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Educação em

Direitos Humanos III

Ministério da Educação Educação em


Universidade Aberta do Brasil Direitos Humanos
Universidade Federal do Espírito Santo
Aperfeiçoamento
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
Núcleo de Educação Aberta e a Distância

Educação em
Direitos Humanos III

Paulo Velten (org.)


Julio Pompeu (org.)

Vitória
2014
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

Presidente da República Reitor Coordenador do curso de graduação em


Reinaldo Centoducatte Direitos Humanos na modalidade a distância
Ministro da Educação Paulo Velten
Diretora Geral da Secretaria de Ensino
Diretoria de Educação a Distância a Distância – SEAD Subcoordenador
DED/CAPES/MEC Ethel Leonor Noia Maciel Julio Pompeu

Secretaria de Educação Continuada, Secretária de Ensino a Distância - SEAD Revisor de Linguagem


Alfabetização, Diversidade e Inclusão Maria José Campos Rodrigues Claudeir Souza
Agatha Brandão
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LDI - Laboratório de Design Instrucional
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(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)

Laboratório de Design Instrucional


Educação em direitos humanos 3 / Paulo Velten (org.). - Vitória :
LDI coordenação Universidade Federal do Espírito Santo, Secretaria de Ensino a Distância, 2014.
Heliana Pacheco E24 167 p. : il.
José Otávio Lobo Name
Letícia Pedruzzi Fonseca Inclui bibliografia.
Priscilla Garone ISBN:
Ricardo Esteves
1. Educação. 2. Direitos humanos. I. Velten, Paulo.
Gerência CDU: 37:342.7
Giuliano Kenzo Costa Pereira
Patricia Campos
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Editoração e o Ministério da Educação. As opiniões expressas neste livro são de responsabilidade de seus autores e não representam
Antônio Victor Simões necessariamente a posição oficial do Ministério da Educação ou do Governo Federal.
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Paulo Caldas
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do regime geral de direito de autor no Brasil.
SUMÁRIO

1 FUNDAMENTOS HISTÓRICO-FILOSÓFICO DA EDUCAÇÃO EM


DIREITOS HUMANOS (EDH)
Dr. Daury Cesar Fabriz pág. 9

2 PARA FAZER DA EDUCAÇÃO AÇÃO DE DIREITOS HUMANOS


POR UMA EDUCAÇÃO DIREITOSHUMANIZANTE
Paulo César Carbonari pág. 30

3 EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NAS ESCOLAS:


UM PROJETO A SER CONSTRUÍDO PELA COMUNIDADE ESCOLAR
Ana Maria Klein, Monica Abrantes Galindo e Raul Aragão Martins pág. 46

4 CONTRIBUIÇÃO À DISCUSSÃO SOBRE A IMPOSSIBILIDADE DO


“DIREITO DE TODOS”: O CASO DO CURRÍCULO MÍNIMO NACIONAL
Claudeir Aparecido de Souza e Débora Ceciliotti Barcelos pág. 61

5 EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA ALÉM DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


Flavio Alves Barbosa e Vilma de Fátima Machado pág. 73

6 A ÉTICA ENTRE FINS E MEIOS: MAQUIAVEL


Júlio Pompeu pág. 103

7 A ESCOLA, O MÉDICO E O JUÍZ:


EDUCAÇÃO, BIOPOLÍTICA E PRODUÇÃO DE COLETIVOS
Cristiana Mara Bonaldi pág. 113
8 O DIREITO FUNDAMENTAL AO NÃO TRABALHO E A EDUCAÇÃO
EM DIREITOS HUMANOS
Jair Teixeira dos Reis pág. 121

9 TRÁFICO DE PESSOAS ENQUANTO VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS


Alline Pedra Jorge Birol e Lucicleia Souza e Silva Rollemberg pág. 134

10 AS VIOLAÇÕES SISTEMÁTICAS AOS DIREITOS HUMANOS POR MEIO


DOS PROCESSOS DE CRIMINALIZAÇÃO SELETIVA: O CASO DAS
POLÍTICAS PENITENCIÁRIAS CAPIXABAS
Humberto Ribeiro Júnior pág. 160

11 DIREITOS HUMANOS: COMO IDENTIFICAR SUAS VÍTIMAS E


SEUS VIOLADORES
Nara Borgo pág. 184

12 A LÓGICA DA EXCLUSÃO TEMÁTICA NO DEBATE POLÍTICO SOBRE


MÍDIA E DIREITOS HUMANOS
Edgard Rebouças, Victor Gentilli e Rafael Paes pág. 195

13 MUTAÇÕES DO CONCEITO DE ANISTIA NA JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO


BRASILEIRA: A TERCEIRA FASE LUTA PELA ANISTIA
Paulo Abrão e Marcelo D. Torelly pág. 219

O MODUS OPERANDI DA DITADURA MILITAR E A SEGURANÇA NACIONAL


14
Paulo Velten pág. 239
15 UMA ANÁLISE JURISPRUDENCIAL DA INCORPORAÇÃO DOS TRATADOS
INTERNACIONAIS NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO SOB A
ÓTICA CONSTITUCIONAL: OS DESAFIOS AINDA PRESENTES
Ricardo Gueiros Bernardes Dias pág. 248

16 LAS INMUNIDADES DE ESTADO EXTRANJERO Y LA PROTECCIÓN DE LOS


DERECHOS HUMANOS EN LA PAUTA DEL JUDICIARIO BRASILEÑO
Martha Lucía Olivar Jimenez e Valesca Raizer Borges Moschen pág. 275

17 A DIGNIDADE HUMANA COMO CRITÉRIO DE JUSTIÇA EM DECISÕES


DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Gilberto Fachetti Silvestre pág. 293

18 EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS: ESTRATÉGIAS PARA COMBATER


OS ESTEREÓTIPOS E PRECONCEITOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Carmelinda de Souza Oliveira pág. 315

19 DIREITOS HUMANOS E O PROFESSOR NA SALA DE AULA


Jane Fernandes da Costa pág. 336

20 FORMAÇÃO DOCENTE EM DIREITOS HUMANOS NO CURRÍCULO SUPERIOR DO


CURSO DE PEDAGOGIA DE UMA INSTITUIÇÃO PRIVADA DA REGIÃO SUL CAPIXABA
Irene Alexandra de Oliveira pág. 351

21 OS DIREITOS HUMANOS SOB A PERSPECTIVA DE CHAUÍ E SANTOS:


CONTRIBUIÇÕES PARA O CONTEXTO ESCOLAR
Roberta Silva de Andrade pág. 372
22 O MENOR/ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI E OS DESAFIOS
PARA UMA EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS
Nina Mary Lopes Cunha e Marcelo Costa Hastenreiter pág. 284

23 CIGANOS: DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO


Daniela Simiqueli Durante pág. 401

24 ESTUDO DE CASO DE UM ALUNO AUTISTA: SUJEITO DE DIREITOS


Elaine Cristina Gireli Alves, Luzidélia Almeida Vidal Aguiar e Michele Anchesqui Nardoto pág. 416

25 VIOLÊNCIA URBANA NA PERSPECTIVA DOS DIREITOS HUMANOS


Valdineia Gomes das Chagas pág. 430

26 DIREITOS HUMANOS A PARTIR DA INCLUSÃO EDUCACIONAL


NO CONTEXTO DO ENSINO REGULAR
Marlene Aparecida da Silva, Penha Beltrame, Vanda Maria Moreira e Camila Côgo pág. 454

27 DESENVOLVIMENTO HUMANO NA PERSPERTIVA DA INCLUSÃO E IGUALDADE


Maria Aparecida Klippel e Wilsiane Hammer pág. 470

28 A INCLUSÃO DO CADEIRANTE ATRAVÉS DA ACESSIBILIDADE


Carla da Costa Rodrigues, Jéssica Moreira Cândido Guerra e Wagner da Cunha Oliveira pág. 480

29 DIREITOS HUMANOS E A PESSOA COM DEFICIENCIA:


PANORAMA NACIONAL DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL
Lívia Matielo, Verônica Timoteo e Bárbara Ferreira pág. 495
Dr. Daury Cesar Fabriz
Doutor em Direito. Professor do curso de Direito da UFES e da Faculdade de
Direito de Vitória.

1
FUNDAMENTOS HISTÓRICO-FILOSÓFICO DA
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS (EDH)

Dr. Daury Cesar Fabriz

1. Pressupostos filosóficos dos direitos humanos:


arqueologia dos direitos humanos

A idéia em torno dos direitos humanos surge da confluência de várias fontes


– filosóficas, jurídicas e teológica – num imbricado jogo de várias concepções
em torno de leis universais, que se impõem acima de qualquer lei criada pelo
próprio homem.
Apregoam-se idéias universalizantes, direitos que possam alcançar todos
os indivíduos independentemente de nacionalidade, credo ou raça.
A noção de direitos humanos, que, em essência, representa o fruto das re-
flexões elaboradas pelo jusnaturalismo, encontra suas raízes no estoicismo, na
idéia judaico-cristã de uma legislação de origem superior às normas jurídicas
positivas. Todavia, a idéia e a possibilidade de declaração de direitos humanos
são recentes, originais e específicas em relação a um momento da história do
pensamento judaico ocidental. (ARNOUD, 1986, p. 74).
Não obstante, entender as diferenças entre os homens como algo plena-
mente aceitável, por ser uma consequência da própria natureza – contrariando
um dos pilares dos direitos humanos que é a igualdade de todos e todas –, o
pensamento grego, principalmente o aristotélico, apegava-se à seguinte idéia:
a existência de leis universais que regiam a vida de todos os homens, por
intermédio de princípios superiores às leis específicas de cada povo. Há nessa
concepção a idéia de um direito natural.
O pensamento cristão primitivo também desenvolveu sua noção de direi-
to natural. O direito natural era compreendido pelos padres da Igreja Católica
em perspectiva absoluta e relativa, sendo a primeira a melhor vertente, por se
referir àquele direito ideal que imperava antes que a natureza do homem fosse
viciada pelo pecado original. Direitos relativos à propriedade, ao matrimô-
nio, à submissão a um governo temporal e a um direito penal inserem-se na

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dimensão de um direito natural relativo, visto que inerentes às necessidades
básicas do homem, depois de sua queda. (MAGALHÃES, 1992, p. 29).
A defesa da igualdade de todos os homens numa mesma dignidade fica
bem clara na formulação de São Paulo, na sua Epístola aos Gálatas, cap. 3,
versículo 27-28, onde assim se manifesta: “Não há judeu nem grego, não há
escravo nem homem livre; todos sois um só em Cristo”.
Posteriormente, a idéia de direito natural será desenvolvida na obra dos
dois grandes doutores do pensamento católico: Santo Agostinho e São Tomás
de Aquino. Para o primeiro, as leis divinas (direito natural absoluto) eram
superiores às leis temporais e, em caso de conflitos, as últimas deveriam ser
declaradas sem efeitos. Os direitos naturais relativos, consequência do pecado,
deveriam estabelecer-se sob a orientação da Igreja, esta como guardiã da lei
eterna de Deus. (MAGALHÃES, 1992, p. 23).
São Tomás distinguia quatro classes de lei: a Lei Eterna, sendo esta a
razão de tudo, dirigindo todos os movimentos e ações do universo; a Lei Na-
tural, que possibilita ao homem distinguir o bem e o mal, e por tal razão deve
ser guia invariável e imutável da lei humana. Lei Divina, que vem a ser o ato
de vontade do governo temporal, devendo este observar os princípios da Lei
Eterna, refletido na Lei Natural. (MAGALHÃES, 1992, p. 31).
Entendia São Tomás que o indivíduo se encontrava no centro de uma or-
dem social e jurídica justa, devendo, no entanto, o direito laico, definido pelo
imperador, rei ou príncipe, submeter-se às leis emanadas de Deus.
A idéia de um direito natural irá povoar todo o pensamento que se
desenvolve com as várias mudanças que ocorrem a partir do século XVI, e
nas concepções de autores como Hugo Grotius, Hobbes, Spnoza, Pufendorf,
Rousseau, Locke, Kant, para citarem-se os mais expressivos, caracterizando-
-se como uma fase clássica dos direitos naturais. “Postulava-se a existência
de valores inerentes à condição humana e decorrente da própria natureza”
(DALLARI, 2010, p. 101).
No arcabouço dessas várias vertentes, podemos identificar uma caracte-
rística comum, que é a idéia de um direito universal, que transcende a lei par-
ticular de um determinado Estado. Do quadro paradigmático do direito natural
e da dicotomia direito natural e direito positivo nasce toda problemática em
torno dos direitos humanos fundamentais. (FABRIZ, 2003, p. 234).

11
Celso Lafer, levando em consideração as várias vertentes de reflexão em
torno da idéia de direitos naturais, e admitindo a diversidade de entendimen-
tos, afirma a possibilidade de se identificar um paradigma de pensamento,
referente ao direito natural. Dentre os vários pontos que viabilizam essa pos-
sibilidade, destacam-se os seguintes: a idéia de imutabilidade; universalidade;
a função de qualificar determinada conduta como boa, justa, má ou injusta,
determinando uma contínua vinculação entre norma e valor, importando uma
permanente aproximação entre direito e moral. O acesso a esses direitos dá-se
por intermédio da razão, da intuição ou da revelação. Daí o fato de seus prin-
cípios serem dados, e não postos em convenção. (LAFER, 1988, p. 36).
Nota-se que o direito natural, em relação ao direito positivado, apre-
senta-se como um sistema de valores, universais e imutáveis. Lafer distingue
dois planos na elaboração doutrinária dos direitos naturais: o ontológico e o
deontológico. Nesse sentido procede a seguinte análise:

A primeira acepção abrange a segunda, pois neste caso o ser do Direito


(ontologia) constitui-se como dever-ser do Direito Positivo (deontolo-
gia), na medida em que o dizer o Direito e o fazer a justiça são conce-
bidos como atividades sinônimas. A segunda acepção, no entanto, não
engloba a primeira. Com efeito, ao se admitir a existência de valores
universais e imutáveis, não se nega a presença de outros fatores, como
os sociais, políticos e econômicos, que influenciam a realidade jurídica.
O sistema de valores do Direito natural existe, no entanto, para exercer
uma função de controle em relação ao Direito Positivo. Daí a respon-
sabilidade de um dualismo entre o respeito à justiça e o respeito à lei
(LAFER, 1988, p. 36-37).

Depreende-se, do fragmento acima transcrito, que os planos do Direito


e da justiça se intercalam, na medida em que o Direito passa a ser pensado a
partir do paradigma do direito natural. Com base em seu sistema de valores,
possibilita a criação e aplicação do direito positivo, pondo em primeiro plano
o sentimento de justiça. (FABRIZ, 2003, p. 235).
As idéias em torno dos direitos inatos e o contratualismo permitiu a ela-
boração de uma doutrina do direito e do Estado a partir da concepção indivi-

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dualista da sociedade e da história. O jusnaturalismo chega ao seu apogeu com
o advento da ilustração. O entendimento de um direito racional, universalmen-
te válido, teve grandes desdobramentos com o constitucionalismo moderno.
A doutrina do direito natural, muito criticada por diversos flancos, nos
fins do século XVIII e na primeira metade do século XIX, por autores como
Edmund Burke, escola histórica alemã (com Savigny à frente), Marx e Engel,
dentre outros, entra em declínio.
Ensina Dallari que os séculos XVII e XVIII foram marcados pela ascensão
política da burguesia, tendo por consequência a firmação de novos padrões de
organização política. A acumulação de fatores históricos, inclusive a definição de
valores humanistas externada em séculos anteriores, deu a base política, econô-
mica e social para que se desencadeassem os movimentos de rebelião e renovação
que podem ser caracterizados como revoluções burguesas. (DALLARI, 2010, p.99).
A experiência jurídica dos séculos XIX e XX determinou uma preponde-
rância do direito positivo em relação ao direito de inspiração natural, identifi-
cando-se tão-somente como Direito aquilo que emanava das leis positivadas,
promovendo a separação entre Direito e Moral. (FABRIZ, 2003, p. 236).
A crença em um direito positivado, fruto da razão, é determinante na aven-
tura modernizante que a humanidade se lançou ao longo dos últimos três séculos.

1.1 Configuração dos direitos humanos na contemporaneidade


a partir do uso de variada terminologia

A questão dos Direitos Humanos envolve o emprego de terminologias variadas


que preliminarmente devem ser melhor compreendidas. Direitos do Homem,
Direitos Fundamentais e Direitos Humanos são gêneros de uma mesma espé-
cie, com fundamentos diversos.
Ao considerar-se a declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de
1789 (Revolução Francesa) podem-se notar duas categorias de direitos, quais
sejam: direitos do homem e direitos vinculados à cidadania.
Ao se referir aos direitos do homem, a mencionada Declaração colocou
em perspectivas a idéia de certos direitos inatos cujo fundamento encontra-
se no âmbito do jusnaturalismo. Tal perspectiva fica clara quando se avalia o
artigo III da Declaração de 1789: “Todos os homens são iguais por natureza

13
e diante da lei”. Com aspirações universalistas declara-se que certos direitos
são inerentes ao ser humano em qualquer lugar e em qualquer época. Quais
são esses direitos? A igualdade, a liberdade, a propriedade. São considerados
direitos naturais e imprescritíveis.
Por outro lado, quando tratou sobre os direitos dos cidadãos, verificou-se
que nem todos os indivíduos poderiam ser titulares de certos direitos. Para usu-
fruir de determinados direitos ligados à cidadania os indivíduos deveriam ter uma
ligação jurídico-política com determinada nação. No caso, a nação francesa. Para
ilustrar essa condicionante utiliza-se o artigo V da referida Declaração que esta-
belece que “todos os cidadãos são igualmente admissíveis ao emprego público”.
Antes do advento da Revolução Francesa a Inglaterra já contava com
importantes documentos que asseguravam direitos aos membros do seu povo,
desde 1215 com a Magna Carta; a Petição de Direitos de 1628; com a Lei do
Habeas Corpus de 1679 e a Declaração de Direitos (Bill of Rights) de 1689.
Vale ressaltar a Declaração dos Direitos do Bom Povo de Virgínia de 16
de junho de 1776 destacando no artigo 2° que toda autoridade pertence ao
povo e por conseqüência dela se emana.
Os direitos ligados ao exercício das liberdades públicas (religião, expres-
são, locomoção etc.), aliado aos direitos políticos, quando declarados em um
documento denominado Constituição passam a ser chamados de direitos fun-
damentais. Nesse sentido a partir do constitucionalismo moderno vinculado
às matrizes inglesa, francesa e norte-americana, todos os países passaram a
adotar uma constituição de Estado. Os direitos declarados nesses documentos
são direitos matrizes posto que concedam fundamento aos demais direitos.
Desse modo os direitos fundamentais podem ser considerados direitos dos ci-
dadãos de um determinado tempo e lugar, isto é, num Estado concreto – pers-
pectiva nacional – o constitucional.
Vê-se, desse modo, que Direitos Fundamentais (em sentido específico)
constituem uma categoria especial do direito constitucional. Revestem-se es-
ses direitos de essencialidade para a vida de qualquer indivíduo, uma vez que
tocam as dimensões da liberdade e da dignidade. A concepção de direitos
fundamentais surge do entendimento e da necessidade de se criar mecanismos
contra os abusos do poder estatal. A autoridade deve ser controlada por um
conjunto de direitos que visem mediar as relações entre governantes e go-

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vernados, estabelecendo-se o respeito à liberdade individual e a igualdade de
todos perante a lei.
Os horrores perpetrados pelas grandes Guerras Mundiais imprimiram a
necessidade de se criar mecanismos jurídicos, em âmbito internacional, capa-
zes de proteger os direitos denominados humanos. Aproveitou-se o momento
de extraordinária comoção internacional para que o mundo compreendesse da
necessidade de se criar mecanismos jurídicos de âmbito internacional a fim de
impedir os abusos cometidos contra a pessoa humana.
Em 1948, a Organização das Nações Unidas adota a Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos, proclamada pela Resolução n° 217 A (III) da
Assembléia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro. Inaugura-se, desse
modo o Sistema Global de Proteção aos Direitos Humanos. Desde o advento da
referida Declaração, vários documentos surgiram cujo conteúdo básico refere-
-se à tutela dos Direitos Humanos. A título de exemplo pode-se citar o Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966; o Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966; a Declaração Americana
dos Direitos e Deveres do Homem de 1948; a Convenção Americana sobre
Direitos Humanos – Pacto de São José da Costa Rica – de 1969, dentre outros.
A essa altura, pode-se afirmar que Direitos do Homem, Direitos Fun-
damentais e Direitos Humanos convergem para um mesmo sentido que é o
resguardo da pessoa humana contra qualquer tipo de opressão. São direitos
que buscam viabilizar a vida em liberdade e com dignidade. Nesse sentido a
teoria contemporânea tem consagrado a expressão “Direitos Humanos Funda-
mentais” para abarcar as várias denominações, conforme acima foi explanado.
Destaque-se que a Constituição Federal Brasileira de 1988, em seus §§ 2°
e 3°, deixa bem claro ao estabelecer que os direitos humanos declarados nos
tratados internacionais em que o Brasil faz parte são recepcionados com status
de Direitos Fundamentais. Vale dizer que os direitos humanos positivados nos
tratados e convenções internacionais que o Brasil tenha aderido devem ser ob-
servados e respeitados internamente, podendo o indivíduo que sofrer qualquer
lesão provocar o Poder judiciário para ver o seu direito respeitado.
Resumo: Diante do exposto temos que a expressão “Direitos do Homem”
refere-se aos direitos de todas as pessoas em qualquer lugar e em qualquer épo-
ca. São direitos denominados de naturais posto que sejam considerados inatos.

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Os Direitos Fundamentais são aqueles proclamados nas constituições
políticas dos Estados nacionais. São direitos formalmente fundamentais uma
vez que são escritos (positivados). Vide o art. 5º, por exemplo, da Constituição
Brasileira de 1988. Nesse sentido, direitos fundamentais é parte do Direito
Constitucional do Estado.
Os Direitos Humanos, por sua vez, são aqueles direitos declarados nos
tratados e convenções internacionais. Fazem parte do Direito Internacional.
São identificados como Direito Internacional dos Direitos Humanos.
No Brasil, a Constituição de 1988, em seu art. 5º, §§ 2° e 3° recepciona os
Direitos Humanos dos Tratados Internacionais na condição de Direitos Funda-
mentais, concedendo unidade aos mesmos.

1.2 CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS HUMANOS FUNDAMENTAIS

Os direitos humanos fundamentais são relativos, e não absolutos, na medida


em que há situações em que um direito entra em conflito com outro deter-
minado. Como exemplo pode-se citar a hipótese de liberdade de expressão
ou liberdade de imprensa e a honra e a imagem da pessoa. Nessa hipótese de
tensão entre direitos fundamentais, um deve ser flexibilizado para que o outro
possa ser exercido com legitimidade. Em outras palavras, o exercício dos di-
reitos encontra limites nos próprios direitos. Impõe-se desse modo o princípio
da convivência entre liberdades.
São várias as características dos direitos humanos fundamentais e várias
são as classificações. Conforme Bulos (2008, p. 409) os direitos humanos fun-
damentais se caracterizam pelos seguintes elementos:

• HISTÓRICOS – derivam de longa evolução, participando de um contexto


histórico perfeitamente delimitado. Nascem, morrem e extinguem-se.
Não são obra da natureza, mas das necessidades humanas, ampliando-
-se ou limitando-se a depender das circunstâncias. Exemplo: direito de
propriedade (CF, art.5. caput).
• UNIVERSAIS – ultrapassam os limites territoriais de um lugar específico
para beneficiar os indivíduos, independentemente de raça, credo, cor,
sexo, filiação etc. Exemplo: princípio da isonomia (CF. art. 5 caput).

16
• CUMULÁVEIS (ou concorrentes) – podem ser exercidos ao mesmo tem-
po. Exemplo: direito de informação e liberdade de manifestação do pen-
samento (CF. art.5. IV e XXXIII).
• IRRENUNCIÁVEIS: podem deixar de ser exercidos, mas nunca renun-
ciados. Exemplo: não-ajuizamento do mandado de segurança, algo que
não o retira da Constituição (CF. art. 5. LXIX).
• INALIENÁVEIS: São indisponíveis. Os titulares não podem vendê-los,
aliená-los, comercializa-los, pois não têm conteúdo econômico. Exem-
plo: função social da propriedade não pode ser vendida porque não
corresponde a um bem disponível (CF. art. 5., XXIII).
• IMPRESCRITÍVEIS – não prescrevem, uma vez que não apresentam ca-
ráter patrimonial. Exemplo: direito à vida (CF. art. 5 caput).
• RELATIVOS (ou limitados) – nem todo direito ou garantia fundamental
podem ser exercidos de modo absoluto e irrestrito, salvo algumas exceções.

Quanto aos destinatários, os direitos humanos fundamentais se dirigem,


primeiramente, ao Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) na medida em
que esses direitos ora limitam a ação do Estado, ora estabelecem ações aos Po-
deres Constitucionais do Estado. Como desdobramento as normas de proteção
voltam-se para os seres humanos, cidadãos do Estado ou estrangeiros. Cabe ao
Estado respeitar e fazer valer os direitos humanos fundamentais.
Pode-se afirmar também, que alguns direitos fundamentais podem ser usu-
fruídos por pessoas jurídicas (unidade de pessoas físicas ou de bens que se reúnem
para atingir objetivos comuns. Uma empresa, por exemplo). Exemplo de direitos
fundamentais que podem ter por destinatário as pessoas jurídicas: direito de pro-
priedade, direito de resposta, inviolabilidade do domicílio, direito adquirido etc.

1.3 Concepção e gerações dos direitos humanos fundamentais

A conquista dos Direitos dá-se num plano histórico. Surgem primeiro como
valores que são compartilhados e internalizados. Surgem a partir da consci-
ência dos homens e das mulheres. Da luta pelo respeito a esses valores, numa
segunda fase, ocorre a positivação, ou seja, são escritos em determinado docu-
mento jurídico. Pode-se afirmar, desse modo, que os direitos declarados hoje

17
são fruto de uma contínua luta de afirmação de valores que brotam de nossas
consciências e que se tornam fundamentais para que possamos viver uma vida
em liberdade e dignidade.
De forma didática, têm-se tratado sobre esses direitos numa perspectiva ge-
racional. Direitos de primeira, segunda e terceira gerações. Alguns autores (Ingo
W. Sarlet, p.ex.) preferem utilizar a expressão dimensões no lugar de gerações.

1.3.1 Dos direitos de primeira geração (dimensão)

O constitucionalismo moderno surge numa primeira versão clássica a partir


das idéias liberais. Os postulados do liberalismo econômico se estabeleceram
como pilares de uma nova sociedade que se libertava do mundo antigo e me-
dieval, construindo-se a partir de um novo paradigma. Esse novo Estado que
vai se configurando a partir dos ideais constitucionalistas encontra limites na
sua atuação. Como contraponto ao Estado absolutista, o Estado constitucional
se autolimita a partir da separação dos Poderes (legislativo, executivo e Judi-
ciário) e externamente é limitado, agora, pelos direitos fundamentais.
No Estado constitucional liberal em sua versão clássica é que se pro-
clamam os direitos denominados de primeira geração. São os direitos ligados
às liberdades e à propriedade privada. Para essa concepção todos são livres e
proprietários. Livres por que podem dispor da autonomia da vontade e dispor
essa vontade nos contratos. São proprietários do seu próprio corpo que expres-
sa em força de trabalho que, por sua vez, se transforma em mercadoria. Em
decorrência dessa percepção, a propriedade privada é considerada um direito
fundamental absoluto.
Formalmente todos são iguais perante a lei, posto que a lei é compreendida
como fruto da razão do legislador, válida universalmente para todos. A Consti-
tuição Brasileira de 1988, em seu art. 5º estabelece que “ninguém será obrigado
a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. É uma conquis-
ta liberal que permaneceu ao longo da história do constitucionalismo moderno.
O Estado Liberal foi determinante para a construção da idéia de direitos
humanos fundamentais. Dado o ideário que o informava, a concepção desses
direitos estava atrelada ao individualismo. Nesse sentido, os direitos ditos de
primeira geração são direitos civis de cunho individual. Conforme já mencio-

18
nados são direitos ligados à idéia de liberdade e igualdade no plano meramen-
te formal, destacando-se a propriedade privada concebida como um direito
fundamental absoluto.

1.3.2 Dos direitos de segunda geração (dimensão)

No entre guerras, uma confluência de novas idéias vão questionar a legi-


timidade da sociedade individualista liberal. Questiona-se o estado mínimo,
dominado por poucos em detrimento da maioria proletária e empobrecida.
Revoluções socialistas vão surgindo a partir dessas novas idéias. Busca-se a
implantação de uma nova sociedade, mais justa.
Nesse contexto, em 1917 o México elabora a primeira constituição a
inserir um novo conteúdo em seu texto, rompendo com o constitucionalismo
de cunho liberal. A Constituição mexicana de 1917 proclama novos direitos li-
gados ao campo social. A propriedade privada sofre um novo tratamento, dei-
xando de ser um direito absoluto, devendo voltar-se para a sua função social.
Em seguida, na Alemanha, surge a Constituição de Weimar, em 1919. Essa
Constituição cria um subsistema constitucional denominado da Ordem Econô-
mica e Social, permitindo ao Estado organizar e regular as relações no mundo
da produção e do trabalho. No Brasil, em 1934 inaugura o Estado Social.
No contexto do Estado Social que tem lugar os direitos de segunda ge-
ração. São direitos de cunho social e econômico. São direitos que tem por
objetivo a valorização do trabalho humano, visando à justiça social. Saúde,
educação, previdência e assistência sociais, direitos de proteção do trabalhador
são conquistas, a partir da consciência de classe.
A intervenção no mundo da produção e do trabalho, por parte do Estado
e a constitucionalização dos direitos de segunda geração visaram a proporcio-
nar uma igualdade real (material) entre as pessoas.
A liberdade de iniciativa subordina-se às regulações do Estado e aos no-
vos direitos de cunho social. O direito de propriedade subordina-se a função
social que a mesma deve cumprir. Conforme Bulos (2008, p. 472) “a função
social da propriedade é a destinação economicamente útil da propriedade, em
nome do interesse público”. A propriedade deve desse modo, ser destinada
para a geração de riqueza e bem estar da comunidade humana. A propriedade

19
privada que não cumpre a sua função social é suscetível de desapropriação por
parte do poder público.
No plano interno o Brasil estabeleceu na Constituição de 5 de outu-
bro de 1988, no seu artigo 6º os direitos sociais, sendo eles a educação, o
trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados. Os referidos direi-
tos fundamentais recebem tratamento normativo tanto no corpo da própria
Constituição, principalmente no âmbito da Ordem Econômica e Ordem Social,
além da legislação infraconstitucional.
No contexto internacional o Pacto Internacional dos Direitos Econô-
micos, Sociais e Culturais, adotado pela Resolução n. 2.200-A (XXI) da As-
sembléia Geral das Nações Unidas, em 16 de dezembro de 1966 e ratificada,
pelo Brasil, em 24 de janeiro de 1992, constitui uma das principais fontes
desses direitos denominados de segunda geração. O Artigo 1- Parte I do
mencionado Pacto estabelece que todos os povos têm o direito à autodetermi-
nação. Em virtude desse direito, determinam livremente seu estatuto político
e asseguram livremente seu desenvolvimento econômico, social e cultural.
O referido Pacto reconhece ainda os direitos referentes ao trabalho; salário
digno; sindicalização; proteção da família; proteção contra a fome; direito
à educação; participação na vida cultural; dentre outros direitos de cunho
social, econômico e social.
Os direitos sociais podem ser considerados, dessa forma, prestações po-
sitivas do Estado, visando a proporcionar aos menos favorecidos meios de
subsistência com dignidade. Em sua grande maioria são serviços prestados
pelo poder público (serviços ligados à educação, saúde, assistenciais, previden-
ciários, de lazer e proteção dos hipossuficientes, em geral). Esses serviços são
reconhecidos sob a alcunha do interesse público primário.
Ensina Bulos (2008, p. 624-625) que os direitos sociais são direitos de
crédito, pois envolve poder de exigir, por meio de prestações positivas do Es-
tado. Considera-se o Estado como o sujeito passivo desses direitos; ou seja: é
dever do Estado propiciar proteção à saúde (art. 196 da CF), promover a edu-
cação (art. 205 da CF), incentivar a cultura (art. 215 da CF) etc.
Os direitos sociais podem ser classificados em direito do trabalhador; da
seguridade social (saúde, previdência social e assistência social); educação;

20
cultura; lazer, segurança; moradia; da família; da criança; do adolescente e
do idoso; dos grupos, compreendendo a liberdade sindical, direito de greve,
cogestão e autogestão.

1.3.3 Dos direitos de terceira geração (dimensão)

No contexto do liberalismo vislumbrou-se a emancipação do indivíduo. Com o


advento do Estado do bem-estar-social perseguiu-se a igualdade material a partir
de um mínimo existencial. Nos fins do século passado e início do século em curso
uma nova consciência vem se formando e transformando a seara dos direitos hu-
manos fundamentais. São valores que vêm se positivando em documentos cons-
titucionais e instrumentos jurídicos internacionais, em torno de novos direitos
denominados de terceira geração/dimensão, vinculados à idéia de fraternidade.
Paulo Bonavides (1996, p. 523) ao tratar desses direitos escreve que os
direitos de terceira geração tendem a se cristalizar como direitos que têm por
destinatário o gênero humano, na afirmação do valor supremo em termos de
existencialidade concreta.
São direitos difusos, caracterizando-se como aqueles direitos que, na hipó-
tese de dano, os indivíduos atingidos não podem ser claramente identificados.
Os direitos de terceira geração estão vinculados diretamente ao direito
ao desenvolvimento que possa emancipar não apenas indivíduos ou grupos
humanos; mas sim, a emancipação de toda a sociedade.
Meio ambiente, direito do consumidor, direito das crianças, adolescentes
e idosos são alguns exemplos desses direitos denominados de terceira geração
dimensão. Junte-se a esses exemplos a questão da informação, questão mar-
cante no mundo atual e as pesquisas com seres humanos.

RESUMO: Diante do que foi explanado no presente tópico podemos sin-


tetizar dizendo que os direitos humanos fundamentais são conquistas histó-
ricas que, ao longo do tempo, foram se incorporando ao catálogo de direitos
da pessoa humana. São classificados em gerações ou dimensões conforme a
ideologia de estado predominante, a partir do século XVII.
Nesse sentido, no paradigma do Estado constitucional liberal teve lugar
os direitos de primeira geração. Com o advento do Estado social, já no con-

21
texto do século XX, a conquista dos direitos de segunda dimensão. A partir
da década de 70 do século vinte aos dias de hoje, com a constante construção
do Estado democrático de direito, os direitos de terceira geração ou dimensão
vêm se inscrevendo nos mais variados documentos nacionais (constituições) e
internacionais (tratados e convenções).
Para uma melhor compreensão e didatismos, a partir das gerações/di-
mensões, conforme acima descrito, pode-se discriminar e conceituar esses di-
reitos da seguinte forma:

DIREITOS INDIVIDUAIS: Interesse juridicamente tutelado do indivíduo.


Direito “que reconhece autonomia ao particular, garantindo iniciativa e in-
dependência ao indivíduo diante dos demais membros da sociedade política
e do próprio Estado”. Direito individual é o direito, cuja fruição esgota-se no
círculo de atuação de seu destinatário. (MANCUSO, 1991, p. 13). Exemplos:
direito à propriedade; direito de locomoção; direito de expressão; liberdade
religiosa etc.

DIREITOS SOCIAIS: Conforme Bulos (2008, p. 624), direitos sociais são

liberdades públicas que tutelam os menos favorecidos, proporcionando-


-lhes condições de vida mais decente e digna com o primado da igual-
dade real.

São prestações positivas do Estado. Impõem um dever-fazer ao Estado (sujeito


passivo) objetivando resguardar a liberdade e a dignidade daquelas pessoas
que se encontram em situação de vulnerabilidade, principalmente na pers-
pectiva econômica. São aquelas pessoas denominadas hipossuficientes. São
direitos exigíveis ao Estado. Exemplos: Direito à saúde; educação; moradia;
assistência social; proteção da família; ao lazer; direito do trabalho etc.

DIREITOS DIFUSOS: Referem-se à coletividade, não necessitando de vín-


culo jurídico entre os indivíduos. Baseiam-se em fatos genéricos, acidentais
e mutáveis. São titularizados por uma cadeia abstrata de pessoas ligadas por
vínculos fáticos. De titularidade aberta, referem-se a bens indivisíveis. A satis-

22
fação do interesse refere-se à satisfação de toda sociedade. (PINHO, 2002). São
direitos de feitio promocional e educativo. Exemplos: meio ambiente; direito
do consumidor; direito das gerações futuras; vida em paz; direito ao desenvol-
vimento; direito à informação etc.

1.4 Novas concepções e a teoria crítica dos direitos fundamentais


no contexto do século xxi

O século em curso inicia sob o estandarte da “guerra contra o terror”; sob o


assombro do dia 11 de setembro e sob os impactos das crises capitalistas. Um
mundo submetido aos postulados do neoliberalismo e do processo de globa-
lização financeira. São fatores do tempo histórico atual e que motivam novas
reflexões e olhares sobre o tema Direitos Humanos.
A primeira questão que se coloca para essa necessária meditação é a seg-
mentação dos direitos fundamentais em gerações ou dimensões. Essa concep-
ção é bastante criticada tendo em vista a interdependência desses direitos. São
conquistas históricas que hoje se articulam de forma a complementarem-se.
Direitos individuais (liberdades públicas) necessitam da realização dos
direitos sociais para que possam ser exercidos na plenitude. Da mesma manei-
ra, para que os direitos difusos (ligados ao ideal de solidariedade) atinjam seus
objetivos, na construção de uma sociedade mais livre e justa, necessitam da
efetividade dos direitos de primeira e segunda dimensões.
Nesse sentido, os direitos humanos fundamentais devem ser percebidos
de maneira pluridimensional e ao mesmo tempo em sua unidade. Pluridimen-
sionais na medida em que os mesmos podem ser experienciados por indivídu-
os, grupos ou toda comunidade de maneira diversa. Unidade, na medida em
que são interdependentes.
O direito à saúde, por exemplo, pode ser exercido por indivíduos, em par-
ticular; por grupos de pessoas (saúde da criança; do idoso; das mulheres etc.);
ou de forma difusa, no caso de epidemias. Nesse sentido pluridimensionais.
A unidade advém da interdependência. Para exercer o meu direito de
livre expressão, para que eu possa cuidar da minha saúde, preciso de escla-

23
recimento e informação que podem ser fornecidos por processos educativos
(direito à educação) ou direitos ligados à comunicação social, por exemplo.
Outra questão importante que vem sendo colocada no âmbito dos direitos
humanos é a necessária compreensão desses direitos num plano transdisciplinar.
Krohling (2009, p. 139) alerta para a fragmentação do saber e os perigos
da especialização que, muitas vezes, acabam por impedir uma visão global dos
fenômenos. Escreve o citado autor que nas instituições universitárias cresceu a
departamentalização do saber. Nos currículos dos cursos de ciências humanas
foram introduzidos os princípios do taylorismo. Separou-se o sujeito do objeto.
Tal processo de fragmentação também ocorreu na divisão técnica do trabalho.
No campo dos direitos humanos, tal fragmentação também se verifica na
medida em que se passou a separar esses direitos em gerações ou dimensões.
Essa segmentação permitiu a afirmação de alguns direitos individuais a uma
pequena parcela da sociedade e a sonegação dos direitos de segunda dimensão
à grande maioria das pessoas.
Nessa perspectiva, Krohling, apoiado na teoria da complexidade de Ed-
gard Morin, postula a aceitação do princípio da complementaridade nas ciên-
cias humanas (2009, p. 143). Tal postulado também deve reverberar no con-
texto da educação em Direitos Humanos.
Herrera Flores (2009) destaca que os Direitos Humanos se converteram
no grande desafio do século XXI. Esse desafio se expressa tanto no plano te-
órico e prático.
Admitindo a importância do grande esforço que foi realizado em prol dos
Direitos Humanos desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948
até os dias de hoje; lembra, todavia, que o contexto de hoje é bem diferente.
Ainda, Herrera Flores (2009), ressalta que atualmente estamos diante de um
novo contexto social, econômico, político e cultural que se inicia a partir da
queda do muro de Berlim.
Nesse sentido, o contexto atual exige uma teoria que dê atenção especial
aos contextos concretos em que vivemos e uma prática – educativa e social
– de acordo com o presente que estamos atravessando (HERRERA FLORES,
2009, p. 31).
Nessa perspectiva, Herrera Flores constrói uma teoria crítica dos direitos
humanos como via de acesso aos mesmos no contexto do atual momento histó-

24
rico. Conforme o citado autor, os direitos humanos, mais que direitos “propria-
mente ditos”, são processos. Ou seja, o resultado sempre provisório das lutas que
os seres humanos colocam em prática para ter acesso aos bens necessários para
a vida. Para Herrera Flores, os direitos humanos não podem ser confundidos
com os direitos positivados no âmbito nacional ou internacional. (2009, p. 34).
Partindo do pressuposto que não são as declarações, convenções e cons-
tituições que criam os direitos, mas as lutas e ações das pessoas, Flores des-
taca que falar em dignidade humana não implica em fazê-lo a partir de um
conceito abstrato, posto que a mesma constitui-se em um fim material. Para
o autor, “trata-se de um objetivo que se concretiza no acesso igualitário e
generalizado aos bens que fazem com que a vida seja ‘digna’ de ser vivida”
(HERRERA FLORES, 2009, p. 37).
Destaca ainda, que as lutas jurídicas são muito importantes para a efeti-
vidade desses direitos. Mas rechaça as pretensões intelectuais que se apresen-
tam como ‘neutras’ em relação às condições reais nas quais as pessoas vivem.
Nesse sentido indaga: que neutralidade podemos defender se nosso objetivo
é empoderar e fortalecer as pessoas e os grupos que sofrem essas violações,
dotando-os de meios e instrumentos necessários para que, plural e diferencia-
damente, possam lutar pela dignidade? (HERRERA FLORES, 2009, p. 38).
Herrera Flores (2009) concebe os direitos humanos a partir de uma pers-
pectiva de altíssima complexidade envolvendo vários aspectos, quais sejam:
complexidade cultural; complexidade empírica; complexidade jurídica; com-
plexidade científica; complexidade filosófica; complexidade política; comple-
xidade econômica.
Diante das referidas complexidades, aponta para cinco deveres básicos
para a compreensão dos direitos humanos no início do século XXI, e a pos-
sibilidade de se construir o acesso aos bens necessários para uma vida em
liberdade, igualdade e dignidade:

i. reconhecimento de que todos e todas devem reagir culturalmente frente


ao entorno de relações no qual vivemos. Toda realidade é construída.
Nesse sentido tudo está por se fazer;
ii. respeito como forma de conceber o reconhecimento como condição ne-
cessária, mas não suficiente, na hora de por em prática as lutas pela dig-

25
nidade. Por meio do respeito aprende-se a distinção entre aqueles que
têm posição de privilégio e quem tem a posição de subordinação no di-
fícil, mas, iniludível encontro entre as diferentes percepções de mundo;
iii. reciprocidade como base para saber devolver o que tomamos dos outros
para construir os nossos privilégios, seja dos outros seres humanos, seja
da natureza;
iv. responsabilidade: a nossa responsabilidade de exigir responsabilida-
des aos que cometeram o saqueio e a destruição das condições de vida
dos demais;
v. redistribuição: ou seja, o estabelecimento de regras jurídicas, fórmulas
institucionais e ações políticas e econômicas concretas que possibilitem
a todos e a todas não somente satisfazer as necessidades vitais ‘primá-
rias’, mas, além disso, a reprodução secundária da vida, quer dizer, a
construção de uma dignidade não submetida aos processos depreda-
dores do sistema imposto pelas necessidades de benefício imediato que
caracterizam o modo de relação baseado no capital; sistema no qual
uns têm nas suas mãos todo o controle dos recursos necessários para
dignificar suas vidas, e os outros não têm mais que aquilo que pandora
não deixou escapar dentre suas mãos: a esperança de um mundo melhor
(HERRERA FLORES, 2009, p. 67-68).

A educação em direitos humanos para o século XXI deve buscar nas


experiências vividas uma nova percepção desses direitos a partir das necessi-
dades do contexto concreto em que hoje vivemos.
Educar para uma vida em dignidade significa educar para além das teo-
rias e práticas clássicas que nortearam os direitos humanos. Faz-se necessário
aliar uma nova teoria para novas práticas, tendo por finalidade a promoção
de todos e todas aos bens (educação, vida, saúde, propriedade, meio ambien-
te ecologicamente equilibrado, segurança, assistência etc.) para uma vida em
liberdade e dignidade. Para além das lutas jurídicas, também as lutas políticas
em busca desses bens e direitos.
Outra vertente de pesquisa vem aflorando hodiernamente que é a com-
preensão dos deveres humanos fundamentais. A constituição brasileira de
1988 trás no seu texto expressamente a expressão deveres fundamentais. Mas

26
quais seriam as reais consequências dos deveres fundamentais na perspectiva 1. Conceito formulado no primeiro semes-
normativa? São indagações que vão surgindo e que ainda merecem ampla tre de 2013 pelos integrantes do Grupo de
Pesquisa vinculado ao PPGD-FDV, denomi-
reflexão. Para iniciar o debate eis um conceito: nado “Estado, Democracia Constitucional e
Direitos Fundamentais” liderado pelo Prof.
dever fundamental é uma categoria jurídico-constitucional, fundada na Dr. Daury Cesar Fabriz.

solidariedade, que impõe condutas proporcionais àqueles submetidos a


uma determinada ordem democrática, passíveis ou não de sanção, com
a finalidade de promoção de direitos fundamentais1.

Nessa perspectiva podemos indicar vários exemplos de direitos funda-


mentais em espécie, quais sejam, Dever Fundamental dos pais cuidar dos seus
filhos; Dever Fundamental de cuidar do meio ambiente; Dever Fundamental
de servir à pátria; Dever Fundamental de ajudar a segurança pública; Dever
Fundamental de contribuir com os gastos do Estado; Dever Fundamental dos
filhos cuidar dos seus pais na idade avançada etc.
Ainda sobre os Deveres Fundamentais do cidadão pode-se perquirir so-
bre as consequências práticas que poderão incidir sobre uma pessoa que dei-
xa de cumprir o comando normativo que estabelece o Dever Fundamental.
Sobre essa questão podemos afirmar que

As consequências em relação ao descumprimento de um dever podem


existir ou não. Ao prescrever uma conduta humana como devida, a or-
dem jurídica pode estabelecer quanto à sua observância ou inobservân-
cia um determinado tipo de consequência: uma vantagem ou desvanta-
gem; ou não as estabelecer. Assim, não se procura analisar que razões
ou motivos levam um indivíduo a cumprir ou não um dever jurídico,
e sim que consequências podem advir do descumprimento. Trata-se do
princípio retributivo. (MARQUES &FABRIZ; 2013, p. 04).

É nesse sentido que para além dos direitos devemos também levar em consi-
deração os deveres fundamentais.

27
Reênciasfer ácasbilogr

ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os direitos fundamentais na constituição portu-


guesa de 1976. Coimbra: Almedina, 1988.

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28
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MAGALHÃES, José Luiz Quadros. Os direitos humanos na ordem jurídica interna.


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MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Interesses disfusos: conceito e legitimação para


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PINHO, Humberto Dalla Bernadina. A natureza jurídica do direito individual homo-


gêneo e sua tutela pelo Ministério Público como forma de acesso à justiça.
Rio de Janeiro: Forense, 2002.

29
Paulo César Carbonari
Doutorando em Filosofia (Unisinos), professor e coordenador do Curso de Ba-
charelado em Filosofia do Instituto Berthier (IFIBE, Passo Fundo, RS), membro
e vice-coordenador do Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (CNEDH/SDH-
-PR), membro do conselho nacional do Movimento Nacional de Direitos Hu-
manos (MNDH).

2
PARA FAZER DA EDUCAÇÃO: 1. Fazemos um esforço na direção de pro-
AÇÃO DE DIREITOS HUMANOS blematizar a situação brasileira contem-
porânea no artigo Direitos humanos no
POR UMA EDUCAÇÃO DIREITOSHUMANIZANTE Brasil: a promessa é a certeza de que a
luta precisa continuar (CARBONARI, 2012,
Paulo César Carbonari p. 21-35), ao qual remetemos.

A questão que se apresenta de início é: que educação é aquela que se põe como
uma educação capaz de promover os direitos humanos, não em sentido abstra-
to, mas de forma contextualizada ao processo histórico dos direitos humanos.1
Mesmo com o risco de sermos generalista e sem tomar em conta as diferenças
de fazer educação em direitos humanos na educação formal e na educação não
formal, propomos o que chamamos de educação direitoshumanizante.
A educação direitoshumanizante aponta para que a educação seja mais do que
a garantia de um dos direitos humanos – o que de fato é. Exige também que
seja mais do que incluir os direitos humanos na educação. A questão funda-
mental é que o conjunto da educação seja perpassada pelos direitos humanos.
Dizer direitoshumanizante não é agregar um adjetivo a mais à educação
e sim dar-lhe uma substantividade que lhe apresenta exigências próprias. Estas
exigências são favoráveis a umas e críticas a outras compreensões e práticas
educativas, assim como favoráveis a umas e reativas a outras concepções e
práticas de direitos humanos.

Apresentamos um diagnóstico de motivações que não se constituem em boas


razões para uma educação direitoshumanizante.
A educação não tem nada que educar em direitos humanos. Ela tem
sim é que formar profissionais competentes e aptos ao mercado de trabalho.
Assim se pronunciam as vozes do mesmo, dos que só querem mais, do mes-
mo. A ideologia da competência e da preparação para a atuação no mercado
contribui para rebaixar as pautas, as agendas, as abordagens e as exigências
para a educação em geral e, particularmente, para a educação formal, a básica
e a superior. Voltar-se unicamente para competências é trabalhar o processo

31
2. Recuperamos a posição de Martha Nus- educativo de forma unidimensional, como treinamento, dado que a forma-
sbaum quando diz que: “O tema do lucro ção exige mais do que domínio de técnicas e capacidade para sua aplicação.2
sugere para a maioria dos políticos em
O voltar-se para o mercado é componente ideológico que contribui para afas-
questão que a ciência e a tecnologia são
de importância crucial para o futuro do tar a educação da sua finalidade maior, que é a formação para a atuação inte-
bem-estar de seus povos. Não deveríamos gral. Esta postura parte de uma premissa insuficiente e que estabelece o mer-
ter qualquer objeção a uma boa educação
cado como o fórum de definição das prioridades e das demandas. O mercado,
científica e técnica e não estou sugerindo
que as nações deveriam parar de tentar sabemos, não é um espaço público, antes, pelo contrário, é privado e privatista
melhorar este aspecto. A minha preocupa- no capitalismo tardio.3 Por isso, se ficar na dependência do mercado, a educa-
ção é que as outras habilidades, habilidades ção abre mão de formar agentes para a incidência na vida pública e de formar
cruciais para a saúde interna de qualquer
democracia, para a criação de uma cultu-
para orientar sua participação na vida social e para incidir nas agendas do que
ra descente, para um modelo robusto de é de interesse público, para colaborar no que é comum. As demandas a serem
uma cidadania mundial e para abordar os atendidas pela educação não são aquelas dos interesses privados e privatistas;
problemas mais prementes do mundo estão
são, sim, aquelas dos espaços públicos nos quais se exerce os direitos e se
em risco de se perder nessa busca compe-
titiva por lucro” (NUSSBAUM, 2009, p. 4). constrói novos direitos. Formar competências para o mercado não contribui
para a formação do sujeito de direitos, no máximo o faz ser um consumidor
3. Mais: “Preocupa-me, no entanto, per-
servil aos ditames do consumismo.4
ceber que a análise da educação utilizada,
mesmo pelos melhores profissionais da Educar em direitos humanos é o mesmo que educar para a cidadania,
abordagem do desenvolvimento humano, para os valores e para a paz. Sim, educar para a cidadania, para os valores e
tende a concentrar-se nas competências para a paz se constituem em tarefas fundamentais da educação. Mas, fazer da
básicas e comercializáveis negligenciando
educação em direitos humanos somente o formar para a cidadania é restritivo,
as habilidades humanistas do pensamento
crítico e da imaginação tão cruciais caso a pois implica na educação para o conhecimento e o exercício dos direitos exis-
educação realmente seja pensada de modo tentes e circunscritos ao seu reconhecimento no âmbito de uma determinada
a promover o desenvolvimento humano,
comunidade política nacional, de um determinado país [mesmo que se deseje,
em vez de, simplesmente, o crescimen-
to econômico e as aquisições individuais“ não existe ainda a cidadania global] e para a contraprestação dos deveres por
(NUSSBAUM, 2009, p. 5). eles exigidos, como que formando para a inserção na ordem social, jurídica
e política disponível. Formar em valores constitui-se também em tarefa fun-
4. Para aprofundamento ver, entre muitos
damental, mas dado que valores e vida moral são construções controversas e
outras, as reflexões críticas de Martha Nus-
sbaum. Ela diz, analisando a situação con- nem sempre favoráveis, fazer este tipo de formação poderia ser confundido
temporânea da educação: “Se esta tendên- com a inserção na vida moral hegemônica que, nem sempre é protetora dos
cia se prolonga, as nações de todo o mundo
direitos – vide posições patriarcais, machistas, homofóbicas e de outros tipos,
produzirão gerações inteiras de máquinas
úteis no lugar de cidadãos com capacidade mesmo que se possa ser crítico, acima de tudo a formação moral quer levar a
de pensar por si próprios, com uma pers- “aderir” a uma determinada vida moral. A formação deste tipo também corre o
pectiva crítica sobre as tradições e de com- risco de ser confundida com a reintrodução de formas de famigerada memória
preender a importância e das conquistas e
na educação, como a educação moral e cívica como estratégias de submissão

32
– ao modo como fez o regime ditatorial civil-militar. Por fim, educar para a Continuação da nota 4
paz é também tarefa fundamental, mas confundi-la com educação em direitos dos sofrimentos dos outros” (NUSSBAUM,
humanos é não reconhecer que a paz é mais do que a simples ausência das 2010, p. 20, tradução nossa).

violências, mas a combinação de uma vida vivida com direitos, exigindo, por-
5. No dizer de Freire: “É precisamente por-
tanto, os direitos humanos e não reduzindo os direitos humanos a ela. Assim, que reduzidos a quase ‘coisas’, na relação
quaisquer destas formas de educação são fundamentais, mas insuficientes para de opressão em que estão, que se encon-
dar conta do significado de educar em direitos humanos. tram destruídos” (1975, p. 60). Ele vai mais
a fundo e diz que “Dela [a prática de do-
Educar em direitos humanos se confundiria com fazer uma educação
minação], que parte de uma compreen-
ideológica, estranha ao que deve ser científico.5 Este é o fator mais pernicioso à são falsa dos homens – reduzidos a meras
construção da educação em direitos humanos, visto que parte de uma premissa coisas – não se pode esperar que provoque
o desenvolvimento do que Fromm cha-
completamente equivocada de que há certo tipo de saber que se constitui em
ma de biofilia, mas o desenvolvimento de
parâmetro [neutro] para todos os demais saberes, o saber científico, que exclui seu contrário, a necrofilia. […] A opressão,
todos os que não respondem aos cânones por ele determinados. O resultado é que é um controle esmagador, é necrófila”
a produção do saber de forma monolítica e reprodutora de modelos e formas (FREIRE, 1975, p. 74). Tratamos a fundo da
posição de Freire em relação à educação
pouco abertas à diversidade dos conhecimentos, dos saberes e das suas formas
em Porque educação em direitos humanos:
de expressão e de vivência, e que tende para a formação de uma ciência uni- bases para a ação político-pedagógica, a
ficada. A epistemologia contemporânea tem mostrado sobejamente a ilusão ser publicado pela editora da UFPB.

desta premissa e a sua consequência mais nefasta para a própria ciência, que é
6. Ver de modo particular a crítica e a pro-
o “desperdício” de saberes, da criatividade e da possibilidade de identificação posta alternativa feita por Boaventura de
e de resolução de problemas.6 Tem mostrado também a pluralidade dos saberes Sousa Santos (2004; 2006). Discutimos este
e das formas de sua expressão como sendo característica tanto dentro de cada assunto no contexto da relação entre reco-
nhecimento e educação no artigo Direitos
área específica de conhecimento quando das diversas áreas entre si. Desco- humanos, reconhecimento e educação: por
nhecer esta perspectiva é efetivamente investir numa educação monocultural uma abordagem ecológica (CARBONARI,
e pouco afeita à formação de sujeitos de direitos. 2012, p. 20-30).

A educação em direitos humanos não tem qualquer especificidade e, por


isso, “cabe tudo na educação em direitos humanos”. Esta postura parte da
premissa de que a abrangência ampla e a baixa determinação positiva do con-
teúdo dos direitos humanos os transformam num grande “guarda-chuva” para
todo tipo de ação educativa. É verdade que direitos humanos têm conteúdos
abertos e abrangentes e que são pouco afeitos à exatidão. Daí a deduzir que
qualquer atividade pode ser de promoção da educação em direitos humanos
é exagero. Um exemplo pode ilustrar: a orientação jurídica ou o atendimento
de demandas da população no campo penal ou cível por si só não são imedia-
tamente ações em direitos humanos. O acesso à justiça é um direito humano,

33
7. Recentemente o Conselho Nacional de mas nem todas as práticas de promoção do acesso à justiça são práticas de
Educação emitiu Diretrizes Nacionais para promoção dos direitos humanos podendo até vir a ser expedientes funcionais
a Educação em Direitos Humanos na edu-
em pouco ou nada emancipatórios. A questão diferenciadora fundamental está
cação básica e na educação superior. Ver
Resolução nº 1 e Parecer nº 8, ambos de no alcance destas ações no sentido de formar sujeitos de direitos.
30/05/2012. Contra estas posições, a principal motivação para educar em direitos hu-
manos é a formação dos/as educandos/as como sujeitos de direitos que já são
sujeitos de direitos no ato educativo, têm, entre outros, o direito à educação,
que é um dos direitos humanos, e também têm o direito de aprender direitos
humanos como parte de sua formação. Trata-se de agir com os sujeitos da
educação, os/as educandos/as, como sujeitos de direitos: a) porque, mas não
somente, os sujeitos são parte de uma cultura jurídica do estado democrático
de direito que lhes confere status de cidadania; b) porque, mas não somente,
os sujeitos são parte de uma comunidade moral e por isso parte de um pro-
cesso de formação em valores; c) porque, mas não somente, os sujeitos são
parte de uma comunidade que resiste e exige viver livre de todas as formas de
violência e quer paz; d) porque, mas não somente, os sujeitos são parte de uma
comunidade política e por isso têm direito a resistir, a se organizar e a protes-
tar, contestando a ordem injusta; e) porque, mas não somente, os sujeitos são
parte de uma comunidade de saber específica, mas aberta aos demais saberes.
Em outras palavras, os modelos acima descritos se mostram ainda insuficien-
tes para cumprir a tarefa da educação direitoshumanizante na perspectiva da
formação integral do sujeito de direitos.

O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH)7 sugere indi-


cativos para ajudar nesta tarefa. Ele estabelece que a educação em direitos
humanos é “[…] um processo sistemático e multidimensional que orienta a for-
mação do sujeito de direitos […]” (BRASIL, 2006, p. 25). A educação em direitos
humanos se constitui, assim, em “processo”. Se é processo, é parte do conjunto
das ações às quais se associa. Os adjetivos “sistemático” e “multidimensional”
qualificam de forma substantiva o processo a ser realizado pela educação em
direitos humanos, dando-lhe as qualidades essenciais: a primeira afasta qual-
quer perspectiva de que a educação em direitos humanos seja apenas um [ou

34
até muitos] evento em qualquer dos momentos ou dos âmbitos da vida edu- 8. Construímos um esboço de uma teoria do
cativa; a segunda afasta qualquer perspectiva unidimensional e fragmentária sujeito de direitos no artigo Sujeito de dire-
itos humanos: questões abertas e em con-
da formação. Positivamente, uma e outra convergem para a finalidade central
strução (CARBONARI, 2007, p. 169-186).
da educação em direitos humanos, que é a formação do “sujeito de direitos”.
O PNEDH explicita as várias dimensões da educação em direitos huma- 9. Sugerimos como subsídio a reflexão de
Josef Estermann (2012), expressa em vários
nos. Informa pelo menos as seguintes dimensões: a) a dimensão epistêmico-
textos sobre este tema, particularmente em
-cognitiva [“apreensão de conhecimentos historicamente construídos […]”; b) Crisis civilizatoria y Vivir Bien: una crítica
a dimensão ética [“afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que expres- filosófica del modelo capitalista desde el
sem a cultura dos direitos humanos em todos os espaços da sociedade”]; c) a allin kawsay/suma qamaña andino. Esta
leitura é feita com base na construção que
dimensão política [“formação de uma consciência cidadã […]”; d) a dimensão vem sendo elaborada pelas organizações
pedagógica [“desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de indígenas andinas, entre as quais a Coor-
construção coletiva […]”; e e) a dimensão social [“fortalecimento de práticas dinadora Andina de Organizaciones Indí-
genas (CAOI). Para mais informações ver
individuais e sociais que gerem ações e instrumentos em favor da promoção,
documento em www.reflectiongroup.org/
da proteção e da defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das stuff/vivir-bien.
violações”] (BRASIL, 2006, p. 25). Estas diversas dimensões têm como eixo
articulador e diferenciador fundamental a formação do sujeito de direitos.8
Formar sujeitos de direitos é contribuir de maneira decisiva para a recon-
figuração das relações entre os seres humanos e destes com o mundo cultural e
com o ambiente natural de forma a subsidiar processos de afirmação dos huma-
nos como sujeitos em convivência com outros sujeitos. Com base nesta noção
geral, desdobramos três aspectos que consideramos fundamentais ao núcleo da
educação direitoshumanizante como processo de formação de sujeitos de direitos.
Educar em direitos humanos é formar sujeitos sustentáveis e que promovem
a sustentabilidade em sentido amplo. Nenhum ser humano se faz fora do mundo,
fora do ambiente cultural e do ambiente natural. A interação ocorre como rela-
ção com os sentidos (mundo) nas condições de sentido (culturais e naturais) nas
quais se está inserido. Posturas predatórias – ou mesmo as preservacionistas que
são só mitigadoras – são insuficientes porque, além de comprometer o mundo
como ambiente natural e cultural, também comprometem o humano. Por isso,
o grande desafio da educação em direitos humanos é o educar para o bem viver
como integração do viver humano com o viver de outras formas de vida, recons-
truindo a relação do humano com o ambiente no qual se insere.9
Educar em direitos humanos é formar para participar, para “aparecer” e
para “dizer”. “Aparecer” e “dizer” consistem em aceitar que cada pessoa pode

35
10. Remetemos à reflexão, entre muitas se expressar de forma livre e em condições adequadas para tal. Significa forta-
outras, de Adela Cortina no texto Democ- lecer todo tipo de presença [que é mais que visibilidade] e fazer frente a todo
racia como forma de vida (1992, p. 254-
tipo de cerceamento da expressão, o que é sinônimo de participar. A participa-
272). Desenvolvemos o tema democracia e
direitos humanos em CARBONARI, 2008, p. ção é conteúdo fundamental para a efetivação dos direitos humanos. Presença
13-34. é participação. Participação é interação. Interação é agir na alteridade. Assim,
está em questão identificar processos e propostas, dinâmicas e sujeitos, diver-
gências e convergências, sob o crivo da alteridade. Quando centradas na alte-
ridade, as vivências públicas são muito mais do que um jogo; são construção,
permanente e sempre nova, de um modo de ser social e político, um modo de
ser humano, com direitos humanos, o que remete para a convivência demo-
crática como necessária aos direitos humanos, mas não a mera democracia
representativa e sim a democracia como forma de vida.10
Educar em direitos humanos é formar para a liberdade e para a respon-
sabilidade. A liberdade, longe de ser uma propriedade ou uma faculdade, é
a vivência de condições que abram oportunidades e que permitam fazer das
oportunidades realidade. As escolhas se dão em vários planos e entrecruzam
a diversidade das possibilidades sempre em relação. Daí ser impossível querer
a liberdade como uma propriedade individual que só serve para constituir os
outros como concorrentes – afastando a ideia de que minha liberdade vai até
onde começa a do outro, como se houvesse uma cerca entre uns e outros. A
liberdade entendida como tecido em relação tem em seu conteúdo a respon-
sabilidade consigo e com os outros, que não nasce como decorrência, mas é
lhe é constitutiva. Ou seja, a responsabilidade não vem como recíproca, mas
como doação. Isto não exclui as recíprocas, apenas as põe num outro patamar.
Educar em direitos humanos é, assim, educar para a liberdade como respon-
sabilidade e para a responsabilidade como liberdade. Não se trata de escolher
entre direitos e deveres; trata-se de vivê-los como exercício combinado, nunca
podendo estabelecer prioridade a uns ou a outros. O sujeito de direitos é, assim,
sujeito livre e criativo com os outros, nunca contra os ou apesar dos outros.

Propor-se a educação direitoshumanizante exige tomar em conta um conjunto


de desafios concretos que dependem menos de uma decisão de vontade ou

36
de uma norma vinculante e apontam mais para a configuração de posiciona- 11. Vale a pena ver a posição de Walter
mentos criativos que reponham o que significa fazer educação muito além do Benjamin, particularmente em Sobre o
conceito de história, assim como o comen-
ensino. Coerentes com o que já desenvolvemos, os desafios se concentram em
tário de Michael Löwy (2005), ver referên-
formar sujeitos de direitos em perspectiva integral, multidimensional. Por isso, cia completa ao final.
exploramos três aspectos que sistematizam a tarefa da educação em direitos
humanos: a memória, a verdade e a justiça estendidos a toda a educação.
Não há educação em direitos humanos sem memória! A memória é cons-
titutiva do modo de vida no qual se situam e se fazem os sujeitos em intera-
ção com o ambiente (natural e cultural) e com os outros humanos (não contra
eles). A memória é constitutiva da historicidade (da temporalidade e da finitude),
mas também da possibilidade de transcendência a ela. Este desafio exige uma
nova compreensão do tempo, superando perspectivas lineares e que alargam
por demais o futuro em detrimento do passado e do presente, ou o presente em
detrimento do passado e do futuro.11 Reforçar a memória não é sinônimo de re-
afirmação pura e simples da tradição de simples alargamento do passado; pelo
contrário, é compreender o passado como parte constitutiva do presente e do fu-
turo. Por outro lado, não é sacrificar o passado e o presente em nome de um futu-
ro largo e de progresso; pelo contrário, é compreender o presente como exercício
de realização do “já-não” e do “ainda-não” que fazem parte das práticas atuais.
O desafio da educação em direitos humanos como memória exige a crítica
contundente a todas as formas de esquecimento cínico, aquele que costuma so-
brepenalizar as vítimas da história (e das violações de direitos, os “sujeitos sujei-
tados”) em nome do avanço, do progresso. A educação em direitos humanos que
não for capaz de reconstrução da memória não como simples descrição da histó-
ria, mas como vivência dos significados dos processos históricos, não será capaz
de formar sujeitos de direitos que se compreendam como agentes da promoção
dos direitos em qualquer área do conhecimento e em qualquer tipo de educação
que for. Um exemplo para ilustrar: um arquiteto que não tenha a compreensão
do significado da construção do espaço urbano como espaço de disputa e de
integração para certos setores e de segregação para as maiorias dificilmente terá
condições de trabalhar na perspectiva da cidade como direito e como espaço de
exercício dos diversos direitos. É a memória das muitas vítimas das cidades, visí-
veis e invisíveis, que poderá fazer da educação em direitos humanos um exercício
de direitos humanos e um compromisso com a promoção dos direitos humanos.

