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SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: Uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

[original: 1999]

Parte 2 – Capítulo 5 - “O currículo como política cultural: Henry Giroux”, pp. 51-56.

1. Crítica, resistência e cultura em Henry Giroux. (pp. 51-56)


1.1. Aqui, nos ocuparemos do primeiro Giroux.
1.1.1. Atualmente, ele se afastou consideravelmente dessas posições iniciais, se concentrando nas questões
da cultura popular apresentada no cinema, na música, na televisão, e menos na educação.
1.1.2. Além disso, teoricamente, ele incorpora timidamente as contribuições pós-modernistas.
1.1.3. Portanto, trataremos dos livros: Ideology, culture, and the process of schooling (1981) e Theory and
resistance in education (1983).
1.2. Os contornos da crítica de Giroux.
1.2.1. Teoricamente, ele se insurge contra as perspectivas empiristas dominantes na pesquisa educacional,
se valendo dos conceitos desenvolvidos pela Escola de Frankfurt.
1.2.1.1. Crítica da racionalidade técnica e do positivismo dominante nos currículos.
1.2.1.2. Ataque ao esquecimento do caráter histórico, ético e político do conhecimento, o que leva à
reprodução das desigualdades e injustiças sociais.
1.2.1.3. Esse posicionamento revela uma insatisfação (como a de Apple) com a rigidez estrutural
dos trabalhos calcados na pura reprodução social, com suas teorizações pessimistas.
1.2.1.3.1. Seus trabalhos iniciais são tanto a análise educacional estrita como uma cuidadosa
crítica às falhas e omissões dessas teorias.
1.2.1.3.2. P.ex.: critica Bowles/Gintis no seu mecanicismo do “princípio da correspondência”,
onde sumiam as ações humanas; critica Bourdieu e Passeron por darem peso excessivo à
cultura dominante frente os processos de resistência.
1.2.1.4. Também é uma crítica às vertentes fenomenológicas e à nova sociologia da educação.
1.2.1.4.1. Construção dos sentidos do conhecimento, do currículo e da cultura escola? E
aonde vão parar as relações sociais que se conectam com esse espaço escolar?
1.2.2. Centralidade do conceito de “resistência”, que supera o imobilismo das teorias da reprodução.
1.2.2.1. Ele fala de uma “pedagogia da possibilidade”: existência de mediações e ações no nível da
escola e do currículo que podem ir na direção oposta do poder e do controle.
1.2.2.2. Essa ideia é trabalhada a partir da obra do sociólogo inglês Paul Willis, Aprendendo a ser
trabalhador, outro insatisfeito com o determinismo econômico das teorias da reprodução.
1.2.2.2.1. A problemática: o que leva jovens da classe operária a voluntariamente escolher
empregos de classe operária?
1.2.2.2.2. Ao acompanhar um grupo de jovens na escola secundária, ele mostra como o
encaminhamento deles para empregos operários não é fruto simples de uma determinação
econômica ou social: há uma cultura juvenil operária, com seus valores próprios que os leva
a tanto.
1.2.2.2.2.1. Certo, ainda é meio determinista, mas pelo menos vislumbra um ato de
criação autônoma e ativa dessa cultura, que pode virar uma resistência consciente.
1.2.2.3. Por isso, as ideias de “emancipação” e “libertação” são aí importantíssimas, alvo de uma
ação social politizada.
1.2.3. Os elementos que compõe essa resistência são:
1.2.3.(1). A escola e currículo vistos como “esfera pública democrática” (empréstimo da ideia de
“esfera pública”, de Habermas).
1.2.3.1.1. É o espaço de livre exercício das habilidades democráticas de discussão e
participação, de questionamento de pressupostos da vida social.

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1.2.3.(2). Os professores como “intelectuais transformadores” (adaptação do conceito gramsciano
de “intelectuais orgânicos”).
1.2.3.2.1. Os professores não são técnicos burocratas, mas pessoas ativamente envolvidas
nesse questionamento de pressupostos.
1.2.3.(3). Papel ativo da ação pedagógica: conceito de “voz”.
1.2.3.3.1. Contestação das relações de poder que “calam” vozes dissonantes.
1.2.4. Nisso tudo, vê-se uma nítida influência de Paulo Freire: noção de ação cultural para a liberdade.
1.2.4.1. A crítica freireana à “pedagogia bancária” em nome de um conhecimento que é ativo e
dialético combinava com os esforços de Giroux contra o modelo técnico de currículo.
1.2.5. É a direção que Giroux vai levar a sua teorização: pedagogia e currículo como “política cultural”.
1.2.5.1. É construção de significados e valores culturais, e não mera “transmissão” de
conhecimentos “objetivos”.
1.2.5.2. E significados sociais, e não apenas no nível da consciência individual.
1.2.6. Por isso Giroux vai se distanciando da análise isolada da educação: há pouca diferença entre ela e a
cultura mais ampla – ambas são alvo de uma política cultural.