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RESUMO:

“AS ESTRATÉGIAS SENSÍVEIS”,


DE MUNIZ SODRÉ
Em ​As estratégias sensíveis ​(2006), Muniz Sodré traz a ideia de “estratégia sensível”, para se referir aos jogos de
vinculação dos atos discursivos às relações de localização e afetação dos sujeitos no interior da linguagem. É uma
derivação a partir da contraposição clássica entre afeto e razão, mas também uma demonstração de como as
estratégias sensíveis permeiam as formas emergentes de sociabilidade na era da mídia e/ou da comunicação
modelada por um mercado transnacional e tecnologias avançadas da informação. Este livro oferece novas
possibilidades para a compreensão da realidade virtual na sociedade contemporânea, das transformações da política
e das formas emergentes de novas conexões entre os indivíduos da sociedade.

“No cérebro as decisões mais rápidas são as emocionais, não as cognitivas. Isso faz do sistema límbico o foco
neurológico adequado ao ordenamento sócio-tecnológico que está orientado pela circulação de fluxos de natureza
diversa. Comunicação moderna é fluxo. Comunicação moderna é circulação, é velocidade. Desde os fluxos
financeiros até os fluxos informacionais.” – Muniz Sodré

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Elementos do resumo:

1. Pequena introdução sobre Muniz Sodré


2. Contexto em que ​As estratégias sensíveis​ foi escrito
3. Apontamentos iniciais do livro
4. Ideias centrais de ​As estratégias sensíveis
5. Perguntas gerais sobre o livro
6. Perguntas específicas sobre o livro

1. PEQUENA INTRODUÇÃO SOBRE MUNIZ SODRÉ:

● Muniz Sodré de Araújo Cabral é um jornalista, sociólogo e tradutor brasileiro, professor emérito da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Escola de Comunicação. Exerceu de 2009 a 2011 o cargo de
Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

● Nasceu em São Gonçalo dos Campos, na região de Feira de Santana, filho do comerciante de tecidos, poeta
e vereador Antônio Leopoldo Cabral. Tem duas filhas, três netas e atualmente é casado com a também
professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Raquel Paiva.

● É um pesquisador brasileiro e latino-americano no campo da comunicação e do jornalismo. Dirigiu a TV


Educativa. Publicou quase uma centena de livros e artigos, na área da comunicação (jornalismo em
especial), mas também livros de ficção e um romance. Algumas obras tornaram-no mais conhecido, como
Monopólio da Fala (sobre o discurso da televisão) e ​Comunicação do Grotesco (sobre programas de TV
que exploram escândalos e aberrações). As ideias de Muniz Sodré nos auxiliam a compreender, entre
outras coisas, como são utilizadas hoje as estratégias sensíveis na comunicação, mas com objetivos
racionais.
2. CONTEXTO EM QUE ​AS ESTRATÉGIAS SENSÍVEIS​ FOI ESCRITO:

● As Estratégias Sensíveis (2006) é o primeiro trabalho brasileiro sobre a importância crescente dos afetos na
cultura contemporânea e dialoga diretamente com a obra ​Antropológica do Espelho: Uma Teoria da
Comunicação Linear e em Rede​ (2002).

● Foi escrito em 2006, era em que os dispositivos eletrônicos consolidavam sua trajetória de sucesso no seio
dos lares brasileiros, bem como o início das redes sociais, jogos virtuais, entre outros. Assim, Muniz Sodré
preocupa-se com o fato de a ​mídia ser parte constituinte de uma nova forma de vida pautada nos
dispositivos eletrônicos e nas relações virtuais. A partir disso, explora o conceito de um novo bios que se
articula, depende e vive por meio dessas conexões na contemporaneidade.

● Sodré repara que a mídia referencia o homem, que passa a usá-la para dar sustentação à cultura e,
consequentemente à sua capacidade de compreender as coisas. Portanto a mídia é hoje, instrumento de
direcionamento ou de criação de subjetividades que surgem ou são moldadas e tornam-se dependentes,
sedentas por informações e tecnologia no que Muniz Sodré chama de ​bios midiático​.

3. APONTAMENTOS INICIAIS DO LIVRO:

● Estratégias sensíveis (2006) visa tratar, de maneira sucinta, sobre a superioridade do sensível nas interações
humanas e suas formas de manifestação na sociedade contemporânea no campo das mídias, da política e
das expressões espontâneas da cultura.

● Engana-se quem vai a obra de Muniz Sodré esperando encontrar ali uma abordagem do tema do afeto na
sua forma mais expressivamente traduzida, encarada como manifestação sensível propiciada pela ação
artística em momentos individuais de exaltação. Ao contrário, nos três primeiros capítulos, o tema do afeto
é tratado em seu viés domesticado, sob controle das tecnologias midiáticas e a serviço da ação política e
econômica atuais, obviamente fortalecidas pela mediação dos veículos de comunicação.

● Estratégias sensíveis (2006) enreda o leitor por uma cativante e nada fácil trajetória sobre as diferentes
formas de ​pensar a questão do afeto como uma das manifestações mais evidentes e vigorosas de
interação e comunicação humanas​.

● Tendo como premissa inicial a afirmação do estudioso Mario Perniola no sentido de que vivemos uma
época estética, concebida não em relação direta com as artes, mas fundada em regimes do sensível, ou do
estésico, ​Sodré lança a questão que deverá nortear todas as suas reflexões: a pergunta sobre a
possibilidade de existência de uma potência emancipatória na dimensão do sensível, do afetivo ou da
desmedida​, para além, portanto, dos cânones limitativos da razão instrumental.

4. IDEIAS CENTRAIS DE ​AS ESTRATÉGIAS SENSÍVEIS:

4.1. O AFETO:

● Presente em todas as formas de pensamento, o afeto diz respeito expressividade e interação humanas,
inclusive no plano da corporeidade, o que conduz a reflexão filosófica a focaliza-lo nas suas considerações
sobre o homem, suas experiências no mundo e com outros seres humanos. Sufocado ao longo dos séculos
pelo primado da razão cognitiva e pelo selo do processo civilizatório, o afeto constitui foco de discussão de
várias teorias, mesmo quando convocado para ilustrar, no negativo, os meandros da racionalidade.

● Pivô de discussões seculares, o afeto acaba se integrando a um debate calcado na visão dicotômica entre o
racionalismo cognitivo e as perturbações da alma, em cujo seio vem sendo tratado como o lado
inapreensível ou secundário diante do primado do racionalismo cognitivo do logos unificador. Segundo
Sodré, isso se torna mais evidente no ​universo midiático​, ou no ​bios virtual,​ em que as formas de ação
individual e social passam a ser mediadas por processos tecnológicos e, na qualidade de mediações,
assumem a feição do espetáculo.

● Afeto, emoção, sentimento e paixão são noções abordadas, de maneira cativante, a partir de seus conteúdos
etimológicos e das significações que adquirem ao longo dos séculos. Todas envolvem a ​realização estética
no sentido da proposição emocionalista do estar juntos, ​portanto, convocam não apenas a mente, ou o
espírito, para esta fruição, mas, em especial o corpo​; são atributivas das ​transformações da corporeidade
que estão na origem das manifestações fóricas ​com que os sujeitos interagem no mundo​.

● Nos fenômenos da simpatia, da antipatia, do amor, da paixão, das emoções, mas igualmente nas relações
em que os índices predominam sobre os signos com valor semântico, algo passa, transmite-se,
comunica-se, sem que nem sempre se saiba muito bem do que se trata.

● Profundamente imersos num processo civilizatório em que as ​imagens exercem um poder inédito sobre os
corpos e os espíritos​, começamos de fato a nos inquietar com o mistério da realidade sensível de todos
esses signos visíveis e sonoros que administram o afeto coletivo e a também a indagar sobre o
encaminhamento político de nossas emoções. É aqui então que o agir ético-político, quando acontece, faz
emergir o ser comum como possibilidade de inscrição do diverso na trama das relações sociais, para além
das medidas fechadas da razão instrumental e da lei estrutural do valor: o capital.

4.2. OS FENÔMENOS SENSÍVEIS:

● Muito antes de se inscrever numa teoria (estética, psicologia, etc.), a dimensão do sensível implica uma
estratégia de aproximação das diferenças – decorrente de um ajustamento afetivo, somático, entre partes
diferentes num processo –, fadada à constituição de um saber que, mesmo sendo inteligível, nada deve à
racionalidade crítico-instrumental do conceito ou às figurações abstratas do pensamento.

● As experiências sensíveis podem orientar-se por estratégias espontâneas de ajustamento e contato nas
situações interativas, mas salvaguardando sempre para o indivíduo um lugar exterior aos atos puramente
lingüísticos, o lugar singularíssimo do afeto.

● É verdade que ​as mídias e a propaganda têm mostrado como estratégias racionais não espontâneas podem
instrumentalizar o sensível, manipulando os afetos​. Na maioria das vezes, porém, tudo isso se passa em
condições não apreensíveis pela consciência.

● A diversidade dos modos de sentir e, ao mesmo tempo, a singularidade por vezes radical de cada
experiência configurada fazem do sensível uma espécie de terreno brumoso para a consciência do sujeito
auto-reflexivo, porque o lançam numa imediatez múltipla e fragmentada, onde ​os julgamentos tendem a
ser mais estéticos do que morais​.

● A discussão do sensível é desenvolvida de maneira aprofundada no campo das ciências da linguagem


privilegiando as abordagens neopragmáticas de recuperação do tema, como a de H. Parret, para quem “a
paixão dos sujeitos mobiliza a discursividade das interações”.
4.3. A ÉPOCA ESTÉTICA:

● A matéria da estética considerada em sentido amplo é o modo de referir-se a toda a dimensão sensível da
experiência vivida.

