Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues Coleção

Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja Hcrnvan

[o que você precisa saber sobre...] C O ORDENAÇÃO
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

[o que você sobre...]

precisa

saber

Revisão dc provas Paulo Tcílcs Ferreira Andréa Carvalho Projeto gráfico e diagramação Maria Gabncla Delgado

Sociologia Educação

da

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ I\Ó lis Rodrigues, Alberto Tosi Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro: DP&A, 200-1, 5. cd. - — (O que você precisa saber sobre) 1 4 x 2 1 cm 160 p.

5a edição

Inclui bibliografia ISBN: S5-7490-2S9-6 1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.
1

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PASTA N°TEXTÇfJSL.

CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? N UM o i : s h u s
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SAMBAS ,

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UNI

10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m

malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou", já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade? Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva. Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.

Buscava m isso delimita r de um campo com

20.

S O C I ED AD E ,

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investigação

que

estivesse

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Sociologia da Educa

ÇÃO

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Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal. Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos. Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social. Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação

alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t com os outros. E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos. Durkheim e o pensamento sociológico Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida? Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia da educação. sociologia c da

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S OC I O L O G I A

DA

E D UC A Ç Ã O

S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L

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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a moral, o direito, a economia ou a eclucarn s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu, t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção necessária para entendê-los A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „ 1 sob .. j. , muuos uc agu que exercem u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar são portanto contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pre-noções dos preconceitos i ~ científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í imediatamente.
;

se fossem coisas lais como

II.S

coisas materiais. Coisa para ele é todo

objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental. Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, pelas é reconhecido que lei a como-tal porque é (no de conhecimento pelas leis a e coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido regras A sociedade contradiz estabelece punição as caso, o mais jurídicas). consciência estabelece porque convicções crime fere vivas

coletiva,

profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade. O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação

"

&

Ui

as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como

O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o são dois gases diferentes. v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " . mas um conjunto de crenças.determinada transformam-se c sob em certas algo condições físicas diferente: específicas.s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o naufrágio? Pois é. Primeiro. Ela pensa. Cada uma não é nada sem a outra. dentro de sua cabeça. mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando fundamentais. A sociedade tem vontade própria. pois que suas partes constitutivas são gases. que viviam dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas. desejar c principalmente agir senão através dos indivíduos. porque ela não cabe toda. Portanto. Se completamente tomarmos as partes que compõem a água. Do mesmo modo. mas se combinados em certa proporção . m a s d e s u a cooperação. Tais crenças c valores não revelam uma suposta personalidade privada. talvez há muitos anos. O todo. tem precedência sobre as partes. completa. não entenderemos a sociedade jamais. . não apenas o indivíduo faz parte da sociedade. cm cada um só existe um fragmento dela. na visão de Durkheim). esta sociedade viva n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia s o c i e d a d e . se tomarmos os indivíduos. Para ele as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). m a s s o m e n t e p e l a cooperação entre os indivíduos. A sociedade na cabeça de cada u m L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos. mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda. F como se se combinam entre si. Revelam sim o quanto há dos outros em nós. A sociedade vive na cabeça de cada um e. deseja. a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o . se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim aprendemos. são exteriores às consciências individuais. Vamos chegar lá agora. onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles Mais do que isso até. elas não derivam dos indivíduos considerados i s o l a d a m e n t e . a pensar a educação? Calma. pois se é verdade que ela existe em cada um. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a . em decorrência. N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o comum dessa colaboração. os valores e as regras q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -. caro leitor. por outro lado.-a-. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais. Talvez já esteja se perguntando: bem. diz Durkheim. não entenderemos a água jamais. Talvez a esta altura. As representações coletivas. é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações passadas. são compartilhados e geram. são percebidas em coletivo. para Durkheim. afinal. Segundo.6 mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos. sentir. os qtiais não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que tal coisa poderia exista. cada um entra com sua quota-parte. sente. água. A diferenciação da sociedade Ora. foi "raças à sociedade e seus saberes. a nossa vida como indivíduos. Ao mesmo tempo. de hábitos. assim. e inclusive das que não vivem mais que já moireram. ele levará um pouco da sociedade consigo. calma. pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta. na cabeça de cada um. de valores. Disso que acabei de dizer. uma parte da sociedade fa7 parte dele. c. algo novo. você já esteja um pouco ansioso. Por causa das combinações e das mutações que sofrem a o s e c o m b i n a r e m . As representações sobre os fatos sociais são iepieséntaçõcs coletivas. retenha dois raciocínios houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa. a consciência coletiva. ao mesmo tempo um ser social. A consciência coletiva existe através das consciências particulares. embora não possa pensar. que ajudaram i criar is i crenças. o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em outra coisa. assim como o Cristo bíblico. essa existência social essa vida coletiva. L e m b r a m . n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e .

dá origem . E este tipo diferente cie cooperação. Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. mas são parte integrante de um determinado meio ■moral que compartilhamos. por sua vez. o contador etc. E que cada nova geração. pescam. Vicia moral que será a base cios conteúdos transmitidos na forma de crenças. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra. é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico. Estou falando de aprender a viver. o ferreiro. alguns jamais aprendem. ao refletir sobre como. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso. valores c regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos. não se faz no vácuo. e a segunda vale para a cultura esquimó. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade. pois significa que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar. essas já parecem mais exóticas para nós. Existe um número quase infinito de rcras sociais que. Tal processo se radicalizou com o capitalismo. valores e normas de geração paia geração. A l é m d i s s o . o status d o s m a i s v e l h o s e r a diferente do que existe hoje. existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. Numa tribo dc índios. claro). A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de indivíduos destacados. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada. as tarefas são extremamente divididas. participam de rituais religiosos etc. Coisa que. Ela tem conteúdos Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei. Não estou falando apenas de educação escolar. superespecialização das tarefas. trabalho determinada outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que coletiva época. obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. Como já vimos. recebe pronta na forma de educação.7 naturalmente. os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. cada vez mais. pela cie de cooperação entre indivíduos. o açougueiro. Além desses. pór este mar de crenças. na calçada. P o i s s e m consenso não há cooperação entre os indivíduos e. mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes. afinai. Mas no caso radicalmente oposto. há um homem para apertar o parafuso. ficando você com o lado cia rua. a í e g r a c a d u c o u . com uma pessoa mais velha. não há vida social. Com a divisão do trabalho social. temos vida um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. pelo menos alguns de nos. através do de é produzido um processo Dito social. sua vida em1 comum. Aliás. o dentista. Este interação predomina meio que na moral. (D tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc solidariedade mecânica. os chamou vida nos de diz divisão numa Durkheim. todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam. outro para encaixar as peças. Na fábrica moderna. portanto. Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em . e o risco de enlamear o lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. por exemplo. note bem. que são todos operários. como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. você já deve ter reparado.. um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim observa que uma condição fundamental para que a s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. o professor. ninguém nasce sabendo. que levou a uma \ o na tase da conquista. até esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um moral diferente. Bem. o carteiro. fazem cestos de vime. outro para pintar os encaixes etc. Com a urbanização c o desenvolvimento e c o n ô m i c o . As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas. de tão comuns. ou seja. ao nascer. na moderna sociedade industrial. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição.

8 Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje. Em vez de matar uns aos outros por causa da competição semelhantes que na seriam luta obrigados a empreender os seres com seus pela sobrevivência. em função da divisão do trabalho e da especialização. em decorrência solidariedade orgânica. Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento • de uma diferenciação s o c i a l cada vez maior. mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes c. Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. humanos diferenciam-se. ao contrário. p i l o t o s ' d e c o r r i d a . é a solução pacífica da luta pela vida. há muita divisão do trabalho e.estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. Quando. d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o diferenciada. Há. em diversas circunstâncias da vida.. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta. c uma relação dc solidariedade. E o que D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica. mas você depende dos outros. Assim. pensa Durkheim. para viver (inclusive para comei. e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença. obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma sociedade pouco diferenciada. mesmo com aqueles que você odeia. a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores. De solidariedade orgânica. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes. os indivíduos pensam com a mesma cabeça". Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e. pelo contrário sofrem i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o . é similar à luta pela sobrevivência no reino . Pode-se dar O tipo de solidariedade que se. cada pessoa. isto é. sua relação com seu patrão ou com sua sogra.ke. assume valores. um enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras. é o consenso Quando cada indivíduo. tem uma margem maior de liberdade. nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho-.. como a sociedade industrial moderna. Mas o que você faria. você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado. tão ligada ao coletivo ela é. Os valores as crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos. difercnciando-se umas das outras fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da sociedade. que iazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de lazer. em decorrência solidariedade mecânica. a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica. portanto. embora vivei" sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela. Talvez nem se espantasse. caro leitor. para pensar e agir por conta própria. portanto. beber c vestir) dependem das outras. rodeado por técnicos em informática. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver.rs astronautas. enquanto que. nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado â noite? Lamento informar. Mas há outro ponto importante. Sc uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa. para Durkheim. as regras gerais ficam relativizadas. A divisão do trabalho. são bastante distintos. a tendência. se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro. a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. animal. a n a l i s t a s d e s i s t e m a s . Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas. ficam mais fracas. videoma. consultores de m a r k e t i n g . A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s porque fazem juntas as mesmas coisas. ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores. por assim dizer. os meios morais. A diferenciação social. crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança.

9 interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas. a sociedade não pode sobreviver. decorrente da competição imposta pela diferenciação. E assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o_ individualismo. entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade. i s t o é . Si) numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais. provocaria D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut. sem consciência coletiva. mais diminui. Os indivíduos passam . mais individualismo.s e p e l a I HI SCII d a s a l i . Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle. o conflito. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras. solidariedade a desintegração orgânica da (baseada na diferença) o que sociedade. Mas quanto mais liberdade individual. então. paradoxalmente. mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da a consciência consciência coletiva. Pois quanto mais o individualismo cresce. e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento c de ação. sem uma moral coletiva. .i Educação para a vida Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade. coletiva que era quase E no total nas sociedades pouco diferenciadas.* f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s pessoais e cada vez menos coletivos. provocaria a g u i a r . sua validade geral e indistinta. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade. A tendência será. entanto. na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa cm que nascem. . É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento ela liberdade moderna.

A cada momento histórico.. Assim. não é específico. Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade. não seria possível. ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 . Nas sociedades complexas existem muitos meios morais.10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O grupo. Preservá-la inclusive de sim própria diferenciarão. enfim. paia Durkheim. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas. que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional. não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal. S OC I E D A D E . em profissões etc. de sua profissão. Sé) assim é possível preservar a sociedade. devido à divisão do trabalho social. geral nascem de todos. Aprender a ser um engenheiro. Educação homogênea. Para Durkheim. do essas numa onde chance valores os A ou meios e do no educação morais valores do literato. Por isso. Você aprende a ser um membro de sua classe. No para os básicos engenheiro mas antes passaram compartilhada dividida morrem. conforme 'a divisão em classes. após outra. a educação assume o significado de educação moral. em grupos. gostemos deles ou não. Significa entrar num meio moral. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social. E(j-este é o modo a ausência de regras. por somos devem ser serem uma toclos. diz nosso sociólogo. de seu meio moral. a educação. existirão crenças médico.■ '. Assim. de sua casta. as sociedades modernas são muito diferenciadas. Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro. Existem certos costumes. aliás. não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. como seria possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora. existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. certas regras. de seu pelo qual você se torna membro da sociedade. pois não estarão cm condições de viver en> meio aos'outros quando adultos. educados atividades sociedade as de comuns pessoas profissionais. e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos. "É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como q u e r e m o s " . Se isso não ocorre por completo é porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma. Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social. Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo. simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de concreto. sem que sejam todos. como dissemos antes. Mas se. é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. particular. Se não fizermos isso. geração geração. os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos. acredita Durkheim. o caos. a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia. a sociedade se vingará de nossos filhos. passar a alguns . só se voltássemos à pré-história. em castas. através da aquisição de uma moral profissional. e uma por educados. a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. para Émile Durkheim. Edueação'é socialização. harmônica com seus contemporâneos. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. como existem na mais ser muito específicos sempre a da comuns diferente para educação Mesmo índia. rigidamente fundamental. quais que pode de por com castas. em sociedades sem diferenciação. casta cm para entanto.

