes. Isso com o resultado de peças intercambiá-
veis, produzidas em grande quantidade e com baixo custo. Mais tarde, os procedimentos
do sistema americano seriam a base para diversos outros empreendimentos industriais,
como o de máquinas agrícolas e de costura. Só faltava o passo da introdução da linha de
montagem para se caracterizar a produção em massa, o que seria feito por Henry Ford,
em 1914.

Uma nota que deve ser frisada é que na introdução dos métodos de produção
modernos as forças armadas tiveram um papel fundamental. Os engenheiros militares de
Gribeauval, os oficiais de marinha de Portsmouth e os engenheiros militares do Depar-
tamento de Material Bélico nos Estados Unidos foram elementos que defenderam e in-
centivaram a modernização. Em todos esses casos, os militares aceitaram fazer grandes
investimentos em tempo e dinheiro, em empreendimentos experimentais arriscados,
visando à obtenção de resultados ideais e não necessariamente os mais econômicos. Isso
apesar da resistência que havia, não só por parte de políticos e intelectuais, que viam os
desembolsos militares como “estéreis”, assim como os dos empreendedores privados e
trabalhadores, que viam a mudança como uma ameaça a seu modo de vida.180

O sistema americano foi um passo revolucionário, mas tomado tardiamente em


termos históricos. Pode-se dizer que se consolidou apenas no final de nosso período de
estudo, 1864 e sequer foi adotado por todos os países: a França não o fez de forma ime-
diata. O caso do Arsenal de Guerra da Corte, que passaremos analisar a seguir, deve ser
visto dentro deste contexto.

179
HOUNSHELL, op. cit. p. 331.
180
Ver, por exemplo, ALDER, op. cit. p. 270, sobre a resistência dos trabalhadores em trabalhar por em-
preitada, ao invés de por jornal, como queriam os engenheiros militares.

254
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

Sumário

6 A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil


6.1 A fase inicial
6.1.1 Os Arsenais de Marinha
6.1.1.1 O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro
6.1.2 Os Trens
6.2 As fábricas de armas das capitanias
6.2.1 A Fábrica de Armas de São Paulo
6.2.2 Laboratórios pirotécnicos
6.2.3 A Fábrica de Ferro de São João Batista de Ipanema
6.2.4 A fábrica de Pólvora
6.3 Arsenais provinciais
6.3.1 Arsenal do Pará
6.3.2 Arsenal de Pernambuco
6.3.3 Arsenal da Bahia
6.3.4 Arsenal de Mato Grosso
6.3.5 Arsenal do Rio Grande do Sul
6.4 Algumas considerações preliminares

255
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

6 A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

6.1 A fase inicial


Como colocado no capítulo anterior, a produção de artigos militares era uma ati-
vidade que, até certo ponto, podia ser feita em oficinas dispersas: produtos tinham con-
dições de ser manufaturados localmente, sem depender de fornecimentos ou mesmo de
uma administração centralizados. Esta foi uma solução implantada desde cedo na colô-
nia, mas não foi uma política sistemática e, nesse sentido, vale dizer que examinando
alguns casos particulares, pode-se ver que a proposta de fornecimento de artigos para as
forças armadas no Brasil Colônia era “oportunista”, valendo-se de recursos locais em
alguns casos, em outros se importando os produtos acabados da Europa, de acordo com
as melhores condições de um dado momento.

Certamente, os produtos de maior complexidade eram importados, tal como de-


via acontecer na própria metrópole, por falta de uma estrutura manufatureira mais ela-
borada, tal como já abordado. Os uniformes, até bem tarde na história colonial, vinham
de Portugal,1 o que gerava constantes problemas pelo atraso na entrega das roupas, às
vezes por anos: em 1716, a guarnição de Santos ficou cinco anos sem receber suas far-
das, o que a própria administração real reconhecia como uma razão para que os solda-
dos desertassem.2