● A maior parte do pensamento pós-modernista, avesso à política liberal-parlamentarista, gira em tomo da


estética. Nasce daí um descompasso, senão um grande equívoco teórico na relação entre a maioria das
pesquisas correntes em comunicação – guiada pela discursividade linear e seqüencial – e a nova
racionalidade inerente às tecnologias da informação. A emergência de uma nova Cidade humana no âmbito
de novas tecnologias do social nos impõe, não apenas no plano intelectual, mas também nos planos
territoriais e afetivos.

● Sodré aborda todas essas questões com o intuito de compreender a viabilidade de seu papel na ação ética,
numa sociedade de interesses técnico-econômicos, baseada no consumo como a atual. ​Para o autor, a
estesia atingiu um tal grau de intensificação na sociedade capitalista atual, que se manifesta sob forma
codificada pela dinâmica de uma sensibilidade coletiva dirigida para o consumo​, para as formas de
aglomeração, ou para o exercício do poder político, mais afeito à pura gestão tecnoburocrática do que a
uma ação ética.

● No capítulo 2, o debate sobre a comunicação ou as atuais sociedades de tecnologia de informação se insere


no âmbito da estrutura capitalista, com destaque para o papel dos índices nas relações midiáticas
contemporâneas. Os índices são analisados com base nas relações interacionais midiáticas, nas quais as
várias modalidades e graus de solicitação do corpo se fazem sob a forma de um vínculo indicial. Esse
mesmo processo de estetização industrial generalizada, concebida em seu sentido de atuar sobre as
subjetividades e persuadir pela emoção, passa a ser tratado então na esfera política, no capítulo intitulado
“A democracia cosmética”.

4.4. O COMUM:

● O centramento na ideia de comum é ponto chave da reflexão de Muniz Sodré, pois pressupõe o estar
junto como condição fundamental para a construção dos sentidos​. Deve ficar claro, no entanto, que o
princípio do estar junto não se efetiva pelo aglomerado físico de individualidades e, sim, ​pela sintonia
sensível das singularidades ou pela vinculação humana na pluralidade do comum.

● Um novo conceito de comum privilegia a dimensão técnica do homem, porque passa a ser não só operado
pelas mídias e pelas tecnologias de distribuição da informação, como elas próprias se convertem no novo
espaço social ao qual o homem se integra organicamente. Por conseguinte, adquirem papel preponderante
nesse universo a imagem e o espetáculo, concebidos como formas de difusão constantemente presentes da
mensagem unívoca do mercado.

● O fato marcante a ressaltar no raciocínio de Sodré é a abordagem desses fenômenos como elementos
constitutivos da realidade. Não se trata, em síntese, de considerar a imagem e o espetáculo em suas
propaladas e polêmicas naturezas representacionais e, sim, de circunscrevê-los enquanto uma espécie de
ordenamento social, ou um ​bios midiático em que a partilha das experiências se consolida na dimensão de
uma antropotécnica sob a primazia dos efeitos de sentido de uma tatilidade generalizada.

4.5. A ALEGRIA

● Depois de nos conduzir num torvelinho de idéias, que cruza o terreno polêmico de discussão dos afetos ao
longo da formação do pensamento ocidental para revelá-los em suas exacerbações presentes no empenho
sedutor das tecnologias da comunicação, inclusive acionadas para a constituição de uma imagem
espetacularizada da democracia (cosmética), o autor nos envolve na atmosfera do regime afetivo da alegria.
Não a alegria como estado emocional reativo e, sim, o domínio de um sentimento afetivo pleno,
configurado como uma fusão da interioridade com a exterioridade, pela mediação do corpo, entregue à
expressividade livre, não-sígnica, nem domesticada, em sintonia existencial com o grupo e com o mundo.

● Por que a alegria? Ela não convoca causas para a sua existência​. Tampouco é um contato com a
surpresa ou o inesperado. Está sedimentada num estado promotor de si mesmo, sem causa. Nesse sentido, a
alegria é análoga à liberdade política, ou seja, àquilo que está ausente nas formas de sensibilidades
acionadas pelas mídias.

5. PERGUNTAS GERAIS SOBRE O LIVRO:

● De que fala ​As estratégias sensíveis​ (2006)?


A questão que norteia a abertura do livro é que o pressuposto básico para qualquer ação política envolve
saber movimentar-se nesses novos cenários das estratégias sensíveis (tecnologias da comunicação dentro e
fora da grande mídia), com vistas na superação do descompasso entre as velhas categorias do pensamento
da esquerda clássica e as condições atuais de sustentação da acumulação capitalista. Deste ângulo, toda
ação emancipatória implica a consciência do papel do sensível como um tipo inédito de vigor.

● O que me diz a estrutura de ​As estratégias sensíveis​ (2006)?


O livro é estruturado em quatro robustos capítulos, três dos quais atinentes aos conteúdos explicitados no
subtítulo (Afeto, Mídia e Política).

● Qual o objetivo do livro?


Basicamente o livro demonstra que devemos ter mais atenção às estratégias emocionais que nos são
jogadas dia após dia e permitir mais espaço ao emocional, ao sensível, ao afeto, ao olhar tanto a História e
quanto o mítico, para compreender o homem contemporâneo. É preciso escapar, mesmo que
momentaneamente, do pensamento que se tornou “sagrado” e que também é defendido pela maioria das
instituições que detêm o poder. É necessário repensar o logos e qual o lugar que o ​pathos ocupa dentro
deste contexto para, a partir daí, mudar o paradigma e passar a observar as estratégias sensíveis para
compreender, libertar, estimular a reflexão e melhorar qualitativamente a interação entre homem, meio e
mídia. ​O caminho, segundo Muniz Sodré, já foi apontado por autores como Raymond Williams,
Edward Said, Stuart Hall e Homi Babba. O pesquisador brasileiro propõe buscar outra perspectiva no
campo das ciências e da linguagem para trabalhar com o sensível. ​Um caminho possível seria relativizar ou
desconfiar do paradigma pelo qual se observa a comunicação desde a segunda metade do século XX​. A
comunicação intensificada pela ação, pela presença da tecnologia e pelo excesso de informação, dentro de
um sistema regido pela racionalidade que domina as interações humanas e coloca em campos opostos o
racional e o não-racional. Ao tocar a teoria compreensiva da comunicação, Muniz Sodré nos auxilia a
enxergar com mais clareza as modificações que sofrem hoje homem e cultura. Os responsáveis pelos
conteúdos, formas e estratégias que permeiam as mídias, a comunicação de massa e tecnologia, precisam
da dialogia, da observância dos fatores cognitivos e pensar experiências anteriores ao próprio homem.

● Quais as principais críticas feitas a Sodré?


Há os que não o perdoam por ver a mídia com as lentes do pessimismo: máquina simuladora do real que
faz excessivo uso da estesia. Só que, se Sodré não a visse dessa forma, certamente abriria mão daquilo que
é mais potente em seu discurso (e que passa ao largo dos tecnólogos), isto é, a crítica das bases materiais na
qual assenta toda a produção midiática contemporânea: a infraestrutura “armada” pelo mercado, em que ele
observa uma lógica de circulação acompanhada de uma retórica eticista. A estesia, neste caso, não traduz
uma preocupação platônica com os simulacros (imagens técnicas) enquanto produtores de uma vida
inautêntica. Para Sodré, estesia é tão-só a adulação do indivíduo para a prática do consumo. Tal posição
não inviabiliza a ocorrência de descontinuidades do sujeito no interior da trama tecno-comunicacional (há
grandes artistas no bios virtual), apenas adverte que não se pode esperar do Mercado tal iniciativa. Também
há os críticos que veem o ​bios midiático como um meio indeterminado e frágil a níveis de estudo, porém
ainda assim capaz de promover uma ciência ecológica da comunicação na contemporaneidade. É válido
lembrar, portanto, que a comunicação bios midiática não se inscreve nos parâmetros metodológicos e
conceituais das tradicionais teorias da comunicação. Trata-se de um objeto dinâmico e indeterminado
apreensível somente por meio de uma razão sensível. Ou seja: uma razão que se inscreve num outro
domínio cognitivo, aberto às imprevisibilidades deste objeto que escapa e se reinventa nas tramas
rizomáticas da rede digital.

6. PERGUNTAS ESPECÍFICAS SOBRE O LIVRO:

● Qual a concepção da “comunicação” para Sodré?