37
12. Ver, neste sentido, a proposta de Joa- Não há educação em direitos humanos sem verdade! A verdade (não
quín Herrera Flores (2002) sobre o univer- absoluta, muito menos relativa) como busca de assentimento e convergência
salismo de chegada e de Boaventura de
é constitutiva da afirmação dos conhecimentos e também das vivências, até
Sousa Santos (2006) sobre a ecologia dos
saberes [referência completa ao final]. porque sujeitos se fazem em relações verdadeiras e de confiança. Este desafio
exige uma nova concepção de racionalidade capaz de lidar com a diversidade
dos saberes e da verdade. O reconhecimento de diferentes tipos de racionalida-
de não necessariamente advoga sucumbir ao relativismo. Pelo contrário, é exi-
gência para lidar com a pluralidade de forma construtiva, o que repõe a uni-
versalidade, não de partida, mas como horizonte a ser buscado.12 A ecologia
dos saberes se constitui em desafio que exige muito mais do que o tratamento
de cada área ou cada especialidade por si mesma; exige o desenvolvimento de
perspectivas interdisciplinares e até transdisciplinares. A vigência da ordem
dos saberes pelo disciplinamento acadêmico que constitui cânones incomuni-
cáveis entre as várias racionalidades e, em consequência, entre os múltiplos
saberes é o desafio central a ser superado. A verdade, neste sentido, é menos
um dado ou uma posse e mais uma construção em diálogos complexos.
Por isso, o desafio da verdade como tarefa da educação em direitos hu-
manos exige enfrentar tanto o dogmatismo [e seus fundamentalismos] quanto
o relativismo, dado que ambos são cínicos já que tendem a não reconhecer
legitimidade à diversidade das formas de saber e de verdade como constitu-
tiva de sujeitos de direitos. Por seu lado, o dogmatismo, inviabiliza as múl-
tiplas possibilidades fechando-se numa perspectiva unificacionista do saber
que tende a reduzir tudo o mais a ceticismo crasso ou a simples ignorância
e não-saber. O relativismo, por seu turno, mesmo que pareça reconhecer a
diversidade, não a trata, porém, em perspectiva de pluralidade, ou seja, não
admite qualquer tipo de convergência possível, redundando por inviabilizar
a afirmação de sujeitos, dado que perde qualquer possibilidade de interação,
nem que seja comparativa, entre os diversos tipos de racionalidade, de saber e
de verdade, fazendo-se funcional ao modelo competitivo do consumismo indi-
vidualista vigente. É por inviabilizar os sujeitos, cada um a seu modo, que tan-
to o dogmatismo quanto o relativismo são posturas inadequadas à educação
comprometida com direitos humanos. O desafio central está na promoção da
ecologia dos saberes. Neste sentido, é da qualidade da verdade que se constrói
nos processos de produção e de disseminação do saber que se pode estabelecer

38
convivência e interação que sejam adequadas e favoráveis a afirmação de
sujeitos de direitos.
Não há educação em direitos humanos sem justiça! A justiça é exigência
que só pode ser efetivada pela promoção de práticas que tenham como conteúdo
central, de um lado, a superação das desigualdades e, de outro, a superação das
discriminações. A promoção do acesso aos bens materiais e simbólicos necessá-
rios à vida com dignidade e a promoção do reconhecimento da singularidade, da
particularidade e da universalidade dos sujeitos se constituem, juntas, a síntese
do que significa a formação para a justiça como combinação complexa entre dis-
tribuição e reconhecimento. Fazer justiça é muito mais do que implantar na terra
uma ideia de reino dos fins ou do que compor interesses de forma a maximizar
a felicidade em detrimento da dor. Trata-se, além de promover oportunidades,
também da promoção de condições, dado que oportunidades sem condições po-
dem se tornar vãs e condições sem oportunidades podem reificar relações.
Por isso, o desafio da justiça exige construir condições capazes de iden-
tificar e reparar violações de direitos (reparar as vítimas) e, acima de tudo,
promover e proteger as pessoas e seus direitos de forma que a dignidade possa
ser concreta no cotidiano. Isso exige a crítica a todas as formas de cinismo que
relegam a igualdade à quimera e a diversidade à desigualdade (discriminação)
e que faz da justiça sequer uma promessa. O compromisso da educação com a
justiça informa todos os processos educativos na perspectiva de constituí-los
como dinâmicas de estabelecimento de novas relações, neles mesmos enquan-
to estão sendo realizados e no que promovem desde sua realização.
Em suma, memória, verdade e justiça constituem trinômio fundamental
de uma educação em direitos humanos que seja educação direitoshumani-
zante. Sujeitos só se constituem e se fazem com os outros. Esta educação se
propõe como ação contra o mais fácil e o mais conveniente. Estes, de regra,
colaboram para produzir resultados que reforçam práticas e processos que
dispensam a dignidade e, em consequência, inviabilizam, interditam e sub-
jugam sujeitos. Por isso, enfrentar os desafios aqui identificados é investir na
realização da dignidade do sujeito como conteúdo intransitivo dos direitos
humanos. Acima de tudo está o desafio de orientar [e reorientar] o conjunto
da ação educativa de forma a fazê-la como exercício dos direitos humanos,
formando sujeitos de direitos.

39
13. Como defende Joaquín Herrera Flores A educação direitoshumanizante exige a construção do que se poderia
no artigo Direitos humanos, interculturali- chamar de “racionalidade de resistência”.13 Isto significa dizer que está posta a
dade e racionalidade de resistência (2002).
exigência de educar para que as pessoas não sucumbam às formas perversas,
funcionalizadas e naturalizadas de desumanização, tão comuns às sociedades
contemporâneas. O outro lado da formação para a resistência, que é parte da
mesma ação, é a formação para a cooperação.
A resistência é a atitude que constitui as múltiplas possibilidades de
construção do humano como solidariedade visto pôr as relações de coopera-
ção como características do modo humano de ser, sem o que certamente os
humanos já teriam extinto a si mesmos como espécie. É inclusive como for-
ma de cooperação e de solidariedade com os mais fracos, as vítimas, que faz
sentido a resistência, dado que ela se caracteriza por fazer dos humanos seres
capazes de indignação e de movimentação para fazer frente a todas as formas
e violência e de inviabilização do humano. Assim que, a resistência faz sentido
como mediação para a construção de relações humanas e humanizadas, de
cooperação na tarefa de humanização, por um lado, e para o enfrentamento
duro e consistente de todas as formas e relações desumanizadoras, por outro.
A perspectiva da resistência, como diz Herrera Flores, aponta para um
movimento que caminha em sentido contrário a

[…] todo tipo de visão fechada, seja cultural ou epistêmica [e], a favor de
energias nômades, migratórias, móbiles, que permitam deslocarmo-nos
pelos diferentes pontos de vista sem a pretensão de negar-lhes, nem de
negar-nos, a possibilidade de luta pela dignidade humana (2002, p. 23).

Trabalhar a resistência neste sentido indica que a construção dos direitos


humanos reúne solidariedades. O que se quer de alternativo ao modo de vida
hegemônico desumanizante não pode repetir o mesmo modo massificador,
fechado e uniformizador. Por isso, a abertura ao movimento e ao outro é ca-
racterística forte da resistência.
O movimento e a mobilização são componentes fundamentais para que os
sujeitos de direitos humanos se constituam em processos organizativos e orgâ-
nicos de resistência. O direito à resistência não pode ser transformado em sinô-
nimo de delinquência e passar a ser desmoralizado e criminalizado – o “discurso

40
da ordem” é sempre o discurso deste tipo.14 Afinal, o direito de exigir os próprios 14. Ver a posição de Castor Bartolomé
direitos é dos direitos humanos o mais fundamental e educar-se para tal é essen- Ruiz (2009).

cial numa época em que a resistência, da organização, da movimentação, ações


15. Ver a proposta de Enrique Dussel
criminalizadas. Aprender a se organizar com os outros é a lição mais elementar (2000; 2001).
dos direitos humanos. Isto por que, os processos de libertação, e entre eles os
16. Para um mapeamento deste debate
processos de luta por direitos humanos, são processos de afirmação de vítimas
ver, entre outros, A justiça perante uma
que não aceitam sua condição e se põem em luta para superar esta condição e crítica ética da violência, de Castor Bar-
para instaurar um mundo no qual tenham lugar como sujeitos de direitos.15 tolomé RUIZ (2009, p. 87-111), texto no
A cooperação como forma de construção de alternativas para a viabilida- qual faz uma belíssima reflexão sobre a
crítica ética da violência.
de do humano e de sua humanização é aspecto fundamental da educação em
direitos humanos. Apesar das discussões das possíveis interações entre a com-
petição e a cooperação,16 não há dúvida de que a cooperação não é dispensável
em processos de humanização e de que ela sempre é salutar para isso, sendo
que o mesmo não se pode sempre dizer de toda a competição, mormente no
modo como a conhecemos no capitalismo avançado. A educação direitoshu-
manizante há que investir de forma significativa para fazer frente a todas as
formas de individualismo possessivo que não mais vê fronteiras em se apossar
inclusive dos outros humanos, coisificando-os, de forma a propor alternativas
de construção de espaços de convivência nos quais a cooperação seja a marca.
Vivenciar no cotidiano, como forma de vida, as novas formas de cooperação é
o caminho para que os direitos humanos se realizem.
Enfim, a educação direitoshumanizante tem como tarefa central direi-
toshumanizar os sujeitos humanos para que, por sua ação, sejam capazes de
direitoshumanizar o mundo. Os direitos humanos não podem mais ser apenas
um expediente de interesse das conveniências do poder e menos ainda discur-
so retórico ilustrado. Os direitos humanos continuam a fazer sentido enquanto
se tornarem ação efetiva dos sujeitos em suas relações. Por isso o neologismo
direitoshumanizar se apresenta como um novo verbo, transitivo, de ação; e
direitoshumanizante é mais que um simples adjetivo querendo-se um substan-
tivo, como que a indicar o que é fundamental no processo educativo.

41
Reênciasfer ácasbilogr

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Ana Maria Klein
Doutora em Educação. Professora da UNESP e Consultora ONU/
PNUD;UNESCO em Educação em Direitos Humanos(2010-2011).

Monica Abrantes Galindo


Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Pro-
fessora Assistente da UNESP.

Raul Aragão Martins


Doutor em Psicologia. Livre-Docente em Psicologia da Educação
pela Universidade Estadual Paulista - UNESP.

3
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NAS ESCOLAS: 1. O Parecer nº 8 CNE/CP/2012 e a Resolução nº
UM PROJETO A SER CONSTRUÍDO PELA 01 CNE/CP/2012 - instituem as Diretrizes Na-
cionais para a Educação em Direitos Humanos.
COMUNIDADE ESCOLAR

Ana Maria Klein


Monica Abrantes Galindo
Raul Aragão Martins

1. Introdução

A Educação em Direitos Humanos (EDH) é um compromisso internacional


datado do século XX, desde que a Declaração Universal dos Direitos Humanos,
DUDH, (ONU, 1945) foi proclamada pela ONU e afirmou em seu preâmbulo a
importância da educação para os Direitos Humanos. Essa importância foi rei-
terada em Viena, no ano de 1993, durante a Conferência Mundial das Nações
Unidas sobre Direitos Humanos. Nesta ocasião, criou-se internacionalmente
a responsabilidade estatal em relação à educação formal e das instituições
sociais em relação à educação não formal, cabendo a cada país o desenvolvi-
mento de ações nesta direção.
O Brasil ao ratificar a DUDH e as convenções, declarações e tratados
subsequentes se compromete com a EDH e o Plano Nacional de Educação em
Direitos Humanos, PNEDH, cuja primeira edição data de 2003 (BRASIL, 2006)
é um marco na efetivação deste compromisso.
Nove anos após a formulação do PNEDH o país deu um passo decisivo em
direção à concretização da EDH na educação formal. Em maio de 2012 o Con-
selho Nacional de Educação, por meio da homologação ministerial, aprovou as
Diretrizes Nacionais de Educação em Direitos Humanos1. Cabe acrescentar que
as Diretrizes Nacionais de Educação em Direitos Humanos foram instituídas
pelo Conselho Pleno do CNE – Conselho Nacional de Educação, isto é, pela
Câmara de Educação Básica e pela Câmara de Educação Superior. Assim sendo,
sua abrangência inclui além da Educação Básica, a educação em nível superior.
Com isso todos os níveis de educação do país – da Educação Infantil à Pós-
-graduação – deverão contemplar a EDH em seus projetos e práticas educativas

47
As DCNs consideram a autonomia da escola e da sua proposta peda-
gógica, cabendo acada instituição adequar os princípios, fundamentos e
procedimentos a sua realidade. O intuito é orientar as praticas educacionais
brasileiras, respeitando as matizes curricularesestaduais e municipais. Tais
adequações nas instituições educativas formais têm como principal instru-
mento os Projetos Pedagógicos.
Este capítulo tem por objetivo refletir sobre as principais ideias que dão
corpo à EDH e sobre a construção coletiva dos Projetos Políticos Pedagógicos-
nas escolas, como via de concretização dos princípios e valores da EDH.

2. Ideias centrais à EDH

Educação em Direitos Humanos é uma bandeira de Justiça, Liberdade,


Solidariedade, Igualdade, Paz e Tolerância. Valores e práticas que dão
um sentido profundo não apenas ao nosso trabalho, como, sobretu-
do, às nossas vidas. Direitos Humanos são um compromisso de mu-
dança, de transformação para uma sociedade mais justa e solidária.
(GENEVOIS, 2007 p.12)

Atuar na promoção de direitos e na conscientização sobre os mesmos


nos leva à importância da educação e nas possibilidades do que pode ser feito.
Por meio de ações educativas voltadas à EDH temos a oportunidade de formar
seres humanos sensíveis aos princípios e valores que reconhecem a centralida-
de do ser humano no mundo, a dignidade humana como fundamento da vida
social, que reconheçam a igualdade nas diferenças e que repudiem a desigual-
dade. A educação é uma das principais vias para o despertar de um novo olhar,
de uma cultura baseada em valores democráticos e humanizadores.
A força da lei pode coibir atos violentos, discriminatórios, mas não neces-
sariamente contribui para o reconhecimento da igualdade e da dignidade hu-
mana. Uma lei pode ser respeitada pelo temor de ser punido e não pelo respeito
ao principio que a gerou. Daí a importância de transcender a dimensão jurídica
e atentar-nos, também, à dimensão ética relacionada aos Direitos Humanos.

48
Ainda que estejamos nos referindo a direitos, a EDH trata fundamentalmente
de princípios que guiam a vida humana nas instituições e na sociedade.
Não se trata de negar ou subestimar a importância da dimensão jurídico-
-politica. A EDH surge e se desenvolve em contextos marcados por múltiplas
relações políticas, sociais, culturais e econômicas, assim ela não se dá apartada
de seu entorno, pelo contrário é estritamente vinculada ao mesmo e o retroa-
limenta, apontando para a transformação do contexto. Mas devemos reconhe-
cer que a educação é uma via imprescindível a uma sociedade que pretende
transformar suas relações tendo por base princípios éticos e democráticos.
Magendzo (2009) analisa as principais ideias vinculadas a EDH defen-
didas por autores de países ibero-americanos e aponta nove “ideias-força”
presentes nestas concepções.
A primeira delas associa a EDH a uma educação contextualizada que
surge e se desenvolve em articulação com um contexto social, econômico,
politico e cultural, sofrendo influencias dele e podendo transforma-lo.
A segunda refere-se a uma educação construtora de democracia. Apenas
um regime democrático garante os direitos humanos e cria instâncias que legi-
timam a EDH. Por outro lado, esta educação tem como objetivo central desen-
volver nos estudantes as competências para o exercício ativo da democracia,
sua defesa e seu aperfeiçoamento. Magendzo (op.cit) afirma que a EDH nasce
como reação e antidoto às ditaduras, aos conflitos bélicos e às democracias de
fachada que os países ibero-americanos vivenciaram.
A terceira reconhece seu caráter político transformador. Na medida em que
a EDH objetiva formar pessoas críticas e comprometidas com a transformação
social, ela tem um caráter eminentemente político. A EDH deve ser um compro-
misso de promoção ativa dos direitos humanos com uma dupla dimensão: políti-
ca e pedagógica. A dimensão politica supõe compreender e trabalhar, por exem-
plo, os marcos normativos dos direitos humanos, nacionais e internacionais, os
regimes de governo, sua posição e compromisso frente aos direitos humanos, a
diversidade étnico-cultural da população, as relações entre Estado e sociedade
civil, entre outros aspectos de tal natureza. Para a sua promoção é necessário
uma plataforma filosófica, legal, e vontade politica consensuada pelo Estado.
A dimensão pedagógica exige igual preocupação conceitual e de ação,
por exemplo, metodologias e linguagens adequadas aos destinatários, com

49
especial atenção às variáveis (idade, sexo, etnia, língua, cultura, espaço real,
condições de vida); os conteúdos multidimensionais e interdisciplinares dos
Direitos Humanos, seu desenvolvimento em ambientes educativos promotores
de direitos, a inserção curricular (disciplinar ou transversal), a avaliação, a
relação com a comunidade, entre outros (RODINO, 2009).
A responsabilidade dos Estados em relação à EDH se manifesta por meio
de diversos instrumentos e conferencias internacionais. O discurso oficial
transformou-se em politica pública. No Brasil, o Plano Nacional de Educação
em Direitos Humanos (BRASIL, 2006) marca o compromisso do Estado com a
EDH como uma politica pública. Com isso ela é reconhecida nas normativas
internas e pode se incorporar por meio das diretrizes aos Projetos Políticos
Pedagógicos de escolas, faculdades e universidades.
A quarta discute sua amplitude concebendo-a como uma educação in-
tegral-holística. Esta não é uma ideia presente desde o inicio da EDH. À época
das ditaduras predominava uma visão normativa-jurídica. A concepção de
uma educação que devesse fazer parte da vida cotidiana, com caráter proces-
sual, vivencial e ético é mais recente. Foi com a década das Nações Unidas
para a EDH (1995-2005) que se estabeleceu esta visão holística, por meio do
Programa Mundial de Educação em Direitos Humanos (UNESCO, 2005).
Uma educação integral e emancipadora transcende o aprendizado sobre
os direitos humanos e inclui também a implementação dos direitos na prática,
na vida dos sujeitos e grupos. Os seres humanos têm a capacidade de conhecer
a realidade, de refletir sobre ela e sobre as ações, ou seja, trata-se da cons-
cientização que pressupõe não apenas o conhecimento sobre a realidade, mas
também a sua capacidade de transformar esta realidade.
A quinta trata da dimensão ético-valorativa. A Declaração Universal
dos Direitos Humanos (ONU, 1948) traz como premissa fundante que todos
os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e devem
relacionar-se fraternalmente uns com os outros. Aqui estão postos valores
centrais: valor absoluto do ser humano, igualdade, liberdade e fraternidade.
Compreender, respeitar e promover os Direitos Humanos pressupõe a criação
de disposições internas em cada ser humano para que os valores mencionados
sejam de fato valorados e constituam-se como guias para a vida social. Outros
valores são igualmente importantes, tais como a democracia, a inclusão, a

50
educação e a cultura, a justiça, o trabalho e o lazer, o meio ambiente saudável,
a inclusão, a criticidade e problematização da realidade, dentre outros que
fundamentam não apenas a DUDH, como também pactos e tratados firmados
nas últimas décadas.
A sexta ideia associa a EDH a uma educação construtora da paz. Consi-
dera-se que a paz é um direito humano essencial para educar em uma ética de
solidariedade. A relação entre Direitos Humanos e educação para a paz é de
interdependência, uma vez que a violência em qualquer uma de suas manifes-
tações é um espaço para a violação de direitos. A educação para paz é fruto da
justiça e da igualdade e seu fundamento é a dignidade humana.
Contextos sociais pós-conflito nacional, marcados por necessidades hu-
manas básicas não atendidas são fontes de conflitos nos quais a injustiça e
a violação da dignidade humana violam direitos (ANDREOPOULOS, 2007). A
respeito de sociedades e relações que violam direitos, o sociólogo polonês Zyg-
munt Bauman (2013) ressalta que as pessoas exploradas e desprezadas tendem
a reproduzir tais atitudes com outras pessoas. A vitimização não enobrece suas
vítimas, acaba sim, por destituir-lhes de sua humanidade. A violência, a desu-
manidade, a humilhação e a vitimização geram cadeias resistentes à ruptura
ou ao corte, ou seja, a violência gera violência num ciclo que se auto reproduz
por meio da vitimização.
Cabe acrescentar que o conflito é inerente às relações humanas e constitu-
tivo da democracia. Nas escolas ocorrem conflitos diariamente envolvendo seus
atores (gestores, docentes, discentes, funcionários, pais e mães) e revelam dife-
rentes olhares e necessidades de cada um dos segmentos ou entre ideias, crenças
e valores entre os sujeitos. Muitas vezes, busca-se acabar com o conflito temen-
do-se que ele gere ações e reações violentas por parte dos envolvidos. Perde-se
assim, a oportunidade de análise das causas do conflito, dos seus efeitos em
relação à violação de direitos e do enfrentamento pacífico do conflito, por meio
do diálogo. Este tipo de discussão pode ajudar os estudantes a compreender as
diferenças entre conflitos construtivos e destrutivos e a sua importância para a
transformação social. Desenvolver a EDH é, também, refletir, discutir, posicio-
nar-se e buscar formas de enfrentamento de situações conflituosas.
A sétima discute a EDH como construtora do sujeito de direitos. A ideia
de sujeito de direitos é fruto das numerosas inter-relações do sujeito com os
outros e com seu meio. O sujeito de direitos não é um ser passivo que espera
51
que seus direitos lhe sejam concedidos por outrem, consiste, sim, em um ser
reflexivo que pensa, sente e interage em um fluxo de relações e em seu con-
texto. Ele se constrói na prática cotidiana com os direitos humanos. Assim,
falar na formação deste sujeito no ambiente escolar implica a convivência em
ambientes promotores de direitos, onde estes sejam vivenciados e exercitados
cotidianamente, em todas as relações que tem lugar na escola, das interpesso-
ais, às relações dos estudantes com o conhecimento e da escola com a comu-
nidade na qual se insere. Envolve também uma concepção de mundo, de ser
humano e uma vontade de transformação. Tudo isso fundamentado em uma
ética que coloca o ser humano e sua dignidade como elementos centrais das
ações, objetivos, planejamentos, enfim do processo educativo.
A formação do sujeito de direitos envolve também a responsabilidade
para com o outro e com o outro. Isso significa que fazer valer um direito en-
volve a responsabilidade de cada um, inclusive em assumir assuntos que não
são “meus”, mas aborda-los como se fossem. Trata-se de uma dimensão ética
que pressupõe a consideração do “outro” e da reciprocidade.
A oitava refere-se às decisões curriculares e pedagógicas. A decisão do
que entra no currículo e, sobretudo, do que fica de fora dele não é neutra, é
uma decisão politica, valorativa (escolhemos aquilo que consideramos social-
mente importante) e se pauta em concepções e pensamentos pedagógicos. O
mesmo se dá em relação às competências que se pretende desenvolver junto
aos estudantes. Outro ponto importante relacionado a esta ideia refere-se ao
currículo oculto, aquilo que não é explicitado, mas está presente na cultura e
clima escolares, na organização e gestão institucional, nos objetivos e conteú-
dos das disciplinas, enfim naquilo que se desenvolve cotidianamente na escola
e não consta de seus planos de aula e projetos.
Esta ideia envolve a consideração da interdisciplinaridade dos Direitos
Humanos e da sua inserção transversal nos currículos. A EDH é um processo o
que significa que não bastam aulas ou palestras sobre seus conteúdos e temas.
É necessário adota-la como um modo de vida que envolve conhecimentos sobre
os Direitos Humanos, valores democráticos e humanizadores e práticas. Dito de
outra forma, é preciso conhecer, querer e saber agir na sua defesa e promoção.
Sua presença não se dá apenas por meio do currículo explicito, mas sim e,
sobretudo, por meio do currículo oculto, guiando concepções, ações e relações.

52
A nona e última, centra a discussão nas tensões que precisam ser enfren-
tadas. A EDH envolve conflitos, tensões e contradições. Os conflitos sociais,
políticos, econômicos se fazem presente no debate sobre os diretos humanos.
Há polêmicas e valores em torno de questões éticas, como por exemplo, no de-
bate sobre o direito à vida e as múltiplas dimensões a serem consideradas. Há
o preconceito que, no caso brasileiro, associa os Diretos Humanos a “direitos
de bandidos”. Os pontos de divergência, conflito e tensão devem ser debatidos
e os preconceitos desconstruídos. Daí a necessidade de trabalharmos nas três
dimensões já mencionadas: conhecimentos, valores e práticas.
As ideias sobre EDH, presentes na visão de diferentes autores ibero-ame-
ricanos (MAGENDZO, 2009) revelam princípios e valores que reafirmam a dig-
nidade humana e a democracia como sistema político e processo; a formação
de sujeitos ativos, conscientes de suas responsabilidades, críticos e compro-
metidos com a transformação social num ambiente promotor de direitos e
formador de valores éticos.
Ideias, princípios, valores mostram o sentido a ser seguido, a essência da
educação pretendida. Os caminhos para transformar ideias em práticas devem
ser discutidos e planejados por cada escola, de acordo com a sua realidade,
com seus desafios e suas possibilidades. Daí a importância de um projeto dis-
cutido e formulado pela comunidade escolar (gestores, docentes, discentes,
funcionários, mães e pais), onde cada segmento contribua efetivamente com
ideias e assuma o compromisso perante ao que foi planejado.

3. Educação em Direitos Humanos nos Projetos Políticos Pedagógicos

A EDH objetiva a construção de ambientes educativos promotores de direitos,


constituindo-se como um modo de vida capaz de orientar todas as relações
que têm espaço nos ambientes escolares e na sociedade. Este tipo de educação
se realiza na interação, nas relações, por meio das experiências pessoais e/
ou coletivas e referem-se desde as relações interpessoais entre os diferentes
sujeitos que integram o ambiente educacional até as relações que os sujeitos
estabelecem com o conhecimento e com o meio no qual estão inseridos.

53
Há uma grande flexibilidade em relação à introdução da EDH nos cur-
rículos. Os Direitos Humanos são interdisciplinares e transversais na medida
em demandam a contribuição de diferentes saberes para a sua compreensão
e se alicerçam nas experiências e vivencias dos sujeitos. De qualquer forma,
não bastam aulas sobre Direitos Humanos. Seja qual for a entrada escolhida
é preciso um amplo espaço de reflexão no qual toda a comunidade escolar
planeje e insira no Projeto Político Pedagógico as ações destinadas à criação
de um ambiente comprometido com os direitos humanos. Este deve ser um
trabalho intencionalmente voltado a tal finalidade onde devem ser discutidas
formas de relacionamento e normas de convivência; metodologias de trabalho
e técnicas avaliativas que considerem o estudante como elemento central no
processo ensino-aprendizagem, valores democráticos e humanizadores que se
concretizam nas relações cotidianas.
As Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (BRASIL,
2012) em seu artigo 6º refere-se explicitamente à necessidade de se considerar
a EDH na formulação dos Projetos Político-Pedagógicos (PPP); dos Regimentos
Escolares; dos Planos de Desenvolvimento Institucionais (PDI); dos Programas
Pedagógicos de Curso (PPC) das Instituições de Educação Superior; dos ma-
teriais didáticos e pedagógicos; do modelo de ensino, pesquisa e extensão; de
gestão, bem como dos diferentes processos de avaliação.
O Projeto Político-Pedagógico (PPP) é o instrumento que norteia a tota-
lidade dos âmbitos da ação educativa e cuja elaboração requer a participação
de toda a comunidade escolar. Trata-se de um projeto coletivo que expressa
simultaneamente o que a instituição é e aquilo que ela pretende ser. Um PPP
visa a transformação, direciona-se ao futuro mediante a consideração do pre-
sente, aliando teoria e prática educativa.
No âmbito escolar há diferentes projetos desde os pedagógicos direcio-
nados a determinados temas e conteúdos curriculares, passando por projetos
de vida dos seus sujeitos e incluindo o projeto institucional que diz respeito a
toda a comunidade escolar, o Projeto Político-Pedagógico (PPP).
O Projeto Político-Pedagógico é político na medida em que tem por ob-
jetivo a educação do indivíduo para uma determinada sociedade, ou seja, tra-
ta-se da formação para a cidadania, o que pressupõe, princípios, valores e

54
práticas democráticos. Neste sentido, implica em escolhas de: conteúdos, me-
todologias, organizações de tempo e espaço, dentre outras.
Reconhecer a natureza política do projeto que orienta uma escola significa
ter a consciência de que nem a escola, tampouco a educação são espaços neu-
tros. Todas as escolhas sobre como, para quem e porque realizar algo revelam
opções, não somente em relação ao que entra na escola, mas também ao que
fica de fora dela. Em outras palavras, um projeto politico pedagógico traduz
opções que se referenciam em valores, concepções de mundo, de ser humano,
de aprendizagem e de sociedade e devem levar em conta anseios, necessidades,
especificidades de todos/as os sujeitos que integram a comunidade escolar.
O Projeto Político-Pedagógico é pedagógico, pois trata das ações educa-
tivas que a escola empreenderá no sentido da formação desejada. São as ações
pedagógicas que concretizam o ideal político do projeto.
A consideração do que está instituído e daquilo que se pretende alcançar
relaciona-se diretamente com a realidade de cada escola, com seu cotidiano,
com a diversidade de seus sujeitos, com as suas dificuldades e suas possibili-
dades. Assim sendo, não se pode conceber um PPP construído verticalmente,
ou seja, emanado do ministério ou das secretarias de educação. Diante de ce-
nários múltiplos não há como pleitear um modelo ou padrão único de projeto.
No entanto, é possível elencar algumas características que tal instrumento
deve apresentar, pois é preciso reconhecer que as escolas necessitam de apoio
técnico e de estímulo para empreenderem a tarefa de elaboração de um PPP.
A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nº 9395/96 (BRASIL, 1996) estabelece a
obrigatoriedade da construção de um projeto político-pedagógico nas escolas.
Em seu art. 12, a LDB ressalta que

…os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do


seu sistema de ensino, terão incumbência de: elaborar e executar sua
proposta pedagógica; informar os pais e responsáveis sobre a frequência
e o rendimento dos alunos, bem como sobre a execução de sua proposta
pedagógica (BRASIL, 1996).

Essa mesma lei, no art. 13, destaca dentre as atribuições docentes:

55
(…) participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento
do ensino; elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta
pedagógica do estabelecimento de ensino (iden).

Legalmente, portanto, está assegurada a autonomia institucional na


elaboração do PPP, bem como a obrigatoriedade da participação docente
neste processo.
A autonomia institucional, a gestão democrática e o engajamento de
todos os segmentos da comunidade escolar são condições básicas para que o
PPP não seja apenas uma carta de boas intenções.

(…) o projeto é um meio de engajamento coletivo para integrar ações


dispersas, criar sinergias no sentido de buscar soluções alternativas
para diferentes momentos do trabalho pedagógico-administrativo, de-
senvolver o sentimento de pertença, mobilizar os protagonistas para
a explicitação de objetivos comuns definindo o norte das ações a se-
rem desencadeadas, fortalecer a construção de uma coerência comum,
mas indispensável, para que a ação coletiva produza seus efeitos
(VEIGA, 2003, p.268).

A elaboração e a execução de um PPP não é de responsabilidade exclusi-


va do/a diretor/a ou dos/as docentes, são processos que compreendem a totali-
dade da comunidade escolar. Deve-se, no entanto, ter em mente que a direção
da escola exerce o papel de liderança nos referidos processos, por este motivo a
escolha do/a diretor/a escolar deve ser democrática. A pessoa eleita para assu-
mir tais responsabilidades deve representar os valores e anseios da comunidade
escolar, pois as garantias da elaboração e da execução democráticas de um PPP
dependerão da postura e das opções políticas e pedagógicas do/a diretor/a.
Outro ponto a ser destacado em relação aos processos democráticos rela-
ciona-se à participação dos membros da comunidade não apenas na elabora-
ção do projeto, mas na sua execução. Gadotti (1994) destaca que o PPP precisa
ser percebido e vivenciado por todos/as e isso envolve a escolha do livro
didático, o planejamento do ensino, o estabelecimento do calendário escolar, a
participação efetiva na organização de eventos culturais, de atividades cívicas,

56
esportivas e recreativas. Trata-se de viabilizar a convivência em um ambiente
de fato democrático concretizado por meio das relações interpessoais, da orga-
nização do trabalho pedagógico (em sala de aula e de todas as atividades fora
da sala de aula), das metodologias adotadas, enfim, a participação esperada vai
muito além da presença em reuniões, ela se traduz cotidianamente em atitudes,
métodos e processos.
Pode-se, portanto, afirmar que um projeto político-pedagógico compre-
ende o currículo da escola, as metodologias e o próprio modo de organizar a
vida escolar. Assim sendo, não nega o instituído da escola, mas o confronta
com a realidade e as novas exigências sociais, adotando novos horizontes
(GADOTTI, op.cit).
A formulação de um PPP envolve uma reflexão coletiva e o questiona-
mento crucial sobre os conteúdos escolhidos para integrar o currículo. Envol-
ve, também, a consciência e coerência em relação às opções que faz e às metas
pretendidas. As metas que guiam os projetos não são definidas aleatoriamente
pelos indivíduos, o que significa que não é qualquer meta que vale a pena ser
perseguida, senão aquelas que têm importância para a comunidade escolar; a
definição de metas, portanto, se efetiva sempre face a um cenário de valores e
esses são sócio-histórico-culturalmente situados.
É precisamente na escolha consciente sobre o que ensinar, como ensinar,
com quais objetivos ensinar e sobre quais valores orientam essas escolhas que
se insere a reflexão sobre a Educação em Direitos Humanos. Este tipo de edu-
cação extrapola a dimensão dos conteúdos e se refere, sobretudo, a um modo
de orientar a vida na escola e na sociedade. Envolve valores democráticos e
humanos, relações de respeito e solidariedade e conteúdos que visam a forma-
ção de sujeitos de direitos.

3. Algumas considerações

A variedade de relações entre seres humanos é ampla, o que torna os direitos


humanos dinâmicos, em constante discussão, reivindicação e transformação.
Por isso, a EDH se desenvolve em contextos reais, a partir de experiências,
necessidades e problemas dos sujeitos (estudantes, comunidade escolar, comu-

57
nidade na qual a escola se localiza) e das relações destes entre si, com a sua
escola, sua comunidade e com o seu governo.
A elaboração coletiva do Projeto Político Pedagógico constitui-se numa
excelente oportunidade de reflexão conjunta sobre a realidade escolar, as ne-
cessidades e os anseios dos sujeitos que integram a escola. Mais do que isso
é a oportunidade da instituição assumir valores e práticas coerentes com uma
educação humanizadora e comprometida com a formação crítica dos sujeitos.

[…] qualquer esperança de promover o contato das pessoas com a cons-


ciência crítica e com a ação social está diretamente relacionada à sua
capacidade de refletir sobre experiências e situações que tocam profun-
damente a sua vida (BUTKUS, apud MEINTJES, 2007, p. 134).

58
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59
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60
Claudeir Aparecido de Souza
Doutorando em Letras pela universidade Federal do Espírito Santo, Mestre em
Letras pela Universidade Estadual de Maringá.

Débora Ceciliotti Barcelos


Auditora Federal e Mestre em Direito pela Ufes.

4
CONTRIBUIÇÃO À DISCUSSÃO SOBRE A
IMPOSSIBILIDADE DO “DIREITO DE TODOS”:
O CASO DO CURRÍCULO MÍNIMO NACIONAL

Claudeir Aparecido de Souza


Débora Ceciliotti Barcelos

1. Introdução

O reconhecimento do caráter universal da educação figura em documentos tais


como a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem, de 1948, a De-
claração Universal dos Direitos da Criança, de 1959, dentre outros tantos (BARI-
FFI, 2009). A Constituição Federal de 1988 também reconhece a educação como
um direito de todos, abrigado no âmbito dos direitos fundamentais. Entretanto,
mais do que reconhecer o direito de igualdade de oportunidades, o direito à
educação na perspectiva dos Direitos Humanos é uma potência atenta às possi-
bilidades de diminuição das desigualdades sociais e da discriminação, sobretudo
dos não-privilegiados. No mundo das desigualdades, não há grandes ganhos em
se afirmar igualdades e universalidades, posto que o reconhecimento de direitos
se efetiva, sobretudo, a partir da constatação da ausência de tais princípios.
Não nos basta mais concluir que todos os seres humanos são dotados
da mesma dignidade, posto que isso não evita que seres humanos continuem
vítimas de violências e discriminações por motivos sociais, culturais, políticos,
étnicos, religiosos, dentre outros (RABENHORST, 2008).
Por isso, parece-nos simplista a ideia de um direito universalizado cujos
benefícios possam ser gozados igualmente pelo conjunto da sociedade sem
prejuízos a certos grupos, posto que a complexidade social engendra relações
de ordens distintas. A simples observação de que vida digna – não obstante a
possível problematização do entendimento de dignidade – é um privilégio em
nossa sociedade, denuncia a fragilidade do pressuposto de direitos estendidos
à totalidade da sociedade.
É fato social reconhecido a valorização dos direitos humanos como fruto
do impulso vindo das conquistas de certos grupos sociais. Tais direitos estão

62
na esteira da construção e sustentação de instrumentos que possibilitem a hu-
manização e a emancipação de seres humanos, uma vez que os pactos sociais,
institucionalizados ou reconhecidos pelas instâncias legais ou burocráticas,
não sustentam um estado de direito para além do lastro moral de seus discur-
sos (Carbonari, 2009). Os pactos sociais encontram-se, pois, longe de esgotar o
conteúdo dos direitos humanos.
Considerando o problema arrolado, visamos, neste texto, discutir e ques-
tionar as relações que sustentam a ideia de currículo escolar mínimo como um
direito capaz de ser estendido à totalidade da sociedade sem provocar prejuí-
zos ou privilégios aos diferentes segmentos sociais. Tomamos como recorte o
contexto histórico que culminou na promulgação da Constituição de 1988. A
análise de alguns documentos, ainda que sucinta e de aspectos determinantes
de fatos políticos atuam como vigorosos objetos no empenho de mais bem
sustentarmos os argumentos.
Outrossim, espera-se contribuir na discussão sobre os currículos escolares em
funcionamento frente ao desafio da promoção da Educação em Direitos Humanos.

As polêmicas acerca do currículo escolar denunciam o caráter político da sua


natureza e funcionamento.

O currículo nunca é apenas o conjunto neutro de conhecimentos, que


de algum modo aparece nos textos e nas salas de aula de uma nação.
Ele é sempre parte de uma tradição seletiva, resultado de uma seleção
de alguém, da visão de algum grupo do que seja conhecimento legítimo.
É produto das tensões, conflitos e concessões culturais, políticas e eco-
nômicas que organizam e desorganizam um povo (APPLE, 2011, p.71).

Nas tensões e conflitos próprios do ser humano subjaz um jogo de forças


entre diferentes posicionamentos. Tomando tais embates como pano de fundo
ideológico, é oportuno vislumbrar, a exemplo, certa propensão à adoção de
um Currículo Mínimo nacional, sobretudo no cenário da construção e pro-
mulgação da Constituição Federal de 1988. Cumpre verificar porque a ideia

63
de currículo mínimo permeia os planos educacionais produzidos sob a moti-
vação democrática. Na mesma medida, é oportuno verificar em que medida
tal motivação política impressa nas propostas de currículos dialogam com a
perspectiva dos direitos humanos.
Sem um exame mais apurado, somos impelidos a pensar que a ideia de
um currículo mínimo nacional encontra, de imediato, guarida na Educação
em Direitos Humanos (doravante EDH), para quem a equidade, propalada nos
direitos fundamentais, é princípio elementar.
Com efeito, o desejo de construção de uma educação geral, no Brasil da
Nova República e pós-Constituição de 1988, remonta ao cenário em que atuou
a Frente Democrática, grupo de parlamentares federais que efetuou as costuras
políticas e alianças populares em torno de uma agenda mínima capaz de re-
conduzir o país à democracia, o que culminou na eleição indireta de Tancredo
Neves e na “proclamação” da Nova República (CUNHA, 1999). Àquela época,
figurava na perspectiva democrática o “combate a qualquer espécie de discri-
minação e preconceito quanto à religião, sexo e raça” (CUNHA, 1999, p.26), em
favor da proteção dos direitos das minorias.
Não obstante a intempestiva recondução ao centro do poder político de
setores da direita nacional, face à condução circunstancial de José Sarney à
presidência da república, o discurso de uma educação para todos cristalizou-
-se rapidamente nos planos educacionais que se seguiram. Podemos encon-
trar, nesses planos, objetivos de unificação curricular tais como:

unificar os currículos de 1º grau das redes públicas e particulares, vi-


sando à construção de uma escola básica unitária, sem desrespeitar as
diversidades regionais (CUNHA, 1999, p.275).

Da mesma forma, frente à ameaça de financiamento da educação pri-


vada com capital público, proposta por alguns constituintes no calor do
embate entre forças políticas progressivas e conservadoras, por ocasião da
construção da referida Constituição, certas vozes progressistas, ligadas às
universidades, capitaneadas pela Universidade de Brasília, com seu Centro
de Estudos e Acompanhamento da Constituinte e o Conselho Nacional de
Secretários de Educação (CONSED), embora apontassem acertadamente para

64
preocupações de ordem pedagógica que levavam em conta as diferenças re-
gionais, reiteraram a defesa de uma educação básica e comum a todo o país,
seguindo o clima de consenso, sem o qual a construção da Carta Magna não
teria logrado êxito:

O ensino será em todo o território nacional, de boa qualidade e unifi-


cado, entendido este como formação básica, comum e necessária, di-
verso no seu modo de ser e na adaptação às peculiaridades locais e nos
métodos pedagógicos utilizados, a fim de combater as desigualdades
existentes no País e promover a democratização do saber e da cultura
(CUNHA, 1999, p. 431).

Assim, vê-se no ideário que forjou nossa educação pública pós-governos


militares, tanto de direita, quanto de esquerda ou de coalizão, _ que, por sua
vez, terminou por centralizar as decisões da Constituinte (MEIRELES, 2012), _
certa preocupação com um currículo mínimo nacional, cuja motivação política
sustenta-se na tentativa de aproximação com as demandas populares silencia-
das sobretudo pelo regime militar.
O Poder Constituinte e o poder de uma coalizão não estão vinculados
a formas jurídicas e procedimentais. Em tais exercícios de poder, descansam
todas as faculdades e competências constituídas e acomodadas à Nação. Eles
se estabelecem a partir de uma categoria extrajurídica cuja natureza filia-se,
antes, ao político e ao sociológico. Por imputação, torna-se representante da
Nação quem por ela for designado a agir em nome do povo.
À guisa de mais bem explicitar o caráter preponderantemente político
das propostas de intervenção social presentes na Constituição de 1988, é opor-
tuno pensar na filiação ideológica das mesmas a partir das palavras de José
Carlos Toseti Barrufini:

Todas foram constituídas por um poder preexistente no próprio Estado,


que traçou linhas para seu futuro. (…) Assim, cada processo constituinte,
enquanto ação portadora de uma nova concepção de Direito, traz, em si
também, toda uma tendência formalista de institucionalização do pro-
cesso político (BARRUFINI, 1976, p.11).

65
Adiante-se que tal herança passadista pode ser imputada ao ideário que
forjou a Nova República. O caráter reformista da Carta forjada sob a política
da coalizão não conseguiria, de fato, dar vazão às demandas sociais reprimidas
desde o regime militar e do acirramento das forças capitalistas de mercado.
Com efeito, o discurso representativo das demandas populares fez-se oportuno
à legitimação e cristalização de certo pensamento conservador.
José Afonso da Silva (2003) aponta uma contradição na democracia con-
temporânea pela qual os princípios fundamentais elitistas são incorporados às
teorias democráticas. Assim, a realização dos anseios de determinados grupos
hegemônicos na sociedade fica garantida por meio de uma estrutura demo-
crática. Dessa forma, a elite, formada de acordo com a tendência democrática
posta em uso, tem sua agenda legitimada pelos princípios democráticos. O
chamado “elitismo de dirigentes”, pelo qual o povo não estaria apto a pensar
as ações sociais necessárias, cabendo essa tarefa a determinado grupo de po-
der, subverte a verdadeira face da democracia em que o povo teria seus direitos
garantidos. É esse o processo pelo qual não se efetivam, de fato, os direitos do
povo, mesmo sustentados pela Constituição em vigor.
No nosso país, em especial, o corporativismo dos grupos de poder pode
ser tomado como caso em que o sistema democrático é cooptado pela coalizão
dos grupos de poder em seus anseios. Nessa perspectiva, os interesses que re-
percutiram na pauta do Congresso Nacional a partir de então, ganhando com
isso legitimidade, nem sempre traziam, de fato, a essência das reivindicações
populares. Atendiam, antes, aos interesses de determinados grupos de poder
ou categorias profissionais.
Tais grupos de poder, intentando legitimidade às suas atividades, não tra-
tam, inclusive, as reivindicações dos setores progressistas da sociedade historica-
mente subjugados como uma ameaça, uma vez que os efeitos do regime de exce-
ção que estes buscavam extirpar geravam descontentamentos em vários setores
da sociedade, tanto da classe trabalhadora quanto da elite política e econômica.
Veja-se como reflexo disso o apego ao nacionalismo de diversos matizes
e à estatização de ações de determinados setores da sociedade, a recorrência
ao planejamento, à burocracia e à previdência. Entretanto, isso se dá quando,
na verdade, o mundo rendia-se à descoberta das polpudas vantagens da livre
iniciativa, da internacionalização dos mercados, do enxugamento do Estado,

66
das técnicas privadas de produção, da redução da máquina estatal em favor da
diminuição de custos sociais (MEIRELLES, 2012).
Ademais, o interesse de alguns grupos de empresas detentoras de mono-
pólios foi encampado pela concepção de interesse nacional presente na Cons-
tituição. Somando-se ao peso exagerado com o qual o Estado arca, a força
corporativa dos grupos de poder ainda exigiu dele uma série de tarefas, intrin-
cadas até para Estados mais avançados do que o nosso.
Entrementes, esboça-se aqui um dos paradoxos da democracia, pois, atual-
mente, o Estado, ao criar novos direitos sociais, obriga-se a novas funções, com
o que não só aumenta a sua presença na sociedade como especialmente tende a
ampliar a máquina técnico-administrativa. Acerca disso, segundo Bastos (1994),
até o judiciário teria sido envolvido nessa teia de contradições, na imprecisão de
institutos como o mandado de injunção e a inconstitucionalidade por omissão,
como tentativas de lançar coerções sobre o Estado. O esforço do judiciário para
o cumprimento da lei termina por gerar instabilidade entre as instituições.

2. Comentário à ideia do currículo mínimo

Parece-nos que a ideia de um currículo mínimo para a educação nacional car-


rega a capacidade de aglutinar elementos que podem ser tomados como repre-
sentativos de anseios nacionais, sejam eles legítimos ou não. Há certo compo-
nente de identidade nacional em tal proposta. Um currículo nacional mínimo
apresenta-se como um produto sintético de experiências do passado tidas como
positivas. Em nosso caso recente, especificamente, pode ser tomado como um
construto da coalizão política que pretendia atingir um centro comum a todos os
anseios: das demandas sociais reprimidas, da tradição conservadora no controle
do Estado e das forças do mercado. O currículo mínimo é um espaço onde todas
as forças descarregam suas energias, como escreve Michael W. Aplle (1994):

É assim que um currículo nacional (…) se torna capaz de, a um só tempo,


objetivar uma ‘modernização’ curricular e uma eficiente produção de
melhor ‘capital humano’ e de representar um anseio nostálgico por um
passado romantizado (APPLE, 1994, p.86).

67
Pode-se dizer que ao ser apresentado no conjunto das demandas sociais,
das elites nacionalistas e das exigências do mercado, o currículo mínimo as-
cende à categoria de um sistema nacional de padrão capaz de ser avaliado
por instrumentos igualmente padronizados, o que, de um lado, sugere certa
manutenção de um nível elevado de conhecimentos àqueles que se julgavam
excluídos dos ganhos sociais, e, de outro, serve ao mercado como instrumento
de aferição do seu potencial frente às demandas crescentes do capital. A esse
respeito escreve Apple (1994):

O currículo nacional possibilita a criação de um procedimento que pode


supostamente dar aos consumidores escolares com ‘selo de qualidade’
para que as ‘forças de livre mercado’ possam operar em sua máxima
abrangência. Se for para termos um mercado livre na educação, ofere-
cendo ao consumidor um atraente leque de ‘opções’, então o currículo
nacional e sobretudo o sistema de avaliação nacional atuarão, em es-
sência, como uma comissão de vigilância do Estado para controlar os
‘excessos’ do mercado (APPLE, p. 88).

Veja-se que o currículo padrão vigendo sob o controle político das ações
do Estado serve à suposta legitimação a partir do pressuposto da igualdade
de direito, princípio que sustenta uma determinada sociedade e é sustentado
por ela. No mesmo movimento, o Estado, conservador “por natureza”, visa a
apresentar-se como instância capaz de controlar o fluxo do mercado. Este, por
sua vez, é, entretanto, muito dinâmico, não se deixando regular por princípios e
valores presentes na sociedade. O mercado privilegia sempre suas demandas. A
quem pensar, por exemplo, que, por meio do currículo mínimo nacional pode-
-se extinguir a diferença entre escolas públicas e privadas, o mercado respon-
derá com sua lógica interna de fluxo de capital, capaz de privilegiar certos seto-
res em detrimento da grande maioria, sem “crise” de consciência, como vemos.
Embora ainda se possa ver no currículo mínimo nacional uma oportuni-
dade para que os pais possam avaliar a escola dos filhos, vê-se que a exacerba-
ção desse processo de controle particular de qualidade conduz a classificações
e categorizações das crianças, o que, em última análise, resulta na construção
irreversível de estigmas negativos, perfazendo uma relação em que os critérios

68
podem até ser objetivos, mas não os resultados, “dadas às diferenças de recur-
sos e classe social” (APPLE, 1994, p. 89) e segregações em geral.
Apple (1994) menciona, ainda em seu trabalho, as implicações advindas
das distinções entre o “nós” e “os outros”, diferenças recrudescidas pelas desi-
gualdades entre as classes sociais, terminando por consolidarem antagonismos
sociais e culturais, numa relação em que o polo socialmente menos favorecido
assiste à negação de seus direitos por meio do esfacelamento de um sistema
que deveria garanti-los e não negá-los.
Ao fim e ao cabo, no currículo mínimo, a ênfase acaba recaindo sobre os
resultados. Parece-nos que num Estado propenso à adoção, mesmo que velada
de tal modelo de currículo, as tecnologias da educação voltam-se à elaboração
de sistemas de avaliação e controle capazes de quantificar, na verdade, a efici-
ência de determinada gestão. Ainda que os processos de avaliação não sejam
adequados, a lógica de seu funcionamento tem de ser percebida e internalizada
por todos, uma vez posta em ação a infraestrutura de controle do Estado. Tudo
isso pode se dar, inclusive, em detrimento da própria aprendizagem, feita,
assim, coadjuvante de um processo que resultará em números expostos em
estatísticas; que contra números não há argumentos. Não é à toa que ainda
na primeira década do século XXI os governos intensificaram a ação de seus
processos avaliativos com instrumentos tais como a Prova Brasil, ENEM, etc.,
para se “ver quem pode mais” em educação de norte a sul país.
O grande equívoco está em se pensar que, frente às diferenças entre pretos
e brancos, operários e classe média, pobres e ricos, homens e mulheres, etc., o
currículo possa ser apreendido da mesma forma. É evidente que os educandos,
marcados pelas injunções das suas relações sociais, respondem diferentemente
a uma mesma proposta curricular. Ademais, a quem disser que a flexibilização
dos currículos, em que certos conteúdos são adaptados a certas realidades, tor-
nando-se o mecanismo por meio do qual respeita-se as especificidades de cada
grupo social, poder-se-ia dizer que, na prática, o que se faz é negar a alguns cer-
tos conhecimentos fundamentais à formação integral, crítica e libertadora, como
propõem os pensadores educacionais das últimas décadas. Em outras palavras,
um currículo mínimo não pode dar conta de lidar com a heterogeneidade social.
Há, pois, que se pensar num currículo capaz de compreender e lidar com
a heterogeneidade social a partir da apreensão das raízes das diferenças e

69
desigualdades. Nem a história, nem os interesses sociais devem ser homoge-
neizados. Um currículo capaz de tratar com igualdade os seres humanos deve
considerar a desigualdade entre eles.
Analisando o caso específico dos Estados Unidos, Apple (1994) escreve
a respeito disso:

Em meio à imensa diversidade linguística, cultural e religiosa, que é


a essência da nossa criatividade e das mudanças contínuas de nossas
vidas, vem a política cultural da direita querer ‘superar’ essa diversida-
de. Pensando estar reinstituindo, ela está na verdade inventando uma
cultura comum (…) (APPLE, 1994, p. 92).

No nosso caso, especificamente, em que a Direita pode ser tomada como


a coalizão que “conduziu” a construção dos pilares da recente democratiza-
ção, os indicadores educacionais colhem todos os anos exemplos negativos
de aprendizagem, posto que, na arena das salas de aula, lutam contendores
supostamente iguais, à revelia de que a igualdade pressupõe por si a suposição
da desigualdade.

3. Considerações finais

A ideia de que a política consegue produzir remédios para todos os males


indiscriminadamente imputa ao Estado a realização da hercúlea tarefa de res-
ponder às diversas demandas de uma sociedade cada dia mais complexa. Resta
que, no embate de forças entre a luta pela garantia da propalada dignidade hu-
mana e os reclames do mercado, o que pensávamos ser um direito, garantido
pela lei e pela cultura, configura-se num engodo, dada à impossibilidade de se
levar a efeito o discurso praticado pelas instâncias de poder.
Resta que as coalizões políticas pressupõem certa homogeneização das
demandas sociais. Entretanto, as demandas específicas do mercado prevalecem
sobre as demais por conta da dinamicidade que ele tem. Ao fim e ao cabo, per-
dura a perversidade do ajuste das demandas sociais a produzir medidas tidas
como capazes de beneficiar a todos, sem, de fato, fazê-lo.

70
A ideia de um currículo capaz de atender, indistintamente, a toda a po-
pulação de modo a considerar o princípio da dignidade humana é exemplar da
utopia do direito de todos. Com efeito, o que se vê é a formação de nichos de
privilegiados, em detrimento da grande maioria.

71
Reênciasfer ácasbilogr

APPLE, Michael W., A política do conhecimento oficial: faz sentido a ideia de um currí-
culo nacional? In Currículo, cultura e Sociedade. Antonio Flavio Moreira e Tomaz
Tadeu (Orgs.), 12 ed., São Paulo, Cortez, 1994.

CUNHA, Luiz Antônio. Educação, Estado e Democracia no Brasil. 3 ed., São Paulo,
Cortez, 1999.

RABENHORST, Eduardo R., O que são Direitos Humanos? In Direitos Humanos: capa-
citação de educadores / Maria de Nazaré Tavares Zenaide, et al. – João Pessoa:
Editora Universitária/UFPB, 2008.

SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 22. ed. São Paulo:
Malheiros, 2003. p. 125.

108 MEIRELLES, Delton Ricardo Soares; Luiz Cláudio Moreira Gomes. Gestão demo-
crática das cidades: acesso à justiça a partir dos juízes leigos comunitários.
Disponível em: <www.ibdu.org.br/ Acesso em: 27 jul. 2012.

109 MEIRELLES, 2012.

BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de direito administrativo. São Paulo: Saraiva, 1994.

BARRUFINI, José Carlos Toseti. Revolução e poder constituinte. São Paulo: Revista
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BARUFI, Elder. A educação como um direito do homem. In Direitos fundamentais


sociais: Estudos em homenagem aos 60 anos da declaração dos direitos hu-
manos e aos 20 anos da Constituição Federal. Dourados, MS: 2008.

72
Vilma de Fátima Machado
Professora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Direitos Hu-
manos – UFG. Coordenadora do Curso de Especialização em Educação para
Diversidade e Cidadania – UFG.

Flávio Alves Barbosa


Professor da Universidade Estadual de Goiás e professor formado no Curso de
Especialização em Educação para Diversidade e Cidadania – UFG.

5
EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA ALÉM DO
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Flavio Alves Barbosa


Vilma de Fátima Machado

Estamos propondo pensar a Educação Ambiental como espaço privilegiado


de uma práxis capaz de romper com a ideia de desenvolvimento criada pela
modernidade e atualizada, em tempos recentes, na noção de desenvolvi-
mento sustentável. Estamos propondo uma batalha contra a colonização e
aprisionamento da Educação Ambiental pelo Império do Desenvolvimento
Sustentável. A nossa proposta guarda similitude com a batalha de Teseu con-
tra o Minotauro que habitava o palácio do rei Minos, narrada pela mitologia
grega. E, então, recorreremos a ela para nos ajudar a deixar mais evidente
não só a força do inimigo (Desenvolvimento), mas, também, as possibilidades
de ir além dele.

Conforme a mitologia Teseu, um jovem herói ateniense, sabendo que a


sua cidade deveria pagar a Creta um tributo anual, sete rapazes e sete
moças, para serem entregues ao insaciável Minotauro que se alimentava
de carne humana, solicitou ser incluído entre eles. Em Creta, encon-
trando-se com Ariadne, a filha do rei Minos, recebeu dela um novelo
que deveria desenrolar ao entrar no labirinto, onde o Minotauro vivia
encerrado, para encontrar a saída. Teseu adentrou o labirinto, matou o
Minotauro e, com a ajuda do fio que desenrolara, encontrou o caminho
de volta. Retornando a Atenas levou consigo a princesa (DIAS,s/d).

A escolha desse mito se deu em razão da visão que temos do mundo


ocidental moderno e contemporâneo: pensamos que em vários aspectos ele
assemelha-se a um labirinto. E é nesse labirinto que vamos entrar para des-
construir a ideia de desenvolvimento e colocar em discussão o conceito de
ambiente, de educação ambiental e de direitos humanos que têm servido de
suporte para modo produção capitalista. Essa é a primeira parte do texto.

74
Na segunda parte do texto, buscamos apontar elementos que poderiam 1. Sobre os desafios da Educação na con-
nos ajudar na construção de caminhos para encontrarmos a saída do labirinto. temporaneidade, vale a pena conferir o que
pensa o educador espanhol, In: Desafios da
E o fio de Ariadne que vislumbramos é a ideia de envolvimento. Desde já,
Educação Jorge Larrosa Bondia/Espanha.
antecipamos que envolvimento não é oposto de desenvolvimento, mas um ca- Disponível em: http://www.youtube.com/
minho para sair dele A proposta reflexiva é construir um caminho que é uma watch?v=AzI2CVa7my4.

espécie de terceira margem. E assim é porque está fora do espectro do modo de


produção capitalista. Então, ele não é alternativo, porque ele não gravita em
torno de uma proposta oficial, fazendo oposição a ela e reforçando a lógica
dualista que é própria do capitalismo.
Com a ideia de envolvimento, não queremos parar na denúncia ou mes-
mo sugerir algo do tipo salvação da pátria. In-tencionamos explicitar as con-
tradições, as incoerências, as violações de direitos humanos e do ambiente,
mas, além disso, e porque estamos trabalhando com educadores e educadoras,
somos convidados a ser propositivos(as). Como provoca Dias (s/d) citando Jor-
ge Larrosa, “[…] teremos que aprender a viver de outro modo, a pensar de outro
modo, a falar de outro modo, a ensinar de outro modo”.1
Neste sentido comecemos a pensar de outro modo. Deixemos nos trau-
matizar com o que está à nossa volta, pois o pensamento começa com um
trauma, como bem disse Lévinas ao ser indagado por Philippe Nemo sobre
como se começa a pensar.

Philippe Nemo – Como se começa a pensar? Com perguntas que, após acon-
tecimentos originais, fazemos a nós mesmos ou acerca de nós próprios?
Emanuel Lévinas – Isso começa provavelmente com traumatismos ou
tacteios a que nem sequer se é capaz de dar uma forma verbal: uma se-
paração, uma cena de violência, uma brusca consciência da monotonia
do tempo (LÉVINAS, 2000, p. 15).

Então, pensemos o mundo, a realidade das crianças, das mulheres, dos


homens e suas relações entre si e com o ambiente, a trajetória histórica do de-
senvolvimento, as desigualdades, a exclusão, a justiça, a pobreza e o empobre-
cimento, a homogeneização cultural, a produção, o consumo e os problemas
ambientais, os direitos humanos e a educação ambiental, em espaços formais
e não formais de educação.

75
2. Cf. vídeo-documentário sobre o episódio Pensando tudo isso, caminhemos em direção ao Outro humano, para
em: http://www.youtube.com/watch?v=qH além desse de quem falamos nobremente, mas que está sendo violado a cada
QdWwZcGlg
instante e que não percebemos essas violações se não acontecem conosco.
Ou ainda, mesmo quando acontece conosco agimos no sentido de naturalizá-
-las. Busquemos modos de ver o outro e nós mesmos fora das naturalizações
que invisibilizam a possibilidade do comum, do coletivo. Presos no Labirinto,
somos governados pela lógica do indivíduo, do isolamento reforçado pelas
infinitas paredes construídas para não percebermos o Outro humano e não hu-
mano. Pensamos que na percepção e no envolvimento com o outro é possível
construir uma saída para a prisão do Labirinto.
O desafio é transcender a tese, já naturalizada, de que ambiente é ape-
nas uma extensão do homem, está fora dele, e por isso pode ser explorado,
maltratado com doses incomensuráveis de agrotóxicos e consumido até a
exaustão. Transcender essa ideia é afirmar que a vida é inalienável. Quando
respeitamos e reconhecemos o ambiente por inteiro também respeitamos
crianças, homens e mulheres. Mas também o contrário é verdadeiro: quan-
do não respeitamos a(s) natureza(s) não respeitamos mulheres, crianças e
homens. Para ilustrar o que estamos dizendo basta lembrar o fato ocorrido
em uma lavoura no Estado de Goiás, noticiado pela imprensa em nível na-
cional, cujo teor geral das manchetes foi: “avião pulveriza lavoura e ignora
presença de escola próxima à plantação e acaba por atingir crianças e pro-
fessores com agrotóxico”2.
Um fato como esse define quem é humano para aquele que manda es-
palhar o agrotóxico-veneno. Ou será que ele pulverizaria a sua casa estando
nela sua família? Nas linhas desse acontecimento, está dito quem tem direito
e a quem ele é negado. Portanto, está claro nele, como o agronegócio vê os
direitos humanos e quem pode ter esses direitos. É evidenciado quem deve ser
consumido, assassinado. Esse fato é ontológico, revela um modo de ser no
mundo; uma maneira de ver o Outro e de se relacionar com ele.
Ante um acontecimento que é apenas uma amostra do que ocorre dia-
riamente no mundo, e antes de adentrar no estudo sobre o desenvolvimento,
lembramos aqui a força das palavras de Bertolt Brecht

76
Nós vos pedimos com insistência
Não digam nunca
Isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão
Em que corre o sangue
Em que o arbítrio tem força de lei
Em que a humanidade se desumaniza
Nunca digam nunca:
Isso é natural!
Para que nada possa ser imutável!
(Domínio público)

Com Brecht queremos que esse texto seja uma espécie de convocação
para não permanecermos silenciosos diante dos gritos desesperados daqueles
que são cotidianamente encurralados pelo Minotauro contra as paredes do
Labirinto. E parte desses viventes somos nós, professores e alunos, convivendo
diariamente no mesmo espaço chamado escola, seguindo dia após dia como
se não estivéssemos vendo e ouvindo nada, nenhuma lamuria, nenhum grito,
nenhum desespero e quando por um trauma conseguimos ouvir, sentir, ou ver
alguma coisa tratamos logo de dizer: “melhor deixar pra lá, afinal as coisas são
assim mesmo, não tem outro jeito, não tem saída”.
Pensar a partir do Outro, seja ele humano ou o Não humano, exige de nós
abertura, disposição e desejo para promover aproximações, construir redes,
partilhar saberes e lutar para que todos os direitos sejam para todos e todas.
Isso implicará que abandonemos a linha retilínea e contínua do progresso e
assumamos a lógica inclusiva/envolvente de uma espiral.

1. Desenvolvimento como promessa: construção e reforma do


labirinto moderno

Mais do que um conjunto de proposições, ideias e princípios calcados na cren-


ça de que a aliança entre razão, ciência e técnica seria o caminho para a

77
libertação de todas as opressões humanas, a modernidade, de acordo com San-
tos (2001) pode ser entendida como um Projeto Sócio Cultural. Este projeto
emerge no processo de desagregação da ordem feudal, ganha contornos mais
definidos com a filosofia iluminista e é posto em operação ao se converter em
instrumento da expansão capitalista. Desde as grandes navegações essa alian-
ça Projeto Sócio Cultural da Modernidade e Capitalismo tem se aprofundado
e a cada crise ou contradição que se configura no desenrolar histórico vem
demonstrando uma grande capacidade de reorganização e atualização de sua
lógica. E qual seria essa lógica a que estamos nos referindo? Para refletirmos a
respeito comecemos por buscar entender o sentido da modernidade.

A ideia de modernidade, na sua forma mais ambiciosa, foi a afirma-


ção de que o homem é o que ele faz, e que, portanto, deve existir uma
correspondência cada vez mais estreita entre a produção, tornada mais
eficaz pela ciência, a tecnologia ou a administração, a organização da
sociedade, regulada pela lei e a vida pessoal, animada pelo interes-
se, mas também pela vontade de se liberar de todas as opressões (…).
A humanidade agindo, segundo suas leis, avança simultaneamente em
direção à abundância, à liberdade e à felicidade (TOURAINE, 1999, p. 9).

A logica que vai caracterizar o desenrolar histórico do projeto moderno


se configura a partir da conversão dessa racionalidade – produzida no seio do
pensamento iluminista – em objetivos políticos e sociais, e pela instrumenta-
lização do estado moderno como agente central no seu processo de execução.
Ainda pensando com Touraine,

A nação não é a figura política da modernidade, ela é o ator principal da


modernização, o que significa que ela é o ator não moderno que cria uma
modernidade sobre a qual ela procurará preservar o controle, ao mesmo
tempo que aceitará perdê-lo em parte, em benefício de uma produção
e de um consumo internacionalizados (1999, p. 146 – grifos do autor).

A promoção do desenvolvimento é o eixo articulador da aliança entre


modernidade e capitalismo. O conhecimento científico entendido como aquele

78
mediado por uma técnica, por um distanciamento radical entre sujeito (aquele
que conhece) e objeto (aquilo que é conhecido) oferece a base para a criação
de tecnologias capazes de potencializar a capacidade dos homens de colocar a
natureza sob seu controle, sob seu domínio e ao seu serviço. A promessa do de-
senvolvimento é a possibilidade de crescente satisfação das necessidades huma-
nas. É essa promessa que funciona como atração para adentrarmos o Labirinto.
Ocorre que essa satisfação nunca é alcançada, está sempre se renovando.
A lógica que rege o Labirinto é a da acumulação e não da suficiência. Sempre é
possível ir mais longe do que já se foi – como no bordão do personagem Buzz
Ligthyear no filme Toy History que sempre exclamava: “ao infinito e além!”.
Ou seja, a lógica é a produção e recriação de sociedades insatisfeitas, como
ponderou a filosofa Agnes Heller:

O termo ‘sociedade insatisfeita’ foi cunhado para destacar um traço


conspícuo da identidade ocidental (…). Sugere que a forma moderna
de criação, percepção e distribuição de necessidades reforça a insa-
tisfação, independente de alguma necessidade concreta ser ou não de
fato satisfeita. Além disso, sugere que uma insatisfação geral atua
como uma vigorosa força motivacional na reprodução das sociedades
modernas (1998, p. 29).

Uma vez que enredados na lógica do desenvolvimento é difícil livrar-


-se de suas armadilhas. Pois ela é uma noção hierarquizante, que pressupõe
uma negação, uma dicotomia. Carrega a ideia de evolução, de caminho a ser
percorrido do pior para o melhor e uma vez atingido esse patamar há sempre
outro a ser galgado. Ele pressupõe a insatisfação: o melhor está sempre no
futuro e temos que correr nessa direção sem desviar o olhar e as ações senão
ficaremos atrasados.
A promessa moderna do desenvolvimento foi construída como possível
para todos, bastava trilhar o mapa desenhado na trilha da aliança entre ciên-
cia, tecnologia e capital. Mas não demorou que ficasse clara a impossibilidade
de seu cumprimento. Entre a primeira grande crise que veio à tona por volta
de 1870 e a queda das Torres Gêmeas em 2001, várias adaptações e propostas
de reordenamento no Projeto Sócio Cultural da Modernidade foram sendo

79
3. De um modo geral, podem ser consultados postos em operação. À palavra desenvolvimento, em diferentes contextos foi
como uma boa amostra da discussão, entre acoplado um adjetivo, seja na perspectiva da crítica ou da reforma – desigual,
outros: Santos (1997, 2001, 2010), Harvey
periférico, competitivo, equilibrado, justo, como liberdade, com equidade, sus-
(1992), Giddens (1991), Escobar (2005), Mig-
nolo (2007, 2008), Touraine (1999), Wallesrs- tentável, sustentado, emancipatório, etc. – no entanto nenhum consegue es-
tein (2002), Latour (1994), Stengers (2002) e capar da força substantiva que lhe define como hierarquização, produção de
Norgaard (1994).
desigualdades e diferenças.
A crítica ao modo de operar da modernidade tem se fortalecido nos úl-
timos anos, sobretudo a partir do processo de descolonização que tem sido
empreendido em diferentes áreas de saber e espaços de lutas produzidos no
interior da dinâmica social. A intensificação dessas críticas sinaliza para al-
guns estudiosos não só a configuração de uma crise dos fundamentos da mo-
dernidade, mas principalmente a possibilidade de ocupar lugar na arena das
disputas sociais outros saberes e fazeres antes invisibilizados. Nesta perspec-
tiva é que se colocam os estudos vinculados antropologia da modernidade, da
opção descolonial ou ainda àqueles vinculados às chamadas epistemologias do
sul.3 Em que pese diferenças significativas entre essas abordagens, é comum
entre elas a crítica à força semântica da palavra desenvolvimento e a necessi-
dade de superarmos essa ideia-força que nos coloniza e aprisiona no labirinto
moderno. Esteva (2000), afirma que esta é uma das palavras mais tóxicas já
produzidas, pois seu processo de descontaminação é muito difícil. Podemos
ainda acrescentar que essa contaminação se faz por diferentes e silenciosas e
viciantes toxinas, expelidas nas escolas, nas fábricas, nas universidades, nos
laboratórios, nos lojas, no cinema, na televisão, enfim em quase todos os es-
paços onde as relações capitalistas governam.
Olhemos com cuidado para essa palavra que costumamos usar cotidia-
namente sem pensar na extensão do sentido que ela carrega e no seu poder
tóxico. Olhando para suas raízes etimológicas percebemos que ela traz em sua
morfologia a ideia de negação, de ação contrária, separação e retirada. Como
argumenta Couto,

O prefixo DES freqüentemente indica algo ruim, associado a desfazer,


destruir, […]. Quando aplicado à palavra “desenvolvimento”, o prefixo
DES mantém essa conotação negativa, destrutiva […]. Assim, desenvol-
ver algo é tirar o “invólucro” (a proteção) que o tem protegido, que o

80
mantém inteiro como formação ontológica, como ser, como organismo. 4. Ainda que alguns estudiosos tenham
No caso que nos interessa, “desenvolver” um ecossistema é tirar sua elaborado conceitos mais amplos de desen-
volvimento, tal como o Índice de Desenvol-
auto-defesa, é fragilizá-lo (2007, p. 375).
vimento Humano, construído pelo econo-
mista indiano Amarthya Sem, e economista
Etimologicamente desenvolvimento significa desvencilhar-se, expandir- paquistanês Mahbub, eles não conseguiram
escapar tanto do desenvolvimento, como
-se rompendo os vínculos, as ligações. É importante ter sempre em conta que
do mais reduzido desenvolvimento eco-
as palavras não são neutras, elas são carregadas de conteúdo, que revelam as nômico. Por isso, estão substancialmente
suas intencionalidades. Ou seja, condenados.

