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PODER JUDICIÁRIO

JUSTIÇA FEDERAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA


SEÇÃO JUDICIÁRIA DA PARAÍBA
2ª VARA FEDERAL

PROCESSO N. 2004.82.00.005082-5
AÇÃO PENAL PÚBLICA
AUTOR: Ministério Público Federal
RÉU: Antônio Carlos Costa Moreira da Silva
Juiz federal substituto ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU

S E N T E N Ç A1

PENAL. FALSIDADE IDEOLÓGICA E PATROCÍNIO INFIEL.


UTILIZAÇÃO DE DOCUMENTO VERDADEIRO EM NOME DE
TERCEIRO COMO BASE PARA REQUERIMENTO EM JUÍZO.
ALEGAÇÃO DA OCORRÊNCIA DE EQUÍVOCO. INDIRETA
NEGATIVA DO DOLO. ÔNUS DA PROVA DO MPF.
FALSIDADE IDEOLÓGICA EM PETIÇÃO.
DESCARACTERIZAÇÃO. MATERIALIDADE DELITIVA NÃO
COMPROVADA.

I – A utilização de documento verdadeiro para fundamentar


requerimento judicial subscrito por procurador judicial não
configura falsidade ideológica, pois nem o documento utilizado,
nem a petição que nele se baseia podem ser considerados
como falsificados.

II – A alegação da ocorrência de equívoco na apresentação de


documento de pessoa diversa como fundamento a
requerimento em juízo implica negativa do dolo, atribuindo ao
MPF o ônus de lhe provar a existência, sob pena de atipicidade
do fato.

III – A não comprovação nos autos da materialidade delitiva


alegada na denúncia conduz a um julgamento de absolvição do
acusado.
1
Sentença tipo D, cf. Res. CJF n. 535/2006.
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I – RELATÓRIO

Tratam os presentes autos de AÇÃO PENAL PÚBLICA


promovida pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL contra ANTÔNIO CARLOS
COSTA MOREIRA DA SILVA, já devidamente qualificado nos autos do processo em
epígrafe, em razão da alegada conduta de inserir declaração falsa em documento
público no exercício do cargo de procurador da Fazenda Nacional na Paraíba, dando-o
a peça denunciativa como incurso nos arts. 299, caput, c/c o parágrafo único, e art.
355, ambos do Código Penal brasileiro.

Consta da denúncia (fls. 02/06) que o acusado, no exercício


do cargo de procurador da Fazenda Nacional, teria atestado falsamente, em
documento público, a quitação de débito inscrito em dívida ativa da União, dando
causa à extinção da execução fiscal n. 3473-8, em tramitação na 2ª vara federal desta
Seção Judiciária.

Promoção de arquivamento do MPF (fls. 08/09) em relação a


Antônio Tavares de Carvalho e aos demais indiciados no inquérito, entendendo o
parquet pela não configuração de condutas delituosas em relação aos mesmos.

O MPF requereu a juntada de cópias do processo n. 0359/81


da 2ª vara cível da Capital (fl. 523).

Denúncia recebida em 13 de agosto de 2004 (fls. 531/539).

Deferidos os pedidos de arquivamento e de remessa de cópias


do processo n. 0359/81 (fls. 531/539).

Interrogatório do acusado (fls. 666/669).

Em defesa prévia, o acusado reservou-se o direito de


apresentar o conteúdo de sua defesa na oportunidade de apresentação de suas
alegações finais (fls. 671/672).

O MPF requereu a dispensa da testemunha João José Ramos


da Silva (fl. 668), tendo sido deferida a dispensa (fl. 689).

Inquirição da testemunha arrolada na denúncia: Ronaldo Inácio


de Sousa (fls. 690/691).
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Inquirição das testemunhas indicadas na defesa: Fátima Maria


Santana Lins Braga (fls. ), Francisco das Chagas Gil Messias (fls. ) e Wilson Aquino de
Macedo (fls. ). Por carta precatória, foi ouvida a testemunha Mauro Ulisses Cardoso
Modesto (fl. 746).

Intimadas para a fase de diligências (CPP, 499), as partes nada


requereram (fl. 771).

Em alegações finais (CPP, 500), o MPF requereu a


condenação do acusado nos termos da denúncia (fls. 775/779) e o denunciado
pugnou pela improcedência do pedido, com sua absolvição da imputação (fls.
794/800).