Problemas de suprimento podiam até levar a graves crises no funcionamento das


tropas, como no caso do Rio Grande do Sul. Lá, em 1742, a força militar da capitania,
uma região de fronteira e onde tinha ocorrido pouco antes um conflito com os espanhóis
(o cerco da colônia de Sacramento – 1735-1737), estava sem receber soldo há vinte me-
ses e os uniformes estavam três anos atrasados. Dessa forma, os soldados se amotina-
ram, nomeando seus próprios oficiais para manter o serviço de vigilância. A falta de
fornecimento foi considerada tão grave e incorreta que o governador do Rio de Janeiro,

1
RELAÇÃO que mostra os fardamentos que se têm remetido dos Armazéns Reais desta provedoria para
a Capitania de São Paulo, e dos que tem recebido nestes mesmos Armazéns, vindos do Arsenal Real
dos Exércitos para a mesma Capitania. O desembargador procurador da Fazenda Real, Francisco Jo-
sé Brandão. Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1776. DOCUMENTOS Interessantes. Vol. XVII. São
Paulo: Paulista, 1895. p. 136.
2
PORTUGAL – Rei. Provisão Régia ordenando ao Governador da capitania do Rio de Janeiro que pagas-
se os soldos atrasados e fardasse os soldados da Praça de Santos. Lisboa, 22 de fevereiro de 1716. p.
188. DOCUMENTOS Interessantes, vol. XLIX. São Paulo: Irmãos Ferraz, 1926. A provisão infor-
mava que em fevereiro do ano anterior, os soldos estavam atrasados quatro meses e os uniformes
quatro anos.

256
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

a quem se subordinava a capitania, determinou o perdão dos amotinados, uma decisão


praticamente sem precedentes.3

Por sua vez, nem tudo dependia de Portugal, havia uma estrutura local de produ-
ção e esta não pode ser desprezada, como colocada nos capítulos anteriores. Um dos
elementos centrais na estratégia portuguesa eram os estaleiros governamentais.

6.1.1 Os Arsenais de Marinha


A Ribeira das Naus de Salvador já existia desde pelo menos 1626. 4 Isso apesar
de antes, já no início da ocupação da cidade, terem sido feitos pequenos barcos na cida-
de: o “Regimento” de Tomé de Souza, de 1548, já ordenava que o governador fizesse
barcos a remo, levando “oficiais [artesãos] e dos meus armazéns as munições necessá-
rias”5 para a construção. Em 1650, uma carta régia mandava que se construísse, todos os
anos, um navio de 800 toneladas na Bahia e em 1714 a ribeira foi elevada à categoria de
Arsenal, o mesmo status que o de Lisboa. 6

Esse tipo de atividade não ficou restrito à capital. “Ribeiras”, estaleiros gover-
namentais, de maior ou menos porte, foram instalados em praticamente todas as capita-
nias costeiras e até em áreas sem acesso direto ao mar, como Mato Grosso, onde o go-
verno mantinha uma pequena flotilha de canoas artilhadas. No Rio de Janeiro, em 1734
já havia um “engenho”, uma máquina para querenar, para poder limpar o fundo de na-
vios7 e o esquema de pequenas carreiras regionais se expandiu a partir do governo do
marquês de Pombal (1756-1777), quando foram criados vários arsenais ou transforma-
das as antigas ribeiras. Foram elevados à situação de Arsenal de Marinha as instalações

3
REGISTRO de uma representação que fez o Corpo de Dragões ao Governador Diogo Osório Cardoso.
Porto do Rio Grande de São Pedro, 11 de janeiro de 1742. Anais do Arquivo Histórico do Rio Gran-
de do Sul. Vol. I. Porto Alegre, 1977. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1977. p. 152.
4
REQUERIMENTO dos almoxarifes dos armazéns de artilharia, pólvora e Ribeira das Naus, ao rei [D.
Filipe III], sobre um compromisso que tomaram com o galeão Santa Ana, o qual vindo de torna via-
gem no ano de 1624, se perdeu na ilha de São Jorge. [ant. 1626, Maio, 27]. Mss. Arquivo Ultramari-
no. AHU_CU_005-02, Cx. 4, D. 429. Gastão Penalva informa que a Ribeira foi criada no governo de
D. Francisco de Souza (1591-1602). PENALVA, Gastão. Homens e coisas da velha armada: a idade
de ouro da construção naval. ILUSTRAÇÃO brasileira. Ano V, nº 44, abril de 1944. s.n.p. De fato,
em 1609 se pediu um orçamento para a construção de uma nau de 400 toneladas na Bahia. LAPA,
José Roberto do Amaral. A Bahia e a carreira da Índia. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1968. p. 53.
5
REGIMENTO DE TOMÉ DE SOUZA, 17 de dezembro de 1548. Apud TAPAJÓS, Vicente. História
Administrativa do Brasil. vol. II. Rio de Janeiro: D.A.S.P. - Serviço de Documentação, 1966. p. 103.
6
SELVAGEM, Carlos. Portugal Militar: compêndio de história militar e naval de Portugal, desde as
origens do estado Portucalense até o fim da Dinastia de Bragança. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 1991. p. 467.
7
GREENHALGH, Juvenal. O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História: 1763-1822. Rio de
Janeiro: Editora a Noite, 1951. p. 26.