5. O não reconhecimento do Outro e, por-


palavras têm força, tem magia, tem a vitalidade de gerar aquilo que
tanto a indiferença diante de seu exter-
dizem. Por isso, quando nos deparamos com certos textos ficamos arre- mínio é constatado facilmente na espeta-
piados com o que ouvimos e vemos (PEREIRA, 2009, p. 39). cularização da violência e naturalização
das práticas de extermínio que temos no-
ticiados nas grandes redes de tv aberta. É
Neste sentido, a palavra desenvolvimento, na história do mundo ociden- recorrente matérias sobre o extermínio de
tal, é uma palavra-texto, é expressão do projeto de sociedade que nasceu com a moradores de ruas nas grandes capitais.
Os grupos de extermínio também são noti-
modernidade e atravessou a história, a ponto de uma dirigente de um dos países
ciados de forma naturalizada como parte do
ocidentais mais desenvolvidos – Margareth Thatcher – Inglaterra, sentenciar o aparato policial. Se na época foi causa de in-
fim da sociedade: “não existe isto que chamam de sociedade, apenas homens e dignação social hoje, poucos se lembram da
mulheres individuais” (apud MITTELMAN, 2013, p. 30). A conhecida “dama de morte do índio Galdino, queimado vivo em
Brasília por adolescentes em abril de 1997.
ferro” reafirmava o indivíduo, como centro, como unidade a ser considerada.
O indivíduo no seu mais completo isolamento é alçado à categoria de único
sujeito social real e, portanto, na lógica que ela reafirma não há que se conside-
rarem os interesses coletivos, ou o bem comum. Só o individuo e sua satisfação
importa. O conteúdo da sentença de Thatcher tem suas raízes na história, na
filosofia e na economia, do ocidente, em síntese no projeto Sócio Cultural da
Modernidade em cuja implementação o governo inglês foi ativo protagonista.
O desenvolvimento tem, pois, a marca genuína de uma filosofia do redu-
cionismo4, da atomização, da dissociação, enfim da reificação. A modernidade
se estabeleceu como um marco zero, rejeitando toda a tradição. E ao fazer
assim, a modernidade se institui como fundamento e totalidade. Fora dela não
há o Outro, não há exterioridade. Então a expansão contínua e progressiva,
o não reconhecimento e o extermínio do Outro foi desde sempre autorizados.
Não precisamos olhar para o governo Inglês para ver como essa lógica de
extermínio do Outro funciona. Ela ocorre de diferentes formas ao nosso redor,

81
6. Síntese do texto disponível em: http:// diante de nossos olhos5. E o que é ainda mais indicativo desse não reconhe-
www.novacartografiasocial.com/downloa cimento é que essa autorização de extermínio é dada não só aos indivíduos,
ds/fasciculos/10-ncsa-alcantara.pdf
mas ao Estado. Para ilustrar, vejamos o trecho a seguir retirado do documento
produzido pelo Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara

Em 1980, o governo militar brasileiro decretou a área de 52.000 hectares


localizada no município de Alcântara, no estado do Maranhão, habitada
por quilombolas, pescadores, agricultores, extrativistas e artesãos, como
área de vazio demográfico. O governo estadual de então decretou como
de utilidade pública pra fins de desapropriação a área acima referida,
para instalação da Base de Lançamento de Foguetes6.

Para o Brasil, a construção de uma Base de Lançamento de Foguetes sem-


pre foi apresentada como sinal de desenvolvimento. Disso não discordamos,
porque realmente a referida Base des-envolveu toda uma região formada por
remanescentes de quilombolas desestruturando-a sócio-culturalmente, dei-
xando-a vulnerável a ataques de toda ordem. E mais, os militares decretaram
a referida área como área de vazio demográfico. Fica evidente nessa história
o seguinte: é premissa do desenvolvimento o não reconhecimento que leva à
eliminação. Em muitos casos, a concretização de projetos de desenvolvimento
envolvem a eliminação de entraves, de estruturas consideradas atrasadas, etc.
Não importa se esses entraves são pessoas, são territórios habitados por hu-
manos e não humanos. Importa que são entraves e precisam ser eliminados.
O desenvolvimento envolve a criação de condições favoráveis e para cria-las
os governos justificam qualquer ação: expulsar, grilar, forçar o êxodo rural,
inundar os territórios de comunidades indígenas e quilombolas com grandes
lagos para hidrelétricas, rever demarcações de terras indígenas, etc.
A modernidade provocou rupturas que deixariam na(s) sociedade(s), na(s)
natureza(s), nas mulheres e homens, marcas indeléveis. E duas a serem desta-
cadas aqui é a impossibilidade de ser, de existir, fora do horizonte uniformiza-
dor estabelecido pela modernidade; e a outra, é o desencantamento do mundo,
a supressão de todo mistério seja do(s) humano(s) ou da(s) natureza(s).
A igualdade é uma ideia fundante da modernidade e foi revolucionária
no sentido de contrapor ao antigo domínio do estamento aristocrático ou-

82
tra forma de sociedade. No entanto, no desenrolar do projeto moderno essa
igualdade não foi convertida em favor da emancipação, ela operou no sentido
de criar subjetividades homogêneas, mutilando e destruindo singularidades,
suprimindo diversidades. Os humanos – enquanto tipo ideal moderno – apre-
sentam-se destituídos de toda a sua originalidade. Reduz-se o plural ao múl-
tiplo. No múltiplo, somos simples exemplares, somos idênticos. Não existimos
a partir de uma cultura particular. A globalização aprofunda esse processo de
homogeneização, aspecto que pode ser observado a partir das festas que se
produzem nas grandes cidades e nas suas periferias ao redor do mundo, nas
comidas, nas roupas que se consome.
Essa homogeneização é naturalizada e a partir dela passamos a negar o
diferente, o Outro, nos o desconsideramos. Não há possibilidade de estranha-
mento, de aproximação. O que não é igual, não é reconhecido. Um exemplo
bastante significativo desse processo de homogeneização e reificação é o uso
que fazemos da palavra natureza. Quando falamos “natureza” estamos falando
de um ente abstrato, sem característica identificável, sem identidade, sem ori-
ginalidade. Quando falamos natureza estamos nos incluindo? Estamos falando
dos rios, ou dos mares? Das florestas, ou seres que nelas habitam? Das savanas
da África ou das geleiras do Ártico? Provavelmente estamos falando de todos
e de nenhum ao mesmo tempo. Estamos tomando como concreto algo que só
é possível enquanto abstração, estamos reificando a natureza e suas múltiplas
identidades, característica e lógicas constituintes.
Essa reificação é o motor que mantem operante o desencanto do mundo,
a ausência de todo mistério, produz o aprisionamento a um único horizonte,
nos mantem no Labirinto.

1.1 Desenvolvimento Sustentável e o esforço para reformar o Labirinto

A economia capitalista é marcada por ciclos de expansão e contração. De


maneira que a cada crise de contração o rastro de miséria e opressão deixado
pelas políticas desenvolvimentistas se faz mais evidente. A concentração de
rendas e riquezas nas mãos de poucos e a penúria da maioria absoluta da
população aspecto que a cada crise parece se aprofundar, vem sinalizando os
limites da promessa moderna de emancipação pelo desenvolvimento. Mas se o

83
não reconhecimento do Outro humano cria as condições de reprodução de de-
sigualdades sociais que são necessárias à operação do projeto sócio cultural da
modernidade, parece sinalizar também os limites desse mesmo projeto. Mas é a
emergência do Outro não humano que parece evidenciar a impossibilidade da
manutenção da aliança fundadora desse projeto de colonização que foi posto
em operação pela modernidade: razão-ciência-tecnologia-desenvolvimento.
A emergência da problemática ambiental parece abrir uma fissura nas estrutu-
ras desse projeto moderno de colonização.
As proposições que constituem a ideia força, ou a palavra texto do De-
senvolvimento sustentável, traduzem, a partir da chave de leitura que estamos
propondo, os esforços de atualização da lógica de operação do desenvolvi-
mento cujo objetivo é manter de pé e em funcionamento o Labirinto Moderno.
A ideia de ser possível como alternativa ao desenvolvimento tradicio-
nalmente hegemônico a construção de um Desenvolvimento Sustentável tem
reunido os interesses mais diversos – desde os mais conservadores aos que
se dizem os mais progressistas – ao ponto de estabelecer um consenso que
tem ocultado a contradição que ela traz em seus termos. Desenvolvimento
sustentável é uma expressão suave, aos ouvidos de muitos. Quase redentora.
Para confirmar isso basta ver a frequência com que se recorre a ela, a fim de
demonstrar que a saída para a humanidade e para o planeta é a promoção do
desenvolvimento sustentável. Não esqueçamos que o substantivo permanece.
Apenas lhe foi agregado outro adjetivo.
Todos os adjetivos acoplados têm força secundária. Não há como pro-
mover desenvolvimento local, se o que move as ações de desenvolvimento
implica em desenraizamento e negação do pertencimento; como realizar de-
senvolvimento humano, se as pessoas são as que menos interessam ao mundo
do capital; como garantir desenvolvimento social, se para o mercado o impor-
tante são indivíduos e não a sociedade; como sustentar a ideia de desenvol-
vimento sustentável, se já cada vez mais é evidente para os povos indígenas,
os africanos e afrodescendentes e, por aqueles de lutam cotidianamente para
não serem devorados pelo Minotauro, que sozinho nada é sustentável, nada
se sustenta. Para existir é necessário estar na teia da vida. A lógica do desen-
volvimento opera em sentido contrário, trabalha para destruir a vida de outros
seres vivos, a fim de sustentar-se.

84
O desenvolvimento da mesma forma que o Desenvolvimento Sustentável
está nu desde a sua criação. Ele nunca esteve envolvido com ninguém e em
nada. Ele é DES-envolvido. E para conquista-lo é preciso entrar no Labirinto.
Ser um indivíduo desenvolvido, desvinculado de tudo, encerrado em si mesmo,
proclamando

nada receber de outrem a não ser o que já está em mim, como se desde
toda eternidade, eu já possuísse o que me vem de fora. Nada receber ou
ser livre (LÉVINAS, 1988, p. 31).

O sujeito do des-envolvimento é aquele cujo mundo não comporta o Outro,


mas está encerrado em sua autossuficiência.
O núcleo da ideia força do Desenvolvimento Sustentável recoloca a pro-
messa moderna de emancipação a partir da erradicação da pobreza e da con-
ciliação entre satisfação das recriadas necessidades humanas e a preservação
da natureza. Sociedade e Natureza juntas como mais uma obra do poder da
racionalidade moderna. A ciência moderna é chamada agora para tratar das
doenças da natureza. A ciência novamente é colocada no centro da produção
de tecnologias capazes de poupar recursos, de orientar técnicas de gestão e
planejamento adequadas à preservação do meio ambiente. A gula moderna
por tudo conhecer e dominar é rearticulada como suporte do novo adereço
(sustentável) agregado ao substantivo desenvolvimento. (ESCOBAR, 1998).
Todos são chamados a se engajarem na busca da sustentabilidade global
e planetária. O planejamento e a gestão de recursos ambientais devem orientar
as ações de todos os grupos sociais, comunidades e seres que habitam o pla-
neta. Todos os espaços são convertidos em “recursos” que devem ser geridos
de forma adequada, e novamente a ciência e seus operadores é que vai dizer o
que é bom para o desenvolvimento e o que não é bom. E como vimos o que é
bom para o desenvolvimento tem o poder de desumanizar.
A adesão ao Desenvolvimento Sustentável é uma adesão ao Desenvolvi-
mento e a todo o seu corolário de hierarquização e reconfiguração e desigual-
dades. Mesmo quando nos colocamos diante de alguma atrocidade do desen-
volvimento e o negamos por ser insustentável, ainda assim estamos aceitando
o desenvolvimento como marco para a discussão (ESCOBAR, 1998).

85
Resta ainda examinar um aspecto que consideramos muito importante
para compreendermos o papel colonizador da lógica desenvolvimentista que
se mantem como eixo das proposições vinculadas à promoção do Desenvolvi-
mento Sustentável. Trata-se da apropriação e potencialização do poder instru-
mental inerente ao conceito de Meio Ambiente.

1.2 Morre a(s) natureza(s) e vive o meio ambiente

A importância da noção de Meio Ambiente fez parte do discurso ambientalista


desde seu nascedouro ganhando importância na medida em que a consciência
ecológica questionava os problemas advindos da expansão do industrialismo.
Desta forma diferentes matizes do ambientalismo contribuíram para o deslo-
camento da noção operante de “natureza” para “meio ambiente” (ESCOBAR,
1998). A partir do conceito de Meio Ambiente é aprofundada uma lógica de
morte da natureza, ou melhor, das naturezas:

Como se usa hoje o conceito de meio ambiente ele se coaduna a uma vi-
são da natureza que está de acordo com o sistema urbano industrial. Todo
o importante para o funcionamento deste sistema se converte em parte
do meio ambiente. O principio ativo desta conceptualização e o agente
humano e suas criações, ao passo que a natureza fica relegada a uma con-
dição ainda mais passiva. O que circula é matéria prima, produtos indus-
triais, dejetos tóxicos, “recursos”. A natureza se reduz a um ente estático,
um mero apêndice do meio ambiente. Junto com a deterioração física da
natureza presenciamos sua morte simbólica. O que se move, cria, inspira
a vida, quer dizer o seu principio organizador, reside agora no meio am-
biente (ESCOBAR: 1998, p. 369 – tradução livre feita pelos autores).

Se vivermos como colonizadores subalternizando, explorando, silencian-


do a vida em todas as suas expressões, seja transformando-a em coisa, em
“vidas secas”, embrutecidas, estéreis ou pela imposição da morte; o meio am-
biente que se configurará é resultado deste modo de estar no mundo.
O modo de viver, inerente à logica do desenvolvimento (insustentável ou
sustentável), nega qualquer possibilidade de relação com o Outro, porque ele

86
é objeto. E objeto é passível de qualquer manipulação, pode ser tirado de um
lugar e posto em outro de acordo com os interesses de que o domine e/ou o
possua. Assim, desvia-se o curso de rios para atender a especulação imobiliá-
ria, promovem-se urbanizações forçadas, deslocam-se populações, inundam-
-se grandes áreas de terras para construir hidrelétricas, e pouco interessa a
vida das comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas que habitavam
nelas, em nome do desenvolvimento o poder público (e também a sociedade
imobilizada no Labirinto) é condescendente com a prática de trabalho escravo,
com a homofobia com o racismo; com extermínio de jovens, sobretudo os
negros e pobres, com a violência contra as mulheres.
Meio ambiente como simulacro de vida, e vida sem espanto, pois todos
e tudo foram homogeneizados, aprisionados no interior de um obscurantismo
esclarecido que conspira para nos manter dentro do Labirinto ou como ope-
rários da sua reforma. Talvez possamos pensar que conspiração é um termo
muito forte para uma lógica que não parece ter um sujeito operante. Mas é essa
sua força. Tudo se move no sentido da

manipulação dos meios de comunicação, da construção da administra-


ção estatal e da política pública como dominação e não como serviço ao
bem comum, como também da manipulação da ciência para dominar,
oprimir, explorar e subjugar as populações. É a mentira pública como
forma de obter benefícios privados (TORRES, 2008, p. 44-45).

E o obscurantismo esclarecido impede as mudanças porque nos impõe


sua lógica umbilicocêntrica que nos faz acreditar que em um mundo fragmen-
tado não se ganha nada dizendo nós e, portanto, a melhor opção é cada um
cuidar de si.
Assim, o meio ambiente que nos salta aos olhos é aquele demarcado
pelo terror, violência e pelo uso espetacular de aparelhos de segurança e vi-
gilância. Nele não é possível garantir a coexistência, porque em cada esquina
encontramos um inimigo e não um(a) companheiro(a). O eixo orientador é
a competição. Nesse ambiente, artefato construído por uma “arquitetura da
exclusão” que apesar de postular “a liberdade de cada um vai até onde come-
ça a liberdade do outro”. O outro não existe. Não é reconhecido, é excluído.

87
7. Crisol é um recipiente onde se derrete Então a liberdade desse Um, tomado como ser reificado e sem identidade,
o metal para apurar as suas qualidades. não encontra limites.
Neste texto, a crisol é uma metáfora para
Presos no Labirinto Moderno, cercados por uma natureza una, desen-
significar que interrogaremos a Educação
Ambiental, colocaremos em questão seus cantada e morta, ainda podemos vislumbrar uma saída desde meio ambiente
limites, possibilidades e otimismo. hostil? Pensamos que sim, e ainda mais, pensamos que o fato de nos perceber-
mos como prisioneiros já oferece oportunidade de encontrarmos uma saída.
Claro que este Labirinto é forte e cheio de armadilhas e estas só serão vencidas
com muita reflexão, criatividade e cooperação – único caminho que temos
contra a naturalização da prisão. Posturas que implicam o permanente esforço
de se compreender como integrante da teia da vida, e compreender, então, que
dela muitos Outros tomam parte e estão envolvidos.
Como propusemos no inicio do texto a ideia de envolvimento pode ser
o fio de Ariadne a orientar nossa caminhada rumo saída do Labirinto. Aqui
vamos trazer a discussão dessa ideia como possibilidade dela se constituir no
eixo da práxis da Educação Ambiental. A partir do envolvimento a Educação
Ambiental pode se converter em um espaço crítico cooperativo de imensa
potência libertadora.

2. O FIO DE ARIADNE: ENVOLVIMENTO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL


CRÍTICO COOPERATIVA

Para pensarmos na lógica do envolvimento precisamos resignificar o sentido


de Natureza e Meio Ambiente, conferindo a eles historicidade, concretude,
identidade. É importante compreender o

meio ambiente como um campo de sentidos socialmente construído e,


como tal, atravessado pela diversidade cultural e ideológica, bem como
pelos conflitos de interesse que caracterizam a esfera pública (CARVA-
LHO, 2001, p. 47).

Esta compreensão revela um ambiente em permanente devir, e sinaliza um


rompimento com o dualismo do ser ou não-ser. Meio ambiente como lugar
mantido pelos sentidos construídos na cultura vivida, sócio e historicamente.

88
A natureza como unidade não existe. Temos naturezas perpassadas por feixes 7. Crisol é um recipiente onde se derrete
de sentidos e tempos. Meio ambiente não é algo separado, destacado dessas o metal para apurar as suas qualidades.
Neste texto, a crisol é uma metáfora para
naturezas, mas um conjunto de significados de movimentos, de humanos e significar que interrogaremos a Educação
não humanos, de seres vivos e não vivos, enfim um feixe de relações visíveis, Ambiental, colocaremos em questão seus
invisíveis, imaginárias. limites, possibilidades e otimismo.

Assim sendo, o meio ambiente não existe desde uma data ou existirá
eternamente. Ele é feito e refeito a cada instante segundo a configuração das
relações entre os humanos e os não humanos, das relações estabelecidas ou
por se estabelecer na complexa teia da vida.
A essa visão de meio ambiente articula-se, pois uma compreensão de
ser humano, como um ser genérico, nascido com a idade moderna, sem lugar,
sem memória, porque a vida para ele é tão somente o tempo presente, e o que
lhe preocupa é sua liberdade sem responsabilidade e sua autossuficiência. Ao
articular uma compreensão do humano, opera ao mesmo tempo uma compre-
ensão de Direitos Humanos que reivindica o direito de afirmar que a sua vida é
hierarquicamente superior a de todos os outros seres. Dessa ótica, não há sen-
tido nenhum em falar em interdependência dos direitos humanos econômicos,
sociais, culturais, ambientais e sexuais – DHESCAS.
O que dá lastro a essa concepção de direitos humanos é o cumprimento
dos deveres.

É deste tipo de consciência que nascem expressões como: direitos hu-


manos sim, mas somente para os ‘humanos direitos’. Em outras palavras,
direitos humanos somente para os que cumprem seus deveres e se adé-
quam à ordem estabelecida (CARBONARI, 2008, p. 27).

E quem será que estabelece os deveres a serem cumpridos e qual é a ordem a


ser estabelecida e garantida? Com certeza, não são as mulheres, as crianças,
os gays, as lésbicas, os travestis, os trabalhadores, os desempregados, os jo-
vens, os índios, os pobres e os negros que definem essa ordem. E não o são
porque desses direitos humanos a figura representante é o homem ocidental
branco e cristão.
Um meio ambiente feito de “vidas secas” produz posições extremas e
excludentes de direitos humanos

89
As posições estagnadoras de direitos humanos trabalham com a ideia de
que direitos humanos – e também quem atua com eles – se confundem
com a defesa de “bandidos e marginais”, num extremo; e no outro, que
direitos humanos conformam uma ideia tão positiva e tão fantástica
que é síntese do que de mais belo a humanidade produziu. Pelas duas
pontas, imobiliza: seja porque tocar no assunto compromete negativa-
mente; seja porque tocar na ideia a “estraga” (CARBONARI, 2008, p. 33).

A estagnação das estruturas sociais é o que interessa à sociedade do ca-


pital. Portanto, nada a estranhar se tudo está desligado de tudo. Para ela, meio
ambiente ou natureza é recurso para ser explorado e gerenciado e não possui
vínculo com sociedade; e por consequência entre meio ambiente e os direitos
humanos não há conexão. É essa lógica que o desenvolvimento alimenta e o
envolvimento pode romper.
Para que a educação ambiental promova outra lógica operativa, capaz
de promover a saída da prisão do desenvolvimento, como estamos propondo,
pensamos que ela precisa antes ser colocada no crisol7. Expliquemos melhor.
Colocar a educação ambiental no crisol é assumir que

conhecimento não é apenas crítico, é principalmente autocrítico – ar-


gumentar e contra-argumentar são o mesmo gesto e a mesma dinâmica,
o que impede a impunidade de quem sabe pensar (DEMO, 2004, p. 24).

Agora, impunidade não se trata de “encontrar ‘certo e errado’, muito menos


de ‘culpados e inocentes’” (SATO, 2001, p. 1). O que queremos é colocar-nos
face a face com educação ambiental e interrogá-la para que ela mostre a sua
verdade, podendo com isso escapar do conformismo ou do otimismo, isto é,
romper com a lógica do dualismo e/ou da reificação.
A partir da ideia-chave envolvimento, colocar no crisol é estabelecer
uma crise por meio da seguinte pergunta: com quem e com quê a educação
ambiental está envolvida. E quem e o quê a educação ambiental está (des)
envolvendo e deixando numa posição vulnerável.
Interrogar a educação ambiental é interrogar os sujeitos que a fazem.
Quem são eles? Estão entorpecidos com o sustentável agregado ao desenvol-

90
vimento? Será que estão inscritos entre os que criticam empreendimentos do
desenvolvimento na lógica de que busquem ser sustentáveis? Será que perce-
bem que a lógica que move um também move o outro. E que ambos operam
na produção e reprodução de necessidades, movimento inerente ao modo de
produção capitalista?
Com essas perguntas em mente, nos parece que as atividades de educação
ambiental têm sido marcadas por uma “ilusão pedagógica” ou um disfarçado
(quem sabe ingênuo?) comprometimento com o modo de produção capitalista.
Ilusão pedagógica que não reconhece os limites emancipatórios inerentes ao
desenvolvimento sustentável, e por isso reforça, na sua práxis, a crença no
trabalho instrumental e fragmentado dos indivíduos enquanto promessa de
uma sempre adiada libertação. Trabalho individual não gera envolvimento,
por isso não tem lastro suficientemente forte para transformar valores, hábitos
e atitudes, mas apenas para criar uma zona de conforto em que os indivíduos
se alojam, encerrando-se cada um sobre seu ato:

Proliferam-se, assim, ações pontuais de abraços em árvores ou ofici-


nas de reciclagem de papel, sem nenhuma postura crítica dos modelos
de consumo vivenciados pelas sociedades, ou pela análise do modo de
relação dominadora do ser humano sobre a natureza, com alto valor
antropocêntrico. A ênfase dada ancora-se no terceiro “R” (Reciclagem)
das campanhas dos resíduos sólidos, em detrimento da Redução e da
Reutilização, chaves nos programas de EA. As indústrias fazem campa-
nhas nas escolas, através de jogos competitivos e não solidários, para a
coleta de “latinhas” de alumínio, enquanto incentivam mais consumo
para a premiação de computadores e de outros materiais escolares. Es-
tudantes plantam árvores no dia mundial do meio ambiente (5 junho),
como se o ambientalismo se resumisse em datas comemorativas e não
configurasse como um projeto de vida, de lutas sociais (…) necessários
para a construção da sociedade que queremos (SATO, 2001, p. 2).

Movida por ações desse tipo, a educação ambiental acaba por escamo-
tear as lutas ambientais, políticas, sociais, culturais, econômicas, que estão
presentes na esfera da vida cotidiana, aonde se faz a resistência e a luta

91
contra o Minotauro. Ao escamotear essas lutas e resistências a Educação Am-
biental acaba contribuindo para a legitimação do modelo econômico e social
hegemônico. O que vemos por trás das ações pontuais é um movimento que
vai da aceitação da ordem econômica dominante a no máximo a sua virtual
negação; não chegam a se constituírem em um movimento orientado para
superá-lo. Então, continua preso ao do dualismo do certo e do errado, do
sustentável e do insustentável.
De modo geral, as proposições e práticas relacionadas à educação am-
biental que tem predominado nas escolas são de natureza funcional. A edu-
cação ambiental tem exercido o papel de realocar o lixo que o capital produz,
criando uma estética abstrata do reciclado, uma vez que tais produtos não
manifestam as contradições e os conflitos que estão por trás deles. E abstrata,
ainda, porque não possui vínculos com a identidade social dos grupos para os
quais se dirigem ao mesmo tempo em que reforça e evidencia a situação de
desigualdade e hierarquização. A estética do reciclado trabalha no sentido de
alimentar a inferioridade, a subalternidade, a exclusão de seus consumidores,
ao mesmo tempo em que os mantêm na cadeia do consumo. Afinal a palavra
re-ciclagem, não esta propondo a continuidade de um ciclo? Não traz em si a
proposta de re-entrada no processo produtivo, no ciclo da produção? E cabe
ainda perguntar, de qual processo produtivo estamos falando?
Promover a crise nas práticas de educação ambiental é questionar tam-
bém a promoção da adaptação. De várias formas a batalha empreendida pela
Educação Ambiental em favor do desenvolvimento sustentável opera no sen-
tido da adaptação ao modelo dominante, hegemônico. É nesta perspectiva que
consideramos as mais diversas práticas e orientações votadas para a produção
de nichos de mercados que se pretendem sustentáveis. Encontrar um nicho
significa encontrar um espaço de acomodação dentro do ciclo produtivo, que
como analisamos não é sustentável. Não tem sentido dispender energias para
“‘encontrar o nicho’. [Pois] o nicho é a tumba, o lugar adequado no mercado”
(BENGOA, 2002, p. 68). Aliás, a defesa da ideia de que o segredo é encontrar
o nicho nos traz à memória o texto de Bertold Brecht, “Se os tubarões fossem
homens”, onde ele imagina como seria a vida dos “peixinhos” se os tubarões se
comportassem como homens. Já no trecho final, depois de dizer que certamen-

92
te os tubarões construiriam gaiolas para abrigar os peixes pequenos (prisões 8. Importante salientar que o princípio co-
como as do Labirinto?), observa o poeta: operativo não é sinônimo de consenso, de
adaptação.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os 9. Sísifo, é considerado na mitologia Grega
peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e o fundador da importante cidade de Corin-
to. Por ter traído um segredo de Zeus, foi
seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até
condenado por este ao inferno depois de
poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois morto, e lá deveria cumprir o castigo, eter-
eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os no, de fazer avançar sem parar montanha
peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna acima uma grande pedra que ao atingir o
cume despenhava-se montanha abaixo,
entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, constru-
quando então ele reiniciava a tarefa.
tores de gaiolas, etc.

Então, não seria essa proposta de encontrar o nicho a isca do capital para
manter todos dentro do Labirinto, pensando que estão caminhando no sentido
de sair dele? Não estaria o “nicho” funcionando como um espaço de reprodu-
ção de saborosos alimentos para os Tubarões?
Levar a educação ambiental a uma crise é um esforço de coloca-la na pers-
pectiva da permanente autocrítica, da vigilância propositiva em relação às arma-
dilhas do Labirinto. É, também, ser intransigente, com a nossa prática educativa,
é não se conformar e não se acomodar com que estamos fazendo. E mais, é colo-
car-se numa posição de enfrentamento e superação dos modos de ser e de pensar
fundados em hierarquias, no poder, no silenciamento, na dominação, no interesse
e na colonização. É colocarmos numa posição de confronto ao processo de elimi-
nação do Outro humano e não humano, fundando desta forma possibilidades de
nos envolvermos com esses Outros buscando tornar possível o impossível.
Pensando a partir da ideia-chave envolvimento “trata-se ao mesmo tem-
po de mudar de vida e transformar o mundo, de revolucionar o indivíduo e de
unir a humanidade” (MORIN, 1999, p. 188). É colocar a nossa “cunha” na crise
civilizacional, para ampliar o máximo possível a fissão em vista da abertura de
espaço para o novo. E uma das possibilidades de se fazer isso é sentir-pensar-
-viver uma pedagogia da cooperação.
Mas o que vem a ser a pedagogia da cooperação? É um modo de vivenciar
a educação, no qual

93
os integrantes de um grupo devem aceitar o fato de que só serão capa-
zes de alcançar seus objetivos se os demais também alcançarem os seus
próprios (DUCK, 2007, p. 210).

Cooperar pressupõe reconhecimento. Reconhecer não é só perceber a presença


de alguém, mas, mais do que isso, é ver, abrir espaços, acolher e viver em co-
mum as infindáveis possibilidades da vida.
Nesse sentido, articula reflexões não lineares promovendo uma partilha
de saberes e não o acúmulo de informações (BRANDÃO, 2008). Compartir sa-
beres exige a disposição de fazer um caminho com, com o Outro, com o dife-
rente; ao passo que o ato de acumular informações pode ser feito solitariamen-
te. Na pedagogia da cooperação, não há lugar para a subalternidade, exclusão
ou descarte dos seres, da vida, em sua expressão humana, mineral e vegetal.
O princípio cooperativo8 abre a possibilidade para a sociedade encontrar
coletivamente seu próprio rumo, construir a sua autonomia, ser uma comuni-
dade com presente e futuro. Isto é impossível no esquema tirânico neoliberal
que nos impõe a viver como Sísifo9, colocando toda nossa potencialidade em
trabalhos infrutíferos, numa vida sem esperança.
Trata-se de construir o protagonismo cooperativo dos sujeitos que fazem
educação ambiental, a fim de descobrir não somente o porquê de tantos pro-
blemas socioambientais e nem de como atacá-los de modo isolado. A educa-
ção ambiental crítica nos convida a outros desafios, como conclui MATEUS,

Pensando na relação entre educação, reciclagem e os diversos tipos de


consumo, foi possível concluir que as práticas educativas ambientais
precisam ser desafiadoras, não podem permanecer prisioneiras dos limi-
tes da lógica da metodologia de resolução de problemas socioambientais
globais de modo pragmático, pois esta faz da reciclagem de resíduos só-
lidos tão somente uma atividade-fim, ao invés de considerá-la um tema
gerador para o questionamento das causas e consequências da produção
continuada e excessiva de resíduos (2010, p. 8-9).

Somente Reciclar não altera fundamentalmente o modo de ser, de pro-


duzir e de consumir que estão centrados no individuo e nos impossibilitam de

94
perceber as inúmeras e complexas conexões que marcam a interdependência
entre os seres vivos. É um esforço permanente de construção de uma práxis
que opere fora da lógica da exclusão, pois como lembra Boff,

a lei básica do universo não é a competição que divide e exclui, mas a


cooperação que soma e inclui. Todas as energias, todos os elementos,
todos os seres vivos, desde as bactérias e os vírus até os seres mais
complexos, somos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes
(BOFF, 2002, p. 14).

Cooperar ou competir não é uma escolha determinada pela má ou boa


vontade dos indivíduos. É muito mais do que isso. São realidades determina-
das pelas estruturas sociais. A desfiguração, imposta às mulheres, às crianças e
aos homens, particularmente aos marginalizados, só poderá ser transformada
com ações políticas com força convocatória para agir em vista da conquista
da condição de sujeitos de direitos. E acreditamos que uma das fontes dessas
ações é a educação em direitos humanos. Nesse caminho não pensamos que
a Educação Ambiental Crítico Cooperativa possa acontecer desconectada da
Educação em Direitos Humanos.
A educação em direitos humanos é o convite do Outro para um caminho
comum de lutas, cujo sentido está em passar de uma subjetividade fechada em
si mesma a uma subjetividade aberta e relacional, a uma intersubjetividade.
Ela me possibilita pensar um sujeito e uma subjetividade à luz dos direitos
humanos capaz de nos aproximar das experiências vitais do Outro.
Na educação em direitos humanos não se tem a preocupação em institu-
cionalizar metodologias, pois o importante é estar no caminho do Outro, apren-
der a escutar. Neste sentido, Rubem Alves, em O amor que acende a lua, escreveu

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso


de escutatória. […] A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem
logo dar um palpite melhor… Sem misturar o que ele diz com aquilo que
a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de des-
cansada consideração… E precisasse ser complementado por aquilo que
a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é

95
a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no
fundo, somos os mais bonitos (2008, p. 65-7).

Sem dúvida, para o educador, em qualquer área que esteja atuando é


importante se colocar na relação de alteridade-outridade que a escuta às vezes
permite criar. Sem essa relação de escuta a educação ambiental crítico-coo-
perativa não é possível. Da mesma forma que não é possível a educação em
Direitos Humanos, uma vez que o sentido tanto de uma como de outra – que
compreendemos estarem umbilicalmente relacionadas – é pensar a liberdade, a
autonomia e a subjetividade a partir da responsabilidade pelo Outro.

Ser livre e autônomo, dessa forma, é muito mais do que respeitar a ‘cerca’
da liberdade dos outros – no sentido de que ‘minha liberdade vai até onde
inicia a liberdade do outro’ –, reduzindo a liberdade a uma espécie de
propriedade privada e privatista. Trata-se de compreender a liberdade e
a autonomia como processo de constituir-se com os outros, desde os ou-
tros, para si e para os outros. A liberdade, dessa forma, é construção subs-
tantiva da subjetividade aberta e relacional (CARBONARI, 2007, p. 178).

Nenhum ser é uma ilha. Ou somos cooperativos ou não somos. Protagoni-


zar uma educação ambiental crítico-cooperativa é abrir-se ao Outro, é respon-
sabilizar-se por ele, é compartir da luta contra todos os ferrolhos e labirintos da
competição, possibilitando a todas as formas de vida viver o seu kairós, tempo
favorável para libertar e ser libertado, feito de imanência e transcendência. É
fazer a experiência da atenção para consigo e com o Outro, situando-nos no
mundo e tecendo uma contracorrente ao khronós, que é o tempo do mercado e
do capital, que descontextualiza, esquadrinha, limita e fragiliza a vida.

3. Para finalizar sem concluir

Não por fim, mas para terminar, pensamos que muitos dos que nos acompa-
nharam até aqui, poderiam concluir consigo mesmos, “sim, pode ser…” e na
sequencia se virem acossados pela legitima pergunta: mas como fazer? Como
encontrar ou tecer o fio de Ariadne?

96
A educação ambiental fundada no princípio crítico-cooperativo busca
construir possibilidades, pensar em termos éticos e estéticos que não estão no
horizonte, mas para além dele. Ela faz a crítica ao que se vê, mas anuncia o
ainda não visto, a utopia, o que precisa ser construído e reconstruído constan-
temente, pois entende que a

crítica sem autocrítica é problematizar o movimento da vida queren-


do ficar de fora, sem colocar a mão na massa, algo inaceitável para
uma perspectiva na qual não pode haver oposição entre teoria e prática
(LOUREIRO, 2007, p. 67).

A autocrítica deve libertar-nos do aprisionamento no subjetivismo, da


crença de que a crítica é um ato de poder, de protesto egoísta. A crítica deve
ser o que abre para anunciar algo que vai além dela mesma.
O caminhar pelas veredas de uma educação ambiental crítico-coopera-
tiva deve nos levar a investir na intuição de que na educação não há espaço
para individualismos expressos na relação sujeito/objeto, mas que ela deve ser
antes de tudo uma convocação para o diálogo com o Outro.
E aí responderíamos para terminar que a saída do Labirinto está na trilha
que nos leva em direção ao Outro.

97
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101
102
Júlio Pompeu
Doutor e Coordenador do Curso de Direito da Universidade Federal do Espirito
Santo. Professor do Mestrado em Direito e em Gestão Pública. Coordenador
Adjunto do Curso de Aperfeiçoamento de Educação em Direitos Humanos.

6
A ÉTICA ENTRE FINS E MEIOS: MAQUIAVEL

Júlio Pompeu

Ética e política parecem não mais combinar, como água e óleo. Tornou-se
coisa de que não se gosta sequer de falar e, de desgosto em desgosto, de de-
silusão em desilusão, entregamos a condução de nossas vidas nas mãos de
pessoas nem sempre dignas de confiança. Ante a desilusão, quando muito, é
aceitável que falemos da política como ela deveria ser. Tentar encará-la como
ela é, é assumir o risco de decepcionar-se pela incapacidade de nosso Estado
converter as promessas políticas em realidade na vida dos súditos que somos.
Não parece haver ética na política tal qual ela é, mas apenas na política tal
qual ela deveria ser. Será?
Muitos não conhecem a obra de Maquiavel, mas já ouviram falar na frase
“os fins justificam os meios”. E já aprenderam a associar esta frase a um tal de
Maquiavel, um italiano meio cínico. Ignora-se o autor, mas não a frase. Ela
tornou-se o lema dos maquiavélicos. Bordão dos ardilosos.
Ser maquiavélico seria não dar muita atenção para a conduta praticada,
mas apenas para os resultados que queira alcançar. Seria ter um descompro-
misso total com qualquer regra de conduta, para com qualquer limitação mo-
ral ou até mesmo legal. Alguém que é capaz de qualquer coisa para alcançar
seus desejos, pouco importando o que ou quem esteja no meio do caminho.
Este tipo de interpretação não só da frase atribuída a Maquiavel, mas de
sua obra como um todo, rendeu ao autor a fama de imoral (contrário à moral)
ou, no mínimo, de amoral (produtor de discurso onde a moralidade se encontra
ausente). Mas nem imoral, nem amoral, Maquiavel nos seus conselhos polí-
ticos faz apelo a uma ética. Não à ética posta até então, ética cristã fundada
em princípios inquestionáveis, dogmas e verdades universais, mas a uma ética
comprometida com o que ele chama de “verdade efetiva das coisas”, uma ética
inspirada na vida como ela é e não em como ela deveria ser.
Esta verdade maquiavélica, a fundamentação primeira de sua ciência,
pressupõe uma ruptura com os fundamentos filosóficos dominantes até então
e que, de maneira bastante contundente, ainda encontramos nas nossas repre-

104
sentações contemporâneas do mundo. Refiro-me ao idealismo e, em especial, 1. Metafísica: do grego metà (além de),
à sua versão cristã. mais physis (mundo físico). Aquilo que está
além do mundo físico. Já que para os gre-
Ser um idealista segundo o senso comum é ser um sonhador, alguns
gos o mundo físico é aquele que podemos
acrescentariam ingênuo, de uma maneira geral, o idealista seria alguém que perceber e com ele nos relacionar através
ama o mundo tal qual ele é, mas como ele deveria, idealmente, ser. Numa con- dos nossos cinco sentidos, então o mundo
metafísico seria também o suprasensível,
cepção filosófica, o idealismo não é tão diferente assim. De Platão a autores
algo para além de nossa visão, tato, olfato,
contemporâneos encontramos uma série de obras políticas e éticas, de filóso- paladar e audição.
fos e, mais recentemente, de escritores que nos falam não do mundo como ele
é, mas como ele deveria ser. Sua empreitada filosófica é a de nos fazer crer
que o mundo ideal que nos anunciam é não só possível ou, em certos casos,
existente em uma instância metafísica1 qualquer, como é muito melhor do que
o mundo em que efetivamente vivemos.
Transpondo tais crenças para a ética, se para tudo no mundo há uma
forma ideal a ser conhecida e usada como referência, para a ética não seria
diferente. Haveria um conjunto de regras, modos de ser, pensar e agir ideais,
que uma vez seguidos grantiriam a qualquer um em qualquer situação ou lu-
gar uma ação correta. Se erramos, é por desconhecermos os ideais. Conecê-los,
seria a fórmula para uma vida de acertos. Será?
Maquiavel desconfia de ideais e, portanto, de uma ética idealista. Ele
observa que uma atitude pode ser correta para algumas pessoas em algumas
circunstâncias e prejudicial para outras em outras circunstâncias. Imagine um
indivíduo que siga a ética cristã, que aconselha a dar a outra face quando de
um tapa recebido. Se a face esbofeteada uma segunda vez for a dele e somente
a dele, sua atitude pode ser considerada correta, mas imagine se este cristão
convicto for o príncipe de um país invadido em suas fronteiras do leste, o que
deverá fazer, permitir a invasão das fronteiras do oeste também?
O idealismo e uma ética de princípios fazem sentido como um conjunto
de regras a serem seguidos em toda e qualquer circunstância somente se os
seus fundamentos, que são ideais metafísicos, mundo inexistentes, não mu-
darem. Se, ao contrário, o mundo não respeita princípios, se na vida dos ho-
mens as coisas não se dão como na física, em que os corpos se movimentam
obedecendo a leis constantes e imutáveis, então obedecer sempre a princípios
que fizeram sentido para alguém em algum momento pode ser ineficaz ou até
mesmo perigoso.

105
A imagem de um mundo onde até mesmo a moral obedece a leis como as
da física é a representação cristã do mundo, onde Deus, ser onipotente, onipre-
sente e onisciente, apresenta-se como princípio da ordem ideal. “O homem, com
seu livre arbítrio, peca, afrontando a ordem, mas Deus tudo vê, tudo pode e há
de lhe castigar, diz o crente. Mas Maquiavel substitui Deus pela Fortuna. Antiga
deusa associada ao caos e à aleatoriedade. È o mesmo que dizer que o mundo
não é um cosmos regido por um princípio ordenador bom, mas que el é um caos
de encontro e desencontros regido por uma deusa caprichosa e inconstante.
Mas o que faz da vida uma eterna luta contra a Fortuna? A deusa é
apenas uma alegoria, uma metáfora para, de forma mais palatável, apresen-
tar suas idéias. O mundo é regido pela incerteza, mas não por culpa de uma
deusa antiga, mas em consequência da natureza humana. Maquiavel acredita
que todos nós possuímos uma natureza e que, portanto, para além de nossas
diferenças culturais e singularidades individuais, há algo que nos assemelha
em nossos modos de agir e de pensar. Esta natureza humana lhe dará uma
nova bse de certeza para opor-se à metafísica idealista. Em outras palavras, se
Platão e outros tantos recorriam à metafísica para a firmarem que suas idéias
eram corretas, Maquiavel fundamentará sua verdade na natureza humana. A
natureza humana é o substituto moderno da metafísica.
Para ele a natureza humana se resume a um disposição de espírito pre-
dominante: o desejo. Somso desejantes e desejo é falta. Ninguém deseja o que
tem, apenas o que não tem. Por aquilo que temos, ao contrário, nutrimos certo
desprezo. Isto significa que, seja lá qual for a vida que temos, estamos de algu-
ma maneira dispostos a trocá-la por outra que não temos. Não somos movidos
pelos benefícios da vida presente, mas pelas promessas da vida futura. O desjo
funciona em nós como um princípio de corrupção de toda e qualquer forma de
vida. Causa da inconstância e da vida regida pela fortuna.
Em sendo a vida compartilhada ou, mais especificamente, a política re-
gida pelos desejos que levam cada uma a corromper a forma atual de vida que
leva, então a resposta à pergunta fundamental da ética: “o que é a coisa certa
a se fazer?”, não pode se basear em princípios. Isso seria ignorar a natureza
humana, os desejos e a “verdade efetiva das coisas”.
Em substituição a princípios, uma ética baseada na disposição de agir de
cada indivíduo para afrontar e vencer as incertezas da vida: a virtu. Mas o que

106
é ser virtuoso? Muitos reponderiam que é ser bondoso, honesto, dizer sempre
a verdade e respeitar os mais fracos. Nada disso traduz a virtú de Maquiavel.
Literalmente, a palavra significa virtude, mas a virtude dos antigos romanos.
Os bons exemplos do passado que Maquiavel exalta são, com freqüência, ro-
manos. Há virtuosos de outros povos, mas não há povo mais virtuoso que o
romano. É sua cultura que Maquiavel enaltece. Mas quem eram eles, na sua
opinião? Todo o mito fundador de Roma e os valores enaltecedores do cidadão
romano giram em torno da guerra. Os romanos eram, sobretudo, um povo
belicoso. Filhos de Marte, o deus da guerra.
Clausewitz, o general prussiano qu e no começo do século XIX escreveu
“Da Guerra”, afirmava que a guerra era o domínio da incerteza. Tal qual a polí-
tica construída por homens desejantes na visão maquiavélica. O espírito guer-
reiro é o da impetuosidade e da clara avaliação das circunstâncias para a ção
eficaz contra esta incerteza. Se sempre soubéssemos como as coisas acontecem
ou aontecerão, seria fácil saber o que fazer para vencer os desafios da vida, mas
como as ações e acontecimentos são incertos, então para conquistarmos o que
desejamos é preciso uma boa capacidade estratégica para tentar se antecipar
aos acontecimentos. Considerando que não há gênio que dê conta de toda a
incerteza da política ou da guerra, essa limitação da visão estratégica requer a
coragem ou impetuosidade como condição da ação, pois no final das contas,
por mais que planejemos, por mais que sejamos prudentes em nossas ações, na-
vegamos sempre num mar de incertezas dominado por uma deusa caprichosa.
Mas virtú ou ralismo e ímpeto dizem respeito a atributos que Maquiavel
enaltece, não nos informa sobre como avaliar a boa e a má ação. Seu critério é
simples: os resultados. Uma ação será boa ou má em razão do que ela ocasio-
nar e não por uma conformidade ou desconformidade a uma regra qualquer.
Como na guerra, o objetivo alcançado é o que conta. Este novo princípio de
avaliação é traduzido pela fatídica frase: “os fins justificam os meios”.
Ela encontra-se ao final do capítulo XVIII do Príncipe, cujo título é “In
che modo e principi abbino a mantenere la fede: Quomodo fides a principibus
sit servanda”. O tema é jurídico e moral: até que ponto o príncipe deve manter
a palavra empenhada? Moral por motivos óbvios, jurídico porque a palavra do
príncipe é lei. Manter a palavra é manter a lei, tratados, acordos internacionais
e assim por diante. É palavra pública, não apenas privada.

107
Ao responder à pergunta, Maquiavel distingue, em termos morais, duas
ordens de palavras e de condutas: a dos homens comuns e a dos príncipes.
No caso dos homens comuns é correto que a palavra empenhada deva ser
mantida. Era inclusive princípio jurídico e regra de solução de conflitos entre
cidadãos ao seu tempo. Mas no caso dos príncipes a situação seria diferente.
A regra que nos impõe a manutenção da palavra empenhada, a observa-
ção da fé, da caridade, da humanidade e da religião é moral e seu propósito é
tornar viável a vida entre iguais. Ela visa a convivência num ambiente onde a
violência entre os homens esteja, de alguma forma, controlada. Pressupõe al-
gum tipo de ordem social já existente e minimamente funcional. Exige, enfim,
uma ordem onde determinadas atitudes possam gerar com certeza determina-
das consequências.
Em sendo a política esse cenário violento de incertezas, então agir de
acordo com a caridade, fé, humanidade etc. é fórmula certa do fracasso. Ex-
põe-nos a inimigos que não vêm diante de si nenhuma destas limitações. Mas
se, ao contrário, a guerra entre nós foi controlada, então um comportamento
sem limites seria desagregador e ameaçaria a paz conquistada.
Em suma, a ética idealista, fundamentada em um princípio metafísico
de ordem e traduzida em leis ou princípios a serem serpre observados é acei-
tável para os homens comuns, que vivem em um cenário político onde uma
ordem tenta se impor. Não a ordem metafísica de Deus ou assemelhados, mas
a ordem mundana das leis do príncipe e do Estado. Mas para o príncipe, esse
governante do caos e da incerteza, um agir por princípios levaria a resultados
catastróficos não só para sua vida, mas para a de seus súditos. Nos atos dos
governantes, sem prévias que se lhes sejam aplicáveis, penas uma ética onde
as ações são avaliadas pelos resultados faria sentido.
Mas que resultado? Por certo não um resultado individualisticamente
avaliado, mas um resultado politicamente interessante, no caso, a conservação
e engrandecimento do Estado. Por sermos desejantes tendemos a corromper
nossos modos de vida, mas de corrupção em corrupção, corremos o sério risco
de perdermos o Estado que nos é tão caro. Se tendemos a revolucionar nossos
modos de existência política, então devemos nos esforçar ou para manter o
status quo ante o risco iminente de uma mudança que piorará nossas vidas ou
para melhorar nossa existência, eis uma necessidade imperiosa. A necessidade

108
da manutenção do Estado e da vida harmoniosa é o que atribui a súditos e prín- 2. MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários à
cipes o dever de desempenhar papéis diferentes. Necessidade é a palavra-chave. primeira década de Tito Lívio. Brasília: Ed.
UnB, 2008. Pág. 6
Os príncipes devem agir com realismo. Razão prática que lhe permitiria
perceber que a política é a arte do possível e não uma ação livre e desimpedida
dos desejos. Tudo é necessidade na vida pública do príncipe. Se os homens
agem ou por ambição, ou por necessidade, então esta última parece ser o
grande imperativo dos príncipes e não a primeira. Se “a necessidade, por sua
vez, muitas vezes nos obriga a empreendimentos que a razão nos faz rejeitar”2,
então o príncipe está sempre obrigado, por necessidade, a agir de forma dife-
rente dos demais homens e ter sua própria moral.
Podemos conceber a política como um jogo ou como uma guerra. Am-
bas as imagens referem-se a formas de enfrentamento entre seres desejantes.
Ambas possuem regras. A diferença é que no jogo as regras são anteriores aos
embates. Elas pressupõem a sua aceitação prévia como condição para a rea-
lização dos embates. Já na guerra, as regras também existem, apesar do dito
popular de que no amor e na guerra valeria tudo. O que não há é regra prévia.
Pacto anterior ao embate sobre como este ocorrerá. Mas há regras. Elas são
conseqüência das formas disponíveis para submeter o inimigo.
O fato de a política ser conseqüência da natureza humana faz com que
ela também possua suas regras, às quais chamamos de bom senso, realismo,
às vezes pragmatismo, mas que Maquiavel chama de prudência. A moral do
príncipe é a prudência, cujo imperativo são os resultados e seu tribunal, a
história. Já para os súditos, a moral é a obediência à lei por princípio, cujo
tribunal é o comum, com juízes conhecedores e aplicadores de leis e carrascos
sadicamente eficientes.
Para o príncipe a política seria como uma guerra, já para o súdito, como
um jogo. Curiosamente, para quem joga, há mais liberdade do que para quem
luta. O príncipe está regido pelas tantas necessidades que a guerra lhe impõe,
seu ritmo, as batalhas, o local. Pouco ou quase nada é resultado de sua esco-
lha livre. É muito mais conseqüência dos passos certos e errados, das jogadas
prudentes ou dos erros estratégicos.
Isto nos coloca diante de duas morais e não na ausência de moral. Ma-
quiavel não é um autor amoral, mas de duas morais. Do súdito e do príncipe.
Do jogo e da guerra. O mesmo Maquiavel a quem se atribui afirmar que os fins

109
3. Acima das leis. justificam os meios é o mesmo que repreende a corrupção das repúblicas e que
aponta o desrespeito às leis por parte dos súditos como o maior mal que uma
república pode experimentar. O mesmo Maquiavel que louva os feitos militares
e políticos cruéis e violentos do príncipe César Bórgia, repreende o republicano
Girólamo Savonarola que, para proteger amigos, desrespeitou uma lei que ele
mesmo havia promulgado.
Para bem compreender a polêmica afirmação de que “os fins justificam
os meios”, é preciso perceber que ela é dita como conselho ao príncipe. Que,
por ser então considerado legibus solutos3, não tinha o hábito de compreender-
-se como alguém a ser julgado por nada, nem mesmo pela história. Ao afirmar
que os resultados da conduta serão levados em conta para julgar o príncipe,
Maquiavel não está afirmando a plena liberdade daquele. Não está dizendo:
“façais o que quiserdes, pois sois o príncipe”. Mas, ao contrário: “sejais res-
ponsável e prudente; vós não podeis fazer o que quereis, pois sois o príncipe”.
A ética de Maquiavel é a dos resultados. Ela visa uma forma de organiza-
ção política na qual os súditos sejam afetados positivamente. Os fins que jus-
tificam os meios são fins políticos que justificam meios também políticos. Os
grandes exemplos de grandes homens são histórias de fundação, fortalecimen-
to e salvação de Estados e povos. Decisões tomadas muitas vezes em momentos
de perigo e risco para a sobrevivência do Estado e de seu povo. A ética de Ma-
quiavel não é mesquinha, pois a grandeza do Estado, gerada pela ambição do
príncipe, é também benefício para o povo por ele governado. Não há nenhuma
decisão política que afete apenas ao príncipe. Há sempre conseqüências boas
ou más para o Estado e, portanto, para todos. Este é o alerta dos fins que jus-
tificarão os meios: teus atos afetam muitos e estes muitos o julgarão conforme
sejam bem ou mal afetados. Esta responsabilidade é fundamental na ética de
Maquiavel. É para esta responsabilidade que o príncipe deve ser alertado. É por
ela que ele não pode observar uma conduta baseada somente em princípios.

Naturalmente, seria bom que o príncipe possuísse todas as boas qua-


lidades mencionadas, mas como isto não é possível, pois as condições
humanas não o permitem, é necessário que tenha a prudência necessá-
ria para evitar o escândalo provocado pelos vícios que poderiam fazê-
-lo perder seus domínios, evitando os outros se for possível; se não o

110
for, poderá praticá-los com menores escrúpulos. Contudo, não deverá 4. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Vários.
preocupar-se com a prática notória daqueles vícios sem os quais é di- Capítulo XVI.

fícil salvar o Estado; isto porque, se se refletir bem, será fácil perceber
que certas qualidades que parecem virtudes levam à ruína, e outras que
parecem vícios trazem como resultado o aumento da segurança e do
bem-estar4.

Se o príncipe não fosse responsável por seus atos, se eles não afetassem
outros, então afirmar que os fins justificam os meios seria um salvo conduto
ao egoísmo desenfreado, à ambição livre. Mas a ambição do príncipe não
deve ser livre, mas responsável, pois afeta a outros. Maquiavel tem um fim
específico que aponta o julgamento do príncipe: a segurança e o bem-estar.
Estes os fins que justificam meios. Estes os fins que substituem princípios
como orientadores de condutas políticas de homens desejantes, mas de quem
se espera responsabilidade.
Por várias vezes Maquiavel elogia o ato de Brutus que, para manter a re-
pública, sacrificou a vida dos próprios filhos. Ele chega a ditar um conselho: “é
preciso imolar os filhos de Brutus”18. Este se viu na difícil situação de flagrar
os próprios filhos conspirando contra a república. Não titubeou e condenou-os
à morte. Este exemplo, segundo Maquiavel, salvou a república. Eis um agir
ético e responsável segundo a ética maquiavélica. Por princípio, teria feito o
oposto: quem não condenaria um pai que mata os filhos? Pensando nas con-
seqüências para a república, matou-os. Os fins justificaram os meios.

[…] dentre todos os mortais que já mereceram elogios, os mais dignos


são os chefes ou fundadores de religiões. Depois vêm os fundadores
de repúblicas ou de reinos. Em seguida os que, à frente de exércitos,
estenderam os domínios de sua pátria. A estes devemos acrescentar os
letrados; e como destes há várias espécies, cada uma alcança a glória
reservada à categoria a que pertence. Enfim, no número infinito dos
homens, nenhum deles deixa de receber a fração de elogio a que faz jus
pela sua arte ou profissão. Por outro lado, merecem o ódio e a infâmia e
os destruidores de religiões, os que permitiram que os reinos ou repúbli-
cas confiados a seus cuidados se perdessem; os inimigos da virtude, das

111
5. MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários à letras e das artes honradas e úteis à espécie humana; e assim os ímpios,
primeira década de Tito Lívio. Brasília: os furiosos, os ignorantes, os ociosos, os covardes e os inúteis5.
Ed. UnB, 2008. Pág. 10.

Pensar a ética é pensar quais condutas merecem prêmios e quais mere-


cem punição. Maquiavel aponta as condutas construtivas na política como as
que merecem prêmios e as destrutivas as que merecem punições. Isto é ética
própria à política, própria às ações cujas conseqüências afetam muitos. Não
vejo nisto maldade ou perversidade. Não vejo na frase maldita o corolário da
ambição desenfreada. Ela não foi maldita, foi mal lida por pessoas que, acos-
tumadas a uma ética de princípios e à idéia de que na razão apática reside o
bem - crentes de que as paixões são a voz do diabo em nós - acabaram por
odiar e temer a própria humanidade. Tornaram-se irrealistas, amantes de um
homem sem desejos e ambições. A ética de Maquiavel é humanista e libertária.
Mas também responsável, como convém à política.

Para sber mais:

• BIGNOTTO, Newton. Maquiavel republicano. São Paulo: Loyola, 1991.


• MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Brasília: Ed. UnB.
• MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários à primeira década de Tito Lívio.
Brasília: Ed. UnB, 2008
• POMPEU, Júlio. Somos maquiavélicos: o que Maquiavel nos ensinou
sobre a natureza humana. Rio de janeiro: Objetiva, 2011.
• SKINNER, Quentin. Maquiavel: pensamento político. São Paulo: Bra-
siliense, 1988.
• STRAUSS, Leo. Pensées sur Machiavel. Paris: Payot, 1992.

112
Cristiana Mara Bonaldi
Doutora e Professora na UFF- Universidade Federal Fluminense.

7
A ESCOLA, O MÉDICO E O JUÍZ:
EDUCAÇÃO, BIOPOLÍTICA E PRODUÇÃO DE COLETIVOS.

Cristiana Mara Bonaldi

Sentimentos de impotência invadem o espaço escolar. Não é difícil encontrar


professores desanimados, relatando sentimentos de solidão e despreparo para
lidar com as situações que ora se apresentam nas escolas. Os professores pa-
recem dividir estas impressões com os demais participantes da comunidade
escolar. Estudantes, familiares, gestores, outros trabalhadores… E o sentimento
insiste… Despreparo?! Como assim?! Logo essa gente que faz a educação acon-
tecer dia após dia?! Tanta gente junta… E gente se sentindo só?!
O individualismo, um dos pressupostos básicos do liberalismo, atribui
aos indivíduos posições sociais que se justificariam pelos talentos e aptidões
próprias de cada um. Dessa forma, o sucesso ou o fracasso se definiriam pelo
mérito de cada indivíduo, levando em consideração seus esforços, talentos e
aptidões individuais. Um dos efeitos mais contundentes dessa forma de pen-
sar/viver - que tem pautado, de forma hegemônica, a vida no mundo contem-
porâneo – também no campo da educação, é a culpabilização dos indivíduos,
separadamente, o que impede a ampliação das análises acerca dos múltiplos
processos que envolvem a vida escolar.
A “incapacidade”, o “despreparo”, a “fragilidade do professor”. O “mau
comportamento” do aluno. A “omissão” da familia. Efeitos de um pensamento
fragmentado, de que resulta a produção de segregação, competição, culpabili-
zação, fracasso, solidão. E assim, a gente vai se sentindo só, bem no meio da
multidão… E assim, a gente vai se convencendo de que não tem jeito não… De
que a gente não sabe mais fazer aquilo que a gente faz todo dia… Como assim?!
Ao individualizar os impasses próprios do cotidiano escolar, somos con-
vocados a encerrar no indivíduo tais impasses e vivê-los como problema, como
obstáculo, como algo indesejável. O indivíduo torna-se, então, o “culpado” pela
suposta dificuldade. O que se produz é a expectativa de que ao tratar, afastar,
punir, treinar o indivíduo, o “problema” será solucionado e este indivíduo não
mais representará um risco para o suposto “bom andamento” da vida escolar.

114
Deixamos, assim, de considerar algumas questões fundamentais: Seriam 1 HECKERT, A. L. C. ROCHA, M. L. A maqui-
tais impasses efetivamente indesejáveis?! Seria mesmo possível afastar do naria escolar e os processos de regulamen-
tação da vida. Revista `sicologia e Socieda-
campo escolar as variações, as crises, o que difere?! Seria possível, e desejável,
de; 24, p.88, 2012.
que os processos em curso no cotidiano escolar se desenrolassem de forma
linear, estável, invariável, previsível e sem tensionamentos?!
Heckert e Rocha (2012) chamam atenção para a importância de situar a
questão da “indisciplina”, por exemplo, no contexto da vida e dos processos
de formação em curso:

A indisciplina e a violência na escola são fomentadas nos encontros


efetuados no espaço escolar e que, sem análises concernentes ao plano
de existência em que se realiza a vida e a formação, acabam encarnando
grandes problemas! Enquanto índice de movimento, a indisciplina traz
as tensões que podem gerar outros modos de pensar e fazer o cotidiano
escolar.1

Nesta direção, seria impossível produzir qualquer análise dos processos


em funcionamento nas escolas sem olhar bem de perto os impasses vividos
no cotidiano escolar, sem levar em consideração as políticas de educação, as
condições de vida e trabalho da população e dos profissionais que atuam nas
escolas, a competitividade, a aceleração, os modelos de sucesso e fracasso,
as formas de avaliação, enfim, os modos de subjetivação que se atualizam
na contemporaneidade…
O aumento da demanda por laudos psicológicos e médicos, especialmen-
te psiquiátricos e neurológicos, supostamente capazes de dar suporte às deci-
sões, planejamentos e encaminhamentos escolares é uma das características
principais das configurações que a escola atualiza hoje. A relação, cada vez
mais estreita, entre escola e órgãos/serviços ligados de maneira direta ou indi-
reta aos aparelhos jurídicos também chamam atenção e apontam para algumas
questões importantes.
Aparelhos policiais e jurídicos são convocados a participar do cotidiano
escolar. Além de comum, considera-se aceitável e até mesmo desejável, por
exemplo, que exista, em alguns municípios, um carro de polícia ou guarda
municipal à disposição das escolas para a resolução de conflitos oriundos da

115
2. PELBART, Peter Pál.  Vida capital: en- vida no cotidiano escolar. Denúncias aos Conselhos, como o tutelar, por exem-
saios de biopolítica. Editora Iluminuras plo, de situações de indisciplina, enfrentamento entre as crianças e suposta
Ltda, 2003.
“negligência” das famílias, também apresentam-se mais comuns a cada dia.
Conselho Tutelar, Guarda Municipal, Polícia Militar, são instituições con-
vocadas cotidianamente a participar na solução dos impasses escolares. Si-
tuações cotidianas que terminam por serem decididas na justiça também não
são raras… O que está acontecendo com a nossa capacidade de negociação, de
escuta, de produção de debate, de argumentação, de discussão dos impasses?!
Diante disso, faz-se fundamental a produção de outros olhares, olhares
capazes de questionar, de problematizar tais práticas no sentido da desnatura-
lização de um cotidiano escolar cada vez mais pasteurizado, individualizante,
medicalizado e judicializado e do fortalecimento dos coletivos, das redes teci-
das nos encontros entre os que fazem a educação acontecer.
Como afirma Pélbart2 (2009):

Muito cedo o próprio Foucault intuiu que aquilo mesmo que o poder
investia – a vida – era precisamente o que doravante ancoraria a resis-
tência a ele, numa reviravolta inevitável.

A escola, para além de suas normas, leis, prescrições, constitui-se


como uma rede de encontros, de relações, de conversa… Uma rede viva!
Como evidenciar a escola em toda a sua complexidade e diversidade?! Como
afirmar os processos de singularização que se atualizam cotidianamente nas
práticas escolares?!
Questões que emergem do cotidiano escolar, como a chamada “indisci-
plina”, a evasão e até os chamados “problemas de aprendizagem” vêm sendo
cada vez mais tratados como “desvios” próprios dos sujeitos, problemas indivi-
duais. Esta forma de tratar tais impasses tem como efeito uma grave “despoliti-
zação” do cotidiano e consequente culpabilização dos indivíduos, que passam
a ser encarados como os únicos responsáveis por tudo o que se convencionou
entender como indesejável.
É exatamente neste momento que são convocados os especialistas. Mas,
dificilmente, estes profissionais são convocados para o debate, para participar
da roda de conversa ou para tornar-se mais um na construção coletiva de

116
encaminhamentos. Estes profissionais especialistas são, em geral, convocados 3. CAPONI, S. Biopolítica e Medicalização
para solucionar o suposto problema de enquadramento dos indivíduos que de dos normais. Physis Revista de Saúde Cole-
tiva, Rio de Janeiro, 19 [ 2 ]: 529-549, 2009.
alguma forma perturbam o “bom e linear” andamento da vida escolar. É exata-
mente neste momento que os saberes PSI têm sido convocados a dar respostas. 4. FOUCAULT, Michel. Os anormais. São
Tratamentos, treinamentos, terapias… Saberes considerados superiores, saberes Paulo: Martins Fontes, 2001.

que portam a força da hierarquia e que, muitas vezes, terminam por produzir
5. FOUCAULT, Michel. Os anormais. São
desqualificação dos saberes produzidos no cotidiano de trabalho nas escolas. Paulo: Martins Fontes, 2001.
Os saberes do especialista, nesta configuração, atuam de forma a se sobre-
por, então, aos saberes das pessoas que vivem o cotidiano da escola. Professo- 6. CAPONI, S. Biopolítica e Medicalização
dos normais. Physis Revista de Saúde Co-
res, estudantes, merendeiras, porteiros, faxineiras, coordenadores, supervisores, letiva, Rio de Janeiro, 19 [ 2 ]: 2009, p. 532.
diretores… Pessoas que no seu dia a dia inventam formas de fazer escola… Ex-
periências, saberes, estórias, afetos que perdem a importância frente às novas
ofertas de terapias e medicamentos que prometem “o comportamento desejado”
e processos de aprendizagem supostamente lineares. A conversa, o diálogo, os
espaços coletivos são, assim, colocados de lado, abrindo espaço para outras
formas, reducionistas, ilusórias e imediatistas, de superação das dificuldades.
Alguns autores como Caponi3(2009), chamam atenção para a crescente
medicalização dos chamados anormais4. Torna-se, segundo ela, fundamental
analisar os efeitos do que chamou de uma psiquiatria ampliada, surgida por
volta do século XIX. Uma certa ciência do comportamento que teve como refe-
rência a distinção entre normalidade e desvio. Trata-se de novas estretágias de
gestão biopolítica dos corpos e das populações através da chamada “medicina
do não patológico”5.
Para Caponi6,

A biopolítica da população iniciada no século XVIII foi a estratégia que


possibilitou que, pela primeira vez na história, o biológico ingressasse
no registro da política (FOUCAULT, 1994). Foi a partir desse momento
que o corpo e a vida passaram a se transformar em alvo privilegiado de
saber e de intervenções corretivas.

A medicalização de comportamentos indesejados como a indiscipli-


na, os tão falados “déficit de atenção e hiperatividade”, as “dificuldades
de aprendizagem”, são os alvos preferidos dos laudos e medicamentos que

117
7. PELBART, Peter Pál. Vida nua, vida besta, prometem moldar os sujetos e colocá-los em padrões considerados úteis para
uma vida. Trópico, 2007. o modelo contemporâneo.
Pélbart7(2007), trata da medicalização da existência como um entre os
8. PELBART, Peter Pál. Vida nua, vida besta,
uma vida. Trópico, 2007. P. 4 possíveis mecanismos de atualização do biopoder. A medicalização da vida
como algo capaz de reduzir a vida à sobrevida: “A sobrevida é a vida humana
9. PELBART, Peter Pál. Vida capital: ensaios
reduzida a seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao
de biopolítica. Editora Iluminuras Ltda,
2003.p. 24. mero fato da vida, à vida nua”8.
Porém, ainda segundo Pélbart9(2009), para além de processos bioló-
10. PELBART, Peter Pál.  Vida capital: en- gicos, vida
saios de biopolítica. Editora Iluminuras
Ltda, 2003. p.25.
inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e subjetiva no contexto
11. PELBART, Peter Pál.  Vida capital: en- de produção material e imaterial contemporânea, o in telecto geral. Vida
saios de biopolítica. Editora Iluminuras
significa inteligência, afeto, cooperação, desejo10.
Ltda, 2003. p. 25.

Dessa forma, afirmamos a vida como algo que escapa às normas e que se
produz nos encontros. Assim, afirmamos o espaço escolar como espaço de
produção de vida, de saberes, de afetos, de conversa, de solidariedade.
Afirmamos que a vida…

Ao descolar-se de sua acepção predominantemente biológica, ganha


uma amplitude inesperada e passa a ser redefinida como poder de afetar
e ser afetado, na mais pura herança espinosana. Daí a inversão, em parte
inspirada em Deleuze, do sentido do termo forjado por Foucault: biopo-
lítica não mais como poder sobre a vida, mas como a potência da vida11.

