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VERONICE WEBER

CARISMA, INSTITUIÇÃO E PESSOA


O AMADURECIMENTO HUMANO-ESPIRITUAL DA PESSOA CONSAGRADA

Trabalho de conclusão do curso de Especialização


em Teologia da Vida Religiosa da Escola Superior
de Teologia e Espiritualidade Franciscana –
ESTEF, sob orientação do Prof. Ms. Adelino
Pilonetto.

PORTO ALEGRE, 2010


TERMO DE APROVAÇÃO

VERONICE WEBER

CARISMA, INSTITUIÇÃO E PESSOA


O AMADURECIMENTO HUMANO-ESPIRITUAL DA PESSOA CONSAGRADA

Trabalho de conclusão aprovado como requisito parcial para a obtenção do grau de


licenciado em Teologia da Vida Religiosa pela Escola Superior de Teologia e
Espiritualidade Franciscana – ESTEF, pelo seguinte Professor:

_____________________
Prof. Ms. Adelino Pilonetto
ESTEF

Porto Alegre, 26 de fevereiro de 2010


RESUMO

O presente trabalho trata da relação entre carisma, instituição e pessoa no processo


de amadurecimento humano-espiritual da pessoa consagrada. A autonomia, o
poder-serviço e a obediência são caminhos que favorecem o processo de maturação
humano-espiritual na instituição religiosa. Poder-dominação, dependência e
infantilismo são sinais de imaturidade. O processo de maturação humano-espiritual
na Vida Religiosa Consagrada implica responsabilidade pessoal e responsabilidade
institucional e é fundamental para uma fidelidade criativa ao carisma congregacional
na instituição religiosa.
Palavras-chave: Carisma. Instituição. Pessoa consagrada. Amadurecimento
humano-espiritual. Autonomia. Poder. Obediência. Dominação. Dependência.
Infantilismo. Responsabilidade pessoal e institucional.

ZUSAMMENFASSUNG

Diese Arbeit behandelt die Beziehung zwischen Charisma, Institution und Person im
Menschlich-Geistliche Reifungs-Prozess der Geweihte Person. Die Autonomie, die
Dienungs-Kraft und dass Gehorsam sind Wege die der Prozess der Menschlich-
Geistliche Reifung in der Institution des Ordens Leben begünstigen. Macht,
Herrschaft, Abhängigkeit, Kindischkeit sind Zeigen der Unreifung. Der Prozess der
Menschlich-Geistliche Reifung im Geweihten Leben erfordert persönliche
Verantwortung und die Verantwortung der Institution und ist fundamental für eine
kreative Treue zum Kongregations-Charisma in der Ordens Institution.
Schlüssel-Worten: Charisma. Institution. Geweihte Person. Menschlich-Geistliche
Reifung. Autonomie. Macht. Gehorsam. Herrschaft. Abhängigkeit. Kindischkeit.
Persönliche und Institutionelle Verantwortung.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 5
1 O CARISMA E A INSTITUIÇÃO .............................................................................. 6
1.1 Carisma ............................................................................................................... 6
1.1.1 Carisma pessoal ................................................................................................ 8
1.1.2 Carisma congregacional ..................................................................................... 9
1.2 Instituição ......................................................................................................... 10
1.2.1 Instituinte, instituído e institucionalização ........................................................ 12
1.2.2 O desafio da humanização .............................................................................. 14
2 AUTONOMIA, PODER E OBEDIÊNCIA .............................................................. 16
2.1 Dominação, dependência e infantilismo ........................................................ 17
2.1.1 Dominação ...................................................................................................... 18
2.1.2 Dependência e infantilismo ............................................................................. 19
2.2 Autonomia, poder e obediência como caminhos de maturação .................. 21
2.2.1 Autonomia ....................................................................................................... 21
2.2.2 Poder ............................................................................................................... 23
2.2.3 Obediência ...................................................................................................... 24
3 PROCESSO DE MATURAÇÃO HUMANO-ESPIRITUAL NA VRC ..................... 28
3.1 Responsabilidade pessoal .............................................................................. 29
3.2 Responsabilidade institucional ....................................................................... 30
CONCLUSÃO ........................................................................................................... 33
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 35
INTRODUÇÃO

Carisma refere-se à graça divina. Compreende-se carisma como dom do


Espírito, ação gratuita de Deus. É chamado de Deus para um determinado serviço, e
simultaneamente, confere aptidão para desempenhar o mesmo.
Instituição compreende a organização, o sistema de regras, as estruturas, o
que é oficializado como produto do grupo instituinte.
Carisma e instituição são elementos constitutivos da Vida Religiosa. A relação
e a tensão entre carisma e instituição, instituinte, instituído e dinâmicas de
institucionalização atuam sobre o processo de amadurecimento humano-espiritual
da pessoa.
Dominação, dependência e infantilismo são sinais da imaturidade. Autonomia,
poder e obediência são possíveis caminhos para a maturação da pessoa
consagrada.
Procurar ler na trama da relação entre carisma, instituição e pessoa alguns
dos elementos que favorecem ou dificultam o crescimento humano-espiritual e
vislumbrar caminhos para que a maturação aconteça, constituem o desafio deste
trabalho.
1 O CARISMA E A INSTITUIÇÃO

Carisma e instituição são dois elementos constitutivos da Vida Religiosa


Consagrada (VRC).

Carisma e instituição constituem os dois pólos estruturantes do acontecer


histórico da Vida Consagrada. De um lado o carisma, o dom do alto, a
graça, o Espírito. Do outro, a lei, a instituição, a trama social dos grupos,
organizações e instituições do tecido social. As formas que assumem na
história esses dois elementos identificam-se com as formas da Vida
Consagrada no tempo e no espaço (LOSADA et al., 1999, p. 16).

O equilíbrio entre os pólos, carisma e instituição, garante a vitalidade da


congregação no decorrer da história. “Quando a Vida Consagrada se reduz ao
carisma, termina se diluindo no mundo da fantasia e do caos. Quando se reduz ao
elemento institucional, vira corpo social mumificado, atropelado pela burocracia, sem
vida” (LOSADA et al, 1999, p. 16).

1.1 Carisma

Conforme o Dicionário Teológico da Vida Consagrada (TVC), “o termo


carisma é vocábulo procedente da raiz grega char e se refere ao objeto e resultado
da graça divina (charis): algo que produz bem-estar, um dom outorgado por Deus
aos crentes de qualquer ordem ou grau” (1994, p. 89).
Teologicamente, compreende-se carisma como dom divino, ação gratuita de
Deus, dons do Espírito. É o chamamento de Deus para um determinado serviço,
acompanhado da aptidão para desempenhar o mesmo. O carisma é fruto da ação
do Espírito que se traduz em serviço para a comunidade; impulso interior com
dinamismo criativo e renovador.
7

Historicamente, o termo carisma se apresenta sob diferentes formas e


compreensões. Na literatura néo-testamentária, particularmente nas Epístolas de
São Paulo, a palavra carisma é rica de significado. Nos primeiros séculos do
cristianismo “o uso da palavra carisma passou logo a ser raro e como tendência
prevalecente assume as características do extraordinário” (Dicionário TVC, 1994, p.
91).
Santo Tomás de Aquino, grande teólogo da Idade Média, apresenta os
carismas como

[...] sinais da credibilidade da Igreja. Podem acompanhá-la ao longo de sua


história, sobretudo o sinal da profecia. Da mesma opinião é João Gerson, o
qual, citando Isaías, afirma que a mão do espírito não se retirou e ainda
hoje pode fazer as mesmas coisas, e ainda maiores, do que nos tempos
antigos (Dicionário TVC, 1994, p. 91).

Após o Concílio de Trento “a teologia amplia o conceito dos carismas para


além dos limites da igreja primitiva. Define-os como [...] dons excepcionais e
extraordinários que Deus concede a alguns cristãos não para seu bem pessoal, e
sim para o bem de toda a igreja” (Dicionário TVC, 1994, p. 91).
Os anos que antecederam o Concílio Vaticano II continuam marcados pela
incerteza e variedade de opiniões a respeito da permanência ou não do carisma na
Igreja.

“Podemos dizer que se o eclipse do fator carisma se explica frequentemente


como o resultado da confrontação dialética entre autoridade-instituição e as
efervescências carismáticas, essa explicação não é mais do que o
esquematismo rígido e superficialmente reduzido, porque o processo é
muito mais rico e articulado” (Dicionário TVC, 1994, p. 92 e 93).

