Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues Coleção

Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja Hcrnvan

[o que você precisa saber sobre...] C O ORDENAÇÃO
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

[o que você sobre...]

precisa

saber

Revisão dc provas Paulo Tcílcs Ferreira Andréa Carvalho Projeto gráfico e diagramação Maria Gabncla Delgado

Sociologia Educação

da

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ I\Ó lis Rodrigues, Alberto Tosi Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro: DP&A, 200-1, 5. cd. - — (O que você precisa saber sobre) 1 4 x 2 1 cm 160 p.

5a edição

Inclui bibliografia ISBN: S5-7490-2S9-6 1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.
1

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PASTA N°TEXTÇfJSL.

CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? N UM o i : s h u s
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UNI

10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m

malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou", já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade? Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva. Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.

Buscava m isso delimita r de um campo com

20.

S O C I ED AD E ,

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investigação

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Sociologia da Educa

ÇÃO

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Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal. Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos. Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social. Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação

alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t com os outros. E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos. Durkheim e o pensamento sociológico Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida? Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia da educação. sociologia c da

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S OC I O L O G I A

DA

E D UC A Ç Ã O

S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L

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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a moral, o direito, a economia ou a eclucarn s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu, t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção necessária para entendê-los A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „ 1 sob .. j. , muuos uc agu que exercem u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar são portanto contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pre-noções dos preconceitos i ~ científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í imediatamente.
;

se fossem coisas lais como

II.S

coisas materiais. Coisa para ele é todo

objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental. Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, pelas é reconhecido que lei a como-tal porque é (no de conhecimento pelas leis a e coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido regras A sociedade contradiz estabelece punição as caso, o mais jurídicas). consciência estabelece porque convicções crime fere vivas

coletiva,

profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade. O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação

"

&

Ui

as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como

na cabeça de cada um. Disso que acabei de dizer. foi "raças à sociedade e seus saberes. Revelam sim o quanto há dos outros em nós. As representações coletivas. A sociedade na cabeça de cada u m L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. Se completamente tomarmos as partes que compõem a água. Primeiro. que ajudaram i criar is i crenças. se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim aprendemos. você já esteja um pouco ansioso. os valores e as regras q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -. caro leitor. Ao mesmo tempo. afinal. mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando fundamentais. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais. que viviam dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas. Ela pensa. água. assim como o Cristo bíblico. diz Durkheim. e inclusive das que não vivem mais que já moireram. na visão de Durkheim). não apenas o indivíduo faz parte da sociedade. mas um conjunto de crenças. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o . A sociedade vive na cabeça de cada um e. completa. Talvez já esteja se perguntando: bem. são exteriores às consciências individuais. a consciência coletiva. cada um entra com sua quota-parte. onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles Mais do que isso até.s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o naufrágio? Pois é. mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda. assim. As representações sobre os fatos sociais são iepieséntaçõcs coletivas. pois se é verdade que ela existe em cada um. essa existência social essa vida coletiva. para Durkheim. sentir. sente. Para ele as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas).-a-. De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos. Do mesmo modo. talvez há muitos anos. calma. a pensar a educação? Calma. tem precedência sobre as partes. o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em outra coisa. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a .6 mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos. se tomarmos os indivíduos.determinada transformam-se c sob em certas algo condições físicas diferente: específicas. por outro lado. a nossa vida como indivíduos. F como se se combinam entre si. n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e . mas se combinados em certa proporção . desejar c principalmente agir senão através dos indivíduos. em decorrência. A consciência coletiva existe através das consciências particulares. ele levará um pouco da sociedade consigo. Cada uma não é nada sem a outra. pois que suas partes constitutivas são gases. de hábitos. m a s s o m e n t e p e l a cooperação entre os indivíduos. Tais crenças c valores não revelam uma suposta personalidade privada. ao mesmo tempo um ser social. são compartilhados e geram. L e m b r a m . Vamos chegar lá agora. não entenderemos a água jamais. porque ela não cabe toda. A diferenciação da sociedade Ora. cm cada um só existe um fragmento dela. esta sociedade viva n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia s o c i e d a d e . deseja. é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações passadas. elas não derivam dos indivíduos considerados i s o l a d a m e n t e . m a s d e s u a cooperação. a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto. são percebidas em coletivo. c. os qtiais não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que tal coisa poderia exista. N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o comum dessa colaboração. O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o são dois gases diferentes. Talvez a esta altura. A sociedade tem vontade própria. embora não possa pensar. Portanto. uma parte da sociedade fa7 parte dele. O todo. retenha dois raciocínios houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa. de valores. Por causa das combinações e das mutações que sofrem a o s e c o m b i n a r e m . Segundo. pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta. não entenderemos a sociedade jamais. dentro de sua cabeça. . algo novo. v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " .

