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Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Inquérito Nacional sobre


as Condições de Vida e Trabalho
na Educação em Portugal (INCVTE)

Primeiro Relatório

Versão Preliminar

Lisboa, Outubro de 2018

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 3


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Coord. Raquel Varela

Autores
Raquel Cardeira Varela, Roberto della Santa, Henrique Silveira,
Coimbra de Matos, Duarte Rolo, João Areosa e Roberto Leher

Equipa Científica do Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho (INCVTE)


na Educação em Portugal (“Burnout”):

• Professora Doutora Raquel Varela, Historiadora do Trabalho, IHC-NOVA, IISH

• Professor Doutor Roberto della Santa, Cientista Social, Niep-UFF/UFRJ/ NOVA

• Professor Doutor Henrique Silveira, Matemático, Camgds/IST/UL

• Professor Doutor António Coimbra de Matos, Psicanalista e Psiquiatra

• Professor Doutor Duarte Rolo, CPSC, Paris5 et Institut de Psychologie

• Professor Doutor Roberto Leher, Biólogo, Educador e Reitor da UFRJ

• Professor Doutor João Areosa, Sociólogo, ESCE/IPS e CICS/NOVA

• Professor Doutor António Mendes Pedro, Psicólogo, UAL/UC/Paris13

• Doutor José António Antunes, Médico, Especializado em Saúde Pública

• Anna Paulla Artero Vilela, Géografa, Mestranda pelo CEGeT/UNESP

• Professora Doutora Luísa Barbosa Pereira, Antropóloga, FCSH/NOVA

4 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Índice

Conteúdo
Autores.....................................................................................................................................................................................4
Equipa Científica do Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho (INCVTE) na Educação em Portugal
(“Burnout”):..........................................................................................................................................................................4
Introdução.................................................................................................................................................................................8
Estado da Arte. O que é o burnout?.......................................................................................................................................14
Antecedentes nosográficos e psicopatológicos do burn-out..............................................................................................15
A neurastenia......................................................................................................................................................................16
O trabalho e o “cansaço nervoso”......................................................................................................................................17
Burn-out: o destino patológico da relação assistencial.......................................................................................................18
A Crítica clínica ao «burnout».............................................................................................................................................19
Uma “doença de época”?.................................................................................................................................................20
Crítica metódica ao burnout................................................................................................................................................22
Mas há afinal alguma especificidade socio-ocupacional no chamado “burnout docente”?................................................29
Questões Metodológicas:a necessidade da razão crítica versus Homo Economicus............................................................31
Pode a psiquê humana ser metrificada?.............................................................................................................................37
Resultados Estatísticos INCVTEP...........................................................................................................................................43
Introdução...............................................................................................................................................................................43
Breve descrição do inquérito..............................................................................................................................................43
Recolha e tratamento.........................................................................................................................................................43
Resumo da Amostra...........................................................................................................................................................43
Erro e confiança das estimativas descritivas em face da dimensão da amostra................................................................44
Indicadores descritivos...........................................................................................................................................................44
Professores por sexo..........................................................................................................................................................44
Idades dos professores à data do inquérito........................................................................................................................44
Tempo de serviço...............................................................................................................................................................45
Tempo tomado entre casa e escola....................................................................................................................................46
Deslocalização familiar e escola.........................................................................................................................................47
Desgaste Profissional (“Burnout”).........................................................................................................................................47
Significado dos índices.......................................................................................................................................................47
Análise do índice de exaustão emocional (IEE)..................................................................................................................47
Índice de Despersonalização ID..........................................................................................................................................48
Índice de realização profissional.........................................................................................................................................49
Índice global de Maslach – IGM..........................................................................................................................................49
Factores sociodemográficos...................................................................................................................................................50
Burocracia...........................................................................................................................................................................50

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Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Indisciplina..........................................................................................................................................................................51
Avaliação de desempenho..................................................................................................................................................52
Desejo de reforma antes do tempo....................................................................................................................................52
Concordância com alteração de regime jurídico da reforma...............................................................................................53
Drogas, álcool e medicamentos.........................................................................................................................................53
Índice combinado de Stress Laboral.......................................................................................................................................54
Índice de desconforto sociodemográfico...........................................................................................................................55
Índice de balanço sociodemográfico..................................................................................................................................57
Determinantes do Mal-Estar – Q3..........................................................................................................................................58
Comparação entre mal-estar, cansaço e IEE......................................................................................................................59
Correlações entre variáveis do Estudo...................................................................................................................................59
Cansaço, mal-estar e IEE....................................................................................................................................................59
Diversas correlações entre variáveis pertinentes...............................................................................................................60
Testes de hipóteses................................................................................................................................................................60
TH1 - Álcool, drogas ou medicamentos vs. Índice de Exaustão emocional (IEE)...............................................................60
TH2 - Burocracia Q2.29 vs. IEE..........................................................................................................................................61
TH3 - Indisciplina Q2.2 Q2.3 e Q2.57.................................................................................................................................61
TH4 - Preocupação com falta de acompanhamento dos alunos Q2.74 vs. IEE..................................................................61
TH5 - Reforma antecipada Q2.86 vs. IEE...........................................................................................................................61
TH6 Salário Q2.6 vs. IEE.....................................................................................................................................................62
TH7 - Género vs. Índice de exaustão emocional (IEE)........................................................................................................62
TH8 - Idade vs. IEE.............................................................................................................................................................62
TH9 Região vs. Índice de exaustão emocional (IEE)...........................................................................................................62
TH10 - Habilitação...............................................................................................................................................................63
TH11 - Público – Privado vs. IEE.........................................................................................................................................63
TH12 – Proximidade de residência relativamente à escola vs. IEE.....................................................................................64
TH13 - Afastamento familiar vs. IEE...................................................................................................................................64
TH14 - Precariedade e Quadro vs. IEE................................................................................................................................64
TH15 - Tempo de serviço vs. IEE........................................................................................................................................64
TH16 - Conflitos com direcção (Q2.8) vs. IEE.....................................................................................................................65
TH17 - Criatividade (Q2.18) vs. IEE.....................................................................................................................................65
TH18 - Independência na definição de tarefas (Q2.44) vs. IEE...........................................................................................65
Resultados do INCVTE: contributo para uma análise crítica...................................................................................................66
“Politecnia”, educar seres humanos em vez de produzir “capital humano”....................................................................... 74
Estado, Sociedade e Burn-out............................................................................................................................................80
Notas Conclusivas..................................................................................................................................................................91
Biografia dos Autores.............................................................................................................................................................95

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«Já lhe dei meu corpo/ minh’alegria/ Já estanquei o sangue/ quando fervia/ Olha a voz que me resta/ Olha a
veia que salta/ Olha a gota que falta/ pr’o desfecho da festa/ Por favor/ Deixe em paz meu coração/ Qu’ele é
um pote até aqui de mágoa/ Qualquer desatenção/ faça não/ Pode ser a gota d’água.»

(Gota d’Água, Chico Buarque e Paulo Pontes, 1975)

«Lembra-me um sonho lindo,/ quase acabado. Lembra-me um céu aberto, o outro fechado.»

(Por Este Rio Acima, Fausto Bordalo Dias e Eduardo Paes, 1982)

“A teoria social de que os seres humanos são produtos de suas circunstâncias e sua educação – e seres
humanos transformados seriam os produtos de outras circunstâncias, e uma nova educação, por ora
transformada – esquecer-se-ia de que as circunstâncias elas mesmas são transformadas, precisamente, pelos
mesmos seres humanos e que os educadores têm, eles próprios, de serem educados. Acabar-se-ia, assim,
por dividir a sociedade em duas partes, uma das quais ficaria elevada acima dela própria (por exemplo, em R.
Owen). A coincidência da transformação das circunstâncias e do meio e da atividade vital humana só pode
então ser percebida – e, por fim, racionalmente compreendida – enquanto uma práxis revolucionária.»

(Ad Feuerbach, Karl Marx e Friedrich Engels, 1845).

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Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Introdução Notas

Na segunda metade do século passado, políticos e sociais mais amplos, para


o cientista social norte-americano Wright o universo dos eventos históricos de
Mills1 cunhou a distinção entre o que vulto, quando influem na vida de muitos
chamou de “perturbação privada” (private e os millieaux roçam a sociedade em
trouble) e “questão pública” (public sentido mais amplo. Este é o terreno
issue). As ditas perturbações diriam das ciências sociais.
respeito ao caráter do indivíduo e às Os processos de saúde-e-doença
relações imediatas dele com os outros. do trabalho certamente são uma
Estão, assim, relacionadas com seu das questões públicas chave e um
próprio self e com as zonas proximais dos problemas sociais fulcrais para a
da vida social que lhe dizem respeito, interpretação – e a transformação – da
mais diretamente. Já as questões vida de diversas sociedades no século XXI.
transcenderiam os ambientes e os locais E a sociedade portuguesa não é distinta.
do indivíduo e da sua vida mais íntima. Este estudo pressupõe o reconhecimento
Remeter-nos-iam a um ambiente social da centralidade do trabalho para a
historicamente determinado, composto formação social. Nascido do encontro
pela interpenetração de um avassalador entre investigadores universitários e
número de ambientes pessoais e locais, dirigentes sindicais da FENPROF2 com
pela sua inserção numa estrutura de uma preocupação comum – perceber
vida social histórica, numa perspectiva o reflexo sintomal do que é o mundo
de totalidade. laboral do trabalho na educação em
Quando num concelho de 100 Portugal –, o presente estudo social
mil habitantes – ou mais – apenas um pretende responder a algumas «questões
indivíduo se encontra desempregado, por públicas»: Por que uma grande parte dos
exemplo, estaríamos, daí, perante uma professores, ao final do dia, sentem-
perturbação individual. Para explicá-la se esgotados? Quais são as causas
precisaríamos de nos remeter ao que é do sentimento de exaustão emocional
a personalidade desse indivíduo, às suas entre os docentes? De onde advém
capacidades e às suas oportunidades o stress laboral na educação escolar?
imediatas. A psicologia tradicional pode Como compreender e/ou explicar um
ocupar-se disso. Mas quando num país de mal-estar tão difuso e generalizado nas
50 milhões de empregados 15 milhões funções, estrutura e dinâmicas desta
não possuem emprego estamos diante atividade vital?
de uma questão que não encontrará O desgaste profissional não ocorre
solução – nem explicação – se nos num qualquer tempo ou espaço. Apesar
voltarmos para o indivíduo isolado. É para de já detectado há muito, a percepção
essas questões públicas que a atenção ampliada deste problema surgiu pari
de qualquer investigação social se deve passu com as políticas de austeridade,
dirigir, para o mundo real dos fenómenos um eterno retorno do “fazer mais, com

1. Charles Wright Mills ficou principalmente conhecido pela sua obra, já clássica, A Imaginação Sociológica.
Publicado originalmente nos EUA em 1959, nele o autor faz um apelo para que cientistas sociais não
deixem a imaginação e a criatividade de lado ao exercerem sua profissão em favor duma pretensa
isenção, objetividade e/ou neutralidade no labor científico. Para o autor, as grandes obras e os grandes
intelectuais na história nunca abriram mão de sua reflexividade ou criatividade, além de manter uma
postura crítica diante das realidades. Como exemplos de trabalhos intelectuais de sua época, C.W.Mills
cita The Behemoth de Franz Neumann, como obra científica estimulante à reflexão, e a obra de Talcott
Parsons, como exemplo da tendência científico-naturalista de sua era – além de portadora de léxico
desnecessariamente truncado inacessível ao grande público.
2. A Federação Nacional dos Professores é uma confederação de vários sindicatos de professores
portugueses. 

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menos”, e casos de exaustão provocados, do trabalho. Este trabalho foi coordenado
Notas
sobretudo, por sobrecarga de trabalho, pela Professora Doutora Raquel Varela
realizado em escassez de condições (UNL), mas começou, desde o início,
laborais efetivas. como um trabalho em equipa, multi,
A ideia cimeira, para este trabalho, inter e transdisciplinar, cujos estudos e
partiu de um convite do Professor José hipóteses continuam em curso.
Augusto Cardoso, do Sindicato dos Embora todo o trabalho tivesse
Professores do Norte, à Professora sido realizado em conjunto, destacamos
Doutora Raquel Varela para realizar, no que Raquel Varela (Historiadora, UNL)
Norte do País, uma série de palestras, estudou as condições de trabalho
de 2015 a 2017, que pudessem contribuir escolar no país, da revolução de Abril
para, através do estudo científico da de 1974 aos nossos dias; Roberto della
organização social do trabalho, na Santa (Cientista Social, UFF) elaborou
educação escolar, compreender o criticamente o desenho metodológico dos
adoecimento docente. O projeto foi, inquéritos, estabelecendo daí um padrão
então, abraçado pela FENPROF, em científico-social de nexo entre os estudos
2017, e uma equipa interdisciplinar e da síndrome de burnout e os inquéritos
mutiprofissional, através de um protocolo ao mundo do trabalho, por um lado, e
– firmado entre a FENPROF e a FCSH- abrindo-nos caminho, através da teoria
UNL –, realizou este trabalho. Desde o social, para cânones de interpretação
início, por incentivo do Professor Doutor científico-social de ordem reflexiva, por
Roberto dellla Santa, foi sugerido que o outro. Henrique Silveira (Matemático,
estudo não se autolimitasse ao burnout, CAMGSD/IST/UL) fez a análise estatística
mas incluísse as questões relacionadas da amostra e coordenou a dimensão
com organização do trabalho e modo de quantitativa da investigação. António
vida. Todo o trabalho de recolha dos dados Coimbra de Matos (Psicanalista e
só foi possível pelo empenhamento em Psiquiatra) foi responsável pela dimensão
todo o país de dirigentes sindicais que, do adoecimento do ponto de vista da
nas escolas, recolheram os inquéritos, psicanálise. Duarte Rolo (Psicólogo,
e por uma equipa técnica formada por Paris5) realizou uma genealogia crítica
elementos dos diferentes sindicatos da da categoria de burnout do ponto de
FENPROF, que inseriu os dados. vista clínico e contribuiu no âmbito da
Este estudo nacional contempla, sua área, a psicodinâmica do trabalho.
no seu todo, na verdade, diferentes João Areosa (Sociólogo, ESCE/IPS e
conceções metodológicas de investigação CICS/NOVA) contribuiu com estudos
integradas e plêiades de análises críticas sobre desgaste e organização laboral.
interdisciplinares, a partir de quase 2 Roberto Leher (Reitoria, UFRJ) auxiliou
milhões de dados. Encontra-se, por isso, com seu trabalho sobre educação,
apenas no seu início, face ao manancial neoliberalismo, Estado e sociedade civil.
de dados, temas, questões, cruzamentos, Colaboraram, ainda, na equipa científica,
assuntos e desafios que temos ainda por os investigadores António Mendes Pedro,
abordar. Trata-se do que se convencionou (Psicólogo, UAL/UC), que tem em estudo
designar Big Data, um grande volume um trabalho sobre psicossomática nos
de dados/informações. docentes em Portugal; José António
Os dados foram analisados por uma Antunes (Médico e Investigador), que
equipa interdiciplinar e multiprofissional contribuiu para perceber o consumo
das áreas de história e educação, de de álcool, medicamentos etc. e sua
teoria social e de metodologia científica, relação com os determinantes sociais
matemática e estatística, de medicina da saúde pública; e Luísa Barbosa
social e de psiquiatria, psicanálise e Pereira, (Antropóloga, FCSH/UNL), que
psicologia, psicodinâmica do trabalho e contribuiu com uma continuada pesquisa
sociologia crítica, antropologia e geografia em etnografia do trabalho na revolução

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dos cravos e educação. Está em curso o exaustão emocional, a despersonalização


Notas
projeto de uma dissertação de mestrado / cinismo e a realização pessoal /
– de Anna Paulla Artero Vilela – sobre profissional. Já o Inquérito sobre Burnout
a questão social do adoecimento de de Copenhaga (CBI) trata Indicadores de
professores no estado de São Paulo, no Exaustão Física, Psíquica e Social a nível
Brasil. Os dados e as análises de cada da Pessoa (Burnout Pessoal ou ‘Person-
um, sublinhamos, têm sido discutidos related-Burnout’), do Trabalho (Burnout
coletivamente, em equipa, procurando Laboral, ‘Work-related-Burnout’) e dos
estabelecer nexos dinâmico-causais e Alunos (Burnout Relacional, ‘Client-
então estabelecer modelos científicos related-Burnout’), a partir de críticas à
integrais de investigação social. correlação que se estabelece entre os
Uma série complexa de múltiplas três fatores – no modelo americano
determinações, por uma riqueza de – e à especificidade do trabalho com
relações, torna o atual estudo no que seres humanos. Por fim, o Questionário
pode vir a ser, esperamos, um caminho sobre o Burnout de Professores – revisto
pioneiro e inovador nesta área. (CBP-R) ocupa-se de uma perquirição
Partindo do desafio da FENPROF de dos antecedentes sociodemográficos,
investigação sobre o mal-estar docente, profissionais e psicossociais do
e do requerimento desta Federação, de esgotamento especificamente docente;
haver-nos com a concepção metódica da perscrutação dos determinantes
e epistémica canonizada pelos estudos sociais – a níveis interpessoal, familiar,
sobre burnout, no mundo de língua laboral e organizacional – e levanta
inglesa, colocámo-nos o desafio de o stress laboral, desgaste docente,
ampliar escopo e espetro ao inquérito desorganização escolar e a problemática
com o qual pretendíamos trabalhar. administrativa e/ou gestão laboral.
Como ponto de partida, O arranque deste Estudo que
incorporámos tópicos que fazem parte abraçámos pressupunha partir-se da
de três modelos distintos de aferição legitimidade alcançada pelo estudo
do chamado burnout. Respetivamente, norte-americano (MBI) voltado para
i) Maslasch Burnout Inventory3, ii) educadores (Ed); somar o criticismo
Copenhagen Burnout Inventory4 e iii) o feito pelo inventário dinamarquês (CBI)
Cuestionario de Burnout Profesorado – e ainda combinar a especificidade laboral
Revisado5. docente do modelo castelhano (CBP-R) –
O Inquérito sobre Burnout de de Moreno-Jimenez, Garrosa Hernandez
Maslasch (MBI) é um instrumento de & Gonzalez Gutierrez – na sua versão
aferição psicométrica que consiste em revista (2000) com alto nível de descrição
22 questões referentes ao desgaste densa dos problemas enfrentados no
profissional. A fórmula original do MBI quotidiano escolar da Península Ibérica,
foi construída por Christina Maslach e sobretudo, desde variáveis determinadas;
Susan Jackson com o objetivo de avaliar e com carácter sociodemográfico.
a experiência percebida de indivíduos, Com tais recursos ao nosso
ou grupos de trabalhadores, com a dita alcance, passou-se à reconstituição
síndrome de esgotamento profissional. crítica da fórmula político-intelectual
Sendo o mais notório deles, versa sobre do inquérito operário – ou «enquête
três distintas dimensões da questão: a ouvrière» – de Karl Marx, escrita em

3. Christina Maslach, Susan Jackson and Michael Leiter. Maslach Burnout Inventory Manual. 4th Edition
Reviewed [1996–2016]. UCLA / Mind Garden Publishers, Menlo Park, California, 2016. 
4. Tage Kristensen, Marianne Borritz, Ebbe Villadsen & Karl Christensen. The Copenhagen Burnout
Inventory. Work & Stress. Jul-Sep 2005; 19(3):192-207. 
5. Moreno-Jimenez, Garrosa Hernandez & Gonzalez Gutierrez. La evaluación del estrés y el burnout
del profesorado. Revista de Psicologia del Trabajo y las Organizaciones, 2000, 16(1), 331-349. 

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1880 e publicada pela Revue Socialiste6. científica – com toda a responsividade
Notas
As condições em que o trabalho é ético-política e o compromisso valorativo
exercido, a repercussão do trabalho – inerentes a tal busca – por uma adoção
na saúde física e moral dos operários ostensiva de certa neutralidade
–, a ocorrência de acidentes laborais, os moral ou intelectual. Pelo contrário,
ritmos e a intensidade do trabalho, as procurámos centrar o foco nos liames
formas dos contratos, os sistemas de realmente existentes entre o que são
controlo hierárquico, a questão salarial, as perturbações privadas e as questões
os modos de pagamento, o valor unitário, públicas, a partir da centralidade do ser-
a fiscalização de órgãos estatais, as que-trabalha.
formas sociais de resistência e a luta Trata-se, sobretudo, de uma forma
são o seu mote. específica na medida em que instiga
A partir das proposições típicas do uma maneira de formar públicos densos,
que seria a pesquisa ação participante, ativos, visíveis e que, na maior parte das
isto é, a premissa de interação recíproca vezes, supõe, ainda, determinado modo
entre investigadores e participantes da de uma práxis político-pedagógica8. Por
situação estudada, supôs-se “uma forma oposição à contracorrente da divisão
de ação planeada de caráter social / sócio-técnica do trabalho educativo e sua
educacional / técnico ou outro que nem configuração atual no sistema académico,
sempre se encontra em propostas”7 reunimos o que o sistema de controlo
meramente participadas. O instrumento sociometabólico da educação para o
passou assim por sessões de debates – capital tratou de separar: a universidade
com dirigentes sindicais e profissionais e a sociedade, o mundo da cultura e
docentes – para que fosse precisado, o mundo do trabalho, aprendizagem
aprimorado e desenvolvido a partir da e investigação, conceção e execução,
intervenção dos sujeitos que levam mãos e cabeças.
a cabo a atividade docente e assim Entre fevereiro e abril de 2018,
concebem os processos de ensino e foram recolhidos nas escolas portuguesas
aprendizagem in loco. Partindo-se do 18.420 inquéritos contendo 158 questões.
pressuposto elementar da centralidade Destes, 15.810 foram validados. Os
axiológica do conhecimento da classe- inquéritos foram recolhidos em todo o
que-vive-do-próprio-salário sobre os país, incluindo as regiões autónomas,
processos, dinâmicas e vivências de tendo sido preenchidos por educadores
trabalho realmente existente, a equipa de infância, professores dos ensinos
também realizou seminários, colóquios básico e secundário e, também, da
e reuniões, além de coletar relatos de educação especial. Respeitou-se a
professores, no ativo e aposentados. proporção de docentes, quer por regiões,
Aduzimos determinada forma de quer por setores de educação e de
ciência social pública engajada com o ensino. Os inquéritos foram recolhidos
mundo do trabalho a qual não enreda no setor público e no setor privado,
a insoslaiável busca por objetividade entre professores sindicalizados e não-

6. O texto foi publicado na Ed. 4, p.194-199, Avril, 1880. Ao mesmo tempo, uma tiragem de 25 mil
exemplares do mesmo documento foi enviada a «todas as sociedades operárias, todos os grupos de
trabalhadores ou círculos socialistas e democráticos, a todos os jornais franceses, e a todos os que o
solicitarem». A Revue Socialiste foi uma das várias publicações efêmeras que apareceram na França,
entre os anos de 1879 a 1882, de iniciativas de grupos políticos com vista a reorganizar o movimento
operário francês e de criar um partido socialista. Teve, como dirigente, Malon Benoît e vários colaboradores,
entre eles, PaulLafargue e Jules Guesde. 
7. THIOLLENT, Michel. A Metodologia da Pesquisa-Ação. 12ª.Edição. São Paulo: Cortez, 1997/2003,
p. 108 
8. Carlos Rodrigues Brandão. Repensando a Pesquisa Participante. São Paulo: Brasiliense, 1999,
p. 11. 

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Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

-sindicalizados, compondo um universo O Inquérito (ver Anexo I) é


Notas
amplo e compreensivo. constituído por 4 Capítulos.:
A recolha foi realizada juntamente 1. Caracterização pessoal na profissão
com um termo de livre consentimento • 20 questões não numeradas
esclarecido pelos professores. Os dados • 10 questões numeradas
foram então introduzidos por técnicos dos 2. Exaustão (“síndrome de burnout”)
diversos sindicatos dos professores, e – 22 questões
ficaram disponíveis – aos investigadores 3. Desgaste e indicadores
–, de uma forma totalmente anónima. sociodemográficos – 86 questões
• Amostra global inicial: 18.420 4. Cansaço e mal-estar – 20 questões
respostas Total: 158 questões.
• Público 16.120 (90%); Privado: “O sistema escolar é a rede mais
1.792 (10%) importante do país”.11 Em 2008 havia
• Inquéritos completos: 15.810 2,2 milhões de pessoas matriculadas
(respondendo a todas as em todos os graus de ensino (cerca
questões) de 20% da população residente). Até
• Norte: 6.762 ao início da primeira década do século
• Centro: 3.562 XXI, a educação era, entre as funções
• Grande Lisboa: 3.572 sociais do Estado, a que tinha um peso
• Sul: 1.894 maior: entre 1978 e 2008, esta despesa
• Ilhas: 2.122 teve um aumento de 1,4% para 4,4%
do PIB12. Quase uma década depois,
Os dados são extremamente fiáveis, havia alterações, com o peso da saúde
devido à elevada dimensão da Amostra, e sobretudo da dívida pública a sobrepor-
mesmo descartando-se inquéritos não -se, mas a educação escolar permanecia
totalmente preenchidos. Há margem em termos orçamentais como um dos
de erro muito baixa dos estimadores pilares do Estado Social e do País. As
descritivos – médias (sempre menor despesas do Estado em educação
do que 0,5%). A confiança foi sempre representavam 3,7% do PIB em 2017. Em
de 99% ou superior. Constitui-se num 2017, o número de inscritos no sistema
estimador muito rigoroso, pois coincide escolar mantém-se acima de 2 milhões
à décima com a distribuição por Sexo do (2.015.680). Sem o ensino superior o
Universo que era conhecido em 20169. número de inscritos é 1.653.737). Para
Segue-se agora uma radiografia básica uma população total de 10.325.000
de sua forma de exposição, Universo e havia matriculados 253.956 na educação
Amostra. pré-escolar ou creches, 1.000.006 no
ensino básico ou recorrente e 399.775 no
Docentes10 secundário (no ensino superior 361.943).
• Em exercício em 2016: 145.549 Há um total de 145 mil docentes nos
• Homens: 3.977 (22,2% da três setores abarcados pelo estudo (pré-
amostra) -escolar, básico e secundário). Esta é a
• Mulheres: 13.935 (77,8% da magnitude da importância que o sistema
amostra) educativo tem. Uma verdadeira corrente

9. https://www.pordata.pt/Portugal/Docentes+em+exerc%C3%ADcio+nos+ensinos+pr%C3%A9+es
colar++b%C3%A1sico+e+secund%C3%A1rio+total+e+por+n%C3%ADvel+de+ensino-240. Acesso
em 12 de Junho de 2018. 
10. https://www.pordata.pt/Portugal/Docentes+em+exerc%C3%ADcio+nos+ensinos+pr%C3%A9+e
scolar++b%C3%A1sico+e+secund%C3%A1rio+total+e+por+n%C3%ADvel+de+ensino-240 Acesso
em 12 de Junho de 2018. 
11. Maria João Valente Rosa, Paulo Chitas, Portugal: os Números, Lisboa, FFMS, 2010, p. 29. 
12. Maria João Valente Rosa, Paulo Chitas, Portugal: os Números, Lisboa, FFMS, 2010, p. 27 

12 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


sanguínea do país, que envolve todo o em curso – após nova análise grupal
Notas
conjunto da sociedade. qualitativa, cruzando outras varáveis que
O método estatístico de amostragem resultam do inquérito, e estabelecendo
probabilística é aquele que utiliza alguma análises comparativas, com as outras
forma de seleção aleatória. Para obter- realidades nacionais e internacionais:
se tal método é preciso configurar
procedimentos que garantam que O estudo teve por objetivos aclarar:
as diferentes unidades da população i) Desgaste Profissional: Análise de
estudada tenham probabilidades Índices de Exaustão Emocional,
iguais de serem escolhidas. A técnica Despersonalização e de Diminui-
metodológica probabilística utilizada ção de Realização (MBI).
foi a assim-chamada "amostragem
aleatória simples" (MAS, na sigla em
ii) Perquirição / Explicação dos Vários
ingles), onde todos as unidades que
Antecedentes Sociodemográfi-
compõem o universo, e estão descritas
cos, Profissionais e Psicossociais
no marco amostral, tem probabilidade
de Desgaste Docente (CBP-R).
tendencialmente identica de serem
selecionadas para a amostragem. A iii) Perscrutação / Compreensão dos
equipa técnica liderada pela FENPROF Determinantes Sociais aos Níveis
e a equipa científica coordenada desde a Interpessoal, Familiar, Laboral e
FCSH tiveram aqui o prestimoso auxílio Organizacional (CBP-R).
do Prof. Dr. Henrique Silveira, Docente iv) Stress Laboral, Desgaste Do-
de Matemática no Instituto Superior cente, Desorganização Escolar
Técnico de Lisboa, Vice-Presidente do e Problemática Administrativa e/
Centro Internacional de Matemática e ou Gestão do Trabalho (CBP-R).
Especialista em Sistemas Dinâmicos. v) Indicadores de Exaustão Física,
Este estudo contempla um inquérito Psíquica e Social a nível da Pessoa
que inclui variáveis económicas, sociais, (Burnout Pessoal - CBI - Person-
culturais, demográficas e geográficas. -related-Burnout).
A maioria das variáveis presentes no vi) Indicadores de Exaustão Físi-
inquérito estão por analisar, quer do ponto ca, Psíquica e Social a nível do
de vista quantitativo quer qualitativo. Trabalho (Burnout Laboral - CBI
Portanto, as conclusões avançadas nesta - Work-related-Burnout).
fase do trabalho reportam à análise de
vii) Indicadores de Exaustão Física,
parte das variáveis, colocando hipóteses
Psíquica e Social a nível do Alu-
que resultam do contributo analítico de
nato (Burnout Relacional - CBI
todos os membros da equipa, mas devem
- Client-related-Burnout).
no futuro ser coligidas – num trabalho

Sociodemográficos
Profissionais "Burnout" Pessoais
Carga de trabalho Engajamento Familiares
Bem-estar Organizacionais
Intrapessoais
Exigências/Recursos
Identificação Indicadores Consequentes

Antecedentes

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 13


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Estado da Arte. O que é o burnout? Notas

A esfera pública foi conquistada pela de uma casualidade burnout: o leproso


noção de Burnout enquanto questão que passara já por estágios crónicos de
social. Mas o que é, afinal, o burnout13? automutilação.
O sentido literal da expressão anglo- Entretanto, enquanto Querry se
-saxónica “arder”, “deixar-se queimar” e/ dedica a trabalhar efetivamente para os
ou “incendiar-se” – de fora a fora e/ou leprosos, a sua doença mental – len-
de ponta a ponta – não resulta numa tamente – aproxima-se de uma cura.
tradução consequente – ou sequer útil Além de romancista, Greene foi espião
– numa primeira aproximação ao idioma do MI6 e ambientou os seus escritos
português. No vocabulário corrente da durante a Segunda Guerra Mundial. É
língua inglesa, fala-se em burnout para no mínimo sugestiva, para os objetivos
designar algo que parou de funcionar que agora nos movem, a nota deixada
devido à absoluta falta de energia. A na dedicatória ao médico Michel Lechat:
metáfora implicaria os seres humanos “Um médico não é imune ao ininterrupto
que alcançaram, já, uma zona – limítrofe – desespero relativo a não-fazer-bem”, de
no seu desempenho de nexo psicofísico. alguma forma similar ao que é o “fardo
O primeiro registo escrito da nova que espreita a vida do escritor.”14
expressão idiomática, corrente e de maior Na literatura médica, o termo
difusão, foi, muito provavelmente, através surge pela primeira vez em âmbito de
do romance «A Burnout Case» (1960), maior circulação através de um artigo,
do autor inglês Graham Greene, cuja de Herbert Freudenberger15, em que
narrativa se desenvolve num leprosário refere um processo de adoecimento
nas margens do Rio Congo. Querry, – desde a primeira pessoa do singular –
um famoso arquiteto que está já farto advindo do trabalho voluntário, dedicado
de sua celebridade, não encontra mais ao movimento de clínicas gratuitas
sentido em sua arte ou qualquer prazer voltadas para o tratamento alternativo
na vida. Numa viagem anónima no final de usuários de drogas nos Estados
da década de 1950 para uma Colônia de Unidos da América. O psicólogo social
Leprosos do Congo, mantida por missio- – e orientando do Prof. Doutor Abraham
nários católicos, ele é diagnosticado por Maslow, conhecido pela invenção da
Colin – o médico residente, de plantão, e já afamada Pirâmide de Hierarquia das
ateu – como um “equivalente psíquico” Necessidades16 – desenvolveu então uma

13. Burnout é um phrasal verb sem uma tradução literal em idiomas neolatinos cujo sentido, figurativo,
alude ao que vem a ser uma metáfora, i.e., o queimar-se. Por esta razão, mantém-se, no mais das vezes,
sua expressão original em língua inglesa. Já foi vertido para o idioma português como Síndrome do
Esgotamento Profissional, ou SEP, e, eventualmente, será referido assim ou simplesmente “síndrome de
burnout.”. Um phrasal verb de língua inglesa é justaposição de duas ou mais palavras – de um verbo de
ação, uma partícula, um advérbio ou preposição – que altera o sentido corrente do verbo daí designado,
e converte-o em uma expressão idiomática específica; numa nova unidade semântica. Diferentemente
do que espreitamos em várias tentativas errôneas de tradução selvagem, não é possível apreender-se
o significado da totalidade semântica resultante a partir da decomposição de suas partes. O phrasal
verb é um todo uno, novo e indissociável. Trata-se de um efeito de sentido não-composicional, contra-
intuitivo, e impredizível, à partida. Burn Out é, portanto, um phrasal verb composto de Verbo (Burn) +
Partícula (Out) que, repetimos uma e outra vez, não pode ser transliterado como “queimar-fora”, nem
é o oposto de “queimar-dentro.”. A tradução intercultural é dialética; irredutível às letras.
14. A Burn-Out Case. London: Heinermann, 1960.
15. In: Freudenberger, Herbert. Staff Burn-Out. Journal of Psychological Study of Social Issues, V.30,
Jan./1974, p.159-65.
16. O modelo foi exposto já desde 1943 no paper «A Teoria da Motivação Humana», no periódico

