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PARO, Vitor Henrique. Gestão Democrática da Escola Pública. São Paulo: Cortez, 2016. (Orig.

1997)

Capítulo 4 – “Gestão da escola pública - a participação da comunidade”, pp. 49-86. (Orig. 1994 – resumo da tese livre docência)

1. Por dentro da escola pública. (pp. 49-54)


1.1. Apesar da exuberância dos discursos, há pouca probabilidade do Estado democratizar realmente o acesso ao
saber.
1.2. Se é assim, é preciso lutar para que a comunidade participe da gestão da escola e imponha seus interesses.
1.2.1. Precisamos compreender a necessidade de participação e as condições reais de seu exercício.
1.3. Para isso, será feito um estudo de caso numa escola pública (material da tese de livre docência de 1994, editado
posteriormente como livro: Por dentro da escola pública, 1995).
1.3.1. Estudo etnográfico, de caráter qualitativo.
1.3.1.1. Questão da representatividade: não se busca representatividade estatística dos fenômenos, e sim
a sua exemplaridade.
1.3.1.2. Identificam-se as ocorrências e aventam-se explicações para elas: busca de “determinantes
estruturais”.
1.3.2. Feito entre 1989-1990, em uma escola pública estadual de 1º grau, na Vila Dora, São Paulo/SP.
1.3.2.1. Bairro misto de classe média e baixa renda, com área urbanizada e favelas.
1.3.2.2. Unidade escolar em funcionamento desde 1981, com prédio próprio construído por estudo de
demanda da Secretaria de Educação, com cerca de 700 alunos em 21 turmas, de 1ª a 8ª série, em três
turnos; 44 funcionários, sendo 32 professores.
1.3.2.3. Como tipicamente acontece na rede estadual, há precariedade de equipamentos, materiais e
espaços.

2. Os condicionantes da participação internos à escola. (pp. 54-67)


2.(1). Condicionantes materiais: as condições de trabalho.
2.1.1. Ideia: quanto mais esforço dispendido para remediar as carências do dia a dia, menos esforço para
modificar as relações dentro da escola.
2.1.2. Na prática da escola estudada: falta até um lugar para fazer reuniões adequadas
2.1.3. Proposta: não tornar isso desculpa – a mesma carência que serve para obstaculizar, serve para motivar a
superação e pressão sobre o Estado.
2.(2). Condicionantes institucionais: o caráter hierárquico da gestão escolar.
2.2.1. Ideia: quanto mais verticais são as relações (mando-submissão), menos espaço para a democratização das
relações no interior da escola.
2.2.1.1. O fato do diretor ter um cargo vitalício, de ordem “técnica”, o coloca como preposto do Estado, e
não representante validado pela comunidade escolar.
2.2.2. Na prática da escola estudada: APM e Conselho de Escola são meramente formais.
2.2.3. Proposta: por ser processo histórico, precisa-se viabilizar cada dia mais os mecanismos que incentivam as
práticas participativas dentro da escola.
2.(3). Condicionantes político-sociais: os interesses sociais dentro da escola.
2.3.1. Ideia: apesar de serem todos trabalhadores, é ilusório pensar em harmonia dentro da escola.
2.3.1.1. Sérgio Avancine, Daqui ninguém me tira, 1990: no caso estudado, há até mesmo antagonismo
entre mães e professores.
2.3.2. Na escola estudada: presenciaram-se diversos conflitos nas relações interpessoais, reuniões de conselho e
de pais, ao lidar com a greve de professores.
2.3.3. Proposta: não ignorar nem minimizar a importância desses conflitos sociais, pois ao compreender suas
causas e implicações podemos ter ferramentas para a luta por objetivos comuns.

