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Esta suposta debilidade sistêmica do liberalismo frente às urgências decisionistas

que nosso tempo apresenta é o que confere ao populismo uma vantagem narrativa
que lhe faz ganhar espaço e progredir como um vetor de mudança arcaizante e
autoritária, capaz de mobilizar milhões de pessoas sob slogans neofascistas. E
assim, como aconteceu no período do entre guerras, os liberais estão em xeque e
na defensiva. Retrocedem diante do mal-estar de multidões radicalizadas em sua
rejeição à democracia liberal e os valores que a tornaram possível, como uma
esperança de mudança e progresso para a humanidade.
Os dados parecem confirmar isso. Roger Eatwell e Matthew Goodwin os analisam
em National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy (“nacional-populismo,
a revolta contra a democracia liberal”). Em suas páginas se radiografa o pano de
fundo moral de sociedades ocidentais que se sentem declinantes e destruídas.
Vítimas de um futuro cheio de pessimismo e incerteza que faz desejarem grandes
doses de ordem e segurança por todos seus poros geracionais e de classe. Aqui é
onde devemos pôr nosso foco se quisermos detectar as causas da crise do
pensamento liberal e do choque que paralisa seus defensores. Falamos de motivos
que batem sobre o inconsciente coletivo da democracia e que ativam sua psicologia
reptiliana ao propiciar um vetor populista que muda, combinado com o nacionalismo,
para uma ressignificação pós-moderna do fascismo.

Eu a aguentei durante um tempo, até que não pude mais e lhe disse que seu marido
não governava com os votos do povo, e sim com a imposição de uma vitória [militar].
A gorda não gostou nada". A gorda era Carmen Polo, esposa do ditador espanhol
Francisco Franco. A autora da frase é Eva Perón, a totêmica Evita, esposa do
presidente argentino Juan Domingo Perón (1946-55 e 1973-74). O caso, ocorrido
durante uma visita da primeira-dama argentina à Espanha, em 1947, aparece no
livro Del Fascismo al Populismo en la Historia, o ensaio recém-publicado do
historiador argentino Federico Finchelstein, e ilustra uma de sua tese centrais: que o
populismo está na raiz do fascismo, mas o primeiro é intrinsecamente democrático.

"Não há fascismo sem ditadura, nem populismo sem eleições. E isto não é uma
definição teórica, tem a ver com uma experiência de democratização histórica que
surge sobretudo logo depois da Segunda Guerra Mundial e vai chegando a outros
países. Não há ditadores populistas. Quando deixa de haver eleições reais,
deveríamos falar de ditadura, não de populismo", afirma ao EL PAÍS o historiador
Finchelstein (Buenos Aires, 1975), professor da New School for Social Research e
do Eugene Lang College, de Nova York, e autor de várias obras sobre fascismo,
populismo e o Holocausto.

Trump e Bolsonaro, uma tendência que preocupa


Ao longo do livro o nome de Donald Trump aparece com frequência como exemplo
de uma tendência que preocupa Finchelstein: a emergência de "um novo populismo
que combina o neoliberalismo com ranço fascista". "Não é uma volta do parafuso
nem um círculo completo, mas, embora a história do populismo, à esquerda ou à
direita, sempre tenha a ideia de reformular a democracia em termos autoritários sem
voltar à tradição fascista, estes novos populistas fazem uma tentativa explícita de
voltar a elementos centrais da tradição fascista: racismo, violência política e, em
casos como o de Bolsonaro e Trump, elogios teóricos da ditadura". O presidente
brasileiro é, acrescenta, "um dos populistas mais próximos ao fascismo que já vi".
O racismo foi justamente uma das diferenças entre os populismos de esquerda e os
de direita. Os primeiros "têm uma visão de povo que é autoritária, mas que permite
ser aceito se a pessoa estiver de acordo. Nos de direita, o povo também é
construído por coisas que a pessoa não decide, como a cor da pele".
Finchelstein recorre ao seu país para exemplificar como o populismo é mais um
continente que um conteúdo, uma espécie de gaveta onde cabem diferentes
categorias, como os torcedores de um time que não viram a casaca se o treinador e
o estilo de jogo mudarem. Ou, como disse recentemente o líder sindical Hugo
Moyano: "Os peronistas são assim, um dia dizemos uma coisa, e depois outra".
"O caso da Argentina é quase esquizofrênico", sentencia o especialista. "O
peronismo foi o veículo para diferentes expressões de democracia autoritária: de
ultraesquerda; nacionalista e popular, como o kirchnerismo; liberal, como Menem...".
Sua força, décadas depois, é indiscutível. Para as eleições de outubro, o presidente
Mauricio Macri – cujo estilo Finchelstein define como "populismo light" – escolheu
um peronista conservador como número dois. Seu principal rival é uma chapa
peronista com Cristina Fernández de Kirchner como candidata a vice. A terceira
candidatura também é peronista. "Praticamente não há nenhum programa. Pedem
que confiemos em um personagem ou outro. Nas propostas das três candidaturas
não aparece um tema tão central como a despenalização do aborto", lamenta.

Há o medo de certas palavras. Esse medo vem na maneira com que tentamos, até o
limite, não utilizá-las. Porque seu uso acende alertas vermelhos, nos quebra a
letargia de sentir que, por mais que nossa situação atual seja complicada, a vida
corre. E corre com um correr de quem acaba por acertar seu passo, abaixar os
gritos. Bem, não há palavra que nos leve mais a temer seu uso do que “fascismo”.
No entanto, é ela que se ouve de forma cada vez mais insistente quando se é
questão da situação brasileira atual. Coloquemos então, de maneira direita e
simples, uma questão que vários de nós já colocou a si mesmo: Estaria o Brasil
caminhando para o fascismo?
Esta questão não se ouve apenas no Brasil. Ela se ouve na Itália, na Hungria, na
Polônia, nas Filipinas. Esta confluência de semblantes perplexos a fazer o tour do
mundo não é mero acaso. Ela indica uma fenda global que parece paulatinamente
crescer, fenda por onde passaria a emergência de novas formas de governo com
traços claramente fascistas.
Mas não seriam tais governos simplesmente “populistas”? Não é assim que se diz
hoje, “governos populistas de direita”? Sim, é assim que se diz. Mas e se este uso
extensivo do termo “populismo” fosse, na verdade, uma forma de não chamar de
gato um gato? Pois talvez os chamamos de “populistas” para não dizer o que eles
realmente são: governos nos quais uma certa concepção de ‘estado total’, uma
forma explícita de implosão de qualquer possibilidade de solidariedade social com
grupos historicamente vulneráveis, uma noção paranoica de nação e o culto da
violência são a verdadeira tônica. Mas seria isto exatamente “fascismo”? E por que
não falar em “populismo”, neste caso?
iante de um desejo de recusa forte dos limites de nossa vida institucional, criou-se
essa palavra mágica que faz tudo o que coloca em questão os sistemas de
paralisias e acordos da democracia liberal parlamentar parecer “irracional”,
“emotivo”, “fruto de frustrações”, “convite a regressões atávicas”, ou seja, “populista”.
Ainda de quebra, o termo permitia juntar os extremos, falar de um populismo de
direita e de um populismo de esquerda, anulando com isto os dois polos, fazendo-os
operar em uma balança de equivalências. Como se, no fundo, existisse apenas a
“democracia” que conhecemos e os “populismos”.
Mas era claro que as diferenças entre os polos eram profundas. À direita, via-se uma
crítica à pauperização social que colocava a conta da catástrofe nas costas dos mais
desfavorecidos, a saber, os imigrantes espoliados por relações de trabalhos sub-
humanas, os refugiados vítimas das consequências das intervenções imperialistas
em regiões de conflito perene, como o Oriente Médio. Quando não havia grandes
levas de imigrantes, via-se a mobilização das clivagens originárias de raça e de
gênero, em uma reedição de estratégias cuja ressonância fascista era evidente. À
direita, via-se ainda todo o imaginário a respeito da fronteira, da imunidade do corpo
social, da invasão, do contágio retornar diretamente dos discursos mais inflamados
de Goebbels.

Quando o jurista nazista Carl Schmitt procurou explicar o que era o Estado total
fascista, ele tomou o cuidado de estabelecer uma distinção. Segundo ele, nós
conheceríamos uma forma de Estado total no interior das democracias
parlamentares. Trata-se desse Estado que ouve todos os lados da sociedade, que
está presente em todos os conflitos sociais e que produz estruturas de mediação e
de legislação em todas as esferas da vida social. Ele procura dar conta dos conflitos
trabalhistas, dos problemas de desigualdade, da violência específica contra grupos
vulneráveis, entre outros. O Estado está assim, em todos os lugares. Ele não pode
pairar acima da sociedade e decidir, pois é apenas a emulação dos conflitos sociais.
Contra isto, dirá Schmitt, precisamos de outro Estado total. Mas sua função será
diferente: ele deverá usar toda sua força para despolitizar a sociedade, impedir que
as escolas sejam focos de sedição e formação, impedir que os trabalhadores
pressionem seus patrões através de obrigações legais, usar a força policial para
impedir greves, paralisias, ocupações. Assim, pode-se garantir a única liberdade
real, a saber, a “liberdade de empreender” (que é sempre uma liberdade para
alguns, ou melhor, para os de sempre). Este era o Estado total fascista.

Por outro lado, nesse Estado, um dos poucos princípios liberais que qualquer
democracia real deveria preservar, a saber, a possibilidade de que indivíduos
sempre terão, independente de quem são ou do que fizeram, de se defenderem do
Estado quando julgados, não existia. Pois essa possibilidade exige inviolabilidade do
sistema de defesa (em bom português, meu advogado de defesa não pode ser
grampeado pelo juiz), exige desinteresse da parte dos julgadores (mais uma vez, em
bom português, se sou candidato a presidente, o juiz que julga meu caso não pode
me prender porque tem um projeto pessoal de poder e quer ser ele o próprio
presidente).
Por fim, e esta era uma compreensão precisa de Franz Neumann, o Estado nazista
não governa. Ele é uma associação instável entre grupos que estão em conflito
contínuo. Mas esse conflito é uma forma de perpetuar o “movimento”, já que ele
permite ao governo entrar em conflito contínuo com o Estado, dizer sempre que
nosso grande projeto não está a ser implementado porque forças obscuras estão
agindo dentro do Estado para impedir nossa grande redenção. O estado nazista é
uma crise permanente elevada à condição de governo. A única coisa que tenho a
dizer é: junte os pontos e diga se a cena não lhe parece demasiado familiar.

FASCISMO

Em 1922, os fascistas realizaram a Marcha sobre Roma. Uma manifestação pedindo


que o Rei Vitor Emanuel III transferisse o poder para as mãos do Partido Nacional
Fascista. Pressionado, o rei convidou Mussolini para fazer parte do governo.
Inserido na esfera do poder político central, os fascistas puderam iniciar seu projeto
autoritário e centralizador. Nas eleições de 1924, depois de uma ampla reforma
eleitoral que beneficiava os interesses do PNF, os fascistas conquistaram ⅔ do
Congresso, ainda que sob alegações do partido socialista de que as eleições haviam
sido fraudadas.
Com os partidários fascistas no poder, começava a ditadura fascista, em que o
“duce” Mussolini era o líder da nova política italiana. O poder legislativo foi
enfraquecido. Os meios de comunicação foram fechados. Todos os partidos à
exceção do PNF foram colocados na ilegalidade e a pena de morte passou a ser
legalizada.
Além disso, o Estado passou a controlar a economia e tanto as organizações
trabalhistas, quanto qualquer forma de oposição ao governo central foram
enfraquecidas e desorganizadas.
Com a crise de 1929, a prosperidade econômica vivida no início do regime fascista
começou a ser ameaçada. Tentando contornar esse cenário, o governo Mussolini
decidiu entrar para a corrida imperialista, buscando restaurar os domínios do antigo
Império Romano. Após invasões das tropas italianas a regiões da África, começaram
as tensões diplomáticas que conduziram a Europa para a Segunda Guerra Mundial,
momento em que Mussolini se aproximou do regime nazista alemão.

NAZISMO

A ditadura de Hitler teve como principais características a militarização da


sociedade alemã, a exaltação do líder e o controle por meio da intensiva
máquina de propaganda, que utilizava os meios de comunicação para disseminar
as ideias nazistas.
As características principais do nazismo são apresentadas na obra Mein Kampf,
escrita por Hitler durante seu período na prisão. Uma das suas mais conhecidas
medidas foi o antissemitismo, marcado pela visão racista e eugenista da
superioridade do homem branco germânico, a chamada raça ariana. Essa visão
resultou na morte de mais de 6 milhões de pessoas em campos de
concentração, a grande maioria formada por judeus.
Outra característica do regime nazista foi a visão expansionista. Esta, justificada
por uma crença de que o mundo deveria ser dominado pela raça ariana. Com o
início da Segunda Guerra Mundial, Hitler tentou invadir diversos territórios.
Em 1941, Hitler tenta invadir a União Soviética. Com o inverno rigoroso, as tropas
alemãs foram cercadas e derrotadas. Nesse momento, o governo nazista atinge seu
declínio e, em 1945, Hitler é derrotado e seu regime chega ao fim.

FASCISMO DE NOVO

Quando questionado sobre o assunto, o historiador Emilio Gentile, considerado na


Itália o maior especialista vivo sobre o fascismo, dá uma resposta contundente:
"Absolutamente, não".
No entanto, nos últimos tempos, os presidentes dos Estados Unidos, Rússia, Brasil,
Hungria e muitos outros líderes políticos das Américas e da Europa foram rotulados
como fascistas por suas políticas de imigração ou por seu nacionalismo. Mas é
correto definí-los assim?

Gentile conhece profundamente o fascismo, porque dedicou toda sua vida


acadêmica a analisá-lo.
Este movimento político nasceu oficialmente na noite de 23 de março de 1919,
quando Benito Mussolini (1883-1945) fundou em Milão o grupo Fasci Italiani di
combattimento.

O grupo reuniu ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial, um conflito que deixou


a Itália, como quase toda a Europa, mergulhada em uma profunda crise política,
econômica e social.
Depois de alguns anos, Mussolini chegou ao poder graças ao apoio do rei Victor
Emmanuel 3º, de grandes empresários e do Vaticano, bem como por meio do uso da
violência.
Em 1925, ele assumiu o controle de todos os poderes do Estado e transformou um
regime parlamentar e democrático em um Estado totalitário regido pela total falta de
liberdades individuais, políticas, organizacionais e de pensamento.
Mussolini e seu movimento também se tornaram uma referência para regimes
autoritários em todo o mundo, particularmente para Adolf Hitler (1889-1945). Ele
apoiou o regime nazista alemão durante a Segunda Guerra Mundial e, como Hitler,
foi derrotado em 1945.
Mas isso não significou a derrota do fascismo como ideologia política, que
permanece viva em muitos movimentos da extrema direita. Mas o que é exatamente
o fascismo?
O historiador Stanley G. Payne afirmou em um de seus vários estudos sobre o
assunto que "continua sendo o mais indefinido dos termos políticos mais
importantes". Cem anos após sua aparição na história, conversamos com Gentile
sobre o tema.

BBC News Mundo - Sobre o que falamos quando falamos de "fascismo"?


Emilio Gentile - Devemos distinguir entre o fascismo histórico, que é o regime que,
a partir da Itália, marcou a história do século 20 e se estendeu à Alemanha e a
outros países europeus no período entre as duas guerras mundiais, e o que é
freqüentemente chamado de fascismo depois de 1945, que se refere a todos
aqueles que usam da violência em movimentos de extrema direita.
BBC News Mundo - Quais são as diferenças entre as duas definições?
Gentile - Há uma diferença substancial, porque vários movimentos de extrema
direita já existiram antes do fascismo e não geraram um regime totalitário.
BBC News Mundo - O que se entende por "extrema direita"?
Gentile - Qualquer movimento que se oponha aos princípios da Revolução Francesa
de igualdade e liberdade, que afirma a primazia da nação, mas sem
necessariamente ter uma organização totalitária ou uma ambição de expansão
imperialista. Sem o regime totalitário, sem a submissão da sociedade em um
sistema hierárquico militarizado, não é possível falar de fascismo.
BBC News Mundo - Então, quando se pode falar de "fascismo"?
Gentile - Podemos falar de fascismo ao nos referir ao fascismo histórico, quando um
movimento de massas organizado militarmente tomou o poder e transformou o
regime parlamentar em um Estado totalitário, ou seja, em um Estado com um partido
único que procurou transformar, regenerar ou até criar uma nova raça em nome de
seus objetivos imperialistas e de conquista.