257
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

da Pará (1761, existia desde 1729), Rio de Janeiro (1763) e Maranhão (já existia em
1733), que receberam instruções de construir navios de grande porte: no Rio, foi lança-
da a quilha da nau D. Sebastião, de 64 canhões e o do Pará construiu a Nau Belém, de
74 peças. 8

A expansão do sistema de construção naval não parou com essas instalações re-
lativamente grandes. Em Porto Alegre havia uma instalação que fez o Brigue Bellona
em 1771, em plena guerra com os espanhóis, que dominavam a margem sul do canal de
acesso à lagoa dos Patos, em tese impedindo o reabastecimento das forças militares no
Rio Grande do Sul. Pernambuco teve um Arsenal construído em 1798. Já no século
XIX, em Santa Catarina, que não chegou a ter oficialmente um Arsenal, apenas uma
intendência, foram feitas barcas canhoneiras em 1820. No mesmo ano foi criada uma
instalação de maior porte em Alagoas, onde foram lançadas as corvetas Maceió e São
Cristóvão. No Império, foi montada um Trem Naval em Mato Grosso, onde foram feitas
barcas canhoneiras (1825), o mesmo sendo feito em São Paulo.9 Durante a ocupação do
Uruguai como Província Cisplatina (1816-1828), o antigo Apostadero Naval dos espa-
nhóis em de Montevidéu teve um status de Arsenal de Marinha.

Tais Arsenais tinham dimensões variáveis. O do Pará, por exemplo, que não era
o maior de todos, em 1770 tinha 207 operários, mais 71 serventes e marinheiros,10 e até
1800 foram lançadas nele: uma nau de 74 canhões, cinco fragatas de 44 canhões, quatro
charruas, quatro brigues e doze chalupas artilhadas. O governador do Pará informando
que estavam

ao serviço do Arsenal mais de dois mil homens indianos [índios], en-


tre empregados no corte das madeiras destinadas a construção naval,
embarque desse mesmo material, trabalhos nas oficinas para a feitura
das embarcações, tripulando os navios de guerra que defendiam a ci-
dade de Belém, e as embarcações armadas expedidas para diversas di-
ligências”.11
A razão da existência dessas várias instalações nas capitanias pode ser explicada
pela descentralização administrativa do País, bem como a necessidade de obter os insu-
mos necessários para a construção naval, especificamente as madeiras de lei com as
dimensões e formatos necessários para um navio, algo que não era facilmente encontra-

8
id. p. 27.
9
PENALVA, op. cit. n.p.
10
LOPES, Thoribio. Arsenal de Marinha do Pará: Sua origem e sua história. Belém, s.ed 1945. pp. 81-
82.
11
id. p. 89.

258
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

do em todas as regiões. No período colonial, a organização dessas instalações reflete um


aspecto importante da formação das manufaturas mais complexas no Brasil, dependen-
do da cooperação entre oficinas para a feitura de um produto único. De certa forma,
eram instalações mais adiantadas do que seriam os Arsenais do Exército no século XIX
– uma demonstração que o atraso técnico não era uma imposição da situação colonial do
País.