Fundamental acompanhar os fluxos que se produzem na contramão do


biopoder. Abrir os sentidos para tudo o que escapa, o que se rebela, o que
produz rachaduras numa certa forma endurecida e normatizada de fazer edu-
cação. Apostamos no fortalecimento do debate entre os membros da comuni-
dade escolar, na visibilidade das práticas que rompem com o instituído como
gatilho de transformação.
Acreditamos que torna-se fundamental, neste momento, dar visibilidade
para a multiplicidade, para a diversidade das práticas em educação. Funda-
mental dar visibilidade e fortalecer a importância decisiva das experiências

118
cotidianas, dos saberes produzidos cotidianamente por todos aqueles que de 12 COIMBRA, C. M. B.; LOBO, L. F.; NASCI-
alguma forma habitam o espaço escolar. Olhar de outro jeito tudo aquilo que, MENTO, M. L. “Por uma invenção ética para
os Direitos Humanos.”  Psicologia clíni-
num primeiro momento, se apresenta como ameaça à uma suposta ordem es-
ca 20.2 (2008): 89-102.
tabelecida… Duvidar das intenções desta “ordem”…
É evidenciando o que difere, dando visibilidade às invenções mais
cotidianas deste coletivo formado por estudantes, trabalhadores, familiares,
comunidade, gestores, que conseguiremos produzir brechas, rachaduras, nos
modos biopolíticos de operar. Processos de subjetivação capazes de diferir dos
modos de viver contemporâneos - tão individualizantes, tão normatizadores -
tendo como norte a produção e o fortalecimento dos coletivos.
Fundamental que o diálogo seja uma prática constante, que o debate e o
tensionamento sejam desejáveis no sentido de tentar evidenciar cada vez mais
a diversidade de posições e exercitar o compartilhamento de decisões. Aposta-
mos na atualização de direitos humanos produzidos nos movimentos da vida.
Apostamos na atualização de direitos humanos produzidos nas composições
onde a hierarquização seja enfraquecida e emerja o diálogo e o coletivo como
rede solidária e de produção de processos de formação mais cooperativos,
solidários e potentes.
Dessa forma, afirmamos com Coimbra, Lobo e Nascimento (2008)12 que:

Em vez de pensar os direitos como essência universal do homem, pode-


ríamos, por meio de outras construções, garantir e afirmá-los como di-
ferentes modos de sensibilidade, diferentes modos de existir, viver, pen-
sar, perceber, sentir; enfim, diferentes jeitos de estar e existir no mundo.

119
Reênciasfer ácasbilogr

CAPONI, S. Biopolítica e Medicalização dos normais. Physis Revista de Saúde Cole-


tiva, Rio de Janeiro, 19 [ 2 ]: 529-549, 2009.

COIMBRA, C. M. B.; LOBO, L. F.; NASCIMENTO, M. L. “Por uma invenção ética para os
Direitos Humanos.” Psicologia clínica 20.2 (2008): 89-102.

FOUCAULT, Michel. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

HECKERT, A. L. C. ROCHA, M. L. A maquinaria escolar e os processos de regulamentação


da vida. Revista Psicologia e Sociedade; 24, p.88, 2012.

PELBART, Peter Pál. Vida capital: ensaios de biopolítica. Editora Iluminuras Ltda, 2003.

PELBART, Peter Pál. Vida nua, vida besta, uma vida. Trópico, 2007.

120
Jair Teixeira dos Reis
Auditor Fiscal do Trabalho, Professor Universitário. Autor do livro Curso de
Direitos Humanos publicado pela Editora Ferreira, 2012.

8
O DIREITO FUNDAMENTAL AO NÃO TRABALHO E A
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Jair Teixeira dos Reis.

1. Introdução.

Os Direitos Humanos como direitos de primeira, segunda e terceira gerações


ou dimensões, ampliando sua extensão, originalmente enraizada no campo
dos direitos e garantias individuais para se estender na discussão dos direitos
sociais e difusos. Os Direitos Humanos, caracterizados em sua revisão teórica
como “indissociáveis da pessoa humana”, universais, inalienáveis, imprescri-
tíveis, irrenunciáveis e interrelacionados, assumem uma dimensão bastante
ampla, compartilhado como bem comum da humanidade e incluindo aspectos
valiosos da dignidade humana, tal como o trabalho. Aqui, podemos nos referir
também, ao direito fundamental ao não trabalho, em determinado momento
da vida do cidadão, cujo objetivo é preservar a formação física, educacional,
lazer e convivência familiar.
Ao ser publicada, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos
amplia os documentos anteriores, especialmente a Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, formulada na Revolução Francesa de 1789, baseados
na defesa de direitos individuais de cidadãos que principiavam, na época, a
construção da cidadania em contraponto ao poder tirânico de Estados despó-
ticos. São princípios norteadores da elaboração e consolidação do Estado De-
mocrático de Direito, sob o qual se assenta a discussão dos Direitos Humanos.
Mas na declaração de 1948, que busca reconstruir direitos humanos rompidos
pelas Guerras Mundiais, recebe dimensão mais ampla, incorporando novas ge-
rações de direitos que acompanham a evolução da cidadania e da democracia.
Consolida-se hoje como integrante da Carta Internacional dos Direitos do Ho-
mem, junto com o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais
e Culturais e com o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos de
1966 e seus dois protocolos facultativos.

122
1.1 Histórico do Trabalho Infantil.

1.1.1. Contexto Internacional.

Lecionam Araújo Júnior e Maranhão (2010, p. 46) que o trabalho do


menor é fenômeno antigo. Basta dizer que já no Código de Hamurabi (1.700
a.C.) podem ser encontradas normas que regem o labor infantil. Na Grécia e
em Roma os filhos dos escravos também eram propriedade dos senhores, sendo
obrigados a trabalhar para o dono ou qualquer pessoa por ele indicada. Por sua
vez, na Idade Média, com as Corporações de Ofício, o menor trabalhava sem
nenhum salário ou proteção. Negritamos.
Ainda de acordo com Araújo Júnior e Maranhão (2010, p. 46), foi com o
advento da Revolução Industrial (século XVIII), propiciadora da implantação
de um inaceitável quadro de desumana exploração da classe trabalhadora, que
o tema da tutela do trabalho infantil começou a ganhar ares inquietantes.
A legislação tutelar do menor tem início justamente na Inglaterra, com
o Ato da Moral e da Saúde, de 1802, que reduziu a jornada de trabalho em 12
horas e proibiu o trabalho noturno do menor nas oficinas dos povoados, pro-
teção essa mais tarde estendida às cidades em 1819, com a Lei Cotton Mills Act
que limitou a idade mínima para o trabalho em 9 anos. (BARROS, 2013, p. 434).
Em 1959, na Assembleia Geral da ONU, foi lançado um instrumento
jurídico internacional de proteção do trabalho da criança, trata-se da Decla-
ração dos Direitos da Criança, onde ficou prescrito que a criança gozará de
proteção especial e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades,
por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições
de liberdade e dignidade.
A Convenção Sobre os Direitos da Criança foi aprovada, por unanimi-
dade, em 1989 em Assembleia Geral das Nações Unidas. Nesse instrumento
internacional ficou registrado que a criança tem o direito de ser protegida
contra qualquer trabalho que ponha em perigo a sua saúde, a sua educação
ou o seu desenvolvimento. O Estado deve fixar idades mínimas de admissão
no emprego e regulamentar as condições de trabalho (art. 32 da Convenção).

123
1. A exemplo: o Movimento Nacional dos 1.1.2. Contexto Nacional
Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), que
surgiu em 1985 em São Bernardo do Cam-
Desde seu “descobrimento”, o Brasil avançou radicalmente em sua economia,
po, um importante centro sindical do país,
e a Pastoral da Criança, criada em 1983 passando por muitas fases político-administrativos e vários foram os momentos
pela Conferência Nacional dos Bispos do históricos vividos pelas crianças e adolescentes brasileiros, para hoje serem re-
Brasil - CNBB, envolvendo forte militân-
conhecidos como sujeitos de direitos em condição peculiar de desenvolvimento.
cia proveniente dos movimentos sociais
da igreja católica. (Disponível em: <http:// Acompanhando as ideias internacionais, o ordenamento jurídico brasilei-
www.promenino.org.br/Ferramentas/Con- ro teve uma significativa mudança na área trabalhista com a criação da Con-
teudo/tabid/77/ConteudoId/70d9fa8f solidação das Leis do Trabalho (CLT), instituída através do Decreto-Lei nº 5.452
-1d6c-4d8d-bb69-37d17278024b/Default.
aspx>. Acesso 08.jun./2013,
de 1o de maio de 1943, que nos seus artigos 402 a 410 apresentam disposições
sobre as condições de trabalho do menor de 18 anos de idade.
Várias Constituições foram promulgadas e muitas leis infraconstitucio-
nais foram criadas e principalmente com a Constituição da República Fede-
rativa do Brasil – CRFB/88, promulgada em 05 de outubro de 1988, é que
as Crianças e os Adolescentes foram reconhecidos como sujeitos de direitos,
conforme determina no art. 227:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao


adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cul-
tura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Além disso, o inciso IV do art. 1o da CRFB/88 estabelece como funda-


mento os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, para garantir o bem
estar da família e sociedade, contudo resguarda em seu art. 7º, inciso XXXIII a
proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de
qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz,
a partir de quatorze anos.
Por outro lado, com base na garantia Constitucional prevista, foram
promovidos movimentos sociais1 acompanhados de debates no parlamento e,
assim, para resguardar e proteger os direitos da Criança e do Adolescente foi

124
instituído pela Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, o Estatuto da Criança e do 2. Art. 226 da CF/88. A família, base da so-
Adolescente - ECriad, o qual em seu art. 4º disciplina que: ciedade, tem especial proteção do Estado.

3. A criança gozará de uma proteção espe-


É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder cial e beneficiará de oportunidades e ser-
público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos re- viços dispensados pela lei e outros meios,
para que 2possa desenvolver-se física, in-
ferentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer,
telectual, moral, espiritual e socialmente
à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à de forma saudável e normal, assim como
convivência familiar e comunitária. em condições de liberdade e dignidade. Ao
promulgar leis com este fim, a consideração
fundamental a que se atenderá será o inte-
A família é a célula da sociedade2, portanto, deve cuidar dos seus infan- resse superior da criança.
to-juvenis com todas as peculiaridades que lhes são afetas, garantindo-lhes
uma vida digna com amor, saúde, alimentação, moradia, educação, segurança,
lazer etc., bem como outros direitos estabelecidos no art. 227 da Carta Política
de 1988. Como é sabido, crianças bem cuidadas e orientadas chegam seguras à
sua adolescência, refletindo de forma direta em sua vida de adulto.
Disso, extrai-se que o Estado Democrático de Direito Brasileiro criou ins-
titutos (tais como os Conselhos Tutelares, Conselhos Municipais dos Direitos
da Criança e Adolescente) para a fiscalização/aplicação da lei. Outras institui-
ções como o Ministério do Trabalho e Emprego - MTE também estabelecem
normas executivas, como a Instrução Normativa nº. 102 que resguarda os
direitos trabalhistas e a dignidade dos infanto-juvenis visando à preservação
desses seres em peculiar condição de desenvolvimento.
Para Barroso Filho (2010), as particularidades descritas no Estatuto da
Criança e Adolescente levam em conta a situação peculiar daqueles que estão
ainda em desenvolvimento físico, mental, moral, social, espiritual e psicológi-
co, sempre em condições de dignidade da pessoa humana. É o que estabelece
o Princípio 2o da Declaração dos Direitos da Criança de 19593.
Segundo Reis,

(…) a Convenção 138 da Organização Internacional do Trabalho – OIT


estabelece, dentre outros aspectos, uma idade mínima para a entrada no
mercado de trabalho e determina algumas restrições para o trabalho de
crianças com menos de 14 anos.

125
A legislação brasileira relativa à regulamentação do trabalho infantil
remonta ao ano de 1891, quando o Decreto n. 1.313 definia que os menores
do sexo feminino, com idade entre 12 e 15 anos e os do sexo masculino, na
faixa entre 12 e 14 anos, teriam uma jornada diária máxima de 7 horas e fi-
xava uma jornada de 9 horas para os meninos de 14 a 15 anos de idade. Até
o advento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) – Decreto-Lei n. 5.453,
em 1943, vários dispositivos regularam a idade mínima para o trabalho, des-
tacando-se o Primeiro Código de Menores da America Latina, de 1927, que
vedava o trabalho infantil aos 12 anos de idade e proibia o trabalho noturno
aos menores de 18 anos. A CLT tratou da matéria de forma abrangente, defi-
nindo inicialmente a idade mínima de 12 anos, alterando posteriormente para
14 anos, e estabelecendo as condições permitidas para a realização. (REIS,
2011, p. 15-16).
O Estatuto da Criança e do Adolescente pauta-se pelos princípios da
descentralização político-administrativa e pela participação de organizações
da sociedade, além de ampliar as atribuições do Município e da comunidade
e restringir as responsabilidades da União e dos Estados, pois aqueles estão
mais próximos às crianças, adolescentes e jovens, por isso têm mais condi-
ções para protegê-las.
O Estatuto revela-se como um conjunto de princípios e normas prescri-
tos pelo Estado brasileiro para a administração dos direitos da infância e da
juventude, considerados como prioridade nas ações estatais, haja vista serem
nossas sementes de futuro (BARROSO FILHO, 2013).
Como se percebe neste breve histórico, tamanha importância foi dada
ao acompanhamento do desenvolvimento das crianças e dos adolescentes no
seio da sociedade. Todavia, os procedimentos de autorização do trabalho do
adolescente apresentam-se ainda com incoerência normativa considerando o
princípio da proteção integral à criança e adolescente.

2. Dimensões dos Direitos Humanos.

Para uma melhor compreensão deste capítulo queremos registrar que, de acor-
do com Henrique Savonitti MIRANDA (2007, pág. 188-189) surgirão os termos

126
“Gerações” ou “Dimensões” dos Direitos Humanos. Todavia, entendemos que
os Direitos Humanos não surgiram simultaneamente, mas em períodos distin-
tos conforme aspirações de cada ocasião, tendo esta consagração se dado de
forma progressiva e seqüencial nas cartas constitucionais bem como em trata-
dos. Isto não quer dizer que tais direitos surgiram em seqüência generacional.
Pois com o surgimento de novos direitos não ocasionou a extinção ou revoga-
ção dos anteriores, assim preferimos o termo “Dimensão” por não ter ocorrido
uma sucessão desses direitos, afinal, atualmente, todos eles coexistem.
No mesmo sentido, para André Ramos Tavares (apud MIRANDA, 2007,
pág. 188-189), até os dias atuais, podemos relacionar a existência de qua-
tro dimensões de direitos fundamentais. Note-se que a grande maioria da
dogmática constitucionalista prefere utilizar-se da expressão “gerações” para
designar os vários grupos de direitos trazidos à lume ao longo dos tempos. To-
davia, cremos que a expressão geração traz em seu bojo a ideia de renovação e
sucessão, o que não ocorre com os direitos fundamentais, pois o surgimento de
novos direitos não exclui os anteriormente prestigiados, vindo, ao contrário,
somarem-se a eles.
Conforme Alexandre de Moraes (2011, pág. 25), modernamente, a doutrina
apresenta-nos a classificação de direitos fundamentais de primeira, segunda e
terceira gerações, baseando-se na ordem histórica cronológica em que passaram a
ser constitucionalmente reconhecidos, e destaca a classificação de Celso Bandeira
de Mello (1995, p. 39-206);

Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) –


que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – real-
çam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos
econômicos, sociais e culturais) – que se identificam com as liberdades
positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade, os
direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade
coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consa-
gram o princípio da solidariedade e constituem um momento impor-
tante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos
direitos humanos, caracterizados enquanto valores fundamentais indis-
poníveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade.

127
Reitera Moraes (2011, pág. 25) que os direitos fundamentais de primeira
geração são os direitos e garantias individuais e políticos clássicos (liberdades
públicas), surgidos institucionalmente a partir da Magna Carta. Já os direitos
fundamentais de segunda geração, que são os direitos sociais, econômicos e
culturais, surgidos no início do século XX, que são os relacionados com o
trabalho, o seguro social, a subsistência, o amparo à doença, à velhice etc.
Por fim, como direitos de terceira geração os chamados direitos de solidarieda-
de ou fraternidade, que englobam o direito a um meio ambiente equilibrado
(dentre eles o meio ambiente do trabalho), uma saudável qualidade de vida,
ao progresso, à paz, à autodeterminação dos povos e a outros direitos difusos,
que são, no dizer de José Marcelo Vigliar (1997, p.42), os interesses de grupos
menos determinados de pessoas, sendo que entre elas não há vínculo jurídico
ou fático muito preciso.

2.1. O Trabalho e as Dimensões dos Direitos Humanos.

Para Reis (2011, pág. 17) o trabalho é tão antigo quanto o homem. Em
todo o período da pré-história, o homem é conduzido, direta e amargamente,
pela necessidade de satisfazer a fome e assegurar sua defesa pessoal. Ele caça,
pesca e luta contra o meio físico, contra os animais e contra os seus semelhan-
tes, tendo como instrumento as suas próprias mãos.
Segundo Reis (2011, pág. 30) o vocábulo trabalho

pode ser definido como o esforço físico ou intelectual, gratuito ou one-


roso, em proveito próprio ou de terceiros com objetivo de produzir ou
desenvolver algum bem ou serviço.
Esforço físico ou intelectual – quer dizer o desprendimento de energia
física ou mental no desenvolvimento de algum bem ou a prestação de
algum serviço.
Gratuito ou oneroso – quer referir-se à existência ou não de uma con-
traprestação pecuniária ou em utilidades.
Em proveito próprio ou de terceiros – poderá ser efetivado para a pró-
pria pessoa ou para outros (pessoas naturais ou jurídicas).

128
Com objetivo de produzir ou desenvolver algum bem ou serviço –
O esforço utilizado terá como finalidade a produção ou desenvolvimen-
to de algum bem ou prestação de algum serviço.

No entender de Maria Áurea Baroni CECATO (2013) a Declaração dos Di-


reitos do Homem e do Cidadão (Declaração Francesa) de 1789, ícone do surgi-
mento da primeira geração ou dimensão de direitos (os civis e políticos) é, ao
mesmo tempo, a demarcação da conquista da liberdade do trabalhador. Este
passa a ser livre das amarras das corporações de ofício e das imposições
da servidão, pela adoção da premissa de que a faculdade de trabalhar é um
dos primeiros direitos do homem. Com a aprovação da referida Declaração,
de repercussão mundial, o trabalhador deixa de ser objeto para ser sujeito de
direitos (e obrigações). O contrato é a figura jurídica que garante a manifes-
tação de sua própria vontade e representa, ao mesmo tempo, a liberdade e o
respeito que lhe é devido a partir de então, enquanto cidadão. Ele passa a ter,
ao menos em tese, a opção de trabalhar ou não, além da escolha do seu toma-
dor de serviços.
Revela CECATO (2013) que os pilares do direito coletivo (e particular-
mente da liberdade de reunião e associação) são construídos a partir das lutas
dos movimentos sociais e da persistência dos trabalhadores, então motivados
pelo enfrentamento das deploráveis condições de trabalho nas fábricas da Re-
volução Industrial. Assim, os direitos econômicos, sociais e culturais (segunda
dimensão de direitos) resultam do cotejo entre as ideologias liberal e socia-
lista e refletem as conquistas do trabalhador, então coletivamente organizado.
Aí se encontra a efetiva adoção de direitos laborais, assentada, entretanto, nos
direitos civis e políticos, que garantem a autonomia do trabalhador, primeiro
individual e, em seguida, coletivamente, permitindo a atuação nos movimen-
tos sociais e, mais especificamente, sindicais. Por outro lado, fica claro que, a
partir de então, os grandes contingentes humanos não serão mais pacíficos.
Já, os direitos de terceira dimensão no entender de CECATO (2013) –
coletivos e de solidariedade – também contemplam o trabalhador, tanto por-
que consideram a indispensabilidade de meio ambiente saudável de trabalho,
como porque ampliam os direitos coletivos, mas, sobretudo, porque definem

129
que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento. Com efeito, do
texto da Declaração de 1986, da ONU, infere-se que a inclusão sócio laboral é
componente essencial do desenvolvimento.

3. Marco legal da proteção ao não trabalho infantil.

A legislação brasileira, ao tratar do trabalho infantil, guarda consonância com


os preceitos estabelecidos na Carta Republicana de 1988, cujas normas incor-
poraram os postulados de proteção prescritos na Convenção dos Direitos da
Criança, adotada em 1989 pela Organização das Nações Unidas – ONU, e que
fixa, em seu artigo 32, as seguintes obrigações:

Artigo 32
Os Estados Partes reconhecem o direito da criança de estar protegida
contra a exploração econômica e contra o desempenho de qualquer
trabalho que possa ser perigoso ou interferir em sua educação, ou que
seja nocivo para sua saúde ou para seu desenvolvimento físico, mental,
espiritual, moral ou social.
Os Estados Partes adotarão medidas legislativas, administrativas, sociais
e educacionais com vistas a assegurar a aplicação do presente Artigo.
Com tal propósito, e levando em consideração as disposições pertinentes
de outros instrumentos
internacionais, os Estados Partes deverão, em particular:
- Estabelecer uma idade ou idades mínimas para a admissão em empregos;
- Estabelecer regulamentação apropriada relativa a horários e condições
de emprego;
- Estabelecer penalidades ou outras sanções apropriadas a fim de asse-
gurar o cumprimento efetivo do presente Artigo.

Assim estabeleceu a Lex Maior, no caput do art. 227:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à


criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à

130
vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização,
à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar
e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Grifamos.

Já, o art. 7º, inc. XXXIII, com a alteração dada pela Emenda Constitucio-
nal nº 20/1998, a Magna Carta estabelece as seguintes vedações:

• qualquer trabalho, a pessoas com idade inferior a 16 (dezesseis) anos,


salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14 (quatorze) anos; e
• trabalho noturno, perigoso ou insalubre a pessoas com idade inferior
a 18 (dezoito) anos.

Leciona MEDEIROS NETO (2013) tratar-se de norma essencial de natu-


reza proibitiva, com visível escopo protetivo e tutelar, estabelecendo o direito
fundamental ao não trabalho em certa época da vida do ser humano, e ao
trabalho protegido, no período seguinte do seu desenvolvimento, no objetivo
de preservar a formação, educação, lazer e convivência familiar da criança e
do adolescente, de modo a impedir a ocorrência de prejuízos e abusos.
Ainda para o autor mencionado, há, assim, constitucionalmente, duas
situações de proteção à criança e ao adolescente, em face do trabalho: em pri-
meiro, a regra geral do direito ao não-trabalho da pessoa com idade inferior a
16 anos; em segundo, o direito ao trabalho protegido, a partir dos 16 até os
18 anos, e, excepcionalmente, a contar dos 14 anos, na condição de aprendiz.

131
Reênciasfer ácasbilogr

ARAÚJO JÚNIOR, Francisco Milton. MARANHÃO, Ney Stany Morais. Considerações so-
bre o Combate à Exploração do Trabalho Infantil: Bosquejo Histórico, Proteção Ju-
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radigma da Declaração de 1998 da OIT. Disponível em http://www.redhbra-
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MEDEIROS Neto, Xisto Tiago. Trabalho Infantil. Disponível em http://www.mp.go.gov.


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132
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REIS, Jair Teixeira dos. Direito da criança e do adolescente: questões trabalhistas


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REIS, Jair Teixeira dos. Manual Prático de Direito do Trabalho. 3 ed. São Paulo: LTr, 2011.

VIGLIAR, José Marcelo. Ação Civil Pública. São Paulo: Atlas, 1997.

133
Alline Pedra Jorge Birol
Advogada, Pós Doutora em Direito (UFSC), Doutora em Criminologia (Univer-
sité de Lausanne, Suiça), Consultora de Organizaçõoes Internacionais (ICMPD,
UNODC, PNUD) em projetos de cooperação técnica com o Ministério da Justiça.

Lucicleia Souza e Silva Rollemberg


Delegada de Polícia Federal, Coordenadora Substituta de Enfrentamento ao
Tráfico de Pessoas da Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça.

9
TRÁFICO DE PESSOAS ENQUANTO VIOLAÇÃO DE 1. O Protocolo de Palermo foi adotado pela
DIREITOS HUMANOS Assémbleia Geral das Nações Unidas, Reso-
lução 55/25, e entrou em vigor em 25 de
dezembro de 2003.
Alline Pedra Jorge Birol
Lucicleia Souza e Silva Rollemberg 2. Na data de 08 de novembro de 2013, 158
países membros das Nações Unidas eram
estados-parte do Protocolo.

1. Introdução 3. A expressão “escravidão dos tempos mo-


dernos” é inclusive o slogan do Freedoom
Project financiado pela rede de televisão
Tráfico de Pessoas é uma das mais antigas formas de violação de direitos internacional CNN. Outra expressão co-
humanos. Registros históricos demonstram que desde a colonização das Amé- mumente utilizada é “escravidão contem-
ricas até a abolição da escravatura, negros africanos eram transportados de porânea.” Veja Justin Guay, The Economic
Foundations of Contemporary Slavery.
seus países e forçados a trabalhar em vários lugares no território brasileiro.
Indígenas também foram vítimas de exploração e sujeitos a escravidão nesse
mesmo período. (Fausto, 2008). No entanto, nessa época, tanto o transporte
como a exploração destes seres humanos eram permitidos por lei.
Apesar de abolida a escravidão, em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea,
a prática parece ter continuado e nunca ganhou tanta visibilidade como nos
últimos 10 anos, após a aprovação do Protocolo Adicional à Convenção das
Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Preven-
ção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crian-
ças, conhecido como Protocolo de Palermo, em 15 de novembro de 2000.1 O
Protocolo de Palermo foi ratificado por boa parte dos países membros das Na-
ções Unidas2 e aprovado no Brasil por intermédio do Decreto nº 5.017 de 2004.
Com a globalização e a intensificação da mobilidade humana, tem-se
observado o ressurgimento do transporte de pessoas para fins de exploração,
sendo codinome da expressão “tráfico de pessoas” a expressão “escravidão dos
tempos modernos” e fazendo relembrar que esta é uma das formas de violação
de direitos humanos que nunca deixou de existir.3
Razões para a perpetuação desta forma de violência seriam: (a) diferenças
econômicas entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, em transição
ou pós-conflito, o que leva as pessoas a deixarem seus países de origem em busca
de melhores oportunidades (Dijck, 2005); (b) políticas migratórias muito restritas
nos países desenvolvidos que recriminam e discriminam o migrante (Dijck, 2005);

135
e (c) relativa ineficácia da justiça criminal que não está ainda preparada para
identificar e enfrentar as situações de tráfico de pessoas (Dijck, 2005). Demanda
por serviços sexuais e outros serviços, tais como serviços domésticos e no setor
de turismo, atuam como fatores de atração para os países de destino, assim como
a violência familiar, o desemprego, problemas financeiros, dentre outros, atuam
como fatores de expulsão nos países de origem (Dijck, 2005; Pedra J.B., 2008).
Observa-se, no entanto, que a condição de vulnerabilidade é uma das prin-
cipais razões pelas quais as pessoas acabam se tornando vítimas de tráfico de
pessoas e que, por sua vez, têm uma grande dificuldade de denunciar essa forma
de violência para as autoridades ou até mesmo de buscar apoio em organizações
de assistência às vítimas, por razões diversas tais como o medo, a vergonha e
até mesmo o desejo de não voltar para sua condição sócioeconômica anterior.
É o tráfico de pessoas, dessa forma, fenômeno extremamente subnoti-
ficado, cujas cifras são desconhecidas e dificilmente podem, até mesmo, ser
estimadas. Inclusive, quando denunciado, nem sempre a justiça criminal está
preparada para registrá-lo como tal, fazendo com que os casos que chegam no
sistema também passem despercebidos ou “etiquetados” de outras maneiras.
Este trabalho tem o objetivo de descrever o marco conceitual e legal
desta violação de direitos humanos. Neste sentido, o trabalho aborda as espe-
cificidades e as lacunas da legislação brasileira. O trabalho também destaca a
questão da subnotificação dessa forma de violência e suas principais razões.
Na sequência, traz estatísticas de enfrentamento ao tráfico de pessoas de acor-
do com pesquisas e dados oficiais de órgãos da justiça criminal, que de forma
bastante rudimentar tentam descrever o tráfico de pessoas no mundo e no
Brasil, muito embora a subnotificação e a impropriedade dos sistemas que re-
gistram essas informações dificulte bastante esta tarefa. E por fim, o artigo traz
recomendações, sem pretensões conclusivas, devido à complexidade do tema.

2. Tráfico de Pessoas no Brasil: Marco Legal e Conceitual

Nos termos do Protocolo de Palermo, que por sua vez foi adotado, com seus
devidos ajustes pela Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas,
tráfico de pessoas é:

136
o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhi-
mento de pessoas, recorrendo à ameaça ou ao uso da força ou a outras
formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade
ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamen-
tos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha
autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração incluirá,
no mínimo, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas
de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou
práticas similares à escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos.

Do conceito, apreendemos que são necessários três elementos para que o


tráfico de pessoas se configure, ou seja, a ação, o meio e a finalidade, segundo
a Figura 1 (Ministério da Justiça, 2013):

Figura 1: Conceito de Tráfico de Pessoas

Ação Meio Fim

Recrutamento, Ameaça uso da força ou Exploração sexual, trabalho


Transporte, outras formas de coação ou serviço forçados, escra-
Transferência, rapto, fraude, engano, vtura ou práticas similares
Alojamento ou abuso de autoridade ou à escravatura, servidõ,;
Acolhimento de pessoas situação de vulnerabilidade remoção de órgãos, tenidos
entrega ou aceitação de e partes do corpo, e outras
pagamentos ou benefícios formas de exploração
para obter o consentimento
de uma pessoa que tenha
autoridade sobre outra

Fonte: Ministério da Justiça, 2013.

A ação é o recrutamento/aliciamento que ocorre quando uma pessoa fí-


sica ou um representante de uma pessoa jurídica busca persuadir outra pessoa
a realizar uma viagem.
O recrutamento pode se dar por diversos meios, tais como: pessoal-
mente, por amigos ou familiares, anúncios de jornal, internet, etc. A ação é
também o transporte, compreende meios variados de locomoção e facilitação

137
4. Críticas têm sido feitas ao tipo penal do de entrada no local de destino. Faz parte ainda do elemento ação a trans-
tráfico de pessoas previsto no art. 231 e ferência, que é o ato de facilitar o trânsito entre países, regiões, cidades ou
231-A. Dentre elas, a de que o legislador
locais. E, finalmente, alojar ou abrigar significa dar abrigo ou alojamento às
esqueceu de prever um dos elementos do
tráfico, que é o meio coercitivo, violento, pessoas traficadas, ainda que durante a viagem, nos locais de trânsito, ou nos
fraudulento, etc, fazendo com que o mes- locais de exploração.
mo se equipare à definição de contrabando
No que diz respeito aos meios, a ameaça, a força ou outras formas de
de migrantes, não de tráfico de pessoas. A
outra é a de que o tipo penal criminaliza coação (física, moral ou psicológica) podem ser empregadas para obter o con-
a prostituição, ainda que indiretamente sentimento da pessoa traficada para o transporte e/ou a exploração. O con-
(Castilho, 2008). sentimento obtido desta maneira é obviamente viciado. O rapto é o sequestro
da pessoa traficada, ou sua manutenção em cárcere privado no intuito de
transportá-la para fins de exploração. A fraude e o engano acontecem quando
o traficante usa de artifícios fraudulentos como contratos de trabalho falsos,
promessas de emprego, casamento, para obter o consentimento da pessoa tra-
ficada. O abuso de autoridade ou da situação de vulnerabilidade ocorre quan-
do o traficante usa do seu poder (por exemplo, numa relação hierárquica) ou
da posição de vulnerabilidade da pessoa a ser traficada (dificuldade financeira
ou familiar) para coagí-la ou obter o seu consentimento com o transporte. E,
finalmente, a entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o
consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra é também um
dos meios utilizados para convencer, por exemplo, os pais a entregarem seus
filhos, em troca de um determinado valor.
No que diz respeito à exploração, o Protocolo e a Política Nacional re-
conhecem expressamente as seguintes modalidades: (1) a exploração da pros-
tituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, (2) o trabalho ou
serviços forçados, (3) escravatura ou práticas similares à escravatura, (4) a
servidão e (5) a remoção de órgãos.
A legislação penal brasileira, no entanto, ainda não contempla todas as
modalidades de tráfico de pessoas, mas tão somente o tráfico de pessoas para
fins de exploração sexual.
O tráfico de pessoas para fins de exploração sexual (1) está previsto nos
arts. 231 e 231-A do Código Penal. O art. 231 define o tráfico internacional para
fins de exploração sexual como a ação de

138
promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de alguém que
nele venha a exercer a prostituição ou outra forma de exploração sexual,
ou a saída de alguém que vá exercê-la no estrangeiro.

E o art. 231-A define o tráfico interno para fins de exploração sexual como a
conduta de “promover ou facilitar o deslocamento de alguém dentro do território
nacional para o exercício da prostituição ou outra forma de exploração sexual.”4
As outras formas de exploração estão previstas em outros tipos penais, fa-
zendo com que a exploração em si possa ser punida, mas não necessariamente
a mercantilização da pessoa, que se configura com a Ação (recrutamento, trans-
porte, etc), o Meio (engano, fraude, coerção) e que são anteriores à exploração.
É o caso do tráfico de pessoas para fins de trabalho ou serviços forçados (2),
escravatura ou práticas similares à escravatura (3), modalidade de exploração
que poderá ser punida nos termos do art. 149 do Código Penal, que define o tipo
penal da “redução a condição análoga à de escravo”. Reduzir alguém a condição
análoga à de escravo significa submeter esta pessoa a trabalhos forçados ou
a jornada exaustiva e/ou sujeitá-la a condições degradantes de trabalho, e/ou
restringir, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com
o empregador ou preposto. Significa ainda cercear o uso de qualquer meio de
transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho e/
ou manter vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apoderar de documen-
tos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.
Portanto, este tipo penal poderá incidir no caso do tráfico de pessoas com
esta finalidade, punindo, no entanto, a conduta da exploração, mas não os atos
anteriores a esta que são o recrutamento, o transporte, a utilização de meio
fraudulento para convencer a vítima ou de violência. Com isto os casos em que
a exploração não se concretize, ou os casos tentados, acabam sem punição.
O tráfico de pessoas para fins de servidão (4) significa submeter uma
pessoa a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, sujeitá-lo a condições
degradantes de trabalho, no âmbito doméstico. É também confundida com o
casamento servil, quando a pessoa traficada se casa com alguém que promete
uma relação conjugal saudável, mas que acaba por obrigar a pessoa a realizar
as tarefas domésticas e/ou a ter relações sexuais com o mesmo, ainda que

139
5. Mendicância são diversas atividades contra a sua vontade. De acordo com a legislação brasileira, pode ser também
através das quais uma pessoa pede a um interpretado como forma de trabalho escravo.
estranho dinheiro, sob a justificativa de sua
O tráfico de pessoas para fins de remoção de órgãos (5), por sua vez,
pobreza ou em benefício de instituições re-
ligiosas ou de caridade. A venda de peque- encontra relativa guarida na Lei do Transplante, quer seja a Lei n° 9.434/97,
nos itens como flores e doces nos sinais, que criminaliza toda forma de extração de órgão, tecido ou parte do corpo
limpar vidros, estacionar ou vigiar carros,
sem autorização dos parentes ou do paciente em vida. Não obstante, a lei de
auxiliar com as compras em supermercado,
apresentações artísticas (circenses, tocar transplantes não tipifica os atos anteriores, tais como o transporte da pessoa
instrumentos musicais) nas ruas podem ser com vida ou do cadáver para fins de extração de órgãos, o uso da fraude em
também considerados como mendicância. relação à vítima, que é convencida em vida a extrair parte de seu corpo, em
Destacamos, todavia, que a mendicância
como forma de exploração se configura
troca de vantagem.
quando grupo organizado ou indivíduos Finalmente, tanto o Protocolo de Palermo como a Política Nacional de
transportam e coagem pessoas, principal- Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas não são taxativos, abrindo a possibili-
mente crianças e adolescentes, mas não só,
dade para outras formas de exploração. Pesquisas de campo têm, inclusive,
para que fiquem nas ruas pedindo dinheiro
ou comercializando pequenos produtos, identificado outras modalidades de tráfico de pessoas, tais como o tráfico de
restringindo sua liberdade e retendo, todo pessoas para fins de mendicância5 ou adoção ilegal6; o tráfico de pessoas para
ou em parte, o fruto desta mendicância
fins da prática de crimes7 (Secretaria Nacional de Justiça, 2013).
(Secretaria Nacional de Justiça, 2013).

6. Acontece quando crianças e adolescen-


tes são transportadas com ou sem o con- 3. Do consentimento da vítima no crime de tráfico de pessoas
sentimento ou a autorização dos pais e são
vendidos/entregues para outras pessoas,
muito comumente casais, que tenham o Nos termos do art. 2°, § 7° da Política Nacional, o consentimento da vítima é
desejo de adotar um filho. Tudo é feito sem irrelevante, o que gera alguma confusão, pois nos termos do Protocolo de Pa-
a observância das formalidades legais de
lermo, o consentimento é irrelevante só quando o meio utilizado for a ameaça
um processo de adoção. É conduta que po-
derá ser punida nos termos dos arts. 238 e ou o uso da força ou outras formas de coação, o rapto, a fraude, o engano, o
239 do Estatuto da Criança e do Adolescen- abuso de autoridade ou da situação de vulnerabilidade ou a entrega ou aceita-
te. (Secretaria Nacional de Justiça, 2013). ção de pagamentos ou benefícios para obtê-lo.
Em verdade, há vários níveis de vitimização (Aronowitz, 2001) que cor-
7. É quando a pessoa traficada é forçada ou
coagida à prática de atividades criminosas, respondem a diferentes níveis de conhecimento e informação que são dados à
tais como o cultivo ou o transporte de dro- vítima e que estão relacionados à discussão sobre o consentimento.
gas de um local para outro, pequenos furtos,
O primeiro nível corresponde à total coerção em que as vítimas são rapta-
etc. (Secretaria Nacional de Justiça, 2013).
das; o consentimento neste nível é nulo. O segundo nível diz respeito às vítimas
que foram enganadas com promessas de emprego que não a prostituição. Nestes
casos, o consentimento da vítima foi dado com base numa fraude. O terceiro ní-
vel refere-se a um nível de engano menor, em que as vítimas sabem que vão tra-

140
balhar na indústria do sexo, mas não na prostituição. Por fim, o quarto nível de 8. Seguindo a definição do Estatuto da
vitimização diz respeito às vítimas que, antes da sua partida, sabiam que iriam Criança e do Adolescente (Lei Federal n.
8.069/90), a criança é a pessoa que tem en-
trabalhar como profissionais do sexo, mas que desconheciam até que ponto iam tre 0 e menos de 12 anos, e o adolescente,
ser controladas, intimidadas, endividadas, exploradas. (Aronowitz, 2001). entre 12 e menos de 18 anos.
O risco é, portanto, o de se obter uma definição de tráfico que estabeleça
hierarquias morais informadas por valores morais, que acabem por se traduzir
em barreiras legais e/ou práticas na defesa dos direitos humanos das vítimas
de tráfico de pessoas (Anderson & Davidson, 2002).
Daí a inteligência da Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de
Pessoas quando exclui qualquer forma de consentimento (obtido sob ameaça,
violência, fraude, etc., ou não) como elemento para se identificar uma situação
de tráfico de pessoas.
No que diz respeito especificamente à criança e ao adolescente,8 nos
termos do Protocolo, o segundo elemento, quer seja o Meio, não é necessário
para se configurar o tráfico de pessoas fazendo com que, obviamente, mais
uma vez o consentimento seja irrelevante, o que é natural dada à condição de
incapacidade da vítima. Basta, portanto, a Ação e a Finalidade da exploração
para que a criança ou o adolescente sejam considerados pessoas traficadas.

4. Da subnotificação do crime de tráfico de pessoas e dos “medos”


da vítima

Segundo a literatura, sentimentos de vergonha, culpa, medo de represálias e


desconhecimento da sua própria condição de “vítima” são sentimentos co-
muns às vítimas de crime (Aebi, Aubusson de Cavarlay, Barclay, Killias, et al.,
2010; Pedra J.B., 2010; Shapland, Duff, & Willmore, 1985; Waller, 1990).
Assim, como em outros tipos penais, vítimas de tráfico de pessoas têm
relatado experiências negativas e sentimentos semelhantes aos das outras ví-
timas de crime, ao decidir notificá-lo. Particularmente, no caso das vítimas de
tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, pesquisas têm demonstrado
que os sentimentos mais comuns são a vergonha de denunciar, devido ao
receio de serem discriminadas pela sua própria família ou amigos por terem
trabalhado (ainda que forçosamente) na indústria do sexo.

141
9. Lerner (1980) inclusive explica os sen- Outro sentimento comum é a culpa, pois as vítimas de tráfico de pessoas,
timentos de culpa e a falta de reconheci- particularmente o internacional, acreditam que de alguma maneira poderiam
mento da condição de vítima, por parte da
ter evitado e deveriam ter suspeitado que as “promessas” de uma vida melhor
própria vítima, com a teoria da crença num
mundo justo. Segundo o autor, as pesso- em outro país eram falsas (Secretaria Nacional de Justiça, 2005; Secretaria
as estão sempre procurando explicação e Nacional de Justiça & Organização Internacional do Trabalho, 2007; Secretaria
acreditam que os eventos são previsíveis e
Nacional de Justiça, Escritório das Nações Unidas de Drogas e Crime & Asso-
controláveis. Acreditam, portanto, que têm
o que merecem, o que significa dizer que ciação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude, 2009). Ain-
caso se comportem corretamente, terão re- da, pessoas traficadas não se reconhecem como vítimas (Tyldum, 2010). Elas
sultados positivos, e que caso se comporta- acreditam ter contribuído de alguma forma para a sua própria vitimização.9
rem negativamente, as consequências serão
negativas. Esta crença é um mecanismo psi-
Enquanto imigrantes ilegais, em alguns casos de tráfico internacional,
cológico que o ser humano desenvolve no elas acreditam que serão presas se denunciarem o crime para a polícia e, por-
intuito de se sentir seguro e no controle de tanto, se percebem mais enquanto violadoras da lei do que enquanto vítimas
suas vidas. No entanto, a vitimização abala
(Secretaria Nacional de Justiça, 2005; Secretaria Nacional de Justiça & Organi-
esta crença e demonstra a imprevisibilidade
e a aleatoriedade dos eventos. A reação psi- zação Internacional do Trabalho, 2007; Secretaria Nacional de Justiça, Escritó-
cológica do indivíduo é portanto a de acre- rio das Nações Unidas de Drogas e Crime & Associação Brasileira de Defesa da
ditar que fez por merecer, mantendo a sua
Mulher, da Infância e da Juventude, 2009). O comportamento discriminatório
crença, e por conseguinte, seu sentimento
de segurança, inabalável. É um mecanismo de autoridades policiais e da justiça, nesta seara, pode também contribuir para
psicológico de defesa que o ser humano este sentimento. (Anti-Slavery International, 2002).
desenvolve para restituir seu sentimento de Não ao menos, vítimas de tráfico de pessoas são mais vulneráveis e têm
segurança e controle sobre sua vida, que é
necessidades especiais. O crime do tráfico de pessoas gera impactos severos
importante para a sobrevivência.
na saúde física e mental das vítimas (Zimmerman et al., 2003). Pessoas trafi-
cadas relatam stress e ansiedade como consequência das violências e ofensas
que sofreram durante o transporte para o país de destinho e no momento da
exploração (Zimmerman et al., 2003).
A natureza continuada do crime, em que as vítimas de tráfico de pessoas
ficam “nas mãos” do agressor, geralmente por longos períodos, possibilitando in-
timidação, violência e tortura, provoca o medo de represálias e pela segurança de
suas famílias caso as vítimas denunciem (Secretaria Nacional de Justiça, 2005;
Secretaria Nacional de Justiça & Organização Internacional do Trabalho, 2007).
Finalmente, o medo de retornar para o mesmo lugar de onde decidi-
ram sair, normalmente sem dinheiro, reduz ainda mais a possibilidade das
vítimas de tráfico de pessoas denunciarem este tipo de crime para a polícia
(Pedra J.B., 2013).

142
5. Medindo o Tráfico de Pessoas: Tarefa Difícil 10. A exemplo: Escritório das Nações Uni-
das sobre Drogas e Crime (UNODC), Orga-
nização Internacional do Trabalho (OIT),
Ao tentar descrever e mensurar o fenômeno do tráfico de pessoas, não há como se Centro Internacional para o Desenvolvi-
ignorar as dificuldades e os desafios que existem para tanto, no Brasil e no mundo. mento de Políticas Migratórias (ICMPD), a
No início do século XXI, Salt (2000) já mencionava a carência de dados Organização Internacional para a Migra-
ção (OIM), Organização para a Segurança
oficiais sobre tráfico de pessoas. Na opinião do autor, em regra, os dados eram
e Cooperação na Europa (OSCE), e Comis-
coletados por instituições, metodologias e tecnologias diversas e em tempos são Européia (CE).
diferentes, impossibilitando sua sistematização e comparação dentro de um
mesmo país, que dirá entre diversos países. A exemplo, o Vienna Forum of 11. A exemplo: Anti-Slavery Internatio-
nal, La Strada International, e no Brasil
UN.GIFT (2008) relata ser, atualmente, impossível comparar estatísticas crimi- a ASBRAD.
nais de tráfico de pessoas, pois muitos dos países signatários do Protocolo de
Palermo estão ainda na fase de adaptação da sua legislação interna ao Proto-
colo, dentre estes o Brasil.
Ainda, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime
(UNODC, 2009), os sistemas das instituições de segurança pública e justiça cri-
minal são construídos no intuito de otimizar as suas necessidades operacionais.
O primeiro Diagnóstico brasileiro sobre Tráfico de Pessoas realizado pela
Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça em 2012 (Ministério da
Justiça, 2013), cuja fonte principal de informação foram dados oficiais, tam-
bém deixa clara a impropriedade dos sistemas de informação das instituições
da segurança pública e justiça criminal no Brasil. Há uma variedade muito
grande de categorias e de formas de registros, praticamente impossibilitando a
comparabilidade destes dados.
A confusão entre tráfico de pessoas, contrabando de migrantes, imigra-
ção irregular e, às vezes prostituição, bem como a ausência de legislação espe-
cífica, também dificultam a coleta de dados sobre o assunto.
Por outro lado, o número de pesquisas acadêmicas e relatórios de orga-
nismos internacionais e/ou intergovernamentais10 e de organizações não go-
vernamentais11 têm aumentado, mas recebido críticas sobre a confiabilidade e
a validade desses dados considerados extra-oficiais (van Dijck, 2005).
No Brasil, particularmente, a Secretaria Nacional de Justiça tem se de-
dicado ao estudo do tema, sendo esta inclusive uma das ações do II Plano
Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas.

143
Soma-se a isso o fato de que o tráfico de pessoas é uma das formas de
criminalidade subnotificada, por razões diversas como a desconfiança do
sistema de polícia e justiça, o receio da pessoa traficada de ser discrimina-
da ou incriminada, particularmente como imigrante irregular, nos casos de
tráfico internacional, o medo de ser deportado ou expulso, a vergonha e o
medo da humilhação (Aebi, Aubusson de Cavarlay, Barclay, Killias, et al.,
2010; Anti-Slavery International, 2002; Goodey, 2003; UNODC, 2008), o des-
conhecimento sobre a sua condição de vítima, a falta de informação sobre
os mecanismos de denúncia e até mesmo o medo de represálias (Pedra J. B.,
2008), como foi explorado no item anterior. Isto tudo intensifica a ausência
de dados sobre um fenômeno que além de ontologicamente subnotificado, é
registrado impropriamente, fazendo com que o crime permaneça oculto, ao
menos estatisticamente.
Nesse sentido, a contribuição tanto das organizações não governamen-
tais como dos organismos internacionais tem sido muito importante, pois na
ausência de dados quantitativos oficiais, são esses relatórios que contribuem
para o conhecimento e o reconhecimento do fenômeno.

6. Medindo o Tráfico de Pessoas: Descrevendo o Perfil da Vítima, as


Modalidades de Exploração, o Modus Operandi e o Número de Casos

Superada a discussão sobre as dificuldades nacionais e internacionais em se


descrever e medir o tráfico de pessoas de forma válida e real, não somente
a partir de revisão bibliográfica e estudo de casos isolados, mas por meio
de dados quantitativos, seguem alguns dados que vêm sendo coletados de
pesquisas quantitativas e qualitativas e que têm auxiliado na descrição e
mensuração do fenômeno.
Inicialmente, estimativas globais sobre o número de pessoas traficadas
no mundo e os recursos financeiros que este verdadeiro “business” movimenta
são feitas principalmente por organismos internacionais, mas recebem críticas
(Blanchette & Silva, 2012; Tyldum, 2010).
Segundo os autores, a invisibilidade do fenômeno, o registro precário
perante as diversas instituições que trabalham no seu enfrentamento, a inde-

144
finição ainda conceitual e legal do tema, em alguns países, inclusive o Brasil,
torna a tarefa de mensurá-lo e compará-lo quase impossível.
Desta forma, os dados apresentados a seguir têm o objetivo de informar
sobre o fenômeno, ainda que de forma relativa, não necessariamente de men-
surá-lo ou quantificá-lo.
Uma das primeiras inquietações no que diz respeito ao tráfico de pessoas
é o perfil da vítima, principalmente para a elaboração de políticas de preven-
ção. Em síntese, mulheres, adolescentes e crianças são registradas com mais
frequência como vítimas do tráfico de pessoas, somando 75% das vítimas,
entre os anos de 2007 e 2010. Este dado é revelado pelo Relatório Global do
UNODC (2012a), segundo o qual o tráfico de pessoas é um crime com uma
forte conotação de gênero, sendo a principal parcela de vítimas identificadas
constituída por mulheres adultas (UNODC, 2012a: 26).
Pesquisas realizadas no Brasil também confirmam que a maioria das ví-
timas registradas é do sexo feminino (Leal & Leal, 2002; Colares, 2004; Se-
cretaria Nacional de Justiça e Organização Internacional do Trabalho, 2007;
UNODC, 2009; Ministério da Justiça, 2013); oriundas de classes populares,
com baixa escolaridade, que habitam espaços urbanos periféricos com carên-
cia de saneamento, transporte, moram com algum familiar, têm filhos (Leal &
Leal, 2002; Hazeu, 2008) e exercem atividades laborais de baixa rentabilidade,
como cabelereira, esteticista, auxiliar de enfermagem, professora de ensino
fundamental, vendedora, secretária e doméstica (Leal & Leal, 2002; Colares,
2004; Secretaria Nacional de Justiça, 2005).
Dados do Ministério da Saúde, cuja fonte é o Sistema de Informação de
Agravos de Notificação (SINAN), por meio da notificação compulsória, in-
formam também que a maioria das vítimas de tráfico de pessoas registradas
é de mulheres e adolescentes do sexo feminino, com baixa escolaridade,
solteiras e residentes da zona urbana. Por exemplo, no ano de 2011 foram
identificadas um total de 65 vítimas do sexo feminino e 15 do sexo mascu-
lino (Ministério da Justiça, 2013). Demonstram ainda que a faixa etária de
maior incidência é entre os 10 e 29 anos, havendo todavia uma maior inci-
dência de vítimas, cerca de 25%, na faixa etária de 10 a 19 anos, reforçando
a informação do Relatório Global, segundo o qual as adolescentes somam
de 15% a 20% das vítimas mundialmente (UNODC, 2012a). Uma pequena

145
12. Texto original: “There is no specific and parcela das entrevistadas ou das vítimas identificadas em processos crimi-
exclusive demand for trafficked persons, nais citados nessas pesquisas afirmou já ter exercido a prostituição no Brasil
only demand for labour/services of vulne-
(Colares, 2004; Secretaria Nacional de Justiça, 2005; Hazeu, 2008).
rable and unprotected persons” (Davidson,
2013). Tradução das autoras. Pessoas traficadas do sexo masculino são mais comumente identificadas
na modalidade trabalho escravo/trabalho forçado, segundo o Relatório Global
do UNODC. Todavia, pesquisa na área de fronteira revelou que mulheres tam-
bém estão sendo traficadas para o Brasil para fins de trabalho escravo na in-
dústria textil e para servidão doméstica (Secretaria Nacional de Justiça, 2013).
Observa-se, desta forma, que o perfil pode variar de acordo com a mo-
dalidade de exploração e com as condições de vulnerabilidade de cada pessoa
traficada. Como afirma Davidson (2013) “não há demanda de pessoas trafica-
das, mas tão somente demanda de trabalho/serviços de pessoas vulneráveis e
desprotegidas”.12 Isto significa dizer que não há um público alvo ou perfil espe-
cífico. O crime de tráfico de pessoas mercantiliza e coisifica a vítima, fazendo
com que as características pessoais sejam irrelevantes; o que determina é a
utilidade para a qual aquela pessoa se presta. É definitivamente a situação de
vulnerabilidade que vai determinar se esta ou aquela pessoa é uma potencial
vítima de tráfico de pessoas ou não.
E quais são os grupos que podem estar em situação de vulnerabilidade?
Crianças e adolescentes, naturalmente, por uma questão de desenvolvimento
pessoal, são vulneráveis. Mulheres, em algumas sociedades, mais do que em ou-
tras. Isto depende do grau de empoderamento, acesso à educação e ao trabalho,
acesso aos direitos civis, políticos e sociais, que diferem em cada sociedade. Mi-
grantes em geral também são considerados como um público vulnerável, prin-
cipalmente aqueles que estão em situação irregular (UNODC, 2012b). Minorias
étnicas, indígenas, pessoas com deficiência e a população LGBT podem também
estar em situação de vulnerabilidade em alguns contextos (ICMPD, 2011).
Há ainda aqueles grupos que são mais vulneráveis a depender da mo-
dalidade de exploração. Por exemplo, adolescentes do sexo masculino (ho-
mosexuais e heterosexuais) são traficados para fins de exploração sexual em
determinados locais. Pessoas com deficiências podem estar mais vulneráveis
à modalidade do tráfico para fins de exploração na mendicância. Refugiados
políticos e ambientais, pelo fato de estarem na condição de refugiados, são
mais vulneráveis que outras pessoas (UNODC, 2012a).

146
Resumidamente, os relatórios internacionais, nacionais e outras pesqui- 13. Um deles e talvez o mais conhecido foi
sas realizadas informam que a forma de exploração mais vulgarmente iden- a Operação Bisturi da Polícia Federal que
desarticulou um grupo organizado que le-
tificada no contexto do tráfico de pessoas é a sexual, nas Américas, Europa
vava as vítimas de Recife/PE para a remo-
e Ásia Central, enquanto que na África, Meio Oriente, Sul e Leste da Ásia e ção de órgãos na África do Sul, mediante
Pacífico, mais casos de tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo foram promessa de recompensa. A última inte-
grante do grupo foi presa em maio de 2013,
detectados (UNODC, 2012a).
mas o grupo foi desarticulado em 2003. Fo-
No Brasil, no que diz respeito ao tráfico internacional, a predominância ram 27 indiciados e condenados (Diário de
da modalidade de exploração sexual é confirmada por dados do Ministério Pernambuco, 04 de maio de 2013).
das Relações Exteriores/Divisão de Assistência Consular (MRE/DAC) reve-
14. Tais como casos de pacientes declara-
lados no Diagnóstico Nacional (Ministério da Justiça, 2013), no qual das dos com morte encefálica em Poços de Cal-
475 vítimas de tráfico internacional de pessoas, brasileiros identificados pela das e Taubaté, cujos órgãos foram retirados
rede consular no exterior, 337 foram vítimas da modalidade exploração se- e transplantados sem a observância das
formalidades necessárias e o caso da im-
xual e 135 da modalidade trabalho escravo, além de três pessoas cuja forma
portação das córneas, onde se identificou a
de exploração é ignorada. realização de depósitos em dinheiro para a
No Brasil, observa-se um crescente aumento do número de pessoas es- realização dos transplantes (Comissão Par-
lamentar de Inquérito, 2004).
trangeiras, de ambos os sexos, traficadas para fins de trabalho escravo. O
Diagnóstico sobre Tráfico de Pessoas na Área de Fronteira revelou a presença
de estrangeiros, por exemplo, de bolivianos que estão sendo traficados para
o Brasil para fins de trabalho escravo. (Secretaria Nacional de Justiça, 2013).
Ademais, o Relatório Global do UNODC também informa que o número
de casos de tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo registrados tem
aumentado, assim como tem aumentado a capacidade das autoridades locais
de identificar esta forma de exploração (UNODC, 2012a).
Nas Américas, particularmente, 44% dos casos de tráfico de pessoas de-
tectados tinha como finalidade o trabalho escravo (UNODC, 2012a).
Outras modalidades, como o tráfico para fins de remoção de órgãos, ex-
ploração da mendicância, casamento servil, conflito armado e adoção ilegal,
foram raramente identificados. O tráfico para fins de remoção de órgãos con-
siste em 0.2% dos casos e foi detectado em 16 países participantes do Relatório
Global do UNODC, enquanto que as outras modalidades somam 6% dos casos,
sendo que em 1.5% dos casos as vítimas eram traficadas para fins de explora-
ção na mendicância (UNODC, 2012a).
O Diagnóstico Nacional de Tráfico de Pessoas do Ministério da Justiça,
que coletou dados de 2005 a 2011, identificou tráfico de pessoas para explo-

147
15. O modus operandi é uma expressão do
ração sexual e trabalho escravo (Ministério da Justiça, 2013). Não obstante, a
latim que siginifica o modo de operação
que no contexto do tráfico de pessoas é a fonte de informações do Diagnóstico Nacional foi oriunda dos dados oficiais
maneira como os autores da conduta do de enfrentamento ao tráfico de pessoas, fornecidos pelas instituições do sis-
tráfico de pessoas ou os grupos organizados tema de justiça criminal, que coletam os dados de acordo com a legislação
operam e executam suas atividades.
penal em vigor.
16. A criminalidade feminina é tema que A Polícia Federal, em 2003, identificou casos de tráfico de pessoas para
ainda envolve muitos tabus, dentre estes a fins de remoção de órgãos, segundo notícias midiáticas13, bem como a Co-
discussão sobre os papéis do homem e da
missão Parlamentar de Inquérito com a finalidade de investigar a atuação de
mulher na sociedade. Há teorias que afir-
mam que há mulheres que delinquem, mas organizações criminosas atuantes no tráfico de órgãos humanos.14
que tendo em vista seu papel pre-deter- E pesquisa realizada na área de fronteira identificou mais casos registra-
minado na sociedade, estas são com me- dos de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual e trabalho escravo,
nos frequência alvo de desconfiança e de
mas também identificou situações de tráfico de pessoas para fins de servidão
investigações da polícia. Veja por exemplo
Steffensmeier e Allan (1996). doméstica, mendicância, prática de ilícitos e até casos de tráfico de jogadores
de futebol (Secretaria Nacional de Justiça, 2013).
No que diz respeito ao modus operandi15, a maioria dos recrutadores
identificados no Brasil, em 2002, era do sexo masculino (Leal & Leal, 2002),
enquanto que em 2005, pesquisa destaca as

teias femininas formadas por amigas, conhecidas, vizinhas e parentes,


tias, sobrinhas, irmãs, sogras, “convidando”, informando, estabelecendo
conexões (Secretaria Nacional de Justiça, 2005: 57).

Pesquisa publicada, em 2008 (Hazeu), especificamente sobre o tráfico de pes-


soas do Brasil para o Suriname, também revela uma maior incidência de mu-
lheres aliciadoras.
O Diagnóstico Nacional (Ministério da Justiça, 2013) também revelou que
dos dados registrados pela Polícia Federal, foi constatada maior incidência de
mulheres aliciadoras, embora os dados do Departamento Penitenciário reve-
larem que mais homens do que mulheres estão presos por tráfico de pessoas.
Estes dados podem nos revelar que os homens são, com mais frequência, alvo
de prisões preventivas e prisões condenatórias,16 ou que ocupam um lugar
mais alto na hierarquia dos grupos de traficantes, cometendo assim, crimes
mais graves com sentenças mais severas.

148
Importante destacar análise estatística do Relatório Global do UNODC 17. Vale notar, no entanto, que os países
(2012a), segundo o qual o envolvimento de mulheres no tráfico de pessoas, é mais desenvolvidos têm também uma maior ca-
pacidade de identificar e registrar casos de
frequente em casos de tráfico de crianças e adolescentes do sexo feminino, refor-
tráfico de pessoas
çando a idéia de relações afetivas ou de confiança entre traficados e traficantes.
O ICMPD destaca o caso das pessoas traficadas que se tornaram aliciadoras: 18. Fonte: UNODC, 2009. O Relatório Glo-
bal de 2012 também traz a mesma consta-
tação (UNODC, 2012a).
Redes que transformam pessoas antes exploradas em aliciadoras, em
uma estratégia que, além de facilitar o contato, não exporia os verda-
deiros financiadores do tráfico” (ICMPD, 2011: 56).

Hazeu já observava isto em 2008, quando dizia em sua pesquisa sobre tráfico
de pessoas do Brasil para o Suriname que

em geral são outras mulheres, que já viveram situação de tráfico e que


“ascenderam” na hierarquia da organização criminosa. Essa ascensão se
dá comumente por um namoro, casamento ou envolvimento afetivo com
o dono do clube ou algum funcionário (Hazeu, 2008: 85).

E pesquisa na área de fronteira destaca, principalmente, a identificação


da própria vítima com o agressor, numa espécie de Síndrome de Estocolmo,
que é um estado psicológico desenvolvido em vítimas de sequestro e segundo
o qual a vítima se identifica e se simpatiza com o seu agressor. É fenômeno
comum nos casos das vítimas transsexuais de exploração sexual, que acredi-
tam estar pagando um “preço justo” pelos prováveis benefícios que terão no
local da exploração, tais como a prometida cirurgia de redesignação de sexo.
E até mesmo no caso dos trabalhadores vítimas de trabalho escravo, que vêem
no seu explorador uma saída para a sua condição de desemprego ou extrema
pobreza (Secretaria Nacional de Justiça, 2013).
No que diz respeito às rotas, tem-se discutido a relação entre as rotas do
tráfico, os fluxos migratórios, os modos de exploração econômica e os níveis
de desenvolvimento. A Figura 2 demonstra que os maiores fluxos de pessoas
traficadas identificados têm origem nos países em desenvolvimento ou pós
conflito, com destino para os países desenvolvidos.17

149
19. Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Figura 2: Países de Origem e de Destino de Pessoas Traficadas18
Roraima,Tocantins, Rio de Janeiro, São Paulo,
in North America, Central
Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Pernambu- in Western and Central Europe America and the Caribbean in the Middle East

co, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Sub-Saharan Africans 15% 0% 20%
East Asians 7% 27% 35%
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. South Americans 6% 3% 1%
Eastern Europeans and Central Asians 5% 1% 10%
South Asians 1% 1% 23%

Western Eastern Europeans


and Central and Central Asians
Europe
North America,
Central America East
and the Caribbean The Middle Asians

Atelier de cartographie de Sciences Po, 2012


East
South
Asians

Sub-Saharan
Africans
South
Americans

Flows of 1% or less of
detected victims at destination

Fonte: UNODC, 2009. O Relatório Global de 2012 também traz a mesma constatação
(UNODC, 2012a).

A maioria das rotas identificadas está dentro de uma mesma região, ou


seja, países de um mesmo continente, seguida de um quarto dos casos de tráfi-
co de pessoas que são entre diferentes regiões (por exemplo, da América do Sul
para a Europa) e 27% dos casos de tráfico que são de tráfico interno (UNODC,
2012a). Isto se explica pelo fato de distâncias menores serem mais fáceis para
se operacionalizar e controlar do ponto de vista dos modus operandi.
No Brasil particularmente, em pesquisa publicada em 2002, foram iden-
tificadas 240 rotas em 19 estados e Distrito Federal19 (Leal & Leal, 2002). Se-
gundo Leal & Leal (2002, 71), basta identificar

as cidades próximas às rodovias, portos e aeroportos, oficiais ou clan-


destinos, ou seja, “os pontos de fácil mobilidade”, que casos de tráfico de
pessoas podem ser identificados. As vias utilizadas são as mais diversas,
ou quase todas as vias disponíveis: terrestres, aéreas, hidroviárias e
marítimas (Leal & Leal, 2002,71).

150
Excepcionam-se as vias ferroviárias que no Brasil raramente transportam pessoas.
Pesquisas de 2002 e 2004 demonstraram que, aparentemente, a rota de-
terminava os perfis das pessoas traficadas. Por exemplo, crianças e adolescentes
traficadas eram observadas com mais frequência nas rotas intermunicipais e
interestaduais (Leal & Leal, 2002; Colares, 2004). Já na área de fronteira, crian-
ças e adolescentes são traficados para o exterior para fins de exploração sexual.
Isto por causa da proximidade geográfica com os países fronteiriços da América
do Sul, sendo a linha divisória entre um país e outro, às vezes, tão somente uma
rua. Ademais, “cruzar fronteiras” é um ato tão ordinário nessas regiões e tão
pouco vigiado, que inclusive crianças e adolescentes transitam de um país para
outro aleatoriamente, sem que a documentação necessária esteja disponível
(Secretaria Nacional de Justiça, 2013). A mesma pesquisa identificou, principal-
mente, que as rotas seguem o fluxo da mobilidade, das formas de exploração
econômica e são impulsionadas pelas situações de vulnerabilidade das pessoas.
Desta forma, pode-se concluir que as rotas são transitórias (ICMPD, 2011)
e que acompanham as formas de exploração econômica, não havendo mais
um padrão a partir do século XXI, em virtude da globalização e da dimensão
atual da mobilidade humana.
Mas, o Brasil tem uma característica interessante e que dificulta ainda mais
o enfrentamento ao tráfico de pessoas, ou seja, é um país de origem, trânsito
e destino de vítimas de tráfico de pessoas. As estatísticas revelam que vítimas
brasileiras são encontradas no exterior e que vítimas estrangeiras são encontra-
das no Brasil (UNODC; 2012a). Enquanto que brasileiros são identificados como
vítimas de tráfico para fins de exploração sexual na Europa Ocidental (Ministé-
rio da Justiça, 2013), paraguaias foram identificadas no Brasil como vítimas da
mesma modalidade exploratória (Secretaria Nacional de Justiça, 2013). No que
diz respeito à exploração laboral, bolivianos, paraguaios, peruanos, chineses e
bengalis foram identificados no Brasil, (Secretaria Nacional de Justiça, 2013)
assim como brasileiros foram identificados na Europa Ocidental como vítimas
de tráfico para fins de trabalho escravo (Ministério da Justiça, 2013).
Finalmente, o número de casos de tráfico de pessoas identificados ao
longo da última década nos mais diversos países do mundo tem sido motivo
de polêmica. Cifras como milhares de vítimas e milhões de dólares têm sido
levantadas a partir de estimativas feitas por organismos internacionais como a

151
Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Escritório das Nações Unidas
sobre Drogas e Crime (UNODC) na tentativa de se mensurar o fenômeno.
No entanto, ponto pacífico entre os pesquisadores e gestores públicos é
que os casos que chegam ao sistema de segurança pública e justiça criminal
são somente a ponta do iceberg, sendo a subnotificação, dentre outras ques-
tões apontadas, fator que dificulta a identificação do fenômeno do tráfico de
pessoas no Brasil. Além do que, o sistema de justiça criminal funciona como
um funil, onde o número de casos identificados pela polícia é muito inferior ao
número de casos reais, o número de processos distribuídos no poder judiciário
é também inferior ao número de inquéritos policiais instaurados e o número de
condenações chega a ser dez vezes menor que o número de casos.
Para se exemplificar, o Diagnóstico Nacional de Tráfico de Pessoas revela que
o número de inquéritos policiais instaurados por tráfico internacional de pessoas
é duas vezes superior ao número de processos judiciais distribuídos. No caso do
tráfico interno, a diferença é de cerca de oito vezes (Ministério da Justiça, 2013).
O Diagnóstico referido revela também que o número de processos judiciais
distribuídos pelo crime de redução análoga à condição de escravo é cerca de
cinco vezes superior ao crime de tráfico de pessoas (Ministério da Justiça, 2013).
Enquanto 200 processos de tráfico de pessoas (internacional e interno) foram
distribuídos no período de 2005 a 2011, 940 foram distribuídos por trabalho
escravo, possivelmente demonstrando que o fenômeno do trabalho escravo tem
sido mais reconhecido no território nacional, talvez por causa da política de
erradicação do Ministério de Trabalho e Emprego (MTE), que data de 1995.

7. A Guisa de Conclusão

Este artigo demonstra que apesar do Brasil ter ratificado o Protocolo de Pa-
lermo, com exceção do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, as
outras formas de exploração não foram ainda observadas pela legislação penal
vigente. Felizmente, a ausência dessa legislação penal não tem impedido a
atuação do poder público que, seguindo os parâmetros internacionais previs-
tos no Protocolo de Palermo, vem empreendendo ações balizadas pelo texto da

152
Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, lançada por meio do
Decreto nº 5.948, de 26 de outubro de 2006.
Mais recentemente, em fevereiro de 2013, foi lançado o II Plano Nacional
de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas que alinhado às perspectivas dos três
eixos norteadores da política, ou seja, prevenção, repressão e responsabiliza-
ção dos autores do crime, bem como a assistência e proteção às vítimas, possui
115 metas que serão executadas pelos órgãos envolvidos até o ano de 2016.
De qualquer sorte, apesar de muitas ações que vêm sendo empreendidas
pelo Governo Federal, inclusive, com o apoio de organismos internacionais e
da sociedade civil organizada, ainda há muito que se fazer para o enfrenta-
mento do fenômeno do tráfico de pessoas no Brasil.
Em síntese, a revisão da literatura apresentada neste artigo revela que a
ausência de legislação adequada e que abranja o tráfico de pessoas para outros
fins que não a exploração sexual, a subnotificação devido ao medo das vítimas
de denunciar, a falta de conhecimento dos profissionais que atendem as víti-
mas de tráfico de pessoas e que, inclusive, os impede de reconhecê-las como
tal, contribuem para o desconhecimento desse fenômeno no Brasil.
Desta feita, necessária a mudança na legislação penal brasileira, no que
diz respeito à previsão das outras modalidades de exploração, no caso do trá-
fico de pessoas, que não somente a exploração sexual prevista nos artigos 231
e 231-A do Código Penal Brasileiro. Neste aspecto, aguarda-se aprovação do
Projeto de Lei (PLS 479) que tramita no Senado Federal com esse propósito.
Ademais, é imperioso que os operadores da justiça criminal, dentre estes
os que compõem o sistema de segurança pública, sejam continuamente capa-
citados e treinados, particularmente aqueles que atuam nas áreas de fronteira,
nos aeroportos internacionais e nas estradas federais ou estaduais que ligam
os estados da federação.
Assim, será possível propiciar dedicação especial às vítimas de tráfico
de pessoas no sentido de encorajá-las a denunciar e a participar da instrução
probatória, aumentando as chances de se perseguir e punir os traficantes.
Será, portanto, com a disponibilização ou facilitação às vítimas dos
meios para se recuperarem dos traumas, se sentirem protegidas e empoderadas
a tomar decisões, estando bem informadas, que passarão, então, a colaborar

153
com a justiça criminal e a denunciar essa forma tão cruel de violação dos
direitos humanos.
Nesse sentido, o ciclo do tráfico de pessoas somente poderá ser descon-
tinuado com o apoio, a disponibilização e facilitação de acesso aos meios de
proteção e atendimento às vítimas.
Como se pode depreender, este estudo não tem a pretensão de esgotar o de-
bate sobre o tráfico de pessoas, mas contribuir para a reflexão do tema que repre-
senta uma das mais graves formas de violação dos direitos humanos no mundo.

