ANÁLISE COMPARATIVA DE DUAS TEORIAS EXPLICATIVAS DO
CONHECIMENTO
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS:
Clarificar os conceitos nucleares, as teses e os argumentos das teorias
racionalista (Descartes) e empirista (Hume) enquanto respostas aos
problemas da possibilidade e da origem o conhecimento.
Discutir criticamente estas posições e respetivos argumentos.
Mobilizar os conhecimentos adquiridos para analisar criticamente ou propor
soluções para problemas relativos ao conhecimento que possam surgir a
partir da realidade ou das áreas disciplinares em estudo, cruzando a
perspetiva gnosiológica com a fundamentação do conhecimento em outras
áreas do saber.
Exames1
1. Suponhamos então que a mente seja, como se diz, uma folha em branco,
sem quaisquer carateres, sem quaisquer ideias. Como é que a mente recebe
as ideias? […] De onde tira todos os materiais da razão e do conhecimento? A
isto respondo com uma só palavra: da EXPERIÊNCIA.
J. Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, Vol. I, Lisboa, Fundação Calouste
Gulbenkian, 2014, p. 106 (adaptado)
Concorda com a posição expressa no texto?
Na sua resposta,
‒ identifique e esclareça o problema filosófico a que o texto responde;
‒ apresente inequivocamente a sua posição;
‒ argumente a favor da sua posição.
2. Leia o texto seguinte.
Devo tomar todo o cuidado em não me enganar nos juízos. Ora, o erro principal
e mais frequente que se pode descobrir neles consiste em eu afirmar que as
ideias que estão em mim são semelhantes ou conformes a certas coisas que
estão fora de mim. […]
Assim, por exemplo, descubro em mim duas ideias diversas do Sol. Uma, como
que tirada dos sentidos, […] deixa que o Sol me apareça muito pequeno;
porém, a outra é tirada dos raciocínios da Astronomia […] e por ela o Sol
mostra-se um certo número de vezes maior do que a Terra. Ambas não podem,
1
2024 – 1ª fase, 10. 2024 – Época Especial, 15. 2023 – 1ª fase, 14.2. 2023 – 2ª fase, 15.1.
2022 – 2ª fase, 15. 2021 – 1ª fase, 16.2. 2020 – 1ª fase, 6. 2019 – 1ª fase, Grupo IV, 2. 2019 -
Época Especial, Grupo IV, 2. 2018 – 1ª fase, Grupo IV, 2. 2018 – Época Especial, Grupo III, 1.
2017 – 1ª fase, Grupo V. 2017 – Época Especial, Grupo III, 1. 2015 - 2ª fase, Grupo III, 1.1.,
1.2. 2015 - Época Especial, Grupo IV, 1. 2014, 1ª fase, Grupo IV, 1.2. 2013, 1ª fase, Grupo I, 8.
2013, Teste Intermédio, Grupo IV, 2. 2012, 1ª fase, Grupo IV, 2. 2012, 2ª fase, Grupo IV, 2.
2012, Época Especial, Grupo IV, 1.2. 2012, Teste Intermédio, Grupo III, 2.2.
1
COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
certamente, ser semelhantes ao […] Sol existente fora de mim, e a razão
persuade-me de que a ideia que parece emanar mais diretamente do próprio
Sol não tem qualquer semelhança com ele.
R. Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Livraria Almedina, 1985, pp.
140-144 (adaptado)
Explicite o modo como, no texto anterior, o empirismo é posto em causa.
3. Leia o texto.
Existe uma espécie de ceticismo, anterior a qualquer estudo ou filosofia, muito
recomendado por Descartes e outros como sendo a soberana salvaguarda
contra os erros e os juízos precipitados.
Este ceticismo recomenda uma dúvida universal, não apenas quanto aos
nossos princípios e opiniões anteriores, mas também quanto às nossas
próprias faculdades, de cuja veracidade, diz ele, nos devemos assegurar por
meio de uma cadeia argumentativa deduzida de algum princípio original que
seja totalmente impossível tornar-se enganador ou falacioso. Mas nem existe
qualquer princípio original como esse, […] nem, se existisse, poderíamos
avançar um passo além dele, a não ser pelo uso daquelas mesmas faculdades
das quais se supõe que já suspeitamos.
D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, IN-CM, 2002, pp. 161-162
3.1. Explicite a crítica de Hume, apresentada no texto, ao ceticismo
«recomendado por Descartes».
3.2. Distinga, no que respeita à fundamentação do conhecimento, a perspetiva
racionalista de Descartes da perspetiva empirista de Hume.
4. Leia o texto.
Os empiristas aceitam que algumas verdades podem ser conhecidas a priori,
mas essas verdades são consideradas […] não-instrutivas […]. Ao tomarmos
conhecimento de que os solteiros são homens não-casados, não aprendemos
nada de substancial acerca do mundo […].
D. O’Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento, Lisboa, Gradiva, 2013, p. 62
Compare as posições de Descartes e de Hume acerca da importância do
conhecimento a priori.
Na sua resposta, integre a informação do texto.
