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Ideologia. In: BOTTOMORE, Tom. Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro, Zahar, 2009,
pp. 183-186.

IDEOLOGIA
Duas vertentes do pensamento filosófico crítico influenciam diretamente o conceito de ideologia de Marx
e de Engels: de um lado, a crítica da religião desenvolvida pelo materialismo francês e por Feuerbach e,
de outro, a crítica da epistemologia tradicional e a revalorização da atividade do sujeito realizada pela
filosofia alemã da consciência e particularmente por Hegel. Não obstante, enquanto essas críticas não
conseguiram relacionar as distorções religiosas ou metafísicas com condições sociais específicas, a
crítica de Marx e Engels procura mostrar a existência de um elo necessário entre formas "invertidas" de
consciência e a existência material dos homens. É essa relação que o conceito de ideologia expressa,
referindo-se a uma distorção do pensamento que nasce das contradições sociais e as oculta. Em
conseqüência disso, desde o início, a noção de ideologiaapresenta uma clara conotação negativa e
crítica.
Em contraste com uma leitura puramente sincrônica dos escritos de Marx, é necessário considerar o
conceito de ideologia dentro do contexto das várias fases do desenvolvimento intelectual de Marx,
mesmo que não se admita qualquer "ruptura epistemológica" dramática entre tais fases. Um núcleo
básico de significação encontra novas dimensões quando Marx desenvolve sua posição e ataca novas
questões. A primeira fase compreende os seus primeiros escritos e vai até 1844. A característica desse
período é o debate filosófico no qual os principais pontos de referência são Hegel e Feuerbach. A
expressão "ideologia" ainda não aparece nos textos de Marx, mas os elementos materiais do futuro
conceito já estão presentes em sua crítica da religião e da concepção hegeliana do Estado, definidas
como "inversões" que obscurecem o verdadeiro caráter das coisas. A "inversão" hegeliana consiste na
conversão do subjetivo em objetivo, e vice-versa, de tal modo que, partindo da suposição de que a Idéia
se manifesta necessariamente no mundo empírico, o Estado prussiano surge como a auto-realização da
Idéia, como o "universal absoluto" que determina a sociedade civil, em lugar de ser por ela determinado.
Mas a inversão hegeliana não é produto de uma percepção ilusória. Se o ponto de vista de Hegel é
abstrato, é porque "a 'abstração' é a do Estado político", como diz Marx no capítulo sobre a Legislatura de
sua Crítica da filosofia do direito de Hegel. Nesse sentido, ele afirma que a fonte da inversão ideológica é
uma inversão da própria realidade. A mesma idéia existe na crítica da religião feita por Marx. Embora
aceite o princípio básico de Feuerbach de que o homem faz a religião e de que a idéia segundo a qual
Deus fez o homem é uma inversão, Marx vai mais longe ao argumentar que essa inversão é mais do que
uma alienação filosófica ou simples ilusão — ela expressa as contradições e sofrimentos do mundo real.
O Estado e a sociedade produzem a religião, "que é uma consciência invertida do mundo, porque eles
próprios são um mundo invertido", sustenta Marx em seu texto conhecido como "Crítica da filosofia do
direito de Hegel: introdução", publicado em 1844 nos Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-
Alemães). A inversão religiosa compensa, no espírito, uma realidade deficiente, reconstitui na imaginação
uma solução coerente que está além do mundo real, para compensar as contradições desse mundo real.
A segunda fase começa com o rompimento com Feuerbach em 1845 e vai até 1857. É um período
dominado pela construção, por Marx e Engels, do materialismo histórico, em que as premissas gerais de
sua abordagem da sociedade e da história são desenvolvidas e a tendência feuerbachiana da primeira
fase é definitivamente abandonada. Nesse contexto, o conceito de ideologia é introduzido pela primeira
vez. A idéia de uma inversão é conservada, mas Marx a amplia para abranger a crítica da religião e da
filosofia de Hegel e que os jovens hegelianos vinham desenvolvendo.