ou seja. recebe pronta na forma de educação. Na fábrica moderna. claro). de tão comuns. Bem. valores e normas de geração paia geração. Com a urbanização c o desenvolvimento e c o n ô m i c o . você já deve ter reparado. portanto. existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra. temos vida um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. ficando você com o lado cia rua. Vicia moral que será a base cios conteúdos transmitidos na forma de crenças. Com a divisão do trabalho social. o contador etc. a í e g r a c a d u c o u . alguns jamais aprendem. que são todos operários. há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico. A l é m d i s s o . sua vida em1 comum. o dentista. todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam. Ela tem conteúdos Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei. não há vida social. as tarefas são extremamente divididas. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade. outro para pintar os encaixes etc. Mas no caso radicalmente oposto. pescam. que levou a uma \ o na tase da conquista. E que cada nova geração. o ferreiro. pelo menos alguns de nos. ao refletir sobre como. mas são parte integrante de um determinado meio ■moral que compartilhamos. os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes. pela cie de cooperação entre indivíduos. E este tipo diferente cie cooperação. Estou falando de aprender a viver. como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. P o i s s e m consenso não há cooperação entre os indivíduos e. trabalho determinada outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que coletiva época. até esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um moral diferente. note bem. participam de rituais religiosos etc. o açougueiro. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar. pois significa que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. Além desses. ao nascer. Coisa que. Existe um número quase infinito de rcras sociais que. Como já vimos. na moderna sociedade industrial. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso. e a segunda vale para a cultura esquimó. Aliás. cada vez mais. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição. outro para encaixar as peças. Numa tribo dc índios. Não estou falando apenas de educação escolar. não se faz no vácuo. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas.7 naturalmente.. na calçada. Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. pór este mar de crenças. dá origem . fazem cestos de vime. por exemplo. o professor. ninguém nasce sabendo. o carteiro. é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em . (D tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc solidariedade mecânica. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada. com uma pessoa mais velha. obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. há um homem para apertar o parafuso. superespecialização das tarefas. os chamou vida nos de diz divisão numa Durkheim. afinai. através do de é produzido um processo Dito social. A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de indivíduos destacados. essas já parecem mais exóticas para nós. e o risco de enlamear o lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. Tal processo se radicalizou com o capitalismo. um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim observa que uma condição fundamental para que a s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. valores c regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos. Este interação predomina meio que na moral. por sua vez. o status d o s m a i s v e l h o s e r a diferente do que existe hoje.

E o que D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica.ke. mas você depende dos outros. Quando. cada pessoa. c uma relação dc solidariedade. enquanto que. a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica. em diversas circunstâncias da vida. ao contrário. pensa Durkheim. Mas o que você faria. embora vivei" sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela. a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. Assim. beber c vestir) dependem das outras. consultores de m a r k e t i n g . Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta. é a solução pacífica da luta pela vida. ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores. A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s porque fazem juntas as mesmas coisas. para viver (inclusive para comei. se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro. tem uma margem maior de liberdade. A diferenciação social. rodeado por técnicos em informática. para Durkheim.8 Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje. a n a l i s t a s d e s i s t e m a s . Pode-se dar O tipo de solidariedade que se. mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes c. animal. em decorrência solidariedade orgânica. Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas. as regras gerais ficam relativizadas. os indivíduos pensam com a mesma cabeça". que iazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de lazer. isto é. Mas há outro ponto importante.estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. é similar à luta pela sobrevivência no reino . portanto. e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença. são bastante distintos. é o consenso Quando cada indivíduo. para pensar e agir por conta própria. caro leitor. difercnciando-se umas das outras fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da sociedade.rs astronautas. crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional. nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho-. há muita divisão do trabalho e. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver. a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores. assume valores. em função da divisão do trabalho e da especialização. humanos diferenciam-se. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir.. Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento • de uma diferenciação s o c i a l cada vez maior. ficam mais fracas. Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e. A divisão do trabalho. você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado. Sc uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa. em decorrência solidariedade mecânica. portanto. p i l o t o s ' d e c o r r i d a . Em vez de matar uns aos outros por causa da competição semelhantes que na seriam luta obrigados a empreender os seres com seus pela sobrevivência. obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma sociedade pouco diferenciada. por assim dizer. videoma. Há. nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado â noite? Lamento informar. um enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras. Os valores as crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos. pelo contrário sofrem i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o . Talvez nem se espantasse. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. mesmo com aqueles que você odeia. a tendência. tão ligada ao coletivo ela é. como a sociedade industrial moderna. De solidariedade orgânica. d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o diferenciada. os meios morais.. sua relação com seu patrão ou com sua sogra.

