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DOI: 10.

1590/S0080-623420140000800027

Artigo Original
Entrevistas narrativas: um importante recurso
em pesquisa qualitativa

Narrative interviews: an important resource in qualitative research

Entrevistas narrativas: un recurso importante en la investigación


cualitativa

Camila Junqueira Muylaert1, Vicente Sarubbi Jr.2, Paulo Rogério Gallo3, Modesto Leite Rolim Neto4,
Alberto Olavo Advincula Reis5

resumo Abstract Resumen


Objetivo: Este trabalho consiste numa Objective: This methodological study ex- Objetivo: Este estudio es un aporte metodo-
contribuição metodológica em que se ex- plain and emphasize the extent and fertility lógico en que se explica y destaca el alcance
plicitam e se enfatizam o alcance e a fecun- of the narrative interview in qualitative re- y la fertilidad de la entrevista narrativa en la
didade da entrevista narrativa no âmbito search. Method: To describe the narrative investigación cualitativa. Método: Describir
da investigação de natureza qualitativa. method within the qualitative research. el método de la narrativa en la investiga-
Método: Descrever o método da narrati- Results: The qualitative research method is ción cualitativa. Resultados: El método de
va no âmbito da investigação qualitativa. characterized by addressing issues related investigación cualitativa se caracteriza por
Resultados: O método qualitativo de pes- to the singularities of the field and indi- abordar las cuestiones relacionadas con las
quisa caracteriza-se por abordar questões viduals investigated, being the narrative in- singularidades del campo y de las personas
relacionadas às singularidades do campo terviews a powerful method for use by re- encuestadas, siendo las entrevistas narra-
e dos indivíduos pesquisados, sendo as searchers who aggregate it. They allow the tivas un método potente para uso de los
entrevistas narrativas um método potente deepening of research, the combination of investigadores que toman posesión de ella.
para uso dos investigadores que dele se life stories with socio-historical contexts, Permiten que la profundización de la in-
apropriam. Elas permitem o aprofunda- making the understanding of the senses vestigación, la combinación de historias de
mento das investigações, a combinação de that produce changes in the beliefs and vida con los contextos socio-históricos e la
histórias de vida com contextos sócio–his- values that motivate and justify the actions comprensión de los sentidos que producen
tóricos, tornando possível a compreensão of possible informants. Conclusion: The cambios en las creencias y valores que mo-
dos sentidos que produzem mudanças nas use of narrative is an advantageous inves- tivan y justifican las acciones de los posibles
crenças e valores que motivam e justificam tigative resource in qualitative research, in informantes. Conclusión: El uso de la narra-
as ações dos informantes. Conclusão: As which the narrative is a traditional form of tiva se presenta un recurso de investigación
narrativas mostram-se muito úteis em es- communication whose purpose is to serve ventajosa en la investigación cualitativa, la
tudos de abordagem qualitativa, uma vez content from which the subjective experi- narrativa es una forma tradicional de comu-
que a narratividade é uma forma artesanal ences can be transmitted. nicación cuyo objetivo es servir contenido
de comunicação cujo objetivo é veicular a partir de la que se pueden transmitir las
conteúdos a partir dos quais as experiên- experiencias subjetivas.
cias subjetivas podem ser transmitidas.

descritores descriptors descriptores


Pesquisa qualitativa Qualitative Research Investigación Cualitativa
Metodologia Methodology Metodología
Narração Narration Narrac

1
Psicóloga. Mestre em ciências. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil.
2
Mestre em ciências. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil. 3 Médico.
Professor livre docente. Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil. 4 Psicólogo.
Professor livre docente. Departamento de Medicina. Universidade federal do Ceará. Fortaleza, Brasil. 5 Psicólogo. Professor livre docente. Departamento de
Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil.