14 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


série de hipóteses diretivas e pesquisas de burnout estende-se hoje para lá do
Notas
exploratórias as quais viriam a confluir setor hospitalar, atingindo executivos de
no atual conceito.17 grandes empresas, e até fora da esfera
Mas é desde a intervenção profissional se ouve falar do burnout dos
da equipa dirigida por Christina alunos e de seus pais. A insistência do
Maslach e associados que se pode tema e a adesão que suscita levam-nos a
referir propriamente o que viria a ser crer que o burnout revela um sofrimento
denominado burnout, tanto do ponto em busca de reconhecimento social.
de vista clínico da entidade nosográfica Porém, em termos clínicos, o
(= a classificação da enfermidade), sucesso galopante dessa entidade
quanto, enfim, o modelo metodológico nosográfica não deixa de constituir
para a sua respetiva aferição. Maslach é um tema de interrogações. Acima
Professora Emérita de Psicologia Social de tudo, porque a mediatização do
na Universidade da Califórnia, campus fenómeno tende a ignorar as questões
de Berkeley, conhecida, sobretudo, pelos de psicopatologia por ele levantadas.
seus estudos acerca da Síndrome do Com efeito, o burnout parece estar a
Esgotamento Profissional – e coautora ganhar visibilidade social em detrimento
do que é o seu Inventário Maslach de do debate clínico sobre a semiologia e a
Burnout (MBI), com os professores etiologia deste distúrbio. Ora, só estas
Michael Leiter e Susan Jackson. dimensões lhe podem conferir unidade
Talvez Greene, Freudenberger e e legitimidade conceitual e clínica.
mesmo Maslach não podessem supor Neste trecho trataremos de
a avalanche, quantitativa e qualitativa, examinar a especificidade do burnout
que se seguiria aos seus respetivos atos enquanto entidade psicopatológica,
de enunciação. Relatórios e dossiês em servindo-nos para tal de uma análise
revistas de grande público, formação do lugar atribuído à fadiga patológica
de associações de profissionais e de nas categorias nosográficas de antanho.
pacientes, estados da arte do burnout, Discutiremos de seguida a ideia,
bem como múltiplos eventos políticos e partilhada por comentadores e analistas,
editoriais. Há pouco tempo, uma petição segunda a qual o burnout representaria
da iniciativa de alguns parlamentares a doença paradigmática da nossa era,
em França, dirigida à sua respetiva um verdadeiro “mal do século”.
Assembleia Nacional, secundou um
projeto de lei18 que visava reconhecer Antecedentes nosográficos e psico-
o burnout como uma nova forma de -patológicos do burnout
adoecimento crónico, com relação As preocupações com os efeitos nocivos
imanente ao mundo do trabalho. da fadiga são uma característica do
Identificada originalmente junto advento da modernidade. Na Europa
dos profissionais de saúde, a síndrome do final do século XIX, o esgotamento

Psychological Review. Maslow subsequentemente estendeu a ideia para incluir observações sobre a
curiosidade inata dos seres humanos. Suas teorias se assemelham às concepções da psicologia do
desenvolvimento humano, algumas das quais também fazem descrever/analisar vários estágios de
desenvolvimento dos seres humanos. Maslow usou termos tais como “fisiológica”, “de segurança”,
“de pertença e amor”, “de autoestima”, “de autorrealização” e “autotranscendência” para descrever
o padrão pelo qual as motivações humanas geralmente se desenvolveriam. O objetivo precípuo do
desenho metódico de Maslow não seria outro senão a obtenção daquilo que se afigura como sexto
nível/fase: a necessidade de autorrealização. Vol50 Ed.4 July 1943 370-396
17. Vide principalmente Freudenberger, H; Richelson, G. Burnout: the high cost of high achievement.
Bantam Books, 1980.
18. «Proposition de Loi de M. Benoit Hamon [N.º 3506] visant a faciliter la reconnaissance du syndrome
de puisement professionnel en tant maladie professionnelle», 2016. http://www.assemblee-nationale.fr/14/
propositions/pion3506.asp

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 15


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

moral derivado das novas formas de relacionado com o esgotamento da


Notas
vida é apontado como uma fonte da quantidade de energia disponível no
decadência da juventude da época por sistema nervoso central. No entanto,
médicos, filantropos e políticos. É dentro Beard insiste igualmente na pressão
dessa tradição de pensamento que a social colocada sobre os americanos
fadiga psíquica ou o esgotamento se de classe média, que considera como
tornaram num objeto de estudo para um fator agravante da neurastenia. Ao
a psicopatologia, isto muito antes da fazê-lo, associa o esgotamento psíquico e
invenção da categoria de burnout. No final físico da neurastenia às novas condições
do século XIX, proliferam as publicações de vida.
sobre a neurastenia, dando a impressão Os primeiros psicanalistas também
de que uma verdadeira praga se espalha se pronunciarão sobre esta “doença da
entre as populações dos principais países moda”, nos termos de Ferenczi20. Num
civilizados. texto tão visionário quanto virulento,
Ferenczi põe em causa a validade desta
A neurastenia nova categoria nosográfica :
A neurastenia torna-se o diagnóstico «Deux explications peuvent rendre
mais comum de doença mental no virar compte de la prolifération du nombre de
do século. Esta condição clínica, que neurasthéniques. La première met en
Beard descreveu como uma “neurose da cause la société actuelle : compétition
vida moderna”19, encontra repercussões effrénée, surmenage professionnel,
consideráveis na sociedade da época. O excès de plaisirs divers, le tout accumulé
autor relaciona o aparecimento desta étant responsable de la nervosité
nova síndrome com as transformações moderne. La seconde explication est
sociais e económicas resultantes da que la neurasthénie existait auparavant
revolução industrial. Segundo Beard, a et que du jour où Beard démontra que les
neurastenia afeta indivíduos em posições symptômes mentionnés constituaient une
de responsabilidade, sujeitos a uma vida entité clinique, on constata l’importance
agitada e num mundo em renovação. O et la fréquence de cette maladie.
quadro clínico da neurastenia destaca Une troisième explication existe, et
um esgotamento físico geral, um c’est à mon avis la véritable, à savoir que
esgotamento mental (com dificuldades la neurasthénie réellement très répandue
de concentração, perturbações da sous-entend une “mode” médicale
memória, indiferença e desinteresse), florissante et que l’on inclut beaucoup
espasmos musculares com mialgia de choses sous cette appellation qui,
e dores de cabeça crónicas, medos normalement, n’en font pas partie»21.
mórbidos, sintomas cardiovasculares Para Ferenczi, a invenção da palavra
e anormalidades da termo-regulação, criou a coisa em si e o aparecimento
distúrbios sexuais (inclusive impotência) do termo “neurastenia” deu origem
e outros sintomas diversos, incluindo a uma inflação diagnóstica indevida.
irritabilidade, dispepsia, náusea, anomalias Nesse aspeto, tanto Ferenczi como
visuais e do equilíbrio. De um ponto de Freud defenderão um rigor taxonómico
vista etiopatogénico, Beard considera a cujo objetivo subjacente parece ser
neurastenia como um distúrbio biológico defender a conceção psicanalítica das

19. Beard, G. M. (1895). La Neurasthénie sexuelle, hygiène, causes, symptômes et traitement, par
Georges Beard,... Traduit de l’anglais sur la 3e édition, par Paul Rodet,... Avec une préface de M.
Raymond. Société d’éditions scientifiques.
20. Ferenczi, S. (1994). De la neurasthénie. In Les écrits de Budapest (pp. 256–263). Paris: EPEL.
Retrieved from http://bsf.spp.asso.fr/index.php?lvl=notice_display&id=91198
21. Ferenczi, S. (1994). De la neurasthénie. In Les écrits de Budapest (pp. 256–263). Paris: EPEL.
Retrieved from http://bsf.spp.asso.fr/index.php?lvl=notice_display&id=91198, p. 256.

16 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


neuroses. Pois, tal como acontecerá profissional tendem a ocupar um papel
Notas
com as neuroses da guerra alguns anos etiológico predominante.
mais tarde22, a neurastenia de Beard
não se enquadra na etiologia sexual e O trabalho e o “cansaço nervoso”
infantil dos distúrbios mentais postulada A transformação das formas de trabalho,
pela psicanálise e, dessa forma, põe o progresso técnico e a extensão da
em causa parte do edifício freudiano. racionalização na década de 1950
Na sua teoria das neuroses, Freud proporcionaram o aparecimento de
acabará por diferenciar neurastenia e novas doenças ocupacionais. Mas deram
histeria, assim como uma nova entidade igualmente aso ao desenvolvimento e à
psicopatológica apelidada “neurose expressão de sintomas inespecíficos,
de angústia”23. Ao invés da histeria, de entre os quais o “cansaço nervoso”.
de origem psicogénica, a neurose de Desde o início a etiopatogenia destes
angústia e a neurastenia têm uma causa distúrbios questionou os médicos,
somática: na neurose de angústia uma nomeadamente porque os sinais de
ausência de descarga da excitação sexual fadiga industrial surgem em setores onde
(coito interrompido) e na neurastenia um a dureza do trabalho e o esforço físico
alívio inadequado da mesma excitação foram consideravelmente reduzidos.
(que Ferenczi relaciona com o onanismo). Além disso, a abordagem puramente
Logo, para os psicanalistas da época, a fisiológica do cansaço, em vigor na época,
sobrecarga de trabalho não representa o começa a apresentar limites, o que torna
fator patogénico central da neurastenia. necessário considerar a hipótese de uma
Trata-se, na melhor das hipóteses, de “origem mental do cansaço”24.
um fator desencadeante da doença, Os trabalhos mais conhecidos sobre
sendo o fator específico as perturbações este tema continuam sendo os de Le
da vida sexual atual (em oposição aos Guillant e seus colaboradores25. O estudo
eventos passados), o que levará Freud a de Jean Bégouin e Louis Le Guillant
classificar a neurastenia, com a neurose sobre a síndrome subjetiva comum
de angústia, entre as neuroses atuais. de cansaço nervoso faz hoje em dia
Porém, o interesse manifestado parte dos clássicos da psicopatologia
pelos psiquiatras do início do século pela do trabalho. O quadro clínico descrito na
neurastenia declinou e esta entidade altura sobre a neurose dos telefonistas
clínica desapareceu gradualmente das e dos mecanógrafos tem vários pontos
principais classificações nosográficas. em comum com o da neurastenia. É
No entanto, as características da dominado por distúrbios funcionais e
neurastenia evocam algumas doenças inclui sintomas psíquicos e somáticos:
contemporâneas, de entre as quais o • impressão de cansaço profundo,
burnout. Esta afeção é comumente “cabeça vazia”, formas de astenia
atribuída ao ritmo intenso da vida moderna física e mental
e às exigências socioprofissionais. Esta • transtornos do humor e de caráter,
ligação entre trabalho e saúde mental em particular emotividade e
foi explicitamente estudada pela irritabilidade
psicopatologia do trabalho, para a qual • exagero das manifestações
os constrangimentos ligados à atividade emocionais e ataques de ansiedade

22. Demaegdt, C. (2015). Traumatisme et travail: un siècle après les névroses de guerre. Champ Psy,
66(2), 81–101.
23. Freud, S. (2010). La première théorie des névroses. Paris: Presses Universitaires de France - PUF.
24. Billiard, I. (2001). Santé mentale et travail : L’émergence de la psychopathologie du travail (2011th
ed.). La Dispute.
25. Guillant, L. L., & Clot, Y. (2006). Le drame humain du travail. Eres.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 17


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

• distúrbios do sono mais ou menos de uma síndrome psicopatológica


Notas
importantes associando os requisitos de um
• distúrbios com expressão somática determinado estilo de vida a um conjunto
(dor de cabeça, vertigem, distúrbios de distúrbios psíquicos correspondentes
digestivos). (tomando na maioria das vezes a forma
de sintomas difusos e genéricos, com
Para Bégoin e Le Guillant, são uma sensação de cansaço no primeiro
os ritmos, as cadências infernais e a plano do quadro clínico). O burnout
velocidade das tarefas que são a causa veio de alguma forma preencher essa
do cansaço dos telefonistas, o que os leva lacuna, fazendo da exaustão uma
a falar de “doença da produtividade”. É, manifestação sintomática relacionada
portanto, a intensificação do trabalho que com as exigências socioprofissionais.
é incriminada e os autores rejeitam desde A primeira descrição da síndrome
logo a hipótese de uma predisposição aparece nos escritos do psicanalista
mórbida. Le Guillant é um defensor da americano Herbert J. Freudenberger, que
sociogénese das doenças mentais, se inspirou da sua própria experiência
opondo-se neste ponto às teses da como cuidador num centro de
psicanálise sobre a psicogénese26. De toxicomania para identificar as causas
acordo com a sua teoria etiológica, afirma e consequências do esgotamento
que as condições materiais e morais do profissional. Freudenberger define o
trabalho são responsáveis pela neurose burnout como “um estado de fadiga
das telefonistas e que a fadiga resulta crónica, depressão e frustração causada
de distúrbios do sistema nervoso central pela devoção a uma causa, um estilo
induzidos pelas exigências de velocidade de vida ou de relacionamento que não
e de rendimento. produz as recompensas esperadas
Os estudos conduzidos e, eventualmente, leva a reduzir o
posteriormente em ergonomia e envolvimento no trabalho“30. De início,
psicopatologia do trabalho sobre a Freudenberger destaca a “pressão” ou
carga mental27, a carga psíquica28 e as “exigência interna” que caracteriza as
patologias de sobrecarga29 herdaram em vítimas de burnout. Estes seriam levados
parte desta tradição de pensamento. à solicitude e ao dom de si mesmo por
uma necessidade pessoal, considerada
Burnout: o destino patológico excessiva e irrealista pelo autor. Nesta
da relação assistencial perspectiva, a descompensação resulta de
Decididamente, da neurastenia à uma incapacidade do sujeito de se conter,
fadiga industrial, a ideia de um cansaço de se autolimitar ou, mais trivialmente,
patológico associando sinais físicos e de “levantar o pé do acelerador”. Esta
psíquicos encontrou sempre um lugar conceção de senso comum encontra-
entre as categorias nosográficas. Porém, -se hoje amplamente difundida entre os
o declínio das entidades clínicas acima profissionais de saúde e em numerosos e
mencionadas levou ao desaparecimento variados locais de trabalho. O burnout é,

26. Bonnafé, L. (1986). Le problème de la psychogénèse des névroses et des psychoses. Desclée de
Brouwer.
27. Theureau, J., & Jourdan, M. (2002). Charge mentale : notion floue et vrai problème. (Premiere
edition). Toulouse: Octarès Editions.
28. Dejours, C. (1980). La charge psychique de travail. In Équilibre ou fatigue par le travail? (pp. 45–54).
Paris: Entreprise Moderne d’Édition.
29. Dejours, C., & Gernet, I. (2012). Psychopathologie du travail. Elsevier Masson.
30. Freudenberger, H. J. (1980). Burnout: The High Cost of High Achievement (First Edition). Garden
City, N.Y.: Anchor.

18 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


neste caso, pensado a partir do modelo estabilizada na literatura. A descrição
Notas
da exigência interna. Refere-se a um semiológica deste distúrbio psíquico
impulso irreprimível ou a uma lógica permanece assim altamente variável
compulsiva facilmente assimilável a uma e, desde logo, discutível. Para mais,
adição (workaholism), do qual seria a alguns dos elementos que aparecem
malograda consequência. por vezes do lado da sintomatologia, são
No entanto, para além da insistência descritos em outros lugares como fatores
sobre os elementos patológicos de causais (trata-se, por exemplo, do caso da
personalidade, a síndrome de burnout hiperatividade, julgada tanto como uma
é também relacionada com as exigências causa como uma consequência desta
específicas das profissões de cuidado patologia), fragilizando assim a fronteira
ou assistência à pessoa. Com efeito, entre semiologia e etiologia do burnout.
julga-se que a própria natureza da Finalmente, com a proliferação
relação de ajuda desempenha um papel de estudos sobre o tema, muitos dos
na génese dos distúrbios: o confronto quais vocacionados unicamente para
reiterado com o sofrimento dos a identificação de fatores de risco,
outros, a impossibilidade de responder encontramos hoje uma infinidade de
satisfatoriamente aos pedidos de ajuda situações, de traços de personalidade,
e os inevitáveis e repetidos fracassos de constrangimentos organizacionais
no tratamento do sofrimento de ou profissionais, de configurações
pacientes ou usuários vulneráveis parece relacionais, etc., na origem do burnout.
decisivo e explica em parte o quadro Ao longo dos anos e das pesquisas, o
sintomatológico do burnout. Noutros número de fatores etiológicos descritos
termos, o cinismo e a desumanização aumentou consideravelmente, levando
da relação, o distanciamento emocional a uma extensão do campo do burnout,
ou a insatisfação profissional poderiam para o qual se torna hoje difícil identificar
considerar-se como manifestações causas específicas.
sintomáticas dos impedimentos do
trabalho de care.31 A Crítica clínica ao burnout
Enquanto a maioria dos defensores De fato, a extensão do campo do burnout
do burnout hoje concorda com a gerou um autêntico fenómeno de inflação
tríade patognomónica proposta por diagnóstica, etiológica e nosográfica,
Christina Maslach et al.32 – composta outrora criticado por Ferenczi a propósito
pelo esgotamento físico e mental, da neurastenia (ver acima). Às etiologias
pela desumanização ou cinismo e pela claramente identificadas do burnout
degradação do sentimento de realização ­– que o considerem ora como uma
pessoal –, o quadro clínico do burnout patologia relacional (ver acima), ora
padece de uma certa plasticidade. como uma patologia de sobrecarga –
Contém distúrbios comportamentais (por foram adicionadas uma legião de outras
exemplo, hiperatividade, restrição das hipóteses, dando origem a uma nebulosa
relações sociais), distúrbios afetivos (por de pouca ajuda para categorizar de
exemplo, indiferença, frieza, cinismo), forma rigorosa os factos clínicos. Pois
perturbações do humor (por exemplo, o uso extensivo do burnout acarreta
tristeza, instabilidade do humor) e uma problemas do ponto de vista prático:
infinidade de outros sintomas para os esvaziada de critérios singulares e
quais é difícil encontrar uma descrição específicos, a noção dificilmente auxilia

31. Molinier, P. (2013). Le travail du care. La Dispute.


32. Maslach, C., & Schaufeli, W. B. (1993). Historical and conceptual development of burnout. In T.
Marek (Ed.), Professional burnout: Recent developments in theory and research. (Taylor & Francis, pp.
1–16). Philadelphia.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 19


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

a interpretação clínica ou a condução “A neurastenia, o burnout e a


Notas
da terapia. Basta observarmos que o síndrome de fadiga crónica tornaram-
campo temático do burnout se estende -se assim alternativamente “doenças
hoje do esgotamento do profissional do século” e conheceram, ou
de cuidados paliativos, à sobrecarga de experimentarão, um a um, um declínio
trabalho em meio empresarial, passando quando a sua inflação e a sua diluição
pela exaustão materna ou dos estudantes não permitirem que continue a funcionar
universitários, para percebermos que, como uma categoria significativa para
pretendendo abarcar situações de tal médicos e pacientes“.35
forma heterogêneas, o conceito perdeu O autor observa ainda: “Terão
unidade. Em vez de contribuir para uma percebido que tanto o burnout como
melhor compreensão da clínica, o uso a síndrome dos yuppies (SFC) são
alargado do conceito de burnout perde síndromes que agrupam sintomas
assim o interesse para todos aqueles nada ou pouco específicos. Isso explica
que poderiam servir-se dele na sua parcialmente o seu sucesso, cada
prática. Ao tentar abranger, sob um individuo tendo sentido pelo menos
único estandarte, distúrbios e etiologias uma vez na sua vida os sintomas de
díspares, o burnout acabará por perder uma gripe interminável ou um cansaço
todo e qualquer poder de discernimento. exasperado relacionado com o seu
E sua extensão abusiva poderá até trabalho e, portanto, podendo facilmente
engolfar a esfera do cansaço normal, reconhecer-se nesta nebulosa difusa.”36
contribuindo assim para uma censurável Talvez os maiores defensores na
medicalização da normalidade. atualidade da necessidade de “preencher
a lacuna” categorial (não necessariamente
Uma “doença de época”? nosográfica) para algo próximo deste mal
De acordo com alguns comentadores, o de época no sentido supra-assinalado
burnout representaria para o século XXI sejam penas como as de Pietro Basso37,
o que a neurose freudiana representou Jonathan Crary38 ou Byung Chul Han39,
na Viena no final do século XIX: uma sobre horas de trabalho, sono e cansaço.
“doença de época” e um sintoma da Segundo o autor coreano-alemão
desregulação dos tempos modernos. Esta Byung Chul Han, cada época histórica
interpretação pretende fazer do burnout possuiria as suas enfermidades
um distúrbio psíquico representativo de fundamentais. Dessa forma, ter-se-ia
uma sociedade globalizada33, acelerada34 e toda uma era bacteriológica, por exemplo,
concorrencial. Nesta perspectiva, a mera que chegara ao fim com a descoberta dos
categoria nosográfica transforma-se num antibióticos. Apesar do temor imenso que
diagnóstico social e histórico. se tem hoje de uma suposta pandemia
No entanto, diante do exposto gripal global, não viveríamos mais nem
anteriormente, estamos mais inclinados de longe os ultrapassados tempos virais.
a concordar com Pascal Cathébras, que Graças à técnica imunitária, ter-se-iam
já em 1991 avançava: deixado para trás esses tempos e,

33. Chabot, P. (2013). Global burn-out (1st ed.). Presses Universitaires de France.
34. Rosa, H. (2014). Aliénation et accélération. (T. Chaumont, Trans.). Paris: La Découverte.
35. Cathébras, P. (1991). Du “burn out” au “syndrome des yuppies”: deux avatars modernes de la
fatigue. Sciences Sociales et Santé, IX(3), 65–94.
36. Cathébras, P. (1991). Du “burn out” au “syndrome des yuppies”: deux avatars modernes de la
fatigue. Sciences Sociales et Santé, IX(3), p. 78.
37. Pietro Basso. Ancient Hours, Modern Times. London, Verso, 2005.
38. Jonathan Crary. 24/7: late capitalism and the ends of sleep. Verso: London, 2013.
39. Byung-Chul Han. A Sociedade do Cansaço, Relógio D’Água Editores, 2014.

20 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


visto a partir da perspectiva patológica, previsível. O burnout está hoje em dia
Notas
o começo do século XXI não seria tão dissolvido no magma dos riscos
designado bacteriológico nem viral, psicossociais, que em breve não mais
mas, sobretudo, neuronal. “Doenças poderá servir como um instrumento para
neuronais tais como as do transtorno a ação. Tal como o sapo na fábula de La
de deficit de atenção – a síndrome de Fontaine, de tanto inchar, o burnout está
hiperatividade (Tdah) –, do transtorno certamente prestes a explodir.
de personalidade-limítrofe (TPL) ou da Para evitar tal desfecho, algo
síndrome de burnout, determinam a dramático, urge a reinvenção dum
paisagem patológica do início do século.” efeito de estranhamento épico com,
Não seriam as infeções, mas os enfartos, pelo menos, três reescritas simultâneas:
provocados não pelos negativos de algo (i) a intensificação e a sobrecarga de
imunitariamente diverso, mas sim por trabalho – i.e, a desmesura do capital
excesso de positivos. “Assim escapa à e seus efeitos patogénicos sobre a
técnica imunitária” que deve afastar os saúde do trabalho – devem voltar ao
negativos do corpus estranho.40 Será, centro da cena e reemergir como, ao
quiçá a maior defesa contemporânea fim e ao cabo, determinantes sociais
desta perspetiva. da descompensação psíquica; (ii) a
Mas é verdade que, se nos aposta estratégica na ideia força de uma
detivermos na semiologia, dificilmente etiologia dialética, com a vanguarda do
veremos como sustentar a tese da palco ocupada pelo encontro conflituoso
modernidade do burnout, pois o entre funções psíquicas e dinâmica social,
quadro clínico do burnout não parece na melhor tradição de análise da história
ser substancialmente diferente do de das ideias críticas e reflexivas sobre
categorias nosográficas mais antigas (ver pontos de contacto entre perturbações
acima). A novidade desta entidade clínica do indivíduo e questões da sociedade,
poderia ter residido, no entanto, na sua como nexo de unidade e diversidade
etiologia singular, na medida em que o ineliminável da análise psicossocial e (iii)
burnout reintroduziu em psicopatologia uma crítica metodológica radicalmente
a ideia de uma etiologia mista, dando antipositivista dos modelos de análise
um lugar central ao confronto entre e interpretação de alguma forma e em
funcionamento psíquico e funcionamento alguma medida herdeiros do legado
social. Mas isso durou apenas um da, assim-chamada, psicometria,
tempo, durante o qual a intensificação mesmo e quando sejam utilizados, e
e a sobrecarga de trabalho foram tidos sobretudo quando sejam utilizados,
como elementos determinantes da de forma absolutamente desapiedada
descompensação psíquica. Atualmente, com os pressupostos antidialéticos
a organização do trabalho ocupa pouco que encarnam as suas concepções de
mais do que um lugar secundário, inserido homem, de mundo e conhecimento. Para
num vasto conjunto de teses etiológicas além de conceptualizações nosológicas
que inclui indistintamente os conflitos ou semióticas, não obstante as categorias
de funções, os traços de personalidade, de alienação, estranhamento e reificação,
a complexidade ou a má definição das a nosso ver, são cânones de interpretação
tarefas, os estilos de gestão, etc. Já lá insubstituíveis do labor humano.
vai o tempo em que o diagnóstico de O vocabulário filosófico deverá ser
burnout ainda incriminava a exploração no devidamente justificado mais à frente.
trabalho e os seus efeitos patogénicos. Por ora, aclaramos que incorporar as
Atualmente, o termo parece estar a críticas clínicas às noções de neurastenia,
afundar-se no seu sucesso mediático, que fadiga e burnout, sem embargo, não
indica, aliás, o começo do seu declínio é o mesmo que despejar a criança

40. Byung-Chul Han. A Sociedade do Cansaço, Relógio D’Água Editores, 2014, pp.7-8.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 21


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

juntamente com a água do banho. A plantel, ofertados para a sua respetiva


Notas
proposta que apresentamos é complexa, satisfação.
é pouco usual e, sobretudo, é arriscada. Seja na relação médico-paciente,
Trata-se de um velho conceito da filosofia professor-aluno e/ou outras, o que se
alemã clássica: Aufhebung – como assemelha a um padrão recorrente é a
esclarece M. Löwy41–, mas trata-se interação ativa em situações-problema e
simultaneamente de um movimento situações-limite – seja no sentido social,
do que é a conservação, a negação e a físico e/ou psicológico – que envolvem
transcendência. A busca é a superação processos de crise e de crítica nos
dialética da noção de burnout. quais são extensa e profundamente
confrontados com os sentimentos de
Crítica metódica42 ao burnout raiva/ódio, vergonha, medo ou desespero.
Se é verdade que foi Freudenberger que Justamente por não dispor de soluções
primeiro arrolou a observação de que e saídas óbvias, inequívocas e/ou de fácil
muitos colegas com quem trabalhava obtenção, o próprio processo de trabalho
apresentavam um processo gradual de envolve demandas ambíguas, frustrantes.
desgaste em seu humor, desalento e As pessoas que trabalham já em contacto
desmotivação – conjuntamente com constante com indivíduos nestas
uma série de sintomas físicos, como condições lidam com um stress crónico
resfriados frequentes, dores de cabeça e exaustivo e a constante necessidade
e distúrbios gastrointestinais, geralmente de natureza sócio-ocupacional para
durante um ano –, o insight foi seguido desenvolver táticas de coping /contenção.
pela equipa Maslach. Foi aí que se Tratar-se-ia, portanto, de algo
generalizaram inventários anamnéticos tal como uma síndrome, de cariz
para processos de trabalho a envolver psicossocial, de exaustão emocional,
labor em educação, saúde e ocupações despersonalização e uma redução de
socioprofissionais de relação social com realização pessoal / profissional, cujos
seres humanos e construir um primeiro aspetos mais essenciais se referem a
instrumento de aferição, mensuração e um crescente sentido de esgotamento,
análise da SEP. De acordo com Maslach com a exaustão de recursos emocionais
e Jackson (op. cit), a síndrome foi então e a sensação de que não se é capaz de
vista tal qual um estado geral de exaustão mais ou maior envolvimento psíquico.
físico-emocional-mental, causado este As demais tendências aqui citadas
pelo seu engajamento – intenso e – despersonalização/cinismo e baixa
duradouro – em situações de alta/elevada autoestima ou realização pessoal –
exigência cognitivo-afetiva, desde o local carecem de explicação / compreensão de
de trabalho, sobretudo no trabalho em fina percepção e generalização intelectiva
contacto direto a envolver pessoas. Tais para processos sociais gerais.
exigências são, geralmente, causadas O desenvolvimento daquilo que
pela combinação de expetativas muito Maslach et. al. irá chamar ato contínuo
elevadas ou de stress situacional crónico. “despersonalização” – negativismo,
Instala-se a partir de vivências de stress atitude cínica e sentimentos contraditórios
laboral, quando um indivíduo se confronta face ao público atendido –, qual seja
com uma defasagem relativa entre uma perceção desapiedada e mesmo
expetativas e/ou motivações pessoais desumanizada, pode levar o pessoal a
e profissionais e os recursos, e/ou o enxergar o seu público de algum modo

41. Michael Lowy. As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchausen. São Paulo: BuscaVida, 1987
42. Close-reading Uma das premissas mais básicas da fidelidade à letra do texto no contextualismo
linguístico de fala inglesa é que os autores possam reconhecer-se naquilo que os demais dizem que
eles disseram, os motivos e intenções. Trata-se da técnica de trabalho de leitura cerrada cujo principal
propósito é levar a sério as ideias de outrem, inclusive para, se for o caso, discordar, delas.

22 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


merecedor da perturbação que o aflige. inclusivamente exaustão física, insônia,
Notas
A ocorrência e às vezes predominância acréscimo do uso de drogas e álcool
de tal atitude negativa em relação — ademais dos frequentes problemas
ao público neste sentido tem farta maritais, familiares e interpessoais vários.
documentação43 entre tais setores44. A O padrão consistente e generalizado
génese da "despersonalização" não pode das descobertas realizadas que
ser dissociada da exaustão emocional. Já emergiram do conjunto de pesquisas
o terceiro fator, “redução de realização”, levou ao advento de algo como uma
e tendência a se autoperceber de forma síndrome – ou grupo de sintomas (que,
negativa, sobretudo face aos serviços consistentemente, ocorrem juntos e/ou
que se prestam a outrem, completa um uma condição caracterizada por conjunção
quadro geral em que os trabalhadores se de sintomas associados, enfim, uma
sentem visível e densamente infelizes combinação, bastante característica, de
sobre aquilo que representam para si opiniões, emoções e/ou comportamentos)
mesmos e plenamente insatisfeitos com –, a qual veio a ser denominada como o
a sua vida laboral. As consequências “Burnut Ocupacional” e seu respetivo
mais gerais são perturbadoras e instrumento de aferição. O modelo MBI
potencialmente graves para aquilo que contém três subescalas, com diferentes
conforma o mundo dos trabalhadores, as variáveis de autopercepção. Os 22 itens
instituições mais amplas no interior das característicos, voltados para os vários
quais interagem, bem como os sistemas utentes e/ou alunos, são escritos como
de saúde coletiva, educação pública e declarações hipotéticas (de um colega
segurança social que conformam o Estado imaginário) sobre sentimentos ou
social. As iniciativas de pesquisa que atitudes e respondidos em termos de
deram lugar a tal conceito partiram das frequência e acuidade com que estes
premissas já avançadas por entrevistas, são experimentados no cotidiano laboral
inquéritos, observações de campo e – em escala-Likert – de 0 (Nunca), a 7
pesquisa participada em áreas de atenção (Sempre).46
médica, serviço social, saúde mental, De acordo com os seus
justiça estatal e educação pública, entre pressupostos teórico-metodológicos
outras áreas45. implicados espera-se uma ligeira
As descobertas e conclusões que correlação entre os fatores de primeira
se obtiveram então levam a crer que e segunda ordem, que são distintos
há deterioração e declínio na qualidade mas algo relacionados. Já a realização
social dos serviços e cuidados prestados pessoal não pode ser assumida como
ao público pelo pessoal, assim como o contrário da exaustão emocional, por
rotatividade laboral, absenteísmo aos exemplo. O questionário consiste em três
locais, baixa de fibra moral e corrosão partes independentes, que levam cerca
do caráter em geral. Além disso parece de 15-20 minutos para se responder.
correlacionar-se aos variados índices Para assegurar um ambiente propício,
autodeclarados de disfunções pessoais, devem ser garantidas condições claras

43. Ryan. W. (1971). Blaming the Victim. Pantheon Books. New York.
44. Wills. T. A. (1978). ‘Perceptions of clients by professional helpers’. Psychological Bulletin, 85. 968-1000.
45. Christina Maslach, Susan Jackson and Michael Leiter. Maslach Burnout Inventory Manual. 4th Edition
Reviewed [1996–2016]. UCLA / Mind Garden Publishers, Menlo Park, California, 2016.
46. A escala leva o nome do seu inventor, o psicólogo Rensis Likert. Likert distingue entre uma escala
propriamente dita, que emerge das respostas coletivas a um conjunto de itens (geralmente oito ou
mais), e o formato no qual as respostas são pontuadas ao longo de um intervalo. Tecnicamente falando,
uma escala-Likert se refere apenas ao primeiro. A diferença entre esses dois conceitos tem a ver com
a distinção que Likert fez entre o fenômeno subjacente que está sendo investigado e os meios de
capturar a variação que aponta para tal.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 23


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

de privacidade, confidencialidade (e reformulações, críticas e autocríticas


Notas
até mesmo de anonimato). Não se nos últimos cinquenta anos48.
recomendava a menção ao termo burnout Uma das observações críticas mais
– pelo menos inicialmente, nos anos pungentes que se pode endereçar a
70 e 80, quando era possível – para todo o processo-MBI à escala de longa
evitar prenoções e juízos de valor nas duração é a sua constituição em uma
respostas. Mais e maiores informações espécie de quasi-monopólio científico
quantitativas sobre viés fatorial, rotação sobre o escopo global das investigações
ortogonal, fiabilidade/fidedignidade alfa a respeito da síndrome que veio a
(«coeficiente-Cronbach»), erro padrão, nomear/patentear.
curva desvio, validação discriminatória, De alguma forma, e em alguma
bem como pressupostos, premissas e medida, estabeleceu-se um processo de
objetivos principais e secundários de autoafirmação, cuja resultante é algo como
análise multifatorial combinada, podem uma tautologia circular, autovalidatória:
ser encontradas no Manual do MBI, em pela extensão e profundidade da difusão,
sua já 4.ª Edição.47 Foram desenvolvidas hegemónicas, do MBI pode-se dizer que
variações – MBI-Educação + MBI-Geral o que o mundo veio a conhecer como
– e várias traduções e contextualizações Burnout é aquilo que o MBI estabelece,
para – além dos Estados Unidos, e mutatis mutandis, o MBI é aquilo que
Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia – designa o que Burnout vem a ser. É aqui
os idiomas francês, alemão, neerlandês, que se paga um maior preço pelo que
português, espanhol, italiano, polaco, se constitui como o encapsulamento
sueco, finlandês, hebraico, japonês – da ciência – e da saúde – na forma-
com requisição formal à sua equipa. São mercadoria49 liberal.
limitações presumidas a inabilidade de O MBI foi aplicado em mais de
mensurar pequenas flutuações, dentro 90% de todos os estudos realizados a
das escalas multifatoriais, e não permitir nível mundial50 sobre disforia laboral.51
sintomatologia ou diagnose médica Para o bem e para o mal constitui-se na
clínica individual, por não apresentar generalização ou universalização de certa
sólidas bases sobre as quais se possa concepção sobre o homem, o mundo,
já identificar padrões disfuncionais e a vida e o próprio conhecimento a seu
quantificação-limite, preservando cariz de respeito. Desde a sua pré-formulação
conscientização. Parece ser o primeiro original, até à semi-omnipresença global
“momento-de-recuo”; os formuladores o MBI, que não deixa de ser protoforma
da conceptualização admitem que se fundacional vital de todo um complexo
trata de uma questão social. categorial, debateu-se com várias críticas,
É interessante constatar que revisões, objeções e mudanças que
a produção intelectual da equipa são hoje inextrincável porção da própria
responsável pelo MBI não cessou concepção do que veio a considerar-se
de produzir materiais, análises, um desgaste “socioprofissional.”