BBC News Mundo - Isto é, somente quando nos referimos a esta experiência
específica?
Gentile - Sim, para o período histórico entre as duas guerras mundiais, quando
ainda havia a vontade de conquistar e se expandir imperialmente por meio da
guerra. Se estas características ainda estivessem presentes hoje, poderíamos falar
em fascismo. Mas me parece completamente impossível. Mesmo aqueles países
que aspiram a ter um papel hegemônico procuram fazer isso por meio da economia,
e não da conquista armada.
BBC News Mundo - O senhor acha que existe o perigo de um retorno do
fascismo?
Gentile - Não, absolutamente, porque na história nada volta, nem de um jeito
diferente. O que existe hoje é o perigo de uma democracia, em nome da soberania
popular, assumir características racistas, antissemitas e xenófobas. Mas em nome
da vontade popular e da democracia soberana, que é absolutamente o oposto do
fascismo, porque o fascismo nega totalmente a soberania popular. Esses
movimentos, no entanto, se definem como uma expressão da vontade popular, mas
negam que este direito possa ser estendido a todos os cidadãos, sem
discriminações entre os que pertencem à comunidade nacional e aqueles que não.
BBC News Mundo - Donald Trump, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán
e outros líderes políticos foram chamados de fascistas por suas políticas de
imigração ou seu nacionalismo. É correto defini-los assim?
Gentile - Se afirmamos isso, poderíamos dizer então que todos são homens e
brancos. Mas, ao mesmo tempo, não entenderíamos a novidade destes fenômenos.
Não se trata de aplicar o termo "fascista" para todos os contextos, mas de entender
quais são as causas que geraram e fizeram proliferar estes fenômenos. Em todos
esses países, esses movimentos extremistas se afirmaram com base no voto
popular.
BBC News Mundo - O senhor acha então que a palavra "fascismo" está sendo
abusada para definir estes governos?
Gentile - Na minha opinião, é um grande erro, porque não nos permite compreender
a verdadeira novidade destes fenômenos e o perigo que eles representam. E o
perigo é que a democracia possa se tornar uma forma de repressão com o
consentimento popular. A democracia em si não é necessariamente boa. Só é boa
se realiza seu ideal democrático, isto é, a criação de uma sociedade onde não há
discriminação e na qual todos podem desenvolver sua personalidade livremente,
algo que o fascismo nega completamente. Então, o problema hoje não é o retorno
do fascismo, mas quais são os perigos que a democracia pode gerar por si só,
quando a maioria da população - ao menos, a maioria dos que votam - elege
democraticamente líderes nacionalistas, racistas ou antissemitas.

Uma pequena burguesia não integrada a nenhuma classe ou grupo social,


assustada pela percepção de uma invasão estrangeira; partidos que invocam
atalhos extraparlamentares e dão as costas às Câmaras num clima de
decomposição; e uma crise econômica incrustrada, que solapou a base da
população. Esse clima é sentido há anos no Ocidente e chega até o Brasil, onde Jair
Bolsonaro, um capitão reformado do Exército, ressuscita o autoritarismo e defende a
tortura e a ditadura militar. Também alcança os Estados Unidos da era Trump:
personagens como Steve Bannon declaram seu amor a intelectuais que deram
cobertura ao fascismo, como Julius Evola. Por isso, a secretária de Estado do
Governo de Bill Clinton, Madeleine Albright, portadora de extensa quilometragem
diplomática, alerta com seu Fascismo: Um Alerta (Crítica) que o monstro “não é uma
etapa excepcional na humanidade; faz parte dela” e se apresenta atualmente com
rostos diferentes. Putin, Erdogan, Kim Jong-un...

Gentile, extraordinário historiador e um tanto radical nesse campo, acredita que não
há nada de novo a contribuir com o estudo do fascismo e que a banalização do
termo, transformado em objeto de consumo, já é insuperável. O fascismo pode
voltar? “Sim, claro. Como também podem voltar o bonapartismo, o jacobinismo…
Estamos usando um termo de maneira inadequada para explicar fenômenos novos.
E o erro responde principalmente à incapacidade de enfrentar, com olhar crítico
atual, assuntos contemporâneos”, afirma. “A raiz se encontra na falta de uma
etimologia precisa, como têm o comunismo e o liberalismo: fascismo só significa
agrupar. E hoje se transformou num insulto para prepotentes, antissemitas,
autoritários... Mas nenhum populismo atual que invoque o princípio de soberania
popular pode ser fascista. O fascismo negava tudo o que derivava da Revolução
Francesa. E se o que estamos falando é de nos identificarmos com a figura de um
homem forte, de alguém que se dirija diretamente ao povo, então também
poderíamos dizer que [o político italiano] Matteo Renzi é um fascista, não acha?”

A origem do termo encontra-se no símbolo romano do fascio (feixe de varas), por


sua vez herdado dos etruscos. Os fasci simbolizavam a unidade da soberania, da
ordem e do poder supremo capaz de conceder justiça. O mesmo símbolo foi depois
usado na Revolução Francesa, na estátua de Abraham Lincoln em Washington e na
marca da própria Guarda Civil Espanhola. Um dos primeiros movimentos sociais
modernos que o empregaram foram os Fasci Siciliani entre 1891 e 1894: um grupo
de inspiração libertária, democrática e socialista de agricultores que defendia seus
direitos trabalhistas. Mas a apropriação definitiva chegou em 1919 com os Fasci
Italiani Combattimento, fundado por Benito Mussolini em 23 de março de 1919,
verdadeira gênese da mudança. Em parte por essa dispersão, por sua difusão pela
esquerda e a direita do espectro ideológico, muitos encontram legitimidade para usá-
lo nos dias de hoje.
Um grupo de escritores, como Sandro Veronesi e Roberto Saviano, transformou a
militância contra Matteo Salvini em parte de seu corpus literário e ensaístico na
Itália. No extremo oposto à restrição do termo de Gentile, encontra-se também
Michaela Murgia, autora de Instrucciones para Convertirse em Fascista (instruções
para se transformar em fascista), um dos sucessos do ano na Espanha. É uma sorte
de falso manual construído com ironia e provocação para denunciar a infiltração total
do fascismo na sociedade. Sem nuances. Banalização? “Não acho. É uma maneira
de recordá-lo. Não é um fenómeno histórico, mas diacrônico. Apresenta-se com
formas diferentes, mas métodos iguais. Chame-o do nome que quiser, mas ele tem o
mesmo impacto. Ninguém pensa que os Camisas Negras [milícia paramilitar italiana]
voltarão, mas me preocupa que Salvini, por exemplo, dê entrevistas vestido de
militar sem estar numa base militar.”
Murgia considera que há três elementos fundamentais que permitem pensar num
terreno propício, político e moral, similar ao que levou àquele período. "Em primeiro
lugar, a relação que o Ministério do Interior italiano e seus potentes apoiadores
mantêm com a dissidência (lembremos do dramaturgo italiano Gabriele D’Annunzio,
considerado por muitos como um dos precursores do fascismo, gritando contra o
Parlamento). “Quem manifestar uma opinião contrária é atacado nas redes sociais
do ministro e recebe uma avalanche de ameaças e insultos”, diz ela. “Os intelectuais
estão na mira, mas também os cozinheiros do Master Chef e os DJs que o criticam.
Se você expressa sua opinião contra ele, passa a ser seu adversário. Em segundo
lugar, o questionamento sobre os outros poderes do Estado: ele se recusa a ser
julgado e diz que os juízes estão politizados. Mas quando o Poder Executivo
deslegitima o Judiciário, estamos ante um ato contra a Constituição. E, terceiro, o
machismo de Estado. Salvini tende a recuperar modelos sociais superados: Deus,
pátria e família. Ataca as mulheres publicamente. Contra elas dirige a violência mais
forte.”
Murgia é autora também de um polêmico fascistômetro publicado no semanário
L’Espresso. Um experimento que poderia remontar à Escala F, um teste de
personalidade desenvolvido por Theodor Adorno para detectar traços autoritários (o
F é de fascismo) e que funciona como uma espécie de j’accuse psicológico ao
fascista que luta para sair de dentro de cada um de nós: todos sob suspeita. Uma
ideia também transmitida pelo livro Como Funciona o Fascismo (L&PM Editores), de
Jason Stanley. A ideia de que novas formas de autoritarismo espreitam nas sombras
de nossas estruturas políticas, no entanto, não se sustentaria se não estivesse
arraigada nessa fronteira configurada pela perda de sentido da palavra e por um
cuidadoso processo de aceitação da sua acepção.
“Estamos usando um termo de maneira inadequada para explicar fenômenos
novos”
Na Itália, uma ladainha tenta periodicamente convencer sobre as bondades do
ditador. Estradas, trens que chegavam na hora, tratamento das zonas pantanosas,
erradicação de doenças. “Mussolini também fez coisas boas”, escandalizou o ex-
presidente do Parlamento Europeu Antonio Tajani em março passado. Com esse
título irônico e editado pela Bollati Boringhieri, Francesco Filippi se propôs este ano a
desmontar todas as fake news construídas ao redor da obra do tirano nascido em
Predappio, propagadas principalmente na Internet com impacto sobretudo entre os
mais jovens. “O fascismo conseguiu uma presença crossmedia e saltou dos livros de
história à web. Este livro [na lista dos 10 mais vendidos há 16 semanas] pretende
ser uma espécie de kit de primeiros socorros para curar algumas de suas mentiras,
na maioria das vezes não contestadas. Muitos italianos, por exemplo, pensam que
Mussolini criou o sistema previdenciário, quando este foi instalado em 1895, ano em
que ele tinha 12 anos.”
A revisão sem preconceito daqueles anos, como propõe Scurati, gera tensões. No
último Salão do Livro de Turim, vários títulos disputavam a atenção do público.
Altaforte, uma editora próxima do partido declaradamente fascista CasaPound,
aterrissou com uma obra biográfica sobre Matteo Salvini e foi expulsa do evento.
Não fosse assim, a polêmica teria sido ainda maior: convidados como a sobrevivente
de Auschwitz Halina Birenbaum ameaçaram abandonar o evento. Uma decisão
razoável. Ideal também para atacar inocentes e jogar na cara de seu diretor, Nicola
Lagioia, a frase atribuída a Winston Churchill: “Os fascistas do futuro chamarão as si
mesmos antifascistas.” “Foi algo interessante. O Salão do Livro não praticou a
censura excluindo a Altaforte. Sempre houve editoras de extrema esquerda ou
direita. O fato não era a livre circulação de ideias; o problema era que [a editora] é
muito próxima de um movimento político que não entendemos realmente até que
ponto é legal. Depois começaram a dizer que o antifascismo era o câncer da cultura
italiana”, diz ele.
A digestão literária do fascismo, consideram Lagioia e muitos outros intelectuais, não
foi concluída. “Houve uma literatura antifascista importante nos anos cinquenta, mas
seus autores foram marginalizados. Após a queda do fascismo, de repente ninguém
na Itália tinha sido fascista. Por esse motivo, existe agora uma geração que
questiona essa história. Na Espanha, Javier Cercas, Javier Marías e Fernando
Aramburu têm se debruçado sobre o passado. Existe uma fornada de escritores
após o franquismo que o reflete. Tolstói falou em Guerra e Paz sobre as campanhas
napoleônicas muitos anos depois de ocorrerem. Agora é a vez das novas gerações
se voltarem a esse passado. Fora essa questão... sim, pode ser que haja também
uma moda editorial.” Enquanto isso, e até a poeira baixar, você poderia continuar
sendo um fascista.

m 1922, os fascistas realizaram a Marcha sobre Roma. Uma manifestação pedindo


que o Rei Vitor Emanuel III transferisse o poder para as mãos do Partido Nacional
Fascista. Pressionado, o rei convidou Mussolini para fazer parte do governo.
Inserido na esfera do poder político central, os fascistas puderam iniciar seu projeto
autoritário e centralizador. Nas eleições de 1924, depois de uma ampla reforma
eleitoral que beneficiava os interesses do PNF, os fascistas conquistaram ⅔ do
Congresso, ainda que sob alegações do partido socialista de que as eleições haviam
sido fraudadas.
Com os partidários fascistas no poder, começava a ditadura fascista, em que o
“duce” Mussolini era o líder da nova política italiana. O poder legislativo foi
enfraquecido. Os meios de comunicação foram fechados. Todos os partidos à
exceção do PNF foram colocados na ilegalidade e a pena de morte passou a ser
legalizada.
Além disso, o Estado passou a controlar a economia e tanto as organizações
trabalhistas, quanto qualquer forma de oposição ao governo central foram
enfraquecidas e desorganizadas.
Com a crise de 1929, a prosperidade econômica vivida no início do regime fascista
começou a ser ameaçada. Tentando contornar esse cenário, o governo Mussolini
decidiu entrar para a corrida imperialista, buscando restaurar os domínios do antigo
Império Romano. Após invasões das tropas italianas a regiões da África, começaram
as tensões diplomáticas que conduziram a Europa para a Segunda Guerra Mundial,
momento em que Mussolini se aproximou do regime nazista alemão.

A ditadura de Hitler teve como principais características a militarização da


sociedade alemã, a exaltação do líder e o controle por meio da intensiva
máquina de propaganda, que utilizava os meios de comunicação para disseminar
as ideias nazistas.
As características principais do nazismo são apresentadas na obra Mein Kampf,
escrita por Hitler durante seu período na prisão. Uma das suas mais conhecidas
medidas foi o antissemitismo, marcado pela visão racista e eugenista da
superioridade do homem branco germânico, a chamada raça ariana. Essa visão
resultou na morte de mais de 6 milhões de pessoas em campos de
concentração, a grande maioria formada por judeus.
Outra característica do regime nazista foi a visão expansionista. Esta, justificada
por uma crença de que o mundo deveria ser dominado pela raça ariana. Com o
início da Segunda Guerra Mundial, Hitler tentou invadir diversos territórios.
Em 1941, Hitler tenta invadir a União Soviética. Com o inverno rigoroso, as tropas
alemãs foram cercadas e derrotadas. Nesse momento, o governo nazista atinge seu
declínio e, em 1945, Hitler é derrotado e seu regime chega ao fim.

inda que tenha entrado em crise após a Segunda Guerra Mundial, o fascismo
continua a ganhar força em contextos de crise, seja ela econômica, política ou
social. Alguns aspectos da ideologia fascista aparecem até hoje em grupos e
partidos políticos, como os na Europa que defendem plataformas políticas baseadas
na aversão a estrangeiros.

Em um fim de semana recente, ao sair de casa para correr no Parque Ibirapuera, em


São Paulo, minha mulher questionou a escolha da minha camisa – da seleção
brasileira. "Vão achar que você é bolsominion", alertou e me lembrou das
manifestações pró-governo previstas para o dia seguinte na Avenida Paulista.
De fato, verifica-se hoje uma tendência crescente de apropriação de símbolos
nacionais por movimentos de extrema direita tanto no Brasil quanto em outros
países. Isso faz parte de uma estratégia sofisticada, pois permite uma suposta
divisão da população entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro.

Na Finlândia, por exemplo, usar uma camisa estampada com o símbolo nacional – o
leão e a cruz – era comum no passado, mas seu uso hoje está fortemente associado
a grupos xenófobos. Incomodada com o controle da extrema direita sobre o símbolo,
uma agência finlandesa de design chegou a pedir, poucos anos atrás, sugestões
para criar símbolos alternativos, que cidadãos moderados poderiam usar sem ser
confundidos com radicais da direita. "Grupos extremistas sequestraram símbolos
nacionais, fizeram do nacionalismo uma palavra suja e basicamente roubaram o
direito de todos nós nos orgulharmos de nosso país", explicou Karri Knuuttila, um
dos principais membros da iniciativa, à época.
Nos Estados Unidos, o presidente Trump tem sistematicamente tentado se apropriar
da bandeira nacional, alegando (incorretamente) que seus adversários evitavam
usá-la em eventos – e que, portanto, não seriam patriotas.
Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD)
costuma assegurar que todos os seus manifestantes portem a bandeira alemã e
acusa os demais partidos de sentirem vergonha dos símbolos nacionais. Um vídeo
em que a premiê Angela Merkel tira uma pequena bandeira alemã do palco durante
a celebração da sua vitória nas urnas em 2013 viralizou entre grupos da extrema
direita e é até hoje mencionado por líderes do partido extremista como prova de que
Merkel seria "anti-alemã". O movimento alemão xenófobo e nacionalista chamado
Pegida, aliado ao AfD, adota o slogan "patriotismo não é crime", alegando que as
elites cosmopolitas envergonham-se de qualquer símbolo nacional.
Em resposta, porém, moderados em muitos países caíram na armadilha dos radicais
e cederam o uso dos símbolos nacionais aos extremistas – e, com isso, abriram mão
do debate sobre patriotismo. Durante a última Copa do Mundo de futebol masculino,
a ala jovem do Partido Verde alemão chegou a pedir que os torcedores não
usassem a bandeira alemã durante os jogos – em grande parte uma resposta às
marchas da AfD e do movimento Pegida. Quando milhares de alemães encheram as
ruas de Berlim em 2018 para protestar contra a ascensão da extrema direita, a
organizadora da manifestação, Theresa Hartmann, sugeriu aos participantes usarem
bandeiras com o arco-íris e cartazes com os dizeres "Refugiados são bem-vindos",
mas pediu que os manifestantes não usassem a bandeira alemã, pois ela teria "uma
conotação de direita". Segundo ela, não se tratava de uma manifestação para
demonstrar orgulho nacional. Sem querer, ela deu munição à narrativa dos radicais
de que os progressistas não gostam de usar a bandeira porque não sentem orgulho
do país.
O que Hartmann não entendeu é que não há contradição entre, de um lado,
manifestar-se a favor da tolerância e dar as boas vindas a refugiados (pilares da
Constituição alemã) e, de outro, sentir orgulho nacional. São episódios como esse
que facilitam o trabalho da extrema direita, a qual busca estabelecer uma falsa
dicotomia entre cidadãos "verdadeiros" e aqueles menos comprometidos com a
nação. Na Finlândia, em vez de investir em símbolos alternativos com pouca chance
de ampla aceitação, moderados deveriam buscar resgatar dos grupos xenófobos os
símbolos nacionais.
Não se trata, é claro, de competir com os extremistas sobre quem mais abraça os
símbolos da pátria, como nos EUA, onde a decisão de não usar um pin com a
bandeira americana no paletó levou críticos do então candidato a presidente Barack
Obama a questionarem sua lealdade à nação. Porém, em um momento em que
movimentos nacionalistas surgem com força ao redor do mundo -- em parte devido a
temores sobre o impacto da globalização –, os segmentos moderados da sociedade
não deveriam se afastar dos símbolos da pátria nem se retirar do debate sobre o
papel da identidade nacional e do patriotismo hoje. Tachar qualquer tipo de
patriotismo de ufanismo retrógrado e contrastá-lo com o pensamento moderno e
cosmopolita é contraproducente, pois não reconhece que a onda nacionalista veio
para ficar. Com as turbulências resultantes do confronto comercial entre Washington
e Pequim, o avanço tecnológico que tornará milhões de empregos supérfluos, as
catástrofes ambientais e os fluxos migratórios de dimensões sem precedentes,
apelar ao nacionalismo será uma tentação irresistível para muitos líderes políticos
oportunistas.
Em vez de negar essa realidade e permitir que nacionalistas radicais possam definir
o que é patriotismo ou identidade nacional, é preciso envolver correntes moderadas
nos debates sobre o tema e ajudar a mostrar que um 'patriotismo razoável', para
usar um termo do filósofo William Galston, pode ser positivo e é perfeitamente
compatível com conceitos cosmopolitas, como estar a favor da cooperação
internacional para lidar com desafios globais, apoiar a integração regional, combater
a xenofobia, ser a favor da diversidade e reconhecer e respeitar a pluralidade de
opiniões no processo político.
Ainda que um pouco apreensivo, acabei portando minha camiseta da seleção
brasileira naquele sábado no Parque Ibirapuera.