E fundamental que haja certa homogeneidade. mesmo que nem toclos nós fumemos um determinado cigarro.11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O "alguma coisa a gente tem que ter em comum". Assim. existir sociedade sem isso. Não seria possível < exemplo. e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma tia criança que . uma religião comum.

e também da sociologia da educação. insistiu o sociólogo francês. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser considerados como uni importante ponto de partida da sociologia. educaç ão e em anci pação Marx e o pensamento sociológico A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX. os elementos fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades humanas. tem por objeteususcitar e desenvolver. nossa profissão. para adequar as crianças a seus meios específicos de vida. reclamados pela sociedade política. a educação se diferencie. nosso meio moral. A SOCIEDADE NOS MOLDA . intelectuais c morais. permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá paru educação. A educação que recebemos tem por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que vivemos — nossa classe. para iivrá-lo de toda a opressão que 0 esmaga? número de estados físicos. Sé) a educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. através da educação. [). . se destine [Educação c sociologia. Para resumir cita idéia. é isso que permite que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. na criança. particularmente. a partir de certo ponto. maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento histórico são capazes de controlar as consciências dos homens? Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o berço cia sociedade capitalista.34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O / é educada. e pelo meio moral a que a criança. Cada geração transmite a seguinte. A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida social. O que existe por irás tias aparências dessa nova. no'seu conjunto. Assim como é fundamental para ele que. C APíTUt O ii1 S oci edade. Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe nos porões da sociedade. como transformar esta realidade? Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será possível educar para a emancipação do homem. É isso que nos permite viver cm sociedade. certo E STÁ BEM . E é por isso que a educação é um processo social.

. Para ele não havia contradição entre teoria e prática. isto é. ele fazia filosofia. Nesse sentido. Mas devo advertido desde logo. isto é. Aliás.^■y-frl-L-. para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo histórico em curso que. dois modos diversos de encarar a realidade. pretende vislumbrar como a realidade deveria ser. Seu socialismo era "científico". transmitidos com zelo de geração para geração através dos séculos. desde os primórdios da civilização até seus dias. construindo uma utopia em nome da qual seria necessário agir para transformar esta realidade. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas diferentes. graças a suas contradições internas.. seria algo como o seguinte: "o que move a história é a luta entre as classes sociais". Pois a sociologia é uma disciplina científica c empírica. a história e a economia política). seu pensamento é normativo. Marx julgou necessário descobrir como a história humana funciona. num discurso proferido no enterro de Marx. pata não dizer o único. segundo Marx. Por um lado seu pensamento é analítico. mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da história.çntre si. Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (18201S95). Marx havia descoberto as leis da história. Ele olhou à sua volta e percebeu que. o transformador) social compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na qual ela estaria se transformando. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se em motor da mudança histórica? As l e i s d a h i s t ó r i a Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com. Ir a sociedade verdadeiramente humana "deve ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão.a natureza e dos homcns. o investigador (e._ ■ pretende ver a realidade como ela é. e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar. . Nesses dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento essencial: o trabalho humano. principalmente. Nesse sentido. Seu objeto de pesquisa fundamental. em prática através de um partido político.. de caráter analítico. nem entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser. enquanto levava a burguesia à condição dc classe dominante. educa Pelo contrário. valorativamente caracterizada por ele como iníqua.. E i a também um militante político. se Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O . dissecando-a. assim como Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da sociologia de Marx. ele foi um praticante das ciências sociais (a sociologia. que o pensamento de Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia". Nesse sentido. a pretensão de Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia. Marx não era apenas um pensador. Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista. e o futuro desejado está contido no presente odioso. E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo._ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_ expressa. idéias. que pretendia colocar suas.. 13 .. uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus instrumentos dc produção e seus saberes. i a c o n f u s o ? ( _______a l m a . Por outro lado. A^contradiçãc> para Marx não é uma fa 1 ha do raciocínio lógicq. é porque esta possibilidade está dada já agora. e u e x p l i c o . Compreendendo esta chave. Bem. caro leitor. Mas não se conformava em propor o socialismo como uma opção entre tantas outras. ao tempo da velha ordem feudal.36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. no modo mesmo como a sociedade presente "é". foi a sociedade capitalista de seu tempo. e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para entendê-la. Nada menos que isso.

produtivas". beltrano aquilo. e n t r e e s t a e o comércio etc. colocandoa a se L I trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. a divisão do trabalho é também parte do conjunto das forças produtivas. depois de m e t a l c o r t a n t e etc. E . boi este o ponto de partida do processo de divisão do t r a b a l h o . Ambas. Para aumentar :i J í c r v i ç c j ^EjejTJama. cada vez m a i s . de um lado. elas iippj^cjvm numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados para o trabalho. m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s pela capacidade reflexiva do homem. embora -como apontarei mais abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o m u n d o d a s i d é i a s .os homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e nem sempre os que trabalham possuem esses meios. E . O desenvolvimento das forcas produtivas foi o. As relações de propriedade. D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços.s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o . As relações de propriedade. por sua vez. como esta organização da produção advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do aumento da produtividade social. A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o intermediário da relação do homem com a natureza. q u e cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento das capacidades do corpo huma-rva. A esses modos específicos M a s n ã o a p e n a s i s s o . divisão do trabalho e forças produtivas. a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e "forças. trabalho manual e reflexão intelectual jamais se separaram. a divisão entre a agricultura e a criação de a n i m a i s . ti' produi ividade si > c i a 1. na medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de homens que trabalham para os outros.nem_sempre. a d i v i s ã o sexual. n o t e b e m . Ao mesmo t e m p o . ao mesmo tempo determinam-se e são determinadas uma nela outra. distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da sociedade. vive através de seu trabalho.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O S OC I E D A D E . dizem respeito aos tipos de relações sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de propriedade vigentes. entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l . u m e n t a r c m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o suor de seu rosto. através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s m a c h a d i n h a s e a r a d o s . p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r . c o l h e . e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e mulheres. são a base das desigualdades sociais. O s e r h u m a n o . Não. ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39 É através do trabalho que o homem muda a natureza. p e s c a - enfim. o intermediário da relação dos homens uns com os outros. Nesse processo. c o próprio trabalho. c de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que outros trabalhem para si. a s s i m p o r d i a n t e . ele é. f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a c i d a d e . P r i m e i r o . c a c a .responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do domínio do homem sobre a natureza. Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de tarefas: fulano faz isso. c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s a n i m a i s . Com s e u g ê n i o . Do ponto de vista de Marx. Depois. a -machadinha de pedra. d e s e n v o l v e u a o longo d a h i s t ó r i a . portanto. Porque o .. o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . de outroMsso significa que no processo de divisão do trabalho. o _ a produção junto com seus luMncmtambém loi organizando semelhantes. a s s i m . Nesse sentido. Ela é também a expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio de uma dada sociedade num dado tempo histórico. bem como pelo conforto e pela r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s . Na medida em que o ser li uma no se reproduz. também. porque o fazem com os meios de outros.'Em vez de cortar ou quebrar com as próprias mãos inventou. que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o longo d a h i s t ó r i a . para desenvolver as forças produtivas.

que opõe capitalistas e operários. No primeiro. a relação social básica é a de servidão. de um modo de produção a outro. no segundo. sob o controle dos homens que nesta época vivem e. . a relação social fundamental é a de assalariamento. afirmam nossos autores. da produção. as relações de propriedade. as formas de propriedade. que opõe escravos e senhores de escravos. e no terceiro. como já sublinhei. a teoria de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das idéias. da produção material de sua sociedade c das rclaçêics de classe. a relação social básica é a escravidão. e o de aspecto relacionado da com as formas de social delas material organização estrutura decorrentes. no qual as relações de propriedade vigentes são contestadas. que opõe servos de gleba e senhores feudais. Marx e Engels se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu próprio modo de vida. Mas como o trabalho e a reflexão do homem. isto é. se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe dominada e a classe dominante em cada época. das crenças c tias opiniões se relaciona com este mundo material. não condiz com as relações materiais reais que de fato . ou melhor. do trabalho. Marx diz que as relações sociais de produção. A cada uni desses formas modos de de produção da correspondem propriedade (ou diferentes relações estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e diferentes organização sociais de produção). as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro. como já vimos. podemos dizer que nossos autores descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas. burgueses e proletários. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. são laces da mesma moeda ao longo da história. quando se estabelecem. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas. Abrese então um período ele convulsão social. mas chega um (orcas produi desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. isto é. sejam elas econômicas ou políticas? A consciência está ligada às condições materiais de vida. A classe oprimida. As formas de consciência Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé) lhe expus. do conhecimento. o modo de produção feudal (vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. Assim. isto é. ao mesmo tempo. Simplificadamcntc. funcionam como uma forma de desenvolvimento das forças produtivas. A este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". Dessas diferentes relações de propriedade. um conjunto instituído de relações sociais de produção. se insurge contra o predomínio da classe dominante. até produção aqui. onde o trabalho era realizado por escravos). ao intercâmbio econômico entre os homens. A transformação de uma forma a outra. da posição dos homens com relação às formas de propriedade vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes sociais. Mas a consciência que os homens tem dessas relações. política e/ou economicamente dominada.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram o nome de "relações sociais de produção". E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo que move a história é a luta entre as classes.

no entanto. que acabaram sendo submetidas a esta classe dominante. E. que os indivíduos não pensam com sua própria cabeça. aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de uma consciência coletiva. mas sim de unia parte da sociedade sobre outra. mostra que isso não é assim simplesmente mostra que o porque caráter qualquer coercitivo. na cabeça dos homens que vivem sob este sistema. Marx. Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. que se tornam dominadas. portanto. Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do trabalho. E existem aqueles a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único bem de que dispõem: sua força de trabalho. Assim como em outros tempos. diz Marx. foi percebida pelos homens como a única sociedade possível (durante séculos. primeiro Para Marx numa essas falsa implicam. existem os proprietários dos meios de produção (as fábricas. não precisam existir para sempre. como se isso sempre houvesse existido e. quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o lugar de cada um dentro do processo produtivo. As idéias. estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer. E que esta situação não está ali desde que o mundo é mundo. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3 vivem. Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos. o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época histórica. momento classe dominante (a burguesia) e outras classes. No capitalismo. que os homens. l. dentro do qual estão submetidos a este processo de dominação. em troca do pagamento de um salário. sem a dominação de uma classe sobre outra. por sua vez. ou melhor. p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os homens estão de fato submetidos. bem maior do que a duração do capitalismo). para que não reste consciência. cie uma classe social que assume o papel de dominante sobre as outras. Ele manifesta igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens indistintamente. mais ainda. na vida cotidiana. Assim. as máquinas e a própria força de trabalho do trabalhador). as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a . o modo como está obrigado a trabalhar e viver. Esse indivíduo não vê a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a . as relações de propriedade vigentes.ranslormaildo-se em proletariado. Estes são obviamente os burgueses. por exemplo. ela é percebida pelas pessoas. de não homens se deve necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos. isso é percebido. pois o homem pode construir outros tipos de relações. E s s a s representações representações são. No entanto. mas que ela foi criada pela luta histórica entre as classes sociais. sociedade dominador. Não. natural. como se tivesse que continuar existindo para sempre. no. A medida que o tempo passa c a sociedade capitalista se estabiliza. Mas percebe. Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx. Se estiver muito complicado. no seu universo cotidiano. aliás.16 S O C I ED AD E . Marx afirma que se as relações de dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são socialmente construídas. portanto. Ao trabalhador lhe parece natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver. plano das idéias. num aparência. a sociedade feudal. não têm uma consciência real da dominação cie que são objeto. Vou lhe dar unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de mencionar no parágrafo acima. n u m a consciência invertida. num intervalo de tempo. não desanime agora. como algo normal. como a única sociedade possível.