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Entrevistas narrativas: um importante
Português recurso em pesquisa
/ Inglês Recebido: 30/04/2014 Rev Esc Enferm USP
qualitativa www.scielo.br/reeusp Aprovado: 16/07/2014 2014; 48(Esp2):193-199
Muylaert CJ, Júnior VS, Gallo PR, Neto MLR, www.ee.usp.br/reeusp/
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Introdução A descrição caracteriza uma tendência literária da segun-
da metade do século XIX e acompanha o caminho do capi-
“As pessoas podem esquecer o que você fez, o que você talismo, sendo seu resíduo. Gradativamente, a descrição
disse, mas nunca esquecerão o que você as fez sentir.” elimina a troca entre a práxis e a vida interior, caracterís-
Fernando Pessoa. ticas da narrativa.
As entrevistas narrativas se caracterizam como ferra- A superficialidade é característica da descrição que
mentas não estruturadas, visando a profundidade, de as- não desperta interesses mais profundos(3).
pectos específicos, a partir das quais emergem histórias
O excesso de explicações sobre as coisas do mundo,
de vida, tanto do entrevistado como as entrecruzadas no
contrapõe a narrativa à informação. A narrativa é uma for-
contexto situacional. Esse tipo de entrevista visa encorajar
ma artesanal de comunicar, sem a intenção de transmitir
e estimular o sujeito entrevistado (informante) a contar
informações, mas conteúdos a partir dos quais as expe-
algo sobre algum acontecimento importante de sua vida e
riências possam ser transmitidas(4). Dito isto, Benjamin(4)
do contexto social(1). Tendo como base a ideia de recons-
tinha como conceito central de sua teoria a experiência e
truir acontecimentos sociais a partir do ponto de vista dos
como expressão delas a narrativa que para ele seria a for-
informantes, a influência do entrevistador nas narrativas
ma de comunicação mais adequada ao ser humano.
deve ser mínima. Nesse caso, emprega-se a comunicação
cotidiana de contar e escutar histórias. Jovchelovich e Nesse sentido: ``Enriquecido pela trama das narrati-
Bauer(1) ainda alertam para a importância de o entrevis- vas, o estilo dos textos produzidos torna-se mais fluente
tador utilizar apenas a linguagem que o informante em- e mais próximo da literatura, mas, sobretudo, nos ajuda a
prega sem impor qualquer outra forma, já que o método refletir sobre questões que dizem respeito a todos, nesses
pressupõe que a perspectiva do informante se revela me- difíceis e complexos tempos em que vivemos(5).
lhor ao usar sua linguagem espontânea. Essas asserções
se assentam na compreensão de que a linguagem empre- Dessa forma, nas narrativas o autor não informa sobre
gada constitui uma cosmovisão particular e, portanto, é sua experiência, mas conta sobre ela, tendo com isso a opor-
reveladora do que se quer investigar: o “aqui” e o “agora” tunidade de pensar algo que ainda não havia pensado(6).
da situação em curso. A narrativa, portanto, pode suscitar nos ouvintes diver-