Conclui-se que não é possível aceitar a tese de que igreja carismática e igreja
hierárquico-institucional sejam realidades antagônicas.
Com o Concílio Vaticano II, restituiu-se o significado primeiro ao termo
carisma. Visto, agora, não mais de forma reducionista, mas de forma mais ampla e
plena, não limitado a compreender os fatos extraordinários, mas, também, os mais
simples e comuns. Instaura-se uma eclesiologia na qual os carismas começam a ser
considerados a partir do interior da Igreja-Comunhão, no mistério do Corpo Místico
de Cristo, com equilíbrio entre dimensão institucional e carismática da Igreja.
8

Graças ao Vaticano II e a toda evolução que teve, a noção de carisma


acabou sendo uma das mais empregadas no atual processo de renovação
da vida consagrada. Entre os numerosos carismas mediante os quais o
Espírito anima e guia a Igreja, o mais destacado é o carisma da vida
consagrada que, no decurso dos séculos, atualiza de diferentes formas o
apelo ao seguimento de Cristo pelo caminho dos conselhos evangélicos
(OLLA, 2008, p. 36).

1.1.1 Carisma pessoal

A expressão carisma indica, ao mesmo tempo, a bondade daquele que


oferece o dom, e a gratidão suscitada na pessoa beneficiada.
São Paulo emprega a expressão carisma para diferentes contextos, porém,
há um sentido fundamental: “trata-se de um dom da graça no âmbito moral ou
existencial; a concretização e identificação pessoal da graça salvífica concedida por
Deus” (OLLA, 2008, p. 32).
Paulo lê nos carismas a ação e a eficácia da única graça, oferecida benévola
e gratuitamente pelo único Espírito, que se diversifica sensivelmente em cada
pessoa singular (1 Cor 12,4.12-27), a fim de produzir em cada uma delas
determinada capacidade, apta para servir a toda a comunidade eclesial (1 Cor
14,12).
Paulo distingue vários tipos de carismas oferecidos a cada pessoa, porém
constituem dons orientados para o bem comum do corpo místico. “Cada um recebe
o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos” (1 Cor 12,7). A atitude de
quem recebe o carisma, dom gratuito de Deus, não deve ser de posse egoísta, mas
de acolhida e resposta à iniciativa de Deus que chama e capacita a pessoa para
colaborar em seu plano de amor. “Mesmo mediante a diversidade de dons, o espírito
jamais justifica o individualismo” (OLLA, 2008, p. 33). O Espírito integra todos os
fiéis, na diversidade de carismas, como num único corpo, edificando o Reino de
Deus na comunhão e reciprocidade.
Na VRC, cada membro da congregação “dá uma contribuição original para o
caudal comum, porque, embora todos sejam portadores do mesmo dom, cada um o
recebe e enriquece com a própria originalidade” (RIBEIRO, 1994, p. 91).
9

1.1.2 Carisma congregacional

Logo após o Concílio Vaticano II nasce a expressão carisma dos fundadores.


O papa Paulo VI, em 1971, inaugura a terminologia na Exortação Apostólica
Evangélica Testificatio (ET). Nesse documento consta também, pela primeira vez, a
expressão carisma da vida religiosa.

Alguns autores distinguem entre carisma de fundação, dom que habilita uma
pessoa a iniciar uma nova fundação, e carisma de fundador, que tem
relação com o conteúdo do dom inerente a qualquer fundador para
perceber, viver, e mostrar na história, uma experiência particular do mistério
de Cristo [...]. Na realidade, o carisma de fundação e o carisma de fundador,
são duas vertentes duma mesma realidade que se exigem mutuamente
(GÓMES, 2000, p. 159 e 160).

O carisma de fundador é dom pessoal e particular e é intransferível. “Estando


na origem da experiência da fundação, o carisma do/a fundador/a apresenta as
principais linhas espirituais que caracterizam a identidade própria do instituto, sua
missão na Igreja, sua espiritualidade” (OLLA, 2008, p. 37).

O carisma dos Fundadores é uma experiência do espírito comunicada aos


seus discípulos para que vivam segundo a mesma, a guardem, aprofundem
e desenvolvam em sintonia com o Corpo de Cristo sempre em crescimento
(Mutuae Relationes, 1978, 11, apud RIBEIRO, 1994, p. 89).

O carisma do/a fundador/a, vivido, comunicado e partilhado no decorrer da


história passa a constituir o carisma congregacional. Assim, a expressão coletiva do
carisma do/a fundador/a torna-se o carisma do instituto. A compreensão, o
desenvolvimento, a atualização e o enriquecimento do carisma do fundador é
manifestação da força criadora e renovadora do Espírito que o carisma carrega em
si desde a sua origem.
A identidade, a fidelidade e a criatividade dos membros do instituto
esclarecem e traduzem em diferentes tempos e contextos as “possibilidades
genéticas contidas no carisma do/a fundador/a” (OLLA, 2008, p. 37).
O carisma congregacional consiste não só em aprofundar ou guardar como
herança o carisma do/a fundador/a, mas em desenvolvê-lo no decorrer da história,
fazendo dele uma interpretação dinâmica à luz da realidade humana, das
necessidades da Igreja e dos sinais dos tempos.
10

Estabelece-se relação entre o carisma congregacional, a vida e o carisma


pessoal dos que são impulsionados pelo Espírito a manter viva e dinâmica a
inspiração fundante com todo o seu potencial e suas possíveis expressões no
decorrer da história. O carisma fundacional “é como um dinamismo vital, uma
experiência que se faz incessantemente, e não como algo estático” (RIBEIRO, 1994,
p. 86).
Segundo H. Küng, “Carisma, vocação, serviço andam intimamente ligados e
terminologicamente invadem parcialmente os campos um do outro” (RIBEIRO, 1994,
p. 84). O Espírito distribui os seus dons capacitando pessoas para os serviços
necessários ao desenvolvimento, renovação e crescimento da Igreja.
O carisma de um instituto ou Congregação é

[...] uma comunicação especial do Espírito, mediante a qual Este escolhe e


configura com Cristo determinadas pessoas [...] e as torna aptas a
desempenhar determinada missão na Igreja, em comunidade de vida e em
convergência com outros carismas diferentes dentro do Plano Salvífico de
Deus (RIBADENEIRA, apud RIBEIRO, 1994, p. 85).

Vivenciar o carisma congregacional implica na “maneira concreta de ser para


Deus e a maneira concreta de ser para os homens” (RIBEIRO, 1994, p. 86). É o
modo próprio e original de atualizar o mistério de Cristo e de viver o Evangelho.

1.2 Instituição

A instituição é meio “necessário para que a VR ganhe corpo social” (LOSADA,


et al, 1999, p. 18). É elemento constitutivo e de fundamental importância. Entretanto
é temática polêmica e pouco abordada.
A institucionalização está “presente em qualquer processo civilizatório,
pretérito ou contemporâneo, pujante ou modesto, subdesenvolvido ou desenvolvido.
A história nos mostra que estamos condenados à instituição [...]” (PEREIRA, 2003,
p. 205).
A instituição é uma necessidade inerente à nossa condição humana.
11

A instituição é um mal necessário e, portanto, um bem. A ambivalência pode


ser explicada a partir da definição de que a liberdade é o conhecimento da
necessidade. Se a instituição é um mal necessário, ela implica,
necessariamente, um conhecimento da necessidade. Nesta medida, e a
partir da definição considerada, ela é um passo à frente no sentido da
liberdade e, portanto, constitui um bem, já que aponta para a liberdade, bem
supremo (PEREIRA, 2003, p. 206).

A relação instituição e carisma é assim descrita por Leonardo Boff, na


perspectiva eclesial:

O carisma é mais fundamental que o elemento institucional. O carisma é a


força pneumática (dynamis tou Theou) que instaura as instituições e as
mantém vivas. [...] Por isso, o princípio de estruturação na Igreja não são as
instituições, nem a hierarquia, mas o carisma que está na raiz de toda
instituição e de toda hierarquização (BOFF, 2005, p. 321).