Ao fazerem isso. também. mas com seu aperfeiçoamento. as forças produtivas foram enormemente desenvolvidas. Explicado assim. pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista. parciais e repetitivas na linha de produção da fábrica. ou apenas costurar. entre o tempo do artesanato e o da grande indústria. c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e um produto e a própria posição social do artesão. mas com todos os ramos da produção material. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos animais. e um número reduzido de pares de sapatos era produzido. o Mestre de Ofício — por exemplo. porque não tinham mais os meios materiais de vida. o artesanato se transformou cm grande indústria. fazia o acabamento c. cm vez de aprender o processe. não só com os sapateiros do exemplo. começaram a entender o processo de fabricação do sapato e perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas fossem divididas entre os trabalhadores. ainda. e não a máquina ao ritmo do trabalhador. Agora pense o que aconteceu. com o qual exercitou o ofício desde criança. Juntou-se a esta desenvolvimento tecnológico daqueles séculos. mas através de um processo social de expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s . sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r (somado aos meios materiais necessários para a fabricação de sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no mundo c suas relações com seus contemporâneos. uma nascente classe de comerciantes começou a ter pressa.. pregávamos''solados. mudança um outro dado fundamental.vista das relações de propriedade? No artesanato. mas a percepção dessa expropriação e o entendimento . c foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um salário. porque não saberiam mais como produzir por conta própria se tivessem esses meios materiais. numa perspectiva histórica. cortava. costurava-os. tingia. E l e . que os novos trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma só tarefa. A forma de produção de mercadorias no mundo feudal era o artesanato. na condição de aprendiz. E claro que este era um processo lento. é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s capitalistas. E depois. c o m o p e s s o a . Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de c a d a d e t a l h e . O que aconteceu. o XVIII e o XIX principalmente. construía as fôrmas de madeira para a fabricação dos sapatos. Quanto mais sapatos vendidos. Eles eram autosuficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas. A princípio essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas. para M a r x .44 Sociedade. foram criadas máquinas novas para aumentar a produção. deles foram subtraídas duas coisas: os meios de produção c i a v i d a m a t e r i a l . Com o 17 dúvidas sobre isso. Como isso se deu. E de onde veio este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre. do ponto de. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO -S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o 1 '5. sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo cia máquina. o ofício a seus aprendizes. Como resultado de uma enorme gama de transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX. Os comerciantes passaram então a contratar fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. as máquinas começaram a ditar o ritmo da produção. Através da maquinaria industrial moderna e de posse desse saber. iodo. Assim.. isto é. muitas vezes seu pai. um sapateiro — realizava todas as etapas da produção de seu produto. Primeiro. o capitalista reduziu o trabalhador à execução cias tarefas simplificadas. Com o desenvolvimento do comércio. repetidas vezes. já que foram obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e parciais. os vendia em seu estabelecimento. no entanto. em vez de todos realizarem todas aá etapas e passarem de uma tarefa a outra. muitas vezes seus filhos. Cada um faria apenas uma etapa. depois de Mestre formado. mais lucro. poclc até parecer convincente. que o desenvolveu e racionalizou. Do mesmo modo ele ensinaria. E seria bem mais simples.

O trabalho é então percebido pelo trabalhador como algo fora de si. e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano.ajs_visceral. portanto. i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r .no que era de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no qual cresce e morre.. pois esta é a percepção que tem da realidade na vida cotidiana.. Marx diz. que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida da mesma íorma que no_dia anterior. do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c também do fruto deste trabalho. a teoria de Marx e Engels afirma que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é injusta em si. todos os dias sem saber. confortavelmentc instalado em sua própria mente. que sempre' foi o meio pelo qual o homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens. A i s s o M a r x d á o n o m e d e ideologia. A isso.. que é obra de cada ser humano. o servo sabia que o dono L O I feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. E quase como sc_ houvesse e m seu cérebro um c/u/> perverso de computador. A i d e o l o g i a .pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l .. de concepções.riiins de trabalho (jornadas longas demais. . dojiunado dp. compartilhar há uma diferença._xos. Jnsalubrklade_etc).d e alienação. M a r x d á o n o m e . pelo capitalismo.ço_ndi. No capitalismo.•16 Sociedade. s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL.era seu dominador. todo o trabalho realizado. cabe trabalhar nelas e ponto-final. o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de trabalho mediante o pagamento do salário. É injusta porque separa o trabalhador do resultado de seu trabalho. E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x . porém. a b . p o r t a n t o . que não é dono dc coisa alguma. NxLxap. desses dc filme de ficção científica. concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências. na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes dominadas. A outra parte é apropriada pelo capitalista e se transforma em lucro. Em todas as outras lormas_d_c ajnerioxes.tc se revolta diz respeito aos salários hai. o salário e viver.mjnado_ç sabia.naturrj_is__e passam. E ao trabalhador. mas — e isso e i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria vontade. a l h a d o r e s dormem com o inimigo. que pertence a outros. é individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Qtrabalhadox_não tem controle. ao contrário. Em resumo. Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa época.quem.c_às..houve histórica sociedades: sabia que. O máximo SC L I dc jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men.cojrio uma fatos. A suprema ironia do capitalismo é que o dominado p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r . O trabalhador foi separado. Ele só aprende que deve trabalhar para receber. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO 47 DA •/■S O C I O L OG I A E D U C AÇ Ã o Exploração capitalismo dominação econômica e em opressão todas o as política do homem só pelo b n m _ e j i \ _ g g . que o salário não remunera. mas apenas uma parte dele. Por causa do salário pago. é compreendido como algo que não pertence a este ser humano. i i \ p r e . que é uma concepção de mundo gerada pela classe dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua. Existem as fábricas e seus donos.. o trabalho. P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e estão submetidos. vêem o trabalho alienado cji_d_oniinação de uma classe social a sobre otitra . os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ fa 1 s a_d o mundo em que vivem. c a q u e l e s i s t e m a ordenado de idéias. E mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa da ideologia. de normas c de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo a vontade "do sistema". O escravo s abia que seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à forca. c e s s a _ c a ___________l o r m a d e dominação_m.ções_. O trabalho..

educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o 19 Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. e deixaria de existir quando as classes não existissem mais). seria um ser autônomo. Daria à sociedade. E aí entra sua utopia: acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova sociedade. o homem se reencontraria consigo mesmo. a sociedade comunista. Pois vou lhe dizer o que eu acho disso. se abriria uma época de revolução social e política. trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo. graças ao desenvolvimento material propiciado pelo capitalismo.48 Sociedade. enfim. seres humanos inteiros completos. é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo minhocando dominação. E. tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. Por obra da ciência. acreditaram haver descoberto as leis da história. Nessa nova sociedade. ideologia comunismo empírica (ainda eme pouco aprofund ada) da situação - I educação. seriam felizes para sempre. Por um lado. e receberia dela tudo o que precisasse. Essas leis lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas de propriedade e que. a ver com alienação. quando esse momento chegasse. Educar no mundo industrial Bem. fazendo uma análise a . ao mesmo tempo. autocentrado e autoconsciente. c claro. Os homens e as mulheres seriam. sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para eles é uma manifestação das relações de classe. todo o esforço e trabalho que pudesse. sobre o que toda essa c conversa de tem exploração. sem dúvida a mais bela utopia do século XIX. Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos com que viam o capitalismo. Eles. por sua própria vontade. sem alienação e sem ideologia. sem exploradores nem explorados.

identificaram na educação uma das mais importantes formas de perpetuação da exploração de uma classe sobre outra. Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta. Segundo relato de um inspetor do trabalho da época.) Além disso. justamente a (ase de afirmação do capitalismo industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas. o mobiliário escolar é pobre. O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da . de sua libertação da exploração e do jugo do capital. O Capital ( d e 1 8 6 7 ) . pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária. para inculcar no trabalhador o modo burguês de ver o mundo. ele nota que a lei inglesa anterior a 1844 20 educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril. utilizada pelo capitalista para disseminar a ideologia dominante. Olhando mais de perto. M a r x f a z u m a análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela Revolução Industrial. Por outro lado. que só poderia servir para perpetuar as relações de legislaçã sujeitos. há falia de livros e de material de ensino e moderno meninos freqüentavam a escola. porém. E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o . Ou seja. numa dessas "escolas" que visitou a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível. (... comenta tão precário. r o ta época. identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano. ela pode ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação.48 Sociedade. com a condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de da fiscalização. para Marx e Engels não existe "educação" e m g e r a l . citado por Marx em seu livro. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o al .

uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria unia abominação. quanto os livreis. não sendo combinada com o trabalho man uai torna o dia da criança enfadonho. do mesmo modo que todo adulto apto para o . Sc é através do trabalho que o homem produz para viver. A partir de então só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já tivessem pelo menos a instrução primária. pudesse ser forjado apenas com uma educação escolar lormal. em sua formação como pessoa. qualquer criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo. X I I I . na formação da criança. A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. as mãos sujas de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s . Para ele. pois ela permitia combinar. telo contrario. muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de mil. "As crianças com escola de meio período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. D i z ele: Consideramos que c progressista. v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . o trabalho do professor mais duro e o rendimento escolar menor. Nesse sentido. embora sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a as infelizes crianças. que vivemos à beira do século XXI. e não contra a existência da civilização industrial. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a apropriação privada do lucro. sã e legítima a tendência cia indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para que cooperem no grande trabalho da produção social. e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar. Ele lembrou em vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o . no comunismo. na formação das futuras gerações. Marx festejou a legislação inglesa dc 1844. pois acreditava que todas as crianças deveriam combinar. Não nos esqueçamos de que Marx era um entusiasta dos avanços do capitalismo. e esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital. c os resultados dos esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as necessidades cie cada um.21 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. que a escola em tempo integral é pouco produtiva. Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos. Seu ideal era o de que. em menos de cem anos. p o r q u e é dela que brotam a alienação e a ideologia. o trabalho infantil é desejável. a educação escolar e o trabalho na fábrica. com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual. com um novo caráter. através dessa c o n j u g a ç ã o . o trabalho manual eleve ser exercitado por toclos. sua utopia comunista seria impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava que um homem novo. porque. todos seriam homens completos. i t e m 9 ) . desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela legislação. s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r . inclusive. Marx afirma. c que já tivessem aprendido as primeiras letras e números. todos dividissem o trabalho manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. os cadernos e os. Em todo regime social razoável.nível material de vida da sociedade humana. que era um homem do século XIX. Assim. c a p . mas segundo a concepção dc Marx. d o p o n t o d e v i s t a moral. colocando a natureza a seu serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante. a educação formal escolar e o trabalho manual nas fábricas. educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51 Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. E romper com essa separação é uma d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s .lápis. Marx considerava isso um avançç) importante. c também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do trabalho na fábrica moderna. Para que não reste dúvida sobre este p o n t o . Mas o fundamental é que. Para ele. Estive em muitas dessas escolas c nelas vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente nada.

prevendo jornadas de trabalho com duração diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1. da qual serviu-se o capitalista industrial para constituir sua fábrica. não haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários. de 13 a 15 anos. No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista. e seria por assim dizer inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das classes trabalhadoras. o caminho que Marx vislumbrava contava com a contribuição do processo educacional. em sua visão. t a n t oE quanto possível .^. 52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E . e as de 16 e 17 anos.<. 6 horas. premidos pela pobreza. diz Marx. 4 horas. e trabalhar não só com a cabeça. mas de um I . como ocorria. Não através de uma operação circunscrita às tarefas parciais. Marx dá poucas indicações sobre isso... E conclui: "não se deve permitir em nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação". a saber: processo educacio nal lhe devolves s e .militantes de seu partido. o a do percepçã conjunto que trabalhar para poder comer.. . E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem. Para tanto. I % comprometendo seu futuro. Sem uma legislação desse tipo.os. mas o que se pode concluir de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser. o ponto de partida para romper com a passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante. a de romper com a alienação do trabalho.2 anos. o Partido Comunista. .. Não se tratava de ensinar ao filho do operário que ele era uma vítima da exploração burguesa. Pois este seria. irias sim ensiná-lo a operar as fábricas burguesas.. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53 trabalho deve obedecer à lei geral da natureza. fundamentalmente. . eles deveriam trabalhar 2 horas por dia. provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista. Marx propõe que. mas com as mãos.. lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado conforme a faixa etária.'#p. da seriam obrigados fabril a transformar-se próprios em agenciadores escravidão dos filhos.

