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Introdução à

Sociologia
PÉRSI O SAN TOS DE OLI VEI RA

M e s t r e pel a Facu l d ad e de Fi l osof i a, Le t r a s e Ci ên ci as


Hu m a n a s d a Un i v er si d ad e de Sã o Pau l o e p r o f e sso r
do En si n o M éd i o

Edição r ef or m ulada e at ualizada

ENSI NO MÉDI O / VOLUME ÚNI CO


Ge re nte Edito rial
Márcia Takeuchi

Edito ra
Siomara Spínola

Edição , copidesque e redação


Cláudio A. V. Cavalcanti

Colaboração n a pe s quis a de te xtos


Cláudia Nucci

Re visão
Hélia de Jesus Gonsaga
Elian a An t on ioli

Pe squisa ico no gráfica


Sílvio Kligin (coordenação)
Caio Mazzilli

Edição de arte
Margarete Gomes (coor denação)
Jor ge Okura

Programação vis ual


Helena Fernandes e
Maria Rosa Ju lia n i

Editoração e le trônica
Cítara Editor a Lt d a.

Capa
Helena Fernandes e
Maria Rosa Ju lia n i

ISBN: 978-85-08-11666-9 (livr o do aluno)


978-85-08-11667-6 (livr o do professor)

I a edição
7 a impr essão

2010
Todos os direitos reservados pela Editora Ática S.A.
Av. Otaviano Alves de Lima, 4400 - 5 2 andar
e andar intermediário Ala A
Freguesia do Ó - CEP 02909-900
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editora@atica.com.br

2
Apresentação

Um livr o de linguagem simples e acessível, capaz de explicar de for -


ma clar a e objetiva os conceitos mais abstr atos da Sociologia. Um t ext o
que coloca o leit or em condições de entender a sociedade n a qual vive ,
com seus conflitos e cont r adições. Um livr o, e n fim , que con t r ibui par a a
for mação de cidadãos ativos e dotados de senso cr ít ico. Assim é Introdu-
ção à Sociologia, que você agora tem nas mãos, em edição inteir amente
r efor mulada e at u alizad a.
Para facilit ar sua compr eensão, o t ext o explicat ivo é acompanhado
de boxes que con t ext ualizam os temas abordados por meio de exemplos
concretos e de matér ias publicadas em jor n a is e r evistas da atualidade -
alguns desses boxes são acompanhados de atividades de r eflexão. Assim ,
mesmo os leitor es pouco familiar izados com a linguagem sociológica n ão
ter ão dificuldade de compreender o con t eúdo ofer ecido.
No fin a l de cada cap ít ulo, sugestões de livr os e de filmes tor nam o
estudo vivo, dinâmico e ainda mais inter essante. Em seguida, a seção Tex-
tos complementares coloca você em contato com textos consagrados de
Sociologia, aprofundando os temas estudados e estimulando a r eflexão.
No fin a l do volume, você encontr ar á um Dicionár io Básico de So-
ciologia, a seção Grandes mestr es das Ciências Sociais e questões de
vestibular es e do En em .
Por todas essas r azões, Introdução à Sociologia con st it u i apoio in es-
t im ável par a os alunos do Ensino Médio.
Boa le it u r a !

0 Autor
s umário

Capítulo 1 2. Viver em sociedade 82


A sociedade humana 7 3. Que herança deixaremos? 88
1 . Somos todos ser es sociais 9 4. Direitos humanos e cidadania 89
2 . A sociedade como objeto de estudo 13 Texto complementar 96
3 . Divisões das Ciên cias Sociais 14
4 . A sociedade como pr oblema 16 Capítulo 6
Textos complementares 20 Gr upos sociais e in t e r a çã o 100
1 . Como os seres humanos se agrupam? 102
Capítulo 2 2. Agregados sociais 103
Princípios de Sociologia 25 3. Como se sustentam os grupos sociais? 107
1 . Os primeiros sociólogos 27 4. Os jovens como objeto da Sociologia 113
2. A contribuição de Max Weber 28 5. Sistema de status e papéis sociais 116
3. A objetividade na análise sociológica 32 6. Estr utur a e organização social 117
Textos complementares 35 Texto complementar 119

Capítulo 3 Capítulo 7
Vive r em sociedade 40 Trabalho e sociedade 121
1 . 0 papel da socialização 42 1 . Bens e serviços 123
2. Contatos sociais: onde começa a interação 44 2. 0 trabalho humano 123
3. 0 ser humano em condições de isolamento 47 3. Matéria-prima 124
4. Sem comunicação não há sociedade 49 4. Meios de produção 125
5. Da interação à inter atividade 51 5. As forças produtivas 125
Textos complementares 53 6. Relações de produção 126
7. De que modo a sociedade se transforma? 128
Capítulo 4 Texto complementar 137
Como funciona a sociedade? 57
1 . As relações sociais 59 Capítulo 8
2. Processos sociais 60 Sociedades contemporâneas 139
Textos complementares 73 1 . 0 modo capitalista de produção 141
2. Das origens aos dias de hoje 143
Capítulo 5 3. Um novo modo de produção? 150
Organização social e cidadania 77 4. A globalização e seus dilemas 155
1 . Viver em comunidade 79 Texto complementar 158

4
Capítulo 9 Capítulo 12
Estratificação e mobilidade social 160 Mu d an ça social 221
1 . Camadas sociais 162 1 . Permanência e mudança 223
2. Sociedades estratificadas 163 2. Como ficam as relações sociais? 224
3. Mobilidade social 171 3. Em ritmos desiguais 225
Textos complementares 177 4. 0 que provoca a mudança social? 227
5. Ação e reação 231
6. Mudanças: superficiais ou radicais? 233
Capítulo 10 Texto complementar 236
Cu lt u r a : n ossa h er an ça social 181
1 . À procura de uma definição 183 Capítulo 13
2. As duas faces da cultur a 185 Pobr eza e desen volvimen t o 239
3. Componentes da cultur a 187 1 . Os países pobres 241
4. Cultura e progresso 192 2. Os números da pobreza 245
5. 0 fenómeno da aculturação 193 3. 0 desenvolvimento económico 252
6. Cultura e contr acultur a 195 Texto complementar 254
7. Controle social 196
Texto complementar 199 Capítulo 14
0 p ap el social da educação 256
1 . A criança como sujeito 258
Capítulo 11 2. Tipos de educação 258
As instituiçõe s sociais 201 3. A nova escola 264
1 . Características das instituições sociais 203 Texto complementar 269
2. As instituições normatizam os grupos 203
3. As instituições são interdependentes 204 Grandes mestres das Ciências Sociais 272
4. A família 204 Dicionário Básico de Sociologia 277
5. A Igr eja 210 Sugestões de leitur a 290
6. 0 Estado 211 Bibliogr afia 290
Texto complementar 219 Questões de vestibulares e do ENEM 292

5
A soci edade
0 hum ana
Todos os dias, desde o momento em que desperta pela
manhã até o instante em que, à noite, volta a adormecer, você
convive com outras pessoas. Seja em casa, com sua família, seja
na escola, no trabalho, numa roda de amigos, no "bate-papo"
com a(o) namorada(o), nos momentos de lazer, no cinema, no
campo de futebol, na igreja, você está sempre rodeado de ou-
tros seres humanos. Mesmo estando sozinho, o simples ato de
escovar os dentes envolve muitas outras pessoas: os químicos
que elaboraram o creme dental, os operários que fabricaram
a escova de dentes, os que fizeram a embalagem e assim por
diante. Você nunca está inteiramente só. Você vive em socieda-
de, participa de grupos sociais e convive com muitas pessoas.
Em uma palavra, você é um ser social.
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Obser ve e r esp on d a:

1 . Você já presenciou alguma cena semelhante à da foto? Em sua opinião, quem são as
pessoas que aparecem nela?

2 .0 que elas podem estar fazendo? Explique por que você chegou a essa conclusão.

3 .0 tema deste capítulo é a sociedade humana. Que relação pode ser estabelecida entre essa
cena e o estudo da sociedade?

I
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Somos todos seres sociais

Desde as suas origens, há cerca de 190 mil anos, giões do planeta, como a Mesopotâmia (4000 a .C) ,
o homo sapiens sapiens, ou homo sapiens moderno, o Egito (3000 a .C) , a China (1700 a.C.) e a América
espécie à qual pertencemos, se constituiu por meio Central, (900 a.C.) - datas aproximadas.
do grupo. Assim como outros animais que vivem Hoje, utilizamos também novas formas de co-
agrupados, os primeiros seres humanos só conse- municação (a inter net, por exemplo), mas algu-
guiram sobreviver nas difíceis condições do mundo mas das que foram criadas por nossos ancestrais
que os cercava porque contaram com o apoio e a mais remotos, como a linguagem, ainda continuam
solidariedade do grupo a que pertenciam. em vigor.
Essa dependência do indivíduo em relação ao A tendência do ser humano a viver em grupo
grupo teve início, assim, no momento mesmo em pode ser comprovada de forma positiva pela ex-
que surgiram os primeiros seres humanos, e conti- periência empír ica, cotidiana: seja na escola, na
nua até hoje. Uma de suas características é a co- família ou no país, fazemos parte de um conjunto
municabilidade humana, ou seja, a capacidade de mais amplo de pessoas, de um grupo social, ligado
o indivíduo se comunicar com seus semelhantes a um conjunto ainda maior, a sociedade em que
de forma a tr ansmitir ideias, sentimentos, vonta- vivemos (veja os capítulos 3 e 4 ) . Mas há também
des, interesses, emoções. Essa capacidade evoluiu outras formas de comprovar a necessidade da vida
ao longo do tempo, passando de gestos e sinais à em grupo para o desenvolvimento do ser humano.
articulação de sons, ao desenvolvimento da lingua- Uma delas é a exper iência de crianças que vivem
gem, às primeiras manifestações artísticas - ainda entre animais e em situação de isolamento em r e-
no Período Paleolítico (190000 a.C.-8000 a.C.) - e à lação a outros indivíduos da espécie humana. Va-
escr ita, criada em diferentes épocas em diversas r e- mos conhecer uma dessas experiências?
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Um cas o intrigante convenientemente à mesa, de se servir da quanti-


Em 1797, um menino seminu foi visto na flo- dade necessária de água para beber, de levar certos
r esta de Lacaune, n a França. Mais tarde, foi regis- ohjetos ao seu terapeuta; diverte-se ao empurrar
trado seu aparecimento no distr ito de Aveyr on. um pequeno carrinho e começa a ler (veja a seção
Descalço, apenas alguns farrapos de uma velha Filmes sugeridos no fim do capítulo).
camisa (sinal de algum contato anterior com se- Cinco anos mais tar de, Victor já confeccionava
res humanos) cobriam parte de seu corpo. Sem- pequenos objetos e podava as plantas da casa. Es-
pre que alguém se apr oximava, ele fugia como um ses resultados pareciam confirmar a tese de It ar d ,
animal assustado. segundo a qual os antigos hábitos selvagens do
Era um menino de cerca de 12 anos. Seu cor- menino e sua aparente deficiência mental eram
po estava repleto de cicatr izes. Provavelmente apenas e tão-somente resultado de uma vida afas-
abandonado na floresta aos 4 ou 5 anos, foi objeto tada da sociedade.
de curiosidade e provocou discussões acaloradas, Com base nessa exper iência, Itar d formulou
principalmente na França. a hipótese de que a maior parte das deficiências
Após sua captura, verificou-se que Victor (as- intelectuais e sociais não é in at a, mas tem sua
sim passou a ser chamado) não pronunciava ne- origem n a falta de socialização do indivíduo con-
nhuma palavra e parecia não entender nada do que siderado deficiente e n a ausência de comunicação
lhe falavam. Apesar do rigoroso inverno europeu, com seus semelhantes, especialmente de comuni-
rejeitava roupas e também o uso de cama, pr efer in- cação ver bal.
do dormir no chão. Locomovia-se apoiado nas mãos
e nos pés, correndo como os animais quadrúpedes.

Como nos t or nam os hum anos?


Victor de Aveyron tornou-se um dos casos
mais conhecidos de seres humanos criados em
condições de liberdade em ambiente selvagem. Al-
guns médicos franceses afirmavam que o menino
sofria de id iot ia, uma deficiência mental grave.
Segundo eles, ter ia sido essa a razão pela qual os
pais o haviam abandonado.
0 psiquiatra Jean-Marie Gaspard Itar d não con-
cordava com a opinião dos colegas. Quais as conse-
quências, perguntava ele, da privação do convívio
social e da ausência absoluta de educação para a
inteligência de um adolescente que viveu assim, se-
parado de indivíduos de sua espécie? Itar d acredi-
tava que a situação de abandono e afastamento da
sociedade é que explicava o comportamento dife-
rente do menino. Discordava, assim, do diagnóstico
de deficiência mental para o caso.
A partir de então, Itar d trabalhou diretamente
na educação do menino. Sua experiência foi regis-
trada no livro A educação de um homem selvagem,
publicado em 1801. Nesse livr o, Itar d apresenta seu
trabalho com o menino de Aveyron, descrevendo as Car t az do f i l m e O garot o selvagem , de Fr ançois Tr u f f au t
( vej a a seção Fi l m es su ger i dos no f i m do cap ít u l o ) .
etapas de sua educação: ele já é capaz de sentar-se

10
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Ap r o x i m a n d o - s e de u m a vis ã o s o cio ló gica , o Kam ala e os lobos


p e s q u is a d or co n clu i u q u e o is o la m e n t o s o cia l p r e - Nã o s e r i a , e n t r e t a n t o , o ca s o d e Vi c t o r de
j u d i c a a s o c i a b i l i d a d e d o i n d i v í d u o . Or a , a s o c i a - Av e y r o n u m a e x c e ç ã o ? Ba s t a r i a e s s e e x e m p l o p a r a
b ilid a d e , o u s e ja , a ca p a cid a d e de se co m u n ica r e d em on st r ar que o ser h u m a n o é u m a n im a l s o cia l,
in t e r a gir com ou t r os ser es h u m a n o s , é o que t o r n a q u e p r e cis a v i v e r e m s o cie d a d e p a r a se t o r n a r v e r -
p os s íve l a vid a e m s o cie d a d e . d a d e ir a m e n t e u m ser humano?

O MITO DE TARZAN

N o c o m e ç o d o s é c u l o XX, o e s c r i t o r n o r -
t e -a m e r ica n o Ed ga r Ri c e
( 1 8 7 5 -1 9 5 0 ) d e u in ício à p u b li c a ç ã o de u m a
Bu r r o u g h s zan
Co m o o b r a s d e fi c ç ã o , os livr o s d e Ta r -
sempre a t r a ír a m o in t e r e s s e d e
l e i t o r e s . C o m o fo n t e d e c o n h e c i m e n t o ,
jo ve n s
en-
s é r ie d e h is t ó r ia s c u jo p e r s on a ge m ce n t r a l t r e t a n t o , a p r e s e n t a m u m a i m a g e m fa ls a e d e -
era u m homem cr ia d o desde cr ia n ça por fo r m a d a d a Áf r i c a , c r i a n d o u m p e r s o n a ge m
g r a n d e s m a c a c o s n a Af r i c a . F i l h o d e u m c a s a l m í t i c o , d is t a n t e d a r e a lid a d e . Co m o v i m o s , os
d e n o b r e s in gle s e s m o r t o s a p ó s o n a u fr á gio in d ivíd u o s d a e s p é cie h u m a n a s ó se t o r n a m
d o n a v i o e m q u e v i a j a v a m p e la co s t a a fr ica - ve r d a d e ir a m e n t e h u m a n os p or in t e r m é d io da
n a , s e u n o m e e r a J o h n Gr e y s t o k e . O s m a ca - co n vivê n cia e d a in t e r a çã o e m u m m e io so-
cos que o cr ia r a m , p o r é m , o ch a m a v a m de c i a l , o u s e ja , c o m s e r e s d e s u a e s p é c i e . Co m o
T a r z a n . Su c e s s o i m e d i a t o e n t r e o s l e i t o r e s , outr as con s t r u çõe s id e ológica s , Ta r za n co n -
T a r z a n l o g o p a s s o u p a r a a s t e la s d e c i n e m a e t r ib u iu p a r a d i fu n d i r e le git im a r os in t e r e s s e s
p a r a as h is t ór ia s e m q u a d r in h o s , e n ca n t a n d o im p e r ia lis t a s d e d o m i n a ç ã o d o s p o v o s a fr ica -
s u ce s s iva s ge r a çõ e s . n o s e n t r e o s s é c u l o s XI X e XX.
Na s h is t ó r ia s d e Bu r r o u gh s , T a r z a n a p r e n -
d e u a l e r s o z i n h o , c o m a a ju d a a p e n a s d e u m
l i v r o e n c o n t r a d o e m u m a c a b a n a . Al é m d i s s o ,
d e m o n s t r a va s e n t im e n t os n ob r es e humanos
e d e fe n d i a v a l o r e s s e m e l h a n t e s a o s d a s o c i e -
d a d e e m q u e v i v e u o e s cr it o r . N a ve r d a d e , o
a u t or cr io u Ta r z a n s e gu n d o a im a ge m qu e t i-
nha do homem eu r op eu na é p o ca vit or ia n a :
"civiliza d o ", in ca p a z de at os d e vio lê n cia gr a -
t u i t a , j u s t i c e i r o e ... "s u p e r i o r " a o s a fr i c a n o s .
Tr a t a v a - s e , p o r t a n t o , d e u m a c o n s t r u ç ã o id e o -
ló gi c a q u e r e p r o d u z ia as r e la çõ e s d e d o m i n a -
ç ã o d as p o t ê n cia s e u r o p e ia s s o b r e os p o vo s
d a Áf r i c a n a é p o c a d o i m p e r i a l i s m o ( s é c u l o s
XI X e p r i m e i r a m e t a d e d o s é cu lo XX) . P o r
e s s a é p o c a , o s lí d e r e s d a s p o t ê n c i a s e u r o p e i a s
ju s t ifica v a m essa d o m i n a ç ã o a fir m a n d o que
o s e u r o p e u s i a m p a r a a Áf r i c a d i f u n d i r o q u e
Capa da ed i ção i t al i an a de um a das h i st ór i as em
c h a m a v a m d e " c i v i l i z a ç ã o " e n t r e p o v o s "b á r -
q u ad r i n h os do per son agem Tar zan , d esen h ad a por
b a r o s " e "a t r a s a d o s ". Bu r n e Ho g ar t h .

11
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Vamos conhecer outra histór ia. Em seu livr o Assim como no caso do menino de Aveyr on, a
Estudos sociais, A. Xavier Telles descreve o caso de experiência das duas crianças criadas entre lobos
duas meninas que viviam entre lobos numa caver- na índia mostra que os indivíduos só adquirem
na da ín d ia. Descobertas em 1 9 2 1 , a mais velh a, características realmente humanas quando con-
que passou a ser chamada de Kamala, t in h a oito vivem em sociedade com outros seres humanos,
anos; a outr a, batizada de Amala, t in h a apenas estabelecendo com eles relações sociais.
quatro anos. Confiadas a um asilo, passaram a ser Separadas entre si por mais de um século e
observadas por estudiosos. A mais jovem não r e- afastadas uma da outr a por milhar es de quilóme-
sistiu aos novos hábitos e logo morreu. Kamala, tr os, as exper iências do menino de Aveyr on e das
porém, ainda viveu oito anos. cr ianças criadas com lobos na ín d ia deixam uma
Ambas apresentavam hábitos alimentares bem lição que não pode ser ignor ada: sem o denso
diferentes dos nossos. Como fazem normalmente os tecido das relações sociais simplesmente não há
animais, elas cheiravam a comida antes de tocá-la, humanidade.
dilaceravam alimentos com os dentes e faziam pou-
co uso das mãos para beber e comer. Tinham uma Relações sociais
aguda sensibilidade auditiva e o olfato desenvolvi- As relações entre os seres humanos que vivem
do. Locomoviam-se de forma curvada, com as mãos em sociedade são chamadas de relações sociais.
apoiadas no chão, como fazem os quadrúpedes. Elas constituem a base da sociedade (veja o boxe
Kamala levou seis anos para andar de forma a seguir ). Vale dizer que sem elas a sociedade não
ereta. Notou-se também que a menina não ficava exist ir ia. Essas relações supõem a existência de
à vontade na companhia de pessoas, preferindo o pessoas que interagem reciprocamente. Não são
convívio com animais, que não se assustavam com relações fixas e imutáveis. São relações dinâmicas
sua presença e pareciam até entendê-la (adaptado que se transformam com as mudanças na socieda-
de: TELLES, A. Xavier. Estudos sociais. São Paulo: de, ao mesmo tempo que as estimulam e inter fe-
Nacional, 1969. p. 115-6). rem nelas.

Va m o s p e n sa r ?

A sociedade é uma rede de relações entre indiví- 1 . Explique o que quis dizer
duos, entre grupos sociais e entre instituições [veja o autor ao afirmar que as
os capítulos 3, 4 e 9]. Por isso, podemos analisar a relações sociais aparecem
sociedade tanto no nível das relações entre indivíduos personificadas nos conceitos,
na sua vida cotidiana como no nível da forma ou normas e regras que regulam
estrutura de tais relações, posto que estas aparecem a conduta social. Cite
personificadas nos conceitos, normas e regras que algumas regras de conduta
regulam a conduta social. Mas tais estruturas expe- que personificam relações
rimentam mudanças: portanto, a sociedade deve ser em uma sociedade.
estudada em seu desenvolvimento histórico e não 2. Por que o autor afir ma que a
como um simples grupo de gente ou um conjunto de sociedade deve ser estudada
instituições existentes num dado momento. em seu desenvolvimento
B0TT0M0RE, Thomas. In : MARQUÊS, 3 . , MOLLÁ, D., SALCEDO, S. histór ico?
A soríedaáe atual. Rio de Janeir o: Salvat Editora do Br asil, 1979. p. 9.
Coleção Biblioteca Salvat de Grandes Temas.

12
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Victor de Aveyr on apr endeu a andar , a co- se socializou , ou seja, tor nou-se um membro da
mer, a se vest ir e a fazer objetos por inter médio sociedade.
do contato com outr as pessoas, ou seja, por i n - 0 estudo de como os seres humanos se relacio-
ter médio de r elações sociais. Mas não assimilou nam na vida social, das formas pelas quais interagem
apenas as coisas pr áticas da vid a . Ao estabelecer uns com os outros, estabelecendo regras e valores,
r elações com outros seres humanos, apr endeu das coisas que produzem e das trocas simbólicas no
também a se compor tar , a expr essar sen t imen - curso dessas relações constituem tarefa de um gru-
tos e a agir da mesma for ma que as pessoas com po de disciplinas reunidas sob o nome de Ciências
as quais passou a conviver . Em uma p alavr a, ele Sociais. A Sociologia é uma dessas disciplinas.

A sociedade como objeto de estudo

0 comportamento humano é complexo e d i- futebol, fazer greve, par ticipar de r euniões, assis-
versificado. Cada indivíduo recebe influências do tir a aulas, estudar, casar-se, educar os filhos são
meio em que vive, forma-se de determinada ma- comportamentos sociais, pois se desenvolvem por
neir a e age no contexto social de acordo com sua meio de interações no contexto da sociedade.
for mação. 0 indivíduo aprende com o meio, mas Essas interações sociais não podem ser plena-
também o transforma com suas ações. Assim, o mente explicadas pela Biologia ou pela Física. Para
ser humano não é um produto passivo do meio, compreendê-las, estudá-las de forma sistemática e
mas constrói a si mesmo interagindo com o meio explicá-las foram criadas as Ciências Sociais. Elas
e modificando-o. pesquisam e estudam o ser humano como ser so-
Há comportamentos estritamente individuais cial em suas várias formas de manifestação.
- como andar, respirar, dormir - que se originam 0 objeto de estudo das Ciências Sociais, portan-
na pessoa como organismo biológico. São compor- to, são os seres humanos no contexto de suas rela-
tamentos estudados pelas Ciências Físicas e Bio- ções sociais. 0 método empregado nesse estudo é o
lógicas. Já ações como trabalhar, jogar vôlei ou da investigação científica (veja o boxe a seguir ).

A pr át i ca de esp or t es en v ol v e qu ase sem pr e


com p or t am en t os soci ai s, sob r et u d o qu an do
se t r at a de j og os en t r e eq u i p es com p ost as
por v ár i as pessoas. Esse é o caso do f u t eb o l ,
do b asq u et e e do v ô l e i . Na f o t o , duas m oças
d i sp u t am a b ol a em um j o g o de b asq u et eb o l .
Essa d i sp u t a é um a f or m a de i n t er ação .
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

O MÉ T ODO CIENTÍFICO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

E m g e r a l , t e m o s o p i n i õ e s fo r m a d a s sobr e
d i v e r s o s a s s u n t o s . P o r e x e m p l o , se u m p a i
ca s t iga s e u filh o , s o m o s le va d o s a p e n s a r q u e
or denadas, n e ce s s á r io s ao co n h e ci m e n t o
o b j e t o d e e s t u d o e m u m n ív e l d e p r o fu n d i d a d e
q u e n ã o p o d e s e r a p r e e n d i d o p e la o b s e r v a ç ã o
do

o m e n i n o t r a n s gr e d iu a lgu m a r e gr a , co m p o r - s u p e r fi c i a l d o c o t i d i a n o . Tr a t a - s e d e u m p r o -
t o u - s e m a l o u t i r o u n o t a s b a i xa s n a e s c o l a . ce s s o r a cio n a l, q u e u t iliza co n ce it o s , ca t e go -
Es s e é u m t i p o d e c o n h e c i m e n t o q u e fa z p a r t e r ia s d e a n á l i s e , h i p ó t e s e s e o u t r o s r e c u r s o s p a r a
de nossas p e r ce p çõ e s cot id ia n a s . N ã o co n s t i- c h e g a r a u m r e s u l t a d o , s e ja e s t e a e x p l i c a ç ã o
tui u m con h e cim e n t o cie n t ífico . d e u m f e n ó m e n o o u a f o r m u l a ç ã o d e le is q u e
En t r e t a n t o , e s s a m e s m a a t it u d e d o pai r e ge m ce r t o s co n ju n t o s d e fe n ó m e n o s .
q u e c a s t i ga o fi l h o p o d e s e r o b j e t o d e a n á li s e T u d o is s o l e v o u o p e n s a d o r in glê s K.
d a c i ê n c i a . P a r a is s o é p r e c i s o q u e s e ja a p l i c a d o P e a r s o n a a fi r m a r q u e "a c i ê n c i a n ã o s ã o o s fa -
a e la u m m é t o d o c i e n t í fi c o d e i n v e s t i g a ç ã o . t o s , m a s o m é t o d o c o m q u e s ã o t r a t a d o s ". O s
E m ci ê n ci a , a p a la vr a m é t o d o d e s ign a u m fa t o s s ã o , n a v e r d a d e , a m a t é r i a - p r i m a com
co n ju n t o d e p r o ce d im e n t o s , o u d e a t ivid a d e s qu e t r a b a lh a a ciê n cia .

Divisões das Ciê ncias Sociais

Com o avanço do conhecimento da sociedade, os vários agrupamentos humanos, assim como a


tornou-se necessário dividir as Ciências Sociais em origem e a evolução das cultur as. São objetos de
diversas áreas de conhecimento, de modo a facili- estudo da Antropologia os tipos de organização
tar a sistematização dos estudos e das pesquisas. familiar , as r eligiões, a magia, os ritos de iniciação
Essa divisão abrange atualmente diversas discipli- dos jovens, o casamento, etc.
nas. Veja a seguir algumas delas. Ciê ncia Política - Ocupa-se da distr ibuição
Sociologia - Estuda as relações sociais e as for- de poder na sociedade, assim como da formação
mas de associação, considerando as interações que e do desenvolvimento das diversas formas de go-
ocorrem na vida em sociedade. A Sociologia envolve, ver no. Estuda também os partidos p olít icos, os
portanto, o estudo da estrutura social, dos grupos e mecanismos eleitor ais, etc.
das relações sociais, da divisão da sociedade em clas-
ses e camadas, da mobilidade social, das instituições,
das relações de trabalho, dos processos de coopera- Fi l a de el ei t o r es para v ot ação em Manaus, Am azon as,
ção, competição e conflito na sociedade, etc. 1 9 9 0 . Os pr ocessos el ei t o r ai s, a ação dos p ar t i d os e
ou t r as at i v i d ad es l i gadas à d i sp u t a do p od er p o l i t i co
Economia - Tem por objeto as atividades hu- são um dos ob j et os de est u d o da Ci ên ci a Po l ít i ca.
manas ligadas à produção, circulação, distribuição e
consumo de bens e serviços. Portanto, são fenómenos
estudados pela Economia as atividades agrícolas e in -
dustriais, o comércio, o mercado financeiro (bancos,
bolsas de valores, e t c) , a distribuição da renda, a
política salarial, a produtividade das empresas, etc.
Antropologia - Estuda a produção cult ur al,
as semelhanças e as diferenças cultur ais entre

14
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Não existe uma divisão nítida entre essas dis- da realidade social, elas são complementares entre
ciplinas. Embora cada uma das Ciências Sociais si e frequentemente atuam jun t as para explicar os
esteja voltada preferencialmente para um aspecto complexos fenómenos da vida em sociedade.

O MÉ T ODO E SOCIOLOGIA

E m So c i o l o g i a , o m é t o d o c i e n t í f i c o u t i l i z a
d i v e r s a s c a t e g o r i a s d e a n á l i s e , c o m o as d e
g r u p o s o c i a l , c l a s s e , e s t r a t i fi c a ç ã o s o c i a l , fa t o
l e s c e n t e s p r e fe r e m t a l p r o g r a m a d e t e l e v i s ã o ,
e n q u a n t o t an t os p o r ce n t o d e pessoas de id a -
d e e n t r e 4 0 e 6 0 a n o s p r e fe r e m o u t r o . P o d e -
s o cia l, in t e r a çã o , e st r u t u r a s o cia l, in s t it u içã o, se a i n d a fa z e r u m a d i f e r e n c i a ç ã o p o r s e x o , o u
e t c . T a m b é m fa z e m p a r t e d e l e , e n t r e o u t r o s , u t iliza n d o q u a is q u e r ou t r os cr it é r ios .
in s t r u m e n t o s d e a n á lis e c o m o o e s t u d o de Já a a n á li s e q u a l i t a t i v a p r o c u r a e s t a b e le -
ca s o , a a n á lis e c o m p a r a t i v a , a a n á lis e q u a n t i- c e r c o n e x õ e s l ó g i c a s d e ca u s a e e fe it o e n t r e o s
t a t iva e a a n á lis e q u a lit a t iva . fe n ó m e n o s , r e co r r e n d o à in t e r p r e t a çã o e u t ili-
O e s t u d o d e ca s o é u m t ip o d e in s t r u - z a n d o o u n ã o d a d o s e s t a t ís t ico s . É o ca s o , p o r
m e n t o m e t o d o l ó g i c o n o q u a l se a b o r d a a p e n a s e x e m p l o , d a a n á li s e d o s o c i ó l o g o a l e m ã o M a x
u m a u n i d a d e s o c i a l ( u m "ca s o ") - u m a fa m í li a , We b e r s ob r e a r e la çã o e n t r e a r e ligiã o ca lvin is -
u m a cid a d e , u m a in s t it u içã o , e t c. - , q u e ser - t a - s u r gid a n a Eu r o p a , n o s é cu lo XV I , d u r a n t e
ve de base p ar a a co m p r e e n s ã o de fe n ó m e n o s o p e r í o d o c o n h e c i d o c o m o Reforma Protestante
m a i s a m p l o s . As s i m , o e s t u d o d e u m a fa m ília - e o "e s p ír it o d o c a p i t a l i s m o ", o u s e ja , o c o n -
d e ca m p on e s e s d o ser t ão de Pe r n a m b u co , p o r j u n t o d e v a l o r e s , in t e r e s s e s e a t it u d e s d a b u r -
e x e m p l o , p o d e o fe r e c e r a o s o c i ó l o g o u m a v i - gu e s i a , g r u p o s o c i a l q u e l i d e r o u o p r o c e s s o d e
s ã o d a s o cie d a d e r u r al d essa r e giã o e m seu c o n - fo r m a çã o d a s o cie d a d e ca p it a lis t a .
j u n t o e n ã o a p e n a s d e s s a fa m ília e m p a r t i cu la r . D e fa t o , o s v a l o r e s d a b u r g u e s i a d a q u e -
A a n á lis e c o m p a r a t i v a e n v o l v e p r o c e d i - la é p o c a - q u e e x a l t a v a m o t r a b a l h o á r d u o , a
m e n t o s q u e le va m o s o c i ó l o g o a e s t a b e le ce r p o u p a n ç a e a fr u ga l i d a d e - fo r a m d e cis ivos
r e l a ç õ e s d e c a u s a e e fe i t o d e c e r t o s g r u p o s d e p ar a a fo r m a çã o d e u m a e co n o m ia b asead a n o
f e n ó m e n o s c o m b a s e n a c o m p a r a ç ã o e n t r e fe - co m é r cio e na a cu m u la çã o de d in h e ir o par a
n ó m e n o s d i v e r s o s . Co m p a r a n d o u m a fa m í l i a s e r i n v e s t i d o n a p r o d u ç ã o . Es s e p r o c e s s o s e r i a
de ca m p on e s e s que vive no m e io r ur al co m ch a m a d o p o r Ka r l M a r x ( 1 8 1 8 - 1 8 8 3 ) , outr o
o u t r a d e o p e r á r io s d a in d ú s t r ia e m u m a gr a n - p e n s a d o r a l e m ã o , d e acumulação primitiva de ca-
d e c i d a d e , p o r e x e m p l o , e le p o d e fa z e r o l e - pital e e s t a r i a n a s o r i g e n s d a s o c i e d a d e c a p i t a -
v a n t a m e n t o d a s s e m e l h a n ç a s e d a s d i fe r e n ç a s lis t a m o d e r n a .
entr e u m a e out r a. Co m base nesses dados, Se j a q u a l fo r o m é t o d o d e a n á l i s e a d o -
e le p o d e i d e n t i fi c a r a s ca u s a s d e com p or t a - t a d o p e lo s o c i ó l o g o , é im p o r t a n t e co n s id e r a r
m e n t o s , h á b it o s de vid a , va lo r e s e t e n d ê n cia s a o b s e r v a ç ã o d o p e n s a d o r fr a n c ê s R a y m o n d
p o lít ica s d e u m a e d e ou t r a . Bo u d o n : " O p o n t o de p a r t id a de q u a lq u e r
A a n á lis e q u a n t it a t iva , p o r s u a v e z , u t i- p e s q u i s a — q u a n t i t a t i v a o u q u a l i t a t i v a — é ge -
li z a e m la r ga e s ca la d a d o s e s t a t ís t ico s e n u - r a l m e n t e u m a p e r g u n t a d o t i p o por c\ uê? - Por
m é r i c o s . Mu i t a s p e s q u i s a s d e m e r c a d o s e r v e m q u e o s u i c í d i o v a r i a c o n f o r m e as é p o c a s e o s
d e m a t é r ia -p r im a p a r a a n á lis e s q u a n t it a t iva s . lu ga r e s ? P o r q u e as p e s s o a s d e c i d e m v o t a r e m
P o d e m o s a n a l i s a r , p o r e x e m p l o , c e r t a s p r e fe - t al ca n d id a t o ? P o r q u e a lgu n s ca s a m e n t o s t er -
r ê n c i a s c u l t u r a i s e n t r e d i v e r s a s fa i xa s e t á r i a s m i n a m e m d ivó r cio ? Po r que h á m a is d ivór -
de u m a p o p u la çã o : tantos p or ce n t o de ad o- c i o s e m c e r t o s p a í s e s d o q u e e m o u t r o s ?".

15
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

4 A sociedade como problema

Como afirma o sociólogo Carlos B. Martins, "po- Dessa for ma, comparada a outras ciências,
demos entender a Sociologia como uma das manifes- a Sociologia nasceu tar diamente. Na citação que
tações do pensamento moderno. A evolução do pen- você acabou de ler , Carlos Martins se refere a ou-
samento científico, que vinha se constituindo desde tras ciências sociais anteriores à Sociologia. Uma
Nicolau Copérnico [astrónomo polonês que viveu delas é a Ciência Política, cujos precursores foram
entre 1473 e 1543], passa a cobrir, com a Sociologia, filósofos gregos, como Platão (427-347 a .C) , au -
uma nova área do conhecimento ainda não incorpora- tor de A República, e Ar istóteles (384-322 a .C) ,
da ao saber científico, ou seja, o mundo social. Surge que escreveu Política. Mais tarde, já no Renasci-
posteriormente à constituição das ciências naturais mento, o pensador Nicolau Maquiavel (1468-1527)
e de diversas ciências sociais" (MARTINS, Carlos B. publicou 0 príncipe, livr o geralmente considerado
0 que é Sociologia. São Paulo: Nova Cultural/ Brasi- o marco da Ciência Política moderna (veja o boxe
liense, 1986. p. 10, coleção Primeiros Passos). a seguir ).

UM LIVRO-BOMBA

V o c ê s a b e o s i g n i fi c a d o d a p a l a v r a
vâicol
maquia-
Se p r o c u r a r e m u m d i c i o n á r i o , v a i
e n co n t r a r a lgo c o m o "p r o ce d im e n t o a s t u cio-
m e n t o c o m u m m o d o m e d ie va l de ve r a p o lí-
t ica c o m o e xt e n s ã o d a m o r a l. Pa r a os a u t or e s
d a Id a d e M é d i a , o " b o m r e i " e r a a q u e l e que
s o , v e l h a c o , t r a iço e ir o ". fa z i a o b e m , s e g u i n d o o s p r e c e i t o s cr is t ã os .
O t e r m o m a q u ia vé lico d e r iva do n o m e E m o p o s i ç ã o a e le s , Ma q u i a v e l m o s t r o u que
d e N i c o l a u Ma q u i a v e l , c u j o l i v r o , O príncipe, os r e is b e m -s u ce d id o s r a r a m e n t e s e gu ia m a
e s cr it o e m 1514, p r ovoca p olé m ica s a in d a mor al con ve n cion a l e c r i s t ã . Se u s a r gu m e n -
h o j e . E l e fo i e s c r i t o c o m u m o b j e t i v o b e m c l a - tos p u n h a m fi m à j u s t i f i c a ç ã o r e l i g i o s a p a r a
r o: d a r co n s e lh o s a u m p r ín cip e sob r e c o m o o p o d e r p o l í t i c o . Pa r a e le , o q u e im p or t a va
p r oce d e r p a r a u n i fi c a r o s p e q u e n o s estados n a a ç ã o p o lít ica e r a m os r e s u lt a d o s e n ã o su a
e m q u e a p e n í n s u l a It á li c a e s t a v a d i v i d i d a n a - o b e d i ê n c i a a cr it é r io s m o r a is e s t r it o s .
q u e l a é p o c a . Ma q u i a v e l q u e r i a q u e e s s e p r í n -
cip e r e s t a u r a s s e a a n t iga gr a n d e z a d o Im p é r io
Ro m a n o , p e r d id a e m 4 7 6 , a p ó s s u ce s s iva s i n -
vasões de p ovos ge r m â n ico s .
No livr o, Ma q u i a v e l a con s e lh a va o
p r ín cip e a n ã o r e cu a r d ia n t e d e n e n h u m cr im e
p a r a co n q u is t a r esse o b je t ivo . E m ca s o de n e -
ce s s id a d e , o p r ín cip e d e ve r ia m e n t ir o u m e s -
m o d e s t r u ir seus o p o n e n t e s p a r a co n q u is t a r e
c o n s o l i d a r o p o d e r . P o r is s o l h e é a t r i b u í d a
a fr a s e "os fin s j u s t i f i c a m o s m e i o s " , q u e na
v e r d a d e e le n u n c a d is s e o u e s c r e v e u .
Se g u n d o o fi l ó s o fo Re n a t o Ja n i n e Ri- I Retrato de Nicolau Maquiavel, ól eo sobr e t el a do
b e i r o , o l i v r o O príncipe r e p r e s e n t a o r o m p i - I p i n t o r San t i de Ti t o .

16
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Esses três pensadores refletiram pr incipal- relações entre esses grupos er a de tensão e con-
mente a respeito do poder político e das formas flito e que o domínio exercido por qualquer um
de organização do Estado. A sociedade aparece desses grupos não era eter no. Dessa for ma, a so-
em suas obras quase como um dado natur al e não ciedade aparecia como um campo de forças em
como um conjunto dinâmico de relações e proble- permanente t en são, como um conjunto de r ela-
mas a serem analisados e explicados. ções conflituosas que poderiam levar a r uptur as
e mudanças r adicais.
A Re vo lução In d u s t ri a l A Revolução Industr ial, por sua vez, intr oduziu
As primeiras reflexões mais sistemáticas so- a máquina a vapor no processo produtivo, reorgani-
bre a sociedade só começaram a ser formuladas no zou o trabalho manufatureiro de forma r adical, des-
momento em que ela se diver sificou como nunca t r uiu o artesão independente, intr oduziu a fábrica
anteriormente, com a Revolução Industrial, in icia- moderna e criou uma nova classe de trabalhadores:
da na Inglater r a por volta de 1750. Ela deu origem o proletariado, ou classe operária, concentrado so-
a novos grupos sociais - a burguesia e o pr oleta- bretudo em grandes unidades industr iais.
riado - e à formação de um novo tipo de estr utur a Esse processo provocou muitas mudanças,
social: a sociedade capitalista. como o crescimento das cidades, a concentração
Nesse processo teve par ticular impor tância a de centenas de milhares de trabalhadores em bair -
Revolução Francesa ( 1 7 8 9 ) , que concorreu para a ros industr iais e a degradação das condições de
ascensão da bur guesia ao poder e para dar maior vida do proletariado. Até o fim do século XIX, as
visibilidade aos problemas e conflitos sociais. A jornadas de trabalho na indústr ia europeia gir a-
Revolução Fr ancesa mostrou que a sociedade es- vam em torno de catorze ou dezesseis horas por
t ava dividida em grupos sociais antagónicos - a dia. Não havia descanso remunerado, como hoje,
nobr eza, a bur guesia, os camponeses - , que as nem fér ias, nem aposentadoria.
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

I n t er i or de um a f áb r i ca t êx t i l na I n gl at er r a du r an t e a Revolução
I n d u st r i al . No p r i m ei r o p l an o, à d i r ei t a, p od e- se ver um a m en i n a
p ar t i ci p an d o do pr ocesso de t r ab al h o . Mal r em u n er adas, m u l h er es e
cr i an ças f or m av am a m ai o r i a dos t r ab al h ad or es t êx t ei s n esse p er ío d o .

As condições de trabalho na indústr ia e nas sindicatos na Inglater r a e em outros países euro-


minas eram extremamente penosas, ocasionando peus. Ao mesmo tempo, apareceram pensadores
muitos acidentes, que podiam provocar a morte que tentavam reformar o capitalismo ou promo-
ou mutilações nos trabalhadores. Não havia limite ver uma revolução que levasse a classe tr aba-
de idade para trabalhar, nem leis de proteção ao lhador a ao poder. Entr e estes últimos estava o
menor, de modo que mesmo crianças de até seis alemão Kar l Marx (1818-1883), autor de obras
ou sete anos trabalhavam em funções perigosas. como o Manifesto do Partido Comunista (1848) e
Além disso, as condições de vid a e de moradia 0 capital (1857-1894).
eram pr ecár ias. Não havia saneamento básico nos
bairros pr oletár ios. As habitações eram peque- Pensar o mundo novo
nas, insalubr es e nelas se aglomeravam muitas Como nota ainda Carlos Martins, com as mu-
pessoas. Como observa Carlos Mar tins, "as conse- danças ocasionadas na sociedade pela Revolução
quências da rápida industr ialização e ur ban iza- In dust r ial, diversos pensadores começaram a r e-
ção levadas a cabo pelo sistema capitalista foram fletir sobre os novos fenómenos sociais: "A So-
tão visíveis quanto tr ágicas: aumento assustador ciologia constitui em cer ta medida uma resposta
da pr ostituição, do suicídio, do alcoolismo, do intelectual às novas situações colocadas pela Re-
in fan t icíd io, da cr iminalidade, da violência, de volução Industr ial".
surtos de epidemias de tifo e cólera que dizima- Foi só no século XIX - com Augusto Comte,
vam par te da população, et c." (MARTINS, Carlos Herbert Spencer, Gabriel Tarde e, pr incipalmente,
B. op. cit . p. 1 3 -4 ) . Émile Dur kheim, Max Weber e Kar l Marx - que
Nesse contexto, eclodiram movimentos de a investigação dos fenómenos sociais ganhou um
protesto e tentativas de or ganização da classe caráter verdadeiramente científico. Esse tema será
tr abalhador a. Formaram-se, assim, os primeiros abordado no capítulo 2.

18
CAPÍTULO 1 A sociedade humana
—• Li v r o s su g e r i d o s
• MARTINS, Carlos B. 0 que é Sociologia. São Paulo: Nova Cultur al/ Br asiliense, 1986 (Coleção Pr imeir os Passos).

• TELLES, Maria L. Sociologia para jovens - iniciação à Sociologia. Petr ópolis: Vozes, 2 0 0 1 .

—• Fi l m e s su g e r i d o s
• 0 garoto selvagem, de François Tr uffaut , 1970. A histór ia de Victor de Aveyr on , menino capturado numa flor esta fr an -
cesa sem nunca ter tido contato com um ser humano.

• 0 enigma de Kaspar Hauser, de Werner Her zog, 1974. Em 1828, foi encontrado em uma cidade da Alemanha um jovem
que passara a vida trancado em um porão e não conseguia se comunicar .

• Greystoke, a lenda de Tarzan, de Hugh Hudson, 1984. Baseado nos romances de Edgar Rice Bur r oughs, conta a histór ia
de um homem branco criado entre macacos na Áfr ica.

• A guerra do fogo, de Hugh Hudson, 1 9 8 1 . Nos pr imór dios da humanidade, grupos de hominídeos disputam a posse
do fogo.

• Danton, o processo da Revolução, de Andr zej Wajda, 1982. A lu t a de Danton contr a Robespierre para colocar fim ao
Terror dur ante a Revolução Fr ancesa.

• Maria Antonieta, de Sofia Coppola, 2006. Sobre a r ainha da Fr ança, mulher do r ei Luís XVI à época da Revolução Fr an -
cesa, e sua execução em 1793.
• Germinal, de Claude Ber r i, 1993. Sobre as condições de vid a e de tr abalho dos mineir os da França durante o século XIX.
Adaptação do romance homónimo de Émile Zola.

• Oliver Twist, de Roman Polanski, 2005. A histór ia de Oliver, um pequeno ór fão, sobre o pano de fundo da Revolução
In d ust r ial na In glat er r a. Baseado no romance de Charles Dickens.

Tr ab al h an d o com f i l m es
Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados. Depois, façam um
debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:

• Que relações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, às consequências da Revolução In dust r ial? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há referências à Revolução Francesa? Que conclusões vocês extraíram do que vir am?

• Há referências à necessidade da vida em sociedade par a que o indivíduo se humanize?

Qu est ões p r op ost as


1 . Pesquise em jor nais e revistas exemplos de comportamentos sociais. No caderno, escreva o título
do assunto, a data e o nome do veículo de comunicação que você usou como fonte. Cole seu
recorte ou escreva um resumo do texto. Faça um comentário pessoal sobre o tema pesquisado.

2. Defina o conceito e o objeto das Ciências Sociais.

3. Quais são os pr incipais campos de interesse de cada disciplina em que se dividem as Ciências
Sociais?

4. De que forma a Revolução Industr ial contribuiu para o surgimento da Sociologia como ciência?

5. Quais são as diferenças entre a análise compar ativa, a análise quantitativa e a análise
qualitativa em Sociologia?

19
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

TEXTO 1

A Revolução Industrial e os trabalhadores


Iniciada na Inglaterra, a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX modificou radicalmente a sociedade
moderna. Ela inaugurou a indústria moderna, abriu caminho para o capitalismo industrial e subverteu as
relações sociais. No texto a seguir, o historiador inglês E. P. Thompson analisa suas consequências para o modo
de vida da classe trabalhadora na Inglaterra.

Co m p a r a d a s c o m a s v i l a s r u r a i s , a s c o n - Da s 92 m o r t e s d e t r a b a lh a d o r e s a d u lt o s e j o -
d i ç õ e s ge r a i s n a s g r a n d e s c i d a d e s i n d u s t r i a i s v e n s d e u m a fá b r i c a d e t e c i d o s d e lã d e Le e d s ,
e r a m m a is r e p u gn a n t e s e i n co n v e n i e n t e s . Na s e n t r e 1818 e 1 8 2 7 , p e l o m e n o s 5 2 fo r a m a t r i -
vila s r u r a is , a á gu a d e u m p o ç o p r ó x i m o a o b u íd a s à t u b e r cu lo s e o u ao " d e fi n h a m e n t o " .
ce m i t é r i o p o d ia ser im p u r a , m a s , p e lo m e n o s , Ne s s a é p o c a , a t a x a d e m o r t a l i d a d e n a fa i xa
s e u s h a b i t a n t e s n ã o t i n h a m d e se l e v a n t a r à d e 0 a 5 a n o s d e id a d e ch e ga v a a 5 1 7 e m m i l
n o i t e p a r a e n t r a r n u m a fila d i a n t e d a ú n i c a n a s c i d o s v i v o s . [ ...]
b i ca q u e s e r via a vá r ia s r u a s , n e m t i n h a m d e O t r a b a l h o i n fa n t i l n ã o e r a u m a n o v i d a -
p a ga r p o r e la , c o m o a co n t e cia nas cid a d e s i n - d e . A cr ia n ça e r a p a r t e in t r ín s e ca d a e co n o m i a
d u s t r ia is . in d u s t r ia l e a gr íco la an t es d e 1780, e c o m o tal
Ne s t a s , o s t r a b a l h a d o r e s e s u a s fa m í l i a s p e r m a n e c e u a t é s e r r e s g a t a d a p e la e s c o l a . A
t in h a m de s u p or t a r o m a u ch e ir o d o lixo in - f o r m a p r e d o m i n a n t e d e t r a b a l h o i n fa n t i l e r a
d u s t r ia l e d os e s go t o s a c é u a b e r t o , e n q u a n t o a d o m é s t i c a o u a p r a t ica d a n o s e io d a e co-
s e u s fi l h o s b r i n c a v a m e n t r e d e t r i t o s e m o n t e s n o m i a fa m i l i a r . As c r i a n ç a s q u e m a l s a b i a m
d e e s t e r c o . [ ...] an dar p od ia m ser in cu m b id a s de a p a n h a r e
À m e d id a que a Re v o l u ç ã o In d u s t r ia l ca r r e ga r co is a s .
a v a n ç a v a e s u r g i a m as c l á s s i c a s c o n d i ç õ e s d e Um t r a b a lh a d o r d essa é p o c a r e co r d a va
s u p e r p o p u la ç ã o e de d e p r a v a ç ã o nas gr a n d e s que c o m e ç o u a t r a b a l h a r "p o u c o d e p o i s de
cid a d e s e m r á p id a e x p a n s ã o - in ch a d a s p e lo s q u e i n i c i e i a a n d a r . [ ...] M i n h a m ã e c o s t u m a v a
im igr a n t e s - , a s a ú d e d a p o p u la çã o urbana b a t e r o a lgo d ã o sobr e u m a p e n e ir a de a r a m e .
c o m e ç o u a se d e t e r io r a r . Co l o c a v a - o , e n t ã o , n u m r e c i p i e n t e m a r r o m e s -
A t a xa d e m o r t a l i d a d e i n f a n t i l , d u r a n t e cu r o, co m u m a espessa ca m a d a de esp u m a de
as t r ê s o u q u a t r o p r i m e i r a s d é c a d a s d o s é c u - s a b ã o . De p o i s , d o b r a v a m i n h a r o u p a a t é a c i n -
lo XI X fo i m u i t o m a i s a l t a n a s n o v a s c i d a d e s t u r a e m e c o l o c a v a n a t i n a p a r a q u e e u p is a s s e
in d u s t r ia is — às ve ze s o d o b r o — d o q u e nas s o b r e o a l g o d ã o q u e j a z i a n o fu n d o . [ ...] Es s e
á r e a s r u r a i s . Se g u n d o o D r . T u r n e r T h a c k r a h , p r o ce s s o p r o lo n ga va -s e a t é q u e o r e cip ie n t e fi -
d e Le e d s , " m e n o s d e 1 0 % d o s h a b i t a n t e s d a s ca s s e c h e i o e se t o r n a v a p e r i g o s o c o n t i n u a r a li
gr a n d e s cid a d e s g o z a m d e p e r fe i t a s con d i- d e n t r o,- c o l o c a v a m , e n t ã o , u m a c a d e i r a a o m e u
ç õ e s d e s a ú d e " . [ ...] l a d o , e e u m e a g a r r a v a a o s e u e n c o s t o ".
O P r i m e i r o Re l a t ó r i o d o Of i c i a l Ge r a l O t r a b a lh o i n fa n t i l e s t a v a p r o fu n d a -
d e Re g i s t r o s ( 1 8 3 9 ) m o s t r o u q u e a p r o x i m a - m e n t e a r r a iga d o n as a t ivid a d e s t ê xt e is , d e s -
d a m e n t e 2 0 % d a t a xa glo b a l d e m o r t a lid a d e p e r t a n d o , c o m fr e q u ê n cia , a i n v e ja d o s t r a b a -
se d e via à t u b e r cu lo s e , u m a d o e n ç a a s s o cia d a l h a d o r e s e m o c u p a ç õ e s o n d e as c r i a n ç a s n ã o
à p ob r eza e à s u p e r p op u la çã o, p r e d om in a n d o p od ia m t r a b a lh a r e a u m e n t a r o r e n d im e n t o
t a n t o n as r e giõ e s r u r a is q u a n t o n as u r b a n a s . d a fa m í l i a [ . . . ] .

2 0
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

An t e s d o a p a r e c i m e n t o d a fá b r ica [ s is t e - n u m c o n t e x t o e m q u e i n e x i s t i a m as c o m p e n -
m a fa b r i l ] , a p r o d u ç ã o m a n u fa t u r e i r a , d e t ip o i n - s a ç õ e s d o la r . E m c a s a , as c o n d i ç õ e s d a c r i a n -
d u s t r i a l, e r a r e a l i z a d a e m d o m i c í l i o , o n d e t o d a ça va r ia va m de a co r d o c o m o temperamento
a fa m ília t r a b a lh a v a . E m 1 8 0 6 , u m t r a b a l h a d o r d os p a is o u d o p a t r ã o e, d e ce r t a fo r m a , s e u
p r e v i a q u e , c o m o t r i u n fo d o s i s t e m a fa b r il "t o - t r a b a lh o e r a gr a d u a d o de a co r d o com suas
d o s os t r a b a lh a d o r e s p o b r e s s e r ã o a r r a n c a d o s h a b i l i d a d e s . N a fá b r i c a , a m a q u i n a r i a d i t a v a

d e s u a s ca s a s e le v a d o s p a r a as fá b r ica s , e a li n ã o as c o n d i ç õ e s , a d is cip lin a , a v e lo cid a d e e a

c o n t a r ã o c o m a a ju d a e a v a n t a g e m d a p r e s e n ç a r e gu la r id a d e d a jo r n a d a de t r a b a lh o , t o r n a n -

d e s u a s fa m ília s , q u e t i n h a m e m s u a s ca s a s ". d o -a s e q u iva le n t e s p a r a o m a is d e lica d o e o

De a co r d o c o m os p a d r õ e s d a é p o c a , a m a i s fo r t e .

fá b r i c a e r a u m a n o v i d a d e p e n o s a e a t é m e s m o O d ia de u m a cr ia n ça t r a b a lh a d o r a co -
b r u t a l . As a t i v i d a d e s d o m é s t i c a s e r a m m a is m e ça v a às cin co e m e ia d a m a n h ã . Le v a v a
va r ia d a s (e a m o n o t o n ia é p a r t icu la r m e n t e p a r a a fá b r i c a a p e n a s u m p e d a ç o d e p ã o , s e u

cr u e l p ar a a cr ia n ça ) . ú n ico a lim e n t o até o m e io-d ia . O t r a b a lh o

E m cir cu n s t â n cia s n or m a is , o t r a b a lh o n ã o t e r m in a va an t es das sete o u oit o h or a s

d om ést ico n ã o se p r o lo n ga va in in t e r r u p t a - da n oit e . No fi n a l d a j o r n a d a , e la s j á e s t a -

m e n t e , s e g u i n d o u m c i c l o d e t a r e fa s . P o d e m o s va m ch or a n d o o u a d or m e cid a s em pé, com

su p or , n esse ca s o, q u e h a via u m a in t r od u çã o as m ã o s s a n g r a n d o p o r ca u s a d o a t r it o com

gr a d u a l a o t r a b a lh o q u e r e s p e it a va a ca p a ci- o s fio s t ê xt e i s . Se u s p a is d a v a m - l h e s p a lm a d a s

d a d e e a id a d e d a cr ia n ça , in t e r ca la n d o -o com p ar a m a n t ê -la s a cor d a d a s , e n q u a n t o os c o n -

a e n t r e ga de m e n s a ge n s , a co lh e it a de a m o r a s , t r am est r es r o n d a va m co m cor r e ia s .

a c o l e t a d e l e n h a e a s b r i n c a d e i r a s . Ac i m a d e Na s fá b r i c a s r u r a is , dependentes da
t u d o , o t r a b a lh o e m d o m i cí li o e r a desempe- e n e r gia h id r á u lica , e r a m c o m u n s os t u r n o s à
n h a d o n os lim it e s d a e co n o m ia fa m i l i a r , s o b n o it e o u as jo r n a d a s de q u a t o r ze a d e ze s s e is
o c u i d a d o d o s p a i s . [ ...] h o r a s d iá r ia s , e m é p o c a s d e m u it o t r a b a lh o .
O c r i m e d o s i s t e m a fa b r i l c o n s i s t i u e m Ad a p t a d o d e : T H O M P S O N , E . P. Aformação âa classe
h e r d a r as p io r e s fe içõ e s d o s is t e m a d o m é s t i c o , operária inglesa. 3. e d . Ri o d e Ja n e i r o , 2 0 0 1 . v. I I . p . 1 8 4 -2 1 0 .

- • Pe n s e e r e sp o n d a
0 trabalho in fan t il foi um fenómeno comum aos países que ingressaram no capitalismo
indust r ial. 0 Br asil de fins do século XIX e começo do século XX não fugiu à r egr a. E
atualmente?

Reúna-se com seus colegas de grupo e façam uma pesquisa para saber se ainda existe
trabalho in fan t il no Br asil. Depois, escrevam um texto coletivo que mostre quantas crianças
tr abalham no país, em que atividades e quais são as regiões que mais empregam esse tipo
de mão-de-obr a. Procurem as infor mações em jor n ais, livr os, r evistas e sites da in t er n et .
TEXTO 2

Sociologia e sociedade industrial


O texto que você vai ler agora, escrito pelo sociólogo alemão Ralph Dahrendorf, analisa deforma crítica
o conceito de sociedade industrial, muito em voga entre os sociólogos na segunda metade do século XX. Em sua
crítica, Dahrendorf aborda também o papel da Sociologia no mundo moderno. Depois de ler o texto, responda
às questões propostas.

A Re v o l u ç ã o In d u s t r ia l e s t a va a in d a s a t o d o s o s h o m e n s g o z a m d e u m m e s m o sta-
e m s e u s p r i m e i r o s p a s s o s , m a s j á e m fi n s d o tus f u n d a m e n t a l : o d e c i d a d ã o . E l i m i n a r a m - s e
s é c u l o XV I I I a l g u n s p e n s a d o r e s p e r ce b e r a m n a s o c i e d a d e a s d i fe r e n ç a s d e p r i n c í p i o e n t r e
q u e e s t a va e m via s de a p a r e ce r u m a n o va s o- o s h o m e n s . As d i s c r e p â n c i a s a c i d e n t a i s que
cie d a d e e m q u e a d e s igu a ld a d e h u m a n a s e r ia fi c a r a m j á n ã o s ã o t ã o g r a n d e s c o m o an t es,-
c o n s i d e r a d a d e u m p o n t o d e v i s t a d i fe r e n t e a h i e r a r q u i a n a e s t r a t i fi c a ç ã o s o c i a l s e r e d u -
d o cr it é r io at é e n t ã o vá lid o . A im p o s içã o da z i u [ s o b r e o c o n c e i t o d e e s t r a t i fi c a ç ã o , v e j a
n oção moder na d a igu a ld a d e dos cid a d ã os o ca p ít u lo 9 ].
n o Es t a d o e a f o r m a ç ã o d e u m a c la s s e s o c i a l E m s e g u n d o lu ga r , e n c o n t r a m o - n o s com
fu n d a d a e m s u a p o s i ç ã o e c o n ó m i c a fo r a m os u m a fo r t e c o n c e n t r a ç ã o n o c a m p o m é d i o d e s s a
e s t í m u l o s fu n d a m e n t a i s d e s t a e v o l u ç ã o i n t e - h i e r a r q u i a r e d u z i d a [ o a u t o r s e r e fe r e à s c l a s -
le ct u a l q u e m a is t a r d e d e s e m b o co u n a So c i o - s e s m é d i a s ] . E n q u a n t o e m t o d a s as s o c i e d a d e s
l o g i a c i e n t í f i c a . [ ...] a n t i ga s a m a i o r i a d o s h o m e n s s e c o n c e n t r a v a
A é p o c a d a Re v o l u ç ã o In d u s t r ia l ca r a c- n o e s t r a t o h i e r á r q u i c o i n fe r i o r , u m a im e n s a
t e r i z a - s e p e la q u e d a d a q u e l e s i s t e m a p r i v i l e - m a i o r i a o c u p a h o j e a p o s i ç ã o m é d i a . [ ...]
gia d o d e d e s igu a ld a d e s o cia l, q u e d e s ign a m o s , Q u a n t o à s d i fe r e n ç a s r e s t a n t e s , pode-
de p r e fe r ê n c i a , c o m o o r d e m estamental [o s e a fi r m a r , e m t e r c e i r o lu ga r , q u e o i n d i v í d u o
a u t o r s e r e fe r e a o fe u d a l i s m o , s i s t e m a v i g e n t e na s ocie d a d e in d u s t r ia l n ã o se a ch a p r e s o à
n a Eu r o p a d u r a n t e a Id a d e Mé d i a , a n t e r i o r a o s u a p o s i ç ã o s o cia l,- p o d e m o v e r - s e l i v r e m e n t e ,
c a p i t a l i s m o . Ve j a o s i g n i fi c a d o d e estamento d e s ce r e, s o b r e t u d o , s u b ir d e ca t e go r ia [ s o b r e
n o D i c i o n á r i o Bá s i c o d e So c i o l o g i a n o fi m d o m o b i l i d a d e s o c i a l , v e j a o c a p í t u l o 8 ]. Se n ã o
li v r o ] . N o e n t a n t o , os p e n s a d o r e s d o s é cu lo c o n s e g u e a s c e n d e r , s e u s fi l h o s p o d e m con s e -
XI X e c o m e ç o d o s é c u l o X X p e r c e b e r a m q u e , g u i - l o . [ ...]
c o m a q u e d a d a o r d e m e s t a m e n t a l, n ã o d esa- N a s ocie d a d e e s t a m e n t a l a p o s içã o s o-
p a r e c e u a d e s i g u a l d a d e e n t r e o s h o m e n s . Se u c i a l d o h o m e m d e p e n d i a d e s e u n a s ci m e n t o ,-
gr a n d e t e m a e r a a d e s igu a ld a d e com o con - n a s o c i e d a d e i n d u s t r i a l d o s é c u l o XI X, o h o -
s e q u ê n c i a d a p r o p r i e d a d e e d o p o d e r : a lu t a m e m e r a o q u e t i n h a , is t o é , su a s it u a çã o s o cia l
d e cla s s e s e a s o c i e d a d e q u e v a l o r i z a c a d a u m se d e t e r m in a va de a co r d o c o m suas r e n d a s e
s e gu n d o sua r e n d a e posse. p osses. A s ocie d a d e in d u s t r ia l, e m co n t r a p a r -
Ho je , e n t r e t a n t o, a im a ge m d om in a n t e t id a , a p oia -s e s ob r e u m a n o v a base de o r d e n a -
s o b r e a e s t r a t i fi c a ç ã o s o c i a l d a s o c i e d a d e i n - ç ã o : a g o r a o h o m e m é o q u e e le c o n s e g u e . A
d u s t r ia l é ca r a ct e r iza d a s o b r e t u d o p o r t r ês as- r e n d a d e t e r m in a a s it u a çã o s ocia l de ca d a u m
p e c t o s : e m p r i m e i r o lu ga r , fa la -s e d e u m a t e n - e as in s t it u içõe s d o s is t e m a e d u ca t ivo t ê m a
d ê n cia ao n ive la m e n t o e n t r e r icos e p ob r e s . m is s ã o de ca lib r a r a ca p a cid a d e de r e n d im e n -
Ar g u m e n t a - s e q u e d e s d e a R e v o l u ç ã o F r a n c e - t o d e ca d a in d ivíd u o c o m o o b je t ivo de d ir igir
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

cada um até a posição que lhe corresponde na exatidão nesse conceito de sociedade indus-
sociedade. Todos têm idêntica oportunidade, trial? Nã o seria ele uma tentativa de eliminar
uma vez que nem a origem nem a propriedade o problema das características particulares, e,
decidem hoje a situação social do indivíduo,- a menos agradáveis, da sociedade nor te-amer i-
sociedade de consumo também conduz à eli- cana, alemã ou russa? Nã o fica sem ser dito o
minação da desigualdade. fundamental, se nos aproximamos da r ealida-
[Segundo essa con cep ção sociológica,] de com essa inocente ideia geral da sociedade
a sociedade industr ial tem ainda uma quarta industrial?
car acter ística, que quase não falta nas análi- A Alemanha e a Inglaterra são socieda-
ses sociológicas mais recentes e que é talvez des industriais,- mas a Inglaterra é a mãe da
a mais cur iosa: na sociedade industr ial desa- democracia liberal e a Alemanha é a mãe do
parece o domínio do homem pelo homem, moderno Estado autoritário [a referência é
isto é, o instrumento mais eficaz de separa- ao nazismo, regime totalitário que dominou
ção entre os de cima e os de baixo que aglu- a Alemanha entre 1933 e 1945]. Os Estados
tinava e desmembrava todas as sociedades Unidos e a Un iã o Soviética são sociedades
antigas. industriais e, sem dúvida, suas diver gências
Nesse sentido, hoje se fala muito da fá- car acter izam a nossa época. Estes não são
brica automática, na qual todas as relações de problemas sociológicos? Parece-me que são
dominação se transformaram num programa até mesmo nossos problemas fundamentais.
de mecanismos dir igidos eletronicamente e Mas, para r esolvê-los, temos de nos liberar do
onde ninguém dá ordens e ninguém obedece. mito idílico da sociedade industr ial.
[...] Dessa maneira, ninguém, na realidade, Do mesmo modo, no que se refere a
está por cima ou está subordinado,- também quaisquer sociedades determinadas, a socie-
no campo do poder e da servidão a socieda- dade industrial resulta num mito. Já não existe
de industrial eliminou a desigualdade entre os efetivamente a desigualdade entre os homens
homens. [...] nas sociedades modernas? Ou , talvez, apenas
O conceito de sociedade industrial [en- se modificaram as formas dessa desigualdade?
tendida como sociedade na qual vão desapa- Nã o são também o tipo de car r o, o lugar das
recendo as desigualdades sociais] contém um férias, o estilo da habitação outros tantos sím-
elemento de benévola gener alização. Todas bolos efetivos e que deixam a marca da estra-
as diferenças particulares entre as distintas tificação social, como o eram os pr ivilégios
sociedades desaparecem dentro dele: as so- na sociedade estamental?
ciedades inglesa, nor te-amer icana, alemã e Nã o existem mais na sociedade atual os
francesa e logo também a soviética se fundem "de cima" e os "de baixo"? Admito que se trata
nele de um modo genér ico, que promete a to- de questões difíceis, que de maneira alguma
dos os países idêntica esperança [na época em podem ser respondidas com uma simples ne-
que foi escrito este texto, a Un iã o Soviética gação ou afirmação,- mas cr eio poder afirmar
era um país comunista, enquanto os Estados que cada uma dessas perguntas nos revelaria
Un idos, a Alemanha e a França são países ca- um aspecto de nossa sociedade que não cor-
pitalistas. A Un iã o Soviética foi extinta em responde à imagem harmoniosa da sociedade
1991. Veja as diferenças entre capitalismo e industr ial. [...]
comunismo no capítulo 7 ] . Por que r azão, então, a tentativa cons-
Mas essas sociedades são, realmente, tante de profetizar para um futuro pr óximo
tão semelhantes? Nã o existir ia uma falta de uma sociedade industrial justa e har mónica?

23
CAPÍTULO 1 A sociedade humana

De que fontes se alimenta tal ciência? A quem passos de seus antecessores: também necessita
ela serve? Aqui se nota claramente que a So- de uma ideologia que justifique a desigualdade.
ciologia moderna da sociedade industrial não A Sociologia é a encarregada de oferecer essa
é, na realidade, mais do que ideologia da ca- ideologia com o mito da sociedade industrial.
mada burocrática e da pequena burguesia que Não é uma casualidade que seja exata-
denomina a si própria de "classe média" e que mente a Sociologia que procure esse r efor ço
domina muitas sociedades modernas,- camada ideológico para a sociedade industr ial. Os
a que também pertencem os próprios soció- burocratas, managers e técnicos constituem um
logos [sobre o conceito de ideologia, ver o grupo dominante, "invisível", que evita cui-
Dicion ár io Básico de Sociologia no fim do dadosamente aparecer como tal. Necessitam,
livr o]. [...] por isso, de uma ideologia o mais "neutra"
Os managers [gerentes e executivos] e os possível, cujo caráter de justificação não seja
técnicos formam uma camada superior, uma patente a uma simples ver ificação, uma ideo-
classe dominante, a quem deve servir a ideo- logia com a auréola da ciência.
logia harmónica da sociedade industrial. Pelo Ad a p t a d o d e : D A H R E N D O R F , R a l p h . So c i o l o g i a e
so cie d a d e in d u st r ial. In : F O R A C C H I , M a r ia lic e e
menos num ponto a moderna meritocracia de M A R T I N S , Jo s é d e S o u z a ( o r g s . ) . Sociologia e sociedade.
títulos e certificados continuou fielmente os Ri o d e Ja n e i r o - Li v r o s T é c n i c o s e C i e n t í f i c o s , 1 9 7 7 . p . 1 2 1 - 5 .

-• Pen se e r esp o n d a
1 . Qual é o pr incipal objeto de cr ítica de Ralph Dahrendorf no texto que você acabou de ler ?
Cite um parágrafo em que esse objeto de cr ítica apareça claramente.
2. Explique o que o autor quis dizer com a frase: "a Sociologia moderna da sociedade
industr ial não é, na realidade, mais do que ideologia da camada burocrática e da pequena
burguesia que denomina a si própria de 'classe média'".
A sociedade começou a ser vista como um problema a
ser compreendido e explicado na segunda metade do século
XVIII, quando o franco-suíço Jean-Jacques Rousseau escreveu
seu Discur so sobre a or igem e os fu n d am en t os da desigualdade
en t r e os homens (1755 - veja a seção Text os complemen t ar es
no fim do capítulo). Por essa época, a Inglaterra começava a
ingressar na Revolução Industrial, que agravaria os problemas
sociais entrevistos e denunciados por Rousseau. Logo depois,
a Revolução Francesa (1789) abalaria a estabilidade europeia,
revelando o caráter histórico - ou seja, transitório e não eter-
no - das sociedades. Foi nesse contexto de crise que nasceu a
Sociologia, disciplina voltada para o estudo das relações sociais.
Neste capítulo abordaremos algumas ideias dos fundadores da
Sociologia e os fundamentos da nova ciência.
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

IMAGEM e SOCIEDADE ' S i'/ EfHIWl':?.V"'Cffi^ •V

Obser ve e r espon da:

1 . 0 que estão fazendo as pessoas que aparecem na foto?

2 . Você jã presenciou alguma manifestação como essa? Onde e quando? 0 que pretendiam as
pessoas que se manifestavam?
3. Pode-se dizer que a foto registra algum tipo de ação social? Por quê?

26
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

Os prime iros sociólogos

Nascido dez anos depois da Revolução France- de pensar" que podem ser reconhecidas pelo fato
sa, Augusto Comte (1798-1857) é tr adicionalmen- de exercerem uma "influência coer citiva sobre as
te considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem consciências par ticular es". Ou seja, os fatos sociais
pela primeira vez usou essa palavr a, em 1839, em têm existência própria e são capazes de obrigar
seu Curso de Filosofia Positiva. ("influência coer citiva") as pessoas a se compor-
Comte afirmava que a sociedade deveria ser tar desta ou daquela maneir a.
considerada como um organismo vivo, cujas partes Evidentemente, nem sempre essa coerção pode
desempenham funções específicas que contribuem ser percebida como t a l. Em muitos casos, simples-
para manter o equilíbrio do todo. Ele atribuía par ti- mente nos comportamos como achamos que deve-
cular importância à noção de consenso, ou seja, às mos nos comportar. Entretanto, por trãs dessa apa-
ideias e crenças comuns, partilhadas por todas as rente liberdade ir r estr ita existem hábitos, costumes
pessoas de determinada sociedade, que seriam as coletivos, ou mesmo regras, que nós aceitamos como
responsáveis por manter a ordem nessa sociedade. válidas e nos induzem a assumir certas atitudes. Ve-
Com seu "método positivo" de conhecimento, jamos como isso ocorre.
Comte procurou formular as leis gerais que regem
a sociedade. Mas foi com Émile Durkheim (1858- 0 poder coer cit ivo dos f at os sociais
1917) que a Sociologia passou a ser considerada Um exemplo simples pode nos ajudar a enten-
uma ciência. der esse conceito. Se um aluno chegasse à esco-
Durkheim formulou os primeiros conceitos la vestido com roupa de pr aia, certamente ficar ia
da nova ciência e demonstrou que os fatos sociais numa situação desconfor tável: os colegas r ir iam
têm características próprias, devendo por isso ser dele, o professor lhe dar ia uma bronca e prova-
estudados por meio de métodos diferentes dos velmente o diretor o mandaria de volta para casa
empregados pelas outras ciências. para pôr uma roupa adequada.

Dur k heim e os f at os sociais


Durkheim pretendia fazer da Sociologia uma
ciência tão r acional e objetiva quanto a Física ou a
Biologia. Mas, como fazer isso, se a Sociologia lida
com seres humanos que mudam a todo momento,
que têm sentimentos, emoções, ideias e vontade
própria, ao contrário dos fenómenos físicos ou
biológicos?
Durkheim tentou resolver esse complexo pro-
blema postulando como princípio fundamental da
Sociologia que os fatos sociais devem ser consi-
derados como coisas, assim como uma reação quí-
mica é uma "coisa" para um químico, isto é, algo
objetivo, capaz de ser estudado, analisado, com-
preendido e explicado racionalmente.
Os fatos sociais ser iam, assim, coisas exter nas
e objetivas, que não dependem da consciência in -
dividual das pessoas para existir . Os fatos sociais,
dizia Dur kheim, são "maneiras coletivas de agir ou
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

Exist e um modo de se vest ir que é comum, são intr ojetados pelo indivíduo e exercem sobre
que todos seguem (nesse caso, os alunos da es- ele um poder coer citivo. (Procure o termo intro-
cola). Isso não é estabelecido pelo in divíduo. jeção no Dicionár io Básico de Sociologia, no fim
Quando ele entr ou no grupo, já exist ia t a l norma do livr o.)
e, quando ele sair , a norma provavelmente per- Resumindo, podemos dizer que, segundo
manecer á. Quer a pessoa goste ou n ão, ver -se-á Dur kheim, os fatos sociais têm as seguintes ca-
obrigada a seguir o costume ger al. Se não o se- r acter ísticas:
guir, sofrerá uma punição (que pode ir , conforme • generalidade - o fato social é comum a todos
o caso, da r idicular ização e do isolamento até os membros de um grupo ou à sua grande
uma sanção p en al) . 0 modo de se vestir é um fato maior ia;
social. São fatos sociais também a lín gu a, o sist e- • exter ior idade - o fato social é exter no ao i n -
ma monetár io, a r eligião, as leis e uma infinidade divíduo, existe independentemente de sua
de outros fenómenos do mesmo t ip o. vontade;
De acordo com Dur kheim, os fatos sociais • coer citividade - os indivíduos se sentem
são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo pressionados a seguir o comportamento est a-
social. Embora eles sejam exter ior es às pessoas, belecido.

A contribuição de Max Weber

Enquanto Dur kheim tr abalhava n a Fr ança, Na seção a seguir abordaremos um dos con-
n a Alemanha destacou-se Max Weber (1864- ceitos básicos da Sociologia Compreensiva de Max
1920), que defendia outro tipo de abordagem no Weber: o de ação social. Quanto à contribuição de
estudo da sociedade. Para Weber, os métodos de Kar l Marx, aspectos dela serão estudados nos ca-
invest igação da Sociologia não deveriam seguir pítulos 5, 6 e 7.
o caminho aberto pelas Ciências Natur ais, como
quer ia Dur kheim. Isso porque os fatos humanos 0 conceit o de ação soci al
têm também uma dimensão subjetiva - formada Weber definia a Sociologia como "uma ciência
pela consciência e pelas int enções das pessoas voltada para a compreensão inter pr etativa da ação
- , o que não ocorre com os fenómenos da n a - social e, por essa via , para sua explicação causal
t u r e za . Essa dimensão subjet iva, dizia ele, pode no seu transcurso e nos seus efeitos". Desse modo,
e deve ser compreendida e inter pr etada pela o pensador alemão intr oduziu um novo ponto de
Sociologia. par tida para a Sociologia, um novo conceito socio-
Na concepção de Weber, a Sociologia é uma lógico, diverso da noção de fato social t a l como foi
disciplina in t er pr et at iva e não apenas descr it i- proposta por Dur kheim. Esse ponto de par tida é a
va . Para ele, não basta descrever as atitudes e ação social dos indivíduos.
relações estabelecidas entre os indivíduos em so- Por ação social Weber entendia uma moda-
ciedade, mas é necessár io também considerar e lidade de conduta dotada de sentido e voltada
inter pr etar o sentido que as pessoas atr ibuem às para a ação de outras pessoas. Nem toda espécie
suas próprias atitudes. de ação, dizia ele, con st it ui uma ação social. Por
Esse método inter pr etativo só pode ser ap li- exemplo, não há contato social no fato de duas
cado ao comportamento humano e é ele que mar - pessoas se cruzarem em uma r u a . Nesse tipo de
ca, segundo Weber, a difer ença entre as Ciências encontro casual não há propriamente ação social.
Sociais e as Ciências da Natureza (veja o boxe da Haver ia apenas no caso de essas pessoas se cum-
p. 2 9 ) . pr imentar em, ou de conver sar em, ou de entrarem

28
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

WEBER E O "ESPÍRITO DO CAPITALISMO"'

M ax Weber aplicou sua Sociologia Com -


preensiva em diversos textos históricos.
Um dos mais célebres é Á ética protestante e o espírito
W eber estava preocupado com refutar a ideia de
um a determ inação das diversas esferas da vida social
pela económ ica [...]. Ao fazer isso, desenvolveu um a
do capitalismo. Nesse livro ele chamou a atenção concepção gue desem penha papel de extrem a im portân-

para a relação entre uma ética que valorizava o cia no seu esguem a analítico-, a de gue, no processo gue

trabalho árduo e o espírito de poupança, a ética percorrem , as diversas esferas da existência - a eco-

calvinista, ou puritana - um ramo da religião nóm ica, a religiosa, a jurídica, a artística e assim por

protestante - , e o espírito racional da burguesia diante — são autónom as entre si, no sentido de gue se

dos séculos XVI e XVII. Em seu estudo, Weber articulam em cada m om ento e ao longo do tem po con-

procurou destacar que as diferentes esferas da form e á sua lógica interna específica [...].

vida social têm vida própria (autónoma), mas Assim , não épossível encontrar a explicação do

se interinfluenciam de forma constante. desenvolvim ento de um a delas em term os do desenvolvi-

No estudo sobre a "ética protestante e o espírito m ento de gualguer outra. O m áxim o gue se pode fazer é

do capitalism o", W eber procurava dem onstrar a exis- buscar as afinidades e as tensões no m odo com o a orien-

tência de um a íntim a afinidade entre a ideia protestante tação da conduta de vida (ou seja, da ação cotidiana

de "vocação" e a contenção do im pulso irracional para de agentes individuais) se dá em esferas diferentes. Por

o lucro através da atívidade m etódica e racional, em essa via pode-se encontrar, ou não, um a congruência

busca do êxito económ ico representado pela em presa. entre os sentidos gue os hom ens im prim em à sua ação em

Por essa via, apresentava-se a ideia de e\ue um determ i- diferentes esferas da sua existência e expor essas desco-

nado tipo de orientação da conduta na esfera religiosa bertas a um tratam ento causal.

— a ética protestante — poderia ser encarado com o um a Ad a p t a d o d e : C O H N , G a b r i e l . Weber, 7. e d . S ã o P a u l o :


Át i c a , 1 9 9 9 , p . 2 3 - 5 , C o l e ç ã o G r a n d e s C i e n t i s t a s So c i a i s .
causa do desenvolvim ento da conduta racional em m ol-
des capitalistas na esfera económ ica. [...]
Levantara ideia de gue a ética protestante possa
ser encarada com o um com ponente causal significativo
para o desenvolvim ento do capitalism o m oderno (en-
tendido com o tipo de orientação da ação económ ica)
im plica sustentar gue, na hipótese da sua ausência, o
capitalism o não existiria na form a com o o conhece-
m os. A contrapartida lógica disso é a hipótese de gue,
sem pre gue a ética religiosa de sociedades historica-
m ente dadas tenha características significativam ente
diversas da protestante, isso deveria representar um
obstáculo ao desenvolvim ento de um a orientação da
conduta económ ica análoga à capitalista racional.
No caso europeu verificava-se um a afinidade interna
entre a orientação da conduta nas esferas religiosa e
económ ica, na m edida em gue am bas ensejavam um
Os negociantes de tecidos, t el a do p i n t o r h ol an d ês
d omín io r acional sobre os im pulsos irracionais e Rem br an dt van Ri j n ( 1 6 0 6 - 1 6 6 9 ) . Vest i d as
sobre o m undo, m as tam bém pode haver um a tensão so b r i am en t e, as pessoas r ep r esen t ad as na t el a
en car n am o " esp i r i t o do ca p i t a l i sm o " nos t er m os
entre os sentidos das ações nessas duas esferas da exis-
de W eb er : f r u g al i d ad e, esp ír i t o de p o u p an ça, t r ab al h o
tência. [...] du r o e si st em át i co , et c.

29
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

em conflito, ou ainda no caso de ambas pr atica- significado coletivo compartilhado por todos os
rem qualquer ato com significado próprio voltado membros da família. Esse significado or ienta a
para uma ter ceir a pessoa. São ações sociais, por ação de cada pessoa dessa família levando-a a
exemplo, um jogo de futebol, o contato amoroso cultivar certos valores aceitos por todos, como o
entre duas pessoas, uma greve de tr abalhador es, respeito pelos pais, o afeto comum, o usufr uto
uma au la, um ato r eligioso, etc. de bens como a casa onde moram, de seus u t e n -
Um desdobramento do conceito de ação sílios, etc.
social é o de relação social. Ele diz respeito a A explicação sociológica em Weber - afirmam
ações de diversas pessoas, ou agentes, dotadas de Maria Ligia Barbosa e Tânia Quintaneiro em Um to-
sentidos mutuamente r elacionados. Nesse caso, que de clássicos - busca compreender e inter pr etar
a conduta dos agentes se or ienta para sentidos o sentido, o desenvolvimento e os efeitos da ação
compartilhados por todos. Por exemplo, as ações social. Compreender uma ação social é captar e
praticadas por pessoas no int er ior de uma famí- inter pr etar sua conexão de sentido, que será mais
lia constituem uma relação social, pois há um ou menos evidente para o sociólogo.

PROBLEMAS DA SOCIEDADE CONTEMP ORÂNEA

N o decorrer do século XX, com o desen-


volvimento da sociedade industrial e,
logo depois, da sociedade pós-industr ial, que
social passaram a ser de domínio público.
Pesquisas de op in ião (ou de mer cado),
por exemplo, são utilizadas no lançamento
se tornou cada vez mais complexa, a Sociolo- de novos pr odutos, como automóveis ou
gia ganhou novo impulso, passando a estudar apartamentos,- na definição da plataforma
e a explicar problemas com os quais até então política de um candidato a car go público,- no
não havia se defrontado. levantamento das taxas de popularidade de
Assim, temas como exclusão social, de- um gover nador ou presidente,- e assim por
sagr egação familiar, disseminação das drogas, diante. É por meio da pesquisa que o em-
violência urbana, cidadania, minor ias, glo- pr esár io, ao lançar seu pr oduto, pode ficar
balização (veja o capítulo 3 ) , crise am biental sabendo quais e quantos serão seus compr a-
(veja o boxe da p. 31) e outros representam dores,- o p olít ico, por sua vez, irá defender
desafios para os quais a Sociologia vem pro- pontos de vista que antecipadamente sabe
curando respostas. Estas exigem uma análise que interessam aos eleitor es.
científica da vida em sociedade que permita Entr etanto, o sociólogo não pode per-
entender o presente e projetar o futuro. Nes- der de vista a n oção de r elatividade dos fe-
se contexto, uma das pr eocupações da Socio- nómenos sociais e as formas pelas quais esses
logia contempor ânea tem sido identificar os fenómenos ocor r em. A r elatividade do fenó-
agentes sociais capazes de provocar mudan- meno social pode ser per cebida em diversas
ças importantes na sociedade. situações. Consider emos, por exemplo, o
Por outro lado, os conhecimentos da desemprego. Ele pode aumentar, caso sejam
Sociologia já não estão restritos aos sociólo- intr oduzidas novidades t ecn ológicas que
gos. De certo modo, muitas pessoas passaram afetem o mercado de tr abalho, como novas
a utilizá-los, embora nem sempre de forma máquinas. Mas pode diminuir , mesmo com a
consciente e r igor osa. Isso ocorre porque al- nova tecnologia, se a economia do país esti-
guns procedimentos e técnicas de pesquisa ver em expansão.