Quando Leonardo Boff se refere à raiz de toda instituição, inclui, obviamente,


a instituição Vida Religiosa e aponta para o lugar, características e finalidade da
instituição. A instituição é meio que deve favorecer o desenvolvimento do carisma. A
instituição deve estar para o carisma, externando seu dinamismo transformador e
criador na realidade concreta de cada tempo.
A Vida religiosa é “estruturada em comunidades locais, comunidades
provinciais e comunidades congregacionais, correspondentes aos três níveis do
tecido social: grupos, organizações e instituições” (LOSADA, et al, 1999 p. 17). Há
estreita relação entre os diferentes níveis, sendo que a instituição permeia e
perpassa todos eles.
Por instituição se compreende

um conjunto de tradições, de regras e regulamentos, convenções, acordos,


atividades, programas, dentro da estrutura hierárquica, administrativa e
jurídica que perpassam a vida milenar da Igreja. E ainda, é o sistema de
prescrições, de desejos e de proibições ideológicas que deverão ser
introjetados pelos participantes para serem seguidos ou abolidos e,
finalmente, o conjunto do sistema simbólico produzido pelas instituições
sociais que atravessam entre si a vida das organizações e dos grupos
comunitários (PEREIRA, 2003, p. 205).

É fundamental considerar a instituição não como realidade pronta, fechada e


plenamente madura. A relação dinâmica entre o instituinte, o instituído e a
institucionalização faz da instituição “um ser inacabado, uma espécie de ato
permanente, um projeto em construção, um rio que não pode parar” (LOSADA, et al,
1999, p. 39).
12

1.2.1 Instituinte, instituído e institucionalização

É fundamental considerar estes três elementos constitutivos da instituição: o


instituinte, o instituído e a institucionalização. Instituinte é a pessoa, o sujeito que
institui, cria, determina, estabelece, renova. Instituído é o que já está na instituição
como lei, organização, determinação, orientação. Institucionalização é o ato de
instituir, processo de construção, dinâmica que torna instituído.
A dinâmica entre instituinte, instituído e institucionalização envolve discurso,
práticas e organização. A relação dialética entre discurso, práticas e organização dá
consistência, solidez e dinamismo à instituição.
O discurso institucional compreende a caracterização e a determinação da
identidade social da instituição. São fundamentos, propostas e objetivos definidos,
reconhecidos e necessários para a sociedade, para a Igreja e para a VRC. É a
dimensão que deve apontar para o ideal da instituição. Por sua vez, cada instituição
tem seu discurso, código e linguagem específicos. Na dimensão do discurso é
fundamental o aspecto da palavra como “ato criador, de posse e exercício de poder”
(LOSADA, et al, 1999, p. 35).
Na instituição são necessários o discurso ou palavra instituída e a palavra
instituinte. Os sujeitos da palavra, a linguagem viva, a dinâmica dialética do
instituinte, do instituído e da institucionalização garantem a vida da instituição.

Como o coração, a linguagem institucional precisa bater em ritmo de sístole


e de diástole, ter consistência interna e se abrir para fora. Fechando-se
mofa. Escancarando-se, termina por se diluir. O único jeito de uma
instituição acompanhar a história é não perder o sentido dinâmico e dialético
da própria linguagem institucional enquanto instituinte e instituída. As
congregações que souberam ser criativas tiveram a capacidade de se
renovar dentro de si mesmas e não morreram (LOSADA, et al, 1999, p. 36).

Na instituição as práticas devem afirmar e traduzir na realidade concreta o


discurso. A organização garante a coerência, a relação construtiva, criativa e
dialética entre discurso e práticas.
A instituição não bem articulada em seu discurso, práticas e organização
acaba se fragilizando, podendo chegar ao desaparecimento. Se há “um excelente
discurso, traduzido em objetivos bem definidos” (LOSADA, et al, 2009, p. 25), mas
sem práticas e organização, o próprio discurso acaba em si mesmo. A instituição
13

movida por práticas não fundamentadas num discurso consistente e coerente com o
carisma e com a realidade e necessidades concretas se perde no ativismo, na ação
sem sentido e cansando no fazer pelo fazer. Por outro lado, carecendo a
consistência organizacional, mesmo com discurso e práticas definidos, a instituição
acaba se diluindo.
Cabe, também, considerar as dimensões da lei e do desejo na trama
institucional. A lei está no âmbito da instituição e o desejo no âmbito do carisma.
O desejo e a lei constituem fator determinante na formação da pessoa
humana. “Todo o processo formativo do ser humano, na condição de sujeito pessoal,
poder-se-ia identificar com a forma que assume a organização das relações entre o
desejo e a lei, na biografia de cada indivíduo” (LOSADA, et al, p. 40).
Na relação entre desejo e lei encontram-se diferentes modos de expressão.
Quando prevalece o desejo sem lei, depara-se com um indivíduo amoral, perverso, a
quem tudo é permitido, contanto que seus desejos sejam satisfeitos. Numa
instituição, trata-se do instituinte fechado em si mesmo, em seus interesses
egoístas. De outro lado, o desejo oprimido pela lei, faz a pessoa negar ou reprimir
seus desejos. “Dessa forma, o indivíduo se transformou em objeto-de-desejo-do-
outro”. (LOSADA, et al, 1999, p. 43). A instituição dominou o indivíduo. “[...] é o que
ocorre com as pessoas inibidas, neuróticas, obsessivas, legalistas e fanáticas [...]”
(LOSADA, et al, 1999, p. 44). Essas pessoas se fixam no instituído, na lei,
suportando-a e até defendendo-a. Lei que por elas nunca foi assumida e
personalizada. A função da lei torna-se, então, proibitiva e limitadora.
A relação ideal entre desejo e lei está no desejo segundo a lei. Aqui, o desejo
do sujeito

foi se inscrevendo, de acordo com a lei que o indivíduo foi interiorizando e


assimilando, deixando-se configurar por ela até fazê-la “sua”, convertida já,
para ele, em norma-valor e em canal de expressão de suas atitudes mais
pessoais e coerentes (LOSADA, et al, 1999, p. 44).

Neste contexto, a lei tem uma função estruturante e pedagógica.


A instituição que transforma a lei, o instituído, em normas obsoletas e
cristalizadas, caminha para o envelhecimento e a burocratização. A lei passa a ser
apenas o elemento estruturador esclerosante, abandonando a inspiração e o
14

dinamismo fundante. Deste modo, a instituição se torna cada vez mais rígida, com
estruturas pesadas, levando à morte os indivíduos e a instituição.

Quando a lei prevalece sobre o desejo e o instituído sobre o instituinte,


acontece o fenômeno da burocratização [...]. Uma instituição assim cava
sua própria sepultura. Isto porque se perde o equilíbrio entre desejo e lei,
entre instituinte e instituído (LOSADA, et al, 1999, p. 47).

Na relação desejo e lei, na instituição VR, são necessárias duas atitudes


fundamentais: por um lado, atenção e abertura aos desejos dos indivíduos, grupos e
organizações, por outro, renovação das normas, conforme a realidade e as
necessidades do respectivo tempo.
Na VR, há instituições que transferem a responsabilidade dos conflitos,
problemas, imaturidades aos indivíduos, assumindo, diante dos membros da
instituição, atitude defensiva; por parte dos membros, há os que se moldam e se
identificam ingenuamente com as estruturas da VR, dando importância excessiva à
dimensão estrutural; há os que assumem atitude crítica diante da instituição,
compreendendo que há uma rede de agenciamentos que exercem influência sobre
os indivíduos e vice-versa.

Em nível estrutural, as instituições da Vida religiosa obedecem à mesma


dinâmica das instituições do tecido social. Os religiosos grudam nelas,
defendem-se delas ou, assumem uma atitude crítica perante as mesmas.
Porém, como todo mortal, também eles são os “terminais” de um
equipamento coletivo, que os guia e empurra na vida. Também na Vida
Religiosa o desejo é capturado, com muita freqüência, por determinado tipo
de instituição opressora. Não é necessário experiência clínica para perceber
isso. Está escrito com letras maiúsculas no rosto de muitos religiosos
murchos, encolhidos diante da vida ou neuróticos (LOSADA, et al, 1999, p.
51).

