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Figuras del PERSONALISMO

A pessoa humana, sobretudo a partir da modernidade, com exceção de


alguns pensadores). Hadot cita a seguinte observa-

o enraizamento
ção de Plutarco, que escreveu no início do século ll
d.C., falando de Sócrates:

e o desenraizamento: “A maior parte das pessoas imaginam que a


filosofia consiste em discutir do alto de uma tri-
A fome e a questão ecológica no buna e dar cursos sobre textos. Mas o que escapa
pensamento de Simone Weil totalmente a essas pessoas é a filosofia ininterrup-
ta que se vê exercer a cada dia de uma maneira
 
perfeitamente igual a si mesma. (...) Ele (Sócrates)
Alino Lorenzon foi o primeiro a mostrar que, em todos os tempos
e em todos os lugares, em tudo o que nos chega e
em tudo o que fazemos, a vida cotidiana dá a pos-
O texto do presente artigo é a tradução da sibilidade de filosofar”.
conferência pronunciada na cidade de Téramo, Itá-
lia, por ocasião do Congresso Internacional Simone Ora, Simone pertence indiscutivelmente à
Weil , promovido e realizado no período de 10-12 de primeira categoria acima relatada, e não se poderá
dezembro de 2008 pelos professores Giulia Paola Di compreender o percurso filosófico e intelectual de
Nicola e Attilio Danese, fundadores e diretores do Simone, desconhecendo os traços mais significati-
Centro Ricerche Personaliste e da revista trimestral vos de sua trajetória existencial.
Prospettiva-Persona.
Ela nasceu em Paris no dia 3 de fevereiro de
O Congresso Simone Weil foi uma homenagem 1909 duma família de origem judaica. Seu pai foi
antecipada a uma das pensadoras mais originais no médico. Em 1928 Simone entra na École Normale
campo da filosofia contemporânea por ocasião do Supérieure, na época, a escola mais conceituada da
centenário de seu nascimento a ocorrer em 2009. França. Ao estudo, à leitura e à meditação dos filó-
sofos se engaja na ação sindical. Robert Chenavier
Profunda conhecedora da filosofia e da heran- resume em poucas palavras a trajetória existencial
ça culturais da Grécia Antiga, ela soube interpretar de Simone:
e captar a essência e a mensagem das mesmas. Se-
gundo estudiosos e especialistas da filosofia grega, a “Em Simone Weil, a vida, a personalidade, o
originalidade do pensamento grego consiste justa- engajamento e a reflexão formam um todo, num
mente em não dissociar o discurso da prática. Pierre grau excepcional”.
Hadot, no seu belíssimo livro O que é a filosofia an-
tiga? chega ao ponto de dividir a filosofia ocidental Diplomada, enfrenta o dificílimo concurso na-
em dois grandes momentos : a filosofia como refle- cional da “Agrégation de philosophie” a fim de ser
xão e como um estilo de vida (caso da filosofia grega) professora de filosofia na rede pública de ensino do
e a filosofia tendo a preocupação primordial na ela- segundo grau, sendo então nomeada para o Liceu da
boração de um discurso (caso da filosofia ocidental, cidade de Puy. Lá continua seu engajamento ao lado
dos explorados, dando apoio ostensivo aos desem-
 Profesor retirado de Filosofía de la pregados daquela cidade. Escreve numerosos artigos
Universidade Federal do Río de Janeiro, Brasil. sobre sindicalismo e sobre economia em veículos da
imprensa alternativa, tratando dos graves problemas
Corresponsal en Brasil del Centre de Ricerche
sociais do momento, como a ascensão do nazismo
Personalista y la revista Prospettiva Persona de na Alemanha e do comunismo na URSS. Os alunos se
Teramo, Italia.
 O texto foi publicado nos trabalhos
do Congresso. In : Giulia Paola Di Nicola e  Hadot, P.: O que é filosofia antiga, Trad.
Attilio Danese (org.) Persona e impersonale: do francês. Loyola, São Paulo, 2004, p. 68.
La questione antropologica in Simone Weil,,  Chenavier, R. : Simone Weil : L’attention
Rubbettino,Teramo 2009, pp. 325-333. au réel. Paris, Michalon 2009, p. 13.