“Comunicar significa vincular, relacionar, concatenar, organizar ou se deixar organizar por uma dimensão
constituinte, uma dimensão intensiva e pré-subjetiva do ordenamento simbólico do mundo. Portanto, da
mesma forma que a biologia descreve vasos comunicantes ou a arquitetura descreve espaços comunicantes
dentro da casa, os seres humanos são comunicantes. Mas não porque falam. Falar é um atributo
consequente do sistema linguístico. Os homens são comunicantes não porque falam, mas porque
relacionam ou organizam mediações simbólicas de modo consciente ou inconsciente em função de um
comum a ser partilhado. Portanto, a comunicação é, prioritariamente, uma questão de organização, não de
fala. Essas mediações não se reduzem à lógica sintática ou à lógica semântica dos signos das palavras
porque são transverbais, são relações oscilantes entre mecanismos inconscientes, palavras, imagens… Ou
seja: isso não é nem socialmente nem teoricamente evidente. [...] A comunicação não se limita a linguagem
verbal porque o que a comunicação designa de fato é a conexão, é a vinculação entre dualidades (ser e extra
ser, corporais e incorporais, imanência e transcendência, discurso e ato), ela é esse conexão, ela é essa
vinculação. E isso demonstra bem Jacques Lacan quando diz que, embora fundado na linguagem, o
discurso não está submetido ao linguístico ou ao texto porque a estrutura do discurso pode muito bem
subsistir sem palavras; pode haver no discurso ausência de palavras e ele não deixar de ser discurso. [...] O
homem se comunica não porque ele transmite um saber, mas porque ele faz a tradução daquilo que ele
pensa, provocando o interlocutor a fazer o mesmo: a contra-traduzir. Por isso não se engana aquele que, a
rigor, diz que não se comunica nada. E esse acerto é apenas parcial porque, de fato, a comunicação conecta,
a comunicação organiza, põe dualidades em comum – o que dá margem à língua e à fala. Mas, seja falada
ou escrita, toda fala é uma tradução que vai encontrar o seu sentido na contra-tradução que o outro faz
acionada por duas operações mestras da inteligência a saber: narrar e adivinhar. Adivinhar é um outro
nome pra sentir operativamente. Portanto o fazer da comunicação no nível da representação, se não usar
figuras como falar, contar, narrar. Falar é a maior prova da capacidade de fazer alguma coisa: no ato de
falar o indivíduo trabalha, ele exercita-se com palavras (num trabalho semelhante ao do artesão) e ele abre
espaço pra que o interlocutor adivinhe o sentido do que é dito. Portanto: linguagem e comunicação são
coisas diferentes. Na distinção entre palavra e símbolo, entre signo e símbolo, é que está a diferença entre o
funcionamento da língua e da comunicação. [...] A internet não comunica nada. Mas ela mostra que a
essência da comunicação é justamente vincular, conectar, concatenar, não importa o que se diga; ela nos
mostra que o grande gozo, o grande desfrute da comunicação é o êxtase da conexão. Ela deixa evidente que
o importante na comunicação é organizar, é juntar, e não dizer. Não à toa que tanto ódio, tanta raiva
transborda daquela fala sem sentido que constitui hoje as redes sociais. Essa ideia de comunicação como
uma ecologia de palavras, de afetos, de sistemas, nos leva ao conceito hoje corrente de midiatização. Na
midiatização não se trata de acontecimentos por meio da Comunicação, como primeiro você tivesse um
fato social aqui contemporalizado e a transmissão social desse fato depois, depois o midiático. Não, a
midiatização também não é o trabalho das mediações simbólicas sobre a mídia, como pode dar a entender a
expressão “os meios são as mediações”, do meu amigo Barbero (porque eu acho que é um conceito que,
mesmo atravessado, pode gerar trabalhos interessantes). Mas não é essa mediação simbólica. A
midiatização é um conceito que descreve o funcionamento articulado das tradicionais instituições sociais e
dos indivíduos com a mídia. Nós estamos vivendo esse momento. Uma comparação pra simplificar: na
mediação a imagem é uma coisa que se opõe entre o indivíduo e o mundo pra constituir o conhecimento:
você só conhece por meio de imagens; na midiatização desaparece aquela ontologia substancialista dessa
correlação e o indivíduo é descrito ele próprio como imagem gerida por um código tecnológico. Essa
midiatização que estamos vivendo é um conceito que descreve mudanças qualitativas que estamos vivendo
em termos de configuração social por meio de articulação da tecnologia eletrônica com a vida humana. É
uma reconfiguração mais espacial, mais geográfica, mais conectiva que linguística. A midiatização,
portanto, é um conceito para dar conta de uma nova instância de orientação da realidade que é capaz de
permear as relações sociais pela mídia e que constitui uma forma virtual, uma forma simulativa (um “novo
continente”) de vida a que nos aconteceu dar o nome de ​bios midiático​, ​bios virtual (nós vivemos com um
pé nele e na velha geografia).”
[Muniz Sodré em palestra na Famecos PUC-RS, em 25 de outubro de 2016]

● O que significa “expor” ou “experimentar”, para Sodré?


“Expor” ou “experimentar” adquire, para Sodré, um significado muito maior do que meramente
“apresentar” ou “comunicar” algo. Significa “simbolizar”: expôr-se, dessubjetivar-se, correr os riscos de
perder-se no Outro, contrariando o imperativo imunizante que nos faz indivíduos isolados mediados por
relações jurídicas e mercantis; implica abrir mão de si (sujeito) em função de um outro, não um outro
sujeito individual, mas um outro impessoal e transcendente (a cadeia hereditária da descendência: a
comunidade). Significa, sobretudo, desbravar um mundo novo, um novo continente, com o mesmo ímpeto
das primeiras embarcações que partiram mar adentro sem esperança de retorno. Dançar naquele limite da
desmesura, em que uma vida se mistura com cada outra sem, contudo, se confundirem.

● O que é o “vínculo”, para Sodré?


Mais do que dissecar um fato social (mesmo correndo o risco de que tal fato seja pura simulação), mais do
que fixar, de maneira abrupta e institucional, um campo no qual supostamente podemos melhor gerenciar o
comportamento da comunicação, Sodré propõe que nos equilibremos na ponta de um alfinete, topo onde,
aí, sim, pode-se ver melhor a comunicação. Estar entre, prestes a cair no Outro, tal é a experiência da
comunicação e de onde Sodré extrai seu objeto: o ​vínculo​, o traço que atravessa o “eu e o outro”, a
vinculação social. ​O vínculo perpassa os seres humanos e os faz comunicarem​. Ele perfura e esvazia os
seres, fá-los entrarem efetivamente em contato, obrigam-os à relação e, portanto, ​se coloca como força
motriz da sociabilidade. Tal relação, tendo o Outro como prioridade e condição de sua própria existência
(como numa vida em comunidade), confere ao vínculo ​a capacidade agenciadora da coexistência​. Mesmo
com o diferente, do moderno com o tradicional, do atual com o inatual (​ethos​ e ​hexis)​ .

● Para Sodré, qual a concepção de “cultura”?


Em ​A verdade seduzida (1983), encontra-se uma concepção de “cultura” pouco convencional, mas que faz
apelo ao vínculo, como um chamado de fora capaz de esvaziar o sujeito: “Cultura implica num
esvaziamento da unidade individual, no que faz circular os termos polares da troca, no que reintroduz o
acaso e o Destino, no ato simbólico que extermina as grandes categorias da coerência ideológica, no que se
constitui em morte do sentido e da verdade universais, no que faz aparecerem as singularidades, num ato de
delimitação e de atração, em resumo, no movimento do jogo (SODRÉ, 1983, p. 180).”
● O que seria “epistème comunicacional”?
Diz respeito à estrutura cognitiva para os estudos de mídia. Esta é uma preocupação bem recente em seus
escritos e acompanha as próprias exigências do campo por uma clara definição. Segundo Sodré (2007), é
possível uma inteligibilidade (uma metodologia de pesquisa) e uma autonomia comunicacional (um objeto
claro: a vinculação social). Ele sugere um modelo tripartite: 1) descrições funcionais do dispositivo (por
exemplo, o sistema televisivo ou telemático); 2) as relações entre esse dispositivo e seu contexto
socioeconômico-cultural (as mediações “não técnicas”); 3) O olhar reflexivo e a sensibilidade do
pesquisador na descrição deste cenário, uma espécie de hermenêutica da existência midiatizada. O campo
acolheria, portanto, descrições das relações humanas mediadas, constituindo um grande mapa das
experiências sócio-comunicacionais. Acresce-se, ainda, a vigilância (crítica) epistemológica, algo como
uma sociologia do conhecimento comunicacional, em que transpareceria o status político da pesquisa: uma
orientação ética (rumo às liberdades humanas) ou mercadológica (apologia à técnica e a formação de mão
de obra especializada).

● Para Sodré, o que é “midiatização”?


