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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Campus Baixada Santista


Curso de Psicologia
Módulo METODOLOGIAS QUALITATIVAS DE PESQUISA EM PSICOLOGIA
Coordenação Prof.ª Dr.ª Jaquelina M. Imbrizi
Termo IV - 2017

JACQUELINE MAGALHÃES PAIVA

Este ensaio pretende fomentar uma breve discussão entre o artigo “Pensamento,
corpo e devir – uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico”, de Suely
Rolnik, e a dissertação de mestrado profissional de Viviane Gorgatti intitulada “Marcas
de experiências no trabalho socioeducativo – Narrativas camaradas da formação
profissional”. Para isso, parte-se do trabalho de Rolnik como lente analítica para, do
trabalho de Gorgatti, trazer alguns elementos que sirvam de fonte e mote para a
discussão sobre temas caros daquilo que poderia ser chamado de método de pesquisa
da cartografia, em psicologia.
Desde o título do trabalho de Gorgatti, os mais íntimos do trabalho de Rolnik já
notariam confluências metodológicas entre elas, pois ambas trazem as marcas como
elemento central de suas investigações. Para a primeira, as marcas são frutos de fluxos
e composições advindos da experiência de vida, e a partir de um certo limiar são
produtoras de um devir e de um novo corpo ético, estético e político; para a segunda,
essas marcas integram os processos formativos constitutivos de posições ético-políticas
singulares e se fazem presentes nos posicionamentos dos indivíduos perante o trabalho
profissional. Assim, nota-se ser do mesmo referencial que Gorgatti parte em busca das
narrativas de catorze ex-estagiários e educadores sociais que atuaram no Camará e
que Rolnik volta-se para si ao escrever seu memorial.
E não cessa aí: novas convergências metodológicas continuam sendo
percebidas quando adentramos nos temas que ambas trabalharam em suas obras. Para
dar conta disso, a seguir, serão discutidos elementos importantes do método
cartográfico, como o trabalho do pensamento, o rigor ético/estético/político e, por fim, o
trabalho da escrita.
Por trabalho do pensamento, temos de ambas que o trabalho do pensamento é
o ato implicado nas exigências que as marcas colocam sobre os corpos, funcionando,
tal qual descrito por Rolnik, “como universo de referência dos modos de existência” e da
ação do pensamento, com os quais criam-se “figuras de um devir”. Dessa ideia, tem-se
que o pensamento não é tradução da vontade do sujeito de conhecer a verdade de um
objeto já dado, mas, sim, ser ele instrumento para criar verdades, sujeitos e objetos a
partir das linhas e figuras traçadas pela experiência.
Em uma perspectiva semelhante, Gorgatti explicita que a tarefa de sua análise
não é responder perguntas, pois disso não se obteria nenhum valor formativo. Para ela,
o objetivo de sua pesquisa seria proporcionar a si própria e a seus leitores uma
“inscrição corporal do conhecimento” a partir das marcas acrescentadas, reatualizadas
ou combinadas através da experiência do desenvolvimento da pesquisa, no caso dela,
e pela experiência de pensar com ela, nos casos dos que leem a pesquisa.
Nesse raciocínio, a inteligência e o rigor são elementos secundários, pois, da
inquietação provocada pelo aparecimento ou reavivamento de alguma marca através
do estudo, surge a exigência de interpretação e de conceitualização que encarnem no
corpo o conhecimento formativo da experiência. Logo, passa longe de ser um trabalho
do saber com teor de verdade e, por conta disso, Rolnik argumenta que o rigor na
metodologia cartográfica é um rigor ético, estético e político, não metodológico,
intelectual, erudito ou lógico.
Neste ponto, a escrita, então, é a potência do pensamento cartográfico. Não é
por menos que Rolnik diz que a escrita possibilita que se chegue ao invisível por meio
das palavras, uma vez que as palavras “tornam o mais palpável possível, a diferença
que só existia na ordem do impalpável”. Gorgatti também aposta muito nas palavras,
citando a tarefa essencial que para ela seria “descatequizar a escrita” para, desta forma,
trazer vivacidade às experiência, pois não deseja com a pesquisa discutir uma temática,
mas, sim, fazer corpo com o leitor e o tema em torno de uma experiência viva e coletiva.
No entanto, é na escrita que podem ser verificadas questões problemáticas
dentro dessas pesquisas cartográficas. Usando a própria formulação de Gorgatti,
quando ela diz que faz uso de uma escrita descatequizada - ou seja, mundana, desviada
da formação acadêmica, erudita, sistematizada e lógica -, é possível verificar dentro dos
textos uma tendência desmedida ao uso de uma linguagem poética, muito poluída por
imagens líricas e por metáforas e figuras de linguagem e expressão. Exemplos disso
são: “Escrever é esculpir com palavras a matéria-prima do tempo, onde não há
separação entre matéria-prima e a escultura (...)”, de Rolnik, e “Um artista, quando
executa um solo, traz consigo muitas outras presenças. Diria que, sem a experiência de
solitude, isto é, sem a possibilidade de guardar dentro de si a presença de muitos outros,
o trabalho solo do artista não encantaria o expectador.”, de Gorgatti.
Ainda, há de se verificar se esta tendência ao lirismo exarcebado acompanha
necessidade pessoais de expressão que talvez ultrapassem a ação das marcas na
escrita, sendo pautadas por uma valorização de um modo de subjetivação que pode ser
considerado distante da psicologia proposta por Deleuze e Guattari. Outra ponto a se
verificar é que esse uso excessivo pode afastar a atenção do leitor, dificultando, assim,
a confluências de experiências e a aquisição, composição ou reativação das marcas,
algo fundante do fazer cartográfico. Talvez seja de serventia lembrar da lição deixada
pelo poeta Carlos Drummond de Andrade: escrever é travar lutas árduas com as
palavras, algo muito distante da imaginação inspiradora.

REFERÊNCIAS
ROLNIK, S. Pensamento, corpo e devir. Uma perspectiva ético/estético/política no
trabalho acadêmico. Cadernos de Subjetividade, v.1 n.2: 241-251. set./fev. 1993.
Gorgatti, V. Marcas de experiências no trabalho socioeducativo. Narrativas camaradas
da formação profissional. Tese de Mestrado Profissional. Unifesp. Santos, 2017.