5. Leia o texto seguinte.
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
Quando lanço um pedaço de madeira seca numa lareira, o meu espírito é
imediatamente levado a conceber que ele vai aumentar as chamas, não que as
vai extinguir. Esta transição de pensamento da causa para o efeito não procede
da razão […]. E como parte inicialmente de um objeto presente aos sentidos,
ela torna a ideia ou conceção da chama mais forte e viva do que o faria
qualquer devaneio solto e flutuante da imaginação.
David Hume, «Investigação sobre o Entendimento Humano», in Tratados Filosóficos I, Lisboa,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002
Compare as posições de Hume e de Descartes relativamente à origem do
conhecimento humano.
Na sua resposta deve integrar, pela ordem que entender, os seguintes
conceitos:
− razão;
− sentidos;
− ideias.
6. Leia o texto seguinte.
Descartes defendeu que o pensamento era a essência da mente; não este ou
aquele pensamento, mas o pensamento em geral. Isto parece ser
absolutamente ininteligível, uma vez que tudo o que existe é particular e,
portanto, devem ser as nossas perceções particulares que compõem a mente.
Digo, compõem a mente, não pertencem à mente. A mente não é uma
substância, à qual as perceções sejam inerentes. Esta noção é tão ininteligível
como a noção cartesiana segundo a qual o pensamento, ou a perceção em
geral, é a essência da mente.
Não temos noção alguma de substância de qualquer espécie, uma vez que só
temos ideia do que deriva de alguma impressão e não temos impressão de
substância alguma, seja material ou espiritual. Não conhecemos nada a não
ser qualidades e perceções particulares.
David Hume, «A Letter from a Gentleman to his Friend...» in An Enquiry Concerning Human
Understanding, Indianapolis/Cambridge, Hackett Publishing Company, 1993, p. 135
Hume defende a tese de que «só temos ideia do que deriva de alguma
impressão» (linhas 7-8). Redija um texto argumentativo em que discuta a tese
acima enunciada, a partir das posições de Descartes e de Hume.
7. Leia o texto seguinte.
[…] Embora vejamos o Sol muito claramente, não devemos por isso julgar que
ele só tem a grandeza que vemos; e podemos à vontade imaginar
distintamente uma cabeça de leão unida ao corpo de uma cabra, sem que
tenhamos de concluir que no mundo existem quimeras: porque a razão não
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
garante que seja verdadeiro o que assim vemos ou imaginamos. Mas sugere-
se que todas as nossas ideias ou noções devem ter algum fundamento de
verdade; porque não seria possível que Deus, que é inteiramente perfeito e
completamente verdadeiro, as tivesse posto em nós sem isso.
René Descartes, Discurso do Método, Lisboa, Edições 70, 2000
Explique a origem das ideias que conduzem ao conhecimento, segundo a
filosofia de Descartes e segundo a filosofia de Hume.
8. Leia o texto seguinte.
[…] Quando analisamos os nossos pensamentos ou ideias, por mais
complexos ou sublimes que possam ser, sempre constatamos que eles se
decompõem em ideias simples copiadas de alguma sensação ou sentimento
precedente. Mesmo quanto àquelas ideias que, à primeira vista, parecem mais
distantes dessa origem, constata-se, após um exame mais apurado, que dela
são derivadas.
A ideia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e
bondoso, deriva da reflexão sobre as operações da nossa própria mente e de
aumentar sem limites aquelas qualidades de bondade e de sabedoria.
David Hume, «Investigação sobre o Entendimento Humano», in Tratados Filosóficos I, Lisboa,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002
Confronte as ideias expressas no texto de Hume com o racionalismo de
Descartes.
Na sua resposta, deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes
aspetos:
− inatismo;
− valor da ideia de Deus.
9. Confronte o inatismo cartesiano com a filosofia empirista de Hume.
Na sua resposta, deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes
aspetos:
− origem das ideias;
− limites do conhecimento.
10. Considere os seguintes enunciados relativos à comparação entre as teorias
do conhecimento de Descartes e de David Hume.
1. Para o primeiro, todas as ideias são inatas; para o segundo, nenhuma
ideia é inata.
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
2. Os dois autores defendem que há ideias que têm origem na experiência.
3. Para o primeiro, o conhecimento tem de ser indubitável; para o segundo,
pode não ser indubitável.
4. Os dois autores defendem que não há conhecimento sem experiência.
Deve afirmar-se que
(A) 1 e 4 são corretos; 2 e 3 são incorretos.
(B) 1, 2 e 3 são corretos; 4 é incorreto.
(C) 2 e 3 são corretos; 1 e 4 são incorretos.
(D) 1, 3 e 4 são corretos; 2 é incorreto.