30
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

| O que é? j
Cr i se am b i en t al

Você já ou viu falar do "efeito est ufa"? as mudanças climát icas provocadas por ele
Também conhecido como aquecimento glo- at in gir am hoje pr opor ções alar mant es. Veja
b a l, o efeito est ufa é o aumento exager ado a seguir alguns efeitos dessas mudanças cli-
da t em p er at ur a do p lan et a como r e s u lt a - mát icas provocadas pelo efeito est ufa.
do da emissão de cer tos gases, entr e os Em 2 0 0 6 , a calot a gelada do Polo Norte
quais o gás car bón ico ( C0 2 ) , o metano e est ava 60 400 k m 2 (ár ea equivalent e a duas
o óxido n it r os o. Esses gases r et êm o calor vezes o estado de Alagoas) menor do que
do Sol n a at m osfer a, impedindo que ele se er a em anos an t er ior es. Segundo algumas
disper se pelo e sp a ço. Fu n cion a m , a s s im , p r evisões, o gelo do Ár t ico t er á desapar e-
como as paredes de vidr o de u m a e s t u fa , cido t ot alm en t e at é 2 0 4 0 . Os cien t ist as do
que d eixam en t r ar a lu z e o calor do s o l, IPCC calculam que centenas de m ilh ões de
mas d ificu lt a m su a disper são. 0 C0 2 s ozi- pessoas t er ão sua vid a afet ada em breve
nho é r esponsável por 4 9 % desse aque- pelo der r etimento das calotas polar es e da
cim en t o. Ele é pr oduzido sobr etudo p ela neve do cume das m on t an h as. Esse d er r et i-
queima de com bu st íveis fósseis (petr óleo mento pode elevar o n íve l do mar em cer ca
e car vão m in er al) r ealizad a por fábr icas e de 1,3 metro at é 2 0 8 0 , provocando in u n -
veícu los automotor es (au t om óveis, ca m i- dações em cidades costeir as como o Recife
n h õe s , e t c ) . e o Rio de Ja n e ir o . Na foz do r io Ganges, no
0 processo de aquecimento da atmos- oceano Ín d ico , u m a ilh a habit ad a por 10
m il pessoas já desapar eceu como r esultado
fer a se t or n ou acelerado a p ar t ir de mea-
da elevação do n íve l das águ as do mar .
dos do século XVI I I , quando teve in ício ,
n a In gla t e r r a , a Revolução In d u s t r ia l ( ve ja
o cap ít u lo 1 ) . Com ela com eçou t am b ém a
Va m o s p e n sa r ?
u t ilização em grande escala do car vão m i-
n er al como fonte de ener gia p ar a a lim e n -
t a r as fábr icas. No século XIX, a Segunda Reúna-se com um grupo de colegas e,
Revolução In d u s t r ia l in t r od u ziu o pet r óleo jun t os, façam uma pesquisa sobre o
como out r a grande fonte de en er gia. aquecimento global em jor n ais, r evistas,
Essa dependência em r elação ao petr óleo livr os e in t er n et . Depois, escrevam um
e ao car vão tem car acter izado a in d u s t r ia - texto coletivo com o seguinte r oteir o:
lização n ão só dos países cap it alist as, mas 1 . Em que consiste o efeito estufa e
t ambém a dos países socialistas e con t in ua quais serão as suas consequências
at é hoje. Em fever eir o de 2007, um grupo nos próximos anos, segundo o IPCC?
de tr abalho da Organização das Nações Uni-
2 . Quais são os cinco países que mais
das (ONU) formado por 2 500 cien t ist as d i-
lançam gases-estufa na atmosfera?
vulgou um estudo in t it ulado Painel Intergo-
vernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 3 .0 que o Br asil vem fazendo para
sigla da expr essão em in glê s ) . Segundo o promover formas de energia limpa?
documento, o aquecimento da atmosfer a e

31
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

3 A objetividade na análise sociológica

Uma importante característica da observação Além disso, os cientistas sociais têm também
científica é a objetividade. Diz-se que uma pessoa é maior dificuldade de submeter suas teses à expe-
objetiva quando ela é capaz de considerar um fenó- rimentação. De fato, é muito difícil isolar grandes
meno sem ideias preconcebidas, sem que se deixe grupos de pessoas e induzi-los a mudanças para ve-
levar por razões pessoais e subjetivas. A objetivi- rificar seus resultados, como se faz, por exemplo,
dade consiste, portanto, em uma atitude de neu- em Biologia ou em experiências de laboratório.
tralidade do cientista em relação ao fenómeno ou
objeto estudado. Também pode ser definida como
a possibilidade de o cientista obter resultados sem
que seus sentimentos pessoais estejam envolvidos.
0 problema, nesse caso, consiste em saber se
o sociólogo pode manter realmente uma posição
de neutralidade em relação aos fenómenos sociais
que observa. De fato, a objetividade é mais difí-
cil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas
Ciências Exatas. Em Matemática, a soma de dois
mais dois é igual a quatro, seja ela feita por um
católico, um muçulmano ou um at eu. Em contr a-
par tida, no estudo de si mesmos e da sociedade,
os seres humanos podem se deixar influenciar por
seus sentimentos, por ideias preconcebidas, pelas
crenças que adotam, pelos valores que aceitam e
pelos interesses do grupo social a que pertencem.

At i v i st as de Or gan i zações Não- Gov er n am en t ai s ( ONGs) de pr even ção e t r at am en t o da Ai d s pr om ov em


p asseat a no cen t r o de São Paulo em j u n h o de 2 0 0 3 . Man i f est ações com o essa são i l u st r at i v as do
A Of^fftoftli' co n cei t o de ação so ci al pr opost o por Max Weber e são o b j et o de an ál i se dos ci en t i st as so ci ai s.
H BMHIBHwí Nesse caso, ao con t r ár i o do que ocor r e com as Ci ên ci as Exat as, o p esq u i sad or não pode con t r ol ar a
1180 OCObOL. e X| > e r
'* n C
' a o b s e r v a c l a
- P° ' s e s t a e n v o l v e s e r e s
h u m an os dot ados de l i b er d ad e de esco l h a.

O ciu r -ciu iu

9.357
* * . casos de Aids por ano
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

Dur k heim e Marx A obj et ividade em Max Weber


As dificuldades enfrentadas pela Sociologia Max Weber discordava tanto de Durkheim
em relação a essa exigência de objetividade n u n - quanto de Marx. Do pr imeir o, r ejeitava a ideia de
ca foram plenamente resolvidas. Para Dur kheim, fato social considerado como coisa exter na às pes-
a objetividade científica só pode ser atingida em soas. Do segundo, opunha-se à ideia de compro-
Sociologia caso o sociólogo não se envolva com os misso com uma classe social.
fatos estudados. Para isso, é preciso considerá-los Para Weber, é necessário separar o conhecimen-
como coisas exter nas. Essa é a condição para que to científico, resultado de uma investigação cr ite-
o sujeito do conhecimento (o sociólogo) se separe riosa, dos julgamentos morais, ou juízos de valor.
do objeto do conhecimento (os fatos sociais). Segundo ele, a ciência social não deve opinar se o
Para Kar l Marx, entr etanto, essa separação é fenómeno estudado é bom ou mau. Cabe ao cientis-
impossível, pois o cientista social está envolvido t a assumir uma posição de neutralidade: enquanto
pelos fatos sociais desde que nasce. Mais ainda, o fizer ciência, o sociólogo deve deixar de lado suas
sociólogo, como todo ser humano, é produto das preferências políticas e escolhas ideológicas e consi-
relações sociais que o ligam a determinados grupos derar as ações e processos sociais com base em uma
da sociedade. Na concepção mar xista, a sociedade posição de absoluta isenção e imparcialidade.
moderna está dividida em classes, como a burgue- Apesar dessas dificuldades e discordâncias, a
sia e o proletariado, que lutam incessantemente Sociologia é perfeitamente capaz de analisar os
entre s i. Assim, a lu t a de classes, as greves e as fatos sociais com objetividade. É essa possibilida-
revoluções são resultado da divisão da sociedade de que faz dela uma ciência.
em grupos antagónicos. Marx chegou mesmo a 0 primeiro passo para entender a Sociologia - as-
afirmar que a história da humanidade é a histór ia sim como qualquer outra ciência - é o conhecimento
da lut a de classes. de seus conceitos básicos. Eles definem os fenóme-
Dur kheim t in h a uma opinião diametr almen- nos que fazem parte de seu campo de estudo e dife-
te oposta: ele considerava que essas manifesta- renciam a Sociologia das outras Ciências Sociais, pois
ções eram sintomas de uma espécie de "doença" cada uma delas tem seu próprio corpo de conceitos.
da sociedade, que chamou de "anomia". Em seu Como ciência, a Sociologia tem um duplo valor: pode
entender, a anomia ser ia car acter izada pela per- aumentar o conhecimento que o ser humano tem de
da de regras ou de normas corretas de conduta si mesmo e da sua sociedade, e pode contribuir para
social. Na base desse fenómeno h aver ia, por tan- a solução de problemas que os atingem.
t o, um desregramento das relações entre o in d i-
víduo e a sociedade. Uma das manifestações da
anomia ser ia o "antagonismo entre o tr abalho e
o cap it al", ou seja, a lu t a de classes na sociedade
in d u st r ial.
Assim, enquanto Durkheim era um defensor
da ordem social, das ideias de Marx surgiu uma
Sociologia crítica, mais interessada nas mudan-
ças e rupturas no inter ior da sociedade do que na
preservação da ordem estabelecida. Para Marx e
seus seguidores, o cientista social não deveria per-
manecer neutro diante dos conflitos sociais, mas
assumir a defesa dos interesses do proletariado,
classe que para eles seria a portadora das tr ans-
formações sociais necessárias para o advento do
socialismo (veja os capítulos 5, 6 e 7 ) .
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

I • Li v r os su g er i d os
• QUINTANEIRO, Tânia; BARBOSA, M. de Oliveir a; OLIVEIRA, Már cia. Um toque de clássicos. 2. ed . Belo Hor izonte: Editor a
UFMG, 2002.

• MENDRAS, Hen r i. 0 que é Sociologia? São Paulo: Manole, 2004.

• SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 1 3 . ed . Rio de Jan eir o: Recor d, 2006.

• DUPAS, Gilber to. Economia global e exclusão social. 3. ed . São Paulo: Paz e Ter r a, 2 0 0 1 .

—• Fi l m es su g er i d os
• Longe do paraíso, de Todd Haynes, 2003. Mulher branca descobre que o marido é homossexual, apaixona-se por negro, mas
renuncia a esse amor diante da pressão dos habitantes conservadores da cidade onde mora, nos EUA.

• Norma Rae, de Mar tin Rit t , 1979. Em 1978, operários t êxt eis nos EUA se organizam para lut ar por melhores condições
de vid a e de tr abalho.

• Meu nome é Joe, de Ken Loach, 1998. Desempregado alcoólatr a se envolve com assistente social e jun t os enfr entam
tr aficantes de drogas.

• As invasões bárbaras, de Denys Ar can d , 2004. Enquanto nar r a a len t a morte de um homem, o filme faz uma cr ítica às
instit uições dos países ricos.

• Segunda-feira ao sol, de Fernando Leon de Ar anoa, 2003. Sobre grupo de trabalhadores desempregados na Espanha
contempor ânea.

• Tiros em Columbine, de Michael Moore, 2002. No Colorado, EUA, dois estudantes matam doze colegas e um professor.
Documentár io.

• Uma verdade inconveniente, de Davis Guggenheim, 2006. Documentár io apresentado por Al Gore, ex-vice-pr esidente
dos EUA, sobre o efeito estufa e a ameaça ambient al.

Tr ab al h an d o com f i l m es
Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados. Depois, façam um
debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de fato social? Quais são elas e como aparecem no filme?

• Há r efer ências ao conceito de ação social? Sob que formas se manifesta a ação social nesse filme?

• Há r efer ências à noção de anomia? Quais são elas e como aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as

1 . Cite exemplos de dois fatos sociais que não sejam os apresentados no capítulo, explicando
suas car acter ísticas.
2 . Explique uma das contr ibuições de Durkheim para a análise dos fatos sociais e sua
conceituação de Sociologia.

3. Explique o conceito de ação social em Max Weber.


4 . Quais são as diferenças entre Durkheim e Weber em relação ao método em Sociologia?

5 . Qual é a diferença entre Marx e Weber a respeito da neutralidade do cientista social?

34
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

TEXTO 1

A desigualdade segundo Rousseau


O século XVIIIfoi m arcado na Europa ocidental pelo Ilum inism o, m ovim ento gue se opunha ao absolutism o
dos reis e ao m isticism o religioso, valorizando a ciência e as "luzes da razão" contra a ignorância e o obscurantism o.
Um dos m aiores pensadores desse período foi o suíço Jean-Jacgues Rousseau (i7t2-t7H4), gue viveu boa parte de
sua vida na França. Seu pensam ento teve forte influência entre alguns líderes da Revolução Francesa ( í 7 8 9 ) .
No texto gue você vai ler agora, escrito em 1755, Rousseau analisa as origens das desigualdades existentes na
sociedade de sua época. Observe gue ele se refere a um "estado natural" entre os seres hum anos antes da form ação da
sociedade. Essa ideia de um estado de natureza era com um entre os pensadores da época. Segundo eles, a sociedade
teria surgido guando, por razões de segurança, para proteger-se dos riscos gue corriam diante da natureza hostil,
as pessoas se reuniram e decidiram constituir-se em um Estado com governo próprio. Para Rousseau, esse m om ento
está relacionado com o nascim ento da propriedade privada e das desigualdades sociais.

Eu concebo na espécie humana dois t i- sassinatos, misérias e horrores teria poupado


pos de desigualdade: uma, que chamo natural ao géner o humano aquele que, retirando as
ou física, porque foi estabelecida pela nature- estacas ou entulhando o fosso, tivesse gritado
za, e que consiste na diferença das idades, da aos seus semelhantes-. "Guar dai-vos de escutar
saúde, das forças corporais e das qualidades esse impostor! Estais perdidos se vos esque-
do espírito ou da alma,- outra, a que se pode ceis de que os frutos a todos pertencem e de
chamar de desigualdade moral ou política, pois que terra não é de ninguém!".
que depende de uma espécie de convenção e Porém, é por demais evidente que, àquela
foi estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo altura, as coisas já tinham chegado a ponto de
consentimento dos homens. Consiste esta nos não poderem mais durar como duravam: por-
diferentes privilégios desfrutados por alguns que essa ideia de propriedade, dependendo de
em prejuízo dos demais, como o de serem mais um sem-número de ideias anteriores, que não
r icos, mais respeitados, mais poderosos que es- puderam nascer senão sucessivamente, não se
tes, ou mesmo mais obedecidos. formou de repente no espírito humano. Foi
Nã o há por que perguntar qual é a fonte preciso conseguir muitos progressos, adquirir
da desigualdade natural, já que a resposta se muita indústria e muitas luzes, transmiti-los e
encontra enunciada na simples definição do aumentá-los, antes de se chegar ao fim do esta-
termo. Ainda menos se pode procurar qualquer do natural. Retomemos, pois, as coisas de mais
ligação essencial entre as duas desigualdades, longe e tratemos de reunir sob um único ponto
porque seria indagar, em outros termos, se os de vista essa lenta sucessão de acontecimentos
que dirigem valem necessariamente mais que e conhecimento na sua ordem mais natural.
aqueles que obedecem, e se a força do corpo O primeiro sentimento do homem foi
ou do espírito, a sabedoria ou a vir tude, são o da sua existência,- o pr imeir o cuidado, o da
sempre encontradas nos mesmos indivíduos na sua conser vação. Os produtos da terra lhe
proporção do poder ou da riqueza [...]. forneciam todos os auxílios necessários,- o
O primeiro que, cercando um ter r eno, instinto o levou a servir-se deles. A fome e
se lembrou de dizer : "Isto me pertence", e outros apetites fizeram-no experimentar, al-
encontrou criaturas suficientemente simples ternadamente, diversas maneiras de existir, e
para acreditar, foi o verdadeiro fundador da houve um apetite que o convidou a perpetuar
sociedade civil. Quantos cr imes, guerras, as- a própria espécie [...].
CAPITULO 2 Princípios de Sociologia

Tal foi a con dição do homem no co- voluções, o melhor para o homem, do qual não
meço,- tal foi a vida de um animal, de início deve ter ele saído senão em virtude de algum
limitado às puras sensações, que aproveitava acaso funesto que, para o bem comum, jamais
apenas os dons que a Natur eza lhe ofer ecia, devia ter ocorrido. O exemplo dos selvagens,
longe de sonhar em extr air -lhe algo. Todavia, quase todos encontrados nesse ponto, parece
cedo se apresentaram dificuldades e foi pre- confirmar que o género humano estava feito
ciso aprender a vencê-las: a altura das ár vo- para nele permanecer sempre, que tal estado é
res que o impedia de alcançar -lhe os frutos, a a verdadeira juventude do mundo, e que todos
concor r ência dos animais que deles buscavam os progressos posteriores foram, na aparência,
nutrir-se, a ferocidade dos que pretendiam sua passos na direção do aperfeiçoamento do indi-
própria vida. Tudo isso o obrigava a exer citar víduo, mas, na realidade, no sentido da degra-
o corpo,- foi necessário fazer-se ágil, rápido na dação da espécie humana.
cor r ida, vigoroso no combate. [...] Enquanto os homens se contentaram
Contudo, é preciso assinalar que, uma vez com suas cabanas rústicas, enquanto se limita-
começada a sociedade, as relações já estabele- ram a costurar as vestes de pele com espinhos,
cidas entre os homens exigiam deles qualidades a adornar-se de penas e conchas mar inhas, a
diferentes das que eles possuíam de sua consti- pintar o corpo com tintas de diversas cores, a
tuição primitiva,- que, começando a moralida- aperfeiçoar e embelezar os arcos e as flechas, a
de a introduzir-se nas ações humanas, e sendo talhar, com a ajuda de pedras cortantes, algu-
cada qual, antes das leis, o único juiz e vingador mas canoas de pescadores ou alguns grossei-
das ofensas recebidas, a bondade conveniente ros instrumentos musicais [...], viver am livr es,
ao estado natural puro não mais convinha à sãos, bons e felizes, tanto quanto o podiam
nascente sociedade,- que se fazia preciso que as ser por sua natureza, e continuaram a desfru-
punições se tornassem mais severas, à medida tar entre si de um comér cio independente.
que as oportunidades de ofender aumentavam Mas, desde o instante em que um ho-
de frequência,- e que, devido ao terror da vin - mem teve precisão da ajuda de outrem, desde
gança, se fazia necessário o freio das leis. que percebeu ser conveniente para um só ter
Assim, embora os homens tivessem se alimentos para dois, a igualdade desapare-
tornado menos tolerantes e a piedade natural ceu, introduziu-se a propriedade, o trabalho
tivesse sofrido alguma alter ação, esse per íodo tornou-se necessário e as vastas florestas se
do desenvolvimento das faculdades huma- mudaram em campos risonhos que passaram
nas, sustentando um justo meio-termo entre a ser regados com o suor dos homens, e nos
a indolência do estado pr imitivo e a petulan- quais logo se viu a escravidão e se viu a misé-
te atividade de nosso amor -pr ópr io, deve ter ria germinar e crescer com as colheitas.
sido a época mais feliz e mais durável. Ad a p t a d o d e : R O U S S E A U , Je a n - Ja c q u e s . D i s c u r s o s o b r e a
o r i g e m e o s fu n d a m e n t o s d a d e s i g u a l d a d e e n t r e o s h o m e n s .
Quanto mais nisto se pensa, mais se reco- I n : R O U S S E A U . O contrato social e outros escritos.
nhece que esse estado era menos sujeito às re- Sã o P a u lo : Cu l t r i x, 1 9 6 5 . p . 4 6 - 7 .

ré Pen se e r esp o n d a
1 . Em que consistem as duas desigualdades entre os seres humanos para Rousseau?
2 . Segundo Rousseau, como viviam os seres humanos antes de surgirem as desigualdades
sociais?
3. De que forma teve in ício, de acordo com Rousseau, o processo que instalou as
desigualdades sociais entre os seres humanos?

36
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

TEXTO 2

• conceit o de consciência coletiva


Segundo Durkheim , "para gue exista o fato social épreciso gue pelos m enos vários indivíduos tenham m isturado
suas ações, e gue dessa com binação tenha surgido um produto novo". Esse produto novo, constituído por form as
coletivas de agir e pensar, se m anifesta com o um a realidade externa às pessoas. Ele é dotado de vida própria, não
depende de um indivíduo ou outro. No texto a seguir, Durkheim aborda um a das expressões dessa realidade externa,
a "consciência coletiva".

O conjunto de crenças e de sentimentos uma palavra, todas as funções especiais são de


comuns à média dos membros de uma mes- ordem psíquica, posto que constituem sistemas
ma sociedade forma um sistema determinado de representação e de ações: entretanto estão
que tem sua vida própria,- pode-se chamá-lo evidentemente fora da consciência comum.
de consciência coletiva ou com um . Sem dúvida, ela Para evitar a confusão que se tem come-
não tem por base um único órgão,- ela é, por tido, talvez fosse melhor cr iar uma expressão
definição, difusa em toda a extensão da socie- técnica que designasse especialmente o con-
dade,- mas não tem menos caracteres específi- junto de similitudes sociais. Nã o obstante,
cos que a tornem uma realidade distinta. como o emprego de um termo novo, quan-
Com efeito, ela não depende das condi- do não é absolutamente necessário, tem seus
ções particulares em que se encontram os indi- inconvenientes, reservamos a expressão mais
víduos,- estes passam [ou seja, nascem, vivem e usada de consciência coletiva ou comum, mas
morrem],- ela permanece. É a mesma no Norte relembrando sempre o sentido restrito em
e no Sul, nas grandes e nas pequenas cidades, que a empregamos. [...]
nas mais diferentes profissões. Da mesma for- Existe uma coesão social cuja causa
ma, não muda a cada geração mas, ao contrário, está numa certa conformidade de todas as
enlaça umas às outras as gerações sucessivas. consciências particulares a um tipo comum
Ela é portanto uma coisa inteiramente di- a todas elas, que não é senão o tipo psíqui-
ferente das consciências particulares, ainda que co da sociedade. Nessas condições, não so-
não se realize senão nos indivíduos. Ela forma mente todos os membros do grupo são indivi-
o tipo psíquico da sociedade, tipo que tem suas dualmente atraídos uns pelos outros porque
propriedades, suas condições de existência, seu se assemelham, mas são ligados também pela
modo de desenvolvimento, tal como os tipos con dição de existência desse tipo coletivo, ou
individuais, ainda que de uma outra maneira. seja, a sociedade que eles formam mediante
Assim sendo, tem o direito de ser designada por sua r eunião. Os cidadãos não apenas se que-
um termo especial. Aquele que empregamos aci- rem e se procuram entre si de preferência aos
ma não está isento por certo de ambiguidades. estrangeiros, mas também amam sua pátria.
Como os termos coletivo e social são mui- Eles querem-na como a si mesmos, esfor çam-
tas vezes confundidos um com o outro, somos se para que ela sobreviva e prospere [...].
levados a crer que a consciência coletiva é toda Inversamente, a sociedade toma pr ovi-
a consciência social, ou seja, estende-se tanto dência para que eles apresentem todas essas
quanto a vida psíquica da sociedade. Entretanto, semelhanças fundamentais porque isso é uma
sobretudo nas sociedades superiores, só ocupa con dição de sua coesão.
uma parte muito restrita. As funções judiciárias, Ad a p t a d o d e : D U R K H E I M , Ém i l e . I n : R O D R I G U E S ,
Jo s é Al b e r t i n o . Durkheim. 9 . e d . S ã o P a u l o : Át i c a , 2 0 0 5 .
governamentais, científicas, industriais, em p . 7 4 - 5 . C o l e ç ã o G r a n d e s C i e n t i s t a s So c i a i s .

37
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

•I

- • Pen se e r esp on d a
1 . Que relação pode ser estabelecida entre os conceitos de fato social e de consciência
coletiva formulados por Durkheim?

2 . Procure em um dicionário a palavr a coesão e explique o que Durkheim quer dizer ao falar
de coesão social. Explique também quais são as condições que possibilitam essa coesão.

TEXTO 3

Web er e a ação social


Nem toda espécie de contato entre Nesses casos, um determinado aconte-
os homens é de caráter social, mas somente cimento ou uma conduta humana pode pro-
uma ação, com sentido pr ópr io, dirigida para vocar certas reações — alegr ia, r aiva, entu-
a ação de outros. Um choque de dois ciclis- siasmo, desespero, etc. — que não se dariam
tas, por exemplo, é um simples evento, como no indivíduo isolado. Um a ação desse tipo,
um fenómeno natural. Haver ia ação social na determinada pelo simples fato de ser uma si-
tentativa dos ciclistas se desviarem, ou na br i- tuação de massa, sem que exista uma relação
ga ou consider ações amistosas subsequentes dotada de significado entre o indivíduo e a
ao choque. massa, não se pode considerar como ação so-
A ação social não é idêntica: a) nem a cial na acepção do termo aqui adotada.
uma ação homogénea de muitos, b) nem a
toda ação de alguém influenciada pela con-
Tipos de ação social
duta de outros. A ação social, como toda ação, pode ser:
a) Exemplo de ação homogénea: quando na 1. racional com relação afins-, é a ação d et er m i-
rua, no início de uma chuva, muitas pes- nada por expectativas no compor tamen-
soas abrem seus guarda-chuvas, a ação de to tanto de objetos do mundo exter ior
cada um não está orientada pela ação dos como de outras pessoas, e utilizando
demais, mas a ação de todos, de um modo essas expectativas como "con d ições" ou
homogéneo, está impelida pela necessidade "meios" para alcançar fins pr ópr ios r a-
de se defender da chuva [nesse caso, não há cionalmente avaliados e perseguidos [a
ação social]. ação r acional com r elação a fins é aque-
b) É conhecido que a ação do indivíduo é la na qual uma pessoa planeja o que vai
fortemente influenciada pela simples cir - fazer para alcançar cer tos objetivos,- por
cunstância de estar no inter ior de uma exemplo, alunos que estudam para passar
"massa" de pessoas (por exemplo, em um de ano],-
estádio de futebol),- trata-se, pois, de uma 2. racional com relação a valores-, é a ação deter-
ação condicionada pela massa. Esse mes- minada pela cr ença consciente em valores
mo tipo de ação pode se dar também num éticos, estéticos, religiosos ou de qual-
indivíduo por influência de uma massa quer outra natureza, independentemente
dispersa (por inter médio da imprensa, por de que ela venha a ter êxito [a ação r a-
exemplo), percebida por esse indivíduo cional com relação a valores não mede as
como proveniente da ação de muitos. [...] consequências, mas tem por base certos

38
CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

pr incípios. Por exemplo, alguém que dá ver, a dignidade, a beleza, a sabedor ia r eli-
tudo o que tem a uma instituição de car i- giosa, a piedade ou a impor tância de uma
dade, sem se preocupar com o fato de que, "causa" parece lhe ordenar.
agindo assim, possa cair na pobreza],- Age racionalmente com relação a fins
3. afetiva-. é a ação deter minada por afetos e aquele que orienta sua ação conforme o fim,
estados sentimentais [a ação afetiva en- avalia racionalmente os meios relativamente aos
volve em oções, como na família, ou na fins, os fins com relação às consequências impli-
r elação entre a multidão e um íd olo, seja cadas e os diferentes fins possíveis entre si.
ele um cantor de r ock ou um líder r e li- A or ientação r acional com relação a va-
gioso],- lores pode estar em relação muito diversa no
4. tradicional: é a ação determinada por um que diz respeito à ação r acional com relação a
costume arraigado [a ação tr adicional se fins. [Par a uma pessoa que age racionalmente
baseia nos costumes e hábitos seguidos em relação a fins, a ação racional em relação
pelo grupo social,- isso ocorre em situações a valor es] é sempre ir r acional, acentuando-se
nas quais a pessoa age de determinada for- esse caráter à medida que o valor que a move
ma porque seus pais ou avós agiam da mes- se eleve à significação de absoluto, porque
ma maneir a]. quanto mais confere caráter absoluto ao valor
A ação orientada racionalmente com próprio da ação, tanto menos reflete sobre as
r elação a valores e a ação afetiva têm em co- suas consequências.
mum o fato de que o sentido da ação não r e- Raras vezes a ação, especialmente a so-
side no resultado, mas na própria ação. Age cial, está exclusivamente orientada por uma
afetivamente quem satisfaz sua necessidade ou outra dessas modalidades [ou seja, na vida
atual de vingança, de prazer ou de entrega, r eal, aspectos de um tipo de ação se misturam
de beatitude contemplativa ou de dar vazão a com aspectos de outras ações,- Weber afirma-
suas paixões do momento. va que, na vida social, essas ações nunca ocor-
Age de modo estr itamente r acional rem de forma pur a].
com r elação a valor es quem, sem consider ar Ad a p t a d o d e : W E B E R , M a x . A ç ã o s o c i a l e r e l a ç ã o s o c i a l .
I n : F O R A C C H I , M a r i a l i c e e M A R T I N S , Jo s é d e So u z a
as consequências pr evisíveis, se compor ta ( o r g s . ) . Sociologia esocieàaâe. R i o d e Ja n e i r o : Li v r o s
segundo suas con vicções sobre o que o de- T é c n i c o s e Cie n t ífic o s , 1 9 7 7 . p . 1 3 9 - 4 2 .

—• Pen se e r esp o n d a
1 . Cite dois exemplos de cada um dos tipos de ação social analisados no texto e que não sejam
citados por Weber.

2 . Quais são as diferenças entre a ação r acional em relação a fins e a ação r acional em relação a
valores?

3. A ação de um místico r eligioso, como por exemplo Antônio Conselheiro, que atuou no sertão
da Bahia reunindo milhares de sertanejos e provocando a Guerra de Canudos contra tropas
do Exército (1896-1897), pertence mais à categoria de ação r acional em relação a fins, ou às
de ação afetiva, ação r acional em relação a valores e ação tr adicional? Explique sua resposta.

4. E a ação dos políticos no Br asil at ual, como você a classificar ia nos termos de Weber?
Explique sua resposta.

39
Viver e
sociedade
Vimos no capítulo 1 que indivíduos criados fora da con-
vivência humana, isolados da vida social desde a infância, não
desenvolvem comportamentos humanos. Para que isso ocorra é
necessário o convívio com o grupo. A partir dele é que os seres
humanos se articulam e estabelecem formas de interação, co-
municação e cooperação. Esse processo de interação e adapta-
ção da pessoa ao grupo social ao qual está ligada é conhecido
como s ocia liza çã o. É por meio da socialização que o indivíduo
assimila o comportamento social aprovado pelo grupo, apren-
dendo assim a ser parte integrante da sociedade. Dessa forma,
a socialização consiste basicamente em um processo de apren-
dizagem. A criança torna-se socializada quando passa a ter um
comportamento socialmente aceitável pelo grupo e aprende a
se comunicar com os outros, interagindo com eles.

1 ^

Tm
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

IMAGEM e SOCIEDADE

Quat r o m oças de d i f er en t es or i g en s
en con t r am - se em um a p r ai a.

Obser ve e r esp on d a:

1 . Segundo o que foi visto no capítulo 2 sobre a Sociologia Compreensiva de Max Weber,
pode-se dizer que a foto registra uma ação (ou interação) social? Explique sua resposta.

2 . Não podemos saber por que as moças estão r indo, mas podemos considerar a cena do
ponto de vist a sociológico. Para você, que significado sociológico pode ter esta cena?

41
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

0 pape l da socialização

Os seres humanos necessitam de seus seme- A pessoa se socializa quando par ticipa da
lhantes para sobreviver, comunicar-se, criar sím- vida em sociedade, assimila suas normas, valores
bolos e formas de expressão cult ur al, perpetuar a e costumes e passa a se comportar segundo esses
espécie e se r ealizar plenamente como indivíduos. valores, normas e costumes. "0 foco centr al do
É na vida em grupo que as pessoas se tornam r eal- processo de socialização - afirmam os sociólogos
mente humanos. Talcott Parsons e R. Bales - está na interiorização
A sociabilidade, capacidade n at u r al da espé- da cultur a da sociedade na qual a criança nasce".
cie humana para viver em sociedade, desenvol- Ou seja, a socialização é um processo pelo qual o
ve-se pelo processo de socialização. Por meio da mundo social, com seus significados, hábitos de
socialização a cr iança se integr a pouco a pouco vida e valor es, penetra na mente da criança e pas-
ao grupo em que n asceu, assimilando o conjunto sa a fazer parte de seu mundo inter ior .
de hábit os, regras e costumes car acter ísticos de Isso significa que a socialização var ia de so-
seu gr upo. Nas palavr as dos sociólogos Br igit t e ciedade para sociedade, ou mesmo de um grupo
Berger e Peter Berger, a socialização "é o proces- social para outro dentro da mesma sociedade. Pois
so pelo qual o indivíduo aprende a ser membro certos valor es, símbolos e significados sociais in -
da sociedade". teriorizados por uma criança fazem parte apenas

Dois h om en s, duas
m u l h er es e um a cr i an ça
m assai , povo do l est e
da Áf r i ca, com suas
i n d u m en t ár i as co l o r i d as.
Obser ve o l ó b u l o das
or el h as dos h om en s. Essa
f or m a de se v est i r e de
cob r i r o cor p o com con t as
de cor es f or t es é t íp i ca
da cu l t u r a desse povo, de
seu s h áb i t os soci ai s e de
seu con cei

42
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

da cultura do grupo ao qual ela pertence,


ou da sociedade em que ela vive. 0 cos-
tume pelo qual as mulheres usam um véu
para cobrir o rosto em lugares públicos, por
exemplo, é uma das características de cer-
tas sociedades de maioria muçulmana do
Oriente Médio. Em contraste com ele, saias
curtas e decotes acentuados fazem parte
dos hábitos das sociedades ocidentais.
Essas diferenças entre os valores e
costumes entre dois tipos de sociedade
fazem parte da diversidade humana e
devem ser consideradas como caracterís-
ticas a serem analisadas, sem que sobre
elas se queira estabelecer juízos de valor.
Ou seja, não se tr ata de julgar se certos
costumes são bons ou maus, mas de in -
ter pr etá-los sociologicamente como parte
de cultur as difer entes.

TRIBOS NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

C om a globalização e o advento de novas


tecnologias de comun icação, o tempo
como a indumentár ia, o cor te de cabelo, ou
por uma linguagem pr ópr ia do gr upo.
histór ico se acelerou e profundas transforma- Novas tribos também estão surgindo
ções começar am a ocor r er em todas as esferas com base no desenvolvimento da informática e
da sociedade (veja o boxe a seguir e leia o da rede de computadores. São as comunidades
verbete globalização no Dicion ár io Básico de eletrônicas ou virtuais que habitam o ciberespa-
Sociologia, no fim do livr o). ço e inauguram um novo tipo de sociabilidade.
Nesse contexto de rápidas mudanças, Esses grupos virtuais surgem como ex-
novas formas de sociabilidade emergem no sé- pressão de uma nova cultur a (ciber cultur a),
culo XXI . Nos grandes centros urbanos, o tr i- que nasce da união entre a sociabilidade pós-
balismo se tornou uma das formas de expressão moderna e os avanços da micr oeletr ônica. ( A
dos novos tipos de sociabilidade. (A palavra expressão pós-moder nidade tem sido utiliza-
tribalismo está sendo aqui utilizada em sentido da para designar a cultura contempor ânea, em
amplo, que ultrapassa o sentido comum, ligado oposição à modernidade, que teve início no
à ideia de sociedades indígenas.) século XV e perdurou até a segunda metade
Exemplos desses novos grupos são do século XX. Procure mais infor mações no
os punks, os sur fistas, os skinheads, as t or ci- Dicion ár io Básico de Sociologia, no fim do
das or ganizadas de futebol e as gangues da livr o.) Caót icas, desordenadas e sem nenhum
per ifer ia ur bana. Eles se reúnem em tor no contr ole exter no, essas redes vão se desenvol-
de afinidades ou interesses m om en t ân eos, e vendo por todo o mundo e inaugurando um
se identificam por algum aspecto ext er n o, novo tipo de sociabilidade.

43
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

ippj O que é?
Globalização

A par tir das últimas décadas do século XX, da: as 447 pessoas mais r icas desses países
teve início no mundo um processo de tr ansfor - t êm uma r enda equivalente à de 2,8 bilhões
mações que levaram à abertura dos mercados, de pobres espalhados pelo mundo.
à intensificação do comércio mundial, à for- Nos próprios países desenvolvidos, vêm
mação de blocos económicos de países de uma aumentando as desigualdades entr e r icos e
mesma região e à circulação instantânea de pobres. Segundo a economista Laur a Tyson ,
capitais de um país para outr o. Tudo isso foi da London Business School, um dos maiores
acompanhado e estimulado por uma revolução problemas da globalização é a t en d ên cia, do-
tecnológica liderada pela infor mática e pela minante nos países ricos, de crescimento da
formação de redes de comunicação ligando par cela do PIB (Produto In t er n o Br ut o) r ela-
entre si os computadores de todo o mundo. A t iva aos lucr os, acompanhada da queda r efe-
mais conhecida dessas redes é a inter net. Para r ente aos salár ios. Ela afir ma que apenas os
alguns estudiosos, o início desse processo, co- 10% mais r icos da população nor te-amer ica-
nhecido como globalização, foi marcado pela n a t êm se beneficiado com a globalização.
extinção da antiga União Soviética em 1991 e
pelo surgimento da inter net anos antes. Va m o s p e n sa r ?
A globalização causou um enorme im -
pacto n a economia mundial e t ambém n a Reúna-se com seus colegas de grupo. Juntos,
vid a cu lt u r a l de diver sos países. Considerado façam uma pesquisa sobre outros aspectos da
em seu con jun t o, o mundo ficou mais r ico. globalização não abordados aqui. Consultem
En t r et an t o, no que se refere à distr ibuição para isso sites da internet, revistas e jornais.
da r iqu eza, ela con t r ibuiu par a acentuar Assistam ao filme Encontro com Milton
ainda mais as desigualdades entr e os países Santos: o mundo global visto do lado de cá,
r icos e os países pobres. Por exemplo: em de Sílvio Tendler, 2007 (veja a seção Filmes
1960, as pessoas mais r icas do mundo, qua- sugeridos no fim do capítulo) e leiam o livro
se todas concentr adas nos países desenvol- Economia global e exclusão social, de Gilberto
vidos - Estados Unidos, Alem an h a, Ja p ã o , Dupas, editora Paz e Terra. Feita a pesquisa,
In gla t e r r a , et c. - , ganhavam 30 vezes mais debatam o tema no grupo e escrevam um
do que as mais pobr es; em 2000, a difer ença texto com as conclusões do debate.
aumentou par a 90 vezes. Mais chocante a in -

Contatos sociais: onde começa a interação

Ao dar uma aula, o professor entr a em conta- participam de um contato social. A convivência
to com seus alunos. 0 cliente e o vendedor de uma humana pressupõe uma grande variedade de tipos
loja estabelecem contato na hora da venda de uma de contatos sociais. Você mesmo pode se relacio-
mercadoria. Duas pessoas conversando também nar de diversas formas, a começar pela maneira

44
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

como adquir iu este livr o ou pelos contatos sociais plos: o contato do passageiro com o cobrador do
que manteve para chegar até a atual etapa de sua ônibus para pagar a passagem; o contato do cliente
educação for mal. com o caixa do banco para descontar um cheque.
0 contato social está na origem da vida em São também considerados secundários os contatos
sociedade. É o primeiro passo para que ocorra qual- impessoais mantidos por meio de car t a, telefone,
quer associação humana. Por meio dele, as pessoas telegrama, e-mail, etc.
estabelecem relações sociais, criando laços de iden-
tidade, formas de atuação e comportamento que O lavrador e o em pr esár io
são a base da constituição dos grupos sociais e da É importante destacar que as pessoas que
sociedade. têm a vida baseada mais em contatos primários
Para alguns autores, como os sociólogos nor- desenvolvem personalidades diferentes daquelas
te-americanos Park e Burgess, "o contato pode ser que têm uma vida com predomínio de contatos
considerado o estágio in icial da interação social, secundár ios.
preparatório para estágios posteriores". Já outros A personalidade de um lavrador, por exem-
pensadores, mais próximos da definição de ação plo, é bem diversa da de um empresário urbano.
social formulada por Max Weber (veja o capítulo 0 lavrador vive em geral num mundo comunitá-
2 ) , afirmam que contato social é o encontro de rio, onde quase todas as pessoas se conhecem e
pessoas que se relacionam umas com as outras em executam as mesmas atividades. Mantém relações
termos de atitudes e valor es. familiares e de vizinhança muito fortes e em sua
Os contatos sociais podem ser primários ou comunidade há um padrão de comportamento bas-
secundár ios. tante uniforme. Não há mudanças sociais signifi-
Contatos sociais p r im ár ios. São os contatos cativas no decorrer de sua vida e ele viver á, prova-
pessoais, diretos, e que têm uma forte base emocio- velmente, da mesma forma que seus pais.
n al, pois as pessoas envolvidas compartilham suas Já o empresário estabelece um número mais
experiências individuais. São exemplos de contatos amplo e complexo de contatos sociais: com seus em-
sociais primários: os familiares (entre pais e filhos, pregados, seus clientes, sua família, seus vizinhos,
entre irmãos, entre marido e mulher ); os de vizi- com outros empresários, etc. A maior parte desses
nhança; as relações sociais na escola, no clube, etc. contatos é impessoal, formal e momentânea.
As primeiras experiências do indivíduo se fazem 0 mundo do lavrador é estável, pouco se mo-
com base em contatos sociais primários. difica com o tempo. Em contr apar tida, o universo
Contatos sociais s e cu n d á r ios . São os con- do empresário está em permanente mudança, sem-
tatos impessoais, calculados, formais. Dois exem- pre com novos desafios. Com a industrialização e

Cr ian ças
i n t er ag em em
escol a p ú b l i ca de
New Hav en , nos
Est ados Un i d o s.
Os con t at os
soci ai s v er i f i cad o s
nos p r i m ei r os
an os da i n f ân ci a
são f u n d am en t ai s
par a a soci al i zação
e para a f or m ação
da p er son al i d ad e
dos i n d i v íd u o s em
soci ed ad e.
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

a consequente ur banização, diminuíram os grupos necessariamente proximidade afetiva. Essa falta de


de contatos primários, pois na cidade predominam afetividade reforça o individualismo e estimula os
os contatos secundár ios. conflitos. Um exemplo disso são as brigas frequentes
Nos grandes centros urbanos, as relações h u - no trânsito, muitas delas com desfecho violento.
manas tendem a ser mais fragmentadas, dinâmicas No boxe a seguir, você vai conhecer uma for -
e impessoais, caracterizadas por um forte indivi- ma de vida em que os contatos primários são p r i-
dualismo, pois a proximidade física não significa vilegiados pelos indivíduos.

AMISH VIVEM SEM T \ CARRO E TELEFONE


ocê já assistiu ao filme A testemunha, de energia elétrica em casa (e, portanto, sem televisão, rá-
Peter Weir , com Har r ison Ford no papel dio, aparelhos de som ou com putadores).
pr incipal? Se não viu , leia as referências na Pacifistas, os hom ens jam ais se alistam no Exér-
seção Film es sugeridos, no fim do capítulo, e vá cito, e sem pre usam barba depois gue se casam . Vestem -
correndo a uma locador a. Ele conta a história se, todos, com ternos pretos. As m ulheres usam vestidos
de um detetive estadunidense que, à procura pretos com aventais coloridos, sem estam pas e estão sem -
de um cr iminoso, acaba descobrindo uma co- pre com um capuz gue cobre o cabelo preso. As crianças
munidade que vive como se estivesse no sé- tam bém usam roupas pretas efreguentam escolas am ish,
culo XVI I . Comunidades assim existem r eal- onde aprendem o básico das línguas inglesa e alem ã, além
mente nos Estados Unidos e em outras partes de religião e m atem ática, o suficiente para ajudar no co-
do mundo. Seus integrantes são conhecidos m ércio. Tudo condensado em oito anos.
como am ish. Em setem bro de 2 0 0 6 , um a escola am ish no estado
Um a delas fica a poucas horas de carro de Nova da Pensilvânia foi atacada por um hom em arm ado, gue
York. É um a com unidade rural de 20 m il pessoas gue m atou cinco m eninas de m enos de doze anos. Depois da
vivem sem telefone, energia elétrica, TV e seguem as m es- chacina, o hom em , gue não pertencia à com unidade am ish,
m as tradições e crenças gue cultivam há guatro séculos. se suicidou.
Os am ish são um grupo religioso cristão originado dos Ad a p t a d o d e : Folha Online, 1 9 .9 .0 5 , d i s p o n í v e l e m h t t p :/ /

anabatistas, um a seita protestante surgida no século w w w 1 fo l h a .u o l .c o m .b r / fo l h a / t u r i s m o / n o t i c i a s / u l t 3 3 8 u 5 2 8 9 .


s h t m l , a ce s s o e m 1 2 .4 .0 6 , e h t t p :/ / n o t i c i a s .u o I.c o m .b r / u It n o t /
XVI, na região da Alem anha atual. Ele écom posto por e fe / 2 0 0 6 / 1 0 / 0 3 / u lt 1 8 0 7 u 3 1 2 8 3 . j h t m , a ce s s o e m 1 1 .1 0 .0 6 .
descendentes de alem ães e suíços gue m igraram para os
Estados Unidos a partir do século XVII. Atualm ente,
bá com unidades am ish espalhadas por cerca de guaren-
ta estados norte-am ericanos.
O estilo de vida dos am ish traduz a sim plicida-
de do grupo, a com ida é sem pre preparada em fogões a
lenha, guardada em geladeiras m ovidas a gás, a roupa,
lavada em m águinas antigas, algum as com m ais de 20
anos. Nenhum a casa pode ter telefone, em bora boje um a
decisão dos bispos tenha perm itido seu uso nas com uni-
dades, desde gue estejam instalados em cabines distantes,
algo com o 50 m etros do prédio principal.
Con d u zi n d o su as car r oças, d oi s casai s am ish
A m aioria da população am ish trabalha na
p ar t i ci p am do en t er r o d e cr i an ças assassi n ad as a
agricultura e na pecuária. Nas estradas, deslocam -se t i r o s em co m u n i d ad e am ish da Pen si l v ân i a, n os
em carroças e tratores puxados por anim ais. Vivem sem Est ados Un i d o s, em f i n s de set em b r o de 2 0 0 6 .

46
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

0 ser humano em condições de isolamento

A ausência de contatos sociais car acter iza o pobres e criando grupos de indigentes despossuídos
isolamento social. As comunidades amish nos Es- de bens materiais e privados de seus direitos mais
tados Unidos, por exemplo, vivem em situação de elementares. Este é o caso dos sem-teto no Brasil
r elativo isolamento social em relação à sociedade (veja o boxe da página seguinte).
nor te-amer icana. Tr ata-se, nesse caso, de um au- Uma atitude de ordem individual que reforça
toisolamento, pois os amish r ejeitam os valores da o isolamento social de uma pessoa é a timidez.
sociedade indust r ial. Segundo o sociólogo Kar l Mannheim, a timidez,
Alguns sociólogos definem o isolamento so- o preconceito e a desconfiança podem levar o in -
cial como um corte t ot al ou par cial dos contatos divíduo a um isolamento semelhante ao dos de-
e da comunicação com os outros. Ele pode envol- ficientes físicos, muitas vezes segregados dentro
ver um indivíduo, um grupo, ou uma sociedade de seu próprio grupo primário (veja o texto de
inteir a em relação a outras sociedades. Em qual- Mannheim na seção Textos complementares no fim
quer caso, existem mecanismos que reforçam esse do capít ulo). Isso porque o tímido tem dificuldade
isolamento. Entre eles, estão atitudes de ordem de se comunicar com o outr o, de estabelecer laços
social e atitudes de ordem in d ivid ual. de convivência e afinidade, o que, de certo modo,
As atitudes de ordem social podem envolver o deixa à margem da sociedade.
diferenças cultur ais, como as de costumes e hábi-
tos de vida, entre dois grupos, ou a impossibilidade Convívio soci al e m udanças
de comunicação em razão das diferenças de língua. As formas de convívio social são muito diver-
Outra causa de isolamento podem ser vários tipos sificadas, pois cada cult ur a, cada sociedade, tem
de preconceito (r acial, religioso, de sexo, e t c) . Um suas regras particulares de convivência humana.
exemplo extremo de preconceito é o antissemitis- Por outro lado, as condições de convivência podem
mo, ou seja, contra os judeus. Tal atitude foi espe- se modificar sob o impacto das transformações so-
cialmente violenta durante a Idade Média e assumiu ciais. A situação da mulher, por exemplo, mudou
proporções de genocídio entre 1933 e 1945 na Ale- radicalmente ao longo das últimas décadas, tanto
manha nazista, onde cerca de 6 milhões de judeus no Br asil quanto em outras partes do mundo.
foram exterminados em campos de concentração.
A Áfr ica do Sul é outro exemplo de país onde,
por várias décadas, imperou uma legislação que
isolava os negros do convívio social com os br an-
cos: o apartheid (palavr a que quer dizer separa-
ção). Durante esse per íodo, a minor ia branca impôs
à maioria negra uma série de restrições, que iam
desde a proibição de casamentos inter -r aciais até
o isolamento dos negros em guetos demarcados e
a atribuição a eles dos trabalhos mais penosos.
Em ambos os exemplos, o isolamento social foi
imposto a um grupo como resultado da intolerân-
cia e do mito da superioridade r acial. Outras cir -
cunstâncias, entretanto, podem gerar novas formas
de isolamento social. As desigualdades sociais, por
exemplo, quando muito acentuadas, tendem a criar
um verdadeiro apartheid social, separando ricos de
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

QUEM SÃO OS SEM-TETO?


m países de grandes desigualdades so- Con fe-
Agueles com m ais anos de estrada, com o os da
ciais, como o Br asil, a extrema pobreza deração Nacional de Associações de Mor ado-
gera formas de segr egação não declarada, que res (Con am ) e da Un iã o Nacional por Mor a-
obrigam os grupos mais excluídos da socidade dia Popular ( UNMP ) travam diariam ente um a luta
a viver em con dições de isolamento social. É política, com atos, abaixo-assinados e projetos de lei,
o que ocor r e, por exemplo, com os sem-teto. em busca de um a nova legislação gue perm ita o direito
Diferentem ente do gue se pode pensar, os sem -teto global, total e irrestrito aos centros urbanos.
vêm da cidade, ou m elhor, das suas porções m ais distan- O Movimen t o dos Tr abalhador es Sem-
tes, m ais invisíveis. São m oradores de cortiço gue dividem -Teto ( MT ST ) se propõe a prom over a organização
guartos m inúsculos na região central, favelados à beira da e a conscientização política em um espaço habitacional
expulsão pelo poder público, donos de casas em loteam en- urbano diferenciado. Presente em três estados brasilei-
tos clandestinos sem água, luz ou esgoto, fam ílias inteiras ros - Pará, Pernam buco e São Paulo -, o MTST faz
gue m oram na casa dos pais ou parentes, ou habitantes da ocupações em terrenos e prédios ociosos (vazios, aban-
periferia gue já não conseguem pagar o aluguel. donados] para im plantar seu projeto. A ideia é m an-
Existem hoje 6,5 m ilhões de fam ílias sem -teto no ter um espaço igualitário, onde os próprios m oradores
país. Dessas, 1,2 m ilhão têm renda de até três salários possam dar aula, adm inistrar a com unidade e cuidar
m ínim os e 3 , 6 m ilhões m oram em casas de parentes ou dos doentes. Um a grande horta com unitária proveria
am igos. Além disso, existem boje to,2 m ilhões de dom i- sustento aos desem pregados, egrandes cooperativas ga-
cílios sem infraestrutura básica no Brasil e 1 , 7 m ilhão rantiriam trabalho para guem precisa.
de habitações precárias. Ad a p t a d o d e : V I A N A , Na t a l i a . Q u e m s ã o o s s e m - t e t o ?. Caros
Amigos, j a n . 2 0 0 3 . Di s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w .p fi I o s o fi a .p o p .
Os m ovim entos de sem -teto buscam cada vez
c o m .b r / 0 4 _m i s c e l a n e a / 0 4 _0 4 _c a r o s _a m i g o s / c a r o s _a m i g o s _
m ais "voltar à cidade", ocupando regiões centrais. I l . h t m . Ac e s s o e m 6 .4 .0 6 .

í Gr upo de m or ador es de rua ( sem - t et o) ocu p a espaço sob v i ad u t o no bair r o de Pi n h ei r os, em São Paulo, 2 0 0 6 .

48
CAPÍ TULO 3 Viver em sociedade

At é o começo dos anos 1930, as mulheres não o caso, entre outr os, de Michelle Bachelet, eleita
podiam votar no Br asil. Esse direito foi conquis- presidente do Chile para o período 2006-2010,
tado por elas em 1932. Da mesma for ma, há cin - Angela Mer kel, pr imeir a-ministr a da Alemanha
quenta anos er a difícil imaginar que as mulheres por escolha do parlamento em novembro de
chegariam a ocupar altos cargos executivos em 2005, e Pr atibha Pat il, eleita para Pr esidência da
grandes empresas ou a governar nações, como é ín d ia em 2007.

Sem comunicação não há sociedade

0 pr incipal meio de comunicação do ser h u - dos tipos móveis de impressão por Gutenber g, no
mano é a linguagem. Por meio dela, os indivíduos século XV, foi outro passo impor tante (for mas de
atr ibuem significado aos sons ar ticulados que impressão também foram inventadas n a China
emitem. Graças à linguagem, podemos t r an smi- vár ios séculos a n t e s ) . Nos séculos XIX e XX as-
t ir pensamentos e sentimentos aos nossos seme- sistimos à cr iação do t elégr afo, do telefone, do
lhan t es, assim como nossas exper iências e des- r ádio, do cinema, da t elevisão, do t elex, da co-
cobertas às gerações fut ur as, fazendo com que municação por sat élit e, do celular e da in t er n et
os conhecimentos adquiridos não se per cam. Veja (outr as formas cer tamente vir ão).
no boxe a seguir o que pode acontecer quando Atualmente, fatos, ideias, sentimentos, a t i-
essa forma básica de comunicação é supr imida do tudes e opiniões são tr ansmitidos inst ant anea-
convívio social. mente para milhões de pessoas na maior parte
Além da linguagem falada, o ser humano de- do planet a, graças a esses meios de comunica-
senvolveu outr as formas de comunicação ao lon - ção. Por essa r azão, já no fim dos anos 1960 o
go da Histór ia. Um grande avanço ocorreu com especialista em comunicação Mar shall McLuhan
o surgimento da escr it a, na Mesopotâmia, por (1911-1980) afir mava que o mundo contempo-
volt a de 4000 a.C. Na Chin a, as pr imeir as t e n t a - râneo é uma aut ênt ica "aldeia global", pois os
t ivas de escr it a datam de 7000 a.C. Já na Am é- meios de comunicação de massa moldam hoje as
r ica , a escr it a foi invent ada pelos olmecas (no ideias e opiniões de grupos cada vez maiores de
México a t u a l) , por volt a de 900 a.C. A invenção indivíduos.

A COMUNI CAÇÃO É VITAL PARA OS SERES HUMANOS

N(região
o século XIII,

hoje ocupada
Frederico
perador do Sacro Im pério
em grande
II (íi94-i25o),
Rom ano-Germ ânico
parte pela
im -

Alem a-
m as gue sob hipótese nenhum a falassem
perto delas. O experim ento fracassou,
crianças m orreram . Assim com o a história de
com elas ou
porgue todas as
Victor
nha), efetuou um a experiência para descobrir gue de Aveyron, narrada no capítulo t, o fracassado ex-
idiom a as crianças falariam guando crescessem , se perim ento de Frederico II m ostra gue a com unicação é
jam ais tivessem ouvido alguém falar, seria o hebraico vital para a espécie hum ana e para o desenvolvim ento
(gue então se julgava ser a língua m ais antiga), o da cultura.
grego, o latim , ou a língua de seus pais?
Ad a p t a d o d e : H O R T O N , P a u l B. e H U N T ,
Deu instruções às am as e m ães adotivas para
C h e s t e r L. Sociologia. S ã o P a u l o : M c G r a w - H i l l d o Br a s i l ,
gue alim entassem as crianças e lhes dessem banho, 1980. p. 7 7 .

49
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

A i n t er n et e a "< aldeia g l ob al "


k.

Há mais de trinta anos, o canadense porando nossas virtudes e nossos defeitos. 0


Marshall McLuhan, um dos principais pre- ciberespaço deu vida à "aldeia global". Ele é
cursores da teoria da comunicação, formu- a alma de um novo mundo em formação.
lou o famoso conceito de "aldeia global". A
Adaptado de : GUIZZO, Érico . Internet. São Paulo: Át i c a ,
"aldeia global" representava a transforma- 1 9 9 9 . p. 4 1 - 2 .

ção do mundo linear, especializado e visual


- criado pela mídia impressa -, num mundo
Pe sq u i se e r e sp o n d a
simultâneo e multissensorial - propiciado
pela mídia eletrônica. Antes, era uma coisa
atrás da outra, uma de cada vez. Hoje, é Utilizando somente sites da inter net,
tudo ao mesmo tempo, em todo lugar. Na procure mais informações sobre Marshall
"aldeia global" tudo se fala, tudo se ouve. McLuhan e suas ideias sobre a "aldeia
global". Caso não disponha de um
A internet criou um novo espaço para o
computador, faça uma pesquisa sobre esse
pensamento, para o conhecimento e para a
tema em livr os, enciclopédias e revistas.
comunicação. Esse espaço não existe fisica-
mente, mas virtualmente. É o ciberespaço. 0 Uma vez obtidas as infor mações, escreva
espaço virtual é formado por cada computa- um texto em resposta à pergunta: Você
dor e por cada usuário conectado nessa imen- concorda com a afirmação de McLuhan
sa rede. segundo a qual o mundo contemporâneo
Não há como escapar. 0 ciberespaço to- é uma aldeia global? Explique sua
mou conta do planeta. Engoliu todos nós resposta.
- pessoas, máquinas e replicantes -, incor-

As m i gr ações em m assa de t r ab al h ad or es de um a r egi ão par a ou t r a do p l an et a em bu sca de m el h or es


o p o r t u n i d ad es de v i d a e de t r ab al h o são um a das car act er íst i cas da g l o b al i zação . Na f o t o , op er ár i os
su l - cor ean os qu e t r ab al h am na Fr ança pr om ovem m an i f est ação por d i r ei t o s t r ab al h i st as d i an t e da sede
da m u l t i n aci o n al Laf ar ge, em Par is, em set em b r o de 2 0 0 7 . Al g u n s d el es segu r am f ai x a com os d i zer es:
" Nó s, t r ab al h ad or es cor ean os, não som os escr avos, som os h u m an os! " .

50
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

Da inte ração à inte ratividade

Na sala de aula, professor e alunos estão em quer parte do mundo; ela tr aduz, par ticular mente,
contato social, estabelecendo formas de comuni- uma qualidade técnica das chamadas "máquinas
cação entre eles e também entre aluno e aluno. Ao inteligentes".
interagirem com o professor, os alunos modificam Em seu livr o Cibercultura (1997), Pierre Lévy
seu comportamento. Também o professor se mo- se refere a diferentes tipos de inter atividade, que
difica: sua explicação da matéria é diferente de vão da mensagem linear à mensagem participati-
uma tur ma para outr a, pois pode precisar se deter va. A mensagem linear se dá por intermédio de
num ponto que para uma classe mostra-se mais meios de comunicação como a impr ensa, o r ádio, a
difícil do que para outr a; pode mesmo mudar de TV, o cinema e até as conferências eletr ônicas.
opinião após uma discussão em classe. Portanto, o A mensagem par ticipativa, por sua vez, é
professor influencia os alunos e é influenciado por aquela que utiliza dispositivos como os videogames
eles. Dizemos, en t ão, que existe entre professor e com um só participante, ou que envolve a comu-
alunos uma interação social. nicação em mundos vir tuais, por meio de redes de
0 aspecto mais impor tante da inter ação so- computadores, onde ocorre a troca de informações
cial é que ela modifica o comportamento dos i n - contínuas. 0 que caracteriza a interatividade é a
divíduos envolvidos, como resultado do contato possibilidade de transformar, ao mesmo tempo, os
e da comunicação que se estabelecem entre eles. envolvidos na comunicação em emissores e recep-
Desse modo, o simples contato físico não é su fi- tores, produtores e consumidores de mensagens.
ciente para que haja inter ação social. Por exem-
plo, se alguém se senta ao lado de outr a pessoa
num ônibus mas não conver sa com ela, não há As r edes de com p u t ad or es p er m i t em hoj e o con t at o '
i n st an t ân eo en t r e pessoas separ adas por m i l h ar es
inter ação social.
de q u i l ó m et r o s e o acesso a m u seu s, ór gãos de
Os contatos sociais e a interação constituem i m p r en sa, b i b l i o t ecas, u n i v er si d ad es e ou t r as f o n t es
condições indispensáveis à associação humana. Os de co n h eci m en t o de p r at i cam en t e t od os os lugar es do
p l an et a. Na f o t o , ad ol escen t e u t i l i za com p u t ad or em
indivíduos se socializam por meio dos contatos e
u m a b i b l i o t eca .
da interação social.
A interação social pode ocorrer entre uma
pessoa e outr a, entre uma pessoa e um grupo ou
entre um grupo e outro. Veja o esquema a seguir.

pessoa • pessoa
pessoa M • grupo
grupo >- grupo

A interação social supõe, assim, a existência


de reciprocidade nas ações entre indivíduos (veja
o conceito de ação social no capítulo 1 ) . Entr etan-
t o, com o desenvolvimento dos meios de comuni-
cação, novos tipos de contato social vêm se afir -
mando. Para explicá-los teoricamente, foi criado o
conceito de interatividade.
Entende-se por inter atividade a tr oca simul-
tânea de informações e o acesso imediato a qual-

51
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

I • Li v r os su g er i d os
• DUBAR, Claude. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

• BORDENAVE, Ju a n . 0 que é comunicação. 7. ed. São Paulo: Br asiliense, 1985. Coleção Primeiros Passos.

• SINGER, Paul. Globalização e desemprego. São Paulo: Contexto, 2003.

• DUPAS, Gilber to. Economia global e exclusão social. 3. ed . São Paulo: Paz e Ter r a, 2 0 0 1 .

—• Fi i m es su g er i d os
• Denise está chamando, de Hal Salwen, 1995. Sobre grupo de jovens que só consegue se comunicar pela int er net ou
pelo celular .

• Um grito de liberdade, de Richar d Attenbor ough, 1987. Líder negro enfr enta o apartheid n a Áfr ica do Su l.

• A testemunha, de Peter Weir, 1985. Em busca de um assassino, policial se envolve com comunidade amish nos Estados
Unidos.

• Mississipi em chamas, de Alan Parker, 1988. Sobre os crimes da Ku Klu x Klan contr a afrodescendentes no Su l dos
Estados Unidos no começo dos anos 1960.

• A fraude, de James Dearden, 1999. Bancário inglês passa a especular na Bolsa de Bangcoc (Tailândia), provocando cr ise
fin an ceir a.

• Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá, de Sílvio Tendler, 2007. Documentár io com o geógr afo
Milton Santos, no qual ele fala de seus estudos sobre a globalização, do ponto de vist a dos países emergentes.

Tr ab al h an d o com f i l m es
Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados. Depois, façam um
debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de comunicação? Quais são elas e como aparecem no filme?

• Há r efer ências ao conceito de socialização? Sob que formas elas se manifestam no filme?

• Há r efer ências à questão do isolamento social? Quais são elas e como aparecem no filme?

• Há r efer ências à globalização? Em caso afir mativo, que conclusões vocês podem tir ar delas?

Qu est ões p r op ost as


1 . Em que tipo de situação social vive um eremita?

2. Cite dois exemplos de ambientes ou de grupos que contribuem ativamente para a


socialização do indivíduo.

3. Cite dois exemplos de contatos primários e dois de contatos secundár ios.

4. Cite um exemplo de interação social que ocorre na família.

5. Explique a diferença entre interação social e inter atividade.

6. Escreva um pequeno texto sobre a impor tância da televisão como meio de comunicação de
massa.

52
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

TEXTO 1

" Cár cer es" sem gr ades


O isolam ento social pode ser im posto pela sociedade a um a pessoa ou a um grupo de pessoas por m eio de
diversos m ecanism os. Um deles, com o vim os, é a segregação - racial, religiosa, social, ou outra gualguer. O
texto a seguir aborda m ecanism os m ais sutis de isolam ento, os "cárceres" gue cerceiam a liberdade e outros
direitos fundam entais, negando-os ao grupo segregado. Alguns desses "cárceres" não têm grades, m as funcionam
com o verdadeiras prisões, nas guais se inspiram .

Na longa história da humanidade, em A ideia do "cárcere" aplica-se igualmente


centenas de países, milhares de pessoas foram às pessoas muito exploradas no seu tr abalho,
encarceradas e submetidas a condições extr e- aquelas que vão para casa apenas para dormir,
madas de maus-tratos. Os aprisionados mais passando o restante de seu tempo em seus
comuns são os cr iminosos, aqueles que come- empregos, sem lazer, diversão e educação.
teram desde pequenos furtos até assassinatos. Nã o seriam também prisioneiras as pes-
Mas há também aqueles que são encar cer a- soas que transformaram suas casas em ver da-
dos pelos chamados "crimes" de opinião - os deiras fortalezas para se defender dos inva-
presos políticos e os perseguidos por opção sores e sequestradores? E também é possível
r eligiosa. aplicar a metáfora da "prisão" às pessoas ví-
A sociedade contempor ânea também timas da ignor ância, sem acesso à educação,
cr iou outros tipos de "encarcerados": são os impossibilitadas de romper com os limites
idosos carentes r ecolhidos em asilos, sem o intelectuais a que estão submetidas?
direito à individualidade e o de r ealizar es- Despojados de sua liberdade também
colhas. Há ainda os deficientes físicos, que, estão povos como os palestinos, os cur dos, os
principalmente por razões de natureza so- arménios e as mulheres de países onde vigor a
cioecon ómica, ficam presos em seus quartos. o fundamentalismo muçulmano, vítimas de
Também não são livres os doentes mentais e violências e guerras que impedem até mesmo
os doentes internados em hospitais por lon- sua saída dos locais de conflitos.
D I M E N S T E I N , Gi l b e r t o e G l A N S A N T l , Ál va r o Cé s a r .
gos per íodos, nem são livres as crianças aban- Quebra-cabeça Brasil - Temas âe cidadania na História do Brasil.
donadas, recolhidas em creches e abrigos. S ã o P a u l o : Át i c a , 2 0 0 3 . p . 1 5 9 .

Pen se e r esp o n d a
1 . De acordo com os autores do t ext o, quais são os "encarcerados" criados pela sociedade
contempor ânea?

2 . Explique, com suas palavr as, o seguinte trecho retirado do texto: "E também é possível
aplicar a metáfora da 'prisão' às pessoas vítimas da ignor ância, sem acesso à educação,
impossibilitadas de romper com os limites intelectuais a que estão submetidas?".

53
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

TEXTO 2

• isolament o social
Nascido em Budapeste, na Hungria, o sociólogo Karl Mannheim (i893-i947) viveu em um dos
períodos m ais conturbados do século XX, tendo dedicado boa parte de sua vida à elaboração da Sociologia
do Conhecim ento. No texto a seguir, ele analisa o fenóm eno do isolam ento social.

O isolam en t o é uma sit u ação m ar gin al na de sua co m u n id a d e ou e n ca r ce r a d o. Co m o


vid a s ocia l. É u m a sit u ação que car ece de co n - co n s e q u ê n cia , o in d ivíd u o p er d er á a p r o t e çã o
tatos sociais. As for mas mais simples de isola- do seu gr u p o.
m e n t o são cr iad as por bar r eir as natur ais co m o O com p or t a m e n t o an t issocial e algumas
as m on t an h as, os mar es in t er ior es, os ocean os ve ze s o desejo de vin ga n ça são u m a con se-
o u os deser tos. Ta n t o gr upos co m o in d ivíd u os q u ê n cia m en t al t íp ica do con fin a m e n t o solit á-
p od em ser isolados e, em am bos os casos, as r io, que é u m a for ma e xt r e m a de e xclu s ã o for -
con s e q u ê n cia s p r in cip a is do isolam en t o são a ça d a . No in ício do s é cu lo XI X, muitas pessoas
in d ivid u a liza çã o e o r et ar d am en t o. b e m -in t e n cion a d a s, in flu en ciad as por con ce p -
Ta n t o os in d ivíd u o s q u a n t o os gr u p o s , çõ e s m or ais e r eligiosas t r a d icion a is , a cr e d it a -
q u a n d o e xclu íd o s d o co n t a t o co m ou t r a s va m que o isolam en t o e a s olid ã o for t alecer iam
pessoas ou gr u p o s , t e n d e m a [...] p e r co r r e r o car át er dos fiéis e facilit ar iam sua co n ve r s ã o .
seu p r ó p r io cam in h o,- a ju st a m -se s om e n t e En t r e t a n t o, as co n s e q u ê n cia s , na m a ior ia
às suas c o n d i ç õ e s p a r t icu la r e s , sem t r o ca r dos casos, er am estados men t ais de m e la n colia ,
in flu ê n cia s e im p r e s s õe s co m ou t r os in d iví- an or m alid ad es sexuais, a lu cin a çõe s e, fr equ en -
d u os ou gr u p os . t em en t e, com p or t a m e n t o a n t issocia l. A e xp li-
Co m o co n s e q u ê n cia da falt a de co n t a - ca çã o par a esse fato é sim p les: ajust amen t o às
t os s o cia is , o in d ivíd u o o u gr u p o d e s co n h e - co n d içõ e s de p r is ion e ir o, par a a m a ior ia dos
ce a e v o lu çã o das ou t r as pessoas ou u n id a d e s in d ivíd u os , im p lica t or n á -los desabituados à
s o cia is . De s s a m a n e ir a , e m e r ge u m fe n ó m e - socied ad e e à vid a s ocia l, e é ju st am en t e isso
n o a que ch a m a m o s e v o lu çã o d e s p r o p o r cio - que causa as atitudes an t issociais.
n a l. O is o la m e n t o e a d is t â n cia aumentam Por is ola m e n t o o r gâ n ico , e n t e n d e m os
as d ife r e n ça s o r igin a is e as in d ivid u a liz a m . o is ola m e n t o que n ã o é p r ovoca d o p or u m a
Pod e -s e o b s e r va r co m o isso a co n t e ce e m im p o s içã o e xt e r n a , mas p or ce r t os d efeit os
co m u n id a d e s r u r a is que s ã o isolad as por o r gâ n ico s do in d ivíd u o , tais co m o a ce gu e ir a
m o n t a n h a s o u p â n t a n o s , co m o t a m b é m e m o u a s u r d e z. A co n s e q u ê n cia essen cia l de tais
in d ivíd u o s que se afast am d os ou t r os e se e x- d e ficiê n cia s é a falt a de cer t as e xp e r iê n cia s
clu e m . Ta n t o as p r im e ir a s co m o os ú lt im o s co m u n s ao in d ivíd u o s a d io. O co m p o s it o r
se t o r n a m "p e cu lia r e s ". a le m ã o Lu d w i g va n Be e t h ove n ( 1 7 7 0 -1 8 2 7 )
e xp r im iu isso m u it o b e m q u a n d o a fir m o u :
Tipos de isolament o social "Min h a su r d e z ob r iga -m e ao e xílio ".
Dis t in gu im o s d ois t ip os p r in cip a is de As co n s e q u ê n cia s das d e ficiê n cia s or -
is ola m e n t o: is ola m e n t o e sp a cia l e is ola m e n t o gâ n ica s s ã o m u it o s e m e lh a n t e s às de ce r t os
o r gâ n ico . O is ola m e n t o esp acial p od e ser e x- p r ob le m a s p s ico s s o cia is , co m o a t im id e z , a
t e r n o, ist o é, u m a p r iva çã o for ça d a de co n t a - d e s co n fia n ça , os s e n t im e n t o s de in fe r io r id a -
t os, co m o a con t e ce q u a n d o a lgu é m é e xp u ls o de o u s u p e r io r id a d e e o p e d a n t is m o . Essa s

54
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

distor ções sociais, quando não são a conse- A timidez, em termos psicológicos, é
quência de um isolamento anterior, acabarão uma espécie de isolamento parcial que decorre
por cr iar um isolamento par cial. da incapacidade de reagir de forma adequada
As consequências de tal falta de expe- em certas esferas da vida. E geralmente conse-
r iência farão com que o surdo, o cego e o tími- quência de um choque físico na infância. Na
do raramente sejam plenamente cor r espondi- maioria das vezes, esse choque ocorre no mo-
dos por pessoas "normais". Farão com que eles mento exato em que a criança deixa a esfera
estejam em posição de inferioridade em toda das relações da família e da vizinhança para
espécie de comunicação pública, com que se penetrar no universo dos contatos secundá-
tornem céticos, desconfiados e irritadiços e, rios. Uma espécie de trauma, uma lesão física,
portanto, que tenham menos possibilidades decorre desse passo, podendo resultar num de-
de escolher amigos e companheiros entre as sequilíbrio cr ónico de personalidade. [...]
pessoas que lhes estão pr óximas. Outr o tipo de isolamento parcial sur-
Pode-se falar em "falta de associação ge quando a habilidade normal em efetivar
por escolha", e o resultado posterior disso é contatos sociais não consegue encontrar o
um número limitado de pessoas com as quais ambiente apropriado para as respostas dadas.
podem desenvolver potencialidades intelec- Para esse caso, podemos dar o exemplo dos
tuais. Tudo isso pode levar à r esignação: o solteirões - o celibato é por vezes consequên-
indivíduo pode perder a esperança de obter cia da timidez.
uma posição normal e um lugar na vida, ou Ad a p t a d o d e : M A N N H E I M , K a r l . I n : C A R D O S O ,
F e r n a n d o H e n r i q u e e I A N N I , O c t á v i o ( o r g s . ) Homem e
tornar-se uma personalidade que aceita o seu
sociedade. 2. e d . S ã o P a u l o : C o m p a n h i a E d i t o r a N a c i o n a l ,
papel de inferioridade imaginár ia. 1965. p . 153-7.

-• Pen se e r esp o n d a
1 . Quais são as pr incipais características do isolamento social?
2 . Como você vê o problema da timidez?

TEXTO 3

0 ser humano massif icado

Um a das grandes contradições da sociedade contem porânea consiste no fato de gue a revolução tecnológica
colocou nas m ãos do ser hum ano m eios de com unicação cada vez m ais sofisticados (redes de com putadores, telefones
celulares, etc), m as isso não tem contribuído para o enriguecim ento dos contatos sociais e das relações hum anas.
Pelo contrário, tem acentuado a tendência à solidão. Essa contradição éagui analisada por Delfim Soares.

O maior instr umento da globalização n icação de massa. A abr angência, exten-


cultur al na sociedade t ecn ológica tem sido são e eficácia dessas redes estão na r aiz das
certamente a expansão das redes de comu- grandes tr ansfor mações ocor r idas na vir ada

55
CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

d o s é cu lo XX. A r e d u çã o d o p la n e t a a u m a a t e n d e r aos o b je t ivo s d essa n o va o r d e m . O


a ld e ia p r o d u ziu u m a ve r d a d e ir a r e vo lu çã o ser h u m a n o d e ixa de ser u m in d ivíd u o e p a s -
e s p a ço -t e m p o r a l. [...] sa a ser ap en as u m a e n t id a d e n u m é r ica , p a r t e
O co n vívio h u m a n o que r esu lt a de co n - de u m a gr a n d e e n gr e n a ge m , d a q u a l é u m
t at os p r im á r ios é a ca r a ct e r ís t ica d om in a n t e s im p le s o b je t o .
das socied ad es p ou co in d u s t r ia liza d a s , das A co m p le xid a d e u r b a n a , a ge n e r a liza -
zon a s r ur ais ou de p equ en os gr up os s ocia is . çã o do a n o n im a t o , o s u r gim e n t o d a s e lva de
A in d u s t r ia liza çã o e a u r b a n iza çã o est abele- p e d r a e a m a s s ifica çã o sã o algun s dos fator es
ce r a m u m m o d o de vid a n o qu al o con t a t o que co n t r ib u e m p ar a a d e s p e r s o n a liza çã o dos
p r im á r io , in t e r p e s s oa l, foi r e d u zid o , fa vor e - in d ivíd u o s . Na socied ad e p ós -in d u s t r ia l, o
ce n d o a ge n e r a liza çã o dos con t a t os s e cu n d á - con t a t o em ger al en t r e as pessoas é apenas
r ios e das r e la çõe s im p e ssoa is. físico,- o s ign ifica d o das in t e r a çõe s sociais
Ob s e r va -s e , a s s im , u m a t e n d ê n cia i n - fica r e d u zid o a seus p a p é is socia is for m ais e
ve r s a en t r e a fo r m a çã o de gr an d es a glom e - suas fu n çõe s p r ofis s ion a is . À m e d id a que os
r ad os p op u la cion a is e o co n vívio humano. con t a t os m e r a m e n t e for m a is se ge n e r a liza m ,
A in s t a u r a çã o d a socied ad e de con s u m o e da e xp a n d e -s e o a n o n im a t o .
socied ad e de massa se co n s t it u i n u m m a r co O h o m e m vive n o m e io da m u lt id ã o ,
d e cis ivo par a o s u r gim e n t o de u m ser h u m a n o mas n ã o co n vive co m n in gu é m , co m o pessoa,-
m a s s ifica d o. a m u lt id ã o nas r u as, o con ge s t ion a m e n t o no
Ne s s e m o d e lo s o cia l, o ser humano t r â n s it o, a m or a d ia e m ap ar t am en t os super -
d e ixa de ser co n s id e r a d o p essoa e p assa a p ost os, as t ur bas nos e s t á d ios e s p or t ivos e os
ser e n ca r a d o co m o m á q u in a d e vo r a d o r a de e n xa m e s h u m a n os nas p r aias sã o m a n ife s t a -
pr odutos, id e ia s ou m e r ca d o r ia s . N ã o se çõ e s socia is fr eq u en t es. Ne la s , r a r a m e n t e se
co n s id e r a m va lo r e s p essoais o u a n s e ios i n - ve r ifica co n vívio humano,- m e s m o as r e la çõe s
d ivid u a is . Po r u m p r oce s s o de co n d icio n a - m ais ín t im a s s ã o , m u it as ve ze s , m e r o co n t a -
m e n t o gr a d u a l ir r e ve r s íve l, v ã o s e n d o de- t o de ob jet os h u m a n os e n ã o r e la çõe s in t e r -
t e r m in a d o s seus a n s e ios , de a co r d o co m as p essoais. Os in d ivíd u o s n ã o se e n ca r a m m ais
n e ce s s id a d e s de r e p r o d u çã o d o s is t e m a . Su a co m o p essoas, mas co m o ob je t os . Ne s s e co n -
p e r s o n a lid a d e va i se t r a n s fo r m a n d o e se u t e xt o , cr e s ce a s e n s a çã o de s o lid ã o .
co m p o r t a m e n t o se a d a p t a n d o n o s e n t id o de Ad a p t a d o d e : S O A R E S , D e l f i m . Cottíratem/ >o, a g o s t o d e 2 0 0 2 .

-• Pen se e r esp o n d a
Reúna-se com seu grupo de colegas e, jun t os, respondam: Quais as pr incipais diferenças de
comportamento entre as pessoas que vivem numa sociedade tr adicional e as que vivem nas
sociedades pós-industriais?
a T

Como f u n ci on a
a sociedade?
Segundo a definição de Thomas Bottomore (veja o capítulo 1),
a sociedade é uma rede de relações entre pessoas, grupos sociais e
instituições. Essa imagem do sociólogo inglês nos transmite a ideia de
um conjunto dinâmico formado pelas relações sociais, que interligam
e envolvem as pessoas em uma permanente troca de contatos sociais.
Isso nos leva também à noção de processo e de transformações ao lon-
go do tempo. Como veremos neste capítulo, os processos sociais podem
contribuir tanto para a coesão da sociedade quanto para a eclosão de
conflitos e enfrentamentos em seu interior. Comte e Durkheim enfati-
zavam a importância da coesão e do consenso na sociedade. Marx, ao
contrário, priorizava o conflito em sua forma de luta de classes. Para
ele, essa luta constituía o verdadeiro motor que move as engrenagens
da História. â
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

IMAGEM e SOCIEDADE \

1 . Em sua opinião, o que pode estar ocorrendo na cena da foto? Você já presenciou cena
semelhante, ou já viu algo parecido em noticiár ios de televisão, no cinema ou em r evistas
e jor nais? Em caso afir mativo, que cena foi essa?

2 . Para você, a cena da foto é algo habitual na nossa sociedade?

58
CAPITULO 4 Como funciona a sociedade?

As relações sociais

Alguns estudiosos definem relação social como das relações de produção, ou seja, das relações de-
a forma assumida pela interação social em cada s i- senvolvidas no processo produtivo, mater ial, da
tuação concreta. Assim, um professor tem um tipo sociedade. Um exemplo típico dessas relações se-
de relação social com seus alunos, a relação peda- riam as que existem entre o dono de uma fábrica e
gógica. Duas pessoas em uma operação de compra seus empregados, ou ainda entre um dono de terra
e venda estabelecem outro tipo de relação social, a e seus arrendatários (pessoas que alugam um lote
relação comercial. As relações sociais podem ainda dessa ter r a e pagam uma quantia regular ao pro-
ser políticas, religiosas, cultur ais, familiares, etc. prietário por esse arrendamento, ou aluguel).
Da mesma forma que a interação social, a r ela- Para Marx, contudo, as relações sociais não se
ção social tem por base um comportamento recípro- restringem ao processo de pr odução. Este último
co entre duas ou mais pessoas. Nos termos de Max constitui a base em que elas se apoiam, mas as r e-
Weber, essa reciprocidade é dotada de um sentido lações sociais são mais amplas. Elas estão também
comum às pessoas envolvidas. Segundo essa defini- na sala de aula, nos laços familiar es, nos vínculos
ção, as relações de autoridade-obediência, por exem- entre as instituições e entre estas e as pessoas,
plo, são relações sociais, pois envolvem pessoas que nos laços de amizade e assim por diante. Dessa
exercem a autoridade e pessoas que obedecem, pois for ma, pode-se dizer, com Thomas Bottomore,
aceitam a autoridade reivindicada pelas primeiras, como vimos na abertura do capítulo, que "a so-
ou se submetem a ela, às vezes a contragosto. ciedade é uma rede de relações entre indivíduos,
Em uma perspectiva diferente, Kar l Marx con- entre grupos sociais e entre inst it uições", ou seja,
siderava que as relações sociais eram decorrentes uma rede de relações sociais.

59
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

Além disso, par a Mar x, essas r elações não de ganhar a vid a , modificam também todas as
são est át icas. Segundo ele, "as r elações sociais r elações sociais" (MARX, K. I n : BIROU, Ala in . Di-
estão intimamente ligadas às for ças pr oduti- cionário das Ciências Sociais. Lisboa: Publicações
vas. Adquir indo novas for ças pr odutivas, os Dom Quixote, 1982, p. 3 5 5 ; par a os conceitos de
homens modificam o seu modo de pr odução, e for ças pr odutivas e modo de pr odução, veja o
modificando o modo de pr odução, o seu modo capítulo 7 ) .

| O que é? ]
A r el ação so ci al em M a x W e b e r

Por "relação" social deve-se entender contrar-se no outro com atitudes completa-
uma conduta de várias pessoas - referida mente diferentes. [Entretanto, mesmo nesses
reciprocamente conforme seu conteúdo sig- casos, existe reciprocidade em relação ao sen-
nificativo, orientando-se por essa reciproci- tido atribuído à ação pelos agentes], na me-
dade [conteúdo significativo é o sentido, ou dida em que o agente pressupõe uma deter-
significado, atribuído pelas pessoas à sua minada atitude de seu parceiro diante dele e
ação. Na relação social existe reciprocidade, nessa expectativa orienta sua conduta, o que
ou seja, cada parte envolvida atribui um poderá ter consequências para o desenrolar
sentido, ou significado, à ação da outra]. da ação e para a configuração da relação.
Um mínimo de reciprocidade nas ações é, Adaptado de : WEBER, Max. Ação s ocial e relação s o cial.
In : FORACCHI, Marialice e MARTINS, Jo s é de So uza ( o rgs .) .
portanto, uma característica conceituai da re-
Sociologia e sociedade. Rio de Jane iro : Livros Té cnicos
lação social. 0 conteúdo pode ser o mais diver- e Cie ntífico s , 1 9 7 7 . p. 1 4 2 -3 .

so: conflito, inimizade, amor sexual, amizade,


piedade, troca no mercado, "ruptura" de um
Vamos pe ns ar?
pacto, "concorrência" económica, erótica ou
de outro tipo, etc. 0 conceito, pois, nada diz
1 . Explique, com suas próprias palavras,
sobre se entre os agentes existe "solidarieda-
o conceito de relação social t a l como
de" ou exatamente o contrário. [...]
foi elaborado por Max Weber.
Não afirmamos de modo algum que num
caso concreto os participantes da ação mu- 2 . Segundo Weber, as partes envolvidas
tuamente referida ponham o mesmo sentido em uma relação social atribuem o
mesmo sentido, ou significado, a
nessa ação, ou que adotem a atitude da outra
essa relação? Explique sua resposta.
parte. 0 que em um é "amizade", "amor",
"piedade", "fidelidade contratual", pode en-

Processos sociais

Os alunos de uma escola r esolvem fazer uma possível porque houve cooperação. A cooper ação
limpeza ger al no salão de festas par a o baile de é um tipo de processo social.
for matur a. Organizam-se, um ajuda o outro e A palavra processo vem do latim procedere, que
logo o tr abalho está acabado. Esse resultado foi significa avançar, progredir. Designa a contínua

60
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

mudança de alguma coisa numa certa direção. Seu


significado, portanto, contém as ideias de tempo
e de movimento, de pequenas alterações em um
fenómeno, de evolução, de mudanças moleculares
que podem levar a transformações mais profundas.
Processo social in dica, assim, interação so-
cial, movimento, evolução, mudança nas relações
sociais e na sociedade. Os processos sociais são as
diversas maneiras pelas quais indivíduos e grupos
atuam uns com os outros, a forma pela qual os
indivíduos se relacionam e estabelecem relações
sociais no transcorrer do tempo.
Qualquer mudança proveniente dos contatos so-
ciais e da interação social entre os membros de uma
sociedade constitui, portanto, um processo social.

