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Dinheiro e moralidade no programa Bolsa Família

● Significados do dinheiro do PBF


● Etnografia entre 2010 e 2012 feita na cidade de Alvorada, região metropolitana de Porto
Alegre e com entrevistas realizadas com beneficiários moradores da Ilha da Pintada
cidade popularmente conhecida como cidade "dormitório" ou "de passagem"
● Valores morais que acompanham o acesso ao dinheiro

Dinheiro das e para as mulheres (renda)


Dinheiro das e para as crianças (acessibilidade-oportunidades)
Dinheiro interdito e vergonhoso aos homens (inversão de poder)

PBF - Surgiu em 2003 - Objetivo de unificar outros programas de transferência de renda do Governo
Federal brasileiro - a integração de programas possibilita o aumento do valor dos benefícios (a partir
da monetização) e eliminava agentes intermediários que muitas vezes faziam desvios de recursos e
finalidade
● se consolidou como um dos maiores instrumentos de política social brasileira
● visto como referência - beneficiou mais de 13 milhões de famílias
● Municípios - porta de entrada pelo programa - responsável pela divulgação de informações e
cadastro de famílias de baixa renda

● Recursos financeiros - destinados às mulheres


● Condicionalidades* - voltadas às crianças, adolescentes e grávidas e/ou
nutrizes (pessoa responsável pela amamentação)

*crianças do período da alfabetização (6 anos) até conclusão do ensino fundamental (15 anos)
matriculadas com frequência mínima de 75%, acompanhamento do cartão de vacinação, crescimento
e desenvolvimento; mesmo acompanhamento para grávidas e recém nascidos. Além disso,
participação em atividades ofertadas pelo CRAS (Centros de referência especializada de assistência
social) em que todos os integrantes do grupo familiar devem ser castrados e inseridos, antes de terem
o CadÚnico

● O ingresso no programa é mediado pela visita de uma assistente social após o ingresso no
CRAS. A instituição cabe o controle sobre as famílias que serão beneficiadas pelo programa.
● PBF opera com o recorte de renda das "linhas de pobreza", assistentes sociais utilizam-se da
noção de "vulnerabilidade" como elemento central de elegibilidade ao programa
A ausência de homens/pais provedores é um marcador importante para considerar a
família/pessoal como "vulnerável"

● Famílias podem receber até três tipos de benefícios que variam o valor (32-306 reais)
- Ocorre a adequação de discursos para se enquadrar no quadro “vulnerável”, mas com
cuidado porque a radicalização do termo na descrição doméstica pode incentivar uma
intervenção radical (ex: prisão de cônjuges, retirada da guarda dos filhos, perda de
status frente à comunidade)
● (famílias consideradas extremamente pobres costumam ter mais acesso a benefícios variáveis
e o benefício básico)
● Etnografia consegue captar aspectos centrais da moralidade que envolve o acesso ao
benefício: negociação em torno da noção de vulnerabilidade e os diferentes significados do
dinheiro do Bolsa família segundo o ponto de vista dos beneficiários

Tensionamento sobre a existência do PBF: questionamentos sobre o uso do dinheiro é feito como se
existisse uma dualidade entre "maus usos" versus "usos adequados" para determinados tipos de
dinheiro
● O programa limita o público alvo dos benefícios (considera idade, linhas de pobreza, etc),
mas não faz referência sobre como deve ser feito o uso do dinheiro, apesar de existirem
cartilhas elaboradas pelo Governo Federal sobre a importância da gestão do dinheiro
● Esse tensionamento se relaciona com a estigmatização do consumo, modos de vida e
comportamento do recorte social destinado para receber os benefícios. A implementação da
liberdade de consumo é criticada, mas na verdade ela possibilita a uma margem de
manobra ampla do benefício com o mesmo fim: garantir estrutura domiciliar da família
● A gestão desse benefício fica a cargo e sob a titularidade preferencial de mulheres de baixa
rende e é transferido tendo em vista a inserção de crianças e adolescentes em iniciativas de
cunho educacional, de saúde e assistência social
- Projeto pensa recortes de classe, gênero e geração

Dinheiro do PBF - Dinheiro Especial (ZELIZER, 1994; 2003; 2011) - atravessa por diferentes e
controversos significados, normais e expectativas responsáveis por um cenário de circulação que se
relacionam com o destino do recurso monetário, e também com a identidade de seus receptores