Desse modo, há nas entrevistas narrativas uma impor- sos estados emocionais, tem a característica de sensibili-
tante característica colaborativa, uma vez que a história zar e fazer o ouvinte assimilar as experiências de acordo
emerge a partir da interação, da troca, do diálogo entre com as suas próprias, evitando explicações e abrindo-se
para diferentes possibilidades de interpretação. Interpre-
entrevistador e participantes(2).
tação não no sentido lógico de analisar de fora, como ob-
Lukács(3) discutindo a transformação da literatura ao servador neutro, mas interpretação que envolve a expe-
longo do tempo discorre sobre o contraste entre os prin- riência do pesquisador e do pesquisado no momento da
cípios da estrutura da composição da narrativa e da des- entrevista e as experiências anteriores de ambos, trans-
crição: a narrativa implica uma posição de participação cendendo-se assim o papel tradicional destinado a cada
assumida pelo escritor em face da vida e dos problemas um deles.
da sociedade. Nesse sentido, há engajamento entre os in-
Seguindo essa linha de raciocínio, as considerações de
terlocutores. A descrição, por seu lado, se relaciona a uma
Lukács(3) e Benjamin(4), apontam e indicam uma opção me-
posição de observação, de desvelamentos do fato per si,
todológica de se utilizar a técnica de entrevista narrativa
sem necessariamente, provocar interfaces entre o fato e
quando trazem à baila elementos teóricos necessários à
os sujeitos a ele pertencente, na conjuntura do discurso.
interpretação dos resultados obtidos.
Nesse mesmo sentido, Benjamin(4) considera que no
Tendo em vista que os processos macros são formados
processo narrativo o sujeito encontra-se implicado na sé-
por ações individuais, a partir da técnica de entrevistas nar-
rie de eventos e acontecimento evocados, ao passo que
rativas pode-se evidenciar aspectos desconhecidos ou ne-
na descrição ele, na condição de sujeito, se encontra apar-
bulosos da realidade social a partir de discursos individuais.
tado do relato que adquire uma dimensão objetiva, des-
critiva e observacional. Nesse sentido, a possibilidade de narrar o vivido ou pas-
sar ao outro sua experiência de vida, torna a vivência que é
A transformação da literatura, que permite contrastar
finita, infinita. Graças a existência da linguagem a narrativa
narrativa e descrição, relaciona-se ao modelo social de
pode se enraizar no outro. Sendo assim, a narrativa é fun-
cada época. Os estilos se alteram de acordo com neces- damental para a construção da noção de coletivo(7).
sidades histórico-sociais, sendo um produto da evolução
social. Isto não significa que o novo seja melhor que o an- A forma oral de comunicar re-significa o tempo vivi-
tigo. A tendência a observar e descrever implica a perda do, as coisas da vida, e concomitantemente a ela, emer-
da significação artística das coisas, rebaixando os homens ge o passado histórico das pessoas a partir de suas pró-
ao nível das coisas inanimadas, chegando a ser inumano. prias palavras(8). Assim uma das funções da entrevista