“É a descrição sintética do funcionamento articulado das tradicionais instituições sociais dos indivíduos e
das organizações de mídia. Essa articulação de organizações, indivíduos e mídia é responsável por uma
espécie de mar eletrônico onde nós estamos navegando sem que ainda tenhamos, digamos, os materiais
reflexivos e adequados pra compreensão das pequenas e grandes mudanças da temperatura social. Portanto
esse conceito, em andamento, pra mim, da midiatização, tem alcance maior do que a simples descrição
técnica dos dispositivos informativos. Porque até agora, praticamente, os estudos de comunicação pecam
um pouco, talvez excessivamente, por terem apenas descrições técnicas de dispositivos. Então por mais
notórios e importantes que sejam esses dispositivos (a televisão, o rádio, o jornal, a internet) no processo
industrial e generalizado de distribuição da informação, ainda são parcialidades quando comparados ao
fenômeno da midiatização. Midiatização é um nome, mas é um nome provisório pra transição tecnológica
que caracteriza as formas tradicionais de organização e de instituição; um nome transitório pra uma
transição. ​Portanto a midiatização é uma elaboração conceitual destinada a dar conta da intensificação
tecnológica de todos dispositivos de mídia; portanto é uma nova instância de orientação da realidade. É
uma instância capaz de permear (infiltrar) as relações sociais por meio de mídia e constituindo por meio do
desenvolvimento acelerado dos processos de convergência midiática uma forma virtual, uma forma
simulativa de vida a que eu tenho dado o nome de ​bios (​bios virtual ou ​bios midiático)​ . Então é admissível
a hipótese de que essa instância, essa forma simulativa de vida sustentada pela inteligência artificial (e isso
me parece central pra entender a midiatização, pois ​no centro dela está a inteligência artificial​), é possível
que ela provoque ao mesmo tempo a dispersão das formas de inteligência que foram
institucionalissimamente montadas pela sociabilidade tradicional, provoque a dispersão, a extinção. Então é
do reconhecimento de uma instância dessa natureza, que é dada, por exemplo, pela internet das coisas, pela
televisão, pelos contatos maciços generalizados… Daí vem a ideia de se pesquisar uma ​ecologia da mídia.​
Uma ​ecologia da mídia deve ser pesquisável no contexto científico da comunicação. A ​midiatização ou o
bios virtual ​consiste em um tipo de ecossistema tecnológico. A ecologia não é mais planta-terra. A ecologia
também é objeto. Portanto essa nova ecologia implica formas novas de adaptabilidade às ferramentas
técnicas, implica uma produção de efeitos sobre as ? e os sistemas límbico (sistema responsável pelas
emoções, pelo comportamento, pela raiva, por sexo, o sistema nervoso) dos seres humanos, que é
fundamental pra entender a midiatização. ​Com a midiatização nós estamos entrando em uma democracia
que faz circular emoções. Em uma democracia de sensações. Que são adequadas às imagens velozes do
trânsito eletrônico e ao imperativo do comércio e de todos os tipos de bens que o mercado põe em
circulação. Portanto, em termos práticos: nós sugerimos a vigência de um ​mindspace (espaço mental), um
foco sensível das atenções que são comercialmente disputadas pelos diferentes dispositivos de inteligência
artificial dentro da sociedade midiatizada. E esse foco se desdobra no que podemos chamar de ​bolhas
perceptivas,​ que são bolhas vazias de ideias, vazias de conteúdos, cognitivamente articuladas, da mesma
forma que uma bolha financeira que não tem calção econômico é real. Uma bolha perceptiva não tem nada
dentro, não tem conteúdo. Mas ela tem uma coisa importante: ela tem carne afetiva, ela tem carne
emocional, ela tem carne sensacional. Então essa mesma carne, esse mesmo investimento afetivo que
define os estereótipos, que define os slogans que atuam no campo da propaganda política, que atuam no
campo da propaganda comercial e que são poderosos porque a bolha perceptiva, os slogans os
preconceitos, eles são impermeáveis à diferença. Quando você tá dentro da bolha você não quer saber de
diferença, você quer saber de quem é que tá compartilhando a bolha com você. É o fenômeno de estar
dentro do seu entorno perceptivo. E isso é antigo. Só que a internet acelera isso. [...] ​Então a midiatização
não é apenas um trânsito eletrônico em mídia, ela é um trânsito da argumentação cognitiva, da
argumentação racional pra o deslocamento da circulação da carne afetiva, da circulação dos afetos. Nós
entramos politicamente numa democracia de emoções. Então é imperativo frisar aí que não se trata de afeto
como designação pra relações, não se trata de afeto como a capacidade de sentir, a capacidade de amar, a
capacidade de viver com o próprio corpo, não é afeto nesse sentido. ​Nós estamos falando da rede afetiva
que é a rede desejante, a rede liberada, a rede comunicacional posta a serviço da ordem capitalista global,
posta a serviço do capitalismo financeiro e do mercado. Não se trata, portanto,mais, quando eu falo de
ordem desejante, de desejo como negação do ascetismo moral capitalista; não é desejo nesse sentido. Mas ​é
desejo como motor de desenvolvimento tecnológico​. E há um nome genérico pra isso: chama-se ​machine
learning (que é o nome genérico pra tecnologia da compreensão e captação dos desejos do usuário). [...] ​No
cérebro as decisões mais rápidas são as emocionais, não as cognitivas. Isso faz do sistema límbico o foco
neurológico adequado ao ordenamento sócio-tecnológico que tá orientado pela circulação de fluxos de
natureza diversa. ​Comunicação moderna é fluxo. ​Comunicação moderna é circulação, é velocidade. Desde
os fluxos financeiros até os fluxos informacionais​. E isso tem um potencial enorme pra afetar
ecologicamente as formas de vida. [...] A midiatização não elimina o real tradicional, ele submerge. [...] ​O
meteoro da midiatização caiu sobre o que nós estamos chamando de cultura.​”
[Muniz Sodré, no VII Seminário de Pesquisas em Mídia e Cotidiano, ocorrido em 14 a 16 de Maio de 2018, em
Niterói, no Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF]

● Qual o conceito de “vinculação” para o autor?


Refere-se aqui à “problemática do ser-em-comum ou das trocas simbólicas” (SODRÉ, 2002, p. 234),
presente nas atividades dialógicas e afetivas do Homem, as quais intervém o vínculo e as ações vinculantes
de natureza “sociável” (e não “societais”, civilizatórias). Para Sodré, os estudos de comunicação não se
esgotam nos estudos de mídia, ao contrário, requisita a centralidade da condição humana (da sociabilidade,
do ​pathos​) como componente importante, senão como objeto privilegiado, da comunicação. ​O vínculo pode
ser facilitado pelo uso técnico (mídia)​; em todo caso, supõe-se a sua eventualidade nas relações humanas
atuais, em que impera o indivíduo abstraído da comunicação. Sodré afirma ainda que a grande
característica do nosso tempo é a velocidade: a notícia chega antes do fato pois nós vivemos em uma
sociedade em que o espaço é comprimido numa temporalidade veloz.

● O que seria exatamente “afeto” na concepção do autor?


Para Sodré, os afetos são recursos extra-comunicativos que estão em ordens e avisos pra que se cumpram
as missões dos enunciados​. O autor trabalha o conceito de afeto para demonstrar que está ligado à emoção:
um sentimento, uma energia psíquica que, é ao mesmo tempo, prazer, tensão e perturbação que afetam
corpo e alma. Ele busca nos estudos de António Damásio – especialista em processos neuroquímicos – o
conhecimento para entender como o raciocínio lógico e o sentimento estão permeados por processos
biológicos, instintivos e ambientais. Sodré, então, critica a tendência ocidental para a medição das coisas:
tudo deve ser quantificado. Se isso é verdade, como se medir então o emocional, o sensível? ​Há uma forte
empreitada pelo controle sobre o não-racional, seja pela técnica ou pela repressão; seja o controle de
atitudes físicas ou de vontades que nascem no psíquico, como o consumo. O pesquisador vai mais longe
nesta busca pelas provas de que razão e emoção coexistem num mesmo ser: um ser homem e um ser
existência e argumenta que se usa a eloquência como uma ponte entre razão e emoção. Os discursos de
Platão ou Aristóteles, por exemplo, eram totalmente racionais em sua linha de pensamento, mas, ao mesmo
tempo, permeados pela paixão que permitiria tocar os seus ouvintes para convencê-los. Eles consideravam
“lícito apelar-se para as sensações”.

● Para Sodré, qual é a importância do afeto na sociedade?


Sodré trabalha nesta obra com a visão de que as mídias eletrônicas, como a TV, são hoje dispositivos
semióticos que configuram perceptiva e afetivamente as formas de codificação do mundo pelo homem. O
autor vai buscar as origens das formas de utilização da razão e do afeto por meio da contraposição entre
logos e ​pathos.​ A partir daí ele discute a relação entre a mídia e o homem e como os estudos
comunicacionais abordam esta questão. ​Sodré entende que, para isso, é necessário ir além das análises do
conteúdo da mensagem, mas compreender como as recebemos segundo a nossa subjetividade e de acordo
com a historicidade de cada um. Valoriza-se também o sujeito que é cercado por uma cultura e que tem um
passado e que vai além da própria compreensão dele mesmo. ​O autor entende que devemos fugir das
análises permeadas pelos velhos conceitos que enxergam razão e emoção separadas em campos opostos e
chama a atenção para o perigo da instrumentalização do afeto pelas mídias​: “É verdade que as mídias e a
propaganda têm mostrado como estratégias racionais não espontâneas podem instrumentalizar o sensível
manipulando os afetos. Na maioria das vezes, porém, tudo isso se passa em condições não apreensíveis
pela consciência”.