1.2.2 O desafio da humanização

Carisma e instituição constituem a VRC. Porém, a dimensão carismática é


essencial e mais fundamental que o elemento institucional. Esta perspectiva constitui
o grande desafio para a VRC na história e é determinante para os seus membros.
O instituto que garante a perspectiva carismática possibilita que seus
membros sejam instituintes, articulando positivamente e de forma criativa e
15

construtiva os carismas pessoais e o carisma congregacional. As relações


interpessoais são elemento fundamental neste processo. Implica, também, a
presença de conflitos e de tensão dialética entre instituinte, instituído e a
institucionalização. É necessária postura aberta e crítica diante do instituído, das
dinâmicas de institucionalização e das motivações, desejos e processos
desenvolvidos pelos instituintes.
O discurso, a linguagem e a qualidade da comunicação entre as comunidades
locais, provinciais e congregacionais possibilita a participação responsável nos
processos de discernimento e de decisão na busca da vivência e fidelidade ao plano
de Deus no carisma congregacional.
O desafio da humanização na instituição Vida Religiosa passa pelo desafio de
a VRC permanecer sob o pólo e a perspectiva do carisma. Deste modo, são
potencializados os carismas pessoais e congregacionais, no Corpo Místico de Cristo,
em vista da construção do Reino de Deus.
2 AUTONOMIA, PODER E OBEDIÊNCIA

A relação entre carisma e instituição se dá através de pessoas humanas


numa realidade histórica concreta. A vivência ou não do carisma, as características
da instituição e o modo como se articula são determinados pelas pessoas em suas
comunidades, províncias e congregações. Por outro lado, os membros da instituição
religiosa são afetados pelo clima institucional existente.
Neste contexto é fundamental que as religiosas/os estejam numa dinâmica
permanente e constante de amadurecimento humano espiritual. A imaturidade
muitas vezes impede que a pessoa reconheça e desenvolva seus carismas
pessoais, dificulta a identificação e a integração dos carismas pessoais com o
carisma congregacional, colocando-se a serviço dos próprios interesses egoístas ou
agindo apenas por conveniência, ao invés de traduzir o carisma em doação, serviço,
caridade ao próximo, em especial, ao mais necessitado.

A VR supõe dos religiosos uma sólida base de humanidade. Entende-se


humanidade como capacidade de ser oblativo, de doar-se, de ser-para-os-
outros, de romper a tirania do egoísmo e fazer do amor a pauta do agir. [...]
As comunidades religiosas têm como vocação ser “oásis de humanidade”
num mundo onde a desumanidade assume contornos assustadores, na
maldade e na crueldade requintadas, que só o coração humano pervertido
pode produzir (VITÓRIO, 2009, p. 450 e 451).

O desafio da humanização na VRC aponta para o processo de maturação de


seus membros. Isto se dá especialmente no âmbito das comunidades religiosas. Faz
parte do ideal da VRC, o processo de amadurecimento de toda a comunidade, num
cultivo sincero e permanente. Por outro lado, cabe à comunidade religiosa ser um
desafio para a pessoa individualmente, a fim de que esta possa amadurecer por
meio da comunidade e participando dela integralmente. Nestas duas dimensões,
pode-se contemplar a maturidade e a imaturidade da comunidade, e a própria
comunidade como espaço de amadurecimento da pessoa ou não.
17

A autonomia, o poder e a obediência vividos e desenvolvidos nas


comunidades religiosas, províncias e congregações, na perspectiva do carisma,
contribuem no processo de maturação na instituição religiosa.

2.1 Dominação, dependência e infantilismo

As instituições que não promovem processo aberto e dialético entre


instituinte, instituído e institucionalização e não dialogam com a realidade e se
fecham aos sinais dos tempos, desencadeiam processos de dominação,
dependência e infantilismo e acabam estagnando a vida das pessoas e da
instituição. Inibe-se a força dos instituintes e reforça-se o instituído, gerando clima de
desconforto, descontentamento ou acomodação entre seus membros.

Aliás, a idéia de acabamento aparece, na história, ligada a dominação.


Quando uma cultura se impõe sobre outra, ou quando uma classe sobe ao
poder, proclamam a estabilidade e a maturidade institucionais. Uma
espécie de “tempos messiânicos”. [...] Os conceitos de acabamento e de
naturalidade acabam passando a idéia de fixidez e de congelamento
institucionais que evocam estabilidade e morte (LOSADA et al, 1999. p.
39).

Na instituição Igreja e na VR há o perigo do mau uso do poder e da


dominação, impossibilitando a presença e ação revitalizadora do Espírito expresso
nos diferentes carismas pessoais e congregacionais.

Se houver repressão de um sobre o outro, vontade de poder, então passa


a funcionar o espírito “humano” em vez do Espírito de Cristo. Sufoca-se a
liberdade para a qual Cristo nos chamou e vocacionou (Gl 5,1s). Recaímos
no regime do legalismo, do farisaísmo e do judaísmo decadente. Por isso,
é severa a admoestação de Paulo: “Não afogueis o Espírito” (1Ts 5,19). A
permanente tentação da Igreja e de seus membros é o poder de uns sobre
os outros. De um carisma prevalecer sobre outro carisma e até de reduzi-lo
ao silêncio. Então não entra mais a escuta, mas a fala imperiosa, e os
imperativos da lei se fazem repressores. Então corre-se o risco dia-bólico
de se transformar a Igreja não numa comunidade dos que crêem, isto é,
dos que ouvem a Palavra de Deus, do Espírito e do Ressuscitado, mas
numa comunidade que ouve apenas dogmas, leis, ritos, prescrições
canônicas, exortações edificantes. Mas não a palavra libertadora do
Espírito (BOFF, 2005, p. 322).
18

Onde há dominação de um lado e dependência e infantilismo do outro, a


escuta, o diálogo, a participação e os processos de discernimento ficam
inviabilizados, predominando a figura do dominador sobre os dominados. Neste
caso, a imaturidade humano-espiritual se faz perceber fortemente e tende a crescer.

2.1.1 Dominação

A dominação de uns sobre outros revela imaturidade. Há presença de


insegurança, desconfiança, medo do diferente, da mudança e do novo e, por isso,
necessidade de controlar tudo e todos, determinar antecipadamente, silenciar quem
pensa diferente, agradar ou adular os que se deixam dominar ou que ameaçam a
postura de dominação, impedir ou direcionar os diálogos, desarticular fraternidades e
comunidades e boicotar projetos comuns.
Este modo de ser prejudica a VRC desde as pessoas individualmente e suas
comunidades até províncias e congregações.
Há dificuldade maior quando a dominação está nas coordenações locais,
regionais ou gerais. William Pereira denomina de “função perversa da instituição”
(2003, p. 207) quando a estrutura institucional está a serviço de privilégios,
corrupção, injustiça e interesses pessoais.

Os agentes institucionais religiosos desviam [...] as finalidades de


apaziguamento e constroem outras finalidades para si próprios. Esses
objetivos possuem três características que fundamentam a sua existência e
a sua permanência. Primeiramente, as instituições estão fundadas num
“saber”. Este saber tem força de lei e se apresenta como expressão de
uma verdade absoluta. Aos participantes cabe apenas absorver [...] este
saber como norma a ser seguida, buscando sempre a construção do ideal
projetado para ela, [...]. A segunda característica institucional é a eleição de
uma “pessoa central mítica” que se reveste de uma roupagem “deísta” ou
“paternal”. Esta conexão entre a paternidade e o suposto saber do mestre
cria, ainda, uma maior onipotência em torno dessa relação transferial,
estabelecendo entre essa figura e seus membros inúmeros processos de
identificação, de projeção, de introjeção de seus valores, condutas, [...]
infantilismo, regressão e culpabilidade (PEREIRA, 2003, p. 207 e 208).

A realidade institucional, caracterizada por relações de dominação, tende a


diminuir e até fazer desaparecer a participação responsável, o desejo inovador e a
força criadora dos carismas pessoais e congregacionais.
19

2.1.2 Dependência e infantilismo

A dependência e o infantilismo são sinais da imaturidade humano espiritual,


assim como, também, a dominação.
Estas imaturidades podem se originar de falsas compreensões de poder,
autoridade, autonomia e obediência. Compreensões, fruto das mais diversas
experiências na trama das relações interpessoais. Há religiosas/os que vivem a
obediência como dependência, nada decidindo sozinhas/os e fugindo de toda e
qualquer responsabilidade.

