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Princípios e Tramitação do Processo Penal

O documento aborda o Direito Processual Penal, destacando a importância do princípio da judicialidade e a função preventiva do processo penal. Discute os modelos inquisitório e acusatório, além de detalhar a tramitação do processo penal, incluindo a denúncia do crime e os direitos e deveres dos sujeitos processuais. O Ministério Público é apresentado como o representante do Estado na ação penal, orientado pelo princípio da legalidade.
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Princípios e Tramitação do Processo Penal

O documento aborda o Direito Processual Penal, destacando a importância do princípio da judicialidade e a função preventiva do processo penal. Discute os modelos inquisitório e acusatório, além de detalhar a tramitação do processo penal, incluindo a denúncia do crime e os direitos e deveres dos sujeitos processuais. O Ministério Público é apresentado como o representante do Estado na ação penal, orientado pelo princípio da legalidade.
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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

21/02/2022
Bibliografia
 Jurisprudência
 Código anotado, Paulo pinto de Albuquerque
 Aulas teóricas
_____________________________________________________________________________

INTRODUÇÃO

Princípio da judicialidade: o dto penal apenas é aplicado no caso concreto através de tribunais
judiciais, não há dto penal em casos particulares. Não quer dizer que não haja formas não
conflituais de processo penal, como é o caso do processo de mediação, acordos de sentença,
entre outros.

Finalidade do processo penal


O processo penal é uma forma de garantir a praticabilidade e eficácia dos fins do dto penal. O
dto penal tem uma função preventiva, prevenir a prática de crimes, surgindo quando o dto penal
já falhou na ação preventiva, já há um bem violado ou aparentemente violado. O processos
penal tem ainda uma função preventiva para crimes futuros na visão da sociedade, consolida a
eficácia preventiva do direito penal
O processo penal não é um fim em si mesmo, no entanto tem finalidades próprias e uma
filosofia própria que não se confunde com o dto penal, “processo penal é o direito constitucional
aplicado”. O dto penal é a intervenção mais agressiva na esfera de privacidade dos cidadãos,
como tal grande parte do processo penal deve garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, a
concretização do dto penal é feita de acordo com regras que protegem os dtos fundamentais dos
cidadãos.
Assim que começa o processo penal ficam em risco os direitos fundamentais, tem que se ter em
atenção de que o dto processual penal deve prosseguir estas finalidades de prevenção.
Há uma ideia de que não há justiça quando se obtém uma condenação invalida, exemplo numa
sociedade se procura que o dto processo penal é uma verdade absoluta, sendo um dto
meramente inquisitório, um crime praticado em frente de 5 mil espectadores foi ainda filmado,
mas acontece que se cada pessoa fosse ouvida iam-se obter versões diferentes, isto porque não
há uma verdade universal que toda a gente reconheça da mesma forma, não é apenas uma
questão de opinião, dado que as conceções sociais influenciam a forma como a realidade, assim
num EDD não se pode partir da ideia de que há uma verdade absoluta aceite por todos daquilo
que é ou não justo.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Num estado ditatorial o próprio estado dita a verdade, não há este tipo de problemas, não é
possível haver uma contestação desta verdade, enquanto que num EDD ninguém tem o poder de
dizer o que é ou não a verdade, assim tenta-se buscar esta verdade com a CRP, interpretações
históricas…. Esta verdade está sujeita ao respeito por regras, caso estas não existissem a
tentação é que sejam os agentes judiciários tentem contornar esta busca da verdade material
através de meios ilegítimos, tortura, falsificação de prova… no caso da tortura criam-se 3
injustiças: injustiça da tortura, da falsa condenação e da falta de condenação do verdadeiro
culpado
Modelo inquisitório: modelo em que o processos penal é visto como um momento de analise o
mais exaustiva possível e sem respeito pelos dtos do arguido para descobrir toda a realidade e
verdade material possível. O arguido é visto como objeto de processo penal, estando sujeito a qq
intervenção do estado sem limites, como e de que formas vais obter a prova, sem limites,
podendo inclusive estar em causa a dignidade da pessoa, o arguido não é visto como arguido
inocente, o processo em si já é um indício de culpa, não tendo dto a participar na construção da
verdade
Modelo acusatório: sujeito do processo penal, há uma separação entre a entidade que acusa e a
entidade que julga, passando assim a ter o inquérito, controlado pelo MP, e o julgamento. Há
ainda a instrução facultativa, em que o juiz refere que faz ou não sentido a acusação, se a
mesma tem fundamento ir a julgamento. O MP está ainda sujeito a critérios de imparcialidade.
Há uma finalidade de comprovação dos factos da acusação, se permitem chegar a uma verdade
processualmente válida. A absolvição tb é uma concretização de justiça, há um estigma social
de que só se obtém justiça quando a pessoa é acusada

25/02/2022
BREVE VISÃO PANORÂMICA SOBRE A TRAMITAÇÃO DO PROCESSO PENAL

SUJEITOS E INTERVENIENTES PROCESSUAIS

Noticia do crime
 Nos crimes públicos a notícia pode ser transmitida pelo MP ou qq pessoa, podendo ainda
haver denuncias anonimas, mas esta apenas constitui verdadeira notícia do crime se a
própria denuncia resultarem indivíduos que resultem pratica do crime ou se a própria
denuncia seja crime, como denuncia caluniosa. É a comunicação do conhecimento da
suspeita da prática do crime
 Qualquer pessoa → 48º, 241º e 244º
 Entidades com dever de denuncia, 242º

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

 Denuncia anonima em certos casos, 246º/6


 Nos crimes semi públicos e particulares apenas pode haver inquérito se houver queixa do
ofendido ou de alguém que o representa, o dto de queixa esta regulado nos artgs 113ºss A
queixa implica a exteriorização de uma vontade de que haja processo penal
 Titular do direito de queixa → 49º/1 e 50º/1
 Entidades com dever de denuncia, 242º/3

Denuncia: comunicação de conhecimento, suspeita, da prática de um crime: manifestação de


conhecimento objetivos
Queixa: comunicação de conhecimento, suspeita, da prática de um crime de exteriorização de
vontade no sentido de que haja processo penal

Destinatários da denuncia do crime


 Órgão da polícia criminal, 241º CPP
 Entidade pública no exercício das duas funções, tem o dever legal de denuncia, 242º
CPP
 Feita diretamente ao MP, 241º CPP
↓↓
Quando a queixa é apresentada a estes órgãos, estes devem redigir auto noticia, 243º CPP, que
ficará a aguardar a apresentação da queixa, isto porque se não for feito auto de notícia, toda a
prova de flagrante de delito perde força. Devem comunicar ao MP no máximo no prazo de 10
dias, sendo este o diretor do inquérito, quem o dirige, devem ainda praticar autos necessários e
urgentes para assegurar os meios de prova??
É preciso ainda saber se os tribunais pt têm competência internacional, 4º ss CP, a partir do
momento em que a lei pt tem que ser aplicada ao caso, então os tribunais tb tem competência. O
CPP tb rege a competência internacional mas apenas são aplicados que nos termos do CP os
tribunais têm competência, determinando depois qual é o tribunal português competente

Tramitação
Quando os OPC recebem a notícia do crime ou denuncia deve,
1. Se presenciarem, redigir auto de notícia, 243º
2. Comunicar ao MP, no mais curto prazo, 248º, máximo de 10 dias
3. Praticar os atos cautelares necessários e urgentes para assegurar os meios de prova, 249º

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Competência para o inquérito: 264º CPP: a competência para realização de inquérito é regida
pelo 264º CPP
A competência internacional em matéria penal dos tribunais pt decorre dos artgs 4ºss CP, dado
que vigora o critério da tendencial coincidência entre a competência e a lei aplicável. Os artigos
19º e ss do CPP apenas se aplicam depois de estabelecida a competência internacional

Princípio da legalidade
Em pt vigora um sistema pelo respeito na legalidade e na ação penal, o MP não tem um poder
discricionário de decidir se abre ou não inquérito ou se deduz acusação ou não sobre um crime,
há regras e critérios que definem estas funções.
 Crimes públicos: denuncia do crime apenas que não seja manifestamente obvio que tal
ação não é crime, 48º e 262º/2
 Crimes semi públicos: abre inquérito desde que haja queixa, 49º/2, 50º/2 e 242º/3
 Crimes Particulares: tem que haver queixa e constituição como assistente por parte de
quem faz a queixa
 Auto de notícia, 243º, deve ser feito em todos os crimes

Conceitos
 Vítima, 67º-A : tem alguns direitos e possibilidade de se reconhecido processualmente
 A pessoa singular que sofreu um dano nomeadamente um atentado à sua integridade
física ou psíquica, um dano emocional ou moral, ou um dano patrimonial, diretamente
causado por ação ou omissão no âmbito da prática do crime.
 Os familiares de uma pessoa cuja morte tenha sido diretamente causada por um crime e
que tenham sofrido um dano em consequência dessa morte.
 Criança ou jovem até aos 18 anos que sofreu um dano causado por ação ou omissão no
âmbito da prática de um crime, incluindo os que sofreram maus-tratos relacionados com
a exposição de contextos de violência doméstica
 Ofendido: titular dos interesses que a lei quis proteger com a incriminação, 68º/1/a)
 Assistente: ofendido ou representante, sujeito processual com direitos e deveres e poderes de
tramitação, pratica de atos processuais assume-se como colaborador do MP
Conceção ampla: titular do interesse, bem jurídico, que a lei visa proteger, ainda que de
modo indireto ou mediato
Conceção estrita: titular do interesse, bem jurídico, que a lei visa proteger de modo direto
e imediato

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

 Crimes públicos e semi públicos, 68º/3: até 5 dias antes do início do debate
instrutório ou da audiência de julgamento. No prazo da acusação subordinada ou
do RAI. No prazo para interposição de recurso de sentença
 Crimes particulares: 68º/2, 10 dias a contas da advertência referida no 246º/4, feita
obrigatoriamente pelo MP ou OPC que receber a queixa do crime particular

Quando o ofendido se vai queixar, é obrigado a que quem recebe a queixa tem que fazer
uma advertência ao ofendido, tem que informar ao queixoso que é uma crime particular,
se não for feita esta advertência, há uma nulidade, se for feito, conta-se 10 dias para que
o ofendido se constitua com assistente

Suspeito e arguido
 Suspeito, artg 1º/e) toda a pessoa relativamente à qual exista indício de que cometeu ou se
prepara para cometar um crime, ou que nele participou ou se prepara para participar; ainda
sujeito as regras normais de qq pessoa que lida com processo penal
 Arguido, 57ºss surge logo na fase de inquérito antes da acusação, enquanto que o suspeito
apesar de ter uma categoria indefinida, o arguido já é titular de um conjunto de direitos e
deveres, como direito ao silencio p.e.. Há jurisprudência que entende que o suspeito, no
âmbito de conversas informais entre o assistente sejam objeto de prova e que não seja uma
violação do direito ao silencio, regência não concorda, referindo que esta distinção é
artificial, dado que considera que esta distinção serve para proteger o arguido
É um sujeito processual, existindo 3 formas de alguém ser constituído como arguido
1. Ope legis, pelo mero efeito da lei sem nenhum ato adm ou processual quando
alguém é algo de uma acusação ou requerido de instrução, 57º
2. Constituição de arguido obrigatória: suspeito presta declarações e lhe for aplicada
coação ou lavrado auto noticia que o identifique como suspeito
3. Facultativo: a pessoa sendo tecnicamente suspeita ou não pode pedir a constituição
de arguida, quando alguém é pedido para prestar declarações, no entanto entende que
as suas declarações podem colocar em causa a sua responsabilidade penal, pede a
constituição como arguido para que possa ter dto ao silencio, 59º
Direitos, 61º/1:
1. direito ao silencio,
2. direito a ter defensor,
3. direito a ser informado,
4. direito a interprete, 92º
5. direito a comunicar com o MP e o tribunal

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

6. direito a ser ouvido sempre que alguma decisão possa afetar a sua posição processual ou
direitos

Deveres 61º/3:
1. responder com verdade sobre a sua identificação.
2. Dever de comparecer quando notificado.
3. Dever de prestar termo de identidade e residência
4. Dever de sujeitar-se a diligencias de prova, medidas de coação e de garantia patrimonial

Sujeitos processuais e meros intervenientes


 Sujeitos processuais: participantes processual de pleno dto, com poderes de tramitação,
dto a apresentar requerimentos… MP, arguido, defensor e assistente. Há quem entenda
que o tribunal é um sujeito processual, regente não concorda e refere que o tribunal é
um órgão de soberania
 Intervenientes processuais: não tem poder de conformar tramitação, mas pode
apresentar requerimento, uma testemunha pode apresentar requerimento de
impossibilidade de presença, o interprete pode apresentar requerimento…
 Partes civis: sujeitos processuais mas apenas do processo civil que esta a ser conduzido
integradamente no processo penal.
 Demandantes: lesados: pessoas que sofrem danos com a prática dos crimes, mesmo que
não sejam ofendidos

Inquérito:
Fase processual de investigação do crime, obtenção da prova, prática de medidas cautelares para
assegurar julgamento e eficácia da condenação.
262º CPP- pratica dos autos cautelares para garantir que caso haja acusação, que o processo
possa ir a julgamento
Inicia-se materialmente com a notícia do crime, embora o CPP, fale em fases preliminares, dado
que a partir deste momento, iniciam-se as tarefas de investigação.
Pode haver arquivamento liminar, quando os factos denunciados não constituem crime, de
modo manifesto.
É dirigido pelo MP, assistido pelos OPC, 263º.
Na fase inicial do inquérito pode haver uma forma de tramitação especial, no processo comum
há um inquérito, instrução e sentença.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

No especial há desvios a tramitação, como o processo sumário, quando há detenções em


flagrante delito, não há inquérito, dado que a pessoa pode ser imediatamente julgada, havendo
um prazo de 30 dias

Processo sumário: os factos são evidentes, e não são necessárias diligencias de prova, o MP
pode, logo aquando a abertura de inquérito, remeter o processo para julgamento sob a forma
sumária. Apenas para arguidos detidos em flagrante delito, por crime punível com pena de
prisão cujo limite máximo não seja superior a 5 anos, ou quando o MP entenda que a pena não
deve ser superior a 5 anos, 381º. O MP pode substituir a acusação pelo auto de notícia

 Ministério Público

MP é o representante do estado na atividade judicial, sendo também o responsável por


exercer a ação penal orientado pelo princípio da legalidade. Caracterizado pela legalidade e
objetividade e autonomia.
Defende os interesses que a lei determinar, participa na execução da política criminal,
definida pelos órgãos de soberania, exerce a ação penal orientado pelo princípio da
legalidade democrática, nos termos da CRP. Em princípio os magistrados do MP estão
sujeitos apenas a lei e diretivas e ordens feitas de acordo com a lei. Apesar de ter autonomia,
não estado sujeito a interferência do poder político, ainda assim tem uma estrutura
hierárquica, sendo possível que dentro da hierarquia do MP pode haver decisões hierárquicos
e ainda ordens de??? Sujeito ao princípio da legalidade e objetividade

o Autonomia: caracteriza-se pela sua vinculação a critérios de objetividade e legalidade e


pela exclusiva sujeição dos magistrados do MP às diretivas, ordens e instruções previstas
na lei, 3º EMP

o Atribuições, 4º MP:
a) Defender a legalidade democrática
b) Participar na execução da política criminal definida pelos órgãos de soberania
c) Exercer a ação penal orientado pelo princípio da legalidade
d) Dirigir a investigação e as ações de prevenção criminal que, no âmbito das suas
competências, lhe incumba realizar ou promover, assistido sempre que necessário,
pelos órgãos de política criminal
e) Fiscalizar a constitucionalidade dos atos normativos

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

f) Fiscalizar a atividade processual dos órgãos de polícia criminal, nos termos do


presente estatuto
g) Coordenar a atividade dos órgãos de polícia criminal, nos termos da lei
h) Recorrer sempre que a decisão seja efeito de conluio das partes no sentido de
fraudar a lei ou tenha sido proferida com violação de lei expressa

 Ação penal: o MP deve colaborar com o tribunal na descoberta da verdade e na realização


do direito, obedecendo em todas as intervenções processuais a critérios de estrita
objetividade, 53º/1. Compete assim ao MP, 53º/2
a) Receber as denuncias, as queixas e as participações e apreciar o seguimento a dar-
lhes
b) Dirigir o inquérito
c) Deduzir acusação e sustentá-la efetivamente na instrução e no julgamento
d) Interpor recursos ainda que no exclusivo interesse da defesa
e) Promover a execução das penas e das medidas de segurança
 Legalidade e objetividade
a) Legalidade: deve abrir o inquérito, acusar (quando haja indícios suficientes)
sustentar a acusação (quando haja prova) e ainda dever de recorrer contra violação
de lei expressa
b) Objetividade: dever de arquivar (na ausência de indícios), de promover a absolvição
e de recorrer no interesse do arguido

Consequências da sujeição aos princípios


Legalidade: dever de abrir inquérito, dever de acusar, sustentar a acusação desde que
entenda que ficam provados os crimes
Objetividade: arquivar na ausência de indícios, o processo penal não é um processo de
partes
No inquérito há atos de MP mas há também atos do juiz de instrução, mesmo durante o
inquérito há ainda atos jurisdicionais do inquérito, atos que tem que ser feitos pelo juiz
ou validados pelo juiz de instrução

Processos sumaríssimo:
Não há instrução nem julgamento, mas existe inquérito. Feito este, o MP conclui que atendendo
as provas documentais, o crime é de tao pouca gravidade, que não se vai aplicar pena privativa
de liberdade, casos em que estão sujeitos a penas de multa baixas ou trabalhos comunitários,
propondo ao arguido que se passe para um requerimento de aplicação da pena

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Em caso de crime punível com pena de prisão não superior a 5 anos ou só com pena de multa, o
MP, por iniciativa do arguido ou depois de o ter ouvido e quando entender que ao caso deve ser
concretamente aplicada pena ou medida de segurança não privativas de liberdade, 392º
Em vez de acusação, há um requerimento do MP, com exposição dos factos e fundamento de
aplicação de pena ou medida de segurança não privativa, 394º.
Depende da concordância do arguido e do assistente nos crimes particulares

Arquivamento:
Findo o inquérito e caso não haja indícios da prática de crime, o inquérito tem que ser
arquivado, podendo este ser arquivado quando há indícios mas porque entende que estão
preenchidos os requisitos de dispensa de pena
Suspensão provisoria do processo: do pto de vista das finalidades preventivas, o processo pode
ficar resolvido pelo mecanismo da suspensão
O MP procede por despacho ao arquivamento do inquérito, logo que tiver recolhido prova
bastante de se na ter verificado crime, de o arguido não o ter praticado a qualquer título ou de
ser legalmente inadmissível o procedimento, 277º/1
O inquérito é igualmente arquivado se não tiver sido possível ao MP obter indícios suficientes
da verificação de crime ou de quem foram os agentes, 277º/2
 Arquivamento em caso de dispensa de pena, artg 280º: se o processo for por crime
relativamente ao qual se encontre expressamente prevista na lei penal a possibilidade de
dispensa de pena, o MP, com a concordância do juiz de instrução, pode decidir-se pelo
arquivamento do processo, se se verificarem os pressupostos daquela dispensa
Se a acusação tiver sido já deduzida, pode o juiz de instrução, enquanto esta decorrer,
arquivar o processo com a concordância do MP e do arguido, se se verificarem os
pressupostos da dispensa da pena
A decisão de arquivamento, em conformidade com o disposto nos números anteriores, não
é suscetível de impugnação
 Suspensão provisória do processo, 281º: se o crime for punível com pena de prisão não
superior a 5 anos ou com sanção diferente da prisão, o MP, oficiosamente oi a
requerimento do arguido ou do assistente, determina, com a concordância do juiz de
instrução, a suspensão do processo, mediante a imposição ao arguido de injunções e regras
de conduta, sempre que se verifiquem os seguintes pressupostos
a) Concordância do arguido e do assistente
b) Ausência de condenação anterior por crime da mesma natureza
c) Ausência de aplicação anterior de suspensão provisoria de processo pro crime
da mesma natureza

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

d) Não haver lugar a medida de segurança de internamento


e) Ausência de um grau de culpa elevado

Acusação:
 Acusação publica: 283º MP acusa quando houver indícios suficientes de se ter verificado
crime e de quem foi o seu agente (crimes públicos ou semi públicos)
 Acusação particular, 285º, o assistente acusa quando o MP notificar, findo o inquérito,
caso haja indícios suficientes (crimes particulares)

 Acusação principal
 Acusação subordinada (284º e 285º/4, o MP e o assistente podem acusar de modo
secundário face à acusação particular ou publica respetivamente)

Requerimento de abertura de instrução: visa a cooperação judicial da decisão de deduzir a


acusação ou de arquivar. Não existe nos processos especiais e a competência é sempre do juiz
de instrução criminal
 Acusação: 287º/1/a): o arguido pode apresentar RAI contestando os indícios, a
qualificação jurídica, ou pedindo a suspensão provisoria do processo.
287º/1/b): o assistente pode apresentar RAI se quiser acusar por mais factos, que sejam
substancialmente diversos face à acusação do MP
 Arquivamento: 287º/1/b): só assistente pode apresentar RAI. 287º/2 o RAI do assistente
substitui a acusação, e deve obedecer aos requisitos da acusação, 283º

Instrução:
 Visa a comprovação judicial da decisão de deduzir acusação ou de arquivar o inquérito
em rodem a submeter ou não a causa a julgamento (fase facultativa que garante, ao
arguido, o direito de não ir a julgamento sem uma validação judicial da acusação do
MP/assistente; e garante ao assistente o seu dto à proteção jurídica e ao processo,
quando o MP não acuse, podendo ainda assim o crime ir a julgamento
 A competência é sempre do tribunal de instrução criminal (juízo de instrução criminal)
 Não há instrução nos processos especiais, o objeto do processo é definido na acusação
ou no RAI do assistente
 Não é preciso fazer prova pela no crime, basta demonstrar que há indícios suficiente
(possibilidade razoável de ao arguido vir a ser aplicada por força deles, em julgamento,
uma pena ou uma medida de segurança)

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Despacho de não pronuncia: pode pronunciar de todos ou alguns dos crimes de acusação.
Deve ter o mesmo efeito de uma absolvição, podendo o processo ser reaberto apenas através da
revisão extraordinária de sentença, 449ºss
Despacho de pronuncia: pronunciar por todos os crimes descritos na acusação do MP ou do
assistente, 308º. Pronunciar apenas por alguns dos crimes descritos na acusação do MP ou do
assistente (inclui despacho de não pronuncia pelos restantes crimes/factos)
Pronunciar por todos os crimes descritos na acusação do MP ou do assistente e ainda, pelos
factos/crimes constantes no RAI do assistente, 308º. Suspender provisoriamente o processo,
307º/2

28/02/2022
Julgamento

Rejeição da acusação
Fase de saneamento do processo (despacho saneador)
Quando não tenha havido instrução o juiz do tribunal do julgamento pode, 311º
a) Rejeitar a acusação principal do MP ou assistente se a considerar manifestamente
infundada (não contenha a identificação do arguido, a narração dos factos ou as normas
legais, ou quando os factos não constituem crime
b) Rejeitar a acusação subordinada do MP ou assistente quando represente uma alteração
substancial dos factos
A lei não prevê consequências ou efeitos deste despacho

Crimes públicos e semipúblicos: jurisprudência tem admitido que o processo regresse à fase de
inquérito para que seja corrigida a atuação
Crimes particulares: o processo é arquivado, com efeito de bis in idem, apenas podendo ser
reaberto nos termos do 278º