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narrativa é contribuir com a construção histórica da rea- Tabela 1 - Fases principais da entrevista narrativa.
lidade e a partir do relato de fatos do passado, promover Fases da Entrevista
Regras para a entrevista
o futuro, pois no passado há também o potencial de pro- Narrativa
jetar o futuro. Nessa ótica, o recurso da narrativa coinci- Preparação Exploração do campo.
de com a perspectiva de movimento, no sentido teórico,   Formulação de questões exmanentes.
pois através dela é possível conseguir novas variáveis, Iniciação Formulação do tópico inicial para narração.
  Emprego de auxílios visuais (opcional).
questões e processos que podem conduzir a uma nova
Narração central Não interromper.
orientação da área em estudo. Ou seja, a narratividade é   Somente encorajamento não verbal ou
um recurso que visa investigar a intimidade dos entrevis-   paralingüístico para continuar a
tados e possibilita grande riqueza de detalhes, em virtu-   Narração.
de disso, pode ser importante quando determinada área   Esperar para sinais de finalização
de estudo encontra-se estagnada por haver se exaurido   (“coda”).
a busca por novas variáveis sem conseguir, entretanto, Fase de perguntas Somente “Que aconteceu então?”.
  Não dar opiniões ou fazer perguntas
avançar no conhecimento. Ressalta-se ainda que os re-   sobre atitudes.
latos orais são valorizados porque não são encontrados   Não discutir sobre contradições.
em documentos(9).   Não fazer perguntas do tipo “por quê?”.
  Ir de perguntas exmanentes para
  Imanentes.
o método da narrativa Fala conclusiva Parar de gravar.
São permitidas perguntas do tipo “por quê”?
Nas entrevistas narrativas se considera que nossa me- Fazer anotações imediatamente depois da
entrevista.
mória é seletiva, lembramos daquilo que “podemos” e al-
Fonte: JOVCHELOVICH E BAUER (2002)
guns eventos são esquecidos deliberadamente ou incons-
cientemente. Nessa perspectiva, o importante é o que a As questões exmanentes referem-se às questões da
pessoa registrou de sua história, o que experienciou, o pesquisa ou de interesse do pesquisador que surgem a
que é real para ela e não os fatos em si (passado versus partir da sua aproximação com o tema do estudo, ao ela-
história). borar a revisão de literatura e aprofundamento no tema a
As narrativas, dessa forma, são consideradas represen- ser pesquisado (exploração do campo). Essas questões de-
tações ou interpretações do mundo e, portanto, não estão vem ser transformadas em imanentes, sendo essa tarefa
abertas a comprovação e não podem ser julgadas como crucial no processo de investigação, que deve ao mesmo
verdadeiras ou falsas, pois expressam a verdade de um tempo ancorar questões exmanentes na narração, sempre
ponto de vista em determinado tempo, espaço e contexto utilizando a linguagem do informante. As questões ima-
sóciohistórico(1). Não se tem acesso direto às experiências nentes são temas e tópicos trazidos pelo informante, elas
dos outros, se lida com representações dessas experiên- podem ou não coincidir com as questões exmanentes.
cias ao interpretá-las a partir da interação estabelecida(8). É importante mencionar que inicialmente o informan-
Assim, o importante é o que está acontecendo no te deve ser avisado sobre o contexto da investigação e so-
momento da narração, sendo que o tempo presente, bre os procedimentos da entrevista narrativa. Então, o en-
passado e futuro são articulados, pois a pessoa pode trevistador expõe o tópico central que tem a função de ser
projetar experiências e ações para o futuro e o passado disparador da narração, os critérios de elaboração desse
pode ser ressignificado ao se recordarem e se narrarem tópico deve seguir as seguintes orientações(1):
experiências. As entrevistas narrativas são, pois, técnicas 1. Necessita fazer parte da experiência do informan-
para gerar histórias e, por isso, podem ser analisadas de te, para garantir o seu interesse e uma narração
diferentes formas após a captação e a transcrição dos rica em detalhes.
dados(10). Neste processo são envolvidas as caracterís-
ticas para-linguísticas (tom da voz, pausas, mudanças 2. Deve ser de significância pessoal e social, ou co-
na entonação, silencio que pode ser transformado em munitária.
narrativas não ouvidas, expressões entre outras), funda- 3. O interesse e o investimento do informante no
mentais para se entender o não dito, pois no processo tópico não devem ser mencionados, para evitar
de análise de narrativas explora-se não apenas o que é que se tomem posições ou se assumam papéis já
dito, mas também como é dito. Lembramos ainda que desde o início.
embora as entrevistas sejam a forma mais conhecida de
coleta de dados, as histórias narrativas podem ser reuni- 4. Deve ser suficientemente amplo para permitir ao
das a partir de diferentes formas como observação, do- informante desenvolver uma história longa que, a
cumentos, imagens e outras fontes(2). partir de situações iniciais, passando por aconte-
cimentos passados, leve à situação atual.
A tabela a seguir apresenta de forma estruturada o
processo a obtenção das entrevistas narrativas: 5. Evitar formulações indexadas, ou seja, não referir

