Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues Coleção

Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja Hcrnvan

[o que você precisa saber sobre...] C O ORDENAÇÃO
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

[o que você sobre...]

precisa

saber

Revisão dc provas Paulo Tcílcs Ferreira Andréa Carvalho Projeto gráfico e diagramação Maria Gabncla Delgado

Sociologia Educação

da

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ I\Ó lis Rodrigues, Alberto Tosi Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro: DP&A, 200-1, 5. cd. - — (O que você precisa saber sobre) 1 4 x 2 1 cm 160 p.

5a edição

Inclui bibliografia ISBN: S5-7490-2S9-6 1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.
1

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PASTA N°TEXTÇfJSL.

CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? N UM o i : s h u s
1- ~. *\
SAMBAS ,

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UNI

10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m

malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou", já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade? Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva. Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.

Buscava m isso delimita r de um campo com

20.

S O C I ED AD E ,

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investigação

que

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Sociologia da Educa

ÇÃO

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Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal. Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos. Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social. Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação

alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t com os outros. E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos. Durkheim e o pensamento sociológico Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida? Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia da educação. sociologia c da

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S OC I O L O G I A

DA

E D UC A Ç Ã O

S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L

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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a moral, o direito, a economia ou a eclucarn s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu, t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção necessária para entendê-los A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „ 1 sob .. j. , muuos uc agu que exercem u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar são portanto contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pre-noções dos preconceitos i ~ científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í imediatamente.
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se fossem coisas lais como

II.S

coisas materiais. Coisa para ele é todo

objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental. Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, pelas é reconhecido que lei a como-tal porque é (no de conhecimento pelas leis a e coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido regras A sociedade contradiz estabelece punição as caso, o mais jurídicas). consciência estabelece porque convicções crime fere vivas

coletiva,

profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade. O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação

"

&

Ui

as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como

Disso que acabei de dizer. que viviam dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas. algo novo. v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " . na visão de Durkheim). desejar c principalmente agir senão através dos indivíduos. retenha dois raciocínios houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa. pois que suas partes constitutivas são gases. de valores. não entenderemos a sociedade jamais. A diferenciação da sociedade Ora.s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o naufrágio? Pois é. ao mesmo tempo um ser social. são exteriores às consciências individuais. sente. esta sociedade viva n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia s o c i e d a d e . completa. Vamos chegar lá agora. são percebidas em coletivo. As representações coletivas. Talvez a esta altura. de hábitos. em decorrência. não entenderemos a água jamais. você já esteja um pouco ansioso. não apenas o indivíduo faz parte da sociedade. De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos. mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando fundamentais. por outro lado. cada um entra com sua quota-parte. Para ele as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). uma parte da sociedade fa7 parte dele. sentir. O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o são dois gases diferentes. assim como o Cristo bíblico. A sociedade vive na cabeça de cada um e. os valores e as regras q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -. pois se é verdade que ela existe em cada um. ele levará um pouco da sociedade consigo. A sociedade na cabeça de cada u m L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. assim. mas um conjunto de crenças. Segundo. se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim aprendemos. cm cada um só existe um fragmento dela. m a s s o m e n t e p e l a cooperação entre os indivíduos. Talvez já esteja se perguntando: bem. para Durkheim. elas não derivam dos indivíduos considerados i s o l a d a m e n t e . embora não possa pensar. n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e . m a s d e s u a cooperação. água. é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações passadas. a consciência coletiva. Se completamente tomarmos as partes que compõem a água. a nossa vida como indivíduos. caro leitor. N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o comum dessa colaboração. mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda. tem precedência sobre as partes. F como se se combinam entre si.6 mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a . afinal. Tais crenças c valores não revelam uma suposta personalidade privada. diz Durkheim. Revelam sim o quanto há dos outros em nós. se tomarmos os indivíduos. são compartilhados e geram. os qtiais não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que tal coisa poderia exista. dentro de sua cabeça. Primeiro. onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles Mais do que isso até. na cabeça de cada um. foi "raças à sociedade e seus saberes.-a-. talvez há muitos anos. e inclusive das que não vivem mais que já moireram. mas se combinados em certa proporção . L e m b r a m . A consciência coletiva existe através das consciências particulares. Ela pensa. a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto. . porque ela não cabe toda. As representações sobre os fatos sociais são iepieséntaçõcs coletivas. essa existência social essa vida coletiva. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais. Cada uma não é nada sem a outra. pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta. calma. A sociedade tem vontade própria. Do mesmo modo. a pensar a educação? Calma. c. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o . o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em outra coisa. Por causa das combinações e das mutações que sofrem a o s e c o m b i n a r e m . O todo. deseja. Ao mesmo tempo. que ajudaram i criar is i crenças.determinada transformam-se c sob em certas algo condições físicas diferente: específicas. Portanto.

existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas.7 naturalmente. como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. outro para pintar os encaixes etc. essas já parecem mais exóticas para nós. fazem cestos de vime. todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso. temos vida um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. as tarefas são extremamente divididas. de tão comuns. pór este mar de crenças. Numa tribo dc índios. A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de indivíduos destacados. alguns jamais aprendem. superespecialização das tarefas. através do de é produzido um processo Dito social. há um homem para apertar o parafuso. o açougueiro. Como já vimos. que são todos operários. trabalho determinada outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que coletiva época. claro). o ferreiro. não se faz no vácuo. o status d o s m a i s v e l h o s e r a diferente do que existe hoje. um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim observa que uma condição fundamental para que a s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. pois significa que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. (D tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc solidariedade mecânica. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas. Vicia moral que será a base cios conteúdos transmitidos na forma de crenças. e a segunda vale para a cultura esquimó. Ela tem conteúdos Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei. valores c regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos. pelo menos alguns de nos. afinai. não há vida social. Tal processo se radicalizou com o capitalismo. note bem. Além desses. participam de rituais religiosos etc. pescam. ou seja. o contador etc. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada. mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes. ao refletir sobre como. cada vez mais. por sua vez. que levou a uma \ o na tase da conquista. Mas no caso radicalmente oposto. Bem. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra. obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar. Coisa que. ninguém nasce sabendo. Existe um número quase infinito de rcras sociais que. mas são parte integrante de um determinado meio ■moral que compartilhamos. Com a urbanização c o desenvolvimento e c o n ô m i c o . pela cie de cooperação entre indivíduos. há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico. dá origem . é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. na calçada. Não estou falando apenas de educação escolar. você já deve ter reparado. Na fábrica moderna. na moderna sociedade industrial. E este tipo diferente cie cooperação. Estou falando de aprender a viver. Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em . Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. Com a divisão do trabalho social. com uma pessoa mais velha. outro para encaixar as peças. até esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um moral diferente. o dentista. sua vida em1 comum. Este interação predomina meio que na moral. a í e g r a c a d u c o u . o carteiro. E que cada nova geração. o professor.. e o risco de enlamear o lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. P o i s s e m consenso não há cooperação entre os indivíduos e. A l é m d i s s o . ao nascer. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição. por exemplo. portanto. Aliás. recebe pronta na forma de educação. valores e normas de geração paia geração. os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. os chamou vida nos de diz divisão numa Durkheim. ficando você com o lado cia rua.

Em vez de matar uns aos outros por causa da competição semelhantes que na seriam luta obrigados a empreender os seres com seus pela sobrevivência. enquanto que. um enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras. há muita divisão do trabalho e. Pode-se dar O tipo de solidariedade que se. nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado â noite? Lamento informar. p i l o t o s ' d e c o r r i d a . é similar à luta pela sobrevivência no reino . De solidariedade orgânica. por assim dizer. a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores. consultores de m a r k e t i n g . mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes c. humanos diferenciam-se. a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes. A diferenciação social. nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho-. cada pessoa. c uma relação dc solidariedade. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta. que iazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de lazer. mesmo com aqueles que você odeia.rs astronautas. Quando. Mas o que você faria. beber c vestir) dependem das outras. em decorrência solidariedade orgânica. Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas. a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. difercnciando-se umas das outras fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da sociedade. animal. A divisão do trabalho. você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado.ke. é o consenso Quando cada indivíduo. ficam mais fracas. pelo contrário sofrem i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o . videoma. Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e. sua relação com seu patrão ou com sua sogra. Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento • de uma diferenciação s o c i a l cada vez maior. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança.estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. tão ligada ao coletivo ela é. Assim. mas você depende dos outros. Mas há outro ponto importante. A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s porque fazem juntas as mesmas coisas. e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença. em função da divisão do trabalho e da especialização. portanto. obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma sociedade pouco diferenciada. assume valores. a n a l i s t a s d e s i s t e m a s . são bastante distintos. os meios morais. d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o diferenciada.8 Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje. ao contrário. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir. crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional.. rodeado por técnicos em informática. Sc uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa. a tendência. em decorrência solidariedade mecânica. tem uma margem maior de liberdade. Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. para Durkheim. E o que D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica. portanto.. é a solução pacífica da luta pela vida. ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores. em diversas circunstâncias da vida. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver. as regras gerais ficam relativizadas. se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro. embora vivei" sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela. como a sociedade industrial moderna. para viver (inclusive para comei. para pensar e agir por conta própria. Talvez nem se espantasse. isto é. os indivíduos pensam com a mesma cabeça". Há. caro leitor. pensa Durkheim. Os valores as crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos.

e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento c de ação. mais individualismo. o conflito. . na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa cm que nascem. A tendência será. Si) numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais. coletiva que era quase E no total nas sociedades pouco diferenciadas. decorrente da competição imposta pela diferenciação. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras. . Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle.i Educação para a vida Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade. sua validade geral e indistinta.s e p e l a I HI SCII d a s a l i . entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade. E assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o_ individualismo. então. a sociedade não pode sobreviver. Mas quanto mais liberdade individual. É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento ela liberdade moderna. provocaria D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut. entanto. solidariedade a desintegração orgânica da (baseada na diferença) o que sociedade.9 interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas. mais diminui. i s t o é . Pois quanto mais o individualismo cresce. paradoxalmente. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade. sem consciência coletiva. Os indivíduos passam . mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da a consciência consciência coletiva. provocaria a g u i a r .* f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s pessoais e cada vez menos coletivos. sem uma moral coletiva.

particular. Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social. a sociedade se vingará de nossos filhos. gostemos deles ou não. acredita Durkheim. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas. Para Durkheim. Educação homogênea. em sociedades sem diferenciação. casta cm para entanto. existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. de sua casta. Assim. Se não fizermos isso. Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo. geração geração. não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal. Você aprende a ser um membro de sua classe. a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. de seu pelo qual você se torna membro da sociedade. como existem na mais ser muito específicos sempre a da comuns diferente para educação Mesmo índia. No para os básicos engenheiro mas antes passaram compartilhada dividida morrem. paia Durkheim. existirão crenças médico. rigidamente fundamental. Sé) assim é possível preservar a sociedade. "É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como q u e r e m o s " . certas regras. E(j-este é o modo a ausência de regras. a educação assume o significado de educação moral. para Émile Durkheim. em grupos. aliás. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais.. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social. os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos. não é específico. após outra. Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro. Preservá-la inclusive de sim própria diferenciarão. Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade. S OC I E D A D E . simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de concreto. de sua profissão. a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. educados atividades sociedade as de comuns pessoas profissionais. e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela.■ '. como seria possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora. geral nascem de todos. devido à divisão do trabalho social. conforme 'a divisão em classes. as sociedades modernas são muito diferenciadas. Assim.10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O grupo. que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. Significa entrar num meio moral. enfim. como dissemos antes. Aprender a ser um engenheiro. e uma por educados. sem que sejam todos. por somos devem ser serem uma toclos. através da aquisição de uma moral profissional. em castas. só se voltássemos à pré-história. quais que pode de por com castas. Existem certos costumes. Mas se. do essas numa onde chance valores os A ou meios e do no educação morais valores do literato. não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. passar a alguns . Por isso. s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia. A cada momento histórico. de seu meio moral. em profissões etc. é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. diz nosso sociólogo. não seria possível. Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos. o caos. pois não estarão cm condições de viver en> meio aos'outros quando adultos. a educação. Edueação'é socialização. harmônica com seus contemporâneos. Se isso não ocorre por completo é porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma. ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 .