E. uma das chaves de sua emancipação como ser humano. É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contemplar três dimensões: uma educação mental. cii. op. "mero fragmento humano que repete uma operação para o parcial. era objetivamente possível. Isso. tarefa que deveria dos 9 aos 17 anos.do processo produtivo moderno. portanto.. mental. porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e . Esse novo saber seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c. a menos que rompessem com a separação entre deduzir trabalho intelectual e manual. a educação tecnológica seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das máquinas dos diferentes ramos da indústria. p o r t a n t o . poderiam pode-se homens completos. uma educação física e uma educação tecnológica. Em sua visão.. portanto. capaz de executar uma única tarefa simplificada.). ditada pelas exigências do capital. os filhos de operários estar cm nível muito superior ao dos burgueses c aristocratas. os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica. uma vez que estes últimos também jamais seriam a c i m a . D e n t r o d e . Em outras palavras. nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial. finalmente. A educação física e no treinamento militar. no texto citado que seria essa o mas educação elementar para o trabalho intelectual.. qual as pelo indivíduo funções integralmente sociais não desenvolvido. tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um. Ele não explicita. Com tal formação. diferentes contexto sempre passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade" [instruções. é preciso do que seria uma substituir o indivíduo parcial. pensava. para Marx.

Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam. A família é o lugar por excelência da difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses. Todos. no momento da revolução comunista. s e r i a substituir uma educação doméstica por uma educação de caráter social. A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx. depois da inevitável conquista do poder político pelos operáiios comunistas. indistintamente seriam trabalhadores. pelo vício e pela prostituição. Ele não era. q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e citar. concessão na medida em que obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o ensino para os filhos de operários No entanto. A primeira eles é que.. Kcsta saber então. Para ele. as escolas politécnicas e as escolas agronômicas eram consideiadas aliadas importantes do processo de transformação. a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe". é o espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar com a cabeça da classe dominante. porém. A título de ilustração. assim como as escolas profissionais da época que davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de produção. é preciso assinalar que Marx e Engels. na proposta política de Marx e Engels. conforme já vimos. quando escreveram separadamente sobre o assunto.) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo e da Igreja. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24 é tal concepção. nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano? Acho que aqui há duas questões importantes.estabelecimentos estatais e a cargo do Estado. A segunda questão importante é que. ao contrário.. seria público e igual para todos. de 1 8 4 7 . I s s o d e u m a educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível. o Estado que necessita receber do povo uma educação muito severa". ao contrário do que se possa pensar um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque o Estado capitalista. ele deixou essa visão bem clara Num texto c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . deveria ser radicalmente suprimida. mergulhada na desagregação causada pela miséria. teórico e prático nas escolas dos trabalhadores . mas muito insuficiente. com o comunismo. N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo. Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado.) E. sua derradeira lição. reproduzindo a exploração dos operários pelos patrões/Razão pela qual a família. mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu projeto para o futuro. então. achavam. (. a ele parecia óbvio que um ensino oferecido por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a moldarem-se à dominação. A. oiganização acreditavam paia preciso nova social. terminariam a divisão da sociedade em classes e . deixaram i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s . ambas relacionadas ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar. Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" pois no comunismo não haveria mais burgueses. mesmo o para esses cie sociólogos-fikxsoíosarticular propostas economistas-militantcs.. que servem apenas para lembrar-nos como ct a complexo. d e 1 8 4 S . Debatendo com seus adversários internos do Partido Comunista. Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de todas as crianças em .. o que seria cia educação pública depois que o Estado recebesse dos operários armados. uma primeira. trabalho educacionais práticas que tivessem um caráter libertário. além que de ser uma mudar a forma mudar educação de a exploração forma pudesse de se econômica. nos moldes que conhecemos. como o nome já diz era em sua concepção uma forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe sobre outra. n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia "deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família.. desenvolver. para encerrarmos este ponto. o que Marx antevia era a adoção do ensino tecnológico.54 S OC I E D A D E . É o lugar onde ocorre a exploração dos filhos pelos pais. p o r t a n t o . Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à f a m í l i a . (. l e m b r a m q u e a família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da família proletária. O ensino. forma de inverter o conteúdo de c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a . Bem mas esses são detalhes. N o c é l e b r e Manifesto comunista. não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para manter sua dominação.

Diz ele: A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar Princípios do comunismo. a sociedade organizada sobre bases I 25 trabalho. Seria preciso. Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista) que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. ao socializar os meios de produção. Vivemos hoje os dias da "sociedade da informação". nova educação. Por conseguinte. para o perfil cio "trabalhador polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas . Basta olharmos.em função da reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira Revolução Industrial .para compreendermos seria bem mais complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito em 1S47. s e g u n d o a s necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. No já citado afinal da. mas nem por isso emancipados. pensavam Marx e Engels. Assim. portanto. o desenvolvimento tecnológico. Não seria suficiente a revolução política. uma mudança de atitude frente à produção. a nova forma de organização industrial encontrasse um homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. Seria comunistas ■ dará OS a seus 1 n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai 111 U H H > N aspei los suas faculdades desenvolvidas universalmente.54 S OC I E D A D E . E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o . restritivo de suas potencialidades. aproveitar-se desenvolvimento do do progresso material proporcionado preciso edticar o capitalismo. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O a forma capitalista de divisão do pelo "novo divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. Seria necessário que. nos dias que correm. agora com apenas algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c. educados. Hoje. com o advento da robótica c da informática. para socializar os meios de produção. Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes. da "sociedade do conhecimento". parcial. Educados. pois. portanto. mas o fosso social que separa as classes continua a aumentar. homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. permite ao capitalista realizar a mesma produção que antes o obrigava a empregar milhares de operários. a educação nos libertara deste caráter unilateral que a . Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo. e o controle do poder do Estado pelos operários decorrente dela. para viabilizar o controle coletivo de seus benefícios.

Os raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira vista. e impositivas com relação a elas. educação e des encant am ent o As partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga. é claro. para o segundo.C A P í T U L O IV '—| Soci edade. No entanto. mas sim o resultado de uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. A sociologia do alemão I Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos. deixe-me dar-lhe um aviso. m a s a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . A s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s . a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade. que é muito pouco discutida na área da educação. Mas antes de continuar. as idéias valem muito a pena. em níveis e cm medidas diversas. E quando você for dar uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber. se "socializa". Weber é um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica. E podem parecer um pouco intrincados. Mas há outro ponto de partida possível. conforme seu conteúdo de classe. digamos assim. A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a sociologia da educação. [iode ser utilizado para oprimir ou para emancipai' o homem. serão bastante significativas. verá que ele não é muito "fluente". a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais. Para o primeiro. tem contribuições . ela é um mecanismo que. embora os textos pareçam um pouco truncados.

importan tíssimas a dar. .

isso simplesmente não é possível. Trata-se de um processo subjetivo. isto é. não compromete a objetividade do conhecimento. aquele que pratica a ação. por qUjé. Um mesmo meio cultural pode assumir 28 distintos. portanto. discutir um pouco sua teoria da história. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos mais elementares da sociologia de Weber e em seguida. Os valores são compartilhados. c uma teia. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela. m a s s ã o i n c u l c a d o s . que tem pontos de contatoe distanciamento com a de Marx. como o encontro e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s articulam de modos distintos no plano subjetivo. os valores que ele atribui ao próprio ator social. naturais. desde que o investigador leve em conta. então. Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são concebidos por Weber Ao das como de as üm conjunto para inesgotável ele postula as quais de que. i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s . Como a realidade é infinita. no entanto. que são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou grupo de homens por ele investigado. Fluxos da mudança e cristalizações d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . embora vivamos na mesma sociedade na mesma época . Weber e q pensamento sociológico O ponto de. diferentemente contrário ciênci Durkheim. e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos de racionalidade empregados pelos indivíduos. fundamentais. conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma ciência "compreensiva". que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. a captação da ação social. como uma coisa. na interpretação das ações e relações. acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa. conforme o processo de interação em que o indivíduo está significados diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e. não é um bloco. Para ele. ü.lá. para Weber. para finalmente levantar algumas implicações que este" modelo tem para a e-ducação. Pela s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo. Aliás. A realidade não é uma coisa em si. Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas . ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a . histórica. e não os seus próprios valores (do investigador). Respire fundo. regule o seu grau de atenção e prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e Marx. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NSO I O L O G I A D A T OC E D UC A Ç Ã o inserido. os acontecimentos. para Weber. no momento da ação. apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto de conhecimento. porque as coisas que eu vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê. isto é. Porque os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores. pode ser qüe as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. A sociedade. são. As ciências sociais Então. porque são muitas e porque se renovam a cada dia. é c l a r o .partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural. vamos. O "todo" (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos). As ações sociais praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação.60 Sociedade. o que. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o estarão presentes os valores do investigador. A realidade é concebida por Weber. nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. é literalmente incompreensível se for tratado como um todo.

pode ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente). c você já pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as relações entre a educação e a vida social. de praticar uma ação Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) . M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s . porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou por Weber na definição de sua sociologia . está relacionado ao sentido subjetivo pensado daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s . a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a escola. mulheres (ou homens) à disposição e carros do ano. Ao ir à escola você emprega sua racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio comportamento. porque o" real o é. e o meio mais adequado para atingir este fim é ir à escola". o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e interessa à sua sociologia. que você já vai saber o que é.l o p a r a d e s e m p e n h a r tarefas na vida Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica desenvolvida compreensiva. Não apenas porque ali você encontra seus professores. mas para isso preciso escolher a prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i s i m c o m o D u r k h e i m . e l a o c o r r e q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o de tomar uma atitude. seus colegas.. em particular. por exemplo. A produção científica tende a disseminar-se pela sociedade através da educação. E direi também que Weber era um pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o h o m e m . i i MI comportamento ouci 1 . não faz de você digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). Se em sua casa todos piczarcm uma boa educação acima de tudo. ms. no valor que sua família dá à educação. 2. poderia dizer: "minha finalidade na vida é ter dinheiro. seu grupo.' Vejamos.. suas finalidades "exclusivamente individuais . Você pode calcular também com base. Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus interesses pessoais "egoístas". p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á . e lhe Difícil. (. deixando de ir. P a r a W e b e r . certo? Se um dia você cogitar abandonar os estudos. mesmo que ele não seja quase 7 um a n i m a l social. Diz ele que por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido (subjetivo) real ou "mental". 3. indo ou. W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um problema. Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s dias) os custos e os benefícios que você terá. isto é uma ação social. E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão. está co-determinado no seu decurso por esta referência significativa e. T u d o O C"| LI percebido. Estar junto com outras pessoas. P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social . O trabalho científico é assim inesgotável.) A ação que especificamente tem importância para a sociologia compreensiva é. será muito difícil pra você deixar de ir à escola. no caso inverso. portanto.29 SOCIEDADE. Se você fosse puramente racional. Quando você vai à escola. apenas. bem como fragmentário c especializado.