Os indivíduos passam . mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da a consciência consciência coletiva. entanto. mais diminui. Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle. . paradoxalmente. provocaria a g u i a r . A tendência será. entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade. na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa cm que nascem. Pois quanto mais o individualismo cresce. e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento c de ação. provocaria D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut. solidariedade a desintegração orgânica da (baseada na diferença) o que sociedade. E assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o_ individualismo. Mas quanto mais liberdade individual. mais individualismo.i Educação para a vida Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade. a sociedade não pode sobreviver.9 interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas.s e p e l a I HI SCII d a s a l i . sua validade geral e indistinta. então. i s t o é . Si) numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais. . o conflito. sem consciência coletiva.* f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s pessoais e cada vez menos coletivos. decorrente da competição imposta pela diferenciação. sem uma moral coletiva. É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento ela liberdade moderna. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras. coletiva que era quase E no total nas sociedades pouco diferenciadas.

Edueação'é socialização. S OC I E D A D E .■ '. Preservá-la inclusive de sim própria diferenciarão. Mas se. Para Durkheim. existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. de sua casta. não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. sem que sejam todos. o caos. em profissões etc. só se voltássemos à pré-história.. através da aquisição de uma moral profissional. Assim. "É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como q u e r e m o s " . paia Durkheim. de sua profissão. em sociedades sem diferenciação. como dissemos antes. harmônica com seus contemporâneos. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. do essas numa onde chance valores os A ou meios e do no educação morais valores do literato. em grupos. Aprender a ser um engenheiro. certas regras. pois não estarão cm condições de viver en> meio aos'outros quando adultos. em castas. devido à divisão do trabalho social. conforme 'a divisão em classes. No para os básicos engenheiro mas antes passaram compartilhada dividida morrem. como seria possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora. os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos. Se não fizermos isso. Assim. existirão crenças médico. educados atividades sociedade as de comuns pessoas profissionais. não é específico. a educação. diz nosso sociólogo. Por isso. não seria possível. Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro. Educação homogênea. geração geração. Existem certos costumes. acredita Durkheim. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais. que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional. rigidamente fundamental. a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. de seu pelo qual você se torna membro da sociedade. por somos devem ser serem uma toclos. particular. A cada momento histórico. quais que pode de por com castas. a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 . passar a alguns . Você aprende a ser um membro de sua classe. a sociedade se vingará de nossos filhos. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social. a educação assume o significado de educação moral. é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia. Sé) assim é possível preservar a sociedade. casta cm para entanto. como existem na mais ser muito específicos sempre a da comuns diferente para educação Mesmo índia. gostemos deles ou não. simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de concreto. Se isso não ocorre por completo é porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma. geral nascem de todos. enfim. e uma por educados. não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal. para Émile Durkheim. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas. de seu meio moral. Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social. E(j-este é o modo a ausência de regras. após outra. Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade. aliás. Significa entrar num meio moral.10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O grupo. as sociedades modernas são muito diferenciadas. e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo. Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos.

mesmo que nem toclos nós fumemos um determinado cigarro.11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O "alguma coisa a gente tem que ter em comum". e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma tia criança que . Não seria possível < exemplo. existir sociedade sem isso. Assim. uma religião comum. E fundamental que haja certa homogeneidade.

reclamados pela sociedade política. Sé) a educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. Cada geração transmite a seguinte. C APíTUt O ii1 S oci edade. certo E STÁ BEM . intelectuais c morais. nossa profissão. para iivrá-lo de toda a opressão que 0 esmaga? número de estados físicos. particularmente. para adequar as crianças a seus meios específicos de vida.34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O / é educada. se destine [Educação c sociologia. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser considerados como uni importante ponto de partida da sociologia. os elementos fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades humanas. através da educação. O que existe por irás tias aparências dessa nova. educaç ão e em anci pação Marx e o pensamento sociológico A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX. permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá paru educação. tem por objeteususcitar e desenvolver. A educação que recebemos tem por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que vivemos — nossa classe. Para resumir cita idéia. maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento histórico são capazes de controlar as consciências dos homens? Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o berço cia sociedade capitalista. nosso meio moral. A SOCIEDADE NOS MOLDA . Assim como é fundamental para ele que. É isso que nos permite viver cm sociedade. como transformar esta realidade? Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será possível educar para a emancipação do homem. na criança. a educação se diferencie. [). E é por isso que a educação é um processo social. . e pelo meio moral a que a criança. e também da sociologia da educação. é isso que permite que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. a partir de certo ponto. insistiu o sociólogo francês. Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe nos porões da sociedade. no'seu conjunto. A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida social.