Não seria possível < exemplo. existir sociedade sem isso.11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O "alguma coisa a gente tem que ter em comum". mesmo que nem toclos nós fumemos um determinado cigarro. uma religião comum. e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma tia criança que . Assim. E fundamental que haja certa homogeneidade.

O que existe por irás tias aparências dessa nova. nosso meio moral. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser considerados como uni importante ponto de partida da sociologia. particularmente. [). e também da sociologia da educação. é isso que permite que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Assim como é fundamental para ele que. no'seu conjunto. na criança. A educação que recebemos tem por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que vivemos — nossa classe. Sé) a educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento histórico são capazes de controlar as consciências dos homens? Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o berço cia sociedade capitalista. para iivrá-lo de toda a opressão que 0 esmaga? número de estados físicos. Cada geração transmite a seguinte.34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O / é educada. como transformar esta realidade? Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será possível educar para a emancipação do homem. se destine [Educação c sociologia. para adequar as crianças a seus meios específicos de vida. a educação se diferencie. os elementos fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades humanas. permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá paru educação. reclamados pela sociedade política. A SOCIEDADE NOS MOLDA . A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida social. intelectuais c morais. C APíTUt O ii1 S oci edade. educaç ão e em anci pação Marx e o pensamento sociológico A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX. E é por isso que a educação é um processo social. através da educação. certo E STÁ BEM . . Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe nos porões da sociedade. Para resumir cita idéia. e pelo meio moral a que a criança. insistiu o sociólogo francês. tem por objeteususcitar e desenvolver. É isso que nos permite viver cm sociedade. a partir de certo ponto. nossa profissão.

^■y-frl-L-.çntre si. Marx havia descoberto as leis da história. Ir a sociedade verdadeiramente humana "deve ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão.. a pretensão de Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia.. Para ele não havia contradição entre teoria e prática.a natureza e dos homcns. graças a suas contradições internas. Bem. seria algo como o seguinte: "o que move a história é a luta entre as classes sociais". no modo mesmo como a sociedade presente "é". Nesses dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento essencial: o trabalho humano. se Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O . o transformador) social compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na qual ela estaria se transformando. seu pensamento é normativo. uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus instrumentos dc produção e seus saberes. para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo histórico em curso que. pretende vislumbrar como a realidade deveria ser. desde os primórdios da civilização até seus dias. é porque esta possibilidade está dada já agora.. Ele olhou à sua volta e percebeu que. isto é. E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo. E i a também um militante político.. transmitidos com zelo de geração para geração através dos séculos.. i a c o n f u s o ? ( _______a l m a . educa Pelo contrário. foi a sociedade capitalista de seu tempo. ele foi um praticante das ciências sociais (a sociologia. pata não dizer o único. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas diferentes. . Por um lado seu pensamento é analítico. Mas devo advertido desde logo. e o futuro desejado está contido no presente odioso. e u e x p l i c o . construindo uma utopia em nome da qual seria necessário agir para transformar esta realidade. Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista. Nesse sentido. Seu objeto de pesquisa fundamental. e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para entendê-la. em prática através de um partido político. isto é. Compreendendo esta chave. 13 . nem entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser. ao tempo da velha ordem feudal. mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da história. A^contradiçãc> para Marx não é uma fa 1 ha do raciocínio lógicq.36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. Mas não se conformava em propor o socialismo como uma opção entre tantas outras. Pois a sociologia é uma disciplina científica c empírica._ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_ expressa. Nesse sentido. dissecando-a. ele fazia filosofia. a história e a economia política)._ ■ pretende ver a realidade como ela é. valorativamente caracterizada por ele como iníqua. idéias. que pretendia colocar suas. Nada menos que isso. Aliás. caro leitor. de caráter analítico. Seu socialismo era "científico". principalmente. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se em motor da mudança histórica? As l e i s d a h i s t ó r i a Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com.. que o pensamento de Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia". Marx não era apenas um pensador. Por outro lado. dois modos diversos de encarar a realidade. Marx julgou necessário descobrir como a história humana funciona. Nesse sentido. Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (18201S95). enquanto levava a burguesia à condição dc classe dominante. num discurso proferido no enterro de Marx. segundo Marx. assim como Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies. e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da sociologia de Marx. o investigador (e.

As relações de propriedade. q u e cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento das capacidades do corpo huma-rva. f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s m a c h a d i n h a s e a r a d o s . boi este o ponto de partida do processo de divisão do t r a b a l h o . c de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que outros trabalhem para si. dizem respeito aos tipos de relações sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de propriedade vigentes. e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e mulheres. embora -como apontarei mais abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o m u n d o d a s i d é i a s . colocandoa a se L I trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. a -machadinha de pedra. A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o intermediário da relação do homem com a natureza. produtivas". são a base das desigualdades sociais. Não. Nesse processo. E .os homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e nem sempre os que trabalham possuem esses meios. Para aumentar :i J í c r v i ç c j ^EjejTJama. distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da sociedade. Ela é também a expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio de uma dada sociedade num dado tempo histórico. a s s i m . p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r . Com s e u g ê n i o . de outroMsso significa que no processo de divisão do trabalho.'Em vez de cortar ou quebrar com as próprias mãos inventou. Nesse sentido. ao mesmo tempo determinam-se e são determinadas uma nela outra. porque o fazem com os meios de outros. divisão do trabalho e forças produtivas. ele é.nem_sempre. como esta organização da produção advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do aumento da produtividade social. Ao mesmo t e m p o . a divisão entre a agricultura e a criação de a n i m a i s . Ambas. D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços. c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s a n i m a i s . f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a c i d a d e . entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l . o _ a produção junto com seus luMncmtambém loi organizando semelhantes. ti' produi ividade si > c i a 1. por sua vez. cada vez m a i s . o intermediário da relação dos homens uns com os outros. O desenvolvimento das forcas produtivas foi o. vive através de seu trabalho. Do ponto de vista de Marx. para desenvolver as forças produtivas. bem como pelo conforto e pela r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s . elas iippj^cjvm numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados para o trabalho. E .s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o . beltrano aquilo. de um lado. A esses modos específicos M a s n ã o a p e n a s i s s o . que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o longo d a h i s t ó r i a . a d i v i s ã o sexual. Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de tarefas: fulano faz isso. As relações de propriedade. o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . a divisão do trabalho é também parte do conjunto das forças produtivas. c a c a . p e s c a - enfim. Depois. e n t r e e s t a e o comércio etc.responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do domínio do homem sobre a natureza. portanto. Na medida em que o ser li uma no se reproduz. ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39 É através do trabalho que o homem muda a natureza.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O S OC I E D A D E . através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. O s e r h u m a n o .. P r i m e i r o . Porque o . a s s i m p o r d i a n t e . c o l h e . também. c o próprio trabalho. d e s e n v o l v e u a o longo d a h i s t ó r i a . na medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de homens que trabalham para os outros. n o t e b e m . m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s pela capacidade reflexiva do homem. trabalho manual e reflexão intelectual jamais se separaram. depois de m e t a l c o r t a n t e etc. u m e n t a r c m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o suor de seu rosto. a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e "forças.

a relação social básica é a de servidão. da posição dos homens com relação às formas de propriedade vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes sociais. As formas de consciência Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé) lhe expus. como já sublinhei. Marx diz que as relações sociais de produção. ou melhor. Abrese então um período ele convulsão social. e no terceiro. até produção aqui. não condiz com as relações materiais reais que de fato . sejam elas econômicas ou políticas? A consciência está ligada às condições materiais de vida. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas. política e/ou economicamente dominada. da produção material de sua sociedade c das rclaçêics de classe. A este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". são laces da mesma moeda ao longo da história. A transformação de uma forma a outra. no qual as relações de propriedade vigentes são contestadas. isto é. . do conhecimento. como já vimos. e o de aspecto relacionado da com as formas de social delas material organização estrutura decorrentes. Dessas diferentes relações de propriedade.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram o nome de "relações sociais de produção". A classe oprimida. que opõe capitalistas e operários. E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo que move a história é a luta entre as classes. que opõe servos de gleba e senhores feudais. afirmam nossos autores. se insurge contra o predomínio da classe dominante. sob o controle dos homens que nesta época vivem e. da produção. isto é. de um modo de produção a outro. se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe dominada e a classe dominante em cada época. as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro. Simplificadamcntc. No primeiro. onde o trabalho era realizado por escravos). Mas a consciência que os homens tem dessas relações. A cada uni desses formas modos de de produção da correspondem propriedade (ou diferentes relações estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e diferentes organização sociais de produção). mas chega um (orcas produi desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. que opõe escravos e senhores de escravos. a relação social básica é a escravidão. isto é. funcionam como uma forma de desenvolvimento das forças produtivas. podemos dizer que nossos autores descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas. burgueses e proletários. das crenças c tias opiniões se relaciona com este mundo material. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. a teoria de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das idéias. o modo de produção feudal (vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. Mas como o trabalho e a reflexão do homem. as formas de propriedade. um conjunto instituído de relações sociais de produção. no segundo. as relações de propriedade. ao mesmo tempo. quando se estabelecem. ao intercâmbio econômico entre os homens. do trabalho. a relação social fundamental é a de assalariamento. Marx e Engels se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu próprio modo de vida. Assim.

plano das idéias. n u m a consciência invertida. ela é percebida pelas pessoas. mas que ela foi criada pela luta histórica entre as classes sociais. foi percebida pelos homens como a única sociedade possível (durante séculos. a sociedade feudal. que acabaram sendo submetidas a esta classe dominante. que os homens. estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer. Vou lhe dar unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de mencionar no parágrafo acima. não desanime agora.16 S O C I ED AD E . portanto. p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os homens estão de fato submetidos. que os indivíduos não pensam com sua própria cabeça. como algo normal. as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a . E existem aqueles a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único bem de que dispõem: sua força de trabalho. existem os proprietários dos meios de produção (as fábricas. diz Marx. que se tornam dominadas. em troca do pagamento de um salário. na vida cotidiana. não têm uma consciência real da dominação cie que são objeto. ou melhor. pois o homem pode construir outros tipos de relações. Marx. mais ainda. Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do trabalho. o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época histórica. Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. dentro do qual estão submetidos a este processo de dominação. na cabeça dos homens que vivem sob este sistema. E que esta situação não está ali desde que o mundo é mundo. o modo como está obrigado a trabalhar e viver. quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o lugar de cada um dentro do processo produtivo. A medida que o tempo passa c a sociedade capitalista se estabiliza. Se estiver muito complicado. sem a dominação de uma classe sobre outra. cie uma classe social que assume o papel de dominante sobre as outras. E s s a s representações representações são. As idéias. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3 vivem. Assim como em outros tempos. como se tivesse que continuar existindo para sempre. mas sim de unia parte da sociedade sobre outra. No capitalismo. l. Não. Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos. de não homens se deve necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos. Marx afirma que se as relações de dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são socialmente construídas. Mas percebe. E. No entanto. momento classe dominante (a burguesia) e outras classes. primeiro Para Marx numa essas falsa implicam. não precisam existir para sempre. Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx. Ele manifesta igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens indistintamente. num intervalo de tempo. para que não reste consciência. as máquinas e a própria força de trabalho do trabalhador). bem maior do que a duração do capitalismo). por sua vez. no. portanto. as relações de propriedade vigentes. como se isso sempre houvesse existido e. Assim. como a única sociedade possível. Ao trabalhador lhe parece natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver. Estes são obviamente os burgueses. Esse indivíduo não vê a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a . natural. no entanto.ranslormaildo-se em proletariado. aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de uma consciência coletiva. isso é percebido. mostra que isso não é assim simplesmente mostra que o porque caráter qualquer coercitivo. no seu universo cotidiano. sociedade dominador. aliás. num aparência. por exemplo.

