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Ideologia [Sociologia]

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Published by: Professor Pablo on Aug 16, 2009
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Ideologia, Cultura e Controle Social – reflexões e problemas complemento aos textos “Os conceitos de cultura e ideologia”, de Regina Aída

Crespo, e “Cultura”, de Joel M. Charon. 1) Uma primeira e necessária observação é que a ideologia não é, de modo algum, apenas um conjunto de idéias sobre o mundo e que apenas pretende explicá-lo. Ela é mais que isto, é um conjunto de idéias e valores que impulsionam as pessoas para a ação. A ideologia tem força propulsora sobre o comportamento das pessoas. Ela orienta o comportamento, as decisões e encaminha à ação. Mesmo se nos omitimos estamos, de algum modo, tomando uma posição perante a situação. Ou seja, a ideologia é sempre e necessariamente uma tomada de posição. Simplesmente não podemos não tomar partido sobre as coisas que acontecem a nossa volta. Mesmo a omissão é uma forma de tomarmos partido sobre algo.

2) A ideologia tem tudo a ver com algo que a filósofa Marilena Chauí chama de “discurso competente”. O
discurso competente é o discurso pronto e acabado, o discurso do especialista, o discurso instituído. Isto significa o seguinte: o conhecimento é um trabalho que visa produzir o esclarecimento sobre algo não conhecido, produzir o saber. Entretanto, cada sociedade (e em cada momento histórico específico) produz determinados saberes que são cristalizados em um tipo de conhecimento sobre as coisas e que não podem mais serem questionados, tornaram-se um discurso que nos fala da “verdade” das coisas. Ora, hoje em dia, por exemplo, o homem passou a relacionar-se com a natureza mediado pelo discurso das ciências biológicas, com a criança pelo discurso pediátrico e pedagógico, com os problemas econômicos por meio do discurso da economia, com a sexualidade e o próprio corpo através do discurso da psicologia, da medicina e da biologia, com a sociedade por meio do discurso da sociologia. A lista é interminável. A lógica perversa deste tipo de situação é que nem todos podem dizer qualquer coisa a qualquer outro, em qualquer lugar e em qualquer momento. Ou seja, esta ideologia produz em nós um sentimento de impotência e ignorância porque passamos a crer que somente os especialista têm razão e autoridade para dizer as coisas.

3) A ideologia para Karl Marx, filósofo do século XIX, foi reinterpretada pelo filósofo italiano, Antônio
Gramsci no século XX, que procurou relativizar um pouco a concepção marxista, compreendendo-a não como uma falsa consciência (concepção de Marx), mas como uma visão de mundo. Desse modo, existiriam diversas ideologias que concorreriam entre si na sociedade. Existiriam a ideologia da classe dominante, que seria a ideologia dominante, mas também a ideologia das classes populares e subalternas (como Gramsci as denomina). Isto porque Gramsci preocupava-se com a idéia de pensarmos, erroneamente, que apenas as classes dominantes teriam cultura e conhecimento, que os marxistas viam como sua ideologia. Uma outra crítica fundamental ao pensamento marxista, que produziu frutos importantes para compreendermos a questão da ideologia, foi feita por Max Weber,

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sociólogo alemão do início do século XX. Segundo ele, não podemos afirmar que exista uma determinação da economia sobre as idéias presentes numa sociedade. E por quê? Porque, em primeiro lugar, Marx não definiu com clareza o que ele chamou de econômico; em segundo lugar, porque não há meios de prova sobre esta influência, a da infraestrutura. Afirmar que a superestrutura é determinada pela infra-estrutura e tomar esta afirmação como explicação de outros fenômenos é ser muito pouco científico na medida em que não temos como provar isto de modo definitivo. Weber fez distinção entre três categorias: econômico, economicamente relevante e economicamente condicionado. E definiu “econômico como as ações conscientes que visem adquirir uma utilidade”. Ora, a religião pode influenciar decisivamente nossas necessidades e predisposição de conseguir uma utilidade. Assim, as práticas religiosas não são econômicas, mas são economicamente relevantes. Do mesmo modo, em suas pesquisas Weber descobriu como o Calvinismo foi um fenômeno economicamente relevante e, ao mesmo tempo, economicamente condicionado (ver A ética protestante e o espírito do capitalismo). Resumindo: existem fenômenos que não podem ser classificados como econômicos, mas podem ser relevantes para se compreender o desenvolvimento da economia, ao contrário, existem fenômenos que são, de fato, influenciados ou condicionados pela economia. Apenas uma pesquisa pode determinar isto.Por fim, temos ainda as reflexões de Louis Dumont, antropólogo francês que viveu vários anos na Índia e pesquisou seu sistema de castas. Dumont define ideologia como “um conjunto mais ou menos social de idéias e valores. Pode-se, assim, falar da ideologia de uma sociedade e também das de grupos mais restritos, como uma classe social ou um movimento [...] É evidente que existe uma ideologia-mãe ligada à linguagem comum e, portanto, ao grupo lingüístico ou à sociedade global. Certamente existem variações - às vezes contradições - segundo os meios, como por exemplo as classes sociais, mas elas são expressas na mesma linguagem: proletários e capitalistas falam francês na França, caso contrário não poderiam opor suas idéias, e em geral têm em comum muito mais do que podem pensar com relação, digamos, a um Hindu. O sociólogo necessita de termo para designar a ideologia global e não pode se inclinar diante do uso especial que limita a ideologia às classes sociais e lhe dá um sentido puramente negativo, lançando assim com fins partidários o descrédito sobre as idéias ou ‘representações’ em geral”. E ainda afirma que: “a ideologia é central com relação ao conjunto da realidade social (o homem age conscientemente, e acedemos diretamente ao aspecto consciente de seus atos) [...] Ela não é toda a realidade social, e o estudo tem seu resultado na tarefa difícil do posicionamento relativo dos aspectos ideológicos e do que se pode chamar de aspectos não ideológicos. Tudo o que se pode supor a priori é que normalmente existe uma relação de complementaridade, aliás variável, entre uns e outros”. Ora, vemos, então, que a ideologia é um conjunto de idéias e valores ou, melhor dizendo, um conjunto de idéias-valor porque envolvem visões sobre as coisas, a natureza, o ser humano, a sociedade e seus problemas, mas também envolvem sentimentos, percepções, relações afetivas. Dumont encontrou em suas pesquisas algo que nega a afirmação, na concepção marxista, de que a ideologia é determinada; ele demonstra como, ao menos no caso da Índia, ela determina o comportamento das pessoas muito mais do que se imagina tornando-