Marx compreende que essa crítica depende das próprias premissas hegelianas, pois os jovens
hegelianos acreditam que a tarefa é libertar o homem das idéias errôneas. "Mas eles esquecem — diz
Marx — que a essas frases estão apenas opondo-se outras frases e não estão, de modo algum,
combatendo o mundo real que de fato existe." (A ideologia alemã, vol. 1,1). Assim, a inversão que Marx
passa a chamar de ideologia subsume tanto os velhos como os jovens hegelianos e consiste em partir
da consciência em vez de partir da realidade material. Marx afirma, pelo contrário, que os verdadeiros
problemas da humanidade não são as idéias errôneas, mas as contradições sociais reais e que aquelas
são conseqüência destas.
Com efeito, enquanto os homens, por força de seu limitado modo material de atividade, são incapazes dei
resolver essas contradições na prática, tendem a projetá-las nas formas ideológicas de consciência, isto
é, em soluções puramente espirituais ou discursivas que ocultam efetivamente, ou disfarçam, a existência
e o caráter dessas contradições. Ocultando-as, a distorção ideológica contribui para a sua reprodução e,
portanto, serve aos interesses da classe dominante. Portanto, aideologia surge como um conceito
negativo e restrito. É negativo porque compreende uma distorção, uma representação errônea das
contradições. É restrito porque não abrange todos os tipos de erros e distorções. A relação entre as idéias
ideológicas e não-ideológicas não pode ser interpretada como a relação geral entre erro e verdade. As
distorções ideológicas não podem ser superadas pela crítica, só podem desaparecer quando as
contradições que lhes deram origem forem resolvidas na prática.
A terceira fase começa com a redação dos Grundrisse em 1858 e caracteriza-se pela análise concreta
das relações sociais capitalistas adiantadas que culmina em O Capital. A palavra ideologia quase que
desaparece desses textos. Não obstante, a pertinência da análise econômica de Marx para o conceito
evidencia-se com o uso constante e a reelaboração da noção de inversão. Marx já havia chegado à
conclusão de que, se algumas idéias deformavam ou "invertiam" a realidade, era porque a própria
realidade estava de cabeça para baixo. Mas essa relação aparecia de maneira direta, não-mediada. A
análise específica das relações sociais capitalistas leva-o à conclusão mais avançada de que a conexão
entre "consciência invertida" e "realidade invertida" é mediada por um nível de aparências que é
constitutivo da própria realidade. Essa esfera de "formas fenomenais" é constituída pelo funcionamento do
mercado e da concorrência nas sociedades capitalistas, e é uma manifestação invertida da esfera da
produção, o nível subjacente das "relações reais". Como diz Marx:
tudo parece invertido na concorrência. O padrão final das relações econômicas vistas superficialmente em
sua existência real, e conseqüentemente nas concepções pelas quais os seus portadores e agentes
procuram compreendê-las, é muito diferente, e, na verdade, é o próprio inverso, de seu padrão interno
essencial, mas oculto, e da concepção que a ele corresponde (O Capital, III, cap. XII).
Portanto, a ideologia oculta o caráter contraditório do padrão essencial oculto, concentrando o foco na
maneira pela qual as relações econômicas aparecem superficialmente. Esse mundo de aparências
constituído pela esfera de circulação não só gera formas econômicas de ideologia, como também é "um
verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem, onde reinam a Liberdade, a Igualdade, e Propriedade e
Bentham". (O Capital, I, cap. VI). Sob esse aspecto, o mercado é também a fonte daideologia política
burguesa: "a igualdade e a liberdade são, assim, não apenas aperfeiçoadas na troca baseada em valores
de troca, como também a troca dos valores de troca é a base produtiva real de
toda igualdade e liberdade." (Grundrisse, Capítulo sobre o capital). Mas é claro que a ideologiaburguesa
da liberdade e da igualdade oculta o que ocorre sob o processo superficial de troca, onde "essa aparente
igualdade e liberdade individuais desaparecem" e "revelam-se como desigualdade e falta de
liberdade" (ibidem).
