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Identificar e apoiar estudantes com POC

O que é a POC?
A Perturbação Obsessiva-Compulsiva (POC) é uma doença neuropsiquiátrica que
começa frequentemente na infância e tem impaco significativo no funcionamento familiar,
académico, ocupacional e social. Crianças e jovens com POC têm obsessões ou imagens, ideias
ou pensamentos indesejados e perturbadores que ficam presos nas suas cabeças. Para acalmar
a ansiedade ou para acabar com as obsessões temporariamente, as crianças e jovens com POC
realizam compulsões ou rotinas e comportamentos ritualísticos uma e outra vez. As obsessões
e compulsões tendem a cosumir bastante tempo (mais do que uma hora por dia) e causam
angústia significaiva ou interferem com o funcionamento diário das crianças ou jovens em casa
e/ou na escola.

O ciclo obsessivo-compulsivo

Obsessões Sentimentos
negativos
(medo, ansiedade,
preocupação…)

Redução
da angústia
(Temporária) Compulsões

Factos sobre a POC


 Afeta 1-3% da população;
 Crianças e jovens com POC são mais prováveis de ter outras perturbações relacionadas com
a ansiedade, o humor ou o comportamento disruptivo;
 Obsessões e compulsões podem mudar, aumentar e diminuir ao longo da infância e da vida;
 A POC permanece crónica em aproximadamente 40% dos casos e tende a não ser resolvida
sem tratamento;
 Tratamentos de primeira linha com resultados comprovados incluem:
 Terapia Cognitivo-Comportamental (CBT) com exposição e prevenção de resposta
(E/RP);
 Anti-depressivos (inibidores da recaptação da seretonina, especialmente a
clomipramina);
 Existe um atraso significativo entre o surgimento dos sintomas obsessivos e compulsivos e a
altura em que a criança recebe o diagnóstico formal e pode aceder ao tratamento específico
da POC;
 Consequências da POC não-tratada incluem:
 Ruptura familiar significativa;
 Dificuldades escolares;
 Dificuldade na relação com os pares;
 Menor produtividade no trabalho;
 Taxas mais elevadas de desemprego;
 Taxas mais baixas de casamento.

Obsessões e compulsões comuns em crianças e jovens

Obsessões Compulsões
Contaminação Lavar e limpar
Dano a si próprio e aos outros Verificar
Simetria e exatidão Ordenar/arranjar
Necessidade de perfeição Contar, tocar, esfregar
Pensamentos proibidos (por exemplo, religiosos, sexuais, morais…) Rituais mentais

O que diz a pesquisa científica sobre o impacto da POC no funcionamento escolar?


Os estudantes com POC podem apresentar evitamento e/ou recusa escolar e
desempenho académico limitado (Geller et al., 1998), podendo ter dificuldades em concentrar-
se nos trabalhos de casa e nas tarefas na escola (Piacentini et al., 2003). Podem também
apresentar dificuldades nas funções executivas e exibir défices no funcionamento social (Snyder
et al., 2015; Stroch et al., 2006).

Tenha em mente
A POC pode ocorrer simultaneamente com outras perturbações mentais – por exemplo,
a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), Perturbação de Ansiedade,
Perturbação de Desafio e Oposição, etc. – ou pode assemelhar-se a estas perturbações. A POC
pode, também, ser confundida com mau comportamento, falta de interesse ou preguiça.
Os estudantes podem sentir-se extremamente cansados na escola, precisamente por
terem falta de sono e despenderem tempo e esforço excessivos nas obsessões e/ou compulsões.

Identificar a POC em escolas: indicadores gerais

Dificuldade Como pode parecer o comportamento?


Dificuldades em seguir instruções, prestar atenção na aula ou
Concentração
começar/completar tarefas.
Perder informação ou esquecer coisas/etapas devido à
Memória distração dos sintomas da POC que interrompem o processo de
armazenamento da memória.
Absentismo, atrasos, pedidos de dispensa ou saída de
Comparecimento na escola
atividades em grupo.
Incumprimento, discussões, teimosia, agitação, pedidos
Problema comportamental excessivos de tranquilização ou de explicações, repetição de
sons/palavras/frases.
Of triggering aulas, áreas, atividades, materiais escolares ou
Evitamento
pessoas.
Interação com os pares diminuída, potencial bullying,
Socialização
vitimização.
Notas em declínio, tarefas incompletas, demora excessiva na
Realização académica
realização das tarefas.