O que aconteceu. e não a máquina ao ritmo do trabalhador. costurava-os. depois de Mestre formado. E l e . E claro que este era um processo lento. Explicado assim. o ofício a seus aprendizes. Primeiro. c o m o p e s s o a . mudança um outro dado fundamental. os vendia em seu estabelecimento. Eles eram autosuficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas. não só com os sapateiros do exemplo. um sapateiro — realizava todas as etapas da produção de seu produto. Como isso se deu. fazia o acabamento c. muitas vezes seus filhos. e um número reduzido de pares de sapatos era produzido. Quanto mais sapatos vendidos. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO -S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o 1 '5. o XVIII e o XIX principalmente. porque não saberiam mais como produzir por conta própria se tivessem esses meios materiais. ou apenas costurar. as forças produtivas foram enormemente desenvolvidas. A forma de produção de mercadorias no mundo feudal era o artesanato. Do mesmo modo ele ensinaria. uma nascente classe de comerciantes começou a ter pressa.44 Sociedade. E seria bem mais simples. ainda. no entanto.vista das relações de propriedade? No artesanato.. muitas vezes seu pai. Agora pense o que aconteceu. Cada um faria apenas uma etapa. pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro. isto é. Através da maquinaria industrial moderna e de posse desse saber. Os comerciantes passaram então a contratar fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. também. poclc até parecer convincente. as máquinas começaram a ditar o ritmo da produção. mais lucro. o capitalista reduziu o trabalhador à execução cias tarefas simplificadas. sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r (somado aos meios materiais necessários para a fabricação de sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no mundo c suas relações com seus contemporâneos. que o desenvolveu e racionalizou. já que foram obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e parciais. deles foram subtraídas duas coisas: os meios de produção c i a v i d a m a t e r i a l . mas através de um processo social de expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s . o artesanato se transformou cm grande indústria. Como resultado de uma enorme gama de transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX. em vez de todos realizarem todas aá etapas e passarem de uma tarefa a outra. para M a r x . mas com seu aperfeiçoamento. Assim. entre o tempo do artesanato e o da grande indústria. E depois.. A princípio essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas. tingia. foram criadas máquinas novas para aumentar a produção. Juntou-se a esta desenvolvimento tecnológico daqueles séculos. mas a percepção dessa expropriação e o entendimento . na condição de aprendiz. construía as fôrmas de madeira para a fabricação dos sapatos. parciais e repetitivas na linha de produção da fábrica. iodo. sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo cia máquina. numa perspectiva histórica. repetidas vezes. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista. cm vez de aprender o processe. Ao fazerem isso. mas com todos os ramos da produção material. Com o 17 dúvidas sobre isso. Com o desenvolvimento do comércio. Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de c a d a d e t a l h e . cortava. começaram a entender o processo de fabricação do sapato e perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas fossem divididas entre os trabalhadores. c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e um produto e a própria posição social do artesão. com o qual exercitou o ofício desde criança. do ponto de. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos animais. que os novos trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma só tarefa. porque não tinham mais os meios materiais de vida. é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s capitalistas. o Mestre de Ofício — por exemplo. pregávamos''solados. E de onde veio este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre. c foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um salário.

. Jnsalubrklade_etc).riiins de trabalho (jornadas longas demais.tc se revolta diz respeito aos salários hai. dojiunado dp. E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x .ções_. Por causa do salário pago. desses dc filme de ficção científica. o servo sabia que o dono L O I feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. A outra parte é apropriada pelo capitalista e se transforma em lucro. Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa época.no que era de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no qual cresce e morre. s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL. cabe trabalhar nelas e ponto-final. a b . o trabalho. portanto. é individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Qtrabalhadox_não tem controle. Ele só aprende que deve trabalhar para receber. e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano. compartilhar há uma diferença. vêem o trabalho alienado cji_d_oniinação de uma classe social a sobre otitra .d e alienação.•16 Sociedade. E mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa da ideologia. confortavelmentc instalado em sua própria mente. O trabalhador foi separado. . E quase como sc_ houvesse e m seu cérebro um c/u/> perverso de computador.pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l . que não é dono dc coisa alguma. mas apenas uma parte dele. que sempre' foi o meio pelo qual o homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens.era seu dominador. todo o trabalho realizado. É injusta porque separa o trabalhador do resultado de seu trabalho.houve histórica sociedades: sabia que. A suprema ironia do capitalismo é que o dominado p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r . NxLxap. todos os dias sem saber. pelo capitalismo. ao contrário. Em todas as outras lormas_d_c ajnerioxes.. de concepções.naturrj_is__e passam.. c a q u e l e s i s t e m a ordenado de idéias. na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes dominadas. A isso. a teoria de Marx e Engels afirma que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é injusta em si. que o salário não remunera.. i i \ p r e . Existem as fábricas e seus donos.ço_ndi. Em resumo. Marx diz. que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida da mesma íorma que no_dia anterior. concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências. os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ fa 1 s a_d o mundo em que vivem.ajs_visceral. M a r x d á o n o m e . O trabalho. porém.mjnado_ç sabia. p o r t a n t o . i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r . A i s s o M a r x d á o n o m e d e ideologia. A i d e o l o g i a . que é uma concepção de mundo gerada pela classe dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua. P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e estão submetidos._xos.cojrio uma fatos. c e s s a _ c a ___________l o r m a d e dominação_m. pois esta é a percepção que tem da realidade na vida cotidiana. o salário e viver. que é obra de cada ser humano. o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de trabalho mediante o pagamento do salário. de normas c de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo a vontade "do sistema". O trabalho é então percebido pelo trabalhador como algo fora de si. do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c também do fruto deste trabalho. a l h a d o r e s dormem com o inimigo. No capitalismo. é compreendido como algo que não pertence a este ser humano. O máximo SC L I dc jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men. que pertence a outros. mas — e isso e i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria vontade.. E ao trabalhador. O escravo s abia que seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à forca.. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO 47 DA •/■S O C I O L OG I A E D U C AÇ Ã o Exploração capitalismo dominação econômica e em opressão todas o as política do homem só pelo b n m _ e j i \ _ g g ..quem.c_às.

Pois vou lhe dizer o que eu acho disso. ao mesmo tempo. graças ao desenvolvimento material propiciado pelo capitalismo. se abriria uma época de revolução social e política. é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo minhocando dominação. Eles. Educar no mundo industrial Bem. trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo. todo o esforço e trabalho que pudesse. a sociedade comunista. autocentrado e autoconsciente. o homem se reencontraria consigo mesmo. quando esse momento chegasse. seres humanos inteiros completos. fazendo uma análise a . enfim. Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos com que viam o capitalismo. Por um lado. E. acreditaram haver descoberto as leis da história. Essas leis lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas de propriedade e que. Nessa nova sociedade. por sua própria vontade. e receberia dela tudo o que precisasse. Os homens e as mulheres seriam. tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. Por obra da ciência. e deixaria de existir quando as classes não existissem mais). E aí entra sua utopia: acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova sociedade. c claro. sem dúvida a mais bela utopia do século XIX. sem alienação e sem ideologia. seriam felizes para sempre. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o 19 Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. ideologia comunismo empírica (ainda eme pouco aprofund ada) da situação - I educação. a ver com alienação.48 Sociedade. sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para eles é uma manifestação das relações de classe. sem exploradores nem explorados. Daria à sociedade. seria um ser autônomo. sobre o que toda essa c conversa de tem exploração.

comenta tão precário. O Capital ( d e 1 8 6 7 ) . o mobiliário escolar é pobre. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o al .) Além disso. Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta. com a condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de da fiscalização. numa dessas "escolas" que visitou a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível. pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária. para Marx e Engels não existe "educação" e m g e r a l . para inculcar no trabalhador o modo burguês de ver o mundo. (. ela pode ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação. de sua libertação da exploração e do jugo do capital. O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da . Olhando mais de perto.. identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano. porém. E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o . Por outro lado. justamente a (ase de afirmação do capitalismo industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas. identificaram na educação uma das mais importantes formas de perpetuação da exploração de uma classe sobre outra. há falia de livros e de material de ensino e moderno meninos freqüentavam a escola. citado por Marx em seu livro. M a r x f a z u m a análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela Revolução Industrial. que só poderia servir para perpetuar as relações de legislaçã sujeitos.48 Sociedade.. Segundo relato de um inspetor do trabalho da época. Ou seja. utilizada pelo capitalista para disseminar a ideologia dominante. ele nota que a lei inglesa anterior a 1844 20 educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril. r o ta época.

Assim. Não nos esqueçamos de que Marx era um entusiasta dos avanços do capitalismo. s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r . mas segundo a concepção dc Marx.21 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. c a p . A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. p o r q u e é dela que brotam a alienação e a ideologia. c que já tivessem aprendido as primeiras letras e números. o trabalho do professor mais duro e o rendimento escolar menor. Em todo regime social razoável. D i z ele: Consideramos que c progressista. uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria unia abominação. pois ela permitia combinar. não sendo combinada com o trabalho man uai torna o dia da criança enfadonho. a educação escolar e o trabalho na fábrica. Para que não reste dúvida sobre este p o n t o . em sua formação como pessoa. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a apropriação privada do lucro.nível material de vida da sociedade humana. sã e legítima a tendência cia indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para que cooperem no grande trabalho da produção social. na formação das futuras gerações. através dessa c o n j u g a ç ã o . A partir de então só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já tivessem pelo menos a instrução primária. com um novo caráter. muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de mil. v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . na formação da criança. Seu ideal era o de que. i t e m 9 ) . c os resultados dos esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as necessidades cie cada um. Sc é através do trabalho que o homem produz para viver. desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela legislação. pudesse ser forjado apenas com uma educação escolar lormal. e não contra a existência da civilização industrial. qualquer criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo. todos seriam homens completos. porque. E romper com essa separação é uma d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s . c também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do trabalho na fábrica moderna. no comunismo. Mas o fundamental é que. Marx afirma. educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51 Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. todos dividissem o trabalho manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. Ele lembrou em vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o . os cadernos e os. as mãos sujas de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s . Para ele. o trabalho manual eleve ser exercitado por toclos. Marx considerava isso um avançç) importante. que a escola em tempo integral é pouco produtiva.lápis. do mesmo modo que todo adulto apto para o . com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual. Marx festejou a legislação inglesa dc 1844. a educação formal escolar e o trabalho manual nas fábricas. Estive em muitas dessas escolas c nelas vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente nada. o trabalho infantil é desejável. que vivemos à beira do século XXI. sua utopia comunista seria impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. pois acreditava que todas as crianças deveriam combinar. colocando a natureza a seu serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante. Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos. X I I I . telo contrario. Para ele. d o p o n t o d e v i s t a moral. embora sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a as infelizes crianças. quanto os livreis. Nesse sentido. e esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital. "As crianças com escola de meio período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. inclusive. em menos de cem anos. que era um homem do século XIX. E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava que um homem novo. e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar.