Processos associat ivos e dissociat ivos


No grupo social ou na sociedade como um todo,
indivíduos e grupos se reúnem e se separam, asso-
ciam-se e dissociam-se. Dessa forma, os processos
sociais podem ser associativos ou dissociativos.
Os processos associativos estabelecem formas
de cooperação, convivência e consenso no gr u-
po. Geram, por tanto, laços de solidariedade. Já
os dissociativos estão relacionados a formas de

Moças de b i q u i n i se d i v er t em em um a pr aia
en sol ar ad a nos an os 1 9 9 0 . A p el e br anca e os
v est i d os que t u d o en cob r i am saír am de m od a.
Ex alt a- se agor a a n u dez, os cor pos esg u i os, a pel e
dou r ada p el os r aios do so l . Nos t er m os de Ém i l e
Du r k h ei m , a m oda é um f at o so ci al por qu e, al ém de
ex t er n a a cada pessoa con si d er ad a i n d i v i d u al m en t e,
ex er ce um poder coer ci t i v o sobr e el as.

61
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

diver gência, oposição e conflito, que podem se Cooperação


manifestar de modos difer entes. São responsáveis, A cooperação é a forma de interação social na
assim, por tensões no inter ior da sociedade. qual diferentes pessoas, grupos ou comunidades
Os pr incipais processos sociais associativos trabalham juntos para um mesmo fim .
são a cooperação, a acomodação e a assimilação. São exemplos de cooperação: a reunião de vizi-
Os pr incipais processos sociais dissociativos nhos para limpar a r ua, ou de pessoas para fazer uma
são a competição e o conflito. festa; mutirões de moradores para construir conjun-
Resumindo: tos habitacionais; sociedades cooperativas, etc.
A cooperação pode ser dir eta ou in dir et a.
cooperação Cooperação dire ta. Compreende as ações que
associativos »- acomodação as pessoas realizam jun t as, como é o caso do mu-
assimilação tir ão. Mutirões são atividades que reúnem diversas
Processos
pessoas em um esforço comum para alcançar deter-
sociais
competição minado objetivo. Nos bairros populares da periferia
dissociativos
conflito de grandes cidades no Br asil, por exemplo, não é
raro que pessoas ligadas por laços de amizade t r a-
A seguir, vamos estudar os processos associa- balhem juntas nos fins de semana para construir a
tivos e os processos dissociativos. Você vai per- casa de uma delas. Quando a casa está pronta, as
ceber que não seguimos a ordem apresentada no mesmas pessoas passam a cooperar na construção
esquema anterior. Isso se deve, em par te, à ne- da casa de outra família integrante do grupo.
cessidade de se priorizarem certos processos, seja Cooperação indire ta. É aquela em que as
para facilitar o entendimento de outr o, seja por- - pessoas, mesmo realizando trabalhos diferentes,
que a par tir dele podem surgir novos processos. necessitam indiretamente umas das outras, por
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

não serem autossuficientes. Tomemos o exemplo cia da competição é um choque t a l de interesses


de um médico e de um lavrador: o médico não que o atendimento de um indivíduo ou entidade
pode viver sem o alimento produzido pelo lavr a- impede o atendimento de outro indivíduo ou en t i-
dor, e este necessita de cuidados médicos quando dade" (FRIEDSAM, H. e FAIRCHILD, P. I n : Dicioná-
fica doente. Existe, assim, entre eles, uma relação rio de Ciências Sociais. Rio de Janeir o: Editora da
de complementariedade. Fundação Getúlio Vargas, 1987. p. 218-9).
Uma das diferenças entre a cooperação dir eta Em outras palavras, competição é uma dispu-
e a indir eta está no fato de, no primeiro caso, se t a entre indivíduos, grupos ou sociedades por bens
desenvolverem relações de solidariedade e apoio que não chegam para todos (bens escassos). A
mútuo entre as pessoas envolvidas. Isso não ocor- competição pode levar indivíduos a agir uns contra
re quando a cooperação é in dir et a, pois nesse caso os outros em busca de uma situação melhor. Ela
as pessoas envolvidas não estão ligadas por um nasce dos mais variados desejos humanos, como
esforço coletivo destinado a conquistar um obje- ocupar uma posição social mais elevada, ter maior
tivo comum. importância no grupo social, conquistar riqueza e
poder, vencer um torneio esportivo, ser o primeiro
Com pet ição da classe, passar no vestibular, vencer um concur-
Segundo o cientista social H. Fr iedsam, com- so, etc.
petição é uma forma de interação que envolve lu t a Ora, nem todos podem obter os melhores
ou disputa por bens limitados ou escassos. Essa lugares nas esferas sociais, pois os postos mais
interação é regulada por normas, pode ser dir e- importantes são em número muito menor do que
t a ou indir et a, pessoal ou impessoal, e tende a seus pretendentes, isto é, são escassos - da mes-
excluir o uso da força e da violência. Os bens em ma forma que o número de vagas no vestibular é
jogo, acrescenta P. Fair child, "podem ser objetos pequeno em comparação com o número de candi-
físicos ou mater iais, assuntos de estima pessoal, datos em disputa (veja o boxe a seguir ). Assim,
dignidade ou recompensa não-mater ial. A essên- os que pretendem alcançar esses postos ou vagas
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

VESTIBULAR: A HORA DA DECISÃO

U m exem plo de com petição, entendida com o disputa


por bens escassos, é o vestibular. Em setem bro de
2 0 0 7 , os candidatos inscritos para o processo seletivo de
curso e retom am ao vestibular, às vezes desperdiçando
um tem po precioso na própria form ação e ocupando
gas gue poderiam ser m ais bem aproveitadas por outros
va-

2 0 0 8 da Fuvest -fundação gue realiza em São Paulo o candidatos.


m aior vestibular do país - som avam i 40 803 estudantes. Mas há alternativas para guem chega à porta
A m aioria deles concorria a iO 302 vagas na Universi- do vestibular sem convicção guanto à carreira a seguir.
dade de São Paulo (USP). Os outros disputavam 2 5 0 Alguns cursos oferecem ao futuro profissional um legue
vagas distribuídas entre a Faculdade de Ciências Mé- de opções m uito m ais am plo do gue se im agina. "Há
dicas Santa Casa e a Academ ia de Polícia Militar do cada vez m ais engenheiros e m édicos atuando com o
Barro Branco. A relação total, portanto, era, em m édia, adm inistradores ou arguitetos no ram o de design",
de m ais de dez candidatos por vaga. Em alguns cursos, exem plifica Luiz Gonzaga Bertelli, presidente do Centro
com o o de jornalism o, essa relação era ainda m aior. de Integração Em presa-Escola e autor do livro Profis-
Os vestibulandos são, em sua grande m aioria, jo- sões 2005 (Editora CIEEj. Optar por um a dessas
vens de i 8 a 2 0 anos. Boa parte deles fica confusa diante carreiras perm ite, em m uitos casos, adiar por alguns
da necessidade de decidir entre os m uitos cursos disponí- anos a difícil escolha da profissão.
veis. O resultado égue 60% dos gue passam no vestibu-
Fo n t e s : h t t p : / / g l . g l o b o . c o m / N o t i c i a s / Ve s t i b u l a r e h t t p :/ /
lar em São Paulo se arrependem antes da conclusão do www.st m p lescid ad e.com .b r- Ac e s s o : 2.10.07.

entram em competição com os demais concorren- Diar iamente, lemos e ouvimos no not iciár io
t es. Nessa disputa, as atenções de cada competi- dos jor n a is , do rádio e da televisão r elatos de
dor estão voltadas para a recompensa e não para conflitos em diver sas par tes do mundo: com-
os outros concorrentes. bates n a Colômbia entr e tr opas do governo e
É impor tante também observar que a com- guer r ilheir os ou n ar cot r afican t es; ocupações de
petição "tende a excluir o uso da for ça", nas pa- fazendas pelo Movimento dos Tr abalhador es Ru -
lavr as de Fr iedsam. Isso porque ela con st it ui um r ais Sem-Ter r a (MST) no in t er ior do Br a s il, às
tipo de inter ação regulada por nor mas, por leis, vezes seguidas (ou pr ecedidas) de assassinatos
ou mesmo pelos costumes. Quando a competição de líder es sindicais a mando de grandes fazen -
viola essas nor mas, tr ansfor ma-se em con flit o. deir os; conflitos entr e isr aelenses e palestinos
Há sociedades que estimulam mais a com- no Oriente Médio; choques armados entr e sol-
petição do que outr as. Entre as tribos indígenas dados nor te-amer icanos e rebeldes muçulmanos
do Br asil, por exemplo, as relações não são tão no Ir aque.
acentuadamente competitivas como na sociedade O conflito social é um tipo de interação que
capitalista. Esta última estimula os indivíduos a se desenrola no tempo e provoca mudanças na so-
competirem em todas as suas atividades - na es- ciedade, t a l como a competição. Trata-se, portanto,
cola, no trabalho e até no lazer - , exacerbando o de um processo social. Em contraste com a compe-
individualismo em prejuízo da cooperação. tição, ele consiste em uma lut a por bens, valores
ou recursos escassos, na qual o objetivo dos con-
tendores é neutralizar ou aniquilar seus oponentes.
Con f l i t o Dessa forma, ao contrário da competição, o conflito
Quando a competição assume características envolve, em maior ou menor escala, o emprego da
de elevada tensão social, sobrevêm o conflito. violência.

64
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

Um a lut a por di r ei t os sentar nos bancos de t r ás. Além disso, era co-
Consideremos, por exemplo, as lutas dos ne- mum o linchamento de negros por pessoas br an -
gros norte-americanos por direitos civis. Elas t ive- cas, que não eram punidas pelo cr ime.
ram início antes mesmo do fim da escravidão de 0 hábito de lin char negros simplesmente
africanos e afrodescendentes nos Estados Unidos. pelo fato de serem negros foi disseminado por
Como se sabe, a abolição da escr avatur a nesse país uma or ganização ter r or ista chamada Ku Klux
só ocorreu em 1863, em meio a um conflito so- Klan. Criada logo após a Guerra de Secessão, essa
cial de grandes proporções conhecido como Guerra or ganização secr eta, cujos integr antes atacavam
de Secessão (1861-1865). As partes em lu t a nesse negros indiscr iminadamente, exist iu até o come-
conflito eram a Un ião, apoiada pelos estados do ço dos anos 1960.
Norte e sob a liderança do presidente Abraham Por essa época, os negros norte-americanos
Lincoln (1861-1865), e os estados do Su l. Lincoln começaram a se mobilizar contra a segregação e a
queria abolir a escr avidão. Os estados do Sul que- discriminação que os atingiam. Depois de violentos
riam conser vá-la. choques com a polícia durante os anos 1960, eles
A Guerra de Secessão ter minou com o t r iunfo conseguiram ver reconhecidos seus direitos civis.
da Un ião, ou seja, do exér cito fiel ao pr esidente Passados mais de tr inta anos, embora certas formas
Lin coln . A escr avidão foi abolida, mas os negros de racismo e discriminação ainda persistam nos
continuar am a sofrer todo tipo de discr iminação Estados Unidos, o negro integrou-se, pelo menos
e pr econceito. Por exemplo, nos estados do Su l, em parte, à sociedade norte-americana. Esse é um
cr ianças negras não podiam fr equentar escolas exemplo de processo social envolvendo conflitos
destinadas a br ancos. Nos lugar es públicos h avia que levou a mudanças importantes na sociedade.
banheir os separados para negros e para br ancos. Assim, diversos afrodescendentes ocupam hoje
Nos ônibus, os afrodescendentes só podiam se posição de destaque até mesmo no governo estadu-

65
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

nidense, o que antes era impensável. É o caso, por


exemplo, de Condoleeza Rice, secretária de Estado
do governo George W. Bush (2001-2008).
Já no Br asil, o preconceito contra os negros
nunca foi tão ostensivo quanto nos Estados Un i-
dos. Além disso, sempre foram comuns aqui as
uniões inter étnicas - a miscigenação da popula-
ção brasileira é um fato que não se pode negar (ao
contrário do que ocorre nos Estados Unidos). Por
essa r azão, há quem afirme que no Br asil temos
uma "democracia r acial".
No texto a seguir, você verá que não é bem as- Mano Brow n ( p r i m ei r o à esq u er d a) e seu gr u po de
sim. Apesar de a legislação brasileira proibir quais- rap, os Raci on ai s M CS, gr avam cl i p e em São Paulo
em dezem br o de 1 9 9 3 . De or i g em r ecen t e, o rap f o i
quer manifestações de preconceito e discriminação cr i ad o por j o v en s af r o d escen d en t es em bai r r os negr os
étnica, as desigualdades sociais entre brancos e de gr an des ci d ad es n or t e- am er i can as. No Br asi l , el e
f o i adapt ado por m ú si cos e can t or es da p er i f er i a de
negros ainda estão longe de terem sido superadas.
São Paulo e ou t r os cen t r os u r b an os.
Elas indicam também alguma forma de racismo.

IBH Va m o s p esq u i sar ? |$P1


A si t u a çã o do n eg r o no Br asi l

Exist e pr econceito contr a os negros no remuneradas quase inacessíveis aos pre-


Br asil? Essa é uma per gunta par a a qual gos- tos e pardos. As desigualdades, visíveis no
tamos de responder com um sonoro "n ã o!". dia-a-dia, estão em números do Instituto
En t r et an t o, cer tos dados numér icos par e- Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
cem afir mar o con t r ár io. Por exemplo: pr e- que ontem divulgou a Pesquisa Mensal de
tos e pardos ganham 4,15 r eais por hor a, em Emprego (PME), considerando os critérios
méd ia, enquanto os brancos recebem 8,16 de cor ou de raça.
r eais, t ambém em m éd ia, quase o dobro do Realizada em setembro, a pesquisa reú-
que ganham negros e par dos. Em con t r a- ne dados de seis regiões metropolitanas (Re-
p ar t id a, quando se t r a t a de desemprego, os cife, Salvador, Belo Horizonte, Rio, São Paulo
negros saem n a fr en t e: 1 1 ,8 % contr a 8,6% e Porto Alegre). 0 levantamento mostra que,
dos br ancos. desde 2002, o Brasil vem conseguindo uma
No t ext o a seguir , você encontr ar á ou- ligeira melhora na renda e na escolarida-
t r as in for mações, levantadas em setembro de da população, mas encontra dificuldade
de 2006 pelo In st it u t o Br asileir o de Geogra- para reduzir a distância entre as raças.
fia e Est at íst ica ( IBGE) . A escolaridade passou de 7,6 para 8
Duas verdades inegáveis: 1) o Brasil é o anos de estudo; porém, os brancos estu-
país da miscigenação; 2) aqui, a igualdade dam mais 1,6 ano do que os negros, como
racial não passa de mito. É também onde o em 2002. Além disso, enquanto 45,9% dos
tom da pele resulta em diferenças, que fa- brancos haviam cursado, pelo menos, o nível
zem da universidade um espaço de maioria médio completo, entre os pretos e pardos a
branca, e tornam as ocupações mais bem proporção era de 28,5%. Na faixa de 10 a 17

BB
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade

anos, quando todos devem estar estudando, ações afirmativas, como o sistema de cotas
havia 30% mais negros fora da escola - no nas universidades, para produzir alterações
Recife a diferença chegava a 45,7%. significativas.
Na universidade, outra marca da desi- Essa também é a visão da ministra de Po-
gualdade: a proporção de pessoas com 18 líticas de Promoção da Igualdade Racial, Matil-
anos ou mais que frequentavam ou já ha- de Ribeiro. "A criação de cotas ajuda a mudar
viam estado em um curso superior subiu na as perspectivas dos negros e a visão que os
população, mas a distância entre as raças empregadores têm do mercado de trabalho".
está maior: 25,5% dos brancos e 8,2% dos Para a pesquisadora do In st it u t o Br asi-
pretos e pardos encaixavam-se no perfil. leiro de Análises Sociais e Económicas, Fer -
Entre as pessoas ocupadas, com mais de 18 nanda Car valho, o preconceito con t r ibui,
anos, 21,8% dos brancos e 5,4% dos negros e muito, par a os dados encontrados. "Há
tinham nível superior. discr iminação, muitas vezes velad a", d iz. E
"As estatísticas mostram um abismo en- lembr a: diante da per gunta "onde você guar -
tre a população branca e a população de pre- da o seu r acismo?", feit a dur ante campanha
tos e pardos. É algo que faz parte do processo contr a o pr econceito, vár ias pessoas confes-
histórico do país, pois eles não vieram para o saram mudar de calçada quando, em lugares
Brasil como reis, mas em navios negreiros", ermos, encontr am pela fr ente um negr o.
analisa o gerente da PME, Cimar Azeredo. Adaptado de : RODRIGUES, Karine . De sigualdade s raciais pe rs is te m
Em tese, pessoas sem instrução ou com n a e ducação e no trabalho . 0 Estado de S. Paulo, 1 8 .1 1 .0 6 .

menos de um ano de estudo deveriam obter


a mesma remuneração, mas os brancos ga- Pe sq u i se e r e sp o n d a
nham 60 reais a mais nessa faixa de traba-
lhadores. A disparidade se acentua conforme
Faça uma pesquisa em jor n ais, livr os,
aumenta a escolaridade. Na faixa de oito a
revistas e sites da inter net para saber
dez anos de estudo, a diferença é de 135
mais sobre a situação de negros e pardos
reais, ou 61%. Com 11 anos ou mais, é de
no Br asil atual - um livr o inter essante é
829 reais, ou 149% (899 ante 1 728 reais).
Racismo no Brasil, de Gevanilda Santos
Em Salvador, os valores são 908 reais para
e Maria Palmira da Silva, publicado pela
negros e 2 062 reais para brancos.
editora Perseu Abramo (2005). Depois,
Para quem considera a distância entre escreva um t ext o, procurando responder
os rendimentos apenas como um sinal da às seguintes questões.
discriminação racial - que o brasileiro, em
geral, nega -, o economista André Uranifaz 1 .0 que são política afir mativa e
um alerta. "A diferença salarial, em grande sistema de cotas? Você concorda ou
discorda de sua aplicação no Br asil?
parte, não se deve à cor, mas às condições de
acesso à educação", avalia ele, que é diretor 2 . Existe discriminação contra negros
executivo do Instituto de Estudos do Traba- e pardos no Brasil? Quais são suas
lho e Sociedade (Iets). origens históricas e como ela se
0 desequilíbrio vem se reproduzindo en- manifesta? Caso você ache que não há
tre as gerações, observa o diretor da gradua- discriminação, apresente argumentos
ção em Economia da Universidade Federal do que comprovem sua opinião.
Rio de Janeiro, Marcelo Paixão. Ele defende
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

Com pet ição e con f l i t o r eligiosos. Essas situações estimulam o sur gi-
Comparando a competição e o conflito, pode- mento do extremismo político ou religioso (neste
mos destacar as seguintes car acter ísticas: caso, chamado de fundamentalismo). Enquanto
• a competição pode tomar a forma de lu t a pela todas as formas de conflito, inclusive as guer-
existência, como a que se estabelece entre in - r as, levam a uma solução, seja pelos processos
divíduos para a obtenção de alimento ou em- de acomodação, seja pela assimilação, o mesmo
prego, por exemplo; não ocorre com o ter r or ismo. Incapaz de impor -
• o conflito pode tomar a forma de r ivalidade, se pela ação política ou pela força das ideias,
disputa, r evolta, revolução, litígio ou guer r a. 0 ele procura destr uir o adversário sem medir as
conflito é bem evidente na lu t a entre patrões consequências.
e empregados em determinadas situações (gre-
ves, por exemplo), nas disputas pela posse da
ter r a entre latifundiár ios e trabalhadores rurais
sem-ter r a, ou ainda na guerra entre nações;
• a competição pode ser consciente ou incons-
ciente; o conflito é sempre consciente, ou seja,
os adversários sabem que estão em oposição;
• a competição é impessoal; o conflito é pessoal
e, por tanto, emocional;
• o conflito pode implicar violência ou amea-
ça de violência; já a competição não envolve
violência;
• enquanto a competição é contínua, o conflito
não pode durar permanentemente com o mes-
mo nível de tensão;
• no conflito, o primeiro impulso dos oponentes
é tentar neutr alizar ou destr uir o adver sár io.
Pessoas ou grupos em conflito podem can ali-
zar sua tensão tanto para a guerra como para
a cr iminalidade, ou ainda r eduzi-la a um pro-
cesso de acomodação. Nem todos os conflitos,
contudo, se resolvem pela violên cia. Muitos
deles comportam negociações e acordos e n - Nova Yor k , 11 de set em b r o de 2 0 0 1 . As t or r es
tr e as par tes. Esse é o caso, por exemplo, das gém eas do Wor ld Trade Cen t er são d est r u íd as por d oi s
av i ões l an çados con t r a el as por t er r or i st as de or i g em
greves de tr abalhador es, uma forma de pres-
m u çu l m an a f u n d am en t al i st a. Maior at en t ad o
são para obter conquistas, como melhores sa- j á p r at i cad o nos Est ados Un i d o s, o at aqu e pr ovocou
lár ios, menos horas de tr abalho, etc. Muitas a m or t e de cer ca de 3 m i l p essoas.

dessas par alisações são solucionadas por meio


de acordos ou concessões mútuas entre pa-
trões e empregados. Durante certo tempo, cientistas sociais consi-
deraram o terrorismo uma característica de socie-
Terrorism o dades retrógradas. Alguns chegaram a supor que
0 conflito pode levar ainda a outr a forma o processo de modernização das sociedades vir ia ,
extr ema de violência: o terrorismo, resultado de cedo ou tarde, pôr um fim aos atentados, mes-
situações extremas de opressão ou exclusão de mo que em um ou outro lugar pudessem ocorrer
grupos sociais, polít icos, ét n icos, nacionais ou atos isolados.

68
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

Os acontecimentos mais r ecentes, contudo, Estados Unidos - mostr a que nenhum país est á
não comprovam essa t eor ia. 0 sacr ifício de pessoas imune a esse per igo. Ele pode at in gir igualmen-
em nome de uma causa e n t r a , dessa man eir a, n a te milit ar es e civis ; pode ocorrer n a Nigér ia, n a
er a da globalização. 0 atentado de 11 de setem- Ar ábia Saud it a, n a In gla t e r r a , n a Esp an h a, nos
bro de 2001 - quando foram destr uídas as tor r es Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do
gémeas do World Trade Center de Nova Yor k, nos mundo ( veja o boxe a s e gu ir ) .

ATENTADO DA ETA NA ESPANHA

P r ovín cia e sp a n h ola sit uada n a r e giã o de


fr on t e ir a en t r e a Es p a n h a e a Fr a n ça , a r e -
giã o basca abr iga u m a p o p u la çã o de lín gu a e
De acordo com as autoridades espanholas, entre
8 0 e 1 0 0 guilos de explosivos foram usados no atague.
"Fam ílias e crianças m oram perto da delegacia de polí-
cu lt u r a d ifer en t es das d o p o vo e s p a n h ol. Em cia, o gue torna esse atentado ainda m ais desprezível",
1959, m ilit a n t e s bascos or ga n iza r a m a ETA (Eu s- atacou o representante local do Ministério do Interior,
kadi Ta Askatasuna - Pátr ia Basca e Lib e r d a d e ) , Paulino Luesm a.
gr u p o que lu t a pela a u t on om ia da r e giã o . E m O atentado, gue ocorreu na m adrugada de on-
1 9 6 6 , a E T A op t ou p ela lu t a ar m ad a e desde tem , assustou os vizinhos da delegacia. Várias pessoas
e n t ã o t e m p r at icad o a çõe s que o gove r n o es- saíram correndo de suas casas para ver o gue havia
p a n h ol con s id e r a t er r or ist as. No s anos 1 9 9 0 , ocorrido. A força da explosão destruiu carros e estilha-
a o r ga n iza çã o d e cr e t ou u m cessar -fogo, m as çou janelas de vários prédios ao lado da delegacia.
r e ce n t e m e n t e vo lt o u a com e t e r at en t ad os. O Em m arço de 2 0 0 6 , a ETA declarou um cessar-
t e xt o a seguir r efer e-se a u m desses at en t ad os. fogo e estava discutindo as condições para o início das
Madri — Um furgão carregado de explosivos foi negociações de paz com o governo do prim eiro-m inistro
detonado ontem na frente de um a delegacia de polícia em socialista, José Luiz Zapatero. A falta de concessões
Durango, 40 guilôm etros ao sul de Bilbao, no prim eiro das autoridades, no entanto, irritou os separatistas.
grande atague da organização separatista basca ETA Um atentado em dezem bro contra o aeroporto de Ma-
desde o rom pim ento, em junho, do cessar-fogo gue o grupo dri, gue deixou dois m ortos, prejudicou ainda m ais as
havia declarado. Dois policias ficaram feridos no aten- negociações entre o governo e a ETA.
tado, gue causou grandes danos m ateriais na área. AP E REUTERS. O Estado de S. Paulo, 25.8.07.

EZGAUDEA£2£
Cent enas de pessoas pr ot est am em Bi l b ao, na Espan h a, em j u n h o de 2 0 0 6 , con t r a a deci são da ETA, gr u po
separ at i st a basco, de r et om ar seus at en t ados. Con t r ár io ao gover no esp an h o l , a ETA l u t a pel a i n d ep en d ên ci a
do ch am ado " p ai s b asco" pr om ovendo ações v i ol en t as qu e at i n g em t oda a soci edade esp an h o l a.

69
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

Hoje, o terrorismo encontra adeptos entre pes- processo de acomodação, pois o vencido acata as
soas e grupos que se sentem excluídos num mundo condições do vencedor e adota uma posição de su -
que está se globalizando rapidamente. Alguns deles bor dinação.
temem perder suas culturas e tradições religiosas, A escravização dos povos vencidos, comum
como ocorre com os fundamentalistas muçulmanos. na Antiguidade, é um caso típico de acomodação.
Outros se desesperam porque estão impedidos de ter Quando alguém cumpre uma lei ou segue um cos-
sua própria pátria - ou seja, seus Estados nacionais tume com os quais não concorda, só para evitar
e soberanos. Este é o caso dos palestinos no Oriente sanções ou diver gências, também se enquadra
Médio. Em sua ação devastadora, provocam uma rea- num processo de acomodação.
ção igualmente perversa: o terrorismo de Estado. Da mesma forma, imigrantes que chegam a ou-
tro país são levados a passar por processos de aco-
Acom odação modação: deixam de lado sua língua e seus costu-
Nem todo conflito ter mina com a extinção do mes, adotam modos de vida do povo que os acolheu
oponente derrotado. Em alguns casos, este pode e adaptam-se às condições da nova vida. Procuram
aceitar as condições impostas pelo vencedor para assim se prevenir contra possíveis conflitos e viver
fugir à ameaça de destr uição. Ocorre, assim, um em equilíbrio com o meio social que os cerca.

Festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros ( 1 8 3 5 ) , gr avur a de Jo h an n Mor i t z


Ru gen das, ar t i st a al em ão que est eve no Br asi l na p r i m ei r a m et ade do sécu l o XI X. A ap r op r i ação
do cr i st i an i sm o f o i um a das f or m as adot adas p el os af r i can os escr av i zados par a acom od ar - se à
d om i n ação das el i t es b r asi l ei r as de or i g em eu r o p ei a. Em m u i t o s casos, t an t o el es q u an t o seu s
d escen d en t es con t i n u ar am a cu l t i v ar suas d i v i n d ad es, agor a sob a f or m a de san t os ad m i t i d o s
i f est ação t íp i ca de acom od ação, m ai s do que de assi m i l ação .

70
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

Desse modo, a acomodação é o processo so- seu comportamento. Ela atenua ou previne o con-
cial pelo qual o indivíduo ou o grupo se ajus- flit o. Mas este só desaparece com a assimilação.
t a a uma situação de conflito, sem que ocorram
tr ansfor mações in t er n as. Tr ata-se, por tanto, de Assim ilação
uma solução super ficial do conflito, pois este A assimilação é a solução definitiva e mais ou
continua lat en t e, isto é, pode voltar a se ma- menos pacífica do conflito social. Trata-se de um
nifestar . Isso acontece porque nos processos de processo de ajustamento pelo qual os indivíduos
acomodação continuam prevalecendo os mesmos ou grupos antagónicos tornam-se semelhantes.
sentimentos, valores e atitudes inter nas que se- Difere da acomodação porque implica tr ansfor -
param os grupos. As mudanças são apenas ext e- mações inter nas nos indivíduos ou grupos, sendo
riores e manifestam-se somente enquanto com- estas geralmente inconscientes e involuntár ias.
portamento social. Tais modificações inter nas envolvem mudanças na
Os escravos, por exemplo, nunca aceitar am a maneira de pensar, de sentir e de agir.
situação de servidão que lhes era imposta. Ape- A assimilação se dá por mecanismos de imit a-
nas se acomodavam à dominação, mas sempre ção, exigindo um certo tempo para se completar.
que podiam se r ebelavam. Revoltas de escravos É um processo longo e complexo.
ocorreram em diversas épocas da Histór ia. A mais Um exemplo de assimilação é o do imigr an-
famosa delas foi a rebelião de Espár taco, gladia- te que se integr a inteiramente à sociedade que o
dor que lider ou cerca de 120 mil escravos contr a acolhe. Ele, que a princípio se acomodou por con-
a República romana entre 73 e 71 a.C. Nesse caso, veniência ao novo país, vai aos poucos deixando-
a acomodação se tr ansfor ma em conflito social, se envolver pelos costumes, símbolos, tradições e
que pode assumir (ou não) grandes pr opor ções. língua do povo desse país. Não se t r at a, porém, de
Em Roma, a rebelião lider ada por Espártaco du- um processo que at in ja todos os imigr antes, mas
r ou três anos e ficou conhecida como Guerra dos somente uma parte deles.
Escravos. No Br asil, ocorreram casos de assimilação en -
No Br asil, uma das formas de r esistência con- tre os alemães em Santa Catarina e os italianos
t r a a escravidão foi a fuga seguida da formação de em São Paulo. No in ício, esses imigrantes falavam
quilombos - aldeamentos for tificados, nos quais sua própria língua e conservavam seus valores e
os ex-escravos passavam a viver da caça, da pes- costumes. Ao preservar essas car acter ísticas, cada
ca, do ar tesanato e da agr icult ur a. 0 maior e mais grupo se constituía em uma espécie de corpo es-
duradouro desses aldeamentos foi o quilombo de tranho na sociedade br asileir a.
Palmares, situado n a capitania de Pernambuco. Apenas quando as car acter ísticas mar can-
Palmares, que chegou a r eunir cerca de 20 m il tes da cult ur a de origem se atenuar am ou se
pessoas no int er ior de suas paliçadas e mur alhas, desfizer am - sendo substituídas pelos hábitos
funcionava como um pequeno Estado governado e costumes locais - os imigr antes puderam ser
por seu próprio r ei e r esist iu a inúmeros ataques assimilados pela nova sociedade. Aos poucos,
de forças portuguesas e holandesas entre 1600 e eles se desfizer am de sua identidade cu lt u r al e
1694, quando só então foi destr uído. passaram a observar os sentimentos e valor es da
Também no caso dos imigr antes, ver ifica-se nova cu lt u r a , tor nando-se par te integr ante da
entre eles a tendência a preservar certos traços sociedade adotada.
fundamentais de sua própria cultur a e a formar Concluindo, o aspecto importante da assimi-
redes de ajuda mútua que os mantêm agrupados lação é que ela implica uma transformação do sen-
em comunidades no inter ior do país onde passam timento de identidade. 0 processo de assimilação
a viver . atinge áreas profundas e extensas da personalida-
A acomodação é, assim, o ajustamento de in d i- de, determinando novas formas de pensar, sentir
víduos ou grupos apenas nos aspectos externos de e agir.

71
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

• Li v r os su g er i d os
• MARX, Kar l e ENGELS, Fr iedr ich. Manifesto do Partido Comunista. 5. ed. Rio de Jan eir o: Vitór ia, 1963.
• SANTOS, Gevanilda e SILVA, Maria Palmir a. Racismo no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 2005.

—• Fi l m es su g er i d os
• Spartacus, de Stanley Kubr ick, 1960. A histór ia da rebelião dos escravos lider ada por Espártaco contr a o poder de Roma
entr e 73 e 71 a.C.
• Quilombo, de Cacá (Car los) Diegues, 1984. A formação do quilombo de Palmares no começo do século XVII, no Br asil
colonial, e a lu t a de seus habitantes para não serem novamente reduzidos à escr avidão.
• Os companheiros, de Mário Monicelli, 1963. No século XIX, em uma cidade it a lia n a , operários de uma fábr ica deflagram
movimento gr evista orientados por um professor socialist a.
• 0 quatrilho, de Fábio Bar r eto, 1996. Sobre grupo de imigr antes de origem it alian a na r egião de colónias do Rio Grande
do Su l.
• Gaijin, de Tizuka Yamazaki, 1980. A saga de imigr antes japoneses em São Paulo.
• Pânico em Munique, de William Gr aham, 1976. Sobre o atentado de ter r or istas palestinos contr a atletas de Isr ael d u -
r ante as Olimpíadas de Munique, em 1972.
• Fahrenheit 11 de setembro, de Michael Moore, 2004. Documentár io sobre a responsabilidade de Bush nos atentados de
11 de setembro de 2 0 0 1 .

Tr ab al h an d o com f i l m es
Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados. Depois, façam um
debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?
• Há r efer ências, no filme, à noção de conflito social? Quais são elas e como aparecem no filme?
• Há r efer ências ao conceito de acomodação ou ao de assimilação? Sob que formas eles se manifestam nesse filme?
• Há r efer ências à questão do ter r or ismo? Quais são elas e como aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as


1 . 0 que são relações sociais? Por que Thomas Bottomore define a sociedade como uma "rede de
relações"?
2 . Os processos sociais incluem mudanças ao longo do tempo. Para você, isso significa que só
existe processo social quando a sociedade sofre transformações radicais? Que espécie de
mudanças ocorrem nos processos sociais?
3. Quais são as diferenças entre competição e conflito social? Cite três exemplos de conflito e
três de competição.
4. Explique a diferença entre acomodação e assimilação.
5. "A greve de qualquer categoria profissional é uma situação de conflito entre patrões e
empregados. Uma sociedade estável, organizada e democrática controla o conflito. Limita-o
com regras. As negociações coletivas entre os trabalhadores e a indústr ia são exemplos de
conflitos limitados. Uma grande parte do conflito é canalizada pelos tr ibunais. Encerrado o
conflito, novas relações podem sur gir " (B0UD0N, R. e BOURRICAUD, F. Dicionário crítico de
Sociologia. São Paulo: Át ica, 1993). Escreva um comentário sobre esse t ext o.

72
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

TEXTO 1

Pr ocesso social
Assim com o o texto Sociologia e sociedade industrial, de Ralph Dahrendorf (veja a seção Te xt o s
co m p le m e n t a r e s do capítulo i), o gue você vai ler agora revela as controvérsias existentes no interior da
Sociologia.
Em um a ciência exata, com o a Matem ática, não há discordâncias entre os estudiosos sobre certas
proposições. Por exem plo, todos concordam gue a som a de 2 m ais 2 éigual a 4. As Ciências Sociais, entretanto,
são ciências interpretativas. Nelas, as m argens para divergências são m uito am plas. Agui, o autor do texto
contrapõe um a Sociologia influenciada pelo liberalism o à Sociologia inspirada no m arxism o.

A hist ór ia do con ce it o de pr ocesso social s o m e n t e e xis t e c o m o u m e q u ilíb r io in s t á ve l


está in t im a m e n t e liga d a à h ist ór ia d o a p a r e ci- das r e la çõ e s p r e s e n t e s ". [...]
m e n t o da So cio lo gia co m o ciê n cia a u t ó n o m a . [ A n o çã o de p r oce s s o] d eve ser vis t a
Sm a ll ob s e r vou que "t od os os s o ció lo go s d es- co m o ce n t r o de u m a co n figu r a çã o t ot al de
de Co m t e t êm co n s id e r a d o , m ais ou m e n os co n ce it o s , que e s t ã o h is t o r ica m e n t e r e la cio -
co n s cie n t e m e n t e , esse co n ce it o co m o sua n ad os co m ela e lo gica m e n t e im p lícit o s n e la .
p r in cip a l p r e m issa ". E o p in iã o de Co o l e y que Est e s s ã o : l ) o p r ó p r io co n ce it o de p r oce s -
"o p r im e ir o r e q u is it o p ar a a fo r m a çã o de u m so,- 2 ) o co n ce it o de in t e r a çã o s o cia l, ou de
s o ci ó lo go é que ele a p r e n d a a ve r as coisas s ocie d a d e co m o um flu xo de r e la çõe s en t r e
h a b it u a lm e n t e nesse se n t id o". [...] in divíduos,- 3) o co n ce it o de co n t in u id a d e
A in flu ê n cia de Sm a ll foi im p o r t a n t e , se h is t ór ico-s ocia l,- 4 ) o co n ce it o de co n e xã o
co n s id e r a r m o s que ele foi p r in cip a lm e n t e u m o r gâ n ica en t r e in d ivíd u o e sociedade,- 5 ) o
est u d ioso d a h ist ór ia das id eias e ch a m o u a co n ce it o de h e r a n ça social,- 6 ) o co n ce it o
a t e n çã o p ar a a t r a d içã o s o cio ló gica d o t e m - de s ocie d a d e co m o u n id a d e or gân ica,- 7 ) o
po de Mo n t e s q u ie u e Sa vign y [s é cu lo XVI I I ] , co n ce it o de m ú lt ip lo s fat or es e a r e je içã o , n a
que er a for m u la d a p r in cip a lm e n t e em t e r m os p r o b le m á t ica da ca u s a çã o s o cia l, de q u aisq u er
da t eor ia d o p r ocesso s o cia l. [...] e le m e n t os p a r t icu la r is t a s ou d e t e r m in is t a s .
O co n ce it o de p r ocesso s ocia l r e p r e s e n - A c o n c e p ç ã o de s ocie d a d e co m o u m
ta u m a im p or t a n t e r e a çã o co n t r a u m a t e or ia t od o o r gâ n ico r e ce b e u sua e xp r e s s ã o clá s s ica
e s t á t ica . De fat o, ele se o p õ e à c o n c e p ç ã o da em He ge l [ 17 7 0 - 1831] . No p e n s a m e n t o de
s ocie d a d e co m o u m a e s t r u t u r a , ou co m o u m He ge l essa t e or ia co m b in o u -s e co m u m a t eo-
a r r a n jo for m a l ou e s t á t ico de b lo co s de m a t é - r ia d a d ia lé t ica h is t ó r ica , a ce n t u a n d o a co n t i-
r ia . Co m o t a l, est á in t im a m e n t e a ssocia d o, n a n u id ad e da h is t ór ia . [...]
h ist ór ia das id e ia s, co m o p e n s a m e n t o e vo lu - À in flu ê n cia de He ge l, Co m t e [ 1 7 9 8 -
cio n is t a : e n q u a d r ou o p e n s a m e n t o s ocia l e m 1 8 5 7 ], e mais tar de Da r w i n [ 1 8 0 9 -1 8 8 2 ] , na
u m a p e r s p e ct iva t e m p o r a l. [...] fo r m a çã o da t eor ia do p r ocesso s ocia l, s om ou -
N o ce n t r o d a t e o r ia d o p r oce s s o s o - se, n o s é cu lo XI X, o p en sam en t o m a r xis t a ,
cia l e s t á , a s s im , a n o ç ã o de m o vim e n t o , m u - co m suas r ep er cu ssões. Est e p r ovocou u m a po-
d a n ça , flu xo , n o ç ã o d a s o cie d a d e co m o u m lé m ica em t or n o de dois p on t os: 1) a valid ad e
c o n t í n u o "vir -a -s e r ". A "s ocie d a d e ", e s cr e ve de u m a t eor ia d o con flit o na in t e r p r e t a çã o da
Ma cive r , "e xis t e s o m e n t e co m o u m a s e q u ê n - m u d a n ça social [t e or ia da luta de classes],- 2 ) a
cia t e m p o r a l. É u m vir -a -s e r , n ã o u m ser,- va lid a d e da in t e r p r e t a çã o m at er ialist a da h is t ó -
u m p r o ce s s o , n ã o u m p r o d u t o . A s o cie d a d e r ia , co m a s e le çã o de uma ú n ica sér ie de fator es
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

co m o sen d o os que d et er m in am a d in â m ica da As s i m , o r a cio cín io s ob r e a o p o s içã o


m u d a n ça h ist ór ica [o autor se r efer e à im p or - de in d ivíd u o e s ocie d a d e d e ixa de t e r s e n -
t â n cia at r ibuída por Ka r l Ma r x aos fator es eco- t id o : o in d ivíd u o vive s om e n t e a t r a vé s da
n ó m ico s co m o causa das m u d a n ça s histór icas,- s o cie d a d e . [...]
ve ja o ca p ít u lo 7 ] . [...] A t e or ia m a r xis t a é t a m b é m u m a t e or ia
Co m o r e a çã o à p o s içã o m a r xis t a , d i - or gân ica,- mas n ela a d ia lé t ica da h ist ór ia é
ve r s os au t or es r e t o r n a r a m à t e or ia s ob r e a m o vid a p or u m a sér ie de causas p a r t icu la r e s:
co m p le xid a d e da s o cie d a d e e sob r e a m u l- a o r ga n iza çã o da p r o d u çã o [fat or e c o n ó m i c o ]
t ip licid a d e de fat or es que d e ve m ser in vo ca - está t ã o u n id a às out r as m a n ife s t a çõ e s socia is
d os p ar a e xp lica r a s u ce s s ã o d os e ve n t o s . A que as m u d a n ça s ocor r id a s n aqu ela se r efle-
ca u s a çã o m ú lt ip la t or n ou -s e o m ot e d a q u e le s t em nestas [ou seja, q u a n d o as for ças p r o d u t i-
que se o p u n h a m ou t e m ia m o pensamento vas m u d a m , a socie d a d e t a m b é m se t r an sfor -
m a r xis t a . [ ...] ma,- ve ja o ca p ít u lo 7 ] .
Rep r esen t an d o um m eio-t er m o entr e A lin h a p r in cip a l da t eor ia do pr ocesso
m a r xism o e t r ad icion alism o, outr os autor es social é o r gâ n ica , mas n u m sen t id o com p le t a -
d iscut ir am a q u est ão da r elação en t r e os fator es men t e d ifer en t e. N ã o ad m it e qualquer ên fase
pessoais e os impessoais no pr ocesso h is t ór ico, p ar t icu lar ist a [ou seja, em u m s ó fator , co m o
e a r elação entr e o in d ivíd u o e a sociedade n o o e co n ó m i co ] , ve n d o u m a h om oge n e id a d e
pr ocesso socia l. O p on t o de vist a que p r evale- qu alit at iva n o pr ocesso social co m o um t od o.
ceu foi o da unidade or gâ n ica en t r e os d ois. O p r oblem a da cau sação social t or na-se, pois,
É s ign ifica t ivo que o livr o de Co o le y, in fin it amen t e com p le xo, n ã o p er m it in d o s im -
Social Process [Pr oce s s o s o cia l] , que se sit u a p lifica çã o. Um a m u d a n ça em qualquer par te do
n o fim dessa s e q u ê n cia h is t ór ica na t r a d içã o pr ocesso social deve ser con sider ada somente à
s o cio ló gica , ap an h e a co n figu r a çã o t ot al dos lu z de outr as m u d an ças (que são causa e efeito
e le m e n t os e xist e n t e s na t e or ia do p r ocesso ao m esm o t e m p o) , em ter mos da m u lt ip licid ad e
s o cia l. A co n e xã o ló gica en t r e eles é cla r a . Se de fator es co m o base do pr ocesso social e em
a s ocie d a d e é u m p r ocesso e n ã o u m p r o d u - ter mos da lógica fundamental do t od o.
to ou u m a glom e r a d o, segue-se que ela ser á As im p lica çõ e s desse co m p le xo t e ó r ico
som en t e um flu ir de r e la çõe s ou in t e r a çõe s q u a n t o à m u d a n ça s ocia l e suas co n s e q u ê n -
en t r e in d ivíd u o s . [...] cias par a a a çã o s ocia l t êm u m lo n go a lca n ce .
E se a s ocie d a d e é u m fluir de r e la çõ e s , Ace n t u a n d o a co n t in u id a d e in in t e r r u p t a da
segue-se que a h ist ór ia é u m a in in t e r r u p t a h ist ór ia e da s ocie d a d e , ele t en d e a su st en t ar
con t in u id a d e dessas r e la çõe s - u m p r ocesso o status guo [ou s e ja , o est ad o e m que se e n -
e vo lu t ivo n o q u a l, co m o n o m u n d o o r gâ n i- co n t r a a s ocie d a d e ] e in ib ir a a çã o r e vo lu cio -
co , a n a t u r e za n ã o dá saltos e n o qual o at o n ár ia, que p od e e lim in a r o passado e p ô r e m
m ais ca t a s t r ó fico é a t e n t a t iva de r om p e r co m p er igo a h e r a n ça s ocia l [p o s içã o con t r á r ia à
o passado [ou seja, a r e vo lu çã o ] . O in d ivíd u o de Ma r x, que at r ibu ía p a r t icu la r im p o r t â n cia
só é impotente,- ele vive som e n t e at r avés de à r evolução,- ve ja o t e xt o a s e gu ir ].
suas r e la çõe s co m os que o p r e ce d e r a m : é a A m u d a n ça que a t eor ia do pr ocesso so-
h e r a n ça social que eles lh e t r a n s m it e m - sob cial pr evê é somen t e aquela que é d e cor r ê n cia
for m a de co n h e cim e n t o a cu m u la d o, in s t it u i- natur al dessa con t in u id a d e , e n ã o a m u d a n ça
çõ e s cr is t a liza d a s e in t er esses d e fin id os - que r ad ical ou r evolu cion ár ia. Afir m a n d o a liga çã o
o ca p a cit a m a r e u n ir h a b ilid a d e e m é t o d o r e - or gâ n ica de in d ivíd u o e socied ad e, situa o locus
q u e r id os par a s ob r e vive r . [lu ga r ] do pr ocesso social e o lugar da m u d a n -

74
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

ça na mente do indivíduo, negando também o guo quanto o medo à ação r evolucionár ia, as
papel das forças impessoais na história. formulações da teoria têm apresentado impli-
No seu todo, a teoria do processo so- cações de caráter marcadamente antiliber al.
cial representa o liberalismo no domínio da
Ad a p t a d o d e- L E R N E R , Ma x . P r o c e s s o s o c i a l . I n : C A R D O S O ,
Sociologia. [Entr etanto], através de sua fun- Fe r n a n d o H e n r i q u e e I A N N I , O c t á v i o . Homem e sociedade. Sã o
ção de r acionalizar tanto a adesão ao status P a u lo : Co m p a n h i a Ed i t o r a Na c i o n a l , 1 9 7 3 . p . 2 0 5 - 1 1 .

-• Pen se e r esp o n d a
1 .0 que quer dizer o autor com a frase: o conceito de processo social "enquadrou o
pensamento social em uma perspectiva temporal"? Explique a diferença entre a teor ia do
processo social e a concepção estática da sociedade.
2 . Quais são as diferenças entre a teor ia do processo social, t a l como ela é definida pelo
autor, e a concepção mar xista da História e da sociedade?
3. Por que o autor afir ma que "através de sua função de r acionalizar tanto a adesão ao status
quo quanto o medo à ação r evolucionár ia, as formulações da teor ia [do processo social]
têm apresentado implicações de caráter marcadamente antiliber al"?

TEXTO 2

A luta de classes
O texto gue você vai ler agora foi publicado em fevereiro de 1 8 4 8 . Escrito por Karl Marx e Friedrich
Engels, ele expõe um a concepção da sociedade gue atribui particular im portância ao conflito. Depois de lê-lo,
responda às guestões form uladas.

Um espectro ronda a Europa - o es- 2. Já é tempo de os comunistas publicarem


pectro do comunismo. Todas as potências da abertamente, diante de todo o mundo, suas
velha Eur opa uniram-se numa Santa Aliança ideias, seus fins, suas tendências, opondo à
para exor cismá-lo: o papa e o tzar (imperador lenda do comunismo um manifesto do pró-
da Rússia), Metter nich (ministr o da Áustria) e prio partido.
Guizot (ministr o da França), os radicais fran- Para isso, comunistas de várias nacionali-
ceses e os espiões da polícia alemã. dades reuniram-se em Londres e redigiram o se-
Qual o partido de oposição que não foi guinte manifesto, a ser publicado em inglês, fran-
acusado de comunista por seus adversários no cês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês.
poder? Qual o partido de oposição que também
Bur gueses e Pr olet ár ios
não lançou contra seus adversários progressistas
ou reacionários o estigma do comunismo? A história de toda sociedade existente até
Da í decorrem dois fatos: hoje tem sido a história das lutas de classes.
1. O comunismo já é considerado uma força Homem livr e e escravo, patrício e ple-
por todas as potências da Eur opa. beu, senhor e ser vo, mestre de cor por ação e

75
CAPÍTULO 4 Como funciona a sociedade?

companheir o, numa palavra, o opressor e o A descoberta da América, o contorno do


opr imido permaneceram em constante oposi- Cabo [da Boa Esperança, no sul da Áfr ica, em
ção um ao outr o, levada a efeito numa guerra 1488] , abriram novo campo para a burguesia
ininter r upta, ora disfarçada, ora aberta, que emergente. Os mercados da índia oriental e da
ter minou, cada vez, ou pela r econstituição Ch in a, a colonização da América, o comér cio
revolucionária de toda a sociedade ou pela com as colónias, o aumento dos meios de troca
destruição das classes em conflito. e das mercadorias em geral, deram ao comér-
Desde as épocas mais remotas da his- cio, à navegação, à indústria, um impulso jamais
tór ia, encontramos, em praticamente toda conhecido antes e, consequentemente, ao ele-
parte, uma complexa divisão da sociedade em mento revolucionário da sociedade feudal ins-
classes diferentes, uma gr adação múltipla das tável, um rápido desenvolvimento. [...]
condições sociais. Na Roma Antiga, temos os A indústria moderna estabeleceu o mer-
patr ícios, os guerreiros, os plebeus, os escra- cado mundial, para o qual a descoberta da
vos,- na Idade Méd ia, os senhores, os vassalos, Amér ica preparou o terreno. Esse mercado
os mestres, os companheir os, os aprendizes, deu um imenso desenvolvimento ao comér -
os servos,- e, em quase todas essas classes, ou- cio, à navegação e à comunicação por terra.
tras camadas subordinadas. [...] Vemos, portanto, como a própria burgue-
A sociedade moderna burguesa [ou so- sia moderna é produto de um longo curso de
ciedade capitalista], surgida das ruínas da so- desenvolvimento, de uma série de r evoluções
ciedade feudal, não aboliu os antagonismos nos modos de pr odução e de tr oca. [...]
de classes. Apenas estabeleceu novas classes, Histor icamente, a burguesia desempe-
novas condições de opr essão, novas formas nhou um papel r evolucionár io.
de luta em lugar das velhas. On d e quer que tenha assumido o poder,
No entanto, a nossa época, a época da a burguesia pôs fim a todas as relações feu-
burguesia, tem uma característica.- simplificou dais, patriarcais e idílicas. [...]
os antagonismos de classes. A sociedade glo- As armas com que a burguesia abateu o
bal divide-se cada vez mais em dois campos feudalismo voltam-se agora contra ela mesma.
hostis, em duas grandes classes que se defr on- A burguesia, por ém, não forjou apenas
tam - a burguesia e o proletariado. as armas que representam sua morte,- produ-
Dos servos da Idade Méd ia or iginar am- ziu também os homens que manejarão essas
se os burgueses privilegiados das cidades anti- armas: o operariado moderno, os proletários.
M A R X, Ka r l e E N G E L S , F r i e d r i c h . Ma n i f e s t o d o P a r t i d o
gas. Desses burgueses, surgiram os primeiros
Co m u n i s t a . I n : L A S K I , H a r o l d . O Manijesto Comunista de t 8 4 8 .
elementos da burguesia atual. Ri o d e Ja n e i r o : Za h a r , 1967.

-• Pen se e r esp o n d a
1 . Para Marx e Engels há um tipo de conflito social que desempenha um papel centr al na
história da humanidade. Que tipo de conflito social é esse? Cite um trecho do texto que
confirme sua opinião.
2 . 0 tipo de conflito social destacado por Marx e Engels ainda ocupa um lugar centr al na
história contemporânea? Explique sua r esposta.

3. Que novos conflitos caracterizam nossa época?


Organização
soci al e cidadan ia
Estamos habituados a falar de comunidade como sinó-
nimo de sociedade, ou de outros agrupamentos humanos. É
comum, por exemplo, ouvirmos a expressão "comunidade in-
ternacional" para designar o conjunto das nações existentes no
mundo. Também se utiliza a expressão para fazer referência à
população de uma cidade, de um bairro ou de uma rua.
Para os sociólogos, contudo, a palavra comunidade não
designa a mesma coisa que sociedade. Na verdade, como vere-
mos neste capítulo, muitos cientistas sociais consideram comu-
nidades apenas determinados agrupamentos humanos de base
territorial limitada e nos quais predominam relações pessoais
de parentesco ou de vizinhança.
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

IMAGEM e SOCIEDADE

Obser ve e r esp on d a

1 . Que tipo de grupo social é representado neste quadro de Bruegel? Em sua opinião,
é um grupo urbano ou um grupo rural? Moderno ou tr adicional? Explique suas
respostas.

2 . Que atividades está desenvolvendo o grupo aqui representado? Como você percebeu
isso?

3 . Existem atividades semelhantes atualmente no Br asil? Quais são elas?

78
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

Vive r em comunidade

Se pudesse escolher, onde você gostaria de v i - Durante os anos 1960, setores da juventude
ver : em uma aldeia de índios, em uma comunidade nos Estados Unidos se recusavam a viver na so-
de pescadores à beira-mar, em uma vila distante ciedade indust r ial capitalista. Insatisfeitos com
encravada nas montanhas, ou em uma grande ci- o consumismo desenfreado e a vida nas grandes
dade, como Porto Alegre, São Paulo, Par is, Nova cidades, muitos desses jovens - conhecidos como
Yor k, Buenos Air es, For taleza, Rio de Janeir o? hippies (veja o capítulo 10) - se tr ansfer ir am para
A vida nas grandes cidades t em , sem dúvida, o campo, onde fundaram comunidades baseadas
muitas vantagens. Mas, de vez em quando, muitos no princípio "paz e amor". Havia nessa opção uma
de seus habitantes se cansam do ritmo ver t igi- espécie de nostalgia das antigas comunidades
noso que as car acter iza, da poluição, do excesso camponesas, que eram representadas na imagina-
de tr abalho, da falta de tempo para pensar em si ção dos jovens hippies como a solução ideal para
mesmos, da violência ur bana, do tr ânsito caótico, os problemas vividos na sociedade in d ust r ial.
da solidão, da ausência de solidariedade entre as A maior parte dessas comunidades teve vida
pessoas, etc. Em momentos como esses, algumas breve e muitos dos jovens hippies que abandonaram
dessas pessoas sonham com a volt a ao campo, a as cidades acabaram se reintegrando à sociedade
uma vida simples e calma, marcada pela afetivida- industr ial capitalista. Entr etanto, a exper iência
de e por relações de solidariedade entre os habi- mostra bem algumas das diferenças que separam
tantes da comunidade. os conceitos de sociedade e de comunidade.
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

ITFTTff
| O q u e é?
Co m u n i d ad e

Segundo diver sos est udiosos, só se Assim , os lim it es t er r it or iais e o car á-


pode falar de comunidade quando se est á ter pr imár io dos contatos sociais são dois
dian t e de gr upos sociais ligados por laços aspectos a serem levados em conta pelo so-
afet ivos - e n ão por vín cu los impessoais, ciólogo par a id en t ificar , descrever e analisar
como ocorre nas gr andes cidades. Or a, isso uma comunidade.
só é p ossível em espaços de pequenas d i-
m en sões, nos quais as r elações de p a r e n - Va m o s p e n sa r ?
t esco, amizade e vizin h a n ça pr edominam
sobre todas as ou t r as. Nesses casos, a pr o- 1 . Explique o conceito de comunidade e
ximid ad e física en t r e as pessoas que a vid a cite alguns exemplos de comunidades
em pequenas comunidades pr opor ciona no Br asil at u al.
p er mit e a for mação de vín cu los s ign ifi- 2 . Você vive ou já viveu em algum
cat ivos entr e elas, car acter izados por u m ambiente que se possa caracterizar como
maior sentimento de solidar iedade do que comunidade? Explique sua resposta.
os que se ve r ifica m nas gr andes cidades.

Com o i d en t i f i car um a Um novo t i p o de " com u n i dade" ?


com unidade? Recentemente, os meios de comunicação pas-
Independentemente das variações entre elas, saram a ut ilizar o conceito de comunidade de for-
as comunidades têm algumas características em ma distanciada de seu significado or iginal. Como
comum que servem para identificá-las como um vimos nos capítulos anter ior es, assiste-se hoje
tipo específico de organização social: nas grandes cidades de todo o mundo à formação
• nitidez - são os limites ter r itor iais da comuni- de tribos ur banas, como os punks, os sur fistas, os
dade, ou seja, onde ela começa e onde ter mina rappers, as gangues de per ifer ia. São microgrupos
do ponto de vist a espacial-geogr áfico; geralmente ligados por interesses momentâneos.
• pequenez - a comunidade é uma unidade de
pequenas dimensões, limitando-se quase sem-
pre a uma aldeia ou conjunto de aldeias; Moças i n t eg r an t es de g r u p o de g ót i cos cam i n h am em
u m a r ua de Lei p zi g , na Al em an h a, em m ai o de 2 0 0 7 .
• homogeneidade - as atividades desenvolvidas
por pessoas de mesmo sexo e faixa de idade,
assim como suas expectativas, são muito pare-
cidas entre s i; o modo de vida de uma geração
é semelhante ao da precedente;
• relações pessoais (contatos primários) - em
uma comunidade, as pessoas se relacionam por
meio de vínculos pessoais, diretos e geralmente
de caráter afetivo ou emocional. Predominam,
por tanto, os contatos primários sobre os se-
cundários (veja o capítulo 3 ) .

80
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

Ao lado deles surgem também grupos forma- pos tem-se aplicado - de uma forma talvez pou-
dos pelo contato vir t u al proporcionado por redes co apropriada - a expressão comunidades virtuais
de computadores como a int er net . A esses gr u- (veja o boxe a seguir ).

COMUN I D AD E S D E MENT I RA N O ORKUT

I ara Croft, guem diria, casou-se com Sid Vicious, o


vocalista da banda punk
filhos. Sid m orreu, m as não em
SexPistols,
t979,
e teve cinco
e sim dia desses.
"De repente você fala eu te am o para um a pessoa
gue nunca viu na vida porgue não évocê, éo seu
diz a estudante Jéssica Sim ões de Toledo, de 15 anos,
fake",

Claro, tudo fake. A palavra de origem inglesa, gue gue m ora em Perdizes, zona oeste de São Paulo. Jéssica
significa falso, é usada com o nom e da m ais nova brin- criou a Pedreira, com foto da cantora m exicana Mia,
cadeira do site de relacionam entos Orkut.- criar falsos da banda Rebelde.
perfis gue ganham vida própria, casam -se e fazem tudo Um a única celebridade pode ter várias réplicas
o gue a im aginação deixar. A heroína dos games e o fake, cada gual com um a vida diferente. Há com unida-
punk estão entre os m ilhares de perfis gue lotam com u- fakes do Rebelde ou dos atores do High
des só para
nidades com m ais de 2 0 0 m il participantes. school musical, produção da Disney de grande su-
O m ovim ento ganhou força há um ano, guando o cesso entre adolescentes. Por outro lado, há grupos de
site instalou dispositivo gue perm ite verificar guem bisbi- pessoas cuja ocupação é perseguir fakes ífesse género.
lhotou o perfil alheio. Muitos criaram identidades falsas Alguns são assassinados virtualm ente. Pelas regras da
para continuar espiando. A criatividade foi tão grande brincadeira, um a vez m orto, só é possível retornar ao
gue, em com unidades com o Eu Tenho um Perfil Fake, m undo fake com outro perfil. [...]
surgiram concursos para saber guem era m ais criativo. Falsidade égarantia de am izade fácil no Or kut ,
Digite a palavra fake no sistem a de buscas do segundo a estudante Katia Ribeiro, de n anos [...].
Or kut e aparecerão pelo m enos m il com unidades, en- "O problem a égue vicia. Passo o dia no com putador."
tre as guaisBalada Fake, Praia Fake c Shopping Existem diversas com unidades fake.- há m otéis fake,
West Fake, pontos de encontro desses perfis. "É com o sorveterias fake e cinem as fake. A Balada Fake é, atual-
se fosse um Second Life pobre, onde ninguém com pra m ente, a m aior com unidade, com 256 m il participantes.
nada, só faz am izades e vive histórias engraçadas", Ad a p t a d o d e : D U R A N , Sé r g i o . O m u n d o p a r a le lo d e q u e m
brinca a operadora de telem arketing Patrícia Borges, t e m p e r fi l fa ls o n o Or k u t . O Estado de S. Paulo, 1 9 .8 .0 7 .

de 27 anos, de Ribeirão Preto, interior do Estado, dona


de dois perfis fam osos: Lara Croft e Fractal. "Todo dia
tenho um m onte de am igos para adicionar".
Patrícia é raridade no m undo fake do Or kut,
onde a m aioria é adolescente. Há, inclusive, um a com u-
nidade própria para guem tem m ais de 25 anos e brinca
de viver personagens no site. "A Lara anda m eio desati-
vada. Ela se encheu de filhos e a sua vida acabou ficando
m uito chata", reclam a a operadora.
Expligue-se-. é possível casar num a com unidade
cham ada Agência Matrimonial Fake e adotarfilhos,
todos fakes. Para viver o personagem direitinho, é preciso
criar os rebentos, gue passam o dia fazendo birra, estripulias
Jov en s i n t er ag em por m ei o de com pu t ador es em
ou m andando recados m alcriados para as m ães fakes. Ian house de Cu r i t i b a, Par aná, em novem br o de 2 0 0 4 .

81
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

Nessas novas "comunidades" ocorre a inver - acontecia, elas ainda se mantinham unidas, mais
são do processo de formação dos laços de afinida- por uma necessidade imposta socialmente - quan-
de social. Nas relações sociais tr adicionais, quan- do não por coerção - do que por aquilo que seus
do conhecemos uma pessoa pela primeira vez, o integrantes tinham em comum. Muitos compor-
encontro se dá, fisicamente, no "mundo r eal". A tamentos foram mantidos, ainda que perdessem
par tir desse contato in icia l, e à medida que vamos suas funções.
aprofundando o conhecimento, trocamos infor ma- É o que acontece com a família, que para mui-
ções, identificamos pontos de vist a comuns, cr ia- tos está em franca decadência. Tr ata-se, até certo
mos laços de afinidade. ponto, de um equívoco. É verdade que um número
Nas comunidades vir t uais, cuja comunicação substancial de casamentos tem terminado em d i-
é eletr ônica, ocorre um processo inver so. As pr i- vór cio, principalmente nos centros urbanos. Mas a
meiras interações são realizadas a par tir de in t e- instituição familiar passou por crises também em
resses comuns, previamente determinados. 0 en- épocas anter ior es.
contro pessoal poderá se r ealizar no futur o, mas Temos exemplos disso em obras de liter atur a
ele não é fundamental para o funcionamento da do século XIX, que retratam famílias inter namen-
inter atividade. Isso se tor na evidente nos grupos te desfeitas, mas que permaneciam unidas para
de conversação da inter net, quando pessoas en- manter a aparência imposta pela sociedade, ape-
tram em contato para discutir futebol, filosofia, nas para representar um papel social. Apegar-se à
música e outros temas, sem nunca se terem visto família era uma necessidade vit a l; ser repudiado
ou pretenderem se encontrar. por ela, uma catástr ofe.
As tribos eletr ônicas, que se formam no ci- Atualmente, a ligação familiar é, de forma
berespaço, são expoentes da era tecnológica, que crescente, uma associação voluntária, afetiva e de
está promovendo a união entre a infor mática e respeito mútuo, sobre a qual pesa cada vez menos
as novas formas de sociabilidade pós-moder nas. A a imposição social. Antes, um dos sustentáculos
ciber cultur a é um fenómeno recente, em expan- da família burguesa era a submissão da mulher ao
são contínua, e, como t a l, sem regras ou limites marido, que não raras vezes mantinha uma aman-
ainda definidos, funcionando basicamente a par tir t e. Hoje, como resultado dos movimentos femi-
de uma comunicação espontânea, sem que se sai- nistas e da conquista de direitos pelas mulheres,
ba quem é e onde está o outro. A presença física a base de sustentação da família passou a ser a
deixa de ser, assim, uma das precondições para a igualdade dos cônjuges perante a le i.
realização do contato. Entr etanto, a mobilidade geográfica e ocupa-
cional tende a retirar as pessoas do lugar e da
A com unidade em cr ise classe social a que pertencem, ou da cultur a em
Com o avanço da industr ialização e da ur ba- que nasceram, da qual faziam parte seus pais, ir -
nização, as comunidades tr adicionais foram per- mãos e outros familiar es. At u a, assim, no sentido
dendo seu poder de integr ação. À medida que isso de desagregar a unidade familiar .

Vive r em sociedade

Como vimos, os sociólogos costumam fazer des" indígenas ou camponesas. A rigor, porém, do
distinção entre sociedade e comunidade. Em sen- ponto de vist a sociológico, sociedade seria uma
tido amplo, a expressão sociedade refere-se à tota- associação humana caracterizada por relações ba-
lidade das relações sociais entre os seres humanos. seadas em convenções, em vínculos impessoais e
Assim, pode-se falar genericamente em "socieda- não em laços afetivos.

82
CAPÍTULO 5 Or ganização social e cidadania

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# è "T3 í - - - -r ~g \\ *

3
Ch i cag o, nos Est ados Un i d o s, em f o t o de set em b r o
de 2 0 0 6 . Nas gr an des ci d ad es, os l aços q u e
car act er i zam a co m u n i d ad e se d i sso l v em , par a dar
l u g ar à i m p esso al i d ad e na r el ação en t r e as p essoas.

Segundo o sociólogo alemão Ferdinand Tõn- europeias pré-modernas. Essas sociedades comu-
nies (1855-1936), enquanto a comunidade está nitár ias estavam unidas por uma densa rede de
ligada inter namente por uma vontade coletiva n a- relações pessoais baseadas em laços de parentesco
t u r a l, na sociedade predomina a vontade r acional, e no contato social dir eto. As normas de convi-
deliberada, pr oposital. vência não eram escr itas e, por meio delas, os in -
divíduos estavam ligados numa teia de completa
Os con ceit os de com unidade inter dependência, que envolvia todos os aspectos
e de sociedade da vida social: a família, o tr abalho, a r eligião, as
Para Ferdinand Tõnnies, a comunidade atividades de lazer , etc.
(Gemeinschaft, em alemão) é definida pelo ato de Assim, a comunidade é um tipo de agrupa-
"viver ju n t o, de modo ín t im o, privado e exclusi- mento humano no qual se observa um elevado
vo", como na família, nos grupos de parentesco, grau de intimidade e coesão entre seus membros.
na vizinhança e na aldeia camponesa. Já socie- Nela predominam os contatos sociais primários e
dade (Gesellschaft) é car acter izada por ele como a família tem um papel especial.
"vid a p ública", como uma associação na qual se A sociedade, em contr apar tida, é formada
ingr essa consciente e deliberadamente. por um conjunto de leis e regulamentos r acion al-
Nas comunidades, os indivíduos estão envol- mente elaborados. É o que ocorre, por exemplo,
vidos como pessoas completas, que podem satisfa- nas grandes sociedades ur banas in d u st r iais. Ali,
zer todos os seus objetivos na vida em grupo. Nas as r elações sociais tendem a ser for malizadas e
sociedades, os indivíduos também se encontram impessoais; os indivíduos não mais dependem
envolvidos entre s i; mas a busca da realização de dir etamente uns dos outros para seu sustento e
certos fins comuns é específica e par cial. estão muito menos comprometidos moralmente
Uma comunidade é unida por um acordo de entr e s i.
sentimentos ou emoções entre pessoas, ao passo Por tanto, a expressão sociedade designa agr u-
que a sociedade é unida por um acordo r acional de pamentos humanos que se caracterizam pelo pre-
inter esses, ou seja, por regras e convenções r acio- domínio de contatos sociais secundários e impes-
nalmente estabelecidas. soais, próprios da sociedade in d ust r ial, em que há
Tõnnies elaborou seu conceito de comunidade uma complexa divisão do trabalho e o Estado é
a par tir da observação das sociedades camponesas sustentado por forte aparato bur ocr ático.

83
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

A sociedade m oder na tende a confinar-se a determinadas ocasiões e lu -


Ao nos referirmos às comunidades campone- gares, em vez de fazer parte do convívio cotidiano
sas que serviram de fonte de observação para Fer- das pessoas. Nessa estr utur a social, a família deixa
dinand Tõnnies, utilizamos a expressão sociedade de ser o centro de união do grupo.
comunitár ia. Em oposição a ela, alguns sociólogos Na sociedade societár ia, os interesses comuns
utilizam o conceito de sociedade societária para muitas vezes entram em conflito, e perde-se em
designar as sociedades modernas. Outros, contu- grande parte a força da tr adição. A r elativa u n i-
do, preferem manter as designações tr adicionais formidade de pensamento da comunidade é subs-
de comunidade e sociedade. tituída por uma enorme variedade de interesses
As grandes metrópoles contemporâneas são e ideias divergentes. São relativamente poucas as
uma expressão da sociedade societár ia. Esta se ca- cr enças, os valores e padrões de comportamento
r acter iza pela acentuada divisão do trabalho e pela universalmente aceitos.
proliferação de papéis sociais. Nela os indivíduos Os mores (costumes; veja o Dicionário Básico de
precisam enquadrar-se numa complexa est r ut u- Sociologia, no fim do volume) são enfraquecidos e
ra social, na qual ocupam determinado status e a lei formal emerge para regular o comportamento
desempenham papéis difer entes, frequentemente e governar o intercâmbio social. No lugar da firme
sem ligação entre si (sobre os conceitos de papéis coesão social, característica da sociedade comunitá-
sociais e status, veja o capítulo 6 ) . r ia, na sociedade societária a integração é frouxa e o
As relações sociais nas sociedades societárias grau de consenso tende a diminuir. Isso pode provo-
tendem a ser transitórias, superficiais e impessoais. car uma frequência maior de situações de conflito.
Os indivíduos associam-se uns aos outros com base Entr etanto, o predomínio da tradição e o res-
em propósitos limitados. São relações essencialmen- peito aos costumes característicos das sociedades
te instr umentais, como a existente entre patrão e comunitár ias não implicam necessariamente uma
empregado, estabelecida por meio de um contra- qualidade de vida melhor e mais feliz. No boxe
to de trabalho. A vida perde a coesão unitária que a seguir você lerá um relato que r elativiza a v i -
mantinha estável a antiga comunidade. 0 trabalho são idílica que muitas pessoas têm da comunidade
fica distanciado da família e do lazer. A religião camponesa.
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

U M A A L D E I A N A D A I D Í L I CA

F m muitos casos, o apego à tr adição que


car acter iza as comunidades camponesas
pode se voltar contr a ela própria, erguendo-
se como obstáculo às mudanças. O texto a se-
guir relata uma situação nada idílica ocor r ida
em uma aldeia camponesa do Paquistão - país
de maioria muçulmana.
A paquistanesa Mukbtar Mai apertou seu
exem plar do Corão contra o peito guando ouviu, na
presença de m ais de 100 hom ens, a sentença gue o con- Au t or a do l i v r o Desonrada, a p aq u i st an esa
Mu k h t ar Mai é en t r ev i st ad a ao d esem b ar car n o
selho de sua aldeia acabara de lhe im por: um estupro
aer op or t o Ch ar les de Gau lle, em Par is, Fr ança, em
coletivo. Integrante de um a casta inferior, Mukhtar j an ei r o de 2 0 0 6 .
fora até lá apenas para pedir clem ência para o irm ão
m ais jovem . Era ele o réu no julgam ento. Estava prestes não há com ércio e gue só recentem ente passou a ter energia
a ser condenado à m orte por ter se envolvido com um a elétrica. Ela iniciou um m ovim ento gue contesta a condi-
m ulher de um clã superior. ção fem inina em seu país e questiona hábitos ancestrais
Mukhtar, então com 28 anos, foi im ediatam ente com o a jirga, conselho tribal gue a condenou ao estupro.
arrastada por quatro hom ens arm ados. Indiferentes a Em bora o Corão, o livro sagrado dos m uçul-
seus gritos e súplicas, levaram -na para dentro de um m anos, ensine que, aos olhos de Alá, hom ens e m ulheres
estábulo vazio e, no chão de terra batida, violentaram - são iguais, em algum as culturas o fundam entalism o
na, um após o outro. "Não sei quanto tem po durou essa distorceu essa visão. E produziu situações que chocam
tortura infam e, um a hora ou um a noite. Jam ais esque- o Ocidente, com o m eninas proibidas de frequentar a es-
cerei o rosto desses anim ais", conta a paquistanesa. cola e m ulheres im pedidas de trabalhar ou condenadas
O im pressionante relato de Mukhtar, colhido a penas de apedrejam ento.
pela jornalista francesa Marie-Thérèse Cuny, está em Ad a p t a d o d e : S O A R E S , Ro n a l d o .

Desonr ada (tradução de Clóvis Marques, Editora O r e s ga t e d a h o n r a . Veja, 3 .1 0 .0 7 .

Best Seiler], gue acaba de ser lançado no Brasil. Mais


do gue o desfecho de um a querela tribal, o livro narra Va m o s p en sa r ?
com o Mukhtar transform ou sua tragédia pessoal em
1 .0 texto mostra que o apego a certas
um a causa-, a defesa dos direitos das m ulheres em seu
tradições pode ser um obstáculo às
país. E, com isso, tornou-se um sím bolo da luta das
mudanças e just ificar até violações
m ulheres no m undo islâm ico.
aos direitos humanos. Em sua
Nos três dias seguintes ao estupro, Mukhtar per-
opinião, esse fenómeno também
m aneceu trancada em seu quarto. Não conseguia com er
ocorre no Br asil? Cite exemplos.
nem falar. "Até hoje eu sinto a dor, m as aprendi a m iti-
2 . É possível encontrar um ponto de
gar esse sofrim ento", disse a Veja. "O gue m e conforta
equilíbrio entre a expansão dos
é gue abri um a escola para m eninas. Quando vejo as
direitos humanos, o desejo de
alunas estudando e brincando, eu m e sinto honrada, é
progresso, o avanço tecnológico, por
isso que atenua a m inha dor". [...]
um lado, e já o respeito a valores
Mukhtar não desafiou apenas o poder local em
tr adicionais, como a família e a
Meerwala, um vilarejo de agricultores distante 600 qui-
religião? Explique sua resposta.
lóm etros da capital do Paquistão, Islam abad, onde quase

85
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

Sob o im pact o da globalização nhas. 0 tabu de que estar só é sinal de abandono ou


A distinção entre comunidade (ou sociedade de incompetência afetiva vem sendo superado por
comunitár ia) e sociedade societária proporciona uma nova forma de olhar a questão. Hoje, morar so-
instrumentos para a interpretação da sociedade zinho é acima de tudo uma opção de vida, que tem
contempor ânea, assim como para estabelecer uma suas vantagens e desvantagens.
projeção de suas tendências. No Br asil, há cerca de 4 milhões de pessoas que
Com o avanço da industr ialização, as socieda- vivem sozinhas em seus domicílios. Trata-se de uma
des comunitárias tenderam a se transformar mais tendência mundial. Nos Estados Unidos há 26 mi-
ou menos rapidamente em sociedades societár ias. lhões de adultos que moram sozinhos por opção. Na
Com a globalização, esse processo, iniciado com a Alemanha são 13 milhões. Estima-se que eles serão
Revolução Industr ial do século XVIII, ganhou uma 25% da população do país em dez anos. Na França,
intensidade jamais sonhada anteriormente. 0 percentual de lares onde vive uma só pessoa au-
Algumas de suas manifestações são o cresci- mentou 21,4% em oito anos, enquanto na Inglater-
mento explosivo das cidades, o declínio da impor- ra esse aumento foi de 37,5% em dez anos.
tância da família, a internacionalização da econo-
mia, o surgimento de redes vir tuais de comunicação Um f en óm en o urbano
interligando computadores de todo o planeta, a Por que tantas pessoas optam por uma vida
ampliação do poder da burocracia, o estímulo ao solitária? São várias as explicações, algumas demo-
individualismo e à competitividade, o enfraqueci- gráficas, outras económicas; há também as razões
mento das tradições e a diminuição do papel da particulares.
religião na vida cotidiana. (Uma das reações a essa A primeira constatação é óbvia: as pessoas se
diminuição é o crescimento de certas Igrejas, como casam menos e com mais idade. Portanto, o n ú-
as evangélicas, nas quais os crentes desenvolvem mero de solteiros é cada vez maior no país. 0 gr u-
aspectos importantes de vida comunitár ia.) po dos descasados também contr ibui para fazer
Tais mudanças conduzem, de um lado, ao con- crescer o número dos que vivem sozinhos. Cerca
flit o, à instabilidade, à ansiedade e às tensões psi- de 150 m il pessoas se divorciam anualmente no
cológicas; de outro, à liberação dos sistemas de Br asil. Como os casais tendem a ter menos filhos
controle e de coer ção, e a novas oportunidades do que antigamente, é comum que, na separação,
para o desenvolvimento humano. cada um arrume seu próprio canto. Além disso, o
aumento da expectativa de vida do brasileiro faz
Solidão e au t oisolam en t o com que o número de idosos também aumente.
na grande cidade Alguns sociólogos têm se dedicado a pesquisar
Embora as definições de Tõnnies sejam um os singles. 0 sociólogo alemão Stefan Hr adil, por
instrumento indispensável para a compreensão dos exemplo, afirma que eles são os "sismógrafos" do
dois tipos de organização social, a Sociologia con- nosso tempo: "Os singles colocam em relevo a r ela-
temporânea atualizou os conceitos de comunidade ção extremamente instável entre o indivíduo e a
e sociedade, de acordo com as novas relações so- coletividade que é própria das sociedades contem-
ciais que vêm se estabelecendo entre os indivíduos. porâneas em geral e da Alemanha, em particular".
Um exemplo de um novo tipo de vida, que se baseia De fato, os singles são mais numerosos nas gran-
em relações sociais acentuadamente indir etas, são des metrópoles do que no campo (onde os estímulos
os chamados singles (pessoas que preferem viver para uma vida comunitária e solidária são mais for-
sozinhas). Leia no boxe a seguir o depoimento da tes): um terço deles vive em cidades com mais de
escritora Cristina Porto sobre esse tipo de vida. 1 milhão de habitantes. Ao mesmo tempo, sua forma-
A tendência para o autoisolamento vem se ver i- ção educacional está acima da média: são geralmente
ficando principalmente nas grandes cidades: é cada bem-sucedidos na carreira profissional, ganham bem
vez maior o número de pessoas que moram sozi- e moram, de modo geral, em casas confortáveis.

86
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

A SOLI DÃO C O M O O P ÇÃO

M oro sozinha desde 1 9 7 8 ( . . . ) . É difícil


as coisas, m anter a belez a da relação
rosa] no dia-a-dia. Morar com outro interfere até
dividir
(am o-
nunca senti. Procuro as pessoas quando sei que tenho
coisas boas para dar, quando posso dividir
Dor e tristeza eu prefiro curtir sozinha.
alegria.

na nossa própria energia. Eu, por exem plo, gosto de PORTO, Cr i s t i n a . Cultura News, n . 48, 1996.
ouvir m úsica baixinho, detesto m uito barulho — tem
de ser tudo calm o, para não m e atropelar. Gosto de
curtir m eus pequenos rituais, com o tom ar o café da
m anhã cedinho, de pijam a, depois voltar para a
cam a e cochilar com o rádio ligado, às vezes escu-
tando m úsica sertaneja.
São coisas que eu não poderia fazer tão à vontade
se m orasse com alguém . E um a delícia tam bém , quando
volto de viagem , saber que a coisa vai estar exatam ente
do jeito que deixei, sem alteração de cheiro, de astral, de
nada. Só não gosto m esm o éde providenciar serviços de
m anutenção — quando peço orçam ento para encanador,
eletricista, pedreiro, chaveiro, sem pre tenho a sensação
de estar sendo enganada e explorada.

Um a das grandes vantagens de m orar sozinha


éo descom prom isso - sair e voltar quando quiser, sem
ter de avisar ninguém . A liberdade éfundam ental para
m im . Talvez por isso não m e incom ode a solidão. Li-
berdade e solidão estão juntas. Se você quiser exercitar Onze da manhã, t el a do p i n t o r est ad u n i d en se
Edw ard Hop p er ( 1 8 8 2 - 1 9 6 7 ) . Poucos ar t i st as
sua liberdade, você vai ser um a pessoa sozinha. Mas
r et r at ar am t ão bem q u an t o el e a so l i d ão nas
deve ser pior se sentir sozinha ao lado de outro. Isso eu gr an des ci d ad es dos Est ados Un i d o s.

A i n co m u n i cab i l i d ad e
e a f r i eza das
r el ações en t r e
as pessoas são
al g u m as das
car act er íst i cas das
gr an des ci d ad es na
soci ed ad e i n d u st r i a l ,
r ep r esen t ad as n est a
t el a de Edw ard
Hop p er ( 1 9 4 2 ) .

87
CAPÍTULO 5 Or ganização social e cidadania

3 Que he rança deixaremos?

Como será a sociedade no futuro? Em que nas quais os indivíduos estabelecem contatos so-
bases se apoiarão o consenso e a estabilidade na ciais diretos, com ações de solidariedade.
sociedade pós-industr ial, ur bana e globalizada? Isso se dá com frequência nos bairros pobres
Será necessár io, para resolver nossos problemas da periferia, onde o código moral se baseia, em ge-
económicos e sociais, retomar os valores tr adicio- r al, na ajuda mútua. Em muitos dos bairros mais
nais e os modos mais antigos de organização? Se- pobres, mesmo numa sociedade societária, preser-
rão as formas sociais alter nativas (como a dos sin- vam-se certos valores das antigas comunidades.
gles) apropriadas a uma sociedade complexa como Nesses lugares, a vida gira em torno da família, do
a nossa, com valores muitas vezes conflitantes, local de moradia, das relações de vizinhança. 0 vizi-
como os da liberdade individual em contraste com nho, muitas vezes, passa a ser quase um membro da
os interesses coletivos e a preservação do meio am- família, um companheiro nas horas de dificuldade.
biente? Será possível conciliar , de alguma for ma, Entr etanto, a velocidade com que estão se
os difer entes, e muitas vezes antagónicos, estilos dando as mudanças n a sociedade societár ia tr az
de vida que se estabelecem no centro e nos bairros novos desafios às grandes metrópoles: um exem-
das grandes metrópoles e em suas per ifer ias? plo disso é o assustador aumento da criminalidade
Embora as metrópoles contribuam para o sur - e as dificuldades para combatê-la.
gimento de novos estilos de vid a, as mudanças Nesse processo, embora continue for te em
parecem não ter afetado ainda significativamente alguns lugares da per ifer ia, a solidariedade e n -
todos os habitantes dos grandes centros urbanos: tre as pessoas perde sua força nas grandes ci-
mesmo em cidades como Nova York e São Paulo po- dades; antigas inst it uições sociais sofrem duros
dem-se encontrar relações intensas de vizinhança, golpes em sua credibilidade e legitimidade. Tudo

I
!