Potenciais dificuldades de aprendizagem associadas à POC

Não se concentrar no que o professor diz; dificulades em


Ouvir/participar compreender a matéria; não dar respostas com prontidão;
evitar certos tópicos/atividades na aula.
Ficar “preso” numa questão; incapacidade para pular itens;
Completar trabalho pensar demasiado nas questões ou duvidar da resposta dos
outros; necessidade de completar a tarefa com perfeição.
Não ser capaz de se preparar o suficiente; dificuldades em
Exames/testes perguntas de resposta múltima e testes cronometrados;
incerteza sobre a “forma correta” ou a “resposta certa”.
Distrair-se das palavras ao focar-se em preocupações (por
exemplo, uma palavra escrita a vermelho pode fazer pensar em
Leitura sangue) ou rituais (por exemplo, contar as letras); necessidade
de voltar a ler de novo no sentido de compreender na perfeição
o significado.
Evitar problemas que contêm certos números; refazer ou voltar
Matemática a verificar problemas; dificuldade na memorização por
repetição por se focar nas obsessões e/ou compulsões.
Dificuldade em colocar no papel as ideias (por exemplo,
perfecionismo); tendência excessiva para apagar ou reescrever
coisas; demorar demasiado tempo para escrever frases (até
Escrita que esteja “como deve ser”); dificuldade em escrever à mão
(demasiado depressa ou demasiado perfeito); evitamento da
escrita de certas letras, números ou palavras, derivado de
obsessões associadas.

Exemplos de sintomas da POC na escola

Indicador Comportamento
Pele muito vermelha, Visitas repetidas e demoradas à
Contaminação
áspera ou com rachas (por casa de banho; proteção de
exemplo, mãos, braços, propriedade pessoal; evitar tocar
cara), por causa da em objetos ou áreas comuns ou ir à
repetição de lavagens. casa de banho; não partilhar itens.
Rever repetidamente ou apagar o
Gastar tempo significativo
trabalho escrito; verificar a mochila
“Como deve ser” na realização de uma tarefa
ou o relógio; mexer na roupa até
ou repetir uma ação.
que esteja “como deve ser”.
Perguntar repetidamente as
mesmas questões; pedir ao
Procurar frequentemente
professor para repetir uma
Dúvida excessiva tranquilização; verificar de
pergunta várias vezes ou para dar
novo o trabalho.
feedback que ele fez/ouviu algo
corretamente.
Ler repetidamente papéis; passar
Tarefa tardia; recusa em itens à frente nos testes; usar
Medo do plágio/fraude fornecer a tarefa; não barreiras para bloquear a sua vista
responder aos itens. dos pares; pôr os trabalhos de casa
no lixo se os pais o ajudarem.

Apoiar estudantes com POC na escola


 Ter conhecimento sobre a sintomatologia da POC e seus efeitos no funcionamento escolar;
 Manter um sistema de comunicação casa-escola e envolver os pais apropriadamente;
 Colaborar com profissionais de saúde mental;
 Desenvolver um Plano de Educação Individual (PEI) baseado nas necessidades correntes do
estudante:
 Manter o PEI simples;
 Juntar dados: ferramentas de rastreio académico, escalas de classificação e
observações;
 Incluir pessoas-chave no apoio na equipa;
 Desenvolver intervenções para atingir as necessidades do estudante;
 Ter objetivos de curto-prazo;
 Implementar adaptações TEMPORÁRIAS até que os sintomas melhorem;
 Monitorizar e traçar o progresso: mudanças no comportamento e resultado académico
(por exemplo, ferramentas diretas/indiretas);
 Rever e ajustar os objetivos do PEI de forma regular:
 Marque reuniões bi-mensais;
 Estabeleça papéis e ações aos membros da equipa;
 Reunir sobre a resolução de problemas e dificuldades;
 Celebrar o sucesso!

A importância de adaptações TEMPORÁRIAS


A expressão “adaptações temporárias” pode ser confusa para os professores, que
geralmente desenvolvem e implementam adaptações a longo prazo para ajudar os alunos a
atingirem o seu potencial académico. Ao contrário de estudantes com dificuldades intelectuais
ou de aprendizagem, os estudantes com POC podem necessitar de adaptações escolares
limitadas no tempo. À medida que os estudantes alcançam os seus objetivos do tratamento e
os sintomas melhoram, as adaptações escolares podem ser gradualmente reduzidas ou
terminadas (dependendo do caso). É essencial que as adaptações escolares sejam desenvolvidas
em colaboração com o estudante, a sua família e um profissional da saúde mental.