47. Christina Maslach, Susan Jackson and Michael Leiter. Maslach Burnout Inventory Manual. 4th
Edition Reviewed [1996–2016]. UCLA / Mind Garden Publishers, Menlo Park, California, 2016. Trata-se
da mais recente revisão editorial.
48. O rol, toda farta documentação pode ser conferida através da página do portal Research Gate
(C.Maslasch).
49. A propriedade intelectual, sob alegação de proteger direitos de autoria, impede os avanços da
humanidade.
50. SCHAUFELI, W. B.; ENZMANN, D. The burnout companion to study and practice: a critical analysis.
London: Taylor and Francis, 1998.
51. KRISTENSEN, T. S. et al. The Copenhagen burnout inventory: a new tool for the assessment of
burnout. Work & Stress, v. 19, n. 3, p. 192-207, 2005.

24 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Num de seus mais recentes originalmente dita “redução de realização”,
Notas
recenseamentos críticos, Maslash aborda e também foi descrita como a capacidade
a estrutura triádica num significativo ou produtividade reduzida, baixa moral e
deslizamento de sentido daquele incapacidade de “fazer frente.”
com que se iniciou a sua pesquisa: a) O MBI consolidou-se como
“overwhelming exhaustion”, b) “feeling aquilo que veio a ser um programa
of cynicism”/“detachment from the job” compreensivo de pesquisa psicométrica.
e c) “sense of ineffectiveness”/“lack of A partir de assumpções diversas, sobre
accomplishment.”52. Ora, é evidente que tal experiência, criaram-se outros
as novas escolhas de léxico são mais do modelos. O Inventário de Burnout de
que novos arranjos formais. A autora é Bergen (BBI)53 avalia a tripla conformação
quem explica como os novos termos – do desgaste: exaustão laboral, graus de
a) exaustão esmagadora, b) sentimento cinismo – face ao sentido do trabalho – e
de cinismo/distanciamento do labor e c) a sensação de inadequação empregatícia.
sensação de ineficácia/falta de realização O Inventário de Burnout de Oldenburg
– são constituídos, e constituintes, duma (OLBI)54 avalia duas dimensões, de
série de determinações. exaustão e de desligamento do trabalho.
A pesquisa de teor mais qualitativo Outras ferramentas concentrar-se-ão
e compreensiva, que antecedeu a criação tão-só na exaustão, embora diferenciem
das pesquisas quantitativa e explicativa, vários aspetos da mesma; o inquérito da
teve como o seu primeiro background Medida de Esgotamento de Melamina de
a premissa da psicologia social, algo Shirom (SMBM)55 distingue entre fadiga
centrada em relações interpessoais, física, exaustão emocional, e o cansaço
por um lado, e o carácter motivacional cognitivo para designar-se ao tal fator.
e emotivo, por outro. Os Inventário de Burnout de
A segunda onda de pesquisa Copenhagen (CBI), o Cuestionario para
foi lastreada pela psicologia mais la Evaluación del Síndrome de Quemarse-
organizacional, tendo como um foco por-el-Trabajo (CESQT)56 e o Cuestionario
o comportamento e a orientação-para- de Burnout del Profesorado – Revisado
o-trabalho. A tríade da experiência de (CBP-R), outrossim, são de especial
burnout foi então entendida como interesse para nós. O CBI, por exemplo,
exaustão, perda de energia, depleção, parte do pressuposto da distinção e
debilitação e fadiga. A dimensão do identificação entre o que vem a ser
cinismo (pejorativo) foi originalmente fadiga física e o desgaste emocional,
chamada de “despersonalização” (dada o possibilitando a sua mensuração e a
particular, de lidar com seres humanos), sua correlação. Já o CESQT acrescentou
mas também foi já descrita como atitudes novas dimensões à concetualização da
inadequadas, ou negativas, em relação a síndrome aludida como entusiasmo para
utentes, irritabilidade, perda dos ideais e com o trabalho, esgotamento psíquico,
defecção. A dimensão de ineficácia era indolência e a culpa. O CBP-R, por

52. Maslasch, op. cit, 2016, p.321


53. Feldt, Taru & Rantanen, Johanna & Hyvönen, Katriina & Mäkikangas, Anne & Huhtala, Mari & Pihlajasaari,
Pia & Kinnunen, Ulla. (2014). The 9-item Bergen Burnout Inventory: Factorial Validity Across Organizations
and Measurements of Longitudinal Data. Industrial Health. 52. 102-112. 10.2486/indhealth.2013-0059.
54. Demerouti, Evangelia & Bakker, Arnold. (2008). The Oldenburg Burnout Inventory: A good alternative
to measure burnout and engagement. Handbook of Stress and Burnout in Health Care.
55. Markus GerberEmail authorView ORCID ID profile, Flora Colledge, Manuel Mücke, René Schilling,
Serge Brand and Sebastian Ludyga. Psychometric properties of the Shirom-Melamed Burnout Measure
(SMBM) among adolescents: results from three cross-sectional studies. BMC Psychiatry201818:266
56. Pedro Gil-Monte. CESQT. Cuestionario para la Evaluación del Síndrome de Quemarse por el Trabajo.
Manual. Jun 2011.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 25


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

sua vez, tratou de se orientar para o contida na versão canónica desenvolveu-


Notas
mundo do trabalho docente e, ainda, -se a noção de que o stress laboral daria
logrou já dimensionar o stress laboral, lugar a desencadeamentos subsequentes
burnout em si, desorganização e tais como estressores do trabalho,
problemática administrativa. Tratando- com desequilíbrio entre exigências e
-se de um instrumento já voltado para recursos hábeis, tensão individual, como
a coleta de dados referentes a fontes resposta psíquica à exaustão e ansiedade,
próprias, da organização administrativa e e contrabalanço emocional, como o
contexto laboral no qual os professores incremento de cinismo como uma defesa
desempenham, constituindo uma forma mental. Demandas-Recursos Laborais
complementar para visão mais exaustiva (JDR)58 e Conservação de Recursos (CR)59
e global já denotando importância de são modelos derivados de tal assumção.
determinadas variáveis sociodemográficas O primeiro concentra-se na noção
(idade/sexo/relações pessoais/número de de que o burnout surge quando os
filhos/nível de ensino/situação laboral) indivíduos experimentam demandas de
na sua explicação, e antecipação, de trabalho algo incessantes e têm recursos
determinantes socioambientais. Em inadequados. Já o segundo segue a
conjunto tais instrumentos podem teoria motivacional básica, presumindo
combinar uma série de incrementos ao que o mesmo surge como resultado de
MBI – transformando-o. ameaças persistentes. A perda iminente
No Séc. XXI a pesquisa voltou pode agravar o quadro. Tanto JDR quanto
à designação do oposto ao burnout, CR são modelos teórico-concetuais para
referindo-se ao que seria o engajamento. teorias do desenvolvimento de burnout
Enquanto para alguns se trata da validados pela experimentação empírica
diametral oposição aos itens citados – nos últimos 10 anos.
alta energia, forte envolvimento e sentido O modelo complementar é o de
de eficácia, isto é, os scores antitéticos Áreas de Vida Laboral (AWL),60 que
do MBI –, valendo a escala anterior, em enquadra os estressores do trabalho em
uma espécie de jogo de soma zero, termos de desequilíbrios pessoa-trabalho,
para outros seria preciso toda uma nova ou incompatibilidades, além de identificar
escala. Nesta nova visão o que vem a 6 áreas em que esses desequilíbrios
ser o engajamento laboral constituiria um ocorrem: carga de trabalho, controle,
novo conceito, independente e díspar, i.e., recompensa, comunidade, justiça e
índices de vigor, dedicação e absorção, remissão a valores. Essas áreas afetam o
de forma coetânea e coextensiva, num nível de esgotamento experimentado de
novo modelo descrito tal qual Escala um indivíduo que, por sua vez, determina
de Engajamento Laboral de Utrecht vários resultados, como desempenho
(UWES).57 Diversos modelos concetuais no trabalho, comportamentos sociais
tiveram origem nessas pesquisas. Para e bem-estar pessoal. Quanto maior é
além da noção gradual e por etapas a incompatibilidade entre a pessoa e

57. Helena Teles (et. al.) Adaptação e Validação da Utrecht Work Engagement Scale (UWES) aplicada a
Assistentes Sociais em Portugal. Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social 2017
Vol. 3 (2): 10-20.
58. Wilmar B. Schaufeli and Toon W. Taris. A Critical Review of the Job Demands-Resources Model:
Implications for Improving Work and Health. In: G.F. Bauer and O. Hämmig, Bridging Occupational,
Organizational and Public Health: 43 A Transdisciplinary Approach. Springer Science+Business Media
Dordrecht 2014.
59. Halbesleben, J. R. B. (2006). Sources of social support and burnout: A meta-analytic test of the
conservation of resources model. Journal of Applied Psychology, 91(5), 1134-1145.
60. B. Masluk et. al. “Areas of Worklife scale” (AWS) short version (Spanish): a confirmatory factor
analysis based on a secondary school teacher sample. Journal of Occupational Medicine and Toxicology.
201813:20.

26 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


o trabalho, maior a probabilidade de ortodoxa de stresse, e, portanto, é mais
Notas
problemas e, inversamente, quanto preditivo do resultado de saúde com ele
maior o equilíbrio alcançado, maior a relacionado. Exaustão é tipicamente
probabilidade de envolvimento positivo. correlacionada com sintomas típicos,
Um suporte empírico inicial para tal padrão como dores de cabeça, fadiga crónica,
(AWL) foi fornecido tanto por pesquisas distúrbios gastrointestinais, tensões
de viés transversal como longitudinal para musculares, hipertensão, resfriados/
embasar as suas premissas. episódios de gripe e distúrbios variados
A maioria das pesquisas sobre do sono. Os correlatos fisiológicos
o desgaste envolveu delineamentos espelham aqueles encontrados já em
transversais ou estudos utilizando outros índices de stress. Descobertas
modelos causais. Esse banco de dados, paralelas foram já encontradas para a
correlacional, forneceu suporte para relação, já estabelecida, entre os índices
muitos dos links hipotéticos entre o de esgotamento profissional e o de abuso
burnout e suas causas e efeitos, mas das substâncias.61
foi já incapaz de resolver a causalidade Para maior informação sobre o
presumida dessas mesmas ligações. O estado da arte do cotejo entre pesquisas
recente aumento de estudos longitudinais nas áreas de saúde mental/burnout
começa a oferecer uma oportunidade laboral sugerimos a leitura atenta de
melhor para testar hipóteses, mas Maslasch. Quando o burnout foi proposto
inferências causais mais fortes também – pela primeira vez, em meados dos
exigirão desenhos metodológicos mais anos 70, no século XX – houve debate
apropriados, que são frequentemente sobre se seria ou não um diferente
difíceis de se implementar nas fenómeno.62 Adscrições limítrofes seriam
configurações aplicadas. insatisfação no trabalho, anomia, stresse
Outra grande dificuldade é que laboral, ansiedade, raiva, depressão ou
os dados autopercebidos carecem alguma combinação mais específica. Por
de um cotejo objetivo de análise exemplo, numa perspectiva psicanalítica,
comportamental e de saúde. Fatores argumentava-se que, quiçá, o burnout
de risco organizacional percebidos não seria distinguível de qualquer stresse
foram os seguintes: carga de trabalho laboral ou depressão, mas decorria
e sobretrabalho, autocontrole dos do falhanço de se alcançar satisfação
trabalhadores sobre o próprio labor, o narcísica na busca de ideais de si. Como
reconhecimento, a comunidade real, a resultado dessas críticas, a pesquisa
justiça e, em suma, a remissão a valores. subsequente, muitas vezes focada
O burnout tem um padrão complexo em testes de validade discriminante
de relação com a saúde, em que a do burnout, avaliando se ele poderia
saúde fraca contribui para o burnout, e ser distinguido desses vários outros
o burnout aduz saúde precária. Das três fenómenos, teve resultados em muitos
dimensões de burnout, o esgotamento estudos a revelar que o burnout é –
é o mais próximo de uma variável em verdade – um constructo social

61. Em estudo longitudinal fabril de 10 anos descobriu-se que a medição de burnout pode antever
admissões hospitalares subsequentes a problemas cardiovasculares. Outra pesquisa descobriu que o
aumento de 1 ponto no score de burnout pode ser relacionado com um aumento de 1,4 no risco de
internamento por problemas de saúde mental, tal como um aumento de 1 ponto no risco de internamento
por problemas cardiovasculares. Outros estudos forneceram exame detalhado do link entre o burnout e
as doenças cardiovasculares, observando o papel da reatividade-C altamente sensível a concentrações
de proteína e fibriogénio. Todas as correlações encontram-se em estado probatório e teste entre burnout
e saúde. Tanner S, Ahola et al. Burnout predicts hospitalization for mental and cardiovascular disorder.
Stress Health 2009;25:287-96. Toker S, Shirom et al. The association between burnout, depression,
anxiety, and inflammation biomarkers. J Occupat Health Psychol 2005;10:344-62. Bressi C, Porcellana
et al Burnout among psychiat in Milan Psy Serv 2009; p. 985-988.
62. Maslach C, Jackson SE. The measurement of experienced burnout. J Occupat Behav 1981;2:99-113.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 27


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

distintivo.63 Grande parte dessa discussão ou, simplesmente, síndrome de burnout,


Notas
concentrou-se no que seria a depressão, é constituída por (pelo menos) três
levantando, assim, a questão de saber se componentes:
o burnout é um precipitante de depressão,
e, portanto, um preditor para isso, ou a) Exaustão | Carateriza-se por uma
se o burnout seria já a mesma coisa falta de energia e um sentimento de
que a depressão: em si e para si, uma esgotamento de recursos. A maior
doença mental. As sucessivas pesquisas causa de exaustão no trabalho é
dos autores citados buscam demonstrar, a sobrecarga e o conflito pessoal
por fim, que os dois constructos são nas relações. Seria um desgaste de
realmente distintos: burnout é relacionado vínculo afetivo (rapport) na relação
ao trabalho, em específico, ao contrário indivíduo-trabalho. A exaustão
da depressão, que é mais geral e “sem- emocional está ligada à falta de
contexto”, em particular. recursos emocionais, ao sentimento
Por muitos anos, burnout foi de que não se é útil aos outros, e que
reconhecido como um fator de risco não se tem nada para lhes oferecer.
para várias profissões, envolvendo seres É um componente que pode ter
humanos, orientadas-para-as-pessoas, manifestações, quer físicas, quer
como serviço social, saúde e educação, psíquicas, ou ambas. O receio e o
como já referimos. Os processos temor de voltar ao trabalho no dia
terapêuticos, ou de ensino-aprendizagem, seguinte é um dos sintomas mais
que este pessoal desenvolve com o seu comuns relatados.
público exige um nível contínuo e intenso
de atenção pessoal e emocional. Embora b) Despersonalização | Carateriza-se
tais relacionamentos possam também por tratar os indivíduos, colegas,
ser recompensadores e/ou envolventes, e a instituição, como objetos. A
eles podem ser já bastante stressantes. despersonalização ocorre quando
Dentro de tais ocupações, as normas o vínculo afetivo é substituído
predominantes devem ser altruístas e por um racional. É um estado
colocar as necessidades dos outros em psíquico em que prevalece o
primeiro lugar: trabalhar longas horas cinismo ou a dissimulação afetiva,
e fazer o que é preciso para ajudar um a crítica exacerbada de tudo e de
utente ou paciente ou aluno; percorrer todos os demais e dos millieaux
quilómetros-extra e “dar tudo de si”.Além laborais. A despersonalização é o
disso, os ambientes organizacionais – desenvolvimento de sentimentos
para estes trabalhos – são moldados por negativos, de atitudes e condutas
vários determinantes sociais, políticos de cinismo frente às pessoas com
e económicos (como programas de quem se trabalha. Estas pessoas
austeridade e/ou restrições de políticas) são vistas pelos profissionais
que resultam em configurações de trabalho de maneira desumana devido a
que são altas em exigências e baixas em um endurecimento afetivo. Os
recursos. Recentemente, como outros sintomas comuns nessa fase
ofícios se tornaram mais orientados para são ansiedade, irritabilidade,
os atendimentos high- -touch ao público, desmotivação, descompromisso
isto tornou o burnout uma questão social (com resultados), alienação, e
relevante para esses trabalhos também. conduta voltada a si mesmo.
Recapitulando-se, Maslach e
Jackson (1981) afirmam que a dita c) Desrrealização | Esta é caraterizada
Síndrome do Esgotamento Profissional como uma forma de se autoavaliar

63. Michael Leiter. Understanding the burnout experience: recent research and its implications for
psychiatry. World Psychiatry 15:2 - June 2016.

28 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


de forma negativa. As pessoas insensíveis, em relação aos estudantes,
Notas
sentem-se infelizes com elas pais e companheiros, e teria sentimentos
próprias e insatisfeitas com o seu de baixa realização pessoal ao ver-se
desenvolvimento profissional. ineficaz na hora-H, a de ajudar os seus
Experimentam um declínio no alunos no processo de aprendizagem e de
sentimento de competência e cumprir com as outras responsabilidades
no êxito no seu trabalho e da no seu trabalho.
sua capacidade de interagir com Os autores também apontam
outras pessoas. Esta diminuição como determinantes principais da
no senso da auto-eficácia tem sido SEP em professores uma lista de
relacionada com a depressão e a conflitos, por exemplo a tentativa de
inabilidade para lidar com o trabalho, resolver os problemas disciplinares
podendo ser exacerbada pela falta dos alunos quando se vêem frente à
de suporte social e oportunidades falta de apoio, e, inclusive, os conflitos
de desenvolvimento profissional. com pais ou superiores (de assinalar
O baixo envolvimento pessoal no que ambas aparecem destacadas nas
trabalho, que também pode ser nossas conclusões – vide capítulo
entendido como baixa realização Análise de Resultados e Histograma
pessoal no trabalho ocorre nessa correspondente à relação entre SEP e
relação afeto-trabalho, sendo, na indisciplina); políticas inconsistentes
verdade, a perda de investimento e confusas a respeito da conduta
afetivo. É, assim, uma experiência dos estudantes; a sobrecarga de
subjetiva, envolvendo atitudes e trabalho (falta de tempo, excessivo
sentimentos que podem acarretar trabalho burocrático, etc.); problemas
problemas de ordem prática disciplinares, apatia dos estudantes
e emocional ao trabalhador e à e seu baixo rendimento, a escassa
organização do trabalho. A ausência participação na tomada de decisões e
de realização pessoal desencadeia o apoio social recebido por parte dos
uma diminuição das expectativas companheiros e supervisores, sobretudo
pessoais e ondas de crescente imagem e status. Somam-se a isso as
autodepreciação, originando-se, características do ambiente de trabalho,
assim, sentimentos de fracasso que podem desencadear esse tipo de
e uma baixa auto-estima. sofrimento mental.
A tensão, falta de segurança,
Mas há afinal alguma especificidade uma administração insensível, pais
socio-ocupacional no chamado omissos, críticos da opinião pública,
“burnout docente”? turmas demasiado grandes, falta de
Por um lado, os professores tornar-se- autonomia, baixos salários, falta de
iam incapazes do mínimo de empatia perspetivas de progressão na carreira,
necessária para a transmissão do isolamento em relação a outros adultos
conhecimento. Por outro, com auto- ou falta de uma rede social de apoio, além
-estima baixa, há sentimento de de preparação inadequada, são fatores
exaustão física e emocional. Segundo que se têm apresentado associados
Jiménez, Gutiérrez e Hernandez64, um à síndrome. Pode ocorrer, também, o
professor experimentaria tal esgotamento sentimento de derrota. Todos estes
emocional ao sentir já não poder dar aos fatores estão também referidos no
seus alunos mais de si mesmo; mostraria resultado do nosso Inquério para Portugal.
despersonalização, ao desenvolver Um ponto interessante e motivo de
atitudes negativas, cínicas e às vezes reflexão é o citado por Codo e Vasquez-

64. Jiménez, Gutiérrez e Hernandez, op. Cit, p. 14

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 29


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Menezes, quando apontam que a SEP é números ou como coisas, abstrações


Notas
“a desistência de quem ainda está lá.”65 sem-sentido ou especificidade que se
Encurralado numa situação de vão somando numa folha em branco,
trabalho que não pode suportar, mas uma tábua rasa.
também que não pode rejeitar, o A síndrome é um fenómeno real que
trabalhador arma inconscientemente vai avançando com o tempo, corroendo
a retirada psicológica, um modo de o ânimo do educador e, dia após dia, o
abandonar o trabalho, apesar de ânimo vai se apagando devagar. Como
continuar no posto. Está presente na sugeriu Christophe Dejours, tratar-se-ia
sala de aula, mas passa a considerar de uma dissociação de fuga psíquica
cada tarefa, cada semestre, como enquanto um coping mental.66

Reações-padrão associadas ao burnout, quadro esquemático adaptado

Fisiológicas Comportamentais

Fadiga constante e progressiva, Negligência, escrupulosidade,


distúrbios do sono, dores irritabilidade, agressividade,
musculares e osteomusculares, tensão, inadaptabilidade, perda
cefaleias, perturbação de iniciativa, consumo de
gastrointestinal moderada, substâncias, comportamento
doenças cardiovasculares, de risco, risco de prévia ideação
sistema respiratório em baixa, suicida ou ideação suicida.
disfunções sexuais, baixa
imunológica.

Psicológicas Defensivas/Coping

Atenção, baixa concentração, Isolamento, omnipotência,


falta de memória, lentificação, desinteresse, abstenteísmo,
autoalienação, solidão, presentismo, ironia, cinismo,
impaciência, insuficiência, baixa sentido de despertença,
autoestima / autoaceitação, alheiamento/distanciamento,
desconfiança, paranoia, atitude blasé, dissociação
depressão, astenia, apatia. cognitiva, autoembrutecimento.

65. Codo, W., & Vasques-Menezes, I. (1999). O que é burnout? Em W. Codo (Org.), Educação: Carinho
e trabalho (pp. 237-255). Rio de Janeiro: Vozes, p.248.
66. Cristophe Dejours. A Loucura do Trabalho, Oboré Editorial, 1987, p.124.

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Questões Metodológicas: a necessidade Notas
da razão crítica versus Homo Economicus

A literatura existente sobre as Inquérito Operário, de Karl Marx/Friedrich


investigações de burnout pós- Engels (Op. Cit.), ou a História Global do
Freudenberger 67 e, sobretudo, pós- Trabalho, de Marcel van der Linden,73
Maslach68 são um cabal exemplo de ou o Study Case Ampliado – etnografia
uma conceção hegemónica. Não deixam comparada do trabalho –, de Michael
de ser parte de um campo mais amplo – Burawoy,74 A Nova Morfologia do Trabalho,
que ultrapassa e compreende o terreno de Ricardo Antunes75, entre vários outros?
estrito do burnout – que açambarca os Então, porque n~~ão debater as noções
inquéritos operários, study-cases sobre sobre trabalho humano ora realmente
o trabalho, a pesquisa social sobre o existentes? Ou o papel do trabalho na
processo de saúde-doença, a relação formação da sociedade e do indivíduo?
entre subjetividade e labor para além Determinantes sociais, públicos, dos
de um largo diapasão de diferentes processos de saúde-doença, privados?
desenhos metodológicos, arcabouços O que é, afinal, a ciência? Que dizer das
teóricos, visões de mundo. Uma pesquisa diversas modalidades de conhecimentos
interessante seria a de descobrir e sobre o mundo do trabalho? Suas
explicar as razões de um sucesso global, especificidades sub-regionais? Seus
tão incontestável e solitário, do modelo- diferentes campos? As estruturas e a
padrão do MBI.69 dinamização de cada um deles?
Por outras palavras, por que Explicitaremos aqui algumas críticas
ignorar o que seria a Ergonomia da e determinadas alternativas para ampliar
Atividade,70 Abordagem Ergológica, de às barreiras do possível e de alguma
Yves Schwartz,71 ou a Psicodinâmica do forma justificar as escolhas e explicitar
Trabalho, de Christophe Dejours,72 ou o pressupostos de conhecimentos que

67. H. J. Freudenberger (1926-1999) foi psicólogo social comunitário americano–judeu–alemão. Embora


Freudenberger tivesse tido muitos empregos na sua vida, incluindo os de clínico, editor, teórico e autor, a
sua contribuição mais significativa foi a compreensão e o tratamento do stress laboral, do esgotamento
profissional e do abuso de substâncias. Foi um dos primeiros a descrever os sintomas de exaustão
profissionalmente e a realizar um estudo abrangente sobre o burnout. Em 1980 ele publicou um livro
sobre o burnout, o qual se tornou referência literária sobre este fenômeno social.
68. Maslasch Burnout Inventory (1981) é o instrumento cientificamente validado o mais propagado a
respeito do Burnout.
69. Ora, aqui poderíamos realizar uma vasta discussão tanto sobre procedimentos de pesquisa, e/ou
técnica, quando concepções investigativas, teoria. Sobretudo a combinação entre ambas dimensões,
as noções “europeia” e “americana”.
70. DUARTE, Rolo, Duarte & FRANÇOIS, Daniellou, & Gaudart, CORINNE, L’ERGONOMIE, LA
PSYCHODYNAMIQUE DU TRAVAIL ET LES ERGODISCIPLINES. ENTRETIEN AVEC FRANÇOIS
DANIELLOU. Travailler, 2015/2, nº 34.
71. Yves Schwartz, Reconnaissances du travail: pour une approche ergologique, Paris, Presses
universitaires de France, 1997.
72. DEJOURS, Christophe, Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho, Selma Lancman & Laerte I.
Sznelman (organizadores). Rio de Janeiro, Editora Fiocruz/Brasília: Paralelo 15, 2004.
73. Trabalhadores do mundo: ensaios para uma história global do trabalho. LINDEN, Marcel van der.
Campinas: Editora da Unicamp, 2013.
74. BURAWOY, Michael, Marxismo sociológico: quatro países, quatro décadas, quatro grandes
transformações e uma tradição crítica. São Paulo: Alameda, 2014.
75. ANTUNES, Ricardo, Os Sentidos do Trabalho – Ensaio sobre a Afirmação e a Negação do Trabalho.
Coleção CES, Coimbra, Almedina, 2013.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 31


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

não podem ser – valorativa, política e/ Ilustração. Nessa análise, tem lugar uma
Notas
ou moralmente – neutros. Gostaríamos profunda crítica ao projeto da civilização
de referir aqui alguns exemplos de capitalista moderna como um todo, ou
trabalho científico, coletivo, de uma aquilo que o senso comum ilustrado
maneira aberta, plural e interdisciplinar, nomeia como “Ocidente”, assente
tal como o coletivo Raisons d’Agir de um sobre a ideia de ordem e progresso.
Pierre Bourdieu tardio,76 o modelo de co- Tratava-se de, à luz das experiências do
laboração internacional da História Global Séc. XX, refletir criticamente a respeito
do Trabalho, com sede em Amesterdão,77 das condições que já permitiram a
os estudos pioneiros da Sociologia da emergência da barbárie. Na Dialética
USP78 e o próprio Observatório para do Esclarecimento83 esse projeto do
Condições de Vida da Universidade Nova iluminismo é anunciado como se fora
de Lisboa.79 Estamos convencidos de que uma revelação – em absoluto – algo
é o livre debate de ideias, a intenção- apocalíptica.
-de-verdade e a radical abertura para o O objetivo do iluminismo era de
contraditório que dão valor cognitivo ao um «desencantamento de mundo», a
discurso científico das ciências históricas dissolução dos mitos, a substituição
humanas. da imaginação pelo saber, de forma a
Por mais que seja de amplo dominar uma natureza desencantada.
conhecimento de todos nós, é inevitável Mas a realização do progresso projetada
recorrer, aqui e agora, às ideias de pelo iluminismo era, também, uma
Modernidade, de Civilização e de nova forma de regressão. Ao mesmo
Esclarecimento80. “No sentido mais tempo que o presente se afirmava
amplo do progresso do pensamento”, como desenvolvimento e evolução
diriam os teóricos, “o esclarecimento ele transmutava-se em estagnação e
tem perseguido sempre o objetivo de involução, ao mesmo tempo em que era
livrar aos homens do medo – e do mal a civilização também ele era a barbárie. A
–, investi-los a posição de senhores. crítica ao projeto do iluminismo é, também,
Mas a Terra completamente esclarecida uma crítica à barbárie contemporânea e
resplandece sob o signo duma calamidade uma grande recusa de toda a filosofia da
triunfal”81. Tome-se como um ponto de história que esteja assente numa teleologia
partida – para abordar este tópico – uma qualquer e que tenha como pressuposto
análise Frankfurtiana82 do Movimento da a existência efetiva de um tempo linear e

76. Frédéric Lebaron et Gérard Mauger. Raisons d’agir: un intellectuel collectif. 77-78 | 1999 Nouvelles
configurations économiques et hiérarchiques.
77. Instituto Internacional de História Social. The International Institute of Social History is one of the
largest archives for labour, left and social history in the world. It is an independent scientific institute in
Amsterdam. The IISG is part of the Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences. It was founded
in 1935 by Nicolaas Posthumus: https://socialhistory.org/
78. A Escola de Sociologia da USP é uma forma de referir o intelectual coletivo erigido através da FFLCH
com nomes como Florestan Fernandes, Roger Bastide, Antonio Candido etc.
79. Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sediado na NOVA.
80. O fio de condução argumentativo desta secção segue atentamente a: Horkheimer, M. e Adorno,
T. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro : Zahar, 1985, Horkheimer, M. Teoria Tradicional e Teoria
Crítica. São Paulo, Abril Cultural, 1980; Lukács, G. História e Consciência de Classe. São Paulo: Martins
Fontes, 2003; Marx K. O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983; Carneiro, H.; Braga, R. e Bianchi, A.
Trangressões. Sundermann : São Paulo, 2008 e Fernandes Dias, E. A Liberda-de (Im)Possível na Ordem
do Capital. UNICAMP, Textos Didáticos, 1997. 
81. Op. Cit. Dialética do Esclarecimento. Trad. Guido Almeida, Rio de Janeiro, Zahar Editores, p.34.
82. Escola de teoria social e filosofia, associada ao Instituto para Pesquisa Social da Universidade de
Frankfurt/Francoforte, na Alemanha.
83. O título clássico e classicamente esclarecedor pretende lançar sombras sobre o movimento das Luzes.

32 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


homogéneo sobre o qual a humanidade Apenas o sujeito pode ter razão de
Notas
marcharia, buliçosa e alegremente, em verdade, na medida em que somente ele
direção à sua emancipação plena. O século seria capaz de avaliar a exata correlação
XX mostrou que o caminho aberto por existente entre meios e fins, desse modo,
esse tempo é também o que traz horrores os critérios de validação destes últimos
como a Escravidão Moderna, o Holocausto são unicamente internos. Não interessa
Centro-Europeu, as bombas de Hiroshima aqui se os propósitos são racionais ou
e Nagasaki durante a Segunda Grande até mesmo se podem ser moralmente
Guerra, o ataque fulminante às Torres justificados. Isso não faz a menor
Gémeas etc. etc. etc. diferença. Se a razão se relaciona com
Esse projeto iluminista – a partir os fins estes são pressupostos como
do qual se organizará ideologicamente racionais, ou seja, servem os interesses
a própria Modernidade – é um projeto do sujeito, seja ele um indivíduo ou uma
em tudo contraditório. Ele encontra- coletividade. Mas para aqueles que não
se dilacerado por antagonismos partilham os mesmos interesses os
latentes (e efetivos) que marcam o fins permanecem sempre pouco claros
seu desenvolvimento histórico e o tornando-se impossível perguntar-se
afastam das linhas imaginadas pelos sobre os seus reais significados.
seus diversos precursores. Um conflito de A realização do progresso, projetado
racionalidades tem lugar no próprio coração pelo pensamento iluminista85, implica
do projeto iluminista. A razão crítica e a na supremacia absoluta dessa razão
razão instrumental – que se encontravam instrumental sobre a razão crítica
presentes, na origem desse projeto – e na consequente perda de toda
travam, entre si, uma luta implacável, que autoconsciência pela razão. A conceção
deita as suas raízes nos antagonismos crítica da razão não exclui uma conceção
sociais. Nesse conflito a razão instrumental  instrumental, podendo até mesmo
afirmou a sua mais absoluta hegemonia conviver com ela, desde que esta
sobre todo saber-fazer. última seja considerada uma expressão
Para a teoria crítica, diferentemente parcial e limitada e contingente de uma
da teoria tradicional, a razão existe não racionalidade universal.
só como uma força de uma mente Enquanto esta racionalidade
individual, mas também como uma força universal enfatizaria conceitos genéricos
do próprio mundo objetivo. Ela deve como os de bem supremo, destino
obedecer, portanto, a critérios que são humano e modo de realização dos fins
externos às motivações e interesses do últimos, o foco da razão instrumental
indivíduo singular. Pressupõe, que seja estaria então colocado na coordenação de
possível inquirir a respeito dos fins e recursos, comportamentos e objetivos.
investigar os significados que os próprios Mas uma tal razão instrumental
fins podem carregar já consigo. Os fins resiste a uma posição subalternizada
encontram-se, deste modo, abertos à perante uma razão crítica. Como parte
própria razão a qual deve confrontá-los e do Projeto da Modernidade, a razão
não apenas aceitá-los tais como existem instrumental consolidou-se com o
em si mesmos84. firme propósito de subjugar a natureza
A razão instrumental, por sua e tornar o homem senhor de seu
vez, assenta na capacidade de calcular próprio destino. Para cumprir esse
probabilidades e dessa forma decidir propósito ela precisava remover todos
a respeito dos meios que devem ser os obstáculos, sem exceção à regra,
utilizados para atingir um fim esperado.  inclusivamente aqueles apresentados

84. Os fins, portanto, não justificam os meios.


85. Constelação teórica que vai de Immanuel Kant e o ensaio, O que é o esclarecimento?, até os dias
de hoje.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 33


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

pela razão crítica, i.e., reduzindo todo o vez mais como uma ramificação das
Notas
Logos a si própria. O Projeto Iluminista «matemáticas puras.» Degradou-se em
acolhe em seu interior a contradição mera “Econometria”.
entre uma razão crítica, que o conduz a Formalizada, e livre de toda a coerção
rejeitar por meio da análise racional todas externa, a concepção instrumental não
as superstições, preconceitos e pré- é capaz de definir se qualquer objetivo
noções, e uma razão instrumental, que o é – em si mesmo – desejável. A razão
conduz a recusar como objetos da razão não tem, assim, nada a dizer sobre a
essas superstições, preconceitos e pré- plausibilidade dos ideais, os princípios que
noções e a afirmar estas como próprias orientam a ética e a política ou os critérios
à dimensão subjetiva dos indivíduos. utilizados para guiar as nossas ações.
A irrazão passa a ser racional se ela Tudo isso seria assunto de “foro íntimo”,
é capaz de mobilizar meios eficientes não fazendo sentido falar de “verdade”
para os seus propósitos. Mas aquilo quando se trata de decisões morais,
que não pode ser calculado portanto estéticas ou práticas de qualquer ordem.
não se submete aos ditames da razão O pensamento é, assim, servo de todo
instrumental, é imediatamente colocado o empenho, bom ou mau. Instrumento
sob suspeição. A equação é algo simples. de todas as ações da sociedade, não
A razão instrumental nega a legitimidade lhe cabe estabelecer os padrões da vida
de tudo aquilo que já não pode dominar. social ou individual. Renunciou à tarefa de
A trajetória da economia política é, a julgar o modo de vida do homem e a suas
esse respeito, algo exemplar. Ela só pôde ações, entregando-o à sanção suprema
fazer as pazes consigo própria ao expulsar dos interesses em conflito. Ao renunciar
o trabalho da teoria do valor86. E, com ele, a essa tarefa a razão abdicou, também,
o antagonismo social fulcral (luta social, da possibilidade de refletir sobre a própria
luta de classes ou fracções de classe) ordem objetiva do mundo e das coisas,
ao converter indivíduos maximizadores i.e., renunciou ao próprio pensamento
de utilidades orientados por uma razão crítico. É esse o fundamento da crise
instrumental, o homo economicus, no presente da razão. Livre de toda a
sujeito da ação económica. coerção externa, a razão instrumental
Findo esse processo, a economia pode-se desenvolver sem interferências
política anuncia então que, agora, a e reduzir-se a si. Todo o pensamento se
ação económica estava baseada num torna, assim, algo totalitário, autotélico
critério de previsibilidade a denominar-se, ou solipsista.
simplesmente, Economia, apresentando- Nos pensadores iluministas (e em
-se, então, qual única das ciências humano alguns que lhes precederam) é possível
sociais. Autodenominada e entificada encontrar um esforço sistemático
como “a” Ciência Social por excelencia, a para transformar a razão na suprema
Economia reivindicou para si, por meio de autoridade intelectual, em detrimento
certo imperialismo epistemológico, todos das religiões. Esse empreendimento foi
os demais campos das chamadas ciências levado a cabo mediante uma luta sem
sociais e humanas. Paradoxalmente, quartel ao pensamento mágico e às suas
desde um tal momento, a economia respetivas formas filosóficas. A derrota
passou a guardar pouca semelhança com das teologias representou também uma
uma reflexão crítica – sobre a organização vitória do indivíduo que passou a ser
societária em geral – e a parecer-se cada concebido como a sede de toda razão. Mas

86. A economia política clássica e a teoria do valor tratam-se da maior descoberta científica de finais
dos 1800 para o percurso intelectual de estudos e investigações dos pioneiros Karl Marx e Friedrich
Engels, fundadores que são para toda e qualquer perspetiva de totalidade, no que se refere à história
social dos estudos do trabalho.