11. Leia os textos seguintes, um de Hume e outro de Descartes.
A geometria ajuda-nos a aplicar leis do movimento, oferecendo-nos as
dimensões corretas de todas as partes e grandezas que podem participar em
qualquer espécie de máquina, mas apesar disso a descoberta das próprias leis
continua a dever-se simplesmente à experiência […]. Quando raciocinamos a
priori, considerando um objeto ou causa apenas tal como aparece à mente,
independentemente de qualquer observação, ele jamais poderá sugerir-nos a
ideia de qualquer objeto distinto, tal como o seu efeito, e muito menos mostrar-
nos a conexão inseparável e inviolável que existe entre eles.
D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, IN-CM, 2002, pp. 46-47 (texto
adaptado).
As coisas corpóreas podem não existir de um modo que corresponda
exatamente ao que delas percebo pelos sentidos, porque, em muitos casos, a
perceção dos sentidos é muito obscura e confusa; mas, pelo menos, existem
nelas todas as propriedades que entendo clara e distintamente, isto é, todas
aquelas que, vistas em termos gerais, estão compreendidas no objeto da
matemática pura.
R. Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Livraria Almedina, 1985, p. 210
(texto adaptado).
Haverá conhecimento a priori do mundo?
Confronte as respostas de Hume e de Descartes a esta questão. Na sua
resposta, integre adequadamente a informação dos textos.
12. Atente nos textos seguintes.
Tendo refletido sobre aquilo de que duvidava, e que, por consequência, o meu
ser não era inteiramente perfeito, pois via claramente que conhecer é uma
maior perfeição do que duvidar, lembrei-me de procurar de onde me teria vindo
o pensamento de alguma coisa de mais perfeito do que eu; e conheci, com
evidência, que se devia a alguma natureza que fosse, efetivamente, mais
perfeita. […] Para conhecer a natureza de Deus, tanto quanto disso a minha
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
[natureza] é capaz, bastava-me considerar, acerca de todas as coisas de que
em mim encontrava alguma ideia, se era, ou não, perfeição possuí-las.
R. Descartes, Discurso do Método, Lisboa, Edições 70, 2003, pp. 76-77 (texto adaptado).
Ao analisarmos os nossos pensamentos ou ideias, por mais compostas e
sublimes que sejam, sempre descobrimos que elas se resolvem em ideias tão
simples como se fossem copiadas de uma sensação ou sentimento
precedente. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem afastadas desta
origem, descobre-se, após um escrutínio mais minucioso, serem delas
derivadas. A ideia de Deus, enquanto significa um Ser infinitamente inteligente,
sábio e bom, provém da reflexão sobre as operações da nossa própria mente,
e eleva sem limite essas qualidades de bondade e sabedoria.
D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985, p. 25 (texto
adaptado).
Compare as perspetivas de Descartes e de Hume acerca da origem da ideia de
Deus. Na sua resposta, integre adequadamente a informação dos textos.
13. Leia o texto seguinte.
Recorrer à veracidade do Ser supremo para demonstrar a veracidade dos
nossos sentidos é, sem dúvida, realizar um percurso muito inesperado. Se a
veracidade do Ser supremo estivesse realmente implicada na veracidade dos
sentidos, estes seriam totalmente infalíveis, porque não é possível que Ele nos
possa enganar.
D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985, p. 146.
(Texto adaptado)
No texto anterior, encontra-se uma crítica que se aplica a Descartes. Explicite
essa crítica.
Na sua resposta, comece por apresentar o aspeto do pensamento cartesiano
ao qual a crítica se aplica.
14. Leia o texto seguinte.
Há uma questão que, na evolução do pensamento filosófico ao longo dos
séculos, sempre desempenhou um papel importante: Que conhecimento pode
ser alcançado pelo pensamento puro, independente da perceção sensorial?
Existirá um tal conhecimento? […] A estas perguntas […] os filósofos tentaram
dar uma resposta, suscitando um quase interminável confronto de opiniões
filosóficas. É patente, no entanto, neste processo […], uma tendência […] que
podemos definir como uma crescente desconfiança a respeito da possibilidade
de, através do pensamento puro, descobrirmos algo acerca do mundo objetivo.
6
COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
A. Einstein, Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo, Lisboa, Relógio D’Água Editores,
2005, p. 163. (Texto adaptado)
Será que tanto Descartes como Hume contribuíram para a «crescente
desconfiança» referida no texto? Justifique a sua resposta
15. Considere as afirmações seguintes.
1. Tanto Hume como Descartes admitem haver conhecimento a priori e
conhecimento a posteriori.
2. Descartes defende que as ideias claras e distintas são certas.
3. De acordo com Hume, nenhuma crença verdadeira pode ser justificada
apenas pelo pensamento
(A) 2 e 3 são verdadeiras; 1 é falsa.
(B) 3 é verdadeira; 1 e 2 são falsas.
(C) 1 e 2 são verdadeiras; 3 é falsa.
(D) 1 é verdadeira; 2 e 3 são falsas.
16. Leia o texto seguinte.
Estabelecemos [...] que todos os corpos […] são compostos de uma mesma
matéria, indefinidamente divisível em muitas partes [...], as quais se movem em
direções diferentes […]; além disso, estabelecemos [...] que continua a haver a
mesma quantidade de movimentos no mundo. No entanto, não podemos
determinar apenas pela razão o tamanho dos pedaços de matéria, ou a que
velocidade se movem […]. Uma vez que há inumeráveis configurações
diferentes de matéria, […] apenas a experiência pode ensinar-nos que
configurações realmente existem.