Economia moral (FASSIN, 2010; 2011 E 2012) - Leque de possibilidades a partir do programa que
justifica um consumo amplo de usos do dinheiro do PBF, mas que não podem negar a alguma
justificativa - o dinheiro não é apenas do titular, mas da família

Composição do núcleo doméstico como elemento central


● Benefício para famílias através da transferência de renda e esforço ao acesso de direitos
sociais básico
● Enfoque nas mulheres maioria das titulares do benefício (em Alvorada, somam cerca de 97%
dos titulares), em crianças e adolescentes que seguem as condicionalidades

Os autores relatam tensões ao longo das visitas domiciliares durante as negociações entre os
profissionais do serviço social e famílias beneficiárias. Eles identificam que, apesar de episódios de
tensões abertas, maioria dos confrontos são marcados por tensões veladas.
- Assistente social: busca acompanhar o ambiente domiciliar para acompanhar o processo de
diminuição da vulnerabilidade;
- Familiares: se submetem a intervenção do serviço social ao reconhecerem a necessidade ou
almejarem acessar algum "direito" ou serviço

Exemplos:
Cigana: mulher que buscava comprovar vulnerabilidade, apesar de ser cadastrada no PBF, para
receber uma cesta básica emergencial a partir da visita domiciliar (chegou a mostrar a magreza das
pernas da filha para comprovar a necessidade)
"Mãe solteira": solicitei cadastramento no PBF e, após visita domiciliar, teve seu caso arquivado ao
ter sua casa, móveis e roupas observados
Maria Rosa: Mulher que possuía um status financeiro acima da média, passou por duas separações,
perdeu sua casa e comprova sua vulnerabilidade através da documentação para obter renda (toda ajuda
que recebe de sua rede de solidariedade não é monetária). Reconhece, ao frequentar ambientes de
assistência social que não passa tantas necessidades comparado a outros casos

● PBF predomina uma economia moral da dádiva: é mais interpretada como uma ajuda do que
referenciada como direito

Quando questionadas sobre a ocasião e a situação que as levaram a se cadastrar no PBF, todas as
mulheres, sem exceção, referiam-se a um momento em que os homens (pais e/ou companheiros)
estavam ausentes.
● Não mencionar a renda de seus companheiros (quando havia) se tornou um método entre
muitas para terem acesso ao programa,
● Muitas vezes ocorria uma movimentação para que eles não estivessem na casa durante visitas
domiciliares.
● Não citar o cônjuge também se tornou em uma estratégia para obter o beneficio sem o
conhecimento do mesmo - “Dinheiro meu” - Uso do dinheiro feminino para as crianças
- material escolar/alimentação variada/cosméticos/telefone/acesso a cultura/material
para obras
● Mulheres que saem de empregos mais precarizados e usam a renda do PBF para colaborarem
com a família e cumprirem afazeres domésticos/se inserem em ambientes de estudo e
qualificação

● Em casos de famílias que possuem o PBF como única (ou mais regular) fonte de renda, ocorre
resposta a esse fato com atos de violência masculina. Homens ora "roubam" o dinheiro
destinado às mulheres, ora tornam-se gestores do recurso. Em ambos os casos, as mulheres se
sentem roubadas e injustiçadas, porque se identificam como beneficiárias por direito do
programa
● Quando essas situações ocorrem, redes (vizinhança, conhecidos, familiares) reconhecem a
injustiça do caso. Para essas redes e para o homem, o benefício do PBF é surge como um
atestado de “homem não provedor”

Comparação interessante: a pensão concedida a um idoso, uma viúva ou um deficiente (via herança)
parecem menos sujeitas à necessidade de justificação do que o dinheiro recebido através do PBF,
embora a procedência do benefício seja a mesma. Isso reforça o aspecto moral do dinheiro (do PBF)
por ser direcionado por mulheres e crianças.

PBF aparece como um dinheiro feminino, passível de ser gasto com o fino (em oposição ao "grosso),
com itens considerados supérfluos, mas nem por isso dispensáveis - humanização através do
investimento
Supérfluo - Se torna necessário - Na medida que se torna acessível

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