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a soberania do indivíduo  impediu o Independentemente da sua vontade, essa
Notas
pensamento de conceber a objetividade situação social impõe-se por meio das
da razão. A afirmação de que “cada um instituições, das técnicas e das formas
sabe o que melhor lhe convém” passou a que organizam e controlam a pesquisa
ter o estatuto de norma de conduta. Livre científica.
de toda a coerção trans-individual, a razão A posição do intelectual crítico é,
tornou-se já mais dócil aos interesses também, contraditória, à medida em que
dominantes, i.e., já mais adaptável à o mesmo sujeito que, personificando
realidade tal qual se (re)apresenta a si relações sociais da ordem, produz e
mesma. reproduz continuamente o existente é,
O conceito foi então substituído pela também, um sujeito que pode produzir
equação e o conhecimento causal pelo a crítica desse existente. É por meio
que hoje é conhecimento probabilístico. da crítica que se torna possível saber
Contraditoriamente, ao reconhecer no que a relação entre um conjunto de
sujeito a sede de toda a sua validação, hipóteses científicas e a sua aplicação,
a razão instrumental deixou à mercê ou operacionalização, não se encontra
deste a validação das superstições, no âmbito da ciência, mas no âmbito da
dos preconceitos e pré-noções, com produção... de mercadorias!
as quais o projeto iluminista pretendia A ciência social tão-só instrumental
acertar contas. A filosofia e a teoria foram não é senão a instrumentalização da
vítimas desse processo. A razão tornou- produção mercantil. Mas produção: De
se, ora, obsoleta, como órgão destinado quê? Por quem? Para quê? Para quem?
a desvendar a natureza da realidade e a Sobre isso esta razão só silencia. Sem
definir os princípios pelos quais a vida qualquer controle da crítica social, a razão
se deveria guiar. A filosofia e a teoria presta-se já facilmente à manipulação
tornaram-se aí sinónimos de metafísica, de ideológica e administrativa e/ou à mais
especulação, de teologia e de mitologia e, pura propagação de mentiras, engodos
com isso, as suas questões foram também e “fake news”.
reconduzidas à esfera íntima do sujeito. A conversão da ciência numa
Hard sciences versus Soft sciences, tal força produtiva/destrutiva criou as
como eternizou o funcionalismo norte- condições sociais para a afirmação da
americano. A razão amputou, assim, a sua razão meramente utilitária no ambiente
capacidade de compreensão crítica, ética universitário. Sob a forma de convénios,
e moral dos seus próprios fins e, desta financiamentos, laboratórios, centros de
forma, atingiu até mesmo o conteúdo pesquisa e fundações, a universidade
objetivo dos conceitos, que foram aí passou aí então a integrar – de forma
esvaziados de todo o referente. A forma algo dissimulada – o próprio aparelho
matemática, que se tornou o paradigma produtivo do capital.
de toda a teoria, afirma-se como uma O iluminismo triunfou, ao menos
forma sobretudo neutral. relativamente, sobre o dogmatismo e a
Para o cientista, esse processo superstição. Mas o reacionarismo e o
culminou com o descomprometimento obscurantismo tiraram muito proveito
perante a aplicação daquilo que ele dessa vitória. Interesses opostos a
produziu (como conhecimento). valores universalistas podem, sempre
Atrelado ao aparelho social de produção e cada vez mais, apelar a uma razão
de conhecimento ele, assim como o neutralizada. A razão instrumental adapta-
resultado de sua atividade intelectiva, se a tudo. Auschwitz, a própria barbárie,
constituem, já, um momento da produção não deixou de ser expressão de uma
e reprodução das relações sociais de razão instrumental. Mobilizando os meios
produção capitalistas. Tanto faria se ele é necessários para o extermínio social
um intelectual crítico, conservador e/ou em massa dos indesejáveis, os campos
simplesmente indiferente ao mundo real. de concentração foram a realização

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 35


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

suprema ciência social hegemónica e das julgamentos de avaliadores e/ou testes


Notas
relações sociais dominantes da sua época. de personalidade. Outros concentram-
Artefactos bélicos eficazes, campos de se em pesquisas relacionadas às
concetração coesos e aparelhos de tortura teorias de medição (por exemplo, teoria
funcionais certamente foram subprodutos resposta-a-itens e correlação intra-
deste tipo específico de racionalidade. classe). Os praticantes são descritos
E, sem sombra de dúvidas, o retorno como ‘psicometristas.’ Em geral, estes
do irracionalismo e da desrazão dão possuem uma qualificação bastante
notícia de que, enquanto houver capital, específica, e a maioria são psicólogos
progresso e barbárie permanecerão tal sociais com formação avançada de
qual as duas faces de Janus. pós-graduação em estatística e/
ou matemática aplicada. Além das
Pode a psique humana ser instituições académicas tradicionais,
metrificada? muitos psicometristas trabalham para o
Referidas que foram as bases da distinção governo ou para os departamentos de
entre a razão utilitária, pragmática e recursos humanos. Outros especializam-
instrumental, da razão crítica, reflexiva e -se como profissionais de aprendizagem/
aberta, é possível agora nos perguntarmo- desenvolvimento.87: Segundo Szondi «o
nos o que vem a ser, no caso mais pensamento psicológico específico, nas
imediato, uma «razão psicométrica»? últimas décadas, foi suprimido e quase
Será algo já muito distinto da redução da totalmente eliminado, sendo substituído
economia à econometria e da psicologia por um pensamento estatístico.
à psicometria? Precisamente aqui vemos a metástase
A psicometria é um campo de do verdadeiro câncer de testologia e
estudos preocupado com as teorias testomania hoje»88
e a técnica da “medição psicológica”. “Desbloquear aos mistérios da
Geralmente, refere-se ao campo da consciência humana” através do
psicologia social e das ciências da “método”89. J.F.Herbart90 foi responsável
educação, que são dedicadas a testes, pela criação dos modelos matemáticos
medições, avaliações e atividades da mente que foram os mais influentes
relacionadas. O campo está preocupado nas práticas educacionais nos anos
com a medição objetiva de habilidades e vindouros. E.H.Weber baseou-se –
conhecimentos, atitudes, coeficientes de então – no trabalho prévio de Herbart,
personalidade e de realização educacional, e tentou provar a existência de um “limiar
os métodos de entrevista para o trabalho, psicológico”, dizendo que era necessário
o recrutamento das empresas, o sector um estímulo mínimo para ativar todo um
de R.H., os exames de Q.I., exames sistema sensorial. Depois de Weber, G.T.
admissionais ou educativos, e o Burnout, Fechner expandiu o conhecimento que
p.ex. Alguns pesquisadores psicométricos ele recolhera, de Herbart e Weber, para
concentram-se na construção e conceber a lei geral91 que estabelece que
validação de instrumentos de avaliação, a força de uma sensação cresce como o
como os seus questionários, testes, logaritmo da intensidade de um estímulo,

87. Thompson, B.R. (2004). Exploratory and Confirmatory Factor Analysis: Understanding Concepts
and Applications. American Psychological Association.
88. Leopold Szondi (1960) Tratado del Diagnóstico Experimental de los Instintos. (Trad. Federico Soto
Yárritu. Biblioteca Nueva. Madrid, 1970. In: Cap.27, Las Condiciones Estadisticas, p.396.
89. Apud Kaplan, R.M. & Saccuzzo, D.P. (2009) Psychological Testing Principles, Applications, and Issues.
7th Ed. (Belmont, CA.: Wadsworth).
90. VERBETE Johann Friedrich Herbart in: Stanford Encyclopedia of Philosophy: plato.standford.edu.
91. Apud Fancher, R. E. (1996). Pioneers of Psychology (3rd ed.). New York: W. W. Norton & Company.

36 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


a Lei Weber-Fechner. O seguidor de principais abordagens – na aplicação
Notas
Weber e Fechner, Wilhelm Wundt está de testes nestes domínios – foram
acreditado como um dos pais fundadores as teorias dos testes clássicos, e os
da ciência psicológica experimental. mais recentes modelos de medição da
Foi a influência de Wundt que abriu o Teoria de Resposta ao Item e o ‘Rasch’.
caminho para outros inventarem os testes Estas últimas abordagens permitem já o
psicológicos.92 dimensionamento conjunto de pessoas e
A definição de mensuração – nas itens de avaliação, o que nos fornece uma
ciências sociais – tem já uma longa base para o mapeamento de contínuos de
história. Uma definição realmente desenvolvimento, permitindo descrições
difundida, proposta por Stanley Smith das habilidades exibidas em vários
Stevens em 194693, é que a medição seria pontos ao longo de um Continuum.
“a atribuição de numerais a objetos ou Outro foco importante em psicometria
eventos de acordo com alguma regra”. tem sido o ‘teste de personalidade’.
Esta definição foi introduzida no artigo Tem havido uma gama de abordagens
supra em que Stevens propôs quatro teóricas para conceituar e medir a
níveis de medição.94 Embora amplamente personalidade. Alguns dos instrumentos
adotada, essa definição difere em aspetos mais conhecidos incluem os modelos
importantes da definição mais clássica de Minnesota Multifhasic Personality
medida e medição adotadas nas ciências Inventory, o Five-Factor Model (Big-5),
físicas, a saber, que a medição científica e ferramentas tais como o Personality and
implicaria estimativa/descoberta da razão Preference Inventory e o Myers-Briggs
de alguma magnitude dum atributo Type Indicator. Atitudes também têm
quantitativo para unidade. Investigadores sido estudadas extensivamente usando
usam-na, mas estatísticos franzem o abordagens psicométricas. Um método
sobrolho. comum na medição de atitudes é o uso
Os primeiros testes deste tipo da escala-Likert.
foram inventados para se aferir a Os principais conceitos da teoria
inteligência. Uma abordagem histórica dos testes clássicos são a fiabilidade
envolveu o ‘Teste Q.I.’, de Stanford- e a validade. Uma medida confiável
-Binet, desenvolvido originalmente seria aquela que é capaz de medir um
pelo psicólogo francês Alfred Binet.95 constructo consistentemente ao longo
Os ‘exames de inteligência’ são do tempo, indivíduos e situações. Uma
instrumentos-meio para diversos fins. medida válida é aquela que mede o que
(Uma concepção alternativa de intelecto é se pretende mensurar. A fiabilidade é
a de que as capacidades cognitivas dentro necessária, mas não suficiente, para
dos indivíduos são uma manifestação a validade. Os Quantuns de fiabilidade
de um componente geral, ou fator de e de validade podem ser avaliados
inteligência-geral, bem como capacidade estatisticamente. A consistência sobre
cognitiva específica, para determinado medidas repetidas do mesmo teste
domínio.) A psicometria é aplicada pode ser avaliada com o coeficiente
amplamente na avaliação educacional de correlação-de-Pearson e é
para medir habilidades em domínios frequentemente chamada de fiabilidade
como leitura, escrita e matemática. As de ‘teste-reteste.’ Da mesma forma, as

92. VERBETE Wilhelm Maximilian Wundt in: Stanford Encyclopedia of Philosophy: plato.stanford.edu/.
93. Michell, Joel (August 1997). “Quantitative science and the definition of measurement in psychology”.
British Journal of Psychology. 88 (3): 355–383.
94. Paul Velleman & Leland Wilkinson. Nominal, Ordinal, Interval, and Ratio Typologies are Misleading.
Systat Inc. & Northwestern University.
95. Apud O. L. Zangwill, ‘Binet, Alfred’, in R. Gregory, The Oxford Companion to the Mind (1987) p. 88.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 37


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

equivalências de diferentes versões da eles são por fim gerados. Um teste


Notas
mesma medida podem ser indexadas por de inteligência construído nos Estados
uma correlação de Pearson e é chamada Unidos da América para testar recrutas
de fiabilidade de formas equivalentes ou militares – durante a I Guerra Mundial
termo similar. –, seria suficiente para a emissão de
A consistência interna, que veredictos e rótulos sobre as pessoas?
aborda a homogeneidade de uma São perguntas honestas, interrogação
única forma de teste, pode ser avaliada importante. Merecem-nos detida reflexão.
correlacionando-se o desempenho Discutir os testes não é pôr em
em duas metades de um teste, que é confronto gostos e/ou opiniões pessoais;
denominado fidedignidade ‘split-half.’ O ou muito menos transformar os debates
valor desse coeficiente de correlação em ringues para divertir a plateia. O que
produto-momento de Pearson para dois está em causa não são os testes em si
semitestes é ajustado com a fórmula mesmos, mas uma discussão teórica,
de predição de Spearman-Brown, para de carácter muito mais amplo – o da
corresponder à correlação entre dois própria conceção de conhecimento, de
testes completos. Talvez o índice de homem, de vida e de mundo que lastreia
fiabilidade mais comumente usado seja parte da Psicologia que está nas bases
o ‘α-de-Cronbach,’ que é equivalente à da criação de instrumentos para fins de
média de todos os possíveis coeficientes avaliação e classificação de indivíduos e
da metade da divisão. Outras abordagens grupos. Psicologia, esta, a qual tem sido
incluem a ‘correlação intraclasse’, que qualificada como positivista, instrumental,
é a razão da variância das medidas objetivista e fisicalista. Se assim é, a
de um dado target para a variância conclusão bastante usual a que chegam
deles todos. Existem várias formas participantes “tal fulano não gosta de
diferentes de validade. A validade testes”, prova que não houve debate
relacionada ao critério pode ser avaliada algum.
correlacionando-se já uma medida com Para que haja um debate fecundo
uma medida de critério teoricamente é preciso que ambos os lados tenham
esperada como relacionada. Quando a um mínimo de clareza a respeito do lugar
medida de critério é coletada ao mesmo teórico a partir do qual elaboram os seus
tempo que a medida que está a ser argumentos. Os que defendem uma
validada, o objetivo é estabelecer a maior mensuração do psiquismo e os
validade concorrente; quando o critério laudos psicológicos precisam conhecer
é coletado posteriormente, o objetivo não só os pressupostos filosóficos das
é estabelecer validade preditiva. Uma técnicas que adotam, mas também os
medida tem validade de constructo fundamentos da crítica, sem o que não
se estiver relacionada a medidas de podem contra-argumentar. O mesmo
outros constructos, conforme exigido é certo para os que fazem a crítica: é
pela ‘teoria.’ A validade de conteúdo preciso que conheçam a base teórica das
é uma demonstração de que os itens Psicologias psicométricas e normativas,
ou tópicos de um teste fazem um e dominem o arcabouço teórico com o
trabalho adequado de cobrir domínio a qual se debruçam sobre ela para desvelar
ser medido, Universo e Amostra. a sua razão. Sem isso, a comunicação
A crítica dos testes tem sido feita torna-se impossível e o que se tem é
em diferentes níveis de profundidade: dos um estéril e absurdo diálogo de surdos,
conteúdos; da definição de inteligência do qual é melhor fugir. Não é preciso
e de personalidade em que se apoiam; canonizar, ou demonizar, os métodos.
do critério estatístico e adaptativo de A razão instrumental pressupõe a
normalidade que lhes serve de base; possibilidade de uma descrição neutra
da situação de testagem propriamente da realidade, mesmo que esta realidade
dita; da teoria epistémica desde a qual seja psicológica, social e/ou histórico-

38 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


política, isto é, mesmo naquilo que se da descoberta pelos portugueses das
Notas
refere aos homens, ao passo que a razão religiões tribais no continente africano
crítica não pode deixar de considerar a e da prática de atribuir poder humano a
génese e devir dos problemas sociais, objetos inanimados. Teorias do teor da
as situações reais nas quais a ciência é mercadoria, e o desejo sexual, adviriam
empregada e a relação entre os meios desde tal base. As formas económicas
e fins que são buscados. A crítica ocultam relações sociais que lhe são
marxista do conhecimento que faz já subjacentes; é nela que se alicerça
do sujeito um objeto tem origem na o desvelamento do saber que coisifica
análise do fetichismo. O conceito de o homem.
fetichismus, presente na psicanálise de Um parêntese para uma explicação
Freud e no materialismo de Marx, parte breve deste conceitos:

O que é alienação do trabalho?


Trata-se de um fenómeno que corresponde à não-identificação do
trabalhador com o produto de seu trabalho. Dá-se ao nível da atividade e
da consciência, também, com o sentido de pertença à comunidade em
risco, ameaça, colapso.

O que é autoestranhamento do género humano?


O indivíduo social não se reconhece na relação estabelecida desde o
lugar que ocupa na produção e reprodução dos laços com o ente-espécie
ou ser-genérico e seu semelhante.

O que é reificação?
Em miúdos, a coisificação do humano. Ex.: A própria noção de Burnout
remete para uma analogia com as quebra/queima/glitch de aparelhos/
máquinas/dispositivos inanimados, “objetifica” o ser social.

Em suma, pode a psique humana de Adorno. Este criticava, no primeiro, o


ser metrificada? apego à imediatez da escuta, sem levar
Lazarsfeld convidou Adorno, quando em conta a dialética da mediação. O que
de seu exílio político nos EUA, para, se passou?
juntos, realizarem uma pesquisa sobre a Há duas formas diferentes de se
audição de música na rádio96. Nada deu compreender o método na sociologia.
certo, tornando a colaboração impossível. A tradição europeia aproxima método
Na raiz da discórdia, está a divergência de «teoria do conhecimento». Nesse
entre o método funcional de Lazarsfeld registo, E.Durkheim97 fala das «regras
e a teoria crítica – o método dialético – do método sociológico» e M.Weber98

96. O Radio Research reuniu Lazarsfeld, ex-juventude do Partido Socialista Austriaco, e Adorno, do
Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Não poderiam haver, como veremos, perspectivas filosóficas
mais antitéticas. Acompanhamos de perto os argumentos de: JAY, Martin (1984).Adorno in America.
New German Critique, número 31. LEVIN, T. & LINN, M. (1994). Elements of a radio theory: Adorno
and the Princeton Radio Research Project. The musical quartely, vol 78, número 2. MORRISON, David
(1978)..Kultur anda culture; the case of Theodor Adorno and P. F. Lazarsfeld. Social Research, vol. 45,
número 2 e Frederico, C. Recepção, vol. 1, núm. 2, abril, 2008, pp. 157-172. 
97. Sociólogo francês que deu origem ao expoente mais canónico do positivismo clássico e o método
funcional. Apud. Löwy, 1987, op. Cit. 
98. Sociólogo alemão que deu origem ao paradigma mais ilustrado do historicismo e o método
compreensivo. Apud. Löwy, 1987, op. Cit. 

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 39


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

concebe as suas “tipologias ideais.” uma sociedade individualista que leva


Notas
A tradição empírica norte-americana, os dispersos interesses, díspares
empenhada em cortar os laços com a dos indivíduos, à fórmula unitária de
filosofia, entende método como «técnica sua opinião. O empirismo, com esse
de pesquisa», procedimentos formais, procedimento atomista, pode no máximo
adotados ad hoc nas investigações chegar a conceitos gerais classificatórios
empíricas. A divergência de Adorno com sem atingir a dinâmica que rege a vida
Lazarsfeld insere-se nessa diferença de social. Para tanto, a dialética, desejosa de
compreensão do método nas ciências romper o falso isolamento dos indivíduos-
sociais e humanas e seus substratos átomos e a correspondente conceção de
mais graníticos. Em diversos momentos mundo de uma generalidade, abstrata,
da sua vasta e extensa obra, Adorno reivindica a perspetiva de totalidade –
voltou a refletir sobre a “experiência conceito estrutural da própria realidade
norte-americana” para assinalar as suas e o pensamento correspondente.
diferenças com um procedimento algo Falar em «totalidade», para o
mais, digamos, empirista. pensamento social pragmático do
As pesquisas empíricas, argumenta empirismo é referir-se a uma abstração,
Adorno, acabam tornando-se apenas um jargão de filósofos metafísicos. Mas
as opiniões expressas nas respostas não é difícil compreender como de facto
aos questionários99. Desse modo, as existe totalidade e como ela se impõe na
condições em que os homens vivem, vida quotidiana; por exemplo: O que é um
as funções objetivas que desempenham trabalhador assalariado? É preciso «antes»
no processo social, são substituídas saber o que é a sociedade capitalista.
por seu reflexo subjetivo, fetichizado Um olhar imediato apenas constata
e reificado. A coleta de dados e o que aquele indivíduo é um trabalhador.
tratamento estatístico não conseguem Mas, como tal, ele não se distingue de
apreender as tendências sociais gerais, outros trabalhadores, como o escravo e
mas apenas congelá-las em insuficientes o servo da gleba, personagens do mundo
médias. Seu pressuposto, segundo esclavagista e feudal. Mas, também, não
o qual ‘science is measurement’ (ou se distingue de um trabalhador autónomo
‘ciência é medição’), reproduz o próprio da sociedade capitalista. A diferença em
limite das matemáticas: é algo abstrato, relação ao empirismo positivista torna-se,
nada diz, portanto, sobre a verdade do aqui, autoevidente. A pesquisa avança
social. A estatística, diz Adorno, não desde os elementos mínimos, ou os
pode estabelecer o que é um grupo «atores sociais», as partes, para, através
social de pressão e só a reflexão crítica da ordenação e classificação da matéria,
sobre a distribuição efetiva das relações chegar a um conhecimento “de fora para
de força, dentro da sociedade, poderá dentro.”
oferecer informações a tal respeito, num Segundo Adorno, esse é o resultado
processo mais mediado. de “um conhecimento que renega a
O procedimento empírico estrutura de seu objeto em homenagem
caracteriza-se já pela sua extrema à própria metodologia.”100. A dialética, ao
generalidade e apresenta-nos uma contrário, busca explicitar as conexões
imagem de uma sociedade homogénea, entre as partes e o todo e fá-lo num
sem fissuras internas e contradições, em sentido inverso do positivismo. A
que o geral se sobrepõe ao/s particular/ prioridade do todo sobre as partes, por
es e as opiniões tornam-se equivalentes. sua vez, não significa que aquele seja um
Assim, apenas duplica a unidade de dado prévio, imóvel, uma figura fixa. Trata-

99. Aqui o paralelo com nosso estudo é autoevidente. 


100. ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. La disputa del positivismo en la sociologia alemana.
Barcelona: Grijalbo, p.123. 

40 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


se, isto sim, da compreensão de que a de múltiplas determinações são seus
Notas
sociedade é um «processo» e, por isso, pressupostos basilares. Em poucas
não pode ser captada «imediatamente». palavras: a perspetiva da totalidade,
A vinculação de Adorno com Hegel é o princípio da contradição, o sentido
evidente quando o nosso autor critica de processualidade, i.e., a boa e velha
a «imediatez». Hegel, numa passagem guerra de deuses entre ciência positiva
célebre da Filosofia da Religião101, e a crítica dialética.
afirmou que “não há saber imediato” Como viemos insistindo ao longo
e que a mediação não é um artifício do do texto, a análise dos fundamentos
pensamento mas o elemento constitutivo metodológicos de toda a vida social
e integrador da realidade. A categoria parte do pressuposto de que um
da mediação, alavanca categorial a método científico (e uma teoria social)
ultrapassar a simples imediatez, não envolvem uma certa conceção de mundo,
pode ser, portanto, algo importado do homem, vida e conhecimento. Para lá
exterior e sim «manifestação da própria do viés instrumental, entende-se que a
estrutura». apreensão do real revela a compreensão
No ‘Princeton Radio Research do que é a realidade, o homem e a sua
Project’ Lazarsfeld inventara uma máquina relação com ela. A relação sujeito-objeto
com botões “Like” e “Dislike”, como no alia-se às questões do ser social.
Facebook de hoje em dia, para medir o Toda a ciência implica uma escolha.
gosto musical “médio” na audição das As visões sociais do mundo das classes e
orquestras radiofónicas. Já Adorno, queria grupos sociais fundamentais condicionam,
traçar toda a anatomia social da rádio, a pois, não somente a última etapa da
conformação do ambiente da sua escuta pesquisa científico-social, a interpretação
privada, a relação com a música erudita, dos factos e a formulação das teorias,
o caráter empresarial da radiodifusão e mas a escolha do objeto de estudo e os
perguntava-se mais sobre o momento recortes de coleta de material. O método
de “produção” que o de “consumo” científico-social distingue-se do modelo
de música, no ar. Lazarsfeld, membro científico-natural não somente ao nível
do Partido Social-Democrata Austríaco dos esquemas teóricos, técnicas de
na juventude, estava a “americanizar- pesquisa e processos de análise mas,
-se” já desde a Velha Europa, quando também, e principalmente, ao nível
dissera, sobre as pesquisas de opinião da própria relação com os indivíduos,
(surveys) em política, que os candidatos grupos e classes sociais. As visões
socialistas deveriam ser tratados tal sociais do mundo – em sentido amplo,
qual “sabonetes” numa prateleira de como complexos coerentes de ideias-
supermercado102. Enquanto um não -força, remissão a valores, pressupostos
poderia ser mais coetâneo a seu tempo – modelam de maneira decisiva direta
presente – contemporâneo do que viria ou indireta, consciente ou inconsciente,
a ser a cibernética, a robótica, a teoria as ciências sociais, colocando assim o
informática, os Uns e Zeros em cuja problema da objetividade em termos
lógica algo binária repousa a caixa preta da totalidade, absolutamente distintos
das redes sociais do Século XXI – o da ciência da natureza, porque o objeto
outro aprofundou a sua relação com das ciências humanas e sociais é,
um passado que muitos prefeririam já sobretudo, histórico. Vive-se o presente
ultra-passado: mediação, contradição, marcado pelo passado e projetado
os sistemas de relações e a síntese para o futuro, num embate constante

101. Apud Celso Frederico. Materialismo e Dialética. Marx entre Hegel e Feuerbach (em colaboração
com Benedicto Arthur Sampaio), Ed. UFRJ: 2006. p.152. 
102. A imagem portentosa foi criada pelo precursos do que hoje se conhece como o marketing
político. 

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 41


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

entre o que está dado e o que está em coletivo pode desempenhar seu papel,
Notas
devir, sendo laborado. A transitoriedade, insubstituível, contribuindo para criar as
o dinamismo e a especificidade são condições sociais de uma produção,
características de toda e qualquer coletiva, de utopias realistas. Pode
questão social enquanto tal. Por isso, organizar ou orquestrar a pesquisa
também as crises têm reflexo, tanto no coletiva de novas formas de acção
desenvolvimento quanto na decadência, política, de novas maneiras de mobilizar
das mais diversas teorias sociais. e fazer trabalhar conjuntamente as
O antídoto dialético deve, não pessoas mobilizadas, de novas maneiras
obstante, expor uma vigorosa antítese de elaborar projetos, e realizá-los em
à “pretensão, característica da ciência na comum. Pode desempenhar um papel
sua definição positivista e burocrática, de parteiro, dando assistência à dinâmica
de arbitrar estas lutas em nome da dos grupos de trabalho em seu esforço
‘neutralidade axiológica’” 103. Após para exprimir, e ao mesmo tempo
evocar Wright Mills e Theodor Adorno, descobrir, o que são e o que poderiam
como referências de uma ciência ou deveriam ser, e contribuindo na coleta
social crítica, vale a pena retomar uma e acumulação do imenso conhecimento
acutilante reflexão de Bourdieu, sobre social do qual o mundo social está já
a necessidade de superar a perspetiva carregado»104.
do intelectual individual tradicional e Não temos notícia de um
construir um intelectual coletivo orgânico cientista social mais crítico e reflexivo
para enfrentar o presente, sobretudo sobre a relação entre interpretação
após a ofensiva neoliberal de caráter e transformação das sociedades
global que irá marcar a passagem para o humanas do que Florestan Fernandes.
novo século: «Todo o pensamento crítico Por este motivo é com suas palavras
está, portanto, para ser reconstruído, e que encerramos esta secção: “Terei
ele não pode, como se acreditava em encontrado um verdadeiro equilíbrio entre
outros tempos, ser obra de uma só as duas partes do meu ser? Uma resposta
pessoa, o mestre-pensador entregue aos meus anseios revolucionários?
apenas aos recursos de seu pensamento Poderei servir ao proletariado e aos
singular ou porta-voz autorizado por humildes tal como servi à universidade
um grupo ou instituição a transmitir e à ciencia?”.105
a pressuposta palavra das pessoas
sem-palavras. É aí que o intelectual

103. Pierre Bordieu. O poder simbólico. São Paulo: Bertrand, 2005, 151. 
104. Pierre Bourdieu. “Por um conhecimento engajado”. Contrafogos. RJ: Zahar, 2001, p.40. 
105. Florestan, F. Em busca do Socialismo: últimos escritos & outros textos (Org. Osvaldo Coggiola).
São Paulo: Xamã, 1995.  

42 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Resultados Estatísticos INCVTEP Notas

Introdução
Nesta parte do estudo faz-se uma breve apresentação dos mais importantes
dados estatísticos do Inquérito efectuado aos professores de todos os graus de
ensino, com exceção do Ensino Superior, sobre Desgaste na Profissão Docente
em Portugal.

Breve descrição do inquérito


O inquérito está dividido em 4 capítulos:
1. Caracterização Profissional da Actividade Docente
• 20 questões não numeradas
• 10 questões numeradas
2. Desgaste Profissional Docente (Burnout) – 22 questões
3. Desgaste e Indicadores Sociodemográficos – 86 questões
4. Determinantes Sociais do Mal-Estar – 20 questões
Total: 158 questões.

As escalas-Likert (de auto-aplicação) são aqui utilizadas para avaliar grandezas


relativas a desgaste, indicadores sociodemográficos e determinantes sociais do
mal-estar e cansaço, em variações de grau entre um valor mínimo (Nunca) e um
valor máximo (Sempre).

Recolha e tratamento
Nos primeiros seis meses de 2018 foi recolhida a amostra ao questionário anexo.
Os dados foram introduzidos por técnicos dos diversos sindicatos dos professores
e ficaram disponíveis através de um ficheiro de folha de cálculo Excel.
Este ficheiro foi analisado pela equipa científica, apresentando-se aqui as principais
conclusões dos indicadores obtidos.


Constitui um estimador muito rigoroso pois coincide à décima
com a distribuição por sexo do Universo que é conhecido em 2016
(PORDATA).

Resumo da Amostra
• Amostra global inicial 18420 respostas
• Público 16120 (90%)/Privado 1792 (10%)
• Inquéritos completos 15810 (respondendo a todas as questões) em muitos
dos indicadores há mais respostas válidas.
• Norte 6762
• Centro 3562
• Grande Lisboa 3572
• Sul 1894
• Ilhas 2122

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 43


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

… Notas
Os dados são extremamente fiáveis devido à elevadíssima dimensão da
amostra, mesmo descartando inquéritos não totalmente preenchidos.

Erro e confiança das estimativas descritivas em face da dimensão da amostra


• Erro muito baixo dos estimadores descritivos – médias.
• Margem de erro foi sempre menor do que 0.5%.
• A confiança foi sempre de 99% ou superior.