R. Descartes, «Les principes de la philosophie», in Oeuvres de Descartes IX, Paris, Vrin, 1996,
p. 124. (Texto adaptado)
Colocando-se na perspetiva de Hume, como avaliaria a distinção exposta no
texto por Descartes? Na sua resposta, considere os factos referidos no texto.
17. De acordo com Descartes, a ciência teria de se basear em princípios
irrefutáveis, que seriam verdades evidentes conhecidas a priori, por intuição
intelectual. Essas verdades incluem os factos básicos da realidade física.
Concorda com esta perspetiva de Descartes?
Na sua resposta, deve:
− clarificar o problema da justificação do conhecimento;
− apresentar inequivocamente a sua posição;
− argumentar a favor da sua posição, recorrendo a aspetos que considerar
relevantes da teoria empirista ou da teoria racionalista do conhecimento, ou de
perspetivas sobre a evolução e a objetividade da ciência.
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
18. Considere o texto seguinte.
Quando nós [os céticos] perguntamos se um objeto é como parece, admitimos
que ele tem uma aparência. Deste modo, a nossa investigação não se dirige à
própria aparência. Em vez disso, questiona o juízo que fazemos acerca dela, e
isto é muito diferente de investigar a própria aparência. O mel, por exemplo,
parece-nos doce. E isto nós concedemos, porque temos uma sensação de
doçura ao sermos afetados pelo mel. A questão, no entanto, é se este é doce,
independentemente do modo como nos afeta. Portanto, não é a aparência que
é questionada, mas o juízo que fazemos acerca dela.
Sexto Empírico, Selections from the Major Writings on Scepticism, Man, & God,
Indianapolis, Hackett Publishing Company, 1985, p. 38.
Em que medida Descartes e Hume poderiam subscrever a dúvida cética
expressa no texto?
Na sua resposta, explicite os aspetos relevantes das perspetivas de Descartes
e de Hume.
19. Atente nos dois textos seguintes, A e B, um dos quais foi escrito por
Descartes e o outro por Hume.
Texto A
Mesmo que fosse verdade que o meu conhecimento aumenta gradualmente e
que há em mim [potencialmente] muitas coisas, […] nenhuma delas pertence à
ideia de Deus. […] Na verdade, que o meu conhecimento aumente
gradualmente é prova certíssima de imperfeição. Além disso, ainda que o meu
conhecimento aumentasse sempre mais e mais, nunca o concebo por isso
como sendo infinito […], porque nunca chegará ao ponto de não ser sempre
capaz de maior acrescentamento. Mas eu afirmo que Deus é infinito […], que
nada se pode acrescentar à sua perfeição.
Texto B
Quando analisamos os nossos pensamentos ou ideias, por mais complexos ou
sublimes que possam ser, sempre constatamos que eles se decompõem em
ideias simples, copiadas de alguma sensação ou sentimento precedente. […] A
ideia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondoso,
deriva da reflexão sobre as operações da nossa própria mente e de aumentar
sem limites aquelas qualidades de bondade e sabedoria.
Identifique o autor do texto A e o autor do texto B, justificando, com base nos
textos, as identificações feitas.
20. Qual das afirmações seguintes é defendida tanto por Descartes como por
Hume?
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
(A) A ideia de Deus é uma ideia inata.
(B) Deus é necessário para haver conhecimento do mundo.
(C) Há verdades que são conhecidas a priori.
(D) Algumas ideias abstratas não têm origem em impressões.
21. Compare a posição de Descartes com a de Hume quanto à origem da ideia
de Deus.
Critérios de correção
1. Identificação e esclarecimento do problema filosófico a que o texto responde:
– problema da fonte (origem) do conhecimento.
– o problema consiste em determinar se o conhecimento provém
fundamentalmente dos sentidos (é a posteriori) ou antes da razão (é a priori)
Apresentação inequívoca da posição defendida.
Justificação da posição defendida:
No caso de concordar com a posição expressa no texto e defender que a
experiência é a fonte de todo o conhecimento.
− se, por exemplo, uma pessoa não dispuser do sentido da visão, não poderá
formar impressões da cor dos objetos nem, por consequência, poderá formar
as ideias correspondentes;
− é a experiência que fornece os materiais mais básicos do conhecimento do
mundo, ou impressões (todas as ideias derivam das impressões dos sentidos;
por exemplo, a ideia de maçã deriva da impressão de maçã);
− por conseguinte, o conhecimento do mundo natural (conhecimento
substancial) não é possível sem recurso à experiência (o conhecimento do
mundo natural é a posteriori) (a atividade dos sentidos é indispensável ao
processo de conhecimento do mundo natural);
− é possível obter conhecimento matemático (por exemplo, que três vezes
cinco é igual a metade de trinta) ou conhecimento conceptual (por exemplo,
que todas as esferas têm superfície curva) sem recurso à experiência (apenas
pelo pensamento), isto é, a priori, mas o conhecimento a priori, tratando-se de
conhecimento meramente conceptual ou meramente linguístico, não pode ser
considerado conhecimento substancial;
− o conhecimento científico (com exceção da matemática) depende da
observação e da experiência: o teste das teorias depende sempre de dados
fornecidos pela experiência (experimentais), e não apenas do raciocínio.