52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E . Marx propõe que. No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista. Pois este seria. premidos pela pobreza. da qual serviu-se o capitalista industrial para constituir sua fábrica.. Não se tratava de ensinar ao filho do operário que ele era uma vítima da exploração burguesa. Marx dá poucas indicações sobre isso.. prevendo jornadas de trabalho com duração diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1.. provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista. . o caminho que Marx vislumbrava contava com a contribuição do processo educacional. irias sim ensiná-lo a operar as fábricas burguesas. 6 horas. eles deveriam trabalhar 2 horas por dia. diz Marx..militantes de seu partido.. .<. a de romper com a alienação do trabalho. Sem uma legislação desse tipo. o Partido Comunista. lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado conforme a faixa etária. E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem. como ocorria. a saber: processo educacio nal lhe devolves s e . mas o que se pode concluir de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser.'#p. não haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53 trabalho deve obedecer à lei geral da natureza. em sua visão. . mas de um I . E conclui: "não se deve permitir em nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação".os. Não através de uma operação circunscrita às tarefas parciais.2 anos. t a n t oE quanto possível . o ponto de partida para romper com a passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante. de 13 a 15 anos. 4 horas. fundamentalmente.^. o a do percepçã conjunto que trabalhar para poder comer. Para tanto.. mas com as mãos. e seria por assim dizer inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das classes trabalhadoras. I % comprometendo seu futuro. da seriam obrigados fabril a transformar-se próprios em agenciadores escravidão dos filhos. e trabalhar não só com a cabeça. e as de 16 e 17 anos.

no texto citado que seria essa o mas educação elementar para o trabalho intelectual. "mero fragmento humano que repete uma operação para o parcial. É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contemplar três dimensões: uma educação mental. A educação física e no treinamento militar. é preciso do que seria uma substituir o indivíduo parcial. os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica. qual as pelo indivíduo funções integralmente sociais não desenvolvido. cii. a menos que rompessem com a separação entre deduzir trabalho intelectual e manual. era objetivamente possível.do processo produtivo moderno.). Em sua visão. Isso. E. ditada pelas exigências do capital. p o r t a n t o .. Em outras palavras.. uma vez que estes últimos também jamais seriam a c i m a . capaz de executar uma única tarefa simplificada. nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial. diferentes contexto sempre passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade" [instruções. a educação tecnológica seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das máquinas dos diferentes ramos da indústria.. porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e . finalmente. uma das chaves de sua emancipação como ser humano. para Marx. Ele não explicita. Com tal formação. D e n t r o d e . op. pensava. tarefa que deveria dos 9 aos 17 anos. poderiam pode-se homens completos. portanto. uma educação física e uma educação tecnológica. os filhos de operários estar cm nível muito superior ao dos burgueses c aristocratas. mental. portanto. Esse novo saber seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c. tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um.

n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia "deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família. deveria ser radicalmente suprimida. A. o que seria cia educação pública depois que o Estado recebesse dos operários armados. p o r t a n t o . desenvolver. nos moldes que conhecemos. no momento da revolução comunista. a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe". Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à f a m í l i a . como o nome já diz era em sua concepção uma forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe sobre outra.estabelecimentos estatais e a cargo do Estado. N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo. Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam. sua derradeira lição. as escolas politécnicas e as escolas agronômicas eram consideiadas aliadas importantes do processo de transformação. N o c é l e b r e Manifesto comunista. além que de ser uma mudar a forma mudar educação de a exploração forma pudesse de se econômica. (.) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo e da Igreja. mas muito insuficiente. Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" pois no comunismo não haveria mais burgueses. teórico e prático nas escolas dos trabalhadores . para encerrarmos este ponto. oiganização acreditavam paia preciso nova social. mergulhada na desagregação causada pela miséria. com o comunismo. porém. d e 1 8 4 S . A primeira eles é que. o Estado que necessita receber do povo uma educação muito severa". quando escreveram separadamente sobre o assunto. trabalho educacionais práticas que tivessem um caráter libertário. Para ele. ambas relacionadas ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar. s e r i a substituir uma educação doméstica por uma educação de caráter social. forma de inverter o conteúdo de c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a . I s s o d e u m a educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível. Todos. é preciso assinalar que Marx e Engels. A família é o lugar por excelência da difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses. assim como as escolas profissionais da época que davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de produção. Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado. o que Marx antevia era a adoção do ensino tecnológico. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24 é tal concepção. Bem mas esses são detalhes. l e m b r a m q u e a família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da família proletária.. mesmo o para esses cie sociólogos-fikxsoíosarticular propostas economistas-militantcs. achavam. reproduzindo a exploração dos operários pelos patrões/Razão pela qual a família. é o espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar com a cabeça da classe dominante.) E. mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu projeto para o futuro.54 S OC I E D A D E .. (. nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano? Acho que aqui há duas questões importantes. Kcsta saber então. terminariam a divisão da sociedade em classes e . Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de todas as crianças em . A título de ilustração. que servem apenas para lembrar-nos como ct a complexo. A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx. então. depois da inevitável conquista do poder político pelos operáiios comunistas. concessão na medida em que obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o ensino para os filhos de operários No entanto. Ele não era. ao contrário do que se possa pensar um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque o Estado capitalista. Debatendo com seus adversários internos do Partido Comunista.. ao contrário. não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para manter sua dominação. deixaram i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s . na proposta política de Marx e Engels. uma primeira. É o lugar onde ocorre a exploração dos filhos pelos pais. ele deixou essa visão bem clara Num texto c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . de 1 8 4 7 . indistintamente seriam trabalhadores. conforme já vimos. a ele parecia óbvio que um ensino oferecido por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a moldarem-se à dominação.. pelo vício e pela prostituição. seria público e igual para todos.. q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e citar. O ensino. A segunda questão importante é que.

portanto. Basta olharmos. No já citado afinal da. Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista) que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. para o perfil cio "trabalhador polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas . pois. a sociedade organizada sobre bases I 25 trabalho. portanto. agora com apenas algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c. Assim. Seria preciso. o desenvolvimento tecnológico.em função da reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira Revolução Industrial . para viabilizar o controle coletivo de seus benefícios. nos dias que correm. ao socializar os meios de produção. Vivemos hoje os dias da "sociedade da informação". parcial. E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o . Diz ele: A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar Princípios do comunismo. educados. Por conseguinte. homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. Educados.54 S OC I E D A D E . Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes. aproveitar-se desenvolvimento do do progresso material proporcionado preciso edticar o capitalismo. mas nem por isso emancipados. Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo. Não seria suficiente a revolução política. a nova forma de organização industrial encontrasse um homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. e o controle do poder do Estado pelos operários decorrente dela.para compreendermos seria bem mais complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito em 1S47. nova educação. s e g u n d o a s necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. pensavam Marx e Engels. Hoje. a educação nos libertara deste caráter unilateral que a . Seria comunistas ■ dará OS a seus 1 n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai 111 U H H > N aspei los suas faculdades desenvolvidas universalmente. Seria necessário que. uma mudança de atitude frente à produção. com o advento da robótica c da informática. permite ao capitalista realizar a mesma produção que antes o obrigava a empregar milhares de operários. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O a forma capitalista de divisão do pelo "novo divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. mas o fosso social que separa as classes continua a aumentar. restritivo de suas potencialidades. da "sociedade do conhecimento". para socializar os meios de produção.

que é muito pouco discutida na área da educação. deixe-me dar-lhe um aviso. para o segundo. serão bastante significativas.C A P í T U L O IV '—| Soci edade. tem contribuições . se "socializa". E quando você for dar uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber. m a s a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . ela é um mecanismo que. mas sim o resultado de uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. Mas há outro ponto de partida possível. é claro. a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais. Weber é um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica. Para o primeiro. Os raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira vista. educação e des encant am ent o As partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga. conforme seu conteúdo de classe. e impositivas com relação a elas. a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade. digamos assim. verá que ele não é muito "fluente". em níveis e cm medidas diversas. A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a sociologia da educação. embora os textos pareçam um pouco truncados. [iode ser utilizado para oprimir ou para emancipai' o homem. No entanto. as idéias valem muito a pena. Mas antes de continuar. A sociologia do alemão I Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos. E podem parecer um pouco intrincados. A s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s .

.importan tíssimas a dar.

Respire fundo. conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma ciência "compreensiva". m a s s ã o i n c u l c a d o s . no momento da ação. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos mais elementares da sociologia de Weber e em seguida. Weber e q pensamento sociológico O ponto de. Como a realidade é infinita. isso simplesmente não é possível. Aliás. Os valores são compartilhados. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NSO I O L O G I A D A T OC E D UC A Ç Ã o inserido. As ações sociais praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação. regule o seu grau de atenção e prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e Marx. e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos de racionalidade empregados pelos indivíduos. como uma coisa. Trata-se de um processo subjetivo. porque são muitas e porque se renovam a cada dia. ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a . A realidade é concebida por Weber. o que. Pela s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo. A sociedade. que tem pontos de contatoe distanciamento com a de Marx. para Weber. Um mesmo meio cultural pode assumir 28 distintos. isto é. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o estarão presentes os valores do investigador. embora vivamos na mesma sociedade na mesma época .60 Sociedade. naturais. que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. As ciências sociais Então. os valores que ele atribui ao próprio ator social. pode ser qüe as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. e não os seus próprios valores (do investigador). ü. aquele que pratica a ação.partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural. apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto de conhecimento. a captação da ação social. é c l a r o . nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. na interpretação das ações e relações. i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s . A realidade não é uma coisa em si. vamos. diferentemente contrário ciênci Durkheim. discutir um pouco sua teoria da história. para Weber. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela. como o encontro e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s articulam de modos distintos no plano subjetivo. que são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou grupo de homens por ele investigado. por qUjé. isto é.lá. Para ele. c uma teia. fundamentais. não compromete a objetividade do conhecimento. no entanto. porque as coisas que eu vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê. Porque os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores. Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas . é literalmente incompreensível se for tratado como um todo. então. não é um bloco. Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são concebidos por Weber Ao das como de as üm conjunto para inesgotável ele postula as quais de que. Fluxos da mudança e cristalizações d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . desde que o investigador leve em conta. conforme o processo de interação em que o indivíduo está significados diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e. os acontecimentos. acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa. para finalmente levantar algumas implicações que este" modelo tem para a e-ducação. histórica. são. O "todo" (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos). portanto.

mesmo que ele não seja quase 7 um a n i m a l social. c você já pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as relações entre a educação e a vida social. no valor que sua família dá à educação. e l a o c o r r e q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o de tomar uma atitude. Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus interesses pessoais "egoístas". mas para isso preciso escolher a prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível.. W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um problema. 3. poderia dizer: "minha finalidade na vida é ter dinheiro. isto é uma ação social. ms. de praticar uma ação Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) .29 SOCIEDADE. Se você fosse puramente racional. P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social . a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a escola. deixando de ir. A produção científica tende a disseminar-se pela sociedade através da educação. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i s i m c o m o D u r k h e i m . Se em sua casa todos piczarcm uma boa educação acima de tudo. Não apenas porque ali você encontra seus professores. certo? Se um dia você cogitar abandonar os estudos. Estar junto com outras pessoas. seu grupo. Diz ele que por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido (subjetivo) real ou "mental". Ao ir à escola você emprega sua racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio comportamento. 2. e lhe Difícil. que você já vai saber o que é. apenas. mulheres (ou homens) à disposição e carros do ano. o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e interessa à sua sociologia. O trabalho científico é assim inesgotável. será muito difícil pra você deixar de ir à escola. (. i i MI comportamento ouci 1 . pode ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente). M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s . suas finalidades "exclusivamente individuais . está relacionado ao sentido subjetivo pensado daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s . T u d o O C"| LI percebido. porque o" real o é. seus colegas.) A ação que especificamente tem importância para a sociologia compreensiva é. não faz de você digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão. e o meio mais adequado para atingir este fim é ir à escola". Quando você vai à escola.. p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á . no caso inverso. indo ou. por exemplo. Você pode calcular também com base. em particular.l o p a r a d e s e m p e n h a r tarefas na vida Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica desenvolvida compreensiva.' Vejamos. porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou por Weber na definição de sua sociologia . está co-determinado no seu decurso por esta referência significativa e. P a r a W e b e r . Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s dias) os custos e os benefícios que você terá. E direi também que Weber era um pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o h o m e m . portanto. bem como fragmentário c especializado.

. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O que se era algo importante. Levar isso em consideração também é 6 i formar.30 SOCIEDADE.uma forma de cálculo.

Você pode gostar da escola porque tem amizade com professores namorado lá. a partir de vários exemplos históricos. V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a de comportamentos aceitos em seu grupo específico. tipos dc dominação política etc). você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem busca utilizar-se dos melhores meios para isso e. As razões este é o se misturam. O/fie o mundo social que o cerca. não significa idealizado".' . e ficaria chato pra você. Nesse Isso é método perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem mas os constrói para que sirvam de referência. dos professores ou da namorada ou namorado. p o i s o que Weber chama de "racionalidade perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação. feita na cabeça do investigador. na prática.64 S O C I ED AD E . É m u i t o p o s s í v e l que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu citei no exemplo. está praticando o que Weber chama d e ação social racional com relação a fins. dizer que não freqüenta a escola. entanto. s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . nem mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro.s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a . por exemplo.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 31 Mas você pode calcular também com base. se você vai à escola apenas por causa dos amigos. p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação ao regular. Ninguém. quando você vai à escola pensando em se formar e ganhar dinheiro. o u e n t ã o d o modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. repare também que no dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. "puros" Ele é de sabe absolutamente comportamento. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o . v o c ê e s t a r i a sendo irracional. Suponha. dentro do seu círculo de amizades. Finalmente. que você fosse à escola apenas porque todo mundo vai. 2L. para Weber você pratica u m a ação social afetiva. e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a valores. finalmente. tem que ser uma coisa de cada vez). que jamais será encontrado na vida prática. Significa apenas que você escolhe as características mais "puras" dos tipos. esta teia inesgotável dc eventos e processos. portanto. 3 ' . é a s e g u i n t e : l u . Ele é um exagero dc perfeição. A receita m e t o d o l ó g i c a . isolar tipos satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola. mesmo que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades estudantis. C o n s t r u a u m tipo ideal "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados. esses de No Weber. . está sendo irracional. Ar^ir cm sociedade. implica em algum grau de e colegas. Essas coisas t o d a s s e c o n f u n d e m . na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l . e selecione dele o aspecto a ser investigado (não dá pra ser tudo. ou porque arranjou uma namorada ou racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m age. p a s s o a p a s s o . Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado". Já se você for à escola porque sua formação familiar deu muita importância aos e s t u d o s . portanto. t r a t a . Partindo do exemplo acima.. R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . sendo três racionais e um irracional. S ó n o parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social.fundamental para entender Weber. Na ação afetiva. como por exemplo idealizar o que seria uma "sociedade perfeita". O tipo é tima construção mental. e Weber achava que os . Ei. e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. fundamental Aliás. N o c a s o . alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais importantes métodos dc investigação das ciências sociais. Mas. fins estes tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar. Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê construiu.

e isto significa. q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento d o s o u t r o s . na prática. • os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis. Para Weber. exclusivamente psíquico. reduzem-se i categorias q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e . em detrimento da sociedade. e s s a r e a l i d a d e s e apresenta a você. daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação. sem exceção. para Weber é incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer. no momento de agir. para Weber leva em consideração. b a s i c a m e n t e . no sentido de adequação entre meios e fins. Aquilo que e mental. liga o indivíduo às estruturas sociais e estas ao indivíduo.64 S O C I ED AD E . um agir cie homens que se relacionam uns com os ou tros. que têm influência sobre seu agii. melhor d i z e n d o . 4 . embora a certos elementos de dessas ações (a na estruturação do sistema de preferências. o comportamento dos ou tros c é isso que faz de sua ação uma ação social.d i a " n o c n c o i i 11 ' i r s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a . c o n c e i t o s c o m o E s t a d o . S e d i z e m o s " b o m . c o m o s e n d o ações propriamente obter os fins ditas. e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo. E m c o n s e q ü ê n c i a . habilidade cada indivíduo utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos antciiotcs a própria ação. de intencionalidade. os comportamentos dos atores são interpretados c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e . O indivíduo e as instituições sociais Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo contrário. nem muito menos a psicologia individual. para sua sociologia. É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance. Comportamento subjetivo é o c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o . Mas não sé): ele é obiigadc) a relacionar-se também com as normas sociais consolidadas. não estamos falando ríum comportamento exclusivamente psíquico. n o c o n t e x t o d a sociologia de Weber.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 32 tipos de conduta mais puros são os mais racionais. E l e d i z . Não é nada disso. a s s i m . A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível.À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u . que é detalhada so para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber.s e d a q u e l a q u e s e refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. se revela em seu caráter mais complexo. Ressalto novamente: q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo. e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. institucionalizadas. capitalismo ou Igreja. Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou simplificar bastante a definição do nosso autor. Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a U porque ele prefira o indivíduo. a escolha dos meios para desejados. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . mas porque para ele o indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de sentido. O indivíduo. O método de Weber é individualista não . Ou.

33 SoCItDAOE. E D U C A Ç Ã O C D l S f l M C A N T A I O EOG IO D A SOC M L N Í A E D U C AÇ Ã O 67 :3t .

Sc você se vestir com uma roupa muito fora de moda. J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o . No agir em sociedade. tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores i n d i v i d u a i s . para que possamos calcular as possibilidades reais de levarmos nossos objetivos até o fim. melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com relação ao comportamento dos outros. Pois bem. Ê As regras. A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não sofrer as conseqüências. de que se comportem cie modo emotivo. mas pode se£ preso. portanto. praticar este ato seria bastante irracional. e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . essa racionalidade não precisa ser apertas com relação aos fins do ator. de acotdo com um cálculo que tem por base as regras. esperamos que os outros também ajam assim. supõe-se Ir e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias para eles.68 S OC I E D A D E . Ou. na média dos comportamentos geralmente usados para aquela m• I É ! WI orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique este ato.' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança. porque sabe que se for capturado. p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a da moda. s outros igualmente agem segundo as regras. E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o vai matar sua mãe. Mas quando o indivíduo calcula que é m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o . não apenas porque imagino que você gosta dela. Quando agimos racionalmente. está se orientando conforme os regulamentos. ou então na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular. Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14 anos. assim como no caso dos tipoS~de ação comentados acima. Está. portanto. Esta é a diferença entre a Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a " d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito — em que a validade do regulamento é garantida por um aparato coercitivo e punitivo. W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem social. e não de outra maneira. regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que os homens ajam segundo suas determinações. M a s expectativas a validade da norma não se baseia apenas nas recíprocas. Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com base na expectativa de que os outros também se. O agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade objetiva"). O agir em comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os outros dêem determinado peso a certos valores e crenças. pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou n a m o r a d o . Além dc pouco afetivo. ainda. sabe que está sujeito às sanções correspondentes. kracional. ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 34 determinada pessoa é porque esperamos que ela responda "bom-dia" também. E. Se o comportamento dos outros fosse totalmente imprevisível para nós. p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a todos c. comportem dc um determinado modo. O a g i r e m s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . quando foge ou sc esconde. Í p: "condensação dc expectativas recíprocas" c. você não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil. Quanto mais disseminada socialmente situação. seria difícil viver. Q u a n d o i s s o o c o r r e . V e j a b e m : n ã o estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. porqtie foi feita uma lei para . mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são condenados c presos pelo sistema legal vigente. é claro): v o c ê e s t á obrigado a p a g a r . será punido. expectativa além do indivíduo nos orientar-se por este tipo que de tais baseada regulamentos. agindo em sociedade. O próprio criminoso. Mas diante da declaração anual do imposto de renda. funcionam como uma espécie dc ■2-. se você descumprir. cm conseqüência disso.

ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 71 Assim. A durabilidade dessa associação através das gerações de indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o seja voluntário. Nessa situação. Ocorre. que uma associação com fins. Estou falando dc todas as regras. cada "sócio" confia que os demais se comportarão (aproximadamente) conforme as normas. adora brincadeira. definida pela existência de regras gerais e de órgãos próprios. mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece. e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a gozador. reforça a certeza de que a confiança mútua não será decepcionada. e também que elas estão aí para serem mudadas. sem ter sequer o direito de alegar ignorância delas. E é só quando aceitam institucionalização se completa. os "fins". quer queira c]ucr nãc~>. e portanto. às quais costumamos chamar Estaco.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo comum por estes referenciais. ela torna o mundo que nos cerca. . Quando isso o c o r r e . Sc a divina providência o fez nascer aqui. na medida em que as regras e os órgãos permaneçam. n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s . Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro. quando plenamente desenvolvida. O Brasil foi um aqueles rapazes charmosos que nadam ali. e l o s d e c r e t o s . O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m os "órgãos". 'Com isso. como já comentei. mais a previsibilidade aumenta. o ponto importante que a sociologia cie Weber nos permite pensar é que. inteligível para nós. você também participa disso. porém. A esta coletividade Weber dá o nome d e associação com fins. a suspensão pressuposição de cada um de que a não-observância das normas pode ser punida com coações físicas ou psíquicas. é preciso considerar que essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos passados. ou seja. O bonito disso. W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. desses com sauna c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento. p o r e x e m p l e i . no casei ela associação política mais abrangente de todas. e está automaticamente sujeito a todas as suas regras. pois pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro. as coisas são diferentes. embora as coisas já estivessem prontas quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este pacote dc regras c]iie regulam a sua vida. os "estatutos" e o "aparato de coação" da associação. por exemplo. c continuam a ser criadas. São instituições sociais.35 S OC I E D A D E . Veja. meu amigo. Se você for sócio de um clube "social". Quanto as mais pessoas as pessoas este assimilam quadro subjetivamente normativo que a a obrigatoriedade das regras. Na barriga cia miséria. e esta expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria conduta. as formas de comunidade religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais da vida política entre os homens. além dc sentir-se ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas OLI A vida comum em associação permite que sejamos capazes de prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas. vender seti título de sócio ou simplesmente não freqüentar. c se você insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras horrorosas que infectam os dedos dos seus pés. Porém:. nasci brasileiro". você está sujeito à ele sua carteirinha de sócio. não é uma formação social efêmera. que c o Estado. não há escolhas: você pertence ao Estado brasileiro. em busca de seus objetivos e levando cm consideração a existência das normas — sejam essas normas entendidas como a condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou como. C h i c o B u a r q u e . Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. c l e s s e t i p o d c r e g r a s . Sé) está submetido às regras na medida em qtie optou por ser sócio. De um clube de associados com sauna e piscina você pode escolher sair a qualquer momento.