"A democracia não está em risco por causa de um fascismo que não existe. Hoje, o
perigo é a democracia que se suicida", disse à BBC News Brasil. "O que há de novo,
em todo o mundo, é um novo poder de direita nacionalista e xenófobo. É o que
Orbán (Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, um dos expoentes desse
movimento na Europa) classificou de política nacionalista democrática iliberal."
De acordo com Gentile, há muitos movimentos políticos - na Europa e em outros
lugares do mundo - que se referem à experiência fascista e utilizam seus símbolos,
mas de uma maneira muito "idealizada e imaginária".
O fascismo foi criado por Benito Mussolini - um ex-socialista - há quase cem anos.
Originário da palavra latina "fascio littorio", um conjunto de galhos amarrados a um
machado, símbolo do poder de punição dos magistrados na Roma Antiga, o
experimento nasceu oficialmente em 23 de março de 1919, quando Mussolini fundou
em Milão o grupo "Fasci di Combattimento", que reunia ex-combatentes da Primeira
Guerra Mundial (1914-18).

Regime totalitário baseado num partido único, a característica fundamental do


fascismo foi a militarização da política, que era tratada como uma experiência de
guerra: além do projeto de expansão imperial, com a supremacia fascista imposta no
Estado e na sociedade, o regime tratava os adversários como inimigos que deveriam
ser eliminados. No mês passado, a Itália lembrou os 80 anos da chamada lei racial,
aprovada contra os judeus e que estava em consonância ao regime nazista de Hitler.
"O fascismo sempre negou a soberania popular, enquanto o nacionalismo populista
de hoje reivindica o sucesso eleitoral. Esse políticos de agora se dizem
representantes do povo, pois foram eleitos pela maioria. Isso o fascismo nunca fez",
comenta Emilio Gentile.
Para o sociólogo italiano Domenico de Masi, que conhece o Brasil há muitos anos,
se não é possível falar num fascismo histórico como o implementado na Itália no
século passado, não há dúvidas, por outro lado, de que Jair Bolsonaro (PSL) é um
político de inspiração fascista - o candidato à Presidência disse recentemente num
comício no Acre em "metralhar a petralhada". A eliminação física de adversários era
exatamente uma das características do regime de Mussolini.

Ele tem inspiração fascista no que diz respeito à relação do Estado com a economia,
entre o poder civil e militar, política e religião. E com base num conceito de
autoritarismo, acha que pode resolver problemas complexos com receitas fáceis",
diz De Masi.
O sociólogo vê com inquietação a ascensão de governos e políticos com raízes
"claramente fascistas". "Bolsonaro é como Salvini (Matteo Salvini, político de direita
e vice-premiê italiano hoje). Os dois têm uma visão autoritária da sociedade. Brasil e
Itália são sociedades muito distintas, mas vejo os dois muito parecidos", completou.
Salvini, aliado de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump que já se reuniu
com um dos filhos de Bolsonaro, declarou recentemente no Twitter torcer pela
eleição do ex-capitão no Brasil.
Domenico de Masi ressalta que, enquanto na Europa o que alimenta esse tipo de
discurso é a imigração (e que tem, na Itália, o apoio das classes média e média-
baixa), no Brasil o fenômeno é estimulado pelo ódio ao ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores. "No caso brasileiro, o cidadão pobre
do Nordeste é mais inteligente quanto ao perigo de Bolsonaro do que os ricos de
São Paulo, que apoiam o candidato".
Como o colega Emilio Gentile, o historiador Eugenio di Rienzo, professor de História
Contemporânea da Universidade Sapienza, em Roma, afirma que o fascismo é um
regime que nasceu e morreu no século passado - em 1945, quando Mussolini foi
assassinado em Milão.
"Não se pode fazer uma analogia entre aquele fenômeno e outro. O fascismo não se
reproduz mais, é preciso cuidado com o uso da palavra, pois acaba provocando
desinformação", disse. "Um racista não é sempre um fascista. O governo de (Recep
Tayyip) Erdogan na Turquia é autoritário, mas não fascista."

Di Rienzo reconhece que há muitos nostálgicos do fascismo na Itália, assim como


do nazismo na Alemanha, mas para ele o processo atual (na Europa e nos Estados
Unidos de Trump) não é uma "repetição do passado": "Há algumas semelhanças,
mas os processos são muito diferentes. A analogia, muitas vezes, tem o propósito de
propaganda".
Emilio Gentile concorda. "Na verdade, faz-se propaganda de um fascismo que
parece eterno, mas ao menos na Europa é um fenômeno novo que se relaciona à
crise da democracia, ao medo da globalização e dos movimentos imigratórios que
poderiam sufocar a coletividade nacional. Mexe com a imaginação das pessoas,
mas não se trata de um perigo real."
Gentile lembra que o sucesso de Bolsonaro no Brasil tem a ver com uma tradição
latino-americana da participação dos militares na política, vistos como atores da
"ordem e da competência", o que não acontece nos países europeus.
Madeleine Albright, ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, país onde chegou
nos anos 1940 após sua família fugir do nazi-fascismo na Europa, publicou
recentemente o livro Fascismo: Um Alerta, em que discute o tema e as formas atuais
de transmutação do que ela chama de "vírus do autoritarismo". "Definir fascismo é
difícil. Primeiro, não acho que fascismo seja uma ideologia. É um método, um
sistema", disse Albright recentemente numa entrevista.
O certo é que o debate sobre o que é fascismo e em quais situações se deve utilizar
o conceito é tão antigo quanto o próprio regime.
Numa coluna para o jornal inglês Tribune, em março de 1944, o escritor e jornalista
George Orwell escreveu - o artigo intitulava-se "O que é fascismo?" - que todo
aquele que usa indiscriminadamente a palavra fascismo está agregando a ela um
significado emocional. "Por fascismo, eles estão se referindo, de maneira grosseira,
a algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista."
Autor de livros clássicos sobre o totalitarismo (como 1984 e A Revolução dos
Bichos), Orwell recomendava: "Tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra
com certa medida de circunspeção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao
nível de um palavrão".

Fascismo - O fascismo surgiu em 1919 e tinha como líder o italiano Benito


Mussolini, um veterano da Primeira Guerra Mundial. Originário da palavra latina
"fascio littorio", tinha como símbolo um feixe de varas amarradas e representava o
poder da Roma Antiga em punir e decapitar os cidadãos desobedientes. Apesar de
Mussolini ser um ex-socialista, o seu partido foi construído com grupos paramilitares
contra políticos de esquerda, judeus, homossexuais, órgãos de imprensa e até
mesmo a classe operária. Seu objetivo era criar um regime totalitário de partido
único, nacionalista, anti-marxista e militarista.

Em 1922, o Partido Nacional Fascista (PNF) assumiu o poder na Itália. Ele


fortaleceu sua influência no país angariando o apoio de industriais, empresários e do
Vaticano, e tornou-se referência para regimes autoritários mundo afora - Francisco
Franco na Espanha, António Salazar em Portugal e, sobretudo, Adolf Hitler na
Alemanha. No quesito social, o partido pouco atuou, pois pregava que as diferenças
entre ricos e pobres era natural, e que um sistema no qual os fortes devem
prevalecer, os fracos devem ser submissos, aceitando sua condição. A seguinte
frase de Mussolini representa bem o significado do fascismo: "Tudo no Estado, nada
contra o Estado, e nada fora do Estado."

Apesar de pregar forte intervenção estatal, ser autoritário e contrário ao liberalismo e


ao comunismo, o regime Fascista posiciona-se na extrema-direita do espectro
político tradicional. O seu programa político é claro em "A Doutrina do Fascismo"
(Benito Mussolini, 1932), afirmando: "Somos livres para acreditar que este é o século
da autoridade, um século tendendo para a 'direita', um século fascista".

Fascismo
Criando em 1914, por Benito Mussolini, o fascismo foi fundado na Itália e seu nome
veio da palavra fascio. “O fascio era um instrumento, um machado revestido de
muitas varas de madeira, que era utilizado para punições corporais. Quando
nomearam o movimento de fascismo, pensaram na autoridade e no medo que o
fascio causava”, explica Elza.
Ela conta que criador do Partido Nacional Fascista, Mussolini, era um líder
autoritário. “A Itália passava por uma grave crise política fruto dos problemas de sua
unificação tardia e com as consequências da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Em 1919, foi publicado o primeiro manifesto fascista. O fascismo surgiu, então,
como o regime que iria resolver todos os problemas econômicos pós guerra, era por
base um movimento nacionalista (de maneira exacerbada), imperialista (baseado na
supremacia da nação italiana sobre os outros países), antiliberal e antidemocrático”,
afirma.
Nazismo
O Nazismo despontou na Alemanha sobre o comando de Adolf Hitler e trouxe com
ele algumas bases do movimento fascista italiano. A diferença entre os dois é que,
no Nazismo, foi acrescentada uma conotação de raça baseada no darwinismo social
e na pureza e superioridade da raça ariana. “Em 1920, Hitler fundou o Partido
Nazista e em 1924 escreveu o livro que é a única base teórica para estudar esse
pensamento (Mein Kampf). Nesse livro, ele elege o comunismo como verdadeiro
inimigo a ser combatido”, diz a historiadora.
Ela reforça que tanto o fascismo, quanto o nazismo, são regimes que desprezam a
democracia. “Eles baseiam-se em uma política autoritária de massas com forte
apelo emocional e apesar de fundarem-se no discurso da união para o crescimento
e desenvolvimento das nações, representam pensamentos desagregadores”,
destaca.
Comunismo
Há muitas lendas relacionadas ao comunismo, principalmente durante a Ditadura
Militar brasileira. Muito se temia que comunistas comessem criancinhas ou
instaurassem um regime que cercearia liberdades individuais. Mas não era bem
assim. “No Manifesto Comunista, escrito em 1848, Marx defendia que a história de
todas as sociedades existentes até então era a luta de classes. Para ele, esse era o
motor da história. Essa trajetória de lutas e impasses só teria um fim quando os
trabalhadores criassem consciência de classe, se reconhecessem como geradores
de riquezas, estabelecendo uma luta política para coletivizar os meios de produção,
sejam as máquinas ou as terras”, explica Elza.
Porém, apesar das ideias amplamente difundidas o comunismo nunca foi
implementado em nenhum lugar do mundo. “Nas tentativas que existiram, o
autoritarismo político e o personalismo partidário foram a marca dos que detinham a
liderança das classes trabalhadoras e é preciso que a classe trabalhadora seja sua
própria liderança” assevera.
Socialismo
Existem vários tipos de socialismo e não apenas um, que passa longe de ter ideias
totalitários ou extremistas. De acordo com a historiadora, “O que norteia a ideia de
uma regime socialista é tornar viável a igualdade de oportunidades e de produção.
Neste sentido, o que adquire mais peso para nós hoje, é a social democracia,
adotada por muitos países da Europa”.
Para ela, como a ideia de uma revolução comunista e do fim do capitalismo passa
longe da nossa realidade, a população deve-se preocupar em lutar por justiça social.
“O socialismo como teoria, estudado e ancorado por estudiosos, é um fenômeno
contemporâneo a revolução francesa, podemos considerá-lo um caminho reformista
dentro do comunismo”, completa.

O candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) tem sido caracterizado como
“representante do fascismo” por pesquisadores do tema dentro e fora do país. Hoje,
o advogado estadunidense Mike Godwin, criador da Lei de Godwin, que critica a
banalização das comparações com o nazismo, autorizou pelo Twitter
comparações entre Bolsonaro com Hitler.
Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa sobre neonazismo há 15 anos, o
discurso de Bolsonaro é similar ao que Hitler pregava em sua campanha, na
Alemanha de 1932.
“A construção do partido nazista foi uma construção voltada para a ideia
anticorrupção de Estado, muito militarista, fundamentalmente pautada na ideia de
que havia uma Alemanha que estava acabando economicamente”, explica Dias.
A antropóloga entende que Bolsonaro é só mais uma manifestação da extrema
direita que tem crescido no mundo todo. Para ela, esse avanço de figuras políticas
fascistas é impulsionado por dois fatores fundamentais: uma forte ideia de
meritocracia, ou seja, “que as pessoas nascem nos mesmos lugares e têm as
mesmas oportunidades”; e a criação de um inimigo responsável por todos os
problemas do país, o que Dias chama de “outro conveniente”.
Esse ódio ao outro, segundo Dias, faz com que se crie uma falsa ideia de “maioria
nacional única”, que é personificada no homem, branco, heterossexual, de classe
média urbana. “Toda vez que a extrema direita ascende há uma ascensão da
masculinidade, um culto à masculinidade, uma negação do feminino, uma ascensão
da cultura do estupro, uma aversão a gays, a minorias”, explica.
Para a antropóloga, o discurso de Bolsonaro não dá voz apenas à insatisfação
política da população, mas também aos ódios internalizados. “Há um ódio de classe
muito grande no Brasil, um ódio de gênero também, eu vejo muita gente com ódio
dos LGBTs. Eu acho que ele [Bolsonaro] consegue congregar vários ódios”, afirma.
Dias pondera, no entanto, que acredita que “metade dos eleitores do Bolsonaro não
tem ideia do que seja o fascismo e outros 25% estão sendo induzidos” a votar no
candidato do PSL, impulsionados, principalmente, pelas notícias falsas
disseminadas nas redes sociais. “Os nazistas também fizeram isso, eles espalharam
muitas mentiras sobre os judeus, os comunistas”, diz a antropóloga.
A partir da análise de Adriana Dias, o Brasil de Fato selecionou frases de autoria de
Bolsonaro que reforçam o sinal de alerta para a ascensão do fascismo nas eleições
2018.
1. Nacionalismo forte
“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
O slogan patriota da campanha de Bolsonaro (que é também o nome de sua
coligação) tem inspiração em uma frase bastante conhecida entre os nazistas. Na
Alemanha de Adolf Hitler, um dos lemas mais repetidos era “Deutschland über
alles”, que significa, em português: “Alemanha acima de tudo”.
2. Desrespeito pelos direitos humanos
"Conosco não haverá essa politicagem de direitos humanos. Essa bandidada
vai morrer porque não enviaremos recursos da União para eles".
Em 23 de agosto, durante ato de campanha na cidade de Araçatuba, no interior
paulista, Bolsonaro discursou em cima de um carro de som, condenando
organizações que defendem direitos humanos. Segundo o candidato, esses
movimentos prestam um “desserviço para o Brasil” e, por isso, não merecem
repasse de dinheiro do governo.
3. Identificação de inimigos como causa unificadora
“Vamos unir o Brasil pela vontade de nos afastarmos de vez do socialismo, do
comunismo, nos vermos livres desse fantasma do que acontece na Venezuela”.
Em uma transmissão ao vivo em sua página no Facebook, no dia 6 de outubro,
véspera do primeiro turno das eleições, Bolsonaro afirma que os partidos da
esquerda brasileira, como PT, PCdoB e PSOL encarnam o “socialismo e o
comunismo” que não deram certo em outros países latino-americanos.
A frequente identificação de inimigos ("esquerdistas, petistas e bandidos") como
merecedores de punição e extermínio também compõe com essa ideia. Prometendo
"defender o país do comunismo e curar lulistas com trabalho", Bolsonaro traz à
memória a triste lembrança do lema do campo de concentração mais letal do
nazismo, Aushcwitz, que trazia em seu portão de entrada os dizeres: Arbeit macht
frei [O trabalho liberta]
4. Supremacia do militarismo
"Caso eu fosse presidente da República, eu convidaria para o MEC (Ministério da
Educação) um general que tivesse comandado um colégio militar pelo Brasil".
Em entrevista à jornalista Mariana Godoy, em julho, Bolsonaro defendeu a
militarização do ensino, citando exemplo de colégios militares, onde as
crianças são “revistadas periodicamente, cantam o hino nacional e têm aula de
educação moral e cívica”. O candidato também defendeu os governos militares da
ditadura, dizendo que “aquela foi uma época maravilhosa”.
5. Alto nível de sexismo
"Jamais iria estuprar você, porque você não merece".
A frase foi dita por Bolsonaro em 2003, direcionada à deputada federal Maria do
Rosário (PT), nos corredores da Câmara dos Deputados. O candidato ainda
empurrou a deputada, ameaçando dar uma “bofetada” nela e chamando-a de
“vagabunda”. Em 2014, Bolsonaro repetiu a ofensa à deputada, dessa vez, em
discurso no plenário da Câmara do Deputados. Pela ofensa, o candidato foi
condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a pagar indenização de R$
10 mil à Maria do Rosário.
6. Controle dos meios de comunicação
"A imprensa tenta a todo custo comprar a corda que irá enforcá-la"
A frase foi escrita por Bolsonaro no Twitter, em abril de 2016. No Programa Mariana
Godoy Entrevista, em outubro de 2017, Bolsonaro afirmou que a frase se relaciona
“ao trabalho da imprensa como um todo” e que é contrário ao controle da
mídia.
O candidato costuma deslegitimar o trabalho da imprensa e sua campanha é
baseada na disseminação de notícias falsas. No último dia 10, em reunião com
correligionários, Bolsonaro afirmou que é preciso “tomar cuidado com a mídia”,
porque a intenção da imprensa é “atacar” e “desgastar” sua campanha.
7. Obsessão com a ideia de segurança nacional
"Nós não podemos escancarar as portas do Brasil para tudo quanto é tipo de gente.
Isso vai virar a casa da mãe Joana".
Em dezembro de 2016, Bolsonaro criticou o projeto do Estatuto da Migração,
que regulamenta a entrada e permanência de migrantes e visitantes no Brasil. Para
Bolsonaro, os imigrantes são uma ameaça à segurança nacional, porque “o
comportamento e a cultura deles é completamente diferente da nossa”.
Mais tarde, em fevereiro de 2018, em entrevista à Jovem Pan, Bolsonaro defendeu
que policiais militares tenham uma “retaguarda jurídica” para que não sejam
condenados por homicídios. Ele toma como exemplo uma frase de Donald Trump,
que dizia que os policiais norte-americanos são mais fortes que a “bandidagem” da
fronteira com o México.
8. Religião e governos interligados
“Nós somos um país cristão! Deus acima de tudo. Essa historinha de Estado
Laico, não! É Estado cristão! E as minorias que se curvem!”
Em discurso em cima de uma carro de som em Campina Grande, na Paraíba, em
fevereiro de 2017, Bolsonaro afirmou que aqueles que acreditam em Deus são a
minoria da população e, por isso, devem “se curvar” ao Estado cristão. Meses
depois, em entrevista ao jornalista Ronaldo Gomlevsky, Bolsonaro reafirmou essa
opinião, dizendo que o objetivo de um Estado laico é “tirar a cultura judaico-
cristã das escolas” e doutrinar crianças.
9. Poder corporativo protegido
"Hoje em dia é muito difícil ser patrão no nosso país".
Em entrevista no Programa do João Kleber, em agosto de 2016, Bolsonaro criticou
os direitos trabalhistas, que, segundo o candidato, dificultam a contratação de
empregados nas empresas. Bolsonaro falou ainda que o sistema trabalhista
brasileiro “é paternalista demais”.
Empresários de grandes redes lojistas já declararam apoio a Bolsonaro, entre eles o
dono da Havan, Luciano Hang, e o dono da Centauro, Sebastião Bomfim Filho.
10. Direitos trabalhistas atacados
"Um dia o trabalhador vai ter que decidir: menos direitos e emprego ou todos os
direitos e desemprego".
Em entrevista ao Jornal Nacional, em agosto, Bolsonaro afirmou que dá voz à
reivindicação de empregadores e empresários brasileiros, que entendem os direitos
trabalhistas como obstáculos para o crescimento das empresas.
Na Câmara, Bolsonaro votou contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC)
que regulamenta o trabalho doméstico e a favor da Reforma Trabalhista, que altera
jornada de trabalho, plano de cargos e salários, remuneração (entre outros itens).
Além disso, o candidato propõe a criação de uma “nova carteira de trabalho verde e
amarela”, em que o contrato individual entre patrão e empregado tem mais valor do
que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
11. Desdém por intelectuais e as artes
"Já está feito, já pegou fogo. Quer que eu faça o que?"
Essa foi a frase de Bolsonaro, em coletiva de imprensa, após o incêndio no Museu
Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro. Bolsonaro também criticou a verba
governamental destinada à cultura, dizendo que “não falta dinheiro para
quermesse e negócio de homem nu” [em alusão à performance de Wagner
Schwartz, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), apresentada em
setembro de 2017]. Em outras entrevistas, Bolsonaro já defendeu o rebaixamento do
Ministério da Cultura à secretaria subordinada ao Ministério da Educação.
12. Obsessão por crime e punição
“A violência só cresce no Brasil porque há uma política equivocada de direitos
humanos”.
Em debate na Band, no dia 9 de agosto, Bolsonaro creditou a violência no país à
“política de direitos humanos”, que, segundo o candidato, “desarmou o cidadão de
bem”, enquanto “o bandido continua muito bem armado”. Bolsonaro defende o
armamento da população e um sistema carcerário mais punitivista.
Em seu plano de governo, Bolsonaro liga a criminalidade a um viés ideológico,
afirmando que “coincidentemente, onde participantes do Foro de SP governam, sobe
a criminalidade”. Entre as propostas para acabar com a criminalidade, estão o
“desarmamento para garantir o direito do cidadão à legítima defesa” e o fim
“da progressão de penas e das saídas temporárias”.
13. Nepotismo e corrupção
“Não vem me rotular de corrupto aqui, não”.
Em entrevista ao comentarista da Jovem Pan, Marco Antonio Villa, em maio de
2017, Bolsonaro tenta negar o recebimento de R$ 200 mil em propina do grupo JBS,
afirmando que devolveu o dinheiro para o partido. No entanto, esse mesmo valor foi
depositado novamente em sua conta, vindo do fundo partidário. Pressionado sobre
a origem do dinheiro, Bolsonaro afirma: “o partido recebeu propina, sim! Qual
não recebe?”.
Bolsonaro aparece também na “Lista de Furnas”, acusado de receber R$ 50 mil
em propina. O candidato negou o envolvimento no esquema de caixa-dois, mas a
Polícia Federal comprovou a autenticidade do documento, afirmando “que a lista não
foi montada e que é autêntica”.
Além disso, Bolsonaro é acusado de nepotismo, por ter empregado em seu gabinete
e no de seus filhos, a ex-esposa, Ana Cristina Valle, a ex-cunhada e o ex-sogro.
Perguntado sobre a ilegalidade do vínculo empregatício, por repórter do Jornal
do Piauí, Bolsonaro alega que “na época não era nepotismo”.
Carlos, Flávio e Eduardo, filhos do ex-capitão, entraram na política, ganharam
prestígio e enriqueceram (Eduardo aumentou 432% seu patrimônio em quatro anos)
puxados pela popularidade do pai.
Todo mundo sabe que o termo fascista é hoje pejorativo; um adjetivo
frequentemente utilizado para se descrever qualquer posição política da qual o
orador não goste. Não há ninguém no mundo atual propenso a bater no peito e
dizer "Sou um fascista; considero o fascismo um grande sistema econômico e
social."
Porém, afirmo que, caso fossem honestos, a vasta maioria dos políticos, intelectuais
e ativistas do mundo atual teria de dizer exatamente isto a respeito de si mesmos.
O fascismo é o sistema de governo que opera em conluio com grandes empresas
(as quais são favorecidas economicamente pelo governo), que carteliza o setor
privado, planeja centralizadamente a economia subsidiando grandes empresários
com boas conexões políticas, exalta o poder estatal como sendo a fonte de toda a
ordem, nega direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos (como a liberdade de
empreender em qualquer mercado que queira) e torna o poder executivo o senhor
irrestrito da sociedade.
Tente imaginar algum país cujo governo não siga nenhuma destas características
acima. Tal arranjo se tornou tão corriqueiro, tão trivial, que praticamente deixou de
ser notado pelas pessoas. Praticamente ninguém conhece este sistema pelo seu
verdadeiro nome.
É verdade que o fascismo não possui um aparato teórico abrangente. Ele não
possui um teórico famoso e influente como Marx. Mas isso não faz com que ele seja
um sistema político, econômico e social menos nítido e real. O fascismo também
prospera como sendo um estilo diferenciado de controle social e econômico. E ele é
hoje uma ameaça ainda maior para a civilização do que o socialismo completo.
Suas características estão tão arraigadas em nossas vidas — e já é assim há um
bom tempo — que se tornaram praticamente invisíveis para nós.
E se o fascismo é invisível para nós, então ele é um assassino verdadeiramente
silencioso. Assim como um parasita suga seu hospedeiro, o fascismo impõe um
estado tão enorme, pesado e violento sobre o livre mercado, que o capital e a
produtividade da economia são completamente exauridos. O estado fascista é como
um vampiro que suga a vida econômica de toda uma nação, causando a morte lenta
e dolorosa de uma economia que outrora foi vibrante e dinâmica.
As origens do fascismo
A última vez em que as pessoas realmente se preocuparam com o fascismo foi
durante a Segunda Guerra Mundial. Naquela época, dizia-se ser imperativo que
todos lutassem contra este mal. Os governos fascistas foram derrotados pelos
aliados, mas a filosofia de governo que o fascismo representa não foi derrotada.
Imediatamente após aquela guerra mundial, uma outra guerra começou, esta agora
chamada de Guerra Fria, a qual opôs o capitalismo ao comunismo. O socialismo, já
nesta época, passou a ser considerado uma forma mais branda e suave de
comunismo, tolerável e até mesmo louvável, mas desde que recorresse à
democracia, que é justamente o sistema que legaliza e legitima a contínua pilhagem
da população.
Enquanto isso, praticamente todo o mundo havia esquecido que existem várias
outras cores de socialismo, e que nem todas elas são explicitamente de esquerda.
O fascismo é uma dessas cores.
Não há dúvidas quanto às origens do fascismo. Ele está ligado à história da política
italiana pós-Primeira Guerra Mundial. Em 1922, Benito Mussolini venceu uma
eleição democrática e estabeleceu o fascismo como sua filosofia. Mussolini havia
sido membro do Partido Socialista Italiano.
Todos os maiores e mais importantes nomes do movimento fascista vieram dos
socialistas. O fascismo representava uma ameaça aos socialistas simplesmente
porque era uma forma mais atraente e cativante de se aplicar no mundo real as
principais teorias socialistas. Exatamente por isso, os socialistas abandonaram seu
partido, atravessaram o parlamento e se juntaram em massa aos fascistas.
Foi também por isso que o próprio Mussolini usufruiu uma ampla e extremamente
favorável cobertura na imprensa durante mais de dez anos após o início de seu
governo. Ele era recorrentemente celebrado pelo The New York Times, que
publicou inúmeros artigos louvando seu estilo de governo. Ele foi louvado em
coletâneas eruditas como sendo o exemplo de líder de que o mundo necessitava na
era da sociedade planejada. Matérias pomposas sobre o fanfarrão eram
extremamente comuns na imprensa americana desde o final da década de 1920 até
meados da década de 1930.
Qual o principal elo entre o fascismo e o socialismo? Ambos são etapas de um
continuum que visa ao controle econômico total, um continuum que começa com a
intervenção no livre mercado, avança até a arregimentação dos sindicatos e dos
empresários, cria leis e regulamentações cada vez mais rígidas, marcha rumo ao
socialismo à medida que as intervenções econômicas vão se revelando desastrosas
e, no final, termina em ditadura.
O que distingue a variedade fascista de intervencionismo é a sua recorrência à ideia
de estabilidade para justificar a ampliação do poder do estado. Sob o fascismo,
grandes empresários e poderosos sindicatos se aliam entusiasticamente ao estado
para obter proteção e estabilidade contra as flutuações econômicas, isto é, as
expansões e contrações de determinados setores do mercado em decorrência das
constantes alterações de demanda por parte dos consumidores. A crença é a de
que o poder estatal pode suplantar a soberania do consumidor e substituí-la pela
soberania dos produtores e sindicalistas, mantendo ao mesmo tempo a maior
produtividade gerada pela divisão do trabalho.
Os adeptos do fascismo encontraram a perfeita justificativa teórica para suas
políticas na obra de John Maynard Keynes. Keynes alegava que a instabilidade do
capitalismo advinha da liberdade que o sistema garantia ao "espírito animal" dos
investidores. Ora guiados por rompantes de otimismo excessivo e ora derrubados
por arroubos de pessimismo irreversível, os investidores estariam continuamente
alternando entre gastos estimuladores e entesouramentos depressivos, fazendo com
que a economia avançasse de maneira intermitente, apresentando uma sequência
de expansões e contrações.
Keynes propôs eliminar esta instabilidade por meio de um controle estatal mais
rígido sobre a economia, com o estado controlando os dois lados do mercado de
capitais. De um lado, um banco central com o poder de inflacionar a oferta
monetária por meio da expansão do crédito iria determinar a oferta de capital para
financiamento e estipular seu preço, e, do outro, uma ativa política fiscal e
regulatória iria socializar os investimentos deste capital.
Em uma carta aberta ao presidente Franklin Delano Roosevelt, publicado no The
New York Times em 31 de dezembro de 1933, Keynes aconselhava seu plano:

Na área da política doméstica, coloco em primeiro plano um grande volume de


gastos sob os auspícios do governo. Em segundo lugar, coloco a necessidade de
se manter um crédito abundante e barato. ... Com estas sugestões . . . posso
apenas esperar com grande confiança por um resultado exitoso. Imagine o quanto
isto significaria não apenas para a prosperidade material dos Estados Unidos e de
todo o mundo, mas também em termos de conforto para a mente dos homens em
decorrência de uma restauração de sua fé na sensatez e no poder do governo.
(John Maynard Keynes, "An Open Letter to President Roosevelt," New York Times,
December 31, 1933 in ed. Herman Krooss, Documentary History of Banking and
Currency in the United States, Vol. 4 (New York: McGraw Hill, 1969), p. 2788.)
Keynes se mostrou ainda mais entusiasmado com a difusão de suas ideias na
Alemanha. No prefácio da edição alemã da Teoria Geral, publicada em 1936,
Keynes escreveu:
A teoria da produção agregada, que é o que este livro tenciona oferecer, pode ser
adaptada às condições de um estado totalitário com muito mais facilidade do que a
teoria da produção e da distribuição sob um regime de livre concorrência e laissez-
faire. (John Maynard Keynes, "Prefácio" da edição alemã de 1936 da Teoria Geral
do Emprego, do Juro e da Moeda, traduzido e reproduzido in James J. Martin,
Revisionist Viewpoints (Colorado Springs: Ralph Myles, 1971), pp. 203?05.)
Controle estatal do dinheiro, do crédito, do sistema bancário e dos investimentos é a
base exata de uma política fascista. Historicamente, a expansão do controle estatal
sob o fascismo seguiu um padrão previsível. O endividamento e a inflação
monetária pagaram pelos gastos estatais. A resultante expansão do crédito levou a
um ciclo de expansão e recessão econômica. O colapso financeiro gerado pela
recessão resultou na socialização dos investimentos e em regulamentações mais
estritas sobre o sistema bancário, ambos os quais permitiram mais inflação
monetária, mais expansão do crédito, mais endividamento e mais gastos. O
subsequente declínio no poder de compra do dinheiro justificou um controle de
preços e salários, o qual se tornou o ponto central do controle estatal generalizado.
Em alguns casos, tudo isso aconteceu rapidamente; em outros, o processo se deu
de maneira mais lenta. Porém, em todos os casos, o fascismo sempre seguiu este
caminho e sempre descambou no total planejamento centralizado.
Na Itália, local de nascimento do fascismo, a esquerda percebeu que sua agenda
anticapitalista poderia ser alcançada com muito mais sucesso dentro do arcabouço
de um estado autoritário e planejador. Keynes teve um papel-chave ao fornecer
uma argumentação pseudo-científica contra o laissez-faire do velho mundo e em
prol de uma nova apreciação da sociedade planejada. Keynes não era um socialista
da velha guarda. Como ele próprio admitiu na introdução da edição nazista da
Teoria Geral, o nacional-socialismo era muito mais favorável às suas ideias do que
uma economia de mercado.
Características
Examinando a história da ascensão do fascismo, John T. Flynn, em seu magistral
livro As We Go Marching, de 1944, escreveu:
Um dos mais desconcertantes fenômenos do fascismo é a quase inacreditável
colaboração entre homens da extrema-direita e da extrema-esquerda para a sua
criação. Mas a explicação para este fenômeno aparentemente contraditório jaz na
seguinte questão: tanto a direita quanto a esquerda juntaram forças em sua ânsia
por mais regulamentação. As motivações, os argumentos, e as formas de
expressão eram diferentes, mas todos possuíam um mesmo objetivo, a saber: o
sistema econômico tinha de ser controlado em suas funções essenciais, e este
controle teria de ser exercido pelos grupos produtores.
Flynn escreveu que a direita e a esquerda discordavam apenas quanto a quem seria
este 'grupo de produtores'. A esquerda celebrava os trabalhadores como sendo os
produtores. Já a direita afirmava que os produtores eram os grandes grupos
empresariais. A solução política de meio-termo — a qual prossegue até hoje, e cada
vez mais forte — foi cartelizar ambos.
Sob o fascismo, o governo se torna o instrumento de cartelização tanto dos
trabalhadores (desde que sindicalizados) quanto dos grandes proprietários de
capital. A concorrência entre trabalhadores e entre grandes empresas é tida como
algo destrutivo e sem sentido; as elites políticas determinam que os membros destes
grupos têm de atuar em conjunto e agir cooperativamente, sempre sob a supervisão
do governo, de modo a construírem uma poderosa nação.
Os fascistas sempre foram obcecados com a ideia de grandeza nacional. Para eles,
grandeza nacional não consiste em uma nação cujas pessoas estão se tornando
mais prósperas, com um padrão de vida mais alto e de maior qualidade. Não.
Grandeza nacional ocorre quando o estado incorre em empreendimentos
grandiosos, faz obras faraônicas, sedia grandes eventos esportivos e planeja novos
e dispendiosos sistemas de transporte.
Em outras palavras, grandeza nacional não é a mesma coisa que a sua grandeza ou
a grandeza da sua família ou a grandeza da sua profissão ou do seu
empreendimento. Muito pelo contrário. Você tem de ser tributado, o valor do seu
dinheiro tem de ser depreciado, sua privacidade tem de ser invadida e seu bem-
estar tem de ser diminuído para que este objetivo seja alcançado. De acordo com
esta visão, é o governo quem tem de nos tornar grandes.
Tragicamente, tal programa possui uma chance de sucesso político muito maior do
que a do antigo socialismo. O fascismo não estatiza a propriedade privada como faz
o socialismo. Isto significa que a economia não entra em colapso quase que
imediatamente. Tampouco o fascismo impõe a igualdade de renda. Não se fala
abertamente sobre a abolição do casamento e da família ou sobre a estatização das
crianças. A religião não é proibida.
Sob o fascismo, a sociedade como a conhecemos é deixada intacta, embora tudo
seja supervisionado por um poderoso aparato estatal. Ao passo que o socialismo
tradicional defendia uma perspectiva globalista, o fascismo é explicitamente
nacionalista ou regionalista. Ele abraça e exalta a ideia de estado-nação.
Quanto à burguesia, o fascismo não busca a sua expropriação. Em vez disso, a
classe média é agradada com previdência social, educação gratuita, benefícios
médicos e, é claro, com doses maciças de propaganda estatal estimulando o
orgulho nacional.
O fascismo utiliza o apoio conseguido democraticamente para fazer uma
arregimentação nacional e, com isso, controlar mais rigidamente a economia, impor
a censura, cartelizar empresas e vários setores da economia, escolher empresas
vencedoras e privilegiá-las com subsídios, repreender dissidentes e controlar a
liberdade dos cidadãos. Tudo isso exige um contínuo agigantamento do estado
policial.
Sob o fascismo, a divisão entre esquerda e direita se torna amorfa. Um partido de
esquerda que defende programas socialistas não tem dificuldade alguma em se
adaptar e adotar políticas fascistas. Sua agenda política sofre alterações ínfimas, a
principal delas sendo a sua maneira de fazer marketing.
O próprio Mussolini explicou seu princípio da seguinte maneira: "Tudo dentro do
Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado". Ele também disse: "O princípio
básico da doutrina Fascista é sua concepção do Estado, de sua essência, de suas
funções e de seus objetivos. Para o Fascismo, o Estado é absoluto; indivíduos e
grupos, relativos."
O futuro
Não consigo imaginar qual seria hoje uma prioridade maior do que uma séria e
efetiva aliança anti-fascista. De certa maneira, ainda que muito desconcertada, uma
resistência já está sendo formada. Não se trata de uma aliança formal. Seus
integrantes sequer sabem que fazem parte dela. Tal aliança é formada por todos
aqueles que não toleram políticos e politicagens, que se recusam a obedecer leis
fascistas convencionais, que querem mais descentralização, que querem menos
impostos, que querem poder importar bens sem ter de pagar tarifas escorchantes,
que protestam contra a inflação e seu criador, o Banco Central, que querem ter a
liberdade de se associar a quem quiserem e de comprar e vender de acordo com
termos que eles próprios decidirem, que querem empreender livremente, que
insistem em educar seus filhos por conta própria. Principalmente, por aqueles
investidores, poupadores e empreendedores que realmente tornam possível
qualquer crescimento econômico e por aqueles que resistem ao máximo a divulgar
dados pessoais para o governo e para o estado policial.
Tal aliança é também formada por milhões de pequenos e independentes
empreendedores que estão descobrindo que a ameaça número um à sua
capacidade de servir aos outros por meio do mercado é exatamente aquela
instituição que alega ser nossa maior benfeitora: o governo.
Quantas pessoas podem ser classificadas nesta categoria? Mais do que
imaginamos. O movimento é intelectual. É cultural. É tecnológico. Ele vem de
todas as classes, raças, países e profissões. Não se trata de um movimento
meramente nacional; ele é genuinamente global. Não mais podemos prever se os
membros se consideram de esquerda, de direita, independentes, libertários,
anarquistas ou qualquer outra denominação. O movimento inclui pessoas tão
diversas como pais adeptos do ensino domiciliar em pequenas cidades e pais em
áreas urbanas cujos filhos estão encarcerados por tempo indeterminado e sem
nenhuma boa razão (senão pelo fato de terem consumido substâncias não-
aprovadas pelo estado).
E o que este movimento quer? Nada mais e nada menos do que a doce liberdade.
Ele não está pedindo que a liberdade seja concedida ou dada. Ele apenas pede a
liberdade que foi prometida pela própria vida, e que existiria na ausência do estado
leviatã que nos extorque, escraviza, intimida, ameaça, encarcera e mata. Este
movimento não é efêmero. Somos diariamente rodeados de evidências que
demonstram que ele está absolutamente correto em suas exigências. A cada dia,
torna-se cada vez mais óbvio que o estado não contribui em absolutamente nada
para o nosso bem-estar. Ao contrário, ele maciçamente subtrai nosso padrão de
vida.
Nos anos 1930, os defensores do estado transbordavam de ideias grandiosas. Eles
possuíam teorias e programas de governo que gozavam o apoio de vários
intelectuais sérios. Eles estavam emocionados e excitados com o mundo que iriam
criar. Eles iriam abolir os ciclos econômicos, criar desenvolvimento social, construir
a classe média, curar todas as doenças, implantar a seguridade universal, acabar
com a escassez e fazer vários outros milagres. O fascismo acreditava em si próprio.
Hoje o cenário é totalmente distinto. O fascismo não possui nenhuma ideia nova,
nenhum projeto grandioso — nem mesmo seus partidários realmente acreditam que
podem alcançar os objetivos almejados. O mundo criado pelo setor privado é tão
mais útil e benevolente do que qualquer coisa que o estado já tenha feito, que os
próprios fascistas se tornaram desmoralizados e cientes de que sua agenda não
possui nenhuma base intelectual real.
É algo cada vez mais amplamente reconhecido que o estatismo não funciona e nem
tem como funcionar. O estatismo é e continua sendo a maior mentira do milênio. O
estatismo nos dá o exato oposto daquilo que promete. Ele nos promete segurança,
prosperidade e paz. E o que ele nos dá é medo, pobreza, conflitos, guerra e morte.
Se queremos um futuro, teremos nós mesmos de construí-lo. O estado fascista não
pode nos dar nada. Ao contrário, ele pode apenas atrapalhar.
Por outro lado, também parece óbvio que o antigo romance dos liberais clássicos
com a ideia de um estado limitado já se esvaneceu. É muito mais provável que os
jovens de hoje abracem uma ideia que 50 anos atrás era tida como inimaginável: a
ideia de que a sociedade está em melhor situação sem a existência de qualquer tipo
de estado.
Eu diria que a ascensão da teoria anarcocapitalista foi a mais dramática mudança
intelectual ocorrida em minha vida adulta. Extinta está a ideia de que o estado pode
se manter limitado exclusivamente à função de vigilante noturno, mantendo-se como
uma entidade pequena que irá se limitar a apenas garantir direitos essenciais,
adjudicar conflitos, e proteger a liberdade. Esta visão é calamitosamente ingênua.
O vigia noturno é o sujeito que detém as armas, que possui o direito legal de utilizar
de violência, que controla todas as movimentações das pessoas, que possui um
posto de comando no alto da torre e que pode ver absolutamente tudo. E quem
vigia este vigia? Quem limita seu poder? Ninguém, e é exatamente por isso que ele
é a fonte dos maiores males da sociedade. Nenhuma lei, nenhuma constituição bem
fundamentada, nenhuma eleição, nenhum contrato social irá limitar seu poder.
Com efeito, o vigia noturno adquiriu poderes totais. É ele quem, como descreveu
Flynn, "possui o poder de promulgar qualquer lei ou tomar qualquer medida que lhe
seja mais apropriada". Enquanto o governo, continua Flynn, "estiver investido do
poder de fazer qualquer coisa sem nenhuma limitação prática às suas ações, ele
será um governo totalitário. Ele possui o poder total".
Este é um ponto que não mais pode ser ignorado. O vigia noturno tem de ser
removido e seus poderes têm de ser distribuídos entre toda a população, e esta tem
de ser governada pelas mesmas forças que nos trazem todas as bênçãos
possibilitadas pelo mundo material.
No final, esta é a escolha que temos de fazer: o estado total ou a liberdade total. O
meio termo é insustentável no longo prazo. Qual iremos escolher? Se escolhermos
o estado, continuaremos afundando cada vez mais, e no final iremos perder tudo
aquilo que apreciamos enquanto civilização. Se escolhermos a liberdade,
poderemos aproveitar todo o notório poder da cooperação humana, o que irá nos
permitir continuar criando um mundo melhor.
Na luta contra o fascismo, não há motivos para se desesperar. Temos de continuar
lutando sempre com a total confiança de que o futuro será nosso, e não deles.
O mundo deles está se desmoronando. O nosso está apenas começando a ser
construído. O mundo deles é baseado em ideologias falidas. O nosso é arraigado
na verdade, na liberdade e na realidade. O mundo deles pode apenas olhar para o
passado e ter nostalgias daqueles dias gloriosos. O nosso olha para frente e
contempla todo o futuro que estamos construindo para nós mesmos. O mundo
deles se baseia no cadáver do estado-nação. O nosso se baseia na energia e na
criatividade de todas as pessoas do mundo, unidas em torno do grande e nobre
projeto da criação de uma civilização próspera por meio da cooperação humana
pacífica.
É verdade que eles possuem armas grandes e poderosas. Mas armas grandes e
poderosas nunca foram garantia de vitória em guerras. Já nós possuímos a única
arma que é genuinamente imortal: a ideia certa. E é isso que nos levará à vitória.
Como disse Mises,
No longo prazo, até mesmo o mais tirânico dos governos, com toda a sua
brutalidade e crueldade, não é páreo para um combate contra ideias. No final, a
ideologia que obtiver o apoio da maioria irá prevalecer e retirar o sustento de sob os
pés do tirano. E então os vários oprimidos irão se elevar em uma rebelião e
destronar seus senhores.

A frase
O facto de que o fascismo é um movimento que tem origem marxista, por exemplo, é
uma das demonstrações feitas nesta saga que poderá parecer polémica.
José Rodrigues dos Santos, entrevista ao DN, 24 de Maio .

O contexto
José Rodrigues dos Santos é jornalista, apresentador do principal telejornal da RTP,
mas deu esta entrevista enquanto romancista. Esta é a primeira advertência que há
a fazer. Enquanto ficcionista, José Rodrigues dos Santos poderia criar a realidade
que mais lhe conviesse – jogando com a verosimilhança e a memória. Mas a frase
deixa subentendida uma “verdade” histórica e não um artifício literário. “Continuo a
escrever livros polémicos. As Flores de Lótus e O Pavilhão Púrpura mostram
realidades, porém politicamente incorrectas. O facto de que o fascismo é um
movimento que tem origem marxista, por exemplo, é uma das demonstrações feitas
nesta saga que poderá parecer polémica.” A palavra “realidades” pode ter sido mal
usada, e o próprio autor reconhece que a afirmação que faz é “polémica”. Mas esta
já não é a primeira vez que Rodrigues dos Santos revela conhecer uma relação de
filiação ideológica entre as duas correntes que marcaram a primeira metade do
século XX. Dias antes de o ter afirmado ao DN, o mesmo Rodrigues dos Santos
usara uma formulação quase idêntica em resposta às perguntas do i: "Uma das
coisas que hoje não se sabe, mas que é verdadeira, é que o fascismo é um
movimento de origem marxista. Pouquíssima gente sabe isto. Em certos aspectos, é
mais ortodoxamente marxista do que o comunismo. Por exemplo, a crença que os
fascistas tinham de que não era possível haver revolução do proletariado sem
capitalismo.”
Aqui é claro o duplo papel do autor – jornalista e escritor – e é o próprio Rodrigues
dos Santos que o confunde ao atestar que é “verdadeiro” aquilo que diz e, por
alguma razão que não acrescenta, “pouquíssima gente sabe”. E é isso que justifica
esta Prova dos Factos, que não verificaria a veracidade de uma opinião do
romancista, nem um facto literário assumidamente criado pela sua imaginação.
Os factos
O marxismo é, de facto, cronologicamente anterior ao fascismo. Mas acaba aqui a
verosimilhança na tese de José Rodrigues dos Santos. Todas as outras hipóteses
que podiam ser apresentadas em sua defesa – de que há uma “origem” marxista
nas ideias fascistas – são circunscritas. De facto, Benito Mussolini foi militante do
Partido Socialista Italiano e editor do jornal marxista Avanti!, antes de ser expulso e
fundar, em 1919, o que viria a ser o embrião do Partido Fascista. Mussolini não é
caso único dessa transição abrupta entre ideologias adversárias, naquela época. Um
dos seus ideólogos, o francês Georges Sorrel, parecia admirar igualmente o
nacionalista Maurras e o comunista Lenine. O mesmo se pode dizer da arte, e das
várias manifestações vanguardistas associadas a estas correntes políticas, que
muitas vezes se aproximaram, sobretudo antes da I Guerra Mundial. Mas
argumentar que essa relação demonstra uma “origem” ideológica comum seria tão
absurdo como considerar que por Mário Soares e Durão Barroso terem sido
marxistas na sua juventude, o PS e o PSD partilham a mesma origem ideológica que
o PCP.
A prova de que não há uma origem comum entre as duas ideologias é avançada
pelo historiador inglês Tony Judt no seu livro Pensar o Século XX: “Quando falamos
de marxistas podemos começar com os conceitos. Os fascistas não tinham, na
realidade, conceitos. Tinham atitudes. Têm respostas distintivas a questões como a
guerra, a depressão e o atraso. Mas não começam com um conjunto de ideias que
depois tentam aplicar ao Mundo.”
Ou seja, o marxismo, antes de ser uma prática política, é uma doutrina. Por isso,
ainda hoje, há quem se reivindique das ideias, renegando a prática. Já no fascismo
é inseparável a sua realidade histórica do seu arsenal teórico. Foram as “atitudes”,
como diz Judt, que moldaram a teoria.
Ao contrário, o que se pode afirmar com alguma certeza é que o fascismo cresceu
como resposta – antagónica – ao marxismo. Diz Tony Judt: “Se virmos país a país,
começando na Itália, vemos que sem a ameaça da revolução comunista teria havido
muito menos espaço para os fascistas se apresentarem como guardiões da ordem
tradicional.” Algumas das principais características atribuídas ao fascismo
(nacionalismo, corporativismo, racismo) são respostas ao internacionalismo, à ideia
da “luta de classes” e ao igualitarismo das ideias socialistas.
O marxismo é uma corrente fácil de classificar. Tem as suas origens (não é preciso
recuar muito mais que à ideia de Rousseau de que os homens nascem livres e em
todo o lado estão agrilhoados), os seus autores, de Marx a Engels, passando pelos
neo-marxistas que ainda hoje assim se assumem, como Zizek e Negri. O fascismo é
bastante menos dado a bibliografias incontestadas. Poderá ter a sua origem no
nacionalismo conservador francês de Maurras, mas as suas várias modalidades (da
Itália ao nazismo alemão, passando pela Roménia, pelo falangismo espanhol e o
integralismo lusitano) ocupam, por exemplo, as 960 páginas do livro Labirintos do
Fascismo, do historiador português João Bernardo (ed. Afrontamento). É de João
Bernardo uma difícil tentativa de explicar, em três palavras, a ideia de fascismo: “A
revolta no interior da coesão.”
Ambos, marxistas e fascistas, defendiam a ideia de “revolução” anti-liberal. No seu
auge, do início do século XX até ao fim da II Guerra Mundial, ambos os movimentos
apresentavam uma resposta – muito diferente – à crise económica e ao desespero
de muitas camadas sociais. Com uma diferença importante: enquanto os marxistas
glorificavam as massas populares como “sujeito da História”, os fascistas, como
Pequito Rebelo, em Portugal, usavam a mobilização popular, mas não deixavam de
desdenhar da “multidão com a sua baixa psicologia e as suas inferiores reacções de
sentimentos” (citado em Os camisas azuis, de António Costa Pinto, ed. Estampa).
É na forma como encaravam a governação dos países “capitalistas” que
encontramos uma derradeira diferença. Os marxistas seguiram com atenção o New
Deal e são conhecidas as ligações de sectores comunistas à administração de F.D.
Roosevelt. Já Hitler fazia uma crítica ao Presidente dos EUA que parece tirada de
um debate do presente: "Aumentou enormemente a dívida do seu país, desvalorizou
o dólar, perturbou a economia... O New Deal deste homem foi o maior erro jamais
cometido por alguém... Num país europeu a carreira deste homem teria terminado
num tribunal por desperdiçar o tesouro público, e dificilmente evitaria uma pena por
gestão criminosa e incompetente."

A prova do antagonismo é evidente. E tem um momento simbólico: a Guerra Civil de


Espanha (1936/39). Foi aí, combatendo por uma facção de inspiração marxista e
libertária (o POUM), que George Orwell ganhou consciência de uma outra realidade,
que aplicou à forma como os fascistas e alguns regimes que se reclamavam
marxistas exerciam o poder: Totalitarismo. O termo, que os fascistas italianos
usavam com um significado positivo, tornou-se uma das principais formas de criticar
o Estado soviético no pós-guerra, sobretudo depois de Hannah Arendt publicar As
Origens do Totalitarismo. Onde, apesar de tudo, se distingue bem o ponto de partida
de ambas as versões “totalitárias”.
Em resumo
Fascismo e marxismo foram duas correntes que marcaram a política mundial na
primeira metade do século XX. O antagonismo entre os seus defensores não precisa
de muito mais ilustração do que os milhões de mortos, dos dois lados, na batalha de
Estalinegrado. Ou a oposição do PCP ao Estado Novo. Ainda hoje se assiste, numa
reminiscência do século passado, a violentos confrontos nas ruas entre herdeiros do
fascismo e do marxismo (a Grécia será apenas o exemplo mais visível). Mas nada, a
não ser o poder criador da ficção, permite descortinar uma origem comum entre
estes dois “ismos”. É mais certo afirmar que Passos Coelho e António Costa
partilham um conjunto de ideias sobre política (apesar das diferenças diariamente
enunciadas) do que encontrar um tronco comum de pensamento entre Álvaro
Cunhal e Oliveira Salazar.