O jesuíta Raymond Hostie comenta esta obediência infantil: “Quando a


obediência é praticada sob o lema “A mãe mandou”, quando a pobreza é
compreendida apenas no sentido de não poder satisfazer a nenhum desejo
sem pedir permissão... então a vida religiosa levará necessariamente a
uma regressão ao estado infantil” (GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 123).

Em estado de dependência e infantilismo, a pessoa apresenta grande


dificuldade em perceber e reconhecer responsavelmente seus desejos, suas
potencialidades e vontades. A dependência e o infantilismo podem ser assumidos
como fuga da própria responsabilidade diante dos carismas pessoais e da vocação e
missão a que a pessoa é chamada. Ela passa a procurar a si mesma e as suas
vantagens próprias, mantendo a infantilidade e a dependência. Facilmente aceita a
determinação de outros e iguala, ingenuamente, a vontade do/a superior/a à vontade
de Deus. Isto dificulta o desenvolvimento de uma consciência madura e só piora
quando os que exercem autoridade reforçam a situação com a dominação,
autoritarismo e desconfiança, assumindo o papel de mãe-superiora ou pai-superior.
A comunidade ou instituição religiosa que não desafia ao crescimento
pessoas com tendências à dependência e infantilismo, mas, ao contrário, as protege
e acomoda, perde a possibilidade ela mesma de crescer e amadurecer como
comunidade bem como seus indivíduos. A superação da dependência e do
infantilismo se dá na comunidade quando esta busca efetivamente abandonar a
tentação de ser substituta da superprotetora figura materna, ajudando a pessoa a
ser autoresponsável e proporcionando ambiente favorável à liberdade responsável
de viver a própria vida.
20

Anselm Grün aponta para a dificuldade existente de religiosas/os que no


campo profissional são capazes de tomar iniciativas e decisões e, na comunidade
religiosa, não têm participação efetiva.

[...] há frequentemente um grande abismo entre a competência que alguém


possua em sua atividade profissional e sua falta de autonomia e
incompetência dentro da comunidade. No âmbito da profissão, uma pessoa
pode tomar decisões autônomas e bem fundadas, sobre questões
delimitadas ou de amplo alcance. Na comunidade, porém, vê-se
constantemente confrontada com o fato de precisar pedir tudo, procurar
permissão para tudo, de não ter voz nas grandes decisões. A pessoa é
solicitada como mão-de-obra, mas não é respeitada como ser humano com
direito a informação e a ter voz. Com toda a razão, tal discordância entre
competência e respeito na esfera profissional e infantilismo na comunidade
pesam muito sobre as pessoas e as dilaceram (2008, p. 132 e 133).

Há, também, o perigo da profissionalização desarticulada da opção pela VRC


ou, ainda, a tendência de prolongar para dentro da comunidade a posição
profissional.
As relações imaturas de dominação e dependência têm em sua base a
experiência de desamor. A pessoa não se sente suficientemente acolhida, amada e
valorizada. Por isso, garante as pessoas perto de si, dominando-as ou deixando-se
dominar. Esta relação gera insegurança e superficialidade, pois bloqueia a liberdade
de ambas as partes. Agravante é o fato de muitas vezes haver reciprocidade
inconsciente consentida na relação dominador-dependente.

[...] os dominadores criam dependentes, não permitindo que se arrisquem e


conquistem seus espaços, liberdade, autoconfiança e gestão da própria
vida. Para isso, usam formas sutis para dominar, como recompensas,
prêmios ou slogans culpabilizantes [...], provocando medos (“vai se
arrepender se não aceitar”). De outro lado, os dependentes precisam de
segurança, e para isso abrem mão de sua própria autonomia, delegando o
cuidado de si aos dominantes, também de forma sutil: pela idealização,
pela supervalorização, pela complacência, pelo aplauso, pelo elogio. Em
ambas as situações, a relação é infantilizante (BALDISSERA, 2005, 143).

Superar estes vícios nas relações interpessoais imaturas é o grande desafio


da comunidade religiosa em sua tarefa de mútua evangelização.
21

2.2 Autonomia, poder e obediência como caminhos de maturação

A VRC é chamada a sinalizar que é possível viver o amor, a fraternidade, a


partilha, a liberdade, a oblatividade e o compromisso com Deus e a humanidade. É o
ideal, traduzido nos diversos carismas congregacionais, enriquecido e renovado com
os carismas pessoais de cada membro dos institutos. Este ideal se concretiza a
partir de pessoas em sua capacidade de se relacionar consigo mesmas, com Deus,
com as demais pessoas e com o cosmos. Pessoas humanizadas e em processo de
amadurecimento.
Inerentes à dimensão pessoal e cristã e à vida consagrada, a autonomia, o
poder e a obediência são propostos como caminhos de maturação para a pessoa
consagrada. A maturidade humano-espiritual garante a autenticidade do testemunho
da/o religiosa/o, repercutindo positivamente não só em sua vida pessoal e
comunitária, mas também em toda congregação e junto às pessoas que
compartilham de sua presença na missão.

2.2.1 Autonomia

A autonomia vem caracterizando fortemente os tempos atuais. Também na


VRC vem sendo motivo de reflexão, estudos e até conflitos. Sem dúvida, a questão
da autonomia necessita ser contemplada.
O processo de maturação da pessoa exige que se desenvolva a própria
consciência, capaz de pensar e agir com autonomia.

Maturidade significa entrar na consciência, colocar-me em contato com o


âmago de minha pessoa, com a clareza interior sobre aquilo que é e o que
não é coerente comigo (GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 16).

Na dinâmica das instituições religiosas é necessário desenvolver, como


pessoas instituintes, a sensibilidade para perceber se a consciência não está
identificada de tal modo com a ideologia do instituto ou congregação, que se torne
norma suprema e única.
22

[...] faz parte do meu amadurecimento como ser humano poder distanciar-
me interiormente da ideologia de uma comunidade para seguir também a
minha própria consciência (GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 16).

Porém, “o desenvolvimento da autonomia vem acompanhado de um


sentimento de respeito mútuo entre os companheiros que co-participam de um grupo
[...]” (LINO, 2007, p. 148), considerando os fatores relevantes para discernir e decidir
no consenso, em vista do bem comum.
Por muito tempo a dimensão da autonomia foi negada nas instituições
religiosas. Os desejos e as necessidades pessoais foram negados, reprimidos ou
vividos às escondidas. É preciso reaprender a admitir os próprios desejos e
necessidades para, na liberdade, decidir a quais satisfazer e a quais renunciar, em
coerência com a opção feita como consagradas/os.

Para cada religioso e religiosa, o processo do amadurecimento exige


descobrir sempre mais sua consciência, para sentir o que é coerente para
si e o que o coloca em relação com a imagem que Deus fez dele ou dela.
E, ainda, a convivência numa ordem ou congregação não pode dispensar a
tarefa de descobrir e viver o próprio eu. A convivência será madura apenas
quando, nela, as pessoas tiverem encontrado seu verdadeiro ser,
confiarem em suas consciências e conseguirem uma boa reconciliação
entre as exigências da comunidade e suas necessidades pessoais.
(GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 17).

Segundo Alfonso García Rubio,

O sentimento de autonomia, bem como a confiança, são indispensáveis


para o amadurecimento da afetividade, para a vivência de encontros
realmente humanos e, sem dúvida, para o encontro com um Deus, que é o
fundamento último da autonomia e da liberdade pessoais (2006, p. 86).

A autonomia, vivida em coerência com a própria imagem pessoal criada por


Deus e com a vocação que a pessoa é chamada a viver, constitui elemento
fundamental para o amadurecimento humano-afetivo-espiritual.
23

2.2.2 Poder

Considerar o poder na VRC como caminho de maturação implica fundamentá-


lo nos princípios evangélicos. Jesus é a fonte inspiradora para o exercício do poder,
especialmente seu gesto de lavar os pés dos discípulos e sua autoentrega
incondicional na cruz. O poder de Jesus liberta, faz viver e salva.
Em nossas congregações, o exercício do poder está devidamente
fundamentado em documentos. O desafio está na coerência entre discurso e prática.
Em se tratando do poder na VRC, Afonso Murad apresenta a necessidade de
abordar juntos poder e participação devido aos diferentes questionamentos, pontos
de vista e posições que aparecem nas relações de poder dentro das instituições.
Considera que ambos, poder e participação, são ambíguos, pois trazem em si a
dimensão positiva e a negativa. Murad apresenta elementos a serem considerados a
fim de se avaliar o uso do poder e da participação:

Decisivos para avaliar se eles são usados para o bem será a finalidade
(para que), o jeito de fazer, os valores que estão envolvidos, e os
destinatários (para quem). De qualquer forma, é preciso deixar claro:
mesmo que um processo seja orientado para a causa do Reino, isso por si
só não justifica a concentração do poder e a consequente falta de
participação. [...] Na Vida Consagrada, em especial, a participação e o
exercício do poder passam pelo crivo das seguintes questões: para que,
para quem, como e com qual espírito. Elas, juntas, são o critério prático de
sua validação. (MURAD, 2007, p. 128 e 142).