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fascinam pela sua vasta cultura e pelos seus conheci- grande parte pela intervenção irresponsável do ho-
mentos da filosofia, sobretudo da Antiga Grécia. Seu mem, são um alerta e um grito da natureza diante
filósofo preferido será Platão. Simone domina o grego da devastação e do esgotamento dos recursos limi-
e o latim, sendo ela mesma a tradutora, para os seus tados do nosso planeta. Ora, se refletirmos sobre a
alunos, de textos originais dessas duas línguas. riqueza semântica da palavra ecologia (oikos, casa) e
sobre a nossa corporeidade, dar-nos-emos conta de
Na brevidade de sua existência (faleceu em que somos nós mesmos os autores da destruição da
1943, na idade de 34 anos) Simone deixou-nos um nossa casa comum, da nossa mãe-Terra.
testemunho de vida e uma produção filosófica mui-
to importantes. A publicação das Oeuvres complètes Diante desse quadro, as reflexões e os exem-
pela Gallimard, uma das maiores editoras da França, plos de vida de Simone Weil a respeito dessas duas
compreende 17 grossos volumes. Os seus Cadernos categorias a do enraizamento e a do desenraizamen-
(Cahiers) são ricos de frases pertinentes aos mais to, confrontados com a problemática da relação do
variados temas sobre a filosofia, a política, o traba- homem com o homem e do homem com a natureza,
lho, a arte, a ciência e a religião. Uma intelectual bem constituem sem dúvida um desafio e um convite per-
diferente do paradigma usual, militante lúcida, com- manentes para a meditação e para a ação. Ora, a re-
prometida (engagée) com a justiça social e as lutas flexão teórica acerca dos mistérios da natureza teve
contra a pobreza. Filia-se à CGT (Confederação Geral um tratamento privilegiado por parte dos filósofos
dos Trabalhadores). Na cidade de Puy, onde era pro- gregos. Basta recordar a teoria dos ‘quatro elemen-
fessora de filosofia, desfila nos protestos em apoio tos’, teoria que pode parecer estranha a um estudio-
ostensivo aos desempregados. Escreve numerosos so da física contemporânea, mas que nos questiona
artigos sobre sindicalismo e economia, publicados profundamente se pensarmos a respeito da nossa
na imprensa de esquerda. sobrevivência graças à água, ao fogo ou seja à ener-
gia e aos combustíveis, à poluição do ar destruindo a
Em 1934 pede uma licença “para estudos camada de ozônio...
profissionais”, mas de fato ela quer fazer uma expe-
riência muito cara ao seu coração : Trabalhar como A curiosidade da inteligência humana em des-
operária incógnita a fim de conhecer na própria pele vendar os mistérios da physis foi um estímulo im-
a condição operária. Trabalha durante dois anos na portante na filosofia da Grécia antiga. Dessa forma,
usina Alsthom e depois em outras duas fábricas, ex- as reflexões de Simone que se referem ao sentido
periência que a deixará esgotada fisicamente. Dessa profundo do enraizamento e desenraizamento, se
experiência escreverá numerosos trabalhos sobre as inspiram na riqueza dessa fonte cultural, sendo ao
condições dos operários. Mais tarde, fará outra expe- mesmo tempo um tema original no campo da filo-
riência similar trabalhando como camponesa. sofia ocidental.