QUAL É A DEFINIÇÃO DE ESTADO?


Para compreendermos a definição de Estado, basta observar que fazemos parte
de instituições ou sociedades. Estas, por sua vez, são formadas por interesses
materiais, níveis de parentescos ou objetivos espirituais, por exemplo. É na
convivência entre essas sociedades que desenvolvemos nossos conceitos e
aptidões físicas, morais e intelectuais.
Ao analisar esses aspectos, entende-se que o Estado nada mais é do que uma
sociedade constituída por um grupo de indivíduos organizados, como: os
grupos familiares, profissionais, educativos, políticos, religiosos, que buscam
objetivos em comum. Esses objetivos podem ser caracterizados por ações
realizadas pelas pessoas com finalidades em comum, um exemplo seria o desejo de
alcançar metas ou desenvolver-se melhor no trabalho.
Além disso, o Estado se apresenta como uma organização denominada sociedade
política. Nessa sociedade, existem normas jurídicas escritas (Constituição
Federal, Código Civil, Código Penal, Código de Defesa do Consumidor, etc.). E
também uma hierarquia entre os governantes e governados, todos sujeitos a buscar
o bem público, sendo exemplos a saúde, educação, justiça e defesa nacional.
CONTEXTO HISTÓRICO: QUANDO SURGE O ESTADO?
O conceito de Estado vem evoluindo desde a Antiguidade, a partir da Polis Grega e
das Civitas Romana. A Itália foi o primeiro país a empregar a palavra Stato, embora
tenha um significado vago. Já a Inglaterra, no século XV, e posteriormente a França
e a Alemanha, no século XVI, usaram o termo Estado como uma definição da ordem
pública. Porém, quem introduziu efetivamente a expressão na literatura
científica foi o filósofo Maquiavel, em seu livro “O príncipe”, escrito em 1513.
Não é uma tarefa fácil investigar com precisão o aparecimento do Estado, mas a
análise das concepções antropológicas, jurídicas e filosóficas ajudam a desvendar
paradigmas encontrados na Antiguidade e na Idade Média. Existem três posições
sintetizadas pelo jurista brasileiro Dalmo de Abreu Dallari para a formação do
Estado:
 1º Posição: conceitua que o Estado sempre existiu, desde que o homem
habita o planeta Terra. Encontra-se em um contexto de organização social.
 2º Posição: a sociedade humana existia antes mesmo do Estado, assim ele
foi criado para atender às necessidades do grupo social.
 3º Posição: o Estado como uma sociedade política é dotado de certas
características bem definidas. Assim, ele é concreto e histórico, não de
caráter geral e universal. O Estado surgiu quando nasceu a ideia de
“soberania”.
Após essa contextualização, torna-se essencial aprendermos os elementos básicos
para a formação do Estado. Vamos entender quais são eles?
POVO, TERRITÓRIO E SOBERANIA
A formação de um Estado consiste em três elementos: uma população, um
território e um governo. Esses aspectos são essenciais, porque sem eles não
poderia existir um Estado. Vamos entender cada um deles?
 Povo
Diz respeito a todos que habitam o território, englobando todas as pessoas, mesmo
que elas estejam temporariamente no território ou que não tenham qualquer vínculo
com o Estado. Mas há uma diferença entre as referências de população, povo e
cidadão. Para entender: a população refere-se brasileiros e estrangeiros (em
território nacional), a palavra povo se caracteriza pelos natos e naturalizados, e os
cidadãos são os nacionais que possuem direitos políticos.
 Território
É o lugar onde há aplicação do ordenamento jurídico, a base física em que está
fixado o elemento humano. É nele que o governo pode exercer a sua organização e
validar suas normas jurídicas. Constitui-se do solo, subsolo, águas territoriais, ilhas,
rios, lagos, portos, mar e espaço aéreo.
 Soberania
Para o Jurista Miguel Reale, a soberania é o “[…] poder que tem uma nação de
organizar-se juridicamente e de fazer valer dentro de seu território a universalidade
de suas decisões nos limites e dos fins éticos de convivência”. Soberania é uma
autoridade superior que não pode ser limitada por nenhum outro poder. Com
isso em mente, sabemos que a soberania possui estas características:

 Una: é sempre um poder superior. Não podem existir duas soberanias
dentro de um mesmo Estado, por exemplo;
 Indivisível: aplica-se a todos os fatos ocorridos no Estado;
 Inalienável: quem a detém desaparece ao ficar sem ela, seja o povo,
nação ou o Estado;
 Imprescritível: não tem prazo de duração.
 ATUAÇÃO DO ESTADO
 Como vimos anteriormente, o Estado é formado por grupos de pessoas
convivendo em sociedade e que buscam metas em comum. Para a garantia
da sociedade, o Estado reúne objetivos de caráter fundamental, que são
efetivados pelos órgãos estatais, o Poder Legislativo, Poder Executivo, e um
conjunto de políticas de Estado e de governo. A Constituição Federal de 1988
descreve em seu artigo 3º os objetivos fundamentais que constituem a
República Federativa do Brasil:
 I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
 O Estado tem como objetivo propiciar o bem estar, harmonia social,
qualidade de vida e garantir todos os meios para que a democracia seja
exercida. Visa a um modelo de igualdade de oportunidades entre as pessoas.
Também são expostos os direitos fundamentais da primeira e terceira
geração, sendo a primeira “Liberdade”, enquanto a “Solidariedade” pertence à
terceira geração. São exemplos disso o direito à vida, à liberdade, à
propriedade, à liberdade de expressão, à participação política e religiosa,
direitos do consumidor, entre outros.
 II – garantir o desenvolvimento nacional;
 A garantia do desenvolvimento nacional é a competência de prover e
melhorar o bem estar social, sendo estendido pela política, economia e a
vida social. O processo de desenvolvimento nacional, leva em conta diversos
fatores, como o movimento popular. Disso se extrai a consciência de tornar-se
parte da vida política e nas decisões de nossos governantes, com a posterior
fiscalização de todas as iniciativas implantadas.
 III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais;
 A erradicação da pobreza e a marginalização foi desenvolvida com a
finalidade de reduzir as desigualdades sociais e regionais. Com isso,
busca-se condições mais apropriadas à dignidade. A essência da Constituição
Federal está inteiramente ligada ao respeito e à dignidade da Pessoa
Humana.
 IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo,
cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
 Todo Estado é composto por uma sociedade heterogênea, seja por meio de
ideologias, política, diferenças religiosas, culturais e étnicas. A função desse
fundamento é reconhecer, indistintamente, possíveis condições
referentes à igualdade, evitando a discriminação e levando a harmonia
entre os povos.

A submissão de Jair Bolsonaro aos interesses de Donald Trump foi duramente


criticada pelo jornalista Xico Sá, um dos grandes nomes da imprensa brasileira. "O
governo bolsoNada inventou uma espécie de patriotismo cuja principal vantagem é
entregar toda riqueza, do pré-sal à Amazônia, aos EUA, é sim um patriota às vessas,
um entreguista, um vendido, um corrupto máximo, um sem-noção e sem Nação",
afirmou.
Confira reportagem da Agência Sputinik sobre a Amazônia e o tweet de Xico
Sá:
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, prometeu nesta sexta-feira um
fundo de US$ 100 milhões liderado por empresas norte-americanas para conservar
a Amazônia brasileira, afirmou em entrevista coletiva em Washington com o ministro
de Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo.
"Vamos lançar um compromisso assumido em março, um fundo de investimento de
US$ 100 milhões de dólares, ao longo de 11 anos, para conservar a biodiversidade
na Amazônia, e esse projeto será liderado pelo setor privado", declarou Pompeo.
A promessa de criar um fundo para a Amazônia foi anunciada pela primeira vez em
março, quando o presidente Jair Bolsonaro se encontrou com Donald Trump na
Casa Branca.
Seguindo as palavras de Pompeo, Araújo criticou, sem citá-los, os governos que
questionam a capacidade do Brasil de proteger seus recursos naturais e falou da
soberania nacional que sublinha o entendimento com os Estados Unidos.
"Nossos amigos aqui nos EUA sabem que isso não é verdade [que o Brasil não é
capaz de suportar o desafio ambiental na Amazônia] e precisamos estar juntos no
esforço de criar um desenvolvimento conjunto que, estamos convencidos, é o único
caminho para proteger a selva", avaliou o chanceler brasileiro.
Críticas europeias
Nos últimos meses, a Noruega e a Alemanha suspenderam suas contribuições ao
Fundo Amazônia, um instrumento do governo brasileiro para receber doações
destinadas a preservar essa floresta, alegando que as taxas de desmatamento
estavam aumentando sem controle.
O presidente Bolsonaro respondeu com críticas aos dois países, observando que o
Brasil não precisa de ajuda de terceiros e sugerindo que a chanceler alemã Angela
Merkel poderia usar esse dinheiro para reflorestar seu próprio país.
Após os incêndios das últimas semanas, os países do G7 também prometeram um
fundo para ajudar o Brasil no combate a incêndios, que também foi recebido com
desconforto pelo líder brasileiro. Sobre isso, Araújo informou que Brasília crê que a
ajuda de Washington é mais efetiva do que a dos países europeus para a
conservação da Amazônia.
Durante sua visita de três dias a Washington, Araújo disse que discutiu um possível
acordo de livre comércio com o representante comercial dos Estados Unidos, Robert
Lighthizer, e com o secretário de Comércio, Wilbur Ross.
"Não há data específica, mas queremos em breve", revelou Araújo.

No Brasil, mais de 50% não sabem ler nem escrever até os 9 anos e 7% não
adquirem o conhecimento necessário em Matemática ao fim do ensino médio.
Infelizmente, no ranking da qualidade da educação 2018, divulgado pelo Fórum
Econômico Mundial, de 137 países avaliados, o Brasil ocupa a triste posição 119.
Portanto, o problema não se restringe a questões jurídicas, já que, obviamente,
crianças não podem ser filmadas sem autorização dos pais, nos termos do Estatuto
da Criança e do Adolescente. Não é só o desrespeito à Constituição, que desde
1891 proclama o Brasil um Estado laico, sendo inadmissível menoscabar os adeptos
de quaisquer credos ou religiões, assim como os ateus ou agnósticos.
Deus acima de todos pode ser um chamariz de campanha política e uma opção
religiosa individual, mas é ideia que não pode ser imposta aos ateus e agnósticos
nem nortear a política pública da educação, já que aqueles que não creem têm o
mesmo direito à educação que os que creem, mesmo que estes sejam maioria –
numa democracia a vontade da maioria prevalece para a escolha do governante,
que governa para todos.
É preocupante a ideologização da educação – tanto para um viés como para outro.
Todos têm direito a ela, que transforma as pessoas, sendo inadmissível ser utilizada
como instrumento para manipulação política, para formar massa de manobra
eleitoral.
E neste ponto vale refletir sobre a necessidade de reinserção das disciplinas de
Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política do Brasil (OSPB) na
grade curricular escolar, que durante algum tempo cheguei a pensar ser algo
razoável e positivo.
Não tenho dúvida da importância de se falar na escola sobre valores éticos,
humanismo, cidadania, Estado e suas funções, direitos e deveres de cada um e
cada uma. Mas tenho sérias dúvidas se a melhor forma é a reintrodução dessas
matérias, porque nos tempos em que elas eram ensinadas os respectivos conteúdos
eram impostos arbitrariamente pelo governo militar, que dava as cartas à época, o
que nos autoriza a imaginar que poderemos correr riscos de ver conteúdos
manipulados transmitidos nas aulas dessas disciplinas, distantes do verdadeiro,
nobre e humanista espírito educativo apartidário.
A carta do ministro da Educação reforça e reaviva a preocupação, não obstante
fazer ele parte de um governo eleito democraticamente. Também o foram Trump nos
Estados Unidos, Putin na Rússia, Erdogan na Turquia, Orbán na Hungria, objeto de
análise dos professores de Ciência Política de Harvard Ziblatt e Levinsky, autores da
festejada obra Como as Democracias Morrem, em que mostram como instituições
democráticas podem ser dinamitadas pelo mau uso das próprias regras do jogo
democrático e por posturas ditatoriais. Por minha conta acrescento o caso Hugo
Chávez na Venezuela.

PATRIOTISMO
A palavra “pátria” tem origem no termo latino patria ou, no grego, patris. De acordo
com o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, designa “o país onde nascemos”,
“nosso lugar de origem”. A pessoa que ama a pátria e procura servi-la é patriota, e o
patriotismo é, por sua vez, o sentimento de profunda compreensão e, consequente,
observância dos deveres cívicos, e admiração à própria nação.

NA DOUTRINA
A Igreja Católica ensina que os cristãos, por estarem no mundo, apesar de não
serem do mundo (cf. Jo 17,11.14), não se privam da vida civil, mas, pelo contrário,
se inserem nela como bons cidadãos que são chamados a ser (cf. Mt 22,21).
Contudo, não vivem somente uma certa civilidade, mas encaram a vida na
sociedade como um grande dever, incluído no Quarto Mandamento da Lei de Deus.
Santo Tomás de Aquino, na sua Suma Teológica (STh. II-II q.101), diz que o dever
do cristão em relação à pátria deriva da virtude da piedade filial, do dever de prestar
honra e culto àqueles que o precedem, de forma especial aos pais e à pátria,
aqueles por terem dado a vida natural, esta por ser o lugar em que a pessoa se
desenvolve e encontra seu espaço vital, além de viver a fraternidade com seus
concidadãos.
Também o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2239, esclarece que a virtude
do patriotismo faz com que cada cidadão colabore “com os poderes civis Também o
Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2239, esclarece que a virtude do
patriotismo faz com que cada cidadão colabore “com os poderes civis para o bem da
sociedade, num espírito de verdade, de justiça, de solidariedade e de liberdade. O
amor e o serviço da pátria derivam do dever da gratidão e da ordem da caridade”.

NACIONALISMO
É importante ressaltar que patriotismo é diferente de nacionalismo, que, por sua vez,
é um fenômeno de exaltação e preferência pela própria nação, muitas vezes, em
detrimento de outras. O patriota sabe que existem outras pátrias maiores, com maior
riqueza de criações científicas ou artísticas e, por isso, não se fecha para a
cooperação entre as nações, em vista do seu mútuo desenvolvimento. Já o
nacionalista se baseia na premissa de que a lealdade do indivíduo e devoção ao
estado-nação deve necessariamente estar acima dos outros indivíduos ou grupos de
interesses.
Nesse sentido, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, no artigo 157, ao referir-
se aos direitos e deveres dos povos e nações lembra que “a nação tem um
fundamental direito à existência; à própria língua e cultura” e que, acima de tudo,
deve haver uma livre cooperação em vista do bem comum da humanidade. “A ordem
internacional requer um equilíbrio entre particularidade e universalidade, ao qual são
chamadas todas as nações, para as quais o primeiro dever é o de viver em atitude
de paz, respeito e solidariedade com as outras nações”, afirma o texto.

SÃO PAULO - Ao participar nesta segunda-feira de uma palestra para estudantes,


em São Paulo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, defendeu a agenda de
reformas e pediu apoio de empresários para aprovar o projeto que propõe mudanças
tributárias .
- Os empresários foram muito patriotas na Previdência. O que queremos deles é o
mesmo patriotismo na reforma tributária. É fácil ser patriota no tema dos outros -
afirmou o presidente da Câmara durante debate que também contou com a
presença da ministra do Supremo Cármen Lúcia.
Para Maia, a reforma tributária deve ser mais difícil de passar no congresso do que o
texto da previdência - aprovado com ampla margem de votos - e cuja votação deve
ser retomada, em segundo turno, esta semana no legislativo. No primeiro turno, o
placar da previdência foi de 379 votos a favor e 131 contra.
O deputado se disse otimista e afirmou que vai encontrar líderes partidários ainda
esta noite para discutir o assunto.
- As pessoas estão mais conscientes. A gente está conseguindo discutir previdência
que é um tema que era um palavrão no passado. E esse é o desafio. Concentramos
muito recurso no lugar errado. É preciso de mais espaço para investimentos -
afirmou Maia.