que são garantid os o é um pela da agir aplicarã coação. que a lei antiracismo prevê). num curtíssimo lapso de tempo. Aliás. Historicamente. e o Estado em particular. f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que vão de multas em dinheiro a meses de reclusão. Hoje. as associações políticas humanas. ou enquanto insumo agrícola. a lei geralmente se fundamenta num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. Negros por aqui eram valorizados apenas enquanto investimento privado de compra e venda. se baseia.72 Sociedade. por sua vez. tal* dominação. Nesse processo. Este é um exemplo de extraordinária transformação. é preciso reconhecer que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar crescentemente sua conduta. entre outras c o i s a s . E embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social que os segrega na marginalidade econômica. esta associação mais abrangente que é o Estado detém um poder de imposição. n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u psíquica). Tal poder se baseia numa influência específica — que Weber chama de dominação — de homens concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. mas no modo como a sociedade vê as relações entre as raças. diz Weber. passaram por um processo de institucionalização. não apenas na lei. Tal influência. Ou seja. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o 36 país escravocrata até outro dia. Agir segundo esses fins da associação. i s t o é . segundo i . as regras foram se tornando cada vez mais racionais. se você chamar sua empregada de "negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. de cem anos pata cá.

t a m b é m subjetivamente. c dc que esta racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão sujeitos. não precisa desistir.. O fundamental aqui. mas sim o tato cie agirem racionalmente. Weber diz que a dominação baseia-se no c o n s e n s o d a legitimidade. O Esse uma crescente transformação cias associações em instituições parágrafos. porque "introjetaram" a norma. racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. mesmo que você tenha que lei mais uma viver em vez. quando as pessoas obedecem às regras não apenas porque temem a punição. É este o sentido histórico do processo que Weber chama de racionalização. Desencantar o mundo O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer dizer. nao é o fato dos homens serem coa°idos. Tenho certeza de que o sentido geral você é sociedad capaz de captar.72 Sociedade. garanto que vai compensar o investimento. difícil. Tenho que er. pensa . Ufa! . a. Mas cá entre nós. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o possam 37 "consenso".. Daqui a alguns e. Weber. para que possam com isso ganhar condições dc previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão também sujeitos à mesma relação de dominação e. As possibilidades de que esse consenso seja de fato p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o façam porque consideram obrigatória. c ci m bc ni po rej u c estão convencidas da necessidade de obedecer. Segure as pontas só mais um pouco. a relação de dominação. reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação. em suma. c camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na Max sociedade. Quer dizer. cm decorrência.

não é voluntário. outros obedecem e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. M a s v o c ê v a i e n t e n d e r . O ingresso dos indivíduos nesta grande associação. da obediência à lei c do treinamento das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi aos poucos se disseminando. a s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores compartilhados — como constitutivas da sociedade. A regulamentação mais desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um aparato especializado dc domínio. as fonvias de dominação no Ocidente caminham. ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito racional. a dominação carismática. Eu sei que e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência. devidamente g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos. segundo ele. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o c a r i s m a d o l í d e r . e a dominação racional-legal. uma vez que maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e maior também a necessidade de regulamentá-los. mas à posição -que ele ocupa no aparato dc dominação. que é o das sociedades modernas c complexas. Se a associação estatal passa por um processo de racionalização (e também de burocratização. A lógica da racionalidade. e as regras s ã o f e i t a s . O e x e r c í c i o d a autoridade racional depende dc um quadro administrativo hierarquizado e profissional. Assim como em Durkheim. m a i s conflitiva tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos.38 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. maior o número de regulamentos sociais a serem o b e d e c i d o s . que se caracteriza pela existência de uma burocracia. c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que está por trás da lei. E este o sentido histórico do processo que Weber chama ele racionalização em das sociedades: organizadas uma crescente transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc obediência instituições racionalmente. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- A história humana. Pode-se compreender aqui o sentido d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r . N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a . é um processo de crescente racionalização da vida. Na formação do Estado moderno e do . ao que me parece. a obediência não é devida à figura do líder. q u a n t o m a i o r s u a racionalização. para o tipo racional-lcgal. a dominação se b a s e i a o u n a tradição. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a t r a d i ç ã o . na qual estão obrigados a submeter-se ao poder já instituído. Diferentemente da concepção organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx. a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e pelo domínio dos líderes sobre os dominados. de abandono das concepções mágicas e tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens e para a administração social. p o r m e i o d a força. Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e . para que você entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a sociologia da educação weberiana. d i z e l e . para garantir a aceitação dos comandados. compartilharam de uma tradição) ou porc| ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama dc carisma). Bem. tendencialmente. argumenta Weber. porque para fazer cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez mais complexa). que obedecem porque foram educados (ou seja. em Weber a complexificação gera conflito. Para resumir em poucas palavras: uns mandam. é o modo pelo qtial os homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao preparados para exercer as funções que a transformação causada pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui. Quanto mais c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s . P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o l e g í t i m a : a dominação tradicional. A educação para Weber. i s t o é . Mas no último caso. isto c. o que por sua vez gera a necessidade da regra. que é o Estado Moderno. aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação. a d a s formas de dominação legítuna. Paia legitimar-se.

A coisa é muito distinta no Estado racional. A educação sistemática. educa administravam de nunca atuando Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- capitalismo moderno. de "pilotar" o Estado. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro. a constituição de um direito racional.39 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. dos grêmios e das corporações. O direito racional oferece as garantias contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos. para o qual não existe mais lugar reservado à obediência . E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a educação. tais funcionários não governavam. passou a ser um pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas funções. porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia montada cm moldes racionais. analisa ele. enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação política própria do capitalismo. Uma vez que não davam importância às realizações políticas. uma pequena camada de funcionários. não fato. de que sua superioridade cm matéria literária. o Oriente aparece como protótipo da administração irracional. o único cm que pode prosperar o capitalismo moderno. ou seja. do cálculo dc custos e benefícios. mas sem preparação específica para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. c precisa Estado de profissionais treinados para isso. Weber dá especial atenção a dois aspectos: de um lado. o capitalismo e o capitalista forjaram um novo homem: um homem racional. Tal processo só ocorreu de modo completo no Ocidente. Na realidade. ps mandarins. Não mantinham. Na prática. portanto.educação sistemática. de um modo "racional". basta para governar. Educar no sentido da racionalização também passou a ser fundamental para a empresa capitalista. e muitas vezes auxiliares. acima da camada das famílias. Treinar. Um dos elementos essenciais na constituição do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática em moldes racionais. Educar no sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado. apenas intervinham em caso de agitação ou incidentes desagradáveis. a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m moldes burocráticos. Ele se funda na burocracia profissional e no direito racional. u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a v i d a . que são inseparáveis um do outro. sua desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. contato com a população. e d e o u t r o . O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora. Mais que profissionais da empresa ou da administração pública. Na exposição de Weber. em vez dc cultivar o intelecto Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização alteraram radicalmente os modos de educar. tendencialmentc livre de concepções mágicas. E alteraram também o st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s indivíduos que se submetem à. em ficando a gestão efetiva em mãos de província natal. o Estado burocrático. A China antiga aparece descrita como um modelo de administração em que havia. Eles eram literatos de formação humanística indicados para o posto. pois ela se pauta pela lógica do lucro. nesse tipo de administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude do Imperador e dos funcionários. as empresas e a própria política. onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo não especializado e regido por orientações mais ou menos discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo especificamente treinado e politicamente orientado com base em regulamentos racionais.

(. assim qtie aprovado. "um dom ela graça exclusivamente pessoal. Finalmente. mas apenas àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos. O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia. ao mesmo tempo. à composição cie determinado grupo d e status ( s a c e r d o t e s . Escreve Weber. como os nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas. Na China. de prebendas. Para este homem. socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: despertar o c a r i s m a . um grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras. T a l p rocesso educacional "qualificação cultural".1 tampouco ser. no sentido assumia de uma o aspecto edticação de uma e geral. . a imunidade em relação a punições corporais às quais o homem comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária. cujas principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos. C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a crescente burocratização cio aparato público cie dominação ífc . comportamento Durkheim. i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s etc. através de exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa. onde os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados. Ela harmônico organismo como propôs destinava-se. na possibilidade a sociedade emancipação com base na ruptura com a alienação. um fator de estratificação social. mesmo antes cie ser empregado. educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 40 que não seja a obediência ao direito racional. l e t r a d o s . Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no noviço sua capacidade considerada inata. então. Marx. o candidato. certamente não é o mesmo que educar antes dessa grande transformação. um meio de distinção.. ^ estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos d e p e n s a r a d c e ]ii . passava a lazer parte ele um estamento privilegiado.. comuns. c a v a l e i r o s . como eu já frisei..) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato . não é mais. p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u s e j a . A educação.) a posse ele carisma. que eram educados para adquirir uma "nova alma". O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível alcançá-lo". Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval. de poder c dc dinheiro. de obtenção de honras... conforme o caso. médicos. 'pois não se pode ensinar nem preparar p a r a o c a r i s m a .. Educar num mundo assim. no sentido animista. Não é mais o mundo do sobrenatural e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. No modelo ideal weberiano a educação é. p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c t r a n s m i t i r conhecimento especializado.. no mesmo texto citado acima: Os chineses não comprovavam habilitações especiais. E o caso da China Antiga. uma vez que não se aplica a pessoas normais. como propôs racionaliza. i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o conhecimento ela literatura. N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses. provocada pelo advento do capitalismo moderno. E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber. e p o r t a n t o " r e n a s c e r " . historicamente. Nem comprovavam (. como em que sua parte no de se A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo. e que implica em prepará-lo para certos tipos de c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a . técnicos.) c à composição elo aparato administrativo típico das formas tradicionais dc dominação política. a preparação para que o membro Nem passa do é a todo orgânico do vista medida aprenda social. E l a p r o c u r a f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto. o n d e o i d e a l d c c u l t u r a depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo preparado. o mundo perdeu o encantamento. u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) . É o mundo do império da lei e da razão. para Weber.78 Sociedade. por suas habilidades humanísticas. ao terceiro tipo ele educação Weber chama pedagogia do treinamento.