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158
159
Humberto Ribeiro Junior
Doutor em Sociologia e Direito pela UFF. Mestre em Filosofia e Teoria do Di-
reito pela UFSC. Professor e pesquisador nas áreas de criminalidade, violência
e segurança pública.

10
AS VIOLAÇÕES SISTEMÁTICAS AOS DIREITOS 1. Sistema de informações Penitenciárias
HUMANOS POR MEIO DOS PROCESSOS DE do Ministério da Justiça. Dados de dezem-
bro de 2012. Disponível em <http://goo.gl/
CRIMINALIZAÇÃO SELETIVA: O CASO DAS mOawdu>. Acesso em: outubro de 2013.
POLÍTICAS PENITENCIÁRIAS CAPIXABAS
2. Cf. RIBEIRO JÚNIOR, Humberto. Encar-
ceramento em massa e criminalização
Humberto Ribeiro Júnior
da pobreza no Espírito Santo: as políticas
penitenciárias e de segurança pública do
governo de Paulo Hartung (2003-2010).
1. Introdução Vitória: Editora Cousa, 2012

3. Por exemplo, demonstramos como no


De acordo com os últimos dados consolidados pelo InfoPen,1 o Espírito Santo Espírito Santo os índices elevados de ho-
conta hoje com uma população carcerária de aproximadamente 14.800 pes- micídio remontavam ao final da década
de 1990 e não se correlacionavam com o
soas. Isso representa uma taxa de 421,05 presos por cem mil habitantes, cerca
aumento da chamada “sensação de insegu-
de 1,5 vezes o índice nacional de 287,31. São números alarmantes, mas que rança”. RIBEIRO JÚNIOR, Humberto. op. cit.
não dizem respeito a uma longa série histórica, eles são resultado de políticas p. 49-54
que nos remetem a um passado recente. Em dezembro de 2002, por exemplo,
apenas dez anos antes, o número de encarcerados era de 2.920.
Como demonstramos em outro trabalho,2 a grande virada rumo a uma
política de encarceramento em massa no Espírito Santo se deu ao longo do
governo de Paulo Hartung, entre 2003 e 2010. Naquele momento afirmamos
que as reformas econômicas implementadas por este governador contribuíram
para a ascensão de uma política penitenciária e de segurança pública orientada
pela criminalização da miséria e pelo encarceramento massivo da população
– que teve pouca ou nenhuma contribuição para a redução dos índices de cri-
minalidade, notadamente a violenta.
Procurávamos demonstrar como estas políticas não nasceram como res-
posta ao suposto aumento da violência,3 mas como uma resposta à desregula-
mentação econômica e à ausência de garantia dos direitos sociais inspirados
no modelo do Welfare State e previstos na Constituição Brasileira de 1988.
Deste modo, tratava-se de um controle penal das massas que se tornaram ví-
timas dos efeitos colaterais da modernização neoliberal, como o desemprego,
instabilidade, acirramento das desigualdades sociais, enxugamento dos bene-
fícios sociais, redução das garantias trabalhistas, etc.

161
4. BARATTA, Alessandro. Criminologia crí- Portanto, uma das conclusões a que chegamos, por meio dos dados esta-
tica e crítica do direito penal. 3 ed. Rio de tísticos coletados em confronto com a base teórica utilizada, foi a de que esta
Janeiro: Revan, 2002. p. 41-42.
política de encarceramento não atingiu igualmente os indivíduos pertencentes
a todos os estratos sociais, ela teve um direcionamento claro para determina-
dos grupos divididos por cor e por classe.
No entanto, tendo em vista os objetivos daquela pesquisa, não foi pos-
sível desenvolver mais adequadamente o debate em torno das razões que de-
terminam esta criminalização seletiva de parcela da população. Desta forma, a
proposta deste artigo é a de recuperar e atualizar os dados sobre o encarcera-
mento no Espírito Santo para procurar compreender como se dão os processos
de criminalização e se realmente eles se orientam por uma seleção desigual dos
indivíduos de acordo com seu status social.
Para tanto, utilizaremos neste artigo o arcabouço teórico da criminologia
crítica a fim de tentar ultrapassar a barreira construída, em grande medida, pela
ideologia da defesa social que ainda vigora nos meios jurídicos como modelo
teórico explicativo do fenômeno da criminalidade e das formas de combatê-la.
Diante disso, se comprovada a hipótese de que o sistema de justiça crimi-
nal vigente se direciona seletivamente para os grupos que compõem as classes
sociais mais baixas, teremos elementos suficientes para demonstrar como ele
se constitui em um instrumento de violação sistemática dos Direitos Humanos.

2. A seletividade penal e os processos de criminalização:


as contribuições da criminologia crítica

Ainda hoje o sistema penal é construído e legitimado, em grande medida,


tendo como base os argumentos da teoria da defesa social. Esta ainda é a
ideologia dominante não apenas da ciência jurídica contemporânea como das
opiniões comuns, seja dos representantes do aparato penal penitenciário, seja,
no dizer de Baratta, do “homem de rua”.4
Este modelo de análise parte da compreensão de que a criminologia é
uma ciência causal-explicativa da criminalidade, assumindo como tarefas,
portanto, a explicação das causas da criminalidade – concebida como um
fenômeno natural – e a necessidade de prever os remédios para combatê-la,

162
sempre segundo um método científico ou experimental e com o auxílio das 5. ANDRADE, Vera Regina. Sistema penal
estatísticas criminais oficiais.
5 máximo x cidadania mínima: códigos da
violência na era da globalização. Porto
Deste modo, na busca das “causas da criminalidade”, uma série de res-
Alegre: Livraria do Advogado, 2003. p. 35
postas podem ser construídas a partir de um método estritamente científico,
como é o caso da afamada teoria desenvolvida por Cesare Lombroso, que afir- 6. Este cientista, partindo de métodos es-
tritamente científicos (observação e exper-
mava a hipótese do criminoso nato, ou seja, de que as causas da criminalidade
imentação) chegou ao resultado de que as
estariam no próprio homem.6 causas da criminalidade estão na própria di-
Portanto, a ideologia da defesa social compreende a criminalidade como mensão anátomo-fisiológica do indivíduo.
uma realidade ontológica anterior ao Direito Penal, cabendo a este apenas Deste modo, a partir da comparação entre
grupos de criminosos e não criminosos ele
identificá-la e positivá-la. Assim, seria possível descobrir as causas do crime e conseguiu construir uma espécie de “man-
colocar a ciência a serviço do seu combate, em defesa da sociedade.7 ual” capaz de identificar criminosos, por
Tendo este raciocínio como premissa básica desta ideologia, é possível exemplo, pelo formato e tamanho de olhos,
nariz, orelhas, membros, etc. Apesar deste
estruturar seu conteúdo a partir de uma série de princípios: 1) princípio da
teoria sofrer inúmeras críticas atualmente,
legitimidade, segundo o qual o Estado, como expressão da sociedade, é o ente é comum a sua reprodução por mecanismos
legitimado para reprimir a criminalidade (defender a sociedade); 2) princípio mais sofisticados como têm feito grupos de
pesquisadores da área de neurociências ao
do bem e do mal, que toma o desvio criminal (crime e criminoso) como o mal,
buscar determinadas disfunções biológicas
enquanto a sociedade constituída é o bem (cidadão de bem); 3) princípio da naturais no cérebro de indivíduos que com-
culpabilidade, para o qual o delito é expressão de uma atitude interior repro- eteram crimes. Ademais, insta ressaltar que
vável contrária a valores sociais mesmo que ainda não transformadas em lei; outras teorias, tidas como mais progressis-
tas, que trabalham a criminalidade a partir
4) princípio da finalidade ou prevenção, que trata a pena como tendo não
de causas sociais (pobreza, por exemplo),
apenas uma função retributiva, mas também uma função de prevenção de ou- partem dos mesmos pressupostos que as
tros crimes, seja pela contramotivação da norma penal em abstrato, seja pelo teses lombrosianas.
processo de ressocialização; 5) princípio do interesse social, segundo o qual
7. ANDRADE, Vera Regina. op. cit. p. 35.
os interesses protegidos pelo direito penal são interesses comuns a todos os
cidadãos, condições essenciais à existência da sociedade.8 8. BARATTA, Alessandro. Criminologia
Um último princípio que deve ser destacado é o (mito) da igualdade. A crítica e crítica do direito penal. 3 ed. Rio
de Janeiro: Revan, 2002. p. 42.
ideologia da defesa social propugna que o direito penal protege igualmente
todos os cidadãos contra as ofensas aos interesses sociais e que a aplicação 9. Ibid. p. 162.
do direito penal é igual para todos, na medida em que quaisquer violadores
das normas jurídicas têm igual chance de se tornarem sujeitos dos processos
de criminalização.9 Ou seja, isso significaria dizer, por exemplo, que ricos e
pobres são igualmente protegidos pelo direito penal e que criminosos de cola-
rinho branco e assaltantes de rua têm as mesmas chances de serem submetidos
aos rigores da lei penal, processual penal e de execução penal.

163
10. Noção da qual deriva a ideia de que a Há alguns anos, no entanto, surgiu no âmbito da sociologia jurídica um
prisão serviria como forma de ressocializar novo paradigma criminológico, orientado pelo método materialista histórico-
o indivíduo com defeitos de socialização.
-dialético, que procurava uma resposta diferenciada aos modelos liberais, tais
como o da defesa social. Neste sentido, construíram-se as teses da chama-
da criminologia crítica, capitaneada, em grande parte, pelo sociólogo italiano
Alessandro Baratta.
A criminologia crítica constrói seu raciocínio não buscando as causas da
criminalidade e suas respostas, mas sim buscando compreender os chamados
processos de criminalização, ou seja, os processos a partir dos quais determi-
nados sujeitos são criminalizados enquanto outros não o são.
Para tanto, deve-se estabelecer a crítica a todos os princípios basilares
à ideologia da defesa social, em especial os da igualdade, do interesse social,
e da culpabilidade. A criminologia crítica tenta, em primeiro lugar, desnatu-
ralizar a noção de crime demonstrando que o modo pelo qual determinadas
condutas são definidas como crime dependem de interesses concretos de classe
e não são simplesmente afrontas aos valores sociais. Ademais, a definição dos
crimes, a aplicação e a execução do direito penal são orientadas por um crité-
rio de seleção desigual dos sujeitos de acordo com seu status social e não por
um princípio de igualdade.
Esta abordagem da criminologia crítica deve-se, em grande parte, à te-
ses construídas pela doutrina do labeling approach, ou etiquetamento. Esta
teoria busca ultrapassar as noções de crime e criminalidade construídas, por
exemplo, a partir da lógica dos “defeitos de socialização”, segundo a qual o
indivíduo infringe uma norma social (natural) por não ter sido suficientemente
ou corretamente socializado.10
A doutrina do labeling approach, por outro lado, não centra suas análises
no comportamento desviante, mas sim no comportamento rotulado como des-
viante. Deste modo, tenta-se perceber que não há nada natural ou intrínseco
a um comportamento que o classifique como antissocial. Nem mesmo o fato
de um comportamento ser considerado um delito pela legislação penal torna
possível a sua classificação como criminoso.
O labeling approach demonstra que importa menos a ação que o status
atribuído à ação ou àquele que age. Assim, por exemplo, ao considerarmos,
lado a lado, uma pessoa que praticou um furto e uma que praticou um crime

164
contra a ordem financeira, o primeiro é rotulado como criminoso ao passo 11. FRADE, Laura. O que o congresso
que o segundo não. Os tratamentos dados pela legislação penal, pelo siste- brasileiro pensa sobre a criminalidade.
2007. Tese (Doutorado em Sociologia).
ma de justiça criminal e pelo cidadão comum são completamente distintos
Departamento de Sociologia, Universida-
nos dois casos. de de Brasília, 2007.
Como exemplo, vale citar a pesquisa realizada por Laura Frade sobre as
12. Ibid. p. 101-102.
representações do legislativo federal brasileiro sobre crime e criminalidade.11
Segundo os dados analisados, a visão dos congressistas é a de que crime está
relacionado com baixa escolaridade, sujeira, inferioridade, indisciplina, deso-
cupação, doença, desordem, etc.
Deste modo, verifica-se que quando pensam em crime, eles não pensam
em crimes de colarinho branco, corrupção, enfim, crimes praticados pela
elite, isso não é rotulado como crime, ainda que esteja previsto em lei. Nas
palavras da pesquisadora:

A baixa instrução figurou como o principal atributo dos criminosos.


Considerando-se que […]: 1) os elaboradores da lei, objeto da amostra,
possuem em sua maioria uma alta instrução; 2) que apenas dois projetos
de lei sobre os “crimes do colarinho branco” foram apresentados duran-
te a legislatura sob exame e que nesses crimes prevalece a atuação de
profissionais graduados e que 3) praticamente nenhuma referência foi
feita nas entrevistas sobre os crimes praticados dentro do próprio Con-
gresso Nacional, é razoável supor que os parlamentares não vinculem
a eles próprios a ideia de criminalidade. Parece haver uma correlação
indireta do crime com as camadas menos favorecidas, não com a elite
– com a qual os parlamentares parecem se identificar. Ou seja, crime é
coisa “de pobre”.12 (grifos nossos)

Fica evidente, portanto, que a caracterização do que seja considerado


crime ou criminalidade depende de uma rotulação, um etiquetamento, daquele
que passa a ser um cliente constante do sistema penal. Por isso, a teoria do
labeling approach é classificada como uma teoria da reação social por buscar
compreender as razões pelas quais a sociedade reage negativamente diante de
determinadas condutas e, especialmente, pessoas.

165
13. BARATTA, Alessandro. Criminologia crí- Neste sentido, Baratta afirma que
tica e crítica do direito penal. 3 ed. Rio de
Janeiro: Revan, 2002. p. 86.
esta direção de pesquisa [labeling approach] parte da consideração de
14. BATISTA, Nilo. Introdução crítica ao di- que não se pode compreender a criminalidade se não se estuda a ação do
reito penal brasileiro. 8 ed. Rio de Janeiro: sistema penal, que a define e reage contra ela, começando pelas normas
Revan, 2002, p. 116.
abstratas até a noção de instâncias oficiais (polícia, juízes, instituições
penitenciárias que as aplicam), e que, por isso, o status social de delin-
quente pressupõe, necessariamente o efeito da atividade das instâncias
oficiais de controle social da delinquência, enquanto não adquire esse
status aquele que, apesar de ter realizado o mesmo comportamento
punível, não é alcançado, todavia, pela ação daquelas mesmas ins-
tâncias.13 (grifo nosso)

Desta maneira, o labeling approach ultrapassa os questionamentos acerca


das causas do crime e dos mecanismos para seu controle e prevenção (defesa
social), para chegar a um debate acerca do modo pelo qual o sistema penal re-
age de maneira diferente conforme o status daquele rotulado como criminoso
(reação social). Como sintetiza Baratta,

Os criminólogos tradicionais examinam o problemas do tipo “quem é


o criminoso?”, “como se torna desviante?”, “em quais condições um
condenado se torna reincidente?”, “com que meios se pode exercer o
controle sobre o criminoso?”. Ao contrário, os interacionistas, como em
geral os autores que se inspiram no labeling approach, se perguntam:
“quem é definido como desviante?”, “que efeito decorre desta definição
sobre o indivíduo?”, “em que condições este indivíduo pode se tornar
objeto de uma definição?” e, enfim, “quem define quem?”.

A partir destas noções, a criminologia crítica percebe que o sistema penal


criminaliza seletivamente determinados grupos sociais. Assim, não é possível
considerá-lo como um sistema que atua de maneira isonômica sobre todas as
pessoas e delitos, ao contrário, ele protege os interesses sociais das classes do-
minantes e também contribui para a reprodução dessa relação – constituindo-
se esta sua verdadeira finalidade, ainda que não declarada14. Neste sentido,

166
Baratta afirma que “o status de criminoso é distribuído de modo desigual en- 15. BARATTA, Alessandro. op. cit. p.162.
tre os indivíduos” e conclui que, contrariamente a toda aparência, “é o direito
16. SANCHES, Samyra Haydêe Dal Farra N.
desigual por excelência”.15 Os direitos humanos como fundamento do
Para a manutenção desta desigualdade, importante esclarecer que o pro- minimalismo penal de Alessandro Baratta.
cesso de criminalização manifesta-se em três momentos: primeiramente cabe in: ANDRADE, Vera Regina Pereira de. (Org.)
Verso e Reverso do Controle Penal: (Des)
ao legislador definir quais os bens que serão tutelados pelo direito penal (cri-
Aprisionando a Sociedade da Cultura Pu-
minalização primária); depois, cabe à polícia selecionar os indivíduos que serão nitiva. Florianópolis: Fundação Boiteux,
submetidos a um inquérito policial e, posteriormente, a um processo penal, ca- 2002. p.16.
bendo ao juiz exercer a mesma seletividade (criminalização secundária); e, por
17. BISSOLI FILHO, Francisco. Punição e di-
fim, operam os mecanismos de execução penal ou das medidas de segurança.16 visão social: do mito da igualdade à reali-
Este processo atua nos campos da quantidade e da qualidade. A seletivi- dade do apartheid social. in: ANDRADE,Vera
dade quantitativa diz respeito ao número de condutas rotuladas como crimino- Regina Pereira de. (Org.). Verso e Reverso
do Controle Penal: (Des)Aprisionando a
sas e ao de autores em relação aos quais é atribuída a condição de criminoso. Já
Sociedade da Cultura Punitiva. Florianó-
a seletividade qualitativa relaciona-se com a não inclusão de todas as condutas polis: Fundação Boiteux, 2002. p.78-79.
socialmente nocivas como criminosas, e com a não classificação de todos os
18. Cf. ANDRADE, Vera Regina. Sistema pe-
sujeitos que praticam atos delituosos como pessoas criminosas (rotulamento).17
nal máximo x cidadania mínima: códigos
Importante ressaltar que, com relação à aplicação e execução da lei pe- da violência na era da globalização. Porto
nal, esta crítica é construída a partir de duas variáveis: 1) a da impossibilidade Alegre: Livraria do Advogado, 2003. e BA-
estrutural de o sistema penal operacionalizar toda programação da lei penal RATTA, Alessandro. Criminologia crítica e
crítica do direito penal. 3 ed. Rio de Janei-
a partir das agências responsáveis por executá-lo (polícia, judiciário, poder
ro: Revan, 2002.
executivo); e 2) diante desta incapacidade os processos de criminalização são
orientados por uma seleção desigual de pessoas segundo seu status social.18
Isso significa dizer que não é possível investigar todos os crimes que
acontecem a todo o momento, e, mesmo se isso fosse possível não seria pos-
sível processar e julgar todos estes casos e, por fim, não seria possível execu-
tar todas estas penas. Diante disso, selecionam-se aqueles que serão clientes
habituais do sistema penal – no caso, a esfera da população das classes mais
baixas, pertencentes à minorias, etc.
Desta forma, o método utilizado pela criminologia crítica permite anali-
sar os mesmos dados cotidianamente divulgados a partir de olhares distintos
daqueles construídos pela ideologia da defesa social. Por exemplo, ao perceber
que a maior parte da população carcerária é composta por negros e pobres ela
não chega à conclusão de que a pobreza ou a cor são “causas do crime” e que,
por isso, as agências penais devem atuar preventivamente sobre estes grupos.

167
19. As reflexões deste tópico foram par- Com este mesmo dado, a sua conclusão é a de que este é o grupo selecionado
cialmente inspiradas no segundo capítulo para ser objeto dos controles penais.
do livro Encarceramento em massa e cri-
Assim, a partir do método da criminologia crítica, buscar-se-á analisar os
minalização da pobreza no Espírito San-
to. Cf. RIBEIRO JUNIOR, Humberto. op. cit. dados sobre o encarceramento no Espírito Santo, notadamente os relativos ao
p. 47 e segs. período do governo de Paulo Hartung (2003-2010), a fim de identificar em que
medida sistema de justiça criminal capixaba atua de maneira desigual sobre os
20. Conforme o Instituto Jones dos Santos
Neves (ISJN), neste ano o índice teria chega- crimes praticados por indivíduos pertencentes às classes vulneráveis.
do a 43,2 homicídios por 100 mil habitantes.

21. WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da


violência 2013: homicídios e juventude
3. O encarceramento em massa no espírito santo:
no Brasil. Rio de Janeiro: CEBELA e FLAC- uma política de aprisionamento diferenciada por cor e classe19
SO, 2013. p. 25. Disponível em: <http://
www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/
[…] mas presos são quase todos pretos
mapa2013_homicidios_juventude.pdf>.
Acesso em: novembro de 2013. Destaca-se Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
que mesmo nestes momentos de “relativa E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
queda”, estamos falando de um número
Caetano Veloso e Gilberto Gil
pelo menos 4,6 vezes maior que o reco-
mendado pela OMS, que seriam 10 homi-
cídios por 100 mil habitantes. Ao menos desde o início da década de 1990, o Estado do Espírito Santo pos-
suía um dos maiores índices de homicídio do Brasil, chegando a seu ápice em
22. Dados produzidos pelo Instituto Jo-
1998 com 58,4 homicídios por 100 mil habitantes. Desde então, poucos foram
nes dos Santos Neves chegaram a apontar
60,11 homicídios por 100 mil habitantes os momentos de “relativa queda”: 1) o primeiro durante o governo de José Ig-
neste mesmo ano. nácio, quando ele foi reduzido a 46,7 20 homicídios por 100 mil habitantes em
2001, mas logo retornando a 51,2 em 2002; 2) o segundo durante o primeiro
mandato do governo de Paulo Hartung, em 2005, chegando a 46,9 por 100
mil; 3) o terceiro no primeiro ano do governo de Renato Casagrande, em 2011,
quando a taxa foi de 47,4.21
Por outro lado, após 2005 a taxa de homicídios chegou a 57,2 por 100
mil em 2009.22 Contudo, se houve certa estabilidade entre 50 e 60 homicídios
por 100 mil habitantes, isso se deu apenas entre a população adulta, pois entre
a população jovem esse índice chegou a absurdos 129,2 em 2009.
No entanto, mesmo que os índices de homicídio tenham quase retornado
aos piores níveis que o Estado já teve nos últimos quinze anos – ou, em outras
palavras, ainda que o problema da criminalidade violenta não tenha sido, ao
menos, amenizado –, a política de segurança pública implantada ao longo do

168
governo de Paulo Hartung e mantida pelo de Renato Casagrande foi respon- 23. A fim de manter a integridade da com-
sável por um aumento exponencial do número de encarcerados no Espírito paração, nesta soma foram excluídos os
presos provisórios sob custódia da Polícia
Santo. Eram 2.920 presos em dezembro de 2002 contra 10.191 em junho de Judiciária, uma vez que esses dados não
2010 23 e 14.733 em dezembro de 2012. eram disponíveis em 2002. O total de en-
Deve-se ressaltar, entretanto que essa expansão do encarceramento teve carcerados em junho de 2010 era de 10.803.

uma clara orientação de classe e de cor. O número absoluto dos encarcerados é


24. WACQUANT, Loïc. Prisões da Miséria.
pobre e cometeram delitos patrimoniais, porém, o mais espantoso foi o aumen- Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 93. ju-
to da população negra e parda nas prisões em uma proporção cada vez maior nho de 2010 era de 10.803.
frente à população branca. Seria possível dizer que houve no Espírito Santo o
25. Ibid. p. 94-95.
que Wacquant chamou de “política de ação afirmativa carcerária”.24
Esta política de encarceramento em massa, gerou, em dez anos, um au-
mento de 5,04 vezes na população carcerária. Contudo, por outro lado, quando
isolamos os presos por cor, verificamos que em dezembro de 2005, no Espírito
Santo havia 2.655 presos de cor negra ou parda, frente a 930 presos de cor
branca, uma proporção de 2,85. Em apenas cinco anos, em dezembro de 2010,
estes números saltaram para 7.596 negros e pardos contra 2.042 brancos, uma
proporção de 3,72. Ou seja, no final do governo Hartung 77,87% da população
carcerária era composta de negros ou pardos, enquanto os brancos represen-
tavam 20,49%. Segundo os últimos dados disponibilizados pelo InfoPen, em
dezembro de 2012 já eram 11.521 presos de cor negra ou parda contra 3.008
de cor branca: uma proporção de 3,83.
Diante disso, vale a pena rememorar Wacquant quando ele diz, a partir
da realidade norte-americana, ser possível afirmar que há uma política de cri-
minalização orientada por padrões de cor/etnia.

Com efeito, o aumento rápido e contínuo da distância entre brancos e


negros não resulta de uma súbita divergência em sua propensão a co-
meter crimes e delitos. Ele mostra acima de tudo o caráter fundamental-
mente discriminatório das práticas policiais e judiciais implementadas
no âmbito da política “lei e ordem” das duas últimas décadas.25

Ademais, nota-se que entre dezembro de 2005 e junho de 2009 o au-


mento da população negra e parda encarcerada dava-se a uma média de 410
presos por semestre (820 por ano). No entanto, apenas entre dezembro de 2009

169
26. Dados do InfoPen. e junho de 2010 houve um salto súbito de 1.923 novos negros e pardos presos.
Neste mesmo período, a população carcerária branca aumentou em 336, uma
27. MANSO, Bruno Paes. Entre o crime or-
diferença proporcional de 5,72 vezes.26
ganizado e crack. Estadão. São Paulo, 08
novembro 2009. Notícias. Disponível em: Curioso que neste mesmo semestre os únicos crimes que tiveram um au-
<http://blogs.estadao.com.br/crimes-no- mento numérico tão grande como o total de encarceramentos foram aqueles
-brasil/tag/rodney-miranda/> Acesso em:
relacionados ao tráfico de entorpecentes. Este havia se tornado o principal foco
outubro de 2010.
da política de segurança pública capixaba da época, como mostra uma entre-
vista concedida em novembro de 2009 pelo então secretário Rodney Miranda:

No primeiro governo de Paulo Hartung, nós tivemos que combater a


violência urbana, mas tivemos que doar muito da nossa energia até para
fazer a reconstrução do Estado e da política de segurança. A gente não
pode esquecer do crime organizado, até porque tem muita gente que
enriqueceu do patrimônio público que ainda frequenta colunas sociais
por aqui. Mas o nosso maior desafio é o mesmo que o do resto do Brasil,
o problema do crack, da violência entre jovens e é para isso que está
voltado nosso trabalho.27

O resultado dessa política foi que entre dezembro de 2009 e junho de


2010, enquanto o número de encarcerados por todos os tipos de delitos perma-
neceu praticamente estável, houve um aumento de 1.076 pessoas presas por
crimes relacionados a entorpecentes (Lei 11.343/2006).
Note-se que no período o índice de presos por crimes contra a pessoa au-
mentou 3,8%, enquanto o de presos por crimes sexuais chegou a reduzir 11,8%
– que são os crimes considerados os mais violentos pelo senso comum. Até
mesmo os crimes patrimoniais, que sempre foram o maior percentual dentre
todos, tiveram um aumento de apenas 1% e foram numericamente superados
pelos crimes envolvendo entorpecentes.
Estes dados já evidenciam, como há uma forte orientação seletiva para
o tipo de delito que é punido com a pena de prisão. Os maiores índices são
de crimes patrimoniais, que representam 37% e 33% do total em 2009 e
2010, somente sendo superados pelos crimes relacionados à Lei de Drogas
(11.343/2006), que representam 29% e 34% no mesmo período.

170
Somando-se os percentuais de crimes contra a pessoa e crimes contra os 28. MACHADO, Nara Borgo Cypriano. Usu-
costumes, não se chega a 20% dos detentos em 2010. Crimes contra a adminis- ário ou traficante? a seletividade penal na
nova Lei de Drogas. In: Anais do XIX Encon-
tração pública chegam a 0,65% do total neste mesmo ano.
tro Nacional do Conpedi, Fortaeza, 2010.
No entanto, é sintomático o fato de que sejam os crimes da Lei de Florianópolis: Fundação Boiteaux, 2011.
Drogas que sofreram maior crescimento no período em que houve o maior Disponível em: < http://www.conpedi.org.
br/manaus/arquivos/anais/fortaleza/3836.
crescimento da população negra e parda. Segundo análises recentes, como
pdf>. p. 1098-1111.
da pesquisadora Nara Borgo C. Machado,28 a Lei 11.343/06 introduziu uma
nova dinâmica no trato aos crimes de uso e de tráfico de drogas que se 29. Previsto no artigo 33, caput, é carac-
orienta com mais clareza para uma punição desigual das classes sociais terizado pelas seguintes condutas: impor-
tar, exportar, remeter, preparar, produzir,
mais altas e baixas. fabricar, adquirir, vender, expor à venda,
Uma das novidades da nova Lei de Drogas (11.343/06) teria sido a sua oferecer, ter em depósito, transportar, tra-
aparente descriminalização do uso de drogas. Ao menos não há para este a zer consigo, guardar, prescrever, ministrar,
entregar a consumo ou fornecer drogas,
pena privativa de liberdade, pois como afirma o art. 28, caput, e § 1º:
ainda que gratuitamente, sem autorização
ou em desacordo com determinação legal
Art. 28.  Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou ou regulamentar.
trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em
30. Deve-se ressaltar que, por meio da
desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às Resolução 05/2012, publicada em 16 de
seguintes penas: fevereiro de 2012, o Senado Federal sus-
I - advertência sobre os efeitos das drogas; pendeu a execução da expressão “vedada a
conversão em penas restritivas de direitos”,
II - prestação de serviços à comunidade;
contida no parágrafo 4º do artigo 33 da
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. Lei 11.343/06. Isso ocorreu em virtude da
§ 1o  Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, decisão pela inconstitucionalidade do dis-
positivo concedida pelo Supremo Tribunal
semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena
Federal no Habeas Corpus 97.256/RS. Por-
quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência fí- tanto, a afirmação contida neste parágrafo
sica ou psíquica. se restringe ao período em tela.

Por outro lado, o tratamento dado ao crime de tráfico de drogas29 se agra-


vou, pois com o aumento da pena mínina de 3 para 5 anos houve a impossibi-
lidade de imposição de penas restritivas de direitos, por exemplo.30
Porém, o grande problema da nova lei foi a introdução, por meio do arti-
go 28, § 2º, da regra que o juiz deverá seguir para determinar se a droga apre-
endida destinava-se a consumo pessoal ou não. De acordo com o dispositivo,

171
31. MACHADO, Nara Borgo Cypriano. Usu- Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz aten-
ário ou traficante? a seletividade penal derá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às
na nova Lei de Drogas. In: Anais do XIX
condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pes-
Encontro Nacional do Conpedi, Fortaeza,
2010. Florianópolis: Fundação Boiteaux, soais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. (grifos nossos)
2011. Disponível em: < http://www.conpe
di.org.br/manaus/arquivos/anais/fortale
Desta forma, a lei reforça a tese de que, mais do que simplesmente a
za/3836.pdf> p. 1104.
quantidade de substância proibida, importa a classe social do agente. Afinal,
32. ZACCONE, Orlando. Acionistas do uma mesma quantidade de droga apreendida na casa de uma pessoa de classe
nada: quem são os traficantes de drogas. média e de uma pessoa de classe pobre poderá provocar um tratamento bem
Rio de Janeiro: Revan, 2007. p. 19-20.
distinto. Não é à toa que, como afirma Nara Machado,

Pode parecer, a princípio, que a nova legislação trouxe benefícios para


aqueles que são apenas usuários, pois o consumo de drogas não pode
mais conduzir ninguém ao cárcere. Entretanto, quando verificamos os
mecanismos de criação de estereótipos de “traficantes”, de controle
punitivo das classes sociais mais baixas, consideradas perigosas, e de
repressão bélica ao tráfico de drogas, percebemos que aqueles consi-
derados “perigosos”, mesmo que estejam apenas fazendo uso de droga
ilícita, serão submetidos à pena de prisão.31

A prática policial confirma essa tese. Orlando Zaccone, delegado de po-


lícia, transcreve em sua dissertação de mestrado sua experiência e mostra que

[…] um delegado do meu concurso, lotado na 14 DP (Leblon), autuou,


em flagrante, dois jovens residentes na zona sul pela conduta descrita
para usuário, porte de droga para uso próprio, por estarem transpor-
tando, em um veículo importado, 280 gramas de maconha […], o que
equivaleria a 280 “baseados” […] o fato de os rapazes serem estudantes
universitários e terem emprego fixo, além da folha de antecedentes cri-
minais limpa, era indiciário de que o depoimento deles, segundo o qual
traziam a droga para uso próprio, era pertinente.32

Este relato confirma como, na prática, o que importa não é a quantidade


de substância entorpecente apreendida, mas as outras circunstâncias (sociais)

172
que envolvem o delito. Como demonstra a pesquisa “Tráfico e Constituição, 33. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Tráfico e
um estudo sobre a atuação da Justiça Criminal do Rio de Janeiro e do Distrito Constituição, um estudo sobre a atuação
da Justiça Criminal do Rio de Janeiro e do
Federal no crime de drogas”, nas varas criminais do Distrito Federal, quase Distrito Federal no crime de drogas. Dis-
70% dos processos referem-se a presos com quantias inferiores a 100 gramas ponível em: <http://goo.gl/pOGTy7> Aces-
de substância proibida. No Rio de Janeiro, esse índice é de 50%.33 so em: outubro de 2013.

Ademais, nesta pesquisa, a partir de uma análise dos processos do Supe-


34. Ibid. s/n.
rior Tribunal de Justiça, verificou-se que
35. Estimativas obtidas com base na Pes-
[…] 67% dos réus estavam nas seguintes condições: a maioria é réu pri- quisa nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD) de 1998 e 2008 e consolidadas pelo
mário, com bons antecedentes, estava desarmada na ocasião da prisão Instituto Jones dos Santos Neves.
em flagrante e não integrava organizações criminosas.34
36. ANDRADE, Vera Regina. Sistema penal
máximo x cidadania mínima: códigos da
Em suma, o crescimento vertiginoso do aprisionamento no Espírito Santo
violência na era da globalização. Porto Ale-
em virtude dos crimes que envolvem a Lei 11.343/2006 pode ser um indício gre: Livraria do Advogado, 2003, p.52.
das razões pelas quais o número de negros e pardos encarcerados está cada vez
maior. Afinal, existe um dado socioeconômico importante no que diz respeito
a essa parcela da população capixaba.
Na esteira de um fenômeno nacional, houve, no Espírito Santo, uma drás-
tica redução do número de pobres: em 1998, 29% da população era considerada
pobre, ao passo que, em 2008, 15% da população se encontrava nesta condição.35
Todavia, ainda que neste período a proporção da população branca e
negra tenha permanecido exatamente a mesma (44% e 56%, respectivamente),
a razão entre o percentual de negros pobres e brancos pobres aumentou de
1,71 para 1,9 nestes dez anos. Em outras palavras, é possível dizer que, durante
este período, a redução da pobreza não atingiu de maneira equânime todas as
cores/etnias, assim como aconteceu com a política criminal.
Neste sentido, é possível confirmar as teses propostas pela criminolo-
gia crítica e afirmar que os processos de criminalização são dão de manei-
ra seletiva atingindo prioritariamente os indivíduos das classes sociais mais
desfavorecidas. Como afirma Vera Regina P. Andrade, “a clientela do sistema
penal é composta, ‘regularmente’, em todos os lugares do mundo, por pessoas
pertencentes aos mais baixos estratos sociais” e isso “é resultado de um pro-
cesso de criminalização altamente e seletivo e desigual de ‘pessoas’ dentro da
população total, às quais se qualifica como criminosos”.36

173
Desta forma, se o sistema penal é orientado por uma aplicação desigual
da lei penal e das penas de prisão, uma discussão que deve ser feita é em que
medida esta prática da penalização está de acordo ou não com os princípios de
direitos humanos e se existem alternativas à essa prática da violência punitiva
institucionalizada.

4. O sistema penal e as sistemáticas violações aos Direitos Humanos


e os Direitos Humanos como limite da lei penal

A partir do marco da criminologia crítica e tomando como referência


o exemplo privilegiado das políticas de segurança pública e penitenciárias
do Espírito Santo na última década, foi possível perceber como realmente a
prática concreta dos processos de criminalização e punição não correspondem
àquele ideário construído pela lógica da defesa social.
O sistema penal não funciona para reprimir a criminalidade, não visa
punir atitudes socialmente prejudiciais, não previne a prática de novos cri-
mes, nem protege bens jurídicos tidos como importantes para toda a so-
ciedade e, muito menos, protege ou atinge a todos igualmente. Antes, este
sistema funciona seletivamente como um instrumento de proteção e repro-
dução das relações de dominação de classe. Ou seja, vimos, acima de tudo,
que o sistema penal opera desigualmente tendo em vista o status social do
autor da conduta.
Portanto, se fizermos uma análise mais detida deste fenômeno, perce-
beremos que, uma vez operando seletivamente, tal como comprovamos nas
páginas anteriores, a conclusão inevitável a que chegamos é a de que o siste-
ma penal, tal como operado em sua prática cotidiana, se constitui como um
instrumento de violação sistemática dos Direitos Humanos, especialmente com
aqueles relacionados com os limites da intervenção estatal sobre a esfera da
vida e da liberdade do indivíduo.
A título de exemplificação inicial podemos ver três princípios básicos
sendo sistematicamente violados: o princípio da igualdade, na medida em que
o sistema atua desigualmente sobre os indivíduos de acordo com sua classe
social; da legalidade, na medida em que, ao perseguir diferencialmente os in-

174
divíduos em função de seu status social e não de sua conduta, percebe-se que 37. SANCHES, Samyra Haydêe Dal Farra N.
a função punitiva se realiza fora do direito e não de acordo a lei anterior que Os direitos humanos como fundamento do
minimalismo penal de Alessandro Baratta.
define o crime; e o princípio do devido processo legal, na medida em que o
in: ANDRADE, Vera Regina Pereira de. (Org.)
criminoso será definido a partir de seus aspectos físicos, seu local de moradia, Verso e Reverso do Controle Penal: (Des)
de circulação, sem qualquer cuidado com o direito de defesa, de produção de Aprisionando a Sociedade da Cultura Pu-
nitiva. Florianópolis: Fundação Boiteux,
provas, ou, muito menos, de garantia de um julgamento justo.
2002. p. 19
Em suma, isso demonstra, a violação direta de, pelo menos, quatro arti-
gos da Declaração Universal dos Direitos Humanos: o artigo VII, que garante 38. BARATTA, Alessandro. Princípios do di-
a igualdade perante à lei e a proteção contra qualquer discriminação; o artigo reito penal mínimo: para uma teoria dos
direitos humanos como objeto e limite da
IX, que proíbe a prisão arbitrária; o artigo X, que garante um julgamento jus- lei penal. Tradução de Francisco Bissoli Fi-
to, igualitário e realizado por um tribunal independente e imparcial; e o artigo lho. mimeo. Disponível em: <http://goo.gl/
XI, que garante a presunção de inocência e a reserva legal. YCcsdu>. Acesso em: novembro de 2013.

É possível afirmar, portanto, que submetendo a noção de direitos huma-


nos à análise do sistema penal em sua estrutura de funcionamento concreto,
percebe-se que este atua muito mais como um sistema de violação dos direitos
humanos do que como um sistema de tutela dos mesmos. Como bem resume
Samyra Sanches,

A violação dos direitos humanos pelo sistema penal se dá de várias


formas. A pena revela-se como uma violência institucional, no sentido
de que reprime as necessidades básicas do ser humano. Através dos fins
úteis que as teorias utilitárias da pena declaram que ela cumpre, preten-
dem as mesmas justificar tal repressão. Com os estudos da Criminologia
crítica sobre o fracasso da pena de prisão quanto aos seus declarados
fins úteis, a pena revela-se, porém, como violência inútil com relação
aos fins de prevenção geral e especial. Por outro lado, a violação aos
direitos humanos apresenta-se mais evidente se considerarmos que a
maior parte dos casos de prisão ocorre com indivíduos que ainda nem
receberam sentença condenatória. […] Podemos ainda acrescentar, ao
rol de violências cometidas pelo sistema penal, aquelas que, violando o
princípio liberal da reserva legal e de todos os seus derivados, violam
também os Direitos Humanos, tais como penas de morte extrajudiciais,
torturas, desaparecimentos, linchamentos, cometidas por policiais, mili-
tares, esquadrões da morte, etc.37

175
39. Ibid. p. 4-5.
Atento a essas questões, o criminólogo crítico Alessandro Baratta, em um
artigo intitulado Princípios do direito penal mínimo: para uma teoria dos direi-
tos humanos como objeto e limite da lei penal,38 tenta debater esta crise do siste-
ma penal e, a partir do marco dos direitos humanos, procura apontar alguns ca-
minhos que possam ser trilhados a curto e médio prazo em busca de superá-la.
Com este objetivo, inicialmente o autor resgata os resultados de suas
pesquisas para demonstrar que o sistema penal é absolutamente incapaz de
cumprir as funções declaradas por seu discurso oficial (baseado na ideologia
da defesa social, tal como discutimos anteriormente). Em seguida, ele constrói
uma forma de pensar os fundamentos de uma política criminal orientada pelos
direitos humanos.
Deste modo, ele verifica que se analisados os sistemas punitivos em suas
manifestações empíricas, em sua organização e em suas funções reais, algumas
constatações básicas podem ser alcançadas: 1) a pena é uma violência institu-
cional; 2) os órgãos que atuam na organização da justiça criminal (judiciário,
legislativo, órgãos de execução e investigação) não tutelam interesses comuns da
sociedade, mas de grupos dominantes e socialmente privilegiados; 3) o funciona-
mento da justiça penal é altamente seletivo, seja na proteção dos bens jurídicos,
nos processos de criminalização e aprisionamento; 4) o sistema punitivo produz
mais problemas do que procura resolver, uma vez que reprimem e agravam as
relações de conflito existentes, além de criar outras; 5) ele é absolutamente ina-
dequado para desenvolver as funções socialmente úteis declaradas em seu dis-
curso oficial – sendo uma violência útil apenas do ponto de vista da reprodução
do sistema social existente e da manutenção das relações de poder e produção.39
Diante disso, torna-se possível dizer que o sistema punitivo aparece
como um suporte importante da violência estrutural. Desta forma, lutar con-
tra esta violência estrutural e, portanto, afirmar os direitos humanos é lutar
contra o modo pelo qual a prática punitiva se dá atualmente. Nas palavras de
Alessandro Baratta,

A luta pela contenção da violência estrutural é a mesma luta pela afir-


mação dos direitos humanos. Com efeito, em uma concepção históri-
co-social, esses assumem um conteúdo idêntico ao das necessidades

176
reais historicamente determinadas […]. Desprendem-se daqui duas con- 40. Ibid. p. 5.
seqüências: a primeira é que uma política de contenção da violência
41. Neste sentido se encaixa a discussão
punitiva é realista só se inserida no movimento para a afirmação dos
contra a chamada “esquerda punitiva”, no
direitos humanos e da justiça social. Pois, definitivamente, não se pode sentido dado por Maria Lúcia Karan, que
isolar a violência concebida como violência institucional da violência busca sempre a criminalização de condutas
e o recurso ao sistema penal como forma
estrutural e da injustiça das relações de propriedade e de poder, sem
de aparente garantia de liberdades. A crí-
perder o contexto material e ideal da luta pela transformação do sistema tica feita é a de que, na medida em que o
penal, reduzindo-a a uma batalha sem saída nem perspectivas de êxito sistema penal atua seletivamente reprodu-
[…]. A segunda conseqüência é que as possibilidades de utilizar alter- zindo as relações de poder instauradas na
sociedade, ele não apenas não irá prote-
nativamente os instrumentos tradicionais da justiça penal para a defesa
ger essas liberdades como poderá produzir
dos direitos humanos são sumamente limitadas.40 novas violações pelo seu uso. Cf. KARAM,
Maria Lúcia. Esquerda punitiva. Discursos
Sediciosos, Rio de Janeiro, ano 01, vol. 01,
Portanto, devemos compreender que, não apenas é equivocado utilizar
p. 79-82, jan-jun, 1996.
os instrumentos da justiça penal para a defesa dos direitos humanos,41 como é
imperioso que a violência punitiva seja contida e limitada pelos princípios de 42. SANCHES, Samyra Haydêe Dal Farra N.
Os direitos humanos como fundamento do
direitos humanos, ante o reconhecimento da impossibilidade concreta de sua
minimalismo penal de Alessandro Baratta.
abolição a curto ou médio prazo. in: ANDRADE, Vera Regina Pereira de. (Org.)
Diante dessas questões, no texto já citado, Alessandro Baratta busca Verso e Reverso do Controle Penal: (Des)
resgatar a primazia dos direitos humanos como fundamento de uma política Aprisionando a Sociedade da Cultura Pu-
nitiva. Florianópolis: Fundação Boiteux,
criminal alternativa que consiga conter e limitar a violência punitiva do Esta-
2002. p. 17.
do. Desta maneira, ele afirma a estratégia de uma mínima intervenção penal
orientada pelo respeito aos direitos humanos no marco do processo penal e da
execução da pena. Como explica Samyra Sanches,

A tarefa da política criminal de direito penal mínimo é ao mesmo tempo


preparar a transformação do sistema penal, inclusive do seu discurso
oficial, legitimado entre outras instâncias pela dogmática jurídico pe-
nal; e a sua utilização como um instrumento para conter a violência
com que manifesta o seu exercício de poder, enquanto o ideal abolicio-
nista não é alcançado.42

Neste sentido, Baratta organiza e desenvolve uma série de princípios-guia


para a superação e transformação do sistema penal tradicional em um sistema
penal de defesa e garantia dos direitos humanos. São eles os seus princípios do

177
43. BARATTA, Alessandro. Princípios do di- direito penal mínimo que se constituem, na verdade, em requisitos mínimos de
reito penal mínimo: para uma teoria dos respeito aos direitos humanos na produção, aplicação e execução da lei penal.
direitos humanos como objeto e limite da
Como nosso objetivo neste trabalho não é reconstruir detalhadamente to-
lei penal. Tradução de Francisco Bissoli Filho.
mimeo. Disponível em: <http://goo.gl/YCcs das as teses de Alessandro Baratta, indicaremos alguns desses princípios que en-
du>. Acesso em: novembro de 2013. p. 6. tendemos ser mais relevantes para a transformação deste sistema penal que em
sua forma atual se mostra como um violador sistemático dos direitos humanos.
44. BARATTA, Alessandro. op. cit. p. 7.
Diante dessas considerações, o primeiro passo para um programa de li-
45. BARATTA, Alessandro. op. cit. p. 8. mitação formal da violência punitiva implica em submetê-la ao princípio da
estrita legalidade, sendo assim, toda a violência punitiva deve ser restrita ao
46. BARATTA, Alessandro. op. cit. p. 9.
âmbito da lei, submetendo todas as “punições extralegais” e excessos come-
tidos pelo sistema penal às sanções correspondentes, sejam elas penais, civis,
administrativas, disciplinares, etc.43
Além disso, estas garantias contidas no princípio da legalidade devem
ser estendidas à situação do indivíduo em cada um dos subsistemas em que se
divide o sistema penal na forma de um princípio do primado da lei penal subs-
tancial. Assim, diante da ação da polícia, dentro do processo e da execução da
pena, a limitação dos direitos dos indivíduos não pode superar as restrições
previstas taxativamente pela lei penal para os delitos de que pode ser suspeito,
imputado ou condenado. Neste sentido, por exemplo, não se poderia permitir a
prisão processual de um indivíduo acusado de um crime cuja condenação não
acarretaria pena de prisão.44
Alguns princípios também deveriam restringir a própria produção da lei
penal. Desta forma, Baratta afirma um princípio de representação popular que
garanta a participação popular na formação da vontade legislativa, bem como
um princípio da resposta não contingente que garanta que a lei penal não seja
uma resposta imediatista problemas aparentes, mas um ato solene de resposta aos
problemas sociais fundamentais que se apresentam como gerais e duradouros em
uma sociedade – o que significa a proibição de uma legislação penal de emer-
gência ou de um populismo punitivo, como frequentemente se faz na prática.45
Outro limite à legislação penal diz respeito aos seus conteúdos. Para
Baratta, somente graves violações aos direitos humanos podem ser objeto de
sanções penais, sendo as penas proporcionais ao dano causado pela violação.
Este seria o princípio da proporcionalidade abstrata, uma das bases fundamen-
tais para um direito penal mínimo.

178
Ele deve ainda andar lado a lado com o princípio da subsidiariedade, 47. BARATTA, Alessandro. op. cit. p. 13.
segundo o qual uma pena só pode ser cominada se for possível provar que não
48. BARATTA, Alessandro. op. cit. p. 13.
existem outros meios não-penais de responder a tais situações de violação dos
direitos humanos.46
Ademais, por mais que a crítica rasa do senso comum normalmente rela-
cione este tipo de proposta com uma ausência de preocupação com a vítima,
dentre os princípios elencados por Baratta, um dos mais importantes é justa-
mente o princípio do primado da vítima. Porém de maneira oposta à lógica pu-
nitivista de “estatização e generalização do direito à vingança”, este princípio
orienta-se pela ideia de que seria injustificada a pretensão do sistema penal de
tutelar interesses gerais que vão além dos da vítima. E mais, o caminho propos-
to é o da privatização dos conflitos, procurando formas de restabelecer ao má-
ximo a condição anterior conturbada pelo delito. Nas palavras do próprio autor,

Substituir, em parte, o direito punitivo pelo direito restitutivo, outorgar


à vítima e, mais em geral, a ambas as partes dos conflitos individu-
ais maiores prerrogativas, de maneira que possam estar em condições
de restabelecer o contato perturbado pelo delito, assegurar em maior
medida os direitos de indenização das vítimas são algumas das mais
importantes indicações para a realização de um direito penal da mínima
intervenção e para lograr diminuir os custos sociais da pena.47

Com relação à responsabilização penal dos agentes, Baratta indica um


princípio fundamental e extremamente violado no contexto atual da prática
do sistema penal, qual seja, o princípio da responsabilidade pelo fato. Segundo
este princípio, a responsabilidade penal do imputado não pode derivar de suas
características pessoais, mas deve derivar unicamente de

[…] um tipo de delito previsto pela lei e imputável a um ato voluntário,


do qual o autor haja sido capaz de entender seu sentido social, e em caso
de sujeitos que superem a idade mínima estabelecida pela lei.48

Assim, não pode haver nenhuma consequência penal ou medida de inter-


nação coativa que seja derivada da periculosidade social do agente ou de uma

179
conduta criminal daqueles não imputáveis legalmente. Seja o caso daqueles
atualmente submetidos aos “manicômicos judiciais” das medidas de seguran-
ça, sejam as crianças e adolescentes não imputáveis criminalmente, sejam os
usuários de drogas submetidos às internações compulsórias.
Esses são alguns dos princípios elencados por Alessandro Baratta com
vistas à construção de um direito penal mínimo que respeite os direitos hu-
manos e contenha a violência punitiva. Isso significaria um empreendimento
radical de transformação do sistema penal e da sociedade moderna no sentido
de inverter, ao máximo, a lógica vigente em nossas sociedades atuais de um
sistema penal que funciona como um violador sistemático de direitos humanos
em um sistema que seja orientado por sua garantia.
Porém, ressalte-se que, mesmo se tratando de uma proposta radical, ten-
do em vista nossa realidade concreta, ela ainda é considerada uma das etapas
necessárias – e factíveis a curto e médio prazo – para criar as condições neces-
sárias para a abolição radical do sistema penal.

5. Considerações finais

O objetivo inicial deste trabalho era o de tentar compreender, a partir


dos marcos da criminologia crítica e dos dados recolhidos no contexto das
políticas de segurança e penitenciárias capixabas, como se dão os processos
de criminalização e aprisionamento dos indivíduos e como isso pode ser visto
como um instrumento de violação sistemática dos direitos humanos.
Desta maneira, partindo das lições do labeling approach e da criminolo-
gia crítica, demonstramos como a definição dos crimes, a aplicação e execução
da lei penal são orientadas por um critério de seleção desigual dos indivíduos
de acordo com seu status social. Neste sentido, o sistema penal serve para
controlar as classes menos favorecidas, protegendo os interesses das classes
dominantes e reproduzindo, em sua prática, esta relação de dominação.
Isto pôde ser comprovado a partir dos dados do encarceramento no Espírito
Santo na última década. Restou demonstrado, a partir do cruzamento dos dados
do aprisionamento com os indicadores sociais e com os processos de produção
da lei penal, como a lógica do aprisionamento se direciona especificamente para

180
a população negra e pobre, envolvida majoritariamente em delitos patrimoniais
e, mais recentemente, em crimes relacionados ao comércio ilegal de drogas.
Portanto, concluímos que a prática concreta do sistema de justiça cri-
minal não apenas se afasta completamente de seus princípios legitimadores,
como se manifesta na forma de um um mecanismo que promove violações
sistemáticas aos mais basilares princípios de direitos humanos.
Diante disso, como uma forma de apontar caminhos alternativos recor-
reu-se às teses do criminólogo crítico Alessandro Baratta em sua proposta de
construção de um direito penal de mínima intervenção fundamentado nos
princípios de direitos humanos. Esta, para ele, seria a melhor alternativa para,
a curto e médio prazo, transformar as práticas de criminalização seletivas e
desiguais do sistema penal e conter a violência punitiva estatal.
Esta transformação gradativa permitiria a busca de mecanismos alter-
nativos ao intervencionismo repressivo do sistema penal que fossem mais de-
mocráticos, igualitários, criativos e, acima de tudo, mais direcionados para o
respeito aos direitos humanos e para a solução real dos conflitos – em vez de
servir ao seu reforço e reprodução.

181
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183
Nara Borgo
Advogada. Mestre em Direito. Especialista em Direito Penal Econômico pela
Universidade de Castilla – La Mancha – Toledo, Espanha. Especialista em Di-
reito Penal pela Universidade Nacional de Mar del Plata - Argentina. Profes-
sora da Faculdade de Direito de Vitória.

11
DIREITOS HUMANOS:
COMO IDENTIFICAR SUAS VÍTIMAS E SEUS VIOLADORES

Nara Borgo

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo analisar a quem se dirigem os direitos


humanos e quem pode ser responsabilizado internacionalmente por violar
tais direitos.
Para tanto, serão feitos breves comentários sobre educação em direitos
humanos no Brasilcom a finalidade de compreender como a falta de informa-
ção faz com que grande parte da população desconheça seus direitos e, com
isso, não consiga identificar as vítimas e os violadores de direitos humanos.
No que se refere às vítimas, busca-se demonstrar em que medida não
podem ser confundidas com as vítimas de crimes praticados por aqueles que
não são agentes estatais, bem como visa esclarecer que qualquer pessoa pode
sofrer violação de direitos humanos.
Nesse passo, procura analisar a responsabilidade do Estado por violação
de direitos humanos e, ainda, quais seriam as obrigações estatais no sentido de
promover e respeitar tais direitos.
Para melhor compreensão do tema, o artigo faz uso de casos brasileiros
submetidos à Comissão e à Corte Interamericana de Direitos Humanos para as-
sim fazer breves comentários a respeito do Sistema Interamericano de Direitos
Humanos e contextualizar o tema aqui proposto.

2. EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NO BRASIL: BREVES


COMENTÁRIOS

A Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH), datada de 1948, estabe-


leceque os Estados-Membros se esforcem, por meio do ensino e da educação,
a promover o respeito aos direitos humanos.

185
1. DORNELLES, João Ricardo W. O que são Apesar do Brasil ser signatário da DUDH, aqui, “como no resto da Amé-
direitos humanos. São Paulo: Brasiliense, rica Latina, não existe uma arraigada tradição cultural de valorização dos
2006, p. 45.
direitos humanos”1.
2. Ibid, p. 47. Podemos afirmar que a atenção aos problemas gerados em virtude de
violações de direitos humanos no Brasil só foi “despertada” com as lutas opo-
3. LACERDA, Áurea Santos; FIDELIS, Vera
sicionistas aos regimes de exceção.
Lucia Chieppe. O que é educar em Direitos
Humanos? In: VELTEN, Paulo (Org). Educa- Não que não houvesse violação de direitos humanos antes da ditadu-
ção em Direitos Humanos II. Vitória: Uni- ra militar e que muitos movimentos não tivessem se levantado contra tais
versidade Federal do Espírito Santo, Núcleo opressões. Ao contrário, sempre houve quem lutasse por direitos humanos no
de Educação Aberta e à Distância, 2013, p.
123.
Brasil mas, segundo diversos doutrinadores, a questão dos direitos humanos
se tornou “ordem do dia”quando os movimentos sociais, contrários ao regime
militar, passaram a confrontar “um tipo de poder político que violentava siste-
maticamente os direitos mais elementares da pessoa humana”2.
Nesse sentido as lições de Lacerda e Fidélis3 que ensinam-nos que:

No Brasil a Educação em Direitos humanos já está em pauta há alguns


anos; segundo Ana Klein (2011), iniciou-se por processos informais im-
pulsionada por movimentos sociais que lutavam contra a ditadura militar.
A retomada da democracia e a Constituição (1988) fortaleceram o pro-
cesso de construção da EDH com a adoção de uma série de dispositivos.

Apesar de terem se tornado “ordem do dia” antes mesmo da Constitui-


ção de 1988, ainda enfrentamos desafios no tange à educação e garantia dos
direitos humanos, principalmente por faltar informação à grande parte da so-
ciedade, que desconhece o que sejamdireitos humanos.
É preciso lembrar que educar em direitos humanos não é uma tarefa fácil
pois, seguindo as lições de Fabriz, “Educar para uma vida em dignidade signi-
fica educar para além das teorias e práticas clássicas que nortearam os direitos
humanos”. E, continua o doutrinador:

Faz-se necessário aliar uma nova teoria para novas práticas, tendo por
finalidade a promoção de todos e todas aos bens (educação, vida, saúde,
meio ambiente ecologicamente equilibrado, segurança, assistência etc.)

186
para uma vida em liberdade e dignidade. Para além das lutas jurídicas, 4. FABRIZ, Daury Cesar. Fundamentos His-
também as lutas políticas em busca desses bens e direitos .
4 torico-Filosófico da EDH. In: VELTEN, Paulo
(Org). Educação em Direitos Humanos.
Vitória: Universidade Federal do Espírito
Por fim, como ensinam Áurea Santos Lacerda e Vera Lúcia Fidellis5: Santo, Núcleo de Educação Aberta e á Dis-
tância, 2011, p. 58-59.

Educar em DH então pode ser entendido como levar os indivíduos a


5. LACERDA, Áurea Santos; FIDELIS, Vera
percepção que todos têm direitos à vida, saúde, educação, à segurança, Lucia Chieppe, op. cit. p. 123.
a assistência, dentre outros. Educar numa cultura de integração – va-
lorizar os movimentos sociais e lutas pelas causas de forma coletiva e 6. DORNELLES, João Ricardo W. op. cit. p. 58.

não individualmente.

Apenas com educação em direitos humanos poderemos avançar no sen-


tido de construir uma sociedade livre e mais justa, fazendo com que todos
conheçam seus direitos, mas essa educação, como mencionado acima, deve
extrapolar os limites jurídicos.

3. A quem se dirigem os direitos humanos?

Apesar dos esforços no sentido da promoção da educação em direitos huma-


nos, muitas pessoas não sabem quem são os destinatários desses direitos e,
muitas vezes, não compreendem quecabe aos Estados seguirem valores e re-
gras de cunho universal no sentido de garantir e promover direitos humanos,
a todos, de forma igualitária.
Por isso, quando se trata da promoção e defesa dos direitos humanos
ainda temos que lidar com a falta de informação existente com relação a que
são direitos humanos, quem são as vítimas e quem pode violar tais direitos.
Além da desinformação, a promoção dos direitos humanos se torna
mais difícil na medida em que foi criada uma falsa imagem de que os de-
fensores de direitos humanos são defensores de “bandidos”, que contribuem
para a impunidade.
Assim, é possível perceber que há um preconceito com relação aos defenso-
res de direitos humanos, preconceito este muitas vezes estimulado pela mídia que

187
frequentemente usa imagens e frases de efeito no sentido de transmitir a ideia
equivocada de os direitos humanos são destinados apenas a quem comete crimes.
Sobre o preconceito existente com relação à proteção dos direitos huma-
nos, acertadas são as palavras de Dornelles6, ao afirmar que:

Divulga-se a ideia de que a proteção dos direitos individuais e coletivos


para toda população e o pleno exercício da cidadania constituem um
meio de estímulo ao crime, de privilégio aos bandidos e de “boa vida”
aos presos. Como se esta fosse a realidade vivida pela imensa maioria
marginalizada de nossa sociedade.

Nesse contexto, usando as palavras de Dornelles acima mencionadas, “de


privilégio aos bandidos”, frequentemente ouvimos nos meios de comunicação
a seguinte pergunta: “e os direitos humanos da vítima?”
Esta é uma pergunta que merece ser não só respondida, mas também
questionada.

3.1. As vítimas de violações de direitos humanos

A defesa dos direitos humanos está relacionada com todas as violações so-
fridas por uma ou mais vítimas, desde que tais violações tenham sido prati-
cadas pelo Estado.
Desta forma, quando a proteção dos “direitos humanos das vítimas” é
questionada, é preciso compreender quem são essas vítimas e quem violou
tais direitos.
Não se discute a necessidade de se garantir uma sociedade segura, assim
como não há discordância no sentido de que as vítimas da violência urbana
precisam de assistência. A própria Constituição da República assegura o direito
à segurança no art. 5º, que estabelece que:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,


garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e
à propriedade, nos termos seguintes.

188
A segurança é um direito de todos, estabelecido no Título II da CF/88, 7. O relatório do Caso 12.051 está disponível
que versa sobre os direitos e garantias fundamentais, portanto, deve ser asse- em: <http://www.cidh.oas.org/annualrep /
2000port/12051.htm>. Acesso em 25,
gurada pelo Estado, mas é necessário que se compreenda, como será demons- out. 2013.
trado, que quando estamos diante de violação de direitos humanos é preciso
que a responsabilidade seja estatal e não individual.
Não há dúvidas de que a violência urbana geracomoção social, principal-
mente quando o fato se torna conhecido nacionalmente, e que grande parte da
população, esteja ela vinculada ou não a uma entidade de proteção de direitos
humanos, se solidariza com a dor das vítimas.
Para estas pessoas, vítimas e familiares, entretanto, há um aparato estatal
que visa investigar o crime e punir o agressor. Assim, a polícia investiga, o
Ministério Público atua em favor da sociedade, o Juiz julga e, por fim, o Esta-
do busca amparar aqueles que sofreram algum tipo de violência por parte de
outro ser humano.
Nos casos de violência urbana (ou nos casos de crimes não violentos),
estamos diantede delitos que podem ser cometidos por qualquer pessoamas,
apesar de todas as consequências advindas da agressão, não estaremos dian-
te de violação de direitos humanos pois apenas o Estado pode ser o violador
de tais direitos.
Caberá ao Estado, nos casos acima mencionados, apurar os fatos e apli-
car as sanções cabíveis ao agressor. Havendoomissão estatal, a vítima de vio-
lência praticada por um indivíduopode pleitear a proteção internacional por
violação de direitos humanos, pois neste caso a responsabilidade que antes era
individual passa a ser também do Estado por ter se omitido quando deveria
agir em favor daquele que foi agredido.
Foi exatamente isso que aconteceu no Caso 12.051, apresentado à Comis-
são Interamericana de Direitos Humanos.
Trata-se do mais famoso caso de violência doméstica e familiar do Bra-
sil, em que a vítima, a senhora Maria da Penha Maia Fernandes, denunciou
a impunidade e ineficácia do sistema judiciário brasileiro diante da violência
doméstica contra a mulher.
Apesar de ter sido um caso entre particulares, eis que Maria da Penha foi
vítima de vários atos de violência praticados por seu ex-marido, a ausência de
resposta do poder judiciário brasileiro com relação à conduta do agressor fez

189
8. DORNELLES, João Ricardo W. op. cit. p. 59. com o Estado fosse condenado por negligência e omissão em relação à violên-
cia doméstica contra as mulheres brasileiras7.
9. FABRIZ, Daury Cesar. Fundamentos His-
As vítimas de direitos humanos, portanto, são todas as pessoas que ti-
torico-Filosófico da EDH. In: VELTEN, Pau-
lo (Org). Educação em Direitos Humanos. veram seu direito desrespeitado por algum órgão, funcionário(a) ou agente do
Vitória: Universidade Federal do Espírito Estado. Assim:
Santo, Núcleo de Educação Aberta e á Dis-
tância, 2011, p. 58-59
(…) Quando se fala em direitos humanos, não se pensa em realidades
10. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos estanques, compartimentada. Não se pensa que apenas os “bons” os
e o Direito Constitucional Internacional. “mocinhos da história”, têm direitos a serem preservados. Quando se
São Paulo: Saraiva, 2010, p.113.
luta pelos direitos humanos, pensa-se e atua-se integralmente tendo
11. CASTRO, Carlos Roberto Siqueira. Cons- uma visão global da realidade em que vivemos8.
tituição e Internacionalização dos Direitos
Humanos. In: FABRIZ, Daury Cesar et al.
Desta forma, é preciso que se compreenda que todos os seres humanos
(Coord). O tempo e os Direitos Humanos.
Acesso: Vitória, 2011, p. 125. podem ser vítimas de violações de direitos humanos e que a defesa intran-
sigente de tais direitos não é sinônimo de impunidade, ao contrário, violar
direitos humanos é que deve ser repudiado por todas as nações.
Nas precisas lições de Fabriz9, podemos concluir que os direitos humanos:

convergem para um mesmo sentido que é o resguardo da pessoa huma-


na contra qualquer tipo de opressão. São direitos que buscam viabilizar
a vida em liberdade e em dignidade.

3.2. A responsabilidade internacional dos Estados por violação de


direitos humanos

Atualmente, o tema da proteção e promoção dos direitos humanos vem


ganhando cada vez mais destaque no cenário internacional, mas ainda per-
siste a polêmica a respeito do fundamento, da sua natureza e de seus pre-
cedentes históricos.
Discute-se na doutrina, como leciona Piovesan, “se são direitos naturais
e inatos, direitos positivos, direitos históricos ou, ainda, direitos que derivam
de determinado sistema moral”10.
Segundo os ensinamentos de Castro11:

190
A trajetória dos direitos humanos iniciou-se por uma compreensão jus- 12. O Direito Humanitário expressou, de
naturalista, expressante do ideário individualista que assinalou as revo- forma pioneira, que deve haver limites à
liberdade e autonomia dos Estados, mesmo
luções liberais do século 18, evoluindo no sentido da positivação cons-
na hipótese de Guerra. A Liga das Nações,
titucional dos direitos e garantias considerados fundamentais segundo segundo o Preâmbulo da Convenção, de-
a escala de valores sublimados pelas constituições da era moderna, cul- terminava que: “As partes contratantes, no
sentido de promover a cooperação interna-
minando por alcançar no presente século um coroamento transcendente
cional e alcançar a paz e a segurança in-
das fronteiras do Estado nacional, com a sua inclusão nos tratados, de- ternacionais, com a aceitação da obrigação
clarações, convenções, protocolos e demais instrumentos que compõem de não concorrer à guerra, com o propósito
a ordem jurídica internacional. de estabelecer relações amistosas entre as
nações, pela manutenção da justice e com
extremo respeito para com todas as obri-
Também se discute quais seriam os precedentes históricos da moderna gações decorrentes dos tratados, no que
sistemática de proteção internacional desses direitos e, ainda sob os ensina- tange à relação entre povos organizados
uns com os outros, concordam em firmar
mentos de Piovesan, tem-se que o Direito Humanitário, a Liga da Nações e a
este Convênio da Liga das Nações”. A Orga-
Organização Internacional do Trabalho12 são “os primeiros marcos do processo nização Internacional do Trabalho teve a
de internacionalização dos direitos humanos13”. finalidade estabelecer padrões internacio-
nais para as condições de trabalho.
Apesar dos marcos anteriores, acima mencionados, foi em decorrência da
Segunda Guerra Mundial, em meados do século XX, que foi consolidada a in- 13. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e
ternacionalização dos direitos humanos,visto que alguns países, em conjunto o Direito Constitucional Internacional, op.
com organizações não governamentais, conseguiram “garantir que a proteção cit, p. 115.

aos direitos humanos fosse uma das quatro metas prioritárias da Carta das
14. BEUST, Luis Henrique. O emergir dolo-
Nações Unidas”14. roso da consciência universal dos direitos
Após aCarta da Nações Unidassurgiram diversos tratados e convenções humanos. In: Os direitos humanos desa-
fiado o século XXI. Brasília: OAB, Conselho
internacionais que tutelam direitos humanos e, assim, os Estados passaram
federal, Comissão Nacional de Direitos Hu-
a ter maior responsabilidade com relação às violações de direitos humanos manos, 2010, p. 93.
ocorridas em seu território.
No âmbito do continente americano, por exemplo, foi criado o Sistema 15. A Comissão é um órgão principal e au-
tônomo da OEA, criado em 1959, cuja fun-
Interamericano de Direitos Humanos, que é um sistema regional de promoção ção é promover a observância e a defesa
e proteção de direitos humanos integrado por dois órgãos: a Comissão Intera- dos direitos humanso nas Américas. Realiza
mericana de Direitos Humanos15 e a Corte Interamericana de direitos Huma- visitas aos países, atividades ou iniciativas
temáticas, prepara relatórios sobre a situ-
nos16, que têm a função de monitorar o cumprimento das obrigações contra-
ação de direitos humanos em um país ou
ídas pelos Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA). sobre um tema determinado, adota medi-
As normas que versam sobre direitos humanos, então, dirigem-se aos Es- das cautelares ou pedido de medidas provi-
tados, visando limitar a ação estatal e também estabelecendo ações aos poderes sórias à Corte IDH e realiza o processamen

constituídos do Estado no sentido de promoção e garantia dos direitos humanos.