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datas, nomes ou lugares, os quais devem ser trazi- • O segundo, o material não indexado vai além dos
dos somente pelo informante, como parte de sua acontecimentos e expressam valores, juízos, refe-
estrutura relevante. re-se à sabedoria de vida e, portanto, é subjetivo.
Portanto, a conduta do entrevistador é fundamental 2. Na etapa seguinte, utilizando o conteúdo indexa-
no resultado das narrativas e se houver mais de um entre- do, ordenam-se os acontecimentos para cada in-
vistador na mesma pesquisa pode gerar problemas, já que divíduo o que é denominado de trajetórias.
o método leva em consideração a interação entre pesqui-
sador e informante. Caso haja mais de um entrevistador 3. O próximo passo consiste em investigar as dimen-
deve haver constante diálogo entre os pesquisadores, pa- sões não indexadas do texto.
ra alinhar os possíveis problemas e para que haja trocas 4. Em seguida, agrupam-se e comparam-se as traje-
que podem enriquecer a pesquisa, uma vez que cada eta- tórias individuais.
pa é preparada coletivamente(5).
5. O último passo é comparar e estabelecer seme-
É importante, ainda, que o pesquisador acolha bem lhanças existentes entre os casos individuais permi-
o informante e tenha uma escuta comprometida que tindo assim a identificação de trajetórias coletivas.
permite obter pistas para captar a senha que é o portal
de acesso ao informante. Assim, para obter bons resul- Para analisar o material recomenda-se reduzir o texto
tados o pesquisador deve ter uma grande capacidade gradativamente, operando-se com condensação de sen-
de interação com o outro, uma disponibilidade psicoló- tido e generalização, divide-se o conteúdo em três colu-
gica para ouvir e habilidades de escrever as experiên- nas, na primeira fica a transcrição, na segunda coluna a
cias analisadas(5). primeira redução e na terceira apenas as palavras-chave.
Então, desenvolvem-se categorias, primeiramente para
Outro fator relevante a ser observado é o tamanho da cada uma das entrevistas narrativas, posteriormente são
narrativa, por revelar aspectos que devem ser analisados ordenadas em um sistema coerente para todas as entre-
a cada caso, pode ser maior ou menor a depender do pes- vistas realizadas na pesquisa, sendo o produto final a in-
quisador, do informante ou do contexto social. terpretação conjunta dos aspectos relevantes tanto aos
As narrativas combinam histórias de vida a contextos informantes como ao pesquisador.
sócio–históricos, ao mesmo tempo que as narrativas re- Para uma análise mais aprofundada dos dados deve-
velam experiências individuais e podem lançar luz sobre mos fazer a seguinte pergunta proposta por Erving Goff-
as identidades dos indivíduos e as imagens que eles têm man: o que está acontecendo aqui e agora? Essa pergunta
de si mesmo(2), são também constitutivas de fenômenos aponta os indicadores do contexto situacional (aqui) e o
sóciohistóricos específicos nos quais as biografias se en- momento da interação em curso (agora). Os enquadres e
raízam. As narrações são mais propensas a reproduzir es- as pistas contextuais podem nos auxiliar nesse processo,
truturas que orientam as ações dos indivíduos que outros os enquadres constituem a forma como construímos e si-
métodos que utilizam entrevistas. Dessa maneira, o ob- nalizamos o contexto da situação em curso e as “pistas de
jetivo das entrevistas narrativas não é apenas reconstruir contextualização” são muito importantes na sinalização
a história de vida do informante, mas compreender os dos enquadres. Essas pistas nos remetem tanto para tra-
contextos em que essas biografias foram construídas e os ços do contexto local, situacional, como para o contexto
fatores que produzem mudanças e motivam as ações dos macro, acionando informações de natureza institucional,
informantes(1). cultural e social(11).
A interpretação de narrativas ainda representa um Ainda, para o estabelecimento das categorias e as
desafio aos pesquisadores que podem seguir diferentes consequentes categorizações são usados tanto o proce-
técnicas ou métodos. Ao mesmo tempo em que o domí- dimento de codificação baseado em dados como o de
nio de técnicas específicas é exigido, não há intenção de codificação baseado em conceitos. A leitura prévia da li-
esgotar as possibilidades de análise, mas sim de realizar teratura disponível que se debruça sobre esse tema bem
uma análise no sentido de abrir os sentidos(5). como o foco de interesse de investigação proporcionou
Shutze(1), delineia uma forma de análise da entrevista a definição prévia de algumas categorias. Por outro lado,
narrativa bastante didática: com o material obtido em campo pode-se construir novas
categorias.
1. Após a transcrição separa-se o material indexado
do não indexado: Devemos, portanto, retirar dos dados o que de fato
eles significam, não impondo uma interpretação com base
• O primeiro corresponde ao conteúdo racional, em teorias preexistentes. A maior parte dos pesquisado-
científico, concreto de quem faz o que, quando, res se movimenta entre os ditos e os não ditos do discurso
onde e porque, ou seja, é ordenado (consequen- circulante, favorecendo uma análise mais enquadrada do
temente é de ordem consensual, coletiva) contexto narrado(12).