Est i m u l ad as p el a p r op ag an d a e an si osas
por con su m i r , d ezen as d e pessoas f azem
com pr as em shopping center de São
Paulo em ag ost o d e 2 0 0 6 .
CAPÍTULO 5 Or ganização social e cidadania

favorece o comportamento in d ivid ualist a que se o equilíbrio ecológico. Nesse caso, a pergunta que
manifesta inclusive no desenvolvimento de es- devemos nos fazer é: que herança deixaremos para
tr atégias de autodefesa pessoal ou n a tendência nossos filhos?
a "fazer ju st iça pelas próprias mãos". Mesmo a l-
gumas relações de vizin h an ça, nas quais per sis-
Novem br o de 2 0 0 7 . Em m ei o a i n t en sa p o l u i ção ,
tem manifestações de vid a comunitár ia, poderão m ot or i st as acen d em os f ar ói s de seu s car r os no cen t r o
não sobreviver ao individualismo cr escente, que de Peq u i m , n a Ch i n a.
tende a se univer salizar .
Com seu estímulo ao consumo e à competição
desenfreada, a economia capitalista, dinâmica e
tecnologicamente inovadora, colabora para refor-
çar a cultur a do individualismo e o isolamento;
favorece a formação de uma sociedade egocêntr i-
ca, com uma fr ágil conexão entre seus membros,
na qual as pessoas buscam satisfazer apenas suas
ambições, necessidades e impulsos. Numa socie-
dade desse t ipo, a satisfação individual é colocada
acima de qualquer obrigação comunitár ia.
Igualmente preocupante são as consequências
ecológicas desse afrouxamento dos laços de soli-
dariedade e da primazia atribuída ao consumo. Em
uma sociedade construída com base n a competi-
ção sem limites e no individualismo exacerbado, as
pessoas tendem a pensar apenas em si mesmas e
em seu bem-estar, pouco se importando com o que
pode acontecer no futuro com as relações sociais e

Direitos humanos e cidadania

Algumas características da sociedade contem- ninguém está acima dela), pela pluralidade de
porânea, como vimos, atuam no sentido de desagre- partidos políticos, pelo voto livr e e univer sal e
gar valores cultivados não só nas antigas comuni- pela alter nância no poder. Nessas condições, ele
dades, mas também n a própria sociedade societária favorece a participação política e estimula a asso-
até meados do século XX. Entre esses valores estão ciação de pessoas em torno de interesses comuns,
a solidariedade, a vida familiar, a igualdade de opor- como sindicatos, organizações estudantis, asso-
tunidades, a participação política, etc. ciações de bair r o, movimentos r eivindicatór ios,
Entr etanto, no inter ior da própria sociedade etc. Ambas as tendências, por sua vez, favorecem
societária moderna existem forças que se opõem o estreitamento dos laços entre os par ticipantes, a
fortemente a essas tendências desagregadoras. solidadariedade e a agregação de inter esses.
Isso acontece porque as sociedades pós-industriais Um dos fundamentos do regime democrático é
são geralmente sociedades democráticas. o conceito de cidadania. Segundo o sociólogo Her-
0 regime democrático se car acter iza pela l i - bert de Souza (Bet in ho), "cidadão é um indivíduo
berdade, pelo respeito aos direitos humanos, pelo que tem consciência de seus direitos e deveres e
"império da le i" (todos são iguais perante a le i, par ticipa ativamente de todas as questões da so-

89
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

A D E C L A R A Ç Ã O U N I VE R S AL DOS
DI REI T OS H UMAN OS

A cidadania está diretamente vinculada aos


direitos humanos, uma longa e penosa
conquista da humanidade que teve seu reco-
Ninguém será arbitrariam ente preso, detido ou exi-
lado.
Todo ser hum ano que trabalha tem direito a um a
nhecimento formal com a Declaração Universal rem uneração justa.
dos Direitos Humanos, aprovada em 1948 pela Todo ser hum ano tem direito à alim entação, vestuário,
Or ganização das Nações Unidas ( ONU) . Na habitação e cuidados m édicos.
época - marcada pela vitória das nações demo- Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segu-
cráticas contra o nazismo e o fascismo durante rança pessoal.
a Segunda Guer r a Mundial ( 1 9 3 9 -1 9 4 5 ) - , ela Todo ser hum ano tem direito ao trabalho e à livre
abria a perspectiva de um novo mundo, em que escolha de em prego.
haveria paz, liberdade e prosperidade: uma es- Toda pessoa tem direito à segurança social.
perança que acabou não se realizando. Toda pessoa tem direito a tom ar parte no governo de

Leia a seguir os pr incípios da Declaração seu país.

Universal dos Direitos Humanos e procure compa- Toda pessoa tem direito a um a ordem social em que seus
direitos e liberdades possam ser plenam ente realizados.
rá-los com a realidade da cidadania, tal como
Todo indivíduo tem o direito de ser reconhecido com o
ela vem sendo praticada no mundo em geral e
pessoa perante a lei.
no Br asil, em particular:
Todo ser hum ano tem direito à instrução.
• Todos os seres hum anos nascem livres e iguais em
S O U Z A , Ar i He r c u l a n o . Os direitos humanos.
dignidade e direitos. Sã o Pa u l o : Ed i t o r a d o Bras i l, 1 9 8 9 . p. 2 3 - 6 .

ciedade. Tudo o que acontece no mundo, acontece conjunto da sociedade. A começar pela etimologia
comigo. Então eu preciso par ticipar das decisões da palavr a, havia uma separação entre o homem
que inter fer em na minha vid a. Um cidadão com urbano e o homem r ur al, uma vez que o termo
um sentimento ético forte e consciente da cida- cidadão referia-se somente aos habitantes da ci-
dania não deixa passar nada, não abre mão desse dade. A noção de cidadania, por ém, é anterior à
poder de participação ( ...) . Idade Moderna e teve suas origens na Grécia e
A ideia de cidadania at iva é ser alguém que Roma antigas.
cobra, propõe e pr essiona o tempo todo. 0 cida- A Grécia Antiga era composta por cidades-Es-
dão pr ecisa ter consciência de seu poder". ( I n : tado autónomas, póleis em grego. Em algumas delas
SANTOS JR., Belisário et a lii. Cidadania, verso e vigorava a democracia direta, regime político no qual
reverso. São Paulo: Secr etar ia da Ju st iça e da Ci- os cidadãos, chamados de politai, participavam das
dadania, 1998. p. 1 1 .) decisões do governo da cidade por meio de assem-
bleias. Entretanto, nem as mulheres, nem os escravos,
nem os estrangeiros eram considerados cidadãos.
A evolução do conceit o de cidadania Roma, por sua vez, foi em suas origens uma
No começo da Idade Moderna, o conceito de cidade-Estado. Inicialmente, sua forma de gover-
cidadania estava associado ao bur guês, não ao no era a monarquia, mas em 509 a.C. foi deposto

90
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

O S D I R E I T O S D AS CR I AN ÇAS

ois anos depois da Declaração Universal dos 5. Direito à educação e a cuidados especiais para a
Direitos Hum anos, em 1950 a Assembleia criança física ou m entalm ente deficiente.
Ger al da ON U aprovou os Direitos das Crianças. 6. Direito ao am or e à com preensão por parte dos pais
O documento era uma tentativa de criar uma e da sociedade.
rede de proteção às crianças na situação do pós- 7. Direito à educação gratuita e ao lazer.
Segunda Guerra Mundial ( 1 9 3 9 -1 9 4 5 ) , quando 8 . Direito a ser socorrida em prim eiro lugar, em caso
muitas delas perderam seus pais. de catástrofe.
1. Direito à igualdade, sem distinção de raça, religião 9. Direito de ser protegida contra o abandono e a ex-
ou nacionalidade. ploração no trabalho.
2. Direito a proteção especial para seu desenvolvim en- 10. Direito a crescer dentro de um espírito de solida-
to físico, m ental e social. riedade, com preensão, am izade e justiça entre os
3. Direito a um nom e e a um a nacionalidade. povos.
4. Direito à alim entação, m oradia e assistência m édica S O U Z A , Ar i H e r c u l a n o . Os Direitos Humanos.
adequadas para a criança e a m ãe. S ã o P a u l o : E d i t o r a d o Br a s i l , 1 9 8 9 . p . 2 3 - 6 .

Men i n os de r u a e cães d or m em em cal çada no cen t r o do Reci f e, em f o t o de 1 9 9 6 . Ap esar da v i g ên ci a do


Estatuto da Criança e do Adolescente, apr ovado em 1 9 9 0 , m i l h ar es de cr i an ças ai n d a v i v em em co n d i çõ es
su b - h u m an as no Br asi l .

seu último r ei por uma elite de senadores que ma de assembleias, das quais estavam excluídas
estabeleceu a República. Sob esse regime, Roma as mulheres e os escravos. Entr etanto, embora t o-
começou a se expandir, conquistando territórios dos os romanos livr es do sexo masculino fossem
de outros povos até se transformar em um grande considerados cidadãos, o poder era de fato con-
impér io. Durante esse per íodo, vigorou um siste- trolado pelo Senado, composto por uma minor ia

91
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

de grandes proprietários r ur ais. Em 27 a .C, com a afligem hoje a humanidade. Os graves problemas
instauração do Império Romano, a República che- políticos, r aciais, étnicos, de desemprego e de ex-
gou ao fim. clusão social somente poderão ser superados com
Com a queda do Império Romano do Ociden- o pleno exercício da cidadania.
t e, em 476, desapareceu o conceito de cidadania
na Eur opa. Na Idade Média, não havia cidadãos. I gualdade e equidade
Havia apenas vassalos dos senhores feudais e sú- "Cidadania" - afir ma o jor n alist a e escritor
ditos do r e i. Gilberto Dimenstein - "é o direito de se ter uma
No século XVin, a Independência dos Estados ideia e poder expr essá-la. É poder votar em quem
Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789) colo- quiser sem constrangimento. É processar um mé-
caram o conceito de cidadania em um lugar central dico que cometa um er r o. É devolver um produto
na vida política. A partir de então, ele ampliou-se e estragado e receber o dinheiro de volt a. É o dir ei-
aprofundou-se cada vez mais, até agregar todos os to de ser negro sem ser discriminado, de praticar
indivíduos das sociedades democráticas modernas. uma religião sem ser perseguido.
Como termo polít ico, cidadania significa exer - Há detalhes que parecem insignificantes,
cício de dir eitos, compromisso ativo, participação mas que revelam estágios de cidadania: respeitar
política, responsabilidade. Significa par ticipar da o sin al vermelho no tr ânsito, não jogar papel na
vida na comunidade, na sociedade, no país. Sem r u a, não destruir telefones públicos. Por trás desse
cidadania não pode haver aquele compromisso comportamento está o respeito à coisa pública."
responsável que garante o respeito aos direitos (DIMENSTEIN, Gilberto. Cidadão de papel. 5. ed.
humanos e democráticos e que, em última análise, São Paulo: Át ica, 1994. p. 2 0 ) .
mantém unido o organismo político. Ela poderá Na base do conceito de cidadania estão as no-
ser o agente mediador dos grandes conflitos que ções de liberdade e de igualdade. 0 princípio da

92
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

igualdade de todos perante a lei é uma conquista é retardado em relação a estes e, no momento em
da Revolução Francesa (1789), com a qual - na que devem enfr entar a competição no mercado
periodização dos historiadores - teve início a Er a de tr abalho, elas já partem de uma posição des-
Contemporânea. Esse princípio foi acompanhado vant ajosa.
do reconhecimento dos direitos humanos e do Da mesma for ma, apenas algumas parcelas
exercício dos direitos e deveres da cidadania. da sociedade br asileir a alcançar am os direitos de
Recentemente, alguns pensadores acrescenta- cidadania em sua plenitude, como os de usufr uir
ram o conceito de equidade aos fundamentos da dos serviços públicos de água encanada e t r at a-
democracia. Embora no âmbito do Direito os dois d a, rede de esgotos, luz elétr ica, boa educação,
termos sejam tratados como sinónimos - equi- salários dignos, assistência médica, emprego,
dade igual a igualdade - , para a Sociologia e a etc. (Sobre desigualdades sociais no Br a sil, veja
Ciência Política existem algumas diferenças entre o capítulo 1 3 .)
eles. A noção de igualdade estabelece que todos Para corrigir essas distorções, cientistas sociais
são iguais perante a le i. Entr etanto, as sociedades vêm propondo políticas públicas destinadas a:
democráticas capitalistas são caracterizadas por • promover a equidade, ou seja, a igualdade
desigualdades sociais e económicas que acabam entr e desiguais, por meio de medidas cor r et i-
inter fer indo também na igualdade jur ídica. vas no âmbito da educação, da saúde p ú blica,
Por exemplo, no Br asil existe igualdade j u - da mor adia, do emprego, do meio ambiente
r ídica gar antida pela Constituição. Ent r et ant o, saudável e de outros ben efícios sociais - uma
na pr ática a Ju s t iça tende a favorecer as pessoas expr essão disso são as cotas de emprego par a
mais r icas em pr ejuízo das mais pobres. Além dis- deficientes físicos em cer tas empr esas, o que
so, o pr incípio da "igualdade de opor tunidades" poder ia parecer um "p r ivilégio", mas que n a
também é negado desde o nascimento. Ao nasce- verdade tende a estabelecer uma r elação mais
r em, as pessoas dos grupos de baixa renda têm equilibr ada entr e portadores de deficiên cia
pela fr ente problemas que os filhos das famílias e pessoas em per feitas condições físicas e
abastadas não t ê m . Assim, seu desenvolvimento ment ais;

É T I CA E P O LÍ T I CA

A lém de pr omover a igualdade entre de-


siguais, a política da equidade deve pr o-
piciar uma forma ética de lidar com a esfera
- entendida como estatuto dos cidadãos em
pleno gozo de seus direitos e como par ticipa-
ção política - é uma das forças que impedem
pública (ou seja, o conjunto de ór gãos públi- ou dificultam o esmagamento dos valores
cos, ligados ao Estado) e a esfera privada (que democr áticos nas sociedades pós-industriais.
envolve a vida par ticular das pessoas). A dis- Entr etanto, a própria cidadania se vê hoje
tinção entre público e pr ivado é um dos va - ameaçada pelo crescimento das desigualda-
lores mais importantes da democr acia. Para des sociais, especialmente nos países pobres
pr eser vá-la, os governantes devem tomar e emergentes.
medidas de interesse geral que beneficiem A única forma de reverter essa ameaça
a comunidade. Além de ilegal, é antiético e e preservar a cidadania consiste em ampliar a
ilegítimo legislar em causa pr ópr ia, pr aticar área de par ticipação política, estendendo-a a
abuso de poder ou ut ilizar recursos públicos setores cada vez mais amplos da população.
para favor ecer interesses par ticular es. Dit o de outra maneira: consiste em fortalecer
Com o vimos, o exer cício da cidadania a sociedade civil.

93
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

• combater todas as formas de preconceito e dis- ganizações privadas sem fins lucrativos que se esta-
cr iminação, seja por motivo de raça, sexo, r e- belecem fora do mercado de trabalho e do governo,
ligião, cultur a, condição económica, aparência mas que têm importante presença na vida política.
ou condição física. Exemplos de organizações que participam da
Assim, o conceito de equidade engloba o de sociedade civil em nosso país são a Ordem dos Ad-
igualdade, mas vai além dele. Uma política voltada vogados do Br asil (OAB), a Associação Brasileira de
para a equidade não se contenta com a igualdade Imprensa ( ABI) , a Conferência Nacional dos Bispos
for mal, jur ídica, pois considera que as pessoas são do Br asil (CNBB), as diferentes Igrejas organiza-
desiguais, seja por razões físicas e biológicas, seja das, os sindicatos, as Organizações Não-Governa-
por razões sociais. Nessas cir cunstâncias, procura mentais (ONGs), a União Nacional dos Estudantes
restabelecer o equilíbrio por intermédio de medi- (UNE), etc.
das compensatórias que reduzam as desigualdades Atualmente, as Organizações Não-Governa-
existentes. mentais compõem, no inter ior da sociedade civil,
o núcleo do que se poderia chamar de terceira
Público e privado esfera, situada entre o Estado (esfer a pública) e
Em toda sociedade democrática existem duas a sociedade (esfera pr ivada). Essa ter ceir a esfera
esferas de vida que ar ticulam as relações políticas não pertence ao Estado, mas atua em áreas que
e sociais. Uma delas é a esfera pública, na qual se geralmente deveriam ser atendidas pelas autor i-
localizam o Estado com seus três poderes (Execu- dades constituídas.
t ivo, Legislativo e Judiciár io) e outras instituições De fato, as ONGs mobilizam e estimulam com-
políticas. A outra é a esfera pr ivada, lugar das at i- portamentos solidár ios, dedicando-se a questões
vidades económicas, dos interesses par ticular es, como ecologia, paz e alfabetização, entre outr as.
das empresas, do mercado, da vida familiar , da Dessa for ma, elas desenvolvem ações de solidar ie-
vida religiosa e das relações sociais. dade que se contrapõem ao individualismo cres-
Entre essas duas esferas estão a opinião pública cente e à incapacidade do Estado de prestar ser vi-
e a sociedade civil. Esta última é formada pelas or- ços essenciais à população.

94
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

—• Li v r os su g er i d os
• DIMENSTEIN, Gilber to. 0 cidadão de papel. São Paulo: Át ica , 2005.
• OLIVEIRA, Manfredo Ar aújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Loyola, 2003.
• DALLARI, Dalmo de Abr eu. 0 que são direitos das pessoas. São Paulo: Abr il Cultur al/ Br asiliense, 1984 (Coleção Pr imei-
ros Passos).
• DUBAR, Claude. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Mar tins Fontes, 2005.

—• Fi l m es su g er i d os
• Rocco e seus irmãos, de Luchino Viscon t i, 1960. Família pr oveniente do campo, n a It ália, se desintegra ao se mudar
para uma grande cidade.
• Tilai, de Idr issa Ouedraogo, 1990. Homem idoso se casa com a noiva do filho em aldeia afr ican a, provocando um con-
flito que leva o jovem a romper com as tr adições da comunidade.
• A árvore dos tamancos, de Ermanno Olmi, 1978. Família de comunidade camponesa n a Itália enfr enta dificuldades para
colocar o filho na escola.
• A grande cidade, de Carlos (Cacá) Diegues, 1965. Jovem do int er ior va i morar no Rio de Janeir o e fica dividido entre a
tradição r ur al e o desejo de modernidade.
• Vida cigana, de Emir Kust ur ica, 1989. Jovem cigano sai de sua comunidade, na ex-Iugoslávia, e emigra para a It ália,
onde não consegue se adaptar à vid a ur bana.
• Revolução, de Hugh Hudson, 1985. Agr icultor e seu filho se envolvem n a lu t a pela independência das colónias inglesas
da Amér ica do Norte.
• Anjos rebeldes, de Kat ja von Garnier, 2004. No começo do século XX, mulheres sufr agistas lut am pelo dir eito de voto
para as mulher es e são r epr imidas pelo governo estadunidense.
• Eu me lembro, de Edgard Navarro, 2006. Homem é testemunha dos principais fatos da história do Br asil entre o suicídio
de Getúlio (1954) e o assassinato de Vladimir Herzog no quar tel do Segundo Exército (São Paulo), em 1975.
• Muda, Brasil, de Oswaldo Caldeir a, 1985. Documentár io sobre o período de tr ansição entre a ditadur a militar e o regime
democr ático no Br asil.

Tr ab al h an d o co m f i l m es
Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados. Depois, façam um
debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que r elações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?
• Há r efer ências, no filme, à noção de comunidade? Quais são elas e como aparecem no filme?
• Há r efer ências à contr adição entre a tr adição comunitár ia e a vida em sociedade? Sob que formas elas se manifestam
no filme?
• Há r efer ências à questão da cidadania? Quais são elas e como aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as


1 . Explique a importância dos limites territoriais para a análise sociológica de uma comunidade.
2 . Cite as quatro pr incipais características de uma comunidade.
3. Quais as pr incipais diferenças entre as sociedades comunitár ias e as sociedades societárias?
4. Em sua opinião, o que tem provocado o aumento do individualismo no mundo de hoje?
5. Com base no que le u , elabore seu próprio conceito de cidadania.
6 . Reúna-se com um grupo de colegas e, ju n t os, façam uma pesquisa sobre as atividades de
uma 0NG. Depois, escrevam um pequeno relatório com os resultados do tr abalho.
— ; ; •

95
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

Cidadania: a separ ação ent re o homem e o cidadão


Entre os séculos XI e XV, no período final da Idade Média na Europa, um grupo social com eçou a se
destacar de form a especial. Era um grupo urbano, isto é, que vivia nas cidades, dedicado principalm ente ao
com ércio. Por essa época, as cidades europeias eram cham adas de burgos e seus habitantes, de burgueses.
Com o crescim ento do com ércio, os m ercadores se tornaram cada vez m ais ricos e a palavra burguês
passou a ser aplicada apenas a eles. Surgia assim a burguesia, classe social dinâm ica e em preendedora, que
se tornaria m ais tarde um dos protagonistas da Revolução Industrial, iniciada em m eados do século XVIII.
O texto que você vai ler agora analisa a ligação entre a burguesia e o m oderno conceito de cidadão.

A con cep ção teórica dos direitos huma- Com o consequência das mudanças na
nos e de cidadania começou a ser elaborada economia e na sociedade, a atr ibuição de d i-
no século XVIII por uma corrente filosófica reitos e deveres também sofr er ia alter ações,
denominada Iluminismo [sobre o Iluminismo, beneficiando algumas categorias mais do
consulte o Dicion ár io Básico de Sociologia que outr as.
no fim do volume] [...]. A partir de então, de maneira ger al, o
O significado or iginal do conceito de homem do povo, colocado numa escala social
cidadania estava associado ao burguês, e não inferior, dificilmente par ticipar ia integr al-
a todo o povo. A começar pelo fato de que a mente do processo pr odutivo.
própria etimologia impôs uma separação en- A divisão técnica do tr abalho, levada a
tre o homem urbano e o homem r ur al, uma extr emos com o desenvolvimento de novas
vez que a palavra cidadão referia-se somen- tecnologias industr iais, ir ia tor nar mais agu-
te aos habitantes da cidade. Por uma perfeita da a difer ença entre os homens na divisão
analogia, o novo termo veio substituir os ter- social.
mos burguês e burgo. Já que cada trabalhador par ticipa ape-
Nã o foi uma analogia casual, mas inten- nas de uma pequena fase do processo, fa-
cionalmente elaborada. Desde que a palavra zendo uso de esfor ço físico ou da habilidade
burguês deixou de ser um termo neutro, adquirin- manual, enquanto a maior parte do seu ser é
do uma nítida conotação de classe social, como inibida, alienada, por não ser necessária na
designativo de um segmento da sociedade, sua execução de tarefas específicas e r epetitivas,
validade como designação genérica do ser hu- nada mais natural do que ele par ticipe, pro-
mano idealizado pelo Iluminismo perdeu-se. por cionalmente, de uma parcela muito pe-
Com a palavra cidadão, a burguesia quena da renda e de outros direitos referentes
constr uiu um patr imônio ideológico que lhe a essa pr odução.
deu poder, e aos outros, a ilusão de serem Só uma parcela da sociedade alcançou,
iguais. Na definição a seguir, a pr eeminên- na pr ática, os direitos de cidadania em sua
cia do urbano, do burguês sobre os demais, plenitude, segundo a conceituação da cultur a
aparece claramente: "Ser cidadão significa burguesa. A igualdade de todos perante a lei
ser sujeito de direitos e deveres. Cid a d ã o é, não elimina as desigualdades de muitos, em
pois, aquele que está capacitado a par ticipar relação à liberdade de expr essão, ao direito
da vida da cidade, liter almente, e, extensiva- de votar e ser votado, aos direitos sociais, tais
mente, da vida da sociedade" (Der meval Sa- como a educação, e aos direitos econ óm icos,
vian i, educador ). como os de pr oduzir e vender.

96
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

Os direit os de cidadania no Br asil • caso da população indígena


No caso br asileir o, o processo de avan- Embor a a Con st it uição contemple a po-
ços e recuos, de progressos e retrocessos na pulação indígena com um leque de dir eitos,
conquista e expansão dos direitos de cidada- seu cumpr imento, infelizmente, está muito
nia pode ser explicado em grande parte pela longe da realidade do poder público e da po-
permanência de estruturas económicas e so- pulação br anca. Destacamos, para ilustrar, o
ciais que datam do tempo colonial. Por não artigo 2 3 1 : "São reconhecidos aos índios sua
terem sido totalmente abolidas nem r enova- or ganização social, costumes, línguas, crenças
das, servem de obstáculo ao desenvolvimen- e tr adições, e os direitos originários sobre as
to de relações mais justas, mais livres e mais terras que tradicionalmente ocupam, compe-
igualitárias entre os grupos de indivíduos. tindo à Un iã o demar cá-las, proteger e fazer
Devido a essa herança histór ica, esta- respeitar todos os seus bens".
belecem-se distinções, discriminações e pre- O caso do índio começou com a chegada
conceitos, não só em relação às condições dos colonizador es portugueses, que rompeu
materiais, mas também no plano cultur al, por com seus hábitos ancestrais de sobr evivência,
diferenças de origem social, de raça, de cor, baseados na caça, na coleta e na pesca, e com
de sexo e de idade. seus costumes e crenças religiosas. [...]
O pr incípio legal de que todos são O confr onto entre o europeu domina-
iguais perante a lei não elimina as concretas dor e o índio perseguido transferiu-se do pla-
desigualdades sociais, pois a divisão da socie- no físico para o terreno religioso e cultur al. A
dade em classes se reproduz na vivência da Igreja atuou na domesticação dos silvícolas,
cidadania [sobre classes sociais, veja o capítu- combatendo suas crenças e costumes para ob-
lo 9 ] . Há cidadãos detentores de amplos pr i- ter sua incor por ação ao tr abalho.
vilégios e há os que são privados até dos mais Fruto desse choque cultural entre a ci-
elementares recursos de subsistência. vilização indígena e a europeia, e como parte
Um exemplo concreto, vivo e sempre dos mecanismos de dominação, ficou defini-
atual da permanência de velhas estruturas de tivamente gravada a noção de que o índio é
poder é visto nas relações de trabalho da estru- "indolente", "imprestável", incapaz de se inte-
tura agrária, que são mais atrasadas do que as grar à cultura do br anco. [...]
do meio urbano. As desigualdades sociais for- A população indígena atual é estimada
mam uma hierarquia, criando cidadãos de vá- em cerca de 2 0 0 mil pessoas, espalhadas em
rias categorias. O trabalhador rural, em geral, pequenas tribos por todo o território nacio-
é "inferior" ao trabalhador urbano em todos os nal [segundo dados da Fundação Nacional do
aspectos das condições de vida, inclusive nos índio, Funai, em 2 0 0 6 essa população havia
direitos trabalhistas e previdenciários. crescido para 4 5 0 mil indígenas]. A maioria
Os valores da cidadania que hoje se vive na região amazônica em graus diversos de
consideram desrespeitados e até mesmo amea- aculturação e desperta interesse e curiosidade
çados possuem, em ger al, raízes muito pro- nacional e internacional, porque ainda conser-
fundas na for mação histórica da sociedade va muitos traços de sua vida ancestral, às vezes
brasileira. Estão nessa con d ição, especialmen- com grandes extensões de terras demarcadas.
te, as questões do índio, do negro, da mulher Mesmo essas tribos são agredidas fisica-
e dos pobres em ger al, dos trabalhadores sem mente - suas terras são invadidas,- os rios, po-
qualificação pr ofissional. [...] luídos,- e o ouro e outros metais, saqueados - e,
CAPÍTULO 5 Organização social e cidadania

principalmente, são envolvidas na produção e resultados concretos na forma de desempre-


no tráfico de drogas e no contrabando nas fron- go, trabalhos mais penosos e degradantes,
teiras com outros países sul-americanos. [...] salários mais baixos e menores oportunidades
Mais grave é a situação das pequenas co- de ascensão social.
munidades que vivem nas regiões densamente Se expurgamos a questão do índio e a
povoadas do Sul, Sudeste e em todo o litor al do negro de todas as mistificações ideológi-
br asileir o. Precariamente integradas com a cas, de veleidades liberais e românticas e dos
população branca e sem recursos naturais em sonhos dos ecologistas, o que teremos como
florestas, rios, terras, e t c, essas pequenas co- atitude fundamental da sociedade? A julgar
munidades, em ger al, vivem marginalizadas e pela realidade das ações praticadas, destoan-
numa miséria extr ema. tes dos discursos e promessas, o que sobra é:
Um a política de confinamento dos ín-
• s negr os e o pr econceit o
dios, a pretexto de preservar seus hábitos,
Os quilombos marcaram a história e a seus costumes e sua cultur a. Sem lhes per mitir
sociedade brasileira como a expressão mais a possibilidade de integr ação na sociedade,
alta da resistência dos negros contr a a escra- também não lhes garante a sobrevivência nas
vidão,- foi a mais importante, sem dúvida, em- respectivas reservas.
bora não a única. [...] Um a política oficial de democr acia
De muitas outras formas os escravos r acial, que condena o r acismo e apregoa a
africanos negros e mestiços resistiram ao cati- igualdade, mas submete os negros à discr i-
veir o: r ebeliões, fugas, assassinatos, suicídios. minação "cor dial", velada, negando-lhes, por
Além disso, a par ticipação de grande número exemplo, oportunidades iguais de for mação
deles em guerras, r evoluções e movimentos escolar, de ascensão pr ofissional e, conse-
sociais de toda espécie sempre esteve r ela- quentemente, de par ticipação em níveis mais
cionada com a luta pela conquista de alguns altos de cidadania.
direitos humanos fundamentais.
• s est igmas da pobr eza
Em tópicos anteriores, propusemos a
distinção entre os direitos fundamentais do Com relação aos pobres em ger al, de
ser humano e os valores sociais da cidadania. qualquer raça, cor, sexo ou idade, existe um
A população negra, até a abolição da escrava- consenso de que se implantou o apartheid so-
tura oficial [no Br asil, em 1 8 8 8 ], era conside- cial [apartheid significa separação,- veja o capí-
rada "mercadoria" e discutia-se seu dir eito a tulo 3 ]. São milhões de criaturas sem as con-
existir como seres humanos. dições mais elementares de vida.
Desde então, a conquista de alguns d i- As propriedades agrárias, por exemplo,
reitos de cidadania conforme os conceitos que estão intensamente concentradas: mais de
hoje defendemos tem-se caracterizado como 8 0 % das terras, cerca de 4 0 0 milhões de hec-
uma luta contr a as diferentes formas de do- tares, estão em mãos de apenas um milhão de
minação e de explor ação. Todas as diferenças proprietários, aproximadamente [menos de
que separam os cidadãos foram usadas contr a 1 % da população]. A pequena propriedade
a população "de cor": a discr iminação decla- não tem condições de sobreviver às instabi-
rada, o pr econceito velado, a mar ginalização lidades das políticas agrícolas e às crises da
económica e social. economia. Os trabalhadores rurais são cada
Essas atitudes discriminatórias dimi- vez mais diaristas - boias-frias, sem nenhum
nuem as condições de cidadania, produzindo tipo de vínculo empr egatício - , com empre-
gos sazonais, tempor ár ios, no corte da cana- Com fr equência, surgem denúncias de
de-açúcar , na colheita de algodão, de café e trabalho semiescravo em fazendas onde os
outros. [...] trabalhadores não recebem remuneração ou
Gr andes contingentes migr atór ios de tornam-se cativos em razão de suas dívidas
trabalhadores flagelados pelas secas e pelo e são impedidos de deixar o local. Esses fa-
subdesenvolvimento do Nor deste, ou de- tos são mais comuns na Am azón ia, embora
sempregados pela mecan ização agr ícola, ocorram em outras r egiões, inclusive na r ica
chegam às r egiões metr opolitanas em busca r egião do estado de São Paulo, onde foram
de tr abalho, mas, desinformados da situação registrados casos desse tipo.
existente, se defrontam com multidões de Ad a p t a d o d e : M A R T I N E Z , P a u l o . Direitos de cidadania.
desempregados. S ã o P a u l o : Sc i p i o n e , 1996. p . 14, 16-20, 52-8.

-• Pen se e r esp o n d a

1 . No t ext o, o autor se refere, como obstáculo à expansão dos direitos de cidadania no


Br asil, à "per manência de estr utur as económicas e sociais que datam do tempo colonial".
Você concorda com a opinião dele? Que estr utur as são essas? Escreva um texto sobre elas
e cite dois exemplos concretos dessa per manência.

2 . Ainda segundo o autor, "o princípio legal de que todos são iguais perante a lei não
elimina as concretas desigualdades sociais". Em sua opinião, essas desigualdades afetam o
exercício dos direitos de cidadania? Explique sua resposta.

99
Grupos sociais
' e int er ação
Grupo, multidão, público, massa. 0 que caracteriza cada
um desses tipos de agrupamento social? Quais são os mecanis-
mos que os sustentam? 0 que torna inseparáveis o st a t u s que
um indivíduo ocupa na sociedade e os papéis sociais que ele
desempenha? Como vimos no capítulo 1, a vida em sociedade é
condição necessária à sobrevivência de nossa espécie e à cons-
tituição da própria ideia de humanidade. Assim, desde suas
origens, a espécie humana sempre formou agrupamentos, como
os grupos de parentesco e as famílias.
Para o sociólogo Karl Mannheim, os contatos e os proces-
sos sociais que aproximam ou afastam os indivíduos provocam
o surgimento de formas diversas de associações. Tais formas
são os grupos sociais e os agregados sociais.
Os agrupamentos sociais e as diversas formas pelas quais
eles se manifestam são o tema central deste capítulo.
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

IMAGEM e SOCIEDADE

Obser ve e r esp on d a:

Como você definir ia, do ponto de vist a sociológico, o aglomerado de pessoas que aparecem
n a foto?
2 . As pessoas da foto estão interagindo entre si? Como você chegou a essa conclusão?

101
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Como os se re s humanos se agrupam?

Procurando o verbete grupo social no Novo interagem, pois não se comunicam entre s i. Não
dicionário Aurélio, encontramos a seguinte defini- formam, por tanto, um grupo social.)
ção: "Forma básica da associação humana; agrega- Seja qual for a definição, uma coisa é cer ta:
do social que tem uma entidade [individualidade] grupo social sempre significa a reunião de pessoas
e vida própria, e se considera como um todo, com que estão mutuamente em interação (duas pes-
suas tradições morais e mater iais". soas já podem formar um gr upo). A par tir daí,
Para o psicanalista argentino José Bleger, "um cada ciência amplia o conceito de acordo com o
grupo é um conjunto de pessoas que entram em objeto e o objetivo de seus estudos.
inter ação, mas, além disso, o grupo é, fundamen- Para a Sociologia, grupo social é toda reunião
talmente, uma sociabilidade estabelecida". mais ou menos estável de duas ou mais pessoas as-
Complementando o conceito de Bleger sobre sociadas pela interação. Devido à interação social,
o que é um grupo social, o filósofo francês Je a n - os grupos têm de manter alguma forma de orga-
Paul Sartre afir ma que "enquanto não se estabele- nização, no sentido de realizar ações conjuntas de
cer a interação não existe grupo, há somente uma interesse comum a todos os seus membros.
serialidade, na qual cada indivíduo é equivalente Os grupos sociais apresentam nor mas, h á -
a outro e todos constituem um número de pes- bitos e costumes pr ópr ios, divisão de funções
soas equiparáveis e sem distinção entre si". (Um e posições sociais definidas. Assim , são grupos
exemplo de serialidade são pessoas numa fila de sociais a família, a escola, a Igr eja, o clube, a
ônibus ou de cinema. Elas estão jun t as mas não n ação, etc.

Met r ov i ár i os de São Paulo d el i b er am em assem b l ei a de seu si n d i cat o


r eal i zad a em set em b r o de 2 0 0 0 . Os i n t eg r an t es de cat eg or i as de
t r ab al h ad or es co m p õ em su b g r u p os de um gr u po so ci al m aior , a
t r ab al h ad or a, e t en d em a se or gan i zar em si n d i cat o s para l u t ar
m el h or es con d i ções de v i d a e de t r ab al h o .

102
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Vivem os ligados a um ou m ais grupos jet ivo comum; quando uma parte deles coloca
sociais em dúvida algum desses pr incípios, o grupo se
Ao longo da vid a, as pessoas participam geral- desagrega ou sofre divisões;
mente de vários grupos sociais. Eis alguns deles: • consciência grupai ou sentimento de "nós" -
• grupo familial - representado pela família; são as maneiras de pensar, sentir e agir pr ó-
• grupo vicinal - formado por pessoas residentes prias do grupo; existe um sentimento mais ou
próximas umas das outras (vizinhos) e que in - menos forte de compartilhamento de uma série
teragem entre s i; de ideias, valores e modos de agir;
• grupo educativo - desenvolvido na escola; • continuidade - as interações passageiras não
• grupo religioso - representado pelos fiéis de chegam a formar grupos sociais estáveis; para
uma Igr eja (católica, islâmica, evangélica, j u - isso, é necessário que as interações tenham cer-
daica, ortodoxa, e t c ) ; t a duração, como ocorre, por exemplo, com a
• grupo de lazer - formado por clubes, associa- família, a escola, o sindicato, a Igr eja, e t c; mas
ções espor tivas, grupos de teatr o, e t c ; há grupos de duração efémera, que aparecem e
• grupo profissional - constituído por pessoas de desaparecem com facilidade, como os mutirões
uma mesma profissão; para a construção de casas populares.
• grupo político - formado pelos militantes de
um partido político, por integrantes de orga- Pr im ár ios, secundár ios, i n t er m edi ár i os
nismos do Estado, etc. Como vimos no capítulo 3, os contatos sociais
se classificam em primários e secundár ios. Da
Car act er íst icas dos grupos sociais mesma for ma, os grupos sociais podem ser clas-
Os grupos sociais se caracterizam por t er : sificados em:
• pluralidade de indivíduos - grupo dá ideia de • grupos primários - aqueles em que predomi-
algo coletivo: há sempre mais de uma pessoa nam os contatos primários, isto é, os contatos
no grupo; pessoais diretos; exemplos: a família, os vizi-
• interação social - para que haja grupo, como nhos, o grupo de lazer ;
vimos, é preciso que os indivíduos inter ajam • grupos secundários - grupos sociais mais com-
uns com os outros em seu inter ior ; plexos, como as igrejas e os partidos políticos,
• organização - uma certa ordem inter na é neces- nos quais predominam os contatos secundár ios;
sária para que o grupo se mantenha estável; os contatos sociais, nesse caso, realizam-se de
• objetividade e exterioridade - os grupos sociais maneira pessoal e dir eta, mas sem intimidade;
são superiores e exteriores ao indivíduo, isto ou de maneira in dir et a, por meio de car tas, in -
é, quando uma pessoa entr a no grupo, ele já ter net, e t c;
existe; quando sai, ele continua a exist ir ; • grupos intermediários - aqueles em que se a l-
• conteúdo intencional ou objetivo comum - os ter nam e se complementam as duas formas de
membros de um grupo unem-se em torno de contatos sociais: primários e secundár ios; um
certos princípios ou valores para atingir um ob- exemplo desse tipo de grupo é a escola.

Agregados sociais
Como vimos na abertura do capítulo, para o fraco sentimento gr upai. Apesar disso, essas pes-
sociólogo Kar l Mannheim existem sensíveis dife- soas conseguem manter entre si um mínimo de
renças entre grupos sociais e agregados sociais. comunicação e de relações sociais.
Agregado social é uma reunião de pessoas aglo- 0 agregado social se caracteriza por não ser
meradas de forma momentânea e dotadas de um organizado - não tem estr utur a estável nem

103
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

hier ar quia de posições e fun ções. As pessoas que duos que compõem o público recebem o mesmo
dele par ticipam são r elativamente anónimas, isto estímulo (que vem, nos casos citados, da com-
é, são praticamente desconhecidas entre s i. 0 petição espor tiva, da peça de t eat r o, da músi-
contato social entre elas é limitado e de pequena ca, e t c ) . Não se t r at a de uma multidão porque a
dur ação. integr ação dos indivíduos que formam o público
é geralmente in t en cion al. Na mult idão, a in t e -
Massa, pú bl i co, m ult idão gração é ocasional.
Os pr incipais tipos de agregados sociais são a Os modos de pensar, agir e sentir do público
multidão, o público e a massa. compõem o que é conhecido como opinião pública.
Para Kar l Mannheim, o público é um tipo in -
Mult idão termediário entre a multidão e os grupos sociais.
Um grupo de pessoas observando um incên- Isso porque no público podem ser encontradas
dio ou reunidas em um parque numa tarde de sol formas simples, limitadas ou ocasionais de orga-
são exemplos de multidão. Outro exemplo são os nização: nele, as pessoas estão sujeitas a certos
milhares de pessoas que acorrem a uma praia aos regulamentos (como a compra de ingressos, a obe-
domingos, ou a um desfile de escola de samba no diência a horários, e t c...) .
car naval.
Características da multidão: Massa
• falta de organização - apesar de contar, even- As pessoas que assistem ao mesmo programa
tualmente, com um líder, falta à multidão um de televisão, veem o mesmo anúncio num cartaz
conjunto próprio de normas; seus membros não ou lêem em casa o mesmo jor n al constituem uma
ocupam posições definidas no agregado; massa.
• anonimato - os componentes da multidão são Portanto, a massa:
anónimos, pois, ao se integrarem a ela, seu • é formada por indivíduos que recebem, de ma-
nome, sua profissão ou posição social não são neira mais ou menos passiva, opiniões formadas,
levados em conta, não têm impor tância alguma que são veiculadas pelos meios de comunicação
no agregado; de massa (televisão, rádio, jor nais, e t c ) ;
• objetivos comuns - os inter esses, as emoções e • consiste num agrupamento relativamente gr an-
os atos são coletivos numa multidão; de de pessoas separadas e desconhecidas umas
• indiferenciação - os indivíduos são vistos como das outr as.
parte da multidão; não há espaço para que as Como não obedece a normas, o processo de
diferenças individuais se manifestem, o que formação da massa é espontâneo.
tor na iguais seus integr antes; Existe uma cer ta semelhança entre público e
• proximidade física - os componentes da mult i- massa, pois também os componentes da massa es-
dão ficam próximos uns dos outros, mantendo tão unidos por um estímulo. Mas há uma difer en-
contato direto e tempor ár io. ça impor tante: ao contrário da massa, o público
não tem uma atitude passiva diante da mensagem
Público que recebe; ele opina, por meio de vaias, palmas,
0 público é um agrupamento de pessoas que cr íticas, debates e discussões.
seguem os mesmos estímulos. É espontâneo, Ou seja, o público não apenas recebe opi-
amorfo, não se baseia no contato físico, mas na niões, mas também exprime a sua. Isso em geral
comunicação recebida através de diversos meios não ocorre com a massa.
de comunicação. Por exemplo, ao assistir a um comício, as pes-
Os indivíduos que assistem a uma competi- soas podem aprovar as ideias de um político com
ção espor tiva ou a uma representação t eat r al ou palmas, ou reprová-las por meio de vaias e impro-
show musical formam públicos. Todos os indiví- périos. Algumas delas podem até mesmo exter nar

104
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Por exemplo, ao anunciar seu produto na tele-


visão um fabricante de sabonetes não está procu-
rando divulgá-lo para um conjunto preestabelecido
de pessoas concretas, com sexo, cor, instrução ou
idade determinados, mas para as que estão dian-
te da tela naquele momento e que, atingidas pela
mensagem, eventualmente poderão comprar seu
produto, muitas vezes sem necessidade imediata.
Líderes demagógicos podem fazer o mesmo.
Através de mecanismos de comunicação de massa
podem induzir milhares de pessoas a comporta-
mentos emotivos e irracionais, sem refletir sobre as
mensagens que estão recebendo. Ao agir dessa for-
ma, o demagogo não objetiva tr ansmitir suas ideias
ao cidadão esclarecido, mas a uma massa homogé-
nea, informe, sem identidade, que é por ele tratada
suas opiniões no meio do público, questionando o como consumidora passiva de seu discurso.
que é dito pelo orador, refutando seus argumentos De modo ger al, podemos dizer que o grupo de
ou apoiando-os. indivíduos que se comporta como massa tende a
Numa sociedade de massa, o tipo de comunica- ser manipulado, pois, na maior ia das vezes, reage
ção que predomina é aquele transmitido pelos veícu- de forma espontânea, impensada, sem ter cons-
los de comunicação de massa (veja o boxe a seguir). ciência de grupo.

So ci ed a d e d e m a s s a

A expr essão sociedade de massa foi cr ia - económico, com a concentração da indústria


da no século XX par a designar um tipo de na produção de bens de massa e o crescimen-
sociedade mar cada pela pr odução em gr an - to cada vez maior do setor terciário [setor
de escala de bens de consumo, pela concen- de serviços, como o de lazer], quanto no que
tr ação in d u s t r ia l, pela expansão dos meios se refere à urbanização, com a concentração
de comunicação de massa (t elevisão, r ádio, da maior parte da população nas grandes
publicações impr essas e, hoje, pela rede de cidades. Esse processo é acompanhado da
computador es), pelo consumismo desenfr ea- burocratização e da progressiva redução das
do, pelo confor mismo social e pela ação da margens da iniciativa individual.
publicidade, que in d u z as pessoas a se com- Na sociedade de massa, tendem a perder
por tar em como meros consumidores e n ão peso sucessivamente os vínculos naturais, como
como cidadãos dotados de espír ito cr ít ico. 0 os da família e da comunidade local, prejudica-
texto a seguir an alisa esse fe n óm e n o. dos pelas organizações formais e pelas relações
A sociedade de massa surge num está- intermediadas pelos meios de comunicação
gio avançado do processo de modernização. de massa: daí o notável crescimento das rela-
Tanto no que diz respeito ao desenvolvimento ções mútuas entre sujeitos às vezes sumamente

105
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

distantes entre si e, ao mesmo tempo, o em-


pobrecimento e a despersonalização dessas
inter-relações, que envolvem apenas aspectos
parciais e limitados da personalidade dos in-
divíduos [as "comunidades" criadas via inter-
net são um exemplo disso].
Já no conceito de "homem-massa" do
O que realmente toma os lares de hoje tão diferentes,
pensador espanhol Ortega y Gasset estava tão atraentes?, colagem sobr e papel do pi n t or i n gl ês
presente a ideia de confor mismo, que depois Richard Ham i l t on , 1 9 5 6 . Ham ilt on f o i pr ecur sor
da pop art, m ovim ent o ar t íst i co que cr it icava o
havia de ser considerado como próprio da so-
con su m ism o da sociedade de m assa u t i l i zan do
ciedade de massa. 0 homem-massa se sente h ist ór ias em quadr inhos, peças de pr opaganda, et c.
à vontade - afirma Ortega y Gasset - quando
é igual a "todo o mundo", isto é, à massa sa estadunidense como uma sociedade "de
indiferenciada. Essa ideia levou ao conceito uma só dimensão", caracterizada pelo pleno
de "conformismo de autómatos" criado por domínio econômico-tecnológico sobre as pes-
Erich Fromm em 0 medo da liber dade. soas, por um controle absoluto dos meios de
Segundo Fromm, com o conformismo típi- comunicação de massa, por uma grosseira
co da sociedade de massa, o indivíduo deixa de manipulação da cultura e pela obstrução de
ser ele próprio, tomando-se totalmente igual qualquer espaço de discordância: um estado
aos demais e como os outros querem que ele de coisas que não hesita em chamar de "to-
seja. 0 preço disso é a perda do "eu genuí- talitarismo" (um totalitarismo não "terrorí-
no", da subjetividade original da pessoa, que fico", mas "tecnológico").
é constrangida a "fugir da liberdade", ou seja, Adaptado de : ORTEGATI, Cás s io . Socie dade de m as s a.
In : BOBBIO, N.; Matte ucci, N. e PASQUINO, G.
a buscar uma identidade substitutiva (um Dicionário de política. Bras ília: Edito ra da Unive rs idade de
"pseudo-eu") na contínua aprovação e no con- Bras ília, 1 9 8 6 . p. 1 2 1 1 -3 .

tínuo reconhecimento por parte dos outros.


Alguns críticos radicais que aplicam o Va m o s p e n sa r ?
modelo da sociedade de massa aos Estados
Alguns autores afirmam que as pessoas
Unidos, em especial, ou, de um modo ge-
sofrem uma verdadeira "lavagem cerebral"
ral, às sociedades industriais avançadas do
na sociedade de massa e que todos se
Ocidente, reconhecem em tais sociedades,
conformam com o que essa sociedade lhes
além de um conformismo difuso, uma acen-
impõe. Segundo Herbert Marcuse, a sociedade
tuada concentração do poder. 0 sociólogo
de massa tende a fazer do consumo um ideal
norte-americano Charles Wright Mills cons-
de vida, levando as pessoas a limitar seus
tata nos Estados Unidos, em concomitância
horizontes e suas aspirações à posse de bens
com o surgimento da sociedade de massa,
como um automóvel, uma casa equipada
uma verdadeira e autêntica elite dominante,
com geladeira e outros eletrodomésticos, etc.
compacta e coesa, composta pelas mais al-
Hoje, poderíamos acrescentar a esses bens o
tas figuras do poder económico, dos círculos celular e o computador. Você concorda com
militares e da política, que detém todo o po- a visão desses pensadores? Explique sua
der nas decisões importantes para a nação. resposta, analisando o fenómeno moderno da
0 pensador alemão Herbert Marcuse, sociedade de massa.
por sua vez, descreve a sociedade de mas-

106
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e inter ação

Como se suste ntam os grupos sociais?

Toda sociedade conta com forças que mantêm do vem de seu cargo e de sua posição no grupo;
coesos os grupos sociais. Entre elas as pr incipais • liderança pessoal - é aquela que se origina
são a liderança, as normas e sanções, os símbolos e das qualidades pessoais do líder (inteligência,
os valores sociais. Vejamos cada uma delas. prestígio social e mor al, poder de comunica-
ção, atitudes, encanto pessoal, e t c ) .
Lider ança Entre os chefes que exercem a liderança pes-
A expressão liderança designa a capacidade soal podem surgir líderes carismáticos, ou seja, pes-
de alguém, denominado líder, ou de algumas pes- soas dotadas de um encanto pessoal tão forte que
soas, de chefiar, comandar ou orientar um grupo de os torna iluminados, proféticos, ou mesmo sobre-
indivíduos em qualquer tipo de ação. Líder é aque- naturais aos olhos de seu público. Alguns exemplos
le (ou aquela) que dirige o grupo, transmitindo de líderes carismáticos: Fidel Castro, Getúlio Var-
ideias e valores aos outros membros. gas, Evita Perón, Adolf Hitler (leia o texto 0 líder
Há dois tipos de lider ança: carismático na seção Textos complementares).
• liderança institucional - deriva da autoridade que Como peça importante de sustentação do gr u-
uma pessoa tem em virtude de sua posição social po, o líder desempenha um papel integrador entre
ou do cargo que ocupa: o gerente de uma fábri- seus membros, tr ansmitindo-lhes ideias, normas e
ca, o(a) chefe de família e o diretor de uma esco- valores sociais, ao mesmo tempo em que represen-
la são líderes institucionais; seu poder de man- t a os interesses e os valores do grupo.

e cost as par a o f ot óg r af o, Fi d el Cast r o d i scu r sa par a


m i l h ar es de pessoas em Hav an a, Cu ba, em 1 9 6 8 .
Det en t or do p od er en t r e 1 9 5 9 e 2 0 0 8 , Fi d el Cast r o é
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

| O q u e é? ]
O sen t i d o d a l i d er an ça

0 conceito de liderança ressalta a capa- Um segundo critério para avaliar a lide-


cidade de alguns indivíduos comoverem, ins- rança pode ser o objetivo do líder ao procu-
pirarem e mobilizarem as populações de seus rar alcançar o poder. Quando alguns líderes
países na busca do mesmo objetivo. Algumas pretendem impor a supremacia de uma raça
vezes, a liderança está a serviço de fins dig- [como ocorreu ente 1933 e 1945 na Alemanha
nos; outras, não. Independentemente de seus nazista, sob a liderança de Adolf Hitler], a pro-
objetivos, os grandes líderes deixam sua mar- moção de uma revolução totalitária, a aquisi-
ca pessoal na História. ção e exploração de colónias, a manutenção de
A liderança pode melhorar ou piorar a privilégios, ou a preservação do poder pessoal,
condição de um povo. Alguns líderes têm sido é muito provável que suas lideranças resultem
responsáveis pelas loucuras mais extrava- em retocesso para a humanidade.
gantes e pelos crimes mais monstruosos. Em Quando o objetivo do líder é a abolição da
contrapartida, outros têm sido vitais para a escravatura, a libertação da mulher, a justiça
conquista de alguns dos avanços da huma- social, a proteção dos direitos das minorias,
nidade, como a liberdade individual, a tole- a defesa da liberdade de expressão e de opo-
rância racial e religiosa, a justiça social e o sição, é provável que sua liderança dê uma
respeito pelos direitos humanos. importante contribuição para o aumento da
Não há um modo seguro de reconhecer liberdade e do bem-estar humanos.
antecipadamente se um líder trará ou não Entretanto, mesmo os líderes mais res-
benefícios para seu povo. Um dos critérios peitados devem ser vistos com certa cautela.
de avaliação pode ser este: os líderes coman- [...] Nenhum líder é infalível, e cada líder
dam pela força ou pela persuasão? Pela do- deve ser lembrado disso o tempo todo. A crí-
minação ou pelo consentimento? tica irreverente irrita os líderes, mas é o que
Durante séculos, a liderança foi exercida os salva. A submissão total corrompe o líder
pela legitimação do direito divino. 0 dever dos e degrada seus seguidores. 0 culto a um lí-
seguidores era submeter-se e obedecer. "Não der é sempre um grave equívoco.
perguntar por que, apenas fazer e morrer." Adaptado de : SCHLESINGER JR., Arthur M. 0 s e ntido da
lide rança. In : VAIL, Jo h n J. Fidel Castro. Bo s to n: Ho ughto n-
A grande revolução dos tempos moder- Mifflin, 1 9 7 8 . p. 7 -1 1 .
nos foi a introdução do direito da igualdade
[veja o capítulo 5]. A ideia de que todos os
indivíduos podem ser iguais perante a lei Va m o s p e n sa r ?
derrubou as velhas estruturas baseadas na
hierarquia, ordem, autoridade e submissão. 1 . Para o autor, quais são os critérios
Um governo fundamentado na reflexão que permitem avaliar um líder?
e na escolha passou a exigir um novo estilo 2 . Cite exemplos de líderes que levaram
de liderança e uma nova qualidade de se- a humanidade ao progresso ou ao
guidores. Tornou necessária a formação de retrocesso, segundo os critérios citados
líderes que respondessem aos anseios po- no texto. Explique sua escolha.
pulares e seguidores suficientemente pre-
parados para participar desse processo.

108
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Por seu papel na condução e na sustentação ferente do uso imediato dessa coisa. Por exemplo,
do grupo, o líder é geralmente respeitado por to- do ponto de vista mater ial, a bandeira nada mais é
dos os seus membros. Alguns deles chegam mesmo do que um pedaço de tecido. Pintado com determi-
a ser venerados, como é o caso de Mahatma Gan- nadas cores, pode se transformar em um símbolo
dhi (1869-1948), que liderou a lu t a pela indepen- da soberania da nação. É algo, portanto, cujo valor
dência da ín d ia, conquistada em 1947, por meio ou significado é atribuído pelas pessoas que o u t ili-
da não-violência e da toler ância. zam. Em nossa sociedade, o tipo de anel conhecido
como aliança é um objeto que simboliza a união e a
Norm as e sanções soci ai s fidelidade entre os cônjuges no casamento.
Toda sociedade e todo grupo social conta com Qualquer coisa pode tornar-se um símbolo. As
uma série de regras de conduta que lhe dão coe- pessoas atribuem significados a um objeto, uma
são, orientando e controlando o comportamento cor, um hino ou um gesto, e estes se tornam símbo-
das pessoas. Essas regras de ação são chamadas los de algo, como a r iqueza, o pr estígio, a posição
normas sociais. Elas têm um poder externo e coer- social elevada, etc. Entre nós, a cor que simbo-
citivo sobre as pessoas do grupo e nisso se apro- liza o luto é o preto; entre os povos or ientais, é
ximam do conceito de fato social estabelecido por o branco. Esse exemplo mostra que os símbolos
Émile Durkheim (veja o capítulo 2 ) . são convenções. Ou seja, cada sociedade ou grupo
Segundo o que está socialmente estabelecido, social pode se utilizar de símbolos diferentes para
as normas sociais indicam o que é "per mitido" - e expr imir o mesmo significado.
como t a l pode ser seguido - e o que é "proibido" A linguagem é um conjunto de símbolos. Por
- aquilo que não pode ser praticado. exemplo, as palavras menino, boy, garçon e bam-
A toda norma social corresponde uma sanção bino significam todas "crianças do sexo masculi-
social. A sanção social é uma recompensa ou uma n o", respectivamente em por tuguês, inglês, fr an-
punição que o grupo ou a sociedade atribuem ao cês e it aliano. Ou seja, são símbolos criados para
indivíduo diante de seu comportamento social. designar uma só coisa.
As sanções sociais podem ser: A linguagem é a mais importante forma de ex-
• aprovativas - quando são aplicadas sob a forma pressão simbólica. Sem a linguagem não haveria or-
de aceitação, aplausos, honr ar ias, promoções; é ganização social humana, em nenhuma de suas ma-
o reconhecimento do grupo por ter o indivíduo nifestações: política, económica, religiosa, cultur al,
cumprido o que se esperava dele; etc. Sem ela provavelmente não existir ia nenhuma
• reprovativas - quando correspondem a punições norma de comportamento, nenhuma espécie de lei,
impostas ao indivíduo que desobedece a algu- nenhuma criação científica ou literária.
ma norma social; tais punições variam de acordo A criança amadurece e se socializa à medida
com a importância que a sociedade dá à norma que aprende a usar símbolos. Podemos dizer que
infr ingida; assim, são sanções reprovativas o in - todo comportamento humano é simbólico e todo
sulto, a zombaria, a vaia, a perda dos bens, a comportamento simbólico é humano, já que a u t i-
prisão e, em alguns países, a pena de morte. lização de símbolos é exclusiva da espécie huma-
n a. Sem os símbolos não haver ia cult ur a.
Sím bolos Leia no boxe da página seguinte trechos do
A todo momento nos deparamos com símbolos. livr o 0 homem e seus símbolos, do psicanalista
Nas igrejas cristãs, por exemplo, a cruz simboliza a fé suíço Carl Jun g (1875-1961).
em Cristo. Nos prédios públicos, a bandeira hasteada
simboliza a autonomia e a unidade da nação. A pom- Valores sociais
ba branca é o símbolo da paz, e assim por diante. A sociedade estabelece o que é desejável e o
Um símbolo é uma coisa que representa ou subs- que é proibido, o que é bonito e o que é feio, o
t it u i algo geralmente mais complexo e abstrato, di- que é certo e o que é errado. Assim, na vida em

109
CAPITULO 6 Grupos sociais e int er ação

| O que é? ]
Os sím b o l o s, seg u n d o Ju n g

A história do simbolismo mostra que tudo em todos os seus aspectos, inclusive a relação
pode assumir significado simbólico: os objetos entre o homem e o conjunto da natureza. 0
naturais (como pedras, plantas, animais, símbolo do círculo já aparece no culto solar
homens, o Sol e a Lua, a água e o fogo); ou as primitivo, na religião moderna, em mitos e
coisas feitas pelo homem (casas, barcos, carros); sonhos, em desenhos de mandalas dos monges
ou, ainda, formas abstraías (os números, o tibetanos, nos traçados de cidades ou nas
triângulo, o quadrado e o circulo). De fato, todo ideias esféricas dos primeiros astrónomos,
o cosmos é um símbolo possível. assinalando o aspecto único e vital da vida:
seu total e definitivo complemento.
0 homem, com sua propensão para criar
símbolos, transforma inconscientemente ob- JUNG, Carl. El hombre y sus símbolos.
Madrid: Aguilar, 1 9 7 4 . p. 2 4 0 -1 .
jetos e formas em símbolos (dotando-os, por-
tanto, de grande importância psicológica)
e os expressa em sua religião e em sua arte
visual. 0 entrelaçamento entre religião e arte
Va m o s p e n sa r ?
remonta aos tempos pré-históricos, por meio
de símbolos deixados na arte rupestre [ou seja, 1 .0 que são símbolos?
feita na parede de cavernas ou em paredões]
2 . Por que afirmamos que a linguagem
por nossos antepassados, que para eles tinham
é uma forma de expressão simbólica?
um significado religioso.
Você concorda com essa afirmação?
0 círculo (ou a esfera) como símbolo do Por quê?
"si mesmo" expressa a totalidade da psique

sociedade, as ideias, as opiniões, os fatos, os ob- A r elação h om em -


jetos não são criados isoladamente, mas em um m u l h er vem passan do
contexto social que lhes atr ibui um significado, por i m p o r t an t es
m u d an ças. Na f o t o ,
um valor e uma qualidade determinados. Quan- h om em al i m en t a o
to maior o contexto social, maior a variedade de f i l h o com m am ad ei r a.

opiniões, de pr incípios, de valores sociais, muitas


vezes conflitantes.
Os valor es sociais var iam t ambém, p r in cip al-
mente no espaço e no tempo, em cada ép oca,
em cada ger ação, em cada sociedade. 0 tr abalho
doméstico e o cuidado dos filh os, antes consi-
derados tar efas exclusivamente fem in in as, hoje
são normalmente divididos entr e o casal. Um pai
que dá mamadeira a seu filho é olhado com sim -
pat ia e aprovação (veja a foto ao lado e o boxe
a segu ir ) .
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

M U L H E R E S C H E F I A M U M T E R Ç O D AS F AMÍ LI AS

V ocê se lembra da expressão análise quan-


titativa, utilizada no boxe O método em
Sociologia do capítulo 1 ? Se não se lembra, volte
onde elas vivem sem o marido-. 79,3%
tra 91,9% em 1996.
Segundo o IBGE,
em 2 0 0 6 , con-

o chefe de domicílio é a pessoa


a lê-lo, pois a seguir temos um texto jornalístico responsável pela família ou assim considerada pelos de-
com dados quantitativos de interesse sociológi- mais integrantes. O principal critério é a autodeclara-
co. Ele trata de um assunto que antes era domí- ção, baseado na renda. [...]
nio exclusivo dos homens: a chefia da família. Em geral, a pessoa de referência era apontada
Pelos dados da Sín t ese de Indicador es com base na maior renda e conforme a posição pro-
Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Es- fissional. Nos lares chefiados por homens, 73% das
tatística (IBGE), quase 30% dos domicílios do país mulheres ganham menos.
( 2 9 , 2 % ) tinham, em 2 0 0 6 , mulheres à frente. O ín- De acordo com o estudo, o total de mulheres que
dice era menor em 1996 (21,6%). chefiavam o lar subiu de 10,3 milhões em 1996 para 18,5
Segundo Ana Lúcia Sabóia, coordenadora da milhões em 2 0 0 6 - uma alta de 79%. Já o de homens
pesquisa, a grande novidade que veio à luz nos últi- cresceu menos - apenas 2 5 % . Aumentou também a pro-
mos anos é o aumento de mulheres que, mesmo casa- porção de domicílios com mulheres com filhos e sem marido
das, chefiam os domicílios. [...] -de 15,8% em I996para 18,1% em 2 0 0 6 .

Apesar da forte expansão nos últimos anos, a L A G E , Ja n a i n a e S O A R E S , P e d r o . Mu l h e r c h e fi a


chefia feminina do lar predomina ainda em residências q u a s e 3 0 % d o s la r e s d o p a í s . Folha de S.Paulo, 2 9 .9 .0 7 .

0 comportamento sexual é outr a área em importância simbólica. Assim como esse, outros va -
que se notam grandes mudanças. At é meados do lores sociais caíram em desuso por essa época.
século XX, a sociedade exer cia um contr ole r ígido Como resultado, os jovens que passaram a
sobre a sexualidade das pessoas, especialmente cultivar os novos valores foram inicialmente con-
com relação às mulher es. O sexo, par a a mulher , denados por suas famílias e se reagruparam em
só er a socialmente aceito dentro do casamento, torno de movimentos como o dos hippies, que pre-
e t in h a como única finalidade gerar filh os. As gavam o amor -livr e, o feminismo, etc. Mais tarde,
mulher es que não se comportassem exatamente a própria sociedade nos países do Ocidente acabou
de acordo com esses valor es eram malvistas e aceitando alguns desses novos valor es, entre os
sofr iam uma série de sanções sociais. quais o direito da mulher à liberdade sexual.
Dessa forma, o papel dos valores sociais como
fator de coesão do grupo ou mesmo da sociedade Valores em con f l i t o
deve ser visto em sua dinâmica e em suas contra- Devido à pluralidade de valores e tendências
dições. Assim como outros aspectos da vida social, em uma mesma sociedade, é comum encontrar-
eles também estão sujeitos a mudanças. Um valor mos pessoas que não conseguem se entender em
como a virgindade da mulher antes do casamento relação a certas questões, como r eligião, política,
era um forte fator de coesão da família nas socieda- mor al, etc. Isso ocorre porque elas têm escalas de
des ocidentais até os anos 1950. Entr etanto, com o valores difer entes.
advento da pílula anticoncepcional - com a qual as Conflitos de opinião entre pais e filhos também
mulheres conquistaram o direito ao prazer sexual são comuns, configurando choques de geração. São
sem o risco de gravidez - e as lutas feministas a problemas que sempre existiram na história da h u -
partir da década de 1960, a virgindade perdeu sua manidade, mas que atualmente, devido às rápidas

111
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

transformações sociais, tornaram-se mais comple- sexo e contestação". ( In : WUSTHOF, Roberto. Desco-
xos e evidentes. A inscrição a seguir foi feita numa brir o sexo. São Paulo: Ática, 1999. p. 154.)
placa de pedra da Mesopotâmia (região na qual se Em todos os tempos, os jovens tendem a acom-
desenvolveu a primeira escrita conhecida e que hoje panhar e aceitar com mais facilidade do que os mais
é parte integrante do Ir aque), há 4 mil anos: velhos as mudanças que ocorrem na sociedade. Esse
"0 adolescente considera tudo o que é mais an- fato faz com que eles se desentendam com a gera-
tigo do que ele como arcaico e obsoleto. Ao passo ção anterior. Tal situação configura uma crise de
que tudo que é seu lhe parece novo e cr iativo, algo valores: os novos valores chocam-se com os já esta-
que sem dúvida dará certo. Essa praga só pensa em belecidos, criando tensão entre jovens e adultos.

GE R AÇÃO P ON T OCOM

Q uando os jovens
1980,
de hoje nasceram , nos anos
o Brasil já tinha instalado um parque
industrial grande e m oderno e estava conectado por re-
lado do m undo ou se com unicar com a nam orada
e-m ail. A internet tam bém serve para ajudar em tra-
via

balhos escolares, baixar a m úsica da banda favorita


des de com unicações e por satélites. Na década seguinte, ou entrar num chat de discussão sobre o film e do m o-
essa m odernidade se traduziu na entrada, na vida da m ento. [...]
classe m édia urbana, da m esm a tecnologia disponível A rapidez e a destreza em localizar e selecionar
em países m ais desenvolvidos. Para o adolescente das inform ações são alguns dos trunfos dessa geração digi-
classes m édias e abastadas, telefone celular, videogam e, tal. Muitos educadores se preocupam com os efeitos que
cartão eletrônico, videocassete e com putador sem pre fi- a com unicação eletrônica possa ter sobre os adolescen-
zeram parte de sua realidade. O PC [com putador] é tes. Notam entre m uitos deles a dificuldade de ler textos
um equipam ento que acom panhou o jovem praticam ente discursivos ou de se concentrar por um tem po razoável
desde seu nascim ento. Muitos foram alfabetizados digi- num a única atividade. Aulas tradicionais, nas quais o
tando no teclado. Um a pesquisa conduzida com 2 0 9 8 professor fala e escreve com giz no quadro-negro, já não
adolescentes em sete capitais brasileiras m ostra que m ais prendem a atenção dos alunos.
da m etade deles sabe usar o com putador e que 49% o "O adolescente está superexposto à inform ação
usam regularm ente na escola. e tem habilidade para processar várias coisas ao m es-
A rapidez com que novas form as de com unicação m o tem po", diz o diretor de inform ática de um a escola
foram desenvolvidas, m isturando texto, som e im agem , particular de ensino m édio da cidade de São Paulo,
causou um a revolução nos hábitos e costum es. A gera- pioneira na utilização de m étodos com putacionais em
ção nascida nos anos 1970 enfrentou o desafio de crescer sala de aula. "Mas tem dificuldade em se aprofundar
nos centros urbanos sem a presença da m ãe, inserida no em qualquer assunto", com pleta. Para com pensar os
m ercado de trabalho, e com os olhos grudados na telinha excessos da linguagem eletrônica, algum as escolas têm
da TV, em atitude passiva. Em tese, pouca coisa m udou: aum entado a carga de leitura nos cursos e oferecido
os jovens de hoje tam bém passam boa parte do tem po so- atividades com plem entares típicas da era pré-digi-
zinhos, sem a presença de adultos. A diferença é que o tal, com o cursos de atividades m anuais. Os alunos
com putador se transform ou num a hahá eletrônica m ais se dedicam a m ontar caixas e prism as para treinar a
interessante que a televisão. observação de objetos tridim ensionais. E possível que

Com a internet, o centro do m undo dessa geração, m uitos deles apanhem feio na hora de m anipular ré-

o hábito do entretenim ento eletrônico passou a ser inte- guas, tesouras e papelão. Mas são im batíveis com um

rativo e nada solitário. O adolescente pode participar m ouse na m ão.

de um jogo virtual com um am igo conectado do outro Ad a p t a d o d e : Veja Especial. Jo v e n s , j u l . 2 0 0 3 .

112
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e inter ação

Os jove ns como objeto da Sociologia

0 interesse académico pela juventude como em meio a uma crise económica que já dura mais
categoria social específica tomou vulto a par tir de vinte anos.
da década de 1960, quando começaram a surgir Há, atualmente, no país, uma oferta insuficien-
formas ousadas de manifestação cultur al ju ve n il te de postos de trabalho e uma enorme competição
e o comportamento de grupos de jovens contes- pelas poucas vagas existentes. Os dois fenómenos
tadores passou a contrastar abertamente com os somados - escassez de emprego e aumento no n ú -
padrões sociais estabelecidos. mero de jovens - criam uma situação socialmente
0 conceito usual de juventude refere-se a uma explosiva. Nos últimos anos, a sociedade brasileira
faixa de idade que vai dos 14 aos 19 anos. Trata-se tem se mostrado incapaz de absorver os 2 milhões
de um período da vida em que o jovem completa de jovens que entram todos os anos no mercado de
seu desenvolvimento físico e passa por impor tan- trabalho. Nessas condições, milhares de jovens não
tes mudanças biológicas, psicológicas e sociais. conseguem sequer seu primeiro emprego.
Deixa de ser criança e dá início à sua entrada no A intensificação do processo de globalização
mundo dos adultos. na última década r eduziu drasticamente as opor-
No Br asil, enquanto a geração de jovens ado- tunidades de trabalho para os jovens. Os jovens
lescentes de 1990 foi numericamente superior em e os idosos poderão ser os grandes excluídos das
1 milhão de pessoas à de 1980, a nova geração de sociedades societárias n a era da globalização.
adolescentes no ano 2000 já era 2,3 milhões supe- De acordo com alguns economistas, uma par -
rior à dos jovens de 1990. cela da juventude poderá passar at é a vida i n -
Seria preciso, então, oferecer a esses milhões t eir a sem obter tr abalho. Essa per spectiva pode
de jovens educação e preparação pr ofissional ade- levar o jovem a uma direção que ultrapasse o
quadas para facilitar seu ingresso no mercado de mero conflito de ger ações. Assim, muitos jovens
tr abalho, criando para eles, ao mesmo tempo, for- atualmente se revoltam contr a outros grupos so-
mas de convivência e de participação n a socieda- ciais, contr a a sociedade e contra o sistema que
de. Mas essa nova "onda de adolescentes" ocorre os mar ginaliza.

Man i l a, Fi l i p i n as, m arço de 2 0 0 6 . Jov en s d esem p r eg ad os esp er am su a v ez


de ser em ch am ados para u m a en t r ev i st a em gr ande em p r esa. 0 f en
do d esem p r eg o at i n g e
4
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e inter ação

Não se t r at a, agora, da utopia dos jovens r e-


beldes dos anos 1960, que queriam constr uir um
novo mundo e reformar ou revolucionar a socieda-
de, mas de jovens que desejam ser incluídos nela.
Essa sociedade acena para uma vida repleta de bens
materiais e de possibilidades de consumo quase
ilimitadas, mas ao mesmo tempo nega a muitos
jovens acesso a esses bens e possibilidades.
Tudo isso gera ressentimento e respostas
agressivas, levando jovens da per ifer ia de grandes
cidades a sentirem-se cada vez mais atraídos pela
marginalidade e a ingressar no crime organizado
ou em gangues de r u a.
Outro fenómeno é o de jovens de classe média
que tendem a formar bandos e a agir com vio-
lência, espancando ou matando pessoas gr atuita- s en t r am em ch oq u e com a p o l íci a
de p r ot est o con t r a o d esem p r eg o, qu e
mente, ou ingressando em grupos neofascistas e
at i n g e um em cada qu at r o j ov en s f r an ceses.
racistas (veja o boxe a seguir ).

llMi Vam os pesquisar ? |


I Jo v e n s e sp a n c a m e m p r e g a d a d o m é st i ca

No d ia 23 de ju n h o de 2007, cinco h o- cipalmente pelo perfil dos agressores: cinco


mens jovens de classe média atacar am a so- jovens de classe média, sendo quatro univer-
cos e p on t ap és u m a empregada doméstica sitários, entre eles um estudante de direito.
que esper ava o ônibus par a ir t r abalhar , no 0 que faz pessoas que têm acesso à edu-
Rio de Ja n e ir o. Não foi u m acontecimento cação, saúde de qualidade e outros bens come-
isolado. Ataques assim t ê m ocorrido com terem um crime com tamanha brutalidade?
fr equência em cidades br asileir as. Um caso Para especialistas, a falta de limites im-
emblemát ico desse tipo de agr essão gr at u i- postos pelos pais e até a certeza da impuni-
t a ocor r eu em Br asília em abr il de 1 9 9 7 , dade podem ser a resposta à pergunta. Lu-
quando cinco jovens de famílias r icas p u - dovico Carvalho, pai de Rubens Arruda, um
seram fogo ao ín d io p at axó Galdino Jesu s dos agressores, disse anteontem que consi-
dos Santos, que mor r eu em con sequên cia dera o filho uma criança. "Eu queria dizer
das queimadur as. 0 texto a seguir an alisa a para a sociedade que nós, pais, não temos
agr essão cometida no Rio de Ja n e ir o. culpa disso. Eles cometeram erro? Comete-
Na madrugada do último sábado, a em- ram. Mas não vai ser justo manter presas
pregada doméstica Sirlei Dias Carvalho, 32, crianças que estão na faculdade, estão estu-
foi assaltada e covardemente agredida, inclu- dando, trabalham", disse.
sive com pontapés na cabeça, num ponto de Para especialistas, Carvalho pode estar
ônibus na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio perpetuando a falta de limites, que provavel-
de Janeiro. 0 crime chamou a atenção prin- mente não soube impor ao filho. "A função

114
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Mas ainda não é certo que os jovens se-


rão punidos pela lei. Para o desembargador
Alexandre Victor de Carvalho, da 5 a Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Ge-
rais (TJMG) e especialista em direito penal, a
Constituição garante direitos iguais a todos
os brasileiros, mas há razões práticas para
que pessoas de classes mais altas fiquem me-
ín d i o s Pat axó f azem or ações em t or n o de
escu l t u r a er g u i d a em Br asíl i a em h om en ag em à
nos tempo presas, o que leva à sensação de
m em ór i a de Gal d i n o Jesu s, Pat axó q u ei m ad o por impunidade. Entre elas está a capacidade de
j ov en s de cl asse m éd i a n aq u el a ci d ad e em ab r i l
se contratar um bom advogado.
de 1 9 9 7 . Br asíl i a, n ov em b r o de 2 0 0 1 .
[Em 31 de janeiro de 2008, os jovens fo-
ram condenados a penas que variam de 6 a 7
do pai é orientar e limitar os excessos. Mas anos de reclusão em regime semiaberto.]
dessa forma, ele não está cumprindo a função GIUDICE, Patrícia e BARBOSA, Lívio . Se m lim ite s

dele. 0 filho tem que saber que não pode tudo, e ce rto s da im punidade . 0 Tempo, w w w .o te mpo .co m.br, 2 7 .6 .0 7 .
Ace s s o : 1 1 .1 0 .0 7 .
que tem direitos e deveres. Esse pai não está
vendo o filho como um sujeito, uma pessoa,
Pe sq u i se e r e sp o n d a
capaz de conviver e se encaminhar na vida so-
cial", analisou Maria José Salum, psicanalista
e membro do Instituto da Criança e Adolescen- Em grupos, procurem em jor n ais, r evistas
te (ICA) da Pontifícia Universidade Católica de e sites da inter net outras informações
Minas Gerais (PUC Minas). sobre atos de agressão de jovens de
Na avaliação da psicóloga Márcia Sten- classe média contra pessoas pertencentes
gel, Carvalho acaba dizendo para o filho a grupos de baixa renda e a minorias
que, de uma certa forma, o que ele fez não étnicas, religiosas e sexuais, como
é problemático e que ele é um sujeito sem índios, homossexuais, negros, judeus,
responsabilidades. "Ele está destituindo a res- etc. Terminada a coleta de dados, façam
ponsabilidade do filho pelos atos que come- um debate sobre as causas desse tipo
teu", afirmou. Para Maria José Salum, se o de atitude e escrevam um texto coletivo
rapaz não encontrar punição na família, vai com as conclusões do grupo.
encontrar na lei.

É nesse contexto que a juventude se revela mites de seus pais, que já não têm ideais, que
como tema para a Sociologia. Não se t r at a mais de adotam uma atitude cínica diante da vida e que
um jovem que está em permanente conflito de ge- se acreditam acima da le i. Muitos destes últimos
rações. Trata-se de jovens que têm dificuldade de consomem drogas, entre as quais o álcool, abusam
se integrar à sociedade globalizada, que estão se da velocidade ao dirigirem seus carros (ou os de
tornando mais violentos por se sentir socialmen- seus pais) e assumem comportamentos r acistas,
te excluídos e que participam de grupos tr ibais, sexistas e homofóbicos. Alguns, como vimos, são
como os punks, para não se sentirem solitár ios. capazes de ir até a agressão física e o assassinato
Ao mesmo tempo, há jovens que não recebem l i - de pessoas inocentes.

115
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

5 Siste ma de status e papé is sociais

Em uma empresa, o patrão tem direitos e de- Dependendo da maneira pela qual o indivíduo
ver es, além de pr ivilégios, diferentes dos de seus obtém seu status, este pode ser classificado em:
empregados. Numa escola, os direitos e deveres • status atribuído - não é escolhido voluntar ia-
do professor são diferentes dos de seus alunos. mente pela pessoa e não depende de suas ações
Todo indivíduo ocupa na sociedade em que vive ou qualidades. Por exemplo, o status de "filho
posições sociais que lhe dão maior ou menor des- de operário" ou de "irmão caçula". Os principais
taque, prestígio social e poder. fatores atribuidores de status são: idade, sexo,
A posição ocupada pelo indivíduo no grupo raça, laços de parentesco, classe social, e t c;
social ou na sociedade denomina-se status social. • status adquirido - obtido com base nas quali-
0 status social implica dir eitos, deveres, ma- dades pessoais do indivíduo, na sua capacidade
nifestações de pr estígio e até pr ivilégios, confor- e habilidade. Os status que uma pessoa obtém
me o valor social conferido a cada posição. As- ao longo da vida como resultado de competi-
sim , os diretores de uma grande empresa gozam ção e trabalho são status adquiridos, pois de-
de certas regalias - altos r endimentos, carro à pendem de suas habilidades pessoais e supõem
disposição, sala bem decorada, secr etár ias, t r a - uma vitór ia sobre outros concorrentes e o r e-
tamento cerimonioso por parte dos funcionár ios conhecimento de t a l êxito pelo grupo social.
- , vantagens que os outros empregados não t ê m . Nas sociedades feudais da Idade Média, na Euro-
Ou seja, o status dos diretores é mais elevado. pa, os status eram quase exclusivamente atribuídos
Seus deveres e responsabilidades estão ligados (uma pessoa era nobre porque sua família pertencia
a esse status. Para não per dê-lo, muitas vezes à nobreza). Já nas sociedades capitalistas moder-
eles precisam tomar decisões difíceis a favor da nas, predominam os status adquiridos. Um exemplo
empresa, como demitir funcionár ios ou cor tar de sociedade em que ainda imperam os status atr i-
salár ios. buídos é a índia, onde as pessoas já nascem dentro
Na sociedade, o indivíduo ocupa tantos sta- de uma categoria social - a casta - e nela permane-
tus quantos são os grupos sociais a que pertence. cem até a morte, sem possibilidade de mudança de
Vejamos o exemplo de uma pessoa que é pai de status (sobre as castas, veja o capítulo 9 ) .
família, ocupa o cargo de gerente de vendas de Na sociedade capitalista, que estimula a com-
uma empresa, é sócio de um clube, frequenta a petição, os indivíduos geralmente buscam status
igr eja de seu bairro e integr a o diretório regional mais elevados. Isso explica a insistência com que
de um partido político. Essa pessoa tem um status se procura "subir na vida". Quanto mais escassas
no grupo familiar , outro no ocupacional, um t er - as oportunidades para se conquistar determinado
ceiro no grupo de recreação, um status no grupo status, mais intensa é a competição entre os con-
religioso e outro ainda no partido político. correntes em disputa por ele.
Papel soci al
Ao dar uma aula e exigir que os alunos pres-
tem atenção, o professor está cumprindo os de-
veres e exercendo os direitos ligados a seu status
social. Ou seja, está cumprindo seu papel social.
Papéis sociais são os comportamentos que o
grupo social espera de qualquer pessoa que ocupe
J a c q u e l i n e Lau r en ce e Jor ge Dór ia na peça 0 avarento,
certo status social. Corresponde mais precisamente
de Mol i èr e, en cen ad a em 2 0 0 2 . 0 con cei t o de p ap éi s
às tar efas, às obrigações inerentes ao status. Por soci ai s é i n sp i r ad o na r epr esen t ação t eat r al , na q u al
exemplo, de um médico se espera que atenda cor- um at or pode d esem p en h ar vár ios p ap éi s.

retamente seus pacientes, que se preocupe com


eles, que ouça suas queixas, que faça um diagnós-
tico preciso e que tr ate as enfermidades de modo ver sa. Assim, no exemplo considerado, uma mes-
competente. Caso não aja assim, não estará cum- ma pessoa desempenha simultaneamente diversos
prindo o papel que seu status de médico determi- papéis na vida social, como os de pai de família,
na e será, portanto, questionado pela sociedade. gerente de vendas da empresa em que tr abalha, de
Status e papel social são coisas inseparáveis e sócio de seu clube, frequentador da igr eja de seu
só os distinguimos para fins de estudo. Não há sta- bairro e integrante do diretório regional de seu
tus que não corresponda a um papel social, e vice- partido político.

6 Estrutura e organização social

Uma escola é formada por pessoas que estu- soas que a constituem não estão desempenhando
dam - os alunos - e por pessoas que trabalham seus papéis habituais.
- entre as quais o diretor, o coordenador pedagó- Assim, enquanto a estr utur a social dá ideia
gico, os professores, o secretário e os ser ventes. de algo estático, que simplesmente existe, a or-
Cada um desses indivíduos ocupa uma posição so- ganização social dá ideia de algo dinâmico, em
cial, um status no grupo. Cada posição está r ela- permanente movimento.
cionada com as demais, e todas elas, em conjunto, A estr utur a social se refere a uma totalidade
formam a estrutura social da escola. composta de par tes, enquanto a organização so-
Desse exemplo, pode-se concluir que estrutura cial se refere às relações que se estabelecem entre
social é o conjunto ordenado de partes encadeadas essas par tes. Quanto mais complexa a sociedade,
que formam um todo. Dito de outro modo, a estru- tanto maiores e mais complexas serão sua estr u-
tur a social é a totalidade dos status existentes num tur a e sua organização social.
determinado grupo social ou numa sociedade. Embora uma seja mais estática do que a ou-
Cada par ticipante de uma estr utur a desempe- t r a , tanto a estr utur a quanto a or ganização so-
nha o papel correspondente à posição social que cial são passíveis de mudanças. Elas podem pas-
ocupa (status). 0 conjunto de todas as ações r ea- sar, e passam com fr equência, por processos de
lizadas quando os membros de um grupo desem- mudanças sociais. Exemplos disso já foram dados
penham seus papéis sociais compõe a organização em diversas passagens deste capítulo e de outr os,
social. Esta corresponde, portanto, ao funciona- nas referências a mudanças de comportamento de
mento do organismo social. década para década, como a do papel do homem
Durante o período letivo, a organização da que divide as tarefas domésticas com a mulher
escola é bastante dinâmica. No período de férias ou as mudanças de papel da mulher no decorrer
baixa a níveis mínimos, pois quase todas as pes- do tempo.

117
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

I • Li v r os su g er i d os
• VANEIGEM, Raoul. A arte de viver para as novas gerações. São Paulo: Conrad, 2002.

• NOVAES, Regina e VANNUCHI, Paulo. Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo:
Fundação Perseu Abramo, 2004.

• RAMALHO, Jos é Ricardo e SANTANA, Marco Aur élio. Sociologia do trabalho no mundo contemporâneo. Rio de
Jan eir o: Zahar, 2004.

• Fi l m es su g er i d os
• Juventude transviada, de Nicholas Ray, 1955. Jovens em conflito com os pais enfr entam uma realidade opressiva e
repressora nos Estados Unidos dos anos 1950.

• Woodstock, de Michael Wadleigh, 1970. Sobre o fest ival hippie e pacifista de Woodstock ( 1 9 6 9 ) , do qual
par ticipar am cerca de um milhão de jovens.

• Peões, de Eduardo Coutinho, 2004. A greve dos metalúr gicos do ABC paulista em 1979 e o papel do então líder
sindical Luiz Inácio da Silva ( Lu la ) . Documentár io.

• 0 senhor da guerra, de Fr an klin Schaffner , 1965. Camponesa casa-se com ser vo, mas é obrigada a passar a noite de
núpcias com o senhor feudal. Esse pr ivilégio do senhor fazia parte de seu status de nobre e vigor ava em algumas
r egiões da Europa medieval.

• Coração de cavaleiro, de Br ian Helgeland, 2 0 0 1 . Na Idade Média, escudeiro de origem pobre se faz passar por nobre
para disputar um tor neio como cavaleir o.

• Barry Lyndon, de Stanley Kubr ick, 1975. A ascensão social de um jovem que, no século XVIII, conquista o status de
nobre por meio do casamento.

• Viva Zapata, de Elia Ka za n , 1952. As lut as do líder camponês Emiliano Zapata dur ante a Revolução Mexicana de
1910-1917.

