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“Ardoca nascera dentro quase dentro daquela máquina.

Sua mãe, moradora do


subúrbio, fazia a viagem diária rumo ao trabalho. Ela grávida, ele estufando na barriga
materna respondia aos solavancos do trem com chutes internos. Depois, cá fora, no
mundo, no colo da mãe, acordava e chorava durante todo o tempo da viagem”. (pg. 95)

O presente trecho do conto representa a vida do personagem-protagonista desde o


desenvolvimento na barriga da mãe até os primeiros meses de vida. A mãe dele atua aqui
com um importante papel, uma vez que ela está representada como uma mulher cuja vida
diária pouco difere da maioria das mulheres negras do Brasil.

Angela Davis (2013) faz um percurso histórico referente ao surgimento do feminismo


nos EUA em paralelo com as embrionárias reflexões sobre os direitos das mulheres negras.
Tal percurso histórico nos dá um panorama sobre como as condições das vidas das mulheres
negras - representadas na literatura como a mãe de Ardoca - no passado se relaciona com as
condições das mesmas na contemporaneidade pós-abolicionista.

Esse panorama é um contraponto ao pensamento feminista branco na sociedade norte-


americana. Pois, como poderia ser explicado o fato de uma mulher negra, moradora do
subúrbio e grávida estar realizando viagens diárias para o trabalho enquanto que a maioria
das mulheres brancas possuem amplos direitos, inclusive o de não trabalhar, durante a
gravidez?

Bell Hooks (2014) traz uma complexa análise teórica, baseada em relatos de mulheres
durante o período colonial, acerca de como as mulheres negras sempre foram vistas como
corpos ocupantes da base de uma escala de opressão em que tinha o homem branco no topo.
Ela mostra, ainda, que as mulheres brancas, apesar de possuir direitos, seja como esposa dos
donos de fazendas ou como militantes dentro do movimento feminista, nunca se
solidarizaram com as mulheres negras na luta contra o sexismo, alegando que estas tinham
como principal objetivo politico a luta contra o racismo. No entanto, como pode-se ver no
trecho do conto, a representação trazida permite afirmar que as mulheres negras sofriam (e
ainda sofrem) dentro de uma relação de opressão em que o sexismo também se faz presente
(talvez mais presente do que o racismo). Isso pode ser comprovado a partir de uma analise
sobre a vida do homem negro na sociedade. Utilizando o mesmo conto, pode-se inferir que
apesar das condições de vida e trabalho desumanas, Ardoca nunca precisou carregar a
responsabilidade de uma vida dentro de si junto com as responsabilidades oriundas do
trabalho, além de outras responsabilidades e afetabilidades advindas de uma gravidez.

Dentro de uma história narrada pela perspectiva dos homens brancos, o qual teve a
partir de um dado momento a atuação das mulheres das mulheres brancas, vale-se a reflexão
sobre o que seria uma mulher para a epistemologia cientifica e religiosa ocidental, visando
pensar como as contradições dentro dos conceitos de sexo e raça constroem representações
que contrapõem a realidade social desse corpo sistematicamente oprimido desde os
primórdios da Colonização.

Soujourner Truth (1851) questiona a sociedade patriarcal norte-americana acerca da


sua condição de mulher, uma vez que é convencionado nesta sociedade a ideia de que a
mulher deve ter suporte em seus casamentos, boas condições de vida e um lugar para viver.
Diante disso, a partir do trecho do conto aqui analisado, devemos nos perguntar hoje: A mãe
de Ardoca não é uma mulher? Se sim, por que ela está carregando um filho enquanto se
direciona diariamente para o trabalho, evidenciando assim uma condição inerente as mulheres
negras e periféricas do Brasil?

Estas perguntas só podem ser respondidas à luz de um viés contestador diante dos
papéis impostos as mulheres negras pelo sexismo e pelo racismo, uma vez que a negligencia
dos movimentos em defesa dos direitos das mulheres e, em certa medida, dos movimentos
antirracistas contribuíram para a irreflexão da condição desses corpos negros e femininos nas
sociedades pós abolicionistas.