191
Continuação da nota 15 Assim, cabe aos Estados, de acordo com as convenções e tratados assina-
12. O Direito Humanitário expressou, de dos, adotar disposições legislativas para tornar efetivos os direitos humanos.
forma pioneira, que deve haver limites à No que se refere às obrigações dos Estados frente aos tratados e con-
liberdade e autonomia dos Estados, mesmo
venções internancionais de direitos humanos, é preciso lembrar que tem a
na hipótese de Guerra. A Liga das Nações,
segundo o Preâmbulo da Convenção, de- obrigação de adotar todas as medidas necessárias para prevenir as violações de
terminava que: “As partes contratantes, no direitos humanos, bem como investigar, processar e sancionar os responsáveis
sentido de promover a cooperação interna-
por quaisquer violações.
cional e alcançar a paz e a segurança in-
ternacionais, com a aceitação da obrigação Neste sentido, cabe lembrar o caso de Damião Ximenes Lopes17, em que o
de não concorrer à guerra, com o propósito Estado brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Huma-
de estabelecer relações amistosas entre as nos por violação de direitos humanos ocorrida dentro de uma clínica médica,
nações, pela manutenção da justice e com
extremo respeito para com todas as obri-
eis que Damião Ximenes morreu em virtude de ter sofrido violência dentro de
gações decorrentes dos tratados, no que uma clínica que deveria cuidar de sua saúde mental.
tange à relação entre povos organizados Os Estados também têm a obrigação de remediar violações de direitos
uns com os outros, concordam em firmar
humanos restabelecendo as situações ao estado anterior à violação oureparan-
este Convênio da Liga das Nações”. A Orga-
nização Internacional do Trabalho teve a do as conseqüências, caso não seja possível o restabelecimento.
finalidade estabelecer padrões internacio- Como já mencionado, caso descumpram a obrigação de respeitar e ga-
nais para as condições de trabalho.
rantir os direitos protegidos nas convenções internacionais de direitos huma-
13. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e nos, os Estados incorrem em responsabilidade internacional, podendo então
o Direito Constitucional Internacional, op. serem denunciados aos órgãos do sistema interamericano de proteção dos di-
cit, p. 115. reitos humanos (ou aos órgãos dos sistemas que fizerem parte, caso não seja
um país do continente Americano).
14. BEUST, Luis Henrique. O emergir dolo-
roso da consciência universal dos direitos É necessário compreender que não basta uma farta legislação que vise
humanos. In: Os direitos humanos desa- a proteção dos direitos humanos,é necessário que se garantam cada vez mais
fiado o século XXI. Brasília: OAB, Conselho
condições para o exercício desses direitos e, por isso, tão importante que se
federal, Comissão Nacional de Direitos Hu-
manos, 2010, p. 93. promova a educação em direitos humanos.
O problema, como como nos ensina Dornelles18, é que
15. A Comissão é um órgão principal e au-
tônomo da OEA, criado em 1959, cuja fun-
estamos acostumados com belos documentos históricos declarando ser-
ção é promover a observância e a defesa
dos direitos humanso nas Américas. Realiza mos todos iguais e livres. Estamos acostumados também ao fato e al-
visitas aos países, atividades ou iniciativas guns serem mais iguais do outros.
temáticas, prepara relatórios sobre a situ-
ação de direitos humanos em um país ou
sobre um tema determinado, adota medi- Por isso, precisamos mudar a forma de compreender os direitos humanos
das cautelares ou pedido de medidas provi- e trabalhar no sentido de se transformar a sociedade, conscientizando às pes-
sórias à Corte IDH e realiza o processamen-

192
to e análise de petições individuais, com o
soas para que conheçam os seus direitos, mas também no sentido de quebrar
objetivo de determiner a responsabilidade
os preconceitos existentes. internacional dos Estados por violações de
direitos humanos e também emite as re-
condações que considerer necessárias.
16. A Corte IDH foi instalada em 1979 e é
4. Considerações finais um órgão autônomo da OEA. O objetivo da
Corte é interpreter e aplicar a Convenção
O presente trabalho buscou analisar a quem se dirigem os direitos humanos e Americana e outros tratados interamerica-
nos de direitos humanos, por meio de sen-
quem pode ser responsabilizado internacionalmente por violações a tais direitos.
tenças sobre casos e opiniões consultivas.
Para tanto, foram feitos breves comentários sobre a educação em direitos
humanos no Brasil, importante para que se compreenda como a falta de infor- 17. Outras informações sobre o caso po-
mação faz com que grande parte da população desconheça seus direitos e, com dem ser obtidas em http://www.corteidh.
or.cr/docs/casos/ximenes/agescidh.pdf.
isso, não consiga identificar as vítimas de direitos humanos e o responsável
e em http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/
por violar tais direitos. articulos/seriec_149_por.pdf. Acesso em:
No que se refere às vítimas de direitos humanos restou claro que não 25 out. 2013.

podem ser confundidas com as vítimas de crimes praticados por aqueles que
18. DORNELLES, João Ricardo W. op.
não são agentes estatais, pois no caso de violação de direitos humanos a res- cit. contra-capa.
ponsabilidade, em âmbito internacional, não pode ser individual.
Ao ser feito o estudo das vítimas, defendeu-se ainda que qualquer pessoa
pode sofrer violação de direitos humanos e que não se pode ter uma visão
compartimentada da sociedade, como se fosse dividia entre “bons” e “maus”
sujeitos, pois a luta por direitos humanos pressupõe a defesa intransigente de
todos contra ações ou omissões estatais que firam direitos humanos.
Nesse passo, restou claro que apenas o Estado pode ser responsabilizado
internacionalmente por violação de direitos humanos e que, ao ser signatário
de tratados e convenções internacionais, deverá cumprir uma série de obriga-
ções no sentido de promover e respeitar tais direitos.
Por fim, não há dúvidas de que apenas por meio da educação em direitos
humanos será possível fazer com que a sociedade tenha consciência de seus
direitos e só assim poderemos avançar no sentido de construir uma sociedade
livre e mais justa.

193
Reênciasfer ácasbilogr

BEUST, Luis Henrique. O emergir doloroso da consciência universal dos direitos hu-
manos. In: Os direitos humanos desafiado o século XXI. Brasília: OAB, Conselho
Federal, Comissão Nacional de Direitos Humanos, 2010.

BRASIL. Constituição [da] República Federativa do Brasil. São Paulo: Saraiva, 2012.

CASTRO, Carlos Roberto Siqueira. Constituição e Internacionalização dos Direitos Hu-


manos. In:FABRIZ, Daury Cesar et al. (Coord). O tempo e os Direitos Humanos.
Acesso: Vitória, 2011.

COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Relatório do Caso 12.051.


Disponível em: <http://www.cidh.oas.org/annualrep/2000port/12051.htm>. Acesso
em 25 out. 2013.

CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Relatório do Caso Damião Ximenes


Lopes. Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/ximenes/agescidh.
pdf.> e em <http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_149_por.pdf>.
Acesso em: 25 out. 2013.

DORNELLES, João Ricardo W. O que são direitos humanos. São Paulo: Brasiliense, 2006.

FABRIZ, Daury Cesar. Fundamentos Historico-Filosófico da EDH. In: VELTEN, Paulo (Org).
Educação em Direitos Humanos. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo,
Núcleo de Educação Aberta e á Distância, 2011.

LACERDA, Áurea Santos; FIDELIS, Vera Lucia Chieppe. O que é educar em Direitos Hu-
manos?. In: VELTEN, Paulo (Org). Educação em Direitos Humanos II. Vitória: Uni-
versidade Federal do Espírito Santo, Núcleo de Educação Aberta e à Distância, 2013

PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São


Paulo: Saraiva, 2010.

194
Edgard Rebouças; Victor Gentilli e Rafael Paes
Professores do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Es-
pírito Santo e coordenadores do Observatório da Mídia: direitos humanos,
políticas, sistemas e transparência.

12
A LÓGICA DA EXCLUSÃO TEMÁTICA NO DEBATE
POLÍTICO SOBRE MÍDIA E DIREITOS HUMANOS

Edgard Rebouças
Victor Gentilli
Rafael Paes

A cada dia os índices de violência aumentam no Brasil, e com ele a incidên-


cia da cobertura jornalísticaapoiada na equivocada “metáfora do espelho”,
onde insinua-se que a imprensa é um mero fiel reprodutorda realidade. O que
ocorre, no entanto, é que colabora para uma construção social da realidade,
ondevalores e estereótipos são reforçados e até criados com objetivo de ma-
nutenção de um estado das coisasque interessa apenas a determinadas cama-
das da sociedade. Desta forma, uma série de desrespeitos aosdireitos humanos
são praticados e a mídia se cala, se omite, e em alguns casos propaga. Vide
ações eposicionamentos quanto ao desarmamento, redução da maioridade pe-
nal, união homoafetiva, invasão deprivacidade, criminalização de movimento
sociais, erotização precoce de crianças, exposição de mulheres,negros, LGBTs,
pobres e pessoas com deficiência.
Os desrespeitos aos direitos humanos passaram a ser rotineiros nas gra-
des televisivas, sobretudo emprogramas policialesco exibidos nacional e re-
gionalmente em vários horários ao longo do dia. Nojornalismo impresso, tal
prática é comum nas publicações ditas “populares”, chegando à criação da
expressão “espremeu sai sangue”.
A adoção de tais práticas pela imprensa obedece a uma lógica da ex-
ploração da miséria humana, à qualnão apenas inescrupulosos proprietários
de veículos de comunicação a praticam. A cada dia, mais e maisjornalistas
passam a considerar tal tipo de atuação como comum, sem perceberem o des-
virtuamento deseu papel, historicamente reconhecido pela sociedade.
O que a maioria da população e os profissionais envolvidos comcomu-
nicação não sabe é que no Brasil há uma política pública especificamente
voltada para a temática da mídia e dos direitos humanos, o Plano Nacional de
Direitos Humanos (PNDH), já em sua terceira edição, que tem como Diretriz

196
de número 22 o título: “Garantia do direito à comunicação democrática e ao
acesso à informação para a consolidação de uma cultura em Direitos Huma-
nos”. Sendo esta diretriz dividida em dois objetivos estratégicos:

I. Promover o respeito aos Direitos Humanos nos meios de comuni-


cação e o cumprimento de seu papel na promoção da cultura em
Direitos Humanos.
II. Garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à infor-
mação (SEDH: 2009, p. 164-167).

Dois artigos do Código de Ética dos Jornalistas também apontam para as


mesmas preocupações quemotivam a presente reflexão:

Art. 2º - A divulgação de informação,precisa e correta, é dever dos meios


de comunicação pública, independente da natureza de suapropriedade (FE-
NAJ, 2007).

Isso quer dizer que o jornalista deve ter o compromisso não somente
deproduzir informação como também é responsável pela qualidade, pelo rigor,
precisão e correção dainformação. Já o artigo 13º determina que “O jornalista
deve evitar a divulgação de fatos: […] b) De carátermórbido e contrários aos
valores humanos” (FENAJ, 2007). Desse modo, o que é definido como corre-
çãoda informação passa, necessariamente, pela não produção e divulgação de
notícias que sejam contráriasaos valores humanos.
No âmbito do estado do Espírito Santo, onde os índices de criminalidade
são dos maiores no país e há uma grande apologia a isso em programas poli-
cialescos de rádio e televisão, há em tramitação desde 2012 um Plano Estadual
de Educação em Direitos Humanos e um Programa Estadual de Direitos Huma-
nos, sendo que ambos contemplam a temática da mídia como importante fator
de desrespeito e promoção de Direitos Humanos (SEADH, 2012/2013).
Há, no entanto, um grande descaso por parte do poder público e tratar tais
temáticas com mais profundidade, e os veículos e profissionais de comunicações
têm se aproveitado de tais aspectos com muita habilidade, focando basicamente
suas ações para a manutenção dos históricos desrespeitos aos direitos humanos.

197
1. Coirmão do Observatório da Mídia: direi- Este artigo tem por objetivo colaborar para o debate e trazer à tona uma
tos humanos, políticas, sistemas e transpa- temática tão menosprezada, sendo ao mesmo tempo tão importante para os
rência sediado na UFES.
processos sociais. Para tanto, serão expostas algumas premissas da postura
ética dos profissionais de imprensa, uma análise dos instrumentos de políticas
públicas na área e algumas sugestões para avanços em termos de respeito e
promoção de direitos humanos pela mídia.

1. O papel do profissional

Como bem observa Bernardo Kucinski (2005), o jornalismo é uma profissão


definida pela ética. Já sãoquase 40 anos que Alberto Dines observou que o
fundamental da atividade jornalística é tomardecisões. Vale transcrever:

Há um componente otimista dentro da profissão que a torna vulnerável


atendências, aguça percepções, espicaça a criatividade. Essa inquietação
gera ou é gerada por umapermanente sensibilização. Qualquer anorma-
lidade deve ser percebida, seguida, desvendada. O jornalistaé o profissio-
nal da indagação, do questionamento. No nível operacional, o jornalista
se caracteriza pela permanente tomada de decisões. Mesmo sem otreino
do rápido decisionmaking, está permanentemente tomando decisões. Se
fotógrafo, é o ângulo dafotografia que importa, uma decisão, portanto.
Se repórter, importam o enfoque da notícia, a pergunta aoentrevistado
e a escolha do próprio entrevistado. Se chefe, tem de avaliar incessante-
mente a incrívelmassa de informações despejada sobre sua mesa, aferir
sua veracidade, avaliar sua importância e definirseu destaque.

Ao escrever, cada palavra é uma decisão, cada informação, uma decisão,


cada orientação uma decisão. Durante todo o tempo em que desempenha sua
atividade diária – e já vimos que esta não se limita aohorário de trabalho –, o
jornalista seleciona e opta’ (DINES: 2004, p. 137).
Foi também Alberto Dines quemchamou a atenção para o fato de o jor-
nalismo ser essencialmente um “serviço público”. Já naapresentação do Ob-
servatório da Imprensa1, que viria a criar em 1996, mais de 20 anos depois

198
da primeira edição do livro da citaçãoacima, de 1974, esclarece que o foco do
Observatório será o olhar sobre esse “serviço público”.
Em obra seminal, Adelmo Genro Filho (989) vê no jornalismo um po-
tencial valor na perspectiva daemancipação humana, como, por exemplo,
ao observar que a impossibilidade da objetividade pode servista como “sinal
da potência subjetiva do homem diante da subjetividade”. Em 2007, Sylvia
Moretzsohn,em um primeiro estudo mais denso sobre a obra de Adelmo Genro
Filho, observou que o jornalismo écentrado no singular. Esta percepção ofe-
rece uma possibilidade de uma alternativa ao fazer jornalísticomais completa,
subvertendo a lógica tradicional consagrada no conceito de “pirâmide inver-
tida”. A estenovo olhar de Adelmo, Sylvia avança em sua elaboração focando
na ideia de “jornalismo comoesclarecimento”.
Em livro originário de um trabalho sistemático de pesquisa realizado
nos Estados Unidos por um grupochamado de “jornalistas preocupados”, Ko-
vach e Rosenstiel (2003) listam resultado de pesquisa comcolegas referentes
ao que consideram elementos do jornalismo. A questão dos direitos huma-
nos nãoaparece diretamente na obra por tratar-se de trabalho realizado nos
EUA, ainda no final do século passadomas, principalmente, por focar em
profissionais que trabalham no chamado jornalismo de referência,também
conhecidos como qualitypapers. Mas vale observar a ideia clara que fazem
de si mesmos e do público:

Embora os jornalistas se sintam incomodados em definir o que fazem,


eles concordam num pontofundamental, que é a finalidade do que fa-
zem. Quando começamos, em 1997, a mapear o territóriohabitual dos
profissionais de imprensa, esta foi a primeira resposta que ouvimos:
“A meta principal dojornalismo é contar a verdade de forma que as
pessoas disponham de informação para sua própriaindependência”. Esta
frase é de Jack Fuller, escritor, romancista, advogado e presidente do
TribunePublishingCompany, que edita o Chicago Tribune (KOVACH; RO-
SENSTIEL: 2003, p. 34).

Já no final do livro, tratam do que apresentam como “obrigação com sua


consciência. O trecho é longo,mas merece transcrição:

199
Todos os jornalistas – da redação à sala da diretoria – devem ter um
sentidopessoal de ética e responsabilidade – uma bússola moral. Mais
ainda, eles tem uma responsabilidade dedar voz, bem alta, a sua cons-
ciência e permitir que outros ao seu redor façam a mesma coisa. Para
queisso aconteça, uma redação aberta é essencial para por em prática
todos os princípios discutidos nestelivro. Inúmeras barreiras dificultam
a tarefa de produzir notícias exatas, justas, equilibradas, dirigidas aoci-
dadão, independentes e corajosas. O esforço, porém, começa mal quan-
do não existe uma atmosfera quepermita às pessoas desafiar as ideias
em circulação, as percepções e os preconceitos. É preciso que osjorna-
listas se sintam livres, até mesmo encorajados, a falar alto e dizer: “Esta
matéria me parece racista”,“Chefe, você está tomando a decisão errada”.
Somente uma redação onde todos podem emitir seusdiversos pontos de
vista as notícias terão alguma possibilidade de antecipar e refletir, com
exatidão, ascrescentes e diversas perspectivas e necessidades da cultura
americana (KOVACH; ROSENSTIEL: 2003, p. 274).

Esta premissa da ética é fundamental. Impossível pensar em direitos


humanos sem umentendimento dos pressupostos morais que os sustentam.

2. Ataques ao PNDH-3

O caso da cobertura jornalística do lançamento do III Plano Nacional de Direi-


tos Humanos (PNDH-3), no final de 2009 e início de 2010, foi bem emblemá-
tico. Recebeu uma abordagem preconceituosa, sem a percepção da dimensão
ampla e universal dos direitos humanos. Tal abordagemdeveu-se a dois fatores:

• os interesses privados dos proprietários de veículos, que viram no


PNDH-3uma ameaça a suas práticas abusivas; e
• a um quase total desconhecimento dos profissionais deimprensa so-
bre a temática dos direitos humanos.

200
A difusão e compreensão ampla dos direitos humanos norteia a prática
do Estado brasileiro desde apromulgação da Constituição de 1988. É uma ação
que vai além dos governos, tanto que é clara apercepção que o PNDH-3 se
constitui em um avanço linear em relação aos dois anteriores, estesproduzidos
no governo Fernando Henrique Cardoso.
A despeito destes movimentos, o Brasil avançou pouco na produção de
uma real “cultura de direitoshumanos”. A prática de torturas mantém-se como
atividade corrente em dependências policiais. Preconceitos contra o negro, o
pobre, a mulher, homossexuais e tantos outros grupos sociais continuamarrai-
gados na sociedade. E é perceptível que estes preconceitos são realimentados
pelo que se podechamar de “sistema midiático”.
Ainda sobre a enxurrada de posicionamentos corporativistas contra o
PNDH-3, vale lembrar a cobertura do Jornal Nacional, da TV Globo, em 16 de
março de 2010, quando criticou a proposta da criação de uma regulamentação
do artigo 221 da Constituição – já previsto na mesma –, que imporia sanções
para concessionárias de rádio e TV que o violassem. Medida semelhante é
regulamentada para todos os demais serviços sob concessão do Estado, como
educação (ex.: fechamentos de escolas), saúde (ex.: intervenção em hospitais),
transporte (ex.: renovação de frota de ônibus), combustíveis (ex.: porcentagens
de etanol e gasolina) e vários outros.
Há ainda outra proposta no PNDH-3, esta falando mais fundo nos bolso
das concessionárias de rádio e TV: “suspender patrocínio e publicidade ofi-
cial em meios que veiculam programações atentatórias aos direitos humanos”
(SECRETARIA:2009, p. 167). Para quem acha que “bandido bom é bandido
morto”, banaliza o uso de câmeras escondidas e faz apologia cotidiana da
violência, realmente, trata-se de uma grande ameaça.
O fato de o PNDH ter nascido não da cabeça de meia dúzia de tecno-
cratas, mas de um conjunto de debates com parte da sociedade diretamente
interessada nas questões de direitos humanos já é um grande avanço. Mes-
mo que tenha sido uma parcela ínfima da sociedade a participar, já revela
que o caminho é este. No caso específico da mídia como um dos elementos
a serem tratados como fundamentais – mesmo tendo sido listada como a 22ª
diretriz entre 25 – mostra uma preocupação de pessoas ligadas a diversos

201
outros setores neste ponto tão presente na vida de cada um, mas que nor-
malmente não é debatido.
Os pontos listados nas recomendações são exatamente aqueles que pes-
soas e grupos ligados ao tema da democratização das comunicações vêm de-
batendo e reivindicando desde meados dos anos 1980, mas que quase nunca
avançavam para os demais setores da sociedade. Então, ver agora organiza-
ções de mulheres, negros, índios, deficientes, homossexuais, igrejas, educado-
res etc., incluindo temas como conteúdos de televisão, concessões ou publici-
dade em seus debates, para mim, representa um grandeavanço. Quanto ao que
o PNDH-3 vem se tornando efetivamente em termo de políticas públicas ou até
regulamentações, isso já é uma outra discussão.
Apesar de tudo, o PNDH-3 foi até modesto em termos de propostas
ligadas ao tema mídia e direitos humanos. Se somente aquilo que já esta na
Constituição levanta tantos questionamentos por parte dos empresários do
setor, o que ocorreria se todos os pontos realmente de interesse público fos-
sem colocados em pauta? A base da reclamação dos grupos midiáticos está
na lógica em si da atividade de mídia como algo de interesse privado: ma-
ximização dos lucros, redução de custos e nada de riscos. Tais elementos es-
tão embutidos nos programas televisivos que agridem claramente os direitos
humanos: têm grande audiência, e com isso uma grande receita publicitária;
são relativamente baratos de se produzir; e requentam fórmulas que histori-
camente já fizeram sucesso.
Qualquer ação que se oponha aos baratos-repetitivos-lucrativos produtos
midiáticos são tratados como uma ameaça. E para se “defenderem” dessa ame-
aça, empresários lançam mão de uma retórica do discurso-escudo. Colocam-se
na posição de vítimas e de únicos defensores da liberdade de expressão, dando
sempre como exemplo a censura exercida no período da ditadura (REBOUÇAS:
2006). No caso do PNDH-3 não há nada de censura, como não havia na classi-
ficação indicativa proposta pelo Ministério da Justiça, tampouco na criação do
Conselho Federal de Jornalismo, menos ainda nas proposta da Agência Nacio-
nal de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde e da Organização
Pan-Americana de Saúde (Opas) para regulamentar a publicidade de alimentos
que causam obesidade em crianças.

202
3. Cortando pela raiz: o caso do Espírito Santo 2. Participantes efetivos do Grupo de Tra-
balho: Aliança Cristã Evangélica Brasileira;
Comissão de Direitos Humanos da Assem-
Por mais que o III Plano Nacional de Direitos Humanos tenha sido duramente
bleia Legislativa do Espírito Santo – ALES;
criticado pela grande mídia e por setores tradicionais, a Secretaria Especial de Associação dos Municípios do Espírito San-
Direitos Humanos da Presidência da República manteve sua posição na manu- to – AMUNES; Conselho Estadual de Direi-
tos Humanos - CEDH/ES; Conselho Nacio-
tenção do texto do Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, que havia
nal de Igrejas Cristãs do Brasil - CONIC-ES;
saído do acumulo de dois anos de debates e das resoluções da 11ª Conferência Conselho Regional de Psicologia - CRP-16;
Nacional de Direitos Humanos, alémde propostasaprovadas nas mais de 50 con- Conselho Regional de Serviço Social -
ferências nacionais temáticas, promovidas desde 2003 nas áreas de segurança CRESS-17; Defensoria Pública do Estado do
Espírito Santo – DPES; Federação Espírita
alimentar,educação, saúde, habitação, igualdade racial, direitos da mulher, juven- do Estado do Espírito Santo – FEEES; Fó-
tude, crianças e adolescentes,pessoas com deficiência, idosos e meio ambiente. rum Capixaba em Defesa da Liberdade e
No caso do processo de elaboração do Programa Estadual de Direitos da Tolerância Religiosa; Instituto Jones dos
Santos Neves – IJSN; Ministério Público do
Humanos (PeDH-ES) e do Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos
Espírito Santo – MPES; Ministério Público
(PeEDH-ES), no Espírito Santo, a situação foi bem diferente. O Governo do Es- Federal: Procuradoria da República no E.
tado optou por se antecipar às críticas, e por conta própria retirou pontos que do Espírito Santo MPF/ES; Ordem dos Ad-
vogados do Brasil - OAB-ES; Secretaria de
haviam sido elaborados a partir de uma série de reuniões e audiências públicas
Estado da Educação – SEDU; Secretaria de
do grupo de trabalho2 instituídoem 9 de janeiro de 2012 no Decreto nº 2944-R Estado da Justiça – SEJUS; Secretaria de Es-
pelo próprio governador Renato Casagrande. tado da Segurança Pública e Defesa Social
Incialmente programado para ser lançado em 10 de dezembro de 2012, – SESP; Secretaria de Estado de Assistência
Social e Direitos Humanos – SEADH; Se-
em solenidade no Palácio Anchieta, sede do Governo do Espírito Santo, a “ver-
cretaria Municipal de Cidadania e Direitos
são 4.0” do grupo de trabalho que contava com ampla representatividade da Humanos de Vitória - SEMCID/PMV; Sindi-
sociedade civil e de órgãos governamentais, após a inesperada ausência do go- cato dos Jornalistas Profissionais no Estado
do Espírito Santo - SINDIJORNALISTAS-ES;
vernador no evento, foi comunicado um adiamento sine datado lançamento.
Superintendência Estadual de Comunica-
Com a pressão das entidades envolvidas e até a ameaça de greve de fome ção Social – SECOM e Universidade Federal
do presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Gilmar Ferreira, em 23 do Espírito Santo - UFES
de janeiro de 2013 o governador anunciou a criação de outro grupo de trabalho,
desta vez com o objetivo de analisar tecnicamente a exequibilidade das diretri-
zes e recomendações do PeDH-ES e do PeEDH-ES, tal grupo seria encabeçado
pela Procuradoria-Geral do Estado. O prazo do trabalho seria de três meses. Pas-
sados exatos seis meses, para o dia 23 de julho foi marcada a apresentação da
análise ao grupo de trabalho original, do que viria a ser chamada de “versão 5.0”.
O ocorreu na sede da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direi-
tos Humanos na manhã daquele 23 de julho merece um parênteses: diante de
boa parte dos representantes das entidades que elaboraram o texto original do

203
PeDH-ES e do PeEDH-ES, com as versões impressas sobre a mesa, o projetor
já ligado para mostrar ponto-a-ponto as mudança, o subsecretrário de Direitos
Humanos Perly Cipriano, cinco minutos antes do início da apresentação, rece-
beu um telefonema solicitando que comunicasse aos presentes que a reunião
estava suspensa. Em 2 de setembro de 2013, um arquivo em PDF com a “versão
5.0” foi enviado aos membros do Conselho Estadual de Direitos Humanos, mas
sem anúncio de data para debate do mesmo.
No entanto o que mais surpreendeu, foi no dia 2 de dezembro de 2013,
quando da abertura da 5ª Semana Estadual de Direitos Humanos, a entrega
para algumas pessoas de um caderno com o texto impresso da “versão 6.0” do
PeDH-ES e do PeEDH-ES. Não houve um anúncio formal de que esta seria a
versão definitiva, sequer que seria publicada no Diário Oficial, além do detalhe
de não mais constar os nomes do governador e do vice-governador no expe-
riente, como havia nas versões anteriores.
Especificamente para o tema da mídia e direitos humanos, na sequência
será mostrada a involução das diretrizes consensuadas pelo grupo de trabalho
original ao longo de um ano. Em destaque, estão as exclusões decorrentes das
“versões 5.0”, de 2 de setembro de 2013; e “6.0”, de 2 de dezembro de 2013:

PLANO ESTADUAL DE EDUCAÇÃOEMDIREITOSHUMANOSDOESPÍRITO


SANTO - PEEDH-ES (“VERSÃO 4.0”, DE 10 DE DEZEMBRO DE 2012)

Área 5 - EDUCAÇÃO E MÍDIA

Ações Programáticas

5.1 Encorajar o estudo e a exploração prática das possibilidades das mí-


dias ditas não convencionais ou novas mídias sociais na divulgação da
temática dos Direitos Humanos, desde seus princípios e fundamentos,
inclusive através das redes sociais.

204
5.2 Criar bancos de dados e portal sobre Direitos Humanos, com par-
ceria nospoderes Legislativo e Judiciário e na sociedade civil, com as
seguintes características:
a. informações claras às cidadãs e cidadãos sobre seus direitos;
b. canais para a denúncia de violações;
c. acesso a textos didáticos e legislação pertinente ao tema;
d. relação de profissionais e defensores(as) de Direitos Humanos;
e. informações sobre políticas públicas sendo desenvolvidas nos âmbitos
municipal, estadual e federal.

5.3 Apoiar iniciativas que facilitem a regularização dos meios de co-


municação de caráter comunitário, como estratégia de democratização
da informação.

5.4 Promover seminários, oficinas e cursos sobre Direitos Humanos e Mídia


abertos a todas(os) as(os) profissionais de educação e de comunicação.

5.5 Incentivar professores e professoras, estudantes de comunicação social e


especialistas em mídia a desenvolver pesquisas na área de Direitos Humanos.

5.6 Incentivar pesquisas regulares que possam identificar formas, cir-


cunstâncias, causas e características de violações dos Direitos Humanos
pela mídia.

5.7 Criar linha de pesquisa específica sobre destinada à área de Mídia e


Direitos Humanos nos organismos de fomento.(Excluído na “Versão 6.0”)

5.8 Acompanhar a implementação da Portaria n° 310 de 28/06/2006


do Ministério das Comunicações, sobre emprego de legenda oculta,
janela com intérprete de Libras, dublagem e audiodescrição de cenas
e imagens na programação regular da televisão, de modo a garantir o
acesso das pessoas com deficiência auditiva e visual à informação e à
comunicação.(Excluído na “Versão 6.0”)

205
5.9 Propor projeto de Lei estadual e fomentar a criação de leis mu-
nicipais que interditem a liberação de verbas de publicidade oficial
a veículos de comunicação listados por violação de Direitos Hu-
manos por instâncias competentes de monitoramento.(Excluído na
“Versão 6.0”)

5.10 Incentivar a criação de mecanismos de monitoramento da mídia


e realizar campanhas para orientar cidadãs, cidadãos e entidades a de-
nunciar eventuais abusos e violações dos Direitos Humanos cometidos
pela mídia, para que os autores sejam responsabilizados na forma da
lei.(Excluído na “Versão 6.0”)

5.11 Apoiar iniciativas federais no sentido de maior responsabilização


do setor de comunicação social.(Excluído na “Versão 6.0”)

5.12 Fomentar a criação e a acessibilidade de Observatórios Sociais


estadual e municipais destinados a monitorar os conteúdos da mídia
em Direitos Humanos. (Excluído na “Versão 6.0”)

5.13 Propor a inclusão da temática Direitos Humanos e Mídia como tema


transversal nas diretrizes curriculares da educação básica, profissional e
outras modalidades de ensino.

5.14 Incluir o desenvolvimento da habilidade de leitura crítica da mídia


na perspectiva dos Direitos Humanos nos cursos e programas de for-
mação inicial e continuada dos e das profissionais da Educação e áreas
afins, tendo em vista sua qualificação para lidar com a inclusão curric-
ular do tema.

5.15 Propor concursos de trabalhos (redações, desenhos, monografias,


audiovisuais, artes cênicas e outros) sobre meios de comunicação e Di-
reitos Humanos, nos níveis fundamental, médio e superior, em âmbito
estadual e regional.

206
5.16 Estabelecer parcerias entre o Governo do Estado, organizações
comunitárias e empresariais, tais como rádios, canais de televisão e
agências de publicidade, bem como organizações da sociedade civ-
il, para a produção e difusão de programas, campanhas e projetos
de comunicação na área de Direitos Humanos, levando em consider-
ação o parágrafo 2° do artigo 53 do Decreto Presidencial nº 5.296 de
02/12/2004 (Decreto da Acessibilidade), sendo estas ações obrigatórias
para os veículos estatais.

5.17 Rever as diretrizes e planejamento dos veículos estatais de


comunicação no sentido de dotar seu conteúdo das qualidades
necessárias para servir de padrão em temáticas de defesa e promoção
dos Direitos Humanos, tanto pela criação de programas específicos
quanto pela compatibilização de toda a programação com os valores
e objetivos dos Direitos Humanos. (Substituído na “Versão 6.0” pelo
texto abaixo)

5.11 Orientar os veículos estatais de comunicação no sentido de dot-


arem seu conteúdo das qualidades necessárias para servir de padrão
em temáticas de defesa e promoção dos Direitos Humanos, tanto pela
criação de programas específicos quanto pela compatibilização de toda
programação com valores e objetivos dos Direitos Humanos.

5.18 Propor e estimular, nos meios de comunicação, a realização de pro-


gramas de entrevistas e debates sobre Direitos Humanos e criação de
editorias especializadas no tema, que envolvam entidades comunitárias
e populares, levando em consideração as especificidades e as linguagens
adequadas aos diferentes segmentos do público, tornando tais ações pri-
oritárias, como objeto de política oficial, nos veículos estatais.

5.19 Sensibilizar diretoras e diretores de órgãos da mídia para a inclusão


dos princípios fundamentais de Direitos Humanos em seus manuais de
redação e orientações editoriais.

207
5.20 Sensibilizar proprietários e proprietárias de agências de publicidade
e de veículos de comunicação, bem como as associações de classe da
área da comunicação social, para a produção e veiculação voluntárias de
conteúdos de promoção, informação, educação e entretenimento que se
constituam em campanhas de difusão dos valores e princípios relaciona-
dos aos Direitos Humanos.

5.21 Propor às associações de classe e dirigentes de meios de comunicação


a veiculação gratuita dos conteúdos das campanhas acima referidas, como
forma de parceria com entidades de proteção dos Direitos Humanos.

5.22 Definir parcerias com entidades associativas de empresas da área de


mídia, profissionais de comunicação, entidades sindicais e populares para
a produção e divulgação de materiais relacionados aos Direitos Humanos.

5.23 Firmar convênios com gráficas públicas e privadas, além de outras


empresas, no sentido de produzir edições populares de códigos, estatutos
e legislação em geral relacionada a direitos, visando à orientação da pop-
ulação sobre seus direitos e deveres, com ampla distribuição gratuita em
todo o estado – considerando formatos tais como cartilhas, calendários,
gibis, inclusão em capas de cadernos escolares e em livros didáticos,
paradidáticos e em material de reforço escolar, entre outros, contemplan-
do também a acessibilidade.

5.24 Fomentar o tratamento dos temas de Educação em Direitos Humanos


em produções artísticas culturais e publicitárias, em formas tais como artes
plásticas e cênicas, multimídia, literatura, música, vídeo, cinema e outras
formas de audiovisual, entre outros, com temas locais, regionais e nacio-
nais, para veiculação tanto em formas e meios tradicionais quanto nas no-
vas mídias, inclusive nos meios de comunicação de massa, dando atenção
à garantia de espaço para isso nas emissoras públicas de rádio e televisão.

5.25 Incentivar e apoiar a produção de filmes e material audiovisual


sobre a temática dos Direitos Humanos, inclusive os voltados à recon-

208
strução da história recente do autoritarismo no Brasil, tendo em vista sua
utilização na Educação em Direitos Humanos, entre outros fins.

5.26 Criar mecanismos de estímulo, tais como um “Prêmio de Mídia Ci-


dadã”, destinados às agências de publicidade, veículos, profissionais e
estudantes de comunicação, no sentido da produção de conteúdos de
promoção, informação, educação e entretenimento adequados a todos os
meios de comunicação, que difundam valores e princípios relacionados
aos Direitos Humanos e à construção de uma cultura transformadora
nessa área de forma continuada.

PROGRAMA ESTADUAL DE DIREITOS HUMANOS DO ESPÍRITO SAN-


TO – PEDH-ES (“VERSÃO 4.0”, DE 10 DE DEZEMBRO DE 2012)

EIXO 5 - Educação, Cultura e Pesquisa em Direitos Humanos

Diretriz 5.5 - Direito ao acesso à informação e à comunicação democráti-


ca para a consolidação de uma Cultura dos Direitos Humanos

OBJETIVO 5.5.1
Promover o respeito aos Direitos Humanos nos meios de comunicação e
o cumprimento de seu papel na promoção da cultura como Direito Hu-
mano e de uma Cultura dos Direitos Humanos

Ações programáticas

5.5.1.1 Desenvolver ações para garantir o conhecimento e a realização


dos objetivos e ações previstas na Área 5 do Plano Estadual de Educação
em Direitos Humanos (PeEDH).

5.5.1.2 Propor a criação de marco legal, nos termos do Artigo 221 da


Constituição Federal, estabelecendo o respeito aos Direitos Humanos
nos serviços de radiodifusão concedidos (rádio e televisão), permitidos
ou autorizados. (Excluído na “Versão 5.0”)

209
5.5.1.3 Apoiar iniciativas federais no sentido de maior responsabili-
zação do setor de comunicação social.(Excluído na “Versão 5.0”)

5.5.1.4 Promover o diálogo com o Ministério Público para proposição


de ações objetivando a suspensão de programação e publicidade aten-
tatórias aos Direitos Humanos.(Excluído na “Versão 6.0”)

5.5.1.5 Suspender patrocínio e publicidade oficial em meios que veic-


ulam programações atentatórias aos Direitos Humanos. (Excluído na
“Versão 6.0”)

5.5.1.6 Desenvolver programas de formação nos meios de comunicação


públicos como instrumento de informação e transparência das políticas
públicas, de inclusão digital e de acessibilidade.

5.5.1.7 Promover a eliminação das barreiras que impedem o acesso


de pessoas com deficiência sensorial à programação em todos os mei-
os de comunicação e informação, em conformidade com o Decreto
nº 5.296/2004 e a Portaria n° 310 de 28/06/2006 do Ministério das
Comunicações, bem como acesso a novos sistemas e tecnologias, in-
cluindo a internet.

5.5.1.8 Incentivar a inclusão da disciplina Direitos Humanos nos cursos


de Comunicação Social em todo o estado. (Excluído na “Versão 5.0”)

5.5.1.9 Implementar programa de sensibilização para profissionais de


comunicação, voltado para a promoção, proteção e defesa dos Direitos
Humanos nos meios de comunicação.

5.5.1.10 Criar o Conselho Estadual de Comunicação Social, com o ob-


jetivo de formular, implementar, monitorar e avaliar a política estad-
ual de comunicação social. (Excluído na “Versão 6.0”)

210
OBJETIVO 5.5.2 3. Devido a esta série de alterações, um dos
Garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à infor- autores deste artigo, representante da UFES
no Conselho Estadual de Direitos Humanos
mação
e membro do grupo de trabalho original
para elaboração do PeEDH e PeDH, solicitou
Ações programáticas formalmente ao Governo do Estado a reti-
rada de seu nome do documento final que
vier a ser publicado.
5.5.2.1 Fomentar o acesso de estudantes, professores(as) e demais profis-
sionais da educação às tecnologias da informação e comunicação.

5.5.2.2 Promover parcerias com entidades associativas de mídia, profis-


sionais de comunicação, entidades sindicais e populares para a produção
e divulgação de materiais sobre Direitos Humanos.

5.5.2.3 Incentivar pesquisas regulares que possam identificar formas,


circunstâncias e características de violações dos Direitos Humanos na
mídia.

5.5.2.4 Promover ações de divulgação sobra a importância dos direitos ao


bem-estar social e desenvolvimento econômico, como acesso a educação,
a saúde, ao meio ambiente sadio, a habitação, ao transporte e a cultura.

5.5.2.5 Promover campanhas e ações de divulgação sobre a importância


da preparação de pais e mães para a construção de uma sociedade não
violenta e respeitadora dos Direitos Humanos, através da qualidade do
acolhimento dado a seus filhos e filhas.

5.5.2.6 Promover a divulgação junto à população de informações sobre os


seus direitos e deveres como cidadãos e cidadãs, bem como sobre os me-
canismos de defesa, proteção e promoção postos à sua disposição para fazer
respeitá-los, através de cartilhas, folhetos, campanhas nos meios de comu-
nicação.

211
5.5.2.7 Apoiar a regularização das rádios comunitárias e promover
incentivos para que se afirmem como instrumentos permanentes de
diálogo com as comunidades locais.(Excluído na “Versão 6.0”)

5.5.2.8 Inserir a temática dos Direitos Humanos como pauta perma-


nente em todos os veículos de comunicação do governo estadual. (Sub-
stituído na “Versão 6.0” pelo texto abaixo)

5.5.2.07 Estabelecer o respeito aos Direitos Humanos, sua defesa e pro-


moção, como diretriz, e a temática dos Direitos Humanos como pauta
permanente em todos os veículos de comunicação subordinados direta ou
indiretamente ao Poder Executivo estadual.

5.5.2.9 Promover ações de divulgação da atuação do Conselho Estadual


de Direitos Humanos.

As exclusõesafetaram diretrizes e ações pontuais de:

• suspensão de verbas publicitárias oficiais para a o financiamento de


programações com desrespeitos aos direitos humanos;
• inserção da temática dos direitos humanos nas pautas de veículos
midiáticos do Governo do Estado;
• diálogo com Ministério Público sobre denúncias de conteúdos midi-
áticos atentatórios aos direitos humanos;
• acessibilidade com uso de legenda oculta e áudio descrição;
• incentivo a pesquisas na temática de mídia e direitos humanos;
• incentivo ao monitoramento da mídia para denunciar violações;
• marco legal estadual nos termos do Artigo 221 da Constituição Federal;
• criação de um Conselho Estadual de Comunicação; e
• apoio à radiodifusão comunitária.

Diante disso, fica clara a política da “não política” para a temática de


mídia edireitos humanos por parte do Governo do Estado do Espírito Santo. A

212
pressão de grupos de interessepouco preocupados com o respeito aos direitos
humanos também influenciou trechos do texto original do PeEDH-ES e do
PeDH-ES nas área de moradores de rua, gays, lésbicas, bissexuais e transgêne-
ros, bem como manifestações culturais e religiosas de raiz africana3.

3. Caminhos e possibilidades

Mas nem tudo são problemas. Em algumas áreas, é possível observar ações
importantes em preocupação com a temática da mídia e direitos humanos. O
exemplo mais evidente é o da Agência de Noticias dos Direitos da Infância
(Andi), focadona criança e no adolescente desde o início dos anos 1990. A
Andi conseguiu agregar uma razoável“massa crítica” no acompanhamento de
noticiários sobre o tema. E as ações concretas na superação dosproblemas tor-
naram-se referenciais. As oficinas com jornalistas e o prêmio “Jornalista Ami-
go da Criança”são experiências que merecem replicação e aperfeiçoamento.
Ainda no campo da defesa dos direitos da criança, tendo a mídia como
foco, há o Instituto Alana, com uma série de iniciativas de advocacy com es-
pecificidade na questão do consumismo infantil provocado pela publicidade; e
a Cipó – Comunicação Interativa, que realiza estudos, ações e seminários pela
garantia dos direitos de crianças, adolescente e jovens, com destaque para as
denúncias contra os programas policialescos de rádio e televisão na Bahia.
Em âmbito mais geral há o Coletivo Intevozes, que vem organizando
ciclos de formação em mídia e educação em direitos humanos, além de ser
um das principais entidades na defesa do conceito do direito humano à co-
municação. Na mesma linha, outra entidade atuante no país é a ONG Artigo
XIX, que organiza debates e ações sobre a aplicação do princípio especifico da
comunicação na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Outro exemplo a
ser enfatizado é o do Instituto Vladimir Herzog, entidade criada em 2009 com
a intenção de contribuir para a reflexão e produção de informação que garanta
o direito à vida e o direito à justiça.
A iniciativa que concentrava boa parte dessas atividades, e ainda agrega-
va vários outros setores da sociedade, era a Campanha “Quem financia a bai-
xaria é contra a cidadania”, vinculada à Comissão de Direitos Humanos da Câ-

213
mara dos Deputados. Reunindo políticos, acadêmicos, psicólogos, jornalistas,
advogados, igrejas progressistas, movimentos negro e LGBT, e mais uma gama
de atores sociais, a Campanha… ganhou destaque a tratar diretamente dos con-
teúdos de telenovelas, programas de auditório, publicidades e telejornais, ten-
do conseguido uma série de ações que levaram a mudanças nas programações
de grande emissoras de TV. Desde que uma ala político/religiosa conservadora
assumiu o comando da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputa-
dos, uma década de conquistas foi engavetada (REBOUÇAS, 2013).
Para dar uma dimensão de como o tema da mídia e dos direitos humanos
vem ganhando cada vez mais espaço, basta observar a programação do Fórum
Mundial de Direitos Humanos, realizado em Brasília no inicio de dezembro de
2013. Em três dias, foram realizadas XX mesas e seminários específicos:

• Uso da Lei de Acesso à Informação para garantia dos


direitos humanos
• Comunicação e direitos humanos - experiências de comunicação
e direitos humanos no mundo digital e convergente
• Safernet: promoção, defesa e educação em direitos humanos na
Internet no Brasil
• A democratização da comunicação, ontem e hoje
• Mídias, redes sociais e direitos de crianças e adolescentes
• A importância da rádio comunitária no desenvolvimento
das comunidades
• Rádio livre e ativismo criativo
• Seminário: Mídia, diversidade religiosa e experiências
de grupos neo-pagãos e outras minorias
• Cultura, juventude e comunicação: diálogos de cidadania
• A luta pela democratização da comunicação e o contexto
da radiodifusão comunitária
• Infância e comunicação: a imprensa e o debate sobre o
limite da idade penal
• Infância e comunicação
• Oficina prática de proteção à comunicadores ameaçados de morte

214
• O projeto de Lei da Mídia Democrática como instrumento
de luta pelo direito humano à comunicação no Brasil
• Princípios da internet e o direito à privacidade e à
liberdade de expressão
• Estratégias de proteção à comunicadores
• Como utilizar as mídias sociais produzindo e veiculando uma mo-
bilização social dinâmica, interessante e atraente para os direitos
humanos LGBT?
• Roteiro de debates: os direitos Humanos e a diversidade como
pilares para a construção da comunicação pública
• O direito à liberdade de expressão por intermédio das
concessões de rádios comunitárias
• Medios de comunicación para el futuro
• Comunicação e direitos humanos
• Fui processado. O que eu faço?
• Como os meios de comunicação em geral podem contribuir
para a conscientização sobre os direitos humanos e aumentar
a autoestima em LGBT?
• Infância e comunicação: a imprensa e o debate sobre o
limite da idade penal

Houve ainda uma apresentação teatral –A covardia do monopólio e repres-


são– sobre a ação da polícia na repressão às rádios comunitárias; e o lançamen-
to do livroPorumaculturaemDireitosHumanos: Direitoà opinião e expressão.
Já no Espírito Santo, há na Universidade Federal, o grupo de pesquisa e
ação Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas, sistemas e transpa-
rência, que vem realizando projetos, eventos, seminários e estudos sobre vio-
lações aos direitos humanos na mídia. Mais recentemente, o Observatório está
executando um projeto de extensão com o título Capacitação de Jornalistas
para o Respeito e Promoção dos Direitos Humanos. Trata-se de parceria com o
Sindicato dos Jornalistas e a Secretaria Estadual de Assistência e Direitos Hu-
manos para a realização de oficinas em quatro cidades polo (Vitória, Cachoeiro
de Itapemirim, Colatina e São Mateus) divididas em três módulos. O projeto foi

215
classificado em primeiro lugar nacionalmente na categoria Direitos Humanos
em edital do Ministério da Educação.
Uma postura presente em toda a ação desenvolvida por esta iniciativa
do Observatório da Mídia é preconizada porPaulo Freire (1983) em sua obra
Extensão ou comunicação?. O que se pretende é o diálogo, muitomais do que
a mera extensão extra-muros do “conhecimento” gerado na universidade. A
dialógica e adialética freire-habermasiana são compartilhadas por estudantes,
educadores e pesquisadores deComunicação, profissionais da imprensa e mili-
tantes de direitos humanos de forma profunda e continuada.

Para algumas inconclusões

O fato de o tema da mídia e direitos humanos estar ganhando mais volume


recentemente não deve ser visto como uma vitória. Ainda há muito a ser fun-
damentado, agregando às iniciativas da militância conceitos teóricos e dados
empíricos que embasem as próximas disputas. Governos, empresas de mídia e
a grande maioria da sociedade ainda reproduzem antigas máximas de defesa
da liberdade de expressão acima de qualquer outro direito. Isso porque o tema
dos direitos humanos não tem espaço no debate público, nas escolas e pouco
menos nos meios de comunicação.
O caso da opção do Governo do Estado do Espírito Santo de excluir pon-
tos tão importantes do Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos e do
Programa Estadual de Direitos Humanos é bem sintomático desta manutenção
do estado das coisas. Isso é corroborado diariamente pelas programações poli-
cialescas que não tratam do âmago da problemática dos direitos humanos, que
somente espetacularizam a violência em busca de uma audiência vítima de um
constante assédio moral midiatizado.
Iniciativas como da Andi, Instituto Alana, Cipó, Artigo XIX, Intervozes
e Observatório da Mídia, entre outros, terão êxito apenas quando a sociedade
tomar consciência de seus direitos, sabendo que a comunicação é um serviço
público – mesmo que administrado por uma empresa privada.
O caminho é longo e duro. Os interesses comerciais e político-partidários
são fortes. Mas tudo em nome da defesa dos direitos humanos vale a pena.

216
Reênciasfer ácasbilogr

DINES, A.. O papel do jornal e a profissão de jornalista. 9. ed. São Paulo: Summus, 2004.

FEDERAÇÃO Nacional dos Jornalistas. Código de ética dos jornalistas brasileiros.


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FREIRE, P. Extensão ou comunicação? 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

GENRO FILHO, A. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo.


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CHRISTOFOLETTI, R., MOTTA, L.G. (orgs.). Observatórios de mídia: olhares da cida-
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HABERMAS, J.. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma


categoria da sociedadeburguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

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KUCINSKI, B.. Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética. São
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MORETZSOHN, S.. Pensando contra os fatos: jornalismo e cotidiano: do senso comum


ao senso crítico. Rio de Janeiro: Revan, 2007.

REBOUÇAS, E.. O discurso/escudo da liberdade de expressão dos “donos” da mídia. In:


CHAGAS, C.; ROMÃO, J. E.; LEAL, S. (Org.). Classificação indicativa no Brasil: de-
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217
_____ . Um caminhopossívelparaa participação da sociedadenos debates sobre o conteú-
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Financia a Baixaria é Contra a Cidadania. Brasília: EdiçõesCâmara, 2013, p. 36-57.

SECRETARIA de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do Espíri-


to Santo. PlanoEstadual de Educação em Direitos Humanos do Espírito Santo:
versão 4.0, proposta para oficialização em10 de dezembro de 2012. Vitória: SEADH,
Dez. 2012.

_____ . Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos do Espírito Santo:


versão 5.0, proposta para oficialização em 10 de dezembro de 2013. Vitória: SEADH,
Ago. 2013.

_____ . Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos do Espírito Santo:


versão 6.0, proposta para oficialização em 10 de dezembro de 2013. Vitória: SEADH,
Dez. 2013.

_____ . Programa Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo: versão 4.0,


proposta para oficializaçãoem 10 de dezembro de 2012. Vitória: SEADH, Dez. 2012.

_____ . Programa Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo: versão 5.0,


proposta para oficializaçãoem 10 de dezembro de 2013. Vitória: SEADH, Ago. 2013.

_____ . Programa Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo: versão 6.0,


proposta para oficializaçãoem 10 de dezembro de 2013. Vitória: SEADH, Dez. 2013.

SECRETARIA Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. PNDH-3: De-


creto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009. Brasília: SEDH, 2009.

218
Paulo Abrão
Secretário Nacional de Justiça, Presidente da Comissão de Anistia do Minis-
tério da Justiça, Professor da Faculdade de Direito da PUCRS e do Programa
Europeu de Pós-Graduação em Direitos Humanos da Universidade Pablo de
Olavide (Espanha).

Marcelo D. Torelly
Pesquisador Visitante do Institute for Global Law and Policy, Harvard Law
School (Estados Unidos).

13
1. Uma versão anterior deste texto encon- MUTAÇÕES DO CONCEITO DE ANISTIA
tra-se publicada no apresentação da Revis- NA JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO BRASILEIRA:
ta Anistia Política e Justiça de Transição,
no.07, publicada pelo Ministério da Justiça.
A TERCEIRA FASE LUTA PELA ANISTIA1
As opiniões expressas neste texto são de
seus autores, não necessariamente refletin- Paulo Abrão
do posições das instituições em que atuam.
Marcelo D. Torelly
2. Veja-se nosso: Abrão, Paulo & Torelly,
Marcelo D. “O programa de reparações
como eixo estruturante da justiça de tran- Neste breve texto procuramos sistematizar algumas teses defendidas em es-
sição no Brasil”, in: Reátegui, Felix (org.).
Justiça de Transição – Manual para a Amé-
tudos esparsos ao longo dos últimos cinco anos. Partimos da ideia de que
rica Latina. Brasília/Nova Iorque: Ministério o programa de reparações às vítimas da ditadura militar constitui o “eixo
da Justiça/ICTJ, 2011, pp. 473-516. O termo estruturante” da justiça de transição no Brasil2, promovendo os denominados
Justiça de Transição será utilizado em sen-
“direitos da transição3”. E, a partir daí, buscamos explicitar a ambiguidade da
tido amplo para referir-se aos mecanismos
disponíveis para lidar com o legado de vio- Lei de Anistia de 1979, enquanto processo social cujo legado e consequências
lência do passado: verdade, reparação, jus- seguem em disputa, ensejando um “paradoxo da vitória de todos”4, que se tra-
tiça e reforma das instituições.
duz em distintas concepções sobre a anistia no Brasil: de um lado, é lida como
3. Cf. Abrão, Paulo & Genro, Tarso. Os direi- impunidade e esquecimento, de outro, como liberdade e reparação5.
tos da transição e a democracia no Brasil: A aprovação da lei de anistia no Brasil em 1979, durante o regime mi-
estudos sobre a Justiça de Transição e a litar, é o marco jurídico fundante do processo de redemocratização. A forte
Teoria da Democracia. Coleção Fórum Jus-
e histórica mobilização social da luta pela anistia e pela abertura política é
tiça e Democracia, vol. 01. Belo Horizonte:
Fórum, 2012. Capítulo 2. de tal sorte que do conceito de anistia emana toda a concepção da Justiça de
Transição no Brasil. O conceito de anistia, enquanto “impunidade e esque-
4. Cf.: Torelly, Marcelo D. Justiça de Tran-
cimento” defendido pelo regime militar e seus apoiadores, seguiu estanque
sição e Estado Constitucional de Direito.
Belo Horizonte: Fórum, 2012. Capítulo 04, ao longo dos últimos anos, passando por atualizações jurisprudenciais. Por
item 4.3. outro lado, o conceito de anistia defendido pela sociedade civil na década
de 1970, anistia enquanto “liberdade”, seguiu desenvolvendo-se durante a
5. Cf.: Abrão, Paulo & Torelly, Marcelo D. democratização, consolidando-se na ideia de anistia enquanto “reparação”
“Resistance do change: Brazil’s persistent constitucionalizada no artigo 8º do Ato das Disposições Constitucionais
amnesty and its alternatives for truth and
Transitórias de 1988.
justice”, in: Lessa, Francesca & Payne, Leigh
(org.) Amnesty in the Age of Human Rights Para além da exposição da síntese desta tese, o presente texto procurará
Accountability. Nova Iorque: Cambridge analisar também o momento atual da justiça transicional brasileira, com a
University Press, pp. 152-180 ou Payne,
articulação de novos movimentos sociais, com demandas por justiça junto ao
Leigh; Abrão, Paulo; Torelly, Marcelo D.
(orgs.). A Anistia na Era da Responsabiliza- Supremo Tribunal Federal6 e na Corte Interamericana de Direitos Humanos7.
ção – o Brasil em perspectiva internacional Em acréscimo, serão enfocadas a nova posição da Câmara Criminal do Minis-

220
tério Público Federal8, a aprovação da Lei de Acesso à Informação9, a criação Continuação de nota 5.
da Comissão Nacional da Verdade e as primeiras condenações judiciais rela-
10 e comparada. Brasília/Oxford: Ministério
da Justiça/Universidade de Oxford, 2011.
cionadas aos crimes da ditadura militar .11
pp.212-248.
Tais elementos factuais, de acordo com o modelo de análise aqui propos-
to, consolidam a perspectiva social de uma ideia de anistia como “liberdade” e 6. Ação de Descumprimento de Preceito
como “reparação” e apontam para o surgimento de uma terceira fase de signi- Fundamental n.º 153/2008.

ficação social da ideia de “anistia” no processo transicional brasileiro, a qual 7. Caso Júlia Gomes Lund e outros vs. Brasil
chamamos de anistia enquanto verdade e justiça. (caso Araguaia). Sentença disponível em:
Estas percepções alteram, concretamente, os pressupostos da anistia en- http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/arti-
culos/seriec_219_por.pdf, bem como em:
quanto impunidade e esquecimento propagada durante o regime militar, inda
Revista Anistia Política e Justiça de Tran-
afirmada por setores e instituições conservadoras. sição, Brasília: Ministério da Justiça, n.º 04,
jul/dez 2010, pp. 402-554.

8. Cf.: 2a Câmara de Coordenação e Revisão


1. A centralidade da anistia de 1979 e sua ambiguidade de sentido Criminal. Documento n.º 02/2011. Workshop
na transição política Internacional sobre Justiça de Transição:
os efeitos domésticos da decisão da Cor-
te Interamericana de Direitos Humanos no
A compreensão do significado político e jurídico do termo “anistia” na histó-
caso Gomes Lund e outros vs. Brasil e as
ria do Brasil remete-nos, diretamente, ao contexto político de disputa entre re- atribuições do Ministério Público Federal.
gime ditatorial e a resistência política na década de 1970. Após o golpe militar Brasília, 03 de outubro de 2011. Disponí-
vel em: http://2ccr.pgr.mpf.gov.br/diversos/
de 1964, que contou com o apoio de importantes setores civis, surgem diversos
justica-de-transicao/documento%202.pdf
movimentos de resistência, inclusive de formas de resistência armada que não
existiam antes do golpe, e que passam a ser utilizadas pelo regime militar em 9. Brasil. Lei 12.527 de 18 de novembro
sua autojustificação .
12 de 2011.

Com a proclamação da medida de exceção denominada Ato Institucional 10. Brasil. Lei 12.528 de 18 de novembro
n.º 05, em 13 de dezembro de 1968, a ditadura, estimulada pelo ambiente da de 2011.
Guerra Fria, passou a atuar sistematicamente na repressão de tais movimentos
11. Como na recente condenação à inde-
de resistência, gerando, inclusive, uma política oficial típica de Terror de Esta-
nização de vítimas proferida em segunda
do. Tal Política destinava-se a generalizar a tortura e a exterminar os membros instância contra Brilhante Ustra e a recente
da resistência armada13, a banir ou exilar líderes políticos e sociais identifi- abertura de processo criminal na Justiça
cados com as ideologias de esquerda do país, além de gerar um incalculável Federal do Pará, envolvendo o episódio da
Guerrilha do Araguaia.
número de atingidos por prisões, por demissões arbitrárias no setor púbico
e privado, por perseguição política, em sentido amplo. Ademais, promoveu 12. Skidmore, Thomas. The politics of mi-
cassações de direitos políticos, compelimento à clandestinidade, censuras, tor- litary rule in Brazil 1964-85. Nova Iorque:
Oxford University Press, 1988, p.23.
turas, desaparecimentos forçados e execuções sumárias.

221
13. É desta época que trata o caso Guerri- O movimento em favor da aprovação de uma anistia aos perseguidos
lha do Araguaia, acima referida. políticos já é presente desde o início do Golpe, mas se fortalece entre os anos
de 1974 e de 1975, liderado pelas mulheres. Após o momento mais crítico da
14. Viana, Gilney & Cipriano, Perly. Fome
de Liberdade. São Paulo: Fundação Perseu repressão, as mães de filhos mortos, as viúvas de maridos vivos, os familiares
Abramo, 2009. de desaparecidos, dos presos e exilados políticos, ocupam a arena pública em
busca de liberdade e de notícias para seus entes. O movimento pela anistia se
15. Cf.: Gonçalves, Danyelle Nilin. “Os múl-
irradia pela sociedade, abrangendo desde os militantes organizados que per-
tiplos sentidos da Anistia”, in: Revista Anis-
tia Política e Justiça de Transição. Brasília: maneceram no país, até o movimento estudantil e do meio cultural. Aliados
Ministério da Justiça,Jan/Jun 2009, pp. ao movimento popular operário insurgente, essas agremiações protagonizaram
272-295.
uma das maiores mobilizações sociais já registradas na história do Brasil.
16. Na apreciação do caso “Rio Centro”, em A palavra de ordem do movimento social é a “anistia ampla, geral e
1981, a lei de anistia de 1979 sofrerá uma irrestrita”, adstrita a todos os “crimes” políticos praticados na resistência con-
mutação jurisprudencial pela atuação do tra o regime. Essa fase, que chamamos de primeira fase da luta pela anistia
Superior Tribunal Militar, passando a ser
uma lei “ampla e irrestrita” a todos os tipos
caracteriza, portanto, a anistia “enquanto liberdade”. A luta social buscou o
de crimes, incluindo os crimes de Estado, e, resgate das liberdades públicas: civis e políticas. A propósito, uma das crônicas
forçosamente, até mesmo aqueles crimes políticas mais reconhecidas sobre o período, a relatar a histórica greve de fome
cometidos posteriormente à sua edição.
de 32 dias dos presos políticos, em todo o Brasil, em favor da aprovação da lei
17. O conceito de “legalidade autoritária” de anistia, leva o simbólico título de “Fome de Liberdade”14.
é do politólogo Anthony W. Pereira, tendo A ampla mobilização popular obrigou a ditadura a rever sua posição con-
sido amplamente desenvolvido em: Pereira, trária a qualquer anistia. Junto ao parlamento brasileiro bipartidário – que
Anthony W. Ditadura e Repressão – o au-
toritarismo e o Estado de Direito no Brasil,
funcionou de forma descontinuada, sob intervenções e com parte de senadores
Chile e Argentina. São Paulo: Paz e Terra, “biônicos” durante o período de exceção – o Movimento Democrático Brasileiro
2010, pp. 237-255. (MDB), partido da oposição consentida, formulou um projeto de lei de anistia
que tinha este condão: devolver a liberdade a todos aqueles que os Estado dita-
torial criminalizou. Não obstante, o governo militar apresentou outro projeto de
lei, que previa uma anistia aos “crimes políticos e conexos”, ou seja, uma anistia
bilateral, porém restrita, excluindo os crimes violentos contra a pessoa, os ditos
“crimes de sangue” praticados pela resistência15. Por apertada maioria de 206
a 201 votos, a anistia proposta pelo gabinete do governo militar foi aprovada.
De um lado, o regime impôs à sociedade a anistia que lhe convinha: uma
anistia parcial e restrita, que excluía os ditos “crimes de sangue”, mas que
incluía dispositivos de sentido dúbio que seriam posteriormente interpretados
de forma estendida pelos tribunais militares responsáveis pela sua aplicação16,
segundo a legalidade autoritária vigente17.

222
Por outro lado, a sociedade civil obteve sua mais significativa vitória des- 18. Cf.: Torelly, Marcelo D. Justiça de Tran-
de a decretação do AI-5, ao alterar a correlação de forças sociais que obrigou sição e Estado Democrático de Direito. Co-
leção Fórum Justiça e Democracia, vol. 02.
o governo militar a aprovar alguma lei de anistia. A anistia, mesmo parcial, Belo Horizonte: Fórum, 2012, pp. 184-198.
permitiu recompor muitos direitos políticos, a saber: a liberdade para a maior
parte dos presos políticos, o retorno ao país dos exilados, a readmissão de ser- 19. Por exemplo: Fico, Carlos. “A nego-
ciação parlamentar da anistia de 1979 e
vidores públicos expurgados para os seus postos de trabalho, a liberdade e o
o chamado ‘perdão aos torturadores’”, in:
direito à identidade para os que haviam sido compelidas à clandestinidade, etc. Revista Anistia Política e Justiça de Transi-
Estas primeiras medidas de liberdade, que são acompanhadas das primei- ção. Brasília: Ministério da Justiça, Jul./Dez.
ras medidas reparatórias, forjaram o ambiente para a retomada do processo 2010, pp. 318-332.

democrático e o início da abertura política. A lei de anistia de 1979, mesmo


que restrita, constitui-se, assim, no marco jurídico fundante do processo de
redemocratização. Esse processo histórico enseja a ambiguidade que definimos
como um “paradoxo da vitória de todos”18.

2. O contexto da aprovação da Lei de Anistia de 1979: um acordo


político entre iguais?

É também nesse processo que se constrói a compreensão jurídica e histórica


hegemônica de que a aprovação da anistia de 1979 pelo Congresso Nacional
constituiu-se, em duplo aspecto, num acordo político entre oposição e governo19.
Seja em seu aspecto jurídico, de alcance concomitante aos crimes políticos da
resistência e aos crimes “conexos”, perpetrados pelos agentes públicos da repres-
são, seja em seu aspecto político, de uma condição de possibilidade inafastável
para a reconciliação nacional, essa compreensão, a nosso ver, merece algumas
considerações críticas.
Primeiramente, relacionadas ao déficit de legitimidade do suposto acor-
do. Como já referido, o espectro de liberdade e de representação política do
Congresso Nacional em agosto de 1979 era significativamente restrito. Nem
todos os parlamentares eram efetivamente eleitos pelo voto direto do cidadão.
Esse dado histórico é ainda mais relevante quando se verifica a apertada maio-
ria que permitiu a vitória do projeto de lei do governo (apenas cinco votos).
Ou seja: no Parlamento não houve um acordo, mas sim a disputa entre dois
projetos de anistia, decidida por uma pequena diferença.

223
20. Diferentemente do caso espanhol, onde Em segundo lugar, não se pode olvidar que, ao falar-se de “oposição
uma anistia similar à brasileira é aprovada livre”, em 1979, falamos, na prática, de uma “oposição consentida”20. Os parti-
em um parlamento com possibilidade de
dos políticos não eram livres e muitos segmentos políticos não participaram do
oposição mais efetiva, integrado, inclusive,
pelo Partido Socialista. Para uma excelente “pacto”, pois somente depois da anistia é que ocorre o retorno à legalidade de
exposição crítica do caso espanhol, veja-se: algumas agremiações, bem como de importantes quadros políticos de oposição
Aguilar, Paloma. “A lei espanhola de anis-
que estavam exilados, banidos ou forçados a recolherem-se à clandestinidade.
tia de 1977 em perspectiva comparada: de
uma lei para a democracia a uma lei para Em terceiro lugar, não existia relação de igualdade ou equidade entre
impunidade”, in: Payne, Leigh; Abrão, Pau- os pretensos sujeitos do acordo. De um lado, os governantes e a força de
lo; Torelly, Marcelo D. (org.). A Anistia na suas armas; de outro, a sociedade civil criminalizada, presa: ou pelas grades
Era da Responsabilização – o Brasil em
perspectiva internacional e comparada.
de ferro ou pelas leis ilegítimas de exceção. Por último, quando se verbaliza
Brasília/Oxford: Ministério da Justiça/Uni- que a anistia para “os dois lados” seria uma condição para a reconciliação,
versidade de Oxford, 2011, pp. 394-427. revela-se, aí, a sua face autoritária, produzindo-se uma chantagem odiosa e
repressiva: a concessão de uma liberdade restrita somente seria admitida com
a condição da impunidade.
Os aspectos percebidos nesse suposto “acordo político”, no contexto da
aprovação da lei de anistia, definitivamente, não são suficientes para carregar
consigo as características e os efeitos éticos e normativos que caracterizam os
acordos firmados sob a liberdade e a democracia. Mesmo que os personagens
negociadores do “acordo” tenham considerado a anistia de 1979 como bilate-
ral, não cabe afirmar-se o mesmo quanto aos movimentos políticos articulados
pela sociedade civil.
Quanto ao déficit de juridicidade, a questão que se apresenta é a seguinte:
acordos políticos do passado autoritário podem ter o condão de afastar o exercício
de direitos humanos na democracia? Existe democracia sem direitos humanos?
Estes questionamentos não pretendem, de nenhuma maneira, deslegiti-
mar a luta política daqueles que, pelos meios institucionais disponíveis, atu-
aram pela aprovação da lei de anistia de 1979 em favor dos presos políticos,
mas sim, contextualizar o limite do possível à época. Procuram, portanto,
diferenciar o momento da contingência da transição de seu momento de jus-
tiça, no caso, de justiça de transição. Tais questionamentos contribuem para
elucidar os contornos claros deste eventual acordo: a atuação da oposição
consentida (restrita e limitada), que não pode ser traduzida historicamente
como um abrangente acordo social.

