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LICENCIATURA EM MATEMÁTICA

MANCALA COMO METODOLOGIA NO ENSINO DE CONTAGEM

SALVADOR
2019
JOSÉ CARLOS LIMA
HUMBERTO GABRIEL
TAIRINE ALBERTA

Atividade apresentada a disciplina


– MAT245, do semestre 2018.2.

Orientado pela professora Daniela


Cunha.

SALVADOR
2019
1. INTRODUÇÃO
A matemática é vista por muitos alunos como um “bicho de 7 cabeças”,
devido às frustrações durante seu percurso escolar, na qual muitos se sentem
desmotivados para continuar os estudos e desenvolver os conhecimentos
necessários para dar continuidade a vida escolar. Por vezes não se adaptarem ao
ensino tradicional, acabam por desenvolver aversão a escola. Nesse sentido os
jogos para o ensino de matemática tem sido defendido por diversos autores como
uma maneira de superar essa barreira, a exemplo de Claudia Zaslavsky, que nos
livros “Jogos e Atividades Matemáticas do Mundo Inteiro” (2000) e “Mais Jogos e
Atividades Matemáticas do Mundo Inteiro” (2009), discute sobre a
Etnomatemática e diz que o estudo dos conceitos matemáticos deve perpassar
pelas diversas culturas, pois temos a coexistência de várias culturas em um
mesmo território.
Quando o professor tem uma turma que veem a matemática como “terror”
ou “coisa muito difícil” de aprender, exige dele uma postura mais ativa, no que
tange o planejamento de aulas interativas, de modo que aborde os conteúdos
contextualizado com a realidade da turma. O trabalho com materiais manipuláveis
permite que os alunos consigam visualizar conceitos que antes pareciam muito
abstratos. Ou seja, intervenções pedagógicas com jogo desperta nos alunos
disposição para aprender isso resulta em aprendizagem significativa (MOREIRA;
CABALLERO; RODRÍGUEZ, 1997, p. 1 APUD PEREIRA, 2011)
D’Ambrósio (1999), também defende a ideia da diversidade cultural como
uma forma de promover um aprendizado mais significativo e contextualizado na
sala de aula. O autor afirma que a diversidade cultural nos leva a diferentes
formas de agir, de pensar e de nos relacionar, diz ainda que a escola é uma das
responsáveis por trabalhar esses valores culturais com os alunos. O governo, por
meio de pressões dos movimentos sociais negros sancionou a lei 10639/2003 que
estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura afro-brasileira e
africana nos currículos escolares. Tal obrigatoriedade não se restringe apenas
aos professores de História, é também de responsabilidade de todo corpo docente
da escola, independente da área do conhecimento.
A atividade aqui proposta é parte da avaliação da disciplina MAT245 –
Laboratório de ensino em matemática na qual cada equipe deve apresentar um
material manipulável ou jogo com propósito de ensino teórico-prático da
matemática. A escolha do tema se justifica pela relevância da temática e também
por interesse pessoal em conhecer métodos de ensino que relacione matemática
e o contexto cultural afro-brasileiro.
Este trabalho tem como objeto de estudo o Jogo Mancala como um método
facilitador para o ensino de contagem em turmas do 6º ano do ensino fundamental
II. Tem como questão de pesquisa - De que maneira o jogo Mancala pode
auxiliar o professor em turmas de 6 ano do fundamental II como estratégia
para reforçar o conhecimento dos alunos em contagem? O objetivo geral é
possibilitar aos alunos o desenvolvimento de habilidades de soma e subtração, a
partir do momento que precisa distribuir as sementes uma a uma em cada cova,
de modo que consiga colher a maior quantidade possível em seu Oásis.

2. HISTÓRICO E CONTEÚDO MATEMÁTICO


O Mancala é um jogo de tabuleiro que estimula a interação entre os
participantes, o raciocínio lógico. Independente da faixa etária dos estudantes,
exige deles concentração, antecipação mental das jogadas e movimentos
calculados. Por ser um jogo com materiais palpáveis, pode ser considerado
ferramenta inclusiva para o ensino da matemática básica, tanto por possibilitar a
inclusão cultural dos afrodescendentes, como também, por poder ser utilizado
com alunos cegos.