Dessa forma, não é necessário recordar a origi- “O enraizamento é talvez a necessidade mais
nalidade do pensamento filosófico e do seu corres- importante e mais desconhecida da alma humana. É
pondente empenho político e social. O assumir da uma das mais difíceis de definir. O ser humano tem
parte de Simone dos dramas dos indigentes, dos fa- uma raiz por sua participação real, ativa e natural na
mintos e dos explorados é demonstrada na sua vida existência de uma coletividade que conserva vivos
real do dia-a-dia Ela compartilha na própria carne certos tesouros do passado e certos pressentimentos
as experiências dramáticas da fome, do desenraiza- do futuro. Participação natural, isto é, que vem auto-
mento da condição operária e campesina, das guer- maticamente do lugar, do nascimento, da profissão,
ras e das lutas sindicais do momento. do ambiente. Cada ser humano precisa ter múltiplas
raízes. Precisa receber quase que a totalidade de sua
Ora, tais dramas continuam a desafiar, hoje vida moral, intelectual, espiritual, por intermédio dos
mais do que nunca, a todas as pessoas, os movimen- meios de que faz parte naturalmente”.
tos sociais, as comunidades nacionais e internacio-
nais, engajados na construção de uma outra ordem.
Ademais, hoje, a humanidade se defronta com outra  Weil, S.: L’enracinement : Prélude à
grave ameaça adicional de destruição e de desen- une déclaration des devoirs envers l’être humain,
raizamento: As catástrofes ecológicas, causadas em Gallimard, Paris 1990, p. 61. Trad. Portuguesa :

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Essas ponderações a respeito do enraizamento Simone Weil escreveu textos explícitos


e do desenraizamento constituem uma fonte riquís- sobre a fome, além de nos deixar testemunhos
sima de sentido filosófico e ecológico. Hoje, mais do eloquentes de vida, de solidariedade com os es-
que nunca, conhecemos muito bem, graças às contri- fomeados, os desventurados e os miseráveis. A
buições da biologia, da botânica e dos estudos sobre declaração do proprietário duma pequena fazen-
a biodiversidade, o papel vital exercido pelas raízes, da na qual ela trabalhou como agricultora, o de-
sobretudo através da circulação silenciosa da seiva monstra de maneira comovente:
e da interdependência desta com o seu ambiente.
Essas reflexões podem fundamentar toda uma refle- “Ela comia pouco, mas me fazia muitas per-
xão a respeito da fome, da sede e da destruição do guntas! Falava através dos caminhos dos campos,
planeta Terra. de um futuro martírio dos judeus, da guerra que iria
explodir logo mais. Quando se lhe oferecia um bom
pedaço de queijo, ela o recusava dizendo que as
1. A desgraça da fome e da sede crianças chinesas passavam fome”.
no mundo atual
Mas, que diria e faria ela, se estivesse viva
A resposta dada sem rodeios por Weil à sua hoje e lesse ou ouvisse esta declaração do diretor
colega de filosofia, Simone de Beauvoir, a propósito geral da FAO, Jacques Diouf: “A FAO denuncia ‘a
da fome no mundo é um testemunho de coerência emergência alimentação’, mais de 925 milhões de
extrema entre o filosofar e o compromisso em favor famintos no mundo”? Declaração feita no mês de
da humanidade injustiçada. Eis o depoimento de S. setembro de 2008 no curso de uma audiência no
de Beauvoir: Senado, na presença das Comissões conjuntas do
Exterior e da Agricultura dos dois ramos do Parla-
“Uma grande fome acabara de devastar a Chi- mento italiano. E Diouf acrescentava que os países
na e me haviam contado que ao ouvir essa notícia da OCSE dão ao próprio setor agrícola a subven-
ela tinha soluçado: essas lágrimas forçaram meu res- ção que chega a 376 milhões de dólares, além de
peito ainda mais que seus dons filosóficos. Eu admi- gastar somas que chegaram, em 2006, a 1204 mi-
rei um coração capaz de bater através do universo lhões de dólares, em armamentos. E concluiu : “É
inteiro. Consegui um dia me aproximar dela. Não sei um escândalo insuportável”.
mais como a conversa se travou: ela declarou num
tom cortante que só uma coisa importava hoje sobre Ora, as estatísticas são simplesmente símbolos
a terra: a Revolução que daria de comer a todo mun- e dados frios que pouco ou nada significam para as
do. Retorqui, de modo não menos peremptório, que pessoas bem alimentadas e para as autoridades que
o problema não era fazer a felicidade dos homens ocupam o cargo de modo burocrático e provisório.
mas de encontrar um sentido para sua existência. Ela
me atalhou: Vê-se bem que você nunca teve fome”. Ainda mais impressionantes são as denúncias
feitas nos Estados Unidos pelos economistas Joseph
E. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, e por Linda
O enraizamento ; Prelúdio para uma declara- J.Balmes, no livro Three Trillion Dollar War: The True
ção dos deveres para com o ser humano, Bauru, Cost of the Iraq Conflict, estimativa, de resto, baixa,
EDUSC, 2008. segundo os autores. E o que é mais triste, segundo
 Bosi, E. (org.): Simone Weil, A condição
operária e outros estudos sobre a opressão, Paz e Paulo 1980.
Terra, Rio de Janeiro 1979, p. 18. A autora coloca
em relevo, nesta obra, a frase do poeta Lucano:  Ibid., p.38.
Victrix causa diis placuit, sed victa Catoni – A  Intervenção de J. Diouf, disponível em:
causa dos vencedores agrada aos deuses, a Catão, http://www.fao.org – acesso em 8 de outubro de
a dos vencidos. E. Bosi, pioneira da divulgação do 2008.
pensamento e da obra de Simone Weil, no Brasil,  Stiglitz, E. e Balmes, L. J.: Three Tril-
publicou, em seguida, um livrinho, intitulado: Si- lion Dollar Ward: The True Cost of the Iraq
mone Weil, a razão dos vencidos, Brasiliense, São Conflict, Allen Lane, New York 2008.