É o relatório.

Passo a decidir.

II – FUNDAMENTAÇÃO

Ausentes quaisquer preliminares ou questões prejudiciais a


resolver, passo ao exame do mérito.

Em apertada síntese, narra o MPF que tramitava perante a 2ª


vara federal da Seção Judiciária da Paraíba uma ação de execução fiscal contra
Adrião Pires Bezerra, sendo penhorado um imóvel do executado que já contava com
penhora de 1º grau realizada em ação de execução movida pelo Banco do Brasil S/A
no juízo da 2ª vara cível da comarca da Capital.

Remetido o imóvel a hasta pública pelo juízo estadual, fora


arrematado pelo executante (Banco do Brasil) pelo valor de Cr$ 150.000.000,00,
depositando-se o saldo em conta à disposição da 2ª vara cível da Capital, vinculado à
preferência de créditos trabalhistas e tributários.

No juízo federal, nos autos da execução fiscal, a PFN


(representada pelo acusado) e o Banco do Brasil, em petição conjunta, requereram a
substituição da penhora sobre o imóvel arrematado na justiça estadual pelo valor de
R$ 64.343,00 (sessenta e quatro mil trezentos e quarenta e três reais), valor oriundo
da atualização do valor de arrematação do bem.

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Feita a atualização da dívida em execução fiscal, resultante no


valor de R$ 42.084,04 (quarenta e dois mil e oitenta e quatro reais e quatro centavos),
o juízo federal houve por bem, antes de deferir o pedido acima, intimar a Fazenda
Nacional para se manifestar sobre a diferença entre o valor de arrematação do bem
penhorado e o valor da execução.

Neste momento, a Fazenda Nacional, em petição assinada


pelo acusado, requereu o levantamento da penhora em razão do suposto pagamento
do débito, juntando DARF no valor de R$ 41.891,07 (quarenta e um mil oitocentos e
noventa e um reais e sete centavos). O juízo federal, em vista disso, deferiu o
levantamento da penhora e extinguiu a referida execução fiscal. O levantamento da
penhora teria permitido, em 31/03/98, a liberação em favor do Banco do Brasil S/A do
saldo do depósito judicial, mantido pela justiça estadual, no valor de R$ 195.894,98
(cento e noventa e cinco mil oitocentos e noventa e quatro reais e noventa e oito
centavos).

Como se teria comprovado posteriormente, a dívida do


executado Adrião Pires Bezerra não tinha sido paga, conforme extrato juntado pelo
PFN Ronaldo Inácio de Sousa, juntamente com um pedido de anulação da sentença
de extinção da execução fiscal. Ter-se-ia comprovado que o DARF juntado pelo
acusado se referiria a débito diverso, também inscrito em dívida ativa da União, porém
em nome da pessoa jurídica Pires Comercial S/A, de que o executado era sócio.

Em vista de tais condutas, entendeu o MPF que o acusado


teria cometido os delitos de falsidade ideológica (CP, art. 299, caput e parágrafo único)
e patrocínio infiel (CP, art. 355). O primeiro, por atestar falsamente, no exercício da
função de PFN, a quitação de débito inscrito em dívida ativa, dando causa à extinção
de uma execução fiscal. O segundo, em razão de, na condição de PFN, ter deixado de
se manifestar sobre o saldo do valor da arrematação, conforme determinado em
despacho judicial, apesar da existência de outras execuções fiscais promovidas pela
PFN contra Adrião Pires Bezerra e Pires Comercial S/A.

Examinando minuciosamente o volumoso o inquérito policial


que fundamentou a denúncia através do qual o MPF deu início ao processo em tela,
vejo que seu principal objeto de investigação não é o fato narrado na peça vestibular
acusatória. O principal assunto investigado diz respeito ao assim chamado “escândalo

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da PFN/PB”, em que estariam envolvidos, além do ora acusado, o PFN Antônio


Tavares de Carvalho e os servidores Edson Lima e Ricardo César.