Indicadores descritivos
Professores por sexo
• Em exercício em 2016: 145.549 (PORDATA)
• Homens: 3977 (22.2% da amostra)
• Mulheres 13935 (77.8% da amostra)

Idades dos professores à data do inquérito


• Média 49,5 anos
• Mediana 50,0 anos
• Moda 57 anos
• Desvio padrão 7,9 anos
• Respostas válidas 18338
• Índice de envelhecimento: docentes com 50 ou mais anos por 100 docentes
com menos de 35 anos no país 867,7 em 2016, 669,6 em 2015


• …
Erro
• da média com intervalo de confiança a 99%: 0,08 anos.
Índice de envelhecimento da amostra em 2018: 1495, i.e., um pouco
acima da expetativa extrapolada para 2018, i.e., 1486,8, mas muito em
linha com o valor esperado de crescimento de 31% ao ano.
Médias nacionais em linha com amostra (Pordata e Direcção de
Estatísticas da Educação e Ciência)

44 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


H1 – Histograma das idades dos professores Notas
(Classes de cinco anos até indicada)
Classe Freq.%
3500
20-25 0,19
25-30 0,63
3000 30-35 2,40
35-40 11,71
40-45 17,57
2500
45-50 19,39
Frequência

50-55 21,05
2000 55-60 20,27
60-65 6,51
65-70 0,28
1500
Mais
0,01
de 70
1000

500

0
25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 Mais
Frequência

Tempo de serviço
• Média 24,5 anos
• Mediana 25 anos
• Moda 20 anos
• Desvio padrão 9,33 anos
• Respostas válidas 17398


Erro da média com intervalo de confiança a 99%: 0,18 anos.
Cinquenta por cento dos professores têm mais de vinte e cinco anos de
serviço. Médias nacionais em linha com amostra (PORDATA e Direcção
de Estatísticas da Educação e Ciência)

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 45


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

H2 – Histograma do tempo de serviço Notas


Classes de cinco anos
4000

3500

3000

2500
Frequência

2000

1500

1000

500

0
5 10 20 25 30 35 40 45 Mais
Frequência

Tempo tomado entre casa e escola


• Média 22,4 minutos
• Erro a 99% de confiança 0,4 minutos
• Mediana 15 minutos. Moda 10 minutos
• Respostas válidas 15177

H3 – Histograma
Tempo despendido entre casa e trabalho

6000

5000

4000
Frequência

3000

2000

1000

0
10 20 30 40 50 65 Mais
Classes em minutos

46 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Deslocalização familiar e escola
Notas
• 13,8% dos professores estão deslocalizados das suas famílias
• Erro inferior a 0,5% com confiança a 99%


Pelo menos 18.000 professores estão longe das suas famílias.

Desgaste Profissional (Burnout)


Significado dos índices
• Utilizando as questões 1 a 9 do questionário (questões baseadas em Maslach)
constrói-se o índice de exaustão emocional (IEE) laboral.
• Com as questões 10 a 14, e 22, do questionário (questões baseadas em
Maslach) obtém-se o índice de despersonalização (ID).
• Restantes questões do questionário (questões baseadas em Maslach), i.e.,
15 a 21, dão o índice de realização profissional (IRP).
• Todos os índices foram normalizados entre 0 e 100.

Análise do índice de exaustão emocional (IEE)


• Média 42,6 em 100 pontos
• Mediana 38,9
• Moda 16.7
• Desvio padrão 26,2
• Erro com confiança a 99%: menor do que 0,5
• Respostas válidas 17538

H4 – Histograma Classe Freq. %


Índice de exaustão emocional 0-10 8,8
10-20 14,8
3500
20-30 16,4
30-40 12,1
3000 40-50 12,6
50-60 8,1
2500 60-70 7,4
70-80 8,3
80-90 6,6
2000
Frequência

90-100 5,1

1500

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Classes

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 47


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

… Notas
A análise do gráfico sugere que a distribuição do índice de exaustão
emocional (IEE) entre os professores é uma distribuição de valores
extremos de cauda alongada, o que valida o caráter extremo do índice
de exaustão emocional (IEE) entre os professores.

• 23,6% dos professores não mostram sinais de exaustão emocional, índice


abaixo de vinte
• 28,5% dos professores apresentam alguns sinais de exaustão emocional,
entre 20 e 40
• 20,6% dos professores apresentam sinais preocupantes de exaustão
emocional entre 40 e 60
• 15,6% dos professores têm sinais críticos de exaustão emocional, entre
60 e 80
• 11,6% dos professores estão em exaustão emocional muito definido.

Índice de Despersonalização ID
• Média 13,8 em cem
• Mediana 6,7
• Desvio padrão 17,3
• Nível de confiança 99%, erro menor que 0,5
• Respostas válidas 17538
• 92,4% dos professores têm um índice inferior a 40 pontos, apenas 7,6%
têm ID superior a 40

H5 – Histograma Classe Freq. %


Índice de despersonalização 0-10 62,6
10-20 15,1
20-30 8,4
30-40 5,4
40-50 3,3
15000
50-60 2,3
60-70 1,7
Frequência

10000 70-80 0,8


80-90 0,4
5000 90-100 0,1

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 more
Classes


A esmagadora maioria dos professores não exibem índices de
despersonalização. Isto é, não observam os alunos como “objetos”.

48 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Índice de realização profissional
Notas
• Média 55,2 em 100
• Mediana 56,3
• Moda 16,7
• Desvio padrão 22,5
• Respostas válidas 17538
• Erro com confiança a 99%, menor que 0,5


42,5% dos professores têm IRP abaixo dos 50 pontos

H6 – Histograma Classe Freq. %


Índice de realização profissional 0-10 0,3
10-20 7,7
20-30 9,0
30-40 11,6
40-50 13,9
50-60 12,7
60-70 15,9
70-80 13,9
80-90 10,5
3000
90-100 4,5

2500

2000
Frequência

1500

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Classe

Índice global de Maslach – IGM


Combinando os três índices anteriores obtém-se o índice global de “Maslach”
ou IGM.
• Média 36,9 em 100
• Mediana 36,4
• Moda 38,6
• Desvio padrão 16,8
• Respostas válidas 15177
• Erro com confiança a 99%, menor que 0,18

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 49


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Notas
H7 – Histograma Classe Freq. %
Índice global de Maslach 0-10 5,2
10-20 11,6
20-30 18,4
30-40 23,0
4000 40-50 20,2
50-60 12,3
3000
Frequência

60-70 6,5
70-80 2,4
2000 80-90 0,6
90-100 0,05
1000

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Frequência Classe


Amplo espectro de respostas. A contribuição da despersonalização e
do índice de realização profissional fazem do Índice Global de Maslach
uma distribuição aproximadamente normal.

Fatores sociodemográficos
Índices entre 1 e 5

Burocracia
• Média 4,2 (de 1 a 5)
• Desvio padrão 1
• Erro 0,007 com confiança a 99%
• Mediana 4
• Moda 5
• Respostas válidas 18301


Os professores avaliam, quase TODOS, a burocracia como fator
negativo ou extremamente negativo em seu ofício.

50 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Notas
H8 – Histograma Nível Freq. %
das queixas com burocracia 1 3,34
2 4,87
10000 3 6,34
4 36,80
8000
5 48,65
Frequência

6000

4000

2000

0
1 2 3 4 5 mais
Classes

Indisciplina
• Média 3,5 de 1 a 5
• Desvio padrão 1,23
• Erro 0,009 com confiança a 99%
• Mediana 4
• Moda 4
• Respostas válidas 18301

• …
62%
• dos professores estão preocupados ou extremamente
preocupados com a indisciplina.

H9 – Histograma Nível Freq. %


Preocupação com indisciplina 1 8,16
2 17,93
8000
3 11,33
7000
4 41,39
6000 5 21,18
5000
Frequência

4000
3000
2000
1000
0
1 2 3 4 5 mais
Classe

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 51


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Avaliação de desempenho
Notas
• Média: 2,75 (entre 1 e 5)
• Erro com confiança a 99%, 0,01
• Mediana: 3
• Moda: 2
• Respostas válidas: 18232
• Os professores não vêem a avaliação de desempenho atual como preocupante

Desejo de reforma antes do tempo


• Média: 4,45
• Mediana: 5
• Moda: 5
• Erro: 0,008
• Desvio padrão: 0,97
• Respostas válidas: 15509
• 84% dos professores desejam a reforma antes do tempo (respostas 4 e 5)


84% dos professores anseia pela reforma antecipada se esta não
tivesse qualquer penalização.

H10 – Histograma Nível Freq. %


Desejo de reforma antecipada 1 2,36
2 3,61
15000 3 9,80
4 15,53
Frequência

10000 5 68,70

5000

0
1 2 3 4 5 mais
Nível

52 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Concordância com alteração de regime jurídico da reforma
Notas

H11 – Histograma Nível Freq. %


Desejo de alteração do regime de reforma 1 1,03
2 0,95
15000 3 3,20
4 13,41
Frequência

10000 5 81,41

5000

0
1 2 3 4 5 mais
Bin


94% dos professores anseia por um regime jurídico de reforma
antecipada mais favorável.

Drogas, álcool e medicamentos


• Índice entre 0 e 4, máximo entre os diversos consumos, mede sinais de
preocupação com, pelo menos, um dos consumos
• Média: 0,85
• Erro com confiança a 99%, 0,011
• Mediana e moda: 0
• 15509 respostas válidas

H12 – Histograma
Nível Freq. %
Medicamentos, drogas e álcool
0 64,56

12000 1 11,27

2 5,71
10000
3 11,79
8000
Frequência

4 6,88
6000

4000

2000

0
0 1 2 3 4
Nível

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 53


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

• 18,7% dos professores, com erro de 0,5% e confiança a 99%, tem pelo
Notas
menos um consumo autopercebido como preocupante de um dos fatores
de risco aos níveis 3 e 4
• A maioria destes, i.e., 15,4%, apresenta sobretudo preocupações com o
consumo de medicamentos
• 3,2% apresentam consumos autopercebidos como preocupantes de drogas
e outro tanto com álcool
• A soma não dá os 18,7% porque cerca de 3% apresentam consumos
combinados de álcool, droga e medicamentos


65% dos professores não mostram qualquer preocupação com esta
problemática.

Índice combinado de Stress Laboral


• Questões Q2.1 a Q2.16. Stress Laboral sobre a profissão docente.
• Este índice está normalizado entre 0 e 100.
• Combina ameaças como:
• Segurança no trabalho, violência e vandalismo pelos alunos, indisciplina,
insucesso, bloqueio profissional, salários insuficientes, isolamento, conflitos
com hierarquia, contactos negativos com pais e encarregados de educação,
imagem pública, falta serviços e apoios profissionais e pessoais, encerramento
de escolas, cortes orçamentais, carga de trabalho fora de horas, tarefas aos
fins-de-semana.
• Média: 61,7; Mediana: 62,5; Moda: 64
• Desvio padrão: 18,3
• Respostas válidas: 15509
• Erro com confiança a 99% menor do que 0,5


57% dos professores sentem um stress laboral elevado sobre a
profissão docente.

54 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


H13 – Histograma Notas
Classe Freq. %
Stress Laboral 0-10 0,36
10-20 1,19
20-30 3,91
30-40 6,71
3500 40-50 14,88
50-60 17,56
3000
60-70 19,71
2500 70-80 19,49
80-90 10,65
Frequência

2000 90-100 5,55

1500

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Classe

Índice de qualidade sociodemográfica


• Tratámos as questões Q2.17 a Q2.86. Contabilizámos apenas os factores
sociodemográficos positivos, IQS
• Normalizado entre 0 e 100
• Combina dados como:
• Criatividade e espírito de equipa, recursos positivos, desempenho elevado,
disponibilidade das hierarquias, realização, participação nas decisões,
informações adequadas, autonomia e apoio da estrutura, boa organização
do tempo e horários, previsibilidade, motivação dos alunos etc.

Indicadores
• Média; 50; mediana: 51; moda: 51
• Erro menor do que 0,25 com confiança a 99%
• Desvio padrão: 13,22
• Distribuição equilibrada e normal

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 55


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

H14 – Histograma Notas


Qualidade sócio-demográfica
5000

4500

4000

3500
Frequência

3000

2500

2000

1500

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Bin

Índice de desconforto sociodemográfico


• Questões Q2.17 a Q2.86. Factores negativos IDS
• Normalizado entre 0 e 100
• Combina dados como:
• Carências de recursos, falta de clareza das responsabilidades, falta de
autonomia, hierarquias mal definidas, incompetentes, desautorizadoras ou
autoritárias, burocracia, falta de envolvimento social, ansiedade, insatisfação,
consumos de substâncias perigosas, má vida pessoal, imprevisibilidade,
reforma longínqua, obrigações inadequadas, stress, desinformação, exigências
incomportáveis, insegurança, etc…

Indicadores:
• Média: 63,6; mediana: 64; moda: 67
• Erro menor do que 0,25 com confiança a 99%
• Desvio padrão: 14,9


Distribuição equilibrada e normal, mas com média de 63,6 em 100.

JORNAL
56 DA FENPROF | SETEMBRO 2018 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018
H15 – Histograma Notas
Desconforto sociodemográfico
4500

4000

3500

3000
Frequência

2500

2000

1500

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Classes

Índice de balanço sociodemográfico


• Questões Q2.17 a Q2.86. Combina todos os factores, positivos e negativos
• Pondera IQS e IDS
• Normalizado entre 0 e 100
• Factores de conforto entram de forma negativa e os de desconforto de forma
positiva, ponderados ao número de questões

Indicadores
• Média: 51,2; mediana: 51,5; moda: 53,2
• Erro menor do que 0,12 com confiança a 99%
• Desvio padrão: 11,4


Distribuição equilibrada e normal, mas com mais de 50% dos
professores a sentirem-se desconfortáveis na profissão.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 JORNAL DA FENPROF | SETEMBRO 2018


57
Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Notas
H16 – Histograma
Balanço sociodemográfico
6000

5000
Frequência

4000

3000

2000

1000

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Classes

Determinantes do Mal-Estar – Q3
• Com as 20 questões Q3, que medem cansaço físico e psíquico, obtém-se
um índice de cansaço entre 0 e 100 pontos
• Média: 55; Mediana: 55; Moda: 50
• Erro menor do que 0,25 com confiança a 99%.
• 17497 respostas válidas.
• Desvio padrão: 18,8.


Mais de 50% tem índices elevados de cansaço.

H17 – Histograma Classe Freq. %


Cansaço 0-10 1,15
10-20 2,75
4000
20-30 6,24
3500 30-40 11,67
40-50 19,02
3000
50-60 20,50
2500 60-70 17,90
Frequência

70-80 12,26
2000 80-90 5,23
1500 90-100 3,28

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Classe

58 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Comparação entre mal-estar, cansaço e IEE Notas

H18 – Histograma
Colunas: esquerda, IEE; direita, cansaço
4000

3500

3000

2500
Frequência

2000

1500

1000

500

0
10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 mais
Classe


Da análise gráfica conclui-se que os professores estão mais cansados
do que exaustos emocionalmente, mas a expressão gráfica pode ser
algo enganadora, pois uma é uma estatística de valores extremos e
outra é aproximadamente normal.

Correlações entre variáveis do Estudo


• (Entre – 0.3 e 0.3 não há correlação)
• Utilizámos o coeficiente de correlação ordinal de Spearman, o que é justificado
porque estamos a classificar escalas de preferências e não variáveis numéricas
contínuas


Nota – efectuámos os cálculos com os coeficientes de Spearman
(ordinal) e de Pearson (covariante) e dão resultados muito
concordantes.

Cansaço, mal-estar e IEE


• Existe correlação entre cansaço e IEE no valor de 0,77 (Spearman), valor
relativamente elevado
• Existe correlação (Spearman) baixa entre energia e realização profissional
de 0,31
• Existe correlação (Spearman) entre IEE e despersonalização no valor de 0,55,
valor médio que indica alguma dependência das duas variáveis

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 59


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Diversas correlações entre variáveis pertinentes


Notas
• Correlação entre IEE e professores afectados por indisciplina: 0,32, existe
alguma correlação, que foi investigada no teste de hipóteses
• Correlação entre IEE e salário 0,209 (baixa, mas existe dependência não
linear, ver T.H.)
• Correlação entre IEE e precariedade 0,104, não existe correlação, ver testes
de hipóteses
• Correlação entre IEE e burocracia 0,24, investigada no teste de hipóteses
• Correlação entre IEE e falta de acompanhamento de alunos: 0,316 (ver mais
em testes de hipóteses)
• Correlação entre IEE e exigência de reforma mais cedo: 0,381 (indica
dependência, ver mais em testes de hipóteses)
• Correlação entre IEE e álcool, drogas e medicamentos: 0,271 não significativa,
(investigada em testes de hipóteses)
• IEE e imagem pública: 0,268
• IEE e avaliação de desempenho: 0,226
• Idade e IEE: 0,21 (Ver testes de hipóteses)
• Tempo de serviço e IEE 0,22, muito parecidada com idade vs. IEE
• Não há correlação alguma entre idade e realização profissional, área de
residência e IEE, estar perto ou longe da família e IEE, tempo que se demora
a chegar ao trabalho e IEE, estabilidade no emprego e IEE, carga horária e IEE

Testes de hipóteses
Testes elaborados usando tabelas de contingência e testes de Chi-quadrado.
Utiliza-se o conceito de p-value. Quanto mais baixo é este valor, mais validade fica
a hipótese diferenciadora (H1) em estudo. Rejeitamos a hipótese diferenciadora
quando o p-value é maior ou igual a 0,05.
Algumas hipóteses confirmam dependência, mas não linear, o que seria indicado
pela correlação de Pearson.
Resulta mais clara a relação com o Índice de Exaustão emocional (IEE) do que com o
índice global de Maslach, IGM. Nos próximos cruzamentos utilizaremos este índice que
nos parece mais fiável para entender a situação da classe profissional dos docentes
em Portugal. No entanto, os cruzamentos com o IGM dão resultados idênticos.

TH1 – Álcool, drogas ou medicamentos vs. Índice de Exaustão emocional (IEE)


• Testámos a hipótese de que não existe qualquer relação entre estas
dependências e as variáveis indicadoras de burnout, neste caso o Índice de
Exaustão emocional (IEE). Hipótese Ho.
• Contra a hipótese de existir dependência entre álcool, drogas e IEE, hipótese H1.
• Normalizámos o IEE em 7 patamares de 0 a 6
• Dividimos o coeficiente de consumos de substâncias em 5 patamares de 0 a 4
• Usámos um teste de chi quadrado com (7-1)x(5-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi quadrado=1520, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada


Há fortíssima dependência entre consumos de álcool, drogas ou
medicamentos com o Índice de Exaustão emocional (IEE) nos
professores. TH1 positiva.

60 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


TH2 - Burocracia Q2.29 vs. IEE
Notas
• Normalizámos o IEE em 7 patamares de 0 a 6
• Criámos um coeficiente de preocupação com burocracia em 5 patamares de 1 a 5
• Usámos um teste de chi quadrado com (7-1)x(5-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi quadrado=2360, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada


Há uma fortíssima dependência entre a preocupação burocrática
funcional com IEE nos professores. TH2 positiva.

TH3 - Indisciplina Q2.2 Q2.3 e Q2.57


• Normalizámos o IEE em 7 patamares de 0 a 6
• Dividimos o coeficiente de preocupação burocrática funcional em 5 patamares de 1 a 5
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (7-1)x(5-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=2141, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada


Há uma fortíssima dependência entre a preocupação com a indisciplina
e o IEE nos professores. TH3 positiva.

TH4 - Preocupação com falta de acompanhamento dos alunos Q2.74 vs. IEE
• Metodologia igual aos casos anteriores
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (7-1)x(5-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=2096, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada


Há uma fortíssima dependência entre a preocupação com a falta de
acompanhamento dos alunos e o IEE nos professores. Th4 positiva.

TH5 - Reforma antecipada Q2.86 vs. IEE


• Metodologia igual aos casos anteriores
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (7-1)x(5-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=3071 (Gigantesco), p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 61


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

… Notas
Há uma fortíssima dependência entre o desejo de reforma antecipada e
o IEE nos professores. TH5 positiva.

TH6 Salário Q2.6 vs. IEE


• Metodologia igual aos casos anteriores
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (7-1)x(5-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=870, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada


Há uma forte dependência entre a queixa salarial e o IEE nos
professores. TH6 positiva.

TH7 - Género vs. Índice de exaustão emocional (IEE)


• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 2 sexos e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (7-1)x(2-1)=6 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=11.6, p-value=0.07
• Conclusão: a hipótese nula Ho não pode ser rejeitada pois p>0.05


Não há qualquer dependência entre distinção de género e IEE. TH7
negativa.

TH8 - Idade vs. IEE


• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 7 classes etárias e
7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (7-1)x(7-1)=36 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=1005, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada


Há dependência entre idade e IEE
A classe centrada nos 60 anos tem mais IEE do que o esperado e a
classe centrada nos 40 anos está ainda invulgarmente fresca, com
índice de IEE abaixo do esperado. TH8 positiva.

TH9 Região vs. Índice de exaustão emocional (IEE)


• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 6 regiões e 7 níveis
de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (6-1)x(7-1)=30 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=382, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada

62 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


… Notas
Há dependência entre região e IEE
As regiões Centro e Norte exibem taxas de IEE muito elevado, Sul
acima da média e Grande Lisboa, Açores e Madeira, taxas baixas. TH9
positiva.

Esta relação entre IIE e região tem a ver com a idade. Vejamos:
• Média de idades nos Açores: 45,7 anos, erro 0,25, com confiança a 99%
• Média de idades no Centro: 51,15 anos, erro 0,12, com confiança a 99%
• Média de idades na Grande Lisboa: 48,8 anos, erro 0,14, com confiança a 99%
• Média de idades na Madeira: 46,6 anos, erro 0,22, com confiança a 99%
• Média de idades no Norte: 50,2 anos, erro 0,09, com confiança a 99%
• Média de idades no Sul: 49,3 anos, erro 0,17, com confiança a 99%


Há dependência entre região e IEE
Existe maior IEE onde a média de idades é superior, o que faz entender
melhor a disparidade regional. A variável significativa é a idade.

TH10 - Habilitação
• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 6 tipos de habilitação
e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (6-1)x(7-1)=30 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=105, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada


Há dependência entre habilitação e IEE. Os mestres têm baixos níveis
de IEE, e são mais jovens, enquanto os licenciados e bacharéis, mais
velhos, exibem níveis elevados de IEE. TH10 positiva.

TH11 - Público – Privado vs. IEE


• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 3 tipos de situação
(público, privado e não responde) e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (3-1)x(7-1)=12 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=912, p-value aprox. 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada


Há dependência entre tipo de situação e IEE. As escolas públicas
exibem um muito maior nível de IEE do que as privadas incluídas na
amostra. TH11 positiva.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 63


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

TH12 – Proximidade de residência relativamente à escola vs. IEE


Notas
• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 3 tipos de situação
(próximo, fora da área de residência e não responde) e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (3-1)x(7-1)=12 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=42,7, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada.


Há dependência entre tipo de situação e IEE. Existe uma aparente
surpresa: os professores mais próximos de casa têm maior nível de IEE
(explica-se porque têm maior idade). TH12 positiva.

TH13 - Afastamento familiar vs. IEE


• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 2 tipos de situação
(junto e fora da família) e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (2-1)x(7-1)=6 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=2,69, p-value aproximadamente 0.85
• Conclusão: a hipótese nula Ho não pode ser rejeitada


Não há dependência entre tipo de situação e IEE. Apesar de 13.8% dos
professores estarem afastados da família, i.e., nunca menos de 18.000,
estes ainda não sofrem de IEE excessivo. TH13 negativa.

TH14 - Precariedade e Quadro vs. IEE


• Metodologia igual aos casos anteriores; considerámos 3 tipos de situação
(QE/QA, QZ, Contratado/a) e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (3-1)x(7-1)=12 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=510, p-value aproximadamente 0.000
• Conclusão: a hipótese nula Ho é fortemente rejeitada


A amostra relevante é de 17.748, uma vez que há algumas não
respostas a esta questão, com confiança a 99% e erro inferior a 0,35%.
Cerca de 12% dos professores são contratados, no entanto estes
não estão em exaustão. A contribuição para o IEE deve-se aqui aos
professores em QE/QA, mais velhos. Os professores em quadro de
zona também não contribuem positivamente para o índice de exaustão
emocional. TH14 positiva.

TH15 - Tempo de serviço vs. IEE


• Metodologia igual, considerámos 48 patamares de tempo de serviço, um
por ano, e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (48-1)x(7-1)=282 graus de liberdade

64 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


• Resultado: Chi-quadrado=1382, p-value aproximadamente 0.000 (cc. 10-300)
Notas
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada


Os professores com mais tempo de serviço têm maior índice de
exaustão emocional. Os professores portugueses com maior idade
apresentam maior Índice de Exaustão emocional. TH15 positiva.

TH16 - Conflitos com direcção (Q2.8) vs. IEE


• Metodologia igual; considerámos 5 patamares de preocupação de conflitos
com a direcção e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (5-1)x(7-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=593, p-value aproximadamente 0.000 (cc. 7.8x10-110)
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada
• Há dependência entre tipo de situação e IEE


Quanto maior a existência de conflitos com a direcção, maior o Índice
de Exaustão emocional. TH16 positiva. TH16 positiva.

TH17 - Criatividade (Q2.18) vs. IEE


• Metodologia igual; considerámos 5 patamares de liberdade criativa, e 7
níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (51)x(7-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=519, p-value aproximadamente 0.000 (cc. 1,7x10-94)
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada
• Há dependência entre tipo de situação e IEE


Quanto maior a percepção de criatividade menor o Índice de Exaustão
emocional. TH17 positiva.

TH18 - Independência na definição de tarefas (Q2.44) vs. IEE


• Metodologia igual; considerámos 5 patamares de independência e 7 níveis de IEE
• Usámos um teste de Chi-quadrado com (5-1)x(7-1)=24 graus de liberdade
• Resultado: Chi-quadrado=406, p-value aproximadamente 0.000 (cc. 3,4x10-71)
• Conclusão: a hipótese nula Ho é rejeitada
• Há dependência entre tipo de situação e IEE


Quanto maior a perceção de independência, menor o Índice de
Exaustão Emocional. TH18 positiva.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 65


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Resultados do INCVTE: Notas


contributo para uma análise crítica
76,4% dos professores portugueses e o IEE nos professores – registe-se o
apresentam sinais de esgotamento desejo expresso de 84% dos professores
emocional. Destes 20,6% apresentam de se reformarem/aposentarem antes
sinais preocupantes de esgotamento do tempo legalmente estabelecido sem
emocional, 15,6% dos professores penalizações salariais.
têm sinais críticos de esgotamento Entre os factores determinantes
emocional, e 11,6% dos professores relacionais que resultam dos dados do
estão em esgotamento emocional inquérito já estudados por nós (existem
pronunciado. Se olharmos o Índice outras variáveis do inquérito de 158
de desrealização (IRP) verificamos um questões que ainda estão em estudo,
amplo espectro de respostas, e um reiteramos) está inequivocamente o
sector com níveis preocupantes: 42,5% cansaço, a idade dos professores, a
dos professores têm IRP abaixo dos 50 burocracia, a indisciplina, a hierarquia
pontos. rígida e a falta de criatividade. A hipótese
Um dos resultados mais evidentes mais plausível explicativa desta relação,
deste estudo é a existência de uma ainda em estudo na sua totalidade, é
relação fortíssima entre exaustão uma dissociação entre as expectativas
emocional (IEE) e a idade dos docentes. de trabalho com autonomia, criatividade
Sendo que a partir dos 55 anos esse e direitos laborais e a real degradação
valor atinge valores próximos de 70. progressiva das relações de trabalho e
O sector centrado nos 60 anos tem vida nas escolas bem como o declínio
assim mais IEE do que o esperado. E das expectativas em relação ao futuro.
a classe centrada abaixo dos 40 anos Este estudo recai analiticamente
um valor muito inferior aos 50 pontos sobre os docentes em Portugal.
(ver TH8). Os professores com mais Portugal tem uma história peculiar no
tempo de serviço têm maior índice de campo europeu, é o último país da
esgotamento emocional. Estes dados Europa ocidental a viver um processo
ajudam a confirmar que os professores revolucionário social (1974-1975). Este
com maior idade têm maior Índice de factor é essencial (embora insuficiente
Esgotamento Emocional. Há ainda uma per si), para explicar na actualidade
dependência entre região territorial e todos os estudos do campo do trabalho.
IEE que confirma esta hipótese – existe Porque nesse biénio alargaram-se as
maior IEE onde a média de idades é barreiras do possível, isto é, o espectro
superior, como na região Centro, o da autodeterminação aumentou.
que faz entender melhor a disparidade Ou seja, não analisamos só o
regional (ver TH9). A variável significativa adoecimento depois da restruturação
é claramente a idade, e não a região. produtiva nos anos 90 do século XX106
Não surpreende em decorrência – algo que os professores portugueses
que há uma expressiva dependência têm em comum com outros docentes
entre o desejo de reforma antecipada de outros países107 –, mas o trabalho

106. Ursula Huwns, Labor in the Global Digital Economy: The Cybertariat Comes of Age, New York, NYU
Press, 2014. 
107. Entre as dezenas que se pdoem citar ver por exemeplo, SKAALVIK, Einar M. SKAALVIK, Sidsel,
«Teacher self-efficacy and teacher burnout: A study of relations. Teaching and Teacher Education, 26(4),
pp. 1059-1069; FASKHODI, Arefe Amini, SIYYARI, Masood, «Dimensions of Work Engagement and
Teacher Burnout: A Study of Relations among Iranian EFL Teachers», Australian Journal of Teacher
Education, Volume 43 | Issue 1 Article 5, 2018, pp. 77-92; Etminan, E. (2014). The tragic endpoint of
teaching profession: A comparative study of job burnout among Iranian EFL teachers (Unpublished

66 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


docente realizado no contraste entre década, os planos neoliberais com
Notas
hoje e uma experiência historicamente a revolução.
excecional (a Revolução dos Cravos),
2) 1976-1986/1990. A segunda fase é
experiência onde o campo do trabalho
marcada pela gestão burocrática,
foi o setor cimeiro de uma mudança
a consolidação da democracia
social de grande folego.
representativo-liberal, mas ainda
No campo da educação em Portugal
com espaços de mediações entre
desde o 25 de Abril aos dias de hoje,
o poder e seus subordinados, que
período que grosso modo cobre o
decorre entre 1976 e o fim da
universo de professores cujas condições
década de 80. Escola que neste
laborais foram estudadas neste inquérito
período já tendia de facto à ausência
(à data do inquérito a média de idade era
de autonomia (embora o discurso
de 49,5 anos, 50% dos professores tem
fosse o «das reformas em nome
mais de 25 anos de serviço), observamos
da autonomia»109). Neste período
assim quatro fases na alteração do mundo
ainda é determinante a crise política
do trabalho nas escolas que vão modificar,
do Estado e as consequências da
no curto e médio prazo, as condições de
revolução, deixando aos professores
trabalho e vida dos professores desde o
fim da ditadura (1974) aos nossos dias, uma ampla autonomia, mesmo que
que se prendem com fatores internos não enquadrada pela legalidade.
e externos. Estes são essenciais para 3) Anos 90. A fase seguinte é marcada
explicar, na nossa opinião, os resultados pela restruturação produtiva, depois
do estudo: da entrada de Portugal na CEE110.
1) 1974-1975. As alterações Estas mudanças dos anos 90
fundamentais são a ampliação do do século XX consubstanciaram
espectro da auto-determinação uma alteração qualitativa, uma
com o período revolucionário (1974- rotação das políticas educativas
1975), à revelia do retrocesso que para o mercado. Mercado desigual,
em muitos países começava a obstaculizando o desenvolvimento
ter início com a educação a ser pedagógico e o ensino universal,
paulatinamente orientada para a quartando o valor da segurança111,
produção de “capital humano” no com empregos precários e pensões
quadro da globalização108. Portugal ameaçadas; neste período também
adiou, por pelo menos uma entram nas escolas contingentes de

master’s thesis). University of Tehran, Tehran, Iran; Fisher, M. H. (2011). Factors influencing stress,
burnout, and retention of secondary teachers.Current Issues in Education, 14(1). Retrieved from http://
cie.asu.edu/; Freudenberger, H. J. (1974). Staff burnout. Journal of Social Issues, 30(1), 159-165. https://
doi.org/10.1111/j.1540-4560.1974.tb00706.x
Gonzalez-Roma, V., Schaufeli, W. B., Bakker, A. B., & Lloret, S. (2006). Burnout and work engagement:
Independent factors or opposite poles. Journal of Vocational Behavior,
68(1), 165-174. https://doi.org/10.1016/j.jvb.2005.01.003
Grayson, J. L., & Alvarez, H. K. (2008). School climate factors relating to teacher burnout: A mediator
model. Teaching and Teacher Education, 24(5), 1349-1363. https://doi.org/10.1016/j.tate.2007.06.005;
Hakanen, J. J., & Schaufeli, W. B. (2012). Do burnout and social engagement predict depressive symptoms
and life satisfaction? A three-wave seven-year prospective study. Journal of Affective Disorders, 141,
415-424. https://doi.org/10.1016/j.jad.2012.02.043
108. Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016; Roberto Leher, «A
Ideologia da Globalização na política de formação profissional brasileira», Revista Trabalho e Educação,
vol 4, 1998, pp. 117-134.
109. Licínio Lima, «A democratização do governo das escolas públicas em Portugal», Sociologia, 2009,
FLUP, pp. 227-253.
110. Raquel Varela, Breve História da Europa, Lisboa, Bertrand, 2018.
111. BRANCO, Manuel Coret, Economia Política dos Direitos Humanos, Évora, Edições Sílabo, 2012.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 67


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

professores que não experienciaram em que a progressão na carreira


Notas
o período revolucionário. Nesta fase estava impossibilitada “estavam
ainda são introduzidas alterações congeladas”), que cria na escola
nas carreiras que tendem a proteger um mecanismo de competição,
os mais velhos com direitos mas vigilância, e intimidação entre
não as asseguram aos mais colegas, pulverizando a cooperação.
novos, mantidos na incerteza Este último período é ainda marcado
da precariedade que obstaculiza – e este não é um facto secundário
projectos de vida independentes. nas dimensões do adoecimento –
Isso gerou uma ampliação da por uma meta narrativa distópica113,
divisão no seio dos professores. em que o capitalismo se apresenta
4) De 2008 aos nossos dias. Esta através dos seus aparelhos de
última fase é marcada pela gestão hegemonia (Escola, TV, Jornais,
autoritária, que veio agregada, pela etc), como um projeto presentista,
primeira vez na história do país sem futuro, onde o crescimento
desde a revolução, a 1) cortes das desigualdades sociais e a
salariais directos nos docentes, crise social, política e ecológica
congelamento da carreiras e são apresentadas como inevitáveis.
cortes na segurança social Neste quadro a identidade grupal,
(cortes salariais indirectos112); 2) do setor, já em esboroamento pela
o desenlace deste novo modus competição – método preferencial
operandi, que reintroduz a figura do da atual forma de gestão –, dá-se
director, é por um lado a acentuada a pari passo com uma identidade
proletarização dos professores, distópica da sociedade global.
mesmo o das gerações mais
velhas até aqui protegidos pelo Segundo alguns autores os
pacto social – com diminuição quer professores têm um risco aumentado
do salário quer da autonomia de de sofrer de problemas de saúde
trabalho – e a total adequação mental quando comparados com outras
da escola ao mercado global e profissões114. Queremos indicar que
flexível, com a municipalização os constrangimentos que resultam
e a flexibilização curricular; 3) a das condições de trabalho (o ambiente
divisão entre professores titulares físico de trabalho) têm essencialmente
e os restantes, sendo que estes repercussões no organismo e causam
são obrigados a avaliar os colegas danos e lesões corporais específicas
numa carreira afunilada com limite que se traduzem amiúde em
de quotas de acesso às avaliações doenças ocupacionais/profissionais
de Muito Bom e Excelente. Neste (envenenamento, cancro por exposição
período tem especial relevância ao amianto ou outros agentes tóxicos).
a avaliação de desempenho (que Estas doenças são o objeto tradicional
no inquérito não é vista como da medicina do trabalho. O adoecimento
um sinal preocupante porque, dos professores em Portugal é pois
cremos, foi realizado numa altura resultado de múltiplos fatores, individuais

112. VARELA, Raquel, A Segurança Social é Sustentável, Lisboa, Bertrand, 2013; RAMOS, Pedro Nogueira,
Torturem os Números que eles Confessam, Coimbra, CES, Almedina, 2014.
113. Bryan Palmer, «Velhas Posições/novas necessidades: história, classe e metanarrativa marxista», In
Wood e Foster, Em Defesa da História, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1997, pp. 74-83.
114. MOLINA, Mariane Lopez et al. Well-being and associated factors among elementary school teachers
in southern Brazil. Rev. CEFAC [online]. 2017, vol.19, n.6 [cited  2018-10-10], pp.812-820. Available from:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-18462017000600812&lng=en&nrm=i
so>. ISSN 1982-0216.  http://dx.doi.org/10.1590/1982-021620171962217.

