Você está na página 1de 2

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas


Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,


Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...


Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,


E a única inocência é não pensar...
Neste poema, afirma-se, claramente, de modo muito nítido, a primazia do ver, do olhar, dos sentidos, sobre o
pensar.
A linguagem é extremamente simples, corrente e familiar (segundo pessoa alberto Caeiro escrevia “mal”, pois tinha
apenas a 4º classe - mas é de salientar que Caeiro não escrevia “mal” por ter só a 4ª classe, ele tinha só a 4ª classe,
porque escrevia “mal” - é que, como se sabe, primeiro surgiram os versos, a escrita, e só depois o nome de do
heterónimo e a sua biografia.)
Existem, no poema, repetições, tautologias (repetição própria da linguagem infantil), frases simples, frases
coordenadas, predomínio de nomes concretos, pouca adjetivação e frases declarativas. O sujeito poético fala-nos da
sua postura típica: "andar pelas estradas, / Olhando para a direita e para a esquerda", vendo tudo muito bem, porque
o seu "olhar é nítido como um girassol" (comparação), reparando bem que as coisas que vê são sempre diferentes. É
que e ele se quer como criança- sabendo ter “o pasmo essencial / Que teria uma criança se, ao nascer, / Reparasse
que nascera deveras”. Por isso, sente-se renascer em cada momento.

“para a eterna novidade do mundo”.

Na segunda estrofe, afirma “creio no mundo como um malmequer/ Porque o vejo”. E anuncia claramente aquilo
constitui a base do seu pesar:

“…pensar é não compreender…”


“eu não tenho filosofia tenho sentidos…”
“(Pensar é estar doente dos olhos)”

Isto é, para além de poeta- “pastor por metáfora”, ele é também um poeta-oxímoro: a sua filosofia é uma não-
filosofia, afinal, uma recusa do pensamento abstrato, considerado como oposto ao “sentir” (com os sentidos, não com
o sentimento). Repare-se que sempre que se refere a pensar, isto é visto como negativo: “é não compreender …”, “é
estar doente”.
Mesmo falando na natureza (com maiúscula), representando um conceito “abstrato” (natureza será um conjunto de
coisas existentes, logo entidade abstrata), seria para ele uma contradição, não é porque saiba o que ela é, mas
porque a ama (introduzindo aqui um outro conceito essencial na sua poesia, para além do ver: o amar).
Termina então, naturalmente, como se de conclusão lógica se tratasse: Amar é a eterna inocência, / E a única
inocência é não pensar”.