Tribunais competentes:
 Tribunal singular, artg 16º é o MP. Crimes puníveis com pena até 5 anos de prisão,
crimes puníveis com pena superior (ainda que em concurso) desde que o MP entenda
que a pena não deve ser superior a h anos. Crimes título II, V cap. II CP (crimes contra
a autoridade publica), mesmo com pena superior a 5 anos. os processos especiais são
sempre julgados neste tribunal
Como é que o tribunal é composto: crimes do artigo 16º, se o MP entender que a pena
não vai ser superior a 5 anos, pode o MP remeter para o tribunal singular

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

 Tribunal coletivo, artg 14º, crimes com pena superior a 5 anos, composto por 3 juízes,
14º/1 CPP e crimes em concursos, mesmo que estes individualmente não tenham pena
superior a 5 anos
 Tribunal de júri, artg 13º, composto por 3 juízes e 4 jurados, crimes com pena superior
a 8 anos de prisão, tem que ser requerido por qualquer um dos sujeitos processuais,
nunca acontece automaticamente. Julga todos os homicidas e integridade física,
condução perigosa, etc., todos os que têm como resultado a morte

Determinação da moldura penal


Artigo 15º→ determinar as agravantes, questão do concurso efetivo de crimes.. são levadas em
conta todas as circunstâncias que possam elevar o máximo legal da pena a aplicar ao caso.
Exemplo: concurso efetivo de crimes, agravamento geral do porte de arma proibida…

Processo abreviado
 O MP se os facos forem simples e evidentes, ou quando a prova for simples de obter, pode-
se remeter para o processo abreviado. Não é muito usado, sendo mais recorrente o processo
sumario e sumaríssimo, neste processo nunca há instrução, há apenas inquérito e julgamento,
mais preciso e célere.
 Em caso de crime punível com pena de multa ou pena de prisão não superior a 5 anos,
havendo provas simples e evidentes de que resultem indícios suficientes de se ter verificado
o crime e de quem foi o seu agente. Crime com pena superior quando o MP entender que não
deve ser aplicada pena superior a 5 anos, 391º-A
 MP pode remeter ou substituir acusação pelo autor de notícia
 Há privas simples e evidentes quando o agente tenha sido detido em flagrante delito e o
julgamento não puder efetuar-se sob a forma de processo sumário; quando a prova for
essencialmente documental e possa ser recolhida no prazo previsto para a dedução da
acusação; quando a prova assentar em testemunhas presenciais com versão uniforme dos
factos

Absolvição, 376º → sentença absolutória


 Esta sentença declara a extinção de qualquer medida de coação e ordena a imediata
libertação do arguido preso preventivamente, salvo se ele dever continuar preso por outro
motivo ou sofrer medida de segurança de internamento
 a sentença absolutória condena ou assistente em custas, nos termos do CPP e no regulamento
de custas processuais

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

 se o crime tiver sido cometido por inimputável, a sentença é absolutória. Se nela for aplicada
medida de segurança, vale como sentença condenatória para efeitos do artg 375º/1 e de
recurso do arguido

Condenação, 375º → sentença condenatória


 O tribunal não só da por provada a prática dos factos e demonstrar o porquê de se ter
convencido, determinar a medida da pena, penas acessórias, etc…
 Este sentença especifica do fundamentos que presidiram à escolha e à medida da sanção
aplicada, indicando, caso seja a situação, o início e o regime do seu cumprimento, outros
deveres que ao condenado sejam impostos e a sua duração, bem como o plano individual de
readaptação social
 Após a leitura da sentença, o presidente, quando o jugar conveniente, dirige ao arguido breve
alocução, exortando-o a corrigir-se
 É também considerado sentença condenatória a que tiver decretado dispensa da pena
 Sempre que necessário, o tribunal procede ao reexame da situação do arguido, sujeitando-o
às medidas de coração admissíveis e adequadas às exigências cautelares que o caso requerer

POPULISMO PENAL

MEDIA AND JUSTICE STUDIES, O IMPACTO NO SISTEMA DE JUSTIÇA


PENAL

Existe uma disciplina dentro das ciências próximas do direito, que é denominada de media and
justice studies1

Há um conjunto de conceitos que vêm desta ciência combinada que é necessário ter em conta

Populismo penal:
Episodio “black mirror”→ White bear que demonstra a gravidade e a necessidade de tornar
publico a execução da pena?!! Criar um ambiente de exagero e alarmismo de criminalidade
04/03/2022
Há dois fenómenos que se conjugaram durante a transição para o séc. XXI e nos 20 anos
seguintes,

1
Está numa pasta autónoma da biblioteca digital

13
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

 surgiu um maior interesse pelo crime


 maior interesse de acompanhar o sistema de justiça através de situações de crimes
mediáticos
↓↓
não obstante não são o melhor exemplo do processos penal dado que são processos de
grande complexidade e casos algo excecionais. Isto faz com que a ideia do funcionamento
da justiça penal seja feita através destes casos de exceção e não dos casos regra

O crime passou a ser um produto de entretenimento, estava reservado para os espaços


informativos (telejornais ou documentários) surgiram p.e. jornais etc. que davam atenção ao
crime mas não tinham muita circulação (os tabloides).
A partir do séc. XXI, no espaço do Day Time TV, passaram a ter relatos de crime2
O crime cientificamente é motivado maioritariamente por situações de pobreza e exclusão
social, saúde mental e consumos, e problemas associados a personalidades anti sociais… na
realidade a forma como crime é discutido nestes programas é sempre analisado numa perspetiva
individual, embora esta exista sempre, mas normalmente os fatores sociais muitas vezes são os
mais importantes na prática do crime, como tal, estas audiências não têm capacidade para
analisar de forma correta da situação. Ex: psicólogo que teve vários processos disciplinares que
levaram a suspensão da sua cédula profissionais e continuam a dar a sua opinião na TV, não
tendo a decida qualificação para tal, ou o caso de uma advogada a dizer na TV que o facto de o
senhorio querer aumentar a renda é crime, quando tal é completamente errado
Ex: caso de Leonor Cipriano, filha desapareceu, nunca se encontrou o corpo, sendo que
tendo em conta as provas dos factos existentes (apenas foram encontrados vestígios de sangue
na casa e vestígios de cadáver na arca), ou seja não era possível, mediante os factos, condenar
por homicídio, apenas era possível condenar Leonor e o irmão por ofensa à integridade física
qualificada, no entanto, acabaram por ser os dois condenados por homicídio dado que a
sociedade tinha convicção que ambos tinham morto a criança

Realidade empírica: primeira fonte de conhecimento, há uma perceção e construção da realidade


a partir da experiência individual empírica (eventos vividos ou presenciados pelo sujeito)
Realidade simbólica: fontes de conhecimento superveniente, perceção da realidade a partir de
informação transmitida por outras pessoas, instituições sociais, ou media

2
Day Time TV: são tipo de programa feito para donas de casa e reformados, ou seja, pessoas que estão durante o dia em casa, assim
pegou-se na narrativa simples destes programas para incluir o crime, passando conceções criminais para audiências com pouca
instrução e capacidade de analisar o crime, criando uma banalização do crime e uma distorção da realidade que leva à prática do
crime.
14
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Julgamento de tribunal de júri são excecionais em Portugal, 4 pessoas leigas que na tem
qualificações que não tem competência técnica que vão fazer um julgamento penal, a maioria
dos advogados não tem formação para fazer um julgamento de júri

Princípio do juiz natural, 32º/9


O juiz e o tribunal competente tem que estar definido por lei prévia e tem que ser lei da AR ou
DL autorizado, 165º/p) CRP. Evita a tentação de selecionar o tribunal competente através de
critérios pouco claros. Garantia fundamental da confiança do EDD e do sistema de justiça, uma
das coisas mais graves da justiça é saber que a decisão depende da pessoalidade do juiz que vai
decidir (juízes de estrela, convicção de que há juízes que tem uma orientação, outro têm outra e
consoante vá para um ou para outro, a decisão vai ser diferente, sendo sito resultante do
populismo penal), o objetivo é que haja a expectativa de que a decisão vá ser sempre a mesma
independentemente do juiz que a decida
Há um conceito europeu de “vitima vulnerável”

Princípio do juiz virgem/juiz legal


32º/5 e artigos relativos ao tribunal a imposição da imparcialidade do tribunal, garantias de que
o juiz e o tribunal não tem razoes pessoais para estar afetada a sua imparcialidade (o juiz não
pode decidir uma causa em que os filhos sejam parte, ou em casos em que juízes têm
participações sociais a decidir sobre um processo de uma empresa). O que é específico do
processo penal é que se entender que o juiz que procede ao julgamento, deve estar perante o
primeiro contacto do processo, o juiz não pode ter tido outros contactos que possam colocar em
causa a sua convicção sobre a culpabilidade ou não do arguido que vai ser julgado, é suposto
que aquele juiz ouça os facto de uma perspetiva imparcial e equidistante.
O artg 40º tem tido algum debate e já sofreu bastantes alterações, para que se conseguisse que
estivesse dentro do padrão de constitucionalidade aceitável, (se participou em julgamento
anterior do juiz, decisão de recusa ou arquivação, não pode estar depois no julgamento
posterior, dado que são feitos juízos de culpabilidade). Em 2021, com a estratégia anti
corrupção e com as alterações do CPP, integrou-se o 40º/2, que não permitia que o juiz
participasse em certas ações. Artg 268º CPP, tem um elenco de quais os atos do inquérito que
tem que ter validação judicial, o juiz de instrução na fase do inquérito não faz nenhum juízo de
culpabilidade, é um juízo muito indiciário, o juiz não entra aqui dentro do processos, como tal
estas decisões não afetam a sua imparcialidade que os impeça de fazer o debate instrutório. Se
se disser que um juiz de instrução criminal que pratique qq ato na fase do inquérito, deixa de
haver juízes para fazer instrução. Como tal a norma do 40º/2 vai tornar-se problemática
PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

29º/2 CRP
 princípio da legalidade do processo: Quando há uma situação de lacuna o juiz tem que
dar uma resposta, em princípio não há lacunas intencionais dado que não há aqui
princípio da tipicidade. O que não pode fazer é analogia em desfavor do arguido, 2º e 4º
CP e 29º CR, naos e presume que as lacunas são intencionais.
 princípio do juiz natural, 32º/9 e 165º/1/p) CRP. Há uma obrigatoriedade de fixação da
competência do tribunal por lei, e lei da AR (reserva relativa), obrigatoriedade de
fixação taxativa das regras de competência; obrigatoriedade de fixação por lei prévia do
tribunal competente
 princípio da retroatividade e obrigação de retroatividade de algumas normas penais,
29º/1/4) CRP e 2ºss do CP e artg 5º CPP
 princípio da oficialidade e judicialidade, não há privatização do dto penal, é sempre um
processo publico, 27º/2, 32º/4, 202º e 2019º CRP. A ação penal é sempre exercida pelo
MP, a quem compete sempre a direção do inquérito, não podendo haver aplicação da
pena sem processo judicial
 princípio da legalidade da ação penal , 219º/1 CRP, 262º/2 CPP. A atividade do MP
encontrasse vinculada aos critérios de legalidade e objetividade, devendo haver sempre
inquérito quando haja notícia do crime, e sempre acusação quando há indícios
suficientes (salvo nos casos excecionais de oportunidade vinculada)

APLICAÇÃO DA LEI PROCESSUAL PENAL NO TEMPO


Normas processuais penais materiais
A doutrina costuma distinguir as normas processuais penais formais das normas processuais
penais materiais.
 Normais processuais penais formais: valeria o artg 5º CPP, na sua versão integral
 Normas processuais penais materiais: aplicar-se-ia uma interpretação corretiva do artg
5º CPP ou o 2º CP. Seria todas as que interferem com a existência de responsabilidade
penal ou a possibilidade de existir processo penal (natureza do crime, direito de queixa,
prescrição, amnistia e perdões)
Professora regente entende que estas normas, que se encontram no CP , são
simplesmente normas penais. Sujeitas aos artgs 29º CRP e 2º CP. No mesmo sentido
tem ido a jurisprudência do TC, AC nº 677/98, designadamente em matéria de direito de
queixa e de prescrição
Aplicação da lei processual penal no tempo, artigo 5º CPP
O artg 5º do CPP, que tem as regras a aplicação da lei processual no tempo é bastante mal feita,
é das normas menos conseguidas da história legislativa portuguesa. A doutrina começou então a
16
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

perceber que este artg não servia para reger a sucessão de leis processuais penais em muitos
casos, dizendo que há situações que devem ser reguladas pelo CP, dado que estavam em causa
normas materiais. O TC já veio dizer que tudo o que é regulado pelo CP fica sujeito ao artg 2º
do mesmo.
Quanto ao artg 5º do CPP, a al a) suscita problemas, dado que a lei processual penal não se
aplica em que se aplica a al a) ou b), como tal aplica-se que lei? O artg 5º não refere, alguma
doutrina refere que a al a) consagra as normas processuais penais materiais, embora estas não
sejam muitas, dado que são matérias normalmente reguladas no CP, como tal a jurisprudência
tem entendido que a al) a) aplica-se de forma mais abrangente do que às normas processuais
materiais, aplicando-se quando a lei nova traga uma surpresa quanto à decisão para o arguido

O relevante é
determinar o
momento a partir do
qual a situação
processual se deva
considerar
consolidada, não se
podendo aplicar lei
processual nova
prejudicial ao
arguido, mas
aplicando-se a lei processual nova que seja mais favorável ao arguido
 Quando se trate de mudança de lei processual inócua, não afeta a situação processual do
arguido ou do assistente, regras sobre notificações, competência territorial, conexão.
Impedimentos do tribunal, regras sobre pedidos de indemnização civil, publicidade e
assistência, multas processuais, regime de nulidades, regras sobre produção de prova…
artg 5º/1/a), aplicação imediata da lei nova, salvo se se quebrar a harmonia e unidade
processual
 Quando se trate de lei processual que afete a situação processual do arguido ou do
assistente, uma vez que se trata de regras que restringem direitos ou garantias
fundamentais, 32º/1 e 7º CRP, deve haver exigência maior quanto ao princípio da
legalidade, 18º/2 CRP e artg 5º/1/a), não se podendo aplicar imediatamente a lei nova.
Qual a lei aplicável? O artg 5º não responde à questão, nem deve haver uma resposta
uniforme, dado que nem sempre se deve exigir a aplicação da lei do momento da prática
do facto

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

 Mudança de lei processual penal material (determina a existência de responsabilidade


penal ou a possibilidade de haver processo penal; natureza dos crimes; direito de
queixa, prescrição, amnistia a perdão, 29º CRP e 2ºss CP, AC do TC nº 677/98, AC do
tribunal da relação de Évora, de 11 de maio de 2021, AC do tribunal da relação de
Guimarães de 25 de janeiro de 2021

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Oficialidade e judicialidade
Estes princípios integram a concretização processual do princípio da legalidade (estadualidade
do direito penal), ditando que a ação penal é de natureza oficiosa, exercida pelo MP, e que a
determinação da responsabilidade penal compete aos tribunais judiciais. Embora nos crimes
particulares, a acusação deva ser deduzia pelo assistente, não há uma verdadeira exceção do
princípio da oficialidade, dado que o inquérito continua a ser dirigido pelo MP, e este mantem o
poder de arquivar

Natureza dos crimes


A. Crime público:
a) a notícia do crime pode ser obtida por qualquer forma
b) o MP tem legitimidade para abrir inquérito mesmo contra a vontade da
vítima/ofendido
c) MP deduz a acusação
d) O ofendido pode constituir-se como assistente, se quiser

B. Crime semipúblico
a) A notícia do crime pode ser obtida por qualquer forma, mas o MP apenas tem
legitimidade para abrir inquérito se for apresentada queixa pelo ofendido, tendo este
6 meses, artg 115º CP
b) O MP deduz a acusação
c) O ofendido pode constituir-se como assistente, se quiser
C. Crime particular
a) A notícia do crime pode ser obtida por qualquer forma, mas o MP apenas tem
legitimidade para abrir inquérito se for apresentada queixa pelo ofendido, 6 meses,
115º CP
b) No momento da queixa, o ofendido deve ser advertido de que é obrigatória a
constituição como assistente, tendo 10 dias para o fazer
c) Assistente deduz acusação

Legalidade e oportunidade
O princípio da legalidade impõe que o MP atue de modo vinculado à lei, orientado pela
objetividade na investigação e avaliação dos indícios. Ficam excluídos do juízo do MP
valorações inerentes à conveniência do processo penal, como juízos de pura discricionariedade.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

O MP pode decidir com base na oportunidade do processo penal quando, mesmo perante a
existência de indícios suficientes para acusar, entendesse que seria mais razoável, conveniente,
ou politicamente seguro não acusar (ou o inverso, acusar na ausência de indícios suficientes).
Nos termos da CRP e da nossa lei, o MP nunca pode realizar este tipi de juízos, estando sempre
vinculado a critérios de legalidade
A doutrina costuma falar em instrumentos de “oportunidade mitigada”, a propósito do
arquivamento em caso de dispensa da pena, 280º, suspensão provisoria do processo, 281º e
também nos casos de envio para julgamento em tribunal singular, 16º/3 ou sob a forma de
processo sumário ou abreviado, 381º/2 e 391º-A/2. No entanto, em nenhum destes casos, o MP
realiza um juízo de pura oportunidade, limitando-se a realizar um juízo, vinculado a critérios de
legalidade, de baixa gravidade do ilícito, da culpa, e das necessidades de prevenção, 280º e 281º
ou de simplicidade dos factos e da prova e de baixa gravidade do ilícito, da culpa e das
necessidades de prevenção, 16º/3, 381º/2 e 391º-A/2. Estas decisões do MP, estão sujeitas a
validação judicial, pelo JIC ou juiz de julgamento, que fazem controlo da legalidade das
mesmas

Existe alguma divergência doutrinaria em torno da natureza do juízo do MP, quando decide
arquivar ou acusar, 277º e 283º.
 COSTA PINTO, este juízo não poderia ser equivalente ao do juiz de instrução (pronuncia ou
não pronuncia), ou do julgamento (absolvição oi condenação), dado que o princípio da
judicialidade e o princípio do acusatório exigiria que apenas o juiz do julgamento pudesse
fazer um juízo sobre o mérito da acusação. Assim, o MP faria um puro juízo indiciário,
quando houvesse indícios suficientes do preenchimento da tipicidade penal, acusaria, mesmo
quando houvesse também indícios de concorrência de causas de exclusão da ilicitude ou da
culpa. Esta posição é de rejeitar, AC do TC nº 439/2002, que julga inconstitucionais os artgs
286º/1, 298º e 308º/1 CPP, interpretados no sentido de que a valoração da prova indiciaria
que subjaz ao despacho de pronuncia se bastar com a formulação de um juiz segundo o qual
não deve haver pronuncia se da submissão do arguido a julgamento resultar um ato
manifestamente inútil.
 HELENA MOURÃO: dever de acusar ou não acusar do MP em casos de justificação e
desculpa? Por várias razões:
a) Princípio da judicialidade, 27º/2 CRP, apenas exige a mediação do tribunal para
aplicação de penas e medidas de segurança, ou seja, para a atribuição da

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

responsabilidade penal (o arquivamento é apenas um juiz indiciário da inexistência do


crime ou de inexistência da prova do crime
b) O princípio do acusatório apenas exige que haja uma separação entre quem investiga e
acusa, por um lado, e quem julga, assim se garantindo a imparcialidade do julgador, não
é afetado pelo arquivamento nestes casos
c) A existência do crime não depende apenas do preenchimento da tipicidade, mas
também da ilicitude e da culpa e da punibilidade, o MP também arquiva quando haja
prescrição. O princípio da presunção da inocência, ante a natureza agressiva do
processo penal, exige que se reconheça um dto a não ir a julgamento. O MP atua de
acordo com critérios de objetividade e legalidade, devendo recolher todos os indícios e
pelos meios de prova inerentes aos factos do crime, quer sejam no sentido da existência
de crimes, quer sejam indícios exoneratórios, que apontem para a inexistência de crime,
devendo atuar, no final do inquérito, em conformidade aos indícios recolhidos
d) A decisão de acusar ou de não acusar, tomada pelo MP não é diferente da decisão de
pronunciar ou de condenar, sendo apenas diferente quando ao grau de confiança na
medida em que estas outras decisões são tomadas após o pleno contraditório de prova
e) A decisão do MP não é uma decisão final, caso seja arquivada, o ofendido/assistente,
pode requerer a abertura de instrução

11/03/2022

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

A forma como tribunal está contruído fisicamente, a arquitetura não é uma pura ciência
matemática, é influencia pelas conceções sociais representa uma conceção social (tribunal
acima dos outros, MP como uma figura mediana, advogados num lugar inferir e o arguido
exposto num ligar de destaque de estigmatização tirando a ideia de este ter direito à presunção
de inocência). O arguido não pode estar ao pé do advogado no julgamento, sendo isto uma
violação do direito de defesa do arguido, dado que não pode conferenciar com o advogado,
para conferenciarem, tem que se interromper o julgamento e apenas se o juiz der essa
permissão.
Apesar de o tribunal ter uma divisão da estrutura acusatória, quando o tribunal inicia a fase de
julgamento, inicia-se na fase saneadora, se o tribunal é obrigado a avaliar o processo todo para
decidir nulidade e saber se acusação é infundada ou não, este juiz antes de começar o
julgamento já contactou com tudo o que está no processo, que é a visão do MP, numa fase onde
ainda não no exercido o contraditório, o juiz pode ainda ler provas que não poderiam ser usadas

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

no âmbito do processo de prova, algo que depois psicologicamente é difícil de apagar, como tal
já não inicia a fase de julgamento na posição de juiz virgem, havendo sempre uma veracidade
em torno da acusação, sendo que na realidade o que existe é uma presunção de idoneidade da
acusação, ou seja, na verdade não existe esta presunção de inocência quando na verdade o que
há é uma presunção de culpa.
Presunção de inocência, artg 32º/2 relacionada com os princípios da dignidade da pessoa
humana e com EDD, esta mantem-se até ao transito em julgado, não se pode ter medidas de
processo penal que se fossem aplicadas a uma pessoa inocente seriam impraticáveis e
intoleráveis à luz das conceções sociais

Corolário da presunção de inocência


 Princípio da presunção de inocência, artigo 1º, 2º, 27º e 32º/2 CRP. Decorre da
conjugação dos princípios da dignidade humana e do estado de direito (rule of law),
conjugados com o princípio geral da liberdade, e impõe que o arguido se presuma
inocente ao longo do processo penal, inclusive que se faça prova plena e definitiva de
que é responsável pelo crime (trânsito em julgado da condenação). Não é mera
presunção, em sentido técnico, mas verdadeira princípio constitucional e cultural, do
qual decorrem direitos, como o direito ao silencio, e garantias constitucionais, como o
direito à plena defesa)
 Princípio do juiz virgem
 Proibição da presunções de culpabilidade: decorre da conjugação entre o principio da
culpa e presunção de inocência, proibindo ónus de prova ou presunções legais ou de
facto
 Proibição de culpa coletiva ou por associações: decorre da conjugação entre o princípio
da culpa e a presunção de inocência, exigindo a individualidade da prova
 Direito ao silencio e à não inculpação: nemo tenetur se ipsum accusare
 Dever de objetividade do MP: o MP tem obrigação de investigar todos os indícios,
mesmo dos exoneratórios e de apresentar toda a prova, mesmo a favorável ao arguido
em julgamento
 Excecionalidade da prisão preventiva. Até 2007 Portugal tinha das taxas mais elevadas
a nível de prisões preventivas
 Imposição de efeito suspensivo do recurso: proibição de cumprimento de pena antes do
transito em julgado
 Direito à informação em tempo útil e acesso à prova