● Como a mídia e a política podem, através do afeto, ganhar uma nova dimensão?
“Afeto é um dos nomes, uma das formas do sensível. Significa uma dimensão cognitiva que é diferente da
lógica, da racionalidade puramente argumentativa. Isso atravessa toda a História do Ocidente. É nas leis,
principalmente, também na República, que Platão faz a separação entre pa-ideia (a educação, a grande
cultura circulativa e argumentativa) e ​pa-itia ​(que quer dizer jogo, o que é lúdico: as relações amorosas, os
prazeres). O Ocidente de algum modo acompanha essa divisão e dá o primeiro lugar à razão instrumental e
à ​pa-idea​, à grande formação educativa do homem para o domínio do mundo, do trabalho, para as leis, para
a ciência. No entanto, eu acho que ​o que a Modernidade tecnológica traz é a possibilidade de você
reinstalar o afeto​, portanto ​o sensível na vida social porque a tecnologia, a técnica, não é equipamento,
apenas; é um outro modo de você se relacionar com a cultura e com o conhecimento​. Quando você se dá
conta do que está em jogo (digamos, na televisão, na internet) não é mais a velha lógica platônica
argumentativa. ​Quando você se pergunta o que é que tá em jogo aí, você começa a redescobrir o sensível e
o afeto​. Por exemplo: o que está em jogo, o que importa na televisão não é tanto o conteúdo da grande
cultura redistribuído, mas um novo modo sensível de se relacionar com o conhecimento que não passa pela
lógica da velha cultura. É um tipo de sociabilididade que se cria, uma sensibilidade. Se na televisão isso
não fica muito claro, fica mais claro na internet, onde é um tipo de lógica mais indicial, uma lógica que
implica a presença do usuário junto a qualquer produto cultural, à atividade dele, à comunicabilidade. Você
vê que o que está em jogo hoje, o que está acontecendo, por exemplo, nas redes sociais (que ainda são
muito superficiais, ainda é muita fofoca, é muito falatório), mas a mobilização que essas novas redes (que
eu chamo “afetivas”) criam é enorme, e é irreversível. E isso fatalmente virá refluir para a educação.
Fatalmente virá refluir pra cultura que produzimos, que reformamos. E isso já está na política, por inteiro.
Na verdade a política hoje é feita disso. Só que ​nós tomamos o “afeto” apenas no sentido “positivo”, afeto
como uma coisa boa. Mas o ódio também é afeto. O desprezo também é afeto. É o que afeta a gente, são as
afecções do corpo. Então a questão do afeto, a questão do sensível, é a questão de uma estética social. Não
se trata de bons ou de maus sentimentos. É a decisão de quem entra no jogo social por voz, por, por
visibilidade. É tudo isso que implica o afeto. A vida social é movida pelo sensível, não por razão.​”
[Muniz Sodré em entrevista para Ciência & Letras, Canal Saúde, 6 de dezembro de 2012]
● Essa questão da sensibilidade, do afeto, tem algo a ver com ser brasileiro, especialmente?
“Não. Isto é, eu diria, universal. ​Eu acho que em qualquer lugar a tecnologia veio com a possibilidade de
instalar uma lógica afetiva. Mas no caso do Brasil nós temos que ver como é que esse afeto se forma, se
distribui, como é que no jogo das diferenças étnicas-culturais brasileiras têm formas particulares de estar
presente, de estar junto. No caso do Brasil, e foi isso que eu trouxe no último capítulo desse livro ​As
estratégias sensíveis (2006), fala-se sobre a ​alegria​. E eu acho que talvez seja o único estudo brasileiro
sobre a alegria como a filosofia das massas no Brasil. Não a alegria da risada desabrida, mas a alegria como
essa provação sem restrições que você faz do real. Quando você aprova irrestritamente o real é quando
você afina uma corda de violão com a outra, a partir da outra corda. Aí quando você vê que tá igual o
som… Você pensa: você está alegre quando você está afinado com o real. Quando não existe desafinação
com você e o real, que é o instante. Então você se sente alegre. ​E sentir-se alegre é você ser transportado
pelas asas, sair da gravidade da terra e por um instante você sentir que não falta nada entre você e o mundo.
Esse sentimento da alegria tá presente no Brasil porque junto da religião afetiva do Cristianismo, que é a
religião do amor universal, da irradiação universal do amor, você tem os cultos afro-brasileiros, que são
religiões da alegria, não são religiões, eu diria, do amor. E a alegria de que? De estar vivo. De saber que o
mundo é maior do que você, de que o real é inesgotável. ​Isso é alegria: você sentir o real por um instante.
Portanto a alegria é litúrgica. É uma alegria séria.”
[Muniz Sodré em entrevista para Ciência & Letras, Canal Saúde, 6 de dezembro de 2012]

● Como não confundir alegria com diversão e entretenimento?


“A alegria pode até ser muito séria. Você já viu nas escolas de samba a Velha Guarda? Eles são
profundamente alegres, afinados com o real e muito sérios. A alegria pode ser litúrgica. O orixá é alegre e é
sério. Eu falo do excessivo investimento econômico no espetáculo. Eu falo: nós podemos estar nos
matando de tanto rir sem alegria, de tanta diversão, quando a formação é desprestigiada.”
[Muniz Sodré em entrevista para Ciência & Letras, Canal Saúde, 6 de dezembro de 2012]

● O que seriam “estratégias sensíveis”, para Sodré?


Em relação às estratégias sensíveis da comunicação, ​as mídias e a propaganda, há algum tempo, já têm
demonstrado que é possível instrumentalizar a dimensão dos afetos na construção de subjetividades que
atendam às demandas de uma sociedade projetada para o consumo acelerado dos signos imagéticos.
Através de técnicas administradas de produção de uma vontade não espontânea, constroem-se estratégias
de produção de subjetividade pautada, principalmente, pelas novas exigências do mercado de consumo
globalizado​. Nas próprias palavras de Sodré: “Toda essa tecnologia com a qual nós lidamos hoje é a
materialização da matemática complexa, obscura. Nós não sabemos, realmente como é feito um celular, o
que é que tem dentro desse negócio. No entanto, paradoxalmente, isso que vem como argumentação, como
racionalidade, nos induz a nos portar com ele não argumentativamente, mas sensivelmente. É essa a lição
do cinema, da televisão, da internet. Ou seja: nós estamos entrando no paradigma da razão sensível. E esse
sensível foi abandonado na história do Ocidente quando, nas leis, Platão separou ​pa-ideia (racional) de
pa-idia (jogo). Essa separação o Ocidente levou à sério. Só que nós nos divertimos sempre, nós gostamos
mesmo do jogo e do sensível! Ninguém ama o outro por argumento racional. ​Os sistemas essenciais da vida
são da ordem do sensível. Nós deveríamos rever até esse juízo negativo que se faz da televisão porque o
que está em jogo ali é uma outra lógica de sedução, de emoção, de conhecimento que não foi devidamente
trabalhado na escola, educacionalmente. Tem ali alguma coisa que se você entrar no jogo te mobiliza. E
nós não sabemos exatamente o porquê de nós não termos sido educados para o sensível. E eu acho que
talvez, com essas tecnologias integradas, essa nova humanidade eletrônica que eu falei, é possível que a
escola, a pedagogia acorde pra isso. Eu não sei como, mas é possível.”
[Colóquio com Muniz Sodré sobre comunicação e produção cultural realizado na ECO - UFRJ, em 2012 pelo LECC
(Laboratório de Estudos de Comunicação Comunitária da UFRJ) em comemoração aos 70 anos do professor]
● Qual a relação entre a tecnologia e o sensível?
“Nós devemos pensar a missão que a tecnologia traz não em termos de funcionamento do equipamento
(isso não necessita de muita escola) porque isso é técnica. Nós devemos pensar sobre o ​logia que a palavra
tecnologia traz. A ​logia significa uma outra lógica, uma outra ordem. É aí que você pensa: mas que lógica e
que ordem é essa? Nós podemos pensar, por exemplo (já que os mais velhos gostam de pensar no passado
[Risos]) em Pascal, na Renascença: ​A Ordem do Coração.​ O que é a ordem do coração? É você pensar a
partir do afetual, a partir do sensível. Não é você complementar a razão com o afeto e dizer ‘olha, aquele
cara é muito racional, mas ele também é uma pessoa sensível’, não é isso. Não é o sensível pra matizar o
lógico, não. É mostrar que o sensível tem uma lógica própria, que é preciso partir dela. ​A tecnologia, se ela
nos traz uma coisa radicalmente nova com relação ao humano e à consciência, é isso, é essa incitação a
exatamente: ‘vocês vão ter que malhar tanto pra construir coisas materialmente, mas também ver que tipo
de sensibilidade, que tipo de lógica do sensível aparece no equipamento’. E isso é o mais difícil. Até
porque essa educação do sensível não existe hoje. Porque educar pro sensível é educar primeiro pra
diversidade: pra diferença de classe, pra diferença de cor, diferença de países, diferença de modo de falar…
Isso aí você passa uma geração inteira, amadurece, morre e não muda nada. E é disso que eu falo no meu
livro. O que é a arqueologia do saber? Fazer os saberes darem-se as mãos. Isso é revolucionário no mundo
global em que estamos vivendo. ​E com a tecnologia esse é o desafio: é relativizar o primado do
conhecimento europeu e olhar pro saber diverso, fazendo eles se darem as mãos​.”
[Muniz Sodré, em entrevista concedida ao Canal Futura, em 2012]

● De que forma a mídia utiliza o sensível para gerar audiência?


Ao se fazer um entrevistado chorar, por exemplo, mostrar suas emoções na mídia, explora-se o sensível,
mas não para chegar à essência humana e provocar reflexão, emancipação. O objetivo é tocar o receptor
para ganhar audiência; é comover para despertar vontade de continuar recebendo aquela mensagem, de ver
o externo e o imediato: “A emoção está aí a serviço da produção de um novo tipo de identidade coletiva e
de controle social, travestido na felicidade pré-fabricada (...)”. A racionalidade encampa o sensível, mas
para usá-lo. Os produtores de conteúdo para a mídia estudam os fenômenos ligados ao sensível para
descobrir como gerar prazer. Tal emoção é vista apenas como o prêmio pelo esforço e não como sinônimo
de harmonia, equilíbrio. Por meio da exploração de valores imateriais supera-se a lógica da Indústria
Cultural que prevê apenas a estandardização de produtos que circulam em larga escala. ​O autor cita o
militante italiano Antonio Negri e afirma que não é mais o palpável, o material que é colocado a trabalhar
para o mercado mundial, mas sim a alma. ​O sistema influencia fortemente a subjetividade do homem
contemporâneo e trabalha o imaginário​ como ferramenta útil a este mesmo sistema.

● Dê algum exemplo de estratégia sensível.