foi a sociedade capitalista de seu tempo. A^contradiçãc> para Marx não é uma fa 1 ha do raciocínio lógicq. que o pensamento de Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia". Para ele não havia contradição entre teoria e prática. no modo mesmo como a sociedade presente "é"... Ele olhou à sua volta e percebeu que. em prática através de um partido político. graças a suas contradições internas. Aliás. dissecando-a. que pretendia colocar suas... Pois a sociologia é uma disciplina científica c empírica. valorativamente caracterizada por ele como iníqua. é porque esta possibilidade está dada já agora. Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista. ele foi um praticante das ciências sociais (a sociologia. educa Pelo contrário. o transformador) social compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na qual ela estaria se transformando. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se em motor da mudança histórica? As l e i s d a h i s t ó r i a Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com. a história e a economia política). construindo uma utopia em nome da qual seria necessário agir para transformar esta realidade. seu pensamento é normativo. Por um lado seu pensamento é analítico. enquanto levava a burguesia à condição dc classe dominante. Nesse sentido. 13 . Nesse sentido. Seu objeto de pesquisa fundamental. ele fazia filosofia. uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus instrumentos dc produção e seus saberes. Marx não era apenas um pensador. e u e x p l i c o . desde os primórdios da civilização até seus dias. de caráter analítico. Por outro lado. num discurso proferido no enterro de Marx. Nesses dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento essencial: o trabalho humano. Marx julgou necessário descobrir como a história humana funciona. mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da história. Nesse sentido. a pretensão de Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia. pata não dizer o único.. seria algo como o seguinte: "o que move a história é a luta entre as classes sociais". pretende vislumbrar como a realidade deveria ser. Compreendendo esta chave. E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo. Bem. E i a também um militante político. o investigador (e. principalmente.çntre si. Marx havia descoberto as leis da história. isto é.a natureza e dos homcns. caro leitor. nem entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser. Seu socialismo era "científico".^■y-frl-L-. Ir a sociedade verdadeiramente humana "deve ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão. transmitidos com zelo de geração para geração através dos séculos. se Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O ._ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_ expressa. Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (18201S95). e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para entendê-la. isto é. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da sociologia de Marx. . Mas devo advertido desde logo. i a c o n f u s o ? ( _______a l m a . dois modos diversos de encarar a realidade. segundo Marx. ao tempo da velha ordem feudal._ ■ pretende ver a realidade como ela é. idéias. e o futuro desejado está contido no presente odioso. Nada menos que isso. para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo histórico em curso que. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas diferentes. assim como Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies. e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar. Mas não se conformava em propor o socialismo como uma opção entre tantas outras..36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade.