• Norma Rae, de Mar tin Rit t , 1979. Em 1978, operários t êxt eis no inter ior dos EUA se organizam para lut ar por
melhores condições de vida e de tr abalho.

Tr ab al h an d o co m f i l m es
Sob a orientação do professor, reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais
filmes indicados na lista de sugestões. Terminada a sessão, façam um debate em torno do que viram
e escrevam um texto coletivo com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de lider ança? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há r efer ências ao conflito de gerações n a vida em sociedade? Sob que formas ele se manifesta no filme?

• Há r efer ências à questão do status social? Quais são elas e onde aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as


Pense e responda:
a. Grupo, multidão, público e massa. 0 que car acter iza cada um desses tipos de
agrupamento social?
b. Quais são os pr incipais mecanismos de sustentação dos grupos sociais?
c. 0 que tor na inseparáveis o status que um indivíduo ocupa na sociedade e os papéis
sociais que ele desempenha?
2 . Relacione alguns dos grupos sociais a que você pertence.

118
CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

3 . Tomando por base os contatos sociais, como classificamos os grupos sociais?


Comente uma participação sua em:
a. multidão; b. público; c. massa.
Como você explica a necessidade da existência de mecanismos de sustentação dos
grupos sociais? Responda citando tais mecanismos.
6. Dê seu ponto de vist a sobre:
a. um valor social que você identifica como necessário à vida em sociedade;
b. um valor social que poderia ser superado nos tempos atuais.
Escreva sobre alguns dos status sociais que você ocupa, se são atribuídos ou adquiridos
e quais os papéis que você representa em cada u m . Qual deles é o mais importante
para você?

• líder car ismát ico


O term o carisma/ oi popularizado por Max W eber, que prim eiro o em pregou com o sentido relativam ente
técnico que os historiadores das religiões lhe atribuem . O carism a éo encanto ou a graça que acom panha certos
personagens sobre os quais recaíram [na opinião de seus seguidores] o olhar e a escolha de Deus. [...]

O poder car ismático identifica-se por "charmoso" — no sentido banal do termo —


seu caráter "extraordinário, sobre-humano, tem car isma. Na linguagem cor r ente, carisma
sobrenatural". Aquele que o possui é um "en- e popularidade são tratados como sinónimos.
viado de Deus", um herói — um "guerreiro Or a , esses termos se distinguem um do outro
furioso" — ou um chefe. O que car acter iza o por diferenças de significado, que convém
chefe car ismático não é tanto o conteúdo de manter.
sua missão, mas a maneira como ele a executa Assim, um indivíduo popular, simpático,
— seu estilo. Por isso, o fenómeno carismáti- ou "cujo rosto nos agrada" não é necessaria-
co só pode ser abordado adequadamente sem mente alguém cujas convicções mais pessoais
juízos de valor. Mesmo se, em nome de seus compar tilhamos. Nã o nos sentimos inclinados
próprios valor es, ou mesmo à luz de uma pre- a per mitir que um indivíduo popular fixe por
visão bem fundamentada, o sociólogo é leva- nós nossa linha de ação. Quase sempre, ele
do a condená-lo como cr iminoso ou absurdo, é popular porque não nos pede nada — o que
o projeto do chefe car ismático deve ser com- não acontece absolutamente no caso do líder
preendido como um tipo de ação or iginal, car ismático, que, ao contr ár io, é um mestre
com lógica própria [...]. muito exigente, como sugere de modo clar o
Esse aspecto da noção de car isma, no a injunção de Jesus ao jovem r ico: "Vende to-
qual Max Weber insiste, é atualmente quase dos os teus bens e segue-me". [...]
sempre negligenciado. Ouve-se dizer com Assim como não é redutível à populari-
frequência que um indivíduo "simpático" ou dade, o carisma não pode ser reduzido à pura

119
CAP Í T ULO 6 Grupos sociais e interação

sugestão. É verdade que frequentemente é asso- gem não é apenas a descr ição de uma ordem
ciado a manifestações de entusiasmo, a cenas possível ou desejável. Ele próprio se compr o-
de transe, descritas por Gustave Le Bon em mete — eventualmente com fanatismo — a
sua Psicologia das massas. Pr ofetas, demagogos, realizá-la. [...]
"guerreiros furiosos" parecem tomar posse de A relação do líder carismático com seus
seus auditór ios, substituir as vontades de seus fiéis não é absolutamente da mesma ordem da
fiéis e de seus seguidores por suas próprias que une o líder democr ático a seus eleitores.
vontades. [...] O líder democr ático busca ser reconhecido
No processo de confir mação que con- por aqueles que o percebem como mais visí-
sagra o personagem car ismático, o imaginár io vel, mais requisitado, mais apreciado do que
social é um r ecur so, não ún ico, mas às vezes outros. O líder carismático, diferentemente do
decisivo. Infalivelmente, o êxito em alguma político popular, não vai buscar sua legitimida-
medida milagroso fortalece o prestígio do lí- de na opinião favorável que os outros têm dele,
der car ismático. Contr ibui para convencer os mas na missão de que ele mesmo se investiu.
fiéis de que o projeto ao qual ele lhes pede que O poder carismático é, portanto, um
se consagrem inteiramente não é uma quime- poder pessoal. Por isso parece muitas vezes
ra,- de que, de certa maneira, seu Reino é desse arbitrário àqueles que escapam ou resistem a
mundo. sua atração. Em relação a um líder cujo carisma
O carisma pode ser definido como uma não reconhecemos, tendemos a tomar uma ati-
relação de poder fortemente assimétrica en- tude não indiferente, mas hostil ou desdenho-
tre um guia inspirado e um grupo de seguido- sa. Nesse caso, para nós, ele é um impostor ou
res que reconhece nele e em sua mensagem um leviano. Para autenticar seu apelo, o único
a promessa e a r ealização antecipada de uma recurso do líder é insistir no caráter radical-
nova ordem, a que aderem com con vicção mente original de sua mensagem.
mais ou menos intensa. Para o líder carismá- B O U D O N , R. e B O U R R I C A U D , E Dicionário crítico de sociologia.
tico, a mensagem é uma missão. Essa mensa- 2. e d . S ã o P a u l o : Át i c a , 2 0 0 4 . p . 4 8 - 5 0 .

Pen se e r esp o n d a

Reúnam-se em grupos e debatam sobre o significado do car isma. No fin al, escrevam um texto
resumindo a discussão e respondendo à seguinte pergunta: Que líderes carismáticos vocês
destacariam no mundo atual?
As primeiras tentativas de explicar a vida social dos seres
humanos foram feitas com base no estudo do que hoje conhece-
mos pelo nome de Estado (veja o capítulo 11). De fato, tanto Pla-
tão (427-347 a.C), em seu texto A Rep ú blica, quanto Aristóteles
(384-322 a.C), autor de Polít ica, tiveram como objeto primordial
de estudo a organização política da pólis (cidade-Estado) grega
e só secundariamente a sociedade. Foi preciso esperar a época
moderna, com o desenvolvimento do capitalismo e da sociedade
civil burguesa a partir do século XVIII para que a sociedade pas-
sasse a ser um objeto particular de interesse e reflexão. A partir
de então, a sociedade começou a ser vista como uma totalidade,
da qual o Estado é apenas uma parte.
No século XIX, o pensador alemão Karl Marx (1818-1883)
chamou a atenção para a importância das condições materiais
(económicas) de existência na formação das sociedades. Se-
gundo ele, antes de fazer poesia e formular ideias filosóficas, o
ser humano precisa alimentar-se e garantir sua sobrevivência.
Dessa forma, dizia ele, "o modo de produção da vida material
condiciona o processo, em geral, da vida social, política e es-
piritual".
Neste capítulo, vamos estudar algumas das proposições
de Marx, hoje aceitas por muitos cientistas sociais.
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

Obser ve e r espon da:

1 . Quem são as pessoas que aparecem na cena acima?

2 . 0 que elas estão fazendo?

3 . Como você definir ia o tipo de sociedade na qual essas pessoas viviam?

122
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

Bens e serviços
Quando vamos a um supermercado comprar Evidentemente, para que algum bem ou ser vi-
alimentos, produtos de limpeza ou eletr odomésti- ço seja oferecido no mercado, é necessário pr imei-
cos, estamos adquirindo bens. Em contr apar tida, ro que seja produzido.
quando pagamos a passagem de ônibus ou uma Consideremos, por exemplo, o processo pro-
consulta médica, estamos comprando serviços. dutivo de uma fábrica de móveis. Primeiro, a ár-
Bens são todas as coisas materiais colhidas na vore (matéria br uta) é derrubada e serrada em
natureza ou produzidas para satisfazer necessidades grandes pranchas. Em seguida, essas pranchas de
humanas. Serviços são as atividades económicas vol- madeira (matéria-prima) vão para a fábr ica. Ali,
tadas para a satisfação de necessidades e que não são transformadas em bens - mesas, cadeiras, etc.
estão relacionadas diretamente à produção de bens. - por meio do trabalho dos operários, que utilizam
Um vendedor de sapatos, por exemplo, presta ferramentas e equipamentos. Finalmente, esses
o serviço de fazer chegar ao consumidor o produto bens são enviados à loja, que prestará o serviço de
do fabricante. Um médico, ao utilizar seus conhe- vendê-los ao consumidor.
cimentos para tratar um paciente, está prestando
um serviço. Um taxista emprega sua habilidade em Da m at ér ia- pr im a ao pr odut o f i n al
conduzir veículos para o transporte de passageiros. Vamos considerar outro exemplo. Em seu traba-
Esses profissionais são prestadores de serviços. lho, a costureira transforma em roupa uma peça de
Em qualquer atividade económica, bens e servi- tecido de algodão - que é obtida de uma matéria-
ços estão interligados. Uns dependem dos outros para prima vegetal. Para isso, ela trabalha com uma má-
que o sistema económico funcione. Bens e serviços quina de costura, utilizando linhas, botões, colche-
resultam da transformação de recursos da natureza tes, tesouras e agulhas. Seu trabalho também exige
em objetos úteis à vida humana. E isso só ocorre por o consumo de energia elétrica para a iluminação e
meio do trabalho nos processos de produção. para o funcionamento da máquina de costura.
Finalmente, com as técnicas que aprendeu e a
Produção, di st r i b u i ção, consum o habilidade que desenvolveu, a costureira produz um
Com nosso trabalho, somos capazes de produzir vestido. Entretanto, para que esse vestido existisse
alguns bens e realizar serviços que eventualmente foi necessária uma sucessão de trabalhos diferentes.
podemos utilizar . Entretanto, como um indivíduo Da lavoura do algodão ao último botão pregado na
isolado não é capaz de produzir tudo aquilo de que roupa, houve trabalho humano - físico e mental.
precisa, somos "obrigados" a viver em sociedade. Podemos dizer, portanto, que o pr incipal fator
Coletivamente, as pessoas participam da vida eco- do processo de produção é o tr abalho.
nómica, tendo como principais atividades a produ- 0 processo de produção é formado por três
ção, a distribuição e o consumo de bens e serviços. componentes pr incipais associados:
Enquanto trabalham, os operários estão atuan- • tr abalho;
do na produção. Como compradores de bens e ser vi- • matér ia-pr ima;
ços, participam da distribuição. Quando consomem • instrumentos de produção.
esses bens e serviços, estão participando da at ivi- A seguir, estudaremos mais de perto esses
dade económica na condição de consumidores. três componentes.

0 trabalho humano

Toda atividade humana que resulte em bens ou atividade do operário de uma indústria quanto a do
serviços é considerada trabalho. É trabalho, tanto a engenheiro que projeta os bens a serem produzidos

123
seja no manuseio dos instrumentos de trabalho, seja
na passagem da concepção do projeto para o papel.
Podemos concluir então que não existe t r a-
balho exclusivamente manual ou exclusivamente
intelectual, mas, sim, predominantemente manual
ou predominantemente int elect ual.

0 valor da qu alif icação


0 trabalho pode ser classificado conforme o
Tr abal h ador es na l i n h a de m on t agem de f áb r i ca de
cal çad os em Novo Ham b u r go, no Rio Gr ande do Su l , em grau de capacitação exigido do pr ofissional. As-
m ai o de 2 0 0 6 . 0 t r ab al h o de um op er ár i o ex ige não sim, temos:
apen as h ab i l i d ad e m an u al , m as t am b ém con cen t r ação,
• trabalho qualificado - não pode ser realizado sem
i n t el i g ên ci a e cap aci d ad e de ob ser v ação.
um certo grau de aprendizagem e conhecimento
técnico; o trabalho de um torneiro mecânico, por
exemplo, enquadra-se nessa categoria;
pela fábrica. A atividade do ar tista que pinta um • trabalho não qualificado - pode ser realizado
quadro, que encena uma peça de teatr o, ou que praticamente sem aprendizagem; por exemplo,
compõe uma música, também é trabalho. o trabalho de um servente de pedreiro.
Todo tr abalho r esult a da combinação de dois Essa classificação não é uma simples divisão
tipos de atividade: manual e in t elect u al. 0 que teór ica. Ela atinge profundamente a vida das pes-
var ia é a proporção com que esses dois aspectos soas, pois diferentes salários são atribuídos con-
entr am no processo de pr odução. 0 tr abalho de forme o grau de capacitação ou qualificação exigi-
um operário é mais manual do que in t elect u al; do pelas tarefas a cumprir.
em alguns casos, quase exclusivamente man ual. Ao observar anúncios de emprego, podemos
Apesar disso, exige certo esforço men t al. avaliar as vantagens salar iais que têm um tor -
Já o trabalho de um engenheiro é mais inte- neiro mecânico ou um t écnico em infor mática
lectual do que manual - a elaboração e os cálculos - cujas funções exigem aprendizado prévio - , em
necessários para projetar uma ponte, por exemplo. relação a um operário da constr ução civil não es-
Entretanto, sua atividade tem um aspecto manual, pecializado.

Maté ria-prima

Os componentes iniciais do produto que no r


Oper ár i os em p ed r ei r a
processo de produção são transformados até ad- de Cu i ab á, Mat o
quirirem a forma de bem fin al são chamados de Gr osso, em ab r i l
matér ia-pr ima. de 1 9 9 4 . Bl ocos de
pedr a com o esses
No exemplo da costur eir a, sua matéria-prima podem ser v i r de
são o tecido, a lin h a , os botões, os colchetes. To- m at ér i a- p r i m a par a
a con st r u ção ci v i l e
dos eles participam na confecção da r oupa. Por
1

par a di v er sas ou t r as
sua vez, a produção desses componentes iniciais at i v i d ad es.
tem como matéria-prima objetos extraídos da n a -
tur eza: o algodão, a seda, o metal, etc.
De fato, antes de serem transformados em
matér ia-pr ima, tais componentes encontram-se
na natur eza sob a forma de recursos natur ais.

124
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

Recursos nat ur ais dar ao longo da histór ia. Um bom exemplo são
Para produzir, o ser humano u t iliza recursos as quedas-d'água. Inicialmente, elas eram apenas
natur ais como o solo (para a agr icultur a e a pe- um elemento da natur eza. Quando se descobriu
cuár ia), as rochas (para a miner ação), os rios e que era possível gerar energia movendo moinhos
quedas-d'água (para a navegação e a produção de (o que ocorreu na Idade Média) e, mais tarde, pro-
energia elétr ica), o petróleo (do qual saem a gaso- duzir eletricidade nas usinas hidrelétricas (já na
lin a , o plástico e outros pr odutos), etc. sociedade in dust r ial), as quedas-d'água passaram
É preciso observar que, na qualidade de fonte a ser utilizadas como recurso n at ur al.
de minérios, as rochas são recursos natur ais ape- Na qualidade de recurso n at ur al, elas tor -
nas para as sociedades que as utilizam na produ- naram-se parte integrante da economia. Porque,
ção de bens. Não o são para as sociedades que não quando o "elemento n at ur al" passa a ser "r ecur -
praticam a miner ação. so", caracteriza-se um uso social do que antes era
A utilização de um recurso natur al pode mu- só natur eza.

Meios de produção
Todos os objetos que dir eta ou indiretamente Como vimos, sem matér ia-pr ima e sem in s -
nos permitem transformar matéria-prima em bem tr umentos de tr abalho não se pode pr oduzir .
fin al são chamadas de instrumentos de produção. Eles são necessár ios para r ealizar qualquer tipo
É o caso das ferramentas, dos equipamentos e das de tr abalho.
máquinas. 0 local de tr abalho, a iluminação, a A matéria-prima e os instrumentos de produ-
ventilação e as instalações necessárias à atividade ção constituem os meios de produção. Certos r e-
produtiva também são instrumentos de pr odução. cursos natur ais, como a t er r a, também são meios
Assim, instrumento de produção é todo bem de pr odução. 0 conceito de meios de produção é,
utilizado pelo ser humano na produção de outros por tanto, mais amplo do que o de instrumentos
bens e ser viços. de pr odução.

As forças produtivas

Todo processo produtivo combina o trabalho As forças produtivas alteram-se ao longo da


com os meios de pr odução. Esses dois componen- Histór ia.
tes estão presentes tanto na produção ar tesanal At é meados do século XVIII, a produção era
de uma bordadeira quanto nas atividades de uma feita com o uso de instrumentos simples, aciona-
grande indústr ia moderna. dos por força humana, por tração animal e pela
Ao conjunto dos meios de produção somados energia proveniente da água ou do vento.
ao trabalho humano damos o nome de forças pro- Com a Revolução In dust r ial, a par tir da se-
dutivas. Assim: gunda metade do século XVIII, foram desenvolvi-
das novas máquinas e instrumentos de produção;
Forças produtivas passou-se a usar o carvão como fonte de energia e,
mais tarde, também a eletricidade e o petr óleo.
meios de produção
Alter ar am-se, por tanto, os meios de produção
+
trabalho humano e também as técnicas de tr abalho. Houve, assim,
uma profunda mudança nas forças pr odutivas.

125
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

1 Li t o g r af i a de 1 8 8 5 r ep r esen t an d o a ci d ad e de Sh ef f i el d , na I n g l at er r a. Com a i n t r od u ção


§ da m áq u i n a a v apor e de novas f or m as de or gan i zação do t r ab al h o , a Revolu ção I n d u st r i al
S acel er ou o d esen v o l v i m en t o das f or ças p r od u t i v as em um a escal a sem p r eced en t es.

No processo pr odutivo, as pessoas dependem da produção somente com sua força de trabalho.
umas das outras para obter os resultados pr etendi- Na condição de senhores, nobres ou empresários,
dos. Dessa for ma, para produzir os bens e serviços os proprietários participam do processo produtivo
de que necessitam, os seres humanos estabelecem como donos dos meios de produção. Assim, pro-
relações entre s i. Tais relações são chamadas de prietários e trabalhadores estão vinculados de uma
relações de produção. determinada maneira no processo produtivo.
0 trabalho é necessariamente um ato social.
Evidentemente, há várias atividades que podem A pr opr iedade
ser r ealizadas individualmente, como cuidar do São as relações de produção que organizam e
próprio ja r d im . Mas aqui estamos falando do t r a - definem a sociedade. Entre essas relações de produ-
balho social que faz par te do processo produtivo ção está o regime de propriedade. Por exemplo: se o
de determinada sociedade. Como força pr odutiva trabalho de uma sociedade é feito maioritariamente
de uma sociedade, o trabalho é eminentemente por escravos, temos um regime de propriedade no
social. qual os proprietários dos meios de produção também
As relações de produção mais importantes são são donos dos portadores da força de trabalho (os
aquelas que se estabelecem entre os proprietários escravos). Ou seja, suas relações de produção são es-
dos meios de produção e os trabalhadores. Isso cravistas, gerando um tipo de sociedade específica.
porque todo processo produtivo conta sempre com No decurso da histór ia, existir am diversos t i -
pelo menos dois agentes sociais básicos: tr abalha- pos de sociedade. Cada um deles se car acter izava
dores e proprietários dos meios de pr odução. por relações específicas de pr odução. A esse con-
Na condição de escravos (no Br asil colonial, junto de forças produtivas e relações de produ-
por exemplo), servos (na Europa, durante a Idade ção damos o nome de modo de produção. Como
Média) ou assalariados (na sociedade capitalista veremos a seguir, a humanidade conheceu vários
industr ial moderna), os trabalhadores participam modos de produção ao longo de sua histór ia.

126
Cr i ador de av est r u zes em su a f azen d a, no i n t er i o r de
São Paulo, em f o t o de 2 0 0 1 . 0 d i r ei t o à p r op r i ed ad e
pr i v ada da t er r a e de ou t r os m ei os de pr odu ção é um a
das car act er íst i cas da soci ed ad e b r asi l ei r a.

0 grande teórico dos modos de produção foi o produtivas e as relações de produção, assim como o
pensador alemão Kar l Marx, ao qual já nos referimos estudo sistemático dos modos de produção. Foi Marx
na abertura do capítulo. Devemos a ele a análise também o primeiro a assinalar o caráter histórico
da sociedade com base na relação entre as forças dos modos de produção (veja o boxe a seguir ).

| O que é? ]
M o d o de p r o d u çã o

0 conceito de modo de produção ocupa necessárias e independentes de sua vontade.


um lugar centr al n a teor ia da História e nas Essas relações de produção correspondem a
concepções económicas de Kar l Mar x. No texto uma determinada etapa de desenvolvimento
a seguir, Marx identifica o modo de produção das suas forças produtivas materiais.
com a estr utur a (ou infr aestr utur a) da socie- A totalidade dessas relações de produção
dade, que ser ia o conjunto das relações de forma a estrutura económica da sociedade.
pr odução. Em outros escr itos, por ém, o modo Essa estrutura é a base real sobre a qual se
de produção é definido como as relações de levanta uma superestrutura jurídica e polí-
produção mais as forças pr odutivas. De qual- tica, e à qual correspondem formas sociais
quer modo, as primeiras estão intimamente determinadas de consciência.
relacionadas com as segundas, formando um 0 modo de produção da vida material
todo or gânico que está n a base da sociedade. condiciona o processo de vida social, política
É sobre essa base, diz Mar x, que se ergue a e espiritual. Ou seja, não é a consciência dos
cult ur a, a or ganização política e as ideologias homens que determina o seu ser, mas, ao con-
(inclusive as religiões) dessa sociedade. Exis - trário, é o seu ser social que determina sua
t em , assim, dois níveis n a concepção mar xista consciência.
da sociedade: o da infr aestr utur a (relações de Em determinada etapa de seu desen-
produção e forças pr odutivas) e o da superes- volvimento, as forças produtivas entram em
t r ut ur a (Estado, Igr eja, cult ur a, et c.) contradição com as relações de produção exis-
Na produção social da própria vida, os tentes. Essas relações - o regime de proprie-
homens estabelecem relações determinadas, dade, por exemplo -, que antes eram formas

127
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

de desenvolvimento das forças produtivas,


Va m o s p e n sa r ?
transformam-se em seu maior obstáculo.
Sobrevêm, então, uma época de revolu-
ção social. 1 . Você concorda com a frase "não
Mas uma formação social nunca de- é a consciência dos homens que
saparece antes que estejam desenvolvidas determina o seu ser, mas, ao
todas as suas forças produtivas. E novas contr ár io, é o seu ser social que
relações de produção mais adiantadas não determina sua consciência"? Explique
substituem as antigas, antes que suas con- sua resposta.
dições materiais de existência tenham sido 2 . De acordo com o t ext o, o que é mais
geradas no próprio seio da velha sociedade. dinâmico e muda mais rapidamente
Em grandes traços, podem ser caracte- na sociedade: as relações de produção
rizados como épocas progressivas da forma- ou as forças produtivas?
ção económica da humanidade os modos de 3 .0 que acontece quando as forças
produção asiático, antigo, feudal e burguês produtivas e as relações de produção
moderno. de uma sociedade já não são
Adaptado de : MARX, Ka rl. Para a crítica da e co no mia po litica. adequadas umas às outras?
In : Marx. São Paulo: Abril Cultural, 1 9 7 8 . p. 1 2 9 -3 0 .
Cole ção Os Pe nsadore s.

De que modo a sociedade se transforma?


Modo de produção é a maneira pela qual a Esse processo de desenvolvimento é r espon-
sociedade produz seus bens e serviços, como os sável pelo surgimento de alguns dos pr incipais
ut iliza e como os distr ibui. É chamado também de modos de pr odução. Na sequência estabelecida
sistema económico. Assim: por Mar x, os grandes modos de produção t er iam
sido: antigo (ou escr avist a), asiát ico, feudal e
Modo de produção bur guês moderno. Marx não faz r efer ências aqui
forças produtivas ao modo comunal p r im it ivo, que t er ia sido a p r i-
+ meir a forma de or ganização económica da socie-
relações de produção dade. Também poder íamos acr escentar o modo
socialist a de pr odução, que foi tentado sem
Cada sociedade tem uma forma própria de sucesso n a ex-União Soviética e ainda vigente,
produção, seu modo de produção. Este é consti- embora com mudanças de tipo cap it alist a, n a
tuído por fatores dinâmicos, que estão em cons- China.
tante mudança: as forças produtivas, que se mo- Alguns desses modos de produção podem coe-
dificam com o desenvolvimento dos métodos de xist ir em certas sociedades, ou podem ocorrer em
tr abalho, com o avanço tecnológico e científico; e lugares e épocas diferentes. 0 modo de produção
as relações de produção, também sujeitas a tr ans- comunal pr imitivo, por exemplo, sur giu nos p r i-
formações, embora mais lentas. meiros tempos da humanidade e pode ser obser-
Com o tempo, o desenvolvimento das forças vado ainda hoje, com algumas modificações, entre
produtivas acarreta mudanças e até rupturas (por os povos indígenas não-aculturados do Br asil e
meio de revoluções) nos modos de produção. entre os aborígines da Austr ália.

128
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

A cena da d i r ei t a
n est a gr avur a do
sécu l o XI V r ep r esen t a
o t r ab al h o de um
ar t esão f er r ei r o e
seu ap r en d i z em um a
o f i ci n a m ed i ev al .
À esq u er d a, est ão
r ep r esen t ad os
os i n st r u m en t o s
de t r ab al h o e um
p o ssív el cl i en t e.

Da mesma for ma, o modo de produção es- cursos naturais da região em que o grupo se encon-
cr avista predominou na Grécia antiga e ressurgiu tr ava. Sobreviviam graças à coleta e ao extrativismo:
- em circunstâncias históricas e económicas dife- caçavam animais para se alimentar e utilizavam a
rentes - no Br asil e em outras regiões da América pele deles para se proteger do fr io, pescavam e cole-
entre os séculos XVI e XIX, sob a forma de escr a- tavam frutos e raízes.
vismo colonial. Por volta de 10000 a .C, alguns grupos come-
çaram a cultivar a ter r a, produzindo cereais, ver -
An t es do capi t al i sm o duras, legumes e fr utas, e a criar alguns tipos de
No item anterior relacionamos os principais mo- animais. Não deixaram de lado a coleta e a caça,
dos de produção, segundo a análise de Marx. Agora, mas passaram a combiná-las com o cultivo de ve-
vamos estudar aqueles que precederam o modo de getais e a criação de gado. Pouco a pouco, as pes-
produção capitalista, no qual ainda vivemos. soas deixaram de ser nómades e passaram a se fixar
Os modos de produção não aparecem de forma em certas regiões, tornando-se sedentárias.
pura na vida r eal, mas misturados a elementos carac- Assim, desde tempos remotos o ser humano tem
terísticos de outros modos de produção. Um desses transformado a natureza para produzir bens que sa-
modos de produção, entretanto, é o dominante, seja tisfaçam suas necessidades básicas, aumentem seu
por sua abrangência, seja por sua influência como grau de segurança e proporcionem conforto.
polo dinâmico da vida económica. Assim, durante a Na comunidade "pr imit iva" (ou modo comunal
Revolução Industr ial do século XVm, subsistiam na de pr odução), as pessoas trabalhavam em estr eita
Inglaterra formas feudais de relações de produção, cooperação. A ter r a era o pr incipal meio de produ-
mas eram as forças produtivas de tipo capitalista ção. Tanto ela quanto os frutos do trabalho eram
que impunham seu ritmo à economia e à sociedade. propriedade coletiva, comunal, isto é, de todos.
Nesse processo, o modo de produção capitalista aca- Não exist ia ainda a ideia de propriedade pr i-
bou por tr iunfar sobre o que restava de relações feu- vada dos meios de produção. Não havia proprie-
dais de produção. Na França, esse conflito conduziu tár ios, de um lado, e trabalhadores, de outro. As
à Revolução Francesa de 1789, que também deu a relações de produção eram relações de cooperação.
vitória às formas capitalistas de produção. As formas de organização social eram as da comu-
nidade baseada em laços de parentesco. Predomi-
A com unidade " p r i m i t i v a" nava a solidariedade e não a competição (veja no
Inicialmente, os seres humanos viviam em gr u- boxe a seguir o efeito da ação do capitalismo sobre
pos nómades e dependiam exclusivamente dos r e- as comunidades indígenas no Br asil).

129
CAPITULO 7 Trabalho e sociedade

As co m u n i d ad es do povo Masai , n o Qu én i a
( Áf r i ca) , são um ex em p l o de f or m as pr é-
cap i t al i st as de or gan i zação so ci al . Nest a f ot o
de 2 0 0 4 , past or es Masai con d u zem seu gado
no l u sco- f u sco do am an h ecer .

OS Í NDI OS E A N AT UR E ZA

O texto que você vai ler agora foi extr aído


da Carta de princípios da sabedoria
aprovada pelo Pr imeir o Encontr o Nacional
indígena,
hoje som os 3 0 0 m il. De nós levaram e levam a m adei-
ra, o ouro e a própria terra. Nossa grande m ãe chora
de tristeza e choram os juntos com ela. Quando vam os
de Pajés, que reuniu em 1998 alguns dos pr in- ao rio, ele está sujo, quando vam os à m ata, ela não
cipais líderes dos povos indígenas do Br asil. m ais existe, quando querem os falar com os espíritos,
No documento, os pajés expõem claramente eles não m ais respondem , porque um a m áquina passou
as diferenças de con cep ção que separam as na sua m orada.
comunidades ditas "primitivas" e o modo ca- Tem os certeza de que a "civilização" que nos foi
pitalista de pr odução. im posta foi um a civilização que não deu certo, não deu
No início dos tem pos, m uitos anos atrás, já está- certo para nosso povo, e agora tem os certeza de que não
vam os aqui, éram os m ilhares. deu certo para o hom em branco. Nós, índios, ainda re-
Naqueles tem pos, nossos antepassados já ensina- sistim os, m antem os nossas tradições, m antem os respeito
vam que tudo que existe está ligado ao grande ciclo da à grande m ãe natureza, por isso som os cham ados de
vida. A água dos rios e igarapés, as florestas, os ani- selvagens e preguiçosos.
m ais pequenos e os grandes, tudo à nossa volta tem sua Não com preendem os a sabedoria de vocês, não
m agia própria e ali foi colocado para m anter o grande entendem os um a sabedoria que destrói a m ata, polui os
ciclo da vida e ajudar os hom ens que forem sábios. rios, m ata os peixes. Não com preendem os um a sabe-
Durante m ilhares de anos, participam os com doria que abandona seus velhos, m altrata suas m ulhe-
respeito desse grande ciclo da vida, sem pre aprendendo, res e crianças. Não com preendem os a ânsia do hom em
a cada dia, com a natureza. Ela foi e épara nosso povo branco em dom inar seu irm ão, a natureza e as forças
a grande m ãe, dela tiram os o sustento de nossos filhos, do universo. Todo esse poder, todas as arm as, por ou-
com ela aprendem os a utilizar as plantas para curar a tro lado, não têm feito de vocês um povo feliz. Muitas
doença do nosso povo. doenças, m uitas dores que seus sábios não podem curar,
Há quinhentos anos, chegaram os invasores sabem os o rem édio. Muitas pragas nas plantações de
vindos de longe, de lá até hoje, tudo m udou no lugar vocês, nossa sabedoria poderá resolver.
em que vivem os, m uitos dos nossos foram dizim ados Ad a p t a d o d e : Ca r t a d e p r in cíp io s d a s a b e d o r ia in d íge n a .

por doenças ou guerras. Se no início éram os 6 m ilhões, Pr im e ir o En co n t r o Na cio n a l d e Pa jé s . Car os Am igos, j u l . 1998. p . 15.

130
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

A escr avidão na Gr écia e em Roma cinas ar tesanais, instr umentos de produção) e do


Não se sabe exatamente como e quando ocor- produto do tr abalho.
reu em alguns lugares a dissolução da comunidade Na comunidade pr imitiva, como vimos, a ter -
pr imitiva e quando surgiram as primeiras formas ra e os bens eram de propriedade coletiva, não
de escravidão. Sabe-se, porém, que a guerra entre existia dominação de um grupo social por outr o.
comunidades e povos propiciou prisioneiros que Por tanto, não havia necessidade de mecanismos
foram rapidamente escravizados. Sur gia, assim, de controle - polícia, exército ou governo. Não
pouco a pouco, o modo escr avista de pr odução. existia então o que conhecemos como Estado.
Na sociedade escr avista, os meios de produção Já o modo escr avista, por sua própria n at u -
(terras e instrumentos de produção) e os escravos r eza, exigia um controle rígido dos escravos e r e-
eram propriedade do senhor. 0 escravo era consi- gras para regular a ordem social. Foi necessár io,
derado um instr umento, um objeto, como um an i- por tanto, que surgissem formas de governo para
mal ou uma fer r amenta. Um pequeno número de garantir os interesses do grupo dominante.
senhores explorava a massa de escravos, que não 0 modo de produção escr avista caracteriza
t in h a nenhum dir eito. duas importantes sociedades: a grega e a romana
Dessa for ma, os senhores eram proprietários da Antiguidade Clássica. Mais tarde, já na Idade
dos portadores da força de trabalho (os escr a- Moderna, ele ressurgiria sob uma nova for ma, a do
vos ) , dos meios de produção (ter r as, minas, ofi- escravismo colonial (veja o boxe a seguir ).
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

| O que é? ]
Escr a v i sm o col on i al

0 conceito de modo de pr odução es- 0 modo de produção escravista colonial


cr avist a colon ial foi desenvolvido p a r t icu - apresenta três aspectos principais.
lar ment e pelo histor iador br asileir o Jacob 1. Economia voltada predominantemente pa-
Gorender. ra o mercado externo (isto é, produzia-se
0 escravismo colonial brasileiro se distin- tendo em vista a exportação, e não o con-
guia do modo de produção vigente na Grécia sumo interno), dependendo desse mercado
e na Roma antigas, que também tinha por externo o estímulo necessário ao desenvol-
base o trabalho escravo, exatamente por ser vimento das forças produtivas.
colonial. Isto é, os proprietários dos meios 2. Troca de géneros agropecuários ou maté-
de produção e a comercialização do fruto do rias-primas minerais por manufaturas fa-
trabalho estavam sob controle da metrópole bricadas na metrópole ou em algum outro
portuguesa, e não da própria colónia. país europeu.
Ao mesmo tempo, a organização da pro- 3. Fraco ou nenhum controle da colónia sobre
dução tinha por base a p lan t at ion - gran- a comercialização no mercado externo.
des latifúndios voltados para uma só cultu- A mistura de trabalho escravo e capita-
ra destinada à exportação (cana-de-açúcar, lismo mercantil (dominante na metrópole)
café, etc). Dessa forma, o escravismo colo- criou uma sociedade peculiar. Os mercadores
nial atendia aos interesses do capitalismo coloniais constituíam uma burguesia mer-
mercantil dominante na Europa e estava cantil integrada na ordem escravista, e tão
entrelaçado com ele, o que não ocorria no interessada na sua conservação quanto os
modo de produção escravista vigente na plantadores. Boa parte desses mercadores,
Grécia e na Roma antigas. aliás, se dedicava ao tráfico de escravos da
África para o Brasil colonial e imperial.
Base ado e m : GORENDER, Jaco b. 0 escravismo colonial.
Engenho de açúcar. Gr avur a de Joh an n Mor i t z
5 . e d . São Paulo: Át i ca , 1 9 8 8 .
Ru gen das, ar t i st a al em ão qu e est ev e no Br asi l
no com eço do sécu l o XI X. 0 t r ab al h o escr avo er a,
por essa ép o ca, u m dos p i l ar es de su st en t ação da
soci ed ad e b r asi l ei r a.
Va m o s p e n sa r ?

1 . Quais são as pr incipais diferenças


entre o escravismo colonial vigente
no Br asil durante os períodos
colonial e imper ial e o modo antigo
de pr odução, que também teve por
base o trabalho escravo?

2 . Do ponto de vista das relações


exter nas, como estava organizado o
modo de produção escravista colonial?

132
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

A economia escr avista antiga era basicamente dois casos e, mais ainda no de Roma, foi preciso
agrária. Mas tanto na Grécia quanto em Roma a manter uma enorme máquina de guer r a, invadir e
vida política, o comércio, o conhecimento, a escr i- conquistar muitos povos, com o objetivo de con-
t a , o teatro e as artes floresceram nas cidades. seguir mais escravos e r iquezas.
Na Grécia antiga, cidadãos livr es elaboravam
teor ias avançadas, como a da democracia, criavam Modo asi át i co de produção
sistemas filosóficos complexos, faziam progressos Na abordagem de Marx e Engels, o modo de
na Matemática e na Astr onomia; projetavam tem- produção asiático predominou na índia e no Egito
plos, monumentos, teatr os; escreviam peças t ea- da Antiguidade, bem como nas civilizações pré-
tr ais que são encenadas até hoje. colombianas dos incas (nos países andinos da
Tudo isso era financiado pela produção agro- América do Su l) , maias (leste do México) e astecas
pecuária, baseada no trabalho escravo no campo. (do México à Nicar água).
A cidade não era o local de produção, exceto para Tr ata-se, na verdade, de sociedades fechadas,
escravos domésticos e para o pequeno artesanato. equipadas com um Estado forte e uma burocracia
Aliás, o trabalho manual era ostensivamen- eficiente, capaz de manter o poder t ot al do Esta-
te desprezado pela cultur a grega. Platão, um dos do, ao qual toda a sociedade estava subordinada.
principais filósofos de todos os tempos, afir mava: No modo asiático de produção, os meios de pro-
"É próprio de um homem bem nascido desprezar dução e a força de trabalho pertenciam ao Estado,
o tr abalho. [...] 0 trabalho humano permanece encarnado no imperador. Abaixo dele, o grupo mais
alheio a qualquer valor humano e, em certos as- privilegiado era o dos sacerdotes, dos nobres e dos
pectos, parece mesmo a antítese do que seja es- guerreiros. Mas o grupo mais poderoso era o dos ad-
sencial ao homem". ministradores públicos, que atuavam em nome do
A sociedade romana r epetiu esse modelo. Nos Estado.

133
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

Essas sociedades sucumbiram aos próprios ex- Uma das características da super estr utur a po-
cessos - por exemplo, o luxo e o desperdício das lítica do feudalismo era a descentralização do po-
camadas superiores, totalmente improdutivas - e der (o termo super estr utur a foi utilizado por Marx
às invasões estrangeiras. para designar a parte da sociedade que não está
No caso das sociedades inca e asteca, a con- diretamente ligada às atividades económicas, isto
quista de seu território pelos invasores espanhóis, é, ao modo de pr odução). Assim, além do poder
no século XVI, determinou seu desaparecimento. económico (eram os proprietários das t er r as), os
senhores feudais detinham também o poder polí-
0 f eu dal i sm o m edieval tico e a just iça (faziam as leis do feudo e atuavam
0 modo de produção feudal predominou n a como administradores, governantes e ju íze s ) .
Europa ocidental entre o século VIII e o século
XVI. Em alguns casos, prolongou-se de forma r esi- A longa agonia da sociedade f eu d al
dual (ou seja, perdendo força e magnitude diante A economia feudal, como a escr avista, se ba-
do avanço das relações capitalistas) até o século seava no campo. As cidades tinham inicialmente
XVIII ou mesmo até o século XIX. pouca impor tância. Os proprietários dos meios de
Durante a Idade Média, nem todos os países produção - nobres e bispos - mantinham-se em
europeus experimentaram o feudalismo como modo seus feudos, tinham seus próprios exércitos e go-
de produção dominante: esse foi o caso das cida- zavam de considerável independência política em
des-Estado italianas (Veneza, Florença e outras, relação ao r e i.
voltadas para o comércio) e da península Ibérica A partir do século XI , entretanto, o comércio
(Portugal e Espanha), que passou quase todo o pe- ganhou impulso e o grupo dos mercadores passou
ríodo medieval sob domínio muçulmano. a concentrar um poder económico cada vez maior.
As relações de produção no feudalismo basea- Esse processo foi acompanhado da expansão das
vam-se sobretudo na propriedade do senhor sobre
a ter r a e no trabalho agrícola do servo. Assim, a
r
sociedade feudal estruturou-se basicamente sobre
a divisão entre senhores e servos, embora existis-
Cam pon ês m ed i ev al
lavr a a t er r a em
f eu d o p er t en cen t e ao
WÊÊÊ* 4Ê
sem outros grupos sociais, como os dos mercado- d u q u e de Ber r y, n a
r es, religiosos e ar tesãos. Fr ança. I l u m i n u r a do
com eço do sécu l o XV.
Os servos tinham uma condição muito in fe-
rior nessa sociedade, mas não viviam como os es- l
cravos. Tinham o direito de cultivar um pedaço de
ter r a cedido pelo senhor, desde que, em tr oca, pa-
gassem a ele impostos e rendas. Além disso, eram
obrigados a trabalhar nas terras do senhor sem
nada receber, sistema conhecido como corveia. 0
servo t in h a direito ao usufruto da ter r a, mas não
podia comprá-la ou vendê-la.
Outra diferença importante entre o servo e
o escravo é que o escravo era propriedade do se-
nhor, que podia vendê-lo, alugá-lo, emprestá-lo
e até liber tá-lo, se quisesse. Já o servo não era
propriedade de seu senhor, mas estava ligado ao
lote de ter r a no qual tr abalhava. Caso o senhor
vendesse esse lote a outra pessoa, esta er a obr i-
gada a manter o servo n a propriedade.

134
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

T E R R AS D O SENHOR

A m aioria das terras agrícolas da Europa ocidental e central estava dividida em "feudos". Um feudo
geralm ente de um castelo, um a aldeia e várias centenas de hectares de terra arável gue a circundavam ,
o povo da aldeia trabalhava.
consistia
e na qual

Nos lim ites da terra arável, havia geralm ente um a extensão de prados, terrenos erm os, bosques e pastagens.
Nas diversas localidades, os feudos variavam de tam anho, organização e relações entre os que os habitavam .
Mas suas características principais eram sem elhantes. (...)
Cada propriedade feudal tinha um senhor. Era com um se dizer, na época, que não havia "senhor sem -terra,
nem terra sem um senhor". O castelo, extrem am ente fortificado, era a m oradia do senhor feudal. Lá ele vivia com sua
fam ília, em pregados e funcionários que adm inistravam sua propriedade.

Ad a p t a d o d e : H U B E R M A N , Le o . Hist ór ia ia r iqueza io h om em . Ri o de Ja n e i r o : Za h a r , 1978. p. 11-2.

feiras e do crescimento dos burgos (cidades). Pouco pagamento em dinheir o, e não em produtos, como
a pouco, estes foram ganhando importância. Entre era antes; or a, tanto o salário quanto o arrenda-
1100 e 1300, nada menos do que 140 novas cidades mento por meio de dinheiro configuram relações
foram erguidas na Europa ocidental. Muitas delas capitalistas, não mais feudais).
cresceram inicialmente no interior de um feudo, às
vezes fora das muralhas do castelo do senhor. Além disso, outros fatores contribuíram para
Dessa for ma, seus habitantes, os burgueses, colocar o feudalismo em cr ise, entre os quais lon -
assim chamados porque viviam nos burgos, deviam gos conflitos e disputas entre senhores feudais e
pagar taxas e tr ibutos ao proprietário do feudo. até mesmo entre reinos - como a Guerra dos Cem
Entr etanto, com a expansão do comércio, os bur - Anos, entre a França e a Inglater r a (1337-1453) - ,
gueses ganharam força e começaram a questionar e epidemias, como a Peste Negra, que matou um
sua submissão ao senhor feudal. Esse conflito de terço da população europeia no século XIV.
interesses acabou levando os líderes dos burgos
a lutar por sua autonomia por meio de cartas de
franquia. O avanço da bur guesia
A carta de franquia era um documento compra- A desagregação do modo de produção feudal
do ao senhor feudal. Por ela, os burgueses conquis- começou com o surgimento de novos processos eco-
tavam o direito de administrar a cidade por meio nómicos, como o revigoramento do comércio (que
da eleição de um prefeito, ou pela escolha de um havia diminuído muito durante os primeiros sécu-
conselho ou assembleia de várias pessoas. Ou seja, los da Idade Média), a partir do século XI . Igual-
com a carta de franquia, os habitantes da cidade mente importante foi a reanimação das cidades,
conquistavam sua autonomia, só devendo obediên- com a expansão dos centros urbanos já existentes,
cia ao r ei. o aparecimento de novas cidades e o incremento da
Assim, na fase fin al de sua existência, o feu- produção manufatureira para atender às necessida-
dalismo europeu perdeu força no confronto com des crescentes da população ur bana.
as cidades, nas quais as relações de produção já Esses processos deram origem a uma nova
não eram estritamente feudais (começava a se ex- classe social - a burguesia mer cantil - , cujos in -
pandir o pagamento do trabalho em dinheir o, ou teresses entraram em choque com os privilégios
seja, por meio de um salár io; no próprio campo, da nobreza e com algumas das características cen-
muitas ter r as passaram a ser arrendadas por um tr ais do modo feudal de pr odução.

135
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

Ao mesmo tempo, o comércio e a produção


manufatur eir a, em franco desenvolvimento, e xi-
giam um número crescente de trabalhadores l i -
vr es, assim como uma maior quantidade de pro-
dutos agrícolas para alimentar a população ur -
bana. Atraídos pelo progresso das novas cidades,
os servos começaram a abandonar suas antigas
aldeias feudais. 0 campo, por sua vez, tornava-se
intr anquilo, com a eclosão de sucessivas revoltas
camponesas.
Nesse processo, a burguesia mercantil come-
çou a entrar em rota de colisão com a dominação
feudal. A medida que o comércio crescia, as popu-
lações urbanas procuravam estabelecer seus pró-
prios tr ibunais, suas próprias leis, seus próprios
sistemas de impostos. Precisavam de um novo tipo
de sociedade. Dessa forma, estava em gestação, no
próprio interior do modo feudal de produção, uma
nova forma de organização produtiva: o modo ca-
pitalista de produção, que será estudado no próxi-
mo capítulo.

—• Li v r os su g er i d os
• HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Jan eir o: Zahar, 1978.

• MAESTRI, Már io. 0 escravismo antigo. São Paulo: At u a l, 1999.

• 0 escravismo no Brasil. São Paulo: At u a l, 2003.

—• Fi l m es su g er i d os
• Ben-Hur, de William Wyler, 1959. Amigo dos romanos, o ju d eu Ben-Hur , contempor âneo de Jesus Cr isto, se rebela
ao presenciar as injust iças cometidas por eles contr a seu povo, é escravizado e depois se liber t a.

• Joana D'Arc, de Luc Besson, 1999. Filha de camponeses, Joan a D'Arc comanda a reação fr ancesa contr a os ingleses
dur ante a Guerra dos Cem Anos.

• Uirá, um índio em busca de Deus, de Gustavo Dahl, 1974. Adaptação do romance Maíra, de Darcy Ribeir o. Narra a
busca de Uirá e de sua família pela "t er r a sem males", uma espécie de paraíso dos índios Tup i.

• Caramuru, a invenção do Brasil, de Guel Ar r aes, 2 0 0 1 . A histór ia do por tuguês Diogo Álvar es, o Car amur u, que
naufragou na costa br asileir a no século XVI.

• Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, 1972. Em 1594, um aventur eir o fr ancês pr isioneir o
dos Tupinambá escapa da morte graças aos seus conhecimentos de ar t ilh ar ia.

• Desmundo, de Alain Fr esnot, 2003. Por volta de 1570, o governo de Por tugal envia à colónia portuguesa na
Amér ica algumas moças órfãs para se casarem com os primeiros colonizadores.

• Ganga Zumba, de Cacá Diegues, 1964. Entr e os séculos XVI e XVII, grupo de afr icanos escravizados de um engenho
de açúcar foge para o quilombo de Palmar es. Entr e eles está Ganga Zumba, futur o líder do quilombo.

136
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

Tr ab al h an d o co m f i l m es
Sob a orientação do professor, reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais
filmes indicados na lista de sugestões. Terminada a sessão, façam um debate em torno do que viram
e escrevam um texto coletivo com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de modo de produção? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há r efer ências ao tr abalho escravo? Sob que formas ele se manifesta no filme?

• Há referências à sociedade feudal? Quais são elas e onde aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as


1 .0 que você entende por produção?
2 . Relacione três empresas que produzem bens e três que prestam ser viços.

3 . Explique os conceitos de: tr abalho, matéria-prima e recursos natur ais.

4. 0 que são relações de produção?


5 . Quais são as diferenças entre escravo e servo?
6. Qual era a pr incipal atividade económica no feudalismo?
7 .0 que é escravismo colonial?

Do escr avismo ao feudalismo


Na sociedade escravista as relações de produção eram assim: os meios de produção (terra, instrumentos de
trabalho, etc), tal como os homens, eram propriedade do senhor. O escravo era considerado um instrumento.
[...] Assim, na época do escravismo, as relações que existiam na sociedade eram relações de domínio e de sujeição,
um pequeno número de senhores explorava ferozmente a massa de escravos privados de todos os direitos. [...]

Com o tempo, a contr adição entre as los grandes proprietários e pelo Estado escra-
forças produtivas e as relações de pr odução vista, juntaram-se aos escravos.
da sociedade escravista agravaram-se muito. As revoltas internas e os ataques vindos
Essas contr adições manifestavam-se por meio de tribos estrangeiras [que os romanos cha-
de grandes revoltas de escravos. A mais co- mavam de "bárbaros"] acabaram por destruir
nhecida é a revolta chefiada por Spartacus o escravismo e cr iar uma nova sociedade, a
[ 73 a 71 a .C.] . Impiedosamente explorados, sociedade feudal. [...]
reduzidos ao desespero, os escravos levanta- As relações de pr odução no modo de
ram-se contr a os seus donos. Depois, muitos pr odução feudal baseavam-se na propriedade
camponeses e artesãos livr es, explorados pe- do senhor sobre a terra e num grande poder
CAPÍTULO 7 Trabalho e sociedade

sobre o servo. O servo era o indivíduo que A população das cidades (urbana) lutou pela
cultivava um pedaço de terra cedido pelo sua liberdade e, em muitos casos, conseguiu a
dono das grandes propriedades, sendo obr i- autonomia das cidades em relação aos senho-
gado a pagar ao senhor impostos, rendas e, res feudais.
ainda, a trabalhar nas terras que o proprietá- Nas cidades, habitadas principalmente
r io conservava para si. por artesãos e mercadores, aperfeiçoaram-se
O senhor não podia matar o servo [na as ferramentas e os processos de transforma-
época do escr avismo, o senhor podia matar ção das matérias-primas. As profissões espe-
o escr avo], mas podia vendê-lo com a terra. cializar am-se. Apareceram novos ramos de
Por tanto, o servo não era um escr avo, tinha pr odução: fabr icação de armas, serralheria,
o usufruto da terra, ou seja, uma grande parte cutelar ia, cor doar ia. Melhor ou-se a fundição
do que a terra produzia era para ele. de ferro, apareceram os primeiros altos-for-
O servo trabalhava uma parte do tempo nos. As cidades eram grandes mercados, onde
para ele mesmo e outra para o senhor. Quan - se fazia a pr odução para vender, ou seja, a
do cr iava o produto necessário para a sua sub- pr odução comer cial.
sistência e da sua família, trabalhava para ele Num determinado momento, as r ela-
pr ópr io. Quando o seu trabalho servia para ções de pr odução feudais começar am a entra-
arranjar produtos para pagar as rendas e os var o desenvolvimento das forças produtivas.
impostos ao senhor e quando ia trabalhar nas Nos campos, a explor ação aumentava e por
terras do senhor, fazia um trabalho adicional, isso o rendimento da agricultura era cada vez
ou seja, um trabalho além do necessário para mais baixo. O desenvolvimento das próprias
a sua subsistência. cidades era impedido pelo feudalismo.
Dur ante o tempo de trabalho adicional, As relações de pr odução feudais já não
o servo cr iava um produto de sobra, um so- serviam,- precisavam ser liquidadas porque o
breproduto do qual o senhor se apoderava. desenvolvimento das forças produtivas pedia
Essa forma de explor ação dos camponeses é o novas relações de pr odução. Na realidade,
aspecto pr incipal do feudalismo em todos os dentro da cidade feudal começavam a apare-
povos onde ele existiu. [...] cer já as relações de pr odução capitalistas.
As cidades estavam sob o poder do se- Ad a p t a d o d e : Ce n t r o d e Es t u d o s An g o l a n o s . O que ( a hist ór ia
nhor das terras nas quais elas se encontr avam. da sociedade h u m an a. S ã o P a u l o : Gl o b a l , 1981. p . 20-3 .

-• Pen se e r esp o n d a
Em livr os de Histór ia, procure mais informações sobre a queda do Império Romano do
Ocidente e o começo da Idade Média na Eur opa. Depois, compare-as com o texto que acabou
de ler e responda: como ocorreu na Europa a passagem do modo de produção escr avista para
o modo feudal de produção?

138
isFlfc WÉÈÈm
Sociedades
cont em por âneas
Por volta do século XI, como vimos, teve início na Europa
ocidental um longo processo de desenvolvimento do comércio,
acompanhado pelo crescimento das cidades. Esse processo deu
origem a um novo grupo social - a burguesia mercantil -, que
logo entraria em conflito com a estrutura da sociedade feudal
Juntamente com ele, crescia também a participação de traba-
lhadores livres assalariados na vida económica.
Desse modo, no próprio interior da sociedade feudal co-
meçavam a germinar novas forças produtivas, que levariam à
formação do modo de produção capitalista. Neste capítulo es-
tudaremos as principais características do sistema capitalista,
sua evolução nos últimos séculos e as tentativas de substituí-lo
pelo socialismo de Estado no mundo contemporâneo.
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

IMAGEM e SOCIEDADE

Obser ve e r esp on d a:

1 . A foto acima registra o momento no qual uma multidão de alemães deu início à demolição
do Muro de Ber lim. 0 que você sabe sobre esse episódio?

2 . 0 que ele representou para a história da Alemanha contemporânea?

3. Que significado teve ele na disputa entre o capitalismo e o socialismo?

140
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

O modo capitalista de produção

0 que car acter iza o modo de produção capi- ur bana. Ele é livr e para se empregar onde quiser,
t alist a são as relações assalariadas de produção desde que o capitalista o aceite como empregado.
(trabalho assalariado) e a propriedade privada dos Na sociedade feudal, a produção estava volta-
meios de produção pela bur guesia. Histor icamen- da para a satisfação das necessidades imediatas das
t e, a forma burguesa substituiu na Europa a for - pessoas. Não se produzia tendo em vista o comércio
ma feudal de propriedade, assim como o trabalho e o lucr o. Durante um longo período da Idade Mé-
assalariado passou a ocupar o lugar do trabalho dia europeia, o comércio quase deixou de existir . A
ser vil, que car acter izava o feudalismo. Igreja católica, por sua vez, condenava o lucr o.
Sob o capitalismo, a burguesia possui as fá- Na sociedade capitalista, ao contrário, o desenvol-
br icas, os centros comerciais, as grandes lojas, os vimento da produção é movido pelo desejo de lucro.
meios de tr anspor te, as ter r as, os bancos, etc. Em É para aumentar seus rendimentos que os capitalistas
uma palavr a, ela é proprietária dos meios de pro- procuram expandir a produção e baixar seus custos.
dução (fábricas, minas, ter r as) e de circulação das Para isso, recorrem a aperfeiçoamentos técnicos cons-
riquezas (casas comerciais, bancos, e t c ) . tantes, à exigência de maior produtividade dos operá-
Ao contrário do que ocorria no feudalismo, rios, a uma maior racionalização do processo de produ-
quando o servo estava ligado à t er r a, no capita- ção, ou ainda à combinação de todos esses processos.
lismo o trabalhador não é obrigado a ficar sempre 0 texto do boxe da página seguinte explica como se
na mesma propriedade r ur al ou na mesma empresa deu a formação do modo capitalista de produção.

141
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

A F OR MAÇÃO D O CAP I T ALI S MO

E im portante inicialm ente nos fixarm os na Europa dos


séculosIVaXIV(301-400a i30i-i40o),

esse período que deu origem à nossa sociedade atual.


poisfoi
Em prim eiro lugar, foi um a revolução
ca, pois a organização do trabalho se alterou
dam ente. Da sociedade estratificada em dois
económ i-
profun-
grandes
Sabem os que, nessa época, a Europa era um grupos sociais — senhores e servos —, surgiram novos
continente onde a principal atividade económ ica gi- grupos m uito im portantes: os com erciantes e os arte-
rava em torno da terra e da propriedade da terra. O sãos livres.
m odo de vida era ligado ao trabalho rural, principal Eram pessoas que, a partir do século XIV, já
fonte de riqueza social. não dependiam m ais da terra, e sim de atividades pu-
Nessa sociedade de base agrária, o m odo de ram ente urbanas.
vida era com pletam ente diferente do que éhoje em dia, [Entre os séculos XVI e XVIII, m uitos com er-
pouco com ércio, cidades precárias — pouco m ais que ciantes e artesãos m ais poderosos] passaram a investir
pequenas aldeias — , com o pensam ento religioso m ol- grandes som as de riquezas em m anufaturas. Essas m a-
dando a vida da m aioria das pessoas. nufaturas, na verdade, eram as prim eiras indústrias,
A partir do século XIV, esse m undo com eçará ainda prim itivas, m as que já se caracterizavam pela
a se transform ar rapidam ente. É essa transform ação divisão interna de funções, com o trabalho parcelado
que nos interessa, pois, de m undo agrário, a Europa em inúm eras atividades, a partir da introdução de no-
cam inhou para o m undo urhano-industrial. Essa m u- vas técnicas e m elhores instrum entos de trabalho. [...]
dança não ocorreu em pouco tem po; foram precisos Ao entrarm os nos séculos XVIII e XIX, terem os
no m ínim o três séculos para que ela se com pletasse. a Revolução Industrial, ou seja, o processo económ ico
No entanto, com o foi um a m udança social radical, responsável pelo capitalism o.
m uitos a cham aram de revolução - a Revolução In- Esse m odo de produção, que se originou do co-
dustrial [veja o capítulo 1]. m ércio e da m anufatura, foi o responsável pelo desenvol-
Essa revolução, que levou a Europa definitiva- vim ento de novas invenções e técnicas, pelo aum ento das
m ente ao capitalism o, teve m uitas dim ensões e m om entos. atividades produtivas, dando origem à indústria m oderna.

Lon d r es, 6 .1 1 .0 7 . Sen t ad a ao lado do m ar i d o, o d u q u e de Ed i m b u r g o, a r ai n h a El i zab et h I I p r esi d e sessão na


Câm ar a dos Lor des, um a das casas do Par l am en t o i n g l ês.

142
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

A intensa urbanização do século XX e o surgim ento de Em terceiro lugar, houve m udanças ideológicas
classes sociais são frutos desse processo. [...] e um grande desenvolvim ento científico. Sob o capita-
Em segundo lugar, houve um a revolução políti- lism o, a ideia de progresso se propaga, assim com o se
ca, pois a antiga nobreza feudal perdeu o dom ínio para legitim a a riqueza alcançada por m eio do com ércio e
a burguesia, econom icam ente m ais forte. Enquanto no da indústria. A dinâm ica da com petitividade [por sua
feudalism o persistia um a política que representava os vez] faz nascer o sentim ento de individualidade.
interesses dos senhores feudais e do clero, são agora os A ciência, com o já aprendem os, se desenvolve a
em presários que passarão a organizar a política. partir de novos conceitos para explicar a natureza. A
A partir daí[...] nascem form as de governo re- partir da observação dos fatos, de sua decom posição
gidas por um a Constituição [e nas quais os governan- em partes (análise) e de sua ordenação (síntese), cons-
tes passam a ser eleitos pelo voto. Ê a época em que se
tata-se que a natureza é regida por leis.
consolida o parlam ento, prim eiro na Inglaterra, m ais
Isso possibilitou, com um a série de novos inven-
tarde em m uitos outros países].
tos, um am plo dom ínio sobre a natureza, nunca antes
Todas essas novas dim ensões da política burgue-
alcançado em toda a história da civilização.
sa devem dar a aparência de que o Estado, acim a dos
interesses de classe, vem organizar dem ocraticam ente a Ad a p t a d o d e : M E K S E N A S , P a u l o . Sociologia.
sociedade. Nasce, assim , a dem ocracia burguesa. S ã o P a u l o : Co r t e z , 1992. p. 43-4.

Das origens aos dias de hoje

Das suas origens, no fin al da Idade Média, aos • Capitalismo financeiro (a maior parte do século
dias de hoje, o capitalismo passou pelas seguintes XX) - Os bancos e outras instituições financeiras
fases: passam a controlar as demais atividades econó-
• Pré-capitalismo (do século XI ao século XV) - 0 micas por meio de financiamentos à agr icultur a,
comércio e a produção artesanal começam a se à pecuár ia, à indústr ia e ao comércio;
expandir, mas o trabalho assalariado ainda é • Sociedade pós-industrial (do fim do século XX ao
uma exceção: predomina o trabalho indepen- século XXI) - 0 capital financeiro continua a do-
dente dos artesãos, donos dos meios de produ- minar os outros setores da economia, como na
ção (oficinas, ferramentas e matéria-prima); nos fase anterior; com a globalização e o desenvolvi-
campos, prossegue ainda o trabalho ser vil, que mento das redes de computadores, grandes mas-
começa a ser substituído pelo trabalho assalar ia- sas de capital passam a ser aplicadas nos países
do e por formas de arrendamento da ter r a; que oferecem maior lucratividade, retirando-se
• Capitalismo mercantil (do século XV ao século deles ao menor sinal de crise; ao mesmo tempo, a
XVIII) - 0 trabalho independente ainda predo- indústria e a agricultura perdem importância em
mina, mas se expande o regime assalariado; a relação ao setor de serviços; além disso, expan-
maior parte do lucro concentra-se nas mãos dos dem-se os meios de comunicação e o setor de in -
comerciantes; formática (redes de computadores), assim como
• Capitalismo industrial (do século XVIII ao século a automação e a indústria de alta tecnologia.
XX) - Com a Revolução Industr ial, o capital pas-
sa a ser investido basicamente na indústr ia, que O capi t al i sm o m er can t i l
se tor na a atividade económica dominante; o Entre os séculos XV e XVIH, a sociedade euro-
trabalho assalariado firma-se definitivamente; peia viveu tempos extraordinários. Foi a época das

143
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

Grandes Navegações, da formação e consolidação do No período mer cantilista, o Estado absolutis-


Estado absolutista na Europa ocidental, da forma- t a inter fer iu pesadamente na economia, proibindo
ção dos sistemas coloniais, com a conquista e a co- a importação de produtos que tivessem similares
lonização da América pelos europeus, e da criação nacionais e a exportação de matérias-primas que
de um mercado mundial. Foi também a época da favorecessem a indústr ia de outros países.
transição do feudalismo para o capitalismo. 0 Estado também estimulou os monopólios
No plano da política económica, predominou (empresas que controlavam o comércio de deter-
nesse período um tipo de pensamento, práticas e minados produtos) e a exploração colonial. As
dir etr izes conhecido como mercantilismo. 0 mer- terras r ecém-conquistadas (colónias) forneciam
cantilismo foi a política económica do Estado abso- matér ias-pr imas, géneros alimentícios e, em cer-
lut ist a e do capitalismo mer cantil. Seus princípios tos casos, metais preciosos para as potências eu-
e dir etr izes mais importantes eram: ropeias que as controlavam (metr ópoles).
• A riqueza de uma nação depende, acima de Nesse per íodo, os reinos de Portugal e Espa-
tudo, da acumulação de metais preciosos (ouro n h a, depois seguidos pela Inglater r a, França e Ho-
e pr ata); landa, patrocinaram as Grandes Navegações, que
• Portanto, deve-se exportar mais do que impor- saíram em busca de novas terras e novos mercados.
t ar ; isso assegura que a balança comercial seja Assim, a serviço dos reis espanhóis, Cristóvão Co-
sempre favor ável; lombo chegou à América em 1492. Em 1500, com
• 0 governo deve controlar rigidamente a indústria a expedição de Pedro Álvares Cabral, os portugue-
e o comércio, de modo a garantir que as exporta- ses davam início à sua conquista de territórios na
ções superem as importações; o Estado, portanto, América do Su l.
deve intervir diretamente na vida económica; Leia no boxe da página seguinte uma crítica
• Para equilibrar a oferta e a pr ocur a, o governo indignada a certas características da sociedade colo-
deve evitar a concor r ência, fixando pr eços; nial mercantil, como a excessiva exploração das co-
• Quanto mais moedas houver em cir culação, lónias. Trata-se de um texto escrito pelo padre An -
mais próspero será o país. tônio Vieira, que viveu no Brasil entre 1615 e 1697.

Tela de Boav en t u r a Peet er s ( 1 6 4 8 ) r ep r esen t an d o


a ch egada de um n av i o de guer r a h ol an d ês à
cost a b r asi l ei r a. A Hol an d a f o i um a das gr an des
p ot ên ci as m er can t i l i st as do sécu l o XVI I .
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

UMA VO Z CON T R A A CO R R UP ÇÃO

N ascido em Portugal, An t ôn io Vieir a


( 1 6 0 8 -1 6 9 7 ) veio para o Brasil ainda
cr iança, em 1615. Mais tarde, já ordenado pa-
E com o tantos sintom as lhe sobrevêm ao pobre en-
ferm o, e todos acom etem à cabeça e ao coração, que são
as partes m ais vitais, e todos são atrativos e contrativos
dre jesuíta, desenvolveu importante atividade do dinheiro, que é o nervo dos exércitos e das repúblicas,
missionária. Foi um defensor dos índios con- fica tom ado todo o corpo e tolhido de pés e m ãos, sem
tra as tentativas dos colonos de escravizá-los haver m ão esquerda que castigue, nem m ão direita que
e chegou a ser preso pela Inquisição. Além de prem ie, e faltando a justiça punitiva para expelir os hu-
grande orador sacro, foi também um cr ítico m ores nocivos e a distributiva para alentar e alim entar o
severo de certos aspectos das relações entre a sujeito, sangrando-o por outra parte os tributos em todas
colónia portuguesa na Amér ica e a metr ópole as veias, m ilagre éque não tenha expirado.
(Por tugal). No texto que você vai ler agora, Ad a p t a d o d e : F A O R O , Ra i m u n d o . Os donos do poitr. 9. e d .
ele denuncia ao rei a superexploração da coló- S ã o P a u l o : Gl o b o , 1991. v. 1, p . 173.

nia, a cor r upção, o desvio de dinheir o público


e a impunidade no Brasil já no século XVI I .
Perde-se o Brasil, Senhor (digam o-lo em um a
palavra), porque alguns m inistros de Sua Majestade
não vêm cá buscar o nosso hem , vêm buscar nossos
bens. El-Rei m anda-os tom ar Pernam buco, e eles con-
tentam -se com o tom ar. Esse tom ar o alheio, ou seja, o
do Rei ou o dos povos, éa origem da doença, e as várias
artes e m odos e instrum entos de tom ar são os sintom as,
que, sendo de sua natureza m uito perigosa, afazem por
m om entos m ais m ortal.

E senão, pergunto, para que as causas dos sinto-


m as se conheçam m elhor, — Tom a nesta terra o m inistro Ret r at o do padr e An t ô n i o Vi ei r a, por Jo sé
da Justiça? — Sim , tom a. — Tom a o m inistro da Fazen- Rod r i g u es Nu n es ( 1 8 0 0 - 1 8 8 1 ) . Cél eb r e p el os
seu s ser m ões, o padr e Vi ei r a f o i um dos p r i m ei r o s
da? — Sim , tom a. Tom a o m inistro da Milícia? — Sim , cr ít i co s da cor r u p ção na co l ó n i a p or t u g u esa da
tom a. - Tom a o m inistro do Estado? - Sim , tom a. Am ér i ca.

A descober t a do livr e m ercado t as. Para ele, o trabalho - e não o comér cio, como
No século XVIII, época da Revolução Indus- pregava o mercantilismo - é a pr incipal fonte ge-
t r ia l, os pensadores também se modernizaram. Na radora de r iqueza.
França e na Inglater r a, nasceu o Iluminismo, cor- Segundo Smith, as desigualdades sociais cons-
rente de ideias que condenava a monarquia abso- tituíam um incentivo ao trabalho e ao enriqueci-
lut ist a e que logo se difundiu pela Eur opa. Entre mento - ou seja, uma condição fundamental para
os economistas, teve lugar uma profunda cr ítica que as pessoas lutassem para subir na vida. Isso
aos dogmas mer cantilistas. porque, ao promover seu interesse pessoal, o indiví-
0 escocês Adam Smith (1723-1790), autor de duo acaba por ajudar o interesse coletivo, pois, com
A riqueza das nações (1776), foi o pr incipal ideó- seus investimentos produtivos, um empresário cria
logo da nova corrente de ideias entre os economis- emprego e faz circular a riqueza: "Não é pela be-

145
CAPÍTULO 8 Sociedades contempor âneas

nevolência do padeiro ou do açougueiro - afirmava


Adam Smith - que temos nosso jantar , mas sim pelo
egoísmo deles, pois, agindo segundo seu próprio in -
teresse, os homens ajudam-se mutuamente".
Dessa for ma, a harmonia e o progresso, ba-
seados n a ambição in dividual, seriam garantidos
por um mecanismo autorregulador, que é o mer-
cado, com sua lei da oferta e da pr ocur a. Ou seja,
a lei da oferta e da procura funcionar ia como uma
"mão invisível", permitindo o crescimento da r i -
queza e uma melhor distribuição da r enda. Mas
isso só seria possível se o Estado não inter fer isse
na economia, sem fixar preços, por exemplo.
Adam Sm i t h , u m dos cr i ador es do
Na contramão das ideias mer cantilistas. Adam l i b er al i sm o eco n ó m i co , em r et r at o
Smith acreditava firmemente no poder da livr e do com eço do sécu l o XVI I I .

concor r ência, que ser ia para ele o grande motor


da sociedade capitalista.
Além de ser o pai da economia clássica, Smith terra, no decorrer da segunda metade do século XVDI.
foi também um dos maiores expoentes do liberalis- Uma das inovações da Revolução Industrial foi a subs-
mo económico - doutr ina económica que defende tituição do sistema manufatureiro pelo sistema fabril.
a livr e-iniciat iva e a não-inter venção do governo Na manufatur a, os trabalhadores produziam
na vida económica (o chamado "Estado mínimo"). em casa para um comerciante, que fornecia a ma-
Algumas de suas ideias estão hoje n a base de uma tér ia-pr ima e lhes pagava por pr odução.
das mais influentes correntes do pensamento eco- Diversamente, nas fábricas - novas unidades
nómico contempor âneo: o neoliberalismo (veja o de produção que concentravam os trabalhadores
boxe a seguir ). em um único edifício - o empresário contratava
trabalhadores livr es, que, sem meios de produção
A " o f i ci n a do m u n do" (ferramentas, matérias-primas e local de tr aba-
0 capitalismo industrial teve início com a Revo- lh o) , vendiam sua força de trabalho em horas - ou
lução Industrial ocorrida em primeiro lugar na Ingla- jornadas - para os novos patr ões.

Sp i n n i n g Jen n y , p r i m ei r a m áq u i n a de t ecer
al g od ão, i n v en t ad a em 1 7 6 4 p or Jam es Har gr eaves.
CAPITULO 8 Sociedades contemporâneas

W?T> I O que é? \W$


lo n eo l i b er al i sm o

Em 1929, teve início nos Estados Unidos ver nos de Mar gar eth That cher , n a In glat er r a
a mais séria crise económica do capitalismo ( 1 9 7 9 -1 9 9 0 ) , e de Ronald Reagan, nos Es t a -
em todos os tempos. Tão séria e pr ofunda que dos Unidos ( 1 9 8 0 -1 9 8 9 ) . Reagan d im in u iu
ficou conhecida como a Grande Depressão. impostos e Thatcher promoveu pr ivatizações
Milhares de empresas fechar am e milhões de de empresas est at ais e de ser viços p ú blicos.
trabalhadores perderam os empregos em todo Ambos cor tar am gastos públicos e desat iva-
o mundo. r am programas sociais destinados a amparar
Para sair da cr ise, em 1933 o pr esidente os t r abalhador es.
nor te-amer icano Fr a n klin Roosevelt la n çou As pr in cipais car acter ísticas do n eoli-
um pr ogr ama, conhecido como New Deal, ber alismo são: 1) r ejeição do Estado como
pelo qual o Estado passou a in t e r vir m aciça- agente econ óm ico; 2) ênfase n a desr egula-
mente n a vid a econ óm ica, promovendo obras ment ação do mercado - ou seja, o Estado
p ú blicas, como a constr ução de estr adas, ae- deve r eduzir sua par ticipação nos ser viços
r opor tos, et c. Cr iar am-se, assim , milhar es de assist ência social, médica e pr evidenciá-
de empregos. Acompanhada de uma p olít ica r ia , tr ansfer indo esses encargos par a empr e-
de aumento de salár ios e de pr oteção aos sas pr ivadas; 3) pr ivatização das empresas
tr abalhador es, essas medidas r eanimar am a est at ais; 4 ) subst it uição da legislação t r aba-
economia n or t e-amer ican a. lh is t a pela livr e negociação entr e patr ões e
Após a Segunda Guerra Mundial (1939- empregados; 5) aber tur a dos mercados, com
1945), diversos governos da Europa ocidental a eliminação de t axas alfandegár ias que d i-
também adotaram medidas de regulação do ficu lt am a liber dade de comér cio.
mercado, criando redes de proteção social ao
trabalhador. Salários elevados, acesso à educa-
ção, assistência médica gr atuita, aposentado- Pe sq u i se e r e sp o n d a
rias dignas foram algumas das características
dessa política. Nascia assim o Estado de bem-
estar social em países como Suécia, Noruega, Procure mais informações sobre o
Inglater r a, França e Alemanha. neoliberalismo e escreva um texto
Nos anos 1970, os pesados gastos do gover- abordando as consequências da política
no com essa política somaram-se a uma crise neoliberal para os trabalhadores.
económica de âmbito mundial. Isso fortaleceu Pesquise em sites da inter net, livr os,
os críticos do Estado de bem-estar, reunidos em jor nais e revistas. Você pode consultar os
tomo de uma corrente do pensamento econó- seguintes livr os: 1) OLIVEIRA JR., Osmar.
mico conhecida como neoliberalismo. Neoliberalismo, educação e emprego. Ju iz
Como t e or ia , o neoliber alismo nasceu de Fora: Feme, 2000; 2) SADER, Emir e
em 1944, com a publicação do livr o 0 cami- GENTIL, Pablo (or gs.). Pós-neoliberalismo -
nho da servidão, do pensador austr íaco Fr ie- as políticas sociais e o Estado democrático.
dr ich von Hayek. Como p olít ica de gover no, Rio de Janeir o: Paz e Terra, 1995.
o neoliber alismo se afir mou dur ante os go-

147
Sua m aj est ade, a f ábr ica tes enr iqueciam, vendendo lã para as manufaturas
Foram várias as razões pelas quais a Revolu- de tecidos, os camponeses empobrecidos se tr ans-
ção In dust r ial ocorreu primeiro na Inglater r a. En - feriam para as cidades, ou passavam a trabalhar
tre elas, destaca-se o desenvolvimento do comér- como assalariados para os donos de ter r a.
cio externo no período anterior, favorecido pelas Os que ficavam no campo vendiam sua força de
práticas mer cantilistas. Com base numa poderosa trabalho aos proprietários de terra e deixavam de
mar inha mercante, a Inglater r a praticamente do- trabalhar nas manufaturas domésticas, a serviço de
minou os mares. comerciantes-empresários. Como resultado disso, as
Assim protegidas, as companhias de comércio formas de produção baseadas na manufatura entr a-
inglesas puderam dedicar-se livr emente à compra ram em crise. Seu lugar na economia seria rapida-
de produtos agrícolas e matérias-primas nas coló- mente ocupado pelas fábricas. Era nas fábricas que
nias, ao tr áfico de escravos e à venda de produ- iam trabalhar os camponeses empobrecidos que se
tos ingleses em diversos mercados do mundo. Esse transferiam do campo para as cidades.
enriquecimento foi ampliado e intensificado com Esse processo - conhecido como "acumulação
o ouro do Br asil, com o qual os portugueses paga- pr imitiva de capital" - impulsionou a busca de
vam suas crescentes importações da Inglater r a. novas técnicas de pr odução. Nas fábr icas, r acio-
Ao lado disso, ocorreu nos campos ingleses nalmente organizadas para aumentar, melhorar
uma importante mudança. Entre os séculos XVI e acelerar a pr odução, concentravam-se grandes
e XVIII, ter r as antes utilizadas pelos camponeses contingentes de operários, utilizando equipamen-
foram cercadas e transformadas em pastagens para tos fornecidos pelo empregador, que visava a uma
ovelhas pelos grandes proprietários. Enquanto es- produtividade cada vez maior.

148
CAPÍTULO 8 Sociedades contempor âneas

Da Inglater r a, a Revolução Industr ial se d i- dos mercados consumidores e onde os trabalhadores


fundiu pela Europa e, mais tarde, pelo resto do eram contratados com mais facilidade. Eram edifí-
mundo, com toda a sua modernidade expressa nas cios enormes, fechados, com chaminés, janelas altas
grandes invenções - energia a vapor, novas má- e estreitas, apitos e grande número de operários.
quinas de fiar e de descaroçar algodão, etc. - e em Por dentro, o espaço das fábricas constituía
novas relações de pr odução. Essas relações eram um ambiente insalubr e, sem luz e ventilação sufi-
agora, definitivamente, relações capitalistas de cientes, muito semelhante a uma pr isão. A classe
produção. trabalhadora era formada por homens, mulheres e
crianças recrutados entre os camponeses expulsos
A classe t r abalhador a das aldeias, soldados desempregados, artesãos em-
Desde o início da Revolução In dust r ial, a i n - pobrecidos e indigentes.
dústria não parou de progredir. Já as condições de Mulheres e crianças recebiam salários mais
vida dos que trabalhavam nas fábricas eram alar - baixos do que o dos homens. As crianças ficavam
mantes. Antes do aperfeiçoamento da máquina a confinadas nas fábr icas, isoladas da sociedade e
vapor por James Watt, em 1773, as fábricas fica- sob t ot al controle dos patr ões. Frequentemente
vam em zonas r ur ais, jun t o às margens dos r ios, sofriam maus-tratos, castigos e espancamentos.
aproveitando sua energia hidr áulica. Nesses locais, Os operários adultos também levavam uma
instalavam-se oficinas, casas e hospedarias. vida duríssima, trabalhando de doze a dezesseis
Com a máquina a vapor, as fábricas deixaram horas por dia, sem fér ias, feriados ou mesmo des-
de depender da energia hidráulica e foram trans- canso semanal remunerado. Recebendo salários de
feridas para a periferia das cidades, mais próximas fome, os trabalhadores ingleses viviam em bair -

A greve de Creusot, t el a de
Ju l es Ad l er ( 1 8 6 5 - 1 9 5 2 )
r ep r esen t an d o m ov i m en t o
gr ev i st a dos m et al ú r g i cos de
Cr eu sot , na Fr an ça, em 1 8 9 9 .

149
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

ros ou cidades industr iais, amontoados em cor ti- torno de associações de classe (as trade unions,
ços, sem água nem esgoto. Eram vítimas fáceis de ou sindicatos) para lutar por seus dir eitos. Pouco
doenças como tuberculose, infecções int est inais, a pouco, essas associações conquistaram o dir ei-
raquitismo e outros males. to de greve, a limitação do trabalho feminino, a
Diante dessas condições de vida e de tr aba- extinção do trabalho in fan t il e a jor nada de oito
lho, os trabalhadores começaram a se agrupar em horas de tr abalho.

O S P R I M E I R O S S O CI A L I S T A S

N o século XI X, enquanto os capitalistas


ficavam cada vez mais r icos, os tr aba-
lhador es viviam em con d içõe s miser áveis.
Proudhon ( 1 8 0 9 -1 8 6 5 ) e o inglês Robert
Ow e n ( 1 7 7 1 -1 8 5 8 ) .
De um modo geral, esses socialistas pre-
Essa situação levou muitos pensador es, ou gavam a justiça social por meio da razão, da
mesmo simples oper ár ios, a for mular cr ít i- boa vontade e do convencimento. Acreditavam
cas ao capitalismo e a apr esentar pr opostas que, do ponto de vista racional, nada melhor
de tr ansfor mação da sociedade. Tais ideias do que uma sociedade igualitária e fraterna.
acabar am const it uindo uma cor r ente de Alguns deles tentaram criar comunidades-mo-
pensamento que ter ia papel fundamental delo (Fourier) e formas de associação de produ-
nas lutas polít icas a par tir de en t ão: o so- tores ( Ow en ) . Tais iniciativas não deram certo,
cialism o. mas as críticas e lutas sociais desses pensadores,
Os primeiros teór icos socialistas de- reforçadas pelas greves operárias, foram impor-
senvolveram suas ideias entre a Revolução tantes para a melhoria das condições de vida
Francesa de 1789 e os movimentos sociais de dos trabalhadores.
1848 e 1 8 7 1 , ano da Com una de Paris, quan- Esses primeiros reformadores sociais fi-
do os operários parisienses chegaram a tomar caram conhecidos como "socialistas utópicos",
o poder e a or ganizar um governo socialista nome atribuído a eles pelos alemães Kar l Mar x
que durou pouco mais de dois meses. ( 1 8 1 8 -1 8 8 3 ) e Friedrich Engels ( 1 8 2 0 -1 8 9 5 ) ,
Os pr incipais socialistas dessa fase fo- que se propuseram a desenvolver as bases do
ram os franceses Saint-Simon ( 1 7 6 0 -1 8 2 5 ) , que chamavam de "socialismo científico" (veja
Char les Fourier ( 1 7 7 2 -1 8 3 4 ) , Pierre-Joseph o boxe da página seguinte).

Um novo modo de produção?

A crítica mais contundente e completa do modo avanço da tecnologia e das formas de organização
de produção capitalista foi feita por Kar l Marx, par- do trabalho entraria em choque com as relações de
ticularmente em sua obra magna, 0 capital (veja o produção capitalistas, t a l como ocorrera sob o feu-
boxe a seguir). Marx t inha em alta conta os feitos dalismo. Nesse momento, pensava ele, ocorreria uma
económicos e culturais da burguesia e acreditava revolução nos países capitalistas mais desenvolvidos
que o capitalismo t inha ainda muito fôlego para que colocaria o proletariado, ou classe operária, no
estimular o desenvolvimento das forças pr oduti- poder. A partir de então, o capitalismo seria substi-
vas. Mas considerava que, em algum momento, esse tuído pelo socialismo, um novo modo de produção.

150
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

MAR X E A CR I T I CA AO CAP I T AL I S M O

E m seu livro O capital, Mar x procurou mostrar


as contradições internas do capitalismo e a
inevitabilidade de sua substituição pelo socialis-
lho, consumindo-o. No capitalismo, a clas-
se dominante apropria-se da mais-valia (ou
lucr o), mas não a consome totalmente. Boa
mo. Segundo ele, o valor de um bem é determi- parte dela é investida e reinvestida na produ-
nado pela quantidade de trabalho socialmente ção. A esse investimento permanente se dá o
necessário para sua produção. Assim, o lucro nome de acumulação de capital.
não se realiza no momento da troca de merca- Por capital, entende-se o dinheiro, a mer-
dorias, mas sim na produção dessas mercado- cadoria ou os meios de produção - ou uma
rias. Isso acontece porque os trabalhadores não combinação dos três - aplicados de tal forma
recebem o valor correspondente a seu trabalho, que levem os trabalhadores assalariados a pro-
mas só o necessário para sua sobrevivência. duzir mercadorias e mais-valia. Ou seja, não é
O valor da força de trabalho de um assala- todo tipo de dinheiro que funciona como capi-
riado, como de toda mercadoria, é estabelecido tal. Só é capital aquele dinheiro (ou meios de
pelo tempo de trabalho necessário para produ- produção) empregado de tal modo que produ-
zir os bens destinados a garantir a sobrevivência za mais-valia por meio do trabalho assalariado.
do trabalhador. Isso se expressa em alimentos, Ainda segundo Mar x, o capitalismo, d i-
moradia, tempo para descansar, etc. O valor de ferentemente dos modos de pr odução ante-
todos esses bens consumidos pelo operário dia- r ior es, não funciona para que as coisas fiquem
riamente é o valor de sua força de trabalho. sempre do mesmo jeit o. Por sua própria natu-
Suponhamos que um operário trabalhe r eza, ele precisa crescer, acumular e r einvestir
oito horas por dia na produção de sapatos. Para parte da mais-valia na pr odução, aumentando
repor sua força de trabalho, ele precisa alimen- sempre o lucro e a produtividade. Ou seja, as
tar-se e descansar. Suponhamos ainda que o va- forças produtivas devem estar em permanen-
lor dos bens consumidos por ele para repor suas te desenvolvimento.
energias em um dia seja igual ao valor produzi-
do por ele em seis horas de trabalho na produ-
ção de sapatos. Para garantir sua sobrevivência,
portanto, bastaria a ele trabalhar seis horas por
dia, mas ele trabalha mais duas horas na fábrica
do patrão. Essas duas horas a mais representam
o que Mar x chamava de sobretrabalho (ou tra-
balho excedente), e é delas que sai o lucro do
patrão na forma inicial de mais-valia.
Desse modo, na análise de Mar x, a mais-
valia consiste na diferença entre o valor (expres-
so em horas de trabalho) incorporado a um bem
e o pagamento do trabalho necessário para sua
reposição (o salário). A essência do capitalismo
seria a apropriação privada (isto é, pelo capita-
lista) dessa mais-valia, que dá origem ao lucro.
No escravismo e no feudalismo, a classe Capa de f ol h et o com em or at ivo da Com una de Paris
dominante se apropriava do fruto do traba- ( 1 8 7 1 ) com os r et r at os de Marx ( à esquer da) e Engels.