224
3. A Constituinte e a insurgência da “anistia como reparação”

Após a anistia, o movimento pela redemocratização ganha fôlego, mesmo sem


afetar a manutenção do poder de controle do regime militar. Grandes manifesta-
ções clamam por eleições diretas para o cargo de Presidente da República. A di-
tadura, mais uma vez, demonstra sua força e capacidade de controle parlamentar
e impõe mais uma derrota à sociedade organizada. Derruba a emenda Dante de
Oliveira pelas “diretas já”. E, com o apoio de um parlamento fragilizado, aprova
a manutenção das eleições indiretas para a escolha do primeiro presidente civil
pós-período ditatorial. Após as eleições, é convocada uma Assembleia Nacional
Constituinte, livre e soberana. Este será o cenário de uma nova disputa pelo
conceito de anistia, tomada em um ambiente efetivamente mais democrático.
O colégio eleitoral para a eleição indireta de um presidente civil para o
Brasil, este sim, foi um cenário de acordo político. Evidencie-se que a chapa
vencedora foi resultante de uma composição de um líder da oposição consen-
tida, com o antigo presidente do partido de sustentação da ditadura. Tal acordo
sinalizou a falta de interesse em uma ruptura com o regime autoritário. Se, na
aprovação da Lei de Anistia, mais de cinco anos antes, não houve acordo, e
sim disputa entre dois projetos, eis aqui a configuração de um pacto político
da transição brasileira. A transição, pela via indireta da eleição de Tancredo
Neves (1985), foi pactuada com os militares e transcorreu de forma tranqüila.
Enquanto a ditadura Argentina terminou em ruptura, o Brasil e o Chi-
le são exemplos de transições controladas. A ditadura brasileira executou de
forma meticulosa seu plano de saída: (I) uma lei de autoanistia restrita para
afastar posições políticas radicalizadas; (II) eleições indiretas para assegurar
uma lógica de continuidade, e; (III) ampla destruição de arquivos públicos dos
centros e órgãos de repressão para tentar apagar vestígios e responsabilidades
individuais pelas graves violações aos direitos humanos.
Um fator relevante para a compreensão da mutação do conceito de anistia
acontece na convocação da Assembleia Constituinte. O ato de convocação da
constituinte é formalizado por uma Emenda Constitucional à Carta outorgada
pela Junta Militar de 1969. Tal Emenda reafirmou a anistia nos termos da lei de
1979, inclusive em suas ambiguidades, fazendo remissão ao perdão aos crimes
políticos e conexos. A reafirmação da anistia ambígua, “bilateral”, no texto da

225
21. O voto do Ministro Gilmar Mendes na Emenda Constitucional teve a intenção de “constitucionalizar” referido dispo-
ADPF 153 é uma importante leitura desta sitivo e reiterar a dimensão da anistia enquanto “impunidade e esquecimento”.
tese, a qual defende que a Emenda 26 vin-
Deve a Emenda Constitucional convocatória da Constituinte ser compre-
cula e limita o Poder Constituinte.
endida como uma limitação ao Poder Constituinte21? Uma espécie de limitação
22. A esse respeito, veja-se: Torelly, Marcelo apriorística à própria Constituição democrática22?
D. “A anistia e as limitações prévias à Cons-
O fato é que, independentemente de sua forma de chamamento, o Poder
tituição”, in: Constituição e Democracia
(UnB), Brasília, outubro de 2009, pp. 20-21. Constituinte brasileiro, materialmente, mostrou-se independente e não vincula-
do, como sói ser um espaço político desta natureza23. Como resultado, o processo
23. Neste sentido, veja-se: Paixão, Cris- constitucional consolidou-se como espaço de ampla discussão política e social,
tiano. “A Constituição em disputa: tran-
sição ou ruptura?”. In: Seelaender, Airton
levando ao abandono do texto-base produzido por uma comissão de notáveis,
(org.)  História do Direito e construção do e pela redação de uma efetiva constituição democrática, marcada pelas lutas e
Estado. São Paulo: Quartier Latin, no prelo. contradições que todo processo político crítico, como o é a insurgência consti-
tucional, possui24. O debate da anistia não escapou ao alcance desse processo.
24. A esse respeito: Barbosa, Leonardo Au-
gusto Andrade. Mudança constitucional, O que ocorre é que a nova Constituição resultante da Assembleia Consti-
autoritarismo e democracia no Brasil pós- tuinte não previu, em seus dispositivos, os mesmo termos da anistia ambígua e
1964. Universidade de Brasília, Faculdade
bilateral, a anistia enquanto impunidade e esquecimento. Ao contrário, a Cons-
de Direito: Tese de Doutoramento, 2009.
tituição da República de 1988, faz referência, em seu Ato de Disposições Cons-
titucionais Transitórias, a uma anistia para os que foram atingidos por atos de
exceção, prevendo, inclusive, mais um conjunto de novos direitos reparatórios.
Portanto, a anistia constitucional dirigiu-se aos perseguidos políticos e
não aos perseguidores, omitindo-se quanto à anistia a crimes políticos e co-
nexos. A propósito, essa mesma Constituição democrática, de modo coerente,
declarou no rol dos direitos e garantias individuais (art. 5º) que ninguém será
submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante (inc. III); bem
como que a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou
anistia a prática da tortura (inc. XLIII).
Ao que tudo indica, a Constituição corroborou o sentido da anistia en-
quanto liberdade, somando-a a uma dimensão de reparação. E determinou que
todos aqueles cidadãos atingidos por atos de exceção deveriam ser reparados
pelo Estado democrático.
Desta feita, o conceito de anistia defendido pela sociedade civil movi-
mentou-se constitucionalmente para o sentido de uma anistia enquanto liber-
dade e reparação, antagônico com o sentido de anistia enquanto impunidade
e esquecimento imposto pelo regime, seus cúmplices e seus intérpretes legais.

226
Temos, portanto, que, dentre os quatro pilares da justiça de transição, 25. Veja-se: ONU. “O Estado de Direito e a
quais sejam: verdade e memória; reformas das instituições, justiça e repara- Justiça de Transição em sociedades em con-
flito ou pós-conflito”. S/2004/626. Tradu-
ções25; este último foi efetivamente constitucionalizado em 1988. Essa con- ção disponível em: Revista Anistia Política
quista constitucional só foi possível a partir da mobilização na Constituinte, e Justiça de Transição. Brasília: Ministério
especialmente exercida pelos sindicatos e associações de servidores públicos da Justiça, Jan/Jun. 2009, pp. 320-350.

em geral, pelos perseguidos políticos - atingidos por atos de exceção ou afas-


26. Confira-se, refutando tal tese em foro
tados de suas funções durante movimentos grevistas ocorridos durante a di- de estudos comparados: Pascual, Alejandra
tadura militar -, insatisfeitos com a incompletude das medidas reparatórias Montiel. Terrorismo de Estado: a Argentina
presentes na Lei de Anistia de 1979 e na Emenda Constitucional n.º 25/85. de 1976 a 1983. Brasília: Ed.UnB, 2004.

27. Cf.: “País deveria olhar para frente, di-


zem militares”, in: Folha de S. Paulo, 06 de
4. A segunda fase da luta pela anistia no Brasil: a reparação como novembro de 2008. Disponível em: http://
www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ul-
eixo estruturante da Justiça de Transição t96u464785.shtml

A ambiguidade da anistia de 1979, somada ao discurso social construído 28. Para um maior desenvolvimento da
ideia de “estado de negação”, veja-se: Co-
ao longo do Estado de Exceção estrutura, desta feita, os pilares da transição
hen, Stanley. Estado de Negación. Buenos
controlada, em três âmbitos distintos: politicamente, a negação da existência Aires: UBA/British Council, 2005.
de vítimas e a justificação da violência por meio da tese dos dois “demônios”,
que implica na inexistência de vítimas26; culturalmente, pela afirmação do es-
quecimento como melhor forma de tratamento do passado27, e; juridicamente,
pela garantia da impunidade por meio da lei de anistia.
Se, num primeiro momento, as forças sociais não foram capazes de su-
perar essa estratégia, o desenvolvimento do programa de reparações às víti-
mas no Brasil, gradualmente, significou uma primeira ruptura. O seu resulta-
do concreto é o de que um dos já citados pilares da transição controlada - a
pretensão ditatorial ao esquecimento -, é rompido. Afinal, somente foi e é
possível reparar aquilo que é objeto de conhecimento e consequente exercício
da memória. Assim, um primeiro resultado imediato do programa de repara-
ções é, por fim, um “estado de negação da violência de Estado” experimen-
tado pelo país28.
No Brasil insta constar duas comissões de reparação: a Comissão Espe-
cial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que funcionou entre 1995 e 2007,
e a Comissão de Anistia, atuante desde 2001 até os dias atuais. Para promover
reparação, o Estado, necessariamente, reconhece a existência de vítimas e suas

227
29. Um amplo panorama deste processo é narrativas. E, mais ainda, reconhece as graves violações contra os direitos
apresentado no nosso já referido texto “O humanos perpetradas contra a resistência à ditadura.
programa de reparações como eixo estru-
De forma menos imediata, as comissões de reparação passaram a produ-
turante da justiça de transição no Brasil”.
zir verdade e memória, tornando-se mecanismos justransicionais transversais.
Ao desfazer as narrativas oficiais sobre os crimes de Estado e reconhecer as
narrativas das vítimas, as comissões efetivavam o direito à verdade, diante das
violações de direitos humanos, mesmo antes de tal direito restar positivado no
ordenamento jurídico doméstico pelo disposto na lei de criação da Comissão
Nacional da Verdade. O processo de reparação resulta em um inédito acervo
de testemunhos e de registros de violência que compõem os arquivos das duas
Comissões de reparação29.
Mais ainda, as comissões iniciaram a implantação de projetos de resgate
da memória histórica das vítimas e passaram a promover diversas ações de
educação e direitos humanos em todo o Brasil. A esse relevante quadrante
histórico, de mais de 20 anos de conquista e afirmação da reparação e me-
mória contra o esquecimento; de enfrentamento ao negacionismo dos agentes
de repressão; de visibilidade às vítimas e seus relatos de violência sofrida; de
reconstrução de episódios históricos que vigiam sob versões oficiais deturpa-
doras da verdade factual; de construção crescente de um importante consenso
social sobre a existência e a gravidade dessas violações; e do surgimento de
novas mobilizações em torno da agenda da Justiça de Transição ainda pen-
dente, damos o nome de segunda fase da luta pela anistia.
Ao desenvolver ao máximo o processo de reparações, transversalmente
produzindo memória e verdade, a segunda fase da luta pela anistia caracteriza,
portanto, um momento em que a anistia é lida como liberdade e reparação. Nes-
ta fase, o conceito de anistia passou a ser debatido de forma mais direta e aberta.
Em 2007, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
lançou o livro relatório Direito à Memória e à Verdade, traçando, de forma sis-
tematizada, seus 12 anos de atuação e quase 400 casos reconhecidos de mortes
e desaparecidos praticados pela ditadura.
No mesmo ano, a Comissão de Anistia, empreende uma particular virada
hermenêutica. E, em deliberada disputa pela significação desse mecanismo
histórico de clemência, institui atos públicos de pedidos de desculpas oficiais,
em nome do Estado, a cada um dos ex-perseguidos e afetados pela violên-

228
cia do Estado de Exceção, por meio das chamadas Caravanas da Anistia30. 30. Vide: Abrão, Paulo; Carlet, Flávia et alli.
Se o conceito de anistia significava um gesto político do Estado direcionado a “As Caravanas da Anistia: um mecanismo
privilegiado da Justiça de Transição Bra-
perdoar os cidadãos enquadrados nos dispositivos legais da Doutrina de Segu-
sileira”. In: Revista Anistia Política e Justiça
rança Nacional, com a medida, a anistia ressignificada passou a constituir-se de Transição. Brasília: Ministério da Justiça.
em ato no qual o cidadão violado é quem perdoa o Estado pelos erros come- N.º 02. Jul./Dez. 2009, seção especial,
pp.110-149.
tidos contra ele no passado. A declaração de anistiado político torna-se um
ato oficial de reconhecimento do direito de resistência da sociedade contra o 31. Neste mesmo sentido, veja-se: Bag-
autoritarismo e a opressão. Se o significado da anistia, para alguns, reverbera- gio, Roberta. “Justiça de Transição como
va o esquecimento ou amnésia, agora ele passa, pela ação estatal de reconhe- reconhecimento: limites e possibilidades do
processo brasileiro”. In: Santos, Boaventura;
cimento, a revelar o protagonismo da reparação e da memória31. Abrão, Paulo; MacDowell, Cecília; Torelly,
No mesmo sentido dessa ressignificação institucional e política da ideia Marcelo D. (org.). Repressão e Memória
de anistia no Brasil, e, considerando iniciativas do Ministério Público Federal Política no Contexto Ibero-Brasileiro.
Brasília/Coimbra: Ministério da Justiça/Uni-
em ajuizar ações civis contra agentes torturadores da ditadura militar, a Co-
versidade de Coimbra, 2010, pp. 260-285.
missão de Anistia realizou uma Audiência Pública no Ministério da Justiça. A
iniciativa foi apoiada por mais de 30 entidades nacionais de direitos humanos, 32. Diante das reivindicações sociais e
das obrigações assumidas pelo Brasil em
com o objetivo de questionar o alcance e a interpretação da lei de anistia de
compromissos internacionais, a Comissão
1979 como regra de impunidade para os crimes contra a humanidade32. de Anistia do Ministério da Justiça pro-
O tema, que era considerado um tabu político, foi recolocado na pauta moveu a Audiência Pública “Limites e
nacional. A Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental n.º 153, inter- Possibilidades para a Responsabilização
Jurídica dos Agentes Violadores de Di-
posta pela Ordem dos Advogados do Brasil junto ao Supremo Tribunal Federal
reitos Humanos durante o Estado de Ex-
é um dos produtos mais imediatos desta mobilização interinstitucional. ceção no Brasil”, ocorrida em 31 de julho
Em 2009, com a ampliação do rol de atores sociais atuantes na pauta, de 2008. Foi a primeira vez que o Estado
brasileiro tratou oficialmente do tema
a sociedade civil mobilizada aprova junto à Conferência Nacional de Direitos
após quase trinta anos da lei de anis-
Humanos a proposta de uma “Comissão da Verdade e Justiça”. A pauta seria tia. A audiência pública promovida pelo
incorporada ao III Plano Nacional de Direitos Humanos33, e coadunaria, dois poder executivo, com a devida represen-
anos depois, na criação da Comissão Nacional da Verdade. tação de posições jurídicas e políticas di-
vergentes, rompeu com uma espécie de
Em 2010, os familiares dos mortos e desaparecidos no episódio da Guerrilha mito em torno do “tema proibido” e teve
do Araguaia, com apoio do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), o condão de unir forças que se manifes-
conquistam uma sentença junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos. A tavam de modo disperso, articulando as
iniciativas da Ordem dos Advogados do
sentença declara o dever do Estado brasileiro de suspender todos os obstáculos
Brasil, do Ministério Público Federal de
jurídicos impeditivos do direito à proteção judicial das vítimas, inclusive na esfera São Paulo, das diversas entidades civis.
penal. E, ainda, de declarar a lei de anistia brasileira como uma clara autoanistia, Dentre estas, a Associação dos Juízes pela
incompatível com a jurisprudência do Sistema Interamericano de Direitos Huma- Democracia, o Centro Internacional para
a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL),
nos, especialmente em relação às graves violações contra os direitos humanos34.

229
Continuação da nota 32 Como se percebe, na segunda fase da luta pela anistia, desde o trabalho
a Associação Nacional Democrática Na-
das comissões de reparação e das ações políticas de promoção da memória e
cionalista de Militares (ADNAM). E, ainda,
fomentou a re-articulação de iniciativas da verdade, resgata-se e amplia-se o leque de atores sociais mobilizados para
nacionais pró-anistia. A audiência públi- a agenda da justiça de transição34. Mobilizam-se os familiares dos mortos e
ca resultou em um questionamento junto desaparecidos, os movimentos dos presos e perseguidos políticos, o movimen-
ao Supremo Tribunal Federal, por meio
to dos trabalhadores civis demitidos em lutas paredistas, o movimento de ou-
de uma Arguição de Descumprimento de
Preceito Fundamental (ADPF n.º 153) pelo tros segmentos civis e militares sociais atingidos por atos de exceção. Enfim,
Conselho Federal da OAB. Ressalte-se que mobiliza-se toda uma agenda de entidades de direitos humanos que se volta à
a controvérsia jurídica debatida e leva-
temática com grande vitalidade.
da ao STF pela Ordem dos Advogados do
Brasil advinha, inclusive, do trabalho do Este momento de conscientização social sobre o passado gerou a corro-
Ministério Público Federal de São Paulo, são dos pilares do negacionismo e do esquecimento, restando funcional apenas
ao ajuizar ações civis públicas em favor o pilar da impunidade, assegurada nos dias de hoje pela persistência da leitura
da responsabilização jurídica dos agentes
torturadores do DOI-CODI, além das ini-
dada à anistia de 1979 pelos tribunais superiores brasileiros.
ciativas judiciais interpostas por familiares
de mortos e desaparecidos. A exemplo do
pioneirismo da família do jornalista Vladi-
5. Impunidades e Justiça de Transição
mir Herzog que, ainda em 1978, saiu vito-
riosa de uma ação judicial que declarou a
responsabilidade do Estado por sua morte A impunidade dos crimes de Estado perpetrados pela ditadura civil-militar
e afastou a versão oficial e inverídica de abrange duas dimensões. Uma, relativa ao conhecimento histórico das graves
seu suicídio.
violações aos direitos humanos e suas autorias individuais e institucionais. Ou-
33. Disponível em: http://portal.mj.gov.br/ tra, à possibilidade jurídica de aplicação de sanções penais e civis a estes autores.
sedh/pndh3/pndh3.pdf Sobre o primeiro aspecto, a lei que institui a Comissão da Verdade pode
representar um avanço. Enquanto que as Comissões de reparação, por com-
34. Sobre a mobilização junto à Corte, ve-
ja-se: Kristicevic, Viviana; Affonso, Beatriz.
petência legal, apenas puderam reconhecer fatos e assumir a responsabilidade
“A dívida histórica e o caso Guerrilha do abstrata do Estado brasileiro pelas violações ocorridas36., a Comissão da Verda-
Araguaia na Corte Interamericana de Di- de tem poderes para sistematizar, pelo menos, as graves violações aos direitos
reitos Humanos impulsionando o direito
humanos (torturas sistemáticas, desaparecimentos forçados, execuções sumá-
à verdade e à justiça no Brasil”. In: Payen,
Leigh A.; Abrão, Paulo; Torelly, Marcelo D. rias, genocídios e massacres) e identificar sua autoria individual e institucional.
(org.). A Anistia na Era da Responsabi- Isso significa que a Comissão da Verdade tem poderes para apurar todas
lização – o Brasil em perspectiva inter- as violações ocorridas, verificando um certo grau de responsabilidade, uma
nacional e comparada. Brasília/Oxford:
Ministério da Justiça/Universidade de Ox-
responsabilidade individual em sentido amplo. Não uma responsabilidade es-
ford, 2011, pp. 344-390. tritamente jurídica ou judicial, mas sim, no escopo do exercício do direito à
verdade que é pertencente às vítimas e a toda a sociedade. O próprio Supremo
Tribunal Federal brasileiro negou o direito à proteção judicial das vítimas,

230
impedindo a investigação criminal dos fatos cobertos pela lei de anistia, mas 37. A esse respeito, veja-se: CELS/ICTJ. Ha-
afirmou o direito da sociedade ter acesso à verdade. cer Justicia. Buenos Aires: Siclo XXI, 2011.

E, neste aspecto, o Brasil diferenciou-se da tradição latinoamericana de 38. Sobre o caso chileno, veja-se: Collins,
associar verdade e justiça. “No hay verdad sin justicia”, expressa o Estado Cath et alli. “Verdad, justicia y memoria:
argentino que, em 2005, por meio de sua suprema corte, declarou a lei local las violaciones de derechos humanos del
pasado”. In: Informe Anual sobre Derechos
de anistia inconstitucional. Com isso, foi possível abrir processos contra cerca
Humanos en Chile 2011. Santiago: Univer-
de mil agentes da ditadura, sendo que 250 já foram condenados por crimes sidad Diego Portales, 2011, pp 19-53.
graves, entre outros, o próprio ex-ditador Jorge Videla37.
O Chile, mesmo não revogando sua lei de anistia, reconheceu e cumpriu 39. Veja-se: Lessa, Francesca. “Barriers to
justice. The Ley de Caducidad and Impuni-
a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos para abrir inves- ty in Uruguay”. In: Lessa, Francesca; Payne,
tigações e condenar casos de graves violações aos direitos humanos, os quais, Leigh A. (org.). Amensty in the Age of Hu-
como já dito, escapam ao alcance das leis de anistia38. O Uruguai condenou man Rights Accountability – comparative
and international perspectives. Nova Ior-
Juan Bordaberry, seu último ditador, por atentado contra a democracia e por ser
que: Cambridge University Press, 2012, pp.
responsável por crimes de desaparecimento forçado. Isto, além de incentivar a 123-151, bem como Skaar, Elin. “Impuni-
realização de um intenso debate sobre a promoção de justiça, ante a outras vio- dade versus responsabilidade no Uruguai:
o papel da ley de caducidad”. In: Payne,
lações39. O Peru indiciou e sentenciou Alberto Fujimori40. A Guatemala abriu dois
Leigh; Abrão, Paulo; Torelly, Marcelo D. A
julgamentos por acusações de genocídio contra o ex-ditador, Efraín Ríos Montt41. Anistia na Era da Responsabilização. Bra-
São medidas que expressam, para as sociedades destes países, que a lei é sília/Oxford: Ministério da Justiça/Universi-
igual para todos, inclusive para aqueles que um dia estiveram em posição de dade de Oxford, 2011, pp. 428-469.

poder para manipular o modo de produção legislativa e direcionar institutos


40. Cf.: BURT, Jo-Marie. “Culpado: o julga-
jurídicos de clemência para neutralizar seus próprios crimes. Trata-se de uma mento do ex-presidente peruano Alberto
concepção na qual o Estado democrático presta contas daquilo que foi feito Fujimori por violações dos direitos huma-
nos”. In: Revista Anistia Política e Justiça de
anteriormente pelo Estado de Exceção, pela via da justiça de transição.
Transição. Brasília: Ministério da Justiça, n.º
A Justiça de Transição, in concreto, pode ser concebida segundo três 04, Jul./Dez. 2010, pp.108-137.
características: a complementaridade, a circularidade e a contextualidade dos
seus mecanismos. 41. Veja-se: Roth-Arriaza, Naomi; Braid,
Emily. “De facto and de Jure amnesty laws:
Complementaridade significa que verdade, memória, justiça e reparação the Central American case”. In: Lessa, Fran-
são elementos que se entrecruzam, suas funções são superpostas e interdepen- cesca; Payne, Leigh A. (Org.). Amensty in
dentes. Por exemplo, o direito à verdade depende tanto da atuação das comis- the Age of Human Rights Accountability
– comparative and international perspec-
sões de verdade e reparação quanto do sistema de justiça.
tives. Nova Iorque: Cambridge University
Circularidade significa que os resultados de uns destes mecanismos re- Press, 2012, pp. 182-209.
metem a necessidade de aplicação dos outros. Por exemplo, o trabalho final de
uma comissão da verdade impõe novas medidas reparatórias, abre horizontes
de justiça e promove novas memórias.

231
42. Schwartz, Herman. The struggle for
Contextualidade, por sua vez, implica que os mecanismos são aplicados
constitutional justice in post-communist
Europe. Chicago: Chicago University Press, conforme as características históricas, políticas e de cada transição local. Por
2002. exemplo, as ditaduras na América Latina ocorreram no contexto da Guerra
Fria, estimuladas por uma das potências do mundo bipolar contra a expansão
do poder da outra. No caso brasileiro, lutava-se contra a expansão do pen-
samento socialista e das idéias de esquerda. As ditaduras do Leste Europeu,
por sua vez, são contextualmente diferentes das do Cone Sul. As eventuais
democracias que insurjam do processo da Primavera Árabe serão, igualmente,
distintas. Esses padrões contextuais devem ser levados em conta tanto para a
integração de políticas interestatais, quando para sua diferenciação.
Para a América Latina, que possui défices históricos na consolidação do
Estado de Direito, é particularmente caro que o sistema de Justiça participe do
processo de democratização da sociedade e das instituições. E, assim, supere um
conjunto de jurisprudências autoritárias para afirmar os direitos humanos vi-
sando vocacionar-se para a superação de uma concepção institucional de con-
trole social repressivo rumo a uma concepção de segurança e justiça protetiva
da emancipação social. Por sua vez, no Leste Europeu, o deságio residia na pró-
pria construção de sistemas de justiça vinculados ao ideário constitucionalista42.
Se estas diferenças contextuais interregiões são relevantes, as distinções
intrarregionais também merecem atenção. É preciso registrar que a cooperação
entre as justiças dos países sul-americanos, por exemplo, tem sido vital para a
promoção de justiça. A posição do Brasil sobre justiça de transição tem, assim,
reflexos em nível regional, vez que perpetradores de outros países latinoame-
ricanos estão em território nacional e suas extradições dependem da compre-
ensão jurídica que o Brasil assume sobre a sua própria anistia.

6. Anistia como “Verdade e Justiça”?

Atualmente, emergem, no Brasil, novos movimentos sociais com o lema da


busca de Verdade e Justiça, análogos aos movimentos que antes surgiram na
Argentina e no Chile. Questionam a validade da lei de anistia. Exigem o cum-
primento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos para que

232
sejam superados os obstáculos jurídicos para a responsabilização judicial dos 43. Um exemplo pode ser encontrado em:
agentes perpetrados de crimes contra a humanidade . 43 Mourão, Alexandre et alli. “Os aparecidos
políticos: arte ativista e justiça de transi-
Se, na primeira fase da luta pela anistia, os movimentos sociais deman- ção”. Em: Revista Anistia Política e Justiça
davam liberdade, e, na segunda, reparação e memória, estes novos movimen- de Transição. Brasília: Ministério da Justiça,
tos sociais avançam ainda mais a agenda da transição, inaugurando a terceira n.º 06, jul./dez. 2011, no prelo.

fase da luta pela anistia, ao demandarem verdade e justiça. No período recen-


44. Cf.: “Comemoração do golpe de 64
te, após a aprovação da Comissão da Verdade e da Lei de Acesso à Informação, termina em tumulto no Rio”, disponível
vemos surgirem novos atores sociais da agenda justransicional: os comitês em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/
estaduais pela memória, verdade e justiça, o “movimento quem?”, o “levante comemoracao-do-golpe-de-64-termina-
-em-tumulto
popular da juventude” e os “aparecidos políticos” são alguns destes novos
atores. A manifestação popular contra a comemoração do golpe de 1964 pelos 45. O modelo de “equilíbrio da justiça”,
clubes militares, em 2012, no Rio de Janeiro, e os atos políticos dos “escra- exemplificado pela compatibilização entre
anistias e julgamentos é defendido por al-
chos”, demonstraram a capacidade de mobilização destes atores e grupos44.
guns autores como aquele que mais produz
Tais quais os movimentos anteriores, estes novos movimentos sociais aprimoramentos democráticos pós-tran-
não se insurgem contra a anistia, que mantém sua centralidade na agenda sicionais. Confira-se: Olsen, Tricia; Payne,
Leigh A.; Reiter, Andrew. Transitional Jus-
da justiça de transição brasileira desde os anos 1970. Mas sim, disputam seu
tice in Balance. Washington: United States
significado, apontando para uma leitura da anistia enquanto justiça e verdade, Peace Institute, 2010.
que exclua dos efeitos da lei de anistia de 1979 os graves delitos de Estado,
os denominados crimes contra a humanidade. Pode-se dizer que buscam gerar
as condições objetivas para aproximação com o modelo chileno de justiça de
transição, onde uma anistia penal para crimes comuns convive com julgamen-
tos por delitos contra graves violações contra os direitos humanos45.
O que explica a eficácia da lei de anistia no Brasil, distintamente dos
demais países latinoamericanos, é a combinação de fatores históricos, relacio-
nados à transição controlada; fatores sociais, como a mobilização social tardia
em torno do tema; fatores políticos, típicos dos presidencialismos de coalizão
e da dificuldade de composição de maiorias estáveis e programáticas; e fatores
jurídicos, especialmente em razão da decisão do Supremo Tribunal Federal ao
validar a bilateralidade da lei de anistia de 1979.
A interpretação dada à lei de anistia pelo Judiciário da ditadura (em
especial pelo Superior Tribunal Militar), recentemente reiterada pelo Supremo
Tribunal Federal democrático, por meio do julgamento da ADPF n.º 153, é um
desafio objetivamente colocado.

233
46. Huntiginton, por exemplo, define os A decisão do Supremo Tribunal Federal baseou-se, em síntese, em três
dois casos como emblemáticos do modelo argumentos: 1º) Por ser bilateral, a lei de anistia brasileira não se trataria de uma
de “transição por transformação”. Cf.: Hun-
autoanistia, como outras da região; 2º) Contra a anistia brasileira não se aplicaria
tington, Samuel. The third wave. Norman:
Oklahoma University Press, 1993. a tipologia de crimes contra a humanidade; e 3º) Tratando-se de uma lei de re-
conciliação, somente o Poder Legislativo poderia modificá-la. Coincidentemente,
47. Como recentemente afirmado pela ti-
essas foram as mesmas fundamentações recentemente utilizadas no julgamento
tular da Comissão Nacional da Verdade,
Rosa Cardoso. Cf.: “Revisão da Anistia de- do magistrado espanhol Baltazar Garzón, o que permite corroborar a por muitos
pende da opinião pública”. In: O Estado de alegada similitude entre o processo transicional brasileiro e espanhol46.
S. Paulo. Disponível em: http://www.esta- Particularmente temos leitura crítica a esta decisão pelos seguintes mo-
dao.com.br/noticias/impresso,revisao-da-
-anistia-depende-de-opiniao-publica-diz-
tivos: (I) ela reconhece, no regime iniciado após o golpe de Estado em 1964, os
rosa-cardoso-cunha,873966,0.htm. elementos essenciais de um Estado de Direito; (II) considera legítimo o pacto
político contido na Lei de Anistia que, mesmo sendo medida política, teria o
condão de subtrair um conjunto de atividades delitivas da esfera de atuação
do poder judiciário; (III) consequentemente, como efeito prático, negou o di-
reito à proteção judicial aos cidadãos violados em seus direitos fundamentais
pelo regime militar, por meio de exercício de controle de constitucionalidade;
(IV) reconhece que a lei de anistia e a emenda Constitucional convocatória da
Constituinte são as bases do Estado Democrático de Direito no Brasil; (V) ignora
que anistiar os “dois lados” em um mesmo ato não anula o fato de que o regime
estaria anistiando a si próprio; (VI) não leva em conta os tratados e convenções
internacionais em matéria de direitos humanos, especialmente a jurisprudência
da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que já havia declarado como in-
válidas as autoanistias e a anistia a graves violações contra os direitos humanos;
(VII) omite-se quanto ao tratamento consoante os precedentes do próprio tribu-
nal constitucional pátrio, em sede da imprescritibilidade dos crimes de desapa-
recimento forçado, forjados nos casos de extradição de repressores argentinos.
Assim, o fato é que a decisão do STF tornou a lei de 1979, em sua
dimensão de “impunidade”, formalmente válida no ordenamento jurídico de-
mocrático brasileiro, estabelecendo uma continuidade direta e objetiva entre o
sistema jurídico da ditadura e o da democracia.
Evidentemente, é muito cedo para se saber em que medida esta terceira
fase da luta pela anistia no Brasil tem – ou terá – a força política necessária
para alterar este estado das artes. Mas o certo é que, como nos demais países
da região, somente a atuação social poderá ensejar tal alteração47.

234
Essa possibilidade de nova ressignificação do conceito de anistia, no 48. Cf.: “Verdade e Justiça em perspectiva
Brasil, rumo à Verdade e a Justiça, constitui-se em momento de reflexão sobre comparada”. José Zalaquett responde Mar-
celo D. Torelly. In: Revista Anistia Política
as conexões entre a política e o direito e envolvem um conjunto de aspectos e Justiça de Transição. Brasília: Ministério
muito interessantes: da Justiça, n.º 04, Jul./Dez. 2010, pp. 12-29.

1. A relação do direito internacional e o direito nacional no Brasil;


2. Os fundamentos da Constituição brasileira;
3. Os efeitos penais e civis das leis de anistia;
4. A distinção entre crimes políticos e crimes comuns;
5. O papel do Judiciário nos processos de democratização;

O certo é que já existem resultados tangíveis que apontam, ao menos,


para uma nova etapa de nossa justiça de transição. Primeiramente, temos,
hoje, positivado em nosso ordenamento, o Direito à Verdade. Depois, resta
criada – e em funcionamento – uma Comissão Nacional da Verdade, com
poderes e estrutura para realizar algo nunca antes feito em nosso país: a
sistematização e a identificação das autorias de um conjunto de violações
contra os direitos humanos, promovidas pela ação ou pela omissão estatal.
Tais ações de sistematização e identificação serão acompanhadas de um con-
junto de recomendações de reformas institucionais para o enfrentamento do
legado de tais violações.
A Comissão da Verdade é produto de um processo histórico que deita
longas raízes, chegando à disputa original pelo conceito de anistia presente
nas ruas em 1979. Constitui, certamente, um momento ímpar e extraordinário
para avançar. Tem poderes, estrutura e atribuições que nenhum outro meca-
nismo de nossa justiça transicional já teve.
Não obstante, a Comissão Nacional da Verdade não será a última etapa
de nossa agenda transicional. Somando-se aos esforços já empreendidos, a
Comissão da Verdade é um passo a frente, pois seria um erro esperar que a Co-
missão da Verdade possa, ou deva, dar conta de todas as dívidas pendentes da
transição, ou que seja sua responsabilidade fazê-lo isoladamente. Experiência
como a do Chile, que teve duas comissões da verdade e uma mesa de negocia-
ção, são extremamente exemplificativas dos potenciais e limitações que tais
mecanismos têm para fazer avançar a democracia48.

235
49. Justiça Federal. Seção do Pará. Sub- A sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso “Guer-
seção Marabá. 2ª Vara. Autos n.º 4334- rilha do Araguaia” também foi elemento determinante para a alteração da
29.2012.04.01.3901.
posição institucional do Ministério Público Federal que, após defender a anis-
tia enquanto impunidade no julgamento da ADPF n.º 153, passa, agora, a
buscar alternativas para contornar tal interpretação. E, a partir daí, processar,
pelo menos, as mais graves violações praticadas contra os direitos humanos,
incorporando, em sua atuação institucional, importantes aportes da doutri-
na do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Propiciando, então, um
deslocamento gradual do modelo de impunidade espanhol para o modelo de
responsabilidade parcial chileno.
Finalmente, tivemos, recentemente, a primeira denúncia criminal aceita
pela Justiça Federal do Brasil, no estado do Pará49.
Aos somarem-se ao contexto dos novos atores sociais, atualmente mo-
bilizadas, essas mudanças institucionais insurgem-se justamente contra o úl-
timo sustentáculo da estratégica de saída dos agentes do regime militar de
1964: a perpetuação da impunidade. Embora ainda muito recente, esse novo
cenário que se desenha é o mais favorável para a Justiça de Transição no
Brasil desde a redemocratização.

7. Aportes finais: a anistia enquanto reparação, memória,


verdade e justiça

Esta apresentação buscou resumir e apresentar, de forma direta e sintética, um


conjunto de argumentos que vem sendo construído coletivamente, há alguns
anos, para não apenas explicar, mas, também, incidir no processo transicional
brasileiro. Resumimos, então, suas teses centrais.
Primeiro, a de que a anistia é um elemento cuja centralidade e mutabili-
dade é fundamental para a devida compreensão da justiça de transição brasi-
leira. Do conceito de anistia emana toda a concepção da Justiça de Transição
no Brasil. No Brasil, Verdade, Reparação e Justiça dependem do conceito de
anistia. Sem compreender a amplitude, ambiguidade e a disputa em torno do
conceito de “anistia” no Brasil, corre-se o risco de assimilar um senso comum
do discurso da “anistia enquanto impunidade e esquecimento”, desperdiçando-

236
-se, assim, o enorme potencial político que o conceito de anistia tem em nossa
transição para a expansão das liberdades públicas.
Segundo, a tese que considera que o processo de reparação às vítimas
foi o eixo estruturante da justiça de transição no Brasil. Mesmo tratando-se
de um processo tardio, quando comparado com o dos países vizinhos, temos
que seu fluxo de seguimento nunca cessou. E desenvolveu-se, gradualmente,
com o somatório de forças ocorrendo justamente na medida que o processo
de reparação corroia dois dos pilares de sustentação da estratégia de saída do
regime (a negação da existência de vítimas e a imposição do esquecimento).
Engendrando, inclusive, o atual questionamento do pilar da impunidade.
Terceiro, a luta pela anistia atravessa gerações e consolida-se como mar-
co de formação de nossa identidade democrática. É por meio desta luta que
a sociedade se mobiliza para mudar um conjunto de alegados elementos de
conformação de nossa identidade nacional. Como exemplo, temos a premissa
do “homem cordial”, avesso à ruptura, que é apropriada e distorcida pela estra-
tégia de saída do regime por meio de um “acordo político”. É esta luta que nos
leva a refutar a ilação de que somos um povo pacífico, somente porque temos
um número de vítimas fatais menor em nossa ditadura que nas de alguns dos
países vizinhos, o que nos leva à falácia da “ditabranda”. E, sobretudo, a ideia
de que é possível esquecer o passado e olhar para o futuro como se o mundo
se iniciasse neste mesmo instante.
Quarto, o processo transicional brasileiro nos deixa claro que somen-
te um amplo trabalho político e jurídico é capaz de superar o legado e os
reflexos das culturas autoritárias advindas dos regimes de exceção. E que é
função do Direito das democracias do presente romper com as pretensões das
transições controladas.
Quinto, o legado de direitos que a Justiça de Transição vem consoli-
dando, no Brasil e no mundo, é um patrimônio comum da humanidade, que
deve ser cultivado e universalizado. No plano doméstico, o enfrentamento ao
autoritarismo deve ser estendido a outras causas e a outros períodos. O direito
à verdade e ao acesso à informação é, sem dúvida, um exemplo por excelência
do que esta conclusão pretende apontar. Todos nós temos direito a um Estado
transparente e que preste contas a população sobre seus atos. Esse é um caso
de legado transicional que deve ser universalizado. No plano internacional,

237
resta clara a consolidação de uma norma global de responsabilização indivi-
dual. Seja no plano civil, seja no plano criminal, nenhuma pessoa pode ser
considerada inalcançável pelo devido processo legal, nem ser excluída da res-
ponsabilidade por seus atos, principalmente quando estes implicam em graves
violações contra os direitos humanos.
As experiências de justiça de transição nos demonstram que a palavra
“justiça” não existe no singular, vez que pode ser praticada de distintas manei-
ras. Não obstante, parece-nos claro que a noção de crimes contra a humanida-
de – impassíveis de anistia e imprescritíveis –, ajuda a consolidar um padrão
mínimo de justiça efetivamente capaz de promover a proteção dos direitos
humanos no âmbito global.

238
Paulo Velten
Doutorando em Direito na UNESA. Coordenador do Colegiado do Curso de
Direito da UFES. Coordenador do Curso de Aperfeiçoamento do Curso de Edu-
cação em Direitos Humanos.

14
O MODUS OPERANDI DA DITADURA MILITAR E A
SEGURANÇA NACIONAL

Paulo Velten

1. Uma pequena contextualização Histórica

O golpe militar de 1º de abril de 1964, que este ano completa 50 anos, deve
ser analisado a partir de vários eventos simultâneos em todo mundo, dentre
os quais, deve-se ressaltar polarização das forças políticas entre os Estados
Unidos da América e União Soviética, a assim chamada “guerra fria” acabou
por se materializar através do tratado de Yalta, que configurou um bloco ca-
pitalista que, capitaneado pelos EUA, praticava a política econômica liberal
juntamente com Japão e Europa Ocidental. Em oposição, o bloco comunista
que liderado pela União Soviética dominou a Europa Oriental.
Quanto à América Latina, como citado por Valter Pires Pereira, a “adesão
ao bloco capitalista foi praticamente a única saída” (PEREIRA, 2005, p.30)
apesar das tentativas de forças políticas de países sul americanos de desven-
cilharem-se desta submissão, como nos governos de Velasco Alvarado (1968-
1975) no Peru, Salvador Allende (1970-1973) no Chile e Fidel Castro em Cuba.
Neste macro contexto, forjado no Nacionalismo Americano, iniciou-se
um programa sistemático de militarização do poder político na América Lati-
na. Baseada numa retórica alarmista e apocalíptica: o liberalismo “persuadiu
milhões de americanos a interpretar seu mundo em termos insidiosos levando-
-os a estabelecer políticas domésticas e globais que tentavam conter a ameaça
comunista”. (PEREIRA, 2005, p.24).
Baseada neste contexto histórico, o presente artigo pretende abordar o
modo de agir violador de direitos humanos que caracterizou o regime político
instituído a partir do golpe de estado de 01 de abril de 1964 e que perdurou até os
idos de 1986, cujos métodos produziram efeitos que se fazem sentir ainda hoje.
Este modus operandi é marcado pela busca da legitimação dos atos
ditatoriais através de processos judiciais. Esta prática foi possível graças à
transformação e introdução do conceito de violação da segurança nacional no

240
1. HABEAS CORPUS N. 26.155 com acórdão
ordenamento jurídico. Outrora relegado às ameaças externas, passou então a
redigido nos seguintes termos: Atendendo
ser atribuído a cidadãos opositores ao regime vigente, revelando assim a exis- a que a mesma paciente é estrangeira e a
tência de um razoável consenso entre os militares e o judiciário. sua permanência no país compromete a se-
Estigmatizado, o Governo João Goulart pretendia reformas de base (agrária e gurança nacional, conforme se depreende
das informações prestadas pelo Exmo. Sr.
de educação) que passaram a ser vistas como políticas comunistas. Dá-se o golpe,
Ministro da Justiça em casos tais não há
que através do Ato Institucional Número 1 se autodenominou revolução vitoriosa. como invocar a garantia constitucional do
O golpe preservou o funcionamento do sistema judicial no Brasil, tanto habeas corpus, à vista do disposto no art.
2 do decreto n. 702, de 21 de março deste
que a justiça eleitoral continuou a funcionar normalmente durante a ditadura,
ano: Acordam por maioria, não tomar co-
tanto na eleição indireta do primeiro presidente, referendado no cargo após nhecimento do pedido.
dois dias de campanha, como nas eleições de governadores que se sucederam
durante a ditadura. Evidencia-se assim, a disposição do judiciário de aplicar
a legislação produzida durante o regime militar, comportamento que perdura
mesmo após o fim do referido regime. Senão vejamos:

2- A Mutação do Conceito de Segurança Nacional

Desde o primeiro ato institucional, os golpistas evidenciavam que a busca pela


legitimação de seus atos não passava pelo congresso, pois, na ótica destes, o
comunismo constituía-se na ameaça externa à democracia brasileira. Assim,
embora combatessem “inimigos internos”, o faziam em função de fatores ex-
ternos. Daí a atração ao conceito que, conforme Hélio Bicudo, “uma ideologia
de segurança nacional que não fazia diferença entre inimigo externo e interno”
(BICUDO, 1986, p.9).
Este conceito já era utilizado desde a Constituição do Império de 1824
(art.148 e 179), também reafirmado na Constituição republicana e ainda na
Constituição de 1934 (art.159 e 161) foi fortemente utilizado por Getúlio Var-
gas, tanto na criação do Tribunal de Segurança Nacional (1935), verdadeiro
tribunal de exceção que funcionou como instrumento repressivo, tanto quanto
para julgar casos “comuns”, como do Habeas Corpus1 impetrado em favor de
Olga Benário, esposa de Luiz Carlos Prestes e principal opositor ao governo
Vargas, que, mesmo grávida, foi extraditada (porque alemã), tendo em vista
ter sido considerada uma ameaça contra a segurança nacional, vindo a ser
exterminada em campo de concentração nazista.

241
Após o golpe, os governos militares que se sucederam mantiveram-se
atentos à legislação vigente e inovaram com a edição de novas leis, bem como
com a edição de decretos-leis e atos institucionais.
Quando da deposição do governo João Goulart, vigorava a Lei 1.802/53,
que regulava especificamente da defesa nacional, a proteção dos limites territo-
riais; no ambiente interno de espionagem. Em 13 de março de 1967, foi editado o
Decreto Lei 314 que alterou a citada lei e passou a responsabilizar o cidadão pela
segurança nacional, além de acrescentar novos tipos penais. Para além, em 20 de
março de 1969, o Decreto Lei 510 criou novas modalidades de prisão e a incomu-
nicabilidade do preso, e, em 21 de outubro de 1969, com os Decretos Lei 1001 e
1002, instituíram-se o novo código penal e de processo penal que, respectivamen-
te, entre outras coisas, inovava ao instituir a prisão perpétua e a pena de morte.
Estas manipulações da lei durante o período ditatorial forjaram situações
que produziram conseqüências desastrosas para a Justiça brasileira, conforme
se pode observar na pesquisa “Brasil Nunca Mais”, dentre as quais deve-se
ressaltar: - a denúncia e julgamento por leis excepcionais de mais de sete mil
cidadãos brasileiros por discordarem do regime; - a modificação da competên-
cia justiça comum para a justiça militar para julgamento de crimes cometidos
por cidadãos por ato civis; - atribuição ao cidadão e não mais ao Estado a
responsabilidade pela segurança nacional; – de provocar verdadeira confusão
entre a honra do mandatário e a honra da nação ao tipificar crime de crítica à
autoridade constituída; - ao punir como atos subversivos e contra a segurança
nacional atividades legais; - estabelecer a prisão preventiva por iniciativa do
encarregado do inquérito; - a restrição do número de testemunhas de defesa
por acusado; - chegando ao absurdo de criar a possibilidade de prisão perpétua
e pena de morte, e, por derradeiro, a suspensão do habeas corpus.
Dessa forma, a Segurança Nacional passou de acessório à própria razão
de ser do golpe; a segurança de um sistema político, saindo do campo teórico
e passando a ser a régua de medir a legalidade; no dizer de Bicudo “tornou-se
uma espécie de palavra chave, um conceito inserido na linguagem comum a tal
ponto que ninguém mais indagava o seu sentido.”
Finalmente, em 17 de dezembro de 1978, foi promulgada a Lei 6.620.
A assim chamada nova Lei de Segurança Nacional substituía os decretos leis
citados anteriormente com a pretensão de substituir os instrumentos excep-

242
2. Art. 5º - Caberá, privativamente, ao Presi-
cionais que se fizeram indispensáveis para manter o regime militar, e ainda,
dente da República a iniciativa dos projetos
paralelamente, mas no mesmo caminho foi promulgada também a Emenda de lei que criem ou aumentem a despesa
Constitucional Nº.11, de 13 de outubro de 1978, que tinha por finalidade a cas- pública; não serão admitidas, a esses pro-
sação, em breve, do regime de leis excepcionais. A nova lei abrandava as penas jetos, em qualquer das Casas do Congresso
Nacional, emendas que aumentem a despe-
anteriores, bem como suprimia a pena de prisão perpétua e pena de morte.
sa proposta pelo Presidente da República.
Portanto a análise da transmutação do referido conceito é o ponto ne-
vrálgico para entender o modus operandi do regime militar, que se constituiu 3. Art 7º - Ficam suspensas, por 6 (seis) me-
ses, as garantias constitucionais ou legais
em verdadeiro indutor do comportamento doutrinário das gerações seguintes.
de vitaliciedade e estabilidade.
§ 1º - Mediante investigação sumária, no
prazo fixado neste artigo, os titulares des-
3. Medidas Arbitrárias sas garantias poderão ser demitidos ou
dispensados, ou ainda, com vencimentos
e as vantagens proporcionais ao tempo de
Outros procedimentos característicos de governos totalitários também foram serviço, postos em disponibilidade, aposen-
impostos pelo governo militar, vejamos: tados, transferidos para a reserva ou refor-
mados, mediante atos do Comando Supre-
- Com o golpe e a consequente limitação dos poderes do congresso, as
mo da Revolução até a posse do Presidente
leis, principalmente as orçamentárias, passaram a ser elaboradas pelo Presiden- da República e, depois da sua posse, por
te, que, com decretos leis de vigência imediata, tornou-se “dono” do orçamento decreto presidencial ou, em se tratando de
público, conforme preconizado no art.5º 2 do Ato Institucional Nº1. Essa me- servidores estaduais, por decreto do gover-
no do Estado, desde que tenham tentado
dida, que para muitos é de governança, demonstra o caráter autoritário de um contra a segurança do País, o regime de-
regime, uma vez que um país será tão democrático quanto for seu orçamento. mocrático e a probidade da administração
- Ainda no AI-1, em seu artigo 7º 3, cassou os direitos políticos dos opo- pública, sem prejuízo das sanções penais a
que estejam sujeitos.
sitores e até mesmo de aliados. Estabeleceu a suspensão das garantias cons-
titucionais ou legais de vitaliciedade e da estabilidade como forma de, numa 4. Os golpistas na exposição de motivos
penada, minar eventuais resistências do judiciário e dos servidores públicos, do AI-1 afirmavam que tomavam medidas
urgentes no sentido de drenar o bolsão co-
uma vez que, poderiam ser demitidos ou aposentados por investigações sumá-
munista infiltrado na cúpula do governo e
rias perpetradas pelo comando revolucionário supremo, no caso de decisões nas suas dependências administrativas em
contrárias à segurança do país; ou ainda, e por contraditório que possa pare- que pretenderia bolchevizar o país, em cla-
cer, por decisões contra o regime democrático4 ou a probidade administrativa. ra alusão à ditadura comunista.

Ressalte-se que o dispositivo foi, de fato, muito utilizado, tendo em vista que,
já sob a égide do AI-5, cassou aos Ministros do Supremo Tribunal Federal Her-
mes Lima, Vitor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva, além de quase quinhentos
deputados e dois mil funcionários públicos, expulsando ainda de suas cátedras
sessenta e seis professores universitários, entre eles Caio Prado Jr, Florestan
Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, bem como inúmeros estudantes.

243
- Introduziu dispositivo que limitou o controle jurisdicional dos atos
derivados do AI-1 ao exame de formalidades extrínsecas, inovação que veda-
va a apreciação da conveniência e oportunidade dos fatos que o motivaram;
excluindo ainda a possibilidade de apreciação judicial do próprio ato, preceito
replicado até os dias atuais no que diz respeito a ações contra a fazenda pú-
blica, notadamente no que diz respeito às limitações atuais quanto ao deferi-
mento de liminares contra o Estado.
- No campo Universitário, a influência também foi grande, conforme
Regina Celi Frechiani Bitte “criou-se no sistema universitário uma visão tec-
nicista da educação, própria dos militares que se encontravam no poder, um
sistema baseado no modelo administrativo das grandes empresas e vinculando
a educação ao progresso técnico e científico, contrário a autonomia universi-
tária” (BITTE, 2006, p.44), idéia esta tida como contrária à falta de disciplina e
autoridade, prejudicial à ordem e à democracia.
- Com o ato institucional No. 5 e a suspensão das garantias constitucio-
nais, notadamente do habeas corpus, consolidou-se o maior retrocesso legis-
lativo que já se impôs a uma nação, reconduzindo o povo brasileiro a séculos
anteriores ao próprio descobrimento (a criação do habeas corpus data de 1215).

4. A Repressão no Processo

Na vida daqueles que foram processados, o dano foi ainda maior, conforme
revelou o Projeto Brasil Nunca Mais que, sob a batuta insuspeita de Dom Paulo
Evaristo Arns, denunciou, entre inúmeras mazelas, infindáveis excessos legais
e absurdos processuais como descritos a seguir:

• a prisão e a tortura tornaram-se o método de investigação e de segre-


gação política, de tal forma que o referido estudo revela que 69,18%
dos denunciados entre os anos de 1964 e 1968 e 71,05% entre anos
de 1969 e 1974 foram aprisionados; tornando-se assim a prisão regra
(método) e não exceção, violando assim o princípio da liberdade.
• que em 86,15% dos inquéritos entre os anos de 1964 e 1968 e 84,77%
dos inquéritos entre os anos 1969 e 1974 das prisões efetivadas não

244
constam dos autos os respectivos mandados de prisão, violando as-
sim o princípio da legalidade.
• que 681 pessoas entre os anos 1964 e 1968, 1937 pessoas entre os anos
de 1969 e 1974 e 210 pessoas entre os anos de 1974 e 1979 foram con-
denados em primeira instância sob o argumento da segurança nacional.

Para além de nossas fronteiras, o estudo do modus operandi ditatorial não


é novidade. A filósofa Hanna Harendt, em “As origens do totalitarismo”, desde
os meados do século passado, já denunciava o terror como instrumento neces-
sário para o governo de massas para o estabelecimento do regime totalitário.
Contemporaneamente, Anthony W. Pereira (2010) aponta três principais
motivos para o estudo da fundamentação jurídica dos argumentos lançados
para justificar os processos por crimes políticos que aconteceram durante a
ditadura, a saber:

1. Quando governos autoritários se preocupam em legalizar o processo, a


exigência de aderência a procedimentos formais pode vir a mitigar os
piores efeitos da repressão;
2. A compreensão mais profunda dos regimes autoritários influenciaram a
transição subseqüente para o regime democrático;
3. Permite construir um quadro mais detalhado da maneira como a lei foi
usada de forma excepcional, podendo revelar o que mudou e o que não
mudou, com o retorno ao Regime Democrático (PEREIRA, 2005)

Desta forma, descortinar tais fatos, servirá para que as gerações futuras pos-
sam, identificando-os, refutá-los; e para que se tenha uma história contada de-
mocraticamente. Poder-se-á entender, ainda, como a ideologia criada, replicada
até os dias atuais através de conceitos jurídicos impostos e incutidos nas gerações
que se seguiram, contaminam o modo de vida de uma nação inteira pois quanto
maior o consenso entroe as elites civis-militares sobre o funcionamento da dita-
dura, maior o grau de continuidade autoritária no funcionamento do golpe.
De todo o exposto, conclui-se que o estudo do modo de agir ditatorial,
para além de estancar a continuidade do método, pode servir como parâmetro
para que nas escolhas do presente não tomemos o caminho do passado.

245
Reênciasfer ácasbilogr

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Trad.: Robert Raposo. São Paulo: Cia
das Letras, 1989.

________A condição humana. Trad. Roberto Raposo, Rev. Adriano Correia. 11.ed. Rio
de Janeiro: Forense, 2010.

_______ Da revolução. Trad.: Fernando Dídimo. 2.ed. Brasília: Editora Universidade


de Brasília, 1990.

ARNS, Paulo Evaristo (Org.). Brasil Nunca Mais. Petrópolis. Vozes, 1985.

BICUDO, Hélio, Lei de Segurança Nacional, Edições Paulinas – São Paulo, 1986.

BITTE, Regina Celi Frechiani, Formação do Professor no curso de história da Univer-


sidade Federal do Espírito Santo In: Ensino da História, seus sujeitos e suas
práticas/ Regina Helena Silva Simões, Sebastião Pimentel Franco, Maria Alayde
Alcantara Salim (Organizadores). Vitória: GM Gráfica e Editora, 2006, p.44 ISBN:
85-99510-16-9

BICUDO, Hélio. Lei de segurança Nacional. Leitura Critica. São Paulo: Edições Pau-
linas,1986.

BRASIL; OLIVEIRA, Juarez de. Lei de Segurança Nacional. 2ª Ed. São Paulo: Sa-
raiva, 1984.

PEREIRA, Valter Pires e Marvilla, Miguel (Org.) Ditaduras não são eternas: memórias
da resistência ao golpe de 1964, no Espírito Santo / textos de Ana Gabrecht,
Valter Pires Pereira, Ueber José de Oliveira; Vitória: Flor & Cultura: Assembléia Le-
gislativa do Estado do Espírito Santo, 2005 ISBN 85-88909-26-X

246
PEREIRA, Anthony W. Ditadura e Repressão autoritarismo e o estado de direito no
Brasil, no Chile e na Argentina. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

PEREIRA, Anthony W. Ditadura e Repressão: o autoritarismo e o estado de direito


no Brasil, no Chile e na Argentina. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

247
Ricargo Gueiros Bernardes Dias
Doutor em Direito pela UGF/University of California (San Francisco),
Mestre em Direito pela UGF/UERJ. Professor de Direito Constitucional e Pro-
cesso Penal da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Visiting Rese-
archer da Univeristy of California.

Penha Beltrame, Vanda Maria Moreira


Graduando em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
Monitor das disciplinas de Teoria da Constituição e de Direito Constitucional
II na mesma Universidade.

15
“UMA ANÁLISE JURISPRUDENCIAL DA INCORPORAÇÃO
DOS TRATADOS INTERNACIONAIS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO BRASILEIRO SOB A ÓTICA CONSTITUCIONAL:
OS DESAFIOS AINDA PRESENTES”

Ricardo Gueiros Bernardes Dias


João Guilherme Gualberto Torres

1. Introdução

Ficamos, por vezes, a imaginar quais seriam as consequências de um ordena-


mento jurídico sem um escalonamento hierárquico. Em verdade, esse questio-
namento traz, em outras palavras, uma indagação mais profunda, o que não
é objeto precípuo da presente investigação, ou seja, qual a (real e eventual)
necessidade de haver uma sistema hierárquico de normas. Ora, são elas en-
tes amórficos. Estaríamos escalonando esses entes para fins de regulação de
quem os criou? Mas, independentemente desse aspecto, é dessa problemática
(a hierarquização) que nosso conflito (problemática) vem à tona.
O presente trabalho tem por escopo um exame mais acurado, e atual, da
incorporação do direito internacional no ordenamento jurídico pátrio, máxi-
me após a Emenda Constitucional n. 45/04, a qual acresceu, entre outros, ao
artigo 5º da Magna Carta, o parágrafo 3º, que versa sobre o procedimento de
votação de tratados internacionais de direitos humanos.
A importância, embora vastos já sejam os posicionamentos do Su-
premo Tribunal Federal na matéria, não se cinge à hierarquia assumida
pelos tratados de direitos humanos, senão que se busca avançar e perquirir
acerca dos próximos passos a serem dados; isto é, de que forma os tratados
antes da Emenda Constitucional 45, ou mesmo antes da Constituição de
88, devem ser analisados. Em linha de conta, traz-se a lume a proposta de
alteração do regimento interno do Congresso Nacional, modificadora do
quórum de votação de tratados internacionais, em alinhamento, já tardio,
com a EC em epígrafe.

249
O estudo mais detido da estrutura escalonar do ordenamento jurídico
brasileiro é ponto de partida para outras indagações que permanecem, igual-
mente, presentes no meio acadêmico-jurídico.
O tema em especial, demonstra a preocupação, sempre válida, da coloca-
ção pátria em meio ao quadro internacional que se amolda em clara preocupa-
ção com a defesa dos direitos humanos e os mais diversos e coletivos valores.
Nesta quadra da historia, ainda há resistência a que a incorporação es-
colhida pelo legislador tenha sido consentânea com as exigências políticas da
época, mas que não podem, ainda assim, ser suplantadas por teorias que visam
a alçar voos mais altos.

2. A hierarquia das normas jurídicas.

É antiga a visão de que a estrutura escalonada das normas jurídicas serve


como parâmetro para estudo do ordenamento jurídico. A importância reside
na facilidade de perceber-se de que forma é possível que uma norma retire de
outra seu fundamento de validade, possibilitando não só o fortalecimento, em
último grau, de uma Constituição rígida, como também realçando aquilo que
nela vem pregado por vontade do legislador.
De acordo com tal estudo, toda norma retira seu fundamento de valida-
de de outra norma, superior, por excelência, formando, assim, uma estrutura
suprainfraordenada na qual é possível surgir um mosaico piramidal, em que
normas inferiores estejam de acordo com normas superiores, ao menos no
primeiro momento dessa visualização.
Em consequência, haverá um momento em que, não sendo possível um
regresso ao infinito, uma norma última há de ser pressuposta como funda-
mento de validade para todo o ordenamento jurídico. A essa norma, Hans
Kelsen atribuiu o nome de “norma fundamental hipotética” (Grundnorm), a
qual não retira seu fundamento de validade de outra norma, senão que se
apresenta como um

fato produtor de normas, a atribuição de poder a uma autoridade legis-


ladora ou – o que significa o mesmo – uma regra que determina como

250
devem ser criadas as normas gerais e individuais do ordenamento fun- 1. KELSEN, Hans. Teoria pura do direito.
dado sobre essa norma fundamental .
1 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 219.

2. BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamen-


Esse último parâmetro de validade permite que qualquer outra norma, de esca- to jurídico. São Paulo: EDIPRO, 2011. p. 69.
lão inferior, possa, ou não, manter-se no ordenamento jurídico observado. Certo
3. Op. cit. p. 38.
é que, por presunção de validade, toda e qualquer norma é passível de adentrar
na estrutura escalonada, ali permanecendo até que outra norma, revogadora,
a anule porque não condizente com o parâmetro de validade preestabelecido.
É de se ressaltar que a norma fundamental hipotética não conduz a
que haja um conteúdo de validade das normas sobre elas fundadas, mas que
fornece, apenas, o fundamento de validade de todas as demais2.
Ao trabalhar a norma fundamental, Norberto Bobbio tratou-a como sen-
do, ao mesmo tempo, uma norma atributiva (no sentido de conferir poder a
algum órgão de editar normas inferiores a normas válidas) e imperativa (no
sentido de impor aos destinatários das normas editadas pelo órgão competente
o cumprimento). O autor não deixou escapar que essa norma é pressuposta,
fundante do sistema normativo, ou, se se preferir, ordenamento jurídico. Se-
melhante ao que expôs Kelsen, além dessa norma fundamental e pressuposta
não é possível digredir, ou melhor, seria inútil caminhar além dela.
Interessante notar que, embora partindo de visões diferenciadas, ambos
chegam a uma e mesma conclusão, qual seja, a de fundamentar toda a vali-
dade do ordenamento jurídico numa norma fundamental e pressuposta, sem
conteúdo condicionante, que, no entanto, servirá para todo o ordenamento
jurídico como fundamento de validade último, além do qual não se pode ir.
Diz-se que partem de colocações diferenciadas, porquanto Norberto Bo-
bbio, ao analisar a norma jurídica, acaba por dar prevalência a ela, apenas
quando inserida no ordenamento, nas palavras dele,

não existem ordenamentos porque há normas jurídicas, mas existem


normas jurídicas porque há ordenamentos jurídicos distintos dos orde-
namentos não jurídicos3.

De outro lado, Hans Kelsen, partindo da nomoestática (que considera os


problemas relativos à norma jurídica), leva à conclusão da existência da nomo-

251
4. KELSEN, Hans. Teoría pura del derecho.
dinâmica (problematização do ordenamento jurídico), igualmente imprescindí-
México: Universidad Nacional Autónoma
de México, 1982. p. 202. vel para o estudo do direito posto. Lapidar a passagem na qual

5. KELSEN, Hans. Teoria geral do direito e que una norma determinada pertenezca a un orden determinado se basa
do estado. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes,
en que su último fundamento de validez lo constituye la norma fundante
1998. p. 163.
básica de ese orden.
6. Cf. STRECK, Lenio Luiz. Verdade e con-
senso. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2011.
E prossegue,

esta norma fundante es la que constituye la unidad de multiplicidad de


normas, en tanto representa el fundamento de la validez de todas las
normas que pertenecen a ese orden4.

Parte, portanto, do particular ao geral.


Para fins deste trabalho, resulta que, diferentemente do tratamento dado
ao mundo do ser, em que as coisas se distinguem por critério apofântico, isto
é, cogitar-se de verdadeiro ou falso, de acordo com aquilo que é, que acontece;
ao trabalhar no plano do dever ser, examina-se por critério valitativo. Isso
posto, a norma valerá se pertencer a um sistema válido de normas, buscando
em norma superior seu fundamento de validade, até que

limitada por uma norma mais alta que é o fundamento último de va-
lidade de uma norma dentro de um sistema normativo, ao passo que
uma causa última ou primeira não tem lugar dentro de um sistema de
realidade natural 5.

Avançando, se da hierarquia normativa extrai-se, igualmente, a hierar-


quia dos órgãos legiferantes não é demasia concluir que um tal poder consti-
tuinte só pode derivar de uma norma fundamental pressuposta, que o institua
como órgão competente a dar razão a uma Constituição ou sobre ela dispor,
por critérios políticos, daquilo que cogite ser o substancial ou necessário a
determinada sociedade, em determinado tempo.
Nada obstante não se queira, aqui, perquirir acerca dos limites do poder
constituinte, discussão esta que atravessa os limites do propósito ora estabele-

252
cido, faz-se necessário compreender de que modo a opção constituinte acaba 7. Op. cit. p. 72.
por influir na recepção de normas jurídicas internacionais, incorporadas ao
8. MÜLLER, Friederich. Quem é o povo? São
ordenamento pátrio por meio de cláusulas havidas no texto constitucional.
Paulo: Max Limonad, 2003. p. 108.
Se, por um lado, tem-se o conhecimento dos trâmites necessários desde
a celebração de um tratado até o depósito deste na esfera internacional (e pro- 9. STRECK, Lenio Luiz. Ciência política e
mulgação na esfera interna), é também verdade que a limitação de sua hierar- teoria geral do estado. 3 ed. Porto Alegre,
2003. p. 135.
quia em termos de direito interno é capaz de apresentar sérias controvérsias, se
não se compreende como motivação política esta ou outra forma de inserção,
como mais a frente se verá.
Trata-se de um problema já referido por Lenio Streck6, como uma das
dificuldades encontradas no Brasil. Isto é, a ausência de uma verdadeira teoria
das fontes não consegue dimensionar os problemas havidos pela não com-
preensão do estamento galgado por determinada norma jurídica dentro do
ordenamento pátrio; e de que forma sua hierarquia se faz possível a depender
do órgão legiferante ou do procedimento já previamente estabelecido. Mais
abaixo se apontará a mudança trazida no bojo da Emenda Constitucional n.
45/04, ao prever procedimento específico (semelhante ao de votação de emen-
da constitucional) para tratados versados em direitos humanos.
A abertura ao plano internacional do ordenamento jurídico brasileiro
deve ser acompanhada, igualmente, das alterações legislativo-constitucio-
nais provocadas pelos anseios constituintes (originários ou derivados, sem
adentrar na polêmica).
Indagar o critério de pertença de uma norma é saber conferir-lhe, de acor-
do com os mandos constitucionais postos, de que modo passa a ser válido no
sistema jurídico o preceito normativo legislado, ou se se preferir, incorporado.
Contudo, ainda que possa parecer antipático aos olhos de tantos, sobre-
pujar a vontade constitucional de disciplinar ou não em espaço interno o rele-
vo dado a esses pactos é igualmente repudiar o texto constitucional e desven-
cilhar-se dos critérios adotados pelo constituinte, representante democrático
das escolhas de um povo, se assim se entender o texto constitucional. Seria,
outrossim, desrespeitar a Constituição, contra o que deve-se montar guarda, a
fim de que não sejam cometidos abusos.
O próprio Bobbio leva a crer em que questionar “qual é o fundamento da
norma fundamental num ordenamento jurídico positivo?”7 é redundar no vazio

253
10. JEVEAUX, Geovany Cardoso. Direito
de que tais perguntas transcendem o ordenamento jurídico positivo, pois seria
constitucional: teoria da constituição. Rio
de Janeiro: Forense, 2008. p. 296. o mesmo que buscar a justificação em sentido absoluto do poder.
Assim, também, com Friederich Müller 8, pode-se dizer que a legitimida-
de do poder constituinte do povo só é possível se houver a incorporação das
pretensões deste ao texto (Vertextung) da Constituição, tendo por interlocutor
o povo enquanto instância de atribuição, sendo que o procedimento democrá-
tico de pôr em vigor a Constituição dirige-se ao povo ativo. Sem, obviamente,
descurar do cerne constitucional (democrático, por excelência) observado pelo
povo-destinatário dos direitos.
O alerta vem, mais uma vez de Lenio Streck quando aduz:

são os direitos humanos, a nosso ver, um dos aspectos fundamentais


para que entendamos privilegiadamente o quadro das relações interna-
cionais contemporâneas, em especial no que diz respeito à soberania 9.

2.1. A relação existente entre direito interno e direito internacional.

A análise da relação havida entre direito interno e direito internacional, tri-


lhando o exposto no tópico anterior, não se assenta no conteúdo sobre o
qual versa o tratado internacional, ou da ordem internacional, como um
todo. Pelo contrário, funda-se, justamente, naquilo que pode ser considera-
do pressuposto de validade para a existência do direito internacional, se da
perspectiva de que o direito internacional é ou não parte integrante do direi-
to interno, para as teorias monistas, ou se é possível a convivência de duas
ordens simultâneas, e, por conseguinte, de dois fundamentos de validade
(teoria dualista ou pluralista).
Para aqueles adeptos da teoria dualista, existiriam duas ordens jurídicas
coexistentes, internacional e nacional, que poderiam vir a ser diferenciadas na
fonte (vontade do Estado), nos sujeitos (indivíduos ou Estados) e no conteúdo
(subordinação ou coordenação)10.
Pela teoria dualista, assentou-se que enquanto no direito interno a von-
tade emana do próprio Estado, no direito internacional exige-se a vontade
conjunta dos Estados. Decerto, é algo a diferenciar entre as ordens normativas
sobre as quais se debruça, haja vista, na estrutura interna, é possível enxergar-

254
se o eixo vertical que fundamenta a estrutura jurídica interna. De outro modo, 11. KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 8
no plano internacional, a inexistência de um órgão único supranacional e san- ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes,
2009. p. 369.
cionador, possibilita a que só seja possível a mantença do direito internacional
através dos acordos bi ou plurilaterais, pelos quais se obriga o próprio Estado. 12. KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 8
Quanto ao conteúdo, a preocupação da ordem interna em normatizar a ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes,
2009. p. 378.
conduta dos indivíduos, dos sujeitos nacionais, sendo que no direito interna-
cional a atenção se volta aos interesses supranacionais. 13. JEVEAUX, Geovany Cardoso. Direito
Em posição mais moderada, propugna-se pela obrigatoriedade das leis constitucional: teoria da constituição. Rio
no âmbito interno, e pela incidência da regra do pacta sunt servanda, em de Janeiro: Forense, 2008. p. 297.