A causa de pedir contida na denúncia do presente processo,


contudo, atine à utilização de uma guia de quitação de tributos (DARF) da pessoa
jurídica Pires Comércio S/A como forma de requerer levantamento de penhora e
extinção de execução fiscal movida contra a pessoa física de Adrião Pires Bezerra,
sócio daquela pessoa jurídica. O autor de tal conduta teria sido o acusado e os crimes
praticados seriam falsidade ideológica no exercício de função pública (CP, 299, caput
e parágrafo único) e patrocínio infiel (CP, 355).

Precisamente quanto a esse fato – a causa de pedir objeto da


denúncia – o inquérito policial nos traz as seguintes informações:

ADRIÃO PIRES BEZERRA (fls. 16/17) afirmou “ter ficado


sabendo” que o débito executado pela PFN (a que faz referência o presente processo)
teria sido quitado com o produto da arrematação de um imóvel de sua propriedade,
destinando-se o remanescente do dinheiro ao pagamento de uma dívida com o Banco
do Brasil S/A. Deu a entender que não tinha ciência dos fatos narrados na denúncia,
acreditando que o débito teria sido quitado exatamente com o dinheiro do imóvel
arrematado.

JOSÉ WALTER LINS DE ALBUQUERQUE e SEVERINO


BARRETO FILHO (fls. 32/33), advogados do Banco do Brasil S/A, esclareceram que a
petição conjunta para substituição de penhora já lhes teria chegado pronta às mãos,
tendo sido elaborada por um funcionário da assessoria jurídica do banco, de nome
Jurandir Pereira do Nascimento.

A fl. 43 consta DARF em nome de PIRES COMERCIAL LTDA.

RONALDO INÁCIO DE SOUSA, procurador da Fazenda


Nacional (fls. 48/49), disse que, examinando os autos da execução fiscal, percebeu
que o DARF ali constante não se referia à pessoa do executado (Adrião Pires
Bezerra), mas à pessoa jurídica Pires Comercial S/A.

JURANDIR PEREIRA DO NASCIMENTO (fls. 79/80),


funcionário do Banco do Brasil, afirmou que a petição de substituição de penhora foi
apenas digitada por ele, tendo sido elaborada pelo advogado “José Valter” ou um
superior hierárquico. Registrou que, naquele caso, houve uma confusão entre as

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execuções fiscais movidas contra Adrião Pires Bezerra e Pires Comercial S/A,
registrando que não houve prejuízo para a União nem má-fé da parte do banco. Por
fim, declarou que a intenção do banco era efetuar o pagamento à Fazenda Nacional
para afastar do imóvel a preferência a que esta última tinha direito, o que terminou
sendo feito, apresentando cópia de DARF para comprovação.

A fl. 83, DARF em nome de ADRIÃO PIRES BEZERRA.

O acusado ANTÔNIO CARLOS COSTA MOREIRA DA SILVA


(fls. 88/90), ouvido pela PF, afirmou que tudo não passou de um equívoco do Banco
do Brasil e do PFN Antônio Tavares de Carvalho, em razão da utilização de uma guia
de quitação de tributos (em razão da similaridade de nomes) da pessoa jurídica Pires
Comercial Ltda. no processo de execução fiscal ajuizada contra a pessoa física Adrião
Pires Bezerra. Afirmou que em razão da confusão de nomes, requereu a extinção da
execução fiscal movida contra a pessoa física, o que foi acatado pelo juiz. Ouvido
posteriormente pela PF (fls. 230/232), já em termos de interrogatório, voltou a dizer
que tudo não teria passado de um equívoco.

Na linha de seus dois depoimentos anteriores, ANTÔNIO


CARLOS COSTA MOREIRA DA SILVA declarou em seu interrogatório judicial que,
antes de assiná-la, não leu a petição de requerimento do levantamento de penhora e
extinção da execução fiscal de que trata a denúncia. Teria recebido a petição e o
DARF em nome de Pires Comercial S/A de um servidor da PFN. Registrou que
atribuía dito procedimento (assinatura sem leitura prévia) ao grande volume de
trabalho que havia na PFN/PB, que contava com quatro procuradores e quinze
servidores para um volume de mais de dez mil processos. Por fim, destacou não ter
recebido qualquer vantagem para fazer o requerimento em questão.

Ouvida em juízo, a testemunha RONALDO INÁCIO DE


SOUSA, que parece interessar ao deslinde da questão, afirmou que não tinha
conhecimento da prática de servidores prepararem petições para procuradores por
conta do grande volume de serviço, mas ainda assim não descartava a possibilidade
de que isso acontecesse. Disse também que não teve de apresentar, em outra
oportunidade, petição para anulação de atos judiciais em razão de requerimento
formulado pela PFN.