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a narrativa como instrumento de in- esclarecimentos, mais direcionadas ao foco do conteúdo
vestigação em pesquisa qualitativa pesquisado, são realizadas após o término da gravação. Isto
porque a captura em profundidade exige do entrevistador
Minayo(13) se refere ao verbo compreender como a um aprender a ouvir tanto as falas quanto as pausas, silên-
principal ação em pesquisa qualitativa, em que questões cios, ritmos e o próprio cenário que vai se configurando no
como a singularidade do indivíduo, sua experiência e vi- decorrer de uma história que ali é contada (18,21).
vência no âmbito de grupo e da coletividade ao qual per- A construção da intimidade entre o entrevistador e
tence, são fundamentais para contextualizar a realidade entrevistado permite ao pesquisador desprender-se do
na qual está inserido. Ao buscar responder questões em papel de controlar o discurso do participante, se está ade-
um determinado contexto espaço-temporal ou histórico- quado ou não ao material que o pesquisador almeja ob-
-social, as pesquisas qualitativas não são generalizáveis. ter(10). Ao propor que o entrevistado discorra livremente a
Isso não significa que sejam pouco objetivas, pouco rigo- partir de uma questão aberta, a investigação possibilita o
rosas ou sem credibilidade científica, mas sim que abor- não condicionamento das respostas, o que propicia para o
dam e tratam os fenômenos de outra forma(14,15). sujeito da pesquisa a construção gradativa de uma história
Se por um lado a pesquisa qualitativa se preocupa em com tendências próprias, em que os conteúdos implícitos
capturar um nível de realidade que não pode ser mensu- e os não ditos, possam emergir com maior naturalidade e
rado quantitativamente, por outro, o pesquisador só po- comprometimento com a realidade cotidiana (21,22,23).
derá desenvolver uma postura crítica que o qualifique no A riqueza do método das narrativas propõe ainda um
aprofundamento da captura dos dados, se permanecer desafio ao pesquisador: o de se tornar parte do processo,
em uma busca ativa e atenta por novos interlocutores e em que ouvir em profundidade o que emerge dos partici-
observações em campo, com o objetivo de articular e en- pantes implicados em suas próprias histórias, admite que
riquecer as informações coletadas, uma vez que o objeto seja atravessado pela singularidade da trama de significa-
da investigação é sempre um objeto construído(13,14,16). ções que é criada por cada sujeito (18,22).
Schraiber(17) afirma que a narrativa é a objetivação Assim, as entrevistas narrativas são mais apropriadas
do pensamento, dado que o pensamento externalizado para captar histórias detalhadas, experiências de vida de
é apreendido em sua forma de relato oral. As narrativas um sujeito ou de poucos sujeitos. Deve-se passar um tem-
assim, segundo a autora, são ferramentas bastante apro- po considerável com cada entrevistado e captar informa-
priadas para o estudo qualitativo em que se objetiva in- ções por meio de diferentes tipos de fontes, que podem
vestigar representações da realidade do entrevistado. A ser de origem pessoal, familiar ou social. Alguns exemplos
partir dessas representações pode-se captar o contexto são cartas, fotografias, documentos, correspondências,
em que esse informante está inserido. diários, entre outros. O pesquisador deve também estar
atento a contextualizar pessoalmente, culturalmente e
Nessa perspectiva, as narrativas preconizam em seu
historicamente o sujeito de pesquisa, bem como reesto-
instrumento de coleta a questão gerativa(18). Esta forma de
riar os relatos e outras informações obtidas de forma que
abordar o sujeito da pesquisa sugere capturar a fala a par-
se construa algum tipo de estrutura para posteriormente
tir de um posicionamento bastante diferenciado da entre-
inserir a história em uma sequência cronológica(2).
vista semidirigida que utilizam de roteiro semiestruturado
com perguntas definidas ao qual se deseja circunscrever Por sua fecundidade, as narrativas podem potencial-
um dado objeto a ser investigado(14,18,19). mente capturar circunstâncias nas quais o pesquisador al-
meja investigar mediações entre experiência e linguagem,
O uso do roteiro semiestruturado, desde que pré-tes-
estrutura e eventos, ou ainda situações da coletividade
tado e tendo o pesquisador prévio entendimento dos ob-
envolvendo memória e ações políticas. As narrativas são
jetivos de cada pergunta, permite que a entrevista flua pe-
uma forma dos seres humanos experienciarem o mundo,
la ordem do discurso do entrevistado, possibilitando que
indo além da simples descrição de suas vidas, pois ao re-
o entrevistador lance mão de seguir um roteiro estrutura-
pensarem suas histórias – as que contam e ouvem – refle-
do que, em geral, quebra a naturalidade e cria imposições
tem quem são reconstruindo continuamente significações
restritivas tanto ao pesquisador como ao próprio sujeito
acerca de si(18,24).
da pesquisa. Ainda assim, a diretividade de cada pergunta
aponta para um foco, o que limita o sujeito a responder Portanto, o pesquisador colabora com o entrevistado
dentro de um campo associativo bastante definido e pre- e o envolve na pesquisa, de modo que ambos saem modi-
viamente delimitado pelo próprio pesquisador(20). ficados desse encontro(2). Nesse sentido, Clandinin e Con-
nelly compreendem a narrativa como forma de entender
É mister salientar, que nas narrativas a não diretividade a experiência, sendo a experiência o fundamental a ser
propõe a apreensão dos significados em que o sujeito fala captado nas pesquisas.
e, ao construir seu próprio discurso em narrativas, possa
repensar os próprios acontecimentos por ele enunciados. Por fim, a pesquisa narrativa amplia a conexão do pes-
As interferências com perguntas pontuais para eventuais quisador com o campo, seu contexto e tessitura, ao pos-

