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Brasil: mito fundador e sociedade autoritária - Marilena Chauí

“Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”, de Marilena Chauí, livro escrito por
ocasião do Brasil 500, trata de trazer à tona, desvendar, desconstruir e esclarecer o
“mito Brasil”, presente no nosso imaginário não por mero acaso. Será verdade que o
Brasil é um país “abençoado por Deus e bonito por natureza”, com um povo pacífico,
ordeiro e tolerante e uma História honrosa?! São essas “verdades” cristalizadas no
imaginário, nosso e do mundo, bem como a construção dessa imagem, que a autora
busca analisar.

Em uma primeira parte, “Com fé e orgulho”, Marilena Chauí expõe as idéias que vão
ser analisadas no livro e esclarece o que se quer dizer com mito fundador: mito não só
no sentido etimológico, de narração de acontecimentos lendários, mas também no
sentido antropológico, de solução imaginária para tensões; fundador por trazer um
vínculo com um passado de origem, do qual não há nunca desvinculação.

Em “A nação como semióforo” (signo indicativo de algo não-material, simbólico), a


autora discute o conceito de nação enquanto construção histórica e ideológica bastante
recente, obtendo o significado que lhe atribuímos hoje somente por volta de 1830. Para
tanto, Marilena Chauí analisa a história do uso de 2 termos: nação (inicialmente um
conceito “biológico”, indicando tão somente pessoas que vivem num mesmo local) e
pátria (termo usado antes de nação enquanto Estado-nação, muito ligado a figura de um
chefe – pater – e à idéia de patrimônio, mas que, a partir do século XVIII, com as
revoluções burguesas, passa a designar o território onde o povo está organizado em um
Estado independente). Para dar unidade à divisão econômica, social e política surge a
idéia de nação, com o objetivo de resolver 3 problemas: as lutas populares socialistas, a
resistência dos grupos tradicionais à ameaça da modernidade e o surgimento de uma
classe intermediária, a pequena burguesia. Não é à toa que a idéia de nação surge com
força no momento em que a divisão social e econômica das classes se torna evidente.
Freqüentemente, a divisão entre classe social e nação é pouco clara. A questão da
“identidade nacional” é sintomática: como pressupõe a relação com o diferente, e o
diferente é tomado como o país capitalista desenvolvido, completo, a nossa identidade
surge lacunar e feita de privações, definida como subdesenvolvida. Fica claro aqui que
“Brasil 500” é um semióforo historicamente produzido.
“O verdeamarelismo”, capítulo seguinte, analisa o verdeamarelismo enquanto construto
ideológico, elaborada pela classe dominante como imagem celebrativa de um país
“essencialmente agrário”, ligando-se à hegemonia dos proprietários de terra em um país
historicamente articulado ao sistema colonial do capitalismo mercantil como colônia de
exploração, em uma constante “dependência consentida” da elite. Aqui fica claro o
porquê da exaltação das belezas da natureza do Brasil, já que este é seu produto e seu
lugar no sistema colonialista. Importante lembrar que a industrialização nunca se tornou
o carro-chefe da economia brasileira, e além disso se deu principalmente por
transferência de setores industriais internacionais para o Brasil, devido ao baixo custo
da mão-de-obra, em uma permanência da condição inicial de exploração. O
verdeamarelismo foi alimentado durante a Era Vargas sob a ideologia da “questão
nacional” e revitalizado e reforçado nos anos da ditadura com a ideologia do “Brasil
Grande”, a ideologia geopolítica do Brasil Potência 2000, que traz em sua vastidão
territorial, em suas riquezas naturais e em seu povo empreendedor, ordeiro e pacífico as
condições de realização da tarefa do desenvolvimento.