O termo Mancala é o nome genérico utilizado pelos antropólogos para


designar uma família de jogos de tabuleiro. O nome Mancala ― deriva da palavra
árabe – naqaala – cujo significado é mover, é a designação dada a uma família
composta por mais de duzentos jogos de tabuleiro (BORGES; PAIVA; SILVA,
2009, p.52 APUD PEREIRA, 2011). Zaslavsky (2000) traz em seu livro uma
descrição histórica sobre o jogo Mancala.

A Mancala, ou Mankala, é uma designação genérica dada por


antropólogos a um grupo numeroso de jogos desenvolvidos na
África, que guardam entre si diversas semelhanças, tendo uma
origem em comum no Egito, por volta de 3.500 anos atrás.
Muitos acham que a Mancala é apenas um jogo em específico,
mas na verdade há uma grande variedade de jogos de
Mancala. Conforme a região onde é jogado, a Mancala é
conhecida por um determinado nome. O jogo pertence a uma
família de jogos de tabuleiro, chamados de jogos de
semeadura ou jogos de contagem e captura. Certos
especialistas consideram que os Mankala estão entre os
melhores jogos do mundo. Os jogos de Mankala são muito
difundidos. Podemos encontrá-los na maioria dos países
africanos, bem como na Índia, na Indonésia, nas Filipinas, no
Sri Lanka, na Ásia Central e nos países árabes. Capturados no
terrível comércio de escravos, os africanos trouxeram os jogos
até as Américas - à costa brasileira, para o Suriname e às ilhas
do Caribe, onde ainda hoje são populares. Jogos deste tipo
existem há milhares de anos. Tabuleiros foram esculpidos nas
pedras de vários templos do Antigo Egito. Outros tabuleiros
muito antigos, cinzelados na rocha, também foram descobertos
em Gana, em Uganda e no Zimbábue. Mankala é uma palavra
árabe, que significa “transferir”. Pedras ou sementes são
transferidas de um recipiente a outro em um tabuleiro com
duas, três ou quatro filas de excipientes. Em cada região o
jogo tem seu próprio nome e seu próprio conjunto de regras. O
tabuleiro de duas filas é conhecido no Norte, Oeste e partes do
Leste Africano sob nomes como Wari, Oware, Ayo e Giuthi. Na
Ásia, as pessoas jogam Sungka, Dakort e Congklak em
tabuleiros de duas filas. No leste e sul da África, o tabuleiro de
quatro filas é mais comum, com nomes como Bao (que
significa “tabuleiro” em swahili), Nchuba e Mweso. Na Etiópia
há versões de três filas. O jogo tem sido praticado por reis, em
belos tabuleiros entalhados em madeira ou em tabuleiros de
ouro, e por crianças, que fazem buracos no chão. Há cerca de
400 anos, Shyaam aMbul aNgoong, um rei da África Central,
trouxe o jogo a seu povo, os Kuba, que viviam no Congo. Ele
os induziu a trocarem as atividades guerreiras pelas artes
pacíficas. Uma estátua do rei, atualmente no Museu Britânico,
mostra - o sentado diante de um tabuleiro de Mankala.
(ZASLAVSKY 2000, p. 32).
A utilização do Jogo Mancala tem por objetivo desenvolver habilidades
como princípio da contagem e distribuição, estimular o raciocínio lógico, propiciar
o ensino aprendizagem de forma lúdica, é uma estratégia de ensino que vem de
encontro com a lei 10.639 de 2003 que institui o ensino da cultura afro-brasileira e
africana nas escolas, por apresentar aos alunos outras culturas que já utilizaram
esse jogo. A proposta para o desenvolvimento do jogo, é elaborar o tabuleiro com
materiais recicláveis.
Materiais necessários: caixas de ovos; tesoura; sementes; papel; lápis e
borracha. Caso o professor deseje os alunos podem ornamentar o tabuleiro, para
isso serão necessários outros materiais, pincéis; tinta guache; hidrocor. O
tabuleiro a ser confeccionado terá 6 covas de cada lado, e uma cova em cada
extremidade, sendo assim definida do tipo 2x6+2.
Imagem 1 - modelo do uso da caixa de ovo para jogo Mancala.