Os critérios apresentados apontam para o verdadeiro sentido do poder e da


participação que devem ser exercidos em clima de oração e vigilância,
discernimento, participação e corresponsabilidade.
Conforme Deolino Pedro Baldissera, “o problema não é o poder, mas quem o
exerce, como o exerce e para qual finalidade” (2005, p. 149).
No decorrer da história da Igreja e da VRC, diversos são os modelos de
exercício ou relações de poder. Há o modelo do predomínio da instituição com
acento na uniformidade e centralização de decisões. Outro, centrado na
comunidade, podendo ser ela autocentrada, fechada sobre si mesma ou inserida,
aberta e solidária. E, ainda o modelo caracterizado pelo poder centrado no indivíduo
que determina os próprios comportamentos e se julga centro de decisões.
24

Nestor Inácio Schwerz, analisando os diferentes modelos de relações de


poder, indica a busca de um novo modelo.

[...] é preciso superar o binômio superior-súdito, dependência-


independência para passar à lógica da reciprocidade, da interdependência,
da corresponsabilidade, da colegialidade e da subsidiariedade. É preciso
promover a ação responsável de todas/os, segundo o papel próprio e as
próprias capacidades, em vista da vivência e realização do projeto
evangélico de vida. Isso faz amadurecer, educa para a participação e o
envolvimento de cada membro na busca do bem comum e do
discernimento, valoriza as qualidades, fomenta a interdependência, a
obediência recíproca e faz a comunidade assumir-se como sujeito coletivo.
Evita o individualismo e infantilismo, o sentimento de inutilidade e
marginalidade, o paternalismo/maternalismo e o estado paralizante de uma
parcela da comunidade ou a formação de grupos de poder paralelo (2005,
p. 32).

O novo modelo descrito indica vários aspectos relevantes como caminhos de


maturação nas relações de poder. São significativas as novas noções de poder que
vão sendo gestadas, por exemplo, “discipulado de iguais”, “trabalho em rede”,
“empoderamento”. Este último confere autonomia às pessoas em seus espaços de
atuação.
O exercício e as relações de poder, motivados pelo espírito de serviço e
gratuidade, beneficiam as dinâmicas de organização das comunidades religiosas e
seus institutos. O poder, a partir do Evangelho, reveste a pessoa, a comunidade e o
instituto com capacidade e grande responsabilidade em gerar e promover a vida em
suas mais diversas dimensões.

2.2.3 Obediência

Assim como autonomia e poder são temas polêmicos no interior da VRC, a


obediência é polêmica e, em muitos contextos, sua vivência está em crise.
Autonomia, poder e obediência são elementos existenciais que se
entrelaçam. Com certeza, são complexos, porém, importantíssimos para garantir a
saudável tensão entre carisma e instituição, instituinte e instituído, desejo e lei, no
caminho de busca da fidelidade a Deus e à causa do seu Reino.
25

A reflexão teológica sobre a obediência fundamenta-se na pessoa de Jesus


Cristo, o obediente do Pai.

[...] devemos entender que a obediência religiosa fala de um mistério divino


que revela para nós o processo contínuo da salvação em e por Cristo. E,
mais desafiador, esclarece nossa participação ativa nesse processo
salvífico para salvar o mundo de hoje através de nossa obediência.
Obediência religiosa simplesmente é um desejo sincero de querer
continuar profeticamente a obediência de Jesus Cristo e participar com ele
na salvação do mundo hoje, que é a vontade de nosso Pai (KEARNS,
2002, p. 40).

Ser obediente implica, portanto, entrar na dinâmica participativa da história da


salvação em circunstâncias concretas da vida pessoal, comunitária e apostólica.
Isto requer um ato profundo de fé, de busca da vontade de Deus, na oração
contemplativa, nas relações interpessoais dentro e fora da comunidade religiosa, no
acontecer histórico e nos sinais dos tempos.
Abílio Pina Ribeiro apresenta condições necessárias para viver a obediência:
amor apaixonado pela vontade de Deus; desejo de uma liberdade autêntica;
desenvolvimento do espírito de fé; amor à comunidade, à Igreja e ao mundo;
mobilização total da pessoa e da pessoa total na busca da realização da vontade
divina (1994, p. 162, 163 e 164). Cabe lembrar que “[...] a obediência religiosa, longe
de diminuir a dignidade da pessoa humana, leva-a, pela liberdade ampliada dos
filhos de Deus, para a maturidade” (PC 14).
Ao se tratar de obediência, surge a questão da autoridade. O serviço da
autoridade precisa ser exercido em clima de corresponsabilidade, animando a
comunidade para a participação e o compromisso nos processos de discernimento e
decisões. Coordenar ou animar a VRC exige constante cultivo da escuta pessoal e
das/os irmãs/aos, das motivações pessoais, do discernimento à luz da Palavra de
Deus e da realidade, capacidade de gerenciar tensões e conflitos.
O serviço da autoridade “surge na comunidade, da comunidade e para a
comunidade” (RIBEIRO, 1994, p. 166). Sua missão é o serviço a cada irmã/ao para
que possa realizar o seu projeto de vida evangélico e à comunidade reunida em
torno de uma mesma vocação apostólica.

A sua função <<não é mandar, nem muito menos mandar muito, inventar
ou improvisar mandatos; mas servir, para que todos vivam o projeto
existencial de vida evangélica pelo qual foram arrebatados, e o vivam
26

comunitariamente, em fraternidade interpessoal respeitosa e solidária


(GUTIÉRREZ, p. 89 apud RIBEIRO, 1994, p. 166).

Abílio P. Ribeiro destaca que quem exerce autoridade deve ser mais coração
do que cabeça, pois, como o coração, órgão estimulante, precisa “acolher e
expandir, congregar e irradiar, reunir e enviar, observar e sugerir, escutar e insistir,
consultar e decidir” (1994, p. 167). Quanto à relação instituinte e instituído, pessoa e
obras, afirma que “a preocupação dominante não devem ser as obras, e sim as
pessoas” (1994, p. 170). Portanto, a função primordial no serviço da autoridade é
animar as/os/ religiosas/os na sua vida como consagradas/os. Isto é possível
quando quem exerce autoridade o faz no espírito de Cristo, o obediente do Pai.
Quem está no serviço da autoridade
“é chamado a fazer reviver visivelmente, irmão entre irmãos ou irmã entre
irmãs, o amor com que Deus ama os seus filhos, evitando, de um lado,
todo comportamento de dominação e, do outro, toda forma de paternalismo
ou maternalismo” (Instrução, p. 32).

A renovação da VRC passa também pela renovação da vivência da


obediência. Obediência não reduzida a um gesto de adesão à vontade de um outro
que é superior, quer dizer, uma obediência institucional, fixada pelas normas e
regras, numa articulação precisa e, por vezes, rígida nos papéis na comunidade,
onde há os que mandam e os que obedecem.
Amadeu Cencini indica a obediência fraterna como caminho de renovação e
maior autenticidade na busca da vivência do plano de Deus, destacando a
disponibilidade plena e sem simulações, garantindo e protegendo a própria
obediência do servilismo e complacência que contaminam e falseiam as relações
entre superiores e súditos. Apresenta a obediência como um

“estilo de relações fraternas, ou melhor, como partilha da mesma busca e


do mesmo caminho de adesão à vontade do Pai, que nos supera a todos e
que todos somos chamados a descobrir a cada dia, um no outro e na
pluralidade dos sinais que plenificam a vida” (2003, p. 150).