Entidades vinculadas a presunção de inocência

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Estão vinculados todos os sujeitos processuais e todas as autoridades publicas. Nenhuma


autoridade publica pode tratar alguém como culpado, independentemente dos fundamentos da
absolvição.
A presunção de inocência tem algum efeito sobre autoridades privadas? Como a imprensa, são
os que mais podem afetar a presunção de inocência, os media tem um grande impacto no
próprio tribunal. Na conjugação entre o dto a presunção de inocência e liberdade de imprensa o
tribunal europeu refere que deve prevalecer o dto a liberdade de imprensa, no entanto estas
campanhas têm um grande impacto. Ex: julgamento de operação Marquês, qual seria a reação
social de uma absolvição do primeiro-ministro neste processo? gera uma pressão insustentável
no sentido da condenação daquela pessoa, mesmo na falta de provas. Gera-se uma espécie de
condenação esperada socialmente dado que se criou a ideia de que se a pessoa não for
condenada gera-se a ideia de que não há justiça penal.
Estão vinculados à presunção de inocência o MP e os órgãos de polícia criminal, o tribunal, e
todos os seus funcionários, bem como todas as autoridades publicas que direta ou indiretamente
tenha intervenção no processo penal, em qualquer das suas fases. Qualquer uma destas
entidades está proibida de fazer declarações publicas sobre o objeto do processo que possam
criar a convicção de culpabilidade do arguido (antes do transito em julgado da condenação),
proibição que tem sido reafirmada pela jurisprudência no TEDH (também quando haja
absolvição, ficam todas as entidades publicas obrigadas a tratar o arguido como inocente)
A presunção de inocência tem um impacto transversal no processo penal, devendo orientar a
organização dos tribunais penais e a tramitação processual no sentido de garantir e proteger a
dignidade e integridade do arguido, assim como de garantir a imparcialidade do tribunal de
julgamento (juiz virgem)
Não se aplica a entidades privadas de modo autónomo, geral e transversal (o que não quer dizer
que não possa ter relevância, à luz do 18º/1 CRP, na análise de comportamentos de entidades
privadas, podendo ter algum papel conformador de juízos de concordância pratica ante a
liberdade de imprensa

Presunção de inocência e direito ao silêncio


Direito a ser tratado como inocente
A presunção de inocência obriga a que o arguido seja sempre tratado como inocente e em outros
processos. Na fase de julgamento, sujeita ao acusatório, ao contraditório e à igualdade de armas,
que MP e defensor estejam em posições de paridade
(questão da disposição das salas de audiência)

Direito a uma defesa efetiva e eficaz

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Se o arguido é tratado como inocente, dar acesso ao inocente que se defenda de forma licita de
acordo com os valores constitucionais, tendo direito ao silencio em todas as fases processuais,
em pt há uma grande tradição de haver poupa pressão policial sobre os suspeitos,
contrariamente aos países com tradição anglo saxónica, e a pessoa é respeitada quando refere
que quer exercer o seu direito ao silencio
Tem que haver limites à aplicação das medidas de coação e tem que ter direito a uma efetiva
defesa
Em pt os inquéritos ainda têm uma grande vertente inquisitória, o arguido antes não tinha acesso
ao processo, não tinha acesso aos autos, nada… hj em dia já não acontece tanto, isto porque em
2007 acabou-se com o segredo de justiça, passando este ser exceção, o arguido vai tendo acesso
a algumas informações (ex, se alguém estiver a ser investigado através de escutas telefónicas,
este não tem acesso a essa informação, dado que a prova deixava de ter efeito)
Aplicação das medidas de coação muitas vezes não são efetivas de uma justa investigação,
nomeadamente as prisões preventivas, estas devem ser um regime regra
O principio da presunção da inocência corresponde a um principio estruturante do processo
penal, com incidência de modo transversal em todo o processo penal, constituindo um mandado
de atuação dirigido ao tribunal e aos restantes sujeitos processuais, não traduz uma verdadeira
presunção, em sentido técnico jurídico, à luz do 349º CRP. Decorrem do principio
a) Direito ao silencio em todas as fases processuais
b) Limites à aplicação das medidas de coação. FD refere que só podem ser aplicadas as
medidas que ainda se mostram comunitariamente suportáveis face à possibilidade de
estarem a ser aplicadas a um inocente.
c) Direito a uma cabale e efetiva defesa, uma defesa atempada, localizada numa fase
processual em que ainda seja possível a conformação de uma decisão judicial favorável,
e com conteúdo, ou seja, que permita uma verdadeira conformação processual, com
alteração da estratégia, apresentação das provas… T
O que se deve questionar se a sujeição do arguido a medidas de coação privativas da
liberdade é compatível com a presunção de inocência e com o direito a uma defesa
efetiva

Direito ao silencio
Reconhecido no código do processos penal, artg 61º, 141º, 142º. Até 2013? O dto ao silencio
excluía as perguntas sobre identificação, mas também perguntas sobre antecedentes incriminais.
O TC entendeu que o antigo artg 342º/2 era inconstitucional. O legislador eliminou esta questão
de responder sobre antecedentes criminais, mas o TC refere que na fase de inquérito ou na fase
de instrução refere que não afeta a presunção de inocência

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Questão que se coloca, dto ao silencio e falar da verdade de questão de identificação quando
estão em causa crimes de falsificação de documentos, professora refere que o arguido aqui não
tem obrigação de falar, dado que estaria a autoincriminar-se
Isto não implica direito ao mentir, mas caso o facto não pode ser sancionado por isso. O arguido
apenas está obrigado a responder com a verdade a questões relacionadas com a sua
identificação. Neste ponto levantam-se duas questões
1. Dever de responder com a verdade sobre questões de identificação quando está em
causa a prática de crime de falsificação de documento de identificação. Deverá admitir-
se o direito ao silêncio nestes casos na opinião da professora regente
2. Momento a partir do qual tem plena aplicação o direito ao silencio (saber se o suspeito
também tem direito ao silencio. É constitucionalmente imposto que o sujeito tenha
direito ao silencio, embora nem sempre a jurisprudência o reconheça.
O tribunal pode tirar ilações deste silencio, mas não pode considerar o silencio como uma
confissão implícita

Presunção de inocência e juiz vigem


Um dos grandes obstáculos a uma plena vigência de presunção de inocência, na fase de
julgamento, é a pratica judiciaria de composição unitária dos autos (processo físico) e de obrigar
o juzi do julgamento a consultar os autos, ainda antes da audiência e da produção de qualquer
prova, na fase saneadora, 311º. O CPP obriga o juiz do julgamento a consultar os aitos, não
apenas para se inteirar da acusação e contestação, mas para analisar toda a tramitação com o
objetivo de avaliar e decidir, eventuais questões previas e nulidades de processo, incluindo a
questão da competência do tribunal. Isto quer dizer que o juiz do julgamento antes de se iniciar
a produção da prova já ficou “contaminado” pela visão acusadora do MP, doa factos, dado que,
antes do julgamento, os autos representam de modo mais compreensivo a visão da acuação (só
há pleno contraditório na fase de instrução, que é facultativa). Também é possível que o juiz
tenha sido confrontado com meios de prova nulos ou sujeitos a proibição de valoração (não
podendo ser repetidos em julgamento, nem valorados da decisão, constantes dos autos, os quais
irão contribui decisivamente para a formação de uma pré compreensão dos factos prejudicial ao
arguido e dificilmente rejeitá-la quando for manifestamente infundada. Na prática, isto implica
que o tribunal de julgamento parta do princípio da validade potencial da acusação, ou seja, da
culpabilidade do arguido, mesmo de modo inconsciente ou não muito refletido

Valoração do silencio do arguido


Reconhecimento do direito ao silêncio não implica, nem o direito de mentir nem a proibição
absoluta de valoração do silencio

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

O TEDH entendeu que quando é produzida prova extensa e intensa sobre a culpabilidade do
arguido, e quando os silencio do arguido não permita que seja fornecida ao tribunal uma
explicação licita alternativa para o comportamento do arguido, o qual é objetivamente indicar de
participação no crime, a presunção de inocência não impede que o silencio do arguido seja
valorada contra o arguido

Proibição da culpa coletiva ou por associação


Regente não concorda com isto
Direito a uma fundamentação individualizada no que respeita à matéria de facto (formação da
motivação do tribunal quanto à prova dos factos que dizem respeito a cada arguido, não
podendo a fundamentação ser feita de modo genérico e coletivo, sem algum grau de
individualização).
Direito a uma fundamentação individualizada no que respeita à medida da culpa ou ao ilícito
pessoal e à determinação da medida da pena (elaboração de relatório social, avaliação
individualizada das necessidades de prevenção)

In dúbio pro reu


O princípio da presunção de inocência implica ainda que não haja, no processo penal, qualquer
ónus da prova. Isto quer dizer que os factos constantes da acusação devem ser objeto de prova,
através da atividade processual do MP, para lá de qualquer dúvida razoável (quer o MP quer o
tribunal, têm o dever de investigar factos desfavoráveis e favoráveis ao arguido), sem que se
crie qualquer ónus (consequência probatória processual) sobre o arguido.
O MP também não tem o ónus de prova da matéria da acusação (tem apenas o dever legal de
sustentar a acusação com prova), pois a não prova da acusação não corresponde ao falhanço
processual do MP (pelo contrario, pode constituir precisamente num sucesso já que o processo
penal tem 3 missões, como refere Germano Marques da Silva: uma missão jurídica, a realização
do direito penal substantivo; uma missão político-jurídica, a salvaguarda dos direitos e garantias
do arguido e uma missão social, a manutenção da pacifica dimensão adversarial, mas que não é
um verdadeiro processo de partes, e o MP não tem interesse direto na prova de acusação
Este critério consiste na valoração da dúvida razoável, na formação da convocação sobre a
prova da mateira de facto. Havendo dúvidas razoáveis em torno a prova de certa matéria de

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

facto, a dúvida deve ser valorada no sentido da não prova dos factos que sejam detrimentais
para o arguido e para a prova dos factos que sejam favoráveis ao arguido. O in dúbio pro reu
apenas se aplica a matéria de facto, nunca a matéria de direito

In dúbio pro reu e presunção de facto e de direito


O processo de construção da decisão jurídica não assenta, de modo linar, na mera aplicação de
uma normal geral e abstrata a um caso de vida, na sua pura individualização concreta. Trata-se
antes de um processo caracterizado por uma espiral hermenêutica (ir e vir entre o caso e a
norma) através do qual se constrói progressivamente decisões com referência única, sendo cada
caso concreto a realização de uma possibilidade da norma, mas não a criação da norma no caso
concreto. Neste processo, o juiz transporta com ele 3 tipos de pré compreensões
a) PRE compreensões de antecipação do sentido, imagem social do crime, a partir da visão
desfocada do crime
b) Pré compreensões resultantes da sua experiência empírica e condicionamento socio
cultural da compreensão da realidade
c) pré compreições jurídicas

14/03/2022
Continuação da matéria da presunção de inocência
Ilações de facto permitidas
Valorações da prova indiciaria: é extremamente raro haver prova direta da prática do crime,
normalmente existe prova indiciara ou indireta. Há um conjunto de factos que indiciam a pratica
do crime por determinado arguido. É neste contexto que são admissíveis as ilações, que não são
presunções em sentido técnico, mas antes deduções e induções, mecanismos lógicos do
pensamento que permitem alcançar um facto desconhecido
Não pode haver presunções de responsabilidade sancionatórias de dto penal, são admitidas
presunções judiciais, dado que raramente se consegue prova direta da prática do crime. Na
maioria dos casos prova-se através de provia indiciaria (prova direta de factos que indiciam a
prova de crime), factos que rodeiam a prática do crime. Permite induzir a prática do crime de
uma determinada forma, contra um determinado agente. Não é qq prova indiciaria, é preciso que
haja um conjunto e provas indiciarias suficientemente fortes que vá no sentido da prova dos
factos.

27
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Direito ao silencio e proteção contra a autoincriminação: nemo tenetur se ipsum accusare


Fundamento constitucional do nemo tenetur, 1º, 2º 27º, 32º/1 CRP, relacionado com a dignidade
da pessoa humana e liberdade
Relacionada com o direito ao silencio, AC 695/95. Entendeu que não era inconstitucional o
arguido falar sobre antecedentes criminais. Professora entende que este não é um ónus do
arguido
Na fase de inquérito, enquanto o arguido não sabe o que está no processo, a professora entende
que o arguido não deve falar, ate porque quem tem o ónus da investigação é o MP, apos saber o
que está no decorrer da investigação é que a professora entende que o arguido deve falar e
prestar esclarecimento, ate para evitar más considerações daquilo que é dito pela policia

Saber até onde é que vai o direito ao silencio e o direito à não autoincriminação
Professora regente segue a doutrina de augusto silva dias, a presunção de inocência e o dto ao
silencio abrange todas as realidades. Quando há um dto constitucional que aprece que estas sem
conflitos com institutos com uma grande tradição jurídica, não se consegue conjugar estas duas
ideias, mas não são dtos absolutos, ao pensar sobre estes institutos, é preciso ir buscar os
critérios de concordância prática
Quando há uma necessidade forte que poem em causa bens jurídicos relevantes.
Questões mais problemáticas: relacionadas com processos penais que surgem em consequência
de processos adm não sancionatórios, fiscalização de uma determinada atuação de que é
regulada. Quando estes documentos são usados como prova (declarações fiscais p.e.) é esta
legitima? Não há consenso na doutrina nem na jurisprudência, AC TC nº 155/2007 (sujeição das
pessoas que são apanhadas em operações STOP de realizarem testes de sopro de alcoolemia,
qual seria a consequência se a pessoa se recusasse, poderia ser forçada ou ficava sujeita a um
crime de desobediência? Esta segunda foi a mais acolhida. Norma que impusesse ao arguido
que fosse obrigado a este processo de álcool, a pessoa fez o teste contra a vontade, o TC refere
que a argumentação não era a melhor, mas entendeu que a atividade da condução é perigosa, e
como tal as pessoas que querem conduzir têm que se sujeitar ao cumprimento destas regras,
dado que a atividade da condução envolve a integridade física de outros)

PRINCÍPIO DO ACUSATÓRIO E CONTRADITÓRIO

Estrutura acusatória do processo penal


Existem 3 modelos
1. Modelo adversarial

28
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

2. Modelo inquisitório
3. Modelo acusatório (Espanha)3

Artg 32º. A audiência de julgamento e os atos instrutórios devem estar sujeitos ao princípio do
contraditório. No inquérito há altos que a professora entende que deveriam estar sujeitos ao
princípio do contraditório, como certos exames a perícias

Modelo acusatório
Modelo teórico (puro) do acusatório determina a plena igualdade de armas entre a posição da
acusação e a posição da defesa no processo penal, ficando o julgador numa situação de
independência acima das partes, equidistante
A acusação seria o momento chave de inicio do processo penal, seguindo-se o pleno
contraditório sobre a prova, tendo o juiz um aposição absolutamente passiva face à produção da
prova
Todos os ónus recaem sobre a acusação e porque o arguido se presume inocente, deve manter-se
em liberdade até à condenação

Modelo inquisitório
Confusão entre quem investiga, quem acusa e quem decide (juiz investigador e acusador). Ideia
do juiz investigador e ainda de ser o mesmo, há uma limitação do contraditório e sujeição do
arguido ao poder do processo penal.

Modelo adversarial → versão pura do acusatório


Dominante nos sistemas anglo saxónicos
O processos penal inicia-se com uma acusação, a investigação é a mínima necessária para
garantir que pode haver detenção, tendo depois um prazo curto para a pessoa ser acusada,
dependendo do tipo de crime, pode a acusação vir da própria investigação (polícia) ou noutro
tipos de casos é necessário ir a outra instituição para saber se os indícios são suficientes para ser
acusado, não há aqui contraditório, raramente o arguido é ouvido nesta fase
O processo penal é estruturado como um processo de partes, tendo a acusação um interesse
direto na condenação, e estando acusação e defesa em plena paridade em julgamento
O juiz/tribunal atua como mero arbitro em julgamento, regulando a intervenção das partes,
como gestor da audiência, não tendo qualquer iniciativa de investigação ou intervenção na
produção da prova

3
Explicado por uma professora espanhola em meados de maio
29
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

A prova é produzia em paridade, primeiro a da acusação, e depois a da defesa, com pleno


contraditório, perante um painel de jurados, que irão decidir a condenação ou absolvição

Modelo português
A verdade material não é a real, estando limitada por um conjunto de princípios regras. Na fase
de inquérito o objeto do processo é fluido, quando há uma acusação, há uma delimitação do
objeto do processo, feita pelo MP. Professora entende que os crimes particulares não são uma
exceção. O objeto da acusação é a pretensão punitiva
Um dos limites fundamentais à busca da verdade material reside no princípio do acusatório e na
garantia do direito de defesa do arguido, sendo consensualmente entendido que processo penal
pt assenta numa estrutura acusatória mitigada. Uma vez que a acusação, enquanto formalização
do exercício da ação penal, corporiza a pretensão punitiva do estado, não equivale a mero
pretexto para a prossecução dos fins atribuídos ao processo penal
A doutrina pt entendeu que era fundamental ter um momento a partir do qual se constituía
arguido (decorre dos abusos no estado novo)
No processo penal o tribunal não está obrigado a notificar o arguido dos atos do assistente,
contrariamente ao que acontece no processo civil

Acusatório mitigado
1. Distinção entre quem investiga, acusa e quem julga (MP/tribunal)
2. Definição do momento de reconhecimento e do estatuto do arguido
3. Delimitação forte o objeto do processo com a acusação: o tribunal não pode investigar
para lá dos limites da acusação
4. Sujeição da acusação a uma fase intermedia de pleno contraditório
5. Paridade de armas entre acusação e defesa na fase de julgamento, integralmente sujeita
ao pleno contraditório
6. O tribunal tem alguns poderes de investigação 340º/1

Contraditório
1. Direito a apresentar provas, requerer diligencia de prova, pronunciar-se sobre todas as
provas
2. Direito a pronunciar-se sobre todos os atos e iniciativas do MP/tribunal (direito a ser
ouvido e direito em falar em último lugar)
3. Ausência de contraditório na fase de inquérito salvo em casos excecionais e
impossibilidade de participação do arguido na produção da prova nesta fase

30
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

4. não notificação do arguido de certos atos processuais

18/03/2022
NE BIS IN INDEM

O código do processos penal não tem normas sobre caso julgado ou efeito de caso julgado- a
norma existente é o 29º/5/CRP, constituição refere que ninguém pode ser julgado mais que uma
vez pelo mesmo crime, sendo a única referencia normativa clara sobre este sentido.
Os factos não podem vir a ser conhecimentos me mais processos nenhumas e há uma acusação
d homicídio doloso, mas a maior do julgamento percebe-se que afinal foi homicídio negligente,
não houve dolo, aqui cria-se um problema, dado que o arguido preparou toda a defesa com base
na acusação de homicídio doloso, assim e se alterar a acusação, o arguido não se preparou para
homicídio negligente, mas o objeto e os facto são os mesmos, pode-se abrir novo processo para
homicídio negligente?
Há uma doutrina eu incluí aqui o princípio acusatório, porque se no julgamento o juiz da como
provados factos que não estavam na acusação então é este que está a acusar é o MP, regente não
concorda com sito, dado que o acusatório diz que tem que haver uma separação entre a entidade
que investiga e a que acusa e tem que haver contraditório no julgamento. Como o MP faz uma
investigação muito fechada sobre si própria, quando se chega ao julgamento a prova do MP é
sujeita ao contraditório o normal é que haja alterações de factos, há sempre pequenas correções
a fazer. O que é normal é que o juiz mesmo não tendo iniciativa investigatória, só pelo facto de
ser confrontado pela prova conclua que os factos que se estão a provar não são os da acusação.
Regente não entenda que o juiz possa reconhecer estes factos viole o sistema acusatório. Há
obstáculo ao juiz apresentar novos crimes no julgamento, se o MP acusa pelo crime A e no
julgamento descobre-se o crime B, abre-se um novo processo, apenas é possível enxertar este
novo crime no julgamento se todos estiverem de acordo, caso contrário não é possível.

“ninguém” inclui pessoas coletivas e singulares, julgado nem punido, e tem que se saber o que
constitui “o mesmo facto” sendo este último o mais problemático

Manifestações do princípio NE BIS IN INDEM


convenção europeia dos direitos humanos, apenas com o protocolo 7 é que este princípio ficou
previsto na convenção, mas antes disso o tribunal europeu já tinha uma jurisprudência que
tendida que o NE BIS IN IDEM podia ser contrário ao artg 6º, analise o protocolo 7 da
convenção que é restrito porque tem requisitos apertado, se este não estiver violado, mas

31
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

continua ia a haver problemas associados a esta questão, analisar pela questão do artg 6º fair
trile
CDFUE

Em Portugal, no âmbito material, houve, por razoes históricas, a cultura jurídica foi construída
num molde de inversão sistemática dos princípios, em vez de se percebe que CRP é a primeira
referência e que o restante deve ser interpretado a luz desta, há uma tendência de ser interpretar
as normas da CRP à luz do dto ordinário. Quando a norma constitucional entrou em vigor foi
ignorada ate aos anos 2000, após isso a doutrina passa a entender que o “mesmo crime” no dto
penal é equivalente a doutrina de concurso de crime, artg 30º CP, quando há concurso aparente
há varias qualificações juraicas para o mesmo crime, quando há concurso efetivo são vários
crimes, como tal há o mesmo crime ou não, proibição de dupla pena ou não consoante aquilo
que a doutrina entende como concurso efetivo ou aparente. Isto é um problema porque a
jurisprudência neste plano segue um critério de distinção de concurso aparente e efetivo que
nunca foi defendido por ninguém, aplicam erradamente o critério de EDUARDO CORREIRA.
A jurisprudência aplica o critério da diversidade do bem jurídico, mas não é a busca do bem
jurídico real, é avaliar os bens jurístico pelas epigrafes do CP. EDUARDO CORREIA utiliza o
critério do bem jurídico mas não nestes moldes, não era uma vinculação absoluta a qualificação
dada pelo legislador, era uma busca pela interpretação do bem jurídico e complementava com a
unidade da resolução criminosa a conexão espaço temporal, criando vários modelos de vias para
o concurso aparente.
Na maioria dos casos que toda a doutrina entende que é concurso aparente, a jurisprudência
defende concurso efetivo. Assim , na verdade, esta proibição Ne bis in idem no plano material
está limitada, na verdade as pessoas sofre várias julgamento pelo mesmo crime.

Em processo penal parte-se da ideia de que é possível uma separação entre factos e direito, a
maioria da doutrina entende que o que interessa são os factos e o acontecimento histórico, ou
seja, se há a mesma historia em vários processo, então há violação do Ne bis in idem. O TC não
tem utilidade neste âmbito, não há proibição de controlar o Ne bis in idem material

Tribunal constitucional (VER PPT)


Aplica-se não só a dto penal,

Natureza, sentido e função da proibição do bis in idem

32
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

entendimento
IFL do 29º/5 um crime um processo uma pena
CRP

Não é o que acontece na realidade.

O Ne bis in idem é um mecanismo de garante de limitação de excessos de poder punitivo


do estado. O risco do abuso de poder é inerente ao uso de poder, como tal isto serve como
mecanismo de garante.
O que está em causa a proibição da redundância, não há justificação, não faz sentido
aplicar duas penas redundantes, com a mesma natureza ou finalidade pelo mesmo crime (pode-
se aplicar uma pena principal e uma acessória, pena principal de multa e pena acessória de
proibição de conduzir, p.e., porque compreende-se que tem finalidades distintas, a multa exerce
o papel de mínimo expressivo e de prevenção geral e reposição da validade da norma, e a
proibição de condução a exercer a função de prevenção especial negativa ao sujeito que garante
que ele sofre o castigo ) se se quiser aplicar duas multas ou prisão e multa já há redundância. No
sistema pt não se aplicam duas penas principais
Em processo penal implica em si sempre um fardo negativo sobre o arguido, traz inerente
restrições de dtos fundamentais (sujeitos ao termo de identidade e residência p.e.) deixa de ter a
sua liberdade plena, sendo que no máximo pode ficar em prisão preventiva, sendo retirada toda
a fruição dos dtos, como tal não é justo que o estado possa impor dois processos pelo mesmo
facto ao mesmo arguido. Se o estado tem todos os meios de investigação, se com esses meios
não conseguiu a acusação, não há mais nada que se possa fazer.