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os mesmos autores, é que a guerra do Iraque tenha Deve-se recordar que ele foi o primeiro presi-
sido declarada e sustentada à base de mentiras, de denteda FAO (1952-55). Naquela sua obra, tornada
chantagens e de pressões de todo tipo. E quase todos clássica, definia a fome como um “flagelo fabricado
os problemas eram previsíveis e foram previstos. Ora, pelos homens contra os outros homens”. E acrescen-
se essa montanha de dólares tivesse sido aplicada tava que “a Natureza é generosa, mas ainda vivemos
em favor dos famintos e dos miseráveis do planeta, em meio à miséria, num mundo de abundância”. Na
certamente hoje não veríamos mais na mídia estes enorme lista de iniciativas e publicações devemos
milhões de figuras esquálidas, ‘trapos humanos’, que recordar a fundação da Associação Internacional
nos interpelam num silencioso protesto contra a in- da Luta contra a Fome, iniciativa de Castro, do Abbé
sensibilidade e a ausência de efetiva solidariedade Pierre e do Padre Lebret. Ele, que tanto amava o Bra-
das pessoas bem nutridas, das autoridades e das ins- sil, morreu aos 65 anos, no exílio, sem poder realizar
tâncias governamentais nacionais e internacionais. o sonho de retornar em vida a seu país natal.