Para ilustrar seu ponto de vista sobre o primado das estratégias sensíveis na política, Sodré traz ao debate a
trajetória política de Lula, como uma análise de caso. A passagem do líder sindical a homem público,
enquanto candidato às eleições presidenciais, se processa por dispositivos de marketing e não pela
apresentação de uma pauta programática efetivamente oposta à política neoliberal a ser combatida. A
construção do mito do pobre menino nordestino que consegue chegar presidência da república constitui
um dos tantos materiais sensíveis de que se valem o marketing eleitoral e a grande mídia na cosmética da
democracia. Nesse sentido, a vitória de Lula se deve, na verdade, a um processo de sensibilização coletiva,
originário da ilusão, e coadjuvado pelo marketing, que pressupıe, na sua ação, a possibilidade efetiva de
uma política emancipatória das formas hegemônicas saturadas. ​E a mídia, como reitera Sodré (1996, 2002),
é a “boca do Mercado”, fala em nome do Mercado e ​numa linguagem que nos soa familiar​. ​É evidente que
a influência da mídia encontra muitas resistências no público (há muitas outras mediações, negociações
simbólicas), mas não se pode negar o poder da mídia em investir os corpos com tais valores. O monitor de
TV ou de computador, como lembra Sodré, é como uma janela na qual, antigamente, víamos a vida
acontecer. A diferença é que, antes prosaica, agora os eventos acenam (espetacular ou pirotecnicamente)
para participação imaginativa (subjetiva) do espectador.

● Há um grande impasse no que diz respeito à passagem do plano do discurso (por exemplo, a retórica
da mídia) à ação concreta no mundo “real-histórico”; àquele instante de decisão entre acatar os
preceitos da moral vigente (valores consagrados pelo mercado, em que a prioridade é o Eu, o sucesso
individual) ou rechaça-los em nome da comunidade (em que a prioridade é o Outro, a família, o nós).
Muitos estudos do século XX dedicaram-se à descoberta do limite ou das motivações para tal escolha;
muitas áreas do conhecimento foram articuladas (Sociologia, Antropologia, Psicologia,
Neurociências) e muitos foram os conceitos utilizados para circunscrever o fenômeno: alienação,
ideologia, mediação, carisma, inconsciente. Como Sodré articulou e teorizou esses mecanismos de
troca?

Dissertando, por exemplo, sobre a ​simbolização​. “Simbolizar quer dizer, na realidade, trocar. O que se
troca? Não é a natureza pela convenção, como faria crer qualquer argumento sofístico (instrumentalizando
o símbolo, pondo-o como um meio de comunicação a serviço de uma vontade fundadora), mas uma
convenção por outra, um termo grupal por outro, sob a égide de um princípio estruturante que pode ser o
pai, o ancestral, Deus, o Estado, etc. É o símbolo que permite ao sentido engendrar limites, diferenças,
tornando possível a mediação social (SODRÉ, 1983, p. 47).” ​É esse momento da simbolização, da troca ou
negociação simbólica (no qual o vínculo se faz presente), que interessa a Sodré. Circunstâncias históricas e
elementos situacionais podem servir de condições para sua emergência, o que não dirime o grau de
incerteza de sua ocorrência.

● Fale um pouco mais sobre símbolo.


“O símbolo não é signo. O símbolo não é palavra. O símbolo é um organizador de trocas. A moeda, por
exemplo, é um símbolo. Por quê? Eu tenho uma moeda, uns cinco euros. Eu posso, digamos, comprar uma
boa cerveja em um ​boulevard parisiense, eu posso comprar um livro, eu posso comprar um anel, eu posso
comprar pão, eu posso comprar um vinho... Eu tenho coisas diferentes – portanto, heterogeneidade – que a
moeda vale, por cada um deles. A moeda é, portanto, um organizador geral de trocas. Isso é um símbolo. O
símbolo é isso, um organizador de trocas. Não precisa significar nada. Ele é um organizador de trocas. O
pai também. A função do pai, o pai é sempre simbólico. Como a moeda se subtrai por valor de uso, o pai
também. Alguém é pai de alguém porque não é pai dos outros. Subtrai-se ao consumo. Ele é organizador
das funções no interior da família. Portanto, o pai é simbólico. E vai por aí. Então vejam só, o símbolo não
precisa significar nada. Eu acho que a questão da comunicação, a essência da comunicação, não é a palavra
nem o signo. A comunicação pode ser muda. Pode ser muda e ainda assim altamente significativa.
Comunicação é uma organização do comum no nível do simbólico. Então, o meu interesse hoje pelas
tecnologias, seja a televisão, seja a Internet, é porque estou vendo aí um retorno do simbólico para
produção de um novo tipo de comum. Independentemente das finanças, da organização, da ideologia que
está ali. É nesse simbólico, nessa dimensão do simbólico – que não é bem a mesma coisa que o imaginário,
que é outra coisa – é nessa dimensão do simbólico.”
[Conferência do Prof. Muniz Sodré na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 15 de agosto de
2013]

● Fale um pouco mais sobre signo.


Segundo Muniz Sodré, o signo que é imprescindível à representação é tanto da ordem do inteligível quanto
do sensível. De outro modo, o signo emerge da ordem do mundo que possibilita a sua representação, pois é
a realidade que torna possível o processo de mediação.

● O que Sodré quer dizer com “comum”? Qual ideia ele tenta passar?
Como esclarece Muniz Sodré, a ideia de comum pressupõe o “estar junto” como condição fundamental
para a construção dos sentidos. Entretanto, o princípio de “estar junto” não se efetiva pelo aglomerado
físico de individualidades, mas pela sintonia sensível das singularidades ou pela “vinculação humana na
pluralidade do comum”. Tal movimento provoca a desestabilização daqueles hábitos consagrados pela
tradição, em direção a novos horizontes de percepção e cognição diante da multiplicidade fenomênica..

“O compartilhamento é um nível consciente do comum. ​Mas o comum é prévio à própria sociabilidade das
relações conscientes. Quer dizer: não é possível não viver em comunidade. Então quando, na oposição que
se faz à comunidade e sociedade, que é uma oposição feita pela sociologia, e é um movimento recente dos
comunitaristas, que incentivam a cooperação, a solidariedade, o compartilhamento, o comum que eu falo
precede isso. O comum vai na direção do que diz Roberto Espósito: ​o comum na verdade é um vazio. Não
há nada no comum. É um pouco vazio como no poema de Lao Tsé, sobre o vaso (o que permite que tenha
água dentro de um vaso, uma garrafa, não são as paredes da garrafa nem as paredes do vaso, o que permite
que a água seja contida ali é o vazio). O que faz a roda rodar, se movimentar, não é o raio, mas o vazio
entre os raios. E assim por diante. ​O vazio é a plenitude da criação e do sentido. É difícil pensarmos nisso
porque nós pensamos a partir do cheio. O que faz as coisas existirem, as coisas que nós vemos são os seres,
mas o que movimenta os seres é o não-ser, é o vazio. Então você tem dois tipos de vazio e dois tipos de
nada. Você tem o vazio-vazio ou o nada negativo e o vazio-pleno. ​O vazio que faz a sociabilidade é o vazio
pleno, é um vazio que nos leva a preencher de sentido as coisas. Ora, isso é o comum. O que é incomum
entre nós é uma possibilidade vazia que nós preenchemos historicamente, com nossa criatividade, com
nossas relações, com o que produzimos, com o que dizemos (nesse segundo nível). Portanto eu digo: não é
possível não viver em comunidade. Todos nós vivemos em comum, queiramos ou não; só somos gente,
seres humanos, no comum. Agora num segundo nível, t​er a consciência desse comum é mais difícil, é
complicado, porque nós vivemos naquilo que a sociedade moderna criou, onde nós somos indivíduos
isolados ligados por relações jurídicas ou psicológicas, como cidadãos, como consumidores. ​Esse é um
segundo nível que nós aceitamos ou não. Nós podemos nos isolar ou compartilhar. Mas mesmo isolados,
ainda estamos no comum. Nós só vivemos a partir do comum: do que comemos, do que vestimos…
Mesmo que sejamos solitários. Ora, ​esse segundo nível onde há conflitos, quando estamos muito próximos
a relações de conflitos, ele é neutralizado por uma sobreposição a esse comum originário que a mídia, que
as tecnologias da comunicação fazem. A mídia neutraliza o aspecto contraditório, o aspecto conflitual que
decorre do comum​. Porque o comum não é harmonia, o comum é laço e o laço às vezes é extremamente
doloroso, é agonístico. Talvez a melhor metáfora pra mostrar esse laço é a casa do porco espinho, de
Schopenhauer: no inverno o porco espinho se aproxima dos outros pra se esquentar, mas quanto mais
próximo o porco espinho, mais ele se fere por causa do espinho. As relações humanas também são assim;
essas relações, digamos, de desgaste da relação. Quanto mais próximas são as pessoas, mais os espinhos
crescem, ferem. Ora, isso é conflito. Então harmonia do comum não é a paz, a pacificação. É às vezes
armação e as vezes diferenciação; quer dizer atenção do estar perto, atenção do estar junto. ​A mídia
neutraliza. Você não tem conflito com a mídia: ela neutraliza as tensões do cotidiano, as tensões do
comum. Daí a força dela. Ela nos oferece um universo, que eu chamei de ​bios virtual​, onde nós podemos
imergir sem conflito real. Porque no conflito por redes sociais basta você desligar a rede, você não
participar dela. ​Mas no nível da relação interpessoal (briga de patrão e empregado por salário, briga de
marido e mulher por relação de amor, brigada de pai com filho por questão de paternidade ou de
ascendência) ​são conflitos que repercutem ao nível do psiquismo e da carne. Carne, portanto, é o problema.
Os seres do bios virtual são os seres desencarnados, são os seres de puro espírito (espírito no sentido de
imateriais). ​Mas são atraentes porque neutralizam o conflito e nos dão um certo gozo nessa simulação de
existir. Por isso que é possível no espaço da máquina e com a máquina realizar a relação sexual como se
fosse real. Então nós temos uma vida substitutiva, uma duplicação, um desdobramento sem transcendência
da vida porque antigamente quando se duplicava a vida, se duplicava na direção de uma transcendência que
era Deus ou de uma transcendência que era um ideal qualquer. Ora, Deus tende a desaparecer na História e
ficar pra dentro do homem (no sentido fora da palavra). Quando ele tende a desaparecer, a carência de
transcendência faz com que passemos a acreditar em qualquer coisa porque não é possível não acreditar. O
homem não pode viver sem acreditar em alguma coisa, não vive na pura imanência. Aí surgem as religiões
fundamentalistas, você vê a força do fundamentalismo no mundo hoje, que têm força junto às massas
desenraizadas porque lhe falta possibilidade de crença, de crer. Quando a luta política desaparece, você
corre pra algum tipo de religião dessa ou então você corre pra um sentimento moral de indignação. Você
nota que a indignação hoje é uma força política mundial pois hoje ela é capaz de nos levar às ruas. Por que?
Porque ela tá no lugar de uma crença. Em que? Ainda não se sabe. Então deixamos de crer, teoricamente,
em Deus. Deixamos de crer nas grandes benesses do capital, que prometia progresso ilimitado. Deixamos
de crer no amor eterno. Deixamos de crer na própria sexualidade como resgate do corpo, na medida em que
se banalizam as relações. No espaço desse fim da crença, do desaparecimento da crença, é que a crença fica
mais forte como unicidade. ​O comum, portanto, a crise do comum ao nível das relações sociais, é
aumentada por essa multiplicação das máquinas. O problema, portanto, da comunicação, é o problema do
comum.​”
[Entrevista de Muniz Sodré no DVD Olhar UFPB]