Nos termos do 29º/5, NBI proíbe a realização de duplo julgamento pelo mesmo crime e uma
dupla pena pelo crime4
A dificuldade é entender qual é o fundamento desta proibição e quando é que está em causa um
BIS IN IDEM, o recurso viola o NBI processual? A pena acessória viola o NBI material? A
proibição da dupla valoração decorre do 29º/5 ou tem outro fundamento? Há alguma relação
entre o NBI e o princípio da proporcionalidade, ou seja, será finalidade do NBI alcançar uma
pena proporcional de facto?
↓↓
A proibição da dupla punição pelo mesmo crime não resulta de uma necessidade de encontrar a
pena proporcional ao facto, mesmo como uma só pena, esta poderia ser desproporcional (pena
de morte), mas antes de uma carência mais profunda de proporcionalidade: a proporcionalidade

4
Como tem defendido quase toda a doutrina e jurisprudência
33
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

enquanto dimensão de racionalidade no exercício do poder punitivo publico e, por conseguinte,


na interferência do estado na esfera da liberdade dos indivíduos. Princípio da proporcionalidade,
por si, só oferece qualquer critério objetivo de ponderação, desde que se rejeite a existência de
critérios naturais ou de avaliação da relação de proporcionalidade entre crime e pena

O estado não pode punir o mesmo cidadão mais que uma vez pelo mesmo facto ilícito, porque
uma vez pelo mesmo facto ilícito, não porque tal punição se figure necessariamente excessiva
ou injusta, mas porque constitui uma punição redundante ou desleal, e que por isso, corresponde
a uma forma irracional e desrazoável, logo arbitraria, de exercer o poder

Fundamento do Ne Bis in Idem


Não seria errado afirmar que o fundamento do ne bis in idem reside no princípio do EDD, mas
seria demasiado vago e insuficiente para explicar as varias dimensões do NBI, (processual,
concurso de crimes, determinação da medida de pena, cumulação de sanções distintas). Esta
plenitude consensual só é conseguida quando apelarmos à inclinação natural do Homem
civilizado em direção a segurança jurídica (ou boa ordenação) e a uma tendência para
reconhecer a justiça numa composição harmoniosa e equilibrada dos interesses.

Natureza do Ne Bis In Idem

É um princípio que concretiza uma antecipação da tutela constitucional de outros valores


importantes, tais como a segurança jurídica, liberdade, legalidade, proporcionalidade e o
princípio da culpa. Para alem de um princípio geral do direito, de fonte material constitucional

34
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

como uma verdadeira regra jurídica, consagração do direito fundamental a não ser duplamente
punido ou julgado pelo mesmo crime
Assume uma dupla dimensão, inerente à sua qualidade de direito fundamental, objetiva e
subjetiva, e ainda o direito a não ser duplamente punido ou julgado pelo mesmo crime previsto
no 29º/5 CRP, que se pode ver como concretização no plano individual. No entanto há sempre
restrições, desde que necessárias, adequadas e proporcionais, como tal o NBI não impede a
realização de dois julgamentos pelo mesmo facto 5, assim como não impede a aplicação de duas
sanções, penas, ao mesmo facto (pena principal e acessórias, penas e sanções disciplinares)
↓↓
O que está impedido é a redundância injustificada, arbitraria-a quela que não é exigida pela
ponderação, de acordo com o juízo de concordância pratica, entre a realização de justiça e o
direito de defesa, (dois julgamentos porque a primeira absolvição não satisfaz a perceção
punitiva da sociedade), ou entre a necessidade da pena e a racionalidade da pena (cumulação de
quantificações jurídicas sob um falso concurso aparente ou aplicação a de pena de multa e
coime pelo mesmo facto)

Conceito de IDEM
A professora acrescenta mais um IDEM, dado que a doutrina tinha tendência de que não se pode
haver pena pelo mesmo crime, como é que se justiça que há penas acessórias e principais? A
doutrina referia que nestes casos afastava-se o princípio do NE BIS IN IDEM. A proibição da
duplicação do mesmo crime apenas é relevante quando esta é redundante, quando se pega no
mesmo idem, aqui já se entra no campo de violação deste princípio
A professora entende que falta um INDEM, sinonimo de “redundância”. Apenas é proibia a
aplicação de duas ou mais sanções materialmente penais pelo mesmo facto quanto tal aplicação
cumulativa se revele redundante face aos fins da pena (a cumulação entre a pena principal e a
acessória, em princípio, não é contraria ao ne bins in idem)
Está proibida a cumulação ou sucessão de processos penais, sobre o mesmo objeto, quando tal
implique uma redundância desrazoável, dado que o 1º processo já garantiu o fair trial e o fair
chance al trial)67

Conteúdo do Ne Bis In Idem

5
Casos de anulações de julgamento ou a revisão extraordinária de sentença
6
Fair trial: garantia de um processo justo com respeito por todos os direitos de defesa do arguida. Direito ao recurso, p.e., ou a
repetição do julgamento por violação das garantias processuais não são contrárias ao NBI
7
Fair chance at trial: justa oportunidade de apresentação da tese da acusação – direito ao recurso, ou a aplicação do julgamento por
falsidade da prova (da defesa) não são contrários ao NBI
35
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

É uma exigência de racionalidade legislativa. O princípio da proporcionalidade, na sua


dimensão de adequação e de fragmentariedade do direito penal, exige que o legislador pondere
os distintos mecanismos sancionatórios à sua disposição, guardando a pena (em sentido formal),
para as manifestações de ilicitude mais graves ou renitentes. Em contrapartida, quando o
legislador opte por sancionar certos ilícitos com “penas” de natureza distinta das formalmente
criminais, que viessem essencialmente as mesmas finalidades, e ao mesmo tempo, se verifique
uma sobreposição entre ilícitos, impõe-se uma reflexão autónoma, em torno do NBI. Assim,
penas, coima, sanção disciplinar, sanção administrativa geral e obrigação de reparação do dano
têm em comum, entre si, a circunstância de configurarem reações contra um ilícito.
A dupla punição proibida, tanto pode decorrer da aplicação cumulativa de duas sanções
materialmente penais formalmente distintas (penas e coima, pena principal e pena acessória),
como pode decorrer de uma inadequada valoração da unidade do facto e aplicação cumulativa
de vários tipos legais (problema do concurso de infrações e distinção entre concurso aparente a
efetivo), como ainda, de uma inadequada valoração dos critérios de determinação da media de
pena e dos factos que constituem indícios de uma maior necessidade da pena em cada uma faz
fases de analise (mais culpa, mais prevenção geral, mais prevenção especial), redundando numa
valoração artificial da necessidade da pena. Nestes casos, falamos de proibição da dupla
valoração.
21/03/2022
Proibição da dupla valoração e unidade normativo social
Para entender o que é o objeto do processo e em que é que consiste, tem que se entender o que é
crime. Importe perceber o que é a unidade de ação. Também tem que se considerar o desvalor
do resultado. Estas são as circunstâncias do conteúdo essencial do ilícito típico.
Muitas vezes não se consegue ver uma autonomia tao precisa entre os tipos, há situações em que
não há sobreposição de tipos (ex danificar as roupas da vítima de homicídio, não há cumulação
do tipo homicídio e do tipo dano)

¶ critério central: sobreposição parcial do ilícito típico, a qual ocorre sempre que a
aplicação de dois ou mais tipos legais de crie, ao caso concreto, exige uma dupla
valoração, ou seja, a consideração para preenchimento da tipicidade duplamente do
mesmo elemento central do ilícito típico (desvalor da ação, desvalor do resultado, e
relação de conexão ou imputação)
¶ mera repetição deste núcleo central numa mesma sequência de atos (vários tiros, várias
facadas, furto de vários objetos) não implica que haja vários crimes. É também
necessário recorrer ao tipo social

36
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

O legislador encontra-se relativamente vinculado às categorias ontológico-sociais (não


pode dizer que cada facada é um crime, sob pena de criar um direito penal surreal,
desfasado da realidade, contrário à finalidade do direitos como ciência social)
¶ Desconformidade – face ao ne bis in idem – de critérios que assentem na mera
diversidade da qualificação jurídica ou de merda opções de técnica legislativa
(obrigação de dar resposta a uma serie de questões)
a) Será que se estas condutas estivessem enunciadas no mesmo diploma se mantinha
uma conclusão de concurso efetivo?
b) Será que se estas condutas estivessem mencionadas no mesmo artg se mantinha
uma conclusão de concurso efetivo?
c) Será que estas proibições tutelam interesses materialmente distintos?
d) Será que a conduta não corresponde a uma forma socialmente unitária de agir,
cujos diversos aspetos não seja indissociáveis?

Sobreposição do ilícito típico / unidade do ilícito típico

O ilícito típico tradicional, constituído por ação, resultado, e imputação objetiva pode ser
perspetivado numa ótica normativa, sendo então constituído por desvalor da ação, desvalor do
resultado e imputabilidade (conexão entre os dois desvalores)

Unidade normativo-social
A construção da unidade normativo-social, na verdade uma reconstrução interpretativa, é feita
mediante uma consulta simultânea e complementar da realidade social, (realidade naturalística
compreendida através do filtro da valoração social) e do tipo legal de crime (base normativa).
A regente tem alguns critérios para identificar o tipo social
1. reiteração
enquanto fenómeno social
2. teleologia comportamental
3. identidade narrativa
4. assimilação pela linguagem

37
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

5. compreensibilidade jurídica
estes critérios não são cumulativos, mas também não são alternativos. Pode algum deles falhar e
manter-se a unicidade normativo-social, mas deve verificar-se sempre uma forma de
combinação e de acumulação destes critérios para que se possa concluir pela existência de
unicidade

Efeito consuntivo do caso julgado vs NE INDEM BIS IN IDEM


A ideia do caso julgado formal em processo penal não é real, o juiz do julgamento deve rever e
não fica vinculado, as sentenças podem ser revisíveis em qq momento nomeadamente quando
há violação de direitos fundamentais

O efeito de caso julgado tradicional impõe apenas a vinculação das partes aos factos e juízos de
direitos que tenham ficado expressos numa determinada decisão transmutada em julgado. Já o
NBI proíbe que o mesmo crime possa ser julgado mais que uma vez, pelo que se fala em efeito
“consuntivo” ou seja, que consomo ou absorve do caso julgado, dado que no DP o caso julgado
vincula todas as entidades e abrange todas as qualificações jurídicas inerentes aos factos
constantes da acusação, bem como todos os factos que sejam meramente acessórios ou
instrumentais daqueles, desde que com estes tenham uma relação intrínseca e necessária, ainda
que tais factos não tenham sido expressamente enunciados na acusação ou na sentença.
A jurisprudência insiste em invocar a existência de “caso julgado formal” me processo penal,
geralmente para limitar os direitos de defesa do arguido. É possível teoricamente admitir que as
decisões possam ter efeitos de caso julgado formal (vinculação interna dentro o processo em
curso), mas não é dogmaticamente correto afirmar que, em princípio, as decisões judiciais em
processo penal gozam de pleno efeito de caso julgado formal. Na verdade, na esmagadora
maioria dos casos (segredo de justiça, medida de coação, alterações na qualificação jurídica ou
dos factos), estas decisões não são definitivas, nem sequer dentro do próprio processo, podendo
ser sempre alteradas, desde que haja alteração de circunstâncias ou podendo ser alteradas
mesmo quando a circunstâncias se mantem as mesmas (tribunal do julgamento não está
vinculado às decisões de instrução quanto à legalidade da prova ou qualificação jurídica)

Conceito material de julgamento


O momento relevante para determinação do objeto é o momento da acusação
O NBI proíbe a imposição ao arguido de um duplo fardo. No processo penal a mera
litispendência não pode ser tolerada, dado que obriga o arguido ao fardo de duas defesas-
também não podem ser admitidas em processo penal as absolvições na instância, dado que,

38
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

deduzida a acusação, qualquer decisão que ponha termo ao processo tem pleno efeito de ne bis
in idem.
Há NBI em processo penal assim que se inicia o processo penal com o seu impacto mais
opressivo, o qual geralmente coincide com a dedução da acusação, a acusação define o objeto
do processo, mas pode ocorrer mais cedo, caso ao arguido seja sujeito a medidas de coação
privativas da liberdade. A partir destes momentos, o MP está obrigado a exercer a ação penal ou
a sustentar a acuação nos termos em que foi deduzida, não podendo o mesmo objeto ser
conhecido em qualquer outro processo penal posterior. Existe efeito consuntivo de caso julgado,
pleno efeito de NBI, sempre que, após estes momentos (acusação/medidas de coação), haja uma
decisão final que ponha termo ao processo (arquivamento, não pronuncia, condenação,
absolvição)

Arquivamento e despacho de não pronuncia


¶ o CPP não tem normas sobre o efeito consuntivo do caso julgado, não resultando o
efeito do despacho de arquivamento do MP, 277º ou do despacho que não pronuncia,
juiz de instrução
¶ caso não tenham sido aplicadas medidas de coação privativas, a regra do 278º é
compatível com o 29º/5 CRP, uma vez que, não tendo sido ainda imposto um fardo
muito oneroso sobre o arguido é razoável que haja uma restrição ao pleno efeito de NBI
do arquivamento quando se descobrem novos meios de prova
¶ caso tenham sido aplicadas medidas de coação privativas (assentes em fortes indícios da
prática do crime), o MP fica onerado a deduzir acusação ou a conformar-se com uma
decisão de arquivamento com o pleno efeito de NBI- nestes casos, o processo apenas
pode ser reaberto nos termos no 449º CPP8
¶ caos tenha sido proferido despacho de não pronuncia, existe pleno efeito de NBI e o
processo apenas pode ser reaberto nos termos do 449º CPP
25/03/2022
Utilização de menores na mendicidade

Objeto do processo (menoridade na mendicidade)


Núcleo essencial do ilícito típico, desvalor da ação e desvalor do resultado
Daqui pode-se partir para a perspetiva social, a atribuição de valores a realidade social que
permite compreender o ilícito
Há variações do mesmo objeto

8
Há uma aplicação analógica da revisão extraordinária de sentença aos casos de arquivamento
39
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Nem sempre é fácil saber se a morte é o resultado da ação que é atribuída ao agente. O facto de
não se conseguirem provar os factos de acusação na fase do julgamento faz parte da
normalidade do processo penal.
Ate onde é que vão os poderes do tribunal para valorar factos na fase de julgamento
O facto processual é o conjunto de todos os factos, quer sejam principais ou acessórios e que
constituem o objeto da prova, o objeto do processo fica consumido pelo caso julgado mas
o ???????? não fica consumido pelo facto julgado

40
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Divórcio entre as dimensões material e processual do NBI – contradições

objeto do processo, efeito " o mesmo crime", cocneito


consutnivo do caso julgado face ao artg 30º CP

identidiade do bens juridico


(conceção normativa)

factos descritos na acusação


(conceção naturalistica) caso o MP acuse por
várias qualificações
juridicas, existem vários
crimes.
o tribunal pode
MP pode cumular todas as acrescentar crimes ou
qualficiaçoes juridicas que mudar o crime face à
enrender, basta que haja bens acusacação (qualificação
juridicos formalmente juridica)
distintos face aos mesmos apesar de haver vários e
facots distintos crimes, estes não
podem ser julgados 41
noutro prcoesso
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

28/03/2022
DUE PROCESS E FAIR TRIAL

REFERENTES NORMATIVOS
Artigo 6º CEDH, direitos e garantias do processo penal.
Dto pt → mais consolidada as normas da CEDH e o tribunal europeu. Artigos 20º e 32º CRP.
Artigo 60ºss do CPC, 61º é que agrupa os dtos fundamentais processuais do arguido, no entanto
não é exaustivo (dto a tradução gratuito não está abrangido), este artigo não é taxativo. Já existe
jurisprudência que reconhece a aplicação direta das diretivas sobre a questão da tradução
gratuita.
São princípios gerais estruturantes do sistema penal, são uma aglomeração de ideias e garantias
que devem ser respeitados pelo legislador e respeitados no âmbito da natureza prática,
nomeadamente para a integração de lacunas.

FAIR AND DUE PROCESS (PROCESSO JUSTO OU EQUITATIVO )


3 exigências

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

1. direito à informação, o arguido tem o dto de saber o que se passa no processo, ter acesso
a prova a partir de uma certa fase, desde que não haja interesses do processo (no caso
das escutas o arguido não sabe)
2. sujeição da prova a uma audiência publica e contraditório, permite controlar a
imparcialidade do tribunal por parte dos cidadãos
3. tribunal independente e imparcial
4. professora entende que também está aqui integrado o princípio da lealdade. Existe uma
lisura no comportamento, tem implicações processuais, nomeadamente no sistema MP
que deveres de imparcialidade, dado que se o MP está a investigar, até ao momento da
recolha de prova, tem que manter uma atitude de imparcialidade. Não há sujeição
política ou a juízes, como tal o MP acaba também por ser garante dos dtos fundamentais
do arguido, da vítima, das testemunhas, etc…
igualdade de partes, igual acesso aos mecanismos processuais a partir do momento em
que se faz a acusação. Igualde de armas? O nosso sistema não garante, embora o
arguido pode requerer diligencias de prova, raramente é levado a sério e exercido, não
são feitas diligencias na fase de inquérito. A defesa penal é cara, adicionado trabalho de
investigação, sai ainda mais caro e muitos dos arguidos não tem possibilidade de pagar,
como tal normalmente o arguido está muito limitado na fase de inquérito.
Detenções publicas desnecessárias, não faz sentido deter o arguido se não há indícios de
acusação, muitas vezes basta um aviso. Há fugas sistemáticas de informação em
bastantes processos e campanhas difamatórias do arguido e comentários insultuosos de
magistrados ou advogados para arguidos

PRINCÍPIO DA IGUALDADE DE ARMAS


Nas fases de instrução e julgamento, o MP e arguido devem estar em posição de paridade. Toda
a estrutura do processo deve garantir igualdade de armas, de mios, direito a requerer, juntar
prova, a ser ouvido, a contraditar, a reclamar, a recorrer… entre o MP e o arguido. Para haver
verdadeira igualdade seria necessário que o arguido pudesse ter acesso à investigação, (em
regra, podendo ser admitidas exceções) e dispusesse de meios para recolher potencial prova da
sua não culpabilidade (não há sistema algum que reconheça esta ampla paridade, existindo
alguns semelhantes nos EUA)

PRINCÍPIO DA LEALDADE

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Exige que a forma de agir (por parte do estado, através dos OPC, do MP, dos funcionários
judiciais e dos juízes) no desenvolvimento processual em constante respeito da dignidade da
pessoa humana de todos os intervenientes, numa postura compatível com a ética democrática. A
lealdade deve orientar principalmente o comportamento dos OPC (não recorrerem a meios
enganosos ou ardilosos de obtenção de prova) e do MP (dever de atuação imparcial ao lingo da
investigação e de garantir o respeito pelos direitos das pessoas afetadas pela mesma). Quando há
violação do pirncipio da lealdade, os atos processuais deveriam ser nulos, mas nem sempre isto
é garantido do CPP, como p.e.
1. detenções públicas, com aviso prévio aos media, de pessoas suspeitas, quando não há
necessidade de detenção
2. fugas sistemáticas de informação na fase de inquérito de conteúdo da prova, escutas,
processualmente irrelevantes, mas vexatórias para o arguido
3. comentários impróprios ou ofensivos de magistrados para os arguidos, testemunhas e
advogados

DIREITO DE AMPLA DEFESA (EFETIVA E EFICAZ)


98º, o arguido pode apresentar a qq altura RAI mesmo muitas vezes sem representação. Não
pode recorrer recurso em nome próprio
Direito a auto defesa: em pt não é reconhecido.
¶ 32º/1 CRP, existência da dignidade da pessoa humana, busca pela verdade material e
presunção de inocência
¶ Direito a defensor, escolhido ou nomeado, oneroso ou gratuito, em todas as fases
processuais, artg 62º, direito a comunicar com o defensor, 61º/1/f)
¶ Defesa pessoal, defesa exercida pelo arguido a defende-se pessoalmente, artg 98º,o
arguido ainda que me liberdade, pode apresentar exposições memoriais e requerimento
em qualquer fase do processo, embora não assinados pelo defensor, desde que se
contenham dentro do objeto do processo ou tenham por finalidade a salvaguarda dos
seus direitos fundamentais. as exposições, memoriais e requerimentos do arguido são
sempre integrados nos autos, mas também nos artigos 141º, 143º, 292º/2, 343º e 361º, e
defesa técnica, defesa exercida pelo defensor, existem atos que apenas podem ser
praticados pelo defensor, 64º, 302º, 339º, 360º e 423º
¶ Defesa formal: defesa exercida pelo arguido e defesa material, defesa decorrente da
imparcialidade do MP e dos tribunais
¶ Defesa pessoal positiva, defesa do arguido através da sua intervenção ativa no processo
e defesa pessoal negativa, direito ao silencio e à não auto incriminação
¶ Direito à auto defesa

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

DIREITO A UM JULGAMENTO RÁPIDO E JUSTO


Celeridade processual é importante: arguido ver estabilizada a sua imagem; dto a uma defesa
32º/2 CRP, o direito a um julgamento célere é, em primeira linha, um direito do arguido,
fundado em três razoes
1. Direito do arguido ao seu bom nome e reputação (irrecuperáveis perante processos
penais intermináveis)
2. Direito a defesa efetiva e eficaz, os encargos de defesa de um processo de décadas são
incomportáveis e geram exaustão do arguido e do defensor
3. Direito ao cumprimento da pena em momento próximo ao crime, não é do interesse do
arguido esperar muitos anos para poder iniciar o cumprimento de uma pena longa. Mas
também é um direito da vítima e da sociedade9
Esta celeridade nunca pode ser conseguida à custa do sacrifício das garantias de defesa do
arguido, dado que estas têm um peso constitucional maior.