A partir da crítica inicial da religião, até o desmascaramento das aparências econômicas mistificadas e
dos princípios aparentemente libertários e igualitários do capitalismo, há uma notável coerência na
compreensão da ideologia por Marx. A idéia de uma dupla inversão, na consciência e na realidade, é
conservada em todos os momentos, embora no fim se torne mais complexa, graças à distinção de um
duplo aspecto da realidade no modo de produção capitalista. A ideologia, portanto, conserva sempre a
sua conotação critica e negativa, mas o conceito só se aplica às distorções relacionadas com o
ocultamento de uma realidade contraditória e invertida. Nesse sentido, a definição, tão freqüente,
de ideologia como falsa consciência não é adequada na medida em que não especifica o tipo de
distorção criticada, abrindo dessa forma caminho a uma confusão de ideologia com todos os tipos de
erro.
Pouco depois da morte de Marx, o conceito de ideologia começou a adquirir um novo significado. A
princípio não perdeu necessariamente a sua conotação crítica, mas surgiu uma tendência a colocar esse
aspecto em segundo lugar. Os novos significados tomaram principalmente duas formas, ou seja, uma
concepção da ideologia como a totalidade das formas de consciência social — que passou a ser
expressa pelo conceito de "superestrutura ideológica" — e a concepção da ideologiacomo as idéias
políticas relacionadas com os interesses de uma classe. Embora esses novos significados não fossem
resultado de uma reelaboração sistemática do conceito dentro do marxismo, acabaram por substituir a
conotação negativa original. As causas desse processo de deslocamento são complexas. Em primeiro
lugar, elementos de um conceito neutro de ideologiapodem ser encontrados em certas formulações dos
próprios Marx e Engels. Apesar da tendência básica que apresentam na direção de um conceito negativo,
seus textos não estão isentos de ambigüidades e afirmações pouco claras, que ocasionalmente parecem
indicar uma direção diferente. Gramsci, por exemplo, cita com freqüência o trecho do "Prefácio" de 1859
no qual Marx se refere às formas jurídicas, políticas e filosóficas — "em suma, formas ideológicas pelas
quais os homens tomam consciência desse conflito e o solucionam pela luta" — em apoio de sua
concepção da ideologia como a esfera supe-restrutural que tudo abrange, na qual os homens adquirem
consciência de suas relações sociais contraditórias. (Gramsci 1971: 138, 164, 377). Engels, por sua vez,
refere-se, em algumas passagens, à "superestrutura ideológica", às "esferas ideológicas" e ao "domínio
ideológico" com uma generalidade suficiente para que seja possível acreditar que aideologia abrange a
totalidade das formas de consciência. (Anti-Dühring, cap. IX).
Outro importante fator que contribuiu para essa evolução no sentido de um conceito positivo
deideologia é o fato de que as duas primeiras gerações de pensadores marxistas posteriores a Marx não
tiveram acesso ao texto de A ideologia alemã, que permaneceu inédito até a década de 1920. Assim,
Plekhanov, Labriola e, mais significativamente, Lenin, Gramsci e o Lukács dos primeiros escritos não
estavam familiarizados com a argumentação mais vigorosa de Marx e Engels em favor de um conceito
negativo de ideologia. Na ausência dessa obra, os dois textos mais influentes para a discussão do
conceito eram o "Prefácio" de 1859, de Marx, e o Anti-Dühring, de Engels, freqüentemente citados pelas
novas gerações de marxistas. Não obstante, esses dois textos encerram ambigüidades importantes e não
estabelecem uma distinção adequada entre a relação base-superestrutura e o fenômeno ideológico.
Assim, progressivamente a idéia de uma superestrutura ideológica firmou-se através das obras de
autores como Kautsky, Mehring e Plekhanov. Mas até 1898 nenhum dos autores da primeira geração
chamou claramente o próprio marxismo de ideologia.
O primeiro pensador que colocou o problema de se o marxismo era ou não uma ideologia foi Bernstein.