78 Sociedade. educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 41 ■ .

acima de tticlo. mas educação são sempre baixos. enquanto b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a . dc seu ponto de vista o capitalismo reduzia tudo. a lógica cio treinamento. imposta pela racionalização da vida. E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O í: ' garantido G^ . para Weber. num texto do início do século XX chamado Burocracia.seb os desígnios da especialização. s o b r e homem. e na educação a possibilidade de romper com ela. d e 81 remuneração pelo trabalho realizado. A racionalização c inexorável. à mera b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status. Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação uma certa melancolia. a educação por assim dizer "racionalizada".) Por trás de todas as discussões attinis sobre as bases do sistema educacional. mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais. e a educação especializada. o fim da possibilidade dc desenvolver o talento do ser humano. cm nome da preparação para a obtenção de poder c dinheiro. em especializado e o recuo de da educação educação para enquanto enquanto o formação indivíduo do a favor uma treinamento necessária à aquisição do título exige despesas consideráveis e um período de espera de remuneração p l e n a . não há nada que se possa fazer a respeito. pretensões de progresso pensões na velhice c. Para ele. de todos os lados. da burocratização e da racionalização da vida.42 S O C I ED AD E .SCI significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor ila riqueza. este. Com o perdão da longa citação. que é a pedagogia do treinamento. Essa luta é determinada pela expansão irresistível da burocratização de todas as relações públicas e privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos e do conhecimento especializado. (. Ainda mais que. decerto. A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação. a razão para isso é. Como a educação Í IÍ LD política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas privadas. o mesmo tipo de clepressão intelectual que ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-. c . invencível. acho importante reproduzir aqui o-que Weber diz. também é. se oculta em algum aspecto mais decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de "homem culto". não uma "sede dc educação" surgida subitamente. Esses certificados apoiam as pretensões de seus portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a preferencia em relação à filha do chefe). e o clamor universal pela criação dos certificados formação dc educacionais uma camada em todos os campos nos levam à e privilegiada escritórios repartições. Pessimista que era.é o sentido próprio do termo "educação". p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de custos intelectuais não aumentam. a educação deixa paulatinamente de ter como meta a "qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que. parcializado habilitar desempenhar certas tarefas. O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de comercio c engenharia. Burocracia).. Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio da alienação do trabalho. pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da .. inclusive a educação. pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente vantajosos. c com o crescente volume desses certificados os dccrcscem.s e c a d a v e z m a i s u m preparo especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o . entre as formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia. além de minimizar uma formação humanística de caráter mais integral. para Weber. Weber via na pedagogia do treinamento. as pretensões dc s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " . Quando ouvimos.S. continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . a exigência de uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais. Essa luta está presente cm t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER.

também. que. que aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as diferentes pedagogias que Weber identifica. resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria ser. Bourdieu c os esquemas reprodutores . que retoma o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre as práticas educacionais.84 E D UC A Ç Ã O S OC I O L O G I A OA j Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o XX CAPÍTULO V CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções analíticas diferentes a propósito do processo educacional. ainda. gostaria dc mencionar. Neste breve capítulo. ainda que deforma muito resumida. três contribuições importantes do século XX à análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm particular. nos ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades contemporâneas e. conforme as finalidades a que os autores se propunham. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira. A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu. o quanto a educação está relacionada a essa luta. A segunda é a do líder comunista e intelectual italiano Antônio Gramsci. ou. a partir do marxismo.

O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos fundamentais para a construção de uma sociologia da .

em de na que fato verdade são não o está 85 objetivamente existe. culminando um processo de mobilização que teria um alcance bem maior do que a capital francesa. segundo a qual os estudantes e o meio estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. Um dos mais importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês Pierre Bourdieu. é claro. ou seja. justamente a reprodução das relações sociais e de poder vigentes. nelas liberados por. os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão espécie francês. o sociais. não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos dominantes. e também por o de volta Bourdieu da estão submetidos ao controle das estruturas da na . dc caráter igualitário.. faz o que suas estruturas T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • humanas teórica torno sociologia. fase uma produção. unificar as J daquele as de nível suas para se da sociedade O sujeito é O Bourdieu. estruturas reproduzem. os das que residem não que as agentes assim. tornaria possível a realização das potencialidades humanas. E seriam responsáveis. apenas social permitem reproduzem vigente. pela liderança da transformação social. o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o Segundo ele. de a publicada das década de 19~60. Bourdieu publicou um livro. em colaboração com Jean-Claude Passeron. determinadas estrutura N e s t e l i v r o . no célebre mês de maio de 1968 em Paris. que leva às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os indivíduos sociedade. na medida aqui j estruturas determinam. que o fazem pensar que sua ação é resultante dc vontade própria. Em 1964. pretende sociais trata-se de uma versão mais radical do modelo de Durkheim. estruturalismo ação. A ironia é qtie o livro serviu como combustível. em razão dc sua juventude e de sua disposição para a ação. sujeito simplesmente T. que pretendia combater uma idéia muito comum na branca da época. introduziu estruturalismo. Mas para Bourdieu. dc o Na Bourdieu Durkheim peso verdade. os estudantes dc fato sairiam às ruas. * Para ciências uma O em levar a cabo em se das entre a o ambição da modelo à dos de Durkheim e . síntese que por durkhcimiano estruturalismo trás conecta desvendar ações sociologia justamente sujeitos. da que na São ação pensam verdade a essas pois estão dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos". por seu aspecto crítico às bases do sistema de ensino.' . O que pelo processo determinadas chamamos qual as ações. ação.. . consciência Os aqueles são que deve sujeitos os disso. ocultas. de o das .84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j ausentes educação muito influente ao longo do século XX. forças mesmo sociais. para essas mesmas revoltas estudantis. Para primeira — Para como o o estruturalismo de sua em geral. explicações. ■ demonstrar indivíduos. Encobertos sob as aparências de critérios puramente estar movidos agir. Nas estruturas. E o fazem colocando cm evidência o que a instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade. a explicação dos processos educacionais realmente importantes reside cm outra parte. como orientações marionetes teoria os estruturas e sua o em pela sociólogo as durkheimiana dominantes. submetido aos desígnios cia sociedade. c h a m a d o Os herdeiros. Apenas quatro anos depois. mesmo é que determinações tenham digamos estimulam "condições objetivas" investigador desvendar. em seu livro.

estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos indivíduos para ocupar determinados postos na vida. Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos educadores.escolares. Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema i de ensino. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino .

E l a é necessária para que a inculcação possa ocorrer. o bastant e para produzi r uma "forma ção durável ". Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos dominantes. uma violência simbólica. Não há possibilidade de mudança. pois limita-se à inculcação de valores e normas. Daí ser preciso. para eles. portanto. que é imposta a toda a sociedade através do sistema de ensino. e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e toda ação pedagógica é. A revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um reforço da interiorização da própria norma. Na medida cm que o educan do interior iza os princíp ios culturai s que lhe são impost os pelo sistema dc filtra os alunos sem que eles se dêem conta e. sob a fachada dissimulada de uma alegada pedagogia. que oculta as relações de força que estão na base de seu poder. e na medida em que pressupõe uma autoridade pedagógica. O conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição arbitrária que. A própria revolta estudantil. além dc sistematicamente D u r k h e i h í . como evident emente correio em si mesmo. Pois. incorporando mais as contribuições dc Marx c Weber. os autores refinaram suas idéias. um trabalho de inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura irar o bastant e para que o educan do "natura lize" seu conteúd o. porém. p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87 UZ Passeron chamam de "trabalho pedagógico". não aparece jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza enquanto pedagogia. com isso. um d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o . Em 1970. no entanto. Esta imposição. isto é. uma autoridade pedagógica. reprodu as relações vigentes. a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e . para que a ação pedagógica se efetive. não faz mais que reforçar o sistema. A ação pedagógica.86 SoCIOLOClA E D U CAÇÃC DA T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . por um poder arbitrário. objetivamente. e s s e a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s grupos c classes dominantes. encare o como natural. é uma violência simbólica porque impõe. ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. é apresentada àquele que sofre a violência de modo dissimulado.

mesmo depois dc termin ada sua fase dc formaç ão escolar . no finai das contas. Isso explica que a as desigualdade que está na base do processo de seleção escolar. todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social que estão por trás de de sua dados ação pedagógica. Os autores. isto é. do ensino básico ao médio e ao superior c determina também. ele os tenha incorp orado aos seus própri os valores e seja capaz L U: reprod u z i -los na vida e transm iti-los aos outros Bourdi eu diz que ele adquir e um habitus. ' v" / •> Assim. valendo-se empíricos. o t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u . a "condição de classe dc chegada" deste aluno. Uma vez que o arbitrá rio cultura l a ser impost o é incorp orado ao habitus do profess or. ainda. o trabalh o pedagó gico tende a reprodu zir as mesmas condiçõ es sociais (dc domina ção de determi nados grupos sobre outros) que deram origem àqueles valores domina ntes. Tal situação se reproduz. o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem acesso (se de melhor OLI pior qualidade). quanto. demonstram "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte. o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o .ensino — de tal modo que.

Bem. mas talvez seja o momento de retomar a questão que coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação social é intransponível? Será que estamos condenados . a posição na hierarquia econômica e social a que chegou.e. em especial.

no mercado. Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental. tem que. até hoje. sem capacidade de contrapor-se a tal poder concentrado no Estado. de 'capitalismo conceitos avançado primeira Seus nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem estrutura. O único modo de lutar pelo poder e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . moderna. as classes ou grupos p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o . Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado. as estruturas políticas. atrasadas e com capitalismo pouco desenvolvido. Essas são as sociedades de capitalismo mais Gramsci e a reforma intelectual e moral O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a avançado. uma fonte dc reflexão filosófica. organizada c tem condições dc dividir com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração da vida social. A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de atualizar o pensamento de inspiração marxista. à é p o c a d e M u s s o l i n i . A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade. No entanto. E p r e c i s o conquistar a consciência das pessoas. no dizer de Gramsci. pouco organizada. "ganhar a batalha das idéias". E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre leste e oeste. d e v e r e f e r i r . de modo a adequá-lo às características da das sociedades metade do cutopéias século XX. a o contrário. d o p o n t o d e v i s t a do m a r x i s m o . nos clubes. N ã o b a s t a f o r ç a . O Estado é força. E l e e s t á d i l u í d o e n t r e o Estado e a sociedade civil. A luta política não pode limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin. é múltipla. P o r O c i d e n t e . É preciso uma revolução no cotidiano. para obter poder. d c 1917. sob a guarda do Estado fascista italiano. E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m revolucionar a sociedade. sociológica e política ímpar. eliminar a apropriação privada dos meios de produção da riqueza. é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere. mas a sociedade é o e s p a ç o d o consenso. mas também está nas empresas. nos partidos. sua militância política desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos de partidos políticos e na imprensa. No c a s o d o s c o m u n i s t a s . ■ . concentram todo o poder e onde a sociedade civil é fraca. tentar uma revolução armada.s e a todos os espaços de poder disponíveis. com um mercado interno forte e com uma vida política p l u r a l . na cultura. N e s s a s c o n d i ç õ e s . dominação. e s s e s escritos foram publicados após sua morte e representam. c isso é o mais importante. Deixou também. o revolucionário russo. F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a dc puro poder econômico. está cm muitos lugares ao mesmo tempo. d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a liberal. achavam que não.88 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O TRÊS V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S É C U L O XX 89 a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i . a sociedades agrárias. Está no governo. Não está num lugar só. que desalojasse os poderosos e desse o p o d e r a o s o p e r á r i o s . complexa. nas concepções de mundo que as pessoas veiculam. Dela. Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e Ocidente. ele é capaz de concluir qtie. e M a n n h e i m . vital. coerção. COMO publicpu um livro em vida. vários cadernos de notas manuscritas durante o período em que esteve preso. Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na sociedade. Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. E uma lição sobre a política c a sociedade e m g e r a l . e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o no E s t a d o . dentro da luta política. p o r t a n t o . não basta apenas eliminar a exploração econômica de uma classe sobre outra.