Por isso, Simone insiste em que nenhum dis- Passaram-se muitos anos e somente em 2002
curso dobre o respeito devido ao outro terá efetivi- um outro pernambucano, simples torneiro mecâni-
dade, se não for expresso pela satisfação real, e não co, Luiz Inácio Lula da Silva, popularmente conheci-
apenas fictícia, das necessidades terrestres básicas do como Lula, nascido na região de Castro, foi eleito
de todo ser humano. presidente do Brasil. Em sua campanha eleitoral, Lula
lançou o desafio: “Fome zero”. E, realmente, o Brasil
“A consciência humana nunca variou sobre está conseguindo vencer o desafio, por meio do Bol-
esse ponto. Há faz milhões de anos, os egípcios pen- sa Família do Ministério do Desenvolvimento Social
savam que uma alma não pode ser justificada após a e Combate à Fome, graças à volumosa contribuição
morte se não pode dizer: ‘Não deixei ninguém sofrer financeira oriunda dos impostos, que não deixa de
fome’. Todos os cristãos se reconhecem expostos a ser uma espécie de efeito de transferência de renda.
um dia ouvir o Cristo dizer-lhes: ‘Tive fome e não me Segundo o recente relatório do IPEA, graças ao pro-
destes de comer’. Todos se representam o progres- grama Bolsa Família conseguiu-se subtrair da fome e
so humano como sendo, inicialmente, a passagem a da miséria mais de 40 milhões de brasileiros de todas
um estágio da sociedade humana em que as pessoas as idades. Ademais com a cobertura do Bolsa Família o
não passarão fome”10. comércio em cinco estados do Nordeste e um do Nor-
te apresentaram expansão acima da média anual12.
Saciar a fome dos famintos e apagar a sede é,
para Simone, a primeira obrigação em relação a todo E, se examinamos o mapa da fome no mundo,
ser humano. E, além da fome saciada, outras neces- constataremos, com muita tristeza, que ainda é a África
sidades básicas vitais devem ser satisfeitas, como: a que continua, de longe, a ser o Continente mais sofrido
habitação, a higiene, o vestuário, a cura em caso de e mais abandonado. Ora, o Ocidente tem uma dívida in-
doença, a proteção contra a violência e, hoje, mais cancelável para com a África, desde a época do tráfico de
do que nunca, devemos repetir: “água potável para milhões de escravos, arrancados de suas raízes familiares
dessedentar”. e locais, e vendidos aos proprietários rurais e aos donos
do poder nas Américas. Em seguida, houve o colonialis-
Em 2008, comemoramos, no Brasil, o centená- mo e hoje, um certo abandono por parte dos países ditos
rio de nascimento de um dos pioneiros na denúncia desenvolvidos. Mas, o maior paradoxo do esquecimento
contra o flagelo da fome, o médico e sanitarista Jo- e da memória talvez seja o fato de que, segundo as mais
sué de Castro, autor do livro que se tornou clássico, recentes pesquisas dos paleontólogos, a África teria sido
Geografia da fome11. o berço da humanidade. Por isso, Hans Küng conclui,
afirmando que “temos origem biológica comum” e que
“sob a pele, todos somos africanos”13.
10 Weil, S.: L’enracinement...,cit., p. 13.
11 Castro, J. de: Geografia da fome, Anta-
res/Achiamé, Rio de Janeiro 1945. A obra teve tal 12 Mais informações, em várias línguas, no
repercussão internacional, que foi logo traduzida site e nos links do Ministério do Desenvolvimento
em mais de 25 línguas. Para mais informações, Social e Combate à Fome: www.msd.org.br
veja o site: www.josuedecastro.com.br 13 Küng, H.: O princípio de todas as coi-