porque o fazem com os meios de outros. p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r . As relações de propriedade. c o l h e . Na medida em que o ser li uma no se reproduz. dizem respeito aos tipos de relações sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de propriedade vigentes. f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s m a c h a d i n h a s e a r a d o s .s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o . boi este o ponto de partida do processo de divisão do t r a b a l h o . O s e r h u m a n o . O desenvolvimento das forcas produtivas foi o. P r i m e i r o .'Em vez de cortar ou quebrar com as próprias mãos inventou. elas iippj^cjvm numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados para o trabalho. Porque o . Não. portanto. ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39 É através do trabalho que o homem muda a natureza. c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s a n i m a i s . produtivas". n o t e b e m . a s s i m p o r d i a n t e . como esta organização da produção advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do aumento da produtividade social. As relações de propriedade. ele é. ti' produi ividade si > c i a 1. E . depois de m e t a l c o r t a n t e etc. q u e cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento das capacidades do corpo huma-rva. A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o intermediário da relação do homem com a natureza. p e s c a - enfim. Com s e u g ê n i o .. Ambas. divisão do trabalho e forças produtivas. a d i v i s ã o sexual. m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s pela capacidade reflexiva do homem.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O S OC I E D A D E .nem_sempre. a divisão do trabalho é também parte do conjunto das forças produtivas. distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da sociedade. u m e n t a r c m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o suor de seu rosto. de um lado. o _ a produção junto com seus luMncmtambém loi organizando semelhantes. a -machadinha de pedra.responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do domínio do homem sobre a natureza. f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a c i d a d e . colocandoa a se L I trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. Do ponto de vista de Marx. para desenvolver as forças produtivas. Depois. o intermediário da relação dos homens uns com os outros. embora -como apontarei mais abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o m u n d o d a s i d é i a s . bem como pelo conforto e pela r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s . Nesse processo. também. c de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que outros trabalhem para si. na medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de homens que trabalham para os outros. cada vez m a i s . Para aumentar :i J í c r v i ç c j ^EjejTJama. vive através de seu trabalho. são a base das desigualdades sociais. Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de tarefas: fulano faz isso. d e s e n v o l v e u a o longo d a h i s t ó r i a . entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l . beltrano aquilo. ao mesmo tempo determinam-se e são determinadas uma nela outra. c o próprio trabalho. por sua vez. E . A esses modos específicos M a s n ã o a p e n a s i s s o . que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o longo d a h i s t ó r i a . o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . Nesse sentido. de outroMsso significa que no processo de divisão do trabalho. trabalho manual e reflexão intelectual jamais se separaram. c a c a . D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços. através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. a divisão entre a agricultura e a criação de a n i m a i s . Ao mesmo t e m p o .os homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e nem sempre os que trabalham possuem esses meios. e n t r e e s t a e o comércio etc. Ela é também a expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio de uma dada sociedade num dado tempo histórico. a s s i m . e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e mulheres. a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e "forças.

da produção. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas. A transformação de uma forma a outra. política e/ou economicamente dominada. um conjunto instituído de relações sociais de produção. burgueses e proletários. a relação social básica é a escravidão. E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo que move a história é a luta entre as classes. como já sublinhei. A classe oprimida. como já vimos. das crenças c tias opiniões se relaciona com este mundo material. no qual as relações de propriedade vigentes são contestadas. Simplificadamcntc. que opõe capitalistas e operários. da posição dos homens com relação às formas de propriedade vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes sociais. isto é. as relações de propriedade. No primeiro. isto é. são laces da mesma moeda ao longo da história. ou melhor. Dessas diferentes relações de propriedade. que opõe escravos e senhores de escravos. de um modo de produção a outro. do trabalho. e no terceiro. ao mesmo tempo. . no segundo. da produção material de sua sociedade c das rclaçêics de classe. as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro. A cada uni desses formas modos de de produção da correspondem propriedade (ou diferentes relações estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e diferentes organização sociais de produção).33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram o nome de "relações sociais de produção". funcionam como uma forma de desenvolvimento das forças produtivas. ao intercâmbio econômico entre os homens. quando se estabelecem. mas chega um (orcas produi desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. Marx diz que as relações sociais de produção. isto é. Mas como o trabalho e a reflexão do homem. até produção aqui. As formas de consciência Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé) lhe expus. Assim. Marx e Engels se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu próprio modo de vida. se insurge contra o predomínio da classe dominante. Abrese então um período ele convulsão social. não condiz com as relações materiais reais que de fato . afirmam nossos autores. a teoria de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das idéias. as formas de propriedade. a relação social fundamental é a de assalariamento. podemos dizer que nossos autores descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. onde o trabalho era realizado por escravos). o modo de produção feudal (vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. Mas a consciência que os homens tem dessas relações. A este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". sejam elas econômicas ou políticas? A consciência está ligada às condições materiais de vida. e o de aspecto relacionado da com as formas de social delas material organização estrutura decorrentes. sob o controle dos homens que nesta época vivem e. do conhecimento. que opõe servos de gleba e senhores feudais. a relação social básica é a de servidão. se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe dominada e a classe dominante em cada época.