“O patriotismo é exatamente o oposto ao nacionalismo. O nacionalismo o trai”,


afirmou Macron em discurso diante de cerca de 70 chefes Estado e de Governo
durante a cerimônia de comemoração do centenário do armistício da Primeira
Guerra Mundial no Arco do Triunfo de Paris.
Macron celebrou o patriotismo dos que combateram nessa disputa, por trás da qual
havia uma “visão da França como nação generosa, portadora de valores universais”
e disse que foram “esses valores os que faziam sua força, porque seus corações os
guiavam”.
“A lição da Grande Guerra – argumentou – não pode ser o rancor de um povo contra
outro, nem o esquecimento do passado”, mas as tentativas que houve depois de
1918 para construir a paz com “as primeiras cooperações internacionais”.
Por isso, Macron apostou por “um mundo no qual haja amizade entre os povos e no
qual as instâncias e os fóruns permitam aos inimigos de ontem estabelecer
diálogos”.
“Isso se chama no nosso continente a amizade criada entre a Alemanha e a França
(…). Isso se chama a União Europeia, uma união livremente consentida nunca vista
na história, que nos livra de guerras civis. Isso se chama Organização das Nações
Unidas, fiadora de um espírito de cooperação para defender os bens comuns de um
mundo cujo destino está indissoluvelmente unido”.
Macron fez notar que ao final da Primeira Guerra Mundial, a construção de todas
essas instituições multilaterais foi varrida. “A humilhação, o espírito de revanche, a
crise econômica e moral, alimentaram a ascensão do nacionalismo e do
totalitarismo”.
E advertiu que atualmente voltam a aparecer “os antigos demônios” e que “a história
ameaça retomar o seu passado trágico”.
Portanto, lembrou aos dirigentes que o escutavam a “imensa responsabilidade” que
têm para evitar tais fatos.
“Juntos podemos evitar essas ameaças que são o espectro da mudança climática,
da pobreza, da fome, da doença, das desigualdades e da ignorância. Iniciamos esta
luta e podemos vencer. Continuemos porque a vitória é possível”, disse.
O presidente francês terminou o discurso com um “viva a paz e a amizade entre os
povos!” e um “viva a França!”. EFE

MADELEINE ALBRIGHT sentiu o totalitarismo de perto. Fugiu dele duas vezes e o


viu frente a frente em mais de uma ocasião. Foi embaixadora nas Nações Unidas, a
primeira mulher a dirigir a diplomacia norte-americana (1997-2001, durante a
administração de Bill Clinton) e o primeiro membro do alto escalão do Governo dos
EUA a visitar a Coreia do Norte para tentar abrir uma negociação. No livro
"Fascismo: um alerta"(ed. Planeta) aborda um conceito fugidio, frequentemente
banalizado, do qual hoje vê lampejos preocupantes.

Albright está nesse período da vida em que a pessoa utiliza palavras fortes com uma
tranquilidade que desarma, como quando diz que Donald Trump é o presidente mais
antidemocrático da história moderna. E quando afirma, em uma frase já famosa, que
há um lugar especial no inferno reservado às mulheres que não apoiam outras
mulheres. Disse isso em um ato da campanha eleitoral de Hillary Clinton e recebeu
uma enxurrada de críticas. “Foi mal interpretado como se fosse preciso votar em
outra mulher porque sim. Mas eu não teria votado em Sarah Palin nem que fosse a
última pessoa sobre a terra”, diz.

Acha que se presta pouca atenção ao sexismo das mulheres? Eu


frequentemente vi como as mulheres não se ajudam entre elas. Fui mãe de gêmeos
e, depois disso, voltei a estudar, e quem mais me dificultava o caminho eram
mulheres, que me perguntavam por que não estava com meus filhos. Uma parte
disso tem a ver com ciúmes, outra é uma projeção da própria fraqueza.
Sua voz soa limpa e forte em seu escritório da Albright Stonebridge Group, uma
empresa de estratégia empresarial com sede em Washington, a três quarteirões da
Casa Branca. No paletó do terno azul exibe um de seus broches característicos. Em
uma das paredes repousa emoldurada uma cópia do registro de entrada nos
Estados Unidos de várias pessoas correspondente a 11 de novembro de 1948. Entre
os nomes está o de Marie Jana Korbelová, uma garota de 11 anos que nasceu em
Praga cuja família pedira asilo político nos Estados Unidos, fugindo do comunismo.
Antes havia escapado do regime nazista. É Madeleine Albright, uma das mulheres
mais poderosas do século XX.

O que é o fascismo? Um fascista se identifica como membro de um grupo tribal e


diz que esse grupo encarna uma nação. Um líder assim faz tudo o que for possível
para dividir a população em vez de uni-la. E o que separa um fascista de um ditador
é o uso da violência com a finalidade de conseguir e manter o que quer. O modo
mais fácil de defini-lo é com um valentão com exército.
Alguns desses elementos soam familiares. Lembram certas políticas na
Europa e nos EUA, mas acha que a volta do fascismo é um risco real em
democracias consolidadas? O livro se chama Fascismo: Uma Advertência, e há
quem o veja como alarmista. Mas foi feito sob medida, porque se começamos a
pensar que dividir as sociedades é normal e que é uma forma de solucionar
problemas, corremos um grave perigo. Um líder de tendências fascistas
provavelmente manterá as divisões e encontrará algum grupo como bode expiatório.
Agora, na Europa e nos Estados Unidos esses são os refugiados e os imigrantes. A
melhor citação do livro é de Mussolini, que disse: “Se você depenar um frango pena
por pena, ninguém percebe”. E acho que atualmente muitas penas estão sendo
arrancadas em muitos lugares. Na Hungria, [Viktor] Orbán acha que está fazendo
bem-feito e não quer saber das minorias. Ele define seu país como democracia
iliberal e isso significa, basicamente, que a maioria manda e não existem direitos às
minorias.
Falando de Mussolini, em seu livro conta que Churchill e Gandhi falaram dele
como “o sujeito adequado”. Eu me pergunto por que pensaram isso. Nos anos 30
as sociedades estavam muito divididas, algumas delas pelo que ocorreu na Primeira
Guerra Mundial e pela situação econômica, de modo que talvez pensassem que era
importante ter um líder forte no lugar de alguém que não soubesse o que fazer.
Mussolini vinha de fora do sistema, em um momento em que a Itália tinha um
Governo atrás do outro e uma crise econômica.
Mas hoje em dia há motivo para tanta irritação? Existem algumas razões. Na
Europa há uma insatisfação pela situação econômica. Muita gente se beneficiou
muito e de muitas formas com a globalização, mas isso tem um inconveniente. A
globalização não tem rosto, as pessoas não sabem que identidade tem e na Europa
se coloca realmente a pergunta sobre o que acontece em Bruxelas e quais são as
regras. Todos queremos saber qual é nossa identidade étnica, linguística e religiosa,
e tudo bem com isso, mas se minha identidade odeia sua identidade, se transforma
em algo muito perigoso.
É aí que está a diferença entre patriotismo e nacionalismo populista? Sim. O
patriotismo é uma coisa, é bom, mas o nacionalismo e o nacionalismo radical são
muito perigosos.
A senhora e sua família escaparam duas vezes de regimes totalitários. De que
maneira isso a marcou? De todas as maneiras. Quando os nazistas chegaram à
Tchecoslováquia em 1939, eu tinha dois anos, meu pai era um diplomata tcheco e
queria ficar com o Governo no exílio, em Londres. Ficamos lá durante a guerra.
Voltamos à Tchecoslováquia e em 1948 ocorreu o golpe comunista. Minha mãe,
meus irmãos e eu fomos por um tempo à Inglaterra e depois, como a ONU estava
em Nova York, nos instalamos lá. Meu pai chegou um pouco mais tarde, desertou e
pediu asilo político. Tudo isso afetou minha vida. Em primeiro lugar, acredito na
bondade dos EUA e nesse país como modelo de bons valores. A Tchecoslováquia foi
traída no acordo de Munique, que os britânicos e os franceses assinaram com
alemães e italianos sobre as cabeças dos tchecoslovacos. E os EUA não estavam
lá. Quando vivíamos como refugiados em Londres ocorreu o bombardeio e
finalmente os norte-americanos chegaram à Europa para participar da guerra, e tudo
mudou. De modo que sendo uma criança notei a diferença que significou a chegada
dos norte-americanos. Meu pai costumava dizer: “Na Inglaterra as pessoas são
muito gentis, nos dizem: ‘Sinto muito que seu país tenha caído nas mãos de um
ditador terrível, você é bem-vindo, mas... quando volta para sua casa?”. E nos EUA
nos diziam: “Sentimos muito, mas... quando você se transformará em cidadão norte-
americano?”. Meu pai me dizia que isso é o que transformou os EUA em um país
diferente. Isso me remete ao que acontece agora, quando o número de imigrantes
que chegam a esse país é o mais baixo da história e isso, para mim, é
antiamericano. É uma das coisas que me incomodam do que acontece hoje.
O que aprendeu com seus pais? O que mais admiro neles é como transformaram
em normal o anormal. Os dois vinham de famílias abastadas e de repente
estávamos morando na Inglaterra como refugiados. Depois voltamos e meu pai foi
nomeado embaixador em Belgrado e tínhamos cozinheiros e choferes e todas essas
coisas. Depois chegamos aos Estados Unidos e voltamos a não ter nada, éramos
refugiados. Tinham uma grande resistência. Lembro que minha mãe estava o tempo
todo preocupada.
Por quê? É algo que à época não entendia e agora sim. Morávamos em Denver
(Colorado) e não tínhamos parentes. Minha mãe dizia que todos eram velhos e
tinham morrido. Quando me nomearam secretária de Estado, um jornalista, Michael
Dobbs, começou a escrever um perfil sobre mim e descobri não só minha origem
judaica como também que 26 membros de minha família morreram em campos de
concentração. Meus pais se converteram ao catolicismo depois. Quando fiquei
sabendo, já haviam morrido.
“Não acho que Donald Trump seja um fascista, mas é o presidente norte-
americano mais antidemocrático da história moderna”
A partir dessa experiência vital, o que pensa do enfoque não só de Trump e
sim de muitos políticos da esquerda norte-americana, que não querem que os
EUA sejam a “polícia do mundo”? Os norte-americanos não querem ser a polícia
do mundo. Desde o começo de sua história, os EUA não foram colonialistas em
geral. Depois da Segunda Guerra Mundial ocorreu uma verdadeira sensação de
responsabilidade, mas os americanos não querem governar o mundo, posso
garantir. Clinton foi o primeiro a dizer que éramos a nação indispensável, mas
“indispensável” não quer dizer “sozinha”. Significa que precisamos estar envolvidos,
ter alianças com os parceiros adequados e ações multilaterais. O que acontece, em
parte como resultado da guerra no Iraque e no Afeganistão, é que os norte-
americanos agora precisam ser persuadidos a ajudar internacionalmente. Trump
brinca ao dizer que ninguém nos agradece, que não temos nada a ver com países
dos quais não ouvimos falar, e que somos vítimas. Mas é ridículo, somos o país
mais poderoso do mundo.
Que aspectos do Governo de Trump a preocupam mais? Não acho que Trump
seja um fascista, acho que é o presidente norte-americano mais antidemocrático da
história moderna. Ele não criou as condições que o levaram a ser eleito. Já existiam
divisões em nossa sociedade, algumas baseadas nas crises e em avanços
tecnológicos que fizeram com que as pessoas perdessem seus empregos. Trump
não respeita as instituições, acha que está acima da lei, chama os jornalistas de
inimigos do povo e culpa os imigrantes. Existem aspectos muito preocupantes. O
que Trump logicamente não fez foi usar a violência.
O que espera das negociações para a desnuclearização da Coreia do Norte? A
reunião de Singapura em junho foi por enquanto uma vitória para Kim Jong-un.
Trump já deu alguma coisa, deixou de realizar exercícios militares com nossos
aliados. Mas não está claro o que a Coreia do Norte deu em troca. É difícil de prever.
Eu fui o primeiro membro de um Governo norte-americano a visitar a Coreia do
Norte e as negociações de seus dirigentes são muito duras. Não sabemos qual será
o papel da China. Queríamos que nos ajudassem com tudo isso, mas Trump os está
castigando com taxas alfandegárias. É tudo muito confuso, mas é melhor falar com
Kim do que chamá-lo de “homem-foguete”.
Teme efeitos a longo prazo pelo distanciamento dos Estados Unidos em
relação a seus aliados tradicionais e da ONU? Sim. Vivemos tempos muito
complicados. Sou uma grande defensora da ONU, ainda que alguns aspectos
precisam melhorar. Tem um bom secretário geral, António Guterres, mas é difícil
[que a organização melhore] se os Estados Unidos não fizerem o que se espera que
devam fazer. Estou muito preocupada pelo lugar ao qual se encaminha a União
Europeia, defendo a OTAN e acho que todo mundo deve fazer sua parte, mas o
modo em que Trump falou sobre o assunto me inquieta.
Como vê essa química que Trump parece sentir com Vladimir Putin? Está além
do entendimento. Conheço Putin, é muito inteligente e sustentou uma aposta fraca e
muito bem jogada. É um agente da KGB, sabe como usar a propaganda,
desacreditou não só as eleições norte-americanas como também a Europa, mas
também é muito interessante ver o que ele fez no Oriente Médio, onde os russos se
transformaram em uma espécie de grandes atores. Há muito debate nos Estados
Unidos sobre qual é a base dessa relação e parte dela é que Trump adula Putin e
Putin adula Trump. Isso é o que as pessoas querem que seja investigado.
Quais foram o maior sucesso e a maior frustração ao longo de sua carreira?
Minha principal frustração foi como embaixadora nas Nações Unidas em um
momento em que havia terminado a Guerra do Golfo e Clinton disse que éramos
indispensáveis. Não estávamos fazendo o suficiente na Bósnia e nem rápido o
suficiente, e também não fizemos nada com Ruanda, e parte disse teve a ver com o
fato de que não tivemos a informação correta. O que considero meu maior sucesso
é Kosovo. Eu era à época a secretária de Estado. Disse: “Tudo bem, vamos fazer
alguma coisa”. Primeiro tive que convencer o Governo norte-americano, o secretário
de Estado pode dizer muitas coisas, mas não tem exército, de modo que precisa
convencer o Pentágono e o presidente. E chegou o momento em que decidimos
usar a força em Kosovo.
“Sou feminista; as sociedades são mais estáveis quando as mulheres têm
poder político e econômico. Mas não é fácil. É preciso que mais mulheres
estejam na sala”
E há 20 anos, como era viver tudo isso sendo mulher? Voltemos à Bósnia:
acompanhei o que acontecia com muita atenção. Pensei que deveríamos usar a
força para deter a limpeza étnica. Colin Powell era o chefe do Estado Maior
Conjunto. Nós dois éramos novos no cargo e Powell era esse homem grande e
bonito que aparecia de uniforme coberto de medalhas, que explicava muito bem as
coisas que podiam ser feitas e que nunca queria usar a força. E no final eu lhe disse:
“General Powell, para que está reservando todo esse Exército?”. E ele ficou muito
irritado comigo. Eu era uma mera mulher mortal, uma civil discutindo com um herói.
Tempos depois escreveu um livro em que disse que precisou “explicar
pacientemente” à embaixadora Albright que nossos soldados “não eram de
brinquedo”. Eu liguei para ele e perguntei porque dizia “pacientemente”. E me
respondeu que era porque eu não entendia nada. Depois me enviou um exemplar
assinado com uma dedicatória: “Com carinho e admiração, etc. Pacientemente,
Colin”. E eu lhe enviei uma nota de agradecimento dizendo “com admiração, etc.
Energicamente, Madeleine”. É um exemplo do que era ser mulher. Era a única
naquela sala. Eu continuava insistindo naquelas conversas que não podíamos deixar
aquelas pessoas morrerem e me diziam: “Não seja tão emotiva”. Aprendi a discutir
de forma diferente.
Diante dessa onda de feminismo, acha que a mudança é real? Não sei. O
importante é não permitir que agora ocorra um repúdio. Fui a primeira secretária de
Estado em colocar os assuntos da mulher no centro da política exterior, e não só
porque sou feminista e sim porque as sociedades são mais estáveis quando as
mulheres têm mais poder político e econômico. Mas não é fácil, é preciso que mais
mulheres estejam na sala. Quando era embaixadora na ONU, existiam 180 países
membros e somente outras seis mulheres. Agora há muitas outras embaixadoras,
ministras das Relações Exteriores, de Defesa... E é interessante o número de
mulheres que estão se candidato nas eleições ao Congresso norte-americano.
A senhora sempre foi feminista ou foi um processo? As duas coisas. Quando fui
à universidade achava que as mulheres eram capazes de fazer o que quisessem,
mas na geração seguinte o processo foi mais incisivo. Para mim, que tenho 81 anos,
a questão era tentar averiguar como crescer fazendo coisas interessantes. Sou
feminista. Há quem não goste da palavra, mas não é uma palavra ruim. Não acho
que o mundo deva ser comandado somente por mulheres. Quem acha isso se
esqueceu de como era no colégio, com todas aquelas meninas mandonas dizendo a
todo mundo o que deveriam fazer... É importante que exista uma colaboração entre
homens e mulheres.

