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SIMPÓSIO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA/UFRPE. Garanhuns: 29 a 31 de maio de 2011.

O ensino de literatura africana


de língua portuguesa no ensino médio
Diego Kehrle Sousa, UFRPE-UAST, CAPES

Introdução estes possam atuar politicamente,


Este trabalho se coloca como enquanto cidadãos que são, na
reflexão inicial sobre os primeiros sociedade da qual fazem parte.
meses de trabalho do PIBID Letras A partir destas considerações,
UFRPE/UAST na Escola Estadual procuramos construir um diálogo
Methodio de Godoy Lima, em diferente entre alunos e o texto literário,
cumprimento do projeto "Literaturas de para que este ocorra de forma crítica,
língua portuguesa: a África em tela". permitindo assim que o estudante não
Projeto este baseado apenas decodifique os textos com que se
essencialmente na lei 10.639/03, que depara, mas que consiga atribuir-lhes
finalmente tornou obrigatório o ensino sentido.
da história e influência cultural do povo Para tanto, foi necessário
africano na formação da cultura inicialmente tornar possível um
brasileira. Neste sentido, a abordagem primeiro contato com o texto literário,
escolhida por este trabalho, inicialmente algo cada vez mais difícil diante da
optou pelo contato com a literatura atual "grade curricular" que rege o
africana em língua portuguesa. Assim, ensino médio desta instituição de
esta proposta teve como horizonte a ensino, grade esta que torna a literatura
reflexão sobre questões teórico- mero instrumento para o ensino da
didáticas relativas ao ensino de língua, que esteriliza seu poder
literatura africana em língua portuguesa, subversivo, instaurador de mundos e
como também a tentativa de aproximar questionador de realidades.
os alunos do texto literário a partir de
outras manifestações artísticas, Material e Métodos
direcionando suas ações para a As reuniões com o tutor, Prof.
Educação das Relações Étnico-Raciais Sávio Roberto Fonsêca de Freitas, que
(FREITAS, 2010). precederam os encontros com os alunos,
Para pensar as questões étnico- foram de fundamental importância para
raciais dentro do ambiente escolar, que pudéssemos conduzir as atividades
entendemos que a escola carrega uma de forma efetiva, pois ali estávamos
inevitável influência do modelo social construindo um arcabouço teórico capaz
na qual está inserida, ou seja, as de sustentar e de suscitar
diversas formas de discriminação que questionamentos não só a partir do tema
alguns grupos sociais sofrem fora dali, proposto, mas também a partir das
também aparecem dentro deste espaço. colocações dos alunos. Nestas reuniões
Nesse sentido, a escola atua discutimos nossos “textos base”: O que
como agente de resistência, de é Negritude e Introdução à literatura
construção de identidades diversas, de negra, ambos escritos por Zilá Bernd.
lugar onde as diferenças sociais, étnico- Após esta etapa, começamos a
raciais e culturais devem coexistir planejar as atividades previstas, a
(SECAD, 2006). primeira a se realizar foi a Mostra de
Então se faz necessário um cinema. As atividades ocorreram em
entendimento da importância dessas contra-turno(manhã e tarde) com alunos
diferenças para a própria construção da de praticamente todas as turmas do
identidade dos estudantes, e para que ensino médio.
SIMPÓSIO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA/UFRPE. Garanhuns: 29 a 31 de maio de 2011.

No primeiro encontro, tentamos evidente a importância e a discussão


problematizar o conceito de Literatura, política sempre atual no texto literário.
a sua relação com a sociedade, e A liberdade de se trabalhar a
principalmente com a vida, do seu literatura a partir de uma temática
impacto em quem lê. No segundo voltada para a questão do preconceito,
encontro, foi tratado o conceito de trouxe uma força ainda maior ao texto
Negritude/negritude através do seu literário, pois dentro da sala de aula, da
percurso histórico, do contato com o forma tradicional como é abordada, a
texto literário e da contextualização e literatura termina sendo vista como
atualidade do tema. Ao fim, havia mera representação de histórias sobre
sempre uma pequena conversa onde os um passado longínquo sem relação
alunos relatavam casos de preconceito alguma com a vida, as próprias falas dos
racial e discutiam o que havia sido alunos denunciam esta visão construída
apresentado. No último encontro de algo distante.
voltado para a Mostra de Cinema, foi A leitura de textos literários
exibido o filme “A cor púrpura” de deveria ocorrer livre das amarras do
Steven Spielberg, que aborda a utilitarismo, do pensamento único,
discriminação racial sofrida e exercida dessa forma é possível ao aluno
pelos negros, além de expor a condição vivenciar e pensar sobre aquilo que lê,
feminina dentro daquele contexto, nos assim, cria-se um espaço onde a
Estados Unidos do início do século XX. diferença pode surgir e ser acolhida. A
Após cada exibição, também acontecia arte, para além do seu poder estético,
um pequeno debate com os alunos. também faz pensar e refletir
criticamente diante daquilo que
Resultados e Discussão procuramos compreender. Esta é uma
A construção desse espaço de questão essencial para a formação de
discussão, de contextualização do sujeitos que possuam consciência de sua
conhecimento através da atuação do participação em coletividades, das
PIBID, foi de extrema importância, já relações que ali ocorrem e da influência
que praticamente não existem dessas relações em suas vivências.
iniciativas dentro da escola que tratem
efetivamente das questões das minorias, Agradecimentos
a escola cada vez mais se torna o lugar Agradeço aos funcionários e
do “eterno recapitular”. A própria alunos da Escola Estadual Methodio de
literatura, excluída da “grade de Godoy Lima pela acolhida, à CAPES
disciplinas”(o próprio nome denuncia a pelo apoio financeiro, e ao Prof. Sávio
opressão), passou a ser assunto da Roberto Fonsêca de Freitas pelas
minoria, e para a nossa surpresa, na orientações.
escola havia se tornado apenas um
termo classificador de livros que estão Referências
abandonados na biblioteca.
Foi justamente nesta lacuna que BERND, Zilá. O que é Negritude. São
o projeto atuou. A literatura africana Paulo: Brasiliense, 1988.
através dos textos apresentados, causou
impacto, reverberando nos comentários ___________. Introdução à literatura
dos alunos. Ao descobrirem negra. São Paulo: Brasiliense, 1988.
características da cultura e história dos
movimentos negros através da própria BRASIL. Lei 10.639, de 09 de janeiro
poesia africana, os estudantes tornaram de 2003. Disponível em:
SIMPÓSIO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA/UFRPE. Garanhuns: 29 a 31 de maio de 2011.

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
Leis/2003/L10.639.htm>

FREITAS, S. R. F. Plano de Atividades


do projeto: Literatura Africana em
Língua Portuguesa: África em tela.
Serra Talhada: 2010.

SECAD. Orientações e Ações para a


Educação das Relações Étnico-Raciais.
Ministério da Educação/SECAD,
Brasília: 2006.