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IDEOLOGIA ESPIRITUAL

“Se eu seguir, através de suas transformações sucessivas, a ideia de Deus, vou descobrir que
essa ideia é, antes de tudo, social.” - Pierre-Joseph Proudhon, em “A Filosofia da Miséria”

O sistema de idéias criado aqui no Ocidente em torno da questão espiritual humana não passa
de uma sólida estrutura criada para dar suporte a um plano de controle das grandes massas de
populações, processo cuja origem deu-se nos últimos estertores do Império Romano, no Sec.IV
dC., estendendo-se ao longo da história, mediante várias adaptações e redirecionamentos de
métodos conforme o desenvolvimento das relações políticas, ou de poder, ou até mesmo
econômicas, que passaram ao longo dos séculos e ainda passam por práticas decididamente
nada “cristãs”, revelando marcadamente que tratam-se apenas de ferramenta de dominação
de grandes contingentes populacionais, ainda mantidos, ainda hoje, em pleno Sec. XXI,
subservientes e pouco, muito pouco, ou nada libertos.

Que fique claro então que uma coisa é o “Cristianismo”, outra coisa é o “Catolicismo”, outra
coisa é o “Protestantismo”, outra coisa são as demais correntes com alguma derivação do
advento de Jesus, as quais contenham em suas doutrinas algo do cristianismo, porém sem
subordinação ou vínculo direto com esses dois grandes troncos principais, e, trágico para a
imensa maioria dos adeptos dessas tradições espirituais, uma outra coisa completamente
diferente é a espiritualidade vinda diretamente da divindade.

Nos quatro primeiros tópicos do parágrafo acima, ainda que o pretexto de fachada ou
superfície seja o de uma busca por aproximação com Deus (ué, mas como é que alguém
consegue se ver afastado dEle, se Ele é onipresente e onisciente? - ”Para onde me ausentarei
de teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama
no mais profundo abismo, lá está também...” Salmo 139:7 e 8), ou seja, uma espécie de
contato puro, surreal, metafísico, de espírito com espírito, o que realmente está em ação há
quase 1.700 anos são meros processos de controle objetivo das multidões, por parte de um
grupo de sedentos de poder aqui na Terra.

“Não existe, falando com propriedade, uma “busca de Deus”, pois não existe nada onde ele
não possa ser encontrado.” - Martin Buber

A essência espiritual do Cristianismo, a saber, aquele conjunto de impressões morais,


comportamentais e filosóficas sugeridas por Jesus, o Cristo, ou atribuídas a ele, tem perecido
ao longo dos séculos, em favor de uma outra coisa, à qual as pessoas têm sido de contínuo
convencidas a continuar chamando de cristianismo.

A essência espiritual definha, por conta da imobilidade de seus pilares estabelecidos há vários
séculos: quantos versículos bíblicos, de teor doutrinário, dos milhares que compõem a AT e o
NT, caírem em franca obsolescência, ainda que muitos que contam a si mesmos como
“cristãos” neguem este fato, e mesmo se enfureçam com aqueles que acusam essa realidade.

O fato é que o “cristão”, desde que passou a ter acesso ao texto das escrituras que tem como
sagradas – a Bíblia foi um livro proibido até há poucos séculos, e a sua simples posse por parte
do adepto em sua casa era motivo, pasmem, de prisão, tortura, condenação e execução nas
fogueiras, prática que vigorou até meados do Séc. XVIII – ainda hoje, muitos cristãos, de fato
piedosos, não lêem as sua bíblias, pois, apesar de suas capas bonitas e luxuosamente
enfeitadas, têm como certo que o seu conteúdo é de difícil compreensão: seria, portanto,
suficiente mantê-las abertas no Salmo 91, ou no Salmo 23, ou em alguma outra passagem que
seja muito bonita e significativa para si, por alguns meses, sobre a estante ou um móvel da
sala, para que as visitas vejam que seu dono é uma pessoa de bem... - , tem escolhido os
versículos que lhe convém, e essa é uma prática recorrente e progressiva, segundo a própria
dinâmica do comportamento das relações sociais que os humanos experimentam entre si
desde sempre, a qual tem se acelerado. (Convenhamos: Quem leva a sério, nos países mais
“abertos” do mundo, somente com exemplo, as doutrinas de Paulo a respeito do
comportamento submisso que as mulheres devem manter perante seus maridos e suas formas
“corretas” de se portarem perante a igreja, lavradas de forma objetiva em algumas de suas
cartas doutrinárias?)

Ao mesmo tempo várias práticas cotidianas, e mesmo de abordagem do espiritual, que não
estão mencionadas em nenhuma parte da Bíblia são adotadas sem maiores sentimentos de
culpa pelos líderes de algumas das milhares correntes cristãs que pululam por aí (como, por
exemplo, acender velas para seus santos ou para a Virgem, ou até mesmo o próprio processo
de escolha e nomeação de “santos”, missas de 7º. Dia para os mortos, acender velas nos
túmulos dos entes queridos já falecidos – onde estão essas coisas na Bíblia?)

Isso não deveria causar surpresa, pois é o que tem ocorrido desde sempre: à medida que o
homem vai mudando sua forma de agir, o senso comum vai mudando a própria forma de
conceber ao Deus em que se apoia.

No Brasil se diz: “A voz do povo é a voz de Deus!”.

Wagner Woelke