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
No caso de não concordar com a posição expressa no texto e defender
que a experiência não é a fonte de todo o conhecimento.
− algum conhecimento do mundo, e não apenas o conhecimento meramente
conceptual ou linguístico, é obtido recorrendo exclusivamente ao pensamento,
isto é, a priori;
− há factos básicos que são conhecidos a priori, não dependendo o
conhecimento desses factos das impressões dos sentidos; por exemplo, o
conhecimento da nossa existência (o cogito) é um caso de conhecimento a
priori que não é meramente conceptual nem linguístico, tratando-se de
conhecimento substancial;
− o conhecimento matemático, pela certeza que oferece (por ser infalível, tal
como o cogito), é o modelo de conhecimento; ora, este conhecimento é a priori;
− além da certeza que proporciona, o conhecimento matemático tem aplicação
no mundo, como mostram as ciências naturais, que recorrem à matemática
para formularem as suas teorias; por ter aplicação no mundo, o conhecimento
matemático é substancial;
− os sentidos (e a experiência) não podem ser a fonte de todo o conhecimento,
porque os sentidos são enganadores; por exemplo, nós sabemos que o Sol é
maior do que a Terra, mas os sentidos indicam exatamente o contrário.
2. Explicitação do modo como, no texto, se põe em causa o empirismo:
‒ fazemos juízos errados acerca das coisas exteriores a nós, e o erro mais
importante nos nossos juízos é o de afirmarmos que as ideias provenientes dos
sentidos representam adequadamente as coisas exteriores a nós;
‒ se confrontarmos, por exemplo, duas ideias diferentes acerca do Sol, uma
proveniente dos sentidos, que o representa como muito pequeno, e outra
proveniente dos raciocínios dos astrónomos, que o representa como um corpo
maior do que a Terra, a razão persuade-nos de que seria errado afirmar que a
ideia acerca do Sol proveniente dos sentidos é aquela que representa
adequadamente o Sol.
3.1. Explicitação da crítica de Hume ao ceticismo de Descartes:
– a dúvida universal de Descartes também se aplica às nossas faculdades,
impedindo-nos de confiar nelas;
– mas a dúvida universal só pode ser ultrapassada usando precisamente essas
faculdades em que deixámos de confiar;
– assim, uma vez estabelecida, a dúvida universal não poderia ser
ultrapassada (nem permitiria alcançar um princípio original indubitável que
fosse o fundamento de todo o conhecimento).
10
COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
3.2. Distinção entre a perspetiva racionalista de Descartes e a perspetiva
empirista de Hume no que respeita à fundamentação do conhecimento:
– para Descartes, o conhecimento fundamenta-se em verdades conhecidas a
priori;
– para Hume, o conhecimento fundamenta-se em verdades conhecidas a
posteriori;
– as verdades a priori (por exemplo, a verdade de que eu sou uma coisa que
pensa ou a verdade de que Deus existe) são, para Descartes, os primeiros
princípios de todo o conhecimento;
– o raciocínio pelo qual são descobertos os primeiros princípios de todo o
conhecimento segue o modelo da matemática e assegura a certeza que,
segundo Descartes, a fundamentação do conhecimento requer;
– algumas verdades a posteriori (por exemplo, a verdade de ter sentido frio ao
tocar um pedaço de gelo) são, para Hume, os dados empíricos básicos
requeridos para o conhecimento do mundo;
– os dados empíricos básicos resultam de impressões simples fornecidas pela
experiência.
4. Comparação das posições de Descartes e de Hume sobre a importância do
conhecimento a priori:
– Hume defende que o conhecimento a priori estabelece relações de ideias (ou
relações entre conceitos), ao passo que Descartes defende que algum
conhecimento a priori é acerca do mundo;
– Hume considera que o conhecimento a priori não tem importância como meio
para descobrir o mundo – com esse tipo de conhecimento, «não aprendemos
nada de substancial acerca do mundo» –, ao passo que Descartes defende
que o conhecimento do mundo mais importante é a priori;
– os empiristas, como Hume, consideram que as verdades conhecidas a priori
são «não-instrutivas», ou seja, não são informativas (ou não têm conteúdo
factual), ao passo que os racionalistas, como Descartes, consideram que as
verdades conhecidas a priori são certas (ou evidentes, ou claras e distintas),
são aspetos fundamentais do mundo e delas se deduzem outras verdades
acerca do mundo.
5. Identificação da teoria racionalista em Descartes e da teoria empirista em
Hume como respostas ao problema filosófico da origem do conhecimento.