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se, assim, um elemento determinante daquela sociedade.

4) Sabemos que as sociedades são estratificadas, ou seja, estão divididas em camadas sociais. Sabemos
que existem as classes sociais e que a sociedade diferencia as pessoas conforme sua posição no processo de produção (divisão social do trabalho que leva à divisão por classes sociais). Mas as pessoas também criam outras fronteiras e os grupos sociais vão se diferenciando não somente pelas classes sociais, mas conforme opções políticas, diferenças etárias, religiosidade, estilo de vida, enfim, por meio de conjuntos de símbolos que são manipulados para criarem as identidades dos grupos sociais. A essas diferenças entre os grupos sociais podemos chamar de suas ideologias (ou culturas); entretanto, estas não estão determinadas apenas pelas suas condições de classe, nem por uma questão puramente econômica. Neste ponto é difícil diferenciar “ideologia” de “cultura”, considerando que são conceitos forjados em tradições disciplinares distintas e que, muitas vezes são usados para explicarem fenômenos semelhantes. A exceção de Dumont, um antropólogo prefere o termo “cultura”; ao contrário, os sociólogos preferem “ideologia”. O mais importante, talvez, seja percebermos que os homens criam representações imaginárias sobre tudo: as pessoas, as suas relações, as coisas, a vida, a sociedade. Estas representações fazem parte do que chamamos ideologia ou cultura e dão sentido à nossa vida. E o lugar destas representações varia também conforme o pesquisador: para uns ela é determinada e, portanto, explicada, pela estrutura social (organização social, infra-estrutura econômica, sistema político etc.); para outros ela é determinante da estrutura social, um elemento originário que guarda uma dimensão de autonomia em relação aos demais elementos da vida social.

5) Para a antropologia interpretativista (de influência fenomenológica e hermenêutica), a cultura seria
“uma rede de significados”, nos dizeres de Clliford Geertz. Para este antropólogo, os homens criam significados e tudo o que fazem, fabricam, comem, sentem, vestem, realizam e pensam tem sentido para eles. Os homens doam sentidos às coisas e estes sentidos ou significados constituem cultura. Para Geertz, a cultura seria como que um programa de computador que determina e orienta a ação; sem o qual, aliás, o ser humano seria uma monstruosidade, um caos disforme. Para que tenhamos uma idéia clara da dimensão que o conceito de cultura tomou, lembremos Lévi-Strauss que, questionando Malinowski (a cultura como resposta a necessidades biológicas), disse que as coisas não são boas para pensar porque são boas para comer, mas ao contrário, são boas para comer porque são boas para pensar. Ao contrário de Weber – que diz que podemos compreender o sentido de toda ação humana porque ela é racional –, Geertz afirma que a ação humana é racional porque tem sentido, isto é, a própria racionalidade possui um sentido para nós. Nesta linha de pensamento, a cultura englobaria tudo e aqui voltamos ao problema levantado por Regina Aída Crespo, o da limitação do conceito de cultura, até para que ele se torne mais útil e produtivo. A discussão é interminável e polêmica: não podemos pretender fazer afirmações ditas científicas e resolvermos o debate de modo simples. Afinal, o grande enigma do homem é que ele mesmo constrói as realidades imaginárias em que vive e compreendê-las –

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para explicar o homem que as fabrica – seria compreender seu processo de construção, o que ao final demandaria novas construções imaginárias em que o próprio pensamento exigiria uma explicação, como se ao homem fosse possível afastar-se de si mesmo e tomar-se como mero objeto.

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