.30 SOCIEDADE. Levar isso em consideração também é 6 i formar. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O que se era algo importante.uma forma de cálculo.

As razões este é o se misturam. Na ação afetiva. . portanto. fundamental Aliás. Ei. vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar. mesmo que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades estudantis. a partir de vários exemplos históricos. é a s e g u i n t e : l u . Essas coisas t o d a s s e c o n f u n d e m . e ficaria chato pra você. está praticando o que Weber chama d e ação social racional com relação a fins. fins estes tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). repare também que no dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. tipos dc dominação política etc). como por exemplo idealizar o que seria uma "sociedade perfeita". Já se você for à escola porque sua formação familiar deu muita importância aos e s t u d o s . dizer que não freqüenta a escola. "puros" Ele é de sabe absolutamente comportamento. dentro do seu círculo de amizades. por exemplo. e selecione dele o aspecto a ser investigado (não dá pra ser tudo. 3 ' .S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 31 Mas você pode calcular também com base. não significa idealizado". Ninguém. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados. p a s s o a p a s s o . na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l . esta teia inesgotável dc eventos e processos.. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . S ó n o parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social. s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . C o n s t r u a u m tipo ideal "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social. sendo três racionais e um irracional. você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem busca utilizar-se dos melhores meios para isso e. alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais importantes métodos dc investigação das ciências sociais. Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado". Você pode gostar da escola porque tem amizade com professores namorado lá. tem que ser uma coisa de cada vez).64 S O C I ED AD E . finalmente. que jamais será encontrado na vida prática. se você vai à escola apenas por causa dos amigos. Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê construiu. Ar^ir cm sociedade. Nesse Isso é método perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem mas os constrói para que sirvam de referência. N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o . Ele é um exagero dc perfeição. para Weber você pratica u m a ação social afetiva. t r a t a . e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. Significa apenas que você escolhe as características mais "puras" dos tipos.' . portanto. Mas. 2L. e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a valores. R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . O tipo é tima construção mental. feita na cabeça do investigador. ou porque arranjou uma namorada ou racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m age. A receita m e t o d o l ó g i c a . e Weber achava que os . p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação ao regular. esses de No Weber. está sendo irracional. dos professores ou da namorada ou namorado. que você fosse à escola apenas porque todo mundo vai. Partindo do exemplo acima. Finalmente. V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a de comportamentos aceitos em seu grupo específico.fundamental para entender Weber. N o c a s o . isolar tipos satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola.s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a . É m u i t o p o s s í v e l que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu citei no exemplo. quando você vai à escola pensando em se formar e ganhar dinheiro. O/fie o mundo social que o cerca. o u e n t ã o d o modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. p o i s o que Weber chama de "racionalidade perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação. v o c ê e s t a r i a sendo irracional. Suponha. na prática. nem mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro. entanto. implica em algum grau de e colegas.

Aquilo que e mental. Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou simplificar bastante a definição do nosso autor.s e d a q u e l a q u e s e refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. um agir cie homens que se relacionam uns com os ou tros. institucionalizadas.64 S O C I ED AD E . é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer. Ressalto novamente: q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo. para sua sociologia. liga o indivíduo às estruturas sociais e estas ao indivíduo. daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação.À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u . no momento de agir. n o c o n t e x t o d a sociologia de Weber. que é detalhada so para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber.d i a " n o c n c o i i 11 ' i r s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a . os comportamentos dos atores são interpretados c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e . mas porque para ele o indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de sentido. e s s a r e a l i d a d e s e apresenta a você. e isto significa. Comportamento subjetivo é o c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o . o comportamento dos ou tros c é isso que faz de sua ação uma ação social. O indivíduo e as instituições sociais Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo contrário. sem exceção. E l e d i z . A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível. E m c o n s e q ü ê n c i a . nem muito menos a psicologia individual. em detrimento da sociedade. habilidade cada indivíduo utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos antciiotcs a própria ação. S e d i z e m o s " b o m . melhor d i z e n d o . que têm influência sobre seu agii. Mas não sé): ele é obiigadc) a relacionar-se também com as normas sociais consolidadas. Ou. O método de Weber é individualista não . c o n c e i t o s c o m o E s t a d o . no sentido de adequação entre meios e fins. Não é nada disso. reduzem-se i categorias q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e . embora a certos elementos de dessas ações (a na estruturação do sistema de preferências. para Weber leva em consideração. na prática. Para Weber.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 32 tipos de conduta mais puros são os mais racionais. e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo. a escolha dos meios para desejados. b a s i c a m e n t e . É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance. capitalismo ou Igreja. para Weber é incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . • os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis. a s s i m . não estamos falando ríum comportamento exclusivamente psíquico. se revela em seu caráter mais complexo. q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento d o s o u t r o s . e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. exclusivamente psíquico. O indivíduo. de intencionalidade. 4 . Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a U porque ele prefira o indivíduo. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . c o m o s e n d o ações propriamente obter os fins ditas.

E D U C A Ç Ã O C D l S f l M C A N T A I O EOG IO D A SOC M L N Í A E D U C AÇ Ã O 67 :3t .33 SoCItDAOE.

portanto. kracional. O próprio criminoso. melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com relação ao comportamento dos outros. mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são condenados c presos pelo sistema legal vigente. quando foge ou sc esconde. não apenas porque imagino que você gosta dela. A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não sofrer as conseqüências. pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou n a m o r a d o . Esta é a diferença entre a Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a " d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito — em que a validade do regulamento é garantida por um aparato coercitivo e punitivo. funcionam como uma espécie dc ■2-. sabe que está sujeito às sanções correspondentes. Q u a n d o i s s o o c o r r e . seria difícil viver. M a s expectativas a validade da norma não se baseia apenas nas recíprocas. e não de outra maneira. Além dc pouco afetivo. praticar este ato seria bastante irracional. mas pode se£ preso. O agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade objetiva"). Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com base na expectativa de que os outros também se. de acotdo com um cálculo que tem por base as regras. ainda. será punido.' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança. expectativa além do indivíduo nos orientar-se por este tipo que de tais baseada regulamentos. Sc você se vestir com uma roupa muito fora de moda. está se orientando conforme os regulamentos. regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que os homens ajam segundo suas determinações. Pois bem. E. p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a da moda. J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o .68 S OC I E D A D E . Se o comportamento dos outros fosse totalmente imprevisível para nós. porque sabe que se for capturado. assim como no caso dos tipoS~de ação comentados acima. Mas quando o indivíduo calcula que é m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o . porqtie foi feita uma lei para . ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 34 determinada pessoa é porque esperamos que ela responda "bom-dia" também. p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a todos c. Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14 anos. portanto. V e j a b e m : n ã o estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. comportem dc um determinado modo. Ou. Í p: "condensação dc expectativas recíprocas" c. W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem social. O a g i r e m s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . se você descumprir. Está. na média dos comportamentos geralmente usados para aquela m• I É ! WI orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique este ato. você não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil. de que se comportem cie modo emotivo. agindo em sociedade. Mas diante da declaração anual do imposto de renda. tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores i n d i v i d u a i s . e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . O agir em comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os outros dêem determinado peso a certos valores e crenças. Ê As regras. supõe-se Ir e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias para eles. E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o vai matar sua mãe. cm conseqüência disso. é claro): v o c ê e s t á obrigado a p a g a r . para que possamos calcular as possibilidades reais de levarmos nossos objetivos até o fim. esperamos que os outros também ajam assim. s outros igualmente agem segundo as regras. essa racionalidade não precisa ser apertas com relação aos fins do ator. No agir em sociedade. ou então na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular. Quando agimos racionalmente. Quanto mais disseminada socialmente situação.

as formas de comunidade religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais da vida política entre os homens. c continuam a ser criadas. Quanto as mais pessoas as pessoas este assimilam quadro subjetivamente normativo que a a obrigatoriedade das regras. às quais costumamos chamar Estaco. A durabilidade dessa associação através das gerações de indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o seja voluntário. os "fins". Se você for sócio de um clube "social". inteligível para nós. no casei ela associação política mais abrangente de todas. . e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a gozador. mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece. E é só quando aceitam institucionalização se completa.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo comum por estes referenciais. mais a previsibilidade aumenta. embora as coisas já estivessem prontas quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este pacote dc regras c]iie regulam a sua vida. Sé) está submetido às regras na medida em qtie optou por ser sócio. na medida em que as regras e os órgãos permaneçam. Ocorre.35 S OC I E D A D E . como já comentei. reforça a certeza de que a confiança mútua não será decepcionada. adora brincadeira. e também que elas estão aí para serem mudadas. ela torna o mundo que nos cerca. é preciso considerar que essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos passados. n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s . Na barriga cia miséria. O bonito disso. A esta coletividade Weber dá o nome d e associação com fins. os "estatutos" e o "aparato de coação" da associação. em busca de seus objetivos e levando cm consideração a existência das normas — sejam essas normas entendidas como a condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou como. Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. e portanto. c se você insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras horrorosas que infectam os dedos dos seus pés. pois pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro. além dc sentir-se ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas OLI A vida comum em associação permite que sejamos capazes de prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas. que uma associação com fins. que c o Estado. sem ter sequer o direito de alegar ignorância delas. e l o s d e c r e t o s . meu amigo. Nessa situação. C h i c o B u a r q u e . São instituições sociais. quando plenamente desenvolvida. Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro. Estou falando dc todas as regras. cada "sócio" confia que os demais se comportarão (aproximadamente) conforme as normas. Veja. e esta expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria conduta. por exemplo. p o r e x e m p l e i . definida pela existência de regras gerais e de órgãos próprios. você também participa disso. Quando isso o c o r r e . desses com sauna c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento. vender seti título de sócio ou simplesmente não freqüentar. ou seja. c l e s s e t i p o d c r e g r a s . O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m os "órgãos". quer queira c]ucr nãc~>. o ponto importante que a sociologia cie Weber nos permite pensar é que. não há escolhas: você pertence ao Estado brasileiro. De um clube de associados com sauna e piscina você pode escolher sair a qualquer momento. nasci brasileiro". e está automaticamente sujeito a todas as suas regras. W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. O Brasil foi um aqueles rapazes charmosos que nadam ali. Porém:. ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 71 Assim. Sc a divina providência o fez nascer aqui. você está sujeito à ele sua carteirinha de sócio. 'Com isso. porém. as coisas são diferentes. a suspensão pressuposição de cada um de que a não-observância das normas pode ser punida com coações físicas ou psíquicas. não é uma formação social efêmera.