151
CAPÍTULO 8 Sociedades contempor âneas

Car act er íst icas do soci al i sm o Nem t udo ocorreu com o Marx esperava
Enquanto o capitalismo baseia-se na proprie- Em 1917, eclodiu na Rússia uma revolução de
dade privada dos meios de pr odução, o fundamen- proporções tão amplas quanto a Revolução Fr an-
to da sociedade socialista é a propriedade social cesa de 1789. Como n a França do século XVIII, a
(coletiva) dos meios de produção. Rússia anterior à revolução vivia sob um governo
No socialismo não existem empresas privadas absolutista. Nas grandes cidades - como São Peters-
(ou estas representam apenas uma pequena par- burgo, Odessa e Moscou - , já havia certo desenvol-
cela no total de empresas), já que os meios de vimento industr ial, mas a base da economia estava
produção são públicos ou coletivos. Em teor ia, o na agr icultur a. Dessa forma, a maioria esmagadora
objetivo da sociedade socialista ser ia a satisfação da população vivia no campo.
completa das necessidades materiais e cultur ais As desigualdades sociais eram enormes. Os
da sociedade: emprego, habitação, educação, saú- grandes proprietários de ter r a ficavam com a
de, cult ur a, lazer , et c. maior parte da r enda. Enquanto isso, no campo
Para isso, a economia deveria ser planificada, e n a cidade, os trabalhadores eram extremamente
visando a atender às necessidades básicas da po- explorados e viviam em meio à fome e à miséria.
pulação, e não ao lucro das empresas. Nesse contexto, ideias revolucionárias que
Em uma etapa posterior, à qual Marx e Engels pregavam a transformação da sociedade russa se
davam o nome de comunismo, as classes desapare- propagavam por todo o país, cuja precária sit ua-
ceriam e a riqueza produzida pela sociedade seria ção económica ficar ia ainda mais evidente dur an-
distribuída segundo o princípio: "de cada um segun- te a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
do sua capacidade, a cada um segundo suas necessi-
dades". Nesse momento, as classes desapareceriam e Os bolcheviques chegam ao poder
o próprio Estado perderia sua razão de ser, já que as Assim, em outubro de 1917, o Partido Bolche-
fronteiras entre os países se extinguiriam, não have- vique (facção mais r adical do Partido Social Demo-
ria guerras e tampouco necessidade de repressão in - cr at a), que defendia uma revolução proletária e
ter na, como em uma sociedade dividida em classes. camponesa que fizesse a imediata transição para o

M i l i ci an o s da Guar da Ver m el h a se pr epar am


para o assal t o f i n a l ao p al áci o de I n v er n o,
em Pet r ogr ado, em ou t u b r o de 1 9 1 7 .
Cr iada por Tr ot sk i , a Guar da Ver m el h a t ev e
p ap el d eci si v o na Revolu ção Ru ssa.

«c era

152
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

socialismo, colocou-se à fr ente de um movimen- partido e dos sovietes (conselhos), e a de Josef


to r evolucionár io e tomou o poder. Seus líderes St alin , que propunha a construção do "socialismo
eram Vladimir Ilit ch Ulianov, conhecido como num só país".
Le n in , e Lev Davidovitch Br on st ein , conhecido Refletindo o peso do atraso russo e da buro-
como Leon Tr ot ski. cracia herdada do czarismo, Stalin venceu a dis-
Com a conquista do poder pelos bolcheviques, puta. Em 1929, Trotski foi expulso da União Sovié-
teve início a exper iência de construção do modo tica e acabou assassinado no México por um agente
socialista de pr odução. Em 1922, a Rússia passou stalinista em 1940. A partir de então, Stalin passou
a se chamar União das Repúblicas Socialistas So- a concentrar poderes cada vez maiores e a reprimir
viéticas (URSS). aqueles que discordavam dele.
Desde o início, a experiência socialista foi pro- Durante as décadas de 1930 e 1940, todos
blemática. A Rússia dos czares era atrasada demais os antigos líderes do Partido Bolchevique foram
para se tornar o primeiro país socialista da Histó- executados em processos sumários. Paralelamen-
ria. Marx acreditava que o socialismo era inevitá- t e, era ext int a a democracia in t er n a dos sovietes.
ve l, devido às contradições do próprio capitalismo. Constituiu-se então um Estado policial-bur ocr áti-
Mas afirmava ao mesmo tempo que uma sociedade co, totalitár io, que estava longe dos ideais socia-
precisa esgotar todas as suas possibilidades histó- listas de Marx e Engels, Lenin e Tr otski.
ricas de desenvolvimento para se transformar em
um modo de produção mais avançado. Ou seja, o
capitalismo precisaria estar muito maduro para ser
superado, e isso só poderia ocorrer nos países capi-
talistas mais desenvolvidos.
Ora, na Rússia de 1917 a economia era do-
minada pela agr icultur a. Nas cidades, o desenvol-
vimento das forças produtivas capitalistas ainda
estava em seus começos. 0 proletariado industr ial
era uma pequena minor ia na sociedade. No campo,
as relações de produção ainda sofriam a influência
da servidão típica do feudalismo, que fora abolida
em 1 8 6 1 , mas que marcara profundamente os vín -
culos entre camponeses e grandes proprietários de
t er r a. Ao mesmo tempo, a forma de governo era a
monarquia absolutista.
Dessa for ma, nada fazia prever que a primeira
revolução socialista ocorreria justamente na Rús-
sia, um país cuja economia ainda não era t ot al-
mente capitalista. Sob o stalinismo, milhões de camponeses mor-
reram no processo de coletivização forçada das
A ascensão de Stalin ter r as. Milhares de dissidentes políticos foram fu zi-
Com a morte de Len in , em 1924, a direção lados ou enviados a campos de concentr ação.
política do Partido Comunista, como passou a se A construção do "socialismo num só país" tam-
chamar o Partido Bolchevique a par tir de 1919, e bém deu as costas aos movimentos revolucionários
do Estado soviético foi disputada por duas cor- de outros países. Criou-se uma potência altamente
rentes opostas: a de Leon Tr otski, que defendia militar izada. 0 resultado desse processo ficou co-
a propagação da revolução para os países indus- nhecido como socialismo realmente existente, em
tr ializados, bem como maior democracia dentro do contraposição ao socialismo previsto por Marx.

153
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

O fim da Un ião So vié tica De fato, sob a pressão de grandes movimentos


Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), populares, o regime político dos países socialistas do
todo o Leste europeu se tornou socialista também, Leste europeu entrou em colapso e foi substituído por
seguindo o modelo burocrático de socialismo de formas mais democráticas de poder. Nesse processo
Estado imposto na União Soviética. A única exce- - cujo marco simbólico mais significativo foi a queda
ção foi a Iugoslávia, cujo líder, o marechal Tito, do Muro de Berlim (veja o boxe da página seguinte) - ,
rompeu com Stalin e adotou seu próprio caminho amplas reformas políticas foram implementadas, com
de construção do socialismo. a criação de novos partidos e a realização de eleições
Entre os anos 1980 e 1990, começaram a ocor- diretas para os principais cargos dirigentes.
rer profundas mudanças políticas e económicas no Também a economia passou por profundas mu-
bloco socialista. Na União Soviética, um novo líder danças, com a privatização de empresas públicas, a
- Mikail Gorbatchev - passou a adotar medidas de diminuição do controle do Estado sobre a economia
liberalização da economia e das relações políticas, e a reativação dos mecanismos de mercado. Além
permitindo greves, diminuindo a censura e est i- disso, a propriedade privada foi restabelecida em a l-
mulando pequenos avanços da iniciat iva privada e guns setores, sobretudo na agricultura e no comér-
de uma economia de mercado. Embora ainda tími- cio. Como resultado dessas mudanças, a União Sovié-
das, essas medidas provocaram mudanças cada vez tica deixou de existir em 1991 e todos os países do
mais rápidas nos países do Leste europeu. Leste europeu adotaram a economia de mercado.

154
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

A QUEDA DO MURO DE BERLIM

A p ó s a Segu n d a
.1 9 4 5 ) ,
Gu e r r a M u n d ia l
a Ale m a n h a - d er r ot ad a
(1939-

Alia d o s, gr u p o qu e r eu n ia os Est ad os U n id o s , a
p elos
O principal efeito de i989 égue o capitalismo e
os ricos pararam, por enguanto, de ter medo. Tudo o gue
fez com gue a democracia ocidental valesse a pena para
In glat er r a e ou t ros p aíses d e m o cr á t ico s, m ais a seus povos — a previdência social, o Estado de hem-es-
U n iã o So vié t ica - foi d ivid id a e m duas p art es. tar, uma renda alta e crescente para os trabalhadores, e
Su r gir am d essa d ivisão d ois p aíses: a Ale m a n h a sua conseguência natural, a diminuição da desigualda-
O c id e n t a l, d e m o cr á t ica e cap it alist a, e a Ale - de social e da desigualdade de oportunidades - resultou
m a n h a O r ie n t a l, socialist a. E m 1961, os so vié - do medo. Medo dos pobres e dos trabalhadores, medo
t ico s, cu jas t ropas p er m an eciam est acion ad as de uma alternativa gue existia na realidade e gue podia
n a Ale m a n h a O r ie n t a l, ergu eram en t re o set or realmente se espalhar, na forma do comunismo soviéti-
o cid en t al d e Be r lim - cap it alist a - e o set or co, medo da instabilidade do próprio sistema.
o r ien t al - socialist a - u m m u r o d e vár io s q u iló - Hoje, esse medo — já diminuído pela redução da
m et r os d e e xt e n sã o , c o m o o b jet ivo d e im p e d ir classe trabalhadora industrial, pelo declínio de seus
a fuga d e alem ães or ien t ais p ara a Ale m a n h a movimentos e pela recuperação da autoconfiança em
O c id e n t a l. Co n h e c i d a co m o Muro de Berlim, o u um capitalismo próspero - desapareceu. Por enguanto
Muro da Vergonha, essa co n st r u çã o seria d e m o li- não há nenhuma parte do mundo gue apresente com cre-
da p o r u m a m u lt id ão e m festa e m 1989. A par- dibilidade um sistema alternativo ao capitalismo [...].
t ir de e n t ã o , t eve in ício o d esm o r o n am en t o d os Ainda é cedo para discutir perspectivas futuras.
regim es d e so cialism o b u r o cr á t ico d e Est ad o n o O gue um historiador húngaro denominou "o curto sé-
Lest e eu r op eu e n a U n i ã o So vié t ica . N o t ext o a
culo XX" ( i 9 i 4 - i 9 9 o ) terminou, mas tudo o gue po-
seguir, o h ist o r iad o r in glês de fo r m ação m a r xis-
demos dizer do século XXI é gue terá de enfrentar pelo
ta Er ic H o b s b a w m an alisa algu m as im p lica çõ e s
menos três problemas, gue estão piorando, o crescente
d esse fato p ara o m u n d o co n t e m p o r â n e o .
alargamento da distância entre o mundo rico e o pobre
Qual O significado histórico de i989 [ano em
[e provavelmente dentro do mundo desenvolvido, entre
gue foi demolido o Muro de Berlim]? É mais fácil ver
os seus ricos e seus pobres), a ascensão do racismo e da
esse ano como uma conclusão do gue como um começo.
xenofobia, e a crise ecológica do globo, gue nos afetará
Ele significa o fim da era em gue a história mundial
a todos. As formas de lidar com esses problemas ainda
girou em torno da Revolução Russa de 194 7.
não são claras, mas a privatização e o mercado livre
Por mais de setenta anos, os governos e as classes
não se incluem entre elas.
dirigentes ocidentais foram atemorizados pelo fantasma
Ad a p t a d o d e : H O B S B A W M , E r i c . Ad e u s a t u d o a q u i l o .
da revolução social e do comunismo, eventualmente trans-
I n : B L A C K B U R N , Ro b i n . Depois da (jueda. 2 . e d . R i o d e Ja n e i r o :
formado em medo ao poderio militar da União Soviética. Pa z e Te r r a , 1 9 9 3 , p . 9 3 , 1 0 3 -4 .

A globalização e seus dile mas

A in t er n acion alização do capitalismo atinge pela aber tur a das economias nacionais ao mercado
hoje quase todo o p lan et a: seja pela expansão das in t er n acion al; seja pela ação do cap it al fin an ceir o,
empresas m u lt in acion ais; seja pelo processo de i n - que r ealiza investimentos no mercado de capitais
for m at ização, que coloca milhões de pessoas em de todos os países. Esse novo processo é chamado,
contato por meio de redes de computador es; seja como vimos no cap ít ulo 3 , de globalização.

155
A globalização é marcada pela universalização pela televisão por mais de 2 bilhões de pessoas
da produção, da circulação e da distribuição e con- (ou seja, um terço da humanidade).
sumo de bens e ser viços. Os avanços tecnológicos, principalmente em r e-
Para que o capital possa cir cular livr emente, lação aos transportes e às comunicações, são r esul-
há necessidade de se eliminarem as barreiras co- tado da ação de grandes empresas que financiam
merciais entre os países. Assim, bens e serviços pesquisas. A informatização barateia o custo de
podem ser mundialmente distribuídos a um custo produção nas fábricas. Isso é necessário porque o
relativamente baixo. processo de globalização exige altos níveis de com-
0 processo de globalização, contudo, não ocor- petitividade: é preciso produzir a preços cada vez
re apenas na economia, mas se ver ifica também mais baixos para competir no mercado globalizado.
nas áreas da infor mação, da cultur a e da ciência. Ent r et ant o, o objetivo das empresas de bai-
A produção in dust r ial, antes r estr ita a uns poucos xar seus custos de produção acaba gerando dese-
países, alcança hoje uma escala sem precedentes quilíbr ios nas sociedades. Entr e os mais graves
na Histór ia. Atualmente, empresas transnacionais deles estão: 1) o aumento da distância entr e os
com sede nos países mais ricos organizam a pro- países ricos e os países pobres; 2) o crescimento
dução de t a l forma a aproveitar as condições mais do número de pobres nos países menos desen-
favoráveis para maximizar seus lucr os. Assim, os volvidos; 3) o aumento das desigualdades sociais
ténis de uma marca de grife norte-americana são nos países r icos; 4) o crescente número de de-
fabricados na China, onde os salários são muito sempregados, que pr ovoca, entre outros proble-
baixos, com peças produzidas em outros países. mas, o aumento da exclusão social, da miséria e
Quer ter uma ideia dos efeitos da globaliza- da violência nas grandes cidades. Essas contr a-
ção? Quando o Br asil disputou a partida fin al com dições da globalização são estudadas com cer ta
a Alemanha pela Copa do Mundo de Futebol de profundidade na seção Textos complementares,
2002, no Ja p ã o, o jogo pôde ser acompanhado no fim do cap ít ulo.

—• Li vro s s u ge ri d o s
• CATANI, Afr ân io. 0 que é capitalismo. São Paulo: Abr il Cultur al/ Br asiliense, 1984. Coleção Primeiros Passos.
• SP1NDEL, Ar naldo. 0 que é comunismo. 7. ed. São Paulo: Br asiliense, 1 9 8 1 . Coleção Primeiros Passos.
• BRENER, Jayme. A Revolução Russa. São Paulo: Át ica , 1995.
• BLACKBURN, Robin ( or g.) . Depois da queda. 2. ed . Rio de Jan eir o: Paz e Ter r a, 1993.
• SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 1 3 . ed. Rio de Jan eir o: Recor d, 2006.

156
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

—• Fi lm e s s u ge ri d o s
• Tempos modernos, de Charles Chaplin, 1936. Em tom de sátir a, Chaplin exibe de forma cr ítica as condições de vida
e de tr abalho sob o capitalismo in d u st r ial.
• A classe operária vai ao paraíso, de Elio Petr i, 1 9 7 1 . Operário italiano sofre acidente de tr abalho e toma
consciência da exploração a que é submetido.
• Reds, de Warren Beat t y, 1 9 8 1 . Partidário do comunismo, o jor n alist a norte-americano Joh n Reed presencia a
revolução de 1917, na Rússia.
• Stalin, de Ivan Passer, 1992. A tr ajetór ia de St alin de 1917 a 1953, sua crueldade e o ter r or imposto por ele na
União Soviét ica.
• 0 círculo do poder, de Andr ei Konchalovsky, 1 9 9 1 . 0 terror na União Soviética visto pelos olhos de um
pr ojecionista obrigado a exibir filmes para St a lin .
• A confissão, de Costa-Gavras, 1970. Após a derrota do levante popular de 1956 na Hungr ia, dissidentes do regime
são presos e tor tur ados.
• Adeus, Lenin, de Wolfgang Becker, 2003. Em 1989, na Alemanha Or iental, jovem esconde da mãe as mudanças
ocorridas no país.
• 0 corte, de Costa-Gavras, 2005. Executivo desempregado começa a matar possíveis concorrentes em uma disputa
por altos cargos em empresa eur opeia.
• A comédia do poder, de Claude Chabrol, 2006. Ju íza é encarregada de julgar caso de corrupção envolvendo
presidente de empresa est at al na Fr ança.
• A corporação, de Mark Achbar e Jen n ifer Abbott, 2003. Documentár io sobre as grandes corporações no mundo
contempor âneo.
• A fraude, de James Dearden, 1999. Bancár io inglês passa a especular na Bolsa de Bangcoc (Tailândia) e provoca
crise fin an ceir a. Baseado em fatos r eais.

Tr ab al h an d o co m f i l m es
Sob a orientação do professor, reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes
indicados na lista de sugestões. Terminada a sessão, façam um debate em torno do que viram e escre-
vam um texto coletivo com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entr e o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?
• Há r efer ências, no filme, à noção de capitalismo? Quais são elas e onde aparecem no filme?
• Há referências ao socialismo? Sob que formas elas se manifestam no filme?

• Há r efer ências a questões relacionadas com a globalização? Quais são elas e onde aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as

1. 0 que é mercantilismo?
2. Qual o papel do lucro na sociedade capitalista?
3. 0 que você entende por mais-valia?
4. Enumere as pr incipais diferenças entre o feudalismo e o capitalismo.
5 . Qual a classe social vitor iosa no capitalismo?
6 . 0 que significa socialismo?
7. 0 que é globalização?

157
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

• fut uro do t rabalho


O trabalho remunerado, atividade essencial ao engajamento económico e social do ser humano na
sociedade, está em crise. O capitalismo global contemporâneo trocou lealdade por produtividade imediata e
acabou com a época dos relógios de ouro como prémio por longo tempo de dedicação. Ninguém mais tem emprego
de longo prazo garantido na sua atual empresa. As próprias capacidades individuais, adguiridas por estudo ou
experiência, ficam sucateadas a cada oito ou dez anos. O emprego será cada vez mais voltado para tarefas ou
projetos de duração definida.

É u m a m u d a n ça r a d ica l em r e la çã o ao c o m o co n t r a t o s de t rês o u seis m eses, fre-


fim d os an os 1960, q u an d o os in d ivíd u o s q u en t em en t e r en o vad o s. A co n se q u ê n cia já
er am en r a iz a d o s em sólid as r ealid ad es in st i- se faz sen t ir. O t r ab alh o t e m p o r á r io é o set or
t u cio n a is n as suas c o r p o r a ç õ e s , qu e, p o r sua d e m ais r á p id o cr e scim e n t o da força de t r ab a-
ve z , n avegavam em m er cad o s r ela t iva m en t e lh o n os Est ad o s U n i d o s e n a Gr ã - Br e t a n h a . E
firm es. N a é p o c a d ou r ad a d o ca p it a lism o d o já r ep r esen t a 2 5 % d a m ã o - d e - o b r a em p r ega-
p ó s-gu e r r a [an os 1950 e 1960], q u an d o m at é- da n os Est ad o s U n i d o s . [...]
r ias-p r im as e n t r a va m p or u m a p o n t a e au t o- A d esigu ald ad e n o in t e r io r das e m p r e -
m ó ve is saíam p r o n t o s p o r o u t r a , vigo r a va cer- sas aum enta,- as r e m u n e r a çõ e s são m u it o alt as
t a "ét ica so cia l" qu e d o m a va a lu t a de classes p ara os e xe cu t ivo s b em -su ced id o s e m u it o
e gar an t ia - m ais n a Eu r o p a , m as t a m b é m n os b aixas p ara os t r ab alh ad o r es.
Est ad o s U n i d o s - b e n e fício s co m o e d u ca çã o , O m e lh o r e xe m p lo é o W a l - M a r t , a
saú d e e p e n sõ e s p o r ap osen t ad or ia, co n sid e - m a io r em p r esa em fat u r am en t o d o m u n d o ,
rad os e n t ã o d ir eit o s u n iver sais. que u t iliz a alt a t e cn o lo gia e paga p r ó xim o da
A p a r t ir d os an os 1980, co m a glo b a- lin h a de p o b r e z a ao gr osso de seus fu n cion á-
liz a çã o d os m er cad o s, as c o r p o r a ç õ e s e seus r ios. Co m p a r e - se co m os em p r ego s est áveis e
in vest id o r es ficar am m ais p r eocu p ad os c o m co m b oa r e m u n e r a çã o que a gr an d e in d ú st ria
os lu cr o s a cu r t o p r a z o e os em p r egos co m e - n o r t e -a m e r ica n a d o p ó s-gu e r r a ( Fo r d , G M ,
çar am a cr u z a r r ap id am en t e as fr on t eir as. E, G E e ou t r as) ger ava, o que p o ssib ilit o u a es-
c o m os a va n ço s d a t e cn o lo gia d e in fo r m a çã o , t r u t u r ação da sólid a classe m é d ia d o p aís.
t or n ou -se m ais b ar at o in ve st ir em m áq u in as H o j e t u d o m u d o u . O d ia de t r a b a lh o se
d o que p agar as p essoas p ara t r a b a lh a r e m . p r o lo n ga p elos p e r ío d o s de d escan so, a p res-
Ric h a r d Sen n et t , da Lo n d o n Sc h o o l of são t or n a-se m ais d ep r essiva qu e est im u lan t e.
Ec o n o m ic s , e n t r e vist o u n aq u ela é p o c a t r ab a- Em suas pesqu isas de ca m p o , Se n n e t t co n s-
lh ad o r es da classe m éd ia qu e se e n co n t r a va m t at ou que n essa sit u a çã o , em que a leald ad e
n o e p ice n t r o das in d ú st rias de alt a t e cn o lo - à in st it u ição n ã o p od e ser co n st r u íd a , se ger a
gia, d os se r viço s fin an ceir o s e d os m e io s de m a io r p r o p e n sã o ao a lco o lism o , ao d ivó r cio e
c o m u n ic a ç ã o . Gr a n d e n ú m e r o d eles co n sid e - aos p r o b lem as de saú d e. N o n ível m ais b a ixo
r a va que su a vid a est ava agora em r isco per- d os em p r egos flexíveis im p e r a m os ch a m a d o s
m an en t e. A t e n d ê n cia er a aceit ar essas m u - Mc- e m p r e go s - frit ar h a m b ú r gu e r e s o u at en -
d a n ça s est r u t u r ais co m r e sign a çã o , co m o se d er em lojas - o u os p ost os de at en d en t es d e
t ivessem car át er in e vit á ve l, n o que acer t ar am t e le m a r k e t in g.
em ch e io . Essas o cu p a çõ e s p o d em p ar ecer u m fa-
O n ovo cap it al é im p acien t e [...]. Sen n et t t or p o sit ivo d e acesso p ara jo ve n s sem h a b i-
vê a t e n d ê n cia p ara o fu t u ro dos em p r ego s lit a çã o . Ma s lo go se t r an sfo r m am n u m b e co

158
CAPÍTULO 8 Sociedades contemporâneas

sem saíd a. N a ver d ad e, m u it os em p regos b r a- im ed iat as. As pessoas p er t en cen t es às classes


çais n a área de ser viços d eixar am de ser at raen - m éd ia e alt a ain d a p o d em dar-se ao lu xo de
tes para os jo ve n s e essas tarefas são execu t ad as co r r e r esses r iscos e vive r essas t en sõ es à es-
p or absolu t a falta de alt er n at iva. N o s p aíses p era d e u m a b oa o p o r t u n id ad e. M a s os jo ve n s
d esen volvid os, em geral são en t regu es a im i- d e classe b a ixa são m u it o m ais d ep en d en t es
gran t es, qu e d ã o m aior valo r ao d in h eir o m o - das r e la çõ e s est áveis p o r t er em u m a red e d e
m e n t â n e o d o qu e à est ab ilid ad e e à qu alid ad e p r o t e çã o frágil e p ou cos co n t at o s e c o n e xõ e s
d o t r ab alh o. im p o r t an t es.
Se n n e t t co n st a t o u qu e a m a io r a sp ir a çã o C o m o se vê , o p u jan t e e ve n ce d o r ca -
d os t r ab alh ad or es t e m p o r á r io s é qu e algu ém p it a lism o glob al t em seu calcan h ar -d e-aq u iles
os q u eir a e m car át er p er m an en t e. [...] A ger a- n a m á q u alid ad e e n a p o u ca q u an t id ad e d os
ç ã o a n t er io r p en sava em t er m os d e gan h os es- em p r egos qu e gera.
t r a t é gico s d e lon go p r a z o , ao passo qu e p ara
D U P A S , Gi l b e r t o . O fu t u r o d o t r a b a l h o ( I ) .
a at u al sob r am apen as p equ en as r e a liz a çõ e s O Estado de S. Paulo, 20. 10. 07.

-• Pe n s e e re s p o n d a

1. Que mudança r adical em relação aos anos 1960 está ocorrendo hoje no mundo do
tr abalho?

2. Por que os trabalhadores dos anos 1980 entr evistados na época por Richar d Sennett
consideravam que sua vid a estava em r isco permanente?

3. Qual é hoje, segundo o t ext o, o setor de mais rápido crescimento da força de trabalho nos
Estados Unidos e n a Gr ã-Br etanha? Isso é bom ou r uim para os trabalhadores? Por quê?

4. Segundo o t ext o, qual é a pr incipal contr adição do processo de globalização?


ts tratiTicação e
o bilidade s o cial
A sociedade em que vivemos é marcada por contradições
e desigualdades. Nas grandes cidades, por exemplo, ao lado
de mansões luxuosas encontramos favelas e pessoas morando
embaixo de viadutos. Vivemos, portanto, em uma sociedade
profundamente desigual.
Se quisermos fazer uma descrição desse tipo de socieda-
de, podemos trabalhar com o conceito de e st r a t ifica çã o s ocia l.
Mas se nosso objetivo for analisar historicamente os conflitos
entre os diversos grupos que a compõem, devemos recorrer ao
conceito de classes sociais.
Seja qual for o método escolhido, é preciso levar em con-
ta que alguns indivíduos ou mesmo grupos de pessoas podem
mudar de posição social. Para estudar esses casos utilizamos o
conceito de mobilidade s o cia l.
Estratificação, classes e mobilidade social. Neste capítulo
estudaremos esses e outros conceitos relacionados com a es-
trutura social.
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

IMAGEM e SOCIEDADE

Obser ve e r esp on d a:

1 . Quem são os personagens representados na tela? Eles pertencem todos ao mesmo grupo
social?

2. Quem são as mulheres representadas à esquerda? 0 que elas podem estar fazendo?

3 . E os personagens masculinos? Quem são eles e por que estão representados em tamanho
menor do que as duas mulheres da dir eita?

4. Que relação exist ir ia entre os diversos personagens representados no afresco?

161
CAPÍTULO 9 Estr atificação e mobilidade social

Camadas sociais

A expressão estratificação deriva de estrato, que estão na base infer ior da sociedade por disporem
quer dizer camada. Por estratificação social entende- unicamente de sua força de tr abalho, e não de
mos a distribuição de pessoas e grupos em camadas capital ou meios de pr odução.
hierarquicamente superpostas dentro de uma socie- Entr etanto, dentro dessa mesma sociedade os
dade. Essa distribuição se dá pela posição social dos indivíduos podem desempenhar outros papéis e
indivíduos, das atividades que eles exercem e dos alcançar novas posições sociais, relacionadas com
papéis que desempenham na estrutura social. a religião que pr aticam, o partido político em que
Assim, podemos dizer que, em certas socieda- milit am, as funções sociais que desempenham, a
des, as pessoas a elas pertencentes estão distr ibuí- profissão que exercem e outras atividades.
das entre as camadas alta (classe A) , média (clas- Esses diferentes papéis estão interligados. En -
se B) ou infer ior (classe C) , que correspondem a tr etanto, para efeitos didáticos, vamos começar por
graus diferentes de poder, riqueza e pr estígio. separá-los e classificá-los.
Na sociedade capitalista contemporânea, as po-
sições sociais são determinadas basicamente pela Tipo s de e s tratificação
situação dos indivíduos no desempenho de suas Estratificação económica. Definida pela pos-
atividades produtivas. Dessa for ma, os grandes se de bens materiais, cuja distribuição pouco equi-
empresários, donos de ter r as, banqueiros e gr an- tativa faz com que haja pessoas ricas, pobres e em
des comerciantes estão no topo da sociedade, por situação intermediária.
disporem de uma grande quantidade de capital Estratificação politica. Estabelecida pela posi-
ou de meios de pr odução. Eles compõem o grupo ção de mando n a sociedade (grupos que têm po-
popularmente conhecido como "os ricos", ou "a der e grupos que não t êm ) . Geralmente, as pessoas
classe r ica". Em contr apar tida, os trabalhadores mais ricas detêm também mais poder.

As p osi ções de m ando


e de o b ed i ên ci a
en t r e gov er n an t es
e gov er n ados f azem
par t e d a est r at i f i cação
p o l ít i ca. Na f o t o ,
W el l i n g t o n Dias,
gov er n ador do Pi au í,
di scu r sa em Br asíl i a, em
1 3 .1 1 .0 7 .
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

Estratificação pro fis s io nal. Baseada nos d i- representados os indivíduos de baixa r enda, o gr u-
ferentes graus de impor tância atribuídos a cada po ou camada C. No topo, no estrato mais estr ei-
profissional pela sociedade. Por exemplo, em nos- t o, estão representadas as pessoas de maior r enda,
sa sociedade a profissão de médico é muito mais que pertencem ao grupo A. Na camada inter medi-
valorizada do que a de pedreiro. ária estão incluídas as de renda média, que per-
Como já vimos, os aspectos económico, po- tencem ao grupo B.
lít ico, social e cultur al de uma sociedade estão
inter ligados, bem como os vários tipos de est r at i- Pessoas de
ficação. No entanto, ao longo da Histór ia, o aspec- renda alta
to económico tem sido mais determinante do que
os outros no processo de estratificação social e n a
caracterização da sociedade. Pessoas de
renda média

A e s tratificação e co n ó m ica
Para tor nar mais clara a estratificação econó-
mica numa sociedade vamos recorrer a duas simu- Pessoas de
renda baixa
lações.
1 . Reunimos as pessoas em grupos conforme seu
nível de r enda. A pirâmide da ilustração mostra graficamente
2. Dividimos os grupos em camadas hier ar quiza- a estr atificação social de uma sociedade, ou seja,
das, isto é, uma superior, uma intermediária e como ela está dividida em estratos ou camadas
uma infer ior . sociais.
Obtemos assim o quadro geral de uma est r at i- Dependendo do tipo de sociedade, esses es-
ficação económica baseada em faixas de r enda. tratos ou camadas podem ser organizados em:
• Grupo ou camada A - pessoas de renda alt a. • castas (como ocorre na ín d ia) ;
• Grupo ou camada B - pessoas de renda média. • estamentos ou estados (Europa durante o feu-
• Grupo ou camada C - pessoas de renda baixa. dalismo);
Na figura a seguir, temos uma pirâmide social • classes sociais (sociedades capit alist as).
dividida em estratos, segundo o critério "nível de Cada uma dessas formas de estr atificação tem
renda". Na camada de baixo, a mais ampla, estão características próprias, como veremos a seguir.

Sociedades e stratificadas

Vamos estudar agora as pr incipais caracterís- elevada. Esse fenómeno é conhecido como mobili-
ticas dos três tipos mencionados de sociedades dade social (veja na página 1 7 1 ) .
estr atificadas, ou seja, aquelas organizadas em Em contr apar tida, existem sociedades em
castas, em estamentos ou em classes sociais. que, mesmo usando toda a sua capacidade e em-
pregando todos os esforços a seu alcance, a pes-
0 s i s te m a de cas tas soa não consegue chegar a uma posição social
Existem sociedades em que os indivíduos nas- mais elevada. Nesses casos, a posição social lhe
cem numa camada social mais baixa e podem a l- é atr ibuída por ocasião do nascimento, indepen-
cançar, com o decorrer do tempo e como resultado dentemente de sua vontade. Assim , ela car r ega-
de seu talento, de seus esforços, de seu mér ito, ou rá consigo, pelo resto da vid a , esse status social
por outr a razão qualquer, uma posição social mais herdado de seus ancestr ais.

163
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

A sociedade indiana foi estr atificada dessa brâmanes


maneira há milhares de anos. Ainda hoje, grande
parte de sua população está distribuída em um xá t r ia s
sistema rígido e fechado de estr atificação social,
que não oferece possibilidades de mobilidade so-
va ixa s
cial. É o sistema de castas.
Enquanto nas sociedades ocidentais pessoas sudr as
de níveis sociais diferentes podem se casar - o que
não raro possibilita a ascensão social de um dos panas
cônjuges - , em certas regiões da índia o casamen-
to só é permitido entre pessoas da mesma casta. No topo da pirâmide estão os brâmanes, que são
As castas são grupos sociais fechados, cujos os sacerdotes da religião hinduísta e os mestres da
integrantes devem se comportar de acordo com erudição sacra. Segundo sua crença, a eles compete
normas preestabelecidas de origem religiosa. Um preservar a ordem social, estabelecida por or ienta-
indivíduo nascido em determinada casta deve per- ção divina (veja o boxe da próxima página).
manecer nela por toda a vida. Sua posição social é Abaixo dos brâmanes estão os xátrias (ou ksha-
definida ao nascer. Além de direitos e deveres espe- triyas), guerreiros que formam a aristocracia militar.
cíficos, as pessoas de castas consideradas inferiores A ter ceir a grande casta - a dos vaixás (ou
não podem ascender socialmente mediante quali- vaishyas) - é formada pelos comerciantes, ar te-
dades pessoais, mérito ou realizações profissionais. sãos e camponeses.
Pode-se esquematizar a estratificação social Os sudras, por sua vez, formam a base da pirâ-
indiana por meio da seguinte pirâmide, que apre- mide. Eles executam os trabalhos manuais e diver -
senta apenas as castas pr incipais, já que existem sas tarefas ser vis. São uma casta depreciada, tendo
hoje na índia mais de 2 mil castas: o dever de servir as três castas "superiores".

164
Existe ainda um grupo social considerado fora
do sistema de castas. Ele é formado pelos párias.
Também chamados de intocáveis, os párias são
desprovidos de direitos e não têm profissão defini-
da. São eles que executam as tarefas consideradas
"sujas", como coletar o lixo, limpar fossas e lavar
cadáveres. Totalmente desprezados pelas demais
castas, vivem da caridade alheia.
Pi n t u r a do
Os párias não podem banhar-se nas águas sa- sécu l o XVI I I
gradas do rio Ganges (o que é permitido às outras r ep r esen t an
castas), nem ler os Vedas, que são os livr os sagra- o deu s Puru
de cu j o cor p
dos dos hindus. seg u n d o o
Oficialmente, o sistema de castas foi abolido h i n d u ísm o ,
su r ai d o as c
em 1950, com a promulgação da Constituição da
os b r âm an es, da
ín d ia. Apesar disso, basta percorrer o país para cab eça; os x át r i as,
constatar que, na pr ática, o antigo sistema so- dos br aços; os
brevive. Os indianos das castas superiores não vaix ás, das per n as;
os su dr as, dos p és.
aceitam perder seus pr ivilégios, e os membros das

PROIBIDAS, CASTAS AINDA DIVIDEM A ÍNDIA

A pesar de a Constituição indiana ter abolido


.sistema de castas bá mais de 5 0 anos, a divisão
social baseada nas crenças do hinduísmo ainda persiste
o as castas foram originadas
uma entidade espiritual chamada Purusba.
de Purusba
por meio do sacrifício

teriam saído os brâmanes, dos braços, os


Da cabeça
de

na índia, gue tem hoje mais de 2 mil castas e 20 mil ksbatriyas (xátrias), das pernas, os vaisbyas (vai-
subcastas. Determinadas no nascimento, as castas se xás), e dos pés, os sbudras.
dividem em guatro classes, tomadas a partir da mais Além dessas guatro categorias, ainda existem os
"pura" em direção ã menos "pura": brâmanes (sacerdo- gue estão fora do sistema - conhecidos como párias,
tes), ksbatriyas (xátrias, guerreiros), vaisbyas (vai- d alit s ou "intocáveis". Os párias são vistos como im-
xás, camponeses) e sbudras (sudras, servos). puros. [...]
Embora a discriminação esteja proibida, o antigo A sociedade de castas é bierarguizada e os deve-
sistema hindu permanece forte e ainda causa violência res e benefícios concedidos às pessoas variam de acordo
nas áreas rurais. O governo indiano tentou promover com a posição na escala do sistema. Quanto mais bai-
alguns planos para reverter a marginalização sofrida xa a casta, maiores são as restrições de movimento, de
pelos integrantes de castas mais baixas, como criar alimentação e de estudo dos textos sagrados. [...]
cotas nas universidades. No entanto, o projeto causou A maneira mais comum de diferenciar membros
uma onda de protestos no ano passado. de castas diferentes é pelo sobrenome, mas dependendo
De acordo com Haripriya Narasimhan, espe- da região do país outras maneiras de identificação tam-
cialista em índia do departamento de Antropologia da bém são possíveis. "Podemos determinar a casta de uma
London School of Economics, as castas foram estabe- pessoa pelos alimentos consumidos, dialetos falados e
lecidas pelas escrituras sagradas do hinduísmo, mas é vestimentas."
difícil determinar uma data exata de guando o sistema
M I R A N D A , Re n a t a . Ap e s a r d a p r o i b i ç ã o , ca s t a s a i n d a
foi adotado. [...] A história do hinduísmo conta gue d i v i d e m p a í s . O Estado de S. Paulo, 19.8.07.

165
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

O BUDISMO COMO REFUGIO

V ítimas de preconceito e marginalizados


dade indiana, integrantes de castas mais
em especial os intocáveis, vêm recorrendo ao budismo
pela socie-
baixas,

para escapar do sistema de divisão do hinduísmo. De


acordo com o professor de Ciência da Religião da Pon-
tifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo,
Frank Usarskí, a conversão de indianos para o budis-
mo acontece porgue esta éuma religião gue não aceita a
divisão social "Muitos indianos procuram o budismo
porgue acreditam na igualdade e não na segregação".
No entanto, ele alerta gue a conversão para uma
outra crença ainda não consegue resolver os problemas
sociais e de convivência da sociedade indiana. "Na ver-
dade, não existe uma escapatória do sistema de castas",
disse. "Só existe a esperança de gue, algum dia, essa
divisão social acabe."
Em maio, foi celebrada uma das maiores conver-
sões coletivas da história recente da índia, na cidade de
Mumbai. Cerca de 50 mil pessoas, entre intocáveis e
indianos de tribos nómades, converteram-se ao budis-
mo. A conversão em massa aconteceu meio século depois
de uma histórica cerimónia na gual 3 0 0 mil intocá-
veis tornaram-se budistas dirigidos pelo líder Bhimrao
Ramji Ambedkar (Í89Í-195Ô), símbolo da luta con-
tra o sistema de castas. Ambedkar nasceu como intocá-
vel, mas rejeitou a religião hindu e sua condição social.
Ele se tornou um ativista político e foi um dos pais da
Constituição indiana de i950, gue aboliu oficialmente
Monges b u d i st as de d i f er en t es p aíses t ocam
o sistema de castas no país.
i n st r u m en t o s m u si cai s d u r an t e m ar ch a
M I R A N D A , Re n a t a . I n t o c á v e i s b u s c a m b u d i s m o c o m o p el a paz m u n d i a l em Nova Dél h i , ín d i a , em
fu ga d a s c a s t a s . O Estado de S. Paulo, 1 9 .8 .0 7 . n ovem br o de 2 0 0 7 .

castas infer ior es e os "sem casta" continuam sendo A s o cie dade e s ta m e n ta l


excluídos, rejeitados, privados de educação for mal Um exemplo típico de sociedade estr atifica-
e de outras oportunidades. da em estamentos pode ser encontrado na Europa
Na segunda metade do século XX, reformas sociais ocidental durante a Idade Média (476-1453), sob
e mudanças na economia da índia, impulsionadas pela a vigência do modo de produção feudal.
industrialização, começaram a romper o sistema de di- Para o sociólogo alemão Max Weber, o con-
visão em castas. Assim, nos grandes centros urbanos do ceito de estamento está ligado a certos valores,
país, como Nova Délhi, Bombaim e Calcutá, a abolição como honr a e pr estígio social, que por sua vez
do sistema vem ocorrendo gradativamente. Entretan- expressam determinados estilos de vid a. Na socie-
to, ele ainda perdura na maior parte da índia rural. dade medieval europeia, por exemplo, a nobreza

166
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

representava um estamento cuja pr incipal carac- membros vinham da nobreza. Constituíam t am-
ter ística eram os privilégios atribuídos a ela em bém a única camada letr ada na primeira fase do
razão do nascimento e dos laços de parentesco que período medieval, desempenhando importantes
ligavam cada pessoa desse grupo a uma ou mais funções administr ativas.
famílias pertencentes ao estamento. A camada a seguir era formada pelos grandes
0 estamento, ou "estado", é uma camada so- comerciantes. Embora r icos, eles não tinham os
cial semifechada, com características semelhan- mesmos privilégios da nobreza. Além disso, suas
tes em alguns aspectos à casta. Assim como na atividades sofriam uma série de restrições legais -
sociedade de castas, a posição social da pessoa em o empréstimo a jur os, por exemplo, era condenado
uma sociedade estamental lhe é atribuída desde o pela Igr eja. Tais restrições foram desaparecendo à
nascimento. Entretanto, o estamento é mais aberto medida que o feudalismo entrou em declínio.
do que as castas. Na sociedade estamental, a mobili- Mais abaixo estavam os artesãos, os campone-
dade social é difícil mas não impossível, ao contrário ses livres e o baixo clero. Os primeiros viviam nas
do que ocorre na sociedade estratificada em castas. cidades, reunidos em associações pr ofissionais, as
Na sociedade feudal, a ascensão era possível: corporações de ofício; os camponeses livr es tr aba-
1) nos casos em que a Igr eja r ecr utava seus mem- lhavam a ter r a e vendiam seus produtos agrícolas
bros entre os mais pobres; 2) quando os servos nas vilas e cidades; o baixo clero, originário da
eram emancipados por seus senhores; 3) no caso população pobre, convivia com o povo prestando-
de o r ei conferir um título de nobreza a um homem Ihe assistência r eligiosa.
do povo; 4) quando a filh a de um comerciante se Na base da pirâmide estavam os servos, que
casava com um nobre, passando a integrar, assim, trabalhavam a ter r a para si e para seus senhores,
o estamento aristocrático (nobr eza). vivendo em condições precárias: estavam ligados
A pirâmide social da sociedade estamental à ter r a, passando a ter novo senhor quando esta
durante o feudalismo europeu t in h a a seguinte mudava de dono.
configur ação: A divisão da estrutura social em estamentos
era encontrada na Europa até fins do século XVIII.
Na França, às vésperas da Revolução de 1789, a so-
nobreza e alto ciedade estava estratificada em três estados (assim
clero
eram chamados os estamentos na França): o Pri-
comerciantes meiro Estado era composto pelo alto clero da Igreja
católica; o Segundo, pela nobreza; mais numeroso,
artesãos, cam- o Terceiro Estado reunia a burguesia, os artesãos, os
poneses livres camponeses e os trabalhadores em geral.
e baixo clero
A s o cie dade de clas s e s
servos
Já vimos como é possível descrever a divisão
da sociedade em estratos ou camadas. Agora, va -
No vér tice, encontravam-se a nobreza e o alto mos conhecer outra abordagem da divisão social,
clero. Eram os donos da ter r a, da qual obtinham baseada no conceito de classes sociais.
renda explorando o trabalho dos servos. Os nobres Mas, atenção: estamos acostumados a ver, so-
dedicavam-se à guerra e à caça, além de cuidar da bretudo nas pesquisas de mercado, a palavra "clas-
administração do feudo, onde exerciam também o se" como sinónimo de camada ou estrato. Não é
poder judiciár io. Reuniam, dessa for ma, o poder disso que se tr ata. 0 que estudaremos agora é o
político, o poder judiciár io e o poder económico. conceito de classe social t al como é abordado na
0 alto clero (cardeais, arcebispos, bispos, aba- liter atur a sociológica. Desenvolvido pelo pensador
des) era uma elite eclesiástica e in t elect ual. Seus alemão Kar l Marx, esse conceito parte de premissas

167
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

próprias, segue critérios específicos e sua aplicação entre as classes (veja o boxe a seguir ). Para ele,
leva a conclusões diferentes das que podem ser en- são esses conflitos que constituem o pr incipal
contradas nos estudos que analisam a sociedade se- fator de mudança social. Seriam esses conflitos,
gundo o modelo descritivo da estratificação social. por tanto, que impr imir iam movimento e dinamis-
No capítulo anterior aprendemos que, para mo à sociedade.
Marx, a história da humanidade é "a história da Por outro lado, as classes sociais mudam ao
lu t a de classes". Segundo esse autor, por tanto, a longo do tempo, conforme as circunstâncias eco-
classe social é acima de tudo uma categoria his- nómicas, políticas e sociais. As contradições que
tór ica. Ao se referir às duas grandes classes do mantêm entre si forjam e estruturam a própria so-
capitalismo - a burguesia e o proletariado - , está ciedade. Quando os conflitos chegam a um ponto
designando duas forças motrizes e concretas do insupor tável, ocorre uma revolução que transforma
modo de produção capitalista, um sistema econó- a sociedade, modificando o modo de produção.
mico historicamente determinado. Foi o que ocorreu, como vimos, com o feuda-
0 próprio Marx, no entanto, não r eivindicava lismo: uma nova classe (a burguesia) derrubou um
a descoberta das classes sociais nem da lu t a de velho estamento ( a nobr eza), abrindo caminho
classes, mas sim a "demonstração de que a exis- para o desenvolvimento das forças produtivas e
tência das classes só se liga a determinadas fases para a afirmação da sociedade capitalista. A Re-
históricas de desenvolvimento da produção". Marx volução Francesa de 1789 foi uma das expressões
atr ibuía uma impor tância par ticular aos conflitos dessa tr ansfor mação.

168
CAPÍTULO 9 Estr atificação e mobilidade social

A l u t a d e c l a sse s seg u n d o M a r x

Uma classe oprimida é a condição vital Nessa luta - verdadeira guerra civil
de toda sociedade fundada no antagonismo - concentram-se e se desenvolvem todos os
entre classes. elementos necessários a uma batalha futu-
A grande indústria aglomera num mes- ra. E, uma vez que se chega a esse ponto, a
mo local uma multidão de pessoas que não associação adquire um caráter político.
se conhecem. A concorrência divide seus Adaptado de : MARX, Ka rl. Miséria da Filosofia. 2 . e d.
Rio de Jan e iro : Le itu ra, 1 9 6 5 . p. 8 1 , 8 3 , 8 9 .
interesses. Mas a manutenção do salário,
esse interesse comum que têm contra seu
patrão, reúne-os num mesmo pensamento Va m o s p e n sa r ?
de resistência e coalizão [isto é, os traba-
lhadores se organizam em sindicatos e ou-
tras formas de associação para lutar pelos 1 . Segundo o texto, o que é que leva os
seus direitos]. trabalhadores a se organizarem em
Portanto, a coalizão tem sempre um du- associações?
plo objetivo: cessar a concorrência entre os 2 . Cite dois exemplos de lut a de classes
trabalhadores e realizar uma concorrência no Br asil at u al.
geral contra o capitalista.
5. Na opinião de Marx, quando é que o
0 primeiro objetivo da resistência é ape-
movimento dos trabalhadores adquire
nas a manutenção do salário. Mas, na me- um caráter político?
dida em que os capitalistas se unem para
reprimir a resistência dos trabalhadores, as 4. Cite um exemplo, n a histór ia do
Br asil, de passagem do movimento
coalizões também se unificam. E a manu-
sindical à lut a de caráter político.
tenção da resistência torna-se mais impor-
tante do que a manutenção do salário.

O Quart o Est ado,


t el a de Pel l i zza da
Vol p ed o ( 1 9 0 1 )
r ep r esen t an d o
m an i f est ação d e
t r ab al h ad or es em
gr eve por m el h or es
co n d i çõ es d e
t r ab al h o n a I t ál i a.

169
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

Mas a nova sociedade capitalista, na concep- dos meios de produção que constitui a base econó-
ção de Marx, já começou dividida em duas gr an- mica da divisão de nossa sociedade em classes.
des classes conflitantes: a burguesia (proprietária Assim, a teor ia das classes não se limit a a
dos meios de produção) e o proletariado, ou classe descrever as divisões da sociedade em camadas,
operária, que só tem de seu a força de tr abalho. como faz o modelo da estratificação social, mas
procura explicar como e por que elas ocorrem his-
Um lugar na produção toricamente. As classes sociais só existem a par tir
Vladimir Ilich Ulianov, mais conhecido como da relação que estabelecem entre s i. Dessa for ma,
Lenin (1874-1924), líder da Revolução Russa de além de antagónicas, elas são necessariamente
1917 e um dos grandes pensadores mar xistas, de- complementares. A burguesia, por exemplo, não
fin iu o sistema de classes da seguinte forma: "As pode existir sem o proletariado.
classes são grupos de homens relacionados de t a l Da mesma forma, no começo da formação do
forma que uns podem apropriar-se do trabalho de capitalismo, o proletariado precisou da burguesia
outros por ocupar posições diferentes num regime para obter emprego e se afirmar como classe. Na
determinado de economia social". previsão mar xista, porém, essa dependência da
Segundo essa definição, os homens e mulheres classe operária em relação à burguesia acabaria no
que formam as classes sociais se diferenciam entre momento em que o avanço das forças produtivas
si pelo lugar que ocupam na produção. Alguns de- entrasse em conflito com as relações burguesas de
sempenham cargos de direção e são proprietários de produção. Nesse momento, segundo Marx e Engels,
fábricas e empresas de todo tipo (meios de produ- ter ia de ocorrer uma revolução, por meio da qual a
ção); outros, apenas executam as tarefas determi- classe trabalhadora se liber tar ia, destruindo a do-
nadas pelos chefes em troca de um salário: são os minação burguesa e substituindo o modo de produ-
trabalhadores. Dessa forma, é a propriedade privada ção capitalista pelo modo de produção socialista.

170
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

Os desmentidos da História de competição com os países onde as forças pro-


Essa previsão, contudo, não se confir mou. dutivas capitalistas continuaram a se desenvolver
Ao contrário do que esperavam Marx e Engels, a - Estados Unidos, Ja p ã o, Alemanha, etc.
primeira revolução proletária - se excetuarmos a Esse desmentido da Histór ia, contudo, não
rápida exper iência da Comuna de Par is, em 1871 - anula a contribuição de Marx para o pensamen-
ocorreu em um país atrasado ( a Rússia, em 1917), to sociológico e histor iogr áfico. Tanto a crítica ao
no qual as forças produtivas capitalistas ainda não capitalismo r ealizada por ele quanto a teor ia da
haviam se desenvolvido plenamente (veja o capí- lut a de classes continuam a ser importantes in s-
tulo 8 ) . Talvez por isso mesmo, o Estado criado trumentos de análise do mundo contempor âneo,
por essa revolução, a União Soviética, não con- desde que não se pretenda atr ibuir a elas um valor
seguiu sobreviver a pouco mais de sete décadas de verdade absoluta.

AS CLASSES MEDIAS

E n t r e a b u r gu esia e o p r o let ar iad o e xist e m


ou t r os gru p os qu e se m o ve m en t r e as d u as
classes fu n d am en t ais, o scila n d o de u m a p ara a
Par a M a r x, essa h et er o gen eid ad e
classes m éd ias e xp lica p o r q u e, n os co n fli-
das

t os sociais e p o lít ico s, elas o scila m t an t o , ora


ou t r a. Algu n s d esses gru p os são d e n o m in a d o s ap o ian d o os in t eresses d a gr an d e b u r gu esia,
ge n e r ica m e n t e d e classes m é d ia s, ou p eq u en a o r a ap o ian d o os in t eresses d os t r ab alh ad o r es.
b u r gu esia.
As classes m é d ia s ( t a m b ém ch am ad as de
classe média, n o sin gu lar , p or m u it o s au t or es)
co n st it u e m u m set or m u it o n u m e r o so , qu e
ab ran ge d esd e o d o n o d e u m p eq u en o a r m a -
zém at é os p eq u en os e m é d io s p r o p r ie t á r io s
de t er r a, p assan d o p or t od os os assalariad os
qu e t r a b a lh a m em e scr it ó r io s, fu n cio n ár io s
p ú b lico s e p r ofission ais lib er ais.
Ao co n t r ár io da bu rgu esia e d o p r olet a-
r iad o, que at u am d iret am en t e n a p r o d u çã o so-
cia l, en t re as classes m éd ias m ist u ram -se m ú l-
t ip los p ap éis. N ã o se t rat a, p or t an t o, de u m a
Fam íl i a de cl asse m éd i a f az com pr as em
classe p olít ica e socialm en t e h o m o gé n e a . su p er m er cad o.

Mobilidade social
As tr ês histór ias de vid a abordadas no boxe tr ato de baixa r enda (camada C) , podem even-
0 país da mobilidade social, a seguir , mostram tualmente ascender ao estr ato de r enda média
que alguns in d ivíd uos, numa sociedade cap it a- (camada B) ou, mais r ar amente, ao de r enda alt a
lis t a aber t a, podem chegar a ocupar difer entes (camada A) , como ocor r eu com os empr esár ios
posições sociais - ou estr atos - dur ante sua Lír io Par isot t o, Alber to Sar aiva e Afonso Celso
exist ên cia. Assim , pessoas que integr am o es- de Bar r os Santos.

171
CAPITULO 9 Estratificação e mobilidade social

Vamo s pe s quis ar? I


O p aís d a m ob i l i d ad e so ci al

Lírio Parisotto acha graça das lembran- verno. Em 1988, repetindo esse conceito
ças da infância difícil, quando ia descalço de preços baixos para atrair a clientela,
para a escola para não estragar os sapatos abriu o Habib's, que acabou se tornando a
novos. Filho de trabalhadores rurais, ele foi segunda maior rede de fast food do país,
criado num sítio em NovaBassano, no interior com 300 lojas.
do Rio Grande do Sul. Não sabia muito bem Por fim, o ex-office-boy Afonso Celso de
o que fazer da vida, só tinha uma certeza: Barros Santos evoluiu rápido no Bradesco.
não queria continuar na roça. Para sair de Quando saiu de lá, depois de 22 anos de car-
lá, começou a fazer mascates até abrir o reira, investiu 100 mil dólares de sua poupan-
próprio negócio. ça para comprar 21 carros e montar a Avis e a
Nascido em Portugal, Alberto Saraiva con- Budget, locadoras que contam hoje com uma
ta que aprendeu a vender com o pai, caixeiro- frota de 19 mil veículos.
viajante que comercializava doces no norte Adaptado de : POLONI, Gus tavo . 0 país da mobilidade s o cial.
Exame, 1 0 .1 0 .0 7 .
do Paraná. Aos 20 anos, trancou matrícula na
faculdade para assumir a padaria da famí-
lia depois que o pai foi assassinado durante
um assalto.
Afonso Celso, por sua vez, lamenta o nú- Pe sq u i se e r e sp o n d a
mero de vezes que viu a família ser despe-
jada por falta de pagamento de aluguel das
casas em que morava em Osasco, na Gran- Em grupos, entrevistem três pessoas
de São Paulo. Filho do meio de sete irmãos, que tenham vivido a exper iência da
teve de procurar emprego para completar a mobilidade social ver t ical ascendente,
ou seja, pessoas de famílias pobres que
renda doméstica e, aos 16 anos, trabalhava
galgaram posições mais elevadas na
como office-boy no [banco] Bradesco.
hier ar quia social. Podem ser políticos,
Além de um início difícil, os três persona-
professores, funcionár ios públicos,
gens acima têm em comum uma história de
profissionais liber ais, empresários,
ascensão social movida a empreendedorismo.
etc. Organizem com o professor um
Lírio Parisotto deixou a roça no começo da dé-
questionár io com perguntas sobre a
cada de 1970para montar um videoclube que
origem da pessoa, a profissão de seus
vendia televisores e videocassetes em Caxias
pais, como foi sua infância, em que
do Sul, na Serra Gaúcha. A empresa virou escolas estudou, que cursos concluiu e
líder de mercado na região e Parisotto é de que forma foi passando da condição
hoje dono da Videolar, fabricante de CDs in icial para a posição que ocupa hoje.
eDVDs.
Feita a pesquisa, escrevam coletivamente
Depois da morte do pai, Alberto Sa-
a história de vida de cada um dos
raiva obteve sucesso na administração da
entrevistados.
padaria da família, vendendo pãezinhos
30% mais baratos do que a tabela do go-
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

Em contr apar tida, pessoas da camada A po- Para cima ou para baixo ?
dem ter sua renda diminuída, passando a integrar A mobilidade social ver t ical pode ser:
as camadas B ou C. Do ponto de vist a sociológico, • ascendente ou de ascensão social - quando
os dois fenómenos são caracterizados como mani- a pessoa melhora sua posição no sistema de
festações de mobilidade social. estratificação social, passando a integrar um
Mobilidade social é a mudança de posição so- grupo economicamente superior a seu grupo
cial, ou seja, de status, de uma pessoa (ou grupo anter ior ;
de pessoas) num determinado sistema de est r at i- • descendente ou de queda social - quando a
ficação social. pessoa piora de posição no sistema de estr ati-
ficação, passando a integrar um grupo econo-
Tipo s de m o bilidade s o ci a l micamente infer ior .
Quando as mudanças de posição social ocor- 0 filho de um operário que, por meio do estudo,
rem no sentido ascendente ou descendente na hie- passa a fazer parte da classe média é um exemplo
rarquia social, dizemos que a mobilidade social é de ascensão social, ou de mobilidade social ascen-
vertical. Quando a mudança de uma posição social dente. Em contrapartida, a falência e o consequente
a outra se opera dentro da mesma camada social, empobrecimento de um comerciante é um exemplo
diz-se que houve mobilidade social horizontal. de queda social, ou mobilidade social descendente.

173
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

Assim, tanto a subida quanto a descida na ciedades ela ocorre mais facilmente; em outras, pra-
hierarquia social são manifestações de mobilidade ticamente inexiste no sentido ver tical ascendente. É
social ver t ical. mais fácil ascender socialmente nos Estados Unidos,
por exemplo, do que no interior da índia, ainda do-
No me s mo patamar s o cial minado pela estratificação social em cast aj^
Uma pessoa se muda do interior para a capital. A mobilidade social ascendente é mais fr e-
No interior, ela defendia ideias políticas conservado- quente numa sociedade democrática aber ta, que
ras; agora, na capital, sob novas influências, passa estimula e enaltece a escalada rumo ao topo de
a defender as ideias de um partido progressista. Seu indivíduos de origem humilde - como nos Estados
nível de renda, porém, não se alterou substancial- Unidos - , do que numa sociedade de tradjgãQ, ar is-
mente. A situação mostra uma pessoa que experi- tocr ática, como a Inglater r a/ Neste caso, temos
mentou alguma mudança de posição social mas que, duas jpcieda^ es d e m o cr á ) :ica ^ ^ ^ ^ ^ Q^3 t ^ ^ ys
apesar disso, permaneceu no mesmo estrato social. iedajie estamental (a In glat er r a),-aAidxr a
Assim, a mudança de uma posição social den- jssa.tradição (os ÉstadpMJnidos, país tpfé não
tro da mesma camada social caracteriza-se como cônheçéu o feudalismo, ,poi£ foi forrpado 'entre a
mobilidade social hor izontal.

A m o bilidade s o ci a l nas de mo cracias


0 fenómeno da mobilidade social var ia, como (^ Q
vimos, de uma sociedade para outr aJEm algumas so-

174
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

Ent r et ant o, vale esclarecer que, mesmo na classes in fer ior es, sobretudo se são negras (veja
sociedade. Capitalista mais aber ta, a mobilidade o boxe a segu ir ) .
social ver tr çal não ocorre de maneir a igual par a Isso pode ser facilmente verificado no caso
todos os in divíduos. A ascensão social depende dos jovens que pretendem fazer o curso superior.
muito da origem de classe de cada in d ivíd u o, Aqueles que, desde o início de sua vida escolar, fre-
ou mesmo de sua origem ét n icffi No Br a sil, as r quentaram boas escolas e, além disso, estudaram
pessoas brancas pnrtnnrpntpn àg çpmadaà sociais em cursinhos preparatórios de boa qualidade, têm
mais elevadas têm mais oportunidades e condi- t mais possibilidades de aprovação nos vestibulares
çoes efe se m a n t e r T I P C C O píwõOa<:rpndpr ainda das universidades públicas e privadas do que os jo-
mais e se sair melhor do que as or iginár ias das vens provenientes das classes de baixa renda.

RACISMO E MOBILIDADE SOCIAL

C empresário Carlos Sousa, de 4 3 anos, dirige um


jipe importado, do ano, para chegar a sua in-
dústria, em Lauro de Freitas, na região metropolitana
A guinada lhe mostrou o guanto o mercado de
trabalho é difícil para negros. "As coisas na minha
empresa só começaram a dar certo depois gue contratei
de Salvador. Baixa o vidro escurecido, cumprimenta o um branco para nos representar. Foi dolorido, mas fiz
segurança gue lhe abre o portão e pede ajuda para esta- o gue tinha de ser feito para ter sucesso." Hoje, Sousa
cionar. Negro, franzino, Sousa faz parte de um grupo emprega 360 pessoas — 8 0 % negras — e banca a for-
de exceção-. pretos e pardos gue conseguem ascender so- mação superior de parte de seus funcionários.
cialmente e ganhar mais do gue brancos. Se Sousa éexceção, Rosália dos Santos, de 27
Segundo dados do IBGE [Instituto Brasileiro de anos, éregra. Moradora do bairro do Cabula, de classe
Geografia e Estatística], apesar de ser formada predomi- média baixa, casada, uma filha, ela conseguiu — com
nantemente por negros (82, a população de Sal- dificuldade - chegar ao ensino médio, já foi empregada
vador e região metropolitana apresenta um dos retratos doméstica e vendedora de loja. Há dois anos não con-
mais acentuados da desigualdade racial no País. O segue trabalho fixo. "Nas duas áreas, o pessoal só
rendimento médio mensal de um negro éde 645 reais, ante guer saber de contratar as brancas." Ela mostra como
1 7 5 0 reais de um branco. Pior, o guadro não deve mudar exemplo uma vizinha de rua, para guem sobra traba-
no curto prazo, já gue brancos têm, em média, 2,4 anos lho. "Os bicos gue consigo vêm por meio dela - mas
de estudo a mais do gue pretos e pardos. E mesmo con- ganho metade do gue ela ganharia."
cluindo i i anos ou mais de estudos, os negros continuam "A situação está tão disseminada na população
atrás na remuneração. Recebem 980 reais por mês, ante gue os empregadores, mesmo gue sejam negros, não veem
2 062 reais pagos aos brancos na mesma situação. problema em pagar menos aos pretos e pardos do gue
Sousa concluiu o ensino médio trabalhando aos brancos, exercendo a mesma função", afirma a so-
como servente em uma ática. Em casa, a mãe e os nove cióloga Vilma Reis, coordenadora do Centro de Educa-
irmãos precisavam de sua ajuda financeira, e ele não ção e Profissionalização para a Igualdade Racial e de
pôde continuar os estudos. "Tive a sorte, porém, de ter Género, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
como primeiro empregador um estrangeiro, para guem da Universidade Federal da Bahia.
era mais importante a competência do gue a cor da
D É C I M O , T i a g o . So u s a ,
pele." Quando Sousa resolveu sair de lá para abrir sua
e m p r e s á r i o e e x c e ç ã o e m Sa l v a d o r .
própria empresa, há i5 anos, já era gerente na ática. O Estado de S. Pauto, 18.11.06.

175
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

I • Li v ro s s u ge ri d o s
• CARONE, Edgar. Classes sociais e movimento operário. São Paulo: Át ica , 1999.

• RIDENTI, Marcelo. Classes sociais e representação. São Paulo: Cor tez, 2 0 0 1 .

• JANNUZZI, Paulo de Mar tino. Migração e mobilidade social: migrantes no mercado de trabalho paulista. Campinas:
Autores Associados, 2000.

• PASTORE, Jos é e SILVA, Nelson do Valle. Mobilidade social no Brasil. São Paulo: Makron Books, 1999.

i • Fil s u ge ri d o s
• 0 leopardo, de Luchino Viscon t i, 1963. Nobre it aliano assiste impotente à ascensão da burguesia e às lutas pela
unificação da It ália. Baseado em romance homónimo de Tomaso Lampedusa.

• Vatel - um banquete para o rei, de Roland Jo ffé , 2000. Em 1 6 7 1 , o general Condé oferece ao r ei da Fr ança, Luís
XIV, um magnífico banquete. Em meio à fest a, Vat el, mordomo de Condé, se apaixona por uma dama da Corte.

• Marquise, de Vera Belmont, 1997. Dançar ina de feir a no inter ior da Fr ança, Marquise é levada para Paris e
Ver salhes, onde se t or n a amante do r ei Luís XIV.

• Xica da Silva, de Carlos (Cacá) Diegues, 1976. Histór ia ver ídica da escr ava Fr ancisca da Silva, que enr iqueceu ao se
casar com um contratador de diamantes, o por tuguês Joã o Fernandes de Oliveir a.

• Daens, um grito de justiça, de St jin Coninx, 1992. Sobre o movimento operário na Europa do século XIX, com
destaque para a ação da Igr eja cat ólica.

• Gandhi, de Richar d Attenbor ough, 1982. Cinebiografia de Gandhi.

• 0 ABC da greve, de León Hir szman, 1979/ 1990. Metalúr gicos do ABC paulista entram em greve em 1978,
enfrentando a ditadur a militar . Documentár io.

Tr ab al h an d o com f i l m es
Sob a orientação do professor, reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais
filmes indicados na lista de sugestões. Terminada a sessão, façam um debate em torno do que viram
e escrevam um texto coletivo com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:
• Que r elações podem ser estabelecidas entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de estr atificação social? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há referências à sociedade estamental ou à sociedade de castas? Sob que formas elas se manifestam no filme?

• Há r efer ências à questão da lu t a de classes? De que forma o filme aborda essa questão?

• Há r efer ências à mobilidade social? Escreva um resumo do filme mostrando como aparece nele a mobilidade social.

Qu est ões p r op ost as


1 . Estabeleça a relação entre estr atificação social e mobilidade social.
2. Entre os tipos de estr atificação social, um deles tem sido determinante. Dê o nome desse
tipo de estr atificação social e explique sua impor tância na caracterização da sociedade.

3. Compare a mobilidade social nas sociedades de castas, estamentos e classes sociais. Se


preferir, faça um quadro ou um esquema.

4. 0 que você entende por classe social?

5 . Como você define as classes médias?


6 . Pesquise dados que possibilitem formar uma ideia sobre a estratificação social no Brasil de hoje.

176
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

TEXTO 1

A sociedade est ament al

O p r in cíp io est r u t u r al "socied ad e es- sem p r e a m in o r ia , t êm que d elim it ar -se, ist o


t a m e n t a l" d eve ser e n t e n d id o ( n u m sist em a é, t êm que con figu r ar -se c o m o "est am en t o",
co n cr e t o de So cio lo gia ) n ão c o m o a lei fu n d a- de m o d o a m an t er em vigo r aqu ele m u n d o
m e n t a l e et er n a de t od a cu lt u r a h u m a n a - n o que fu n d am en t a a sua d o m in a çã o .
sen t id o em que t od os os r o m â n t ico s d o passa- To d o s os "est ad os" [est am en t o s] au t ên -
d o e d o p r esen t e q u er em fazê-lo - , m as c o m o t ico s se d elim it am ,- p or isso, cu id a m de seu
u m a fase d et er m in a d a n a h ist ór ia das form as h e r m e t ism o [ist o é, de seu car át er fe ch a d o ].
sociais de d om in ação,- co m o u m elem en t o n a Bast a co n sid e r a r o p ap el r elevan t e que d esem -
série das est ru t u ras sociais fu n d am en t ais. p e n h a , em t od as as socied ad es est am en t ais, o
Q u a n d o u m a form a de d o m in a ç ã o se casam en t o e a lu t a em t o r n o d ele.
afir m a, co n ve r t e n d o -se n u m sist em a d u r a- O m eio t íp ico p ara co n segu ir o h e r m e -
d o u r o , ist o h a b it u a lm e n t e se faz a co m p a n h a r t ism o de u m est am en t o co n sist e n a m o n o p o -
d a c o n c e ssã o , aos d iver sos gr u p os p ar ciais, d e liz a çã o d e d et er m in ad o s en car gos so ciais. O
d et er m in ad o s d ir eit o s, p ossib ilid ad es de aq u i- se r viço gu er r eir o e sacer d o t al, o d esem p en h o
siçã o , b en s cu lt u r ais e at ivid ad es, t u d o isso de de car go s p ú b lico s e a p r o p r ied ad e t er r it o r ial
a co r d o co m u m esq u em a fixo. As part es h et e- sã o , de o r d in á r io , os set ores que os est am en -
r o gé n e a s d e que se c o m p õ e a socied ad e vã o t os d o m in a n t es r eser vam p ara si. D o m esm o
cr e sce n d o n u m sist em a fixo de p r ivilé gio s e, m o d o , ou t ras p o siçõ e s vit a is, o u p r ofissões
so b r et u d o , n u m sist em a fixo de at ivid ad es so- ( co m é r cio , t r a b a lh o r e m u n e r a d o ) , são co n si-
ciais n ecessár ias, a d q u ir in d o , em r a z ã o d esse d erad as in co m p a t íve is c o m esses est am en t os.
fat o, u m sen t id o o b je t ivo p ara o co r p o so cia l Sob re a base dessas at ivid ad es e profissões
n a sua t ot alid ad e. reservadas aos diferen t es "estados" se d esen vol-
A firm eza d o ed ifício social d ep en d e de ve t am b ém u m a form a especial de vid a , u m
que as fu n ções at rib u íd as a esses gru pos (q u e con ceit o especial de h on r a e algun s cost u m es
ch am ar em os "est ados" o u "est am en t os") sejam sociais t am b ém especiais. Esse fato, p or sua vez,
visivelm en t e n ecessárias para o todo,- d ep en d e con t r ib u i para a co n cr e çã o de u m est rat o social
t am b ém de que a r elação en t re os est am en t os e e para a sua co n ver são em est am en t o. [...]
seus d everes sociais seja firm e, o r gân ica, co n s- A lon go p r a z o , n em os m er os p r ivilé gio s
t it u t iva de t r ad ição e de força ed u cad ora [n o n em u m sim p les p r e d o m ín io e c o n ó m i c o bas-
feu d alism o, o d ever d o est am en t o r eligioso, o u t am p ara m an t er de p é u m a o r d e m est am en -
seja, d o cle r o , era in t er m ed iar a r elação en t re t al. Est a m e n t o s de n ível h ist ó r ico só e xist e m
De u s e os fiéis,- o d ever d o est am en t o arist ocrá- q u an d o h á tarefas au t ên t icas e b ásicas qu e p o-
t ico era fazer a gu erra, e assim p or d ia n t e]. d em m o b iliz a r d et er m in ad as en er gias e d ar à
Essa est r u t u r ação d a socied ad e, segu n d o lu z u m d et er m in a d o t ip o de h o m e m . [...]
p r ivilé gio s e sp e cífico s e at ivid ad es at r ib u íd as, O p r in cíp io est am en t al p od e p en et r ar
r ealiza-se n at u r alm en t e, "de cim a p ara baixo",- t o d o o co r p o so cia l, d esd e c im a , e só q u an -
ou seja, é est ab elecid a p elos qu e d et êm a d o- d o assim o co r r e p od e-se d iz e r que se r eali-
m in a çã o . É u m p r ocesso que c o m e ç a em c im a z o u p len am en t e a lei est r u t u r al da socied ad e
e se est en d e at é e m b a ixo . As forças at ivas est am en t al. Nesse m o m e n t o t er em os d ian t e
d en t r o d o co r p o so cia l, os sen h or es, que são de n ó s u m cla r o sist em a de est rat os so ciais,

177
CAPÍ TULO 9 Estratificação e mobilidade social

cad a u m d os qu ais se in cu m b e de sua fu n ção Além dessa d in âm ica [o co r r em t am b ém


esp ecial, d en t r o d o t od o, e cad a u m d os qu ais lu t as] en t re "estados" [est am en t os], nas quais os
d e se n vo lve , n o d esem p en h o d est a in cu m b ê n - "estados" in feriores lu t am u n id os con t r a os p r i-
cia e sp e cia l, sua h o n r a e sua at it u d e so cia l es- vilégio s dos "estados" d om in an t es. To d o cor p o
p ecífica. [...] social que repou sa sobre a d esigu ald ad e de d i-
N ã o ob st an t e, a est r u t u r a de u m a so- reit os e sobre a d o m in a çã o de u m gru po sobre
cied ad e est am en t al t r az t a m b é m em si, co m o ou t ros t raz sem p re, em si, o germ e de d ist ú rbios
t od a r ealid ad e so cia l, u m a d in â m ica h ist ó r ica. e reb eliões. C o m respeit o à form a e ao cu rso
[...] A d in â m ica h ist ó r ica co n sist e, em p r i- das lutas en t re os "estados", é p ossível form u lar
m e ir o lu gar, em que o co r r a m co n st a n t e m e n - u m a série de t raços t íp icos e, in clu sive, leis.
te n a socied ad e est am en t al p rocessos sociais Ta n t o os o b jet ivo s da lu t a c o m o a t át ica
de a sce n sã o e d e slo ca m e n t o . Po r m ais que o qu e n ela se em p r ega, e as p ossib ilid ad es d e
h e r m e t ism o seja u m a das car act er íst icas es- seu r esu lt ad o, se r ep et em u m a o u ou t r a ve z n o
sen ciais d o est am en t o, os est am en t os d o m i- cu r so da história,- sob a ú n ica c o n d iç ã o de qu e
n an t es p r ecisam r eceb er em seu seio n ovas se t rat e ve r d a d e ir a m e n t e d e lu t a en t r e est a-
forças p r o ced en t es d os est rat os in fer ior es. m en t o s, ist o é, de m o vim e n t o s sociais d en t r o
A sab ed or ia in st in t iva de u m a a r ist o cr a cia de u m a o r d em so cial est am en t al. [...] Q u a n t o

con sist e em ab so r ver som en t e, m as sem p r e, ao seu o b je t ivo , as lu t as en t r e "est ad os" t en -

aqu eles elem en t os que p o d em ser in ser id os d em sem p r e a m od ificar , em p o n t o s co n cr e -

n o est am en t o e aqu eles em q u em p od e im p r i- t os, a a t r ib u içã o de p r ivilé gio s, a ar r eb at ar

m ir sua form a p e cu lia r de vid a . ao est am en t o vi z i n h o d et er m in ad o s d ir eit o s


p o lít ico s ou so ciais, e a r ecu p er ar d ir eit o s per-
É m u it o im p o r t an t e t er em co n t a qu e es-
d id os ou a a m p lia r os qu e se p ossu em .
ses p rocessos d e a sce n sã o so cia l, p elos qu ais
En q u a n t o n os m o vem o s n o t er r en o d a
p en et r am n o e sp a ç o fech ad o d os est am en t os
o r d e m est am en t al, as lu t as sociais n ã o t êm
d o m in a n t es a r iq u e z a ou o t alen t o d e pessoas
n u n ca a in t e n çã o n em o efeit o d e co n t est ar a
d a b u r gu esia, n ã o d isso lvem n em ab alam a es-
est ru t u ra est am en t al, o u de m o d ifica r o p r in -
t r u t u r a est am en t al,- ao co n t r á r io , co n t r ib u e m
cíp io que rege a est r u t u r a so cial d o t o d o . N a
p ara for t alecê-la. [...] To d a s as gran d es ar ist o-
lu t a só se p ersegu em e só se co n segu em cor -
cr acias da h ist ór ia r e a liz a r a m co m h a b ilid a d e
r e çõ e s d e lim it e s en t r e os est am en t os.
essa p r át ica de in se r ir em seu seio t alen t os o u
F R E YE R , H a n s . A s o c i e d a d e e s t a m e n t a l .
r iq u ezas de o r ige m p leb eia [ Ro m a ] o u bu r-
I n : I A N N I , O c t á v i o . Teorias de estratificação social.
gu esa [In gla t e r r a , Fr an ça, e t c .] . S ã o P a u l o : Ci a . E d i t o r a N a c i o n a l , 1972. p . 1 6 8 - 7 1 .

-• Pe n s e e re s p o n d a

1 . 0 que o autor quer dizer com a frase "0 princípio estr utur al 'sociedade estamental' deve
ser entendido (num sistema concreto de Sociologia) não como a lei fundamental e eter na
de toda cultur a humana"?
2. De que forma se estr utur am os estamentos, segundo a análise de Hans Freyer?

3. Pelo que afirma o autor, pode-se dizer que existe mobilidade social em uma sociedade
estamental? Explique sua resposta e cite um trecho do texto para fundamentar sua opinião.

178
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade sócia 1

TEXTO 2

A mobilidade social no Brasil


Um dos grandes estudos sobre a mobilidade social brasileira foi publicado pelos sociólogos José Pastore
e Nelson do Valle Silva. Com base nos dados do censo nacional de 1996, eles compararam as profissões dos
brasileiros com idade entre 2 0 e 64 anos às de seus pais. Em 50% dos casos, os representantes da nova geração
tinbam ocupações melhores.

M a is r e ce n t e m e n t e , su r giu o u t r o t r a b a - So m e n t e n o en sin o b á sico , a e vo lu çã o


lh o d e fô le go sob r e o t e m a , d e a u t o r ia d o d o p er cen t u al de cr ian ças n as salas d e au la foi
s o c i ó l o g o Ca r l o s Co s t a Rib e ir o , d o In st it u - de 5 1 % p ara 9 7 % . Ava n ço s co m o esse c o n -
t o U n ive r sit á r io de Pesq u isas d o Rio d e Ja - t rib u íram de form a d e cisiva p ara a e le va çã o
n e ir o ( Iu p e r j) . U t i l i z a n d o u m a m e t o d o lo gia so cia l de u m a p ar cela d a p o p u la çã o .
se m e lh a n t e , Rib e ir o e la b o r o u u m ín d ice qu e "Tr a b a lh e i c o m o office-b oy p ara c o m -
m o st r a as ch a n ce s d e a sce n sã o so cia l em vá - p let ar os est u d os", afir m a o e m p r e sá r io m in e i-
r ios lu gar es d o m u n d o . N o Br a sil, se gu n d o r o Sa lim Mat t ar . Ao s 23 an os, ele co m p r o u
a p esq u isa, os t r a b a lh a d o r e s t êm 4,5 ve z e s seis fuscas u sad os c o m u m e m p r é st im o d e 100
m ais ch a n ce s de su b ir n a vid a d o qu e d e so- m il reais e m o n t o u a Lo c a liz a . N o c o m e ç o ,
frer u m r e vé s. So m e n t e a Co r e i a d o Su l , c o m fazia de t u d o: lim p a va a lo ja , la va va ca r r o e
ín d ice 6, su p er a o p aís n esse q u e sit o [os Es - t r ab alh ava d e m o t o r ist a — além de at en d er
t ad os U n i d o s t êm ín d ice 2; a Al e m a n h a , 3 ; a os clie n t e s. H o j e , c o m u m a frot a de 50 m il au -
In gla t e r r a , 2 ] . t o m ó ve is e 350 a gê n cia s, a Lo c a liz a é a m a io r
U m a das e xp lica çõ e s p ara o fe n ó m e n o lo ca d o r a d o Br a sil, est á p resen t e em n o ve p aí-
d a m o b ilid a d e so cia l n o Br asil foi o in t en so ses d a Am é r ica d o Su l, t em seu ca p it a l ab er t o
p r ocesso d e u r b a n iz a çã o p elo q u al o país pas- n a Bovesp a [Bo lsa d e Va lo r e s d e Sã o P a u lo ] e
sou n as ú lt im as d é ca d a s. C o m o cr e scim e n t o vá r io s de seus em p r egad os t êm p art e d a r e m u -
aceler ad o das gran d es cid ad es, d e ixa r o c a m - n e r a çã o vin cu la d a ao d esem p en h o das a çõ e s,
p o p assou a ser a m e lh o r a lt e r n a t iva p ara su b ir n u m a m a n ifest a çã o d e m e r it o cr a cia e foco n o
n a vid a . Essa t r an sfer ên cia co n st it u i u m in d i- r esu lt ad o t íp ica de eco n o m ias em p r een d ed o -
cad o r de m o b ilid a d e so cia l. Se gu n d o o est u - ras co m o a n o r t e -a m e r ica n a .
d o de Rib e ir o , 24% d os p r ofission ais lib er ais O est ím u lo ao e m p r e e n d e d o r ism o já se
qu e ga n h a m a vid a n as gran d es cid ad es d o p r o vo u u m d os m aior es e m elh o r es m ot or es
Br asil são p r o ven ien t es d o ca m p o . Esse ín d ice d o d e se n vo lvim e n t o e c o n ó m ic o . Em p r e e n -
só é su p er ad o pelos d a Po ló n ia ( 3 8 % ) , Ja p ã o d er — e t er ch a n ce de su cesso n o e m p r e e n -
(31%) e H u n gr ia ( 2 9 % ) . d im e n t o — d ep en d e de u m a sér ie d e c o n d i-
Ao fim d a p r im e ir a d é ca d a d o sé cu lo çõ e s. A p r in cip a l d elas é o d esejo de co r r e r
X X I , o Br asil en fr en t a u m en o r m e d esafio qu e r isco . [...]
ou t ras e co n o m ia s em er gen t es já co n segu ir am Esse a m b ie n t e qu e p e r m it e a a s c e n s ã o ,
su perar. No sso s p a d r õ e s ed u cacio n ais são i n - p o r é m , n ã o e li m i n o u o fosso qu e h á en t r e as
su ficien t es p ara su p or t ar alt as t axas de cr es- classes m e n o s favo r ecid as e a e lit e b r a sile ir a .
cim e n t o . M a s n ão se p od e ign o r ar o fato d e A m e lh o r im a ge m p ar a d e fin ir o p r o b le m a
qu e a p r o p o r ç ã o d e b r asileir o s c o m acesso à é a d e u m a c o r r id a . N e ssa c o m p e t i ç ã o , os
escola a u m en t o u m u it o n as ú lt im as d é ca d a s. filh o s d as fam ílias r ica s la r ga m n a fr en t e e,

179
CAPÍTULO 9 Estratificação e mobilidade social

p o r isso, t êm u m lu gar q u ase ce r t o n o p o n t o Rib e ir o , d o Iu p er j. Q u e m lar ga at rás n essa


m ais a lt o d o p ó d io . c o m p e t iç ã o t em p ossib ilid ad es reais de e vo -
"As ch a n ce s de u m filh o da elit e per- lu ir, m as p r ecisa r e a liz a r u m e sfo r ço p essoal
m a n e ce r em sua classe são 20 ve z e s m aior es m u it o m a io r p ara su p erar os o b st á cu lo s.
d o que as de u m filh o de u m t r a b a lh a d o r u l - P O L O N I , Gu s t a v o . O p a ís d a m o b i l i d a d e s o c i a l .
t rap assar u m d egr au n a escala so cia l", afir m a Exame, 10.10.07.

- • Pe n s e e re s p o n d a

1 . Segundo o autor, o Br asil enfr enta um enorme desafio que outras economias emergentes
já conseguiram superar. Que desafio é esse? Por que se tr ata de um desafio? De que forma
o Br asil pode vencê-lo?

2. "0 estímulo ao empreendedorismo já se provou um dos maiores e melhores motores do


desenvolvimento económico." Você concorda com essa frase? Explique por quê.

180
CAPÍ TULO 10 Cultura: nossa herança social

Obser ve e r espon da:

1 . Descreva a cena registrada n a foto acima.