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Ao drama da fome devemos hoje acrescentar te indispensável que façamos rapidamente opções
o da falta e o da escassez sempre mais evidente de inteligentes, se quisermos que nossos oceanos, nos-
água potável. Riccardo Petrella, professor da Uni- sos mares e nossas ilhas continuem vivos”. Não sem
versidade Católica de Louvain, afirma que “em par- razão, Tales de Mileto afirmava que “a água está na
ticular, a água potável não é acessível a um grande e origem de todas as coisas”.
crescente número de pessoas (mais de 1.4 milhões)
e a poluição sempre crescente da água de superfície
e subterrânea, ao lado de muitos outros fatores, não 2. O enraizamento, o desenraizamento e a
nos estimula a pensar que o futuro seja mais favorá- questão ecológica
vel”14. E acrescenta “que podemos viver sem Internet,
sem petróleo e tantos outros bens tidos como indis- Os dramas da fome e da falta de água potável
pensáveis, mas não nos é possível viver sem água”. tornam-se, hoje, ainda mais graves, se os relacionar-
mos com a questão ecológica. Se considerarmos o
ONU, em 1992, instituiu o dia 22 de março como simples significado etimológico de oikós, que, em
o Dia Mundial da Água, publicando, simultaneamen- grego, designa a casa ou a moradia, constataremos
te, um documento intitulado: Declaração Universal imediatamente a interdependência de todos os ele-
dos Direitos da Água, do qual transcrevo somente mentos componentes da natureza, e, em particular,
o artigo 2: “A água é a linfa de nosso planeta. Ela é dos seres vivos. A Terra é, portanto, nossa casa e a
condição essencial para todo vegetal, animal ou ser Grande Mãe. Neste sentido, as reflexões de Simone
humano. Sem ela não podemos conceber como são sobre o enraizamento e o desenraizamento do ser
a atmosfera, a vegetação, a cultura ou a agricultura”. humano são extremamente importantes no deba-
Ademais, a que servem as atuais propostas de em- te ecológico. Sabemos como os filósofos gregos se
presas públicas ou privadas para a dessalinização da interessaram para compreender e explicitar os mis-
água dos mares e dos oceanos, depois da provocada térios da physis e do cosmo, de modo contemplati-
destruição da água doce pelo homem? Em março de vo e admirativo, não dominador. No mais, a própria
2009 foi realizado, em Istambul, o 5º Fórum Mundial etimologia grega de kosmos nos revela a riqueza se-
da Água, advertindo que, para o futuro, o maior im- mântica desta palavra, uma vez que designa o bom
pacto das mutações climáticas incidirá sobre a dis- ordenamento, a ordem do universo, ou melhor, o
ponibilidade hídrica, provocando inundações mais universo considerado como um sistema bem consti-
intensas e secas mais prolongadas. tuído. Também o autor do livro do Gênesis, narrando
a criação dos seres do universo, ao final de cada dia
Uma outra advertência, muito grave, foi fei- repete esta admirável frase: “E Deus viu que aquilo
ta, em 2004, por Koïchiro Matsuura, diretor geral da era bom”. Simone, em diversas passagens, explica
UNESCO, por ocasião da Jornada mundial do ambien- esta bondade divina, escondida no universo, recor-
te, sob o título: Avis de recherche! Mers et océans: rendo, principalmente, às contribuições de diversas
morts ou vivants?” Ele denuncia os desastres do des- culturas da Antiguidade.
medido desfrutamento da pesca predatória indus-
trial, as consequências dos herbicidas e pesticidas, Junto aos Gregos, a ciência da natureza era ela
da indústria do transporte marítimo e do turismo. E mesma uma arte, que tinha por matéria o mundo e
o documento conclui, dizendo que “é absolutamen- por instrumento a imaginação; ela consistia, como as
outras artes, numa mistura do limite com o ilimitado.
sas (Título do original alemão: Der Anfang aller Daqui, a convergência entre a ciência e a arte. Para
Dinge, 2005), Vozes, Petrópolis 2007, p. 225. nós, oposição, porque nossa ciência analisa. Fazer do
universo a obra de Deus; fazer do universo uma obra
14 Petrella, R.: O manifesto da água: Argu- de arte, é este o objeto da ciência grega15.
mentos para um contrato mundial, Vozes, Petró-
polis 2002, 24 (Título inglês: The water manifesto:
Arguments for a world contract, 2001). Uma ou- 15 Weil, S.: Quaderni, I, Adelphi Edizioni,
tra obra muito importante é a do monge brasilei- Milano 1982, 235. Sobre este aspecto da relação
ro, Marcelo Barros, O Espírito vem pelas águas. entre cultura grega e SW, é muito útil a leitura do
Bíblia: espiritualidade ecumênica e a questão da livro do filósofo brasileiro F. Rey Puente, pro-
água, Rede, Goiás 2002. fessor de filosofia da UFMG, Simone Weil et la