Sua resposta é que, embora as idéias proletárias tenham uma direção realista, porque se referem a
fatores materiais que explicam a evolução das sociedades, elas ainda são reflexos do pensamento e,
portanto, ideológicas. Ao identificar a ideologia com idéias e ideais, Bernstein apenas repete o que
Mehring e Kautsky já haviam dito. Mas chega à conclusão óbvia a que os outros não haviam chegado, ou
seja, a de que o marxismo deve ser uma ideologia. É sintomático da ausência de qualquer idéia clara
sobre um conceito negativo de ideologia o fato de que, embora Bernstein já estivesse sendo atacado
pela sua "revisão" de Marx, nenhum de seus críticos marxistas o contestou sob esse aspecto. Isso mostra
que a primeira geração de marxistas não achou que fazia parte da essência do marxismo a defesa de um
conceito negativo de ideologia.
A mais importante causa da evolução do conceito de ideologia, porém, é positiva, e está nas lutas
políticas das últimas décadas do século XIX, particularmente as que tiveram lugar na Europa Oriental. O
marxismo centraliza sua atenção na necessidade de criar uma teoria da prática política e, portanto, sua
evolução passa a relacionar-se cada vez mais com as lutas de classe e as organizações partidárias.
Nesse contexto, as idéias políticas das classes em conflito adquirem uma nova importância e precisam
ser explicadas teoricamente. Lenin deu a solução, ampliando o significado do conceito de ideologia.
Numa situação de confrontação de classes, a ideologia parece estar ligada aos interesses da classe
dominante e sua crítica aos interesses das classes dominadas; em outras palavras, a crítica
da ideologia da classe dominante é realizada a partir de uma posição de classe diferente, ou — por
extensão — de um diferente ponto de vista ideológico. Portanto, para Lenin aideologia torna-se a
consciência política ligada aos interesses de cada classe; em particular, ele dirige sua atenção para a
oposição entre a ideologia burguesa e a ideologia socialista. Com Lenin, portanto, o processo de
transformação do significado da ideologia chega ao seu ponto culminante. Aideologia já não é uma
distorção necessária que oculta as contradições tornando-se, em lugar disso, um conceito neutro relativo
à consciência política das classes, inclusive da classe proletária.
A concepção de Lenin passou a ser a mais influente e desempenhou um papel crucial nas novas
contribuições sobre o tema. Isso fica evidente na produção de Lukács, por exemplo, que, desde seus
primeiros ensaios, emprega as palavras ideologia e ideológico para referir-se tanto à consciência
burguesa como à proletária, sem considerar implícita uma necessária conotação negativa. O marxismo,
para Lukács, é "a expressão ideológica do proletariado", ou "a ideologia do proletariado combativo", na
verdade a sua "arma mais poderosa", que levou à "capitulação ideológica" burguesa (Lukács, 1923: 258-
259, 227 e 228). Se a ideologia burguesa é falsa, isso não acontece por ser elaideologia em geral, mas
porque a situação da classe burguesa é estruturalmente limitada. Mas aideologia burguesa domina e
contamina a consciência psicológica do proletariado. A explicação dada por Lukács a esse fenômeno vai
além da explicação de Lenin. Enquanto para este a subordinação ideológica do proletariado resultava do
fato de ter a burguesia uma ideologia mais antiga e meios mais poderosos para a disseminação das suas
idéias, para Lukács são a própria situação e prática do proletariado, dentro das aparências reificadas da
economia capitalista, que levam à subordinação ideológica do proletariado. Por outro lado, como o próprio
Lukács reconheceu mais tarde, ele exagerou o papel da ideologia e da luta ideológica em seus primeiros
escritos, a tal ponto que elas parecem tornar-se um substituto da prática política real e da luta de classes
real.
A concepção de ideologia de Lenin também influenciou Gramsci, que rejeitou explicitamente uma
concepção negativa. Além disso, a idéia que ele tinha da concepção negativa não corresponde à de Marx,
mas refere-se antes às "elucubrações arbitrárias de indivíduos particulares" (Gramsci, 1971: 376).