Com a Regência (1831), houve uma redução no sistema de construção de navios


de guerra, sendo ordenado que se extinguissem os cargos de intendentes e se despedis-
sem os funcionários dos arsenais do Maranhão, Pernambuco, Santos (SP) e Santa Cata-
rina, fechando-os. O do Pará deveria continuar a existir, sem um intendente e com um
orçamento reduzido.12 Somente os Arsenais da Bahia e do Rio foram mantidos oficial-
mente, só que com pessoal reduzido. Depois, o Arsenal de Marinha de Pernambuco e o
de Cuiabá seriam recriados.

Essas manufaturas e oficinas da Marinha tinham uma importante função no for-


necimento das unidades militares, não só as navais, mas também as do Exército, haven-
do um considerável intercâmbio de pessoal, matérias primas e produtos acabados entre
as diferentes organizações, já que em todas as províncias onde havia arsenais de Mari-
nha também havia os do Exército (ver Figura 36).

Das instalações da Marinha, três tinham um papel fundamental: no período que


estamos tratando, que vai até 1864, as de Belém e da Bahia tinham um papel preponde-
rante na construção de navios, enquanto a do Rio de Janeiro assumia um papel mais
diversificado.

6.1.1.1 O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro


Poderia parecer que o Arsenal da capital seria o principal em termos de constru-
ção naval no Império. Contudo, a falta de um recurso vital explica por que ele teve pro-
blemas de desenvolvimento: não havia fontes fáceis de madeira de lei de grandes di-
mensões na capitania/província. Dessa forma, no início do século XIX, a instituição
tinha apenas uma tanoaria, uma ferraria, uma oficina de calafates e, naturalmente, uma

12
BRASIL – Decreto de 27 de março de 1832. Extingue as Intendências da Marinha do Pará, Maranhão,
Pernambuco, e Santos, e providencia a respeito do fornecimento dos navios da Armada e dos traba-
lhos do Arsenal de Marinha do Pará.

259
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

carpintaria,13 instalações bem simples, capazes apenas de fazer reparos menos comple-
xos, ainda que houvesse uma carreira no Arsenal.

Na verdade, mesmo depois da Independência, o Arsenal de Belém continuou a


fazer mais navios do que o do Rio: um levantamento feito pelo Ministério da Marinha
das embarcações lançadas nos Arsenais de Belém, Rio, Salvador e Recife, aponta que
de 75 grandes unidades fabricadas no Brasil até 1865, somente 25% foram feitas no Rio
de Janeiro, sendo que em termos de embarcações de maior porte, a única nau feita no
Brasil depois da Independência, a Imperador do Brasil, foi construída na Bahia – e este
arsenal tinha feito três outras naus entre 1780 e 1820, bem como oito fragatas, uma cor-
veta e onze brigues e escunas (ver Tabela 9).14

Arsenal Nº de Navios
Belém 21
Rio de Janeiro 19
Bahia 16
Recife 11
Vários 8
Soma 75
Tabela 9 – Navios produzidos nos estaleiros do País.15
Na linha “vários” estão incluídos os navios feitos em Santos, Maceió e Desterro (Florianópolis). Só estão
listados navios oceânicos, a não ser no caso de Recife, onde aparecem três dragas de grande porte – as
únicas construídas pela Marinha no Brasil Império.
O número de navios feitos em Belém até 1864 é notável, sendo que o último de-
les feito dentro do nosso recorte, o D. Pedro, de 1863, já era a vapor,16 mostrando que
houve uma tentativa e modernizar a instalação, algo que também aconteceu em Salva-
dor, onde foi batida a quilha do vapor Moema, em janeiro de 1865.

Entretanto, se o Arsenal do Rio não era o principal local de construção de navi-


os, tecnicamente era o mais avançado: seis dos últimos navios feitos na Bahia e Per-
nambuco foram projetados por engenheiros do Rio de Janeiro e este arsenal lançou o
primeiro vapor feito pela Marinha, o Thetis, em 1843. Lá se construiram até 1865 outros
três, inclusive com suas máquinas. Neste último ano, fora do nosso recorte, o Arsenal
bateu a quilha de três encouraçados.17

13
GREENHALGH, op. cit. p. 52.
14
BRASIL – Ministério da Marinha. Relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa na segunda
sessão da décima terceira legislatura pelo ministro e secretário de estado dos negócios da marinha,
Afonso Celso de Assis Figueiredo. Rio de Janeiro: Diário do Rio de Janeiro, 1868. Anexo VIII.
15
id. Anexo VIII.
16
id. Anexo VIII.
17
id. anexo VIII.