JORNAL
68 DA FENPROF | SETEMBRO 2018 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018
também, e muitos deles, mesmo no trabalho e subjectividade, como já
Notas
campo coletivo permanecem em estudo, referimos (ver Estado da Arte). Graças
e alvo de dúvidas. Não podemos, porém, aos trabalhos desenvolvidos nesta área,
iniciar uma análise destes dados sem sabemos hoje identificar uma série de
os correlacionar com as mudanças da factores implicados na génese do prazer
organização do trabalho e da própria e/ou do sofrimento no trabalho, assim
sociedade capitalista. As condições de como a etiologia das principais entidades
trabalho, classicamente analisadas pela psicopatológicas relacionadas com o
ergonomia, pela medicina do trabalho, trabalho. As evoluções recentes do
pela toxicologia industrial, etc. constituem mundo do trabalho, e os seus efeitos
um dos objetos da Segurança e saúde em termos clínicos, levaram-nos a
no Trabalho (SST). distinguir, de forma algo esquemática,
Quando nos interessamos pela dois grandes conjuntos de patologias
questão da saúde mental no trabalho, mentais relacionadas com o trabalho:
para além das condições de trabalho, • As patologias de sobrecarga
devemos igualmente interessar-nos por • As patologias da solidão 
uma outra vertente: a organização do É muito mais provável, estamos
trabalho. Esta última é caracterizada, convencidos que esta é a conclusão
de modo sumário, por três dimensões: inicial cimeira deste estudo, que o fator
• A divisão das tarefas e a definição cansaço e idade sejam secundários no
do conteúdo do trabalho; quadro de burnout face a, citando Goethe
• A prescrição de objetivos e em Afinidades Electivas, não «utilizar,
dos métodos que o trabalhador deve diariamente e a qualquer hora, para
empregar para os atingir (através de benefício dos outros, a multiplicidade
descritivos funcionais, da caracterização de talentos que ele desenvolveu dentro
dos postos de trabalho e dos modos de si», isto é a dissociação entre as
operatórios); expetativas criadas e as efetivamente
• A repartição dos trabalhadores vividas ao longo de um tempo na escola
através da hierarquia, os modos de que foi transformado e transformou os
comunicação e as relações de subordinação professores.
que organizam as relações profissionais. O país que se deixa para trás no 25
Todas estas dimensões da de Abril é o Portugal profundo, atrasado,
organização do trabalho afetam a vivência de Salazar. A industrialização dos anos
do trabalho, pois determinam logicas de 60 vai, mesmo no quadro de ditadura,
pertença e de afiliação a certos grupos, de levar a burguesia e as elites dirigentes a
reconhecimento, de poder, etc. Portanto, tomar a iniciativa de introduzir alterações
enquanto as condições de trabalho têm na educação. Durante a década de 60
repercussões na saúde do corpo, a e início da década de 70 do século XX
organização do trabalho tem efeitos no há alterações económicas mundiais
funcionamento psíquico dos sujeitos. que modificam a estrutura de classes
Para percebermos o sofrimento e das sociedades da Europa do Sul e
os distúrbios psicológicos relacionados consequentemente a educação – falamos
com o trabalho, devemos portanto de contrariar a baixa tendencial da taxa
interessar-nos pela organização do de lucro através da exploração intensiva
trabalho e pelo seu impato, positivo, nuns do trabalho à escala mundial. Este fator
casos, negativo, noutros, no equilíbrio vai impulsionar a industrialização dos
mental dos indivíduos. A psicodinâmica países periféricos e semiperiféricos, com
do trabalho, uma disciplina científica o consequente crescimento da classe
nascida em França na década de 90, operária industrial e do setor terciário
dedica-se especificamente ao estudo e a diminuição da classe camponesa,
das interações entre organização do num processo de crescente urbanização

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 JORNAL DA FENPROF | SETEMBRO 2018


69
Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

e desruralização115. É num quadro de quadro pequenas mudanças em 1965,


Notas
expansão do modo de produção como o alargamento da escolaridade
capitalista116 que se devem compreender obrigatória de 4 para 6 anos (para
as transformações económicas que alunos do sexo masculino), criação da
levaram à mudança do panorama social telescola (escola por difusão em rádio
e político de Portugal na década de 60 e TV). Em 1973, é aprovada a reforma
do século XX. Com a intensificação da educativa de Veiga Simão que introduz
industrialização, as cidades aumentam algumas inovações: a educa~ç~ão pré-
desordenadamente e com muitos bairros escolar é incluída no sistema de ensino,
de lata onde se albergam os que partiram a escolaridade obrigatória passa de 6
dos campos. Estas alterações vão originar para 8 anos.
paulatinamente uma grande concentração Pese embora o maior acesso à
da classe operária portuguesa nas duas escola, ditado pela própria exigência
margens do rio Tejo, junto a Lisboa e das classes dominantes a braços com
no distrito de Setúbal. O país muda. A escassez de força de trabalho pela
população ativa rural passa de 44% em combinação de industrialização, guerra
1960 para 28% em 1973, ao mesmo e migrações, realizado nos anos 60, esta
tempo que a população ativa industrial é porém e ainda uma escola elitista. Que
passa de 29% para 36%117. Em 1970, três nos deixa mesmo assim na cauda da
quartos da população ativa é assalariada. Europa, apartados do mundo civilizado.
Mais de 2/3 dos trabalhadores da indústria Apesar da obrigatoriedade do ensino ser
(67,4%) concentravam-se em unidades de 6 anos desde 1965, em 1974 cerca
fabris com mais de 20 pessoas. Santos et de 26% da população é analfabeta, 85%
al118 afirmam que houve um alargamento das crianças com idades compreendidas
da classe operária, entre 1950 e 1970, de entre 6 e 10 anos frequentavam
768 000 para 1 020 000, isto num quadro apenas o 1º ciclo (os primeiros 4 anos
de verdadeira sangria de mão-de-obra de escolaridade) e apenas 28% das
com destino aos países mais ricos da crianças com idades entre os 10 e 12
Europa Ocidental (1 milhão e meio de anos encontram-se matriculadas no 2º
pessoas abandonaram o País entre 1950 ciclo (os 5º e 6º anos de escolaridade)119.
e 1970). É também na década de 60 que Só «quem tinha dinheiro», dizia-se nos
as mulheres «acedem, maciçamente, meios populares, podia estudar e não
ao trabalho industrial, agrícola e dos existiam escolas nem professores em
serviços». Há uma mudança geracional grande parte das zonas rurais.
face ao período do pós-guerra: uma classe Do ponto de vista da direção a
operária jovem, que se torna adulta já na escola não muda à revolução, ao 25 de
cidade, que trabalha mais e com nova Abril de 1974. É dirigida por um reitor, um
organização do trabalho e racionalização docente, que estava à frente da escola
do processo produtivo. e era da total confiança do Governo e
O sistema educativo sofre neste do regime da ditadura (1926-1974). Esta

115. BARRETO, António. Mudança Social em Portugal: 1960-2000. In PINTO, Costa. Portugal Contemporâneo.
Lisboa: D. Quixote, 2005.
116. SANTOS, Maria de Lurdes, LIMA, Marinús Pires de, FERREIRA, Vítor Matias. O 25 de Abril e as
Lutas Sociais nas Empresas. Porto: Afrontamento, 1976, 3 volumes, p. 8.
117. CLEMENTE, Eloy Fernández, «Problemas y Ritmos de la Modernización Económica Peninsular en
el Siglo XX». In GÓMEZ, Hipólito de la Torre (ed), Portugal Y España Contemporáneos, Ayer, Madrid:
Marcial Pons 2000, p. 203.
118. SANTOS, Maria de Lurdes, LIMA, Marinús Pires de, FERREIRA, Vítor Matias. O 25 de Abril e as
Lutas Sociais nas Empresas. Porto: Afrontamento, 1976, 3 volumes.
119. 50 anos de Estatística da Educação. Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação e Instituto
Nacional de Estatística, Lisboa, 2009.

70 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


questão de poder vai sofrer alterações um mês conseguiu que “a Dona Rosa
Notas
radicais nos dias imediatos ao 25 de tivesse recebido uma carta do filho que
Abril – falamos dos dias seguintes, em estava em França e leu-a. Compreendi aí
que muitos desses diretores, acusados que a vida só fazia sentido se podemos
de colaboração com a PIDE/DGS ou de viver para e com os outros”. Foi, conta
medidas de repressão e perseguição dos em lágrimas, o “período mais bonito da
docentes, funcionários e alunos tomam minha vida”.124
eles mesmo a decisão de fugir das Um amplo consenso nacional – a
escolas. Estes diretores são substituídos que se opunha apenas uma minoria –
por comissões diretivas ou de gestão exigia utilizar o orçamento da guerra
que são eleitas quase sempre em no combate ao analfabetismo e na
plenários democráticos120 e com mandato educação do povo125. Depois, dentro das
revogável121. Ao contrário da descrição escolas, variáveis de poderes estavam
ideológica de “caos” dos setores mais colocadas entre uma miríade de partidos
avessos politicamente à revolução122 de esquerda: entre os estudantes do
na realidade o que observamos é uma liceu, o momento mais radical está na
capacidade de inovação e adaptação greve de Fevereiro e Março de 1975 que
ímpares na história do país com os rejeita a lei de gestão de 1975 aprovada
professores a assumirem a gestão das pelo Governo, por considerarem que é
escolas dando um impulso qualitativo antidemocrática, e não aceitarem que
no campo da melhoria de condições haja notas mínimas para se dispensar
objetivas, pedagógicas e científicas dos exames e não considerarem as faltas
inédita, isto com escassez de meios, eliminatórias. Iniciam, a 17 de fevereiro,
falta de professores, instalações, etc. uma greve geral que se prolonga pelo
No auge da revolução assiste- mês de março. A 1 de março o ministro
-se ainda a medidas paliativas mas da Educação, Rodrigues de Carvalho,
fundamentais para um país atrasado como declara que a greve «é de ordem política,
a Campanha de Alfabetização e Educação a julgar pelos aspectos que se estão a
Sanitária, que está presente em 100 revelar no meio da confusão que reina no
localidades de 3 distritos e envolve 10 000 ensino secundário»126. Tratava-se agora
estudantes, médicos e enfermeiros123. de gerir a «escola em movimento» sem
Era preciso uma sociedade igual e livre dúvida com fortes tensões e lutas entre
– a praxis educativa convocava todos as lideranças sindicais (que começam
a envolverem-se diretamente nessa a sua formação como Grupos de
construção. Filomena Oliveira recorda- Estudo127 ainda durante a ditadura) –
-se que foi para Viseu em 1974 para uma com mais peso no PCP, PS, católicos
aldeia, onde se chegava por um carreiro progressistas e extrema-esquerda –
de terra, alfabetizar os camponeses e mas, num volte face que unia todos
que, com o método Paulo Freire, em face à ditadura, pautada pela «política

120. Licínio Lima, «A democratização do governo das escolas públicas em Portugal», Sociologia, 2009,
FLUP, pp. 227-253.
121. Raquel Varela, História do Povo na Revolução Portuguesa, Lisboa, Betrand, 2014.
122. Ramos, Rui (coord), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009
123. Cronologia Pulsar da Revolução, 1974-1975, Centro de Documentação 25 de Abril.
124. Entrevista de Raquel Varela com Filomena Oliveira, Julho de 2017.
125. «Guerra Colonial. Uma questão a Resolver». In UEC. n.º 1, 2.ª Série, p. 5.
126. República, 1 de Março de 1975, p. 12.
127. Manuel Tavares, «Contribuições para a História do Sindicalismo docente em Portugal: dos Grupos
de Estudo à afirmação e crise do movimento sindical docente, Education Policy Analysis Archives, vol
22., 2014, pp. 1-24.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 71


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

autoritária, corporativista, centralizadora na constituição dos já referidos Grupos


Notas
e obscurantista (…) pela arbitrariedade de Estudo130, ainda durante a ditadura,
nas escolas portuguesas».128 criados nos anos 60 do século XX,
Por outro lado os anos de 1974-1975 impulsionados por comunistas, católicos
são marcados por uma metanarrativa de progressistas, entre outros. Com o 25 de
transformação social profunda, e de praxis Abril dá-se imediatamente a ocupação
revolucionária – a escola fazia uma nova das escolas e estruturas educativas
sociedade e uma nova sociedade fazia a e é conquistada a livre associação e
nova escola, o educador educava-se na constituição de organizações sindicais,
revolução: «A autonomia não chegou a estruturas que vão ser a partir de 1976
ser juridicamente consagrada, embora o principal elo de ligação entre o Estado
fosse quotidianamente ensaiada através e as escolas, enquadradas como tal na
de práticas de democracia direta, de Constituição aprovada em 1976.
deliberações coletivas, executadas pelas No plano da gestão são introduzidas
comissões de gestão».129 mudanças em 1974 e 1975 que sofrem
A revolução, iniciada em 25 de Abril alterações importantes em 1976 – no
de 1974, muda tudo a uma velocidade sentido de um pacto social que substitui
surpreendente. Nas escolas alteram-se a democracia directa pela democracia
conteúdos programáticos, condições de representativa. Logo em maio de 74 o
trabalho para docentes e para pessoal Governo tenta enquadrar a democracia
não docente e condições de estudo para direta insistindo na influência ministerial
alunos. São criadas redes de transporte nas escolas e que «às comissões
escolar; foram construídas novas escolas, democraticamente eleitas reservava
cantinas e residências escolares foram as “atribuições que incumbiam aos
estipulados subsídios para alunos anteriores órgãos de gestão”, matéria
carenciados e houve a distribuição do que seria muito criticada e alvo de mais ou
leite escolar (entre outras medidas). A menos generalizado incumprimento».131
oferta curricular é uniformizada para os O Governo procurou dar sustentação
7º, 8º e 9º anos de escolaridade, deixando jurídica ao movimento de gestão
de haver os ramos de ensino liceal e democrática das escolas aprovando o
ensinos técnicos comercial, industrial e Decreto-lei n 735-A/74. O advento da
agrícola. Em 1974-1975 reintroduz-se o democracia representativa em 1976,
caráter laico na educação; extinguem-se depois da derrota revolucionária da
a Mocidade Portuguesa e a Mocidade dualidade de poderes, conta com regras
Portuguesa Feminina; acaba-se com a eleitorais precisas, apresentação de
separação dos alunos em turmas por listas, atas de homologação ministerial
sexo. que contrata com a «informalidade
Até ao final da ditadura não havia e a diversidade dos procedimentos
organização livre dos docentes. Esta vai anteriores»132, mas vem acompanhada
ter os seus primórdios mais imediatos de uma paulatina burocratização e

128. Clara Boavida, «A Governação das Escolas portuguesas entre 1974 e 1976 o papel dos sindicatos
na emergência de novo sistema de gestão escolar», Educação, Sociedade e Culturas, nº 43, 2014, p. 48.
129. Licínio Lima, «A democratização do governo das escolas públicas em Portugal», Sociologia, 2009,
FLUP, p. 228.
130. TAVARES, Manuel, «Contribuições para a História do Sindicalismo Docente em Portugal: dos
Grupos de Estudo à afirmação da crise do movimento sindcal docente», In Education Policy Analysis
Archives, vol 22, 2014, pp.1-24.
131. Licínio Lima, «A democratização do governo das escolas públicas em Portugal», Sociologia, 2009,
FLUP, p. 228.
132. Licínio Lima, «A democratização do governo das escolas públicas em Portugal», Sociologia, 2009,
FLUP, p. 230.

72 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


menos autonomia. Os órgãos mantêm- modo de funcionamento das sociedades
Notas
se colegiais mas são esvaziados do peso capitalistas na actualidade134.
dos plenários, assembleias, por outro Em 1974 deixa de haver o cargo de
lado o presidente do Conselho Diretivo diretor ou de reitor e os órgãos de gestão
passa a ser eleito pelo CD, antes era das escolas Conselho Diretivo e Conselho
uma forma colegial. Não assistimos só Pedagógico) passam a ser democráticos,
no biénio 1974-1975 à descentralização ou seja, passam a ser eleitos pelos seus
escolar mas a um poder paralelo, pares, e no Conselho Pedagógico há
assente num «democracia directa, de representantes dos docentes, do pessoal
deliberações colectivas, executadas por não docente, dos alunos, dos pais e
comissões de gestão»133. encarregados de educação e de outros
A magnitude das alterações de elementos com intervenção na escola
2008 foi muito mais profunda, porém, e/ou no processo educativo. Embora a
trágica para o ambiente grupal e social participação dos docentes tenha sido
nas escolas (ver em Estado da Arte sempre quantitativa e qualitativamente
o peso do ambiente no adoecimento) mais importantes do que a de pais ou
– é imposta uma gestão hierárquica, discentes (o setor a quem mais se deve
sem mediações (com contornos que a escola democrática são os professores,
desenvolveremos à frente). que lutaram mais por ela que qualquer
Sublinhamos que é essencial outra entidade), são formadas neste
compreender a relação de causa-efeito período as associações de pais e de
do adoecimento relevada no estudo, encarregados de educação, associações
não só com a gestão, mas com os fins de estudantes. E os já assinalados
da educação/trabalho docente, isto é, a sindicatos de professores e sindicatos de
educação para o mercado, valor de troca, pessoal não docente (alguns integrados
enquanto violadora do sentido precípuo paulatinamente nos sindicatos da função
do educador, o seu valor de uso – fazer pública).
crescer, educar, transformar o aluno, são Esta gestão democrática, muitas
sentidos malogrados sistematicamente vezes culpabilizada pela ineficácia
pelos objetivos traçados com os planos da gestão escolar pelos partidos da
de formação da força de trabalho. terceira via e da direita liberal, permite-
Destacamos assim que há uma -nos compreender a dificuldade que
correspondência entre a forma de gestão foi introduzir as reformas neoliberais
e o destino e objetivos do trabalho – a em Portugal durante os anos 80 e 90
uma produção baseada nas necessidades porque, uma vez aprovadas no Governo,
humanas corresponde necessariamente as reformas esbarravam de facto, embora
uma gestão coletiva/democrática. A de forma desigual de escola para escola,
uma produção para o lucro – ou no na força dos Conselhos Diretivos das
caso da educação formação de força de escolas e das Associações de Pais,
trabalho para o mercado – corresponde mesmo depois de 1976, em que a própria
necessariamente/uma gestão hierárquica. gestão direta já tinha sido substituída
Por outras palavras, tais processos, por uma gestão representativa, mas
fins e meios de trabalho, são democrática. As medidas neoliberais,
indissociáveis da evolução do trabalho em suma, chegaram no fim dos anos
nas sociedades contemporâneas e do 80 mas a forma de gestão que permitiu

133. Licínio Lima, «A democratização do governo das escolas públicas em Portugal», Sociologia, 2009,
FLUP, p. 228.
134. ANTUNES, Ricardo, Os Sentidos do Trabalho – Ensaio sobre a Afirmação e a Negação do Trabalho.
Coleção CES, Coimbra, Almedina, 2013.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 73


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

executá-las no local foi o fim da gestão escola – mais de 70% dos professores
Notas
democrática em 2008. mostram-se muito preocupados com a
Esta democracia, dos anos pós Abril, questão da indisciplina e, nos testes de
permitia também a assunção coletiva de hipótese, mostra-se uma relação forte
medidas e responsabilidades – este facto entre adoecimento e indisciplina (ver
pode ter uma influência decisiva em todos TH3). Psicanaliticamente falando, a culpa,
os atos educativos, incluindo em alguns nas sociedades religiosas, e a vergonha,
deles que no Inquérito se revelam como nas do espectáculo e do êxito, uma vez
associados ao burnout como a questão, introjetadas, são entorpecedoras; libertar
por exemplo, da indisciplina, também ela da culpa e desembaraçar da vergonha
uma questão complexa mas que pode são tarefas redentoras – para além de se
ser analisada em parte na organização enfrentar com determinação e coragem
da própria escola. a ameaça (vencer o medo, em suma).
Os casos de indisciplina, por Não se apresentam, da parte dos
exemplo, são, então, à luz das formas responsáveis políticos, sobre os quais hoje
de gestão democráticas, observados, recai o desenho das políticas educativas,
em média, como um problema não do propostas no campo pedagógico, social,
aluno-indivíduo face ao professor-isolado e organizacional que tragam conforto aos
na sala de aula, mas como um desafio alunos e professores e toda a quebra de
coletivo a ser resolvido coletivamente, regras é encarada como uma extensa
desde logo em reunião de grupo de área e visível perturbação, sem resolução. O
afim (o coordenador de grupo é, depois mal-estar social, a montante (as crianças
de 2008, depois eleito de entre um leque portuguesas dormem cada vez menos
restrito de professores escolhidos pelo e pior, até 30% sofrem de insónia
diretor). Não existe culpa individual – não comportamental/educativa135; a alimentação
se determina o falhanço do professor é pobre em muitos nutrientes, rica em
dentro da sala de aula face ao aluno, hidratos de carbono; a impossibilidade
individualmente considerado, mas sim de a pedagogia se desenvolver crítica e
a assunção de um problema, encarado criativamente pelos objetivos de mercado,
com relativa normalidade (a adolescência plasmados na multiplicidade de testes/
pressupõe rutura de autoridade), que exames; a escola/ enquanto espaço de aula
deve ser encaminhado coletivamente, fechados, de longas horas, sentados, com
salvaguardando um sentido de justiça para aulas quase exclusivamente expositivas,
com o aluno, o professor, a sociedade. entre outros fatores), não é colocado como
Hoje, a questão da indisciplina é fator de estudo, e consequente resolução.
encarada, essencialmente, no plano da Veja-se que este dado é muito importante
culpa: ela é vista como algo anómalo e é também ele verificado nos resultados
(uma criança “normal” seria sempre dos dados do inquérito: quanto maior é a
irrepreensível e, se foi indisciplinada, perceção de criatividade, menor o Índice
isso é sempre olhado pela óptica da de Esgotamento Emocional; quanto maior
culpa) professores culpabilizam pais, é a perceção de independência menor o
pais culpabilizam a escola, diretores Índice de Esgotamento Emocional (ver
culpabilizam professores. Entopem-se TH17 e TH18)
escolas de faltas disciplinares, processos
burocráticos demorados, e a questão da “Politecnia”, educar seres humanos
indisciplina tem-se revelado cada vez mais em vez de produzir “capital humano”
importante como fator de adoecimento Uma das características dos conflitos do
dos docentes e de perturbação da biénio de 1974-1975 é a sua radicalidade

135. Diário de Notícias, 8 denNovembro de 2016, https://www.dn.pt/sociedade/interior/criancas-dormem-


cada-vez-pior-e-a-culpa-e-dos-pais-ja-ha-terapeutas-para-ajudar-5485234.html

74 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


e a sua democraticidade, que derrubou «Acabo de chegar a casa. estou
Notas
barreiras clássicas do mundo do trabalho exausta, enervada. passei 10 horas na
estranhado nas sociedades capitalistas136. escola, dei 2 aulas. o mais foram tarefas
Em 1974 e 1975, embora em processo de de treta, tempo de espera para a reunião
aprendizagem a que muitos apelidaram das 18.20. na próxima 6ª feira tenho
de «caótico», como referimos, assistimos duas, no fim do meu dia de trabalho.
de fato ao encurtar do caminho entre não haverá tempo de espera. ao todo,
trabalho manual e intelectual, pensamento terei estado 12 horas na escola. são
e execução, entre quem governa e é tempos de cad e de gpi e de blogue (que
governado. E uma sociedade em que as faço em casa), mais reuniões semanais
aspirações do trabalho ganharam objetivos ordinárias, mais reuniões extraordinárias
claros de valor de uso (e não de valor de quando calha e não refiles, reuniões
troca, ou valor de mercadoria137 como é basicamente para nada, em que já não
hoje dominante, o «capital humano»). aturamos sequer a presença, a voz do
O Estado deixou de ser o único outro, reuniões que terminam de noite
centro de poder, tendo de o dividir, e em que se preenchem papeis e papeis
em tensão, com as comissões de e papeis com coisas que de qualquer
trabalhadores, moradores, escolas, gestão forma faríamos – sem as registar e com
de saúde, etc.138. Esta nova sociedade muito mais disponibilidade. chego a
gerou uma nova escola, que forjava uma casa e não consigo fazer nada do que
nova sociedade, onde se diminui a relação supostamente deveria: preparar aulas,
entre trabalho manual e intelectual – todo ver os mails dos meus alunos, orientar-
o operário deve ser um artista, é esse o lhes o trabalho no início do ano. não
significado do ensino unificado; a todos tenho energia nem para comer. apetece-
deve ser dado o conhecimento produzido me desabafar, ainda que saiba que não
pela humanidade, em contraposição ao adianta, que poucos lerão e ainda menos
ensino para os requisitos imediatos do vão entender, nada vai mudar, jamais. o
mercado de trabalho; maior autonomia ministro gaba-se dos seus (des)feitos
dos locais de trabalho e um controlo e eu continuo com o mesmo horário
democrático sobre decisões e execuções sobrecarregadíssimo, tarefas sem
– não é ausência de controlo, nem de sentido, burocracias que me devoram
diferenças nos graus de responsabilidade a alma e me aceleram as pulsações.
ao nível das instituições, mas sim a eleição podia agora tomar antidepressivos,
de dirigentes de baixo para cima e não de ansiolíticos, dormir, esquecer a inutilidade
cima para baixo que assim granjeariam disto tudo, a perversidade de um sistema
maior respeito entre os pares. É patente vampiresco que me suga e suga e suga.
a intensa relação entre as relações de nem dormir posso, para já, acordaria cedo
hierarquia burocráticas e o esgotamento demais e depois não conseguia dar as
docente em Portugal, como o teste TH16 aulas, amanhã. não vejo televisão, ainda
não deixa dúvidas. que, agora, só me apeteça estupidificar,
Vejamos através de um testemunho deixar-me hipnotizar. deprime-me a
o confronto entre o ontem e o hoje: mediocridade, as notícias dão-me
Olhemos por fim o testemunho de náuseas, não aturo as mentiras dos
Ana Lima, professora: políticos. também não oiço música, nada.

136. Mészáros, István. A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006.
137. O valor de uso e o papel do trabalho é amplamente desenvolvido na obra de Lukács, Gyorgy, A
Ontologia do Ser Social, São Paulo, Boitempo, 2012 (Tomos I e II).
138. Lima, Marinús Pires de, «Transformações das Relações de Trabalho e Ação Operária nas Indústrias
Navais (1974-1984), In Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 18-19-20, fevereiro de 1986, p. 541.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 75


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

quero um silêncio absoluto, telefones de uma sala ouvindo que a turma, que foi
Notas
desligados, janelas fechadas. tenho 56 minha no ano passado, tem 16 rapazes e
anos de idade, 33 e tal de serviço. sou 14 raparigas que os alunos preferem sair
hoje uma professora derrotada, desfeita. com os amigos a ler livros que que que
pudesse eu pedir isenção do serviço que… kafka na sua expressão absoluta.
não-lectivo, reuniões, reuniões, reuniões estou cansada, não quero repetir isto
e as pessoas que se levam tão a sério. amanhã, e depois, nas duas semanas
reuniões para nada, fora do meu horário em que duram as reuniões extra-horário,
de trabalho, reuniões que não contam extra tudo. ouvi, e não quis acreditar:
como horas extraordinárias como se não “um aluno que seja mandado para a
tivessem existido nunca, espremidas sala de estudo sem tarefa regressa à
dão zero, dão sangue. a cada uma que sala de aula - de que foi expulso por
aturo contrafeita penso que vou ter um mau comportamento”. pensei numa
ataque cardíaco, um avc. vou pedir a loucura colectiva e irreversível que nos
reforma antecipada. sei que depois de 33 atinge, que fazemos todos parte de um
anos e tal a descontar para a segurança maquiavélico plano de extermínio. chega.
social trarei para casa uma miséria, nem eu era uma professora entusiasmada.
sei se chega a mil euros. estudei 18 gostava de procurar e preparar materiais
anos para ser professora (4+7+5+2). para os meus alunos, de aprender
Estava no último escalão da carreira, pesquisando, experimentando. e lia, lia
o ecd de maria de lurdes rodrigues muito, fiz para eles blogues e moodle
recambiou-me para o nono, passos e páginas web com escritores, música,
coelho das falsas promessas reduziu história, cultura - em inglês francês
os dois mil euros mensais que recebia espanhol alemão português. meti-me
para cerca de 1800. estudei 18 anos, no projecto e-twinning e e-learning e
empenhei-me, aperfeiçoei-me, dediquei fui auto-didacta e trabalhei milhares e
muitos anos à escola, tantas vezes com milhares de horas aos fins-de-semana,
prejuízo da minha família, o tempo, a em férias. tudo fiz por gosto, num tempo
paciência que dedicava aos alunos e em que alegadamente os professores
faltava depois ao meu filho. tantas vezes. “não eram avaliados”. agora só quero
a sinistra  matou-me, matou-nos, os não pensar, se possível fugir fugir fugir.
efeitos sentem-se numa continuidade falta-me o tempo e o ar, não posso senão
de ondas. isabel alçada e nuno crato não ir-me embora.»139
fizeram NADA para me devolver à vida. Esta brutal descrição podia ser
a escola-instituição, é, desde há 6 anos, realizada numa linha de montagem
um pesadelo. dias há em que chego e automóvel nos anos 30, de facto. O
não consigo entrar. fico cá fora à chuva período revolucionário, por contraste,
ao vento à canícula, fumo cigarros atrás marcou uma preocupação maior com o
de cigarros até chegar a hora de dar a indíviduo, evitando assim, a padronização
aula propriamente dita. apetece-me fugir, da linha de montagem taylorizada. É
hibernar, às vezes morrer. hoje, de volta a aqui que se devem compreender todas
casa, uma condução que poderia ter-me as medidas cujas exigências partiram,
custado a vida, a falta de reflexos pelo sobretudo dos professores – e menos
cansaço extremo, e a ânsia, a urgência dos pais e alunos – de ensino da música,
de me afastar dali o mais rápido possível. artes, etc. gratuito e obrigatório (o caráter
o stress, a revolta pelas condições de obrigatório garantia a democraticidade).
trabalho que me impõem e que não vão Estas reivindicações, como assinala Clara
mudar nunca. horas e horas na escola, Boavida, «deveriam abranger o direito à
tarefas sem sentido, 30 e tal graus dentro crítica e redefinição da função docente

139. Testemunho de Ana Lima, 20 de Setembro de 2011


https://o-vento-que-passa.blogspot.com/2011/09/perder-alma.html?m=1

76 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


e da estrutura e conteúdo do ensino, trabalhadoras não conseguiam continuar
Notas
nomeadamente no que dizia respeito a estudar. Deu-se uma descontinuação
aos programas e aos métodos, além em relação ao sistema capitalista que,
das revindicações relativas à melhoria não tendo sido derrubado, foi pressionado
de salários e previdências».140 e questionado por um poder paralelo que
A época é ainda marcada por resultou num complexo de cedências
uma ampla relação escola/sociedade, políticas em 1974-1975 – que no essencial
significada não na conservação e desenharam uma escola com um caráter
reprodução social mas na transformação. quase impar na Europa do século XX.
Seus efeitos, embora tivessem tido O salto na melhoria dos índices de
mudanças institucionais em 1976, foram educação que o país assistiu nas décadas
duradouros até aos anos 80. Exigia-se, seguintes à revolução, que tiveram
vigorosamente, enquanto mobilização resultados nas estatísticas dos anos 90 e
social, que todos deviam ter acesso à século XXI, não podem ser atribuídos ao
educação da politecnia (que em Portugal neoliberalismo dos anos 90 porque são
se materializou no Ensino Unificado, hoje necessárias duas a três décadas para os
ameaçado pela flexibilidade curricular e verificar. Não foi a flexibilidade neoliberal
o constante desnatar dos conteúdos): dos anos 90 que permitiu ao país sair
Politecnia, como refere aquele que é do atraso profundo da educação, mas
um dos mais importantes pedagogos o engajamento docente na educação
vivos no Brasil, Demerval Saviani, do país, que floriu em 1974-1975. Os
«significa, aqui, especialização como resultados da flexibilidade e aligeiramento
domínio dos fundamentos científicos curriculares e do adoecimento docente,
das diferentes técnicas utilizadas na esses, só os veremos daqui a 10 a 20
produção moderna. Nessa perspetiva, anos. Hoje, os Governos celebram, na
a educação moderna, a educação de realidade, o sucesso do modelo (escola
nível médio tratará de concentrar se democrática e com gestão coletiva) a
nas modalidades fundamentais que dão que puseram fim…
base à multiplicidade de processos e Podemos afirmar que o homem/
técnicas de produção existentes. mulher professor em 1974 estava
Essa é uma concepção radicalmente mais próximo da sua essência, menos
diferente da que propõe um ensino alienado. O género humano distingue-
médio profissionalizante, caso em que -se das demais espécies em função do
a profissionalização é entendida como desenvolvimento histórico-cultural e da
um adestramento em uma determinada sua capacidade de transformar a natureza,
habilidade sem o conhecimento dos o meio e a si próprio. A atividade vital
fundamentos dessa habilidade e, menos humana, que embasa a afirmação do
ainda, da articulação dessa habilidade trabalho, linguagem e sociabilidade, é a
como conjunto do processo produtivo».141 mais importante caraterística distintiva
Por isso, exigia-se o fim dos do ser social. No princípio foi a ação e
guetos, fossem de pobres (bairros de o verbo: atividade-consciência. Não há
barracas) ou de ricos. Grande parte das Homo sapiens, sem Homo Faber, e
escolas secundárias resultam mesmo viceversa. Os seres humanos vêm ao
de ocupações protagonizadas por mundo morfologicamente enquanto
professores, pais e alunos de escolas “candidatos à humanidade”. É a educação
privadas, muitas religiosas, porque a partir realizada pelos seres humanos mais
do 4º ano e sobretudo do 6º ano as classes desenvolvidos, avançados e complexos,

140. Clara Boavida, «A Governação das Escolas portuguesas entre 1974 e 1976 o papel dos sindicatos na
emergência de novo sistema de gestão escolar», Educação, Sociedade e Culturas, nº 43, 2014, pp. 45-63.
141. Demerval Saviani, «Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos, Revista Brasileira
de Educação - ANPED - v.12 - n.34 – 2007, p. 161.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 77


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

i.e., os adultos, que garante humanização de ensinar literatura a adolescentes era


Notas
integral às crianças, “ser-em-criação.” duradouro. Fiquei 36 anos.
Após a primeira infância, em que as Quando um dia decidi que este
crianças aprendem a postura ereta – e percurso se esgotara, e que o prazer
a rudimentos de linguagem – no núcleo se transformara em insuportável
familiar, é a Escola – a educação escolar desencanto, pedi a reforma antecipada
– o fator primordial de humanização de e saí, sem hesitação e sem lástima.
seres humanos. Os professores são o Estava “desagarrada” e precisava
seu elo fulcral com a civilização. de me afastar para não me transformar
Recordando as palavras do numa professora cumpridora de regras,
pedagogo Demerval Saviani sobre a mas medíocre, infeliz ou histérica.
centralidade do trabalho na construção Fiz a minha formação de forma
do género humano: «Ora, o ato de agir contínua, entre muitos cursos e
sobre a natureza transformando-a em seminários, a reflexão sobre a prática,
função das necessidades humanas é o trabalho com os pares e a permanente
o que conhecemos com o nome de investigação muito potenciada pela
trabalho. Podemos, pois, dizer que a publicação de manuais escolares de
essência do homem é o trabalho. A Português iniciada na primeira década
essência humana não é, então, dada do exercício da profissão e nunca
ao homem; não é uma dádiva divina interrompida.
ou natural; não é algo que precede a Durante mais de duas décadas
existência do homem. Ao contrário, fui professora sem constrangimentos
a essência humana é produzida pelos que não os naturalmente decorrentes
próprios homens. O que o homem é, das orientações curriculares. Não tinha
é-o pelo trabalho. A essência do homem ainda 30 anos quando cheguei à escola
é um feito humano. É um trabalho que onde fiquei até ao fim e onde, desde
se desenvolve, se aprofunda e se o primeiro dia, me identifiquei com a
complexifica ao longo do tempo: é um atmosfera que nela se vivia e com o seu
processo histórico.»142 projecto educativo (que ainda não tinha
Vejamos a este respeito parte esse nome): uma escola democrática,
do testemunho de Elisa Costa Pinto, igualitária, plural, incentivadora de um
professora de português, aposentada ensino centrado no desenvolvimento
antes do tempo, a seu pedido, com dos alunos.
perdas salarias: A par do ensino formal, durante
«Comecei a dar aulas antes de esses anos e com a cooperação da escola,
acabar o curso de Literaturas Românicas, desenvolvi e coordenei projectos que
porque queria ser independente e percebi serem adequados a cada uma das
acreditando que estava no ensino de turmas ou, em momentos particulares, a
passagem, até mudar para o jornalismo. toda a escola: jornais escolares, círculos
Quase sem me dar conta, de repente, era de leitura, concursos literários, jornadas
professora, acabava a Faculdade, fazia temáticas de literatura, roteiros literários,
trabalho de militância política, apaixonava- aulas abertas a professores e/ou a alunos,
me e tinha a primeira casa minha. Pelo diálogos literatura-artes, oficinas de
meio, um convite para ficar na Faculdade escrita e oficinas de teatro, campanhas
outro para um jornal, ambos recusados, cívicas. No final de cada ano lectivo
sem hesitação e sem lástima. ou sobretudo no final da cada ciclo, a
Estava “agarrada” pelo ensino minha avaliação e a dos alunos era tão
secundário e precisava de ficar aí mais compensadora que, apesar do muito
uns anos para saber se aquele prazer que tínhamos trabalhado para além dos

142. Demerval Saviani, «Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos, Revista Brasileira
de Educação - ANPED - v.12 - n.34 – 2007, p. 154.