2. Em sua opinião, o que estão fazendo as pessoas que aparecem na cena?

3. Pode-se dizer que a foto registra uma manifestação cultur al?


4. Que relação pode-se estabelecer entre essa cena e o conceito de cultur a?

182
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

À procura de uma de finição

0 antr opólogo Clyde Kluckhohn (1905-1960) ção da cultur a é um processo social, resultante da
observa em Antropologia: um espelho para o ho- aprendizagem. Cada sociedade transmite às novas
mem que cult ur a é "a vid a t ot al de um povo, gerações o patrimônio cultur al que recebeu de seus
a her ança social que o indivíduo recebe de seu antepassados. Por isso, a cultur a é também chama-
grupo, ou pode ser considerada a parte do am- da de herança social.
biente que o próprio homem cr iou". Por sua vez, Nas sociedades em que não há escolas, a tr ans-
Br onislaw Malinovski (1884-1942), outro antr o- missão da cultur a se dá por intermédio da família
pólogo, ensina que a cultur a compreende "ar t e- ou da convivência com o grupo adulto. Nesse caso,
fatos, bens, processos t écn icos, ideias, hábitos e diz-se que a educação é infor mal ou assistemática
valores herdados". (para aprofundar seu conhecimento sobre educa-
Em outro t ext o, escrito em parceria com A. ção, leia o último capítulo deste volume).
Kroeber, Clyde Kluckhohn dá outra definição: "A Quando há escolas, estas se encarregam de
cultur a consiste em padrões de comportamento aprofundar a transmissão da cultur a iniciada na
adquiridos por meio de símbolos, e que constituem família e em outros grupos sociais. Nesse caso, a
as realizações características de grupos humanos, educação é formal ou sistemática, isto é, obedece
inclusive suas materializações em artefatos" (Di- a uma organização previamente planejada.
cionário de Ciências Sociais. Rio de Janeir o: Edito- 0 texto da página seguinte mostra até que
ra da FGV, 1987, p. 2 9 0 ). ponto essas duas formas de educação podem es-
Seja qual for a definição adotada, todos os es- tar em conflito, quando correspondem a cultur as
tudiosos concordam que a aquisição e a perpetua- difer entes.
CAPÍTULO 10 Cultur a: nossa herança social

Vamo s pe s quis ar'


O sa b e r i n dígen a

No começo do século XIX, o


governo do estado de Vir gín ia,
nos Estados Unidos, suger iu aos
líder es de diver sos povos in d í-
genas que enviassem alguns de
seus joven s par a estudar nas es-
colas dos br ancos. Em su a ca r -
t a-r esp ost a, os chefes in d ígen as
r ecusar am delicadamente a pr o-
post a. Eis algumas das r azões
alegadas por eles:
Nós estamos convencidos de
que os senhores desejam o nosso
bem e agradecemos de todo cora-
ção. Mas aqueles que são sábios reconhecem I n d íg en as n o r t e- am er i can o s em f o t o d e Edw ar d
Cu r t i s ( 1 8 6 8 - 1 9 5 2 ) .
que diferentes nações têm concepções dife-
rentes de ver as coisas e, sendo assim, os
senhores não ficarão ofendidos ao saber que
a vossa ideia de educação não é a mesma Pe sq u i se e r e sp o n d a
que a nossa. [...]
Muitos dos nossos bravos guerreiros fo-
Em grupos, procurem informações sobre
ram formados nas escolas do Norte e apren-
a cultur a e a educação entre os índios
deram toda a vossa ciência. Mas quando eles
brasileiros. Consultem sites da int er net ,
voltaram para nós eram maus corredores, ig-
livr os e publicações. Sugestões de sites:
norantes da vida da floresta e incapazes de
suportar o frio e a fome. Não sabiam como www.histor iadobr asil.net/ indiosdobr asil
caçar o veado, matar o inimigo ou construir
www.suapesquisa.com/ indios/
uma cabana, e falavam muito m al nossa
língua. Eles eram, portanto, totalmente inú- www.seednet.mec.gov.br/ noticias
teis. Não serviam como guerreiros, como ca- www.socioambiental.org/ nsa/ detalhe
çadores ou como conselheiros.
Neste último site, você pode acessar o
Ficamos extremamente agradecidos pela
livro O índio brasileiro: o que você precisa
vossa oferta e, embora não possamos aceitá-
saber sobre os povos indígenas no Brasil
la, para mostrar a nossa gratidão concordamos
de hoje, de Gersen dos Santos Luciano.
que os nobres senhores de Virgínia nos enviem
alguns de seus jovens, que lhes ensinaremos Terminada a pesquisa, discutam o que
tudo o que sabemos e faremos deles homens. leram e escrevam um texto coletivo com
as conclusões do grupo.
In : BRANDÃO, Carlos Ro drigue s . 0 que é educação.
São Paulo : Bras ilie ns e , 1 9 8 4 . p . 8 -9 .
Co le ção Prime iros Passos.

184
CAPÍTULO 10 Cultur a: nossa herança social

Não há, portanto, um modelo único, uma forma adultas às gerações mais jovens por meio da educa-
exclusiva de educação. A carta dos indígenas nor- ção. Educar, pois, é transmitir aos indivíduos os valo-
te-americanos ao governo de Virgínia revela que a res, conhecimentos, técnicas, padrões de comporta-
cultura de uma sociedade é transmitida das gerações mento, hábitos de vida, enfim, a cultura do grupo.

IDENTIDADE CULTURAL
ada sociedade elabora sua própria cultu- meio dela que se desenvolve o sentimento de
ra ao longo da Histór ia e, a não ser que pertencimento a uma comunidade, a uma so-
se trate de um grupo em condições de iso- ciedade, a uma nação, a uma cultur a.
lamento social, recebe a influência de outras Por exemplo, as comunidades indígenas
culturas. Todas as sociedades, desde as mais são realidades culturais muito diferentes da so-
simples até as mais complexas, têm sua pr ó- ciedade capitalista. Contam com suas próprias
pria cultur a. Nã o há sociedade sem cultur a. regras, valores e estilos de or ganização, ou seja,
A cultura pode ser definida como um têm sua própria cultura. Os indivíduos que
estilo de vida pr ópr io, um modo de vida par- pertencem a elas desenvolvem um forte senti-
ticular que todas as sociedades desenvolvem e mento de identidade cultur al, como vimos na
que car acter iza cada uma delas. Assim, os in - carta dos chefes indígenas ao governo de Vir -
divíduos que compartilham a mesma cultura gínia. Esse sentimento se revela na rejeição ao
apresentam o que se chama de identidade cultu- sistema educacional da sociedade capitalista,
ral. E essa identidade cultural que faz com que considerado "superior" pelas pessoas brancas,
a pessoa se sinta pertencendo ao grupo, é por e na exaltação da cultura indígena.

As duas faces da cultura

A cultur a mater ial consiste em todo tipo de


utensílios produzidos em uma sociedade - fer r a-
mentas, instr umentos, máquinas, hábitos alimen-
tar es, habitação, etc. - e tem uma relação dir eta
com o estilo de vida dessa sociedade.
No interior do Nordeste, por exemplo, o estilo
de vida está relacionado com a produção de man-
dioca e de macaxeira, de inhame e de outros frutos
da ter r a. Da primeira se faz a far inha de mandioca.
Já a segunda é muito consumida, cozida, no café da
manhã, da mesma forma que o cará e o inhame.
No lit or al, a produção de coco deu origem a
diversos pratos, como a moqueca de peixe e o fei- Man i f est ação de cu l t u r a m at er i al : b on ecos de bar r o do
jão-de-coco. Entre os temperos, destaca-se o coen- ar t esan at o de Car u ar u , em Per n am bu co, r ep r esen t an d o
t r i o de m ú si cos de f o r r ó .
t r o, visualmente parecido com a salsinha, mais

185
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

•• 0 que é 7 M

I Fo l cl o r e
1WÈÈÈÈÈÈI ÈÊÈMÈÊÈKÊÊÊHÊÈÊÈÈÊÊÊKÊÊÊÊÊ
A expr essão folclore é de origem anglo- sambas de Martinho da Vila e o terceiro, um
saxôn ica (folk = povo e lore = saber ). Foi disco de tradicionais e anónimas modinhas
cr iada no século XIX pelo antiquár io in glês infantis do norte de Minas. 0 primeiro livro
Ambrose Merton par a designar o que chamou é Dom Casmurro, de Machado de Assis; o se-
de "antiguidades popular es". Hoje, ela é u t i- gundo, Cante lá que eu canto cá, de Patativa
lizad a pelos cien t ist as sociais com o sentido do Assaré, e o terceiro, uma coletãnea de len-
de n ar r at ivas t r ad icion ais, encantamentos, das e mitos do Rio Grande do Sul.
pr ovér bios, r ezas, canções an ón imas muito Se a mesa e as coisas existirem de fato
antigas, folguedos como o bumba-meu-boi, diante de você, leitor, ali tudo o que há são
lendas como a do Negrinho do Pastor eio, produtos da cultura [...]. São construções de
mitos, cr enças t r ad icion ais, et c. objetos, sons, símbolos e significados. No en-
Realizado em 1951, o I Congresso Bra- tanto, algumas pessoas poderiam dizer que
sileiro de Folclore estabeleceu o que deve ser o prato com a lagosta ao termidor, o livro
considerado como folclore. de Machado de Assis e o disco de Villa-Lobos
"1. 0 Primeiro Congresso Brasileiro de Fol- são parte da cultura erudita; feijão com ar-
clore reconhece o estudo do folclore como roz e bife acebolado, os poemas de Patativa
integrante das ciências antropológicas e do Assaré e os sambas de Martinho da Vila
culturais; condena o preconceito de só se são expressões de cultura popular; pato no
considerar folclórico o fato espiritual e tucupi, lendas e mitos do Rio Grande do Sul e
aconselha o estudo da vida popular em o disco de cantigas das crianças do norte de
toda sua plenitude, quer no aspecto ma- Minas são folclore, cultura de folk.
terial, quer no aspecto espiritual. Adaptado de : BRANDÃO, Carlos Ro drigue s . 0 que é folclore. São
Paulo: Bras ilie ns e , 1 9 8 4 . p. 3 1 -3 . Cole ção Prime iros Passos.
2. Constituem o fato folclórico as manei-
ras de pensar, sentir e agir de um povo,
preservadas pela tradição popular e pela Va m o s p e sq u i sa r ?
imitação, e que não sejam diretamente
influenciadas pelos círculos eruditos e Reúna-se com seu grupo de colegas. Juntos,
instituições que se dedicam ou à reno- vocês vão conversar sobre o texto deste
vação e conservação do patrimônio cientí- boxe e fazer uma pesquisa sobre o folclore
fico e artístico humano ou à fixação de em sua cidade ou na sua r egião. Para isso,
uma orientação religiosa e filosófica. [...]" entr evistem adultos, perguntem sobre
Para entender o fenómeno do folclore, brincadeiras e cantigas infantis tr adicionais,
vamos imaginar que em cima de sua mesa entrem em contato com grupos que
estão três livros, três discos e três pratos de preservam manifestações cultur ais antigas,
comida. Um prato contém uma refinada la- como cantadores, r epentistas, praticantes
gosta ao termidor, o outro, feijão com arroz de capoeira, de danças como mar acatu,
e bife acebolado e o terceiro, uma porção bumba-meu-boi, reisados, samba de roda,
jongo, carimbo, afoxé e outras. Feita a
de "pato no tucupi" [prato típico da região
pesquisa, escrevam um texto coletivo com
amazônica]. Um disco é das Bachianas br a-
as observações e conclusões do grupo.
sileir as, de Heitor Villa-Lobos, o outro, de

186
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

consumida nas regiões Sudeste e Su l, mas de sa- mente per mitida até a década de 1960, quando,
bor muito difer ente. No Nordeste, o coentro serve após muita lu t a , criaram-se leis que impedem as
para temperar uma grande variedade de pratos, práticas r acistas.
entre os quais a moqueca de peixe e de sir i mole, Uma das manifestações da cultur a de grande
a sopa de feijão e o "arrumadinho". interesse para o antropólogo é o folclore.
Tudo isso faz parte da cultur a mater ial dos
nordestinos e de seu estilo de vid a . Os s upo rte s da cultura n ão -m ate ríal
Existe uma interdependência estr eita e cons-
A cultura n ão -m ate ríal tante entre cultur a mater ial e cultur a não-mate-
A cult ur a n ão-mat er ial, em contr apar tida, rial. Quando, por exemplo, assistimos à apresen-
abrange todos os aspectos morais e intelectuais tação de uma orquestra, sabemos que as músicas
da sociedade, tais como: normas sociais, r eligião, executadas são produto da criatividade de um ou
costumes, ideologia, ciências, ar tes, liter atur a, fol- mais compositores. Entr etanto, para comunicar
clore, etc. A música, por exemplo, tanto a er udita sua criação aos outros, os ar tistas se valem de in s-
quanto a popular, faz parte da cultur a não-mate- trumentos musicais, ou seja, de objetos que ser-
rial. Vejamos outros exemplos. vem para produzir sons.
A maior parte da população br asileir a segue a Da mesma forma que uma melodia requer ins-
religião católica, não há pena de morte em nossa trumentos musicais para sua exter ior ização, tam-
legislação e a miscigenação r acial é muito for te, bém as r eligiões, de modo geral, necessitam de
embora persistam manifestações de preconceito e templos, altares e outros componentes materiais
atitudes discr iminatór ias, principalmente contra para que possam ser praticadas.
os negros. Esses aspectos não-mater iais de nossa Na ve r d a d e ,^ inter dependência entre esses
cultur a contrastam com os que encontramos nos dois aspectos é intr ínseca a qualquer cultur a, pois
Estados Unidos - uma sociedade de maioria pro- um grupo só pode r ealizar sua cultur a não-mate-
testante, na qual muitos estados empregam a pena rial apoiado em meios concretos de expressão que
de morte e onde a discriminação r acial era oficial- fazem parte de sua cultur a mater ial, j

Componentes da cultura
\ ! |
A cult ur a é um todo or gânico, um sistema, pernambucano (o mesmo se pode dizer do samba
um conjunto cujas partes se r elacionam est r ei- no Rio de Ja n e ir o) .
tamente. Para melhor compreender o que é uma Traço cultur al é o menor componente repre-
cu lt u r a, vamos estudar alguns de seus compo- sentativo de uma cult ur a. Ele pode ser um objeto
nentes. mater ial - por exemplo, o cocar de penas usado
Os pr incipais aspectos de uma cultur a são: os por nossos índios. Neste caso, ele próprio é cons-
traços culturais, o complexo cultural, a área cultu- tituído de partes menores, como as penas usadas
ral, o padrão cultural e a subcultura. em sua confecção. Entr etanto, as penas de pássaro
só passam a ser um traço cultur al quando r euni-
Traços culturais das, em nosso exemplo, na forma de cocar.
Você já viu alguém dançando frevo? Tr at a- Um carro, um lápis, uma capa, uma pulseir a,
se de um género musical típico de Pernambuco um computador, um filme são outros exemplos de
e do car naval do Recife e de Olinda. Pois bem, traços cultur ais. Os traços cultur ais são os compo-
cada passo do frevo é um traço cu lt u r al dessa nentes mais simples da cult ur a. Eles são as unida-
manifestação de cultur a popular que é o car naval des de uma cult ur a.

187
CAPITULO 10 Cultura: nossa herança social

Passi st as de f r ev o p ar t i ci p am do t r ad i ci o n al d esf i l e
de papan gu s r eal i zad o em Bezer r os, no est ad o de
Per n am bu co, em f o t o de f ev er ei r o de 20

É necessário ressaltar que os traços cultur ais elétricos, desfiles, orquestras de frevo (no caso de
só têm significado quando considerados no con- Pernambuco), baterias de escolas de samba (Rio de
texto de uma cultur a específica. Um colar pode ser Janeir o), fantasias, etc. Da mesma forma, o futebol
um simples adorno para determinado grupo e para é um complexo cultur al que pode ser desmembrado
outro ter um significado mágico ou religioso. em vários traços cultur ais: o campo, a bola, o ju iz,
Para os fiéis de religiões afro-brasileiras como os jogadores, a torcida, as regras do jogo, etc.
o candomblé, por exemplo, as cores do colar usado
dependem da divindade cultuada pela pessoa. De Áre a cultural
acordo com a cr ença, eles dão proteção a quem os A região em que predominam determinados
u t iliza. Portanto, só quando consideramos o con- complexos cultur ais forma uma área cult ur al.
junto da cultur a é que podemos entender um de- Esta consiste, por tanto, em um espaço geográfico
terminado traço cult ur al. No exemplo do frevo de no qual se manifesta cer ta cult ur a. Salvador, na
Pernambuco, determinado passo só pode ser en - Bahia, por exemplo, constitui uma área cult ur al
tendido como traço cultur al quando integrado ao dotada de grande riqueza em termos de comple-
todo orgânico daquela cultur a (o frevo pernambu- xos cultur ais, como o car naval, certos géneros de
cano conta com mais de cem passos catalogados). samba, o candomblé, a capoeira, etc.
Grupos humanos localizados em deter mina-
Comple xo cultural da área cult ur al apresentam grandes semelhanças
A combinação dos traços culturais em torno de quanto aos traços e complexos cultur ais. Quando
uma atividade básica forma um complexo cultur al. diversas cultur as, de diferentes origens, se encon-
Por exemplo, o carnaval no Brasil é um com- tr am em uma mesma área cult ur al, e entre elas
plexo cultur al que reúne um grupo de traços cul- se desenvolve uma relação de simbiose e respeito
turais relacionados uns com os outros: carros alegó- mútuo, temos uma situação multicultural (veja o
ricos, música, dança, instrumentos musicais, trios boxe a seguir ).

188
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

I O que é? ]
M u l t i cu l t u r al i sm o e e d u ca çã o

À pr imeir a vis t a , o conceito de m u lt i- dade cultural e a celebração da diferença não


cultur alismo alar ga o espaço da democracia problematizam os conflitos e as contradições
e in st au r a a toler ância m u lt ir r acial onde a n - das relações étnico-raciais assimétricas; não
tes h a via in t oler ân cia, pr econceito e d iscr i- aprofundam a discussão do racismo, do se-
m in ação. A autor a do t ext o a seguir , por ém, xismo e da xenofobia.
chama a at en ção par a cer tas contr adições Consequentemente, não propõem alter-
iner entes ao conceito. nativas concretas de superação do preconcei-
Características do multiculturalismo: re- to e da discriminação para que as diferenças
conhecimento da filiação de cada pessoa a não sejam transformadas em desigualdades,
um grupo cultural; destaque à herança cultu- e, de fato, os diversos grupos étnico-raciais
ral de cada grupo, para que os demais possam possam respeitar-se mutuamente e conviver
apreciá-la e respeitá-la; afirmação da equiva- em harmonia.
lência dos vários grupos étnico-culturais de A educação antirracista, ao contrário
uma dada sociedade; postulação do direito do multiculturalismo, compreende o racismo
dos grupos sociais manterem sua singulari- como elemento estrutural dás sociedades
dade cultural; enaltecimento da diversidade. modernas, como um conjunto de políticas,
Nos Estados Unidos, o multiculturalismo concepções institucionais e práticas da vida
tomou vulto nos últimos dez anos, em respos- cotidiana que reiteram a primazia de um
ta às atitudes racistas e xenófobas contra os grupo pretensamente superior sobre outros.
imigrantes latinos pela população branca. 0 racismo é tratado como uma ideologia que
Na Europa, o problema da diversidade precisa ser explicitada e combatida. Uma
étnico-cultural é mais antigo e complexo. ideologia que não pode ser amortecida ou
As migrações de países da África e da Ásia camuflada por falsas crenças de convivência
ocorridas nas décadas de 1970 e 1980, mo- pacífica e harmoniosa. Por trás destas, des-
tivadas por conflitos étnicos, guerras, fenó- cortina-se o esconderijo de práticas insidio-
menos sociais e físicos (fome, seca), criaram sas de subordinação, protagonizadas por um
a categoria dos "refugiados". '[...'] grupo racial dominante sobre outro(s).
Tornou-se necessário então que a edu- Adaptado de : SILVA, Maria Apare cida da. Multiculturalis mo
e e ducação . Educa-Ação, n . 7 , 2 6 .8 .9 8 .
cação formal desse respostas aos problemas
gerados pela convivência de culturas diver-
sas no mesmo espaço social. Nesse sentido, Va m o s p e n sa r ?
foram desenvolvidas várias iniciativas de to-
lerância cultural e enaltecimento da diversi-
dade. Mas o que significa tolerar alguém, ou 1 . Explique a diferença entre
tolerar outra cultura? multicultur alismo e educação
antir r acista.
A educação antirracista, ideário que se
declarou concomitante ao multiculturalismo 2. Como você aplicar ia as noções de
em escolas europeias, foi a primeira a apon- multicultur alismo e de educação
tar as contradições do multiculturalismo. Ou antir r acista no Br asil atual?
seja, a exposição pura e simples da diversi-

189
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

Padrão cultural Isso ocorre em razão da presença nessas áreas


Padrão cultur al é um conjunto de normas que de imigrantes de origem europeia - pr incipalmen-
regem o comportamento dos indivíduos de deter- te italianos e alemães - que ali se instalar am no
minada cultur a ou sociedade. Alguns antr opólo- fin al do século XIX e que, por seu isolamento,
gos o definem como uma estr utur a no inter ior da mantiveram traços cultur ais dos países de origem:
sociedade que estabelece um tipo generalizado de hábitos alimentar es, festas típicas e, em alguns
conduta a ser seguido pelas pessoas dessa socie- casos, até o idioma mater no. Temos, assim, uma
dade. Desse modo, quando os membros de uma so- subcultur a regional no quadro mais amplo da cu l-
ciedade agem de uma mesma forma estão expres- tur a br asileir a.
sando os padrões cultur ais do grupo. Por exemplo, A ocor r ência de subcultur as não se lim it a
o casamento monogâmico é um dos padrões cult u- a difer enças r egionais. Também pode se ve r ifi-
rais da sociedade br asileir a. car n a r elação entre ger ações ou entr e grupos
0 padrão cultural tem, portanto, uma relação di- de difer entes origens ét n icas. Exemplo do p r i-
reta com o processo de socialização dos indivíduos. meiro caso são as atitudes adotadas por grupos
jovens ao cr iar costumes e modos de vid a r adi-
Subcultura calmente distintos da norma ad ult a. Para certos
No interior de uma cultura podem aparecer di- autor es, as chamadas "tr ibos ur banas" - como
ferenças significativas, caracterizando a existência os punks, os gót icos, os skinheads, et c. - ser iam
de uma subcultura. Assim, por exemplo, há comuni- manifestações de uma subcultur a ju ve n il. De
dades no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, fato, os integr antes dessas "t r ibos" procuram se
nas quais certos costumes e valores se diferenciam difer enciar das ger ações mais velhas e de outros
claramente dos praticados em outras regiões do grupos ju ve n is , identificando-se pelos símbolos
país. Em algumas dessas comunidades, as pessoas comuns, como o vestuár io e o linguajar peculia-
se comunicam não só em português, mas também res que car acter izam o espír ito do grupo (veja o
em idiomas europeus, como o alemão. boxe a segu ir ) .

dança t íp i ca na Fest a do Ker b em Dois


I r m ãos, no Rio Gr ande do Su l .

190
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

TRIBOS URBANAS
t e xt o a segu ir a b o r d a a vio lê n c ia , em da Ví c i o Pu n k , uma das doze gangues gue atuam
Sã o P a u lo , d e algu m as "t r ib o s u r b an as", na cidadf. Suspeita-se gue o rapaz gue apanhou até
c o m o os punks e os skinheads. O s d o is gr u p o s sofrer traumatismo craniano efraturas no maxilar seja
se in sp ir a m em id e o lo gia s o p o st as - os punks ligado a um grupo rival de skinheads.
sã o co n t r á r io s ao "sistem a",- os skinheads sã o Esse foi o segundo atague de punks em uma se-
r acist as e at é n a z ist a s - e se d ife r e n cia m v i - mana. No dia 14, delinguentes mataram, a facadas,
su a lm e n t e p ela in d u m e n t á r ia . O s punks u sam o balconista Jaãton de Souza Pacheco no Terminal
ca b e lo c o lo r id o c o m co r t e m o ic a n o . Já os skin- Pargue Dom Pedro II, no centro. Os punks gueriam
heads ( ca b e ça s r asp ad as) sã o ca r e ca s. O s skin- pagar 60 centavos por um pedaço de pizza gue custava
heads sã o vist o s c o m su sp e n só r io s ( n o caso d os t real, o gue motivou a discussão. Dois homens e uma
n e o n a z ist a s White Powers, de co r b r an ca). O s mulher foram presos.
punks ve st e m ca m ise t a s c o m n o m e de b a n d a De grande repercussão, a morte do turista fran-
e, m u it as ve z e s, e xib e m t at u agen s, co r r e n t e s cês Grégor Erwan Landouar, esfagueado nos Jardins
e b r a ce le t e s. em 10 de junho, teve uma explicação bomofóbica-. a
Uns pregam o antissemitismo, outros, o patrio- vítima havia participado da Pa r a d a Ga y. "Ele disse
tismo, e há os gue nutrem ódio por nordestinos, negros, em juízo gue ficou revoltado guando viu duas pessoas
gays... A maioria deles, no entanto, mal conhece as teo- do mesmo sexo se beijando e resolveu matar a primeira
rias gue defende. pessoa gue encontrasse pela frente", conta o promotor
Na cabeça de uns, espalhafatosos cabelos moica- Maurício Ribeiro Lopes, referindo-se a Genésio Ma-
nos azuis, verdes ou vermelhos espetados com gel [veja a riuzzi Filho, o "Antrax", preso sob a acusação de ter
foto]. Na de outros, só o brilho da careca. [...] "Gosto matado o francês. No mesmo mês, membros da gangue
de beber, conhecer novos punks, brigar e agitar muito. D e va s t a ç ã o P u n k mataram o garçom John Clayton
Sou um cara subversivo e tento de alguma forma des- Moreira Batista, também nos Jardins, por ele ter se re-
truir esse sistema", diz o estudante Johní Raoni Falcão cusado a emprestar um isgueiro.
Galanciak, 21 anos. Pelo gue se vê, há fartura de casos policiais re-
Na madrugada do dia 21.10.07, ele estava entre latando o envolvimento de punks, skinheads e sabe-se
os 25 punks acusados de espancar e desfigurar o rosto lã o gue mais em depredações, brigas e assassinatos. Só
do estudante G.C., de 17 anos, na avenida Tiradentes. neste ano, a ação-dessas gangues resultou na morte de
Nove deles, inclusive Galanciak, já fichado na polícia, seis pessoas. [...]
foram presos em seguida. Os delinguentes fazem parte Assim, a polícia tenta patrulhar e acompanhar
a ação de grupos como Am e a ça Pu n k, Vício Pu n k,
D e va st a çã o Pu n k , Ph u n er al Pu n k, Ca r e ca s d o
ABC , Ca r e ca s d o Su b ú r b io, Fr o n t 88, Im p act o
H o o liga n , Brigad a H o o liga n , entre outros. Uns pre-
gam o antissemitismo, outros, o patriotismo, e há os gue
nutrem ódio por nordestinos, negros e homossexuais. [...]
Em geral, os membros dessas facções são jo-

Punk no vens de classe média baixa. Muitos trabalham como


m er cado o ffice-b o ys, seguranças, vendedores, auxiliares de
de Can den
escritório, ou se apresentam como estudantes.
Tow n.
Lon dr es, Ad a p t a d o d e : V E I G A , E d i s o n , B R I S O L L A ,
I n g l at er r a, F á b i o , G E N Z I N I , Le o n a r d o , e S A L V O , Ma r i a P a o l a d e .
1997. El e s t ê m ó d i o d e q u ê ? Veja, 2 6 . 1 0 . 0 7 .
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

4 Cultura e progresso
Cada geração passa por processos de apr endi- Difusão cultural
zagem, nos quais assimila a cult ur a de seu tempo Alguns traços cultur ais, como uma nova moda
e se tor na apta a enriquecer o patr imônio cu l- ou um equipamento recentemente inventado, d i-
t u r al das gerações futur as. É na capacidade que fundem-se não só na sociedade em que tiver am
os grupos têm de perpetuar e acrescentar novos origem, mas também entre outras cultur as, geral-
valores à cult ur a que reside a possibilidade de mente por intermédio dos meios de comunicação
progresso. (jor nais, televisão, cinema, r ádio, int er net , e t c ) .
Todo progresso é r esultante da síntese de Quando isso ocorre, dizemos que está h a -
valores novos com componentes cultur ais já vendo um processo de difusão cu lt u r a l. Pode-se
adquir idos. Desse modo, apesar das mudanças, afir mar que o enriquecimento cu lt u r al se ver ifica
alguns valores cultur ais tendem a permanecer, mais frequentemente por difusão do que por i n -
assegurando a continuidade da cult ur a de uma venção (voltaremos a tr atar das invenções e da
sociedade entre uma e outr a ger ação. Por mais difusão cu lt u r al no capítulo 1 2 ) .
viva e in ven t iva que seja uma nova cu lt u r a, as Geralmente, o patr imônio de uma cultur a
gerações quase nunca rompem inteir amente com cresce de geração em geração. As cultur as se de-
seu passado. senvolvem incorporando traços cultur ais em maior
Em ger al, o enriquecimento do patr imônio número do que aqueles que caem em desuso. As-
cult ur al de uma sociedade se faz por meio de dois sim, considerada em uma perspectiva histór ica,
processos: a invenção e a difusão. Depois de es- a cultur a pode ser definida como o somatório de
t udá-los, vamos ver como o desequilíbr io entre todas as realizações das gerações passadas que se
os difer entes aspectos da cult ur a geram o proces- sucederam no tempo, mais as realizações da gera-
so conhecido como retardamento cultural. ção presente.

Mudanças no patrim ô nio cultural Re tardame nto cultural


Em meados do século XIX, o uso do motor As mudanças dos diversos componentes da
a vapor para mover um veículo correndo sobre cultur a não ocorrem no mesmo r itmo: alguns se
tr ilhos cr iou um meio de tr anspor te que t er ia im - transformam mais rapidamente do que outros. As
por tância decisiva no mundo moderno: o t r em . invenções, por exemplo, acarretam mudanças mais
Impacto maior ainda foi provocado no fim daque- aceleradas na cultur a mater ial do que na cultur a
le século pela invenção do automóvel, que era não-mater ial: os instr umentos, as máquinas e as
pouco mais que uma carruagem impulsionada por técnicas mudam mais rapidamente do que a r eli-
um motor a explosão. Essas duas invenções con- gião, os padrões familiar es, a educação, etc.
tr ibuír am para notáveis mudanças na sociedade Essa difer ença de r itmo provoca descompas-
do século XX. sos entre os diversos componentes da cu lt u r a. A
Como veremos no capítulo 12, as invenções intr odução da pílula anticoncepcional na década
são geradas pela combinação entre o patrimônio de 1960, por exemplo, encontr ou grande r esis-
cultur al da sociedade e determinadas necessida- t ência por parte de setores r eligiosos, enquanto
des sociais, além, é clar o, da criatividade dos in - milhões de mulheres em todo o mundo já se be-
ventores. Entr etanto, nenhum inventor parte da neficiavam com a in ven ção.
estaca zer o. Em seu trabalho de cr iação, ele se Toda vez que há um desequilíbr io no r itmo
apoia no conhecimento acumulado de sua cult ur a, de desenvolvimento dos diversos aspectos da cu l-
combinando elementos preexistentes para produ- t u r a , pode-se falar de retardamento ou demora
zir algo novo. cu lt u r al.

192
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

O fe nóme no da aculturação

Durante a colonização do Br asil, houve in t en - Esse processo de mudança cultur al provoca-


so contato entre a cultur a do conquistador por- da pelo contato entre dois ou mais grupos cu l-
tuguês e as cultur as dos povos indígenas e dos turalmente distintos, e no qual um desses gr u-
africanos escravizados. pos assimila aspectos da cultur a de outro grupo,
Em decorrência desse con t at o, ocorreram m od i- é tradicionalmente conhecido como aculturação.
ficações, tanto na cultura dos europeus recém-che- Entr etanto, nos anos 1970, alguns cientistas so-
gados - que assimilaram muitos traços culturais dos ciais, como o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro
outros povos - quanto na dos indígenas e africanos, (1922-1997), questionaram essa conceituação.
que foram subjugados e perderam muitas de suas Na verdade, diziam eles, a adoção de traços
características culturais. Desse processo de contato culturais de um grupo por outro geralmente envol-
e mudança cultur al resultou a cultura brasileira. ve desigualdades ou assimetrias, como ocorre, por
Quando seres humanos de grupos diferentes exemplo, com a relação entre os povos indígenas e a
entram em contato direto e contínuo, geralmen- sociedade capitalista no Br asil. Não se tr ata de uma
te ocorrem mudanças cultur ais, pois se ver ifica a relação entre iguais, mas de uma relação de domina-
transmissão de traços cultur ais de uma sociedade ção. Essa dominação pode ser de t al forma intensa
para outr a. Alguns traços são rejeitados; outros que não deixa ao grupo subordinado nenhuma a l-
são aceitos e incorporados, quase sempre com mu- ter nativa senão aculturar-se (LINDOSO, Felipe. In :
danças significativas, à cultur a r esultante. Dicionário de Ciências Sociais, op. c i t , p. 1 9 ) .

Gr avur a de Jean - Bap t i st e Debr et r ep r esen t an d o sol d ad os- ím


acu l t u r ad os " caçan d o " i n d íg en as na r egi ão de Moj i das Cruz
em São Pau l o, no com eço do sécu l o XI X.

193
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

QUILOMBOS E QUILOMBOLAS
m n o ve m b r o de 2006, r ealizou -se n a c o - o jo n go . Ain d a h oje, esse r it m o é p rat icad o em
m u n id ad e q u ilo m b o la Sã o Jo s é d a Se r r a , diversas com u n id ad es rem an escen t es d os an t i-
n o Ri o de Ja n e ir o , o 1 l 2 En c o n t r o de Jo n gu e i- gos qu ilom b os, as com u n id ad es qu ilom b olas.
r os. Ce r c a de 700 pessoas est iver am p r esen - Exis t e m at u alm en t e ce r ca d e 1098 des-
t es, r ep r esen t an d o ca t o r z e gr u p os de jo n go . sas co m u n id a d e s n o Br asil. N e la s, os d escen -
O jo n go é u m gén er o m u sical qu e reú n e d en t es d os afr ican os escr a viz a d o s p r eser vam
m ú sica e d an ça de t rad ição african a. Na sce u n o t r aço s de su a cu lt u r a o r igin a l. Esses t r aço s c u l-
sécu lo X I X en t re os n egros ban t os que t raba- t u rais r eafir m am o sen t im en t o de id en t id ad e
lh avam co m o escravos nas fazen das de café do é t n ica e cu lt u r a l dessas pessoas, co n t r ib u in d o
Vale d o Paraíba. O s que fugiam e form avam qu i- p ara m an t er a c o e s ã o d o gr u p o a q u e p er t en -
lom bos p rocu ravam preservar suas t rad ições de ce m . Cr i a m , assim , form as de su b cu lt u r a n o
origem african a o u afro-brasileira, en t re as quais co n t e xt o d a cu lt u r a b r asileir a .

Marginalidade cultural res e pescadores. Também não estão incorporados


Na cidade paulista de Tupã - n a r eser va dos à cult ur a da sociedade que os cer ca. São mansos
índios Kaingang - vivem duzentos indígenas cu l- e t r ist es.
tur almente descaracterizados. Eles desconhecem Quando duas cultur as entr am em contato e
seu passado, não conseguem se expressar em sua uma delas se impõe à outr a pela for ça, geralmente
própria lín gu a , não se lembram de seus cantos, de ocorrem - além da acultur ação - conflitos emo-
suas danças e de suas antigas pr áticas de caçado- cionais nos indivíduos que pertencem à cult ur a

194
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

dominada. Aqueles que não conseguem se integrar destruída por um grupo dominante. A situação de
totalmente a nenhuma das cultur as que os rodeia povos indígenas no Br asil, como os Kaingang e
ficam à margem da sociedade. A esse fenómeno outros, é r esultante dessa relação desigual, assi-
dá-se o nome de marginalidade cultural. métr ica, entre a cultur a do dominador (que, nesse
A marginalidade cultur al também pode ocor- caso, incluía armas de fogo e bebidas alcoólicas) e
rer quando a cultur a de um grupo é degradada e a cultur a do dominado.

Cultura e contracultura

Nas sociedades contemporâneas encontramos qualquer preço, etc. Além disso, era radicalmente
pessoas que contestam certos valores cultur ais v i - contrário à Guerra do Vietnã (1959-1975), à estr u-
gentes, opondo-se radicalmente a eles num movi- tur a familiar convencional, à sociedade de consu-
mento chamado de contracultura. mo e aos hábitos alimentares baseados em comida
Na década de 1950, os Estados Unidos conhe- industrializada efastfood (refeição rápida) - traços
ceram a beat generation (geração beat), que con- culturais típicos da sociedade norte-americana.
testava o consumismo do pós-guerra norte-ameri- Muitos jovens dessa época deixaram casa e
cano, o American wayoflife (estilo norte-americano universidade para viver em comunidades no cam-
de vida) que os filmes de Hollywood apregoavam, po, onde plantavam e produziam a própria comida
o anticomunismo generalizado e a ausência de um e educavam seus filhos com base em valores mais
pensamento cr ítico. humanizados. Alguns abraçaram religiões or ien-
Na década de 1960, também nos Estados Un i- t ais, como o zen-budismo e o hinduísmo. Seu pr in-
dos, sur giu o movimento hippie. Como a beat cipal lema er a: "faça amor, não faça a guerra".
generation, foi um fenómeno de contracultura, por- Em fins dos anos 1970, o movimento hippie,
que contestava os valores fundamentais da socie- que havia ultrapassado as fronteiras dos Estados
dade industr ial: a competição desenfreada, a acu- Unidos, foi perdendo o vigor, até desaparecer por
mulação de riquezas, a lut a pela ascensão social a completo, às vésperas da década de 1980.

195
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

Controle social

Segundo o sociólogo norte-americano G. Smith dam suas experiências e seu comportamento. As


Russel, "nove décimos de tudo o que você faz, diz, primeiras palavras de uma criança são necessaria-
pensa, sente, desde que se levanta de manhã cedo mente pronunciadas em uma língua determinada.
até que vai para a cama dormir, você diz, faz, pen- Por isso mesmo, essa criança já é um produto da
sa, sente não como expressão própria, indepen- cultur a em que vive. Ao tornar-se adulta, já está
dente, mas em conformidade inconsciente e sem suficientemente treinada para tomar parte nas at i-
crítica com regras, regulamentos, hábitos grupais, vidades da comunidade, com seus hábitos e suas
padrões, códigos, estilos e sensações que existiam crenças".
muito antes que você nascesse". A primeira "agência" de controle social é a
Já vimos que a sociabilidade - tendência n a - família. Desde que nasce, a criança é or ientada,
tur al da espécie humana para viver em sociedade educada e moldada pelo grupo familiar . Depois da
- é desenvolvida por meio do processo de sociali- família, temos a Igr eja, a escola e o Estado: são
zação, pelo qual o indivíduo se integr a ao grupo todos "agências" formais ou institucionalizadas de
em que nasceu, assimilando sua cultur a (veja o controle social.
capítulo 3 ) .
A socialização, como vimos, é o ato de tr ans- Tipo s de co ntro le s o ci a l
mitir ao indivíduo - ou seja, de levá-lo a assimilar 0 controle social pode ser difuso (infor mal)
e intr ojetar - os padrões cultur ais da sociedade. ou institucionalizado (for mal). Nas comunidades
Trata-se de um processo social abrangente, pois- isoladas e pequenas, como os povoados do inter ior
afeta dir eta ou indiretamente todos os indivíduos ou as aldeias indígenas, o controle social é difuso,
que vivem em uma determinada comunidade ou vago, muitas vezes de caráter r eligioso. Nas socie-
sociedade. dades complexas, o controle social é instituciona-
0 maior instrumento de socialização é o con- lizado ou for mal, isto é, há órgãos e instituições
trole social. Segundo Alain Bir ou, "controle social sociais encarregados de sua aplicação, como a po-
é o conjunto dos meios e processos pelos quais um lícia, a Ju s t iça , etc.
grupo ou uma unidade social leva os seus mem- Também as sanções podem ser difusas ou or-
bros a adotarem comportamentos, normas, regras ganizadas, dependendo do tipo de controle social.
de conduta, até mesmo costumes, conformes aos Mas, quando algumas sanções estabelecidas pela
que o grupo considera socialmente bom". sociedade deixam de funcionar, surge a necessida-
0 olhar de reprovação dos pais quando a de de elaborar novas leis e criar novas instituições
criança toma sopa fazendo bar ulho, a punição para exercer com eficácia o controle social dese-
para quem cometeu um delito, a recompensa para jado. Nas sociedades modernas, mais complexas,
aquele que cumpre todas as regras, seja na escola, aumenta a presença da instituição jur ídica, da
na vida pr ofissional ou em qualquer outra esfera instituição policial e do Estado, em substituição
da vida social, a repressão policial a uma manifes- aos controles espontâneos, antes exercidos pela
tação não autor izada, o apelo a valores morais, são família e pelos membros da comunidade.
exemplos de controle social.
Para a antropóloga norte-americana Ruth Funçõ e s do co ntro le s o ci a l
Benedict (1887-1948), "a história da evolução de Assim, nas sociedades modernas os sistemas
um indivíduo é, antes de mais nada, o relato de de controle social são quase totalmente in st i-
sua acomodação aos padrões e tradições vigentes tucionalizados, isto é, dependem mais de leis e
em sua comunidade. Desde o momento em que ele regras estabelecidas do que de normas impostas
nasce, os costumes do grupo a que pertence mol- pela tr adição.

196
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

Ao mesmo tempo, à medida que as socieda- órgãos específicos de caráter repressivo ou jur ídi-
des vão se tornando mais complexas, os sistemas co, como a polícia e os tr ibunais de just iça.
de controle passam a assumir diferentes fun ções. As funções de proteção social relacionam-se
Estas não se impõem meramente para punir ações ao cumprimento de normas que beneficiam setores
ilícitas ou fazer valer determinadas normas e pa- menos protegidos da sociedade. Entre elas estão as
dr ões, mas também têm a finalidade de manter de previdência social e a proteção dos direitos hu-
o equilíbr io da sociedade e de dar proteção so- manos. Dessas funções faz parte também a proteção
cial efetiva aos seus membros socialmente desam- das crianças e adolescentes, da mulher e dos idosos,
parados. assim como a garantia de que sejam asseguradas a
^ b e modo ger al, podemos falar de três funções igualdade de direitos na educação, a assistência mé-
de controle social: dica universal e a defesa do meio ambiente.
• a de ordem social; As funções de eficiência social estão r elacio-
• a de proteção social; nadas com regras e procedimentos que levem os
• a de eficiência social. indivíduos a contribuir de forma produtiva para
As funções de controle de ordem social ligam- o bem-estar e o desenvolvimento da sociedade.
se à aplicação de normas e de leis. Por exemplo, fa- A proteção ao tr abalho, as ações cooperativas, a
zer cumprir a le i, prender e punir criminosos, man- formação pr ofissional, os cuidados com a saúde
ter a ordem pública. Na sociedade moderna, essas pública e com a educação em geral estão entre
funções são desempenhadas pelo Estado, com seus essas funções.

197
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

I • Li vro s s u ge ri d o s
• SANTOS, José Luiz dos. 0 que é cultura. São Paulo: Br asiliense, 1983. Coleção Primeiros Passos.

• BRANDÃO, Carlos Rodrigues. 0 que é folclore. São Paulo: Br asiliense, 1982. Coleção Primeiros Passos.

• CARVALHO, Edgard de Assis. Enigmas da cultura. São Paulo: Cor tez, 2003.

• GUARNACCIA, Matteo. Provos: Amsterdam e o nascimento da contracultura. São Paulo: Conrad, 2 0 0 1 .

—• Fi lm e s s u ge ri d o s
• Hans Staden, de Luiz Alberto Per eir a, 1999. Histór ia ver ídica do viajante Hans Staden, que em 1550 naufragou no
lit or al da at ual Santa Catar ina e vive u por algum tempo entr e os Tupinambá.

• Kuarup, In st it ut o Nacional do Cinema Educativo, 1962. Documentár io sobre ritual indígena que nar r a a origem
mítica dos povos do Xin gu.

• Imbé Gikegu - cheiro de pequi, de Nguné Elii, 2006. Documentár io sobre a vid a em uma aldeia dos índios Ku iku r o,
n a região amazônica.

• Havaí, de George Roy Hill, 1966. Missionário ocidental t en t a catequizar nativos de ilh a do Pacífico mas tem de
enfr entar as difer enças entre as duas cult ur as.

• Sem destino, de Dennis Hopper, 1969. Em 1968, dois jovens viajam de moto pelo int er ior dos EUA e sofrem a
reação de habitantes conservadores da r egião.

• Encantadora de baleias, de Niki Caro, 2003. Menina lu t a para assumir a lider ança dos maor is, na Nova Zelândia, e
enfr enta as tr adições cultur ais de seu povo.

• Hair, de Milos For man, 1969. Jovem do inter ior dos Estados Unidos va i para Nova York par a se alistar no Exército
mas se envolve com grupo de hippies.

• Geração roubada, de Phillip Noyce, 2002. Em 1 9 3 1 , três meninas fogem de um campo do governo br itânico n a
Austr ália, criado para t r einar mulheres para os ser viços domésticos, e sofrem per seguição da polícia.

• Um homem chamado cavalo, de Elliot Silver st ein , 1970. Capturado por indígenas nor te-amer icanos, homem branco
abraça a cult ur a da t r ibo, mas tem de passar por duras provas para se tor nar guer r eir o.

• Crepúsculo de uma raça, de Jo h n For d, 1964. A lu t a pela sobrevivência de um povo indígena norte-americano
diante do avanço da sociedade capit alist a.

• Nome de família, de Mira Nair, 2006. Adolescente de origem indiana vive conflitos de adaptação em Nova Yor k,
nos EUA, onde passa a viver .

• Brava gente brasileira, de Lúcia Murat, 2000. Em 1776, algumas índias são estupradas por soldados portugueses no
at ual estado de Mato Grosso do Su l.

Tr ab al h an d o com f i l m es
Sob a orientação do professor, reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais
filmes indicados na lista de sugestões. Terminada a sessão, façam um debate em torno do que viram e
escrevam um texto coletivo com as conclusões do grupo, tendo em mente as seguintes questões:

• Que relações podem ser estabelecidas entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de cultur a? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há referências a manifestações de contr acultur a? Sob que formas elas se manifestam no filme?

• Há r efer ências à questão do controle social? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há r efer ências à questão da acultur ação? De que forma o filme aborda essa questão?

198
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

Qu est ões p r op ost as

1. Sem consultar o texto do cap ít u lo, explique o que é cu lt u r a.

2. Qual a relação entr e educação e cultur a?

3. Cite quatro exemplos de elementos da cult ur a mat er ial que o rodeiam neste momento.

4. Cite quatro exemplos de elementos da cult ur a n ão-mat er ial.

5. Quais são os dois processos básicos pelos quais se dá o crescimento do patr imônio cu lt u r al
de um grupo?

6 . Cite um exemplo de difusão cu lt u r al que você t en h a presenciado.

7 .0 que você entende por subcultur a e contr acultur a? Cite um exemplo de cada conceito.

8. Explique com suas palavr as o objetivo do controle social.

A cult ura do capit alismo


A cultura do capitalismo seculariza tudo o gue encontra pela frente e pode transformar muita coisa em
mercadoria, inclusive signos, símbolos, emblemas, fetiches [o verbo secularizar é usado agui em sentido figurado,
no sentido de gue o capitalismo reduz tudo às leis de mercado]. Tudo se seculariza, instrumentaliza, desencanta.
Essa é uma exigência da racionalização formal, pragmática, definida em termos de fins e meios objetivos,
imediatos.

U m a r a cio n a liz a çã o cad a ve z m ais va z ia os lu gares, r egiõ es, p aíses, co n t in en t es, a des-
d e valo r es gerais e p ar t icu lar es q u e n ã o p o- p eit o das d iferen ças sociocu lt u r ais qu e lh es são
d em t r ad u zir -se n os t er m os d o status guo [ o u p r óp r ias, os in d ivíd u os e as colet ivid ad es sã o
seja, va lo r e s qu e n ã o p o d em ser r e d u z id o s m o vid o s pela m er cad or ia, m er cad o, d in h e ir o ,
às leis d e m e r ca d o ]. Ao r eflet ir sob r e a p r o - cap it al, p r od u t ivid ad e, lu cr at ivid ad e.
gr essiva u n ive r sa liz a çã o dessa r a cio n a lid a d e , So b vá r io s asp ect os, o n o vo c ic lo d e
W e b e r "d em o n st r a a n ít id a r esist ên cia d a m o - o cid e n t a liz a çã o r e co lo ca o p r o b le m a d a m u n -
d er n a r a cio n a lid a d e form al d a o r d em so cia l d ia liz a çã o d a in d ú st ria cu lt u r a l, c o m a e xp a n -
e e c o n ó m ic a d ian t e d e valo r es d e igu ald ad e, são d os m eios d e c o m u n ic a ç ã o d e m assa e a
fr at er n id ad e e car id ad e, e m o st r a co m o a r a - p r o d u çã o de u m a cu lt u r a d e t ip o in t e r n a cio -
cio n a lid a d e for m al im p u lsio n a os in t eresses n a l-p o p u la r [so b r e a in d ú st ria cu lt u r a l, ve ja o
de gr u p os e co n o m ica m e n t e p r ivilegiad o s". Dicionário básico de Sociologia n o fim d o l i vr o ] .
Ser ia difícil co m p r een d er os ciclo s e as Ver ifica -se a m o b iliz a çã o d e t od os os r ecu r -
or ien t ações d a o cid e n t a liz a çã o d o m u n d o sem sos d isp o n íve is d os m eios d e c o m u n ic a ç ã o ,
levar em co n t a a su a cu lt u r a, cu lt u r a essa n a d a m íd ia em ger al, im p r essa e e le t r ô n ica , d e
qu al o p rocesso d e r acio n alização u n iver sal m o d o a "r e-ed u car " p o vo s, n a çõ e s e c o n t in e n -
jo ga u m papel essen cial. Ao s p ou cos, em t od os t es. [...]

!•
199
CAPÍTULO 10 Cultura: nossa herança social

U m sin t om a m u it o car act er íst ico da for- lan çam n a socied ad e m u n d ia l suas p r o d u çõ e s
m a pela qu al ocor r e o n o vo ciclo de ocid en t a- o r igin a is. [...]
lização d o m u n d o est á n o fato de que a lín gu a N a cu lt u r a da socied ad e glo b a l, as r e li-
in glesa se t or n ou u m a lín gu a u n iver sal. É usada giõ e s e seit as, as lín gu as e d ialet os, os n a cio -
n ão som en t e en t re eu ropeu s e n or t e-am er ica- n alism os e as n a cio n a lid a d es, as id eologias e
n os, p or u m lad o, m as t am b ém p or asiát icos, as u t op ias, ressu rgem co m o se fossem er u p -
african os e lat in o-am er ican os. É usada igu al- çõ e s vu lcâ n ica s. M a s ressu rgem d ifer en t es,
m en t e en t re d iferen t es p ovos african os, asiá- co m ou t r os sign ificad o s, em ou t r os h o r i z o n -
t icos e lat in o-am er ican os, qu an d o n ecessit am t es. P r im e ir o , p orq u e se d e b ilit a m o u m esm o
com u n icar -se en t re si. E h á p aíses, co m o a ín - se q u eb r am est ru t u ras n a cio n a is, o que ab re
d ia, p or exem p lo , em que o in glês é a lín gu a n ovas p ossib ilid ad es a p a r t icu la r ism o s, r egio-
n acion al de fato. [...] n alism o s, sin gu lar id ad es.
É ó b vio qu e a o cid e n t a liz a çã o n ã o flui Se gu n d o , p orq u e as n ovas est ru t u ras
t r a n q u ila m en t e. P r im e ir o , p or q u e as n a çõ e s m u n d iais n ã o foram a in d a su ficien t em en t e
d o m in a n t e s e as o r ga n iz a çõ e s m u lt in a cio n a is co d ificad as, sed im en t ad as. Te r c e ir o e ú lt im o ,
at u am de m o d o d iver so , d iver gen t e o u m es- r om p em -se co n ce it o s u n iver sais qu e exp r es-
m o co n t r a d it ó r io , u m as c o m r ela çã o às o u - savam e a r t icu la va m sign ifica t iva m e n t e m o -
t ras. N o p r ocesso de o cid e n t a liz a çã o , n o qu e d os de ser, pen sar, im agin ar .
se refere à esfera cu lt u r a l, em sen t id o a m p lo , Em out ras palavras, as ressu rgên cias n ão
h á lin h a s, p a d r õ e s, m od as o u on d as p a r isie n - são apen as de t r ad ições, de con figu r ações pas-
ses, lo n d r in a s, n o r t e-a m e r ica n a s, alem ãs, it a- sadas, m as t am b ém a r evelação de u m n ovo
lian as e ou t r as. t od o, n o qual as form ações sin gu lares ad q u irem
Se gu n d o , p or q u e os n o vo s gr u p os, clas- ou t ros sign ificad os. C o m o d eclín io da socied a-
ses, n acio n alid ad es o u socied ad es n ã o o c i- de n acion al e a em er gên cia da socied ad e glo-
d en t ais, m ais o u m en o s in ser id os n o p r ocesso b al, m od ificam -se as art icu lações e m ed iaçõ es
glo b al de o cid e n t a liz a çã o , t a m b é m p ossu em nas quais se in serem as part es e o t od o, as sin -
su a cu lt u r a , co n t in u a m a p r o d u z ir cu lt u r a l- gu larid ad es, p art icu larid ad es e u n iversalid ad es.
m en t e, d e vo lve m elem en t o s cu lt u r ais o cid e n - I A N N I , O c t á v i o . A sociedade global. Ri o d e Ja n e i r o :
t ais c o m in gr ed ien t es n at ivo s, q u an d o n ão Ci v i l i z a ç ã o Br a s i l e i r a , 1992. p . 7 1 - 6 .

- • Pe n s e e re s p o n d a
1 . 0 que o autor quer dizer com "ocidentalização do mundo"?
2. Por que, segundo Octávio Ia n n i, a ocidentalização não flui tranquilamente? Quais são as
razões dessa dificuldade?
3. Com base na análise do autor, é possível dizer que as manifestações cultur ais regionais
desapareceram diante da globalização? Explique sua resposta.
As ins tituiçõ e s
s o ci a i s
Os sociólogos Brigitte e Peter Berger definem instituição so-
cial como "um padrão de controle, ou seja, uma programação
da conduta individual imposta pela sociedade". Essa definição,
extremamente abrangente, não se diferencia muito da de padrão
cultural (veja o capítulo 10). Talvez por isso, nem sempre é aceita
por outros sociólogos, que preferem definir instituição como uma
estrutura específica da sociedade, uma forma de organização so-
cial estável, relativamente duradoura, cuja existência ultrapassa
a das pessoas que dela participam e que pode durar gerações, ou
mesmo séculos - a Igreja, que existe há mais de mil anos, é um
bom exemplo.
Como estruturas sociais específicas que funcionam no interior
da sociedade, as instituições se diferenciam dos grupos sociais pelo
seu caráter estável e por seu funcionamento baseado em regras
e procedimentos padronizados, socialmente reconheádos, aceitos,
sancionados e seguidos pela sociedade. Um dos exemplos mais visí-
veis dessas formas de organização são as instituições políticas que
compõem o Estado.
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

IMAGEM e SOCIEDADE

Pl en ár i o da Câm ar a dos
Dep u t ad os. Br asíl i a, 3 1 .1

Obser ve e r esp on d a:

1 . Em sua opinião, o que está ocorrendo na cena cfá fotcj? ^ ^ ^ ^ urncx r v^ ^ P^ '
2. Quem são as pessoas que aparecem nela? Que função essas pessoas desempenham r ia
sociedade? £àS , * j ^ J ^ 0$$ fó^
3. Que relação pode ser estabelecida entre essa cena e a sociedade na qual ela está \
ocorrendo? ^ Jk ( L^

202
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

Características das instituiçõe s sociais

Instituição é toda forma ou estr utur a social objetividade - todas (ou quase todas) as pessoas
estabelecida, constituída, sedimentada na socie- da sociedade admitem que elas existem e reco-
dade e com caráter normativo - ou seja, ela define nhecem que elas são instituições legítimas;
regras (normas) e exerce formas de controle social. coercitívidade - as instituições têm o poder de
São instituições sociais, por exemplo, o Estado, a exercer pressões sobre as pessoas, de modo a
Igr eja, a escola, a família, o trabalho remunerado, levá-las a agir segundo os padrões de compor-
a propriedade pr ivada, etc. tamento considerados correios pela sociedade;
As instituições são formadas para atender a autoridade moral - as instituições não se man-
necessidades sociais. Servem também de in st r u - têm na sociedade apenas pelo poder de coerção,
mento de regulação e controle das relações sociais mas também porque são reconhecidas pelas
e das atividades dos membros da sociedade em pessoas dessa sociedade como tendo o direito
que estão inser idas. Para isso, dispõem de um po- legítimo de exercer seu poder e obrigar os in t e-
der normativo e coercitivo aceito pela maioria da grantes da sociedade (seja pela for ça, seja pelo
população dessa sociedade. convencimento) a agir segundo determinados
Segundo Br igitte e Peter Berger, as pr incipais padrões;
características das instituições sociais são: historicidade - as instituições já existiam a n -
• exterioridade - as instituições sociais são ex- tes do nascimento do indivíduo e continuarão
perimentadas como algo dotado de realidade a existir depois de sua morte; elas têm sua pr ó-
exter na aos indivíduos; pr ia histór ia.

As instituiçõe s normatizam os grupos

Apesar de dependerem um do outr o, grupo Os grupos sociais são conjuntos de indivíduos


social e instituição social são duas realidades com objetivos comuns, envolvidos num processo de
dist in t as. interação mais ou menos contínuo (veja o capítulo 6 ) .

Fam íl i a ai r i can a d a p r ov ín ci a de Kw azulu


Nat al , na Áf r i ca do Su l , em m ar ço d e 2 0 0 7 .
A f a m íl i a é um a i n st i t u i ção u n i v er sal ,
Cli m u m a t od os os povos do m u n d o .
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

Já as instituições sociais se baseiam em regras e relativamente curto de vida. Dura enquanto perma-
procedimentos que se aplicam a diversos grupos. necerem vivos marido e mulher, pois os filhos, uma
Por exemplo: o pai, a mãe e os filhos formam vez casados, formam suas próprias famílias.
um grupo primário. Já as regras e procedimentos Outro exemplo. Os membros de uma empre-
que regulamentam as relações familiares fazem sa constituem um grupo social formado por acio-
parte da instituição familiar. Isso significa que as nistas, administradores, prestadores de serviços e
mesmas regras e normas de conduta de uma família empregados. As relações entre essas pessoas são
valem para todas as famílias de uma determinada reguladas por leis, regras e padrões que objetivam
sociedade, já que elas assumem um caráter in st it u- fazer a empresa funcionar e dar lucro aos proprie-
cional. Em outras palavras: a instituição família é tár ios. Essas normas caracterizam a instituição
uma estrutura que existe há milhares de anos. Di- económica, pois seus preceitos são igualmente
versamente, cada família concreta tem um período aplicados em todas as empresas.

As instituiçõe s são inte rde pe nde nte s

A escravidão foi uma instituição vigente no de reorganizar seu sistema de status, seus padrões
Br asil entre 1500 e 1888. Com a libertação dos de comportamento e suas normas jur ídicas em r e-
escravos, as instituições económicas do país so- lação aos ex-escravos.
freram profundas transformações: deixou de h a - 0 exemplo mostra que uma instituição não
ver trabalho escravo e os trabalhadores passaram existe isolada das outras. Há entre elas uma relação
a receber salár io. Como resultado, as instituições de interdependência, de t a l forma que qualquer a l-
familiar , religiosa e educacional foram igualmente teração em determinada instituição pode acarretar
afetadas por essa mudança institucional e tiver am mudanças maiores ou menores nas outras.

A família

As principais instituições sociais são: a família, Monogamia ver sus po ligam ia


o Estado, as instituições educacionais, a Igreja e as Quanto ao número de cônjuges, a família pode
instituições económicas. Vejamos a primeira delas. ser monogâmica ou poligâmica.
/ Embora as normas sociais institucionalizadas A família monogâmica é aquela em que a
determinem as regras de funcionamento da in st i- pessoa tem apenas um cônjuge (ou seja, um ho-
tuição familiar , cada família concreta tem ainda mem para uma mulher e vice-ver sa), quer essa
suas próprias normas de comportamento e contro- relação seja estabelecida por uma aliança in d is-
le.\ Em cada grupo familiar , seus integrantes se r e- solúvel (até à mor t e), quer se admita o divórcio
conhecem biológica e cultur almente, porque cada (como é o caso de nossa sociedade). A le i br asi-
família tem uma cultmçLparticular. leir a permite um novo casamento após o tér mino
pr upo primário de forte influência n a for ma- do casamento anter ior .
ção do indivíduo, a família é o primeiro corpo so- A família poligâmica é aquela em que a pes-
cial no qual os indivíduos convivem. É um tipo de soa pode ter dois ou mais cônjuges. Ao casamento
agrupamento social cuja estr utur a var ia em alguns de uma mulher com dois ou mais homens dá-se o
aspectos no tempo e no espaço. Essa variação pode nome de poliandria. Esse tipo de família existe,
se referir ao número e à forma do casamento, ao por exemplo, entre as tribos do Tibete e entre os
tipo de família e aos papéis familiares.) esquimós. 0 casamento de um homem com várias

204
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

mulheres chama-se poliginia. Essa prática pode ser Nem to das s ão iguais
encontrada entre certas tribos afr icanas, entre os No Br asil at u al, estamos acostumados a um
mórmons e entre os povos que seguem a religião tipo de família composta por dois adultos - um
muçulmana. homem e uma mulher, os cônjuges - e uma ou
mais crianças - os filhos. Em outras épocas e lu -
Formas de cas am e nto gares, porém, a família pode ter se configurado
Quanto às formas de casamento, temos a en- de forma difer ente. Podemos, assim, classificar a
dogamia e a exogamia. família em dois tipos básicos:
Endogamia quer dizer casamento permitido • família conjugal ou nuclear - reúne o marido, a
apenas dentro do mesmo grupo, da mesma tr ibo. mulher e os filhos;
Era uma forma de casamento muito comum nas so- • família consanguínea ou extensa - engloba, além
ciedades pr imitivas, sendo encontrada ainda hoje do casal e seus filhos, outros parentes, como
no sistema de castas da ín d ia. avós, netos, genros, noras, primos e sobrinhos.
Exogamia é o tipo de casamento encontrado Algumas das principais funções da família são:
na maioria das sociedades modernas; tr ata-se da • a função sexual e reprodutiva - garante a satis-
união com alguém de fora do grupo, que eventual- fação dos impulsos sexuais dos cônjuges e perpe-
mente pode ser também de r eligião, raça ou classe tua a espécie humana com a geração de filhos;
social difer entes. • a função económica - aquela que assegura os
Essas formas de casamento supõem o enlace meios de subsistência e bem-estar de seus in -
heterossexual tr adicional, isto é, a relação entre tegr antes;
homem e mulher. Mais recentemente, porém, a l- • a função educacional - responsável pela transmis-
guns países passaram a adotar legalmente a união são à criança dos valores e padrões culturais da so-
conjugal entre pessoas do mesmo sexo: o casamen- ciedade; ao cumprir essa função, a família se torna
to homossexual. o primeiro agente de socialização do indivíduo.

205
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

| O que é ? ]
A f am íl i a, seg u n d o Lév i - St r au ss

Nascido n a Bélgica, o antropólogo Clau- Esse modo de tratar as sociedades pri-


de Lévi-Strauss foi professor da Universidade mitivas tornou-se ultrapassado à medida
de São Paulo (USP) entre 1934 e 1937. Nessa que o desenvolvimento de pesquisas an-
época, estudou grupos indígenas do Br asil, de tropológicas revelou que o tipo de família
cuja cultur a tornou-se profundo conhecedor. que caracteriza a civilização moderna - o
No t ext o que você va i ler agor a, ele casamento monogâmico, a livre escolha dos
cr it ica as tendências evolucionistas n a An - jovens para se casar e as relações qfetivas
tr opologia, que consider avam a família mo- entre pais e filhos - está presente também
n ogâm ica como o "últ im o e s t á gio" de uma entre aqueles que parecem ter permanecido
evolução que t e r ia começado com formas no nível cultural mais simples.
"p r omíscuas" de or ganização familiar nas Muitas tribos, como a dos Nambiquara,
sociedades ditas "p r im it ivas". do Brasil Central, vivem em pequenos bandos
Durante a segunda metade do século seminômades, possuem pouca ou nenhuma
XDÍ e princípios do século XX, os antropólo- organização política, e seu nível tecnológico é
gos foram muito influenciados pelas teorias muito baixo: pelo menos entre algumas delas
evolucionistas da Biologia. Acreditavam que não existem noções de tecelagem, de cerâmica
as instituições dos povos mais simples cor- e, às vezes, até de construção de choupanas.
respondiam a um estágio primitivo da evo- Apesar disso, a organização social de
lução da humanidade. Dessa forma, nossas suas famílias é semelhante à de nossas so-
próprias instituições eram tidas como as for- ciedades. Ali, o observador não tem dificul-
mas mais avançadas ou desenvolvidas. dade de identificar os casais, intimamente
Como, entre nós, a família baseada no associados por laços sentimentais e pela
casamento monogâmico era considerada cooperação económica, bem como pela cria-
uma instituição digna de louvor, concluiu-se ção dos filhos nascidos de sua união.
imediatamente que as sociedades selvagens A partir dessa constatação, a maioria dos
- consideradas semelhantes às que existiam antropólogos passou a observar que a vida
no começo da humanidade - tinham de ser familiar está presente praticamente em todas
diferentes. as sociedades, mesmo naquelas que possuem
Como consequência, os fatos foram tor- costumes sexuais e educacionais bastante dis-
cidos e mal interpretados; ainda mais, in- tantes dos nossos. Por outro lado, os exemplos
ventaram-se fantasiosos estágios "primiti- de organização familiar mais afastados da
vos" de evolução, tais como "casamento em família conjugal não ocorrem nas sociedades
grupo" e "promiscuidade", para justificar mais selvagens e arcaicas, mas sim em formas
o período no qual o homem ainda era tão relativamente recentes e altamente sofistica-
"bárbaro" que não podia conceber os princí- das de sociedade.
pios básicos da vida social, privilégio do ser 0 problema da família, portanto, não de-
civilizado. Cada costume diferente do nosso ve ser encarado de maneira rígida. Sabemos
era logo caracterizado como vestígio de um muito pouco acerca do tipo de organização
tipo mais antigo de organização social. social predominante nos primeiros estágios

206
CAPÍTULO 1 1 As in st it u ições sociaij

da humanidade. Os registos do homem do Pa- Va m o s p e n sa r ?


leolítico Superior, de cerca de 50 mil anos atrás,
consistem essencialmente em fragmentos de 1 . Segundo Lévi-Str auss, é correto
esqueletos e objetos de pedra, que proporcio- identificar a família monogâmica
nam apenas um mínimo de informações sobre como um tipo moderno de
as leis e os costumes sociais. organização familiar ? Explique sua
Mas, se compararmos as mais diversas resposta.
sociedades humanas, desde as mais antigas
2 . Para o autor do texto, pode-se
às atuais, pode-se verificar que a família
acreditar que os tipos de organização
conjugal monogâmica é relativamente fre-
familiar modernos não ocorriam nas
quente.
sociedades arcaicas? Explique sua
Adaptado de : LÉVI-STRAUSS, Claude . A fam ília.
resposta.
In : SHAPIRO, Harry L. Homem, cultura e sociedade.
Rio de Jan e iro : Fundo da Cultura, 1 9 7 2 .

Casal Yan om am i com seu s f i l h o s em al d ei a de Ror ai m a, 1 9 9 0 .

Em te m po s de glo balização boxe Mulheres chefiam um terço das famílias no


A sociedade pós-industr ial cr iou um novo p a- capítulo 6 ) . A mãe, por sua vez, deixou de ser s i-
drão de família. Na cidade de São Paulo, por exem- nónimo de "r ainha do lar ". Os filhos são criados por
plo, apenas 54,6% das famílias pertencem ao mo- pai e mãe que trocam constantemente de papéis
delo formado por pai, mãe e filhos. Relação seme- entre s i, não sendo raro verem-se pais em casa que
lhante se ver ifica na maioria das grandes cidades cuidam dos filhos e mães que trabalham fora para
de todo o mundo. sustentar a família. A participação do homem em
No novo modelo, em rápido desenvolvimento, tarefas domésticas cresceu mais de 43% no Br asil
o "chefe de família" já não é apenas o pai (veja o na década de 1990 (veja o boxe a seguir ).

207
CAPÍTULO 1 1 As instituições sociais

Vam o s pe s quis ar? I


H o m e m aj u da m ai s e m t a r e f a d o m é st i ca

0 homem brasileiro vem ajudando mais sultados da PNAD de 2005, 90,6% das bra-
nas tarefas domésticas, mas ainda é a mu- sileiras se ocupam de tais tarefas.
lher quem mais tempo dedica a afazeres As mulheres passam 25,3 horas por se-
como cozinhar, limpar a casa e cuidar dos mana cozinhando, arrumando e cuidando
filhos - mesmo sendo cada vez maior a in- das crianças; eles, 9,9 horas. Se for soma-
serção feminina no mercado de trabalho. A da a labuta na rua e no lar, as mulheres
informação consta de estudo divulgado pelo trabalham uma hora a mais por semana,
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísti- apesar de a carga horária masculina ser
ca (IBGE), que comparou dados da Pesquisa mais extensa.
Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) 0 estudo revela que a divisão desigual
dos anos de 2001 e 2005. das tarefas entre os sexos começa cedo. Mes-
Não se sabe exatamente o que tem mo- mo que estejam na escola ou que já tenham
tivado os homens a colaborar mais: se um começado a trabalhar, as meninas perdem
maior grau de conscientização ou o fato de muito mais tempo ajudando na cozinha e
suas mulheres não terem mais tanto tempo tomando conta dos irmãos mais novos.
para a casa, já que passam muitas horas na Na faixa dos 10 aos 17 anos, enquanto
rua, trabalhando. Os números mostram que, 47,4% dos garotos têm afazeres domésticos
em 2001, 42,6% dos homens se incumbiam em sua rotina, 82,6% das garotas enfren-
dos afazeres domésticos; em 2005, a propor- tam a mesma situação.
ção passou para 51,1%. Adaptado de : PENNAFORT, Ro be rta. Home m ajuda mais
e m tare fa do m é s tica. 0 Estado de S. Paulo, 1 8 .8 .0 7 .
Ainda assim, as mulheres têm jornada
muito mais pesada. De acordo com os re-

Pe sq u i se e r e sp o n d a

Entr eviste dez homens casados de sua


família ( p ai, tios, etc.) e de famílias
amigas ou vizin h as. Pergunte a eles:
1) o que pensam da participação do
homem nas tarefas domésticas; 2) se
eles próprios ajudam suas mulheres
nesses afazeres. Feito o levantamento
das respostas, componham uma tabela
com as porcentagens dos homens que
participam e dos que não par ticipam das
tarefas domésticas e escrevam um texto
procurando explicar por que eles agem
A par t i ci pação do h om em n os af azer es d om ést i cos
de uma forma ou de outr a.
vem cr escendo desde os anos 1 9 6 0 , com a
m ob i l i zação das m u lh er es por i g u al d ad e de d i r ei t os.

208
CAPÍTULO 11 As instituições sociais
(L>tu
Da mesma for ma, os índices de divórcio cres- esses países estão em via de perder 30% da po-
ceram acentuadamente, tanto no Br asil quanto pulação em cada ger ação.
nos países mais desenvolvidos. Metade dos casa- Produto do divór cio, do abandono, da viuvez
mentos nos Estados Unidos ter mina em separação. e da competitividade, a nova família é monoparen-
Nesse país, a proporção de divorciados em relação tal: em muitos casos, os filhos moram só com o pai
ao número de casados quadruplicou em apenas ou só com a mãe, quase nunca com os dois jun t os.
t r in t a anos. Nos Estados Unidos, um estudo comprova que uma
Ao mesmo tempo, o número de filhos de mães criança de hoje vive, em média, pelo menos cinco ( j r y i V?
solteiras, proporcionalmente ao número de nasci- anos de sua vida somente com o pai ou somente
dos vivos nos Estados Unidos, subiu de 5% em 1940 com a mãe (veja o boxe a seguir ).
para 32% em 1995. Essa proporção está próxima Entretanto, apesar das transformações verifica-
dos 60% em muitos países escandinavos; a Grã-Bre- das especialmente nos últimos tr inta anos, o modelo
t anha, o Canadá e a França também alcançaram ní- de família nuclear parece continuar predominando.
veis comparáveis aos dos norte-americanos. Isso ocorre porque, em grande parte, a família n u-
A função nuclear r epr odutiva da família está clear tem conseguido se adaptar às mudanças ocorri-
igualmente ameaçada: a fer tilidade caiu tão dr a- das nos papéis exercidos pelos seus membros. Nesse
maticamente na It ália, Espanha e Alemanha que processo, ela própria parece estar se modificando.

DESESTRUTURA FAMILIAR E CRIMINALIDADE

E studo dos economistas Gabriel Hartung e Samuel Pes-


soa, da Fundação Getúlio Vargas, conclui gue fatores
como maior proporção de filhos de mães adolescentes ou de
uma gravidez na adolescência ou de mãe solteira tem maior
probabilidade de ser indesejada", disse Hartung à Folha.
O trabalho de Hartung e Pessoa foi criticado
famílias onde não há o pai ou a mãe presente aumentam a por demógrafos. Em resposta a ele, o pesguisador José
criminalidade. Hartung e Pessoa compararam estatísticas Eustáguio Diniz Alves, do IBGE, escreveu um artigo
de criminalidade nos municípios paulistas de 1999 a 2001 em gue diz gue "os dados das pesguisas do IBGE não
com taxas de fecundidade verificadas em 1980. possibilitam estabelecer se a relação entre gravidez in-
No estudo, eles afirmam gue a literatura criminal desejada e violência éreal ou espúria e gual o sentido de
já descobriu fortes evidências de gue crianças nascidas causalidade" entre essas variáveis.
de mães solteiras, criadas sem o pai ou nascidas de mães "Dizer gue a gravidez indesejada aumenta o cri-
com baixa escolaridade têm mais probabilidade de se me, como afirmou Hartung, pode até ser pontualmente
envolver em crimes. verdade, mas escamoteia as principais causas da violên-
Hartung ressalva gue o estudo não trata dire- cia e toma as mulheres sem marido e seus filhos os bodes
tamente de aborto, tema do livro Fr eakonomics, de expiatórios de um problema gue émuito mais complexo.
Steven Levitt, gue associa a redução de crimes em Nova Pior ainda, dizer gue o controle de natalidade éum ins-
York à legalização do aborto duas décadas antes. trumento fundamental para o combate à criminalidade
Na pesguisa, porém, Hartung e Pessoa afirmam no Brasil é receitar um remédio errado para um públi-
gue "é possível fazer uma relação direta entre os resulta- co-alvo desfocado, além deferir e agredir os princípios
dos de Levitt e o nosso". "Relacionamos f ração de filhos estabelecidos, nacionalmente e internacionalmente, dos
de mães adolescentes e filhos de famílias em gue não há direitos sexuais e reprodutivos", disse, no texto.
o pai ou mãe presente com a criminalidade 20 anos mais
Ad a p t a d o d e : G O I S , An t ô n i o . Es t u d o d e e c o n o m i s t a s
tarde. Não defino [toda] gravidez de mãe solteira ou de
d a F G V r e l a c i o n a c r i m i n a l i d a d e à d e s e s t r u t u r a fa m i li a r .
mãe adolescente como gravidez indesejada, mas afirmo gue O Estado de S. Paulo, 2 6 . 1 0 . 0 7 .

- • "5
209
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

A Igre ja

Todas as sociedades conheceram ou conhecem buem impor tância maior à crença no sobrenatu-
alguma forma de r eligião. Na verdade, as crenças r al; outras, aos ritos e cer imónias; outras, ainda,
religiosas são um fato social univer sal, porque à contemplação.
ocorrem em toda par te, desde os tempos mais r e-
motos. A crença em algum tipo de divindade e A re ligião e m um mundo m ate rialis ta
o sentimento religioso são fenómenos comuns a As religiões ocidentais sofreram profundas mo-
todas as épocas e lugares do planeta. dificações com o desenvolvimento da economia in -
Cada povo tem nas crenças religiosas um fator dustr ial, quando o progresso da ciência e das artes
de estabilidade, de aceitação da hier ar quia social fez com que o ser humano passasse a ter uma nova
e de obediência às normas que a sociedade consi- visão de si mesmo e do universo. Nessas circunstân-
dera necessárias para a manutenção do equilíbrio cias, boa parte das religiões vem procurando conci-
social. Por isso, a religião desempenhou quase liar suas doutrinas com o avanço do conhecimento
sempre uma função social estabilizadora. científico.
Exceção a essa regra são os movimentos r e- Ao lado disso, desenvolveu-se também, entre
ligiosos reformadores, muitos dos quais contr i- religiosos de algumas Igr ejas, uma par ticular preo-
buíram para a formação de novas Igr ejas. Esse cupação com as desigualdades sociais, acentuadas
foi o caso da Reforma Protestante, iniciada entre com a Revolução Industr ial e a formação da socie-
1517 e 1520 por Martinho Lutero no Sacro Impé- dade capitalista moderna. Assim, em 1891, na en -
rio Romano-Germânico (at ual Alemanha). Depois cíclica Rerum novarum, o papa Leão XIII expôs o
de romper com a Igr eja católica, Lutero fundou o que seria chamado de "doutr ina social da Igr eja".
protestantismo, lançando a Europa em um período Nesse documento, embora rejeitasse o socialismo,
de rupturas e sangrentos conflitos entre cr istãos, o chefe da Igr eja católica afir mava a necessidade
as chamadas guerras religiosas. de o Estado garantir melhores salários e condições
de uma vida digna para os trabalhadores.
A cre nça no s o bre natural Na América Lat in a, essa preocupação com os
A religião envolve a crença em poderes sobre- problemas sociais deu origem à Teologia da Liber-
natur ais ou misteriosos. Essa crença está associa- tação (1979), doutr ina defendida por alguns sa-
da a sentimentos de respeito, temor e vener ação, cerdotes e bispos da Igr eja católica que defende
e se expressa em atitudes públicas destinadas a o engajamento da instituição religiosa na lu t a
lidar com esses poderes. Geralmente, todas as r e- contra as desigualdades e por just iça social. Hoje,
ligiões têm seu lugar de culto: igr ejas, templos, alguns movimentos religiosos defendem uma par-
mesquitas, sinagogas, etc. ticipação maior das Igrejas na solução de proble-
Para a antropóloga Ruth Benedict, a religião é mas sociais e vêm procurando ressaltar mais as
uma instituição sem paralelo: enquanto a origem questões éticas do que os dogmas religiosos.
de todas as outras instituições pode ser encontr a- Em contr apar tida, os grupos mais conserva-
da nas necessidades físicas do homem, a religião dores das Igrejas caminham em direção oposta,
não corresponde a nenhuma necessidade mater ial defendendo o apego à tradição e dando ênfase às
específica. atividades missionárias e à salvação da alma.
A forma pela qual se expressa o sentimento Seja como for, a Igreja - católica, evangéli-
religioso var ia muito, seja de pessoa para pessoa, ca, islâmica, ortodoxa, hebraica, umbandista, etc.
seja de grupo para grupo, seja de época para épo- - continua sendo uma das principais instituições a
ca. Cada sociedade acentua aspectos diferentes influenciar o comportamento humano em todas as
em suas manifestações religiosas. Algumas at r i- sociedades do mundo contempor âneo. Entr etanto,

210
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

alguns estudiosos acreditam que a globalização vai mento e a proibição do abor to, que afetam várias
exigir dela um novo estilo de liderança para lidar correntes r eligiosas. As Igr ejas, de modo ger al,
com pessoas mais instr uídas, menos acostumadas deverão par ticipar mais ativamente dos grandes
a obedecer sem fazer perguntas e que desfrutam problemas sociais, económicos e cultur ais da so-
de maior liberdade para escolher seu destino. ciedade, não só par a dar amparo moral aos cr en-
Assim, muitos dogmas religiosos terão de ser t es, mas também para ajudá-los a resolver esses
r evistos, entre eles a indissolubilidade do casa- problemas.

0 Estado

Quando uma pessoa tem seu Imposto de Renda mantenha sua máquina administrativa (funcioná-
retido na fonte - ou quando compra determinado rios, forças armadas, polícia, juízes, deputados, se-
produto (alimentos, roupas, calçados) - , está sendo nadores, e t c ) , faça investimentos de infraestrutura
tr ibutada, isto é, está pagando impostos ao Estado. (saneamento básico, estradas, hidrelétricas) e pres-
No primeiro caso, o imposto é direto, porque incide te os serviços sociais básicos à população (escolas e
diretamente sobre o salário da pessoa. No segundo hospitais públicos, previdência social, e t c ) .
caso, é indir eto, porque quem o recolhe é o comer- 0 recolhimento de tr ibutos só é possível
ciante, por meio do ICMs (Imposto sobre a Circula- porque os integr antes da sociedade reconhecem
ção de Mercadorias), ou o fabricante, por meio do que o Estado tem esse dir eito e porque o Est a-
IPI (Imposto sobre Produtos Industr ializados). do detém um forte poder de coer ção. Esse poder
Os tributos representam o recolhimento de r e- per mite ao governo (que é uma das instâncias
cursos financeiros provenientes de pessoas físicas do Estado) recorrer a várias formas de pressão
(indivíduos) e pessoas jurídicas (empresas) pelo (mult as, processos jud iciais, prisão, et c.) para fa-
Estado. Esses recursos servem para que o Estado zer valer seu direito de cobrar impostos.

211
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

Vamo s pe s quis ar?


M u ç u l m a n a s em Pa r i s
1
L.

Em março de 2004, foi promulgada n a 0 início do uso do véu marca uma nova
Fr ança le i que pr oíbe o uso de véus em es- fase na vida da mulher muçulmana. Daí a
colas p úblicas. A medida foi cr it icad a, pois origem da dificuldade em abandoná-lo. Pelo
cer ceou o dir eito de as mulher es islâmicas menos trezentas jovens deixaram a escola
seguir em um dos pr eceitos de sua r eligião: depois da lei. [...]
o uso do vé u . Por baixo do véu, as muçulmanas fran-
Faz três anos e meio que ser fiel ao islã é cesas usam jeans, saias estampadas, ma-
mais difícil para as jovens muçulmanas que quiagem e salto alto. Na rua de Rennes, em
moram na França, proibidas por lei desde Montparnasse, as moças adoram bisbilhotar
2004 de portar o véu islâmico nos estabele- as lojas de lingeries, e a avenida Champs-
cimentos públicos de ensino. 0 adereço, para Elysées, meca das principais grifes, é o ende-
elas, é mais do que um dogma: faz parte da reço escolhido para os fins de semana.
identidade. E é como um atentado à perso- As grifes de véu também fazem sucesso
nalidade que muitas delas recebem a aplica- entre as mulheres muçulmanas. Em Paris, há
ção da lei. desfiles de moda do adereço - a presença dos
Adotada para adequar as escolas ao Es- homens é proibida.
tado laico francês, a lei só deixou às meni- Adaptado de : JARDIM, Lúcia. Le i que proíbe vé u
e m e s co las ainda fere m uçulm anas .
nas duas alternativas: ou se adequavam ou Folha de S.Paulo, 7 .1 0 .0 7 .
abandonavam os estudos. E o que se vê nas
ruas é que elas adaptaram a devoção religio-
sa à nova norma.
A cena se tornou habitual: as adolescen- Pe sq u i se e r e sp o n d a
tes chegam à escola usando o véu até o últi-
mo instante, quando o retiram no portão. A
situação inversa se repete quando elas dei- 1 . Procure no dicionário o significado da
xam o local, na metade da tarde. palavr a "laico". Em seguida, pesquise
"Eu me sinto agredida por ter de fazer em livr os ou sites de História quando
isso. 0 véu faz parte da minha identidade. a França se tornou um Estado laico.
Não entendo por que um pedaço de tecido
2. Procure saber se o Br asil também é
cobrindo os meus cabelos pode ofender al-
um Estado laico.
guém", avaliou Elmoutannabbi Khaoula, 17,
ao retirar o véu antes de ingressar no liceu 3. Em grupos, discutam e registrem a
Fréderic August, em Paris. [...] opinião de vocês sobre: 1) se essa lei
francesa fere ou não os princípios
0 Alcorão dá liberdade à mulher de es-
da laicidade do Estado; 2) se a lei
colher o momento de passar a usar o véu,
estimula ou não o preconceito contra
mas sugere o início da puberdade como pe-
os muçulmanos em um país de
ríodo ideal. Amparadas nisso, muitas jovens
maioria católica.
muçulmanas na França decidiram não usá-lo
para evitar preconceitos. [...]

212
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

O m o n o pó lio da fo rça le gítim a mo contra toda resistência". Poder significa, assim,


Segundo o sociólogo Max Weber, oJslâdo__é_a_ a probabilidade de alguém se fazer obedecer por
instituição social que dispõe do monopólio do em- outra pessoa. Ter poder é conseguir impor a própria
prego ctãTSíçadègítima sobre~ úm determinado ter r i- vontade sobre a vontade de outros indivíduos.
fõnaT/ Tiã^ r êss^ pressupõe que o Nas democracias r epr esentativas, o poder do
Estado tem o direito de recorrer à força sempre que Estado tem por base uma Constituição livr emen-
isso seja necessário, e que esse direito é reconhecido te elaborada e aprovada por uma assembleia de
pela sociedade sobre a qual esse Estado exerce seu pessoas eleitas com essa finalidade, a Assembleia
poder. É diferente, por exemplo, da violência utiliza- Constituinte. 0 Estado assim organizado é chama-
da por malfeitores, considerada ilegítima. do de Estado de direito, pois nele ninguém está
Nas democracias modernas, a lei confere ao Es- acima da le i. Segundo a tradição instaur ada pela
tado o direito de recorrer a várias formas de pressão, independência dos Estados Unidos (1776), o po-
inclusive a violência, para que suas decisões sejam der nesse tipo de Estado não está centralizado nas
obedecidas. Esse direito é geralmente executado por mãos de um único governante, nem mesmo de
oficiais de justiça e policiais em cumprimento de um só conjunto de instituições. Na verdade, ele
ordens judiciais determinadas pelos detentores do se distr ibui entre três conjuntos, que integram
poder Judiciár io, um dos poderes do Estado. a instituição maior do Estado. São eles, os po-
deres Executivo (governo, administração pública,
0 pode r do Es tado forças ar madas), Legislativo (Congresso Nacional,
Segundo ainda Max Weber, o termo poder, em Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores;
sentido amplo, designa "a probabilidade de impor a veja o boxe da página seguinte) e Judiciár io (ór-
própria vontade dentro de uma relação social, mes- gãos da Ju s t iça ) .