CPP prevê prazos máximos para cada fase processual10


¶ Inquérito, 276º
¶ Instrução, 306º
¶ Julgamento, 312º, 328º, 387º, 391º-B
É possível fazer um pedido de aceleração processual à PGR e ao conselho superior da
magistratura, que é varia vezes deferido, e é relevante, dado que a decisão pesa contra o
magistrado em avaliações de mérito e progressão na carreira

PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE, IMEDIACAÇO E DA ORALIDADE E A


CONCENTRAÇAO
Se o julgamento se passasse por escrito era difícil a publicidade e compreensão do julgamento.
A oralidade é mais pratica para compreender o julgamento e também no que refere aos meios de
prova e respetivo contraditório
Imediação: quem vai decidir tem que ser os que existiram a produção de prova, o juiz conforma
um contacto com a prova, e se depois fossem outros juízes não havia coerência. 328º-A
consagra este princípio
Concentração: continuidade dado que é melhor para o sucesso do processo
9
A finalidade preventiva do direito penal depende de uma atuação célere da justiça penal
10
Mas não estabelece sanções ao incumprimento, salvo no que respeita a extinção da prisão preventiva, 276º e 215º
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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

O direito é uma audiência publica (publicidade do julgamento) decorre do direito á presunção


de inocência e à imparcialidade do tribunal (controlo pelo publico da imparcialidade)
¶ Princípio da oralidade, impor que toda a prova que possa vir a ser valorada na decisão
final tem de ser produzida e discutida, com oralidade, na audiência de julgamento. A
oralidade relacionasse com a publicidade, garantindo a participação do publico no
controlo da imparcialidade, 96º/1
¶ O princípio da imediação exige que a decisão de condenação ou absolvição apenas
possa ser tomada por quem tenha assistido diretamente à produção de prova em
julgamento. A conjugação da imediação e da oralidade garantem uma busca mais
efetiva pela verdade material, dado que na oralidade ~e mais fácil detetar
inconsistências de prova e, no que toca à prova testemunhal. A imediação é
fundamental na formação da convicção do julgados. Em regra, toda a prova é produzida
oralmente em julgamento e os juízes que irão decidir devem ter assistido pessoalmente
a todo o julgamento (princípio da plenitude da assistência dos juízes, 328º-A, permite
algumas exceções, mas garantindo a imediação da prova, se necessário, sendo repetida a
produção de prova
¶ Princípio da concentração. É uma decorrência do direito à celeridade e dos princípios da
oralidade e da mediação, dado que quando o julgamento se prolonga por muito tempo,
com cessões muito espaçadas, (meses de diferença) prejudica-se a formação da
convicção do julgado, 328º e 365º

DEVER DE FUNDAMENTAÇÃO E DIREITO AO RECURSO


Direito ao recurso, 32º/1 CRP,???. Não há consenso já jurisprudência
Muitas vezes o recurso é direito a anulação de julgamento e novo julgamento 400º CPC
¶ Dever de fundamentação e direito de fundamentação 205º/1 CRP, e 97º/5 CPP. Os atos
decisórios são os despachos, as sentenças e os acórdãos. A falta de fundamentação
constitui irregularidade processual, salvo nos casos em que é prevista a sanção de
nulidade
¶ Dever de fundamentação, decorre da compressibilidade e aceitação de aplicação do
direito, através de uma argumentação expressa e racional e de garantia do direito ao
recurso. Relaciona-se com a garantia da imparcialidade do tribunal, dado que traz para a
claridade o processo de formação da convicção do tribunal
¶ O direito ao recurso está expressamente previsto no artg 32º/1 CRP e 61º/1/j), 310º,
399º, 400ºCPP.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

A jurisprudência do TC tem entendido que a CRP impor o direito a pelo menos 1 gray de
recurso que inclua a possibilidade de revisão da matéria de facto. As divergências tem-se
colocado a propósito das absolvições e condenações feitas pela relação. Com a reforma de 2010
limitou-se o recurso para o STJ quanto a condenações na relação por apenas 5 anos. caso o
arguido tivesse sido absolvido em 1 instância, este não disporia, efetivamente, de direito ao
recurso. Mas a questão ficou resolvida com o acórdão do TC 595/2018 e a com a revisão de
2021

PRINCÍPIO DA ADESÃO

Artigo 71.º Princípio de adesão:


O pedido de indemnização civil fundado na prática de um crime é deduzido no processo penal
respetivo, só o podendo ser em separado, perante o tribunal civil, nos casos previstos na lei.

Artigo 72.º Pedido em separado


1-O pedido de indemnização civil pode ser deduzido em separado, perante o tribunal civil,
quando: (...) ) O procedimento depender de queixa ou de acusação particular; (...)
2- No caso de o procedimento depender de queixa ou de acusação particular, a prévia dedução
do pedido perante o tribunal civil pelas pessoas com direito de queixa ou de acusação vale como
renúncia a este direito.

O princípio da adesão, fundado em razões de economia processual, proteção da vítima e


garantia de não contradição de julgados, diz-nos que, em regra, o pedido de indemnização civil
do dano
(patrimonial ou moral) decorrente do crime deve ser deduzido no processo penal. Porém,
existem
várias exceções (embora, por regra, na prática, seja respeitada a adesão, até porque tem menos
custos). O n.º 2 prevê uma presunção inilidível da renúncia ao direito de queixa (art. 113.º/1 CP:
o direito de queixa não pode ser exercido se o titular a ele expressamente tiver renunciado ou
tiver
praticado factos donde a renúncia necessariamente se deduza.) especiais, mesmo sem pedido,
pode o tribunal oficiosamente arbitrar reparação, art. 82.º-A.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

PRINCÍPIO DA SUFICIÊNCIA

Encontra-se previsto no art. 7.º do CPP (Suficiência do processo penal)


O princípio diz-nos que quando for necessário, para determinar a responsabilidade criminal,
resolver questões de direito distintas (validade de um contrato, propriedade de um bem, validade
de um despedimento, etc.), estas questões podem e devem ser resolvidas no próprio processo
penal.

Porém, quando o tribunal entenda que o nível de tecnicidade e/ou complexidade do assunto
aconselhe que o mesmo seja resolvido pelo tribunal competente, pode suspender o processo e
reenviar a questão. Estas questões que têm natureza jurídica não penal, mas que são pressuposto
da determinação da responsabilidade criminal são designada como questões prejudiciais
(antecedência lógico-jurídica, autonomia e necessidade). Distinguem-se das questões prévias
(questões de matéria processual penal ou penal que podem impedir a apreciação do mérito, pelo
que devem ser resolvidas antes do conhecimento deste, p.e., pressupostos processuais,
legitimidade, nulidades)

Coloca-se a dúvida: qual deve ser o efeito da decisão (por tribunal não penal) sobre 1 questão
prejudicial no processo penal em curso?
 O CPP29 previa que tivesse efeito de caso julgado formal, vinculando o tribunal penal.
 O CPP87 não tem norma expressa, sendo que, em princípio, pode aceitar-se esta
solução (mas, porque no processo penal vale à presunção de inocência e a livre
formação da convicção do julgador, o tribunal pode, ainda assim, afastar aquela
decisão, se a considerar manifestamente contrária à convicção sobre os factos relativos
à restante matéria penal.

PRINCÍPIO DA ADESÃO
Não fazem parte do fair trial

01/04/2022
PUBLICIDADE E .JUSTIÇA
Mini teste antes das ferias no moodle, não contam para avaliação continua, apenas para testar conhecimentos

CARACTERIZAÇÃO DO INQUÉRITO

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

A publicidade e o segredo são temas que acompanham todo o processos, sempre foi mais
problemático na fase de inquérito, dado que é a fase que mais está sujeita a segredo de justiça.
O inquérito é a fase de investigação e recolha e preservação da prova, embora esta apenas se
torna relevante na fase de julgamento. 261º, o inquérito é dirigido pelo MP auxiliado pelos
OPC, materialmente Inês entende que há inquérito desde o momento em que há notícia do
crime.
O inquérito corresponde à fase de investigação, em que vai ser feita a recolha e analise de prova,
tendo por objeto o “conjunto de diligências que visam investigar a existência de um crime,
determinar os seus agentes e a responsabilidades deles e descobrir e recolher as provas, em
rodem à decisão sobre a acusação

A questão que se coloca é que existem dois momentos: momento em que se adquire
materialmente a notícia do crime, que é acompanhado de certas diligencias iniciais no sentido
de recolha ou conservação da prova que são urgentes, 243º e 248º-258º, localizado antes das
normas no inquérito, como tal há doutrina que refere que isto é um pré inquérito, Inês refere que
materialmente é inquérito. Materialmente existe inquérito desde que há notícia do crime, 262º/2
e desde que sejam feitas atividades de recolha ou preservação da prova, 243º, 248º-258º,
formalmente apenas há inquérito com a abertura formal do mesmo, validada pelo MP.
Mas os princípios constitucionais penais são aplicáveis imediatamente (embora não se comecem
a contar os prazos do 276º). Não deve ser aceite a distinção entre suspeito e arguido com
fundamento da negação de direitos fundamentais. a falta de inquérito gera nulidade, 119º/d).
A noticia do crime dá sempre lugar ao inquérito (legalidade, 262º/2) salvo quando se trate de
denuncia anónima, 246º/6

A partir do momento em que são materialmente praticada das diligencias de investigação e que
contendem com dtos fundamentais então estamos no inquérito, devendo ter-se em conta todos
os princípios constitucionais, a jurisprudência faz a distinção entre suspeito e arguido para não
dar os dtos constitucionais ao suspeito.

Há situações em que não há logo constituição como arguido, dado que não se sabe bem quais
são os factos, se as pessoas são responsáveis ou não. Ex: covid, pessoas que precisavam de
autorizações para circular, farmacêutico tinha que ir trabalhar, a declaração não foi assinada
pela pessoa que deveria ter assinado, estes trabalhadores têm direito ao silencio mesmo que não
fossem logo constituídas como arguidas por falsificação de documentos. Jurisprudência tem
entendido que covne2rsas informais entre OPC e suspeitos que ainda não foram constituídas

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

como arguido valem de prova, Inês refere que não, refere que é contrário aos princípios
constitucionais

A REVOLUÇÃO DA REFORMA DE 2007

Historicamente a regra era segredo de justiça, na fase de inquérito muitas vezes o sujeito não
sabia que era suspeito, não tinha acesso aos autos se fosse arguido, mesmo quando eram
aplicadas medidas de coação mesmo assim não era permitido ao arguido acesso aos autos. Em
2007, na sequência de varais decisões de TC decidiu-se flexibilizar o regime, caso “casa pia”
teve um grande impacto na perceção popular de como corre o processo penal, como p.e. prender
para investigar, era bastante recorrente na altura
Os processos estavam sem segredo de justiça mas os media não, a informação estava sempre a
circular, muitas vezes fora de contexto, não era permitido ao arguido falar em qualquer
momento com quem quer que fosse, sendo isto uma clara violação dos direitos fundamentais,
dado que na fase de inquérito não há certezas que se a pessoa é culpada ou não.
Depois de 2007 deixava de haver a regra absoluta de segredo interno, os sujeitos processuais
podiam ter acesso aos autos, prestar declarações publicas em situações excecionais. A regra
passou a ser a da publicidade, o segredo de justiça passou a ser uma exceção, isto causou
reações adversas
1. o CPP foi feito por FD, mas este não tinha experiência de tribunal tinha uma ideia muito
teórica do processo penal, e fez o seu controlo durante muitos anos e da escola de
Coimbra
na reforma de 2007, a escola de Coimbra foi a única que recusou a revisão de 2007.
Estes entenderam que esta revisão alterou o paradigma do CP
2. contexto de grande conflito entre o poder político e o poder judicial por causa do caso
“Casa Pia”, alterou-se radicalmente o processo penal e o período de vacacio legis foi
extremamente curto para as adaptações
O segredo hj é mais flexível, quando há segredo quer dizer que todos os sujeitos processuais e
todos o que contactem que o processo a qq título (incluindo jornalistas p.e.) não têm acesso aos
autos. Isto porque o segredo passou a ser excecional, por circunstâncias que impliquem a
aplicação de segredo. Não se mantém o segredo todo o inquérito, durante o tempo do inquérito

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

TODA a gente tem que o respeitar. O segredo interno numa é absoluto, os sujeitos podem ter
acesso aos autos, o MP divide em cada parte do inquérito quem é que tem acesso ao processo,
sendo estes conflitos decididos pelo juiz de instrução.
Era usado um argumento pela escola de Coimbra, da publicidade de processo, que isto afetava a
presunção de inocência do arguido o que era algo contraditório dado que o arguido antes de
2007 não poderia falar sobre nada. Escola de Coimbra considera que o inquérito deve ser
naturalmente secreto, Inês entende que isto são resticios de um modelo penal inquisitória, pré
EDD.

Em 2007 foram introduzas 4 regras


1. a regra da publicidade (interna e externa) do inquérito, salvo decisão irrecorrível do juiz
de instrução que ordena o segredo externo do processo
2. regra de publicidade (interna e externa) da instrução
3. determinação da publicidade externa como incluindo a assitencia do publico aos atos
processuais, mesmo aos praticados no inquérito e na instrução
4. a vinculação ai segredo de justiçao de todos os que contactam com o processo têm
conhecimento de elementos do processo, incluindo os jornalistas

CONCEITOS
¶ Publicidade ou segredo interno: refere-se à relação entre os sujeitos processuais e o
conteúdo dos autos, se há segredo interno, os sujeitos não podem consultar livremente o
processo, 89º/1
¶ Publicidade ou segredo externo: refere-se à relação entre o publico em geral e o conteúdo
dos autos , artg 86º
¶ Implicação da publicidade, 86º/6, assistência, pelo publico em geral, à realização do debate
instrutório e dos atos processuais na fase de julgamento, possibilidade de narração dos atos
processuais, ou reprodução dos seus termos pelos meios de comunicação social, , a
consulta do auto e obtenção de cópias, a publicidade não abrange os dados relativos à
reserva de vida privada que não constituam meios de prova, 86º/7
¶ Implicações do segredo: 86º/8: o segredo de justiça vincula todos os sujos e participantes
processuais, assim como as pessoas que, por qualquer título tiverem tomado contacto com
o processo ou conhecimento dos elementos a ele pertencentes, e implica as proibições:
a) Assistência a pratica ou tomada de conhecimento do conteúdo do ato processual
b) Divulgação da ocorrência de ato processual ou dos seus termos, independentemente do
motivo que presidir a tal divulgação

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Mesmo havendo segredo externo, o segredo interno nunca é absoluto, podendo os sujeitos ter
acesso aos autos, salvo quando o MP, a isso se opuser, em despacho fundamentado, 89º/1,
podendo haver reclamação para o JIC que decide em despacho recorrível, 89º/2
Apenas pode haver segredo interno durante os prazos legais do inquérito

INCONSTITUCIONALIDADE DA PUBLICIDADE DO INQUÉRITO?


Artigo 20º CRP(acesso ao direito e titula jurisdicional efetiva), estabelece que a lei define e
assegura a adequada proteção do segredo de justiça. A partir desta norma, alguma doutrina
considera inconstitucional por violação do segredo da investigação e do direito à presunção de
inocência, a regra da publicidade interna e externa no inquérito
A publicidade interna nunca poderia ser considerada inconstitucional por violação do direito à
presunção de inocência, dado que permite que os sujeitos processuais (já conhecedores dos
factos e vinculados ao segredo de justiça) tenham acesso aos autos. Haverá
inconstitucionalidade por violação de outros bens? MARIA JOÃO ANTUNES “a tarefa de
concordância pática das finalidades, irremediavelmente conflituantes, apontadas ao processo
penal: a realização da justiça e a descoberta da verdade material, a proteção perante o estado
de dtos fundamentais das pessoas e o restabelecimento, tao rápido, quanto possível, da paz
jurídica posta em causa pelo crime e a consequente reafirmação da validade da norma
violada”

REGIME LEGAL ATUAL


A percentagem de processos sujeitos a crime é pequena, cerca de 10% ou 15%,
Inquérito: dentro do prazo, tem que ser determinado pelo MP. Os sujeitos podem opor-se ao
segredo, estes também podem pedir levantamento do segredo. Se o segredo for requerido pelo
sujeito o MP não pode levantar o segredo. O juiz de instrução tem que faz um juízo pratico
relativamente ao segredo externo . quanto ao segredo interno, se houver segredo também
externo, então quer dizer que do pto de vista interno tb pode ser imposto segredo, tendo o juiz
de fazer a concordância prática.
Inquérito: fora do prazo. Tem de haver um sanção para o não cumprimento do prazo,
determinou-se o fim do segredo de justiça, entendeu-se que o MP tem direito a investigar em
segredo mas é algo excecional (ninguém pode pedir que não se fale do crime durante 10 anos
p.e.).

Instrução e julgamento: não há segredo

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

A doutrina entende que é inconstitucional nunca haver segredo na fase de instrução, dado que o
julgamento é publico e o arguido tem dto a uma fase prévia para decidir se vai ou não a
julgamento. Mas há sempre restrições a publicidade
A intervenção do juiz de instrução viola o acusatória? Há doutrina que entende que sim, quem
tem de avaliar se há ou não interesse no segredo da infestação é o MP

Inquérito
¶ Dentro do prazo → publico, 86º/1, salvo se o MP determinar que haja segredo, 86º/3 e
haja validação por despacho do JIC, salvo se sujeitos processuais requererem ao JIC,
86º/2. Se o MP determinar que haja segredo, 86º/3 de acordo com os interesses da
investigação ou dos sujeitos, podem levantar segredo quando entender, oficiosamente
ou a requerimento, 86º/4. Os sujeitos podem ainda, opor-se a publicidade, 86º/2 e
podem impedir o levantamento do segredo ao JIC, que decide por despacho irrecorrível,
86º/5. Se o segredo for imposto por vontade dos sujeitos, 86º/2, o MP não pode levantar
o segredo externo
O JIC faz juízo de concordância prática quanto ao segredo externo, com favorecimento
máximo dos interesses da investigação e da proteção dos dtos fundamentais dos sujeitos
e participantes processuais, incluindo testemunhas, aceitando a definição dos interesses
da investigação dada pelo MP
Quanto ao segredo interno, o JIC faz juiz de concordância prática entre os interesses da
investigação, a necessidade de proteger a prova e o direito à defesa do arguido, face a
cada parte dos autos, 89º/1/ e 2
¶ Fora do prazo → findos os prazos do inquérito, 89º/6, deixa de haver segredo interno,
os sujeitos têm acesso livre aos autos. O MP pode pedir prorrogação por 3 meses e, para
criminalidade especialmente grave, por mais 1 vez pelo “prazo objetivamente
indispensável à conclusão da investigação”. A publicidade não inclui dados com reserva
da vida privada que não constituam meios de prova, 86º/7. A publicidade não inclui
dados sujeitos a segredo bancário e fiscal, ou privacidade de terceiros, mesmo que
sejam prova, TC 428/2008

Instrução
Não existe segredo interno na fase de instrução ou julgamento, 89º/1 e 4
Não existe segredo externo na fase de instrução ou julgamento, 86º
A publicidade não é absoluta, podendo ser restrita ou limitada em casos especiais de proteção de
pessoas vulneráveis, 86º/7, 87º/1 e 3, 88º/2, 3 e 4.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

A CONCORDÂNCIA PRÁTICA
O problema da reforma de 2007 foi a total inversão do paradigma inquisitório do segredo
natural na fase de inquérito. Quando passou a ser a publicidade a regra, na AR o legislador não
ponderou as múltiplas consequências e potenciais conflitos. A professora não entende a regra da
publicidade como inconstitucional pelos seguintes motivos
1. Num modelo acusatório, não há razoes para obrigatoriedade absoluta de segredo
durante todo o inquérito, sendo adequado um regime que permita, excecionalmente, o
segredo externo e interno, desde que os sujeitos processuais possam pedir segredo para
proteção dos seus direitos, incluindo o direito ao bom nome a presunção de inocência
2. A realização da justiça e descoberta da verdade material não exigem uma investigação
secreta, tudo dependerá do caso e da natureza da prova
3. A obrigatoriedade de segredo interno era inconstitucional, dado que não permitia
exceçoes nem juízos de concordância prática.
4. Num modelo acusatório, a regra da publicidade apos a acusação, ressalvada a proteção
da vida privada e pessoas vulneráveis, não é inconstitucional, nem mesmo à luz do
direito ao bom nome ou presunção de inocência

INTERVENÇÃO DO JIC E O ACUSATÓRIO


Para alguma doutrina o regime leal é ainda inconstitucional quando exige a validação pelo JIC
da decisão do MP de sujeitar o processo a segredo de justiça na fase de inquérito, 86º/3, dado
que entendem que tal dependência viola o acusatório, na medida em que, sendo o MP o
dominus do inquérito e o JIC mero juiz das liberdades, não pode o JIC ter como função a de
fiscalizar a gestão dos interesses e da investigação na fase de inquérito
O TC já concluiu pela não inconstitucionalidade destas normas, no AC nº110º/2009. A
interpretação correta é a seguinte: “a função de um juiz de instrução, no nosso sistema, é
garagista, não de concorrência ou sobreposição em relação as funções do MP no inquérito. A
responsabilidade indeclinável do juiz de instrução prende-se, antes, com o balanço e a
ponderação entre as exigências da investigação por um lado, e os dtos de defesa do arguido por
outro. São este tipo de juízo e de ponderação que são específicos da função do juiz de instrução.
O que pode levar o juiz a divergir do MP não é uma sua divergência a respeito dos interesses da

54
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

investigação, como se devesse ajuizar a respeito desses interesses e os dtos de defesa do


arguido.

MP COMO DOMINUS DO INQUÉRITO


O MP dirige o inquérito com o auxílio dos OPC, 263º, o que implica que, em princípios, todos
os atos de inquérito sejam dirigidos/presidis pelo MP, 267º. O MP pode delegar a prática de
alguns ou de todos os atos de inquérito, 270º, salvo quando se trate de atos que implicam a
restrição de direitos fundamentais (atos jurisdicionais do inquérito, da competência do JIC) e
ainda os atos elencados no 270º/2
A função de direito do inquérito atribui ao MP, num modelo acusatório, a responsabilidade pela
recolha e preservação da prova, bem como a elaboração de um juízo final sobre a suficiência
dos indícios, bem como a consequente acusação ou despacho de arquivamento, ou remissão
para processo especial. Cabe também ao MP decidir sobre os meios de obtenção de prova, como
escutas, operações encobertas, perícias, em alguns casos com validação do JIC, sobre o segredo
interno e externo, sujeito a validação do JIC, competindo-lhe ainda propor as medidas de coação
que considera necessárias, mas estas são aplicadas por decisões e despachos do JIC.

O PAPEL DO JIC NO INQUÉRITO


Durante a fase de inquérito, o juiz de instrução é o juiz das liberdades, ou seja, tem como função
garantir que o processo penal respeita o princípio da lealdade e os direitos fundamentais dos
intervenientes, cabendo-lhe fazer ou fiscalizar os juízos de concordância pratica que se
imponham, normalmente, entre a realização de justiça, interesses de investigação na prova e
busca pela verdade material e os diretos do arguido, mas também a proteção do ofendido e
outros intervenientes processuais.
Sempre que na fase de inquérito, os OPC ou o MP, queiram praticar ou pratiquem atos que
contem com direitos fundamentais, do arguido ou de terceiros, tem que ser autorizados ou
validados pelo JIC, 268º
O JIC dirige o 1º interrogatório de arguido detido, autoriza a realização de buscas, autoriza e
fiscaliza a realização de escutas, decide da aplicação de medidas de coação, valida o
arquivamento e a suspensão dos artgs 280º e 281º, entre outros atos
O JIC não realiza juízos de oportunidade ou conveniência da investigação, devendo limitar-se à
fiscalização da legalidade e à realização de juízos de concordância prática.

