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DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

(Resolvi focar nos tópicos de meu interesse, deixando de fora o tópico “Cinema”.)

Amor: “Quando eu já não souber amar e admirar pessoas ou coisas (não muitas), me sentirei
morto, mortificado” (p. 12).

Nietzsche: “Ele dá um gosto perverso (que nem Marx nem Freud jamais deram a ninguém, ao
contrário): o gosto para cada um de dizer coisas simples em nome próprio, de falar por
afectos, intensidades, experiências, experimentações. [...] um indivíduo adquire um verdadeiro
nome próprio ao cabo do mais severo exercício de despersonalização, quando se abre às
multiplicidades que o atravessam de ponta a ponta, às intensidades que o percorrem” (p. 15).

Maneiras de ler: buscando o significado, interpretando, escrevendo sobre o que foi escrito.
“Ou a outra maneira: consideramos um livro como uma pequena máquina a-significante; o
único problema é: ‘isso funciona, e como é que funciona?’. Como isso funciona para você? Se
não funciona, se nada se passa, pegue outro livro. Essa outra leitura é uma leitura em
intensidade: algo passa ou não passa. Não há nada a explicar, nada a compreender, nada a
interpretar. É do tipo ligação elétrica” (p. 16-17).

“Decepcionar é um prazer” (p. 18).

“Nós sonhamos com outras coisas, mais clandestinas e mais alegres. Não faremos mais
concessão alguma, já que necessitamos menos delas. E sempre encontraremos aluados que
queiramos ou que nos queiram” (p. 18).

“Quanto a mim, interessa-me que uma página fuja para todos os lados, e no entanto que
esteja bem fechada sobre si mesma, como um ovo” (p. 24).

O encontro entre FG e GD foi marcado pela ruptura com o discurso psicanalítico, embora este
tenha sido uma das bases de sua formação, em contraposição, e pela possibilidade de
constituir outros conceitos. “E o que buscávamos em comum era um discurso ao mesmo
tempo político e psiquiátrico, mas sem reduzir uma dimensão à outra” (p. 25).

Sobre a incompreensão de Freud sobre o desejo: para os autores, desejo é produção, por isso
a noção de máquinas desejantes, é uma operação produtiva, criadora. Freud compreendeu o
desejo como produção, mas o alienou na ficção edipiana, se distanciando de seu caráter
imanente.

É interessante como colocam que “[...] o Édipo é fundamentalmente um aparelho de


repressão das máquinas desejantes, e de modo algum uma formação do próprio inconsciente”
(p. 27-8). Sua solução é compatível com a estrutura capitalista, a falta eterna, introduzindo
também a neurose e a análise sem fim.

Outro aspecto interessante é a relação do delírio com as questões históricas e sociais, uma vez
que são componentes de seu conteúdo, não os dramas familiares.

“Propomos os dois pontos em que a psicanálise tropeça: não consegue atingir as máquinas
desejantes de ninguém, porque se limita às figuras ou estruturas edipianas; não chega aos
investimentos sociais da libido, porque se restringe aos investimentos familiares [...]. o que nos
interessa é o que não interessa á psicanálise: o que são as tuas máquinas desejantes? Qual é a
tua maneira de delirar o campo social? A unidade de nosso livro está em que as insuficiências
da psicanálise nos parecem estar ligadas tanto a sua profunda pertença à sociedade capitalista
quanto ao seu desconhecimento do fundo esquizofrênico. A psicanálise é como o capitalismo:
tem como limite a esquizofrenia, mas não cessa de repelir o limite e de tentar conjura-lo” (p.
32).

Se interessam sobre como operam os fluxos, como andam, passam, funcionam; nesse sentido,
são funcionalistas e não buscam o “quer dizer”, significante. Mas não se identificam com o
funcionalismo que buscou estruturar os processos e ordená-los em formas.

Sobre conceito (posso usar para justificar a criação dos meus): “A filosofia sempre se ocupou
de conceitos, fazer filosofia é tentar inventar ou criar conceitos. Ocorre que os conceitos têm
vários aspectos possíveis. Por muito tempo eles foram usados para determinar o que uma
coisa é (essência). Nós, ao contrário, nos interessamos pelas circunstâncias de uma coisa: em
que casos, onde e quando, como, etc.? Para nós, o conceito deve dizer o acontecimento, e não
mais a essência” (p. 37).

Ainda sobre conceitos, p. 45 e 46

“Numa cartografia, pode-se apenas marcar caminhos e movimentos, com coeficientes de sorte
e de perigo. É o que chamamos de ‘esquizoanálise’, essa análise das linhas, dos espaços, dos
devires” (p. 48). Fiquei pensando: para os acontecimentos faz sentido as linhas, por
conseguirem traçar. No que diz respeito às forças, por outro lado, acho que tem alguma coisa
simultânea, concorrente. Pensei em campo, mas não sei se é o mais adequado; nem energia.
Algo sob o qual estamos imersos, está no nosso entorno, mas não necessariamente contorna,
e que se torna uma zona de intercessão... estou viajando.