78 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


programas – ou, melhor dizendo, pelo normas de acesso ao Ensino Superior
Notas
muito que tínhamos trabalhado para transformou-se em pressão sobre os
além dos programas – foram sempre professores do Básico e sobretudo do
pouquíssimos os alunos que ficaram Secundário, acusados de ineficiência
para trás e a taxa de sucesso foi sempre e incapacidade pelos pais e por toda
muito acima da média. a sociedade, sob o silêncio cúmplice
Lentamente, insidiosamente, a dos políticos. Os rankings, as médias
escola que me fez professora começou de acesso e os prémios de mérito
a morrer e a dar lugar à cópia grosseira acompanharam, ruidosamente, o
de uma empresa fabricante de desastre.
produtos indiferenciados. As métricas Vivi estas mudanças na escola
cegas substituíram as pedagogias a lutar contra o desânimo, em boa
participativas; os currículos esvaziaram- verdade, graças aos alunos que nunca
se sob a capa da aposta tecnológica; deixaram de me surpreender e encher de
as turmas engordaram inviabilizando compensadoras alegrias. Era há muitos
qualquer acompanhamento diferenciado; anos coordenadora de um departamento
a carga horária dos professores de que muitos dos professores mais
aumentou, sem que tenham sido empenhados tinham desistido e os que
criadas condições físicas na escola persistiam estavam exaustos e tristes.
para o trabalho não lectivo; as tarefas Os mesmos com quem tinha trabalhado
burocráticas e improdutivas ocuparam mais de duas décadas prodigiosas eram,
o tempo indispensável para a reflexão, então, sombras em permanente corrida.
o estudo, a criação e produção de Para além das turmas enormes e dos
materiais, a planificação de aulas diversos cargos e tarefas de coordenação,
diferenciadas e o trabalho colaborativo. integrava a equipa do projecto de
Ao mesmo tempo, a relação promoção da leitura (aLeR+) dirigido a
arrogante de sucessivos governos toda a escola. Trabalhava intensamente,
com a escola desvalorizava o papel muito para além do razoável, e com a
dos professores até níveis intoleráveis certeza, cada dia mais nítida, de que mais
que os pais e, consequentemente, os de 50% do trabalho que desenvolvia era
alunos foram interiorizando. E pior ainda, inútil e estéril, pois em nada contribuía
que os professores foram absorvendo para as aprendizagens e a formação
numa autodesvalorização confrangedora. dos alunos. E com a aguda percepção
Paradoxalmente, à medida que a carga de de que o meu esforço e o dos meus
trabalho dos professores crescia, crescia pares apenas respondia a necessidades
na sociedade a ideia feita de que os falsamente criadas por um complexo
professores nada fazem e que usufruem mecanismo organizacional acéfalo e de
de férias, folgas e uma autonomia que, interesses nem sempre obscuros.
na verdade, não têm. Ninguém fala das Numa sexta-feira de uma semana
noitadas e fins-de-semana a trabalhar, quase sem dormir, senti-me mal na
dos constantes emails e telefonemas das última aula da manhã. Era uma turma
chefias e sobretudo dos encarregados de 12.º ano e eu não podia dar- me ao
de educação, à noite e aos fins-de- luxo de perder aquela aula. Parei cinco
semana, dos problemas psicológicos, minutos, um aluno foi buscar um copo
familiares, sociais e até de saúde dos de água e açúcar e eu prossegui a aula
alunos que os professores são chamados de 90 minutos com medo de desmaiar.
a resolver. Ninguém fala do desgaste Quando saí e entrei no carro que me
emocional provocado pelas permanentes levou a casa percebi que tinha de pedir
solicitações de resolução de dramas que ajuda. O INEM levou-me ao hospital
as famílias não conseguem enfrentar e onde estive 24h com uma crise aguda
cuja solução delegam nos professores. de arritmia, um diagnóstico de stress e
Entretanto, a pressão criada pelas uma prescrição de descanso. Como não

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 79


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

podia reduzir a carga, na segunda–feira tornaram hegemónicas. Esta adaptação


Notas
estava lá e trabalhei até ao final do ano. da escola ao mercado global sedimentou-
Poucos meses depois requeri a reforma se como ideologia dominante do final
antecipada. dos aos 90 até aos dias de hoje, e
Sou uma privilegiada, porque: o caracteriza-se esta adaptação como
facto de ser autora de manuais me inevitável e necessária. Veio a pari passu
permitiu suportar a enorme penalização das alterações à própria estrutura de
pela idade que não tinha; o facto de ter formação dos professores educadores
começado a dar aulas antes de acabar (com sucessivas reformas curriculares
o curso me permitiu ter os anos de ao longo dos anos, quer para exercer
serviço então necessários para sair; a docência e para os programas das
pude escolher sair no pleno uso das escolas).
minhas capacidades e com a aparente Franco e Druck elaboraram uma
energia e lucidez de sempre e, por tipologia da precarização que foi um
isso, na despedida, os alunos tiveram terramoto na vida das organizações e das
manifestações públicas e colectivas de condições de trabalho (e, hoje sabemos,
sincero e espontâneo desgosto pela da vida de quem trabalha): «(i) As formas
minha saída. Nunca esquecerei as faixas de mercantilização da força de trabalho,
colocadas no gradeamento da escola nem produzindo um mercado de trabalho
o concerto que secretamente prepararam heterogéneo, segmentado, marcado
na Escola de Música que muitos deles por uma vulnerabilidade estrutural e com
frequentavam. Todos eles eram meus formas de inserção (contratos) precários,
alunos apenas há três meses. sem proteção social; (ii) Os padrões de
Não há um único dia em que não gestão e organização do trabalho – que
sinta que saí antes do tempo e que tem levado a condições extremamente
poderia ter continuado a fazer aquilo que precárias, através da intensificação
melhor sei fazer: dar aulas. E não há um do trabalho (imposição de metas
único dia em que não sinta um profundo inalcançáveis, extensão da jornada de
alívio por ter saído, em andamento, duma trabalho, polivalência, etc.) sustentados
engrenagem trituradora de qualquer na gestão pelo medo, na discriminação
pulsão verdadeiramente criativa. criada pela terceirização, que se tem
Do ponto de vista da construção do propagado de forma epidémica; e nas
presente e do futuro, atormenta-me saber formas de abuso de poder, através do
o muito que se está a perder e intuir o assédio moral; (iii)  As condições de
potencial que se comprometerá, quando (in)segurança e saúde no trabalho –
apenas os menos preparados (para não resultado dos padrões de gestão, que
dizer os menos capazes) aceitarem ser desrespeitam o necessário treinamento,
professores.»143 as informações sobre riscos, medidas
preventivas coletivas, etc., na busca de
Estado, Sociedade e Burnout maior produtividade a qualquer custo,
A luta pela democratização da educação inclusive de vidas humanas, levando a
tornou-se indissociável da luta pelas altos índices de acidentes de trabalho
condições de trabalho dos docentes. e adoecimento; (iv) A condição de
A ideia subjacente de “convergência” desempregado e a ameaça permanente
marcou a alteração curricular das escolas da perda do emprego. O isolamento, a
em direcção à adaptação de Portugal à perda de enraizamento, de vínculos, de
“globalização”, no quadro de políticas inserção, de uma perspetiva de identidade
impostas pela CEE, mais tarde União coletiva resultantes da descartabilidade,
Europeia, mas cujo desenho fundamental da desvalorização e da exclusão são
é mais amplo, a OCDE, cujas políticas se condições que afetam decisivamente a

143. Testemunho de Elisa Costa Pinto, 19 de setembro de 2018.

80 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


solidariedade de classe, solapando-a pela da rotatividade da acumulação dos
Notas
brutal concorrência que se desencadeia investidores que exigem aos Governos
entre os próprios trabalhadores; (v) O mudanças à velocidade da luz,
enfraquecimento da organização sindical incompatíveis com qualquer aposta
e das formas de luta e representação pedagógica de fundo. Tudo parece
dos trabalhadores, decorrentes da suspenso, frágil, inseguro.
violenta concorrência entre os mesmos, De uma escola planificada e mais
da sua heterogeneidade e divisão, democrática, quer para professores
implicando numa pulverização dos quer para alunos, passa-se a uma escola
sindicatos criada, principalmente, pela burocratizada e inamovível na organização,
terceirização; (vi). A condenação e o para sustentar assim – imune a pressões
descarte do direito do trabalho, fruto por parte dos seus atores principais –, a
da fetichização do mercado, que tem máxima flexibilidade, acompanhada da
orquestrado e decretado uma “crise total imprevisibilidade. O pior de dois
do direito do trabalho”, questionando a mundos – gestão petrificada e solitária,
sua tradição e existência, expressa no flexibilidade social generalizada. Para
ataque às formas de regulamentação do quem manda, poder quase absoluto, para
Estado, cujas leis trabalhistas e sociais quem exerce, submissão quase total.
têm sido violentamente condenadas A reforma do Estado está situada no
pelos princípios liberais de defesa da centro da agenda dos países periféricos,
flexibilização como processo inexorável obedece aos condicionalidades do Fundo
trazido pela modernidade dos tempos Monetário Internacional (FMI) e do Banco
de globalização».144 Mundial, assim como está presente nas
O Decreto Lei 75/2008 introduziu políticas que ampliam a esfera privada em
a figura do diretor nomeado conferindo- detrimento da pública. O determinismo
lhe “quase poderes absolutos”145. Os tecnológico – expresso por meio da
conceitos confundem-se, o discurso ideologia da globalização – e o uso de
da pedagogia domina o final dos anos um léxico em que o discurso da direita
80 e o da autonomia nos anos 90 até e da esquerda parecem confundir-se
aos nosso dias146. Porém assiste-se a – como nos temas da autonomia, da
uma impossibilidade prática de discutir sociedade civil e da crítica ao estatismo –
pedagogia – encapsulada na teoria do contribuem para a formação da ideologia
capital humano – e a uma burocratização dominante.
que retira aos professores praticamente, Em virtude da correlação de forças
e agora na lei, capacidade de intervir negativa para os trabalhadores nas
junto dos alunos e das escolas. A ideia duas últimas décadas do século XX,
de complexidade de problemas gerada expressa na redução abrupta do número
pela “heterogeneidade dos alunos”147 de greves anuais, o capital – operando
esconde, de facto, a ausência de uma também por meio do Estado – impôs
economia planificada – sucedem-se transformações ainda mais profundas
mudanças de acordo com os desejos na educação da classe trabalhadora.

144. IN: IVO, A. (coord.) Kraychete, E.; Borges, A.; Mercuri, C.; Vitale, D.; Senes, S. (org.) (2013) Dicionário
Temático Desenvolvimento e Questão Social – 81 problemáticas contemporâneas, SP, Ed Annablume,
verbete Precarização social do trabalho, Druck, G. pp.373-380.
145. Manuel Tavares, «Contribuições para a História do Sindicalismo docente em Portugal: dos Grupos
de Estudo à afirmação e crise do movimento sindical docente, Education Policy Analysis Archives, vol
22., 2014, p. 12.
146. João Barroso, Autonomia e Gestão das Escolas, Edição do Ministério da Educação, dezembro de
1996 (edição 1997).
147. João Barroso, Autonomia e Gestão das Escolas, Edição do Ministério da Educação, dezembro de
1996 (edição 1997), p. 9.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 81


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

A perspetiva universalista de que a não enfrenta a ofensiva do capital,


Notas
escola pública deveria assegurar uma recontextualizando, de distintos
formação geral igualitária a todos os modos, a agenda do novo espírito do
estudantes por meio da garantia, pelo capitalismo (flexibilidade, autorregulação
Estado, da educação pública, gratuita e autonomia, individualismo, identidades,
e estruturada em sistemas nacionais, antiestatismo, celebração de uma
foi combatida em prol de políticas edulcorada sociedade civil, crítica
focalizadas, referenciadas na pedagogia à história e à própria teoria), sem
das competências, atributos utilitaristas tornar pensável o modo de produção
que objetivam a adaptação das crianças capitalista em seus nexos com a
e jovens ao ethos capitalista e, mais educação. A combinação inusitada, pois
precisamente, ao chamado novo espírito não desejada, entre neoliberais e pós-
do capitalismo flexível, fundamentado -modernos, afasta a teoria da educação
no trabalho superexplorado e precário. da luta de classes, combinando capital
Nos anos 1990, essas concepções humano, competências, “oportunidades
já circulam também na área da educação. educacionais”, “escolhas racionais” com o
Imbuídas direta ou indiretamente da culturalismo, a identidade e o relativismo
noção das escolhas racionais (chamadas epistemológico.
de teorias das escolhas racionais) A simplificação da formação, na ótica
difundida por neoliberais como James do capital, não é irracional (no sentido
Buchanan, Gordon Tullock e Mancur apontado da dita teoria das escolhas
Olson, essa formulação, em virtude racionais). Em virtude do fortalecimento do
do individualismo metodológico, está eixo da economia intensiva em recursos
harmonizada com a ideologia do capital naturais149, da concentração monopólica
humano. Neste prisma, os agentes em umas poucas corporações localizadas
educacionais buscam maximizar os em etapas específicas das fracionadas
benefícios da educação, em relação cadeias produtivas (a exemplo das linhas
aos recursos disponíveis. Este benefício de montagem na indústria automóvel), da
tem a ver com o ethos capitalista, daí expansão desenfreada do setor de serviços
a ênfase na socialização por meio de de baixa complexidade150 (onde se situa
valores e disposições de pensamento. a juventude que compõe o precariato),
Docentes nas áreas de economia, do imenso exército industrial de reserva
da ciência política e da sociologia e, (desempregados) a ser socializado, os
neste rastro, em geral, como cópia, da setores dominantes compreendem que
educação, ecoam essas noções advindas as escolas podem ser convertidas em um
de centros do pensamento conservador espaço de educação minimalista.
nos EUA e Inglaterra148. De facto, o padrão de acumulação,
Igualmente em expansão, a na ótica dos setores dominantes,
perspectiva pós-moderna, preocupada prescinde da formação com maior
com as opressões, é crítica em relação complexidade científica e cultural da
à agenda neoconservadora, mas juventude trabalhadora. A ideia geral é que

148. Roberto Leher, O presente texto tem como base a exposição apresentada no curso de especialização
do MST, organizado no Coletivo CANDEEIRO e o Centro de Estudo, Pesquisa e Ação em Educação
Popular – CEPAEP, Faculdade de Educação da USP, 27/11/2009. A presente versão foi revista e ampliada
em outubro de 2014.
149. R Gonçalves, Desenvolvimento às avessas: verdade, má-fé e ilusão no atual modelo brasileiro de
desenvolvimento, Rio de Janeiro, LTC, 2013.
150. “Não estamos caminhando para uma sociedade homogênea, medianizada, mas para uma sociedade
mais polarizada”. Entrevista especial com Márcio Pochmann, Instituto Humanitas Unisinos, Sexta, 27
de junho de 2014, disponível em http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/nao-estamos-caminhando-para-
uma-sociedade-homogenea-medianizada-mas-para-uma-sociedade-mais-polarizada-entrevista-especial-
com-marcio-pochmann/532719-nao-estamos-caminhando-para-uma-sociedade-homogenea-medi#

82 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


a grande maioria dos postos de trabalho é aposentada. Nasceu em 14 de Julho
Notas
constituída por atividades que requerem de 1953. O seu testemunho não é
modesta escolarização. A educação, uma excepção mas um padrão nos
focalizando os arranjos produtivos locais testemunhos recolhidos junto dos
pode ser menos sofisticada (conformando professores durante o ano de 2018. As
arranjos educativos locais), assegurando queixas têm uma correspondência direta
o que a pedagogia hegemónica com os resultados do próprio inquérito,
denomina de competências básicas, onde se destacam a burocracia, a falta de
vinculadas ao aprender a aprender, sem autonomia, a sensação de não produzir
a universalização de conhecimentos educação, sentir-se “incompetente”.
científicos explicativos dos processos «Ali estava eu na sala de espera
naturais e da sociedade. de um conhecido psiquiatra. Deixara de
Básico e flexível. Em decorrência, dormir, a angústia dolorosa aumentava
eleva-se por vezes mesmo nos Media e de dia para dia, a ansiedade começara
nos meios governamentais a categoria de a fugir do controlo. Quem diria que uma
insegurança a uma qualidade intrínseca, professora alegre e envolvida iria chegar
que só os “inadaptados” não poderiam a tal estado de erosão psíquica!?!Tudo
usufruir. A escola volta-se para um mercado parecia irreal, um pesadelo, um castigo.
sujeito a oscilações cíclicas, e Governos Aos poucos a carga burocrática
de turno, a expensas de qualquer opinião tornara-se a primeira tarefa a que era
dos próprios docentes. Oscilações que preciso responder com eficácia: relatórios,
resultam das exigências dos investidores grelhas, planos, papéis inconsequentes,
no mercado e da adaptabilidade Estatal um calvário para quem gostava da relação
a esta “mão invisivel” – de um lado isto de aprendizagem com os alunos.
resulta numa confusão de programas, Um sentimento de impotência e
rotatividade de locais, abertura tardia e de culpa dominava a criatividade e a
colocação de professores tardia, sucessivas preparação das aulas. Aumentou o tempo
reformas curriculares, etc; do outro a de presença na Escola, sem o recato de
ameaça sobre o trabalho que não é apenas um espaço para poder pensar e refletir.
uma ameça sobre as condições de trabalho As aulas de substituição eram penosas,
mas sobre a própria subsistência: ameaça não eram os nossos alunos e nós não
de não ter emprego ou de ver diminuído éramos os seus professores, não eram
o valor da reforma. as nossas disciplinas. Que raio estava a
A flexibilidade do mercado e a acontecer a toda uma geração que vivia
intensificação laboral do Estado social de bem com o ensino? Que fizemos de
levaram também os professores a uma tão mau para nos tratarem assim?
multiplicação de tarefas (esta nova Entro para a consulta. Num esforço
morfologia da classe trabalhadora), de sistematização comecei a dizer o que
embora, na essência, seja um trabalho sentia e a fobia que silenciosamente se
intelectual – porém, não reconhecido entranhara, sob a forma de insegurança.
como tal – é proletarizado, ameaçado, De repente tudo era feito para a mal
precarizado e multifacetado, amanhada avaliação, tudo na plataforma
concertando tarefas administrativas informática a qualquer hora, perdendo-
e mesmo de caráter social, para as se aquele toque humano de troca de
quais os professores não estão sequer opiniões. Não havia tempo. Era tudo para
tecnicamente preparados para cumprir. ontem, sem lógica, sem bom senso.
Chaplin poderia, hoje, escrever Tempos A AVALIAÇÃO, O FIM DA GESTÃO
Modernos numa escola/fábrica. DEMOCRÁTICA E A DIVISÃO ENTRE
Vejamos a este propósito o seguinte PROFESSORES TITULARES E NÃO
testemunho de uma professora doente, TITULARES quebraram cumplicidades
que pediu também a reforma antecipada: e solidariedades muito necessárias a
Gilda Ribeiro dos Santos está um bom desempenho.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 83


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Adorei a minha profissão, levantava- que há uma alta relação entre estes
Notas
me a assobiar, vibrava com os alunos, fatores e o adoecimento dos docentes
relaxava na sala dos professores. E (ver histograma H13 e testes TH1, TH2,
agora? Agora queria fugir. Porquê? Sentia TH3 TH4, TH5 e TH16). Este índice mede
desconsideração, uma despersonalização a segurança no trabalho, violência e
ambiental, restavam os alunos. vandalismo pelos alunos, indisciplina,
Estes, fruto do clima estragado entre insucesso, bloqueio profissional, salários
professores, também se ressentiram insuficientes, isolamento, conflitos com
e alguns espreitavam fissuras para hierarquia, contactos negativos com pais
galgarem oportunisticamente terreno, e encarregados de educação, imagem
com muitas direções a apoiarem os pais pública, falta de serviços e apoios
sem critério. Era toda uma disfunção profissionais e pessoais, encerramento
profunda da democracia que se instalara de escolas, cortes orçamentais, carga
na ESCOLA. Foi esse o trabalho sujo do de trabalho fora de horas, tarefas aos
sistema de avaliação dos professores: fins-de-semana.
pôr uns contra os outros, com custos Combinando no nosso Inquérito dois
pessoais e sociais. Em termos de índices, o de bem-estar sociodemográfico
transmissão de know-how foi um hiato e o de mal-estar sociodemográfico
que se refletirá com toda a certeza no estes atuam inversamente. O de bem-
futuro. -estar mede a criatividade e espírito de
Quero acrescentar que uma colega, equipa, recursos positivos, desempenho
excelente profissional, adoeceu com um elevado, disponibilidade das hierarquias,
cancro. Adorou estar no IPO, porque ao realização, participação nas decisões,
contrário da Escola, não havia histeria, informações adequadas, autonomia
as pessoas eram afáveis, não tinha que e apoio da estrutura, boa organização
lidar com o absurdo, estava em paz!».151 do tempo e horários, previsibilidade,
Deve esta dimensão ser motivação dos alunos. O de mal-estar
compreendida à luz da psicanálise, mede a insegurança no trabalho, violência
essencial para se entender como se e vandalismo pelos alunos, indisciplina,
passa de uma situação de “avaliação de insucesso, bloqueio profissional, salários
desempenho” no trabalho – eufemismo insuficientes, isolamento, conflitos com
organizacional de afunilamento salarial – hierarquia, contactos negativos com pais
ao adoecimento extremo do indivíduo. A e encarregados de educação, imagem
indução de medo é a primeira manobra pública, falta de serviços e apoios
do perpetrador, seguem-se a culpa e profissionais e pessoais, encerramento
a vergonha. Com estas três emoções de escolas, cortes orçamentais, carga de
inibitórias tece a trança de acorrentamento trabalho fora de horas, tarefas aos fins-
da vítima; a qual, por outro lado, admirada, de-semana. Os fatores de conforto e mal-
invejada e incensada, se torna facilmente -estar entram de forma negativa e os de
cúmplice e participante. Está montado o bem-estar de forma positiva. Ponderando
duplo constrangimento (double bind). É o número de questões, verifica-se uma
aliás indiscutível nos dados psicométricos distribuição equilibrada e normal, mas
que quanto maior a existência de com mais de 50% dos professores a
conflitos com a direção, maior o Índice sentirem-se desconfortáveis na profissão
de Esgotamento Emocional (ver teste (ver Histograma H16). Há uma fortíssima
TH16). dependência entre a preocupação com a
Pelo índice combinado de análise falta de acompanhamento dos alunos e o
do stress social dos professores que IEE nos professores (indicada na hipótese
resulta do inquérito conclui-se também TH4). Quase todos os professores

151. Gilda Ribeiro dos Santos, testemunho recolhido a 23 de setembro de 2018.

84 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


avaliam a burocracia (ver histograma álcool, problemas do sono, depressão,
Notas
H8 com cerca de 49% de respostas sedentarismo, obesidade e dores
ao nível máximo e 37% no nível logo músculo-esqueléticas153, aumento do
abaixo do máximo) como fator negativo uso de antidepressivos154, entre outros.
ou extremamente negativo. Do ponto de vista da Psicossomática
Há, finalmente, nos resultados do (estudo que ainda estamos a levar a cabo)
nosso Inquérito uma relação entre a têm sido apontadas duas vias explicativas
preocupação com o consumo de álcool, para a forma como os mecanismos
drogas ou medicamentos com o Índice biológicos resultantes do stresse
de Esgotamento Emocional (IEE) nos prolongado podem deteriorar a saúde
professores (Histograma H12 e hipótese física. Uma das hipóteses explicativas
TH1). De acordo com o inquérito, 18,7% é que o sistema nervoso autónomo
dos professores, com erro de 0,5% e (SNA) e o eixo hipotálamo-hipofisário-
confiança a 99%, tem pelo menos um -suprarrenal (HPA) se esgotam resultando
consumo preocupante de um dos fatores numa superactivação das funções vitais
de risco aos níveis 3 e 4 (de 0 a 4). A (por exemplo, frequência cardíaca e
maioria destes, i.e., 15,4%, apresenta pressão arterial) e provocando danos no
sobretudo preocupações com o consumo metabolismo e no sistema imunitário155.
de medicamentos; 3,2% apresentam As perturbações do sistema imunitário
consumos preocupantes de drogas e aumentam a susceptibilidade às doenças
outro tanto com álcool. A soma não dá os infecciosas como sejam a gripe e as
18,7% porque cerca de 3% apresentam gastroenterites estando os trabalhadores
consumos combinados de álcool, droga em burnout mais sujeitos a este tipo de
e medicamentos em grau preocupante. doenças156. Outro mecanismo através
Pelos dados conclui-se que os que se do qual o stresse crónico influencia a
encontram em situação de esgotamento saúde física é por via das alterações do
emocional extremos são os que mais sono que lhe estão associadas. O sono
estão preocupados com um destes tem funções homeostáticas importantes
consumos, o que está alinhado com os e a sua privação afeta por exemplo a
dados internacionais sobre o tema.152 memória e as funções cognitivas bem
O burnout tem sido associado como a regulação dos sistemas neuro-
a alguns problemas de saúde como endócrinos. As perturbações do sono
sejam aumento do consumo de têm graves consequências na vida das

152. Ver entre muitos outros sobre efeitos do burn out na saúde: McEven, B. (2007). Physiology and
neurobiology of stress and adaption: Central role of the brain. Physiological Review, 87, 873-904. doi:
10.1152/physrev.00041.2006; Melamed, S., Shirom, A., Toker, S., & Shapira, I. (2006). Burnout and Risk
of Type 2 Diabetes: A Prospective Study of Apparently Healthy Employed Persons. Psychosomatic
Medicine, 68, 863-869. doi: 10.1097/01.psy.0000242860.24009.f0;
Salvagioni, D., Melanda, F., Mesas, A., González, A., Gabani, F. & de Andrade, S. (2017). Physical,
psychological and occupational consequences of job burnout: A systematic review of prospective
studies. PLoS ONE, 12 (10), e0185781. doi:10.1371/journal.pone.0185781; Toppinen-Tanner, S., Ahola,
K., Koskinen, A., Väänänen, A. (2009) Burnout predicts hospitalization for mental and cardiovascular
disorders: 10-year prospective results from industrial sector. Stress Health, 25, 287–96.
153. Salvagioni, D., Melanda, F., Mesas, A., González, A., Gabani, F. & de Andrade, S. (2017). Physical,
psychological and occupational consequences of job burnout: A systematic review of prospective
studies. PLoS ONE, 12 (10), e0185781. doi:10.1371/journal.pone.0185781;
154. Madsen, I., Lange, T., Borritz, M., & Rugulies, R. (2015). Burnout as a risk factor for antidepressant
treatment – a repeated measures time-to-event analysis of 2936 Danish human service workers. Journal
of Psychiatric Research, 65, 47-52. doi: 10.1016/j.jpsychires.2015.04.004
155. Danhof-Pont, M. van Veen, T., Zitman, F. (2011). Biomarkers in burnout: a systematic review. Journal
of Psychosomatic Research, 70, 505–24. doi: 10.1016/j.jpsychores.2010.10.012 .
156. Mohren, D., Swaen, G., Kant, I., van Amelsvoort, L., Borm, P., & Galama, J. (2003). Common infections
and the role of burnout in a Dutch working population. Journal of Psychosomatic Research,55, 201–8.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 85


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

pessoas, aparecendo associadas a uma trabalho (algumas das grandes obras


Notas
constelação de sintomas e relacionadas do século XIX, como Germinal de Zola,
com um vasto leque de problemas que ou dos grandes inquéritos operários
vão desde a doença cardíaca, à doença (Engels), tiveram o mérito de revelar
mental, diabetes mellitus e ao risco – e consequentemente de chocar – ao
de sofrer acidentes157. Além destes grande público burguês e urbano a face
mecanismos biológicos o stresse laboral oculta da miséria operária, uma miséria
tem sido também associado a estilos que era tanto económica quanto física).
de vida pouco saudáveis que favorecem No entanto, a ideia de que o cansaço
o adoecer como sejam o aumento do poderia remeter, para além de um aspeto
consumo de álcool, o tabagismo, as normal do trabalho, para uma vertente
dietas pobres e a baixa atividade física158. patológica, surge de forma mais recente e
Os problemas depressivos associados ao está intimamente ligada à transformação
burnout estão amplamente demonstrados das formas de organização do trabalho.
na maioria dos estudos que investigam as Com efeito, é sob o efeito conjugado
consequências psicológicas do burnout.159 do desenvolvimento das atividades de
Por fim, através da análise dos serviço e da mecanização das tarefas
dados sobre cansaço conclui-se que mais penosas e, portanto, com a
os professores estão mais cansados promessa de uma redução do esforço
do que esgotados emocionalmente físico no trabalho que a aparição de
(Histograma H18). O gráfico é porém distúrbios, cuja sintomatologia principal
eventualmente enganador, pois um índice se prendia com manifestações de
de esgotamento emocional de 40 já cansaço, se tornou surpreendente. De
é muito elevado, enquanto o cansaço facto, o desenvolvimento considerável
tem uma distribuição aproximadamente das patologias de sobrecarga (burnout,
normal, começando a ser significativo LER, doping, etc.), numa era de suposto
acima de 50 – num caso trata-se de uma trabalho “imaterial”, afigura-se como
estatística de valores extremos, noutro um paradoxo. É tanto mais paradoxal
é aproximadamente normal. Concluímos que grande parte destes síndromas se
que há uma forte relação entre cansaço caraterizam por distúrbios somáticos
físico e esgotamento emocional. Os (desgaste físico, perturbações do sono,
professores estão cansados, e mais de perturbações digestivas, etc.) cuja
50% tem índices elevados de cansaço origem, tudo indica, parece ser um
(Histograma H17 e elevada correlação sofrimento psicológico. Grande parte
de 0.77 como visto na secção das destas entidades clínicas combinam,
correlações de Spearman, sendo o valor portanto, sintomas do foro mental e do
de Pearson também de 0.77). foro somático.
Obviamente, o desgaste, o Do ponto de vista da clínica do
cansaço ou a fadiga no trabalho não são trabalho, um dos principais fatores em
propriamente uma novidade. Existiram causa na proliferação das patologias de
desde sempre como consequência sobrecarga é a intensificação do processo
do esforço necessário à realização de de trabalho acarretada pelos métodos
uma tarefa e da exploração da força de de gestão lean e pelas políticas de

157. Linton, S., Kecklund, G., Franklin, K., Leissner, L., Sivertsen, B., Lindberg, E., … Hall, C. (2015). The
effect of work environment on future sleep disturbances: a systematic review. Sleep Medicine Review,
23, 10-19. doi: 10.1016/j.smrv.2014.10.010
158. Chandola, T., Britton, A., Brunner, E., Hemingway, H., Malik, M., Kumari, M., Badrick, E., Kivimaki,
M., & Marmot, M. (2008). Work stress and coronary heart disease: what are the mechanisms. European
Heart Journal,29, 640–648. doi: 10.1093/eurheartj/ehm584
159. Salvagioni, D., Melanda, F., Mesas, A., González, A., Gabani, F. & de Andrade, S. (2017). Physical,
psychological and occupational consequences of job burnout: A systematic review of prospective
studies. PLoS ONE, 12 (10), e0185781. doi:10.1371/journal.pone.0185781;

86 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


racionalização e de austeridade (pressão que usavam métodos exclusivamente
Notas
temporal acrescida, menos meios e expositivos, hoje considerados
recursos humanos para atingir objetivos ultrapassados, mas que me prendiam
em aumento constante). Numerosos pela palavra. Também nos livros juvenis
estudos mostram que, de uma forma de ficção histórica, cuja trama me
geral, existe uma tendência para a transportava para a Grécia Antiga e para
intensificação do trabalho claramente as outras civilizações.
implicada no acréscimo das patologias Muitos anos se passaram. O futuro
de sobrecarga. Há, por exemplo, chegou e confirmou os sinais iniciais.
uma fortíssima dependência entre a Estudei História em três universidades de
preocupação burocrática funcional e a IEE Lisboa (Clássica, ISCTE e Nova). Tornei-
nos professores (como é determinado me professora de História.
pelo teste de hipótese TH3). Comecei a dar aulas de História
Numa análise mais detalhada, no no dia 11 de abril de 1975, na Escola
entanto, parece-nos possível considerar Comercial Veiga Beirão, num espaço que
o burnout como a consequência de se tornou histórico na minha vida pessoal
um processo prolongado de perda de e na vida do país, o Largo do Carmo,
sentido do trabalho. A análise clínica em Lisboa. Foi ali que caiu a ditadura
mostra que os trabalhadores que e chegou a liberdade. Tinha 21 anos e
acabam por sucumbir ao burnout não fui dar aulas a alunos de 16 a 18 anos.
são forçosamente mais fracos ou mais Era para ser apenas um trabalho
vulneráveis. Ao invés, são em geral os provisório, enquanto não descobrisse
mais ciosos, os mais profissionais. São outra ocupação. Militantemente, preparei
os que lutam para conservar a qualidade uma aula cheia de ideias progressistas
do trabalho, para prestar um serviço sobre a evolução humana e o papel
digno aos usuários, pacientes ou alunos. da História. Os meus alunos não se
Na procura deste objetivo, e face à falta interessaram. Só queriam saber quem
de meios e de apoios institucionais, não eu era. Pediram-me que falasse de mim
medem esforços, correndo então o risco e falaram deles próprios. Cinquenta
de se sobrecarregarem. Paradoxalmente, minutos depois, estava conquistada.
somos levados a acreditar que os Ali nasci como professora. Naquele
trabalhadores que hoje são vítimas de momento, soube que era numa sala de
burnout ou que se suicidam no seu local aula repleta de alunos que eu gostaria
de trabalho, são os mais comprometidos de passar o resto da minha vida. Nunca
com a sua atividade, aqueles que, de esqueci os rostos desses primeiros
uma certa forma, mais têm para dar. alunos e a memória dessa primeira aula
O testemunho desta professora é é uma das mais nítidas da minha vida.
contundente: Passei por escolas em Grândola,
«A Escola sempre foi para mim Montijo, Amadora, Linda-a-Velha, S. João
um lugar de prazer onde me sentia mais do Estoril e Paço de Arcos. A escola
inteira e mais eu. Onde encontrava o continuou a ser para mim, já como
sentido para a vida. professora, um espaço de imenso prazer.
Na minha primeira escola, em terras O mês de setembro surgia, ano após
africanas, descobri as outras crianças, as ano, cheio de expetativa. Eram os novos
alegrias do recreio, as argolas, o trapézio alunos que chegavam. O novo desafio,
e os baloiços. Nas carteiras da 4ª classe, todos os anos renovado, de conhecer as
descobri o futuro que havia em mim. turmas, limar comportamentos, ganhar
Logo ali disse que iria ser da História. Era os alunos pelo interesse, motivá-los para
a história narrativa daqueles primeiros o trabalho, envolvê-los em atividades
anos que me prendia e me fascinava. extracurriculares interessantes, vê-los
Mais tarde, em Lisboa, reforcei crescer ao longo de três anos letivos, do
essa vocação nas aulas de professoras 7º ao 9ºano ou do 10º ao 12ºano.