Ideias para adaptações temporárias para a POC

Área Estratégias
Dar tempo extra; reduzir a carga de trabalho; ter um formato
alternativo (por exemplo, computador ou software de ditado
Tarefas/trabalhos de casa de voz); ter um limite de tempo de trabalho; evitar classificar
o trabalho baseando-se na limpeza/asseio; dar prazos
flexíveis.
Dar tempo extra; ter um formato alternativo (por exemplo,
Exames/testes
oral); usar uma sala separada.
Reduzir as apresentações em público; usar apresentações
Apresentações/falar
gravadas; ter apresentações individuais; combinar
em público
previamente a invocação do aluno.
Fornecer notas preparadas para realçar; dar uma cópia das
Tomar notas
notas da aula.
Negociar expetativas razoáveis; ter alternativas para o
comportamento de evitamento; usar um cronómetro para
Seguir direções e transições
assinalar o início e o fim de uma nova tarefa; usar uma lista
de verificação com os passos a dar numa nova tarefa.
Combinar previamente um sistema de sinais; ter uma pessoa
de confiança a quem o estudante possa recorrer quando
Intervalos
estiver a ter dificuldades com a POC; ter um sítio seguro onde
o estudante se possa acalmar antes de voltar a entrar na aula.
Sentar na frente (dependendo dos desencadeadores); sentar
Assento preferencial
atrás.

Outras estratégias e intervenções na sala de aula


 Considere educar a turma sobre a POC se o estudante e a sua família o aprovarem. Certifique-
se de que obtém o consentimento escrito por parte da família e planeie com ela e com o
profissional de saúde mental, de forma cuidada, o que será discutido.
 Para diminuir o isolamento social:
 Tenha atividades de turma estruturadas para construir relações sociais;
 Junte o estudante a pares respeitosos e empáticos;
 Elimine o bullying falando geral e abertamente sobre isso, discutindo diversos cenários
e construindo a empatia e a compreensão entre os estudantes;
 Eduque todos os estudantes sobre doenças e dificuldades diversas.
 Com a ajuda de um profissional de saúde mental e com a aprovação do estudante,
desenvolva um plano para tentar não se envolver no comportamento compulsivo ao mesmo
tempo que empatiza com a dificuldade do estudante. Abaixo seguem alguns exemplos:
 Tranquilização: quando se apercebe de que o pedido de tranquilização ou repetição por
parte do estudante está relacionado com a POC, utilize os sinais não-verbais
previamente combinados com o estudante que indicam que essa é uma questão da POC.
Repita ou explique mais uma vez e depois encoraje o estudante a dar o seu melhor para
resolver a questão por si mesmo. Planeie com antecedência para atrasar a resposta por
um período de tempo definido.
 Perfecionismo: se notar que o estudante está preso numa questão, não consegue
terminar o trabalho ou continua a apagá-lo porque tem de estar “perfeito”, elogie
verbalmente o trabalho feito até então pelo aluno e encoraje-o para seguir em frente.
Quando apropriado, pode indicar uma vez que a expetativa não é a de que o trabalho
fique 100% correto e que “a perfeição não existe”.
 “Na medida”: se verificar que o estudante está a apagar excessivamente, a escrever tudo
de novo ou a riscar letras/palavras porque elas precisam de estar “na medida”, reforce
ao aluno que o seu trabalho não será classificado consoante a sua limpeza ou asseio se
for legível.
 Verificação: quando vir que o estudante perde muito tempo a verificar o seu trabalho,
enfatize a necessidade de passar à frente e terminar o trabalho. Pode também negociar
uma estratégia para ajudar o estudante a passar menos tempo a verificar (por exemplo,
cobrir a linha à medida que o aluno lê o parágrafo ou completa um problema).
 Evitamento: caso note que o estudante tende a evitar certas tarefas ou ir a certos sítios
específicos da sala de aula por causa da POC, desenvolva um plano com o aluno para
expô-lo, de forma gradual, aos estímulos desencadeadores. Por exemplo, se o estudante
evita dirigir-se para um determinado sítio na sala de aula por ter preocupações ao nível
da contaminação, peça primeiro que se sente poucos metros ao lado da área
contaminada até que se habitue à angústia de estar perto daquela área sem se envolver
em comportamento compulsivo (por exemplo, lavar as mãos). Quando o aluno não
estiver mais desestabilizado por aquela distância, encoraje-o a abordar gradualmente
aquela área usando a mesma estratégia (aproximação). O objetivo é o de que o
estudante consiga ir à área contaminada e usar os materiais dessa área sem experienciar
ansiedade ou nojo ou sem se envolver em comportamentos compulsivos.