04/04/2022

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

PRINCÍPIOS GERAIS DE PRODUÇÃO E VALORAÇÃO DE PROVA

MODELO DE PROVA PORTUGUÊS


Sistema de prova moral por oposição do sistema de prova legal, sendo esta taxativa, que cada
documento valia x e apenas poderia ser ilidido por x razoes e x pessoas. Em Portugal vigora o
sistema de prova moral. Em princípio toda a prova é admitida, a não ser que seja proibida, e o
tribunal vai tomar a sua livre valoração da prova, tendo este de ser fundamentada. Aplica-se a
todo o tipo de prova que seja apresentada em tribunal. Há um ónus intenso de fundamentação do
tribunal relativamente a valoração da prova, para que se perceba o porque da convicção do
tribunal

Conceito de prova:
¶Prova enquanto meio de prova: elementos da realidade objetiva que permitem inferir os
factos penalmente relevantes, p.e. documentos, declarações testemunhais e objetos
materiais, 174º/1
¶Prova enquanto meio de obtenção de prova: formas de obter os meios de prova, p.e.,
revistas, buscas, escutas, exames, perícias
¶Prova enquanto atividade probatória: esforço metodológico de produção de prova para a
demonstração de factos
¶Prova enquanto resultado probatório: formação da convicção e motivação da convicção
do julgador sobre a verificação dos factos penalmente relevantes

Objeto da prova: 124º, todos os factos relevantes para a existência ou inexistência do crime.
Conceito de facto processual tem um conteúdo e relevância do objeto do processo,

Princípio da legalidade da prova: 125º, todas as provas são admissíveis salvo quando forem
proibidas por lei ou pela CRP. É um princípio mais teórico, o CPP, já inclui e prevê uma serie
de formas de obtenção e meios de proteção da prova e com regime extensos e elaborados, como
tal não é fácil pensar em formas que não estão aqui incluídos: diários íntimos, o TC já se
pronunciou que estes diários têm que ter um regime especial para serem usados como meios de
prova, dado que nos diários íntimos são pensamentos internos, que não são na verdade prova de
nada; vídeos feitos sem consentimento legal, como camaras de vigilâncias, vídeos particulares
feitos sem consentimento e ainda fotografias de satélite que também não estão regulados. Estes
meios de prova não são proibidos, mas como não estão legalmente previstos como intervém
com dtos fundamentais, tem d haver um juízo de concordância prática.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Há outros meios de prova que são expressamente proibidos, como a tortura, CRP.
No CPP a obtenção de prova segue o princípio da legalidade, mas não da taxatividade ou
tipicidade, o que quer dizer que, em princípio, todos os meios de obtenção e produção de prova
são admissíveis, salvo se houver proibição expressa na lei ou a proibição decorra da CRP

Legalidade da prova e prova proibida


Embora o artg 125º não exija a taxatividade dos meios de obtenção e produção de prova, não
existe inteira liberdade, na medida em que o CPP, nos termos do artg 128ºss, elenca os meios de
produção da prova: testemunhal e declarações dos sujeitos processuais (que podem incluir a
acareação, o reconhecimento ou a reconstituição do facto), pericial e documental. Todas estas
formas de produção de prova (provas típicas), têm um determinado regime, que não pode ser
violado, sob pena de nulidade de prova.
171ºss → elenco dos meios típicos de obtenção de prova, como exames, perícias, revistas e
buscas, apreensões, escutas → a violação implica nulidade de prova
Não sendo impossível admitir meios típicos de obtenção e produção de prova, não sobram
muitos. Existem ainda meios de obtenção e produção da prova que são diretamente proibidos
pela CRP

Princupio da investigação ou da busca pela verdade material: nos modelos adversarias,


como EUA, o tribunal não tem poderes de investigação, toda a prova que tiver sido recolhida
pode ser usada, não pode haver diligencias de provas novas no âmbito do julgamento. No
sistema português, o tribunal decide, tem que ter algum poder de em caso de dúvidas tentar
suprir esta dúvida recorrendo a prova que possa ser repetida ou aperfeiçoada, sejam elas contra
ou a favor o arguido, no imite se a dúvida persiste é valorada a favor do arguido. O modelo pt
de acusatório não é puro, tendo alguns momentos de compromisso, sendo por isso, designado de
acusatório mitigado. Um dos meios mais relevantes reside no poder-dever que tem o tribunal do
julgamento, 340º, de investigação oficiosa de prova quando tenha dúvidas sobre a prova
produzida e configure como viável a resolução da dúvida com recurso a meios adicionais de
produção de prova. Quando a dúvida não seja suprível, deve ser valorada a favor do arguido (in
dúbio pro reu)

Valoração da prova e livre convicção: Inês entende que quando a CRP fala em dto ao recurso
deve-se incluir discussão de matéria de facto. Como não existe um sistema de prova legal, acaba
por ser uma parte mais polemica, dado que é valorada pela valoração do juiz, esta convicção
não é íntima, tem que ser publica, objetiva, motivada e fundamentada, embora haja sempre um
grau de subjetividade. Há restrições a livre apreciação, há provas que não podem ser valoradas

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

(declarações dadas ao OPC), toda a prova que o tribunal pode usar é aquela que foi produzida
em fase de julgamento e sujeita a contraditório, mesmo que a prova esteja nos autos, se não foi
produzida em fase se julgamento nem sujeita a contraditório então o tribunal não pode usar esta
prova
Num modelo de livre convicção, o julgado pode valorar livremente toda a prova, sem a
ponderação hierárquica do valor de certos tipos e meios de prova, e sem ónus da prova, o
julgador, depois de produzida a prova, pode formar a sua convicção livremente, não existem
critérios de prova legal, devendo, contudo, motivar e fundamentar a formação da sua convicção
seguindo e segundo as regras da logica, da ciência e da experiência, 127º,

Presunções judiciais: a presunção de inocência impede que haja presunções de facto/direito,


mas admitidas presunções judiciais e prova indiciaria. STJ 26/08/2012 “ a presunção é uma
conclusão de um raciocínio que induz o facto desconhecido a partir de um facto conhecido, o
indicio, suposta uma adequada relação de causalidade, surtindo o facto indiciado como
resultante de uma comparação entre o facto indiciário e uma lei ou regra da experiencia comum,
ou seja, de acordo com o que é usual acontecer

Ónus da prova em processo penal:


Do pto de vista legal e constitucional, Inês tende que não se pode dizer do pto de vista técnico
que exitam ónus de prova em processo penal, dado que este tem um determinado sentido
técnico, é um dever de provar os factos que se alegam sob pena de os mesmo não serem dados
como provados, isto não existe em processo penal, a logica do processo civil não pode ser
transferido para o processo penal, contrariamente ao que entende o professor Paulo Sousa
Mendes. Inês aí no sentido da maioria da doutrina.
Na prática estes ónus existem, dado que em caso de o MP apresentar uma prova que indique que
aconteceu crime, se o arguido na apresentar prova, o tribunal convence-se por uma prova do
MP.
Há quem conclua categoricamente em sentido negativo (germano marques da silva, figueiredo
dias), invocando o dever de objetividade do MP, não tem verdadeiro ónus de prova, pois não
tem, sempre, interesse direto condenação, tendo, aliás, dever de produzir prova que seja
favorável ao arguido, e dever de sustentar a absolvição na ausência de prova, e a presunção de
inocência do arguido, nunca pode ter o ónus de prova da sua inocência.
Há quem discorde, como PSM, entendendo que o MP tem ónus de produção de prova e ónus de
persuasão, nas alegações finais, contudo, na perspetiva de INES, o autor confunde dever de
sustentar a acusação, o que se pode chamar de ónus, com a obrigação processual de trazer a

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

prova de determinado facto alegado pela parte sob pena de o mesmo não se considerar provado,
sem seu desfavor. Não existem ónus de prova em processo penal.

Proibições de prova: Inês aqui segue a doutrina de PSM, distinção entre regime de proibições
de prova e regime de nulidades. As primeiras estão no 126º. Não há uma diferença de regime
quanto as violações do nº1 e nº3, no entanto há quem entenda que as do nº3 são sanáveis, no
entanto isso não tem consagração legal

Declarações do coarguido: livremente apreciadas pelo tribunal, tem que responder a todas as
questões, caso contrário estas valorações não podem ser valoradas. Inês refere que não pode
haver condenação com base nas declarações dos co arguidos

Nulidade da prova e proibições de prova: existem proibições de obtenção da prova, de produção


de prova e de valoração de prova. Para alem de proibições de prova, existe um regime das
nulidades de prova, decorrente da violação dos regimes de obtenção ou produção de prova, qu
enão correspondam a verdadeiras proibições de prova, 118º/3. O legislador reconhece a
autonomia das proibições de prova ante o regime das nulidades. 126º contem um regime de
nulidade suis generis, uma nulidade absoluta, insanável. Apenas se aplicam o 119ºss as
invalidades decorrente da violação de formalidades da obtenção ou produção de prova

MEDIDAS DE COAÇÃO

Enquadramento constitucional: Artigo 27.º (Direito à liberdade e à segurança)

LEGALIDADE E CONDIÇÕES GERAIS


¶ Medidas de coação e garantia patrimonial: meios processuais de restrição da liberdade
pessoal/propriedade, que têm por fim acautelar a eficácia do processo penal e a realização
dos seus fins penais

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ Artigo 191.º (Princípio da legalidade): 1 - A liberdade das pessoas só pode ser limitada,
total ou parcialmente, em função de exigências processuais de natureza cautelar, pelas
medidas de coação e de garantia patrimonial previstas na lei.
¶ Tipicidade e taxatividade das medidas de coação e de garantia patrimonial;
¶ Sujeição destas medidas a exigências processuais cautelares (ónus de fundamentação, ante
o caso concreto, das concretas exigências cautelares dos autos, no momento da aplicação
da medida), art. 204.º;
¶ Ónus de manutenção e revisibilidade, pois as medidas apenas se podem manter caso se
mantenham, com a mesma intensidade, as exigências cautelares que as justificaram, artgs.
212.º e ss.;
¶ Prévia constituição como arguido, art. 192.º mesmo para o TIR, salvo arresto);
¶ Despacho judicial fundamentado, art. 194.º/6;
¶ Promoção do M.P. (inquérito), art. 194.º/1-3;
¶ Audição prévia do arguido (salvo exceções), art. 194.º/4;
¶ Necessidade, adequação e proporcionalidade, art. 193.º;
¶ Respeito pela presunção de inocência, artgs. 192.º/6, 193.º/1 4, 200-202.
¶ Salvo o Termo de Identidade e Residência (TIR) que. materialmente, não é verdadeira
medida de coação., sendo obrigatório (artgs. 191.º/2, 196.º)

DIVISÃO DE COMPETÊNCIAS E RESPONSABILIDADES ENTRE JIC E MP

¶ Sempre que esteja em causa a privação da liberdade ou restrição de direitos fundamentais,


a medida de coação/garantia patrimonial tem de ser aplicada por despacho judicial
fundamentado (artgs. 18.º, 27.º, 32.º /4, 202.º/2 e 205.º/1 CRP e art. 194.º) sendo que na
fase de inquérito e instrução, esta competência é do JIC (arts. 194.º e 268.º).
¶ Na fase de inquérito, porque o MP é quem dirige e define os interesses da investigação e os
seus limites, sempre houve polémica na doutrina e jurisprudência sobre saber se o JIC
poderia aplicar medida sem promoção do MP (requerimento deste), ou uma medida mais
gravosa, Em 2007, o art. 194.º foi alterado prevendo a impossibilidade de o JIC aplicar
medida mais gravosa do que a requerida pelo MP. Porém, em 2013, entendeu-se que o JIC
deveria poder aplicar medida de coação mais gravosa nos casos das alíneas a)e c)do art.
204.º (perigo de fuda e de continuação da atividade criminosa), mas não pode aplicar medida
de garantia patrimonial mais gravosa, nem medida de coação mais gravosa com fundamento
na b) do art. 204.º (perturbação do inquérito).. Esta solução é equilibrada, garante a
autonomia entre o JIC e o MP, não permitindo que o JIC, enquanto juiz das liberdades. faça

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

uma avaliação autónoma dos interesses da investigação, mas permitindo que, em casos
excecionais, o JIC possa acautelar a proteção da vítima ou do interesse público).

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA E EXIGÊNCIAS CAUTELARES

¶ O respeito pela presunção de inocência implica que, antes do trânsito em julgado, o arguido
seja tratado, em todas as dimensões processuais, como presumível inocente. Assim, não
pode haver prisões antecipatórias (o cumprimento de pena apenas pode ser impostos após o
trânsito em julgado)., nem prisões investigatórias (ou seja, prisão decretada com a
finalidade de isolar o arguido em fases iniciais da investigação, com o objetivo de limitar o
seu direto a uma ampla defesa ou coagi-lo a colaborar com a investigação).
¶ Consequentemente, todas as medidas de coação ficam sujeitas à demonstração efetiva de
exigências cautelares, art. 204.º;
¶ Mais, nenhuma medida de coação ou de garantia patrimonial é aplicada quando houver
fundados motivos para crer na existência de causas de isenção da responsabilidade ou de
extinção do procedimento criminal.
¶ No caso especial da prisão preventiva, por ser a medida de coação mais gravosa, exige-se,
ainda, que haja fortes indícios da prática de crime doloso com pena superior e 3 ou 5 anos
(art. 202.º), sendo que este regime estende-se hoje às medidas de proibição e imposição de
condutas (art.
¶ 200.º), obrigação de permanência de habitação (art. 201.º)..
¶ A presunção de inocência exige ainda que as medidas fique sujeitas a critérios de
necessidade e sejam revisíveis

FINALIDADES CAUTELARES DAS MEDIDAS DE COAÇÃO

¶ Uma vez que só são aplicadas medidas de coação ao arguido, e que a constituição como
arguido exige que haja «fundadas suspeitas da prática de crime», 58.º/1 a), em princípio, há
sempre uma exigência probatória mínima (fumus comisi deliti) subjacente a qualquer
medida de coação (indícios, ainda que iniciais e incompletos, de culpabilidade). mas
58.º/1/b)

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

O art. 204.º estabelece a obrigatoriedade de se verificarem, em concreto, exigências


cautelares processuais, para aplicação de medida de coação, as quais podem ser ( pericula
libertatis):

a) Perigo de fuga: exigência de factos concretos que apontem para uma potencial
vontade/pressão/incentivo de fuga (escutas, envios de dinheiro estrangeiro, planos de
fuga, etc.). A mera oportunidade de fuga (dupla nacionalidade, residência/família no
estrangeiro, elevados rendimentos) não chega para aplicar medidas de coação mais
gravosas. Quanto maior o risco de fuga. mais gravosa pode ser a medida.

b) Perigo de perturbação do inquérito: exigência de factos concretos que apontem para


um perigo real de aquisição/preservação da prova por meios ilícitos (não confundir
com a necessidade de neutralizar o direito de defesa do arguido), tais como a destruição
de documentos, a coação de testemunhas. etc. Em princípio, verifica-se mais nas fases
iniciais do inquérito, sujeitas a segredo, sendo menos provável em casos de publicidade
do processo e da prova.

c) Perigo de continuação da atividade criminosa: exigência de factos concretos que


apontem para um risco real de prática de crimes semelhantes aos que estão a ser
investigados)

d) Perigo de perturbação grave da ordem e da tranquilidade públicas:


inconstitucional quando interpretada no sentido se incluir a mera pacificação social
(alarme social) ou proteção do arguido (existem outros meios).

NECESSIDADE, ADEQUAÇÃO E PROPORCIONALIDADE

A ponderação da proporcionalidade, em sentido amplo. é exigida pelo art. 18.º/2 da CRP, e


reiterada no art. 193.º. Este controlo é feito, em concreto, pelo JIC, a quem compete realizar os
juízos de concordância prática, em cada momento, face às circunstâncias concretas do caso,

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Embora a lei já faça este juízo - em abstrato - e contenha algumas indicações e critérios de
ponderação, ainda assim o JIC deverá fazer o juízo final em cada caso (não se bastando com a
mera verificação formal de critérios de legalidade).
1) O primeiro juízo - necessidade - diz respeito à existência de exigências cautelares que
determinem a aplicação de uma medida.
2) O segundo juízo - adequação - exige que a medida a aplicar seja idónea para a
satisfação das exigências cautelares (eficácia potencial da medida para garantir as
finalidades processuais em questão).
3) O terceiro juízo - proporcionalidade, stricto senso - exige que se faça uma ponderação
entre as exigências cautelares (intensidade do risco de fuga, perturbação do inquérito
ou continuação do crime) e o impacto da medida a aplicar. As medidas de coação
privativas são sempre e só um último recurso.
4) Deve ser ainda feito um quatro juízo de proporcionalidade - proibição do excesso - que
exige uma ponderação final entre a gravidade objetiva do crime e o impacto da medida
a aplicar. O legislador já faz este juízo ao limitar certas medidas a certos crimes mais
graves (crimes dolosos, com pena superior a 3 ou 5 anos)., Ainda assim, o JIC deverá
fazer também este juízo em concreto (193.º/1), uma vez que, por maior que seja o risco
de fuga num crime de injúria, nunca será legitima a aplicação de medidas de coação de
grande impacto (artgs. 200.º a 202.º, p.e.)
Em casos excecionais, quando se demonstre, com factos concretos, que as medidas aplicadas
foram insuficientes, pode ser aplicada medidas mais gravosa, incluindo a prisão preventiva
(mesmo que a moldura não o permita), art. 203.º

DETERMINAÇÃO DA MOLDURA PENAL


Artigo 195.º →Determinação da pena
Na determinação da moldura penal concreta do facto (termo técnico correto), deve atender-se
apenas a cada um dos crimes imputados ao arguido (o concurso de crimes, que é relevante no
plano da competência, não pode ser valorado para permitir a aplicação de medidas de coação),
considerando todas as circunstâncias agravantes especiais (qualificações, agravações em função
da idade da vítima ou do resultado), bem como as atenuantes especiais (cumplicidade, tentativa,
omissão).
Quando a lei exige que o crime seja doloso, e o arguido esteja acusado de um crime
preterintencional ou agravado em função de um resultado negligente (p.e. artgs. 147.º, 177.º/5,
285.º), não se pode considerar a moldura legal do crime agravado (pois a agravação é imputada
a título negligente), devendo valorar-se a moldura legal do crime base doloso, sem a agravação.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

AS MEDIDAS PRIVATIVAS E ANÁLOGAS

Para estas medidas (previstas nos artgs. 200.º a 202.º), a lei, por influência constitucional, exige
que haja fortes indícios da prática de crime doloso.
Para a proibição e imposição de condutas e para a obrigação de permanência na habitação,
exige-se que haja fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão de
máximo superior a 3 anos.
Para a prisão preventiva, exige-se:
¶ Houver fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão de
máximo superior a 5 anos;
¶ Houver fortes indícios de prática de crime doloso que corresponda a criminalidade
violenta;
¶ Houver fortes indícios de prática de crime doloso de terrorismo ou que corresponda a
criminalidade altamente organizada punível com pena de prisão de máximo superior a 3
anos;
¶ Houver fortes indícios de prática de crime doloso de ofensa à integridade física
qualificada, furto qualificado, dano qualificado, burla informática e nas comunicações,
abuso de cartão de garantia ou de cartão, dispositivo ou dados de pagamento, recetação,
falsiicação ou contrafação de documento, atentado à segurança de transporte rodoviário,
puníveis com pena de prisão de máximo superior a 3 anos;
¶ Houver fortes indícios da prática de crime doloso de detenção de arma proibida,
detenção de armas e outros dispositivos, produtos ou substâncias em locais proibidos ou
crime cometido com arma, nos termos do regime jurídico das armas e suas munições,
puníveis com pena de prisão de máximo superior a 3 anos;
¶ Se tratar de pessoa que tiver penetrado ou permaneça irregularmente em território
nacional, ou contra a qual estiver em curso processo de extradição ou de expulsão.

OS FORTES INDÍCIOS E OS INDÍCIOS SUFICIENTES

Os fortes indícios são indícios suficientes da culpabilidade do arguido, a partir dos quais resulta
mais provável a aplicação, em julgamento, de uma pena ou medida de segurança (semelhantes
aos do art. 283.º). A única diferença entre estes indícios (fortes) e os suficientes (para dedução

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

de acusação), é a fase processual e a eventual incompletude do fortes indícios por se estar numa
fase inicial da investigação e ainda haver outra prova a recolher/produzir.

DEVER DE FUNDAMENTAÇÃO E DIREITO À INFORMAÇÃO

¶ Até 2007, o CPP era manifestamente insuficiente para garantir o direito de informação
do arguido sujeito a medida de coação (incluindo a prisão preventiva), pois não tinha
acesso aos autos (segredo interno absoluto), o art. 141.º (1º interrogatório judicial de
arguido detido) e o art. 195.º/3 apenas exigia que do despacho constasse a «enunciação
dos motivos de facto da decisão». Esta situação era contrária à CEDH e à CRP (art.
27.º/4), o que motivou decisões do TC (607/2003, 416/2003,. 191/1997).

Atualmente, o art. 141.º/4 obriga a informar o arguido «dos factos que lhe são concretamente
imputados, incluindo, sempre que forem conhecidas, as circunstâncias de tempo, lugar e modo;
e dos elementos do processo que indiciam os factos imputados, sempre que a sua comunicação
não puser em causa a investigação, não dificultar a descoberta da verdade nem criar perigo para
a vida, a integridade física ou psíquica ou a liberdade dos participantes processuais ou das
vítimas do crime» e o art. 194.º/6 exige a «descrição dos factos concretamente imputados ao
arguido, incluindo, sempre que forem conhecidas, as circunstâncias de tempo, lugar e modo; a
enunciação dos elementos do processo que indiciam os factos imputados, sempre que a sua
comunicação não puser gravemente em causa a investigação, impossibilitar a descoberta da
verdade ou criar perigo para a vida, a integridade física ou psíquica ou a liberdade dos
participantes processuais ou das vítimas do crime: a qualificação jurídica dos factos imputados:;
e a referência aos factos concretos que preenchem os pressupostos de aplicação da medida,

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

incluindo os previstos nos artigos 193.º e 204.º». Por outro lado, é hoje reconhecido o acesso
aos autos (salvo quando haja segredo em relação a certos elementos) do arguido (art. 89.º).

PRAZOS DE DURAÇÃO MÁXIMA DA PRISÃO PREVENTIVA

¶ O art. 215.º prevê os prazos de duração máxima da prisão preventiva, em concretização do


art. 28.º/4 da CRP. Os prazos são variáveis em função da fase processual, pois com o
avanço do processo vão-se estabilizando os indícios, amplia-se o direito de defesa do
arguido, e podem surgir novas exigências cautelares (especialmente o perigo de fuga). No
caso de o arguido ter sido condenado a pena de prisão em 1º instância e a sentença
condenatória ter sido confirmada em sede de recurso ordinário, o prazo eleva-se para
metade da pena que tiver sido fixada (215.º/6).
¶ Nos prazos contam-se os períodos de obrigação de permanência na habitação (215,º/8).
Não é possível somar prazos em caso de concurso (215.º/7). Contam-se de modo contínuo
desde o início da medida de coação (não se recomeça em cada fase processual).
¶ Os prazos podem ser ampliados em certos casos (215.º/2) e, para todos os tipos de crimes,
quando seja declarada a excecional complexidade
¶ (215.º/3-4) A excecional complexidade tem de ser declarada durante a 1.º instância, por
despacho judicial fundamentado, oficiosamente ou a requerimento do Ministério Público,
ouvidos o arguido e o assistente. Pode haver excecional complexidade em função do
número de arguidos ou de ofendidos ou ao carácter altamente organizado do crime, mas
estas causas não são taxativas, podendo decorrer da complexidade da prova.
¶ Os prazos contam-se de modo contínuo mesmo quando haja levantamento da medida e
nova aplicação (interrompem-se com a interrupção da medida e retomam-se com a nova
aplicação, mesmo em caso de arquivamento e reabertura de inquérito)

MEDIDAS DE COAÇÃO EM ESPECIAL E CUMULAÇÃO DE MEDIDAS

¶ É possível cumular certas medidas de coação (p.e.. a caução, art. 197.º, e a obrigação de
apresentação periódica, art. 198.º, podem ser acumulável com todas as medidas, menos

66
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

as privativas da liberdade, artgs. 198.º/2 e 205.º; a suspensão do exercício de profissão,


de função, de atividade e de direitos é cumulável com qualquer medida, art. 199.º/1, a
proibição e imposição de condutas, art. 200.º, é cumulável com todas, menos com a
prisão preventiva, artgs. 200.º/1 e 201.º/2). O TIR é sempre cumulável.
¶ A obrigação de permanência na habitação pode ser, ou não, sujeita a vigilância
eletrónica (ou com mero controlo policial, que será permanente quando o arguido
estiver também sujeito à proibição de contactos, pois será um agente a controlar as
entradas na habitação), art. 201.º.
¶ Não pode ser aplicada a suspensão do exercício de cargo político eletivo ou
governamental, por força da separação de poderes, art. 2.º CRP, salvo nos casos do art.
34.º/2, 35.º/2, 37.º/2, 39.º/2 da Lei nº 34/87, de 16 de julho (titulares de cargos
políticos), na versão da revisão de 2021.
¶ É ilegítima a proibição de contactos entre o arguido e a comunicação social (fora dos
casos da imposição do dever de segredo), por via do art.200.º, à luz do direito de defesa,
que inclui o direito à defesa no espaço público, pelo direito ao bom nome, salvo quando
este contacto seja meio de continuidade da atividade criminosa (crimes de ódio, de
imprensa, difamação, etc...)