260
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

Não vamos nos aprofundar na evolução técnica do Arsenal de Marinha do Rio


de Janeiro (AMRJ), mas é importante mostrar alguns pontos básicos, para efeito de
comparação. Um deles é o do desenvolvimento técnico: nos exércitos do período, o
principal elemento para as operações era o humano. Material bélico, como fuzis, ca-
nhões ou cavalos eram, até certo ponto, secundários: apesar de nos dias de hoje, onde
tudo depende da tecnologia, é anti-intuitivo falar que a parte técnica era irrelevante, mas
isso não era visto dessa forma até o século XIX, o importante era o número de soldados
que podiam ser colocados em campo de batalha, tanto é que vários países – inclusive o
Brasil – cogitaram ou até chegaram a fornecer piques para seus soldados, isso no século
XIX, um retrocesso técnico de 200 anos.18

No caso das marinhas, apesar do elemento humano ainda ser vital, esse só podia
ser aplicado através das embarcações e seus armamentos. Dessa forma, manter os navi-
os atualizados era uma necessidade, não só em termos de seus desenhos básicos, mas
também em detalhes de seu funcionamento. Um exemplo disso pode ser visto no caso
dos suprimentos: uma das principais oficinas dos antigos Arsenais de Marinha era a de
tanoaria, para fabricação de toneis, necessários não só para o transporte de líquidos, mas
também de alguns sólidos. Para aperfeiçoar esse detalhe, em 1832 o Arsenal de Marinha
do Rio de Janeiro (AMRJ) passou a fabricar tanques de ferro para o fornecimento das
embarcações, o que demandava uma oficina de serralheira bem equipada e exigiria uma
de galvanização, para dar maior durabilidade aos tanques. Nesse mesmo ano, se tentou
instalar duas máquinas a vapor, uma para serrar e outra para encurvar madeiras e foram
instalados teares para produção de velas.19

Essas iniciativas de modernização são surpreendentes quando vemos que o perí-


odo em que foram feitas era de corte de despesas: a força da Marinha tinha sido reduzi-
da de 8.000 homens em 1828 para 2.700 em 1831, dos quais 1.200 do Corpo de Artilha-
ria de Marinha, correspondente ao atual Corpo de Fuzileiros Navais. Ou seja, apenas
1.500 eram marinheiros. Nesse sentido, é relevante e surpreendente vermos que naquele

18
No Brasil, durante a Guerra de Independência, se forneceram chuços para armar as ordenanças. Nos
Estados Unidos, na Guerra Civil (1860-1865), o uso de piques chegou a ser aprovado pelo coman-
dante confederado do Exército do Norte da Virgínia, General Lee, apesar das armas não terem sido
distribuídas. Para o caso do Brasil, ver: BRASIL – Ministério da Guerra. Ofício de Manoel da Costa
Pinto ao Ministro da Guerra, conde da Lage, sobre pedido feito pela Marinha. Rio de Janeiro, 13 de
janeiro de 1822. Mss. Arquivo Nacional. IG7 3. Quanto ao fornecimento de piques para as tropas
confederadas, ver: GWYNNE, S. C. Rebel Yell: The Violence, Passion, and Redemption of Stone-
wall Jackson. New York, Scribner, 2014. p. 196.
19
BRASIL – Ministério da Marinha. Relatório do ano de 1832. s.n.t. [1833]. p. 5

261
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

ano o número de operários do AMRJ era 567, divididos em doze especialidades. 20 Para
efeito de comparação, o Exército, no pique do corte de gastos com a força de terra, em
1836, com um quadro de efetivos autorizado de 6.320 soldados, o Arsenal de Guerra da
Corte tinha apenas 231 operários, divididos em quatorze especialidades. 21

As esparsas indicações que temos apontam que o Arsenal de Marinha usualmen-


te tinha um corpo de operários mais numeroso do que o do ministério da Guerra. Em
1845, por exemplo, havia 1.266 trabalhadores no Arsenal de Marinha, enquanto no de
Guerra eram 1.093 (sem contar os Aprendizes Menores, ver Tabela 13). O AMRJ tam-
bém tinha uma variedade maior de oficinas e um corpo funcional que certamente era
único no Brasil (ver Tabela 10).