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2.(4). Condicionantes ideológicos: três dimensões.
2.4.1. Na dimensão da visão sobre a comunidade escolar:
2.4.1.1. Ideia: concepções sedimentadas podem incentivar ou impedir a participação popular.
2.4.1.2. Na escola estudada: equipe escolar tem uma visão bastante negativa da comunidade ao redor.
2.4.1.2.1. Isso leva uma postura paternalista e impositiva: a escola “atura” a sua comunidade.
2.4.1.2.2. Na sala de aula, inclusive: a criança é obstáculo, e não sujeito da educação.
2.4.2. Na dimensão da visão sobre a própria participação popular na escola.
2.4.2.1. Ideia: aceita-se a participação nas decisões ou só na execução das coisas?
2.4.2.1.1. Inclusive na polêmica questão da legitimidade da participação dos usuários na gestão
do pedagógico.
2.4.2.2. Na escola estudada: a diretora acha ótima a participação dos pais para fazer eventos...
2.4.2.2.1. Para outras questões, é “intromissão” dos pais em assuntos que não dominam.
2.4.2.3. Proposta: a alegada falta de conhecimento técnico da comunidade escolar não pode servir de
desculpa para afastá-la da tomada de decisões.
2.4.2.3.1. Essa tomada de decisão é mecanismo de controle democrático, para fiscalização e
contribuição para o cotidiano da escola e pressão do Estado.
2.4.3. Na dimensão da descrença em relação à participação.
2.4.3.1. Ideia: jogam-se para fora da escola as dificuldades para a efetivação da participação.
2.4.3.2. Na escola estudada: alegação de que os pais não têm tempo nem interesse (álibi).
2.4.3.3. Proposta: criar mecanismos – previsão de rotinas e eventos participativos.
2.4.3.3.1. A inexistência de até mesmo a previsão desses meios fecha mais ainda a porta.

3. Determinantes da participação presentes na comunidade. (pp. 67-86)


3.(1). Condicionantes econômico-sociais: as condições de vida.
3.1.1. Ideia: na hierarquia das necessidades da sobrevivência, a participação na escola fica em segundo plano
3.1.2. Na escola: não se localizou nenhuma tentativa de conciliar os horários das reuniões.
3.1.3. Proposta: pressionar os legisladores para criar um mecanismo de dispensa dos pais trabalhadores de parte
do horário de trabalho para participar de reuniões escolares.
3.(2). Condicionantes culturais: três dimensões
3.2.1. Dimensão da omissão entre escola e família.
3.2.1.1. Ideia: a omissão dos pais é uma espécie de resposta à omissão da própria escola.
3.2.1.2. Na escola: relatos de que não quer fazer serviços de outras pessoas; ideia de que se tem vaga,
merenda e professor, está tudo bem.
3.2.1.3. Proposta: ?
3.2.2. Dimensão da tradição autoritária brasileira.
3.2.2.1. Ideia: as oportunidades de participação não são sequer imaginadas.

“Numa sociedade em que o autoritarismo se faz presente, das mais variadas formas, em todas as
instâncias do corpo social, é de se esperar que haja dificuldade em levar as pessoas a perceber os
espaços que podem ocupar com sua participação”. (p. 74)

3.2.2.2. Na escola: necessidade de estimular muito a reflexão de pais para perceberem que podem ser
organizar para cobra o diretor, o poder público etc., para além de fazer abaixo-assinado.

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3.2.2.3. Proposta: avançar na compreensão de que a comunidade escolar não é consumidora de
educação.
3.2.2.3.1. Cf. cap. 3 – na educação transformadora, não há independência entre a “produção” e o
“consumo”, visto que o aluno é coprodutor do processo todo.
3.2.2.3.1.1. Por isso, é preciso estar dentro do processo para poder avaliá-lo.
3.2.2.3.2. E lembrar, como diversos estudos mostram, que não existe essa história de que os pais
tem uma inclinação “natural” para não participar.
3.2.2.3.2.1. Ex.: Marília Sposito, O povo vai à escola, 1984; Maria Malta Campos, Escola e
participação popular, 1983 etc.
3.2.3. Dimensão do medo.
3.2.3.1. Ideia: a escola assusta aos pais, por causa do seu fechamento em si mesma; receito de lidar com
pessoas com escolaridade, nível econômico e status social mais elevado; medo do desconhecido; temor
de represálias.
3.2.3.2. Na escola: medo filho ser reprovado por causa de atritos com o pessoal escolar.
3.2.3.3. Proposta: ???
3.(3). Condicionantes institucionais da comunidade.
3.3.1. Ideia: heterogeneidade de movimentos sociais, com interesses e afiliações diversas.
3.3.1.1. Os mais militantes acabam taxando as pessoas menos envolvidas como alienadas e egoístas.
3.3.1.2. Os alheios à militância, consideram esses movimentos como partidários.
3.3.2. No bairro estudado: grupos ligados ao PT, outro inativo, mais outro ligado à classe média; fraca ligação da
escola a qualquer um deles.
3.3.3. Proposta: articular os interesses mais imediatos com interesses estratégicos de transformação.
3.3.3.1. Não se pode atar os movimentos e reivindicações populares à “Grande Revolução”, sob o risco de
perder a vinculação à prática política cotidiana.
3.3.3.2. Mas, ao mesmo tempo, não se pode deixar de articular essa prática a lutas reivindicativas mais
amplas.