cujo objetivo 6 desenvolver a concepção d e u m a contra-liegemonia. O primeiro é o intelectual orgânico. ele chama de intelectual coletivo" aquele que atua no sentido dc reformar as mentalidades. os dominados. c p r e c i s o s e r hegemônico. ganhar a batalha do convencimento. cada um de um lado do campo de batalha. a classe trabalhadora. Esta é a fonte da persuasão. Vale a pena. as diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder na sociedade. Esses grupos representam. Na verdade. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s quais os homens concebem o mundo em que vivem. diz ele. note bem. é claro. q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . E isso é fundamental porque apenas aquele que é tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado. É preciso também lutar c o n t r a a apropriação privada. O s e g u n d o t i p o d e XVI. inclusive e principalmente os dominados. cm sua célebre obra chamada O príncipe. passa por uma reforma intelectual e moral". e portanto. ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da classe dominante. A cada um desses agrupamentos de classes e frações de classe em torno dc interesses históricos determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". E por esta razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda injustiça. há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que desejam uma nova hegemonia. na luta pela hegemonia. quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem a cie do que pelo medo que tem de sua força. Nos momentos de disputa mais acirrada. no sentido da conquista da hegemonia. possuem seus intelectuais orgânicos. para depois vê-los operando na análise. captar esses conceitos agora. tanto as classes dominantes quanto as dominadas se organizam em blocos. E preciso. É p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a . se para conquistar a hegemonia política e ideológica é necessário ganhar a batalha das idéias". utiliza esses conceitos de Gramsci para analisar a educação atual. há dois tipos principais. tende a ocorrer uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is que querem mudar. cujas idéias competem entre si na t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s interesses. Ao próprio partido político moderno. Pois os i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. na hita pelo poder. Á burguesia. Repare que no capítulo 7. ou seja. da vida política c social em geral. e portanto concentra mais poder. que é um dos . da hegemonia da classe burguesa. Em suma. surge para dar consciência a ela. j á havia ensinado. na luta pela hegemonia. as classes dominantes em geral. a conquista é mais duradoura. repito. ou elitista. diz ele. ensinou Maquiavelli. o sociólogo Michael Apple. confirma Gramsci. do saber e da cultura. A este processo lento e complexo de luta pelo poder político nas sociedades complexas. enfim. Ora. evidentemente os intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Mas. então. e também definem se os homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. Os dois grupos traçam alianças internas. obter um consenso social em torno de suas que concepções. S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que interessa a essa classe. Gramsci chama de disputa pela hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r um golpe dc Estado. Gramsci constrói uma tipologia dos intelectuais. . Do mesmo modo. E melhor ser amado que temido. segundo Gramsci. as concepções de mundo.90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91 como demonstrara Marx no século anterior. C o m i s s o . isto é. e cada uma delas conta com seus próprios intelectuais. que você vai ler mais â frente. do convencimento. autor do capítulo. a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' pessoas simples".atores principais dessa luta. possuem seus intelectuais. vêem a divisão de poder e de riqueza de sua sociedade. Para ele.

depois do tipo desaparecimento da classe a que estava agindo esse tradicional'de intelectual continua vista disso. E isso ainda no ensino que hoje corresponderia ao Ensino Médio. podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente. A formação geral que faculta ao indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada ao longo dos séculos. em épocas passadas. organicidade à dominação da nobreza aristocrática. bem como a separação entre a escola "normal" (formação para o magistério). Mas atualmente. mas essa é uma outra história. Mas isso não é tudo. Gramsei observa sociedade ciência misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção de casas. Sim. que da uma formação clássica . na época do feudalismo. é a de ser um instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva. c que o havia que levado na a uma distinção moderna a entre a pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas acima. destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn geral. O exemplo clássico deste tipo é o clero. a escola "de comércio" e a escola "industrial" (formação técnica profissionalizante). c desempenhar funções de organização da cultura. formar-se como um indivíduo completo. Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época. Em . pois os padtes deram coerência e . A função dos dois tipos de intelectual.numa direção conservadora. Bem. na década de 1970. destinada a dar a cada um. na luta pela hegemonia. ligado. é reservada aos filhos das classes dominantes e. U 111 £1 classe de intelectuais que. à formação de seus próprios intelectuais orgânicos. conseqüentemente. é claro. sem contar naturalmente com o surgimento do Ensino Superior no Brasil. das concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados. q u e "toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas c. ou baseadas na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. Isso gera um sistema educacional híbrido. verá que era exatamente a mesma lógica que presidia a divisão entre o "clássico" e o "científico". Dc outro lado. para vir a ser um dia um intelectual orgânico ou um intelectual tradicional. o indivíduo precisa passar por uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura. Gramsei nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber na Alemanha. e até mesmo as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere.92 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TRÊS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O XX 93 I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional. O próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes politicamente. dc modo independente . a administração pública. cujas bases se estruturaram a partir da fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar. foram intelectuais orgânicos das classes que eram então dominantes. para Gramsei. surgiram as diversas escolas especializadas. Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do sistema escolar de seu tempo. dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas. Mas de onde vêm os intelectuais? Ganhou um pirulito quem disse "da escola". portanto. é notar que ela tem um conteúdo de classe. p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura. portanto. voltadas para a formação específica dos diferentes ramos profissionais. nas palavras de Gramsei. tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado. "o poder fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". OU SCjcl. que ensinam nessas escolas". O fundamental em perceber essa distinção. Quer dizer. a cura das pessoas. Sc você perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira no tempo deles. o intclectuaj é formado na escola. Dc um lado um tipo e escola humanista .

a p e n a s expressá-la. (não imediatamente interessada) um conservar tão-somente exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro profissional. s próprios mlclccliutis. q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s do Ensino Fundamental e do Médio. Mannheim achava que o pensamento s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a . ele tinha sua própria proposta de política educacional. na medida em que era mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes dominantes. propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo educadores educandos objetivo compreenderem situação educacional moderna. pouco organizado. o interesse dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite. na formação dos alunos. bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas. unia democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional e. na medida cm que o desenvolvimento industrial c a urbanização o exigiram. para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para então o capítulo com um comentário sobre um pensador do século XX. E m p r i m e i r o l u g a r . Mannheim e a luz no fim do túnel Fechemos Q L IC desinteressada" "formativa". um indício de] que a expansão do ensino — necessária para dar conta das novas tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se dando dc um modo caótico.dominantes mudou. também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças. retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de um programa para a mudança da educação. a "batalha das idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes. A partir dessa escola única. Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais. nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as c l a s s e s . que possa ser eventualmente expandida em seguida. e fugindo no pessimismo a weberiano. preocupado com a sociologia da educação. governada por cientistas. mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação. e intermediado por uma orientação profissional. em sua opinião. sendo a escola privada. Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional. é o de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas sobre ela. além do elitismo e da exclusão das classes trabalhadoras de uma formação de qualidade. o aluno passaria a uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública. O p a p e l da teoria. u m a escola unitária. veja você. a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . tinha uma visão bastante precisa de como a nova escola deveria ser. Para ele. Se todos não tiverem acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica. em . No plano das suas próprias convicções pessoais. que teria um caráter formativo e objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das capacidades do trabalho intelectual. que acabou por suplantar a clássica. No mesmo texto citado acima. se é verdade que a racionalização da vida levou a um declínio da educação voltada para a formação do homem integral. c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s . sem que fossem traçadas políticas orientadoras. Para ele. Este detalhe pode até parecer exótico. O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico de certo modo de ao Karl Mannheim para (1893-1947). ele defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática. p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e desequilibrada nas sociedades complexas. a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. Gramsci afirma que a tíndência hoje ■ ou é a de abolir delas qualquer tipo de "escola e reduzido que os interesses econômicos imediatos não interferissem. recuperando a percepção de Marx discutida acima e ampliando-a. Nesse sentido. Gramsci vê nisso. mas não manual).

Mannheim vê como luz no fim do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes tipos históricos de educação. ou seja. Quando e como ensina? Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir apenas pela teoria. Para qual sociedade?. para a montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma formação mais integral. ele observa que. socialmente orientados. Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do cultivo está condenada à morte. Portanto. na modernidade. a respeito do que seria essa sociedade "sadia". N u m d e s e u s e n s a i o s . apenas como tentativa de ^explicação.e qttc tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do capitalismo c a ascensão da classe burguesa. provocada pela consolidação da sociedade industrial. estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la". O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades dadas na sociedade atual. são portanto: Quem ensina quem?. consideração para do este autor. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (précapitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à ordem social tradicionalmente estabelecida. pela criança. Ele reconhece que os modos de vida incutidos por esta educação. Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores de vida. nem os pois objetivos eles são do processo A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de racionalização detectado por Weber. As perguntas que a sociologia obriga a fazer. Regenerar de quê? E o que seria essa "educação sadia"? . justamente porque a vida baseada na tradição estava se esgotando. tal processo era apenas dc assimilação "inconsciente". construídos por Weber. cm que o educando se aperceba do meio social em que vive e das mudanças pelas quais passa. voltada para a cultura e a erudição. mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos num processo "consciente". M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o .'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a racionalização da vida. Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez mais importante. na visão de Mannheim. E concorda também que a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive. o advento da democracia moderna. Ele aponta os movimentos da juventude como educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a contexto social.sua visão. é político. Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c aos trabalhadores. lembra ele. as dificuldades desta Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da sociedade e do homem". E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o . do modelo da ordem v i g e n t e . c h a m a d o " O f u t u r o " . traz ao processo educacional as contribuições culturais das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. Valendo-se da influência da psicanálise. p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação. para o estudo dos fenômenos educacionais. Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o aprimorarnento d a e d u c a ç ã o .. e l e afirma: "Queremos compreender nosso tempo.

ampliassem o horizonte do homem.. que não é nem a inculca do fascismo nem a c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire. que a sociologia sirva dc base à pedagogia. Em suma. provocou o retorno da ideologia do livre-mercado. estamos vivendo numa era em que as forças não só da tradição. e vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). desintegram. Por isso é tão importante. A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s sociais'. com a derrota do nazi-íascismo. quando o capitalismo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso.. associada a um período cie declínio cia liberdade e das esperanças. Mannheim era um homem de seu tempo. convertida c no em impedir massas que a não diferenciadas.século X X que Weber não chegou a presenciar. Episóilios d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o . Finalmente. no mesmo texto já citado acima: Em períodos de elevada cultura. So a democracia poderia fazer surgir a luz no fim do túnel. A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial. porém. Estamos vivendo numa era de planejamento .) A concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições culturais. se deteriore. para ele. Lima citado acima mas . a ascensão do mundo baseado na razão c na lei racional era um processo incontrolávcl. c m s u a v i s ã o . aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de vida. Esse equilíbrio baseava-se às vezes na idéia de hierarquia de estamentos ou castas separadas. Mannheim estava certo. a educação terá de ser concebida como uma nova forma de controle social. Mannheim. se tratada a partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pósguerra. estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio das elites limitadas para a democracia de massas. dos membros talentosos das classes inferiores. ^énftáifí J &fcóriíribüir 1 eólia O processo educacional. a superação das formas atrasadas e tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo. no qual vivemos hoje. nova se forma de entre as contribuições coordenação. com saúde mental. que superasse as divisões cm blocos políticos c ideológicos. à vala "novo forjado L!C Réissia comunista como protótipo Enfimr* dedicação comunitária. depois cie 1945 e até os anos 1970. (. Seu interesse principal reside no acesso. que não o satisfaziam. a modernidade não tem apenas custos. interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os outros. cm parte inconsciente. na na capaz de deixar aponta o até homem mesmo um livre o das cie para repressões homem" entusiasmo adquiridas e formação. havia equilíbrio. ou ameaças à liberdade. Para ele. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais ■! solidários. cada uma das quais apresentava sua contribuição cultural própria em níveis diferentes. da barbárie. em busca de um programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a . E a s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a . Ele explica tal processo do seguinte modo. c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s contribuições.98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 formulação de projetos educacionais que . Arrisquemos agora conhecer prestadas pelos diferentes grupos à educação. Ele viveu o terrível momento da crise econômica dc 1929. Para Weber. às elites. cm parte consciente. A crise capitalista dos anos 1970. estamos vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a clesumanização e a desintegração da personalidade. abertos.escreveu ele no texto responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero". cia clesumanidacle. mas para Mannheim a experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade. na invenção dc métodos sociedade adequados de seleção s o c i a l .destinada também do a encontrar iluminismo.

um pouco mais sobre educaçã o no dias que correm. a 98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 .

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