FONTE:<http://www.realmaternidade.com.br/2015/09/08/resgatando-a-
simplici
dade-no-brincar/>
Para a confecção: Recorte a tampa de uma caixa de ovos. Em seguida,
pegue a tampa da caixa e recorte as duas extremidades, em torno de 15 cm;
Pegue as extremidades recortadas da tampa e cole cada uma delas em uma das
extremidades da caixa de ovos para fazer o reservatório das sementes (Oásis);
Fazer a pintura da caixa ao seu gosto (caso o professor opte por trabalhar com
Mancala decorada). A Mancala também poderá ser decorada com símbolos
africanos, basta que os alunos façam uma pesquisa para conhecê-los;
Regras - Cada jogador recebe 36 sementes que devem ser distribuídas
nas 6 covas laterais, 6 em cada uma delas para semear; Após decidirem quem
iniciará a rodada, o jogador deve escolher uma cova em seu campo e pegar todas
as sementes contidas nela e semear no sentido anti-horário; Caso a última
semente caia no kalah (cova da extremidade) ele tem o direito de jogar
novamente; Quando a última semente semeada cair do lado adversário em uma
cova com 3 ou 4 sementes, essas devem ser recolhidas para o armazém, se tiver
5 ou mais, o jogador não poderá colher as sementes; Caso a última semente caia
em uma cova vazia do seu lado do tabuleiro o jogador pega todas as sementes da
cova em frente a que fora semeada (lado do adversário - independente da
quantidade de sementes na cova); Quando uma cova tem mais de 12 sementes,
na distribuição o jogador não pode semear a cova de onde as sementes foi
colhida; A jogada não pode ser iniciada na cova com apenas uma semente; O
jogo termina quando não for mais possível fazer nenhuma jogada.
Durante as rodadas do jogo, cada jogador deve estar com papel, lápis e
borracha em mãos para exercitar a escrita de quantas sementes ele está
movimentado em cada rodada. Para isso cada um deverá preencher um quadro
conforme imagem abaixo.

Imagem 2 - Quadro a ser preenchido pelos alunos.

Fonte: Elaboração própria.


No decorrer do jogo o professor fará alguns questionamentos para que o
aluno reflita sobre suas jogadas - Quantas possibilidades de movimento você
possui nessa rodada? Dentre essas possibilidades, qual cova é a melhor escolha
para fazer a distribuição das sementes? Por quê? Nessa rodada, em qual das
covas você precisa depositar a última semente para conseguir capturá-las? Existe
alguma cova com a quantidade de sementes suficientes para realizar essa
jogada? Qual seria a pior cova para fazer a distribuição das sementes? Por quê?
(PEREIRA, 2011 e SANTOS, 2008). Com esses questionamentos podemos
presumir que os alunos terão um certo direcionamento e não ficaram com a
sensação de estar realizando o jogo pelo jogo. Haja visto que, estarão sendo
instigados a desenvolver estratégias a fim de conseguirem realizar as capturas,
bem como pensar de que maneira devem prever e realizar as jogadas.
Outros conteúdos matemáticas também passíveis de abordar com uso da
Mancala - Elaboração de gráficos (de barras ou de pontos), tendo como base a
tabela de registro o professor pode solicitar que a turma elabore gráficos de cada
um dos itens anotados anteriormente, analisar o comportamento do gráfico
explorando quanto a mais ou a menos de sementes foram movimentadas em
cada jogada.
Introdução de Progressão Aritmética (PA), no tabuleiro tem 12 covas,
sabendo que em cada uma delas tem depositadas 6 sementes como efetuamos
as seguintes operações: cálculo da razão e o enésimo termo da PA em que este
último representa a totalidade das sementes?
Razão: a1= 6, a2=12, para n= 1 temos:
r= an - na-1 = a2 - a1 = 12 – 6 = 6.
Enésimo termo: an = a1+(n-1) . r, para n = 12, temos:
a12 = 6+(12-1) . 6 = 6+ 11.6 = 72.
Pensando uma PA de todos termos iguais (a1= 6, a2=6, a3= 6, ... a12=6).
Como determinar a soma de n termos dessa PA?
Sn = (a1 + a2 ) x n / 2. Para n=12, temos:
S12 = (6+6) x 12/2 = 12x12/2 = 144/2 = 72.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Muitos alunos devidos as suas experiências escolares alimentam uma