Vou lhe dar unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de mencionar no parágrafo acima. aliás. Estes são obviamente os burgueses. pois o homem pode construir outros tipos de relações. Se estiver muito complicado. mostra que isso não é assim simplesmente mostra que o porque caráter qualquer coercitivo. bem maior do que a duração do capitalismo). Assim como em outros tempos. por exemplo. E existem aqueles a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único bem de que dispõem: sua força de trabalho. no. Assim. quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o lugar de cada um dentro do processo produtivo. isso é percebido. no entanto. diz Marx. em troca do pagamento de um salário. mas que ela foi criada pela luta histórica entre as classes sociais. de não homens se deve necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos.ranslormaildo-se em proletariado. mais ainda. que os homens. mas sim de unia parte da sociedade sobre outra. que acabaram sendo submetidas a esta classe dominante. o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época histórica.16 S O C I ED AD E . Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx. não precisam existir para sempre. Ele manifesta igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens indistintamente. cie uma classe social que assume o papel de dominante sobre as outras. As idéias. momento classe dominante (a burguesia) e outras classes. existem os proprietários dos meios de produção (as fábricas. como a única sociedade possível. as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a . Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos. portanto. na cabeça dos homens que vivem sob este sistema. como se isso sempre houvesse existido e. foi percebida pelos homens como a única sociedade possível (durante séculos. E. num intervalo de tempo. por sua vez. Mas percebe. Ao trabalhador lhe parece natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver. o modo como está obrigado a trabalhar e viver. E que esta situação não está ali desde que o mundo é mundo. aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de uma consciência coletiva. na vida cotidiana. Esse indivíduo não vê a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a . primeiro Para Marx numa essas falsa implicam. n u m a consciência invertida. as relações de propriedade vigentes. portanto. não desanime agora. No capitalismo. Marx afirma que se as relações de dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são socialmente construídas. p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os homens estão de fato submetidos. não têm uma consciência real da dominação cie que são objeto. Marx. dentro do qual estão submetidos a este processo de dominação. No entanto. l. estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer. Não. Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do trabalho. num aparência. A medida que o tempo passa c a sociedade capitalista se estabiliza. sociedade dominador. no seu universo cotidiano. que se tornam dominadas. ela é percebida pelas pessoas. as máquinas e a própria força de trabalho do trabalhador). natural. E s s a s representações representações são. plano das idéias. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3 vivem. como se tivesse que continuar existindo para sempre. sem a dominação de uma classe sobre outra. a sociedade feudal. ou melhor. como algo normal. Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. para que não reste consciência. que os indivíduos não pensam com sua própria cabeça.

cm vez de aprender o processe. um sapateiro — realizava todas as etapas da produção de seu produto. deles foram subtraídas duas coisas: os meios de produção c i a v i d a m a t e r i a l . do ponto de. Com o desenvolvimento do comércio. A forma de produção de mercadorias no mundo feudal era o artesanato. o ofício a seus aprendizes. fazia o acabamento c. os vendia em seu estabelecimento. c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e um produto e a própria posição social do artesão. Primeiro. repetidas vezes. não só com os sapateiros do exemplo.44 Sociedade. e não a máquina ao ritmo do trabalhador. isto é. porque não tinham mais os meios materiais de vida. O que aconteceu.. foram criadas máquinas novas para aumentar a produção. ainda. A princípio essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas. E de onde veio este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre. as forças produtivas foram enormemente desenvolvidas. porque não saberiam mais como produzir por conta própria se tivessem esses meios materiais. iodo. o capitalista reduziu o trabalhador à execução cias tarefas simplificadas. Com o 17 dúvidas sobre isso. muitas vezes seu pai. muitas vezes seus filhos. pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro. mas a percepção dessa expropriação e o entendimento . mais lucro. que o desenvolveu e racionalizou. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista. em vez de todos realizarem todas aá etapas e passarem de uma tarefa a outra. no entanto. E l e . é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s capitalistas. que os novos trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma só tarefa. Explicado assim. o artesanato se transformou cm grande indústria.vista das relações de propriedade? No artesanato. com o qual exercitou o ofício desde criança. E seria bem mais simples. Como isso se deu. pregávamos''solados. mas com seu aperfeiçoamento. mas com todos os ramos da produção material. entre o tempo do artesanato e o da grande indústria. mas através de um processo social de expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s . poclc até parecer convincente. na condição de aprendiz. cortava. E claro que este era um processo lento. ou apenas costurar. Agora pense o que aconteceu. as máquinas começaram a ditar o ritmo da produção. Assim. Quanto mais sapatos vendidos. Do mesmo modo ele ensinaria. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO -S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o 1 '5. c foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um salário. Como resultado de uma enorme gama de transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX. também. mudança um outro dado fundamental. tingia. uma nascente classe de comerciantes começou a ter pressa. para M a r x . sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r (somado aos meios materiais necessários para a fabricação de sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no mundo c suas relações com seus contemporâneos. já que foram obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e parciais. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos animais. Os comerciantes passaram então a contratar fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. Ao fazerem isso. e um número reduzido de pares de sapatos era produzido.. c o m o p e s s o a . começaram a entender o processo de fabricação do sapato e perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas fossem divididas entre os trabalhadores. construía as fôrmas de madeira para a fabricação dos sapatos. Cada um faria apenas uma etapa. depois de Mestre formado. Juntou-se a esta desenvolvimento tecnológico daqueles séculos. parciais e repetitivas na linha de produção da fábrica. Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de c a d a d e t a l h e . sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo cia máquina. o Mestre de Ofício — por exemplo. numa perspectiva histórica. o XVIII e o XIX principalmente. costurava-os. Através da maquinaria industrial moderna e de posse desse saber. E depois. Eles eram autosuficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas.