- Formulação da tese racionalista da afirmação da razão como origem e critério
de todo o conhecimento verdadeiro e da tese empirista da afirmação dos
sentidos como origem e critério do conhecimento acerca da realidade.
- Explicação da teoria racionalista de Descartes, segundo a qual existem ideias
inatas, com origem na razão, constituindo os princípios de todo o
conhecimento; explicação da teoria empirista de Hume, que rejeita o inatismo e
11
COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
considera que não é possível extrair da razão um conhecimento fundado,
defendendo que o conhecimento da realidade só é possível a partir de uma
base empírica – as impressões sensíveis.
- Caracterização da evidência racional das ideias, na teoria racionalista de
Descartes, como garantia da certeza do conhecimento; caracterização, na
teoria empirista de Hume, da experiência – impressões sensíveis – como
garantia da adequação entre as ideias e a realidade, de modo que qualquer
ideia – simples ou complexa – tem de poder ser reconduzida a uma impressão
sensível, à experiência.
- Caracterização do papel da razão e dos sentidos no conhecimento da
realidade, de acordo com a filosofia cartesiana: as operações da razão –
intuição e dedução – são a base do método racional através do qual se pode
alcançar e progredir no conhecimento da realidade; as ideias com origem nos
dados dos sentidos (ideias adventícias) são incertas e confusas, não podendo
a experiência servir de ponto de partida para o conhecimento. Caracterização
do papel da razão e dos sentidos no conhecimento da realidade, de acordo
com a filosofia de Hume, segundo a qual a razão sem os sentidos não pode
ajuizar ou fazer inferências sobre a realidade.
6. Apresentação e confronto das teses acerca da origem das ideias defendidas
pelos dois autores:
- Formulação do problema da origem do conhecimento: a relação entre as
ideias e a experiência;
- Apresentação da tese de Descartes relativamente à existência de ideias
inatas, única fonte segura do conhecimento. As ideias inatas são verdades
universais necessárias, uma vez que são as únicas indubitáveis (claras e
distintas);
- Referência ao caráter duvidoso atribuído por Descartes às ideias adventícias
que têm origem nos sentidos – que já nos enganaram algumas vezes – o que
as torna falíveis e sujeitas a erro;
- Apresentação da tese de David Hume sobre a origem empírica das ideias. As
ideias são o resultado de impressões (sentimento exterior) enfraquecidas, ou a
consequência da reflexão da mente sobre as impressões recebidas
(sentimento interior);
- Referência à perspetiva de David Hume sobre a impossibilidade de um
conhecimento não fundamentado na experiência. A mente, na origem, nada
transporta consigo. Todas as ideias são resultado de operações sobre as
impressões, meras perceções particulares.
– Avaliação das teses em confronto: apresentação e reflexão crítica sobre o
antagonismo racionalismo-empirismo.
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
7. Identificação das ideias que conduzem ao conhecimento como tendo origem
na razão humana na filosofia de Descartes, e como tendo origem nas
impressões na filosofia de Hume;
– explicação das ideias inatas, que têm origem na razão, e se caracterizam
pela universalidade e pela necessidade, segundo a filosofia de Descartes;
– explicação do conhecimento, na filosofia de Descartes, a partir dos princípios
da razão, que, em última análise, têm origem em Deus, fundamento do
conhecimento;
– explicação da relação entre impressões e ideias e entre ideias simples e
ideias complexas, na filosofia de Hume;
– explicação, segundo a filosofia de Hume, da necessidade de as ideias que
conduzem ao conhecimento terem correspondência com uma impressão.
8. distinção entre o empirismo de Hume, segundo o qual o conhecimento tem
origem nas impressões, e o racionalismo inatista de Descartes, que reconhece
um papel fulcral às ideias inatas consideradas como princípio do conhecimento;
– referência à relação entre ideias simples e ideias complexas na filosofia
empirista de Hume;
– caracterização das ideias inatas no racionalismo de Descartes como ideias
provenientes da razão, claras e distintas, garantindo a certeza e a
universalidade do conhecimento, e das ideias provenientes dos sentidos como
ideias falíveis, incertas e confusas, que não conduzem ao conhecimento;
– comparação entre o valor da ideia de Deus na filosofia de Hume e o valor da
ideia de Deus na filosofia de Descartes;
– caracterização da ideia de Deus na filosofia de Hume como ideia a que
nenhum objeto da experiência sensível corresponde;
– caracterização da ideia de Deus, ideia inata do ser perfeito e infinito, como
garantia do valor do conhecimento, fundamento da verdade, na filosofia de
Descartes.
9. – distinção entre o inatismo cartesiano, segundo o qual existem na razão
ideias que não têm origem nos sentidos, e o empirismo de Hume, segundo o
qual todas as ideias têm origem nas impressões;
– caracterização das ideias inatas, no âmbito do racionalismo de Descartes,
como ideias que proporcionam um conhecimento claro e distinto;
– distinção entre impressões e ideias (simples e complexas), no âmbito do
empirismo de Hume;
– oposição entre a crença cartesiana na certeza inabalável e no conhecimento
universal (fundamentado na existência de Deus) e as impressões como limite
ao conhecimento na filosofia de Hume.