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Na mesma linha de reflexão, a propósito da terial. A razão humana passa, então, da função de razão
beleza do cosmo, é muito rico o comentário, de ins- raciocinante à de uma razão instrumental, assim deno-
piração franciscana, que Simone faz sobre a seguinte minada por Horkheimer, em seu livro:Eclipse da razão
frase de Tales: (1955). E ainda, em relação às consequências destruti-
vas da técnica, Attilio Danese lembra que: “Simone Weil
“Tudo está repleto de deuses”. Esta frase de Ta- exprime juízos severos em relação à ingênua esperança
les chama logo a atenção por sua beleza. Parece-me no progresso científico. Chega a escrever: ‘A técnica é
difícil pensar que o rumor do vento entre as folhas maldita’ (Cahiers, 111, 286) e apresenta uma denúncia
não seja um oráculo; é difícil pensar que este cão, ecológica ante litteram das consequências de uma ido-
meu irmão, não tenha alma; é difícil pensar que o latria tecnicista”19.
coro das estrelas nos céus não cante os louvores do
Eterno. Mas, se estes pensamentos não fossem difí- A literatura contemporânea referente à ecolo-
ceis, não seria nada; porque, pensar é tão somente gia como tal e à relação conflitiva da ecologia com
um ato heróico (...). O belo não pode ser que o mito a tecnologia é muito vasta, além das reportagens e
do verdadeiro16. das notícias cotidianas referentes aos desastrosos
efeitos das mudanças climáticas. Uma das primeiras
Em outra passagem dos Cadernos, Simone re- denúncias vem da obra conjunta da bióloga ameri-
pete: “O mundo é a linguagem de Deus. O universo é cana R. Carson e do microbiólogo francoamericano
a Palavra de Deus. O Verbo”17. René Jules Dubos, intitulada Silent Spring (Primave-
ra silenciosa) (1962). Título muito expressivo. Eles fo-
Ora,são muitos os modos de interpretar esta ram, praticamente, os pioneiros na pesquisa e na de-
“linguagem de Deus”, estabelecendo uma verdadeira núncia dos efeitos negativos de uma tecnologia mal
comunhão do homem com as maravilhas do univer- empregada, sobretudo no cultivo da terra mediante
so, como a meditação, a contemplação, o empenho a aplicação dos agrotóxicos.
por uma justiça social que alcance a toda a humani-
dade, a própria reflexão filosófica quando realmente No campo da filosofa, é importante recordar
entendida como “sabedoria” e, sobretudo, o respeito as críticas de Heidegger à técnica e, mais tarde, as
e o cuidado pela Terra. de seu aluno, Hans Jonas, na volumosa obra: O prin-
cípio responsabilidade. Ora, diante do ‘vazio ético’,
Nessa mesma linha de pensamento, devemos verificado nas morais tradicionais, Hans Jonas toma
colocar o excelente trabalho do Frei Betto, intitulado a iniciativa de reformular a ética em torno da idéia
A obra do artista: Uma visão holística do Universo, de responsabilidade, sob todos os seus aspectos, di-
uma síntese da visão espiritual do mundo com o co- recionada, principalmente, ao futuro. Discute a con-
nhecimento científico a partir da aventura do pen- fiança que foi depositada nos ideais do progresso e
samento dos gregos aos nossos dias. Um exercício das utopias e reformula o imperativo kantiano, pro-
saudável de admiração e contemplação18. pondo um novo tipo de ação humana, expresso nas
seguintes máximas:
Ora, a partir da modernidade, com o progressi-
vo advento e o domínio da ciência e da técnica, estas “Aja de modo a que os efeitos da tua ação
formas de conhecimento não são mais utilizadas como sejam compatíveis com a permanência de uma
formas de contemplação e de admiração, mas como autêntica vida humana sobre a Terra”; ou, ex-
instrumento de exploração e domínio da Terra. Assim, presso negativamente: “Aja de modo a que os
a relação do homem com a Terra está se tornando sem- efeitos de tua ação não sejam destrutivos para
pre mais perversa. É a ilusão do ilimitado progresso ma- a possibilidade futura de uma tal vida”; ou, sim-
plesmente: “Não ponha em perigo as condições
Grèce, L’Harmattan, Paris 2007. necessárias para a conservação indefinida da hu-
16 Weil, S.: Ibid., p. 41.
17 Weil, S.: Quaderni, III, Adelphi Edizioni, 19 Di Nicola, G. P. e Danese, A.; Simone
Milano 1988, 175. Weil: abitare la contraddizione, Dehoniane, Roma
18 Betto, F.: A obra do artista: Uma visão 1991, p. 362.
holística do Universo, Ática, São Paulo 1995.