“Você não torna ‘comum’ necessariamente falando. Você torna comum organizando as partes dispersas. ​A
comunicação é um sistema de organização do comum. E por ser um sistema de organização do comum, ele
é central, extremamente importante e ​não é uma propriedade da consciência; ele está antes da consciência,
é a comunicação que permite a consciência. Porque a comunicação não é fala. A fala pode ser
consequência dela; ela é essa junção: ela é inconsciente e consciente também. É por isso que é impossível
você não se comunicar. Comunicação não é comunhão, que é quando se dá uma perfeita compreensão. Mas
isso é uma visão da comunicação em cima do modelo linguístico. E comunicação não é isso. ​Língua da
ordem do signo e comunicação é da ordem do símbolo. ​A comunidade é da ordem do simbólico. ​O comum
preexiste ao sujeito porque você não decide viver em comunidade; a comunidade está em você. ​A
comunidade não é uma relação entre pessoas. A comunidade é a relação da pessoa com o ​entre,​ ela já está
dentro. Mesmo que você não queira viver em comunidade você vive, e mesmo que você não queira se
comunicar, você se comunica. É impossível você não se comunicar. O heremita, por exemplo, aquele ser
que está na floresta, é o que mais se comunica: todo mundo sabe que ele é heremita: a mensagem dele está
sendo passada o tempo inteiro.”
[Colóquio com Muniz Sodré sobre comunicação e produção cultural realizado na ECO - UFRJ, em 2012, pelo LECC
(Laboratório de Estudos de Comunicação Comunitária da UFRJ) em comemoração aos 70 anos do professor]

● Por que a mídia é uma forma de neutralização do comum?


“A sociedade já é uma neutralização da comunidade, juntamente ao jurídico e ao psicológico. Um outro
modo de neutralização do comunitário é a mídia. A mídia é uma esfera existencial comprometida
exatamente com os negócios, com o mercado e inteiramente regida pela economia monetária; é uma forma
de vida contemporânea que, apesar de simular a naturalidade do mundo, se afasta cada vez mais das
condições concretas, das condições reais-históricas da existência. Se move, portanto, numa esfera cada vez
mais abstrata com relação ao trabalho e com relação às formas concretas de existência. O ​midium é o
conceito do desdobramento tecnológico da cidade humana. O que significa: o ​midium,​ a mídia, é uma
espécie de prótese ontológica para o controle das relações sociais e o controle das novas subjetividades por
novas tecnologias informacionais. Portanto, o ​rock’n roll é a música mais o midium.​ Da mesma forma: o
midium,​ o jornal, o rádio, a revista, a televisão mais o mercado mais uma sociedade conformada pela
técnica do capital. ​Surge uma verdadeira forma de vida, que é esse ​bios virtual,​ e eu digo que a ponta do
iceberg dele é o ​bios midiático,​ que é uma espécie de comunidade afetiva, uma comunidade de caráter
técnico e mercadológico onde impulsos digitais e imagens se convertem em prática social. ​É esse o objeto
dessa nova ciência social chamada Comunicação. ​Essa nova forma de vida implica uma intervenção
profunda na dimensão espaço-temporal clássica. O virtual é o real menos o espaço e o tempo. A vida real é
apenas uma janela a mais na internet. Realmente é possível pra uma criança, um adolescente que passar o
dia grudado na internet, a vida real ser uma janela a mais. A vida virtual já é plenamente real. Ora, o ​bios
virtual não tá alinhado de modo neutro ao lado dos campos sociais? Por que? Porque ele participa
ativamente hoje da luta pelo controle das representações do real. O ​bios virtual afeta ontologicamente a
própria ideia moderna do social e do exercício do poder”.
[Palestra Revolução genômica, com Muniz Sodré, em 27/05/2008]

● O ato de comunicar nos permite o prazer do vínculo, e a forte adesão à internet, provocada pela
conexão que ela nos oferece, nos mostra isso: ao mesmo tempo em que amplia as potencialidades
comunicativas, o ​bios midiático tem criado espaço para o desenvolvimento do consumismo, como se
estivesse em ação uma motriz objetificadora que apaga as relações eu-tu e privilegia as relações
eu-isto. Como podemos pensar este paradoxo?
Não há paradoxo. Basta invocarmos o conceito de comunidade (ação recíproca entre agente e paciente,
portanto, comunicação enquanto ser-em-comum, vinculação fusional entre um eu e outro), para dar
margem à expansão de seu escopo até a dimensão coletiva, onde a vinculação aparece como a radicalidade
da diferenciação e da aproximação entre os seres humanos, e daí, como a estratégia sensível que institui a
essência do processo comunicativo, este que John Dewey chamava de “interação comunal”.

● O que é “bios midiático”, para Sodré?


Essa é a forma conceitual mais bem acabada para o modo como Sodré supõe a ação das mídias sobre a
sociedade e a cultura contemporânea (midiatização); como ele designa a comunicação em tempo real e o
espaço contínuo. “Bios”, seguindo a filosofia aristotélica, é um “gênero qualificativo, um âmbito em que se
desenrola a existência humana, determinado a partir do Bem (​to agathon​) e da felicidade (​eudaimonia​)
aspirados pela comunidade” (SODRÉ, 2002, p. 25). Para Sodré, o ​bios midiático ou ​virtual​, constitui um
quarto gênero de existência (​bios)​ na Pólis, onde preside a “vida dos negócios” – ao lado dele há ainda
outros três bios: ​theoretikos (vida contemplativa), ​politikos (vida política) e ​apolaustikos (vida prazerosa,
vida do corpo), observados há mais de 2 mil anos por Platão e Aristóteles. O ​bios midiático,​ pouco
expressivo na Grécia Antiga aparece no horizonte humano graças a uma circunstância histórica específica:
extensão do mercado à esfera da vida (das relações sociais) e grande avanço nas áreas de informática e
comunicação (exigência do próprio Capital).

“Na ​Ética a Nicômoco, Aristóteles diz que o homem na pólis grega se move em três esferas existenciais:
política (​bios politikos)​ , dos prazeres (​bios apolaustikos)​ e do conhecimento (​bios theoretikos)​ . Então são
esferas do conhecimento, mas ao mesmo tempo esferas existenciais que o cidadão grego se movia. Mas ele
diz uma coisa curiosa: que poderia haver um quarto ​bios​, que é o ​bios do comércio. Mas o ​bios do
comércio não está voltado para a felicidade, para a integração do homem na cidade-estado; os outros estão.
Portanto não seria um ​bios pleno. E o ​bios precisa de felicidade, de integração do homem na cidade. E eu
me dei conta de que a mídia moderna é esse quarto ​bios​, o ​bios que Aristóteles recusou. Porque a mídia
está reboque do comércio e da tecnologia e também não está voltada pra felicidade de ninguém, mas busca
uma integração do sujeito na sociedade por via do capital financeiro; e é do capital essa integração. Ora,
então esse ​bios midiático,​ esse ​bios virtual​, é esse tipo de sociedade que nós estamos vivendo hoje. Nós
estamos cada vez mais nos movendo em um solo que não é um solo físico, é um solo da informação. A
informação é o solo desse ​bios​. Há de fato uma ‘dupla face’ do ​bios midiático​. Por um lado esse conceito
gira ao redor da indústria do século XXI: a tecnologia da informação, de onde o substrato real do fenômeno
pode ser designado como inteligência artificial. Este é o caminho tendencial da apropriação de instituições
sociais por organizações de indústria ou pelas burocracias de Estado. Por outro [lado], há os ‘objetos de
menor porte’, abrangidos por uma perspectiva de ‘sociedade civil’, que tem a sua atenção voltada para
famílias, comunidades, organizações voluntárias, sindicatos e movimentos de base espontâneos. Nesse
outro lado, é preciso considerar a força do vínculo comunitário. Com a rede (começou com a televisão e
continuou com a rede), criou-se uma realidade paralela, uma outra realidade que nós habitamos, nós
vivemos nela. Nós pensamos que pisamos apenas no solo físico, mas nós também pisamos num solo
imaterial que é o solo da informação, somos cada vez mais regidos e guiados por informação. E isso
constitui como uma outra cidade. Um outro país. Senão um outro continente. Que nós não tocamos, ele é
imaterial. É essa realidade paralela. Só que é essa realidade paralela que vai progressivamente tornando
difícil a distinção entre verdade e mentira.”
[Muniz Sodré em entrevista ao programa Trilha de Letras, na TV Brasil]