FÁTIMA MARIA SANTANA LINS BRAGA, FRANCISCO DAS


CHAGAS GIL MESSIAS, WILSON AQUINO DE MACEDO e MARIA LUIZA PEREIRA

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DE ALENCAR MAYER FEITOSA, assim como MAURO ULISSES CARDOSO


MODESTO (ouvido através de carta precatória), indicados como testemunhas pela
defesa do acusado, limitaram-se a apontá-lo como uma pessoa séria e de boa
reputação pessoal e profissional.

Examinadas as provas existentes nos autos, passemos ao


exame da materialidade dos delitos citados na petição inicial.

Observo que, quando o MPF alega a ocorrência de um crime


de falsidade ideológica, não aponta diretamente a que documento estaria a se referir
como ideologicamente falso. Considerando a narração contida na denúncia, penso
que só pode estar a se referir à guia de quitação de tributos (DARF) ou à petição de
requerimento de extinção da execução.

A guia de quitação de tributos (DARF) apresentada pelo


acusado no processo, ao que se constatou, não era falsa. Tratava-se de uma guia
autêntica, absolutamente verdadeira, mas que se referia a uma pessoa diversa do
executado. O que aconteceu foi a utilização de um documento verdadeiro como base
para o requerimento de algo que dizia respeito a pessoa diversa daquela em benefício
de que se pedia. A guia dizia respeito a Pires Comércio S/A e foi utilizada para instruir
pedido no processo de Adrião Pires Bezerra.

A conclusão a que chego é que não houve falsidade no que se


refere à guia de quitação de tributo (DARF), pois o acusado utilizou um documento
autêntico, tanto material quanto ideologicamente verdadeiro.

Admitindo-se que a imputação, pelo MPF, do crime de


falsidade ideológica tenha como base a petição subscrita pelo acusado para
requerimento da extinção da execução fiscal e levantamento de penhora, penso que
não merecerá melhor sorte no pleito condenatório.

Em primeiro lugar, penso que não se pode admitir que uma


petição por meio de que se deduza em juízo um requerimento impertinente, ainda que
baseado em fatos inexistentes, seja documento ideologicamente falso. Basta
considerar que, a julgar-se desse modo, inúmeros seriam os casos de processo-crime
por falsidade ideológica por força do exercício do direito à jurisdição, seja qual for o
resultado da demanda.

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De fato, considerando que alguém pede e alguém contesta,


ambos alegando fatos, alguém terá, sob esse ponto de vista, faltado com a verdade
em documento particular (ou público, se o subscritor pertencer aos quadros da
Administração Pública, como um defensor público ou um advogado da União), nele
inserindo informações falsas com a finalidade de alterar a verdade sobre fato
juridicamente relevante.

Toda demanda julgada improcedente no mérito,


especificamente por questão de fato, deveria, dessa forma, conduzir a um processo
criminal por falsidade ideológica. O quadro, a meu ver, é absurdo e não merece
acolhida.

Em segundo lugar, o acusado alegou que tudo não passou de


um equívoco de sua parte, que teria se confundido com os nomes do executado e da
empresa, titular do pagamento documentado na guia de quitação apresentada. Ao
fazer isso, o acusado indiretamente negou a existência de dolo em sua conduta,
carreando ao Ministério Público Federal o ônus de provar a existência do elemento
subjetivo do tipo na conduta do acusado.

Não é suficiente narrar a parte objetiva do tipo penal e presumir


que tenha ocorrido dolosamente. Cabe ao acusador demonstrar de forma cristalina a
integração de todos os elementos do tipo penal – inclusive o dolo. Se este,
normalmente, advém do contexto dos fatos objetivamente narrados, nem sempre é
assim. No caso dos autos, tenho como absolutamente crível e verossímil a tese do
equívoco, seja porque os nomes são parecidos, seja porque o executado era sócio da
empresa constante do DARF, seja por não ter sido provado que o acusado teve
qualquer vantagem com o fato (motivo do crime).