REVISIBILIDADE E MEIOS DE IMPUGNAÇÃO

Nos termos dos artgs. 212.º e ss, as medidas devem ser revogadas logo que cessem os
pressupostos/requisitos legais, e sempre que se alterem as circunstâncias (indiciárias e
cautelares). A jurisprudência entende que o juiz apenas pode revogar/modificar medidas quando
haja uma alteração substancial das circunstâncias, mas o entendimento correto é aquele que nos
diz que qualquer juiz que tome contacto com o processo e esteja em posição de reexaminar a
medida (oficiosamente, 213.º, ou a requerimento, 212.º/4) deve revogar ou substituir sempre que
assim entenda (212.º/3), não havendo verdadeiro caso julgado formal que impeça esta
reavaliação.
As medidas extinguem-se automaticamente nos casos do art. 214.º Do despacho que
aplique/substitua/mantenha a medida há sempre recurso, com prazo de 30 dias, art. 219.º Em
casos excecionais, qualquer pessoa pode requerer o habeas corpus contra detenção, art. 220.º, ou
prisão, 222.º, ilegais. Trata-se de uma providência urgente de restituição à liberdade para casos
de ilegalidade manifesta (não para avaliação da necessidade, proporcionalidade ou adequação)
por violação frontal de critérios legais objetivos (tipos de crime, prazos, locais de detenção,

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

alvos da detenção, entidade competente). Foram concedidos alguns a propósito dos


confinamentos do COVID19.
Não há qualquer relação prejudicial, de litispendência ou caso julgado, entre o recurso e o
habeas corpus, art. 219.º/2.

11/04/2022
MEDIDAS CAUTELARES E DE POLÍCIA

Garantem que o crime chegue a ser praticado e também garantir a aquisição da prova
Atos de polícia → atos que não carecem de uma delegação de poderes, atos de natureza própria
dos OPC, visam finalisticamente adquirir prova para um processo-crime.
Podem ser extra processuais, estes atos não dependem da existência de um processo, 55º/2 CPC.
As medidas cautelares e de polícia obedecem ao princípio base da legalidade, expressamente as
previstas na lei, há uma taxatividade das medidas de polícia. Já as medidas cautelares parecem
ter já alguma abertura, 248ºss. Há medidas cautelares fora do CPC, nomeadamente no que toca
prevenção criminal

Competência própria dos OCP → Não depende de delegação do MP ou autoridade, 55º/2,


 Comunicar a notícia do crime
 Proceder a identificação
 Pedido de informações
 Detenção em flagrante delito
 Revistas (relativamente a pessoas), 174º geral, previa rodem da autoridade judiciária
competente, depende da fase do processo, se for fase de inquérito é o MP.
 Buscas (relativamente a um objeto), 174º geral
175º/5 atribui poder próprio aos OPC para proceder a revistas e buscas em casos não previstos
na lei, casos em que esteja em causa a ofensa ou integridade física, quando haja consentimento
que seja expresso e ainda aquando da detenção da flagrante delito sempre que a pena do crime
em causa seja punido com pena de prisão. Ter em atenção ao princípio da proporcionalidade do
artg 18º CRP. 251º/1/a), as buscas domiciliarias tem um regime próprio, 277º, dado que estas
afeta-se não apenas a privacidades e também a proteção do domicílio que é constitucionalmente
mais reforçada, como tal a exigência para uma busca domiciliada em mais restrita. O
consentimento para a busca domiciliar é dado por quem? (ex, apartamento de estudantes em que
apenas um dá um consentimento, e a polícia revista o quarto de um outro e encontra droga, é
esta busca valida? Não, a busca não foi consentida pelo visado). O domicilio é um contexto

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

funcional, não é necessário que seja habitação própria, apenas tem de ter carater de permanência
e constante, se sitio de afetação da vida intima
Ter também atenção ao principio da proporcionalidade, ex, flagrante delito de condução de
efeito de álcool, é permitida busca domiciliara viola o principio da proporcionalidade, dado que
é irrelevante de ondem vêm as garrafas, não é relevante para o crime em questão.
Para realizar uma busca domiciliaria não é preciso que haja acusação, apenas basta que haja
suspeita da prática de crime

249º apreensões → aquisição de um elemento probatório relevante (ex: arma do crime


encontrada no local), com vista a recolha de prova, descobrir alguns dados e comparações…

Suspensão da correspondência, 252º/3 → não se abre a correspondência, apenas suspender a


mesma, quem a abre é o juiz se houver necessidade disso

Competência das autoridades da polícia criminal


Há uma reserva própria, dado que há uma lesão mais grave dos direitos fundamentais, como a
detenção de flagrante delito, há uma justa causa para a detenção. Há o perigo da demora, se
tiver que se proceder ao pedido de mandato de detenção, o que acaba por tornar inviável a
execução

MEDIDAS CAUTELARES DE POLÍCIA

Identificação do suspeito, 250º


Sujeito que careça de especial perigosidade,
Deve ser explicado ao identificando o motivo da identificação
Apenas é exigível numa das circunstâncias do 250º/1
A luz do CPP apenas existe dever de ser identificado nas circunstâncias previstas, o termos
dessa identificação está previsto nos termos seguintes, ou seja, a pessoa não é obrigada a
encontrar-se com o documento de identificação. 250º/6. Tem 6 horas máximas, se não se
conseguir identificar a pessoa durante este tempo, tem que ser solta

Pedido de informações
Questão do direito ao silencio, e ainda o privilégio da auto incriminação. Conversas informais
para utilização dos meios de prova

69
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Detenção em flagrante delito


256º, atos de execução em curso, os atos de execução são observados. Há autores que entendem
que apenas em flagrante delito stricto sensu pode haver detenção
Quase flagrante delito, já não há observação dos atos, mas são observados outros atos que
indicam para a prática de crime
Presunção de flagrante delito, (perseguição)
1. Crime punível com pena de prisão

ENCERRAMENTO DO INQUÉRITO E DAS ACUSAÇÕES

INQUÉRITO E INSTRUÇÃO – PARTE I

INQUÉRITO
No fim do inquérito, o M.P., deve proferir despacho de encerramento do inquérito, e optar por
um das seguintes opções (consoante a natureza do crime, a suficiência dos indícios, a
complexidade da causa, o grau de ilicitude e culpa do arguido):

¶ Caso não haja indícios suficientes, deverá arquivar nos termos do artigo 277.º;
¶ Caso haja indícios suficientes de crime para o qual esteja prevista a dispensa de pena, e
se o grau de ilicitude e culpa, e as necessidades de prevenção o permitirem, deverá
arquivar nos termos do artigo 280.º;
¶ Caso haja indícios suficientes de crime punível com pena até 5 anos, e se o grau da
ilicitude e da culpa e as necessidades de prevenção o permitirem, deverá arquivar nos
termos do artigo 280º
¶ caso haja indícios suficientes de crime punível com pena até 5 anos, e se o grau de
ilicitude e culpa e o grau de ilicitude a culpa a e as necessidades de prevenção o
permitirem, deve promover a suspensão provisória do processo nos termos do artigo
281.º;
¶ Caso haja indícios suficientes de crime particular, deverá notificar o assistente para
deduzir acusação particular, 285º
¶ Caso haja indícios suficientes de crime que deva ser julgado em processo especial
(sumário, abreviado ou sumaríssimo) deverá remeter os autos para julgamento, ou
assumindo o auto de notícia, ou deduzindo acusação, ou apresentando requerimento
para aplicação de pena não privativa, arts. 381.º, 391.º-A e 392.º;
70
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ Caso haja indícios suficientes, nos restantes casos, deverá deduzir acusação nos termos
do artigo 283º

Arquivamento
O MP procede, por despacho, ao arquivamento do inquérito, logo que tiver recolhido prova
bastante de se não ter verificado o crime, de o arguido não o ter praticado a qualquer título ou de
ser legalmente inadmissível procedimento, 277º/1
O inquérito é igualmente arquivado se não tiver sido possível ao MP obter indícios suficientes
da verificação de crime ou de quem forma os agentes, 277º/2
Artigos 280º e 281º
¶ Trata-se de um poder-dever do MP, sujeito à concordância do JIC
¶ Não corresponde a verdadeiro juízo, dado que o MP encontra-se vinculado ao critérios
de legalidade (baixo grau de ilicitude, baixo grau de culpa e diminutas necessidades de
prevenção
¶ É controlável pelo JIC, embora este apenas possa fazer um juízo de legalidade
¶ Não é sindical em recurso, mas pode ser pedido no RAI, o MP tem sempre de controlar
¶ Mantem intocada a presunção de inocência
¶ Não é transcrito para o registo criminal

Notificação para acusação particular


285º, leitura conforme a CRP, direito a não ser submetido a julgamento e presunção de
inocência. O MP apenas notifica o assistente quando tenha concluído pela recolha de indícios
suficientes da prática de crime particular. Na ausência de incidido, deve arquivar, nos termos do
277º, seja qua for a natureza do crime

Processos especiais, acusação em sentido material


O MP pode substituir a acusação pelo auto de notícia, no processo sumario, passa-se
imediatamente para a fase de julgamento, sem possibilidade de instrução, 389º
A acusação pode remeter para o auto de notícia ou denuncia, no processo abreviado, também
não há instrução, 391º-B
A acusação é substituída pelo requerimento de aplicação de pena não privativa de liberdade,
394º

Acusação
¶ O MP procede, por despacho, ao encerramento do inquérito, deduzindo acusação nos
termos do 283º
71
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ A acusação delimita o objeto do processo e determina a competência do tribunal


¶ Em casos especiais, o MP pode acusar a remeter o processo para julgamento em
tribunal singular, quando entenda que ao agente não deve ser aplicada pena superior a 5
anos, 16º/3
A acusação simboliza a formalidade da pretensão punitiva do estado, a pretensão punitiva é
sempre do estado, mas pro vezes é deduzia pelo MP ou pelo assistente, e o primeiro momento
obrigatoriamente publico do processo penal (a acusação é sempre pública)
Existe um conceito formal de acusação, atos processuais previstos nos artigos 283º-285º, e a
acusação em sentido material, que abrange o requerimento de abertura de instrução do
assistente, o auto de notícia, processos sumario e abreviado e o requerimento para aplicação de
pena não privativa da liberdade (processo sumaríssimo. Todos estes atos processuais têm de
conter os requisitos mínimos de uma acusação material, sob pena de nulidade:
a) Identificação do arguido
b) Narração sumaria dos factos
c) Indicação das disposições legais aplicáveis
d) Prova
e) Data de assinatura
Caso haja pretensão de que ao arguido devam ser aplicadas penas acessórias, estas deverão ser
integradas na acusação material
A acusação delimita o objeto do processo e é irretratável, uma vez deduzida, a decisão final no
respetivo processo tem efeitos de ne bis in idem, não podendo o mesmo objeto ser conhecido
em qualquer outro processo
Acusações → 283º, 284º e 285º
¶ Acusação publica, 283º, o MP acusa quando houver indícios suficientes de se ter
verificado crime de quem foi o seu agente (crimes públicos e semi públicos. Há uma
possibilidade razoável de ao arguido vir a ser aplicada por força deles, em julgamento,
uma pena ou uma medida de segurança
¶ Acusação particular, 285º, o assistente acusa quando o MP o notificar, findo o
inquérito, caso haja indícios suficientes (crimes particulares). Há meras diferenças
inerentes â fase processual
¶ Acusação subordinada, 284º e 285º/1, o MP e o assistente podem acusar de modo
secundário face à acusação particular ou publica respetivamente. Possibilidade razoável
de ao arguido vir a ser aplicada, por força deles, em julgamento, uma pena ou uma
medida de segurança

Indícios suficientes, 283º/2 ↔ fortes indícios, 202º/1

72
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Arquivamentos – meios de reação


¶ O arquivamento, 277º, apenas pode ser sindicato através do requerimento de abertura de
instrução, RAI, e apenas pelo assistente, nos crimes públicos e semi públicos
¶ Os arquivamentos do 280º e 281º não são sindicáveis, nem deles pode ser interposto
recurso, mas podem ser aplicados nos processos sumário e abreviado, bem como na
instrução
¶ Uma vez que admitido que o MP arquive o processo, pro falta de indícios, nos crimes
particulares, INES refere, contrariamente à restante doutrina e jurisprudência, que o
assistente apresente RAI nestes casos, quando discorde do MP
¶ RAI do assistente: quando haja arquivamento total ou parcial por parte do MP, sempre
que o assistente pretender que o arguido seja julgado por mais crimes ou por crimes
mais graves dos que os que constam na acusação, corresponde a uma acusação em
sentido material, é este RAI que vai delimitar o objeto do processo, tendo de cumprir os
requisitos previstos nos artigos 283º/3, sob pena de inadmissibilidade da instrução, por
falta do objeto
¶ Outro meio de reação ao arquivamento, disponível para o arguido e para o
ofendido/assistente, é a intervenção hierárquica, prevista no 278º

Intervenção hierárquica v. RAI

¶ Em caso de arquivamento, o CPP não reconhece ao arguido qualquer meio de reação,


por assumir que o arquivamento é o desfecho desejado (o arquivamento deixa intocada
a presunção de inocência, mas pode ser reaberto quando surjam novos meios de prova,
art. 279.º, pelo que poderia haver interesse do arguido a uma decisão definitiva).
¶ Em caso de arquivamento, o ofendido/assistente tem dois modos de reação: intervenção
hierárquica (art. 278.º), ou o requerimento de abertura da instrução (RAI, 287º/1/b)
¶ Caso o arquivamento seja motivado pela total ausência de indícios (sempre que for
desconhecida a identidade do agente, p.e.), o único meio possível é a intervenção
hierárquica (embora possa haver inquérito contra desconhecidos, a instrução obriga à
existência de um arguido), pois o assistente não terá prova suficiente para o RAI, pelo
que estará apenas a provocar a prolação de um despacho de não pronúncia (que tem
efeitos de ne bis in idem, ao contrário do arquivamento simples).
¶ Caso o arquivamento seja motivado pela falta de indícios suficientes, mas o assistente
discorde e tenha prova suficiente, pode requerer a abertura de instrução.

73
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ Caso o assistente queira acusar por mais crimes ou crimes mais graves (face a acusação
do MP), tem que requerer a abertura da instrução.

Mega processos
Resultam de uma má interpretação do princípio da legalidade (art. 262.º/2) e das regras da
conexão de processos (artgs. 24.º e ss.). Porém, para garantir a melhor interpretação, a Lei
94/2021 acrescentou um n.º 3 ao art. 24.º: «A conexão não opera quando seja previsível que
origine o incumprimento dos prazos de duração máxima da instrução ou o retardamento
excessivo desta fase processual ou da audiência de julgamento.» Assim, o MP tem agora de
fazer um juízo de adequação processual e
conveniência para o direito de
julgamento célere, evitando os mega
processos.

INSTRUÇÃO

Artigo 32.º (Garantias de processo criminal) Toda a instrução é da competência de um juiz, o


qual pode, nos termos da lei, delegar noutras entidades a prática dos atos instrutórios que se não
prendam diretamente com os direitos fundamentais.

Finalidade da instrução (simbólica):


¶ garantir a constitucionalidade do inquérito e do modelo do CPP de 1987. No CPP1929,
havia a instrução preparatória (MP, total segredo e modelo inquisitório) e a instrução
contraditória (perante o juiz, com acesso aos autos e possibilidade de contraditar a
prova ou juntar prova da defesa). Em 1976, face aos excessos da polícia, especialmente
na perseguição dos crimes políticos, entendeu-se que teria de haver alguma forma de
intervenção do juiz na fase de investigação. Porém, não só não era viável uma
investigação controlada por juízes (não havia meios), como não era o mais adequado na
transição para um modelo de processo penal acusatório (separação entre a entidade que
investiga e acusa, e quem julga). Assim, o equilíbrio foi encontrado com dois pontos
chave – a intervenção do JIC para os atos jurisdicionais do inquérito (proteção dos
direitos, liberdades e garantias, art. 268.º CPP); - e a possibilidade de controlar a
decisão do MP (de acusar ou arquivar) perante o tribunal e um juiz (instrução
facultativa, art. 286.º CPP).

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Finalidade (legal) da instrução:


¶ art. 286.º (comprovação judicial da decisão de deduzir acusação ou de arquivar o
inquérito)

“Comprovação judicial da decisão de deduzir acusação ou de arquivar o inquérito»,


interpretação estrita - apenas pode ser requerida a instrução quando se consiga evitar ou
provocar o julgamento. Ou seja, o arguido apenas pode requerer a instrução quando tenha a
pretensão de obter um despacho de .não pronúncia, e o assistente apenas pode requerer a
instrução quando pretenda obter um despacho de pronúncia, ou, quando tenha havido
acusação do MP, um despacho de pronúncia por factos substancialmente distintos, ou por
outros crimes (que foram arquivados, ainda que implicitamente” TRG 20/02/2017

Porém, no que respeita ao arguido, a jurisprudência e o legislador têm sustentado visões mais
latas. Assim, o arguido pode requerer a abertura de instrução para evitar o julgamento, mas pela
aplicação do art. 281.º (a jurisprudência já reconhecia, mas havia divergências), agora
expressamente prevista no n.º 2 do art. 307.º.

O arguido também pode requerer a instrução para atenuar os factos e crimes pelos quais está
acusado (menos crimes, crimes mais graves), ou mesmo até para questionar a qualificação
jurídica dos factos).

O assistente também pode requerer a instrução apenas para discutir questões de direito, quando
estas sejam determinantes: p.e., negligência ou dolo eventual (pode não haver punição pelo
crime negligente, e em qualquer caso implica uma mudança da gravidade do crime e da
competência do tribunal, permitindo ao arguido preparar melhor a defesa - interpretação
corretiva do 284.º/1);
prazos da prescrição, natureza do crime (público ou semipúblico, ou mesmo particular, na
medida em que, se o assistente acusar e, mais tarde, o tribunal concluir que a natureza é outra, o
processo será arquivado com efeito de ne bis in idem).

INSTRUÇÃO DO ASSISTENTE
¶ O requerimento de abertura de instrução do assistente (RAI) é sempre uma acusação em
sentido material, art. 287.º, n.º 2, última parte («sendo ainda aplicável ao requerimento do
assistente o disposto nas alíneas b) e d) do n.º 3 do artigo 283.º»).

75
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ Caso o assistente não cumpra estes requisitos (como se estivesse a fazer uma acusação),
uma vez que é o RAI do assistente que vai fixar o objeto do processo, não pode ser
realizada a instrução, pois não pode haver processo penal sem objeto.
¶ Quando há arquivamento, é o RAI do assistente que substitui a acusação (não é o despacho
de pronúncia do JIC, pois o JIC não acusa!), pelo que tem de cumprir todos os requisitos
da acusação do MP, e delimitar claramente o objeto do processo.
¶ Mesmo quando há acusação, o RAI do assistente pode fazer alteração substancial de factos
(dentro do mesmo objeto, mas ampliando a acusação), ou acrescentar novos crimes à
acusação (ampliação da acusação e do objeto do processo), pelo que se aplicam as mesmas
exigências.
¶ Se o RAI não cumprir estes requisitos, é rejeitado, por aplicação do n.º 3 do art. 287.º
(inadmissibilidade legal da instrução, por falta de objeto). Alguma jurisprudência entendia,
porém, que o assistente poderia/deveria ser convidado ao aperfeiçoamento. No entanto, o
TC entendeu que a ausência de convite era conforme à CRP, 175/2013.
¶ Existem também dúvidas interpretativas no que respeita à possibilidade de RAI do
assistente quando o inquérito qualificou o crime como particular, face ao teor literal da b)
do n.º 1do art. 287.º «Pelo assistente, se o procedimento não depender de acusação
particular, relativamente a factos pelos quais o Ministério Público não tiver deduzido
acusação». De facto, quando o inquérito qualificou corretamente os factos como crime
particular e reuniu indícios suficientes, o assistente deve limitar-se a deduzir acusação nos
termos do art. 285.º, n.º 1. Porém, existem casos fronteira de difícil resolução:
 P.e., o MP entende que não há indícios suficientes, pelo que deve arquivar
(interpretação conforme dos artgs. 277.º e 285.º) - o que deveria suceder era um
RAI do assistente, mas toda a doutrina e jurisprudência discordam, pelo que, nestes
casos (que são raros, mas acontecem), o assistente deverá deduzir acusação (285.º),
e o arguido poderá fazer o RAI, se quiser.
 P.e., o MP entende que o crime é particular, mas o assistente discorda, entende que
o crime é público ou semipúblico. O que fazer? Se o assistente acusar, a acusação é
nula, art. 119.º, n.º 1, b).
↓↓
Nestes casos, deveria haver RAI do assistente (acórdão do TRC, 08-02-2017,
203/13.8TAMBR-.CI1) e despacho de pronúncia (pelo crime que o JIC entendesse
estar preenchido), pois, desta forma, qualquer que fosse a decisão em julgamento, a
nulidade ficaria sempre sanada (o despacho de pronúncia é sempre válido); mas
face à forma como a doutrina e a jurisprudência interpretam estas normas, o que
sucede é que o assistente é obrigado a acusar e corre o risco de chegar a

76
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

julgamento, ver a sua acusação anulada, e o processo arquivado (por vezes, já


prescreveu e não há nada a fazer, ou há efeito de NBI, ou o arguido tem de se
sujeitar a novo inquérito/instrução e julgamento).

ESTABILIDADE DO OBJETO NA INSTRUÇÃO

Na fase de instrução, não existe uma imposição tão rígida de estabilidade do objeto, na medida
em que o RAI do assistente pode ampliar a acusação do MP ou o próprio objeto do processo.
Porém, uma vez aberta a instrução, o objeto dica definitivamente fixado, ou pela acusação do
MP, ou pelo RAI do assistente. ,
O n.º 3 do art. 303.º proíbe quaisquer alterações substanciais de factos a partir destes momentos
«Uma alteração substancial dos factos descritos na acusação ou no requerimento para
abertura da instrução não pode ser tomada em conta pelo tribunal para o efeito de pronúncia
no processo em curso, nem implica a extinção da instância.»

303º/1 a 5 → permite que sejam feitas alterações da qualificação jurídica ou de factos (não
substanciais), desde que seja concedido prazo à defesa.
↓↓
Se forem descobertos novos crimes, o MP pode abrir inquérito, mas é preciso fazer
interpretação conforme do n.º 4 do art. 303.º, só se incluem aqui o novos crimes (que
podem ser autonomamente julgados noutro processo, situações de concurso real com
autonomia dos ilícitos típicos), e não meras situações de alteração substancial dos factos,
p.e., numa acusação por homicídio negligente, descobrem-se factos que indiciam ter
havido dolo, ou num furto descobre-se que houve violência na subtração, pelo que seria
roubo - nestas situações, não há nada a fazer).