Ao falar de Foucault, Deleuze coloca como percebe o percurso de um autor, que se faz de
modo não retilíneo e previsível. “É preciso tomar uma obra por inteiro, segui-la e não julgá-la,
captar suas bifurcações, estagnações, avanços, brechas, aceitá-la, recebê-la inteira” (p. 108).
Acho interessante particularmente a percepção de Deleuze sobre como Foucault foi
perseguindo problemas, estes foram os guias de sua obra, além das rupturas necessárias por
essa opção. Isso é muito importante para todo pesquisador.

Há vários encontros entre Deleuze, Guattari e Foucault no plano conceitual: agenciamento


(D&G) – dispositivos (F); cartografia (D) – microfísica do poder (F) – micropolítica do desejo (G).
Preciso clarificar cada um desses conceitos e compreender como se relacionam.

Busca pelo que emerge, através do emaranhamento de linhas.

Preciso entender a questão da superfície em Foucault. Inicialmente, penso que se trata de não
tomar os discursos como tendo um fundo, raiz, mas de toma-los em si mesmos e neles
próprios identificar o oculto. Será que é isso? Também preciso entender os conceitos de dobra
e redobra.

A mal compreendida “morte do homem” se trata de um jogo de forças e formas, que mudam
de acordo com os processos de composição: “É uma relação de forças, com uma forma
dominante que decorre dela. Sejam as forças do homem, imaginar, conceber, querer... etc.:
com que outras forças elas entram em relação, em tal época, e para compor que forma?” (p.
113). Os encontros de forças produzem composições singulares e é a isto que devemos estar
atentos. Se ainda defendemos o homem é em razão de sua forma predominante enfronhada
nos modos de vida desde o século XVII, e por sua ilusória segurança conforme aos ideias
românticos que insistimos em cultivar moralmente, não praticamente.
Sobre o vitalismo em Foucault: “Por um lado, as relações de força se exercem sobre uma linha
de vida e de morte que não cessa de se dobrar e de se desdobrar, traçando o próprio limite do
pensamento. [...] Por outro lado, quando Foucault chega ao tema final da ‘subjetivação’, esta
consiste essencialmente na invenção de novas possibilidades de vida, como diz Nietzsche, na
constituição de verdadeiros estilos de vida: dessa vez, um vitalismo sobre um fundo estético”
(p. 114).

Relações de força – “[...] ações sobre ações” (p. 120).

Subjetivação: produção de modos de existência – não tem a ver com o dentro, com o pessoal,
ou com a identidade, mas com os acontecimentos. “[...] quais são nossos modos de existência,
nossas possibilidades de vida ou nossos processos de subjetivação; será que temos maneiras
de nos constituirmos como “si”, e, como diria Nietzsche, maneiras suficientemente ‘artistas’,
para além do saber e do poder? Será que somos capazes disso, já que de certa maneira é a
vida e a morte que aí estão em jogo?” (p. 124).

Para Foucault: “O pensamento jamais foi questão de teoria. Eram problemas de vida” (p. 131).

“Sim, existem sujeitos: são os grãos dançantes na poeira do visível, e lugares móveis num
murmúrio anônimo. O sujeito é sempre uma derivada. Ele nasce e se esvai na espessura do
que se diz, do que se vê” (p. 134). Quer dizer, o pensamento de Foucault não é uma negação
insana do sujeito, mas sua radicalização em uma composição de forças, que não cessam de
passar umas nas outras; rearranjo individuado, mas não interior.

Deleuze propõe que uma filosofia, tal qual de Bergson, que retome os movimentos, e não mais
o “falar sobre”, tampouco as “categorias universais” (estado de direito, direitos humanos).

Intercessores – podem ser os campos (com a filosofia, a arte e a ciência), ou pessoas, coisas e
animais. Com eles há criação.

“Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que
se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito” (p. 162).

“A única condição é que eles [conceitos] tenham uma necessidade, mas também uma
estranheza, e eles as têm na medida em que respondem a verdadeiros problemas” (p. 170).

“Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar
linhas de fuga” (p. 176).

Interessante a percepção de D&G em “O anti-édipo” acerca do inconsciente: é produção,


fábrica; e delira sobre o campo social (história, geografia, povos). A ruptura é com o Édipo e
toda sua teatralidade para a constituição psíquica, estrutural, ainda contando com a repressão
como constituinte fundamental.

“O estilo em filosofia tende para esses três pólos: o conceito ou novas maneiras de pensar, o
percepto ou novas maneiras de ver e ouvir, o afecto ou novas maneiras de sentir” (p. 203).

Livro de Péguy sobre acontecimento (Clio). O devir se distingue da história, enquanto


emergência do novo, e não condições às quais esse novo se opõe. “A única oportunidade dos
homens está no devir revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao
intolerável” (p. 211).