Gramsci propõe, portanto, uma distinção entre "ideologias arbitrárias" e "ideologias orgânicas",
concentrando seu interesse nestas últimas. A ideologia, nesse sentido, é "uma concepção do mundo
implicitamente manifesta na arte, no direito, na atividade econômica e em todas as manifestações da vida
individual e coletiva". (1971: 328). Mas a ideologia é mais do que um sistema de idéias, ela também está
relacionada com a capacidade de inspirar atitudes concretas e proporcionar orientação para a ação.
A ideologia está socialmente generalizada, pois os homens não podem agir sem regras de conduta, sem
orientações. Portanto, a ideologia torna-se "o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem
consciência de sua posição, lutam etc." (1971: 377).
É, portanto, na ideologia e pela ideologia que uma classe pode exercer hegemonia sobre outras, isto é,
pode assegurar a adesão e o consentimento das grandes massas. Enquanto Lenin e Lukács trataram
a ideologia ao nível da teoria, Gramsci nela distingue quatro graus ou níveis, ou seja, filosofia, religião,
senso comum e folclore, em ordem decrescente de rigor e articulação intelectual.
Gramsci abriu um campo novo ao analisar, de maneira muito sugestiva, o papel dos intelectuais e dos
aparelhos ideológicos (educação, meios de comunicação, etc.) na produção da ideologia. Lenin e Lukács
não foram capazes de encurtar a distância entre a ideologia socialista e a consciência espontânea, entre
a consciência "atribuída" (Lukács, 1923) e a consciência psicológica da classe; Gramsci encontra uma
dupla corrente de determinações entre elas. É certo que a ideologia socialista é desenvolvida pelos
intelectuais, mas não pode haver uma distinção absoluta entre intelectuais e não-intelectuais, e, o que é
mais, a própria classe cria seus intelectuais orgânicos. Não se coloca, portanto, a questão de uma ciência
vinda de fora que é preciso introduzir na consciência da classe operária; em lugar disso, a tarefa é
renovar e tornar crítica uma atividade intelectual já existente. Aideologia marxista não substitui uma
consciência deficiente, mas antes expressa uma vontade coletiva, uma orientação histórica presente na
classe.
A existência de duas importantes concepções de ideologia dentro da tradição marxista é motivo de
muitos debates. Alguns autores contemporâneos acreditam que apenas uma dessas versões é realmente
marxista, enquanto outros, incapazes de aceitar uma discordância entre Marx e Lenin, tentaram conciliar
ambas as versões. Foi o que aconteceu com Althusser, que propôs a mais influente concepção
de ideologia das duas últimas décadas. Althusser distingue uma teoria daideologia em geral, na qual a
função da ideologia é assegurar a coesão na sociedade, da teoria de ideologias específicas, na qual a
função geral já mencionada é sobredeterminada pela nova função de assegurar a dominação de uma
classe. Essas funções podem ser desempenhadas pelaideologia na medida em que esta é "uma
representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência" (Althusser,
1971: 153) e na medida em que interpela os indivíduos e os constitui como sujeitos que aceitam seu
papel dentro do sistema de relações de produção. Por outro lado, Althusser também afirma a existência
de ideologias dominadas que expressam o protesto das classes exploradas. Ele insiste em que a ciência
é o oposto absoluto daideologia, mas, ao mesmo tempo, define a ideologia como um nível objetivo da
sociedade que é relativamente autônomo. A dificuldade dessa abordagem está na impossibilidade de
conciliar a existência de uma ideologia revolucionária com a afirmação de que toda ideologia sujeita os
indivíduos ao sistema dominante. Além disso, é muito difícil conciliar a ideologia como representação
errônea oposta à ciência com a ideologia enquanto superestrutura objetiva da sociedade, a menos que a
superestrutura encerre apenas distorções ideológicas e a ciência esteja localizada em algum outro lugar,
mas também isso é problemático.