O autor não apresenta a obediência fraterna como substituta da obediência


institucional, mas indica-a como possibilidade que

amplia o seu raio de ação e aprofunda o seu sentido, estendendo até a sua
observância (não mais ligada a situações bem determinadas) e tornando-a
de certo modo ainda mais radical e evangélica, sobretudo quando
consegue subtraí-la ao âmbito puramente disciplinar-comportamental e a
27

uma interpretação e práxis unívoca e unidirecional. A obediência fraterna


restitui à obediência em si a sua função natural (procurar e realizar a
vontade divina), levando ainda mais a descobrir o papel e a função
preciosa da autoridade (como ponto de referência vinculador dessa busca).
A obediência fraterna, de fato, é e significa um modo de ser e de caminhar
juntos, de se acolher na fé, uma como mediação inestimável da vontade de
Deus para o outro, cada um responsável e necessitado da presença do
outro, verdadeira obediência da fé e na fé (2003, 150 e 151).

Diante de um mundo plural, de profundas mudanças socioculturais, “ninguém


sozinho pode julgar saber como realizar a inculturação da mensagem evangélica e
dos nossos carismas” (CENCINI, 2003, p. 152). É necessário congregar esforços
para, conjuntamente, discernir o caminho do Espírito, com liberdade de mente e
coração, aprendendo a obedecer um no outro.
Este modo de compreender e viver a obediência torna-se caminho de
amadurecimento humano espiritual para a pessoa consagrada. Obediência que
potencializa e disponibiliza carismas pessoais e congregacionais a serviço do grande
plano do amor de Deus na humanidade.
3 PROCESSO DE MATURAÇÃO HUMANO-ESPIRITUAL NA VRC

Carisma, instituição e pessoa estão em constante relação e são realidades


dinâmicas. Constroem e são construídas umas pelas outras. Desta forma, o
processo de amadurecimento humano-espiritual da pessoa consagrada está
intrinsicamente ligado ao modo como o carisma é vivido e atualizado, na realidade e
tempo histórico e no modo como se dão as dinâmicas institucionais, em fidelidade ou
não ao carisma congregacional. Assim, o processo de maturação da pessoa na VRC
é responsabilidade pessoal e institucional.
O amadurecimento humano-espiritual da pessoa se dá num processo de
crescimento permanente.

Amadurecimento humano significa que uma pessoa desabrocha, que torna


visível o que há dentro dela em termos de possibilidades e capacidades;
quando em torno dela há florescimento e frutos. E a maturidade se mostra
também quando ela sabe lidar bem consigo mesma e com as outras
pessoas, quando é capaz de relacionar-se e de trabalhar em equipe,
quando é capaz de contribuir com a formação do mundo.[...] Amadurecer no
sentido espiritual significa que cada pessoa leva à plenitude aquela imagem
singular que Deus fez dela, que realize seu próprio ser, que encontre a
forma a ela destinada por Deus. Conforme Tomás de Aquino, cada pessoa
é uma expressão singular de Deus. Existe algo de divino que pode ser
expresso somente por nós, seres humanos. O mundo seria mais pobre se
cada um de nós não representasse, a seu modo, Deus neste mundo
(GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 9 e 10).

Para a vivência da consagração na VR é necessária base humana, cristã e


espiritual. A disponibilidade e as condições para o crescimento humano-espiritual
são fundamentais para a vivência da vocação e para a fidelidade criativa ao carisma
pessoal e congregacional.
O processo de maturação só é possível quando se compreende, de fato, que
“a VR não é feita de pessoas perfeitas. [...] Cada religioso é desafiado, cada dia, a
converter-se e a colocar a vida nos trilhos da humanidade” (VITÓRIO, 2009, p. 452).
Reconhecer as próprias potencialidades e, também, as próprias carências e
assumir a atitude de crescimento levam à maturação.
29

Simultaneamente, estamos penetrados pelo “ser” e pelo “poder ser”. Ora,


conforme a afirmação de Paul Tillich, é a “herança do não-ser” a que
suscita a ansiedade, enquanto a “herança do ser“ fundamenta a coragem e
impulsiona ao agir, precisamente na procura de mais ser (RUBIO, 2008, p.
49).

A formação inicial e permanente são espaços privilegiados para planejar,


motivar, promover, intensificar, avaliar e sempre de novo retomar os processos de
crescimento dos indivíduos e comunidades, na instituição religiosa.

3.1 Responsabilidade pessoal

Amadurecer na VRC significa potencializar os carismas pessoais identificados


com o carisma congregacional para o serviço do Reino. É ser o que se é chamada/o
a ser, no sentido da verdadeira autonomia e obediência.
Os documentos congregacionais, quando se referem à formação, apontam
para a pessoa como sujeito do próprio crescimento e amadurecimento.

As Diretrizes de Formação [...] orientam o processo de formação integral da


pessoa chamada à vida de total consagração ao Senhor. [...] A vida é um
dom que, gratuitamente, recebemos das mãos de Deus. Ele nos criou à
sua imagem e semelhança, dotou-nos de dons diversos, convocando-nos à
responsabilidade de desenvolvê-los. A Irmã [...], durante toda a sua vida,
empenhar-se-á para crescer em sua dimensão relacional – consigo
mesma, com os irmãos e com o mundo [...]. Desta forma, descobre sua
própria identidade, assume ser sujeito de sua formação [...] (Congregação
das Irmãs de Santa Catarina, V. M. - Diretrizes de Formação Inicial e
Permanente, p. 7).

Como sujeito de sua formação, em vista do crescimento pessoal, a/o


religiosa/o necessita ter uma visão unitária, global e integral de pessoa.

A formação acontece num processo integrador que abarca toda a pessoa e


tudo na pessoa: sua história, seus dons e limites, seu ciclo vital e as etapas
da Vida Religiosa. A formação precisa ser integral para ser autêntica. Por
isso, leva em consideração a realidade plena, positiva e negativa dos
indivíduos e dos grupos: o eu, o tu (outros, Deus, cosmo) e o processo de
relacionamento. [...] Quando na formação falamos em processo, queremos
significar todos os mecanismos de ação e integração que existem na
pessoa e na realidade externa, bem como as dinâmicas de acesso a
ambos. O processo inclui também as diferentes expressões do eu e da
30

realidade externa. [...] No relacionamento humano não há neutralidade: ou


eles aumentam a humanização (símbolos progressivos) ou fazem a pessoa
regredir para formas mais infantis que desumanizam e diminuem a
dignidade humana (símbolos regressivos). [...] A mulher e o homem
percebem-se como pessoas com dinâmica própria, experimentando
desejos, necessidades, limites, defesas, crenças, conflitos; com valores,
motivações, em processo de superação dialética. (Província Santa Catarina
Sul-Brasileira – Plano Provincial de Formação Inicial e Permanente, p. 3 e
4).

O processo de maturação humano-espiritual na VRC é responsabilidade


pessoal. Cada religiosa/o é chamada/o a ser instituinte, que consiste em desenvolver
postura crítica diante do instituído e dos processos de institucionalização, garantir a
articulação coerente e consistente entre discurso, práticas e organização, superar a
sombra da dominação, da dependência e/ou do infantilismo, assumir o poder-serviço
na participação e contribuir corresponsavelmente para que a instituição esteja a
serviço do carisma.

3.2 Responsabilidade institucional

O processo de maturação humano-espiritual na VRC não é só


responsabilidade pessoal. É, também, responsabilidade comunitária e institucional e
tem caráter permanente.

A formação não se restringe aos primeiros anos da vida religiosa. Todas as


Irmãs, individual e comunitariamente, devem esforçar-se para procurar e
assumir os meios que favorecem a formação permanente e a fidelidade à
vocação (Constituição da Congregação das Irmãs de Santa Catarina, V.
M., 103).

As comunidades religiosas, as províncias e congregações têm a


responsabilidade de planejar e avaliar continuamente os processos formativos e
promover autênticos meios de crescimento e amadurecimento das pessoas
consagradas. Assim como pessoalmente, também na forma coletiva, as instituições
precisam assumir o movimento de uma verdadeira conversão.
“Em 1988 aconteceu em Würzburg, Alemanha, uma conferência para
superiores alemães”, com o tema “Maturidade humana na Vida Religiosa” (GRÜN;
SARTORIUS, 2008, p. 11). Falou das
31

[...] estruturas da Vida Religiosa que tornam doente e que curam, da


infantilização que, às vezes, descobrimos nas ordens e congregações, e da
possibilidade de amadurecimento e de cura. Além disso, a tarefa do
amadurecimento na vida religiosa não é apenas da pessoa individual, mas
também de toda a comunidade. A comunidade como tal deve fazer um
caminho de amadurecimento. [...] Mas, com muita freqüência, religiosos e
religiosas descobrem nela também um emaranhado neurótico de relações
e estruturas (GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 11 e 12).

