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A Psicologização da Bíblia

Por Leandro Santana

Gostaria de propor uma reflexão sobre a psicologização da Bíblia, que pode ser reconhecida, por exemplo, na chamada
Teologia Coaching. Para tanto, irei tomar como referência a abordagem da revista da Convenção Batista Fluminense, Palavra
& Vida, primeiro trimestre de 2020.

Neste trimestre a revista elencou uma série de personagens bíblicos apontando-os como depressivos: Jonas, Pedro,
Elias, Jeremias, etc. Particularmente penso que o material bíblico é escasso e por isso insuficiente para traçar um diagnóstico.

A impressão que tenho é que o autor está preocupado mais com a abordagem psicológica do que com a abordagem
bíblica. E é nisso que reside o problema. Ainda que fatores emocionais, psicológicos, comportamentais, entre outros, sejam
importantes, não deveríamos nos focar nos fatores bíblicos? Nossos irmãos se beneficiariam mais se estivessem recebendo o
real ensino das passagens bíblicas e instruções de como lançar mão desse ensino no seu dia a dia. Mas não é isso que a revista
faz, uma vez que adota sempre um ponto de vista psicológico que às vezes é secundário, ou nem mesmo está lá.

Nossos irmãos, professores de EBD, em sua grande maioria, não têm a formação necessária para tal abordagem.
Assim, as coisas ficam no achismo, nos exemplos contraditórios, ou idéias que não estão na Bíblia, ou pior, em conclusões
contra a Bíblia. Mesmos entre nós, alguns, professores formados, que estudamos disciplinas como Introdução à Psicologia,
Psicologia da Educação, etc., não podemos abordar essas questões de um modo não mais que superficial. Poucos entre nós têm
sólida formação nessas áreas. Acabamos por proliferar em nossas igrejas o que se pode chamar de psicologismo.

Esse psicologismo abafa o propósito fundamental da EBD: ensinar Bíblia. Há em suas igrejas professores que se
queixaram da revista? O que vocês fizeram? O analfabetismo é um problema grave em nosso país – condena milhares de
pessoas à escuridão intelectual e subemprego; o analfabetismo bíblico por sua vez, teria o potencial de condenar milhares à
escuridão eterna (segundo os arminianos) e a uma vida de sobressaltos (segundo os calvinistas).

Não há dúvidas de que a psicologia é fundamental para os seres humanos, entretanto, o psicologismo é algo danoso.
Lembro-me que na faculdade de letras – fortemente influenciada por ideologias, uma delas a abordagem psicológica
(psicologismo) – alguns estudantes perderam a capacidade de analisar literariamente uma obra, pois com frequencia estavam
traçando perfis psicológico-patológicos, esquecendo-se de analisar o que a obra dizia e abordava realmente. Perdia-se, assim, a
Literatura.

Penso que é exatamente isso que está acontecendo em nossas igrejas: estamos perdendo a Bíblia. Estamos nos
esquecendo de analisar o que a Bíblia diz, negando aos irmãos o verdadeiro conhecimento e ensino da Bíblia. Oferecendo-lhes
em troca algo que nem é psicologia, nem é psicanálise, pois se dá em bases duvidosas e escassas. Deixando-os a mercê de
ensino heréticos, interpretações esdrúxulas, dando-lhes água, em vez de leite, ou leite, em vez de comida sólida.

Assim, fazemos má psicologia e má teologia. É necessário, claro, abordar questões psicológicas em nossas igrejas
(talvez nas reuniões de grupos, nos antigos departamentos), mas não podemos fazê-lo ao preço do ensino bíblico. Ensinar a
Bíblia não só é base do primitivo culto cristão, mas também é base para que os irmãos ganhem autonomia, segurança, paz e fé!
Para que isso ocorra, é preciso mostrar aos irmãos exatamente o que está no texto Sagrado, provar-lhes textualmente o que se
está dizendo, orientá-los a transpor o abismo temporal e cultural, para que eles possam, aí sim, contextualizar de verdade e
aplicar a suas vidas. Se eu não fizer isso estou condenando-os ao controle religioso, à superficialidade espiritual e ao
analfabetismo bíblico.

Humildemente reconheço que não sou especialista em qualquer área ligada à Psicologia ou Psicanálise. Minha
especialidade é Língua e Literatura. Vejo, por exemplo, declarações como as de Jonas e de Elias, pedindo a morte, como
recursos retóricos, um mecanismo comum à cultura hebréia/judaica que me leva a pensar em atitudes de humildade e de
resgate aos ensinos bíblicos; que me leva a olhar para os salmos e para o próprio Cristo. Não vejo como um „pensamento de
morte‟, o que é apontado pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) como um dos índices de suicídio e associado à
depressão. Ao focar na questão da alegada depressão, deixamos de lado elementos (ensinos) mais evidentes e mais claramente
ligados aos textos Sagrados que tratam desses personagens: idolatria, religiosidade superficial, superstição, dependência de
Deus, soberania divina, etc.

A impressão que tenho é que estamos cometendo o mesmo erro que se cometeu há quase dois séculos com o
liberalismo teológico: esvaziamento da mensagem da Bíblia em favor de uma mensagem mais "urgente", “contextualizada”.
Nossos avôs sucumbiram à racionalização da Bíblia, nós sucumbiremos à psicologização?