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Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

Foram 38 anos. Quase todos felizes. o seu trabalho, em detrimento de uma


Notas
Só nos últimos deixei de sentir a avaliação holística apoiada no bom senso.
alegria de cada começo e só esperava Detestei ver a minha atividade
que chegassem ao fim. O cansaço, o não letiva ser avaliada por colegas de
desgaste, a desilusão vieram substituir outras áreas disciplinares que encaravam
a adrenalina que nascia todos os anos a Escola de uma forma diferente da
no mês de setembro. minha e, também eles, vítimas de uma
A escola mudou. Primeiro foi avaliação que privilegiava a quantidade
a imposição do eduquês. Depois, em detrimento da qualidade. Para
a proliferação de disciplinas que só exemplificar, montar uma colorida árvore
serviam para uma compartimentação de Natal tinha o mesmo valor pedagógico
desnecessária do saber e para aumentar que organizar uma semana de debates
a carga horária dos alunos e o peso para comemorar o 25 de Abril. Era UMA
das suas mochilas. Simultaneamente, atividade e por isso tinha o mesmo peso
assistiu-se à desautorização sistemática nos quadros de avaliação.
dos professores perante muitos atos de Detestei avaliar colegas através de
indisciplina dos alunos que as direções grelhas que eu tinha imensa dificuldade
desvalorizavam e deixavam avolumar- em preencher de modo a não os
se. Nunca cedi perante o que passou prejudicar.
a ser politicamente correto e sempre Reconheço que a avaliação é
consegui, na sala de aula, o respeito necessária, mas não aquela que nos foi
dos alunos, prendendo-os à minha imposta. Teve ainda o efeito de estragar
palavra, envolvendo-os no trabalho e definitivamente o ambiente nas escolas,
nunca admitindo comportamentos menos semeando a divisão e desconfiança
apropriados. entre professores que eram obrigados
Como todos os professores, tive a avaliarem-se entre si, na corrida pelo
que me adaptar às novas tecnologias Excelente e Muito Bom que, mesmo
da informação e, depois das primeiras obtido, podia não levar a lugar nenhum.
tentativas frustrantes, aderi com Depois, chegaram as aulas de
entusiasmo vendo o benefício que substituição para as quais nunca vi
delas retirava na construção de materiais nenhuma utilidade. Numa sociedade
pedagógicos que davam mais cor e onde a cultura do trabalho e do esforço
vivacidade às aulas. são muito ténues, a ideia de obrigar 20
Depois, tudo piorou. Foi o princípio a 30 alunos a retirar utilidade de aulas
do fim. Chegou uma ministra que se com professores substitutos nunca
gabava de não ter o apoio dos professores colheu adeptos. Não lhes reconheciam
para as reformas que desejava autoridade e tentavam boicotar qualquer
implementar na educação. Começou trabalho tentado. Ninguém queria revisões
por pôr “ordem na casa”, através de um de História quando o professor que
concurso para titulares que dividia estava a faltar era de Físico-Química, para
a carreira docente em professores de exemplificar. Poucos queriam aproveitar
primeira e outros de segunda. A luta o tempo para estudar. Sonhavam com
dos professores conseguiu acabar com o «furo» que lhes dava mais um tempo
tal aberração. saboroso de recreio.
Depois, em nome da qualidade, As direções, para ultrapassar o
impôs uma malfadada avaliação, problema, obrigavam os professores que
marcadamente injusta, que classificou os faltavam a deixar fichas para os alunos
professores a partir de quadros, grelhas fazerem, levadas pelos professores
e relatórios com um número infindável substitutos. Como não se sabia quando
de parâmetros que era preciso satisfazer. se ia faltar, além do trabalho letivo, da
Uma avaliação mecanizada e que burocracia e das reuniões sucessivas,
mecanizou os professores, esquartejando todos os professores eram obrigados a

88 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


criar uma bateria de fichas prontas para todos aqueles registos burocratizou o
Notas
serem aplicadas. trabalho dos professores e retirou-lhes
Tal como os alunos, também tempo para viver e sentir a Escola e os
os professores não aderiram a estas alunos.
aulas fictícias que, face às vicissitudes Comecei por cumprir. Depois fui
inerentes, desvalorizavam ainda mais relaxando. Realizava o trabalho exigido,
o seu trabalho, transformando-os em mas só quando dispunha de tempo,
entertainers. Muitos sentiam perder após as minhas tarefas letivas. Deixei de
dignidade e eram humilhados pelos cumprir prazos. O meu estatuto de mais
alunos. Muitas depressões tiveram de 20 anos de escola e o sucesso dos
origem nessas aulas de substituição. meus alunos deram-me essa folga, mas
No meu caso concreto, tentei todas sentia o stress dos meus colegas mais
as estratégias: abordar assuntos de novos, aflitos com a falta de tempo por
interesse geral, passar filmes, organizar estarem tanto tempo na escola.
jogos, distribuir as tais fichas. Sentia-me Como elemento essencial
usada e mal aproveitada pelo sistema, da burocracia, a febre das reuniões
e também desrespeitada pelos alunos, aumentava ainda mais o tempo passado
o que nunca acontecia com os meus na escola. No início, no meio e no final
alunos, nas minhas aulas de História. dos períodos, aquelas assolavam a escola,
Acabei por desistir. Deixava-os por determinação superior. Ordinárias e
estar à vontade na sala. Podiam estudar, extraordinárias.
conversar, ouvir música. Só não podiam Reuníamos por turmas, mas
fazer muito barulho para não prejudicar também por departamentos (outra
as outras salas. Quando fazia bom novidade que misturava professores
tempo, levava-os a passear pela escola de várias áreas) e por grupo disciplinar.
ou dirigíamo-nos para o campo de jogos, Eram obrigatórias reuniões semanais. A
para os rapazes jogarem futebol enquanto ideia seria criar condições para o trabalho
as raparigas ficavam a cochichar nas em grupo, mas imposto daquela forma
bancadas. Licenciada, com um mestrado e em espaços onde tudo faltava para
em História, fazia de babysitter dos alunos realizar um útil trabalho criativo (materiais,
dos outros professores. computadores que funcionassem, acesso
A par de todas as mudanças já à Internet, impressoras disponíveis e,
enunciadas e na sequência das mesmas, sobretudo, silêncio e recolhimento para
a burocracia tomou conta da Escola. a reflexão conjunta), aquelas reuniões
Toda a atividade humana passou a obrigatórias eram um suplício e todos
ser regida por regulamentos, regras, desejavam ir para casa para poderem
planificações a longo, médio e curto trabalhar em paz e com os seus materiais.
prazos, planos individuais de recuperação, A Escola desumanizou-se para se
planos individuais de desenvolvimento, transformar cada vez mais numa empresa
grelhas, folhas excell, relatórios e toda vocacionada para o sucesso, com
uma infinidade de outros instrumentos professores cada vez mais padronizados
de registo, em formato digital e em papel e mecanizados. Tornaram-se mais
que nos passaram a infernizar, ocupando individualistas, passaram a conviver
de forma estéril o nosso tempo. menos. Abandonaram muitos projetos
Particularmente penoso passou a ser culturais extracurriculares, por falta de
o trabalho dos Diretores de Turma. Surgiram tempo e porque lhes exigiam ainda mais
plataformas digitais que rivalizavam e se instrumentos de registo para preencher.
juntavam aos muitos papéis que aqueles Mudou o tempo de estar, o tempo
professores eram obrigados a preencher, de ser professor e aluno. O tempo de
registando semanalmente tudo o que ia viver a Escola. Durante anos houve uma
acontecendo. Com prazos para tudo. A escola com tempo para enriquecer os
utilização simultânea e permanente de conteúdos, tempo para ser criativo,

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 89


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

para inventar, com os alunos, atividades são relevadores de que, perante este
Notas
fora da sala de aula, tempo em que ambiente hostil há uma implosão (do
aprendizagem era também feita de coisas setor docente) e não uma explosão (no
que aconteciam simplesmente. Em que outro, o aluno).
se planificava, preparava e avaliava, mas Mas, ao mesmo tempo, revelam
onde havia espaço para a liberdade e a que o espaço do trabalho permanece
criatividade. Tempo em que eramos nós como lugar privilegiado de emancipação,
próprios, inteiros e não peças de uma à revelia de um ambiente organizativo
máquina a repetir tarefas impostas e e social, agressivo, hostil, desvinculado
padronizadas. Tempo para ser diferente das necessidades humanas e por isso
e para criar aqueles laços fortes que justamente percebido como brutalmente
duram uma vida inteira. Laços entre injusto161.
professores, entre professores e alunos.
Decididamente, aquela já não era a
Escola onde eu me sentia feliz. Quebrara-
se o encanto. A adrenalina dera lugar
ao desânimo, ao desgaste, à vontade
de partir.
Foi o que fiz, logo que a
oportunidade surgiu. Aos 59 anos, pedi
a reforma antecipada. Fui penalizada
financeiramente por me faltar idade,
mas salvei o meu equilíbrio emocional.
Sempre pensei que me iria sentir triste
na minha última aula e que a despedida
dos alunos iria ser dolorosa. Não foi assim
que aconteceu. Passou despercebida,
até para mim própria. Eu que nunca
esqueci os rostos dos alunos da minha
primeira aula num dia de abril de 1975,
não guardo qualquer recordação dos
alunos da minha última aula. Não sei se
eram alunos do Básico ou do Secundário.
A sua memória perdeu-se para sempre,
envolvida no desgaste e desalento dos
últimos anos. Treinei-me para deixar de
sentir e foi assim que deixei a profissão
que tantas alegrias me deu durante mais
de 35 anos.»160
Não surpreendem portanto,
apesar de assoladores, os resultados
de exaustão emocional, superiores a
75%, e desrealização, perto dos 50%.
Pelo contrário, surpreenderiam, a um
primeiro olhar, os baixos índices de
despersonalização (ver Histograma H5).
O gosto, afeto, e prazer que a maioria
dos professores conserva pelos alunos

160. Testemunho de Ana Paula Torres, 20 de Setembro de 2018.


161. Barrington Moore Jr, Injustiça: As Bases Sociais da Obediência e da Revolta, São Paulo, Brasiliense,
1987.

90 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Notas Conclusivas Notas

«Na sua última carta, domina a expressão é o fator que se destaca nesta fase do
silenciosa do mais profundo desencanto. estudo. Propomos como hipótese que
Não que lhe falte algo necessário, pois ele esta relação está intimamente ligada não
sabe bem viver com pouco, e eu tratei ao fator idade, em si (onde é patente o
do que era preciso; também não lhe aumento de exuastão emocional), mas
pesa aceitar alguma coisa de mim, pois, à dissociação entre as expetativas de
ao longo de toda a nossa vida, ficámos uma geração que, no pós 25 de Abril,
a dever tanto um ao outro que não viveu as experiências do trabalho não
conseguimos calcular qual o montante estranhado, não alienado, permitido –
do nosso crédito e do nosso débito. entre outros – pela gestão democrática, e
O que o tortura é justamente não ter um objetivo claro de educação enquanto
qualquer ocupação. Utilizar, diariamente valor de uso – consubstanciada na ideia
e a qualquer hora, para benefício dos do ensino democrático e politécnico
outros, a multiplicidade de talentos que ou unificado. Sublinhámos, também,
ele desenvolveu dentro de si, é todo o como conclusão, que é possível que
seu único prazer, a sua paixão. E agora os dados de adoecimento sejam ainda
deixar cair os braços ou então continuar mais esmagadores em Portugal porque
a estudar, adquirir novas capacidades, as expetativas dos professores com
quando não pode fazer uso de tudo o processo revolucionário foram mais
quanto tão abundantemente possui… longe. O espectro da autodeterminação162
Basta, minha querida, é uma situação ampliou-se, a ressaca social nas escolas
penosa cujo tormento ele, na sua solidão, foi mais dolorosa.
sente duas vezes, três vezes mais». A dissociação entre a experiência
Esta descrição é do romance vivida no mundo do trabalho e a que
Afinidades Electivas de Goethe. Escritor realmente se sedimentou, sobretudo
mor da literatura alemã e universal, Goethe a partir dos anos 90, foi maior do que
viveu na transição do século XVIII para o noutros países que não passaram por um
século XIX. A sua descrição de um capitão processo revolucionário tão capilar – mais
com conhecimentos do que parece ser de 3 milhões de pessoas num universo
a área de engenharia, ordenamento de 9 milhões e meio estiveram envolvidos
territorial que está desocupado da diretamente em ações que remetiam para
sua área de especialização, poderia a sua vida laboral, política e para o modo
ter sido o comentário de qualquer um de vida163. Isso ajuda a explicar, entre
dos investigadores no século XXI deste outros fatores, os números elevados de
projeto perante o resultado dos dados exigência de reforma antecipada entre os
que decorrem da análise ao inquérito professores, com custos significativos
nacional do estudo de burnout nos na perda da massa salarial164 desde
professores portugueses realizado em 2010/2012.
2018. O burnout é uma doença socio-
Os dados do inquérito remetem, -profissional, gerada por uma organização
desde logo, para níveis excecionalmente socio-profissional patogénica. A sua
elevados de «exaustão emocional». Este etiopatogenia deriva de um processo

162. Teoria, política e história: um debate com E. P. Thompson. Trad. Marcelo Cizaurre. Editora Unicamp:
2018, p.24-74.
163. Raquel Varela, História do Povo na Revolução Portuguesa, Lisboa, Betrand, 2014.
164. Testemunhos de Ana Paula Torres (Oeiras, Biblioteca Operária Oeirense, 17 de julho de 2018); Gi
Ribeiro dos Santos

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 91


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

educacional e gestionário de domínio- só a recusa, desobediência e revolta


Notas
submissão e manipulação-posse, isto (insurreição) constituem a resposta
é, de domesticação – diametralmente necessária e adequada ao abuso do/no
oposta à educação – de apoio e trabalho. E à revolta tem de seguir-se a
ajuda à independência e autonomia – revolução e mudança – isto é, inverter
autodeterminação e regra própria – e o processo: da exploração-escravatura
expansão, emancipação e criatividade. para a recompensa e liberdade.
Não se cura nem se previne a doença A crença na virtuosidade do binómio
se não se atacarem as causas. Ora, ‘o mais poderoso e o melhor adaptado’,
acreditamos que as causas do mal-estar ou em versão suavizada o ‘mais sábio
revelado no inquérito – cujos resultados e o melhor aluno’, é a receita para a
psicométricos são ainda confirmados desgraça – de crise em crise, até à
pelos testemunhos individuais – são catástrofe. Urge mudar de paradigma
causas sociais – a sociedade tal como – para a complementaridade criadora,
está organizada e em particular o setor a complementaridade insaturada; esta,
da educação. É aqui que é preciso com valências livres, está sempre
intervir: na orgânica e governança da aberta e desejante de desenvolvimento
escola, nas condições de trabalho e sua e inovação. Conclusão: cooperação
retribuição dos professores. O êxito dos e criatividade, e haverá futuro; ou
alunos depende da qualidade da escola; competição e destrutividade, e o colapso
e esta, do bem-estar e sentimento de será certo.
realização de quem aí trabalha. É da O indivíduo é a unidade biológica.
responsabilidade do Estado garantir estes A unidade psicológica é o par; e a
valores. unidade sociológica, o trio. Os dois
O trabalho inscreve-se na dupla conjuntos individuais, professor e aluno,
hélice da relação interpessoal. Comporta sendo complementares (diferentes,
competição e cooperação – como mas conjugáveis) formam o conjunto-
repetição e inovação, tédio ou entusiasmo -universo par relacional, a real unidade
à medida do sofrimento ou do prazer. psicológica, o conjunto criador. Mas o
Mede-se pela quantidade-intensidade – os par não dança no vazio. Há o outro, o
quanta de esforço e produção – e aprecia- contexto e a circunstância, o espaço-
se pela qualidade-gosto – os qualia do tempo em que se move. O sol brilha
sentimento e expetativa. Julga-se externa em céu límpido; no negrume do espaço
e objetivamente pela generosidade ou envolvente e na fúria do vento dominante,
ganância; e interna e subjetivamente no labirinto da perversão edulcorada, o
pela empatia ou indiferença. “tóxico perfumado”, o desenvolvimento
Assim sendo, o trabalho é nobreza e inovação são difíceis. As doenças
e satisfação, prazer de desempenho mentais são fenómenos psicossociais,
e de resolução, quando agradável e resultam da resposta insuficiente
recompensante; ou fator de tensão ou inadequada ao ambiente social
(stresse), exaustão (burnout) e patogénico de penetrância-assimilação
desistência (depressão), quando variável: gás mal cheiroso, inodoro ou
desagradável e não recompensado. perfumado – segundo o grau progressivo
É que a relação humana ou é aliança, de perigosidade. É, em suma, preciso
reciprocidade e desenvolvimento – mudar o sistema em que a escola é
afeição e cultura – ou é posse, domínio obrigada a funcionar.
e exploração – predação e barbárie. Não Virar o jogo a seu favor e,
há volta, racional ou emocional, a dar: simultaneamente, reinventar-se é a tarefa
socialismo ou egoísmo, eu ou nós; o do analisando, monitorizada pelo analista.
narcisista odeia toda a gente, só ama Dar a volta à relação interpessoal ao
o poder (e o dinheiro, seu resultado mesmo tempo, enquanto, dá a volta a si
e instrumento). Psicanaliticamente, mesmo, à sua personalidade-identidade;

92 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


um processo arrasta o outro, desenrolam- divisão de tarefas e o modo operatório
Notas
-se conjuntamente, desenvolvendo- afetam o significado e o interesse do
-se paralelamente e potenciando-se trabalho, enquanto a divisão do trabalho
mutuamente. É, no fundo, um processo solicita especialmente as relações
desenvolvimental único, sócio-identitário entre pessoas e mobiliza, assim, os
– há uma mudança societária e identitária, investimentos afetivos, o amor e o ódio, a
muda o estilo de relação com o outro e amizade, a solidariedade, a desconfiança,
muda o perfil da identidade, torna-se outro etc. Impõe-se uma aprendizagem-
societário e outro identitário. O processo docência ditada pelo sucesso de
transformacional – transformador a conhecimento e criatividade e não pelo
transformativo, que transforma a relação e insucesso das receitas estereotipadas.
o outro e transforma o próprio – desenha É, consequentemente, uma eficiência
uma dupla-hélice desenvolutiva de duas avaliada pela densidade e qualidade do
alfa-hélices ligadas por pontes (à maneira desempenho e não uma eficácia avaliada
do ADN). Compete ao psicanalista pela rapidez de produção.
iluminar o campo, despertar a atenção Quando nascemos somos
e motivar a ação – não só motivar como candidatos ao género humano mas ainda
monitorizar e catalisar. não somos – tornamo-nos. É através da
Este modelo que apresentamos educação (informal e formal) que nos
para a cura psicanalítica aplica-se à tornamos parte do género humano –,
mudança social, geral ou setorial (aqui, nem a postura bípede ereta é natural.
a educação). Na Psicanálise, como Ela é educada. A educação informal,
na Educação, é o paradigma que tem familiar é a mais comum, é limitada, é
de mudar: da repetição, habituação e necessária, a partir de um certo grau de
domesticação para a criação, inovação desenvolvimento de educação formal.
e empreendimento; em síntese, da Nenhum espaço, até hoje, cumpriu
rotina para a expansão. A rotina mata, a esse papel da educação formal como
criatividade vivifica. Impõe-se uma rotura a escola, espaço onde se dá esse ato
paradigmática, romper com o modelo volitivo e intencional de produzir nos
conventual165. Quer-se outra governança, indivíduos o conhecimento produzido
outra direção, outro enquadramento. pela humanidade. O adoecimento dos
O burnout dos professores que professores é, assim, o adoecimento
observamos é uma consequência da da própria humanidade: «É, portanto,
estrutura anquilosada e perversa da na existência efetiva dos homens, nas
escola-educação e da desqualificação contradições de seu movimento real,
e desempoderamento do professor. e não numa essência externa a essa
Quando falamos de trabalho e existência, que se descobre o que o
educação, esta dimensão ganha ainda homem é: “tal e como os indivíduos
mais centralidade porque a especificidade manifestam sua vida, assim são. O que
do trabalho educativo – daí a importância são coincide, por conseguinte, com sua
do estudo analítico destes dados - é o produção, tanto com o que produzem
facto de que produção/constituição do como com o modo como produzem”
homem, através do trabalho, é ao mesmo (idem, ibidem). Se a existência humana
tempo formação/educação. não é garantida pela natureza, não é uma
De facto, se as condições de dádiva natural, mas tem de ser produzida
trabalho são voltadas principalmente pelos próprios homens, sendo, pois,
para o corpo fisiológico, a organização um produto do trabalho, isso significa
do trabalho, por sua vez, coloca em que o homem não nasce homem.
questão o funcionamento psíquico: a Ele forma-se homem. Ele não nasce

165. Na psicanálise tradicional o formando era chamado “postulante” (o pedinte); na universidade


clássica o professor era o “lente” (o que lê e recita o livro).

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 93


Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal

sabendo produzir-se como homem. Ele não surgem com pacientes, usuários
Notas
necessita aprender a ser homem, precisa e estudantes mas, justamente, com a
aprender a produzir sua própria existência. burocracia, os superiores e, inclusive,
Portanto, a produção do homem é, ao colegas de trabalho. Os ambientes de
mesmo tempo, a formação do homem, trabalho tornam-se lugares de fala, de
isto é, um processo educativo. A origem suspeição, de desconfianças, do diz-que-
da educação coincide, então, com a -me-disse e de tudo aquilo que Gramsci
origem do homem mesmo».166 referiu como a pequena “política dos
A assim chamada “Síndrome de corredores”167. Por isso, os exemplos do
Queimar-se pelo Trabalho” tem como contrário, de colaboração, de confiança
pressuposto, da psicologia psicométrica mútua, de construção sólida, das críticas
e behaviorista à americana, uma olhos nos olhos, de relações densas,
série de indicadores de exaustão, vísiveis e à contracorrente vão-se
despersonalização e desrrealização vis- tornando não só mais raros e escassos
à-vis às relações de trabalho. Ainda e como mais urgentes e necessários. Não
quando devemos criticar o quantitativismo se trata de uma luta só contra governos e
e o método funcional é impressionante reitorias, gestões e chefias, mas também
a aproximação ao universo da filosofia contra a apatia. Trata-se do estranho
clássica europeia, como nos conceitos caso de um instrumento de causalidade
de estranhamento, alienação e reificação. instrumental/utilitária/pragmática, mas de
O que a revisão da literatura logrou finalidade potencialmente crítica, reflexiva
alcançar depois de quase quatro decénios e transformadora. Neste campo – passar
de experiências a nível global com do auto queimar-se ao auto curar-se –,
instrumentos de medição do desgaste as organizações de trabalhadores têm
à escala-Likert? Quando se experimenta um papel insusbtituível. A vida, ao fim
mais a concorrência do que a cooperação, e ao cabo, insiste. E não existe nada de
mais a hierarquia do que a horizontalidade, mais audacioso, ousado e autotélico do
mais heteronomia/subordinação do que que o ser social, o “humano genérico”,
autonomia/igualdade, mais sujeição do em todo o Universo. Como disse
que emancipação e mais passividade Raymond Williams, «Mais vale tornar
rotineira do que atividade criadora, há viável a esperança do que convincente
uma tendência geral ao Burnout. São o desespero». 168
mais frequentes e típicas nas atividades
de trabalho intelectual envolvendo seres
humanos em situação de cuidado
dedicado aos demais (médicos,
professores etc.). Na maioria das vezes,
contudo, em profissionais com altos
índices de “engajamento” de nexo
psicofísico nos processos laborais, as
contradições, conflitos e antagonismos

166. Demerval Saviani, «Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos, Revista Brasileira
de Educação - ANPED - v.12 - n.34 – 2007, p. 154.
167. Para Gramsci a “pequena política (política do dia a dia, política parlamentar, politica dos corredores,
das intrigas de bastidor” a qual “compreende as questões parciais e cotidianas que se apresentam no
interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre as diversas
frações de um mesmo grupo político” expressa os processos políticos, à diferença da grande política,
ou seja, aquela que transforma estruturas do ser social e funda novas formas de viver, que acabam por
legitimar e perpetuar a divisão de classes e de poder político. Cadernos do Carcere. RJ: Civ. Brasileira,
2000, vol.3, p. 21
168. Entrevista a Terry Eagleton, In: WILLIAMS, Raymond. Recursos da esperança: cultura, democracia,
socialismo. Trad. Nair Fonseca e João Alexandre Peschanski. São Paulo: Ed. Unesp, 1989/2014.

94 JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018


Biografia dos Autores

Raquel Varela Duarte Rolo IP). Mestre em Psicossomática pelo Instituto


É Historiadora, Investigadora e professora Formado em Psicologia Clínica pela Université Superior de Psicologia Aplicada tem formação
universitária na Universidade Nova de Lisboa/ Paris Decartes e Doutorado em Psicologia psicoterapêutica em Abordagem Centrada
IHC e Fellow do International Institute for Social do Trabalho pelo Conservatoire National na Pessoa. É especialista de Saúde Pública
History (Amsterdam). Autora e coordenadora des Arts et Métiers, atualmente Professor desde 2007.
de 25  livros sobre história do trabalho, do Associado na Université Paris Decartes e
movimento operário, história global.  É Investigador no Laboratoire de Psychologie António Mendes Pedro
fundadora da Rede de Estudos Globais do Clinque, Psycanalyse et Psycopathologie. Professor Associado nas Universidades
Trabalho (Nova Delhi/Índia). Foi responsável Membro da Associação Internacional dos Autónoma de Lisboa e Católica Portuguesa.
científica das comemorações oficiais dos 40 Especialistas em Psicodinâmica do Trabalho e Investigador no CIP-UAL, Psicólogo pela
anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu da Association Française de Psycopathologie Ordem dos Psicólogos -Psicanalista
o Santander Prize for Internationalization of et Psicodynamique du Travail. Investigador Formador na Associação de Psicanálise.
Scientific Production. É coordenadora de Convidado no Institute for Socila Research da Director e Psicoterapeuta do Centro Kairos-
vários projectos, entre eles Estudo Evolução Universidade Goethe de Frankfurt. Publicou Psicologia,Psicossomática e Filosofia.
da Força de Trabalho Médica no SNS (Ordem "Mentir au Travail" na Presses Universitaires Membro da Associação Europeia de Medicina
dos Médicos/FCSH 2016), Condições de Vida de France, em 2015. Trabalha atualmente Psicossomática e da Sociedade Americana de
e Trabalho dos Professores em Portugal sobre a etiologia e a prevenção dos distúrbios Psicossomática
(Fenprof/UNL 2018) e do Estudo de Trabalho psicológicos relacionados com o trabalho e
e Automação dos portos a nível global (UNl/ sobre a relevância politica do sofrimento no Luisa Barbosa Pereira
International Dockworkers Council, 2015). trabalho. Doutora em Sociologia pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (2014)
Roberto della Santa Roberto Leher com doutorado sanduíche em história
Professor de Teoria Sociológica e Metodologia Graduado em Licenciatura em Ciências contemporânea na Universidade NOVA de
Científica da CFCH/UFRJ no Campus Biológicas pela UFRJ em 1984, Mestrado Lisboa e no International Institute of Social
Praia Vermelha. Professor do Programa em Educação pela Universidade Federal History (2014). Graduação e licenciatura
de Pós-Graduação em Serviço Social e Fluminense (UFF) e Doutorado em Educação plena em Ciências Sociais pela UFRJ (2008),
Desenvolvimento Regional da ESS/UFF no pela Universidade de São Paulo (USP). Professor mestrado em Sociologia e Antropologia
Campus Niteroi Gragoatá. Pós-Doutorando titular da Faculdade de Educação e do Programa pela UFRJ (2010). Actualmente é docente
em História Global do Trabalho na FCSH/UNL. de Pós-Graduação em Educação da UFRJ e em Sociologia no Colégio Estadual João de
servirdor da instituição desde 1988. pesquisador Oliveira Botas e Colégio Municipal Paulo
Henrique Silveira do CNPq, bolsista Cientista de Nosso Estado Freire (Armação dos Búzios-RJ), pesquisadora
Docente de matemática no Instituto Superior da FAPERJ, colaborador da Escola Nacional no International Institute of Social History,
Técnico da Universidade de Lisboa e membro Florestan Fernandes e Reitor da UFRJ. no Observatório para as Condições de Vida
investigador do Centro de Análise Matemática e Arquivo da Memória Operária do Rio
Geometria e Sistemas Dinâmicos. Doutorado João Areosa de Janeiro. Autora de “Justa Causa Pro
em Matemática. Tem leccionado as cadeiras Licenciado em Sociologia. Pós-graduado em Patrão” (Multifoco, 2012) e “Navegar é
de equações diferenciais, bifurcações em Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho. preciso” (Multifoco, 2015). Tem experiência
equações diferenciais e sistemas dinâmicos Mestre e Doutor em sociologia do trabalho e de pesquisa em história social, memória,
e é especializado em sistemas dinâmicos área das organizações pelo Instituto Universitário trabalho, indústria naval, justiça, e, mais
em que tem publicado a maioria dos seus de Lisboa (ISCTE-IUL). Ex-Diretor da recentemente, educação e juventude.
artigos de investigação e orientado teses de Licenciatura em Engenharia de Segurança
doutoramento e ainda teses de mestrado. no Trabalho, no ISLA-Leiria. Investigador Anna Paulla Artero Vilela
É actualmente um dos vice-presidentes do no Centro de Interdisciplinar em Ciências Licenciada em Geografia pela Universidade
Departamento de Matemática do Instituto Sociais (CICS.NOVA) da Universidade Nova Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho,
Superior Técnico e ainda vice-presidente do de Lisboa. Professor Convidado no Instituto na Faculdade de Ciências e Tecnologia, FCT/
Centro Internacional de Matemática. Politécnico de Setúbal (ESCE/IPS). Membro da UNESP, Campus de Presidente Prudente.
estrutura organizativa da Rede de Investigação Integrante do Grupo de Pesquisa Centro de
António Coimbra de Matos sobre Condições de Trabalho – RICOT. Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT).
Psiquiatra e pedopsiquiatra. Psicanalista Atualmente está cursando o Mestrado
dictata. Professor convidado da Faculdade José António Pereira de Jesus Antunes Académico em Geografia com ênfase na
de Psicologia da Universidade de Lisboa e do José António Pereira de Jesus Antunes, linha de pesquisa Trabalho, Saúde Ambiental
Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA licenciou-se em Medicina em 1989 tendo e Movimentos Socioterritoriais - FCT/UNESP
– Instituto Universitário). Doutor Honoris Causa actualmente o grau de consultor em Medicina Campus de Presidente Prudente. Bolsista
pelo ISPA – Instituto Universitário. Carreira Geral e Familiar. Exerce actividade clínica pela Fundação de Amparo à Pesquisa do
hospitalar em psiquiatria e saúde mental, no Centro de Respostas Integradas de Estado de São Paulo no seguinte projeto:
tendo sido director do Centro de Saúde Mental Lisboa Ocidental na Equipe do Eixo Oeiras- Trabalho e adoecimento: uma análise do
Infantil e Juvenil de Lisboa/Departamento de Cascais da Divisão de Intervenção em professorado paulista sob a perspectiva da
Pedopsiquiatria do Hospital de D. Estefânia, Comportamentos Aditivos e Dependências geografia. Atualmente está em um estágio no
entre 1979 e 1999. (DICADE) da Administração Regional de exterior pelo Grupo de Estudos do Trabalho
Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT, e dos Conflitos Sociais, em Lisboa – PT.

JORNAL DA FENPROF | OUTUBRO 2018 95