âmbito internacional.
Nenhuma das duas teorias dualistas (ou pluralistas), todavia, está imune
a críticas, em especial, quanto à lógica de sua construção. Com supedâneo em
Kelsen, não se pode aceitar que dois complexos de normas formem um siste-
ma normativo unitário, delimitados nos respectivos domínios de validade, um
em face do outro. Para tanto, seria, ainda, necessário, um terceiro e superior
ordenamento, que os delimitasse e os coordenasse. Eis que “a determinação do
domínio de validade é a determinação de um elemento de conteúdo do ordena-
mento jurídico inferior pelo superior”11.
Assim sendo, duas apenas são as construções possíveis de modo a ajustar
o direito interno e o direito internacional: ou se concebe o direito interna-
cional como ordem jurídica delegada pela ordem interna, incorporada a esta;
ou como uma ordem jurídica total que delega nas ordens jurídicas internas,
supraordenada a estas e abrangendo-as a todas como ordens jurídicas parciais.
A diferença existente entre as duas construções monistas reside em que,
a seguir o pensamento kelseniano, aquela que toma o direito interno como
fundamento de validade para a ordem internacional, pressupõe-se que a pri-
meira constituição histórica, cujo ordenamento forma o ponto de partida da
construção, é um fato gerador de direito. De outro lado, a teoria monista que
sustenta o primado da ordem internacional sobre a interna, não toma qualquer
ordem interna como ponto de partida, senão que se sustenta na própria ordem
internacional o fundamento de validade, pressuposta por virtude da qual o
costume é um fato gerador de direito12.
Para Jellinek e Wenzel, ficaria a cargo das Constituições estatais estabe-
lecer o modo de conclusão dos tratados e de que modo seria feita a incorpo-

255
14. KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 8 ração da ordem internacional na ordem interna13. A se adotar a teoria monista
ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, com primado da ordem interna deve-se, antes de tudo, reafirmar a soberania
2009. p. 374.
do Estado. Esta soberania é a pressuposição de uma ordem normativa como
15. RESEK, José Francisco. Direito interna- ordem suprema cuja validade não é dedutível de nenhuma ordem superior.
cional público: curso elementar. 13 ed. São Nesse último caso, apenas se reconhece o direito internacional como
Paulo: Saraiva, 2011. p. 127.
ordem jurídica delegada pela ordem interna, apenas válido com relação ao
16. Em crítica aguda à resistência à incor- Estado, se reconhecida por este. Em linhas gerais, o fundamento de validade
poração dos Tratados internacionais sobre do direito internacional é, para esta versão da teoria monista, encontrado na
Direitos humanos, embora pouco destoante ordem jurídica interna.
dos lindes do afirmado neste ensaio, confe-
rir LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Direitos
A teoria monista com primado da ordem internacional foi encampada
humanos. 2 ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, por Hans Kelsen, e, segundo ela, o conhecimento da unidade do Direito interno
2011. pp. 24-26, passim. e do Direito internacional toma por ponto de partida este último como ordem
jurídica válida. Nesta toada, calha considerar o princípio da efetividade, “que
é uma norma do Direito internacional positivo”, a qual

determina, tanto o fundamento de validade, como o domínio territorial,


pessoal e temporal de validade das ordens jurídicas estaduais e estas,
por conseguinte, podem ser concebidas como delegadas pelo direito in-
ternacional14.

Nada obstante a crítica da a-historicidade trazida no bojo da teoria mo-


nista apregoada por Kelsen, não se pode desconsiderar que se mostra totalmente
adequada aos propósitos de sua teoria, consentâneo com tudo o mais o que ele
escreveu. Não é na ordem cronológica que se deve observar a criação das ordens
interna e externa, senão que a própria norma jurídica válida é capaz de pres-
crever este enlace. Não se deve confundir a conexão histórica com a conexão
normológica. Assim, também, ocorre com a unidade estadual (Estado-membro)
que, embora existente antes da Constituição Federal, nela se fundamenta.
Nessa senda, lapidar a observação de Francisco Resek, segundo o qual

o primado do Direito das gentes sobre o direito nacional do Estado


soberano é ainda hoje uma proposição doutrinária. Não há, em direito
internacional positivo, norma assecuratória de tal primado15.

256
O ponto fulcral da questão é observar tratar-se de política a prevalência, 17. BASTOS, Celso Ribeiro. Comentários à
adotada a teoria monista, do direito interno ou do direito internacional. Se o pró- constituição do brasil. São Paulo: Saraiva,
1988. p. 262.
prio Estado é quem se obriga no plano internacional, dele parte a maior ou menor
vontade de reduzir sua soberania e submeter-se às regras pactuadas em nível 18. Pérez Luño, citado por André Ramos Ta-
horizontal com demais Estados. De fato, não há qualquer móvel que o obrigue a vares, sustenta que “no processo de cons-
titucionalização dos direitos fundamentais
se limitar mais ou menos em plano internacional, senão a sua vontade política.
o positivismo teve um papel importante
Nesses tempos, porém, em que a busca pelo pacifismo se faz contundente, ao colocar a exigência de uma concreção
e a necessidade de ajuda externa mútua é cada vez mais evidente, os laços cria- jurídica dos ideais jusnaturalistas, para
dos em nível supraestatal suplantam as diferenças culturais, étnicas religiosas dotá-los de autêntica significação jurídico-
-positiva. Contudo, os acontecimentos po-
ou de qualquer ordem e acabam por exigir de cada Estado um posicionamento líticos se encarregaram de evidenciar, em
mais firme de inserção na ótica globalizada que se tem vislumbrado16. Com certas ocasiões, de forma trágica, a necessi-
Kelsen, é possível afirmar a existência da Weltanschauung em matéria de sub- dade de situar a fundamentação do sistema
da liberdades públicas em uma esfera que
missão ou não aos tratados internacionais e em que grau no direito interno.
ultrapassa o arbítrio da jurisdição interna
Na concepção subjetivista, se prevalente o Eu soberano, não se afigura de cada Estado”. In TAVARES, André Ramos.
possível conceber uma realidade externa, um mundo exterior, desvinculado que Curso de direito constitucional. 10 ed. São
Paulo: Saraiva, 2012. p. 553.
seja da representação e da vontade do Eu interno. Tal concepção conduz, ine-
vitavelmente, ao solipsismo, levando a crer em que as coisas só existem através
e a partir da ordem jurídica do próprio Estado. Destarte, a soberania do Estado
exclui a soberania dos demais. Na mundividência objetivista, por outro lado,
parte-se do mundo exterior real para conceber o Eu como parte integrante do
mundo, valendo-se como ordem parcial incorporada ao direito internacional.
É, contudo, necessário asseverar que qualquer das duas concepções
encontra locus favorável em qualquer Estado que se possa dizer soberano. Já
não mais há qualquer lógica que possa subverter o pensamento diretivo do Es-
tado, a não ser a própria política, a qual toma as rédeas da direção normativa.
Não há entre os dois sistemas qualquer exclusão ou opção de um que seja mais
ou menos correto. Sob qualquer ponto de vista, está alijada da ciência jurídica
a decisão por uma ou outra formulação de predominância do sistema interno
ou do sistema internacional.
Pelo que se viu alhures, agregando-se ao expendido as teorias de relação
entre o direito interno e o direito internacional, parece que, com o advento da
Emenda Constitucional n. 45/2004, optou o constituinte brasileiro, adotando a
teoria monista, por fazer prevalecer a ordem interna, porquanto esta estabele-
ceu, de antemão, o procedimento necessário para a incorporação dos tratados

257
19. MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de di- internacionais sobre direitos humanos a nível constitucional, do que se pode
reito constitucional. 7 ed. São Paulo: Sarai- deduzir a sistemática quanto aos demais acordos internacionais.
va, 2012. pp. 656-675, passim.
A EC n. 45/04 surge como marco delimitador do mecanismo de incor-
20. Representativo da defesa desta teoria, poração porque, pela primeira vez, dita o procedimento necessário para que
o eminente professor Celso Albuquerque os direitos humanos, pactuados na esfera externa, alcancem status de normas
Mello.
constitucionais, pacificando a celeuma, ao menos num primeiro momento (e
21. No Brasil, Antônio Cançado Trindade e no nível legislativo), existente na doutrina e na jurisprudência.
Flávia Piovesan perfilharam o entendimen- Crendo em que a crescente intensificação das relações internacionais
to de hierarquia constitucional a ser atribu- possa, um dia, levar à supremacia da comunidade internacional, logo após a
ída aos tratados que versem sobre Direitos
humanos.
promulgação da Constituição de 1988, aduzia Celso Ribeiro Bastos que, vindo
a consumar-se, em sua inteireza a noção de submissão dos Estados às normas
22. Entendimento que restou esposado no internacionais, heteronomamente impostas, “estará superada a própria noção
paradigmático julgamento do RE 466.343/
de Estado”. De modo que, “a organização política da humanidade terá assu-
SP, de relatoria do ex-Ministro Cezar Pelu-
so, julgado em 3 de dezembro de 2008. mido uma natureza e feição profundamente diversa daquelas dominantes em
nossos dias” 17, 18.
23. Esta a posição adotada pelo Supremo
Tribunal Federal quando ainda precoce a
discussão da matéria, anteriores, os julga-
dos, à EC n. 45, seguindo jurisprudência 3. A incorporação de tratados internacionais sobre Direitos
firmada na Corte. Cf. RE 80.004/SE, Rel. humanos: as teorias existentes.
Min. Xavier de Albuquerque, julgado em 1º
de junho de 1977; ADI 1.080/DF, Rel. Min.
Celso de Mello, julgada em 4 de setembro Com a ratificação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de
de 1997. Desta última, é possível extrair o São José da Costa Rica – Decreto 678/92) e com a adesão brasileira ao Pacto In-
seguinte trecho da ementa: “Os tratados ou
ternacional de Direitos Civis e Políticos (Decreto 592/92), interessante discussão
convenções internacionais, uma vez regu-
larmente incorporados ao Direito interno, frequentou o meio acadêmico e doutrinário, indo parar na jurisprudência da
situam-se, no sistema jurídico brasileiro, Suprema Corte. Tratava-se, pois, de indicar a hierarquia assumida pelos trata-
nos mesmos planos de validade, de eficácia dos internacionais sobre direitos humanos no ordenamento jurídico brasileiro,
e de autoridade em que se posicionam as
leis ordinárias, havendo, em consequência,
tendo surgido várias vertentes, entre as quais19: a) supraconstitucionalidade20;
entre estas e os atos de Direito internacio- b) hierarquia constitucional21; c) supralegalidade22; d) status de lei ordinária23.
nal público, mera relação de paridade nor- Duas colocações devem anteceder as explicações pertinentes a cada uma
mativa. Precedentes.” E ainda se asseverou
dessas vertentes. Em primeiro lugar, deve-se ter ciência do escopo em observar
que a resolução de conflito antinômico so-
mente seria possível através dos critérios de o grau hierárquico ocupado por tratados que versem sobre direitos humanos,
cronologia (lex poster derogat lex anterior) pois, do contrário, assumirão eles mesmos status da legislação ordinária.
e de especialidade. Curioso notar, a esse respeito, o art. 98 do Código Tributário Nacional
(CTN), segundo o qual “os tratados e convenções internacionais revogam ou

258
modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes 24. A este propósito, interessante conferir
sobrevenha” (grifou-se). O preceito normativo em tela não somente aduz a res- a discussão traçada entre os Ministros do
Supremo Tribunal Federal quando do julga-
peito da revogação por incorporação superveniente de tratados internacionais mento do HC 87.585, de relatoria do Min.
em matéria tributária, o que se assemelharia à adoção do mesmo grau hierár- Marco Aurélio, julgado em 03.12.2008.
quico, havendo derrogação por critério cronológico, como, ainda, passado este
25. Apenas para situar, conferir, entre ou-
momento, condicionaria as demais legislações futuras, limitando o legislador
tros, TAVARES, André Ramos. Curso de
na elaboração normativa. É dizer, se incorporado, assume um caráter suprale- direito constitucional. 10 ed. São Paulo:
gal, condicionando a atividade legiferante. Saraiva, 2012. pp.544-572; BULOS, Uadi
Há, pois, desde a década de 40, previsão, infraconstitucional, diga-se de Lammêgo. Curso de direito constitucional.
6 ed. São Paulo: Saraiva, 2011. pp. 698-712.
passagem, a respeito da incorporação de tratados que fugissem ao plano ordiná-
rio legislativo. Veja-se que tão somente abrange a matéria tributária, o que não 26. MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de di-
se cogitava até a promulgação da vigente Carta Magna e, em especial, após o reito constitucional. 7 ed. São Paulo: Sa-
raiva, 2012. p. 658.
advento da EC n. 45/04, quanto a tratados e convenções sobre direitos humanos.
Em segundo lugar, mister consignar a diferença substancial provocada
pela inserção do § 3º no artigo 5º da Magna Carta. A previsão de procedimento 27. CRFB, art. 5º, § 2º. Os direitos e ga-
semelhante ao exigido para emendas constitucionais não pode ser olvidada rantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes do regime e
pelos estudiosos do direito. Parece claro que, a seguir o quórum previsto, al- dos princípios por ela adotados, ou dos
cançará o tratado sobre direitos humanos o mesmo grau hierárquico das de- tratados internacionais em que a República
mais normas constitucionais, o que inviabiliza entendimento acerca da teoria Federativa do Brasil seja parte.

de supraconstitucionalidade24.
28. CRFB, art. 5º, § 1º. As normas definido-
Segundo alguns doutrinadores, entretanto, a tão só presença do § 2º, ras dos direitos e garantias fundamentais
no art. 5º, permitindo a extensão do rol de Direitos Fundamentais e o art. têm aplicação imediata.
4º, inciso II, todos da Constituição Federal, já seriam permissivos claros de
que tais acordos internacionais devessem assumir hierarquia constitucional,
quiçá, supraconstitucional.
Voltando às teorias até então apresentadas pela doutrina25, a primeira
delas incorpora os tratados internacionais sobre direitos humanos com status
supraconstitucional, conferindo-lhes aplicabilidade imediata. Nas palavras de
Bidart Campos, citado por Gilmar Mendes,

si lo que queremos es optimizar los derechos humanos, y si conciliarlo


con tal propósito interpretamos que las vertientes del constitucionalis-
mo moderno y del social han enrolado […] en líneas del derecho interno
inspiradas en un ideal análogo, que ahora se ve acompañado interna-

259
29. MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de di- cionalmente, nada tenemos que objetar (de lege ferenda) a la ubicación
reito constitucional. 7 ed. São Paulo: Sa- prioritaria del derecho internacional de los derechos humanos respecto
raiva, 2012. p. 661.
de la Constitución26.
30. CRFB, art. 5º, § 3º. Os tratados e con-
venções internacionais sobre direitos hu- Ocorre, todavia, que, algumas sérias implicações traz a adoção da re-
manos que forem aprovados, em cada Casa
ferida tese. A uma, que a rigidez constitucional, desenvolvida pelo princípio
do Congresso Nacional, em dois turnos,
por três quintos dos votos dos respectivos da supremacia forma e material da Constituição, impediria a adequação da
membros, serão equivalentes às emendas tese diante do quadro apresentado pelo ordenamento jurídico brasileiro. A
constitucionais. duas, que, a prevalecer, impediria o controle de constitucionalidade dos atos
internacionalmente pactuados, o que levaria ao questionamento de que, em
vindo a se descumprir o iter procedimental de incorporação dos tratados, qual
a solução seria adotada? Ainda, no plano material, a adequação aos direitos e
garantias fundamentais já trazidos no seio constitucional.
A tese de atribuição de hierarquia constitucional enxerga no § 2º do
art. 5º 27 da Magna Carta uma cláusula aberta de recepção de direitos outros
subscritos pelo Brasil, no plano internacional, conferindo-se, ademais, aplica-
bilidade imediata, desde a ratificação, dispensando-se a intermediação legisla-
tiva, em leitura do § 1º do mesmo art. 5º 28.
Em caso de conflito, adotar-se-ia o princípio do in dubio pro homini
ou fazendo prevalecer o princípio da dignidade humana, com o consectário
da norma mais favorável à pessoa humana. Cançado Trindade asseverou que
“a normativa dos tratados de Direitos humanos em que o Brasil é parte tem efe-
tivamente nível constitucional e entendimento contrário requer demonstração”29.
Tal doutrina esvaziou-se com o advento da EC n. 45/04, a qual, conforme já
se disse, trouxe procedimento próprio de incorporação de tratados sobre direitos
humanos, a nível constitucional 30. A exigência de aprovação através de quórum
especial no Congresso Nacional mitiga a adoção da vertente esposada pelo autor.
A vigência do mesmo parágrafo terceiro reflete, para alguns, que não
pode, todavia, entender-se possível o plano meramente ordinário dos tratados
incorporados. Isso porque, ao prever quórum especial, ter-se-ia ressaltado o
caráter especial dos tratados sobre direitos humanos em relação aos demais
tratados, os quais assumem, incontestavelmente hierarquia ordinária.
Destarte, a terceira vertente assenta-se na posição intermediária de ditos
tratados, é dizer, acima do nível ordinário, da legislação comum, mas abaixo

260
do nível constitucional, somente alcançado se aprovado, no Congresso Nacio- 31. TIBURCIO, Carmen. Conflito entre fon-
nal, de acordo com o procedimento prescrito. tes: os casos da prisão do depositário infiel
e devedor fiduciante e as leis uniformes de
Por fim, a quarta e última vertente, já superada, como se verá abaixo,
Genebra: comentários à súmula vinculan-
pela jurisprudência e pela doutrina, atribuía aos tratados incorporados o nível te 25. Revista de Direito Bancário e do
semelhante ao da legislação ordinária. Mercado de Capitais. São Paulo, v. 50, p.
245, out. 2010.
Uma preocupação não pode deixar de ser externada e, inclusive, chegou
a ser aventada em várias decisões da Suprema Corte quando se debruçaram os
Ministros sobre a temática ora posta em discussão. A caracterização dos trata-
dos e convenções internacionais, para fins de abrangência ou não da temática
dos direitos humanos poderá, num futuro próximo, gerar sérias dúvidas aos
estudiosos do Direito. Isto porque deve ficar entendido que nem sempre os
acordos internacionais são claramente extensores do rol dos direitos humanos,
abordando, por vezes, indiretamente a questão, ou, ainda, apenas fazendo re-
ferência. Saber se versa ou não sobre direitos humanos o tratado ratificado e
a ser incorporado no ordenamento pátrio poderá causar transtornos tanto no
momento da votação parlamentar, quando se buscará aferir o procedimento
adequado de votação, ou como no controle de constitucionalidade, realizado
pela Suprema Corte brasileira.
Não se pode, ademais, perder de vista que defensores há que encontrarão
em todo e qualquer tratado internacional algum ponto a fim de reivindicar o
caráter humanitário trazido em seu bojo, para fins de benefícios que poderão
ser alcançados de acordo com o status hierárquico assumido. A deturpação na
apreensão dos fins do Direito das gentes introduzido no solo tupiniquim não
pode descambar para o alvedrio de motivações ideológicas ou oportunistas,
senão de que deverá haver profícua proteção de aspectos humanistas exis-
tentes a nível internacional, plano este que busca o Estado brasileiro ocupar,
alinhando-se às demais potências com os mesmos e bem definidos escopos.

3.1. O caminho trilhado pela jurisprudência na incorporação dos


tratados internacionais sobre Direitos humanos.

Sob a ótica da inserção do Brasil perante o cenário internacional, uma frase


sempre nos chamou a atenção. Era (e é) um costumeiro raciocínio de Camen
Tiburcio31: Dizia ela (e ainda diz) que nossa nação, durante boa parte de

261
sua história, praticou uma espécie de isolacionismo no tocante sua parti-
cipação no cenário internacional. Não faz, assim, tanto tempo que o Brasil
passou a ratificar um número mais substancial de tratados internacionais.
Isso, portanto, é uma (apenas uma!) das razões que levaram a jurisprudência
a tardar em mostrar suas primeiras balizas quanto à incorporação e posição
hierárquica dos tratados internacionais. Além disso, não se olvida que os
diferentes tratamentos – concedidos pelos mais diversos Estados – também
corroboram para uma falta de sistematização. Com isso (e também por outros
motivos), a problemática da antinomia no âmbito internacional encontra
percalços além daqueles vistos em um ordenamento jurídico interno, como
esmiuçado acima.
De uma forma ou de outra, nosso leading case sobre a matéria remonta
ao período anterior à Constituição de 1988, como fizemos menção em nota
anterior. Estávamos no ano de 1977, quando o Supremo Tribunal Federal apre-
ciou o Recurso Extraordinário 80.004. Tratava-se de analisar a Convenção
de Genebra, especificamente, a Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas
Promissórias. Discutia-se o conflito entre o Decreto-Lei n. 427/69 e o referido
Tratado Internacional (promulgado pelo Decreto n. 57.663/66).
Tratava-se, portanto, de averiguar a questão do critério hierárquico, uma
vez que, quanto ao critério temporal, não haveria maiores dúvidas e que, no
tocante à especificidade, percebeu-se que ambas as normas possuíam natureza
semelhantes.
Curiosamente, a princípio, o Ministro Xavier de Albuquerque inclinava-
se a posicionar os tratados internacionais em posição superior ao da legislação
infraconstitucional. Entretanto, após o voto-vista do Ministro Cunha Peixoto,
o Supremo Tribunal Federal, por maioria, entendeu que as normas em conflito
possuiriam mesma posição hierárquica, razão pela qual a solução do conflito
de normas não deveria ser outro senão ao já utilizado se normas internas fos-
sem, ou seja, lex posterior derrogat legi priori.
É só após a promulgação da Constituição de 1988 é que a discussão volta
ao palco da jurisprudência. E isso se dá porque, pela primeira vez, uma norma
constitucional pátria resolve tratar, mesmo que timidamente, da matéria.
Como já salientado, o § 2º do art. 5o preceituava originariamente (e ainda
preceitua) que

262
os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros 32. RHC 79785. Relator Min. Sepúlveda
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados Pertence. Julgamento: 29.03.2000.

internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.

A redação, com efeito, poderia gerar interpretações diversas. Mas as pri-


meiras interpretações doutrinárias pareciam seguir um caminho mais lógico.
O que estaria a Constituição a dizer quando preceituava que não haveria ex-
clusão de outras garantias, por exemplo, criadas por tratados internacionais?
Seria apenas uma previsão constitucional a permitir que tratados – que versas-
sem sobre direitos e garantias fundamentais – pudessem (no sentido permissi-
vo) ser incorporados ao ordenamento jurídico interno? Ou seria um dispositivo
constitucional que teve por condão posicionar os tratados internacionais em
situação hierárquica similar à Constituição (ou, no mínimo, superior às normas
infraconstitucionais)? Sim, fazemos essas perguntas por um motivo lógico.
Não haveria muitas outras opções hermenêuticas (sustentáveis).
E o maior percalço seria a obviedade da resposta à primeira pergunta: não.
Não acreditamos que § 2º do art. 5o teria um escopo óbvio de permitir (ou seja,
apenas permissivo) que tratados internacionais trouxessem ao ordenamento
jurídico novos direitos e garantias fundamentais. Concluir de forma contrária
nos levaria a uma intepretação absurda: que, sem essa previsão constitucional,
os tratados só poderiam regular matérias que não disciplinassem direitos e ga-
rantias fundamentais. Ora, uma norma que não dispensa um processo legislati-
vo mais rigoroso que a formação de uma lei ordinária estaria – estranhamente
– limitada a situações de somenos importância. E mais: seria ilógico, agora
sob a ótica material, imaginar que as normas internacionais só poderiam – ao
menos no âmbito pátrio – disciplinar assuntos de menor importância. Haveria,
em tese, uma outra conclusão absurda. Se se precisasse dizer que os tratados
podem criar novos direitos e garantias fundamentais, concluiríamos dizer que
a Constituição também precisaria deixar expresso que as normas infraconstitu-
cionais também teriam essa prerrogativa (o que, obviamente, é desnecessário).
Dissemos “percalço” porque isso faria restar apenas uma interpretação,
precisamente aquela que nos faria responder positivamente à segunda per-
gunta. Não que isso seja de todo mal. Pelo contrário. O problema é que, no afã
de uma recém-editada Constituição, impulsionada por um movimento demo-

263
crático, parecia haver uma certa resistência do Supremo Tribunal Federal em
aceitar uma hierarquia constitucional de uma norma (seja internacional, ou
não), que não fosse proveniente de um poder constituinte. Estava claro que
a resistência não estava no caráter transfronteiriço da norma. Esse caráter
veio a acalentar as discussões. Aliás, não fosse isso seria desnecessário maior
esforço hermenêutico.
E essa resistência ficou claramente demonstrada logo após os primeiros
casos analisados pelo Supremo Tribunal Federal. Interessantes as palavras de
Sepúlveda Pertence ao relatar o primeiro processo32 em que teve a oportunida-
de de examinar a questão de forma mais exauriente. É que o

tema foi encarado pelo Tribunal duas vezes, pelo menos: a primeira,
no HC 72.131, 23.11.95, Moreira Alves - relativa à compatibilidade da
prisão civil do depositário infiel ou equiparado com o art. 5º, LXVII, CF,
e com o Pacto de São José - e na ADinMC 1.480, 25.9.96, Celso de Mello
- acerca da constitucionalidade da Convenção 158 da Organização In-
ternacional do Trabalho. Ambos os acórdãos lamentavelmente ainda
aguardam publicação. Mas, no primeiro, fiquei vencido, dada a inteli-
gência restritiva que empresto à permissão constitucional da prisão do
depositário infiel, independentemente da superveniência da Convenção
Americana; e, no segundo, a nitidez das posições ficou um tanto com-
prometida com a circunstância de a Convenção possuir caráter progra-
mático - como a mim e a outros juízes pareceu - ou, pelo menos, admitir
interpretação conforme, que exclua qualquer pretensão de eficácia ple-
na e imediata (Inf. STF, n. 82) como entendeu a maioria (ver ementa do
voto condutor do Ministro Celso de Mello, transcrito no Inf. STF 135).

Assim, quanto ao período pós-Constituição de 88, parece ter sido dado,


nesse caso, um tratamento mais definidor. Ao dissertar, longamente, sobre as
diversas posições doutrinárias (como também fizemos acima), o ministro rela-
tor coloca-se a favor da tese segunda à qual não haveria razão para modificar
o entendimento já pacificado anteriormente à promulgação da CF de 88, qual
seja, o tratado internacional possuiria hierarquia similar à da lei ordinária.

264
O fundamento-base poderia ser resumido em um raciocínio: “que, ao
menos no Brasil, o tratado internacional não pode ultrapassar os limites im-
postos pela Constituição da República. E a razão para tanto, está na natureza
estável do texto constitucional”. Em outras palavras, o exercício hermenêutico,
a nosso ver, derivou de uma intenção predisposta em colocar a Constituição
acima de qualquer outra norma. Utilizou-se, inclusive, o argumento de que o
art. 59 da CF já deixava claro o caráter rígido da Carta.
Perceba o leitor que nem sequer estamos, aqui, entrando no mérito da
questão dos direitos e garantias fundamentais. Queremos dizer, não há esforço
persuasivo, de nossa parte, em demonstrar que a posição do STF deveria ser
diferente em razão da importância dos direitos envolvidos. O que estamos a
dizer é que, independentemente do grau de relevância do assunto, não fosse a
intenção predisposta, não se poderia interpretar dessa forma.
Disso, podemos tirar duas conclusões: 1) essa intepretação nos leva a
uma inocuidade do § 2º do art. 5o (ao menos quanto ao assunto que estamos
a tratar), na esteira do que relatamos acima; 2) para mudar o cenário, seria
necessário lidar com a rigidez da CF.
E essa barreira (no que toca ao problema da rigidez), precisaria ser ul-
trapassada mediante uma emenda constitucional. Essa mudança vem com a,
já mencionada, “reforma do judiciário”, mediante a qual é inserido o § 3º do
art. 5o. Interessante. Poder-se-ia optar pela mudança da redação do § 2º, já
que, pela nossa conclusão, o dispositivo seria inócuo. Optou-se, entretanto,
em criar subsequente parágrafo, como se o dispositivo constitucional original
não precisasse de um esclarecimento e, sim, de um aditamento (o que não nos
parece fosse o caso).
A nova redação, contudo, não foi bastante, em termos jurisprudenciais,
para esclarecer o tema (ao menos para o STF). Como já transcrevemos, diz o
§ 3º do art. 5o:

Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que fo-


rem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos,
por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes
às emendas constitucionais.

265
33. Informativo STF n. 498. E, aqui, a história se repete. A história da resistência a que nos referimos
nos parágrafos anteriores. Mas, agora, a situação (hermenêutica) nos parece
34. Íntegra do voto do Recurso Extraordi- mais séria. É que se o problema era a rigidez (e a rigidez é derivada exatamente
nário 466.343.
do grau de dificuldade – em termos comparativos – da aprovação da emenda
constitucional), ele seria sanado com a promulgação da EC 45/04.
A resistência, entretanto, dessa vez, não parece ter-se dado tanto em ra-
zão do caráter da rigidez, mesmo porque foi precisamente esse aspecto que a
EC 45/04 veio superar. A resistência, como veremos abaixo, parece ter tido um
motivo mais técnico-processual, qual seja, o fato de não se estar analisando, in
casu, um tratado aprovado sob a força do § 3º do art. 5º da CF. Isto é, o máximo
que o STF poderia ter realizado (e, infelizmente, o fez muito timidamente) seria
um esclarecimento obiter dictum, quanto a esse novel parágrafo constitucional.
Ao analisar o Recurso Extraordinário 466.343, cuja relatoria foi incumbi-
da ao Min. Cezar Peluso, houve uma divergência significativa. O Min. Gilmar
Ferreira Mendes salientou

(…) que os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pelo


Brasil possuem status normativo supralegal, o que torna inaplicável a
legislação infraconstitucional com eles conflitantes, seja ela anterior ou
posterior ao ato de ratificação (…).

Por sua vez, o Min. Celso de Mello, divergindo nesse ponto, afirmou que

no que respeita à atribuição de status supralegal aos tratados interna-


cionais de direitos humanos subscritos pelo Brasil, afirmou terem estes
hierarquia constitucional. No ponto, destacou a existência de três dis-
tintas situações relativas a esses tratados: 1) os tratados celebrados pelo
Brasil (ou aos quais ele aderiu), e regularmente incorporados à ordem
interna, em momento anterior ao da promulgação da CF/88, revestir-
se-iam de índole constitucional, haja vista que formalmente recebidos
nessa condição pelo § 2º do art. 5º da CF; 2) os que vierem a ser celebra-
dos por nosso País (ou aos quais ele venha a aderir) em data posterior à
da promulgação da EC 45/2004, para terem natureza constitucional, de-
verão observar o iter procedimental do § 3º do art. 5º da CF; 3) aqueles

266
celebrados pelo Brasil (ou aos quais nosso País aderiu) entre a promul- 35. Idem.
gação da CF/88 e a superveniência da EC 45/2004, assumiriam caráter
36. Idem.
materialmente constitucional, porque essa hierarquia jurídica teria sido
transmitida por efeito de sua inclusão no bloco de constitucionalidade33.

Ao refutar os argumentos o Min. Gilmar Mendes asseverou:

A despeito da belíssima sustentação dos argumentos e também dos res-


paldos doutrinários, entendo que, no caso, corremos o risco de produzir-
mos uma atomização de normas constitucionais. Identificados os trata-
dos de direitos humanos como de hierarquia constitucional, passaremos
a ter essas normas como parâmetro de controle, gerando, portanto, um
quadro de insegurança jurídica.34

Reforçamos o esclarecimento acima: por tratar-se de tratado não aprova-


do sob a égide do § 3º do art. 5º da CF (e ainda “não convertido”), a discussão
foi voltada muito mais para a própria aplicação do § 2º do mesmo artigo.
Esses argumentos acabaram, entretanto, por serem obiter dictum, pois
não modificaram o decisum. Ou seja, a divergência não foi determinante para
eventual alteração no julgado, qual seja, a vedação da prisão civil nos casos
do depositário infiel.
Tanto isso é verdade (o caráter obiter dictum do ponto), que o Min. Cesar
Peluso, ao aditar seu voto (exatamente em razão do pronunciamento dos de-
mais ministro), disse:

Neste ponto, abstenho-me de examinar a questão da taxinomia, entre


nós, dos tratados internacionais aprovados, promulgados e incorpora-
dos ao ordenamento jurídico, porque me parece que, qualquer que seja
a postura teórica em relação à autoridade e ao valor nomológico desses
tratados, o resultado jurídico e prático será o mesmo para os casos con-
cretos que estamos a julgar. (…) Assim, a mim me parece - pelo menos
neste julgamento - irrelevante saber qual o valor, a autoridade ou a
posição taxinômica que os tratados internacionais ocupam perante o
ordenamento jurídico brasileiro.35

267
37. Note-se que, até a presente data, ape- E mais: o ministro relator chega a antecipar eventual futuro voto a res-
nas um tratado internacional foi aprova- peito da precisa posição hierárquica dos tratados internacionais:
do segundo os novos ditames: Decreto nº
6.949, de 25.8.2009, que trata “sobre os Di-
reitos das Pessoas com Deficiência e de seu Em relação aos casos futuros e a eventual caso posto perante o novo
Protocolo Facultativo, assinados em Nova Código Civil, já antecipo, para excluir a terceira alternativa, minha po-
Iorque, em 30 de março de 2007.”
sição de que vou reconhecer caráter supralegal ou caráter constitucional
ao Tratado.36

A palavras finais deixam clara a dúvida que ainda paira sobre a temática.
Mas como vimos, a discussão não enfrentou, de forma minimamente
exauriente, a questão do § 3º do art. 5º da CF. Arriscaríamos a dizer que, nesse
ponto, o Supremo Tribuna Federal se posicionará de forma mais homogênea e,
quiçá, como ratio decidendi. Como parece adiantar (uma vez mais em caráter
obiter dictum) o Min. Gilmar Mendes no discutido RE 466.343:

Enfim, desde a adesão do Brasil no ano de 1992, ao Pacto dos Direitos


Civis e Políticos (art. 11) e à Convenção Americana sobre Direitos Huma-
nos – Pacto de San José de Costa Rica (art. 7º, 7), não há base legal para
a aplicação da parte final do art. 5º, LXVII, da Constituição, ou seja, para
a prisão civil do depositário infiel.
(…)
De qualquer forma, o legislador constitucional não fica impedido de sub-
meter o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e a Convenção
Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San José de Costa Rica,
além de outros tratados de direitos humanos, ao procedimento especial
de aprovação previsto no art. 5º, §3º, da Constituição, tal como definido
pela EC n. 45/04, conferindo-lhes status de emenda constitucional.

Em outras palavras, a tese da supralegalidade (mas, ao mesmo tempo,


concedendo caráter infraconstitucional aos tratados) só se coadunaria quanto
aos tratados não aprovados segundos os ditames § 3º do art. 5º da CF (ou não
“convertidos” mediante o mesmo processo).
Isso implica concluir que o Supremo Tribunal Federal, embora não enfren-
tando a novidade inserida na EC 45/04, modificou seu entendimento anterior

268
quanto à aplicação do (então) inócuo § 2º do art. 5º da CF, que agora possui,
ao menos, a eficácia de alçar os tratados internacionais a um nível supralegal.

3.2. A proposta de emenda regimental do Congresso Nacional:


perspectivas futuras.

Exsurge, entretanto, o problema advindo da aprovação do § 3º do art. 5º da


CF. Seria possível “converter” os tratados internacionais aprovados (ainda sob
a égide da redação constitucional original) em normas com nível hierárquico
segundo a nova redação? E como seria realizada essa “conversão”?37
Visando a regulamentar a matéria, foi proposto, no âmbito da Câmara
dos Deputados, o Projeto de Resolução 204/2005, que propõe a criação do ar-
tigo 203-A, §10, no Regimento Interno da Câmara dos Deputados:

§10. Tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos rati-


ficados pelo Brasil antes da promulgação da EC 45, de 2004, poderão ser
objeto de requerimento previsto no caput deste artigo [203-A],
Art. 203-A. Recebida mensagem do Presidente da República conten-
do tratado ou convenção internacional sobre direitos humanos, a Mesa
fará publicar no avulso da ordem do dia o prazo de dez sessões para a
apresentação de requerimento subscrito por um terço de deputados so-
licitando sua equivalência a emenda constitucional, nos termos do §3.º
do art. 5.º da CF, acrescido pela EC 45, de 2004.

Entretanto, independentemente do processo legislativo de “conversão”


utilizado, a questão do tópico anterior continua. E não poderia ser diferente,
tendo em vista que uma Resolução de uma das Casas do Congresso Nacional
não teria o condão de esclarecer a interpretação a ser dada ao controvertido §
3º do art. 5º da CF.
Mas nem parece ter sido essa a intenção da Casa Legislativa. O que
houve foi um “recado” daquela Casa no sentido de conceber tal possibilidade.
De qualquer forma, caberá ao Supremo Tribunal Federal, pronunciar-se a
respeito da inserção desses tratados aprovados sem a observância do § 3º do
art. 5º da CF.

269
Não vemos maior óbice; mesmo porque a proposta de Resolução nada
mais faz do que equiparar a aprovação dos tratados (nos ditames do § 3º do
art. 5º da CF) ao processo de formação das emendas constitucionais. Importa só
frisar, uma vez mais, que essa proposta não guarda qualquer relação quanto à
discussão da hierarquia dessas normas, como defendem alguns doutrinadores.

5. Conclusão

Para concluir, poderíamos resgatar o velho chavão: “sem pretender esgotar tema,
objetivamos…”. Mas não se trata disso. Nunca se “esgota” um tema. Achamos
que é uma espécie de uma falsa humildade e/ou hipocrisia acadêmica, pois se
estaria admitindo que o assunto (e pior: a conclusão desse assunto) não poderia
ser revisto. O (pseudo) esgotamento significaria uma desnecessidade de futuras
reflexões sobre o tema. E, admitir isso, nos levaria a um engessamento de uma
ciência (notadamente a relativa às ciências sociais) que possui (e possuirá) uma
eterna mutação, o que implica reanálises perenes. Quem afirma isso, de duas
uma: ou disse menos do que gostaria de ter dito (talvez por falta de tempo); ou,
realmente, crê que um dia esgotará um assunto (o que julgamos menos provável).
Nossa breve conclusão relata mais uma preocupação do que eventuais
sugestões. Desde o surgimento da Constituição de 1988, a problemática do
posicionamento hierárquico no tocante aos tratados internacionais já estaria,
a princípio, resolvido. A redação do § 2º do art. 5º da CF já seria, por si, bas-
tante para concluir que os tratados que versassem sobre direitos e garantias
fundamentais (e, aqui, não pretendemos adentrar na eterna discussão que os
diferencia dos direitos humanos, no sentido conceitual) poderiam ser equipa-
rados às emendas constitucionais.
E, nesse sentido, reforçamos nosso entendimento de que para chegar-
se a essa conclusão não precisaríamos investigar com maior profundidade
as noções principiológicas extraídas da teoria constitucional, tampouco dos
princípios internacionais dos direitos humanos. Bastaria um exercício herme-
nêutico mais simplório.
Mas o Supremo Tribunal Federal sempre foi resistente desde os primeiros
julgados; talvez, como salientamos, derivado de uma cultura de momento.

270
Uma cultura derivada de um afã que pairava nos primeiros momentos da eu-
foria de quem ganhou um novo guardião.
Mas não bastasse a frustrada tentativa do § 2º do art. 5º da CF, a situação
(hermenêutica), a nosso ver, se agrava quando, mesmo após o surgimento do §
3º do mesmo dispositivo, o Supremo Tribunal Federal, quase dez anos depois,
não ter ainda um posicionamento claro a respeito do tema, o que não se deu
por falta de oportunidade.
O debate acerca dos aspectos do direito civil, tal como os princípios
do direito cambiário e os institutos atinentes à prisão civil ganharam mais
a atenção dos Ministros que, propriamente, assentar o status hierárquico de
tratados internacionais sobre direitos humanos ao serem incorporados ao
ordenamento pátrio.
Nesse sentido, mesmo que, de forma intelectualmente prepotente (ou
mesmo ingênua) concluíssemos pelo esgotamento do tema, pouco adiantaria.
É que, em nossa investigação, nossa principal conclusão é que a questão não
foi sequer examinada pelo STF (ao menos como ratio decidendi).
Se, contudo, conforme acreditamos, voltar o debate a ocupar a pauta do
judiciário, merecerá da Suprema Corte uma revisão crítica dos posicionamen-
tos até então esposados, para fins de garantir maior coerência na incorporação
dos tratados internacionais, bem como o respeito às balizas estipuladas cons-
titucionalmente, máxime quanto ao §3º do art. 5º da Magna Carta.

271
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273
274
Martha Lucía Olivar Jimenez
Discente do curso de Educação em Direitos Humanos

Valesca Raizer Borges Moschen


Doutora em Direito e Coordenadora do Mestrado em Direito da Universidade
Federal do Espirito Santo

16
LAS INMUNIDADES DE ESTADO EXTRANJERO Y LA
PROTECCIÓN DE LOS DERECHOS HUMANOS EN LA
PAUTA DEL JUDICIARIO BRASILEÑO

Martha Lucía Olivar Jimenez


Valesca Raizer Borges Moschen

1. MADRUGA F., Antenor P., A renúncia à 1. Los progresos en la jurisprudencia brasileña en materia de
imunidade de jurisdição pelo estado bra- inmunidades de Estado extranjero
sileiro e o novo direito da imunidade de
jurisdição, Rio de Janeiro:Renovar, 2003,
pp.203 e 204. No hay ninguna duda en la relación simbiótica entre la doctrina y la jurispru-
dencia en la búsqueda de soluciones innovadoras a los problemas que surgen
2. Op. Cit. P. 200.
día a día y en la incuestionable evolución del derecho que de allí resulta. Esa
afirmación gana proporciones mayores en la materia que nos ocupa. Entre los
asuntos que más han interesado a los jueces brasileños y para los cuales han
buscado auxilio en la doctrina nacional y extranjera pueden destacarse de un
lado, el constante esfuerzo por diferenciar claramente competencia internacional
e inmunidad de jurisdicción y de ejecución, examinando el fundamento de los
privilegios (1.1), y de otro la determinación de reglas de procedimiento que deben
ser observadas en los conflictos en que interviene un Estado extranjero (1.2).

1.1 Jurisdicción & competência: harina de un mismo costal?

La inmunidad de jurisdicción se consubstancia en un triangulo procesal que


se presenta a partir de dos relaciones jurídicas distintas: una primaria, así lla-
mada por Antenor Pereira Madruga Filho1, entre el Estado extranjero (deman-
dado) y el particular/Estado (demandante); y, una secundaria, que solamente
existirá en el caso de que el Estado extranjero alegue su inmunidad negandose
a la jurisdicción de los tribunales en los cuales la lidis se desarrolla.
Es, en este último caso, que se constituye un conflicto internacional a ser
analizado bajo la óptica del ordenamiento jurídico que disciplina las relaciones
entre Estados: el derecho internacional2 y las reglas procesales nacionales.

276
En la relación primaria, en caso de no existir oposición del Estado ex- 3. La problemática mayor reside, usualmen-
tranjero a la jurisdicción interna, el procedimiento será realizado a partir de las te, en la ejecución de una eventual senten-
cia condenatoria del Estado extranjero.
reglas materiales y procedimentales aplicables a al caso concreto. Al no existir
la excepción preliminar de inmunidad, cabrá al juez, a partir del analisis de 4. MADRUGA F., Antenor P., A renúncia à
fondo de la cuestión, tomar la decisión según los supuestos de hecho y de imunidade de jurisdição pelo estado bra-
sileiro e o novo direito da imunidade de
derecho argumentados y aplicables3.
jurisdição, Rio de Janeiro:Renovar, 2003,
Por otro lado, en la relación secundaria – en la cual exista el conflicto pag.203 e 204.
internacional – la inmunidad se clasifica como una cuestión independiente de
la cuestión de fondo. O sea, antes de resolver el problema de fondo que nortea 5. Mandat d’arret du 11 avril 2002 (Repu-
blique Democratique du Congoc. Belgique),
el litigio, el juez debe evaluar si el Estado demandado es inmune a la jurisdic- arrêt C.I.J. Recueil 2002.p.3.
ción nacional4.
Desde el prisma procedimental, las controversias relativas al tema de 6. Mandat d’arret du 11 avril 2002, nota 9.

la inmunidad se inician en la propia calificación procesal del instituto. Por


7. Mandat d’arret du 11 avril 2002, nota 9.
tratarse de una excepción preliminar la inmunidad de jurisdicción del Estado
demandado y la determinación de la competencia del juez, son cuestiones
cercanas y frecuentemente confundidas.
En 2002 la Corte Internacional de Justicia en el caso RDC V. Bélgica
también conocido como el “Mandato de Prisión” o “Caso Yerodia”5señaló la
diferencia crucial entre la jurisdicción de los tribunales nacionales y las inmu-
nidades jurisdiccionales, rechazando la asimilación entre estas dos cuestiones:

[…] Las reglas que gobiernan la jurisdicción de las Cortes Nacionales


deben ser cuidadosamente diferenciadas de aquellas que gobiernan las
inmunidades de jurisdicción: jurisdicción no implica ausencia de inmu-
nidad y ausencia de inmunidad no implica jurisdicción […] 6.

La declaración del Juez Koroma apoyando el raciocinio del Tribunal In-


ternacional merece ser destacada:

[…] La jurisdicción se refiere al poder del Estado de afectar los derechos


de una persona o personas por medidas legislativas, ejecutivas o judi-
ciales. En tanto que la inmunidad representa la independencia y excep-
ción de la jurisdicción o de la competencia de las Cortes o Tribunales de
un Estado extranjero7.

277
8. LIEBMAN, Enrico Túlio, Manual de Di- La Corte hizo tal afirmación al constatar que los dos conceptos, jurisdic-
reito Processual Civil, trad. Port. Foren- ción e inmunidad, están íntimamente relacionados generando muchas veces
se, 1984, v.1, n.24, p.55, apud CARNEIRO,
Athos Gusmão, Jurisdição e competência,
confusión por lo que se hace necesario garantizar la prevalencia lógica del
14 ed., São Paulo:Saraiva, 2005, p.67. primero sobre el segundo: la inmunidad jurisdiccional solamente será un obs-
táculo procesal en el momento en que sea constatada y no en el momento
9. Apelação Civil 9696–3 Genny de Olivei-
en que es manifestada por el Estado interesado y eso ocurre si el tribunal es
ra v. RDA, Aci 9696–3/SP São Paulo, D.J.
12/10/1990, p 11045. competente para decidir la cuestión.
La doctrina brasileña trabaja el concepto de jurisdicción y competencia
10. MADRUGA FILHO, Antenor Pereira, op. a partir de la concepción de que “La jurisdicción actúa como la manifestación
cit., 201.
de la potestad del Estado. Es al mismo tiempo, poder, función y actividad”. La
competencia, por su vez, posee una dimensión de naturaleza interna, o sea,
representa “la medida de la jurisdicción8”
Los tribunales brasileños no constituyen una excepción al problema
como se puede constatar en la propia decisión 9696–3 Genny de Oliveira,
donde el Ministro Relator Sydney Sanches confundió los dos conceptos al
ver en el artículo 114 de la Constitución de 1988 una alteración del régimen
de la inmunidad.
En esa ocasión el voto del Ministro Francisco Rezek fue claro al determi-
nar que tal disposición se refería exclusivamente a las reglas de jurisdicción/
competencia del juez nacional y en ningún momento debía interpretarse como
consagrando el principio de la inmunidad relativa de jurisdicción9.
Como bien lo afirma uno de los especialistas brasileños en materia de in-
munidades, Antenor Pereira Madruga Filho, la competencia constituye siempre
una limitación de la jurisdicción, al no existir un orden jurídico supranacional
capaz de centralizar decisiones e imponer eficazmente límites al poder de cada
uno de los Estados le corresponde a cada uno de ellos establecer los límites
de su jurisdicción10. Compartimos la posición del citado autor cuando afirma
que procesalmente el examen de la inmunidad de jurisdicción constituye una
cuestión plenamente independiente de la decisión de mérito del conflicto. Así
el juez deberá verificar primero si la causa está dentro del ámbito de su com-
petencia de conformidad a la ley interna, para solamente después evaluar si el
Estado reo es inmune a la jurisdicción nacional.

278
Para el Profesor Cândido Dinamarco tres ordenes de motivos orientan la 11. DINAMARCO, Cândido Rangel. Insti-
acción del Estado al determinar las reglas de competencia: tuições de direito processual civil. 2ª ed.,
São Paulo: Malheiros, v. 1, 2002
1º. La imposibilidad o dificultad para ejecutar en territorio extranjero
ciertas decisiones de los jueces nacionales;
2º. La irrelevancia de muchos conflictos frente a los intereses que al Es-
tado le corresponde preservar;
3º. La conveniencia política de mantener ciertos padrones de respeto
recíproco con relación a otros Estados.

Tales motivos llevan a excluir del poder judicial ciertas cuestiones por
inviabilidad, por ausencia de interés o por conveniencia internacional11. Es en
esta última cuestión que la doctrina encaja las inmunidades.
La competencia internacional de los tribunales brasileños se encuentra
determinada fundamentalmente, no exclusivamente, en la constitución, en la
Ley de Introducción del Código Civil y en los artículos 88 (competencia concu-
rrente) y 89 (competencia exclusiva) del Código de Procedimiento Civil.
En los últimos años los esfuerzos del Supremo Tribunal Federal se han
concentrado en definir claramente el concepto independientemente de las in-
munidades dando lugar a una jurisprudencia digna de mención. A pesar de los
esfuerzos muchos jueces de instancias inferiores continúan a confundir juris-
dicción e inmunidad, declarando frecuentemente extinto el proceso sin citar el
Estado extranjero al entender que está amparado en el privilegio.

1.2 El paradojo de las reglas procedimentales

Curiosamente en Brasil ni la verificación de incompetencia internacional ni


aquella destinada al reconocimiento o no de inmunidad a un Estado extran-
jero están sometidas a un régimen procesal expresamente definido, de tal
manera que en uno y otro caso los tribunales se han visto forzados a aplicar
analógicamente los dispositivos normativos existentes particularmente en el
Código de Procedimiento Civil. Esa situación explica que sobre algunos as-
pectos aún subsisten posiciones contradictorias y la necesidad de precisión
se hace evidente.

279
12. RO 85 – RS (2009/0044482–3), Dje El análisis de la jurisprudencia de los Superiores Tribunales brasileños,
17/08/2009, pag.2–11. principalmente aquella mas reciente, así como el excelente trabajo ya realiza-
do por Antenor Pereira Madruga Filho, permiten determinar el procedimiento
13. Vid, entre otros, el RO 70 RS de 2008.
que viene siendo observado en los controversias en que interviene un Estado
14. RO 74 – RJ (2008/0076862–4), Dje extranjero particularmente en calidad de demandado.
08/06/2008, p.1 a 35.

1º. La citación del Estado. Esta es, sin lugar a dudas, una de las cues-
tiones que más ha suscitado dudas en los jueces, en particular sobre la na-
turaleza del acto como bien lo señalaba el Ministro Relator João Otávio de
Noronha, en el Recurso Ordinario 85 de 200912 al analizar la diferencia entre
citación, notificación e intimación dadas las consecuencias procesales que
cada una presenta.
Deja claro el Ministro relator en su voto que no se trata de citación en
el sentido estricto de la palabra y en el sentido del art. 213 del CPC brasileno,
una vez que los efectos de la citación, en particular, la angularización de la
relación jurídica, no estarían presentes.
Tampoco se trataría de intimación, acto por el cual se da a conocer al
destinatario los actos y términos del proceso, conforme el art. 234 del CPC bra-
sileno, una vez que la comunicación al Estado extranjero por el juez nacional,
no criaría onus a las partes.
La propuesta enumerada por el RO 85, es la de caracterizar tal acto como
atípico en el ordenamiento brasileño, por no generar onus y no producir efec-
tos frente al Estado extranjero. El relator la caracteriza como siendo una “co-
municación procesal” no tipificada en nuestras normas jurídicas, pero que no
genera efectos procesales en los moldes de la citación y /o intimacción.
En general los tribunales han preferido la citación en la Embajada.13 Mas
el Supremo Tribunal Federal , basado en la naturaleza jurídica de las embaja-
das y en leyes existentes, defiende la citación al Ministerio de Relaciones Ex-
teriores del Estado extranjero directamente. Opción también corroborada por
las decisiones recientes del Superior tribunal de Justicia, como lo demuestra la
decisión del RO 74–RJ (2008/0076862–4)14, al afirmar que el estado extranjero,
aún cuando si configure acto de imperio, tiene la prerrogativa de renunciar a
la inmunidad motivo por el cuál há de ser realizada la citación”.

280
Ahora bien, la doctrina mayoritaria así como la jurisprudencia de los Tri- 15. Vid entre otros, los Recursos Ordiná
bunales Superiores (STF Y STJ) coinciden en afirmar que no se puede declarar rios n.57–RJ (2007/0081639–4), Dje
14/09/2009; e n.74 – RJ (2008/0076862–4)
inepta la petición inicial contra un Estado extranjero desde el comienzo, pues
Dje 08/06/2009.
aún cuando aparentemente la situación se encuadre dentro de las hipótesis en
que será declarada la inmunidad el Estado extranjero podrá renunciar siempre 16. RO 64–SP (2008–0003366–4). Dje
23/06/2008.
al privilegio e someterse a la jurisdicción territorial.15
Mediante el Recurso Ordinario n. 6416 se consagra, en la jurisprudencia 17. RO 64–SP, op.cit.
brasileña, la necesidad de actuación del Estado extranjero para que se mani-
fieste a respecto de su inmunidad, antes de la extinción del proceso. En este 18. Vid. Comentários DINAMARCO Cândido.
Op.cit. p.203.
sentido, el recurso mencionado consagró el entendimiento de que:

la inmunidad de jurisdicción no representa una regla que automáticamente


deberá ser aplicada a los procesos judiciales contra un Estado extranjero. Se
trata de un derecho que puede, o no, ser ejercido por ese Estado.

A raíz de una mejor comprensión de la autonomía del instituto de


inmunidad frente al de la competencia, la justicia brasileña rechaza cons-
tantemente la decisión de extinción del proceso sin la debida citación del
Estado Extranjero.17

2º. Plazo para defensa. En los países dotados de legislación específica es


previsto un plazo bastante amplio, sobre esta base Antenor Pereira Madruga
defiende la aplicación análoga del plazo otorgado por el artículo 188 del CPC
a favor de la Hacienda Pública Nacional. Este plazo todavia no es harmonico,
en función, inclusive, de la própria naturaleza del acto de citación anteriore-
mente analisado.

3º. Silencio del Estado extranjero. Tradicionalmente la doctrina interna-


cionalista en peso ha equiparado el silencio de un Estado extranjero demanda-
do a la invocación del privilegio e, en consecuencia, al no reconocimiento de
la jurisdicción del tribunal que le cita.
En 1984 el Ministro Djaci Falcão en el caso Luthero Viera v. Francia18
dejaba claro que “el silencio del Estado reo, no atendiendo a la citación judi-
cial, no configura por sí renuncia a la inmunidad de jurisdicción”. La situación

281
19. En este mismo sentido vid las decisiones cambia radicalmente si el Estado extranjero contesta la acción e inclusive si
RO N. 69. recorre de la decisión, ya que en tales situaciones se está reconociendo la com-

20. La interposición de La defensa de inmu-


petencia del Tribunal para decidir la cuestión de mérito.
nidad suspende el plazo procesal del tras- En la misma línea de pensamiento, en la citada decisión, RO 85 –RS
lado y de la citación hasta que se resuelva. (2—9/0044482–3) la Corte entendió que:

21. Igualmente CINTRA, Antonio Carlos de


Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINA- el silencio de representante diplomático, o del propio Estado Extranjero,
MARCO, Cândido Rangel. “Teoria Geral dejando de comparecer a la relación jurídico-procesal, no implica re-
do Processo”. 21ed, São Paulo: Malheiros, nuncia a la inmunidad de jurisdicción.19
2005, p.238.

22. Publicado en el Dje 14/09/2009, Este viene siendo el entendimiento mayoritario de la jurisprudencia pa-
pág. 24–43. tria contemporánea.

4º. Incidente de inmunidad. Compartimos la posición defendida por An-


tenor Pereira Madruga Filho que, inspirado en la ley argentina de 199520,
propone la aplicación del artículo 265 III del CPC. En consecuencia, invocado
el privilegio por el Estado o transcurrido el plazo concedido al Estado sin que
este se haya manifestado el proceso se suspendería y los plazos volverían a
correr a partir del momento en que el Estado fuese informado de la decisión
de no reconocer la inmunidad.
En el incidente el juez analizará los argumentos de la parte autora y del
Ministerio Público Federal.

5º. Extinción del proceso por el reconocimiento de la inmunidad de ju-


risdicción. La doctrina constata como en la década de ochenta ante demandas
contra Estados extranjeros muchos tribunales extinguían el proceso sobre le
fundamento de la imposibilidades jurídica del pedido” consagrada en el artí-
culo 267, IV del CPC. Como lo deja claro Cândido Dinamarco21 la inmunidad
de jurisdicción de un Estado extranjero y la imposibilidad jurídica del pedido
constituyen institutos jurídicos que no pueden confundirse: “La imposibilidad
jurídica del pedido se presenta cuando una cuestión no tiene la menor condi-
ción de ser apreciada por el poder judicial, por estar excluida a priori por el or-
den jurídico sin cualquier consideración de las peculiaridades del caso concreto.

282
Lo interesante es que esa confusión aún está presente particularmente 23. RO n. 57 –RJ (2007/0081639–4), pag.34.
en las instancias inferiores del poder judicial en Brasil. En el recurso n. 57–RJ
24. RO n. 57 op.cit., pag. 34.
(2007/0081639–4)22, el Ministro Sidnei Benetti , en su voto vista, busca dejar
clara la cuestión al construir su raciocinio a partir de la necesaria calificación 25. BOTELHO DE MESQUITA, José Ignácio,
jurídico-procesal de la decisión judicial, reconociendo la inmunidad. “Questões procedimentais das ações contra
Estados e organizações internacionais”, in A
Para el referido magistrado, el juez al extinguir el proceso deberá hacerlo
imunidade de jurisdição e o judiciário bra-
con base en la ausencia de condición de la acción, sileiro. Coord. Mario Garcia e Antenor Perei-
ra Madruga Filho, CEDI:Brasília, 2002, p. 216.
diferentemente de competencia interna, la falta de competencia implica
falta del derecho de acción, o incluso la ausencia de este derecho en
caso de existir anteriormente.23

En este sentido, la extinción, sin el análisis del merito procesal, deberá


ocurrir no con base en la imposibilidad del pedido, pero si, con base en la
imposibilidad de alcanzar al Estado extranjero a través de la propia acción
del autor. De este modo, la existencia de la inmunidad deriva de la falta de
condición de acción.24
La imposibilidad jurídica del pedido se refiere a una inadecuada pre-
tensión en tesis al ordenamiento jurídico vigente. Gran parte de los pedidos
realizados contra el Estado Extranjero al Poder Judicial brasileño, constituyen
pedidos de indemnización. Es incuestionable, a la luz del orden jurídico na-
cional, en particular, a los artículos 186 e 927 del Código Civil Brasileño, la
proclamación de que quien por omisión o acción cause daño a otro es obligado
a indemnizar. En este sentido la decisión judicial que decrete la extinción de la
acción por imposibilidad del pedido contraría la realidad normativa contem-
poránea del sistema nacional.
Finaliza el Ministro Sidnei Benetti citando a José Ignácio Botelho de
Mesquita25:

La acción, como se sabe, es el derecho de exigir del Estado la prestación


de la actividad jurisdiccional, a que corresponde el deber del Estado de
presar. Si el Estado no tiene este deber de prestar, […] , deja de existir el
correspondiente derecho de acción […]

283
26. Corte Internacional de Justicia CIJ, 2. Los desafíos de los tribunales brasileños en materia de
affair Alemanha vs Itália, 2008/44. inmunidades de Estado extranjero

La proliferación de actividades de los Estados en territorio extranjero trae


como consecuencia natural la multiplicación de situaciones de conflicto. Nin-
guna cuestión suscita en la actualidad mayor discusión que la relativa al en-
frentamiento entre inmunidades de Estado y actos considerados contrarios a
los derechos fundamentales, en particular cuando se plantea que tal evento
constituya una violación de normas imperativas de derecho internacional. La
propia Corte Internacional de Justicia deberá a enfrentar el desafío que re-
presenta el actual conflicto entre Italia y la República Federal de Alemania26.
Pero otros asuntos continúan preocupando los tribunales como los propios
representantes Estatales: la autorización para renunciar los privilegios, la po-
sibilidad de ejecutar un Estado extranjero en ciertas circunstancias.
Las soluciones encontradas a esos problemas varían considerablemente
en los países dotados de legislación específica y en aquellos en que no hay una
reglamentación de ese tipo (2.1), los tribunales brasileños han comenzado a
enfrentar tales situaciones con mayor frecuencia en la última década lo que ha
originado un mayor análisis en la materia aun cuando aún se puede calificar
de deficiente (2.2).

2.1 La diversidad de soluciones propuestas internacionalmente

Una impresionante cantidad de obras doctrinarias producidas en los últimos


años constatan como ante la invocación de inmunidades, de jurisdicción y de
ejecución, por un Estado extranjero acusado de violar derechos fundamenta-
les la posición de los tribunales difiere radicalmente en los países dotados de
legislación y en aquellos que no la tienen.
En los primeros, el juez está vinculado a los dispositivos legales de tal
manera que fuera de las hipótesis expresamente previstas como susceptibles de
ser sometidas a la jurisdicción territorial el Estado extranjero estará amparado
por los privilegios de fundamento internacional. Las legislaciones en vigor,
inclusive la Convención Europea de Basilea, no hacen ninguna referencia a la
violación de derechos humanos, mucho menos de violación de normas de Jus

284
Cogens que pueda ser imputable a un Estado extranjero27. Existe en todas ellas
la llamada “cláusula delictual”: El Estado extranjero no podrá invocar la inmu-
nidad de jurisdicción en controversias relativas a la indemnización por daños a
la integridad física de personas o daños a bienes causados por un acto u omi-
sión que le puedan ser atribuidas, si tal acto u omisión se ha producido, en todo
o en parte, en el territorio del Estado de foro y si el perpetrador directo estaba
presente en dicho territorio en el momento en que se produjo el acto u omisión.
Idealizada originalmente para ser aplicada en casos de accidentes de
tránsito en los que interviniesen agentes diplomáticos amparados por los pri-
vilegios de la Convención de 1961, el dispositivo ha sido utilizado en situa-
ciones mucho más complejas e, por que no decirlo, insólitas relacionadas a
actos de agentes del “servicio secreto” de un Estado extranjero. Así, entre las
controversias más famosas en que se reconoció la aplicación de la cláusula
resultando en el rechazo del privilegio, pueden ser mencionados sólo en Esta-
dos Unidos Lettelier y Moffit v. República de Chile, Liu v. República de China.
Ante la falta de previsión expresa, las víctimas de violaciones de dere-
chos fundamentales atribuidos a Estados extranjeros han recurrido a la cláu-
sula delictual e inclusive han tratado de vincular el acto en cuestión al des-
conocimiento de obligaciones contractuales sin obtener resultados favorables
En la primera hipótesis, debido a la exigencia de realización del acto en el
territorio del Estado de foro, lo que impide al juez analizar violaciones que
se hayan perpetrado en el territorio del Estado acusado o en un tercer Estado.
En el segundo caso por la falta de identidad del acto con la previsión legal.
De tal manera que la situación es bastante crítica para quien intenta ingresar
en un país dotado de legislación sobre inmunidades con una demanda ante
los tribunales sobre la alegación de violación de derechos fundamentales. Un
triste ejemplo de ello es el caso Bouzari v. Iran ante los tribunales canadienses.
Estados Unidos es el único país a adoptar una legislación específica per-
mitiendo a los tribunales analizar las demandas contra Estados extranjeros por
actos imputables a ellos realizados fuera de las fronteras americanas. En efecto
en 1996 el Foreign Sovereign Immunities Act de 1976 fue modificado por el
Antiterrorism and Effective Death Penalty Act (FSIA terrorism exception o State
Sponsored Terrorism Exception). Este último instrumento otorga a los ciudada-
nos americanos víctimas de lesiones personales o muerte, derivadas de actos de

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28. Irak fue retirado en 2003. tortura, asesinatos extrajudiciales, sabotaje de aeronaves o toma de rehenes,
cometidos en territorio extranjero e imputables a un Estado, la posibilidad de
29. La más célebre sin duda fue concedida
buscar reparación en las Cortes Americanas. El principal límite a tales acciones
en el proceso Flatow v. Islamic Republic of
Iran, que daría origen a una modificación es que el Estado demandado debe ser considerado “financiador” (sponsor) de
de legislación conocida como la enmien- terrorismo de acuerdo con una lista elaborada por la Secretaria de Estado. En
da Flatow : Civil liability for acts os state
esa lista figuran actualmente Cuba, Irán, Corea del Norte , Libia, Siria y Sudan28.
sponsored terrorism Act. Esa enmienda
creó una base legal para que las victimas Entre 1996 y 2000 muchas demandas fueron presentadas e indemni-
pudiesen iniciar una acción contra el ofi- zaciones pulposas fueron concedidas29 que no fueron fácilmente ejecutadas
cial, empleado o agente del Estado extran- al enfrentar el privilegio de la inmunidad de ejecución por parte del Estado
jero que perpetra el acto. Además creaba
una base legislativa federal para ese tipo de
extranjero y la negativa inicial del gobierno americano de autorizar la utili-
acción, Independiente de La legislación del zación de bienes congelados de propiedad de esos Estados para tales fines. En
Estado de la federación de residencia de las enero de 2008 una nueva enmienda legislativa fue aprobada por el Congreso
victimas. Es pertinente aclarar que el FSIA
motivada por algunas interpretaciones de la enmienda Flatow realizadas por
se analiza en demandas contra Estados,
contra individuos existen otros dos instru- Cortes Federales. El National Defense Authorization Act modifica el FSIA en el
mentos jurídicos: el ACTA y el TVPA Torture sentido de crear una nueva sección que deja claramente establecido en ámbito
Victim Protection Act de 1991. federal el derecho de acción privada contra un Estado extranjero sobre la base
30. Entre los multiples comentarios sobre el
de la enmienda Flatow. Tal legislación no soluciona el problema de individuos
caso ver: Gavouneli Maria y Bantekas Elias, que buscan indemnización por violaciones de derechos fundamentales impu-
Prefecture of Voiotia v. Federal Republico f tables a Estados extranjeros en contextos totalmente diferentes.
Germany case 11/2000 – International de-
Es en los Estados carentes de legislación especial donde los Tribunales
cisions, en AJIL, 95, 2001, p.98.
han tomado la iniciativa de buscar soluciones concretas e innovadoras a las
demandas de víctimas de derechos humanos. Tales esfuerzos encuentran fun-
damento, parcial o totalmente, en el derecho internacional. Fueron los jueces
griegos los pioneros de esa corriente que encontró eco rápidamente en los
tribunales italianos. En el célebre caso Distomo de 1997, prefectura de Voiotia
y otros v. República Federal de Alemania30, el Tribunal de primera instancia
después de determinar la jurisdicción sobre el conflicto apoyándose en las
normas de la Convención de Basilea y en el derecho consuetudinario, utiliza
la noción de Jus Cogens para apartar el privilegio de la inmunidad estatal. En
efecto, de acuerdo con la sentencia, los crímenes de guerra, como son conside-
rados los hechos que originan la demanda, constituyen violaciones de normas
imperativas de derecho internacional que no pueden ser consideradas actos
soberanos amparados por la inmunidad de Estado. De otra parte, continua la
decisión, actos de tal naturaleza deben ser considerados nulos y prohibidos

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a la luz del derecho Internacional de tal forma que toda conducta a su favor 31. La decisón Ferrini dio lugar a una biblio-
debe ser considerada una forma de cooperación con una violación del derecho grafia extensa entre la cual cabe destacar
los artículos de Andrea Bianchi. Ver entre
internacional. El tribunal de segunda instancia acompañaría la decisión, así muchos otros su comentário sobre La de-
como la Corte Suprema en 2000. Posteriormente un Tribunal Especial recha- cisión en AJIL, vol. 99, 2005, PS. 242–248.
zaría esas conclusiones sin que esto afectase su importancia y repercusión.
32. La corte de Casación afirmo en su sen-
Desde 2004, con la decisión de la Corte de Casación en el caso Ferrini
tencia que Itália podría ejercer su jurisdic-
v República Federal de Alemania31, los tribunales italianos desarrollaron una ción frente a demandas presentadas por
jurisprudencia constante en el sentido de no conceder el privilegio de la inmu- personas que durante La Segunda Guerra
nidad de jurisdicción a Estados extranjeros que enfrenten acusaciones de vio- Mundial hubiesen sido deportadas a Ale-
mania y sometidas a trabajos forzados en
lación de normas de Jus Cogens principalmente cuando se trata de crímenes la industria armamentista. La sentencia
de guerra32. La particularidad de la posi