Agir segundo esses fins da associação. Ou seja. diz Weber. entre outras c o i s a s . Tal poder se baseia numa influência específica — que Weber chama de dominação — de homens concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. é preciso reconhecer que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar crescentemente sua conduta. Aliás. de cem anos pata cá. por sua vez. f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que vão de multas em dinheiro a meses de reclusão. a lei geralmente se fundamenta num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. Hoje. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o 36 país escravocrata até outro dia. Tal influência. E embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social que os segrega na marginalidade econômica. segundo i . que são garantid os o é um pela da agir aplicarã coação. tal* dominação. e o Estado em particular. se você chamar sua empregada de "negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. Negros por aqui eram valorizados apenas enquanto investimento privado de compra e venda. se baseia. passaram por um processo de institucionalização. i s t o é . Nesse processo. que a lei antiracismo prevê). num curtíssimo lapso de tempo.72 Sociedade. Este é um exemplo de extraordinária transformação. esta associação mais abrangente que é o Estado detém um poder de imposição. Historicamente. as associações políticas humanas. mas no modo como a sociedade vê as relações entre as raças. as regras foram se tornando cada vez mais racionais. n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u psíquica). não apenas na lei. ou enquanto insumo agrícola.

mas sim o tato cie agirem racionalmente. c camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na Max sociedade. não precisa desistir. O fundamental aqui. quando as pessoas obedecem às regras não apenas porque temem a punição.. Quer dizer. É este o sentido histórico do processo que Weber chama de racionalização. mesmo que você tenha que lei mais uma viver em vez. cm decorrência. c dc que esta racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão sujeitos. O Esse uma crescente transformação cias associações em instituições parágrafos. t a m b é m subjetivamente. pensa . Weber. reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação. racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. As possibilidades de que esse consenso seja de fato p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o façam porque consideram obrigatória.. para que possam com isso ganhar condições dc previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão também sujeitos à mesma relação de dominação e. porque "introjetaram" a norma. Tenho que er. Mas cá entre nós. Daqui a alguns e. difícil. c ci m bc ni po rej u c estão convencidas da necessidade de obedecer. Weber diz que a dominação baseia-se no c o n s e n s o d a legitimidade. Desencantar o mundo O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer dizer. Ufa! .72 Sociedade. em suma. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o possam 37 "consenso". Tenho certeza de que o sentido geral você é sociedad capaz de captar. garanto que vai compensar o investimento. a relação de dominação. nao é o fato dos homens serem coa°idos. Segure as pontas só mais um pouco. a.

q u a n t o m a i o r s u a racionalização. devidamente g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. em Weber a complexificação gera conflito. p o r m e i o d a força. para que você entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a sociologia da educação weberiana. é um processo de crescente racionalização da vida. o que por sua vez gera a necessidade da regra. que é o das sociedades modernas c complexas. que se caracteriza pela existência de uma burocracia. Na formação do Estado moderno e do . ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito racional. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o c a r i s m a d o l í d e r . c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a t r a d i ç ã o . que é o Estado Moderno. A regulamentação mais desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um aparato especializado dc domínio. Mas no último caso. Bem. uma vez que maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e maior também a necessidade de regulamentá-los. outros obedecem e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. de abandono das concepções mágicas e tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens e para a administração social. tendencialmente. porque para fazer cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez mais complexa). Eu sei que e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . para o tipo racional-lcgal. O e x e r c í c i o d a autoridade racional depende dc um quadro administrativo hierarquizado e profissional. M a s v o c ê v a i e n t e n d e r .38 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. a s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores compartilhados — como constitutivas da sociedade. P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o l e g í t i m a : a dominação tradicional. O ingresso dos indivíduos nesta grande associação. compartilharam de uma tradição) ou porc| ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama dc carisma). aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação. Pode-se compreender aqui o sentido d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r . maior o número de regulamentos sociais a serem o b e d e c i d o s . A lógica da racionalidade. Se a associação estatal passa por um processo de racionalização (e também de burocratização. na qual estão obrigados a submeter-se ao poder já instituído. isto c. é o modo pelo qtial os homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao preparados para exercer as funções que a transformação causada pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. a dominação se b a s e i a o u n a tradição. da obediência à lei c do treinamento das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi aos poucos se disseminando. a dominação carismática. argumenta Weber. E este o sentido histórico do processo que Weber chama ele racionalização em das sociedades: organizadas uma crescente transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc obediência instituições racionalmente. Para resumir em poucas palavras: uns mandam. Paia legitimar-se. m a i s conflitiva tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos. que obedecem porque foram educados (ou seja. c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que está por trás da lei. i s t o é . as fonvias de dominação no Ocidente caminham. N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a . Diferentemente da concepção organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx. Quanto mais c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s . impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência. mas à posição -que ele ocupa no aparato dc dominação. A educação para Weber. a obediência não é devida à figura do líder. e a dominação racional-legal. ao que me parece. segundo ele. Assim como em Durkheim. e as regras s ã o f e i t a s . a d a s formas de dominação legítuna. Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e . educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- A história humana. para garantir a aceitação dos comandados. d i z e l e . d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos. Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui. a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e pelo domínio dos líderes sobre os dominados. não é voluntário.

39 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. em vez dc cultivar o intelecto Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização alteraram radicalmente os modos de educar. acima da camada das famílias. analisa ele. contato com a população. Weber dá especial atenção a dois aspectos: de um lado. nesse tipo de administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude do Imperador e dos funcionários. que são inseparáveis um do outro. Um dos elementos essenciais na constituição do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática em moldes racionais. Tal processo só ocorreu de modo completo no Ocidente. Não mantinham. a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m moldes burocráticos. de que sua superioridade cm matéria literária. uma pequena camada de funcionários. não fato. ou seja. O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora. Educar no sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado. o único cm que pode prosperar o capitalismo moderno. A China antiga aparece descrita como um modelo de administração em que havia. passou a ser um pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas funções. dos grêmios e das corporações.educação sistemática. de um modo "racional". A coisa é muito distinta no Estado racional. de "pilotar" o Estado. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro. Ele se funda na burocracia profissional e no direito racional. Eles eram literatos de formação humanística indicados para o posto. e d e o u t r o . educa administravam de nunca atuando Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- capitalismo moderno. mas sem preparação específica para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. para o qual não existe mais lugar reservado à obediência . pois ela se pauta pela lógica do lucro. u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a v i d a . a constituição de um direito racional. o Estado burocrático. e muitas vezes auxiliares. Na realidade. Treinar. E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a educação. c precisa Estado de profissionais treinados para isso. E alteraram também o st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s indivíduos que se submetem à. Uma vez que não davam importância às realizações políticas. Educar no sentido da racionalização também passou a ser fundamental para a empresa capitalista. A educação sistemática. basta para governar. Na exposição de Weber. apenas intervinham em caso de agitação ou incidentes desagradáveis. sua desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. tendencialmentc livre de concepções mágicas. do cálculo dc custos e benefícios. enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação política própria do capitalismo. o Oriente aparece como protótipo da administração irracional. tais funcionários não governavam. portanto. as empresas e a própria política. o capitalismo e o capitalista forjaram um novo homem: um homem racional. porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia montada cm moldes racionais. onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo não especializado e regido por orientações mais ou menos discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo especificamente treinado e politicamente orientado com base em regulamentos racionais. em ficando a gestão efetiva em mãos de província natal. ps mandarins. Mais que profissionais da empresa ou da administração pública. O direito racional oferece as garantias contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos. Na prática.

Nem comprovavam (. p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u s e j a . à composição cie determinado grupo d e status ( s a c e r d o t e s . certamente não é o mesmo que educar antes dessa grande transformação. o mundo perdeu o encantamento. Não é mais o mundo do sobrenatural e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c t r a n s m i t i r conhecimento especializado.) a posse ele carisma. E l a p r o c u r a f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto. não é mais. no sentido animista. a imunidade em relação a punições corporais às quais o homem comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária.. no sentido assumia de uma o aspecto edticação de uma e geral. como eu já frisei. de obtenção de honras. passava a lazer parte ele um estamento privilegiado. Ela harmônico organismo como propôs destinava-se. i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s etc. assim qtie aprovado. . mesmo antes cie ser empregado. Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no noviço sua capacidade considerada inata. Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval. um meio de distinção. ^ estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos d e p e n s a r a d c e ]ii . historicamente. É o mundo do império da lei e da razão. N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses. de prebendas.. i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o conhecimento ela literatura. No modelo ideal weberiano a educação é. ao mesmo tempo. Para este homem. e p o r t a n t o " r e n a s c e r " . educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 40 que não seja a obediência ao direito racional.. conforme o caso. comportamento Durkheim. socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: despertar o c a r i s m a . ao terceiro tipo ele educação Weber chama pedagogia do treinamento.) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato . Educar num mundo assim. como os nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas. 'pois não se pode ensinar nem preparar p a r a o c a r i s m a .. T a l p rocesso educacional "qualificação cultural". técnicos.) c à composição elo aparato administrativo típico das formas tradicionais dc dominação política. cujas principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos. através de exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa.1 tampouco ser. E o caso da China Antiga. (. então.. onde os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados. mas apenas àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos. o candidato.. E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber. o n d e o i d e a l d c c u l t u r a depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo preparado. um grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras.78 Sociedade. Escreve Weber. a preparação para que o membro Nem passa do é a todo orgânico do vista medida aprenda social. como em que sua parte no de se A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo. de poder c dc dinheiro. na possibilidade a sociedade emancipação com base na ruptura com a alienação. provocada pelo advento do capitalismo moderno. u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) . por suas habilidades humanísticas. O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia. l e t r a d o s . "um dom ela graça exclusivamente pessoal. Na China. no mesmo texto citado acima: Os chineses não comprovavam habilitações especiais. médicos.. comuns. Finalmente. uma vez que não se aplica a pessoas normais. O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível alcançá-lo". como propôs racionaliza. c a v a l e i r o s . Marx. A educação. um fator de estratificação social. que eram educados para adquirir uma "nova alma". e que implica em prepará-lo para certos tipos de c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a . C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a crescente burocratização cio aparato público cie dominação ífc . para Weber.

educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 41 ■ .78 Sociedade.