Assim, o processo de maturação não depende somente do crescimento


humano e espiritual do indivíduo,

[...] mas de todo o conjunto da ordem ou congregação e da comunidade


concreta. Existem ordens, congregações e comunidades onde o clima
espiritual e intelectual, bem como a atmosfera da convivência, refletem
maturidade e onde se sente a generosidade dos corações. Entretanto,
certas comunidades podem respirar um espírito mesquinho de fechamento.
Responsáveis por isso são as estruturas e os padrões do pensamento, da
sensibilidade e da convivência, que por vezes afetam uma ordem inteira ou
uma comunidade (GRÜN; SARTORIUS, 2008, p. 121).

Alfonso García Rubio aponta para a necessidade de reconhecer a existência


da sombra pessoal e coletiva no caminho da maturidade na experiência do Deus
cristão. Apresenta, como primeiro passo na conversão comunitária, o
reconhecimento da

[...] existência da sombra coletiva. Não é fácil aceitar a sua existência, nem
a da sombra pessoal nem da coletiva. A autoimagem que a comunidade ou
instituição apresenta pode levar facilmente à rejeição de tudo quanto
ameace essa autoimagem. Isso ficará relegado ao domínio da sombra, o
lado escuro da comunidade ou instituição (2008, p. 55).

Na dinâmica de amadurecimento a verdade e a transparência são


fundamentais e requer-se uma relação inclusiva entre a pessoa, a comunidade e a
instituição. Todas estão envolvidas e são igualmente responsáveis no processo de
maturação.
Garantir o processo de maturação humano-espiritual, na VRC, implica
responsabilidade institucional. As características das estruturas, das formas de
organização, da articulação entre instituinte, instituído e institucionalização fundada
no poder-serviço, na participação, na corresponsabilidade, no equilíbrio entre desejo
e lei, entre palavra instituída e palavra instituinte, favorecem o amadurecimento da
pessoa, das comunidades e da própria instituição.
32

Deste modo, a instituição se torna meio para desenvolver, recriar e


potencializar o carisma com a ação instituinte de seus membros. Ação esta, com

[...] as características próprias do verdadeiro carisma: a criatividade, a


audácia nas iniciativas, constância nas provas, a perseverança no serviço
eclesial, a obediência responsável e lúcida à autoridade da Igreja: mesmo
nas horas de inevitável e incômoda tensão, reta autonomia, liberdade face
a todo o legalismo, capacidade de adaptação e flexibilidade, certa carga de
novidade que pode às vezes ser incômoda e até criar situações difíceis, [...]
(Mutuae Relationes, 1978, 12 e 23, apud RIBEIRO, 1994, p. 90).

Assumir o processo de maturação humano-espiritual, como responsabilidade


pessoal e institucional é um grande desafio, e, ao mesmo tempo, uma necessidade
para a VRC atual. Pessoas maduras, capacitadas, renovadas, serão capazes de
preparar e garantir o futuro da VRC.

A experiência já nos ensinou que as Congregações são fundadas, tem um


tempo de florescimento, enfrentam crises, crises que podem tornar-se
chance de refundação, ou de desaparecimento da Instituição. [...] Vida
Consagrada nunca será sinônimo de Congregação Religiosa. Esta última é
uma organização humana, que podemos comparar ao vaso de argila,
dentro do qual carregamos o inestimável tesouro que é o dom de Deus ao
mundo – a Vida Religiosa Consagrada. [...] É duro, mais uma vez, ter que
admitir quantas vezes investimos gente, recursos, programas, buscando
pessoas com vocação para sustentar a argila, enquanto Deus busca
pessoas que revelem ao mundo o dom precioso que o vaso apenas
carrega... Acho que está apontado o desafio que se apresenta à Vida
Consagrada hoje: assumir e manifestar, definitiva e corajosamente, sua
identidade carismática: A Vida Religiosa Consagrada é dom de Deus ao
mundo; o verbo assumir nos remete à identidade, mas o verbo manifestar
nos remete à visibilidade, à vocação de sinal, de força simbólica
(AMBRÓSIO, 2008).

A maturidade humano-espiritual das pessoas consagradas é fundamental


para que a VRC assuma sua identidade carismática e profética e seja sinal da
presença de Deus e do seu Reino no mundo, hoje.
CONCLUSÃO

O carisma, a instituição e a pessoa são realidades que integram a VRC e


estão profundamente interligadas. Carisma e pessoa são mais fundamentais que a
dimensão institucional. A instituição deve estar a serviço do carisma, externando seu
dinamismo transformador e criador.
O carisma congregacional é enriquecido com os carismas pessoais. Trata-se
da originalidade de cada religiosa/o e da fecundidade dos carismas congregacionais.
Os carismas pessoais e congregacionais são frutos da ação do Espírito, que se
traduzem em serviço na construção do Reino de Deus.
O instituinte, sujeito que institui, cria e recria, necessita postura crítica,
atenção e discernimento, diante do instituído e dos processos de institucionalização.
A dinâmica dialética entre instituinte, instituído e institucionalização garante a vida da
instituição, tornando-a um projeto em construção, um ato constante. Nesse processo
são fundamentais a linguagem ou discurso institucional, as práticas e a organização
da instituição. A lei, no âmbito da instituição, e o desejo, no âmbito do carisma,
também necessitam serem considerados.
O desafio da humanização, na relação entre carisma e instituição, está em
permanecer sob o pólo e a perspectiva do carisma. Garantir esta direção na VRC
implica que seus membros estejam num constante processo de maturação humano-
espiritual.
A dominação, a dependência e o infantilismo são sinais de desumanização e
imaturidade. O mau uso do poder e a dominação impossibilitam a ação revitalizadora
do Espírito, expresso nos carismas pessoais e congregacionais. A dependência e o
infantilismo não permitem que a pessoa consagrada seja instituinte, tome iniciativas
e decisões. As comunidades e a instituição religiosa necessitam ser desafio de
crescimento nestas realidades, proporcionando processos participativos,
integradores e de autêntica conversão.
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A autonomia, o poder e a obediência, cultivados e vividos nas comunidades


religiosas, províncias e congregações, na perspectiva do carisma, contribuem no
processo de maturação na instituição religiosa.
Desenvolver a própria consciência, a capacidade de pensar e agir com
autonomia, em coerência com a própria imagem pessoal, criada por Deus, e com a
vocação que é chamada a viver são exigências do processo de maturação da
pessoa consagrada.
O poder-serviço, exercido no diálogo e na participação e a obediência, como
escuta profunda de Deus e de sua vontade, presente na Palavra, na vida das/os
irmãs/aos, nos processos comunitários de discernimento, na realidade social são
caminhos de maturação humano-espiritual e possibilitam a ação criadora e
renovadora dos carismas.
O processo de maturação humano-espiritual na VRC, considerando o
carisma, a instituição e a pessoa, é responsabilidade pessoal e institucional. Cada
religiosa/o é dotada/o de carismas pessoais e identifica-se com o carisma
congregacional e, dentro da instituição religiosa, é chamada/o a crescer como
instituinte e na capacidade de alargar espaços para que todos os membros sejam
sujeitos instituintes e estabeleçam uma relação dialética e aberta com o instituído e a
institucionalização em vista da construção do Reino. Assim, já se percebe a
responsabilidade institucional, porque, de suas dinâmicas e processos, dependerá o
crescimento ou estagnação, a vida ou a morte, das pessoas e das comunidades, a
potencialização ou minimização do próprio carisma congregacional, a riqueza do
carisma e da missão que Deus confia à congregação no serviço à Igreja e ao Reino
ou a lacuna deixada por ela.
O desafio é grande. É fundamental assumir atitude de conversão, pessoal,
comunitária e institucionalmente, para que, como pessoas mais humanas, maduras,
integradas e carismáticas sejamos, como VRC, sinal profético hoje.
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