. s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL. Existem as fábricas e seus donos. que sempre' foi o meio pelo qual o homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens. c e s s a _ c a ___________l o r m a d e dominação_m._xos.•16 Sociedade. E quase como sc_ houvesse e m seu cérebro um c/u/> perverso de computador.tc se revolta diz respeito aos salários hai. c a q u e l e s i s t e m a ordenado de idéias. A outra parte é apropriada pelo capitalista e se transforma em lucro. que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida da mesma íorma que no_dia anterior. cabe trabalhar nelas e ponto-final. Em todas as outras lormas_d_c ajnerioxes.houve histórica sociedades: sabia que. Jnsalubrklade_etc). o servo sabia que o dono L O I feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. de normas c de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo a vontade "do sistema". A suprema ironia do capitalismo é que o dominado p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r . E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x . concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências.d e alienação. E ao trabalhador. A isso. e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano. O trabalhador foi separado. E mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa da ideologia. É injusta porque separa o trabalhador do resultado de seu trabalho. a l h a d o r e s dormem com o inimigo. a teoria de Marx e Engels afirma que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é injusta em si. NxLxap. O trabalho é então percebido pelo trabalhador como algo fora de si. ao contrário.. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO 47 DA •/■S O C I O L OG I A E D U C AÇ Ã o Exploração capitalismo dominação econômica e em opressão todas o as política do homem só pelo b n m _ e j i \ _ g g . portanto. A i d e o l o g i a . na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes dominadas. todos os dias sem saber. porém. de concepções. O trabalho. a b . do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c também do fruto deste trabalho. No capitalismo. .quem. que o salário não remunera. confortavelmentc instalado em sua própria mente. desses dc filme de ficção científica. O escravo s abia que seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à forca.no que era de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no qual cresce e morre... o salário e viver.cojrio uma fatos.. pelo capitalismo. que é uma concepção de mundo gerada pela classe dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua. Por causa do salário pago.mjnado_ç sabia. Marx diz. os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ fa 1 s a_d o mundo em que vivem. o trabalho.ajs_visceral. mas apenas uma parte dele. pois esta é a percepção que tem da realidade na vida cotidiana. i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r .. i i \ p r e .. vêem o trabalho alienado cji_d_oniinação de uma classe social a sobre otitra . dojiunado dp.era seu dominador. Em resumo. que pertence a outros. que não é dono dc coisa alguma. Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa época. A i s s o M a r x d á o n o m e d e ideologia.c_às.ço_ndi. M a r x d á o n o m e . que é obra de cada ser humano. todo o trabalho realizado. O máximo SC L I dc jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men. é individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Qtrabalhadox_não tem controle. P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e estão submetidos.riiins de trabalho (jornadas longas demais. Ele só aprende que deve trabalhar para receber.ções_. é compreendido como algo que não pertence a este ser humano.naturrj_is__e passam. mas — e isso e i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria vontade. compartilhar há uma diferença. o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de trabalho mediante o pagamento do salário. p o r t a n t o .pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l .

Daria à sociedade. ideologia comunismo empírica (ainda eme pouco aprofund ada) da situação - I educação. Pois vou lhe dizer o que eu acho disso. graças ao desenvolvimento material propiciado pelo capitalismo. a ver com alienação. acreditaram haver descoberto as leis da história.48 Sociedade. sobre o que toda essa c conversa de tem exploração. autocentrado e autoconsciente. trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo. E. Por obra da ciência. fazendo uma análise a . Por um lado. Essas leis lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas de propriedade e que. seres humanos inteiros completos. todo o esforço e trabalho que pudesse. E aí entra sua utopia: acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova sociedade. e deixaria de existir quando as classes não existissem mais). c claro. a sociedade comunista. Educar no mundo industrial Bem. e receberia dela tudo o que precisasse. sem dúvida a mais bela utopia do século XIX. Nessa nova sociedade. tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. seria um ser autônomo. enfim. o homem se reencontraria consigo mesmo. Os homens e as mulheres seriam. por sua própria vontade. sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para eles é uma manifestação das relações de classe. Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos com que viam o capitalismo. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o 19 Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. sem alienação e sem ideologia. sem exploradores nem explorados. Eles. é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo minhocando dominação. se abriria uma época de revolução social e política. seriam felizes para sempre. quando esse momento chegasse. ao mesmo tempo.