SCI significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor ila riqueza. a razão para isso é. e o clamor universal pela criação dos certificados formação dc educacionais uma camada em todos os campos nos levam à e privilegiada escritórios repartições. além de minimizar uma formação humanística de caráter mais integral. Como a educação Í IÍ LD política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas privadas. d e 81 remuneração pelo trabalho realizado. A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação. se oculta em algum aspecto mais decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de "homem culto". dc seu ponto de vista o capitalismo reduzia tudo. para Weber. não uma "sede dc educação" surgida subitamente. acho importante reproduzir aqui o-que Weber diz. que é a pedagogia do treinamento. a educação por assim dizer "racionalizada". O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de comercio c engenharia. mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais. enquanto b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a . Com o perdão da longa citação.s e c a d a v e z m a i s u m preparo especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o . a exigência de uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais. s o b r e homem. não há nada que se possa fazer a respeito. parcializado habilitar desempenhar certas tarefas. p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de custos intelectuais não aumentam. o fim da possibilidade dc desenvolver o talento do ser humano. num texto do início do século XX chamado Burocracia. o mesmo tipo de clepressão intelectual que ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-. para Weber. E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O í: ' garantido G^ .S. imposta pela racionalização da vida. Pessimista que era. acima de tticlo.. de todos os lados. Essa luta é determinada pela expansão irresistível da burocratização de todas as relações públicas e privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos e do conhecimento especializado. e a educação especializada. continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . à mera b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status. Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio da alienação do trabalho.é o sentido próprio do termo "educação". pretensões de progresso pensões na velhice c. (. decerto. pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da .. mas educação são sempre baixos. A racionalização c inexorável. Burocracia). Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação uma certa melancolia. invencível.42 S O C I ED AD E . as pretensões dc s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " . entre as formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia.seb os desígnios da especialização. cm nome da preparação para a obtenção de poder c dinheiro. da burocratização e da racionalização da vida. Ainda mais que. a lógica cio treinamento.) Por trás de todas as discussões attinis sobre as bases do sistema educacional. também é. Weber via na pedagogia do treinamento. c . pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente vantajosos. inclusive a educação. Esses certificados apoiam as pretensões de seus portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a preferencia em relação à filha do chefe). em especializado e o recuo de da educação educação para enquanto enquanto o formação indivíduo do a favor uma treinamento necessária à aquisição do título exige despesas consideráveis e um período de espera de remuneração p l e n a . a educação deixa paulatinamente de ter como meta a "qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que. Quando ouvimos. e na educação a possibilidade de romper com ela. Essa luta está presente cm t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER. este. Para ele. c com o crescente volume desses certificados os dccrcscem.

que retoma o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre as práticas educacionais. que. nos ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades contemporâneas e. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira. a partir do marxismo. conforme as finalidades a que os autores se propunham. o quanto a educação está relacionada a essa luta. Bourdieu c os esquemas reprodutores . A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu. A segunda é a do líder comunista e intelectual italiano Antônio Gramsci. três contribuições importantes do século XX à análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm particular. resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria ser. que aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as diferentes pedagogias que Weber identifica. ou. gostaria dc mencionar. também.84 E D UC A Ç Ã O S OC I O L O G I A OA j Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o XX CAPÍTULO V CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções analíticas diferentes a propósito do processo educacional. ainda. ainda que deforma muito resumida. Neste breve capítulo.

O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos fundamentais para a construção de uma sociologia da .

de a publicada das década de 19~60. forças mesmo sociais. os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão espécie francês. segundo a qual os estudantes e o meio estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. submetido aos desígnios cia sociedade. a explicação dos processos educacionais realmente importantes reside cm outra parte. A ironia é qtie o livro serviu como combustível. Em 1964. fase uma produção. ocultas.. síntese que por durkhcimiano estruturalismo trás conecta desvendar ações sociologia justamente sujeitos. * Para ciências uma O em levar a cabo em se das entre a o ambição da modelo à dos de Durkheim e . de o das . pela liderança da transformação social. os estudantes dc fato sairiam às ruas. E seriam responsáveis. dc o Na Bourdieu Durkheim peso verdade. que o fazem pensar que sua ação é resultante dc vontade própria.' . Para primeira — Para como o o estruturalismo de sua em geral. pretende sociais trata-se de uma versão mais radical do modelo de Durkheim. Um dos mais importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês Pierre Bourdieu. Bourdieu publicou um livro. em razão dc sua juventude e de sua disposição para a ação. culminando um processo de mobilização que teria um alcance bem maior do que a capital francesa. unificar as J daquele as de nível suas para se da sociedade O sujeito é O Bourdieu.84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j ausentes educação muito influente ao longo do século XX. Encobertos sob as aparências de critérios puramente estar movidos agir. na medida aqui j estruturas determinam. faz o que suas estruturas T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • humanas teórica torno sociologia. o sociais. em de na que fato verdade são não o está 85 objetivamente existe. introduziu estruturalismo. em seu livro. por seu aspecto crítico às bases do sistema de ensino. Nas estruturas. e também por o de volta Bourdieu da estão submetidos ao controle das estruturas da na . que pretendia combater uma idéia muito comum na branca da época. determinadas estrutura N e s t e l i v r o . . ■ demonstrar indivíduos. ou seja. estruturas reproduzem. c h a m a d o Os herdeiros. não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos dominantes. tornaria possível a realização das potencialidades humanas. Apenas quatro anos depois. que leva às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os indivíduos sociedade. estruturalismo ação. Mas para Bourdieu. apenas social permitem reproduzem vigente. em colaboração com Jean-Claude Passeron. para essas mesmas revoltas estudantis.. nelas liberados por. os das que residem não que as agentes assim. explicações. ação. como orientações marionetes teoria os estruturas e sua o em pela sociólogo as durkheimiana dominantes. o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o Segundo ele. justamente a reprodução das relações sociais e de poder vigentes. dc caráter igualitário. sujeito simplesmente T. O que pelo processo determinadas chamamos qual as ações. da que na São ação pensam verdade a essas pois estão dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos". E o fazem colocando cm evidência o que a instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade. no célebre mês de maio de 1968 em Paris. consciência Os aqueles são que deve sujeitos os disso. mesmo é que determinações tenham digamos estimulam "condições objetivas" investigador desvendar. é claro.

escolares. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino . Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema i de ensino. Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos educadores. estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos indivíduos para ocupar determinados postos na vida.

além dc sistematicamente D u r k h e i h í . reprodu as relações vigentes. portanto. Não há possibilidade de mudança. Daí ser preciso. Esta imposição. uma autoridade pedagógica. e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e toda ação pedagógica é. um trabalho de inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura irar o bastant e para que o educan do "natura lize" seu conteúd o. e s s e a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s grupos c classes dominantes. encare o como natural. por um poder arbitrário. como evident emente correio em si mesmo. ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. Pois. p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . A revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um reforço da interiorização da própria norma. Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos dominantes. não faz mais que reforçar o sistema. para eles. E l a é necessária para que a inculcação possa ocorrer. S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87 UZ Passeron chamam de "trabalho pedagógico". sob a fachada dissimulada de uma alegada pedagogia. porém. é apresentada àquele que sofre a violência de modo dissimulado. no entanto. não aparece jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza enquanto pedagogia. a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e . pois limita-se à inculcação de valores e normas.86 SoCIOLOClA E D U CAÇÃC DA T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . que oculta as relações de força que estão na base de seu poder. é uma violência simbólica porque impõe. para que a ação pedagógica se efetive. objetivamente. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o . os autores refinaram suas idéias. e na medida em que pressupõe uma autoridade pedagógica. A ação pedagógica. A própria revolta estudantil. uma violência simbólica. Na medida cm que o educan do interior iza os princíp ios culturai s que lhe são impost os pelo sistema dc filtra os alunos sem que eles se dêem conta e. isto é. Em 1970. incorporando mais as contribuições dc Marx c Weber. que é imposta a toda a sociedade através do sistema de ensino. um d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. com isso. o bastant e para produzi r uma "forma ção durável ". O conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição arbitrária que.

o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o . a "condição de classe dc chegada" deste aluno. Os autores. ' v" / •> Assim. isto é. demonstram "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte. todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social que estão por trás de de sua dados ação pedagógica. valendo-se empíricos. Uma vez que o arbitrá rio cultura l a ser impost o é incorp orado ao habitus do profess or. quanto. o trabalh o pedagó gico tende a reprodu zir as mesmas condiçõ es sociais (dc domina ção de determi nados grupos sobre outros) que deram origem àqueles valores domina ntes. ainda. mesmo depois dc termin ada sua fase dc formaç ão escolar . o t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u . do ensino básico ao médio e ao superior c determina também. Isso explica que a as desigualdade que está na base do processo de seleção escolar. ele os tenha incorp orado aos seus própri os valores e seja capaz L U: reprod u z i -los na vida e transm iti-los aos outros Bourdi eu diz que ele adquir e um habitus.ensino — de tal modo que. o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem acesso (se de melhor OLI pior qualidade). no finai das contas. Tal situação se reproduz.

a posição na hierarquia econômica e social a que chegou. mas talvez seja o momento de retomar a questão que coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação social é intransponível? Será que estamos condenados . Bem.e. em especial.

88 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O TRÊS V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S É C U L O XX 89 a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i . é múltipla. de 'capitalismo conceitos avançado primeira Seus nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . E p r e c i s o conquistar a consciência das pessoas. Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado. uma fonte dc reflexão filosófica. à é p o c a d e M u s s o l i n i . a sociedades agrárias. sem capacidade de contrapor-se a tal poder concentrado no Estado. nos partidos. complexa. e M a n n h e i m . dominação. No entanto. está cm muitos lugares ao mesmo tempo. a o contrário. moderna. d e v e r e f e r i r . ele é capaz de concluir qtie. com um mercado interno forte e com uma vida política p l u r a l . Dela. C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere. atrasadas e com capitalismo pouco desenvolvido. para obter poder. F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a dc puro poder econômico. sob a guarda do Estado fascista italiano.s e a todos os espaços de poder disponíveis. d o p o n t o d e v i s t a do m a r x i s m o . ■ . tem que. de modo a adequá-lo às características da das sociedades metade do cutopéias século XX. E uma lição sobre a política c a sociedade e m g e r a l . O único modo de lutar pelo poder e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o no E s t a d o . nos clubes. A luta política não pode limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin. as classes ou grupos p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o . concentram todo o poder e onde a sociedade civil é fraca. tentar uma revolução armada. mas também está nas empresas. Deixou também. vital. E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m revolucionar a sociedade. sociológica e política ímpar. eliminar a apropriação privada dos meios de produção da riqueza. O Estado é força. pouco organizada. dentro da luta política. é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. E l e e s t á d i l u í d o e n t r e o Estado e a sociedade civil. ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem estrutura. na cultura. p o r t a n t o . as estruturas políticas. que desalojasse os poderosos e desse o p o d e r a o s o p e r á r i o s . coerção. "ganhar a batalha das idéias". até hoje. Está no governo. organizada c tem condições dc dividir com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração da vida social. A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de atualizar o pensamento de inspiração marxista. nas concepções de mundo que as pessoas veiculam. no mercado. o revolucionário russo. mas a sociedade é o e s p a ç o d o consenso. d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a liberal. não basta apenas eliminar a exploração econômica de uma classe sobre outra. Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. d c 1917. P o r O c i d e n t e . Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na sociedade. E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre leste e oeste. A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade. c isso é o mais importante. achavam que não. N e s s a s c o n d i ç õ e s . Essas são as sociedades de capitalismo mais Gramsci e a reforma intelectual e moral O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a avançado. vários cadernos de notas manuscritas durante o período em que esteve preso. sua militância política desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos de partidos políticos e na imprensa. No c a s o d o s c o m u n i s t a s . no dizer de Gramsci. É preciso uma revolução no cotidiano. Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e Ocidente. N ã o b a s t a f o r ç a . Não está num lugar só. COMO publicpu um livro em vida. Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental. e s s e s escritos foram publicados após sua morte e representam.