A verossimilhança dessa negativa de fato faz exsurgir, com


força total, o ônus que cabe ao MPF de provar suas alegações de fato, dentre as quais
a prática dolosa da conduta narrada em sua petição inicial. Não se trata, aqui, de uma
confissão qualificada em que o acusado estaria alegando fato novo – a prática culposa
do delito – que teria de provar. O caso é de negação direta do dolo, lembrando ao
julgador que este não se presume, além do que é excluído pelo erro de tipo, seja
escusável, seja inescusável (lembrando-se que mesmo inescusável, o erro só
responsabiliza o agente se houver previsão da modalidade culposa).

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Por esses fundamentos, concluo que não ficou configurada ou


demonstrada, nos presentes autos, a materialidade do crime de falsidade ideológica.

Examinando a imputação do crime de patrocínio infiel, penso


que sua configuração e demonstração esbarre no mesmo óbice examinado no
segundo item da análise quanto ao crime de falsidade ideológica, ou seja, a ausência
de evidências quanto à conduta dolosa do acusado.

Relembrando, o acusado admite que assinou a petição através


de que a PFN requereu, nos autos de execução fiscal que tramitava na 2ª vara federal
da Seção Judiciária da Paraíba contra Adrião Pires Bezerra, o levantamento de
penhora e a extinção do processo em razão da suposta ocorrência do pagamento. A
petição se fazia acompanhar de uma guia de quitação de tributos (DARF) em nome da
pessoa jurídica Pires Comércio S/A.

O Ministério Público Federal alega que o crime de patrocínio


infiel estaria configurado no fato de haver o acusado requerido o levantamento da
penhora com a extinção do processo valendo-se de documento referente a pessoa
diversa do executado, bem como em razão de se haver omitido em destacar outros
débitos e execuções contra o mesmo devedor.

No que pertine à utilização do DARF da empresa Pires


Comercial S/A para extinção da execução fiscal movida contra Adrião Pires Bezerra,
penso que a negativa do dolo atribui ao MPF, como já discutido, o ônus de demonstrar
a existência desse elemento subjetivo, não lhe sendo suficiente simplesmente provar a
ocorrência dos elementos objetivos do tipo. Se é certo que a demonstração do dolo
normalmente ocorre através do contexto em que a parte objetiva é atuada, não menos
certo é que, no caso destes autos, a parte objetiva não demonstra o dolo, ao passo
que a tese apresentada pelo acusado – de haver confundido os documentos e
assinado a petição sem prévia leitura – é fortemente verossímil.

Já no que atine à omissão em se pronunciar sobre outros


débitos e execuções, pergunto: havia outras penhoras que pudessem ser mantidas no
processo de execução fiscal extinto pelo requerimento? Havia outras dívidas em
execução naquele mesmo processo? Embora não tenha havido no decorrer do feito
uma discussão sobre o assunto, ou mesmo um esforço no sentido de elucidar essas
questões, pode-se observar que, em momento algum, o MPF demonstrou a utilidade

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de tal manifestação supostamente omitida para a garantia de outras dívidas do


executado.

Qual teria sido, portanto, o prejuízo decorrente da citada


omissão no que se refere às dívidas ou penhoras existentes em processos diversos
daquele que foi extinto pela malsinada petição? É importante relembrar que o artigo
355 do Código Penal traz, como elemento do tipo, o efetivo prejuízo ao interesse cujo
patrocínio em juízo é confiado ao agente.

Pelos motivos acima, concluo que também não restou


configurada ou demonstrada a materialidade do crime de patrocínio infiel.

Ausente a demonstração de materialidade dos crimes


imputados ao acusado pelo Ministério Público Federal, é de se julgar improcedente o
pedido contido na denúncia, com base no art. 386, VI, do CPP.

III – DISPOSITIVO

Diante do exposto, com fundamento no art. 386, VI, do Código


de Processo Penal, julgo IMPROCEDENTE o pedido para absolver o acusado
Antônio Carlos Costa Moreira da Silva da imputação contida na denúncia.

Após o trânsito em julgado, preencha-se e encaminhe-se o


boletim individual ao IBGE, certifique-se, dê-se baixa na Distribuição e arquivem-se os
autos.

Publicada em mãos do escrivão. Registre-se no sistema


informatizado. Intimem-se o acusado e seu defensor. Ciência ao MPF.

João Pessoa,

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