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sibilitar que a tensão do enigma de pesquisa (o problema constitui a trama em que relatos biográficos e fatos viven-
em questão) não se perca, uma vez que o material coleta- ciados se entrelaçam. As narrativas permitem ir além da
do oferece rica consistência de experiências e significados transmissão de informações ou conteúdo, fazendo com que
- pela escuta prolongada e pela noção da importância dos a experiência seja revelada, o que envolve aspectos funda-
eventos que o encadeamento das narrativas permite cap- mentais para compreensão tanto do sujeito entrevistado
turar, e não precipita no pesquisador a busca por recons- individualmente, como do contexto em que está inserido.
tituir vivências e atribuições dos entrevistados pela anco-
ragem de referenciais teóricos que pela própria empiria Ao romper com a tradicional forma de entrevistas ba-
captada no campo(23). seadas em perguntas e respostas, o método das narrati-
vas revela-se um importante instrumento para se realizar
Conclusões investigações qualitativas, dispondo para os pesquisado-
res dados capazes de produzir conhecimento científico
O método qualitativo de pesquisa caracteriza-se por compromissado com a apreensão fidedigna dos relatos e
abordar questões relacionadas às singularidades que são a originalidade dos dados apresentados, uma vez que per-
próprias do campo e dos indivíduos pesquisados. O estu- mitem no aprofundamento das investigações, combinar
do qualitativo por meio das narrativas permite capturar histórias de vida a contextos sócio–históricos, tornando
as tensões do campo, de maneira que as ressonâncias e possível a compreensão dos sentidos que produzem mu-
dissonâncias de sentidos que emergem pelas falas, sejam danças nas crenças e valores que motivam (ou justificam)
problematizadas a partir do encadeamento das falas que as ações dos informantes.

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CEPAOA05415-010 São Paulo, SP, Brasil
camilajmuylaert@gmail.com