De forma geral, o funcionamento do AMRJ era semelhante às outras manufatu-


ras do período. Uma exceção parece ser o caso das oficinas mais técnicas. Isso é visível
na escala de jornais: os pagamentos dos operários eram feitos de acordo com sua habili-
dade e com a oficina onde eram empregados e os oficiais de fundição de ferro e máqui-
nas a vapor eram muito valorizados, ganhavam mais que os mestres de todas as ofici-
nas, menos os da de máquinas e de galvanoplastia; os aprendizes de construção naval
recebiam mais que os mancebos da fundição de bronze e assim por diante, mostrando a
valorização de uma mão de obra altamente especializada e difícil de contratar no País.

Cremos ser importante notar que os pagamentos de alguns desses operários mais
especializados era realmente elevado, pelo menos em comparação com os soldos das
forças armadas: em 1845, o jornal (diária) de cinco dos aprendizes da oficina de máqui-
nas era de 2.000 réis. Com base em um mês de trabalho de 26 dias isso implicava em
vencimentos mensais de 52.000 réis – nesse período, o soldo de um capitão, um oficial
de grau intermediário, era de 50.000 réis, menos do que ganhava um aprendiz, um traba-
lhador que sequer tinha sua formação completa. Os artesãos mais bem pagos das ofici-
nas de fundição de ferro e de máquinas recebiam 4.000 réis por dia, ou 106.000 réis
mensais, mais do que um tenente-coronel, enquanto os mestres, com 5.000 réis, 22 rece-

20
TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da engenharia no Brasil (século XVI a XIX). Vol. I. Rio de
Janeiro: Clavero, 1994. p. 294.
21
BRASIL – Arsenal de Guerra. Relatório do estado do pessoal das oficinas do Arsenal de Guerra da
Corte e dos objetos que se devem presentemente nelas fabricar. Rio de Janeiro, 24 de novembro de
1836. Mss. ANRJ. IG7 19.
22
BRASIL – Ministério da Marinha. Relatório da Repartição dos Negócios da Marinha apresentado à
Assembleia Geral Legislativa na 2ª sessão da 6ª legislatura pelo respectivo ministro e secretário de
estado Antônio Francisco de Paula e Hollanda Cavalcanti d’Albuquerque. Rio de Janeiro: Laem-
Continua –––––––

262
Capitulo 6 - A estrutura de produção de artigos para os militares no Brasil

biam um valor mensal acima do soldo de um brigadeiro, um oficial general.23 Algo no-
tável, considerando como o trabalho manual era visto na sociedade da época, uma refle-
xão do mercado de trabalho para essas especialidades, que certamente tinham muito
pouco trabalhadores no Brasil – o Relatório do Ministro da Marinha especifica que es-
ses operários de máquinas eram belgas, contratados na Europa para a oficina.24 Por sua
vez, o trabalho na cordoaria, uma atividade não muito especializada e que tinha um
mercado de trabalho local, não era um bem pago, o mestre recebia apenas 1.800 réis
(46.800 réis) e o mancebo com menor pagamento tinha uma diária de 480 réis, apenas
um pouco acima do que ganhava um sargento do exército.

Figura 32 – Planta do Arsenal de Marinha, Henry Law, 1858. 25


Realçamos em vermelho as instalações do Arsenal de Guerra e em Azul as da Marinha, o que dá certa
noção das dimensões das duas instalações. Contudo, deve-se notar que a planta do AGC está incompleta e
não inclui os Laboratórios do Campinho, do Castelo e a Fábrica da Conceição. O Arsenal de Marinha
original, inclusive a carreira, é o que se situa no continente, tendo vários prédios auxiliares na ilha das
Cobras. Esta era também parcialmente ocupada por enfermarias, por armazéns da Alfândega, havendo até
um trapiche privado, o do Lopes. É bem visível a natureza dispersa das oficinas da Marinha, que us