77
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

02/05/2022
Matéria da instrução
Estabilidade do objeto de instrução
Papel do MP no inquérito, 285ºCPP. O MP pode arquivar os crimes particulares segundo IFL,
em certos crimes o MP pode delegar que depois do inquérito de sustentar uma acusação. Estes
sistema não implica que o MP seja obrigado a notificar quando não haja procedimento
A doutrina entende que o MP num crime particular, findo inquérito, tem que cumprir o 285º,
notificar o assistente que num crime particular tem que ser constituído. O assiste se quiser acusa
ou não acusa. Se o assistente acusar, o MP tem que tomar posição expressão, ou adere a
acusação se concordar ou então diz expressamente que não adere a acusação. Há situações que o
MP entende que continuar o processo penal é abusivo de recursos, dado que estão em causa

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

pretensões sem o mínimo teor penal, o MP arquiva, a jurisprudência concorda com esta posição,
277º. O que faz o assistente mediante este arquivamento, IFL refere que quando o assistente
discorda do MP quanto ao arquivamento, deveria poder requerer abertura de instrução, como
isto não é feito, deduzem acusação na mesma, se entenderem que podem fazer intervenção
hierárquica ou podem ainda aguardar por melhor prova, e pedir reabertura do inquérito pelo
279º. Muitas vezes o MP faz uma investigação mínima dos crimes particulares, e como tal
muitas vezes estas acusação não têm grande sustentação
Quando o assistente pode requerer abertura de instrução, o objeto do processo penal é fixado no
momento principal ou no momento de abertura de instrução, e podem acontecer na sequência de
uma arquivamento, de uma acusação publica em que o assistente reage através de abertura de
instrução. 303ºCPP, os limites do 303º são avaliados mediante requerimento de abertura de
instrução ou de arquivamento. O nº3 refere que uma alteração dos factos pode ???? ver ppt
Se for por factos

Despacho de pronuncia
RAI pedido apenas pelo arguido: a decisão de pronuncia pode denunciar pelos mesmos factos
do MP, em que o despacho de pronuncia é valido e irrecorrível, 309º e 310ºCPP. Despenho de
pronuncia é irrecorrível quando recorra pelos mesmos factos da acusação principal bom base na
ideia da dupla conforme. Quando é feito em função de uma acusação particular, aqui já é
recorrível
Quando a decisão instrutória pronuncia pelos factos da acusada publica mas faz alterações não
substanciais de facto, aqui IFL refere que o despacho é recorrível, dado que não confirma os
factos que constam no MP, 310. Há muita jurisprudência que coloca as ateraçoes não
substanciais de facto também na questão da irrecorribilidade
Se forem feitas alterações substanciais de facto, então o despacho de pronuncia é nulo, 309º
Quando há RAI do assistente, se o despacho de pronuncia apenas limita os factos da acusa ao
publica, continua a ser valido e recorrível.
O despacho de não pronuncia é sempre recorrível em qualquer situação

Nulidades, 118ºss
Três tipos de invalidades
1. Nulidade insanável / absoluta, 119ºCPP
2. Nulidade sanável ou dependente de arguição ou relativa, 120ºCPP
3. Irregularidade, 123ºCPP

79
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

O 118º refere alguns princípios gerais: só há nulidade quando for expressamente previsto pela
lei. Os atos processuais se expressamente no CPP, tem que dizer expressamente que há
nulidade, caso contrário há mera irregularidade e aplica-se o 123º
Apenas é insanável se estiver expressamente previsto, princípio da taxatividade da nulidade. Se
a insanabilidade não estiver prevista então estamos perante nulidade sanável ou dependente de
arguição, 120ºCPP.
Para alem destas nulidades e irregularidades há uma outras figura, inexistência jurídica, não
está previsto no CPP, tem um regime próprio, implica que aquele ati processual nunca produziu
qualquer efeito, se chegou a produzir efeitos estes devem ser revertidos e não se sana com o
transito em julgado. Pode ser invocado a qualquer tempo.
Quanto as invalidades, todas elas sanáveis, dado que o transito em julgado tem um efeito de
sanação de todas as invalidades
118º/3 → estas regras não prejudicam as normas do código quanto as proibições de prova, estas
não têm princípio da tipicidade

As nulidades insanáveis estão previstas no 119º


São de conhecimento oficioso, podem ser conhecidas em todo o tempo até ao transito em
julgado
Se na instrução não houver debate instrutório é nulo, se este existir e o MP é nulo, pode o
arguido não estar mas tem que estar o seu defensor

06/05/2022
Nulidades
A nulidade insanável tem que estar expressamente prevista, tudo o que não esteja
expressamente previsto é apenas uma irregularidade
Quando +e feita queixa de crimes particulares, tem que se fazer investigação dos factos da
queixa e quando é notificado acabam por acrescentar crimes, 185º, isto acaba por ser
considerado uma irregularidade, 118º/b). este artigo refere ainda a ausência de audição do
arguido na fase de inquérito, tem que ser ouvido pelo menos uma vez se quiser, não tem que ser
ouvido sobre todos os factos.
Muitas vezes as acusações estão mal feitas muitas vezes porque não se ouve o arguido

Nulidades dependentes de arguição, 120º


Algumas nulidades relacionadas a falta de interprete não cabem neste artigo, mas sim no 119º

80
DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

A insuficiência do inquérito ou instrução são aquelas situações em que não foram praticados
atos obrigatórios.
Al a) As nulidades, assim como as irregularidades têm que ser invocadas naquele mesmo
momento,
Se for uma nulidade da al b), há um prazo maior

Regime da sanação, 121º


É para todo o tipo de nulidades, em bom rigor todas são sanáveis, nem que seja no transito em
julgado
Este regime acaba por se aplicar apenas as nulidades depende de arguição, no entanto por vezes
acontece em nulidades do 119º.
As al b e c tem que ser conjugadas com o nº3

Efeitos de declaração de nulidade, artg 122º


Aplicam-se a todos os tipos de nulidade. Há doutrina que aplica do 122º a proibição de prova,
incorretamente dado que o 118º refere que são regimes autónomos
A invalidade provoca a nulidade ou invalidade do ato afetado pelo vicio e ainda outros atos
dependentes destes. Ao anular-se o ato, tem que se apurar se os atos posteriores são ou não
aproveitados
O nº3 consagra o critério da aproveitamento, também tendo em conta a económica processual e
celeridade de um processo dentro de um prazo razoável

Irregularidades, 123º
Tudo o que não esta previsto nos artigos anteriores, por vezes inclui situações graves, como
falta de fundamentação da sentença.
Há jurisprudência, embora excecional que refere que sempre que estão em causa complentes do
dto a defesa, dtos constitucionais, se a consequência for irregularidade, deve ser de
conhecimento oficioso. A maioria da jurisprudência não segue esta via

Fase saneadora, artigo 311º


Garante o princípio do juiz virgem
O juiz no julgamento deve fazer “limpeza” antes de começar o julgamento, IFL entende que não
deve ser o juiz de instrução, dado que viola o princípio do juiz virgem
O regime da nulidade da acusação não é do 118ºss, dado que não refere expressamente que é
insanável, caindo o regime do 121º

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

09/05/2022
PROIBIÇÕES DE PROVA

IFL faz a divisão entre:


 Meios de obtenção
 Meios de produção
 Formas de valoração da prova
IFDL não autonomiza métodos da prova dado que no artg 126º do CPP, enta expressão
“métodos” é usada no sentido de abranger tudo. No mesmo sentido afirma a professora Helena
Mourão

POLISSEMIA DO CONCEITO DE PROVA


Conceito de prova: vários sentidos para o conceito de prova (conceito polissémico).
¶ Prova enquanto meio de prova (elementos da realidade objetiva que permitem inferir os
factos penalmente relevantes, p.e., documentos, declarações testemunhais, e objetos
materiais, art.
¶ 174.º/1).
¶ Prova enquanto meio de obtenção da prova (formas de obter os meios de prova, p.e.,
revistas, buscas, escutas, exames, perícias, etc.).
¶ Prova enquanto atividade probatória (esforço metódico de produção da prova para a
demonstração dos factos)
¶ Prova enquanto resultado da produção/valoração da prova (formação da convicção e
motivação da convicção do julgador sobre a verificação dos factos penalmente relevantes)

MEIOS DE OBTENÇÃO E MEIOS DE PRODUÇÃO DE PROVA PROIBIDOS

13/05/2022
Artigo 40º
¶ Estabelece os impedimentos dos juízes na participação das várias fazer processuais
¶ Para alem de uma garantia de imparcialidade, relacionado com a ideia do juiz virgem
¶ Foi especificada a questão da intervenção do julgamento, antes regulava apenas a fase de
instrução

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ Não há um juízo de instrução no inquérito, dado que o titular do inquérito é o MP, o


processo vai à distribuição do tribunal de instrução e é distribuído para ato de inquérito.
¶ Quando se chega a fase da acusação vários juízes de instrução já teriam participado. Em
comarcas como lisboa, onde há vários juízes de instrução, não é algo que seja
problemático, mas em comarcas mais pequenos é algo problemático dado que há menos
juízes
¶ O alargamento que foi feito em 2021, com o qual IFL concorda, mas gerou preocupação
dos magistrados, dado que teriam que vir juízes de outras comarcas, provocando um atraso
no processos. Já foram tomadas medidas de gestão, mas foi apresentada pelo ministério da
justiça uma proposta de alteração, regressando-se a versão do artg 40º de 2013

LEGALIDADE
Art. 125.º, «São admissíveis as provas que não forem proibidas por lei» No CPP português, a
obtenção e admissão da prova segue o princípio da legalidade, mas não da taxatividade ou
tipicidade, o que quer dizer que, em princípio, todos os meios de obtenção e produção da prova
são admissíveis, salvo se houver proibição expressa na lei, ou a proibição decorra da CRP.
Embora o art. 125.º não exija a taxatividade dos meios de obtenção e produção da prova, não
existe inteira liberdade, na medida em que o CPP, nos artgs. 128.º e ss., elenca os meios
produção da prova: testemunhal e declarações dos sujeitos processuais (que podem incluir a
acareação, o reconhecimento, ou a reconstituição do facto), pericial e documental.

Todas estas formas de produção da prova (provas típicas) têm um determinado regime, que não
pode ser violado, sob pena de nulidade da prova. E os artgs. 171.º e ss. contêm o elenco dos
meios típicos de obtenção da prova (exames, perícias, revistas e buscas, apreensões, escutas),
cuja violação implica nulidade da prova. Não sendo impossível admitir meios atípicos de
obtenção e produção da prova, não sobram muitos (p.e., diários íntimos, vídeos e fotografias de
satélite). Mais, existem ainda meios de obtenção e produção da prova que são diretamente
proibidos pela constituição (proibição da tortura, art. 25.º/2, privacidade, artgs.
26.º/2 e 34.º, e, para todos estes casos, o art. 32.º/8, liberdade de consciência, religião, art.
41.º/3, e liberdade de associação, art. 46.º/). Assim, a liberdade é mais teórica e residual

MEIOS DE OBTENÇÃO E PRODUÇÃO

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Só existe um tema absolutamente excluído (proibido) da prova, que é o segredo de Estado (arts.
137.º e 182.º). Os restantes segredos são proibições relativas, que podem ser levantadas, pelo
consentimento (religioso) ou por decisão — judicial, art. 135.º. O art. 126.º fala em métodos
proibidos, recorrendo a uma expressão ampla que inclui os meios de obtenção, produção e
valoração da prova).

O legislador entendeu e fez esse juízo de concordância prática prévio que nem mesmo para a
descoberta a verdade material e justiça penal era aceitável violar o segredo de estado. Todos os
outros meios de prova admitem juízos de ponderação

Meios de obtenção da prova


Todos os procedimentos usados pelos OPC, ou outra entidade com poderes semelhantes
(ASAE, p.e.). todos os que sejam contrários aos direitos liberdades e garantias que viole o 32º/8,
que este expressamente previstos, devem dar origem a proibição de prova. Não há um catálogo
taxativo. Há meios de prova proibidos:
1. Interrogatório que dure mais de 4 horas
2. 126º/3 → meios relativamente proibidos (escutas, investigações encobertas). IFL não
concorda que a jurisprudência faça distinção entre o 126º/1 e 126º/6, dado que as
proibições de prova nunca são sanáveis, a única diferença entre estes dois preceitos é
que o 126º/3 permite o consentimento prévio, livre informado (não pode ser posterior
dado o risco de pressão para dar consentimento) e ainda permite que haja juízo de
concordância prática. Mas se se concluir que a prova é ilícita, as proibições de prova do
126º/3 não tem regime diferente as do 126º/1

MEIOS DE PRODUÇÃO PROIBIDOS


¶ São proibidos todos os meios de obtenção da prova (procedimentos usados pelos
OPC e autoridades judiciárias para recolher informação que possa depois ser produzida
na fase de julgamento: inquirições, exames, revistas e buscas, escutas telefónicas,
operações encobertas, etc.) que sejam contrários aos direitos, liberdades e garantias
fundamentais.
¶ Existem meios de obtenção da prova absolutamente proibidos (p.e., art. 103.º4/5) e
relativamente proibidos, estes admitem consentimento - art. 126.º, 3: «provas obtidas
mediante intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas
telecomunicações» - ou superação do dissentimento mediante decisão judicial que faça

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

juízo de concordância prática. A mera violação de formalidades acessórias que não se


destinem a tutelar direitos fundamentais, dá origem à nulidade, mas não à proibição da
prova.

A prova tem que ser produzida em julgamento, há situações em que o meio de produção e de
obtenção se confunde, se o arguido der prova em julgamento. Artigo 133º, IFL refere que o
“expressamente consentir” é inconstitucional,
Há ainda proibições de declaração, 345º/4, se o arguido prestar declarações, e quer incriminar
outros co arguidos mas recusa-se a responder a algumas questões, estas declarações não podem
ser usadas para incriminar outros responsáveis. Existem meios de prova que são intrinsecamente
proibidos, como os documentos falsos. Há uma questão que IFL não concorda, o CPP proíbe a
juncão de documentos apos a 1 fase de julgamento, nomeadamente quando estes vêm da defesa.
Quanto aos reconhecimento irregulares, deve ser feito na fase de inquérito,

O REGIME DAS PROIBIÇÕES DE PROVA


¶ O regime do art. 126.º (e n.º 8 do art. 32.º da CRP) é o mesmo quer se trate de proibições
de prova do art. 126.º/1 (absolutas) ou 3 (relativas), a única diferença é que as provas
obtidas nos do n.º 3 são admissíveis em casos excecionais previstos no CPP (decisão
judicial com juízo de concordância prática) e mediante consentimento do titular do direito
fundamental. O consentimento é irrelevante face ao n.º 1.
¶ A proibição de prova é de conhecimento oficioso, podendo ser invocada por qualquer
sujeito processual, mesmo quando o direito fundamental violado foi de terceiro (p.e.,
coarguido tem legitimidade para invocar proibição de valoração da prova obtida mediante
violação do direito ao silêncio de outro arguido): o arguido é sempre interessado com
legitimidade, pois as proibições de prova visam sempre, também, a tutela do fair trial, da
presunção de inocência.
¶ Uma prova proibida é nula, não podendo ser valorada nunca, não havendo qualquer
possibilidade de sanação da nulidade (nem com o trânsito em julgado, art. 449.º), havendo
ainda um efeito-à-distância que afeta as provas que tenham decorrido da prova proibida).
¶ A utilização de meios de obtenção ou produção de prova proibidos gera proibições de
valoração da prova ("não podem ser utilizadas”, é a essência do conceito de prova proibida,
não pode ser tomada em consideração pelo tribunal). Mas existem ainda proibições de
valoração da prova independentes (não resultam de meios proibidos), p.e., a valoração de
conhecimentos fortuitos nas escutas telefónicas, pode ser o caso dos diários íntimos (TC n.º
607/03).

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

¶ O regime do efeito-à-distância da prova proibida não decorre do art. 122.º, sendo antes um
regime de construção doutrinária e jurisprudencial (jurisprudência dos "frutos da árvore
envenenada" / 'fruit of the poisonous tree", ou da mácula (taint doctrine ou Makel-
Theorie).

REGIME DAS PROIBIÇÕES DE PROVA

É de conhecimento oficiosos e pode ser invocada por qq sujeito processual. Quando


a produção de prova é invocada pelo arguido mas a violação do dto fundamental
afeta outra pessoa, a jurisprudência refere que o arguido não tem interesse me
invocar essa proibição de prova. Ex, testemunha que foi torturada pela polícia para
prestar declarações e no julgamento e confrontada com essas declarações, e o
arguido invoca que estas declarações foram feitas sobre tortura. IFL não concorda
que se considera que o arguido não é parte legitima de invocar a proibição de prova,
dado que no fundo está sempre em causa a sua presunção da inocência

Existem proibições de obtenção da prova (tortura), de produção da prova (segredo religiosos), e


de valoração da prova (prova proibida, conhecimentos fortuitos, diários íntimos). Para além de
proibições de prova (inexistência ou proibição da valoração da prova), existe o regime das
nulidades da prova, decorrente da violação dos regimes de obtenção ou produção da prova que
não correspondam a verdadeiras proibições de prova, art. 118.º/3 (o legislador reconhece a
autonomia das proibições de prova ante o regime das nulidades).

PSM: o art. 126.º contém um regime de nulidade sui generis, uma nulidade absoluta, insanável
(que nem sequer se sana com o trânsito em julgado, art. 449.º/1/e). Só se aplicam os artgs. 119.º
e ss. às invalidades decorrentes da violação de formalidades da obtenção ou produção da prova.
↓↓
Neste ponto, está mais correta a tese de Paulo de Sousa Mendes, quando retira do disposto nos
arts.32.º/8 da CRP e artgs. 118.º/3, 126.º e 449.º/1/e) do CPP, a previsão de um regime especial
(sui generis) de nulidade para as provas proibidas. Quando haja a violação de pressupostos ou
requisitos fundamentais para a admissão do [Link] obtenção/produção da prova (ou seja,
exigências legais inerentes 'ao juízo de concordância prática que torna constitucionalmente
válida a restrição do direito fundamental do visado pela prova), o regime é o do art. 126.º
(proibição absoluta de valoração, salvo quando seja contra o autor da violação, 126.º/4) e não o
previsto nos artgs. 119.º ss. (nulidades).

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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

Regime de nulidade e proibição de prova


IFL tem divergência quanto a professora HM, quando estão em causa violação de dtos
fundamentais de dtos constitucionais no que diz respeito a prova, vai-se para os meios de
proibição de prova. Há doutrina que entende que todas as violações do nucleio de dtos
fundamentais relativos a prova dão aso a aplicação do regime das proibições de prova. HM
refere que o 32º/8 CRP quando estabelece o regime essencial da proibição de prova apenas fala
de alguns dtos fundamentais, apenas fala na integridade física a moral e devassa da vida
privada, referindo que estes direitos são sempre protegidos por meios de proibição de prova. Se
estiver em causa outros direitos fundamentais não há proibição de prova, há uma nulidade
sujeita ao regime geral das nulidades, 118ºss. Quando HM escreveu isto conjugava-se com as
normas do processo penal, o CPP foi bastante alterado, e há duas situações que IFL refere que
são claras proibições de prova que não cabem no elenco do 32º/8 nem mesmo com a
interpretação ampla que a professor HM faz, que são, o depoimento indireto, 129ºCPP (admite-
se depoimento indireto sobre certas regas, incumpridas estas regras sempre se achou que se
gerava uma nulidade, inclusive houve um AC do TC que entendeu que havia um fundo de
proibição de prova), o legislador refere que o depoimento indireto que não siga as regras dos
artigos anteriores, não fica sanável com o transito em jugado, cai no regime da proibição de
prova, e da direito a pedir revisão de sentença; um outro caso que IFL entende como proibição
de prova, 103º CPP, os grandes abusos policiais são feitos neste momento 11. Sujeitar uma pessoa
a um interrogatório durante muitas horas seguida para IFL é algo como tortura. 103º/5. Sempre
que se usa a expressão “não pode ser valorada” há proibição de prova

PROIBIÇÕES DE PROVA E EFEITO À DISTÂNCIA


Não está previsto diretamente em nenhuma norma. Há uma razão para este efeito a
distância, chamado efeito de prevenção geral negativa, dado que as proibições de prova
são dirigidas para os OPC, caso contrário não havia forma de fazer uma prevenção do
abuso, pois mesmo que torturassem e o arguido confessasse onde estava o cadáver, a
partir dai a polícia podia usar o cadáver como prova, fazendo com que no fundo
acabassem por usar meios de tortura para obtenção de prova
É uma parte intrínseca da proibição de prova. Todas as provas subsequentes são sempre
proibidas? Não, há possibilidades de atenuar estes efeito, se os OPC reconhecerem a

11
Noutros países os policias podem passar p.e. 48h seguidas a interrogar uma pessoa, e dificilmente cedem ao pedido do arguido de
ter um advogado
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DIREITO PROCESSUAL PENAL – AULAS TEÓRICAS

nulidade daqueles elementos e depois disto, por caminhos lícitos obter essas mesmas
informações.
O 32.º/8 da CRP estabelece um regime reforçado de tutela de direitos fundamentais, impedindo
a realização de juízos de concordância prática casuísticos (não enquadrados por lei formal):
«tortura, coação, ofensa da integridade física ou moral da pessoa, abusiva intromissão na vida
privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações» (forte conexão com a
dignidade da pessoa humana ou pilares do fair trial).

A professora Helena Morão tem razão quando parte desta norma para estabelecer o critério de
distinção entre as nulidades e as proibições de prova, pois só haverá proibição de prova quando
estejam em causa os direitos fundamentais elencados no n.º 8 (e art. 126.º CPP) ou estreitamente
conexos (direito à palavra e imagem, p.e.), pelo que as provas que impliquem violação de outros
direitos fundamentais geram meras nulidades. Porém, o CPP prevê ainda proibições de prova ad
hoc, que vão para lá do elenco do 32.º/8, como sucede com o depoimento indireto (viola apenas
o direito à presunção de inocência), face ao 129.º/3 CPP (ver TC 213/94).

O efeito-à-distância da prova proibida ("todas as provas", 32.º/8, 18.º/3 e princípio da máxima


efetividade na interpretação constitucional) tem uma função crucial de prevenção geral negativa
sobre os OPC e autoridades judiciárias, na medida em que garante que o uso de um meio
proibido (de obtenção ou produção) da prova não pode " ser uma forma de obter meios
secundários ou indiretos de prova válidos (a prova proibida não compensa).

Assim, se uma confissão é obtida mediante tortura, e assim se obtém a localização do cadáver
da vítima, cumpre saber se o exame ao cadáver ou a perícia subsequente podem ser valorados.

O efeito-à-distância das proibições de prova não pode ser ilimitado, devendo admitir-se critérios
de seleção. Há várias teses (apreciação casuística, esfera de proteção da norma), mas as mais
relevantes são as dos percursos hipotéticos de investigação/comportamento lícito alternativo
(Paulo de Sousa Mendes, Inevitable discovery exception)
US, e processo de investigação hipotético germânico) e do conhecimento independente e da
limpeza do processo (Helena Morão, jurisprudência US). A primeira diz que são admissíveis as
provas indiretas ou causais desde que, de acordo com um juízo de causalidade hipotética e teria,
com grande probabilidade, obtido a mesma prova licitamente.
Mas esta doutrina não tem o efeito de prevenção geral que se pretende, pode até servir de
estímulo à violação da CRP Whomo forma de poupar tempo e recursos.

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PROCESSOS DE CONHECIMENTO INDEPENDENTE


¶ Independent source exception (processo de conhecimento independente): a prova em causa
seria, e poderia ter sido obtida, seguindo um caminho processual lícito (clean path); é
possível traçar, porque se veio a desenrolar, um processo alternativo (independente e
efetivo) de obtenção daquela prova de forma lícita (p.e., o arguido confessou sob tortura a
localização do cadáver, mas, nesse mesmo dia, o cadáver ia ser descoberto por se realizar
uma feira no local e seria impossível não descobrir o corpo).
¶ Purged taint exception (ou attenuation) - limpeza do processo ou expurgação da mácula:
trata-se das situações em que já não existe uma relação de causalidade entre o método
proibido e a prova alcançada. Pode acontecer em duas situações:
a) Quando a mácula é expurgada do processo pelo arguido ou terceiros (p.e., confissão
sob tortura do arguido, é nula e desaparece do processo, mas, mais tarde, o arguido
vem a confessar validamente - é preciso que a 1.º confissão seja mesmo anulada, pelo
que discordo do TC 198/04 - confissão após escutas, mas antes de estas serem
declaradas nulas)
b) Quando a mácula é expurgada do processo pelas autoridades judiciárias ou OPC,
seguindo efetivamente o caminho lícito alternativo para alcançar validamente a prova
que estava afetada pela mácula (p.e., escutas nulas, assim declaradas, mas novas
escutas validas aprovadas que confirmam informação anterior)-

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