aversão a matemática, o jogo como uma metodologia de ensino pode ser utilizado
pelo professor com o intuito de fazer com que os alunos entendam a aplicação
matemática em diferentes contextos. Espera-se que o jogo Mancala desperte o
interesse dos alunos e desenvolvam habilidades e competências como raciocínio
lógico e capacidade de análise, bem como manipulação de operações básicas de
soma e subtração, por meio da contagem de grãos distribuídos nas covas do
tabuleiro.
Além dessa abordagem trazida aqui, a exploração do jogo Mancala permite
uma abordagem interdisciplinar, por envolver aspectos culturais, sociais,
geográficos e político, através de parcerias com os docentes da área de
geografia, artes, português e história. Português pode explorar a leitura e escrita
das regras, leituras e interpretações das lendas que envolve o jogo Mancala.
Artes com a construção do tabuleiro bem como estudo de obras de artes africanas
que servirão de base para a confecção. Geografia exploração do território, fauna,
flora, solos, fatores climáticos. História - crenças da população, processo de
dominação, regime governamental.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Bergamini, Valdevir. Jogos Matemáticos como Recurso Facilitador para o


Ensino da Matemática. In: Os desafios da escola pública Paranaense na
perspectiva do professor. Produções didático-pedagógico. Volume II. Paraná, 2016.
págs 08-17.

BRASIL. Lei nº10.639. Inclui a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-


Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino. Diário Oficial da União, Brasília,
2003.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Educação para uma Sociedade em Transição.


Campinas. Ed.Papirus, 1999.

Gomes, Lucas; Dalto, Jader; Araman, Eliane. O jogo mancala como estratégia de
ensino: relato de uma experiência. In: XII EPREM – Encontro Paranaense de
Educação Matemática.
Campo Mourão, Paraná, Set 2014.

PEREIRA, Rinaldo Pevidor. O jogo africano mancala e o ensino de matemática


em face da lei Nº 10.639/03. Pós - Graduação em Educação Brasileira, Fortaleza,
2011. Disponível em:<http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/3223>
Acesso em: 17, Mar. 2019.

SANTOS, Celso José. Jogos africanos e a educação matemática: Semeando


com a família Mancala. Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE.
Maringá, 2008. Disponível em:
<http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/121-2.pdf>
Acesso em: 23, fev. 2019

SOARES, Wellington; MAGALHÃES, Lucas; PERES, Paula. O racismo nosso de


cada aula - As pesquisas mostram que pretos e pardos estão em desvantagem. O
problema é cultural, não pedagógico. Quebre esse ciclo. Revista Digital Nova
Escola. Edição 307, Nov. 2017. Disponível em:
<https://novaescola.Org.br/conteudo/9098/o-racismo-nosso-de-cada- aula> Acesso
em 23/02/2019.

ZASLAVSKY, Claudia. Jogos e Atividades Matemáticas do Mundo Inteiro:


diversão multicultural para idades de 8 a 12 anos. Porto Alegre: Artmed, 2000.

_____ Mais Jogos e Atividades Matemáticas do Mundo Inteiro: diversão


multicultural a partir dos 9 anos. Porto Alegre: Artmed, 2009.