213
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

MUDANÇAS NA CAMARA

O t e xt o q u e vo c ê va i ler agora co m e n t a
r eflexão d o s o c ió lo go Le ô n c io M a r t in s
Ro d r igu es sob r e m u d a n ça s r ecen t es n a Câ m a -
e analisou as mudanças partidárias na Câmara.
conclusões são instigantes para entendermos a mudança
social recente na política nacional.
Suas

ra d os De p u t a d o s. Essa mudança, no entanto, tem tamanho reduzido.


A classe política brasileira sofreu transformações Vamos a algumas conclusões centrais. Em termos gerais,
importantes nos últimos anos. Por si só, a eleição de Lula as principais fontes de recrutamento da classe política na
para presidente da República em 2002, um ex-operário e Câmara continuam sendo os conjuntos profissionais e ocu-
ex-líder sindical, um cidadão com escolaridade mínima, pacionais tradicionais do recrutamento político: empresá-
representou a ruptura com o padrão histórico de circula- rios, profissionais liberais, a alta burocracia pública e os
ção de elites e, sobretudo, marcou de forma simbólica a professores, sobretudo os do magistério superior. Esses são os
aproximação da população à política institucional. grupos que sempre abasteceram o pessoal político brasileiro,
No curso de vinte anos, uma das mais importantes e as pequenas variações entre os eleitos das duas legislaturas
mudanças na cultura política do eleitorado brasileiro foi nos subgrupos de ocupações e profissões mostram que, ape-
a aceitação da esfera política e dos cargos públicos como sar de algumas perdas no espaço ocupado por setores das
espaços inclusivos dos setores populares, superando precon- classes altas, as alterações não foram tão significativas.
ceitos, como a associação entre níveis mais altos deforma- Como Rodrigues afirma, ocorreram mudanças,
ção e escolaridade e a competência para fazer política. "mas nenhuma revolução social". Os dados das "fontes
O ingresso do PT no Executivo nacional redi- secundárias de recrutamento", sobretudo os pastores [evan-
mensionou o padrão de ocupação do Estado e das buro- gâicos] e os comunicadores, trazem um interessante pano-
cracias públicas. Essa mudança teria também ocorrido rama. Mesmo com um impacto numérico pequeno sobre a
com o perfil da representação política? O Legislativo composição total da Câmara, a entrada desses grupos no
federal eleito em 2 0 0 2 também teria sofrido mudanças e Legislativo reflete, de um lado, as consequências políticas
passou a retratar com maior proximidade a composição do forte movimento de expansão das igrejas evangélicas.
social da sociedade brasileira? De outro lado, reflete os efeitos da simbiose entre a políti-
O livro de Leôncio Martins Rodrigues M u d a n - ca e a mídia, não só como uma combinação profissional
ças n a classe p o lít ica b r a sile ir a responde a essas dos pastores mas sobretudo como um dos efeitos da era da
Questões. Com uma valiosa pesquisa sobre as fontes so- comunicação de massa sobre as grandes democracias [refe-
ciocupacionais de recrutamento para a vida pública e rência à presença dos evangélicos na televisão]. [...]
parlamentar entre 1998 e 2002, o trabalho mostra que Rodrigues confere especial atenção ao expressivo
as eleições de 2002 acentuaram a "popularização" da crescimento da "bancada sindical", indicando que boa
classe política brasileira, e não só mudaram a composi- parte das mudanças ocorridas deve-se ao avanço da
ção social da elite governante mas também ampliaram esquerda e do PT na Câmara. Fica claro que a movi-
o acesso a representantes oriundos sobretudo das classes mentação partidária de 2002 acelerou o encolhimento dos
médias assalariadas à Câmara dos Deputados. partidos de direita na Casa.
Ad a p t a d o d e : M E N E G U E L L O , Ra c h e l .
Rodrigues elaborou um perfil dos grupos sociocu-
Le ô n c i o Ma r t i n s Ro d r i g u e s a n a l i s a p e r fi l d a Câ m a r a n a s
pacionais da 5 4 a ( l 9 9 8 ) e da 5 2 a ( 20 0 2] legislaturas d u a s ú l t i m a s le g i s la t u r a s . Folha de S.PÍJH IO , 1.1 0 .0 6 .

Em vir tude de seu monopólio da for ça legí- cumprirem a le i. Qualquer outro uso da força ou
t im a , o Estado detém o poder supremo n a socie- coerção - por bandos cr iminosos, soldados amo-
dade. Ele r eser va para s i o direito de impor e de tinados, grupos rebeldes - é ilegítimo e coibido
obrigar aqueles que discordam de suas decisões a pelo Estado.

214
CAPÍTULO 1 1 As instituições sociais

dos i n st r u m en t o s por m ei o d os q u ai s o Est ado


ex er ci t a seu m o n o p ó l i o da v i o l ên ci a l e g i t i m a .

Quando o Estado não consegue eliminar tais - n a medida em que tem poder para regular as
focos de violência e desrespeito à le i, perde sua relações entre todos os membros da sociedade.
característica pr incipal, a de fazer cumprir a lei e, Os três componentes mais importantes do Es-
a longo prazo, corre o risco de deixar de existir . tado são:
Isso ocorre sobretudo quando ele não consegue • território - constitui sua base física, sobre a
debelar uma revolução ou uma insur r eição, ou qual ele exerce sua jur isdição;
quando não pode impedir que certas áreas de seu • população - é composta pelos habitantes do
território fiquem à mercê de bandidos, como acon- território que forma a base física e geográfica
tece hoje em algumas favelas do Rio de Jan eir o. do Estado;
No primeiro caso, um grupo de r evolucioná- • instituições políticas - entre estas sobressaem
rios assume o poder e funda um novo tipo de Es- os poderes Executivo, Legislativo e Judiciár io;
tado, como ocorreu n a França, entre 1789 e 1793, o núcleo do poder do Estado, contudo, está nas
e n a Rússia, em 1917 (veja os capítulos 1 e 8 ) . No mãos do governo - grupo de pessoas coloca-
segundo caso, forma-se um poder paralelo ao do das à frente dos órgãos administr ativos e que
Estado que pode ser mais ou menos forte segundo exercem temporariamente o poder público em
as cir cunstâncias. nome da sociedade.

Alguns co m po ne nte s do Es tado Es tado e nação


0 Estado é essencialmente um agente de con- Embora sejam às vezes utilizados como sinóni-
trole social. Difere de outras instituições - como mos, existem grandes diferenças entre os conceitos
a família e a Igr eja, que também exercem controle de Estado e de nação. A nação é um conjunto de

215
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

pessoas ligadas entre si por laços permanentes de primento da Carta constitucional torna os gover-
idioma, tradições, costumes e valores; é anterior ao nantes ilegítimos e passíveis de serem destituídos.
Estado, podendo existir sem ele. Já um Estado pode Isto ocorreu no Brasil em 1992, quando o presiden-
compreender várias nações, como é o caso do Reino te Fernando Collor de Mello foi obrigado a renunciar
Unido (ou Grã-Bretanha, formada pela Escócia, Ir - para não sofrer uma ação de impeachment (impedi-
landa do Norte, País de Gales e Inglater r a). mento, ou afastamento do cargo), em razão das evi-
Por outro lado, como vimos, podem existir n a - dências de que havia cometido atos de corrupção,
ções sem Estado, como acontecia com os judeus violando assim os princípios constitucionais.
antes da criação do Estado de Isr ael, e ainda ocor- Uma das exigências da democracia é que haja
re hoje com os palestinos, os curdos e os ciganos. independência e harmonia entre os poderes Execu-
t ivo, Legislativo e Judiciár io. Cada um deles deve
Es tado e gove rno fiscalizar o outro, de modo a garantir que as leis e
Para alguns autores, como Alain Bir ou em seu regras que regulam a vida dos cidadãos sejam efe-
Dicionário das Ciências Sociais, "o Estado é a or- tivamente aplicadas. Por exemplo, se uma pessoa
ganização política da comunidade histórica que for presa indevidamente pela polícia, pode recorrer
constitui a nação" (BIROU, op. c i t , p. 1 4 5 ). 0 Es- ao poder Judiciár io para obter sua liberdade por
tado é, por tanto, uma nação com um conjunto de meio de um habeas corpus (expressão em latim que
instituições políticas, entre as quais um governo. significa "tenha o seu corpo". 0 habeas corpus es-
Ou ainda: "é a nação politicamente organizada". tabelece que nenhuma pessoa pode ser presa sem
Governo e Estado, por sua vez, não são a mes- causa formada, ou sem flagrante delito).
ma coisa. 0 Estado é uma instituição social per- Em contr apar tida, se as leis de um país não
manente, ou de longa duração - o Estado monár- são mais adequadas ao seu funcionamento, cabe
quico constitucional na Inglater r a, por exemplo, ao poder Legislativo criar novas leis ou modificar
subsiste desde 1688, quando ocorreu a Revolução as existentes.
Gloriosa, que estabeleceu a Carta de Direitos, pela
qual é o Parlamento, e não o r ei (ou a r ain h a), Formas de gove rno
que exerce o poder. 0 governo, em contr apar tida, Resumindo, os três poderes do Estado são:
é apenas um componente transitório do Estado. • Executivo - incumbido de executar as leis;
Assim, pode-se dizer que "o governo muda, mas o • Legislativo - encarregado de elaborar as leis;
Estado continua". • Judiciár io - responsável pela distribuição de
Como o Estado é uma entidade abstr aía, que just iça e pela interpretação da Constituição.
não tem "querer" nem "agir" próprios, o governo 0 governo, por sua vez, pode adotar as se-
(grupo de pessoas) age em seu nome. Por exemplo: guintes formas:
a Presidência da República é um órgão fundamen- • monarquia - o governo é exercido por uma só
t a l do Estado brasileiro desde 1889. 0 presidente pessoa (o r ei ou a r ain h a), que herda o poder e
da República, eleito para um mandato de quatro o mantém até a morte;
anos, age em nome do Estado, e não em nome de • república - o poder é exercido por represen-
um partido ou de grupos políticos. tantes do povo eleitos periodicamente pelos
Nas democracias, como vimos, a base de orga- cidadãos.
nização do Estado é sua Constituição - conjunto Atualmente, em certos países da Europa, como
de leis que ordena o Estado, estabelece as normas Grã-Bretanha, Espanha, Suécia e Noruega, a forma
referentes aos poderes públicos e afir ma os dir ei- de governo é monárquica, mas os reis têm apenas
tos e deveres dos cidadãos - , à qual se submetem um papel simbólico e protocolar, cabendo ao Parla-
igualmente governantes e governados. mento, cujos representantes são democraticamente
É a Constituição que atr ibui legitimidade aos eleitos, o exercício efetivo do poder. São as chama-
governos das sociedades democráticas. 0 não cum- das monarquias constitucionais.

216
Por sua vez, nas r epúblicas modernas há dois r istas os eleitores elegem seus representantes no
tipos de regime: o par lamentar ista e o pr esiden- Parlamento e cabe unicamente a estes a escolha
cialist a. Nos países em que foi inst it uído o r e- dos membros do poder Execut ivo. 0 regime par -
gime pr esidencialista, a escolha do presidente é lamentar ista é aplicado especialmente na Eur o-
feit a diretamente pelos eleitor es. Esse modelo de p a, tanto em r epúblicas como Por tugal e Itália
democracia funciona em países como o Br asil, a quanto em monarquias como a Gr ã-Br etanha e a
Ar gentina e o Per u. Já nos regimes par lamenta- Suécia.

—• Li v ro s s u ge ri d o s
• ANTUNES, Ser afim. Disciplina e convivência na instituição escolar. Porto Alegr e: Ar t med, 2002.
• AQUINO, Jú lio Groppa e SAYÃO, Rosely. Em defesa da escola. Campinas: Papir us, 2004.
• CALVEZ, Jean -Yves. Política: uma introdução. São Paulo: Át ica , 1997. Sér ie Fundamentos.
• LEBRUN, Ger ar d. 0 que é poder. São Paulo: Br asiliense, 1984. Coleção Primeiros Passos.
• DIAS, Maria Lu iza . Vivendo em família. São Paulo: Moderna, 1992.
• BOFF, Leonar do. Igreja: entre Norte e Sul. São Paulo: Át ica, 1995.
• GILLES, Kepel. A revanche de Deus. São Paulo: Sicilian o, 1 9 9 1 .

217
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

• Fi l m e s s u ge ri d o s
• A família, de Ettor e Scola, 1987. Aos oitenta anos, dois irmãos rememoram sua vida familiar entre 1906 e 1986.

• Casamento grego, de Joe l Zwick, 2002. Moça grega procura convencer a família a aceitar seu noivo estr angeir o.

• Família rodante, de Pablo Tr aper o, 2004. Mulher idosa viaja com os filhos e netos pelo int er ior da Ar gent ina.

• Pequena miss Sunshine, de Valerie Fáris e Jon at h an Daytr on, 2006. Família atr avessa os Estados Unidos para ver
filh a disputar concurso de beleza.

• Sociedade dos poetas mortos, de Peter Weir, 1989. Em um colégio inter no dos Estados Unidos, professor de
Lit er at ur a estimula jovens alunos a lut ar por seus sonhos.

• Todos os homens do presidente, de Alan Paku la, 1976. Histór ia do escândalo de Watergate, nos EUA, culminando
com a r enúncia do presidente Nixon em 1974.

• Giordano Bruno, de Giuliano Montaldo, 1973. 0 humanista Giordano Br uno (1548-1600) é queimado n a fogueira
pela Inquisição por causa de suas teor ias contr ár ias aos dogmas da Igr eja cat ólica.

• Maomé, o mensageiro de Alá, de Moustapha Akka d , 2 0 0 1 . Filme fie l aos fatos, conta a vida do profeta islâmico
desde o início de sua pregação até sua morte.

• Santo Antônio, de Umberto Mar ino, 2002. Em 1220, jovem da nobreza em Por tugal recusa-se a par ticipar das
Cruzadas e passa a viver como frade fr anciscano.

• Lutero, de Er ic RU, 2003. Biogr afia de Martinho Lut er o, cuja r uptur a com a Igr eja católica deu início à Reforma
Pr otestante.

Trabalhando com filmes


Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados na list a .
Depois, façam um debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as
seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

• Há r efer ências, no filme, à noção de família? Quais são elas e onde aparecem no filme?

• Há referências ao Estado ou ao poder político? Sob que formas elas se manifestam no filme?

• Há referências à Igr eja? Quais são elas e onde aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as

1 . Estabeleça a diferença entre grupo social e instituição social.

2 . Usando suas próprias palavr as, conceitue família. Inclua em seu conceito as funções da
família e os papéis familiar es.

3. Explique a seguinte fr ase: A religião sempre desempenhou uma função social indispensável.

4. Qual é a pr incipal característica definidora do Estado?

5 . Explique as diferenças entre Estado, nação e governo.

218
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

A t eoria política liberal


No texto a seguir, a autora discorre sobre a teoria política do liberalismo. Logo no começo, entretanto, ela se
refere a Thomas Hobbes (século XVII), gue não era propriamente liberal. Hobbesfoi um dos teóricos do Estado
absolutista. Segundo ele, os seres humanos teriam vivido inicialmente em um "estado de natureza", sem governo
e caracterizado pela insegurança, pois havia nele uma situação permanente de disputas e conflitos entre todas as
pessoas, uma espécie de "guerra de todos contra todos". Para sair dessa situação, as pessoas teriam estabelecido
um pacto, ou contrato, pelo qual entregavam o poder a um soberano para que este zelasse pela segurança geral.
Em troca, sacrificavam sua liberdade individual para que a sociedade pudesse viver em paz.

[ Em fin s d o sé cu lo X V I I ] , e m b o r a o ca - [Segu n d o Lo c k e ] , o Est ad o exist e a par-


p it alism o est ivesse e m vias d e co n so lid a çã o t ir d o con t r at o so cial. Te m as fu n ções que
e o p o d er io e c o n ó m i c o da b u r gu esia fosse H o b b e s lh e at r ib u i, m as sua p r in cip al fin alid a-
in d iscu t ível, o r egim e p o lít ico p e r m a n e cia de é gar an t ir o d ir eit o n at u ral de p rop ried ad e.
m o n á r q u ico e o p o d e r io p o lít ico e o p r est í- De sse m o d o , a b u r gu esia se vê legit i-
gio so cial d a n o b r e z a t a m b é m p e r m a n e cia m . m ad a p eran t e a r ealeza e a n o b r e z a . M a is d o
Para en fr en t á-lo s em igu ald ad e de c o n d iç õ e s , qu e isso, su rge c o m o su p er io r a elas, p ois o
a b u r gu esia p r ecisava de u m a t eor ia que lh e b u r gu ê s a cr e d it a qu e é p r o p r ie t á r io gr a ça s ao
desse le git im id a d e t ão gran d e ou m a io r d o t r a b a lh o , en q u an t o reis e n ob r es são p arasit as
qu e o san gu e e a h er ed it ar ied ad e d avam à r ea- d a socied ad e.
le z a e à n o b r e z a . Essa t eor ia será a d a p r o - O b u r gu ê s n ã o se r e co n h e ce ap en as
p r ied ad e p r iva d a c o m o d ir e it o n at u r al e sua co m o su p er ior so cia l e m o r a lm e n t e aos n o -
p r im e ir a fo r m u lação co er en t e será feit a p elo b r es, m as t a m b é m c o m o su p er ior aos p o-
filósofo in glês Jo h n Lo c k e , n o fin al d o sé cu lo b r es. D e fat o, se D e u s fez t od os os h o m e n s
X V I I e in ício d o sé cu lo X V I I I . igu ais, se a t od os d eu a m issão de t r ab alh ar
Lo c k e part e da d efin ição d o d ir eit o n at u - e a t od os co n ce d e u o d ir e it o à p r op r ied ad e
ral co m o d ir eit o à vid a , à lib erd ad e e aos ben s p r iva d a , e n t ã o , os p ob r es são p ob res p orq u e
n ecessár ios para a co n se r va çã o de am bas. Esses são p er d u lár io s, gast an d o o salár io em ve z de
ben s são con segu id os p elo t r ab alh o. a cu m u lá -lo p ara a d q u ir ir p r o p r ied ad es, o u são
C o m o fazer d o t r ab alh o o le git im a d o r p r e gu iço so s e n ã o t r a b a lh a m o su ficien t e p ara
d a p r o p r ied ad e p r iva d a en q u an t o d ir e it o n a- co n se gu ir u m a p r o p r ied ad e. [...]
t u ral? D e u s , escr eve Lo c k e , é u m art ífice [...] A t eor ia lib er al d irá qu e a fu n ção d o Es -
que fez o m u n d o . Est e , co m o o b r a de D e u s , t ad o é t r íp lice:
a ele p er t en ce. Ê seu d o m ín io e sua p r o p r ie - 1) p o r m eio das leis e d o u so legal d a vio lê n -
d ad e. D e u s cr io u o h o m e m à sua im agem e cia ( e xé r cit o e p o lícia ) , gar an t ir o d ir e it o
se m e lh a n ça , d eu -lh e o m u n d o p ara que n ele n at u r al de p r o p r ied ad e, sem in t er fer ir n a
rein asse e, ao e xp u lsá -lo d o Pa r a íso , n ão lh e vid a e c o n ó m ic a [...]. O Est a d o d eve res-
r et ir o u o d o m ín io d o m u n d o , m as lh e d isse p eit ar a lib er d ad e e c o n ó m ic a d os p r o p r ie -
qu e o t er ia co m o su or d e seu r ost o. Po r t od os t ár ios p r ivad o s, d e ixa n d o que façam as
esses m o t ivo s, D e u s in st it u iu , n o m o m e n t o d a regras e as n or m as das at ivid ad es e c o n ó -
cr ia çã o d o m u n d o e d o h o m e m , o d ir e it o à micas,-
p r o p r ied ad e p r iva d a c o m o fru t o le gít im o d o 2) en t r e o Est a d o e o in d ivíd u o in t er cala-se
t r ab alh o . Po r isso, de o r igem d ivin a , ela é u m u m a esfera so cia l, a socied ad e c i vi l, sob r e
d ir e it o n at u r al. a q u al o Est a d o n ã o t em p od er in st it u in t e ,
CAPÍTULO 11 As instituições sociais

m as apen as a fu n ção de gar an t id o r e de Afi r m a m o ca r á t e r r e p u b lic a n o d o p o -


ár b it r o d os co n flit o s n ela exist en t es. O d er, ist o é, o Es t a d o é o p o d e r p ú b lic o e n ele
Est a d o t em a fu n ção d e ar b it r ar , p or m e io os in t er esses d os p r o p r ie t á r io s d e ve m est ar
das leis e d a for ça, os co n flit o s d a so cied a- r e p r e se n t a d o s p o r m e io d o P a r la m e n t o e d o
de civil,- p o d e r Ju d i c i á r i o , os r e p r e se n t a n t e s d e ve n d o
3) o Est a d o t em o d ir e it o d e legislar, p e r m i- ser e le it o s p o r seu s p ar es. Q u a n t o ao p o d e r
t ir e p r o ib ir t u d o q u an t o p e r t e n ça à esfera Exe c u t i vo , em ca so d e m o n a r q u ia , p o d e ser
d a vid a p ú b lica , m as n ã o t em o d ir e it o de h e r e d it á r io , m as o r e i est á su b m e t id o às le is
in t e r vir sob re a co n sciê n cia d os go ve r n a - c o m o os d e m a is sú d it o s. E m ca so d e d e m o -
d os. O Est a d o d eve gar an t ir a lib er d ad e c r a c ia , ser á e le it o p o r vo t o c e n s it á r io , ist o
d e co n sciê n cia , ist o é, a lib er d ad e de p e n - é, sã o e le it o r e s o u c i d a d ã o s p le n o s ap en as
sam en t o e só p o d e r á e xe r ce r cen su r a n os os q u e p o ssu ír e m u m a ce r t a r e n d a o u r iq u e -
casos em que se em it a m o p in iõ e s se d icio - z a . [...]
sas que p o n h a m em r isco o p r ó p r io Est a - O Est ad o liberal ju lgava in con ceb ível que
d o. [...] u m n ão-p r op r iet ár io pudesse ocu p ar u m car go
As t eorias p olít icas lib erais afir m am , por- de represen t an t e n u m dos três poderes. Ao
t an t o, que o in d ivíd u o é a or igem e o d est in a- afirm ar que os cid ad ãos eram os h om en s livres
t ário d o p od er p o lít ico [...]. Afir m a m t am b ém e in d ep en d en t es, qu eriam d izer co m isso que
a exist ên cia de u m a esfera de r elações sociais eram d epen d en t es e n ão-livres os que n ão pos-
separadas da vid a p r ivad a e da vid a p olít ica, a suíssem p rop ried ad e p r ivad a. Est avam exclu íd os
socied ad e civil or gan izad a, on d e p r op r iet ár ios d o p od er p olít ico, p ort an t o, os t rabalh ad ores e
p rivad os e t rab alh ad ores cr ia m suas o r gan iza- as m u lh eres, ist o é, a m aior ia da socied ad e.
çõ e s de classe, r ealizam con t r at os, d isp u t am Lu t as p op u lares in t en sas, d esd e o sé cu lo
in t eresses e p o siçõ e s, sem que o Est ad o pos- X V I I I at é n ossos d ias, forçaram o Est a d o lib e -
sa aí in t er vir , a n ão ser que u m a das part es lh e ral a t orn ar-se u m a d e m o cr a cia r ep r esen t at i-
p eça p ara ar b it r ar os con flit os o u que u m a das va , a m p lia n d o a cid a d a n ia p o lít ica.
part es aja de m o d o que p ar eça p erigoso p ara a
Ad a p t a d o d e : C H A U I , Ma r i l e n a . Convite à Filosofia.
m an u t en ção da p róp ria socied ad e. S ã o P a u l o : Át i c a , 1 9 9 7 . p . 4 0 1 - 4 .

- • Pe n s e e re s p o n d a
1. Por meio de que raciocínio Joh n Locke inser iu o direito de propriedade entre os direitos
natur ais?
2. Quais são as funções do Estado na teor ia política liber al?
3. Escreva um pequeno texto explicando a pr incipal contradição do liberalismo clássico em
relação à representação política.
Mudança
s o cial
Entendemos por mudanças sociais as transformações na
vida e no funcionamento da sociedade. Toda mudança social é
resultado de processos pelos quais a sociedade inteira, ou apenas
alguns aspectos dela, passa de um estado a outro. Como observa
Alain Birou, muitas vezes o termo é usado para falar da passa-
gem das sociedades tradicionais à sociedade industrial moderna.
Entretanto, seu significado é mais amplo, pois pode ser aplicado
a praticamente todos os processos históricos e sociais. Assim, por
exemplo, a queda do Império Romano, em 476, e a formação da
sociedade feudal na Europa medieval significaram uma grande
mudança social.
As mudanças sociais podem ocorrer em diversos níveis da
sociedade: no nível das instituições, no dos costumes e da con-
duta, ou seja, no nível cultural, no nível da estrutura social, etc.
(BIROU, Alain, op. cit, p. 167).
Alguns pensadores contrapõem o conceito de mudança so-
cial ao de e volução s o cial. Segundo eles, a diferença entre um
e outro reside no fato de que as mudanças sociais ocorrem em
períodos breves, enquanto a evolução social consiste na acumula-
ção de grande número de pequenas mudanças verificadas a longo
prazo na sociedade.
Como as sociedades estão em constante mutação, nenhuma
delas permanece igual a si mesma em dois momentos distintos de
sua história.
CAPÍTULO 12 Mudança social

IMAGEM e SOCIEDADE

Obser ve e r esp on d a:

1 . Você é capaz de identificar as pessoas da foto? Quem são elas?

2. A que acontecimento da história contemporânea está ligado o episódio registrado na foto?

3. Que relação tem esse episódio e o assunto abordado neste capítulo?

222
CAPÍTULO 12 Mudança social

Pe rmanê ncia e mudança

Para explicar melhor o conceito de mudança


social, tomemos como exemplo a abolição da es-
cr avatur a no Br asil, no dia 13 de maio de 1888.
Ela ocorreu como resultado de um movimento,
a cam panha abolicionist a, que mobilizou amplos
setores da opinião pública br asileir a durante
quase duas décadas.
Uma das mudanças sociais decorrentes desse
fato ocorreu, como vimos no capítulo anterior, nas
instituições económicas. 0 tr abalho, por exemplo,
deixou de ser escravo e passou a ser realizado por
pessoas livr es, em tr oca de um salár io. Por sua
vez, a instituição do trabalho assalariado desen- Em p u n h an d o u m a b an d ei r a, ab o l i ci o n i st as t en t am
cadeou profundas transformações n a estr utur a so- l i b er t ar escr avo das m ãos de f azen d ei r o s. Char ge de
cial br asileira do fin al do século XIX. Ân g el o Ag o st i n i ( 1 8 4 3 - 1 9 1 0 ) al u si v a à Cam pan h a
Ab o l i ci o n i st a no Br asi l .
Outro exemplo é a questão da reforma agrá-
r ia , tema sempre presente em todas as discussões
sobre os graves problemas sociais do campo no
Br asil e que, de alguma for ma, afeta toda a so- t ir às mobilizações do MST (Movimento dos Tr a-
ciedade br asileir a. Ao compararmos o movimento balhadores Rur ais Sem-Terra) e às t ent at ivas de
abolicionista, que envolveu uma parte das elites in cluir suas fazendas entre as áreas destinadas a
brasileiras no fin al do século XIX - além dos pr ó- desapropriações para fins de reforma agr ár ia.
prios escravos e de setores das classes médias - , Os grupos que lutam pela reforma agrária,
com a atual campanha pela reforma agrária, que da mesma forma que os grandes fazendeiros, têm
já dura mais de quarenta anos, vamos notar algu- também seus representantes e defensores no Con-
mas semelhanças entre eles. gresso Nacional. Esses grupos se sentiram for ta-
Da mesma forma que n a segunda metade do lecidos com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva
século XIX existiam grupos favoráveis e setores con- para a Presidência da República em outubro de
trários ao abolicionismo, também hoje há os que de- 2002, e sua posterior re-eleição em 2006, já que
fendem a reforma agrária e os que se opõem a ela. o líder do PT (Partido dos Trabalhadores) tem um
Durante o Segundo Reinado no Br asil (1840- compromisso histórico com mudanças que favore-
1889), os grupos mais conservadores, formados çam as classes de baixa renda e particularmente
pr incipalmente por grandes fazendeiros e t r a - com a reforma agrária.
ficantes de escr avos, alegavam que a abolição Na verdade, a questão da democr atização do
provocaria o caos na economia br asileir a, desor- acesso à ter r a que está n a base das propostas
ganizando a produção agr ícola. Muitos deles che- de reforma agrária ainda não foi r esolvida. Seja
gavam ao extremo de querer impor suas ideias como for , sua implementação deverá desenca-
pela força das ar mas. dear, da mesma forma que o fim do trabalho es-
Atualmente, alegações semelhantes às dos cr avo, significativas mudanças n a estr utur a so-
conservadores do tempo do Impér io são apre- cial br asileir a.
sentadas pelos grandes proprietários de ter r as Esses exemplos mostram que as formas de or-
contr ár ios à reforma agr ár ia. Também entre eles ganização de uma sociedade podem ser substan-
existem grupos que vêm se armando para r esis- cialmente alteradas por mudanças sociais. A partir

223
CAPÍTULO 12 Mudança social

dessas mudanças, a história das sociedades vai as- nossa sociedade, algumas delas sob nova feição
sumindo formas próprias, específicas de cada so- (a família nuclear, por exemplo, é uma instituição
ciedade. que não desapareceu, apesar de todas as rupturas
ocorridas desde que o modo feudal de produção
Moderno versus arcaico foi substituído pelo capitalismo).
Uma das características mais marcantes da É certo que as atitudes, os valor es, o com-
sociedade moderna tem sido sua capacidade de portamento e os conhecimentos das pessoas que
produzir e absorver mudanças sociais. Ora, cada vivem numa sociedade moderna são muito dife-
grande mudança social representa uma cer ta r up- rentes dos de uma sociedade tr adicional. Mesmo
t ur a com a tr adição. Entr etanto, isso não sign ifi- assim, muitos aspectos das sociedades tr adicionais
ca necessariamente que as sociedades modernas são mantidos. Isso quer dizer que as rupturas são
tenham rompido inteir amente seus vínculos com acompanhadas de formas de permanência e que
o passado e com as tr adições. Na realidade, mui- mesmo as sociedades mais avançadas conservam
tas dessas tradições permanecem embutidas em valores que vêm do passado.

Como ficam as relações sociais?

As mudanças sociais, como vimos, podem a l- No exemplo citado da abolição do trabalho


terar a estr utur a social e com ela também as r e- escravo no Br asil, as relações sociais de produ-
lações sociais. As modificações pelas quais passou ção foram inteiramente transformadas com esse
a família, por exemplo, levaram a uma menor dis- acontecimento. Assim, a mão-de-obra escrava foi
tância social entre pais e filhos. As relações que, substituída por trabalhadores livr es. Com isso, a
na família patr iar cal, supunham uma estr ita obe- relação social entre patrões e empregados deixou
diência dos filhos ao p ai, foram hoje substituídas de ser uma relação de propriedade do trabalhador
em boa parte por uma relação mais aberta e menos pelo senhor, passando a ser uma relação de salário
rígida entre os familiar es. estabelecida por contr ato.
CAPÍTULO 12 Mudança social

Em ritmos de siguais

0 ritmo das mudanças sociais var ia de socieda- Da mesma for ma, a multiplicidade de conta-
de para sociedade: é lento nas mais simples, como tos com povos de costumes, padrões de vida e t éc-
as pequenas comunidades isoladas, e acelerado e nicas diferentes faz acelerar as mudanças sociais.
até vertiginoso nas mais complexas, como as so- Se é fato incont est ável que a sociedade está
ciedades industr iais e pós-industr iais, especial- sempre em mut ação, len t a ou aceler ada, também
mente nas grandes cidades. é certo que as mudanças não têm o mesmo r itmo
De fato, o ritmo das mudanças depende do em todos os seus setores, nem ocorrem da mesma
maior ou menor número de contatos sociais com forma nas diversas áreas da vida cu lt u r al e social.
outras sociedades, do desenvolvimento dos meios De modo ger al, uma sociedade subst it ui mais fa -
de comunicação e também de certos processos cilmente os bens mater iais do que as cr enças,
políticos e sociais, que aceleram ou dificultam a os aspectos cult ur ais, os modos de vid a (veja o
dinâmica da transformação social. Já vimos, por boxe na página seguint e). Assim, a sociedade in -
exemplo, como a campanha abolicionista, seguida dustr ial subst it uiu o carro a tração animal pelo
da extinção do trabalho escravo no Br asil, contr i- automóvel e o barco a vela pelo navio a vapor,
buiu para importantes mudanças na sociedade br a- mas não cr iou nada novo par a colocar no lugar
sileir a do século XIX. das r eligiões ou da família.

Per m an ên ci a e m u d an ça. Mu çu l m an as
v est i d as à m an ei r a t r ad i ci o n al p assei am em
m od er n o shopping cent er , en q u an t o r apaz
f al a ao cel u l ar . Ri ad , Ar áb i a Sau d i t a, 2 0 0 4 .

225
CAPÍTULO 12 Mudança social

So cie dade s em m utação


Ja p ã o : a r ev o l t a do p r eca r i a d o

"Não estamos mais n a er a do pr olet a- xenófobos que atacam os chineses e os cor ea-
r iado, mas n a do pr ecar iado", afir ma Ka r in nos: é a "extr ema dir eita da inter net".
Am am iya, retomando a expr essão cu n h a - Outros vivem em uma espécie de r evol-
da n a Eur opa par a designar um estado de t a fr ouxa contr a a sociedade. Eles não são
per manente pr ecar iedade. Amamiya é a u - desor deir os: o vandalismo con t in ua quase
tor a de um livr o de t ít u lo pungente, Temos desconhecido no Ja p ã o . Mas optam pela
o direito de viver! Ela e alguns convidados adesão a sindicatos alt er n at ivos, surgidos
apr esentam um programa de rádio no Ja p ã o como par te da onda de pequenos movimen-
dir igido a essa au d iên cia. Em tom leve, o tos de oposição à Guer r a do Ir aque [r efer e-
programa t r a t a da evolução do capitalismo se à invasão do Ir aque por tr opas anglo-
e de n ot ícias cot idian as, e ganha tons pr o- nor te-amer icanas em 2 0 0 3 ].
vocativos por meio de ataques aos p olít icos "Rebelião, r evolt a, r evolução: eles s a -
e à m íd ia. bem que n ão t êm como mudar a socieda-
Am am iya denuncia a discr iminação es- de", exp lica o sociólogo Nozomu Sh ib u ya.
t r u t u r a l que gera a pr ecar iedade. De acordo "Por isso, in ven t am for mas de r esistência e
com e la , os problemas de par te da ju ve n t u - cr iam redes próprias de solidar iedade, d an -
de se devem menos às disposições p sicoló- do origem a uma cu lt u r a dos perdedores,
gicas da nova ger ação do que às mudanças um tanto liber t ár ia, par a viver sua mar gi-
no mercado de t r abalho, que r egistr ou a lt a nalidade de maneir a menos at om izad a."
acentuada no uso de tr abalhador es tempo- Adaptado de : PONS, Philippe .
Ja p ã o : a re vo lta do pre cariado . Folha de S. Paulo, 1 3 .9 .0 7 .
rários (contr atos por prazo deter minado,
free-lancers ou prestadores de ser viços).
Esse segmento responde hoje por um Pa r a r ef l et i r
ter ço da for ça de tr abalho do Ja p ã o , ante
16% duas décadas at r ás. Detentor es de d i-
Considere a seguinte frase do texto do
plomas desvalor izados, muitos jovens n ão
capítulo: "De modo ger al, uma sociedade
t ê m opor tunidade alguma de adquir ir capa-
substitui mais facilmente os bens
citação pr ofissional e t er m in am condenados
materiais do que as cr enças, os aspectos
ao "pr ecar iado".
cultur ais, os modos de vida".
At é a crise financeir a do começo dos
anos 1990, a sociedade japonesa estava em Agora, r eflita sobre estas outr as,
período ascendente, com forte criação de em- extraídas do texto deste boxe: "Outros
pregos, renda e avanços pr ofissionais. Hoje, vivem em uma espécie de r evolta
as pessoas nascidas em meios desfavorecidos fr ouxa contra a sociedade. Eles não são
desordeiros: o vandalismo continua
t êm pouca chance de chegar à classe média.
quase desconhecido no Japão".
No Café des Amateurs, no bair r o de
Koen ji, a meia hor a de tr em do centro de Tó- Em sua opinião, existe alguma relação
quio, os jovens subempregados conhecidos entre a primeira frase e as duas últimas?
como freeters se r eúnem todas as noites. Al- Explique sua resposta.
guns descarregam suas frustrações em blogs

226
CAPÍTULO 12 Mudança social

O que provoca a mudança social?

As mudanças sociais podem ser causadas pela moderna. No Br asil, como vimos, a abolição do
ação de diversos fatores. A seguir, destacamos a l- trabalho escravo provocou também profundas
guns deles. alterações na sociedade. De um modo ger al,
• Fatores geográficos - Houve uma época em o desenvolvimento económico contr ibui para
que se costumava dizer que "o homem é um grandes mudanças na vida social, elevando o
produto do meio". Atualmente, já não se pen- nível de vida dos grupos sociais e estimulando
sa assim, pois se sabe que o próprio meio é a mobilidade social, com a passagem de pes-
influenciado pela ação dos seres humanos. soas de uma classe social para outr a.
Apesar disso, o fator geogr áfico tem grande Fatores sociais - Conflitos entre classes sociais,
impor tância na produção de mudanças sociais. guerras e revoluções estão entre os processos
As secas no Nordeste br asileir o, por exemplo, que mais modificam a estr utur a social das so-
alter am substancialmente a vid a das popula- ciedades. A Revolução Francesa de 1789, por
ções dessa r egião, acentuando seu empobre- exemplo, alter ou completamente as relações
cimento e a migração em massa de sertanejos sociais, as formas de vida da sociedade fr ance-
para outras r egiões do país. sa e a própria estr utur a social da França, e xt in -
• Fatores económicos - A Revolução In dust r ial, guindo a monarquia absoluta e o controle do
iniciada na Inglater r a em meados do século poder pela nobreza. Essas mudanças, aliás, não
XVIII, foi talvez o processo económico que mais se r estr ingir am à França, mas tiver am in fluên -
mudanças causou na estr utur a da sociedade cia determinante também sobre outros países.

227
CAPÍTULO 12 Mudança social

CRISE AMBIENTAL E MUDANÇAS SOCIAIS

D esd e fe ve r e ir o d e 2 0 0 7 , q u a n d o foi d i -
vu lga d o p ela O N U o P a in e l In t e r go ve r -
n a m e n t a l d e M u d a n ç a s Clim á t ic a s ( ve ja o c a -
de toneladas por ano para 5 2 milhões em 2 0 2 5 . Se ele
alcançar seu objetivo, em 2025 a cidade estará produ-
zindo i 8 milhões de toneladas, menos dióxido de car-
p ít u lo 2 ) , t e m sid o cr e sce n t e a p r e o c u p a ç ã o bono do que emitia em Í990.
d as p essoas c o m o a q u e cim e n t o e xa ge r a d o "Os londrinos não precisam reduzir sua quali-
d o p la n e t a . E m a lgu n s p a íse s, essa p r eocu - dade de vida para combater a mudança climática, mas
p a ç ã o ve m im p o n d o m u d a n ça s n a so cie d a d e
nós precisamos mudar a forma como vivemos", disse
qu e vis a m a d im in u ir a e m issã o d e gases-
Livingstone. "O modelo atual, de grande produção e
est u fa e a p r e se r va r o m e io a m b ie n t e . No
grande desperdício de energia, éaltamente ineficiente."
Br a sil, p o r e xe m p lo , o e st ím u lo à p r o d u ç ã o
As autoridades calculam que o corte requeri-
d e b io c o m b u s t íve is , c o m o o e t a n o l, e a d i m i -
do nas emissões de carbono possa ser feito por meio
n u içã o d as q u eim ad as n a Am a z ó n i a ( e m b o r a
de simples mudanças de comportamento. Assim, os
a in d a t ím id a ) fazem p ar t e d essas m u d a n ç a s.
londrinos vão ser ensinados a adotar estilos de vida
Na Inglaterra, o prefeito de Londres, Ken Living-
menos agressivos ao meio ambiente e vão receber ma-
stone, anunciou nesta terça-feira [27.2.07] um plano
terial para isolamento térmico de suas casas a preços
para reduzir emissões de dióxido de carbono [gás carbó-
subsidiados.
nico] na cidade em 60% nos próximos vinte anos.
A prefeitura de Londres disse que as grandes
O plano inclui tornar as casas londrinas mais
cidades do planeta têm papel essencial no combate às
eficientes no uso de energia, convencer empresas a desli-
mudanças climáticas, já que geram 75% do dióxido de
gar luzes e computadores à noite, buscar sistemas mais
carbono produzido no mundo.
eficientes de suprimento de energia para a capital e re-
duzir emissões por meios de transporte. A d a p ta d o de: B B C B ra s il, 27. 2. 07.
http:/ / www.b b c.co.u k/ portu gu es e/ reporterb b c/
Livingstone disse que, se nada for feito, as emis- s tor y/ 2007/ 02/ 070227lon d r es _ ca r b on o_ mv. s h tml.
sões de carbono na cidade vão crescer de 4 4 milhões Aces s o em 11.12.07.

• Fatores culturais - O sur gimento de uma nova fator es geogr áficos, econ óm icos, sociais e cu l-
cr ença r eligiosa pode ser deter minante n a pr o- t ur ais podem ser t an t o endógenos quanto e xó-
moção de mudanças sociais, como ocor r eu com genos.
o advento do cr ist ianismo e do islamismo. Em • Forças endógenas ou internas - São aquelas que
outr o plan o, as descobertas cien t íficas, ao am- t êm sua origem no in t er ior da pr ópr ia socieda-
pliar o domínio do ser humano sobre a n at u r e- de. Entr e essas for ças, estudaremos p ar t icu lar -
za , contr ibuem também par a provocar mudan- mente as in ven ções.
ças n a sociedade. • Forças exógenas ou externas - São as que pr o-
vêm de outr as sociedades, como é o caso da
difusão cultural.

Forças in te rn as e fo rças e xte rnas


As mudanças sociais podem ser provocadas
por forças endógenas ou exógenas. Nessas duas I nvenção e pat r im ônio cult ur al

for mas enquadr am-se os fator es deter minantes Pr imeir amente, vamos difer enciar in ven ção de

que acabamos de estudar . Assim , por exemplo, os descober ta. Descoberta é a aquisição de um novo

228
CAPÍTULO 12 Mudança social

conhecimento, de uma informação nova. Invenção decisivos para o processo de inter nacionalização
é o elemento ativo, a aplicação da descoberta. Di- da sociedade contemporânea e para o surgimento
zemos: descoberta da eletricidade e invenção da da sociedade infor matizada, marcada pela expan-
lâmpada; descoberta da energia nuclear e in ven - são dos meios de comunicação - processos esses
ção da bomba atómica. Assim, a mera descoberta que estão nas origens da globalização.
não modifica a cultur a ou a sociedade. Isso decor-
re de sua aplicação pr ática, isto é, da invenção. Com o se dif unde a cult ur a?
Toda invenção é produto de uma sociedade Para se modificar, uma sociedade não conta
determinada, embora não seja criação da socieda- apenas com suas próprias invenções. Se t a l fato
de em seu conjunto. Na verdade, a sociedade for- ocorresse, as mudanças sociais seriam mais lentas.
nece as bases para o surgimento da invenção, pois Ao lado das invenções, há uma força exter na que,
todo inventor u t iliza o conhecimento acumulado juntamente com outros fatores, ocasiona mudan-
de sua cult ur a. Nenhuma geração parte da estaca ças sociais: a difusão cultural. A língua que fala-
zero, mas de uma herança social tr ansmitida. mos, a religião que seguimos, muitos utensílios e
As invenções são geradas pela combinação do máquinas que usamos não se formaram nem foram
patrimônio cultural da sociedade com determinadas inventados no Br asil. É a difusão que aumenta e
necessidades sociais. Provavelmente, teria sido im - expande a cultur a das várias sociedades e acelera
possível ao físico alemão Albert Einstein (1879-1955) o ritmo de mudança.
elaborar a Teoria da Relatividade se tivesse nascido Como já vimos, é mais fácil substituir (e tam-
entre os aborígenes da Austrália no século XVII. bém difundir) técnicas do que valores morais,
Entre as invenções que mais profundamente ideias, sistemas religiosos ou filosóficos. Estes es-
alteraram a estr utur a da sociedade, podemos des- tão impregnados de reações emotivas, de signifi-
tacar a máquina a vapor, determinante no desen- cados simbólicos difíceis de copiar e de modificar.
cadeamento da Revolução Industr ial e na formação Além disso, os valores morais, os modos de vida e
do capitalismo moderno. 0 telégr afo, o telefone, o as religiões têm um enraizamento muito mais pro-
r ádio, a televisão e o computador foram também fundo no ser humano do que o uso de determinadas

229
CAPÍTULO 12 Mudança social

técnicas e máquinas; portanto, só são substituídos mitidas pelos meios de comunicação tende a se
(quando o são) após um longo processo de amadu- tor nar cada vez maior. Por outro lado, os meios de
recimento, ou sob o impacto de uma revolução. comunicação não se limitam a tr ansmitir anúncios
Ao mesmo tempo, quando um aspecto cu lt u - publicitár ios ou a difundir modismos. Na verdade,
r al de uma sociedade se revela útil e compatível eles atuam num plano mais profundo, moldando
com a cultur a de outra sociedade, é mais facilmen- as próprias expectativas cultur ais das novas gera-
te aceito por esta. Um novo modelo de vestido ou ções a par tir da difusão de um determinado mode-
paletó pode ser adotado com facilidade no Br asil, lo cult ur al, o modelo norte-americano, que vem se
enquanto uma túnica afr icana para homens, por impondo no bojo do processo de globalização.
exemplo, encontraria resistência entre nós, pois Outro fator que in fluen cia a aceitação de va -
romperia com hábitos tradicionais no país, molda- lores provenientes de cultur as exter nas é a n ovi-
dos pelo colonizador europeu (veja a imagem). dade. Em ger al, todo bem novo tem facilidade de
No processo de difusão, o prestígio da cu l- ser aceito, desde que responda às expectativas
tur a doadora também é um dado importante na do mercado consumidor. Para que isso ocor r a,
assimilação de seus valores pela cultur a receptora. os meios de comunicação atuam no sentido de
Assim, costumes, tendências musicais, modismos preparar essas expectativas, difundindo a ideia
e novos produtos vindos dos Estados Unidos, por de que determinados bens, valores e costumes
exemplo, espalham-se hoje com extrema facilida- são "modernos" e, por tanto, superiores aos que
de nas cidades br asileir as. até então vigoravam no inter ior da sociedade r e-
ceptora (veja o boxe a segu ir ). Tais novidades se
Globalização e dif usão cult ural referem quase sempre a aspectos não essenciais
A difusão cultur al se dá atualmente de modo da cult ur a - um produto novo, um novo corte
muito mais rápido do que até algumas décadas de cabelo, a maneir a de se vestir , certos géneros
atr ás. Isso porque a rapidez das mensagens tr ans- musicais, etc.

cn an ça na
Tan zân i a, Áf r i ca,
2 0 0 4 . Por f or ça
de h áb i t os
m ol d ad os d esd e
a co l o n i zação ,
d i f i ci l m en t e
os b r asi l ei r os
acei t ar i am se
v est i r com o o
h om em da f o t o .

230
CAPÍTULO 12 Mudança social

JOVENS PREFEREM INTERNET A T V

E studo realizado em dez países e publicado


quarta-feira (5.12.07) indica que pela primeira
vez os jovens europeus disseram preferir a internet ao
nesta Além disso, 82% dos jovens (16-24 anos)
zam a internet, contra 77% que admitem ver televisão.
O estudo também mostra um aumento anual de 12%
utili-

invés da televisão. do número de pessoas de mais de 55 anos que utilizam

De acordo com o estudo, há 169 milhões de in- a internet. Para 8 3 % dos usuários, a internet se tomou

ternautas nos países que foram pesquisados-. Grã-Bre- imprescindível em suas vidas e 32% têm a mesma opi-

tanha, França, Alemanha, Itália, Espanha, Holanda, nião sobre o correio eletrônico.

Bélgica, Dinamarca, Suécia e Noruega - que passam A maioria admite passar menos tempo na frente

em média 12,7 horas na rede. Os mais conectados são da televisão para se dedicar à internet.
Fra nce Presse. Joven s eu ropeu s preferem internet à televisão.
os italianos (l3,6 horas em média), e os menos conec-
Folha on line, 6.12.07. http://wwwl .folha u ol.com.b r/ folha/
tados são os holandeses ( 9 , 8 horas). informa tica / u ltl24u 352247.s html. Aces s o em 11.12.07.

Como, muitas vezes, a mudança social é conse-


A t ecn o l o g i a é um dos f at or es m ai s d i n âm i co s de m u d an ças
so ci ai s. Na f o t o , j ov en s no t el ecen t r o , l ab o r at ó r i o de
quência das invenções, quanto maior for o número de
i n cl u são d i g i t a l da p r ef ei t u r a de São Pau lo, em 2 0 0 4 . inventos novos, tanto mais rápida será a mudança.
Característica marcante das sociedades contem-

9
9
porâneas, as rápidas mudanças ocorrem em parte
devido ao grande número de invenções. A ut iliza-
ção de computadores em quase todos os ramos da
atividade económica tem provocado transformações
não só na organização do trabalho mas também nas
relações sociais. Assim também, o telefone celular
vem produzindo mudanças nas relações humanas e
profissionais, já que quem tem um desses aparelhos
pode se comunicar a qualquer momento com outras
pessoas, independentemente do lugar em que es-
t eja, o que facilita enormemente o contato social
entre os indivíduos.

Ação e reação
Grande parte das transformações sociais só lheres sufragistas (palavr a derivada de sufrágio,
ocorre depois de vencer muitas resistências e obs- que significa "voto") em todo o mundo tiver am
táculos. Foram precisos séculos para que se conso- de lut ar por esse dir eito, reivindicando-o em ma-
lidassem certas mudanças, como o cristianismo e a nifestações públicas, petições, confer ências, co-
democracia. Um exemplo mais próximo de resistên- mícios, passeatas, não raro duramente reprimidas
cia à mudança é o que ocorreu com o voto femini- pela polícia em diversos países.
no, que só foi introduzido depois de muitas lutas. No Br asil, a conquista do direito de voto pe-
Assim, ao longo do século XIX e durante as las mulheres em 1932 foi obtida mais por difusão
primeiras décadas do século XX, milhar es de mu- cultur al do que por invenção, já que na década

231
CAPÍTULO 12 Mudança social

de 1930 as mulheres brasileiras não estavam su - convencimento par a que as pessoas percebessem
ficientemente organizadas para exigir uma maior a impor tância da va cin a .
participação na vida política. 0 benefício das cam- Assim, quando teve início a vacinação, milha-
panhas feministas em outros países acabou se es- res de pessoas saíram às ruas do Rio de Janeir o
tendendo também ao Br asil. em protesto contra a decisão do governo. 0 mo-
vimento popular ficou conhecido como Revolta
Obs táculo s e re s is tê ncias à mudança da Vacina. Bondes foram depredados e postes de
Obstáculos são barreiras oriundas da própria iluminação derrubados. Em alguns lugar es, os ma-
estr utur a social e que dificultam ou impedem nifestantes ergueram barricadas e enfrentaram a
a mudança social. A agr icultur a br asileir a, por polícia à mão armada. Depois de alguns dias de t u -
exemplo, até a abolição, era quase totalmente ba- multo, o governo teve de voltar atr ás. A vacinação
seada no trabalho escravo. Um dos obstáculos à em massa só foi aceita anos mais tarde, quando
libertação dos escravos não estava relacionado a evidenciaram-se os benefícios de sua aplicação.
questões éticas ou morais, mas sim às dificuldades
encontradas para a substituição da mão-de-obra
escrava por trabalhadores livr es. Char ge de O
Resistências, por sua vez, são reações cons- Malho ( 1 9 0 5 )
r ep r esen t an d o o
cientes e deliberadas para impedir a mudança " en f o r cam en t o "
social. Assim, no Br asil do século XIX a abolição do m éd i co
encontrou grande resistência entre os tr aficantes Osvaldo Cr uz,
de q u em p ar t i
de escravos e os grandes proprietários de ter r as. a p r op ost a
Esse grupo era consciente de que seus interesses de v aci n ação
o b r i g at ó r i a
imediatos sairiam prejudicados com a emancipa-
que pr ovocou
ção dos escravos e se organizaram com o objetivo Revolt a da Vaci n a
deliberado de r esistir à medida. em 1 9 0 4 .

0 exemplo mostra que em toda estr utur a so-


cial os grupos ou camadas sociais cujos interesses
são diretamente atingidos pela introdução de no-
vos valores são os que resistem mais abertamente
às mudanças. Mudar ou pre s e rvar?
Todavia, essa resistência não se dá apenas em As atitudes individuais e sociais que favorecem
relação a normas de conduta ou a mudanças na ou rejeitam a mudança social podem ser classifica-
estr utur a social. A introdução de novos bens pode das em quatro tipos principais: conservador, reacio-
também ser retardada por fer ir interesses econó- nário, reformista ou progressista e revolucionário.
micos ou afetar os valores cultur ais existentes. At it ude conser vador a. É aquela que se mostra
Um exemplo clássico de r esistência à in t r o- contrária às mudanças ou temerosa em relação a
dução de uma in icia t iva inovador a ocorreu no elas. Uma das manifestações dessa atitude é o tra-
Br a sil, em 1904. Na ép oca, par a combater a va - dicionalismo, pelo qual o respeito à tradição, a im -
r íola, que causava todos os anos milhar es de posição de valores cultivados pelos mais velhos aos
mortes no Rio de Jan eir o, o governo do pr esiden- mais jovens e as normas tradicionalmente vigentes
te Rodrigues Alves in s t it u iu a vacinação obr iga- na sociedade erguem-se como alguns dos obstácu-
t ór ia. A decisão, entr etanto, não foi discutida los às inovações na vida social. Tal é a pressão moral
democraticamente com a população car ioca. 0 exercida pela tradição, que só com grande esforço
governo tampouco levou em conta a opinião dos e enfrentando muita resistência é que a sociedade
grupos de oposição, contr ár ios à medida. Além consegue fazer adotar novas formas de conduta, es-
disso, não foi feito um tr abalho de divulgação e tranhas à herança social tr adicional.

232
CAPÍTULO 12 Mudança social

Atitude r eacion ár ia. Equivale ao conservado- Essas atitudes nem sempre aparecem de for-
rismo extremado. Sequer admite discutir propostas ma pura na sociedade. Um indivíduo, ou grupo de
de mudança. Opõe-se, não raro pela violência, a indivíduos, pode ser conservador em alguns as-
qualquer tipo de mudança das instituições sociais pectos e reformista ou revolucionário em outros.
e até mesmo à simples introdução de inovações. É Depende de sua situação par ticular em relação ao
a atitude típica de grupos radicais de dir eita, que que se pretende mudar.
se aferram à defesa do status quo (isto é, da ordem A questão da reforma da Pr evidência Social
vigente) para que tudo permaneça como está. dos tr abalhador es do ser viço público no Br a-
Atitude re formista ou progre ssista. É a que s il, proposta pelo governo Lu la e aprovada pelo
vê com agrado a mudança moderada. Reflete o de- Congresso Nacional em 2003, é um bom exem-
sejo de mudanças gradativas dos modos de vida plo dessa dualidade. Uma par te sign ificat iva dos
existentes e das instituições. Aqueles que adotam servidores públicos tem posições políticas pr o-
essa posição são geralmente pessoas de centro es- gr essistas, mas, ao recusarem modificações n a
querda ou de esquerda moderada. at u al legislação da seguridade social, assumem
Atitude re volucionária. É a posição adota- uma atitude cor por ativista e conser vador a, pois
da pela esquerda r adical. Defende transformações desejam manter benefícios que são negados ao
profundas e imediatas das instituições, até com o r estante da sociedade (veja no boxe da pr óxima
emprego de métodos violentos, para mudar a sit ua- página o que significam as expr essões esquerda,
ção social existente. centro e direita).

Mudanças: supe rficiais ou radicais?


Como vimos, as invenções e a difusão cultur al pela violência a ordem social existente, subst i-
são processos que ocasionam mudanças sociais, tuindo-a por out r a, chama-se revolução.
pois suscitam modificações nos costumes, nas r e- As mudanças br uscas, profundas ou muito
lações sociais e nas instituições. Essas alterações aceleradas podem ocasionar, por algum tempo,
podem ser de pequeno por te, passando até des- um estado de desor ganização social. É o que ge-
percebidas, ou podem modificar quase todos os ralmente ocorre nas r evoluções. Ent r et ant o, uma
âmbitos da vida social. A invenção de uma nova vez terminado o período de destr uição da antiga
t in t a pode causar alterações somente no campo ordem social, os r evolucionár ios no poder passam
ar tístico, mas a invenção da televisão, por exem- a se dedicar à r econstr ução da sociedade em ba-
plo, influenciou o lazer , a política, a educação, os ses novas.
hábitos familiar es, a propaganda, etc. Assim, após a insurreição de novembro de
1917 (outubr o, no calendário russo da época), os
Mudanças na e s fe ra i n s t i t u ci o n a l revolucionários bolcheviques instalados no poder
Mudanças gradativas não destroem as institui- precisaram adotar diversas medidas para reorga-
ções sociais existentes. Elas apenas objetivam apr i- nizar a economia, constr uir novas instituições
morá-las e melhorá-las com pequenas e contínuas políticas e restabelecer a ordem social. 0 mesmo
mudanças, de forma a atender às novas necessida- ocorreu na China nos anos imediatamente poste-
des da sociedade. Já as transformações radicais e riores a 1949, quando o Partido Comunista chegou
profundas, estabelecidas por meio da violência, a l- ao poder após uma longa guerra civil.
teram toda a estrutura social de uma sociedade. Toda revolução comporta, portanto, duas gran-
As mudanças gr adativas, que procuram me- des etapas: a da destruição da ordem social vigen-
lhor ar as instituições sem destr uí-las, sem r om- t e, e a da construção de uma nova estr utur a social,
per com os costumes, são chamadas de reformas. dotada de uma economia estável e instituições po-
A mudança social profunda e r adical, que destrói líticas claramente definidas.

233
CAPÍTULO 12 Mudança social

1 0 que é ? 1
Esq u e r d a , cen t r o , d i r ei t a

Você certamente já ouviu ou leu as ex- • extrema direita - corresponde aos reacio-
pressões esquerda, direita e centro aplicadas nários;
à vida política no Br asil e em outros países. • centro direita - indica os conservadores;
Diz-se, por exemplo, que o presidente br asi- • centro esquerda - refere-se aos refor-
leiro Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2002 mistas;
e re-eleito em 2006, é "de esquerda" e que os • extrema esquerda - abrange os revolucio-
generais que estiver am n a Presidência da Re- nários.
pública entre 1964 e 1985 eram "de dir eita". Na realidade, as diferenças entre essas
Com a extinção da União Soviética - país de categorias não são claramente estabelecidas
socialismo bur ocr ático de Estado, cujo regime nem muito rígidas. Assim, será difícil colocar
era tido como "de esquerda" - , essa distinção uma pessoa ou um grupo, numa forma níti-
perdeu for ça. Alguns autores afir mam até que da, dentro de qualquer uma dessas posições.
ela deixou de existir . Para outros, contudo, SANTOS, Jo e l Rufino dos. História do Brasil.
São Paulo : Marco Ze ro, 1 9 7 9 . p. 1 9 2 .
ela continua vigente.
No texto a seguir, você va i conhecer não
só o significado dessas expr essões, mas t am -
bém de que modo elas sur gir am e como fo-
ram incorporadas ao vocabulár io p olít ico.
Quando a Revolução Francesa se organi-
zou em Convenção (uma espécie de parlamen-
to, de 1792 a 1795), a luta política intensifi-
cou-se. 0 assento do presidente ficava no meio
da sala. Os girondinos (alta burguesia conser-
vadora) sentavam-se à direita dele; os jacobi-
nos (pequena burguesia e representantes da
plebe de Paris) sentavam-se à esquerda.
Para economizar esforços, o presidente
Repr esent ação do j u l g am en t o do ex - r ei da França
da Convenção passou a chamar os girondi- Lu ís XVI , no i n t er i or da Convenção, em 1 7 9 2 . Foi na
nos de direita (antes ele dizia: "os senhores Convenção que sur gir am os t er m os esquerda e direit a
para desi gn ar t en dên ci as p o l ít i cas.
convencionais que estão à minha direita")
e os jacobinos, de esquerda. Os jacobinos
pretendiam aprofundar as medidas revolu-
Va m o s p e n sa r ?
cionárias; os girondinos, não. As expressões
pegaram: esquerda, hoje, é quem quer fazer 1 . Como surgiram as expressões
uma revolução ou introduzir reformas radi- esquerda e direita?
cais; direita é quem rejeita qualquer mudan-
2. Que partidos políticos brasileiros
ça (no centro ficam os indefinidos).
representam essas categorias?
Combinando as duas classificações, che-
gamos às seguintes posições:

234
CAPÍTULO 12 Mudança social

—• Li v ro s s u ge ri d o s
• SZMRECSÁNYI, Oriovaldo ( or g.) . Vida rural e mudança social. São Paulo: Cia. Editor a Nacional, 1972.
• VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa explicada à minha neta. São Paulo: Unesp, 2007.
• LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou revolução? São Paulo: Expressão Popular, 2005.
• YENNE, Bill. 100 invenções que mudaram a história do mundo. Rio de Jan eir o: Ediour o, 2003.

—• Fi l m e s s u ge ri d o s
• O vento será tua herança, de Stanley Kramer, 1960. Nos anos 1920, professor de Biologia que ensina a teor ia da
evolução das espécies va i a julgamento nos Estados Unidos. Há outr a ver são, dir igida por Daniel Petr ie ( 1 9 9 9 ) .
• 0 sonho azul, de Tian Zhuanghuang, 1993. A China sob o governo totalitár io de Mao vist a pelos olhos de um
menino que cresce entr e os anos 1950 e 1960.
• Balzac e a costureirinha chinesa, de Sijie Dai, 2002. Jovem é enviado ao campo como punição dur ante a Revolução
Cultur al n a China.
• Muda, Brasil, de Oswaldo Caldeir a, 1985. Documentár io sobre o período de tr ansição entr e a ditadur a milit ar e o
regime democr ático no Br asil.
• Terra para Rose, de Tetê Moraes, 1987. Documentár io sobre a or ganização dos trabalhadores r ur ais sem-ter r a no
Br asil após a ditadur a milit ar (1 9 6 4 -1 9 8 5 ).
• 0 sonho de Rose: dez anos depois, de Tetê Moraes, 2 0 0 1 . Reflexão sobre as lu t as de Rose uma década depois do
filme Terra para Rose. Documentár io.
• Danton, o processo da revolução, de Andr zej Wajda, 1992. Sobre as disputas de poder durante a Revolução Fr ancesa.

Tr ab al h an d o com f i l m es

Reúna-se com um grupo de colegas para assistir a um ou mais filmes indicados n a list a .
Depois, façam um debate e escrevam um texto com as conclusões do grupo, tendo em mente as
seguintes questões:
• Que r elações podem ser estabelecidas entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?
• Há r efer ências, no filme, à noção de mudança social? Quais são elas e como aparecem no filme?
• Há r efer ências ao conflito entre conservadores e progressistas? Sob que formas elas se manifestam no filme?
• Há r efer ências a processos r evolucionár ios? Quais são elas e como aparecem no filme?

Qu est ões p r op ost as


1 . Explique este conceito: "Mudança social é qualquer alteração nas formas de vida de uma
sociedade. Nenhuma sociedade é perfeitamente igual a si mesma em dois momentos
sucessivos de sua história". Cite um exemplo de mudança social que reafirme o conceito, sem
repetir os exemplos do t ext o.
2. De que maneira uma mudança social pode alter ar as relações sociais? Cite exemplos.
3 .0 que você entende por forças endógenas e por forças exógenas no estabelecimento da
mudança social?
4. Escreva um pequeno texto sobre obstáculos e resistências a mudanças sociais, dando exemplos.
5 . Qual a diferença entre reforma e revolução?
6 . Faça uma pesquisa e apresente comentários sobre as seguintes revoluções: Revolução Francesa
(1789), Revolução Russa (1917), Revolução Chinesa (1949) e Revolução Cubana (1959).

235
CAPÍTULO 12 Mudança social

Um novo paradigma
O texto que você vai ler agora foi escrito pelo italiano Domênico de Masi, um dos pensadores que mais
têm voltado sua reflexão para as mudanças na chamada sociedade pós-industrial. Publicado em 1999, ele
analisa as transformações ocorridas com o advento do que chama de d igit alid ad e, ou seja, um novo modelo
(paradigma) de comportamento e de trabalho diferente do paradigma anterior, da sociedade industrial.

C e m an os at r ás, em 1891, h a via ap r o- z o u essa d at a co m o o in ício d a socied ad e p ó s-


xim a d a m e n t e 30 m ilh õ e s d e it alian o s, q u e in d u st r ial, even t o h ist ó r ico co m p a r á ve l àq u ele
t r ab alh avam em geral 40 b ilh õ e s d e h o r as ao qu e, n a In glat er r a d e ce m an os at rás, assin alou
an o. H o j e e xist e m a p r o xim a d a m e n t e 57 m i - a u lt rap assagem d o n ú m e r o d e t r ab alh ad or es
lh õ e s d e it alian o s, q u e t r ab alh am 30 b ilh õ e s in d u st r iais sob re o d e cam p on eses.
de h or as ao a n o . Co n t u d o , p r o d u z e m t r eze Em 1995, p ela p r im e ir a ve z em u m p aís
ve z es m ais. - os Est ad o s U n i d o s n o va m e n t e - , ve n d e r a m -
Isso d ep en d e d e p elo m en o s c in c o fat o- se m ais co m p u t ad o r es d o qu e t elevisor es e
res sim u lt ân eo s: t r o car am -se m ais m en sagen s p ela in t er n et d o
1) o p r ogr esso t e c n o ló gic o , qu e d ifu n d e m á - que p elo co r r e io [...]. N o set or d a in for m át i-
q u in as cad a ve z m ais cap azes de su b st it u ir ca , as m u d a n ça s são t ão ve lo z e s qu e 8 0 % d o
o h o m e m , seja n o t r ab alh o físico, seja n o fat u r am en t o at u al d e r iva d e p r od u t os q u e h á
t r a b a lh o in t elect u al,- d ois an os n e m m esm o e xist ia m . [...]
2) o p r ogr esso o r ga n iz a t ivo , gr aças ao q u al
A gest ão da inovação
se con segu e ob t er cad a ve z m ais eficiên cia
d o t rabalh ador,- Se gu n d o est at íst icas d a O N U , en t r e
3) a glo b alização , qu e d et erm in a u m a abert u ra 1960 e 1990 o ín d ice d e pessoas qu e vive m
crescen t e d e t rocas n u m a escala in t er n acio- em c o n d iç õ e s m iser áveis b a ixo u d e 7 0 % p ara
n al, u m a ofert a cad a ve z m ais in t egrad a, u m a 46%, e a t a xa d e in st r u ção m é d ia d os ad u lt os
in t erd ep en d ên cia cad a ve z m ais est reit a en - su b iu d e 4 7 % p ara 6 9 % . N a It ália, a q u alid a-
tre as econ om ias e as cu lt u ras, u m a co m p et i- de d e vid a , m esm o n as r e giõ e s m ais p ob r es,
çã o plan et ária, co m o con sequ en t e r ed im en - t est em u n h a u m p r ogr esso qu e os n ossos a vó s
sion am en t o dos salários e d o est ado social,- n ã o p o d er iam im agin ar . P o r é m , a ca d a m i l
4) a d ivisã o in t e r n a cio n a l d o t r a b a lh o , d e- cr ian ças q u e en t r am n a p r im e ir a sér ie p r im á-
vid o à qu al gr an d e p art e d os p r od u t os e r ia , som en t e 684 co n segu em ob t er o d ip lo m a
se r viço s vê m d e lu gares on d e o cu st o d a d e En s in o M é d i o e ap en as 165 co n segu em se
m ã o - d e - o b r a é m en o s elevado,- gr ad u ar n a u n iver sid a d e.
5) as p r iva t iz a çõ e s, qu e ger am fort es gan h os N a r egião d o Vê n e t o , on d e a ren d a m éd ia
de eficiên cia e, co n seq u en t em en t e, d rást i- é a m ais alt a d o p aís, o p ercen t u al dos d ip lom a-
cas r e d u çõ e s d e p essoal. dos n o En sin o M é d io e dos gradu ados n as u n i-
versid ad es é b em m ais b aixo: a p ob r eza red u z
A sociedade inf ormada a escolarid ad e n o Su l e a r iq u eza a red u z n o
Em 1956, p ela p r im e ir a ve z em u m p aís No r t e , on d e u m jo ve m prefere t rab alh ar logo
- os Est ad os U n i d o s - , o n ú m er o d e co la r i- ao in vés d e com p let ar a p róp ria for m ação.
n h o s b r an co s [t r ab alh ad or es d e escr it ó r io s, As s im , falt a o su p or t e cu lt u r a l in d isp e n -
p rofission ais lib er ais, e t c ] su p er ou o d e co la - sável p ara d o m in a r as in o va çõ e s, q u e co r r e m
r in h o s azu is [o p e r á r io s]. D a n ie l Bell ca r a ct e r i- em c in c o d ir e çõ e s:

236
1) u m p r ogr esso t ão ve lo z que p ar ece in d o - ele n ã o se d eve a u m o u m ais fat ores ú n ico s,
m ável,- m as sim a u m co m p le xo de n o vid ad es in icia -
2) u m a d in â m ica t ão r ica e r áp id a de aco n t e- das cad a u m a p o r in icia t iva p r ó p r ia , e d ep ois
cim e n t o s que in d u z a u m e sm a e cim e n t o e len t am en t e flu íd as at r avés de u m sist em a coe-
a u m a p er d a d e sentido,- r en t e, que p or co m o d id a d e d efin it ór ia ch a -
3) u m cr escen t e m ed o de ser d esp ed id o , qu e m am os d e d igit a l, m as qu e t rat a de ca m p o s
an t es se lim it a va à classe o p er ár ia e qu e d iferen t es: d a ciên cia e da t e cn o lo gia à est ét i-
agor a se est en d eu aos em p r egad os, ger en - ca , da b io lo gia ao t r a b a lh o e aos co st u m es.
t es, e at é diretores,- Aq u e le s qu e co m p a r t ilh a m esse p ar ad ig-
4) u m d ist an ciam en t o cad a ve z m aior en t re as m a at é fazer d ele u m fato m e n t a l e m an t êm
velh as e as n ovas ge r a çõ e s, en t re os p ort a- u m a e xp e ct a t iva o t im ist a em r e la çã o à vid a e
d ores de u m p arad igm a exist en cial d o m u n - ao d est in o d o ser h u m a n o , n u t r em co n fia n ça
d o in d u st rial e os p ort ad ores de u m n o vo n os co n fr o n t o s das e sp é cie s que o cu p a m o
p arad igm a d o m u n d o d igit al e virtual,- p lan et a, e est ão cer t os de qu e a t e cn o lo gia , a
5) u m a p e r c e p ç ã o de que se é ao m e sm o in t eligên cia e a cr ia t ivid a d e p r e va le ce r ã o so-
t em p o a m e a ça e a m e a ça d o p o r p art e d os bre os in st in t o s au t od est r u t ivos d o h o m e m . A
p aíses em er gen t es, sob r et u d o os o r ien t a is, in for m át ica é só u m d os p ilar es cu lt u r ais so-
co m sua o b se ssã o p ela eficiên cia, suas es- b r e os qu ais se b aseia essa co n fia n ça . A ela é
p ecificid ad es cu lt u r a is, su a op er osid ad e p r eciso acr escen t ar :
d e svin cu la d a da e xigê n cia d e d ir eit o s civis 1) a sat isfação para a con q u ist ad a u b iq u id a-
que são p ara n ós ir r en u n ciáveis. d e [p r op r ied ad e de est ar em t od a p art e ao
A esco la, p o r t a n t o , é ch a m a d a a p r o - m esm o t e m p o ], gr aças aos m eios p er son ali-
vo ca r t em p est ivam en t e as m u d a n ça s, a c o m - zad os de co m u n ica çã o p lan et ária (d o fax ao
p r een d er a n at u r eza e o a lca n ce , a o r ie n t a r os celu lar, d o co r r eio elet r ô n ico à in t er n et );
jo ve n s d e m o d o que sejam cap azes de a d m i- 2) u m a d isp on ib ilid ad e de vir t u alid ad e, que
n ist r ar a in o va çã o e n ã o de se su b m et er a ela. t or n a as r elações sem p re m ais abst rat as e
en r iq u ece os sen t id os de n ovas dim en sões,-
Digit alidade
3) as e sp e r a n ça s legit im ad as p ela e n ge n h a -
O co n ju n t o das in o va çõ e s d e t e r m in o u o r ia ge n é t ica , gr aças à q u al p od e-se co n t a r
ad ven t o de u m n o vo p ar ad igm a, que ch a m a - co m u m a vid a ain d a m ais lon ga e sã d o que
r em os d e digitalidade. U m n ú m e r o cr escen t e a atual,-
d e pessoas ad eren t es a esse p ar ad igm a ap re- 4) a fe m in iliz a çã o da socied ad e, em qu e
sen t a u m m o d o d e vive r co m p le t a m e n t e n o vo n ã o som en t e as m u lh e r e s co n q u ist a r a m o
em r e la çã o àq u ele qu e p o r d ois sécu lo s ca r a c- acesso às salas co m b o t õ e s qu e os h o m e n s
t e r iz o u a socied ad e in d u st r ial. Essas pessoas h a via m r eser vad o p ara si, m as as vir t u d e s
for m am u m a m assa vo lu m o sa e h o m o g é n e a , fem in in as d a su b jet ivid ad e, da e m o t ivid a -
sep arad a e co n t r a p o st a em r e la çã o a t od os d e, d a est ét ica e d o cu id a d o co m o co r p o
aqu eles qu e n ã o são d igit ais. len t a m en t e co n q u ist a r a m t a m b é m os h o -
U m d os p rofet as dessa r e vo lu çã o , Bill m en s. [...]
Ga t e s, su st en t a que a r e vo lu çã o a co n t e ce u O s d igit ais [o u seja, p essoas que vive m
em duas et apas: p r im e ir o c o m a in ve n çã o d o segu n d o o p ar ad igm a d a socied ad e p ó s-in -
co m p u t ad o r , e d ep ois c o m a en t r ad a da in for- d u st r ia l] t êm in t im id a d e c o m a in for m át ica e
m át ica. Essas são algu m as das cau sas. M a s a co m a o n ip r e se n ça , co m as co n q u ist as d a b io -
essên cia d o fe n ó m e n o con sist e n o fato de que lo gia e co m igu ais o p o r t u n id ad es. Alé m d isso,
CAPÍTULO 12 Mudança social

cu lt iva m u m a est ét ica p ó s- m o d e r n a d est in ad a d o s, e a ssim p o r d ia n t e . H o j e , ao c o n t r á r io ,


a d ar sen t id o às coisas e aos even t os, e a c o m - os d igit a is c o m p a r t i lh a m e m b lo c o d essas
p o r e m u m ú n ico d esen h o os vá r io s fr agm en - n o vid a d e s d a é p o c a , as q u ais a ca b a r a m p o r
t os d e at ivid ad e d e ó c io em q u e a vid a at u al c o n t r i b u i r p ar a a c o n s t r u ç ã o d e u m ú n ic o
se est en d e e se fragm en t a. Am a m o t em p o e co e r e n t e p a r a d igm a , q u e ser ve d e lin h a
livr e ao m en os en q u an t o t em p o de trabalh o,- d ivisó r ia d as á gu a s e n t r e t o d o s aq u eles q u e
vive m a n oit e c o m o o dia,- a d m ir a m a ar t e, p e r t e n ce m a in d a à c u lt u r a m o d e r n a , e t o -
p elo m en o s a art e clássica. d os aq u eles q u e já p e r t e n ce m à c u lt u r a p ó s -
At é u m t e m p o a t r á s, aq u eles q u e a c e i- m odern a.
t a va m a e n ge n h a r ia ge n é t ic a n ã o c o i n c i d i a m
Ad a p t a d o d e : D E M A S I , D o m ê n i c o . Se a v i d a
c o m aq u eles q u e a d e r ia m à vir t u a lid a d e , os
s o fr e m u d a n ç a s , t a m b é m a e s co la d e v e m u d a r .
vir t u a is n ã o c o i n c i d i a m c o m os fe m in iliz a - Revista Digital. Ac e s s o e m 2 4 .3 .9 9 .

<* Pe n s e e re s p o n d a
1. Escreva um texto explicando as mudanças sociais e cultur ais que, na análise de De
Masi, r esultam da passagem do paradigma da sociedade in d u st r ial par a o paradigma
da sociedade pós-industr ial globalizada e infor matizada.

2. Você concorda com a opinião do autor , segundo a qual estar ia havendo uma
"femin ilização" da sociedade? Explique o significado desse conceito e por que você
concorda ou discorda dele.

238
Pobreza e
e s e nvo lvime nto
As expressões subdesenvolvimento e país subdesenvolvido
foram muito utilizadas na imprensa e na literatura sociológica
e económica durante as décadas de 1950 e 1960. Entre os anos
1970 e 1990, porém, tornou-se comum o uso dos conceitos de
Terceiro Mundo e ter ceir o-mundismo, que reuniam as regiões
antes rotuladas de subdesenvolvidas. Atualmente, essas expres-
sões foram substituídas pelas noções de país pobre e de país
emer gente, ou em desenvolviment o.
Esses novos conceitos têm a vantagem de diferenciar so-
ciedades extremamente pobres de regiões que combinam índi-
ces importantes de crescimento e bem-estar com amplos setores
da população vivendo abaixo da linha de pobreza. Ao grupo dos
extremamente pobres pertencem países como Burkina Fasso, na
África, Haiti, na América Latina, e Bangladesh, na Ásia. Já o
grupo dos emergentes, ou que estão em desenvolvimento, en-
globa países como o Brasil, a Rússia, a índia e a China, grupo
esse conhecido pela sigla BRIC.
Neste capítulo, retomamos o conceito inicial de subde-
senvolvimento porque ele designa uma situação histórica es-
pecífica, comum a um conjunto de países, que a noção de país
emergente ou em desenvolvimento às vezes mascara, esconden-
do problemas que os aproximam mais dos países pobres do que
daqueles que já alcançaram o pleno desenvolvimento.
CAPÍTULO 13 Pobreza e desenvolvimento

IMAGEM e SOCIEDADE

Obser ve e r esp on d a:

1. Você já viu alguma cena parecida com a que está registrada na foto?

2. Que cena é essa? 0 que ela lhe diz sobre a sociedade na qual foi registrada?

3. Que problemas sociais revela a cena da foto? Faça uma list a desses problemas.

4. Escreva um pequeno texto sugerindo soluções para esses problemas.

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CAPÍTULO 13 Pobreza e desenvolvimento

Os paíse s pobres

Antes de entrar na discussão do conceito de sub- Um de s e nvo lvim e nto pe rve rs o


desenvolvimento, talvez seja interessante assinalar Assim, são chamados hoje países pobres aque-
algumas características comuns a todos os países po- les que apresentam baixos níveis de desenvolvi-
bres, parte das quais podem ser encontradas também mento humano, económico e social. Tais carac-
nos países emergentes. Essas características são: ter ísticas, como vimos, atingem t a m b é m , em bora
• baixa renda per capita; apenas parcialmente, ou em menor escala, os paí-
• dependência económica e tecnológica em r ela- ses ditos em desenvolvimento.
ção aos países plenamente desenvolvidos; Afastado hoje da liter atur a sociológica e eco-
• grandes desigualdades n a distribuição de r en - nómica, o antigo conceito de subdesenvolvimento
da, com algumas pessoas muito r icas e a maio- não pode ser confundido com o de não-desenvol-
ria da população, ou boa parte dela, vivendo vimento ou com o de pouco desenvolvimento. Na
em condições de extrema pobreza; verdade, sua característica mais marcante é o que
• taxas elevadas de mortalidade infantil; se poderia chamar de desenvolvimento perverso, já
• altos índices de analfabetismo; que o crescimento económico nos países antes cha-
• má distribuição da propriedade da terra, com mados de subdesenvolvidos acentua as desigualda-
um pequeno grupo de latifundiár ios que con- des sociais em vez de diminuí-las, aumentando o
centram a maior parte do solo cultivável, e n - abismo que separa ricos de pobres.
quanto milhões de camponeses vivem sem-ter - Por outro lado, é preciso destacar que alguns
ra ou com pouca ter r a para tr abalhar ; países do antigo grupo de subdesenvolvidos encon-
• dívida externa elevada; tram-se hoje numa fase mais avançada de indus-
• economia controlada em parte por empresas mul- trialização. Estão nesse caso os BRICs - Br asil, Rús-
tinacionais com centros de decisão fora do país; sia, índia e China - , a Ar gentina, o Chile, a África
• corrupção generalizada nos órgãos administr a- do Sul e o México, além de outros. Eles formam o
tivos e em outros setores do Estado; chamado grupo de países emergentes.
• desrespeito aos direitos humanos mais ou me-
nos frequente. Rico s e pobre s no Bras il
0 Br asil se situa entre as dez maiores eco-
nomias do mundo. Entr etanto, do ponto de vist a
\ Ret r at o do ab i sm o so ci al em Man i l a, cap i t al das da distribuição de r enda, da qualidade de vida e
Fi l i p i n as, em f o t o de j an ei r o de 2 0 0 7 . No p r i m ei r o do bem-estar da população, encontra-se ainda em
p l an o, f av el a er gu e- se à m ar gem do r io, em
con t r ast e com co n d o m ín i o s d e lux o, ao f u n d o .
um patamar muito baixo. Segundo a classificação
da ONU (Organização das Nações Un idas), em se-
tembro de 2007 o Br asil ocupava a 7 0 â posição n a
escala do IDH (índice de Desenvolvimento Huma-
n o) , entre 177 países estudados.
0 IDH é um indicador que mede a qualidade
de vida de um país. Para calculá-lo, os técnicos da
ONU levam em conta a expectativa de vida da po-
pulação, a renda per capita, a t axa de alfabetiza-
ção da população e o índice de matr ículas no e n -
sino fundamental, médio e superior. Atualmente,
o Br asil tem um IDH mais baixo do que o de países
mais pobres, como Panamá ( 6 2 a ) , Cuba ( 5 1 a ) , Ur u-
guai ( 4 6 a ) e Chile ( 4 0 a ) .
CAPÍTULO 13 Pobreza e desenvolvimento

• m i t o do d esen v o l v i m en t o eco n ó m i co

Autor de diver sos livr os sobre o sub- A resposta é clara: se isso acontecesse, a
desenvolvimento no Br asil e n a Amér ica pressão sobre os recursos não-renováveis (pe-
La t in a , o economista Celso Fur tado (1 9 2 0 - tróleo, carvão, urânio, alumínio, etc.) seria tal
2004) é conhecido t ambém por um estudo que o sistema económico entraria em colapso;
clássico de hist or iogr afia: Formação econó- a depredação do mundo físico e a poluição
mica do Brasil, publicado em 1959. No t ext o seriam de tal ordem que colocariam em risco
a seguir , ele cr it ica a ilusão segundo a qual as possibilidades de sobrevivência da própria
um país subdesenvolvido só pode avançar espécie humana. Conclusão: a ideia de que os
se seguir o modelo de desenvolvimento es- povos pobres possam um dia chegar a ter os
tabelecido pelos países r icos. padrões de consumo dos povos ricos é irreali-
A ideia defendida nas últimas décadas, zável, não passa de uma ilusão.
de que as grandes massas de população dos Na verdade, o que acontece é que essa
países pobres podem atingir os padrões de ideia - do desenvolvimento económico - ser-
consumo da minoria da humanidade que ve para levar os povos pobres a aceitar gran-
vive hoje nos países altamente industrializa- des sacrifícios em nome de um futuro que
dos, como os Estados Unidos, não passa de nunca vai acontecer. Essa ideia serve tam-
um mito, de uma ilusão. bém para desviar as atenções das necessi-
Essa ideia interessa aos ricos dos paí- dades básicas da vida humana - alimenta-
ses pobres, pois justifica a concentração ção, saúde, habitação, educação - para cuja
da riqueza em poucas mãos, em nome do satisfação devem orientar-se os esforços de
progresso tecnológico e do desenvolvimento cientistas, economistas, políticos e de todos
económico que, como eles querem fazer crer, os cidadãos. 0 desenvolvimento de um povo
futuramente vão beneficiar toda a popula- só será possível por meio do atendimento a
ção. Enquanto isso, essa população continua essas necessidades, para as quais precisam
na miséria, sem alimentação, sem moradia, ser orientados os investimentos.
sem saúde, sem acesso à educação; as gran- Base ado e m : FURTADO, Ce ls o . 0 mito do desenvolvimento
económico. Rio de Jan e iro , Paz e Te rra, 1 9 7 4 . p. 6 1 -7 6 .
des metrópoles continuam com seu ar irres-
pirável, a crescente criminalidade, a deterio-
ração dos serviços públicos, etc. Va m o s p en sar ?
0 que os defensores do mito do desenvol-
vimento económico deixam de considerar é o Reúnam-se em grupos e, sob a orientação do
impacto sobre a natureza de uma eventual professor, debatam as seguintes questões:
universalização do consumo, conforme eles
1 . Qual é o caminho apontado pelo
preconizam. Um estudo feito por um grupo
autor para resolver