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manidade sobre a Terra”, ou, em uso novamente Ora, frente a esse quadro apocalíptico da atu-
positivo: “Inclua na tua escolha presente a futura al situação da fome e da exploração do planeta, as
integridade do homem como um dos objetivos grandes perguntas que Kant se colocava a si mes-
do teu querer” 20. mo na Crítica da razão pura, atualizadas, podem
servir de bússola para todos nós: “Que posso saber?
Ora, diante do quadro supra-apresentado, re- Que devo fazer? Que posso esperar?”23. Talvez a se-
lativo à ambiguidade da natureza humana, com ten- gunda pergunta seja a mais urgente. Por isso, não
dências conflitantes em relação ao bem e ao mal, ou é sem sentido que Simone propunha, em seu livro,
seja, de amor e solidariedade, de ódio e destruição, O enraizamento..., a prevalência e a anterioridade
pensadores nos campos da filosofia, da teologia e da obrigação sobre o direito, o qual lhe é subordi-
das ciências ditas humanas elaboraram as mais di- nado. O dito de J. Dubos: “Pensar globalmente, agir
versas teorias e concepções. Permito-me citar ape- localmente”, adotado por diversas organizações de
nas alguns de seus pensamentos. defesa do ambiente, pode se constituir no lema de
cada um de nós, inspirados por um ‘otimismo trági-
Kant nos dará uma interpretação da maldade co’, na expressão cristã de E.Mounier ou nesta outra
humana, fundada sobre a própria natureza de nossa de Gramsci “Otimismo da vontade e pessimismo da
constituição ontológica: o mal radical. Este tema foi inteligência”.
tratado explicitamente em sua obra: A religião den-
tro dos limites da simples razão, obra tardia que lhe Por isso, não é possível continuar com o atu-
custou, ademais, muitas críticas. O mal radical, como al modelo consumista, sobretudo o norte-america-
a própria expressão afirma muito claramente, encon- no ou chinês, fundados numa suposta economia da
tra-se na raiz do homem. É uma fenda intrínseca ao abundância inesgotável. É um modelo imoral que
homem, pelo fato de ser constitutivamente finito21. não pode ser universalizado e deve urgentemente
ser substituído por um outro, inspirado na solidarie-
Freud dará outra explicação, ao afirmar, a par- dade universal e numa sóbria gestão dos recursos do
tir de suas observações clínicas, que o homem, a so- planeta. No crash de Wall Street de 1929, o diagnós-
ciedade e a ética são marcados por um conflito origi- tico de Mounier e dos seus companheiros identifica-
nário e insolúvel entre Eros e Tanatos, tese central da ram acima de tudo uma crise de civilização na sua
obra: O mal-estar na civilização22. totalidade. Em setembro de 2008, assistimos à mais
grave crise após a de 29. No entanto, os diagnósticos
Podemos então afirmar que estamos diante dos especialistas em economia e finanças dos diver-
de um ‘enigma’ indecifrável e que, por exemplo, sos países do planeta tem-se limitado exclusivamen-
as figuras da serpente, do pecado original e de te a sanar os bancos e a socorrer as empresas, em
Adão na narração bíblica, as explicações de San- especial os fabricantes de automóveis.
to Agostinho, de Kant a propósito do mal radical
e de Freud sublinhando as pulsões de vida e de O gravíssimo problema ecológico e a desigual
morte, sã. distribuição e usufruição das riquezas tem sido com-
pletamente ignorados.Por isso, urge uma conversão
radical (metanóia) permanente das mentes e dos co-
rações, de todas as instituições nacionais e interna-
cionais e supranacionais. A proposta, por exemplo,
20 Jonas, H.: O princípio responsabilidade : de Hans Küng insistindo há anos sobre a necessida-
Ensaio de uma ética para a civilização tecnológi- de de uma verdadeira ética planetária24.
ca. Trad. do original alemão, Contraponto/PUC-
Rio, Rio de Janeiro 2009, pp. 47-48.
21 Kant, I.: A religião dentro dos limites da 23 Kant, I. : Critique de la raison pure,
simples razão. Abril Cultural, São Paulo 1990, Trad. do original alemão, PUF, Paris 1980, p.
pp. 271-295, Col. “Os Pensadores”. 543.
22 Freud, S.: O mal-estar na civilização, 24 Küng, H.: Projeto de uma ética mundial,
Abril Cultural, São Paulo 1978, pp. 129-194, Paulinas, São Paulo 1992. Título original, em
Col. “Os Pensadores”. alemão: Projekt Weltethos, 1990.

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