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
10. C
11.Confronto entre as respostas de Hume e de Descartes à questão de haver
conhecimento a priori do mundo:
– Hume considera que a geometria, que é a priori, apenas «nos ajuda a aplicar
as leis do movimento» e que estas só podem ser descobertas pela experiência,
pois, quando consideramos «um objeto [...] tal como aparece à mente [...], ele
jamais poderá sugerir-nos [...] o seu efeito»;
– Descartes, em contrapartida, considera que só é seguro que existam nas
coisas as propriedades que «entende clara e distintamente», descobertas pela
matemática pura (que inclui a geometria), e não aquelas que são percebidas
pelos sentidos, pois «a perceção dos sentidos é muito obscura e confusa»;
– de acordo com Hume, não há conhecimento a priori do mundo (a importância
do conhecimento a priori é, assim, minimizada);
– em contrapartida, de acordo com Descartes, há conhecimento a priori do
mundo, e esse conhecimento é conhecimento fundamental (a importância do
conhecimento a priori é, assim, salientada).
12. Comparação das perspetivas de Descartes e de Hume acerca da origem da
ideia de Deus:
‒ Descartes afirma que «o pensamento de alguma coisa de mais perfeito do
que eu [...] se devia a alguma natureza que fosse, efetivamente, mais perfeita»,
ou seja, que a ideia de perfeição não pode ter tido origem num ser imperfeito
como ele (porque duvidar é uma imperfeição, e ele duvida);
‒ Hume, em contrapartida, afirma que as ideias, «por mais compostas e
sublimes que sejam», são copiadas «de uma sensação ou sentimento
precedente», ou seja, que a ideia de Deus é uma ideia composta, formada pela
associação e pela ampliação de ideias simples provenientes da observação
das operações da nossa mente;
‒ segundo Descartes, a ideia de Deus não tem origem empírica / é inata;
‒ em contrapartida, Hume considera que a ideia de Deus tem origem empírica.
13.Explicitação da crítica de Hume, apresentada no texto, que se aplica a
Descartes:
‒ Descartes defendeu que (porque os seus sentidos o enganam algumas
vezes) as crenças decorrentes da experiência dos sentidos eram duvidosas;
‒ porém, a certeza da existência de Deus permitiu-lhe recuperar a confiança
nas suas faculdades, devido ao facto de Deus não ser enganador e, por isso,
não o ter criado de tal forma que se enganasse ao aplicar prudentemente as
suas faculdades (atribui assim os erros dos sentidos (e de raciocínio) a juízos
precipitados/pouco ponderados); ‒ Hume considera que, se a confiança nos
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
sentidos fosse justificada pelo facto de termos sido criados por um Ser não
enganador, então os sentidos nunca nos poderiam enganar, pois um Ser
perfeito e não enganador não permitiria que, ainda que por precipitação nossa,
por vezes os nossos sentidos nos enganassem.
14. Indicação de que é falso que ambos tenham contribuído para a
desconfiança referida no texto (desconfiança a respeito de haver conhecimento
substancial a priori) OU de que apenas Hume contribuiu para a desconfiança
referida no texto OU de que Descartes não contribuiu para a desconfiança
referida no texto.
Justificação:
‒ Hume defendeu que podemos descobrir a priori relações de ideias; todavia,
os raciocínios pelos quais descobrimos relações de ideias não permitem
conhecer questões de facto (conhecimento substancial); por exemplo, saber a
priori que nenhum solteiro é casado não fornece qualquer indicação acerca do
estado civil de quem quer que seja, o qual só pode ser conhecido a
posteriori/recorrendo à experiência;
‒ Descartes defendeu que «pelo pensamento puro»/de modo «independente
da perceção sensorial»/a priori podemos ter conhecimento substancial, e não
apenas de relações de ideias; por exemplo, podemos conhecer a priori que
existimos enquanto coisas pensantes ou que Deus existe (ou que a extensão é
uma propriedade do mundo físico).
15. C
16. Avaliação da distinção exposta no texto por Descartes à luz da perspetiva
de Hume:
− Descartes afirma corretamente que tanto o tamanho e a velocidade dos
pedaços de matéria como as configurações de matéria que realmente existem
se determinam pelo recurso à experiência;
− no entanto, está errado ao afirmar que apenas pela razão se pode determinar
que os corpos sejam compostos de uma mesma matéria, indefinidamente
divisível em partes que se movem em direções diferentes, e que a mesma
quantidade de movimentos se mantém no mundo (pois estes factos também só
podem ser determinados pelo recurso à experiência);
− estas são questões de facto, e não relações de ideias (pelo que não podem
ser determinadas apenas pela razão).