tende a ocorrer uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is que querem mudar. Os dois grupos traçam alianças internas. ele chama de intelectual coletivo" aquele que atua no sentido dc reformar as mentalidades.90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91 como demonstrara Marx no século anterior. e também definem se os homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. Na verdade. Repare que no capítulo 7. então. possuem seus intelectuais. O primeiro é o intelectual orgânico. ganhar a batalha do convencimento. tanto as classes dominantes quanto as dominadas se organizam em blocos. Esses grupos representam. utiliza esses conceitos de Gramsci para analisar a educação atual. É preciso também lutar c o n t r a a apropriação privada. Do mesmo modo. S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que interessa a essa classe. Para ele. a conquista é mais duradoura. cujo objetivo 6 desenvolver a concepção d e u m a contra-liegemonia. para depois vê-los operando na análise. A este processo lento e complexo de luta pelo poder político nas sociedades complexas. Pois os i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. c p r e c i s o s e r hegemônico. há dois tipos principais. E por esta razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda injustiça. possuem seus intelectuais orgânicos. autor do capítulo. e portanto. diz ele. do saber e da cultura. confirma Gramsci. Á burguesia. surge para dar consciência a ela. ensinou Maquiavelli. repito. E melhor ser amado que temido. segundo Gramsci. a classe trabalhadora. é claro. enfim. inclusive e principalmente os dominados. O s e g u n d o t i p o d e XVI. captar esses conceitos agora. Nos momentos de disputa mais acirrada. E preciso. cm sua célebre obra chamada O príncipe. e portanto concentra mais poder. ou seja. que você vai ler mais â frente. Gramsci constrói uma tipologia dos intelectuais. da hegemonia da classe burguesa. ou elitista. evidentemente os intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. do convencimento. as classes dominantes em geral. na hita pelo poder. C o m i s s o . no sentido da conquista da hegemonia. da vida política c social em geral. É p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a . Ao próprio partido político moderno. na luta pela hegemonia. na luta pela hegemonia. as concepções de mundo. passa por uma reforma intelectual e moral". diz ele. vêem a divisão de poder e de riqueza de sua sociedade. as diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder na sociedade. . note bem.atores principais dessa luta. Esta é a fonte da persuasão. isto é. E isso é fundamental porque apenas aquele que é tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado. o sociólogo Michael Apple. obter um consenso social em torno de suas que concepções. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s quais os homens concebem o mundo em que vivem. os dominados. há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que desejam uma nova hegemonia. a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' pessoas simples". que é um dos . O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Mas. cada um de um lado do campo de batalha. se para conquistar a hegemonia política e ideológica é necessário ganhar a batalha das idéias". e cada uma delas conta com seus próprios intelectuais. ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da classe dominante. Gramsci chama de disputa pela hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r um golpe dc Estado. Vale a pena. Em suma. quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem a cie do que pelo medo que tem de sua força. j á havia ensinado. q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . cujas idéias competem entre si na t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s interesses. A cada um desses agrupamentos de classes e frações de classe em torno dc interesses históricos determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". Ora.

c desempenhar funções de organização da cultura. dc modo independente . destinada a dar a cada um. Sc você perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira no tempo deles. a cura das pessoas. pois os padtes deram coerência e . a administração pública. para vir a ser um dia um intelectual orgânico ou um intelectual tradicional. é notar que ela tem um conteúdo de classe. organicidade à dominação da nobreza aristocrática. à formação de seus próprios intelectuais orgânicos. formar-se como um indivíduo completo. "o poder fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". Gramsei nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber na Alemanha. A função dos dois tipos de intelectual. a escola "de comércio" e a escola "industrial" (formação técnica profissionalizante). O fundamental em perceber essa distinção. nas palavras de Gramsei. surgiram as diversas escolas especializadas. e até mesmo as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. é reservada aos filhos das classes dominantes e. para Gramsei. na luta pela hegemonia. ligado. mas essa é uma outra história. O exemplo clássico deste tipo é o clero. O próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes politicamente. depois do tipo desaparecimento da classe a que estava agindo esse tradicional'de intelectual continua vista disso. Mas isso não é tudo. Mas de onde vêm os intelectuais? Ganhou um pirulito quem disse "da escola". o intclectuaj é formado na escola. Gramsei observa sociedade ciência misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção de casas. Quer dizer.92 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TRÊS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O XX 93 I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional. A formação geral que faculta ao indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada ao longo dos séculos. c que o havia que levado na a uma distinção moderna a entre a pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas acima. Dc outro lado. foram intelectuais orgânicos das classes que eram então dominantes. que ensinam nessas escolas". voltadas para a formação específica dos diferentes ramos profissionais. em épocas passadas. das concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados. conseqüentemente. E isso ainda no ensino que hoje corresponderia ao Ensino Médio. destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn geral. ou baseadas na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. Bem. é a de ser um instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva. p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura. na década de 1970. Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época. é claro. Mas atualmente. bem como a separação entre a escola "normal" (formação para o magistério). que da uma formação clássica . Sim. verá que era exatamente a mesma lógica que presidia a divisão entre o "clássico" e o "científico". cujas bases se estruturaram a partir da fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar. sem contar naturalmente com o surgimento do Ensino Superior no Brasil. tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado. na época do feudalismo. OU SCjcl. U 111 £1 classe de intelectuais que. podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente. portanto. o indivíduo precisa passar por uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura. ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere. dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas. Em . Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do sistema escolar de seu tempo. portanto. Dc um lado um tipo e escola humanista .numa direção conservadora. Isso gera um sistema educacional híbrido. q u e "toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas c.

Nesse sentido. No plano das suas próprias convicções pessoais. E m p r i m e i r o l u g a r . Se todos não tiverem acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica. Para ele. pouco organizado. na formação dos alunos. Mannheim e a luz no fim do túnel Fechemos Q L IC desinteressada" "formativa". na medida cm que o desenvolvimento industrial c a urbanização o exigiram. sem que fossem traçadas políticas orientadoras. e fugindo no pessimismo a weberiano. a "batalha das idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes. se é verdade que a racionalização da vida levou a um declínio da educação voltada para a formação do homem integral. que acabou por suplantar a clássica. p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e desequilibrada nas sociedades complexas. bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas. além do elitismo e da exclusão das classes trabalhadoras de uma formação de qualidade. para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para então o capítulo com um comentário sobre um pensador do século XX. na medida em que era mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes dominantes. a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. veja você. que possa ser eventualmente expandida em seguida. em .dominantes mudou. Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional. O p a p e l da teoria. ele defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática. Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as c l a s s e s . o aluno passaria a uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública. Gramsci vê nisso. o interesse dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite. No mesmo texto citado acima. governada por cientistas. sendo a escola privada. nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico de certo modo de ao Karl Mannheim para (1893-1947). Gramsci afirma que a tíndência hoje ■ ou é a de abolir delas qualquer tipo de "escola e reduzido que os interesses econômicos imediatos não interferissem. e intermediado por uma orientação profissional. preocupado com a sociologia da educação. mas não manual). A partir dessa escola única. é o de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas sobre ela. recuperando a percepção de Marx discutida acima e ampliando-a. s próprios mlclccliutis. propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo educadores educandos objetivo compreenderem situação educacional moderna. mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação. um indício de] que a expansão do ensino — necessária para dar conta das novas tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se dando dc um modo caótico. q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s do Ensino Fundamental e do Médio. a p e n a s expressá-la. retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de um programa para a mudança da educação. que teria um caráter formativo e objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das capacidades do trabalho intelectual. ele tinha sua própria proposta de política educacional. Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais. (não imediatamente interessada) um conservar tão-somente exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro profissional. em sua opinião. Este detalhe pode até parecer exótico. c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s . Para ele. u m a escola unitária. Mannheim achava que o pensamento s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a . a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . tinha uma visão bastante precisa de como a nova escola deveria ser. também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças. unia democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional e.

Para qual sociedade?. Valendo-se da influência da psicanálise. c h a m a d o " O f u t u r o " . Mannheim vê como luz no fim do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes tipos históricos de educação. para a montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma formação mais integral. N u m d e s e u s e n s a i o s . é político. Portanto. provocada pela consolidação da sociedade industrial. As perguntas que a sociologia obriga a fazer. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (précapitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à ordem social tradicionalmente estabelecida. ou seja. traz ao processo educacional as contribuições culturais das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. o advento da democracia moderna. Ele reconhece que os modos de vida incutidos por esta educação. lembra ele. consideração para do este autor. p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação. mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos num processo "consciente". O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades dadas na sociedade atual. tal processo era apenas dc assimilação "inconsciente". socialmente orientados. E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o . a respeito do que seria essa sociedade "sadia". construídos por Weber. Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c aos trabalhadores. ele observa que. apenas como tentativa de ^explicação. Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o aprimorarnento d a e d u c a ç ã o . e l e afirma: "Queremos compreender nosso tempo. cm que o educando se aperceba do meio social em que vive e das mudanças pelas quais passa. Quando e como ensina? Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir apenas pela teoria. são portanto: Quem ensina quem?. na modernidade. do modelo da ordem v i g e n t e . as dificuldades desta Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da sociedade e do homem". voltada para a cultura e a erudição.. Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez mais importante. para o estudo dos fenômenos educacionais. Regenerar de quê? E o que seria essa "educação sadia"? .e qttc tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do capitalismo c a ascensão da classe burguesa. pela criança.sua visão. E concorda também que a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive. justamente porque a vida baseada na tradição estava se esgotando. Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do cultivo está condenada à morte.'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a racionalização da vida. na visão de Mannheim. M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o . Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores de vida. Ele aponta os movimentos da juventude como educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a contexto social. estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la". nem os pois objetivos eles são do processo A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de racionalização detectado por Weber.

aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de vida. a ascensão do mundo baseado na razão c na lei racional era um processo incontrolávcl. associada a um período cie declínio cia liberdade e das esperanças. estamos vivendo numa era em que as forças não só da tradição. ou ameaças à liberdade. com a derrota do nazi-íascismo. cm parte consciente. estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio das elites limitadas para a democracia de massas. depois cie 1945 e até os anos 1970. Mannheim era um homem de seu tempo. nova se forma de entre as contribuições coordenação. abertos. se deteriore. a modernidade não tem apenas custos. Mannheim estava certo. havia equilíbrio. provocou o retorno da ideologia do livre-mercado. da barbárie. Estamos vivendo numa era de planejamento . que não o satisfaziam. Lima citado acima mas . porém. estamos vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a clesumanização e a desintegração da personalidade.98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 formulação de projetos educacionais que . interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os outros. Em suma. c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s contribuições. Finalmente. no qual vivemos hoje. com saúde mental. no mesmo texto já citado acima: Em períodos de elevada cultura. que superasse as divisões cm blocos políticos c ideológicos. Mannheim. quando o capitalismo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso. A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial. E a s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a .destinada também do a encontrar iluminismo. Para Weber.. em busca de um programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a .. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais ■! solidários. a educação terá de ser concebida como uma nova forma de controle social.século X X que Weber não chegou a presenciar. Por isso é tão importante. cia clesumanidacle. Para ele. Seu interesse principal reside no acesso. cada uma das quais apresentava sua contribuição cultural própria em níveis diferentes. mas para Mannheim a experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade.escreveu ele no texto responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero". desintegram. Ele explica tal processo do seguinte modo. e vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). dos membros talentosos das classes inferiores. para ele. A crise capitalista dos anos 1970. que a sociologia sirva dc base à pedagogia. c m s u a v i s ã o . Arrisquemos agora conhecer prestadas pelos diferentes grupos à educação. Episóilios d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o . (. à vala "novo forjado L!C Réissia comunista como protótipo Enfimr* dedicação comunitária. ampliassem o horizonte do homem. se tratada a partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pósguerra. ^énftáifí J &fcóriíribüir 1 eólia O processo educacional. às elites. So a democracia poderia fazer surgir a luz no fim do túnel. convertida c no em impedir massas que a não diferenciadas. na na capaz de deixar aponta o até homem mesmo um livre o das cie para repressões homem" entusiasmo adquiridas e formação. a superação das formas atrasadas e tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo. Ele viveu o terrível momento da crise econômica dc 1929. na invenção dc métodos sociedade adequados de seleção s o c i a l . cm parte inconsciente. Esse equilíbrio baseava-se às vezes na idéia de hierarquia de estamentos ou castas separadas.) A concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições culturais. que não é nem a inculca do fascismo nem a c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire. A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s sociais'.

um pouco mais sobre educaçã o no dias que correm. a 98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 .

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