“O quarto ​bios é feito de virtualidade, é feito de informação. Nós queiramos ou não, quando andamos pela
rua, nós trilhamos, estamos existencialmente caminhando em informação. A informação é o solo de que é
feita a sociedade contemporânea. E falamos cada vez mais com máquinas e as máquinas falam cada vez
mais entre si. Seja em um sinal na rua, seja esses objetos nômades que a gente usa pra medir a pressão, pra
consultar a hora, pra falar com os outros… É essa esfera, digamos, abstrata, com relação à fala concreta,
com relação ao andar concreto, que eu chamei de ​bios midiático ou ​bios virtual​. Nós vivemos dentro dele.
E essa esfera é impulsionada pelo capital e pelo mercado. Os sistemas de informação são modos
imprescindíveis ao modo de acumulação do capitalismo nessa fase global. Então juntos informação e
mercado são as duas faces visíveis do capitalismo financeiro. E isso avança sobre os modos de vida de cada
um de nós. Dentro desse ​bios midiático são muitas as agências, são muitos os modos de falar, são muitos os
discursos de acordo com os interesses das empresas, também. Por exemplo: a Publicidade é um dos grandes
vetores disso no mercado porque toda Publicidade é interpelativa. Toda Publicidade tá sempre falando com
‘tu’, há sempre um ‘tu’ implícito ali, você tá sempre sendo interpelado. E o que ela lhe diz sempre: ela lhe
fala de desejos. ​Porque quando eu disse que esse ​bios atinge as condutas, a maneira com que cada um se
porta é que os desejos passaram a ser estimulados e controlados por esse sistema​. Nós vivemos numa
sociedade em que essa pressa e essa urgência são a pressa e a urgência de tentar satisfazer desejos, não são
mais necessidades. Necessidades nós temos de comer, de sobreviver… necessidades ligadas ao corpo,
naturais. Mas em cima dessas necessidades se monta uma panóplia que não têm mais a ver com a
satisfação, apenas, têm a ver com substituir esse desejo por outro. Um desejo nunca é realmente satisfeito.
A Publicidade é um mecanismo desse tipo: é um mecanismo de instigar desejos, mas, ao mesmo tempo,
controlar, administrar esses desejos. Então ela é central nesse ​bios,​ nessa nova forma de vida. ​Nós corremos
atrás dos desejos não mais para satisfazê-los, mas pra satisfazer o impulso de correr atrás dos desejos.
[Muniz Sodré em entrevista a TV Câmara do Rio]

● Quais dimensões do imaginário escapam ao ​bios midiático?​ Seria ele capaz de compreender a
subjetividade que é transcendência?
“Veja só, a imagem ​em circulação está no centro do processo de mudanças qualitativas em termos de
configuração social por efeito da articulação da tecnologia eletrônica com a vida humana, à qual subjaz a
lógica dos algoritmos e cuja superfície é a imagem, a ser entendida ​lato sensu como visualidade e como
imaginário sociocultural.​ O ​mundo-imagem é a superfície da globalização, mas, diferentemente do
passado, o objetivo não é olhar criticamente sob a superfície e, sim, ampliar, pela circulação, a imagem,
assim como se faz ampliar e circular o capital financeiro. ​Nessa ordem de coisas, a imagem vai perdendo a
sua força reflexiva e, cada vez mais, ajustando-se à lógica dos enunciados linguísticos. O algoritmo é o
extremo desse tipo de imagem. Ele​ ainda​ nada sabe de subjetividade.”

● Em ​As estratégias sensíveis (2006), encontramos uma reflexão acerca do crescente protagonismo da
estética como recurso de produção de sentido no contexto contemporâneo da comunicação
midiatizada. A estética pode ser pensada como um meio de produzir conhecimento no contexto de
hiperconexão ou a ideia aristotélica da imagem como mediadora do saber não tem mais validade nos
dias de hoje? Seria necessária, também, uma problematização ontológica para a imagem, assim como
proposta para a comunicação?
“Em Aristóteles, a imagem (​phantasma​) é uma mediação sem a qual a alma não pode conhecer. Na
mediação clássica, imagem é algo que se interpõe entre o indivíduo e o mundo para construir o
conhecimento; na midiatização, desaparece a ontologia substancialista dessa correlação, e o indivíduo (ou o
mundo) converte-se, ele próprio, em imagem gerida por um código tecnológico. Nesta nova chave
conversora do real, em realidade compatível com a lógica organizacional (no limite, o mercado como nova
teodicéia), a própria ideia de mediação se enfraquece. Quero crer que, nesse livro meu a que você se refere,
está dada uma problematização da imagem.”

● Qual a relevância de ​As estratégias sensíveis​ (2006) para os estudos da Comunicação?


As estratégias sensíveis é o primeiro e, até agora, único trabalho brasileiro, que analisa a alegria como
filosofia das massas no Brasil. Além disso, também é a primeira obra nacional sobre a importância
crescente dos afetos na cultura contemporânea, oferecendo novas possibilidades para a compreensão da
realidade virtual na sociedade contemporânea, das transformações da política e das formas emergentes de
socialidade. A novidade trazida por Sodré para a investigação da “eticidade” contemporânea, ou melhor, da
“ética social imediata” responde a estas exigências a partir da proposição descritiva, instrumental conhecida
da Antropologia. A descrição consistente da lógica operante da estrutura, entretanto, não objetiva a
descoberta de uma Verdade, como faria supor qualquer argumento metafísico, mas a busca pragmática de
um consenso sobre as práticas sociais contemporâneas implicadas na midiatização. Além disso, um estilo
confere ao autor a sua singularidade: sua escrita ácida, certeira, mas, sobretudo, ​redescritiva​. A noção de
cultura, para Sodré, constituiu uma reformulação original que possibilitou novos horizontes (“novos
mundos”) às pesquisas comunicacionais. O pesquisador faz um convite à compreensão da comunicação no
seu sentido mais amplo de interação, ​comunhão​. Deixa de lado as teorias que dão conta da comunicação
como lógica ​versus o sensível ou têm como base estudos quantitativos. ​Percebe o outro na sua
singularidade e a ferramenta para isso é o afeto, a sensibilidade e, porque não, o mítico: compreender a
história humana é também entender, ao mesmo tempo, passado e presente. Sodré critica, portanto, os
estudos comunicacionais que não permitem um olhar para dentro e para trás do homem e trabalha com a
necessidade de se haver uma epistemologia da compreensão que possa se debruçar sobre a comunicação.

● Curiosidade: o que Sodré pensa sobre as ​fake news?​


Pensa, primeiramente, ​fake news é uma má tradução para “notícia falsa”; que se pudéssemos traduzir o
termo para o português, o mais adequado, talvez, fosse ​boato​. Porque a partir do momento que traduzimos
o ​news,​ o próprio termo se contradiz já que news implica uma averiguação, uma checagem que coisas
falsas não admitem para existirem. Depois, Sodré afirma que ​fake news são as informações desejadas pelo
subconsciente de cada um, pela ideia, pelos seus medos, seus temores, seus desejos, seus ódios, suas
expectativas, pelos monstros intrínsecos que dormem em cada um de nós e desejam que a realidade seja
daquela maneira. O pacto de aliança que sustentava o jornalismo sério foi rompido por esses boatos da
rede, pelas ​fake news.​ Portanto, mais do que nunca, seria necessário reinventar o jornalismo e neutralizar o
boato.
[Muniz Sodré em entrevista ao TPA Online, em 24/10/2018]

● Curiosidade: o que Sodré pensa sobre a internet e a circulação.


“Eu acho que a internet é o lugar da circulação, é o foco gerador do movimento circulatório. É a internet
que dá aos objetos, aos artefatos a possibilidade deles serem nômades, deles serem vivos, portanto, apenas
enquanto circulatórios, enquanto circulam. Uma das coisas interessantes da circulação é que, ao mesmo
tempo em que ela opera, ela requalifica aquilo sobre o qual ela tá incidindo. Portanto na internet o livro se
transforma em texto, o que é outra coisa (o livro é o que há entre duas capas, há um limite; o texto não tem
pai nem mãe, pode se conectar com qualquer coisa, não é obra). Porém é válido lembrar que a circulação é
a falta de bordas, a falta de limites, ao mesmo tempo. [...] Nesse vácuo o som das palavras não se propaga.
O vácuo dá lugar a emoções brutas. Portanto a antiga democracia de opiniões está acabando e no lugar está
o que se poderia chamar de uma democracia de emoções, uma democracia emocional, uma democracia dos
afetos. Dos afetos pro bem e dos afetos pro mal. Nós não sabemos ainda como lidar politicamente com essa
avalanche de emoções porque nessas emoções se cristalizam os clichês, os estereótipos (e todo clichê, todo
lugar comum, é uma emoção condensada, e é por isso que o clichê é forte, é importante, se aceita ele). E
nesse vazio não aparece a argumentação, não aparece a palavra. E esse vazio não deixa que o som da
razoabilidade se propague.”
[Muniz Sodré em entrevista ao TPA Online, em 24/10/2018]

“A cultura é um novo instrumento de dominação. Porque a dominação pelo mercado se faz pela cultura” -
Muniz Sodré