17. Clarificação do problema:
– uma das condições do conhecimento é a justificação, e a justificação pode
basear-se na experiência / pode ser a posteriori, ou pode basear-se apenas na
razão / pode ser a priori;
– há quem considere que a justificação última do conhecimento só poderá
proporcionar certeza se for irrefutável e que, por isso, terá de ser a priori, e há
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COMPARAÇÃO ENTRE A RESPOSTA RACIONALISTA DE DESCARTES E A RESPOSTA EMPIRISTA DE
HUME FILOSOFIA 11º ANO
quem considere que, pelo facto de se apoiarem na experiência, mesmo as
justificações mais básicas podem ser postas em causa/refutadas.
Apresentação inequívoca da posição defendida.
Justificação da posição defendida – cenários de resposta:
No caso de concordar com a perspetiva de Descartes:
− o cogito é conhecido a priori, isto é, por intuição intelectual, e também a
existência de Deus pode ser conhecida pelo recurso a argumentos a priori
(que, partindo da análise da ideia de ser perfeito, concluem que Deus existe);
− as verdades básicas da matemática e, em especial, as verdades da
geometria, que são conhecidas a priori, contribuem para o conhecimento dos
factos básicos da realidade física e são irrefutáveis;
− como é atestado pelos erros da física e da astronomia ‒ por exemplo, pelos
erros da teoria geocêntrica ‒, a ciência torna-se mais falível se o conhecimento
dos factos básicos da realidade física depender inteiramente dos dados
fornecidos pela experiência;
− é plausível considerar que, caso seja a priori, o conhecimento dos factos
básicos da realidade física seja irrefutável.
No caso de não concordar com a perspetiva de Descartes:
− só o conhecimento de relações de ideias pode ser produzido apenas pelo
recurso à razão, isto é, a priori;
− contudo, o conhecimento de relações de ideias não tem qualquer relevância
para o conhecimento dos factos básicos da realidade física;
− todo o conhecimento substancial, que inclui o conhecimento dos factos
básicos da realidade física, depende da experiência;
− dadas as grandes mudanças científicas já ocorridas ao longo da história da
ciência, mesmo teorias aparentemente infalíveis, como as que dizem respeito
aos factos básicos da realidade física, podem ser refutadas pela experiência.
18. Explicitação dos aspetos relevantes das perspetivas de Descartes e de
Hume:
− segundo Descartes (na fase em que apresenta os argumentos céticos), não
só não podemos confiar nos sentidos, pois estes já nos enganaram, como não
podemos ter a certeza de que não sonhamos quando julgamos estar
acordados;
− por exemplo, quando mergulhamos uma vareta de vidro num copo de água,
podemos ter a ilusão de que a forma da vareta se alterou; mas Descartes
mostra que nem sequer podemos afastar a hipótese de o próprio ato de
mergulhar a vareta de vidro no copo de água ser, afinal, parte de um sonho;
− segundo Hume, apenas temos perceções (impressões e ideias), mas não
temos acesso aos objetos que consideramos serem as causas das nossas
perceções;
− ora, para sabermos/admitirmos que as perceções resultam dos objetos,
teríamos de observar as perceções a serem causadas pelos objetos, o que é
impossível (pois nós só temos acesso às perceções).
19. Identificação dos autores dos textos:
− o texto A é de Descartes, e o texto B é de Hume.
Justificação da identificação feita:
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HUME FILOSOFIA 11º ANO
− no texto A, afirma-se que nenhuma das coisas que, potencialmente, existem
nele (Descartes) «pertence à ideia de Deus», e que o seu conhecimento,
mesmo que «aumentasse sempre mais e mais», seria sempre finito, não
podendo fazer parte da ideia de Deus, que é a ideia de um ser infinito;
− de acordo com o Texto A, algumas ideias são independentes da experiência,
e a ideia de Deus é uma dessas ideias (e estes são aspetos centrais do
racionalismo de Descartes);
− no texto B, afirma-se que todas as ideias, «por mais complexas e sublimes
que possam ser», derivam da experiência, e que a ideia de Deus deriva da
experiência que temos da «nossa própria mente», na qual percebemos os
sentimentos de «bondade e sabedoria», que são infinitamente aumentados na
ideia de Deus;
− de acordo com o Texto B, qualquer ideia, mesmo que seja a ideia de um ser
sublime como Deus, tem origem em impressões e, nessa medida, depende da
experiência (e este é um aspeto central do empirismo de Hume).
Nota bibliográfica:
Texto A ‒ R. Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Almedina, 1985, pp.
155-156.
Texto B ‒ D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Imprensa Nacional‒
Casa da Moeda, 2002, p. 35.
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21. Comparação da posição de Descartes com a de Hume quanto à origem da
ideia de Deus:
− Descartes considera que a ideia de Deus não foi adquirida através da
experiência (OU não tem origem empírica);
− Hume, por sua vez, considera que a ideia de Deus tem origem em
impressões (OU depende de impressões rastreáveis), como todas as ideias;
− segundo Descartes, a ideia de Deus é inata e só pode ter sido posta em nós
por Deus (e a análise da ideia de Deus permite concluir a priori que Deus
existe);
− já segundo Hume, a ideia de Deus resulta da associação e da ampliação de
ideias provenientes da experiência, designadamente, de impressões (internas)
de poder e de bondade.
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