Diante de qualquer manifestação nacionalista, escutei não poucas vezes o antigo


bordão de Samuel Johnson proferido feito sentença: "o patriotismo é o último refúgio
dos canalhas"
Quando explodiram as manifestações de junho de 2013 a partir da convocatória feita
pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o terrível sistema de transporte que
sofremos, não faltaram vozes contra o uso das bandeiras brasileiras pelas mãos
delicadas de uma classe média que parecia descobrir o gosto pelo protesto social.
Muitos amigos afirmavam que a evocação do nacional era um mau sinal: a direita
ganhava as ruas. Mais ainda: a direita nacionalista finalmente rangia seus dentes
contra um governo “progressista” que a mídia golpista quer derrubar. Enfim, eles
concluíam que nenhuma manifestação nacionalista pode ser de esquerda porque –
comprava-se uma vez mais – o nacionalismo é historicamente uma arma da direita.
Diante do espasmo nacionalista do ano passado ouvi, especialmente de pessoas
com passado ou sentimento de esquerda, que o nacionalismo – não havia mais
dúvidas – também aqui era expressão do “último refúgio dos canalhas”, tal como o
escritor inglês havia vaticinado de maneira aparentemente irremediável em 1735.
Afinal, “esta gente” que então reclamava é a mesma que sempre calou diante das
imensas carências do povo brasileiro. Esta gente – repetiam – jamais subiu num
ônibus ou metrô!! Não possuem, portanto, direito ao protesto com o sofrimento
alheio. De fato, é típico do comportamento classemédia a indiferença diante da
superexploração a que estão submetidos milhões de trabalhadores brasileiros. Com
frequência ideológica, a classe média, especialmente a alta, não cansa de culpar os
miseráveis por sua própria miséria: não gostam de trabalhar, possuem muitos filhos,
não tem disciplina, bebem, sambam, perdem tempo com futebol, etc... Em
consequência a classemédia acredita que o PIB cresce por passe de mágica e não
em função do suor e sangue de milhões de seres humanos que jamais poderão
usufruir dos resultados de seu próprio trabalho.
Não há dúvidas sobre a falta de sensibilidade social da classe média, pois ela pensa
e atua assim; mas este reconhecimento não concede razão aos “críticos
progressistas”. Há grave contradição na consciência sempre ingênua de pessoas
“progressistas”. De maneira geral o bando progressista defende os governos
Lula/Dilma. Alegam que diante dos tucanos e das circunstancias, é tudo que
podemos conseguir. Eles parecem esquecer – por pura conveniência - que
precisamente os governos Lula/Dilma são os maiores representantes do sentimento
de classe média, esta poderosa ideologia que atualmente governa a cabeça da
maioria. Não à toa, Lula insistia na exibição dos supostos 30 milhões de brasileiros
que assumiram a condição de classe média. Os analistas difundem esta ideologia
como algo essencialmente positivo, mas jamais eles próprios pensaram em
participar da nova classe média brasileira, pois esta incluiu tão somente aqueles que
recebem até 3 salários mínimos. A “nova classe média” seria muito boa para os
miseráveis, nunca para os defensores do governo que analisam a situação em salas
confortáveis ou em seminários acadêmicos; portanto, observam a vida nacional
longe, bem longe da tristeza que implica a vida comum, quase miserável, de milhões
de brasileiros.
Há algo de perverso nesta operação política. A ideologia que afirma a emergência
de uma nova classe média é também uma forma de digestão moral da pobreza que
conforta e ilude os “progressistas”. A política social – sempre necessária em países
dependentes – é motivo de orgulho para os petistas, mas é também conveniente
para a classe dominante na medida em que a famosa “questão social” encontrou
finalmente uma fórmula mágica e eficaz de solução: não mais se trata de “um caso
de polícia” – como aprece ter afirmado na década de 30 o presidente Washington
Luís – mas um caminho seguro de atender aos pobres e miseráveis sem tocar no
poder, na propriedade e nos ganhos dos ricos. Não há que iludir-se com o
fundamental, afinal, como insistiu Lula, “os ricos nunca ganharam tanto no meu
governo”. Os pobres e os miseráveis, sempre submetidos à superexploração, votam
massivamente em Lula e Dilma para não perder as migalhas que ganharam. Os
ricos seguem acumulando sem grande estorvo. Enfim, parece que vivemos no
“melhor dos mundos possíveis”!
Contudo, o bando que divulga a melhoria da situação do país reconhece que os
serviços públicos são mesmo péssimos, razão pela qual o protesto pode emergir de
maneira inesperada em qualquer momento e situação.
Foi neste contexto que as bandeiras verde-amarelas voltaram às ruas. Não era a
primeira vez, é preciso recordar. Na campanha das “diretas já” (1985) a bandeira
nacional figurava como artigo quase militante e nos principais comícios se cantava o
hino nacional com fervor contra a ditadura. Mas a memória é, nas filas da esquerda,
um recurso de luxo e à direita, um artigo inconveniente. Por esta razão, a crítica
contra o uso da bandeira nacional – e o nacionalismo ambíguo – voltou com força e
figurou como expressão de novidade. Chegamos ao absurdo de supor que ninguém
pode reivindicar a condição de crítico senão se afastar do nacionalismo, esta força
que figura entre nós como espécie de lepra política.
O uso indevido da famosa frase de Johnson (“o patriotismo é o último refúgio dos
canalhas”) é, ainda que não pareça, fruto de um enorme desconhecimento da
história da Inglaterra. Mas também é produto de um gigantesco erro estratégico da
esquerda brasileira, tributária do eurocentrismo, esta poderosa ideologia fomentada
desde a Europa e os Estados Unidos. Entre nós, o eurocentrismo aparece como
apreço alienante ao cosmopolitismo e rechaço ao nacionalismo.
Vamos analisar os dois temas.

O nacionalismo inglês de Johnson


Os patriotas eram na Inglaterra de Johnson uma tendência política tal como existiam
trabalhistas no Brasil ou existem peronistas na Argentina e democratas nos Estados
Unidos. Enfim, antes que necessariamente nacionalistas, eram uma corrente de
opinião, partidária e política, numa Inglaterra que apenas começava colher os frutos
daquilo que os ingleses chamam com desmedido orgulho nacional, Revolução
Gloriosa. Os patriotras, em consequência, militavam no patriotismo.
Foi precisamente em 1774, portanto um ano antes de afirmar que “o patriotismo é o
último refúgio dos canalhas”, que Johnson escreveu um famoso panfleto de
campanha – The Patriot – destinado a defender uma vez mais o voto nos patriotas.
Trata-se de um texto por encomenda que o escritor produziu com evidente ardor
patriota e profunda convicção política.
Donald Green, organizador de vários escritos de Johnson, afirma que “desde a
década de 1730 esta palavra havia sido o grito de todo grupo de oposição
descontente, qualquer que fosse sua composição e objetivo”. Os patriotas
atravessaram um século com certo prestígio de tal forma que os radicais de 1760 e
os reformadores parlamentares de 1780, recorriam a legitimidade histórica para
afirmar suas ideias e políticas muitos anos depois de ter inicio este curioso
movimento de ideias. Betty Kemp escreveu que “o programa patriota significava, na
prática, place bills, parlamentos de curta duração, eleições livres, a destruição da
influência do Rei sobre o Parlamento”.
Não estavam sozinhos. Jamais esqueço David Ricardo, segundo Marx o mais
importante economista do século XVIII, também apresentou uma reforma
parlamentar em 1818 e jamais conseguiu aprová-la porque, precisamente, tentava
diminuir o poder do Rei com a introdução do voto secreto, mandatos parlamentares
curtos e direito de voto aos que pagavam impostos e não exclusivamente aos
proprietários. O parlamento nunca aprovou sua tímida proposta de reforma. E David
Ricardo era um fervoroso nacionalista, embora jamais se definiu como tal pois, ao
contrário de Johnson, viveu numa época em que seu país já era a potencia
dominante na Europa. Na época ricardiana a Inglaterra já era a nação mais
poderosa do continente europeu e a tarefa de todo inglês culto era condenar os
demais povos na pretensão de construir sua nação. Enfim, toda figura inglesa de
prestígio e/ou influencia era, antes de qualquer outra coisa, nacionalista.
Na Inglaterra do século XVIII os nacionalistas consequentes assumiam o
patriotismo. Os oportunistas, após tentarem de todas as formas coquetear com o
Rei, após operar inúmeras manobras e bandaços – hoje com os liberais e amanha
com os conservadores – quando viam as portas da política parlamentar se
fecharem, não vacilavam em recuperar o prestígio perdido candidatando-se pelo
patriotismo que atravessava décadas resistindo o teste decisivo do tempo com
vitalidade e credibilidade junto ao povo inglês.
Portanto, o patriotismo – antes que uma tendência nacionalista semelhante que
aflora na América Latina – era uma espécie de tradição política que marcava a linha
oposicionista ao Rei num contexto de uma operação difícil. Mas era evidente que os
patriotas professavam amor à Inglaterra e, a sua maneira, eram também
nacionalistas. Nunca foi fácil opor-se a reis na Europa. Johnson, em consequência,
escreveu profusamente tentando sempre salvar o patriotismo dos oportunistas de
todos os matizes. Não poderia ter sido mais favorável ao patriotismo ao afirmar que
“um Patriota é aquele cuja conduta pública esta regulada por um único motivo, o
amor a seu país; aquele que, como agente no Parlamento, não tem esperança nem
temor por si mesmo, sem amor nem resentimento, mas para o qual tudo se refere ao
interesse comum”.
Alguém poderia ter dúvida de seu absoluto entusiasmo pelo patriotismo? Agregou
que a “qualidade do patriotismo é ser zeloso e vigilante, observar todas as
maquinações secretas e ver os perigos públicos a distância. O verdadeiro “amante
de seu pais” esta disposto a comunicar seus temores e a dar alarme cada vez que
percebe que se aproxima um mal...”. Enfim, escreveu copiosamente a favor dos
Patriotas com um único objetivo: revelar os falsos patriotas, especialmente aqu*eles
que sendo execrado pelos demais partidos pela porta de trás pretendiam ressurgir
das cinzas entrando no patriotismo pela janela. Diante de seu fracasso em impedir
os oportunistas e trapaceiros de toda espécie em prosperar nas fileiras em que ele
com tanto zelo militava, não vacilou em alertar que o “patriotismo é o último refúgio
dos canalhas”! Jamais foi sua intenção liquidar ou diminuir o patriotismo (ao
contrário!!!), mas única e exclusivamente impedir o domínio da canalha nesta
importante tradição política.
Este é o sentido profundo da famosa frase de Johnson que antes de morrer – em
1775 – escreveu um largo ensaio sobre as Ilhas Malvinas, este território que até
mesmo os britânicos cosmopolitas ainda acreditam ser propriedade inglesa. O estilo
literário do escritor inglês não esconde algo fundamental: seu texto era, de maneira
discreta, uma defesa sobre a soberania inglesa das Ilhas que são da Argentina. No
entanto, com tom de quem desdenha o território além-mar, ele não deixou de
defender discretamente a soberania inglesa sobre o território argentino, mesmo
espetando o Rei e o desejo de parte dos políticos ingleses em fazer e lucrar com as
guerras. Não por acaso, quando madame Margareth Teacher decidiu atacar a
Argentina para recuperar o território perdido momentaneamente em 1982 em plena
ditadura militar no país vizinho, o velho panfleto de Johnson foi novamente editado
aos milhares pela elegância e por sua discreta natureza nacionalista. Ninguém pode
duvidar da devoção de Johnson à Inglaterra. Ele jamais se alinhou ou escreveu
sobre as virtudes do cosmopolitismo. Jamais se pensou “cidadão do mundo”, como
se as fronteiras nacionais não mais existissem porque precisamente na época em
que viveu elas estavam apenas nascendo.

O erro estratégico da esquerda


A esquerda brasileira sofre profundo processo de redefinição. Também o protesto
social busca caminhos eficazes de combate e reivindicação, moldando lentamente,
de maneira acidentada, seu novo perfil. Neste contexto, é claro que esta difícil definir
quem é de esquerda no Brasil. Não tenho dúvidas que muita gente auto-definida
como “progressista” pretende, na verdade, o monopólio da esquerda. É a forma
envergonhada de “afirmação” do campo da esquerda, atitude que expressa além de
oportunismo, uma dificuldade real do processo político. Em geral eles defendem Lula
e Dilma como se, de fato, o atual governo fosse o horizonte da política possível. Em
consequência, os “progressistas” atribuem às massas seu próprio limite político e,
das frações de classe, constituem a mais vulnerável ao modismo cultural from
esteiteis. Esta é uma das razões pelas quais não aprovam a cultura nacional e não
poucos duvidam abertamente de sua existência. Também por isso, estão sempre
“abertos” ao modismo cultural, via pela qual tem livre curso o colonialismo emanado
dos centros metropolitanos (Nova York e Paris, na cabeça).
Para estes, nada pior que um proleta carregando uma bandeira do Brasil. Nada mais
alienante que um negro favelado empinando o pavilhão nacional. Enquanto condena
a lepra política do nacionalismo nos trópicos, o sujeito vai pra Europa e se encanta
com a comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa – uma data nacional –
ou vive com êxtase os festejos do “Independence day” nos Estados Unidos, mas
detesta qualquer manifestação na sua própria Pátria, cuja manifestação, mesmo
quando singela, não será considerada menos que um estorvo. Nestas circunstâncias
o nacionalismo é, para os progressistas, uma demonstração inequívoca de que os
pobres são massa de manobra da direita. Os progressistas agregam que nada pode
ser mais provocador que um sujeito de classe média coberto pela bandeira nacional
protestando contra o governo que mais fez pelos pobres em nossa história. Nada
pior que uma classe média de unhas bem pintadas, cabelos ordenados, roupa clean
e pele branca protestando contra o “seu” governo. É precisamente nestas
circunstancias quando recordam e repetem com entusiasmo que “o patriotismo é o
último refúgio dos canalhas”.
Embutido na operação, claro está que os “progressistas” reafirmam sua filiação ao
internacionalismo abstrato que os impede de se assumir como esquerda nacional.
Prefere, em oposição, professar apego ao cosmopolitismo idiota e alienante que
orienta sua literatura preferida, as marcas do vinho francês que aprecia, o padrão de
vida e o consumo típico da indústria cultural. Eles resistem em assumir a cultura
nacional como condição necessária da Revolução Brasileira. No limite – repito –
duvidam ou rechaçam inclusive a ideia de uma “cultura brasileira”. Em
consequência, mesmo que expressem certo apoio aos “bolivarianos” de outros
países, na prática não deixam de considerar esta perspectiva como “brega” ou
imprópria para um país moderno e “complexo” como o Brasil mais assemelhado a
França do que ao México ou Argentina.
A chamada inteligência brasileira, quase que reduzida ao mundinho universitário e a
sedução midiática, não consegue romper com sua formação europeia, canônica,
repetitiva da indústria cultural. Em consequência, ela adora shoppincenter. Cinema
Cult. Escrever e publicar em inglês. Quando se debruça sobre a cultura brasileira,
prefere sempre Machado à Lima Barreto na mesma medida em que dedica atenção
especial à Chauí – e seu infinito apreço pela cultura nacional francesa – enquanto
desconhece Álvaro Vieira Pinto com seu enorme conhecimento sobre o Brasil. É
neste momento conclusivo que nos espetam contra a lepra nacionalista e repetem
Johnson. Contudo, devo recordar uma vez mais, para desespero dos opositores do
nacionalismo, que Johnson morreu patriota.

O nacionalismo na América Latina


O nosso nacionalismo, o nacionalismo latino-americano é, como podemos ler num
texto esquecido de Gilberto Freyre, um “nacionalismo de proteção” que somente se
justifica porque o mundo esta comandado por um “nacionalismo agressivo”, de corte
imperialista, aquele mesmo com o qual os ingleses inauguram sua hegemonia
mundial no século XIX. Este reconhecimento elementar sobre a natureza decisiva do
nacionalismo nos países dependentes registrado por um conservador como Freyre
passa batido pela esquerda que se pretende “moderna” e “culta”, sem vínculos
profundos com a cultura nacional. Aqui entre nós, nem nacionalismo, nem
patriotismo é conveniente, ensinam os moderninhos. Eles esquecem – ou fingem
esquecer – que a vida nos Estados Unidos, ou em qualquer país europeu “civilizado”
de preferência, esta orientado por profundo nacionalismo. Bastaria ler o discurso de
posse de Barak Obama para perceber o elementar ou acompanhar com alguma
atenção as ações e discursos de senhora Merkel na Alemanha ou Holland na
França. Ambos são, cada qual à sua maneira, disciplinados nacionalistas.
Agressivos nacionalistas, diria.
E o que seria o nosso patriotismo? Na pluma de Lima Barreto, as virtudes de
Policarmo Quaresma definem o tema: “Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos
vinte anos, o amor da pátria tomou-o por inteiro. Não fora o amor comum, palrador e
vazio, fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou
administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez
pensar, foi um conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus
recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com
pleno conhecimento de causa”. Enfim, nada que se possa aprender num texto de
Raws, Bourdieu ou Habermas.

Bem sei que no lugar da cultura nacional, o colonialismo alienante que comanda a
vida acadêmica no país – especialmente no jornalismo e na reduzida vida intelectual
– indica as virtudes do cosmopolitismo como caminho racional e seguro pra êxito
profissional e audiência pública. A conduta nacionalista é logo escrachada
impiedosamente enquanto para o “universalismo” se rendem todas as homenagens.
Colonialismo na veia, apresentado como se de fato fosse universalismo virtuoso,
representante do bem da Humanidade.
Alguém, acaso, poderia ser contrário a influencia da “cultura universal” sobre nossas
vidas? Bem, se tal coisa existisse – a cultura universal – definitivamente não
poderíamos nem deveríamos nos opor. Ao contrário, se um belo dia, ao despertar,
nos encontrássemos com a existência da “cultura universal” deveríamos abraçá-la
como patrimônio comum da Humanidade. O que temos, no entanto, é algo
substancialmente diferente. Quando alguém aqui no Brasil reivindica as virtudes do
cosmopolitismo com inusitada frequência pretende, na pratica, tão somente a defesa
da indústria cultural dos Estados Unidos. No rádio, no jornal e na TV. Na editora e na
linguagem corrente. Na novela com grande audiência e na canção de moda. Na
arquitetura estilo shopping e na vestimenta. Em quase tudo. Ligue uma emissora de
rádio qualquer e desfrute da música universal que ali toca: não há – quase nunca há
– música árabe, latino-americana, francesa, espanhola ou catalã. Não toca Vila
Lobos, Yamandú ou Paco de Lucia. A música que ali domina é from esteites, em
geral de péssima qualidade. A boa música gringa – que de fato existe – quase não
chega até nós.
É por esta razão, e não por suposta deformação genética dos latino-americanos,
que a atitude nacionalista ou o programa nacionalista entre nós adquire muito
facilmente um caráter anti-imperialista na defesa da economia, da cultura, do
território, da soberania. O poder dos Estados Unidos é tal sobre nossa vida material
e espiritual que, por mero ato de sobrevivência, deveríamos ser todos, em medida
distinta, nacionalistas. Enfim, deveríamos ser patriotas, tal como Johnson o foi na
sua amada Inglaterra no século XVIII. Melhor ainda seria se adotássemos a
perspectiva de Marx e entendêssemos que o fim das nações seria efetivamente bom
pra todos nós e fatal para os capitalistas. Mas eu sei que seria pedir demasiado.