E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o .48 Sociedade. para inculcar no trabalhador o modo burguês de ver o mundo. que só poderia servir para perpetuar as relações de legislaçã sujeitos. de sua libertação da exploração e do jugo do capital. Segundo relato de um inspetor do trabalho da época. ela pode ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação.) Além disso. utilizada pelo capitalista para disseminar a ideologia dominante. pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária. numa dessas "escolas" que visitou a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível. Por outro lado.. identificaram na educação uma das mais importantes formas de perpetuação da exploração de uma classe sobre outra. justamente a (ase de afirmação do capitalismo industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas. comenta tão precário. O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da . Ou seja. Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta. porém. (. r o ta época.. o mobiliário escolar é pobre. ele nota que a lei inglesa anterior a 1844 20 educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril. identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano. M a r x f a z u m a análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela Revolução Industrial. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o al . O Capital ( d e 1 8 6 7 ) . com a condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de da fiscalização. Olhando mais de perto. citado por Marx em seu livro. há falia de livros e de material de ensino e moderno meninos freqüentavam a escola. para Marx e Engels não existe "educação" e m g e r a l .

E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava que um homem novo. c que já tivessem aprendido as primeiras letras e números. quanto os livreis. com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual. que vivemos à beira do século XXI. qualquer criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo. mas segundo a concepção dc Marx. do mesmo modo que todo adulto apto para o . colocando a natureza a seu serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante. Seu ideal era o de que. muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de mil. Assim. todos dividissem o trabalho manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. em menos de cem anos. não sendo combinada com o trabalho man uai torna o dia da criança enfadonho. no comunismo. Marx afirma. p o r q u e é dela que brotam a alienação e a ideologia. que a escola em tempo integral é pouco produtiva. pudesse ser forjado apenas com uma educação escolar lormal. e não contra a existência da civilização industrial. c a p . Para que não reste dúvida sobre este p o n t o . v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar. X I I I . que era um homem do século XIX. Mas o fundamental é que. Marx considerava isso um avançç) importante. pois acreditava que todas as crianças deveriam combinar. c também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do trabalho na fábrica moderna. Estive em muitas dessas escolas c nelas vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente nada. A partir de então só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já tivessem pelo menos a instrução primária. pois ela permitia combinar. na formação das futuras gerações. s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r . Em todo regime social razoável. Não nos esqueçamos de que Marx era um entusiasta dos avanços do capitalismo. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a apropriação privada do lucro. em sua formação como pessoa. "As crianças com escola de meio período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. a educação escolar e o trabalho na fábrica. i t e m 9 ) . porque.lápis. Para ele. E romper com essa separação é uma d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s . uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria unia abominação. Para ele. os cadernos e os. educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51 Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. através dessa c o n j u g a ç ã o . A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. Marx festejou a legislação inglesa dc 1844. inclusive. d o p o n t o d e v i s t a moral. o trabalho do professor mais duro e o rendimento escolar menor. sã e legítima a tendência cia indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para que cooperem no grande trabalho da produção social. todos seriam homens completos. a educação formal escolar e o trabalho manual nas fábricas.21 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. telo contrario. Nesse sentido. Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos. na formação da criança. Ele lembrou em vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o . Sc é através do trabalho que o homem produz para viver. e esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital. as mãos sujas de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s . embora sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a as infelizes crianças. D i z ele: Consideramos que c progressista. o trabalho infantil é desejável.nível material de vida da sociedade humana. sua utopia comunista seria impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. c os resultados dos esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as necessidades cie cada um. o trabalho manual eleve ser exercitado por toclos. desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela legislação. com um novo caráter.

. 52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E . e seria por assim dizer inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das classes trabalhadoras.. Marx propõe que. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53 trabalho deve obedecer à lei geral da natureza. Sem uma legislação desse tipo.<. . .2 anos. irias sim ensiná-lo a operar as fábricas burguesas. e as de 16 e 17 anos. mas de um I . Pois este seria. a saber: processo educacio nal lhe devolves s e . provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista. lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado conforme a faixa etária. mas o que se pode concluir de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser. premidos pela pobreza. da qual serviu-se o capitalista industrial para constituir sua fábrica. de 13 a 15 anos. o caminho que Marx vislumbrava contava com a contribuição do processo educacional. No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista. E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem. a de romper com a alienação do trabalho. prevendo jornadas de trabalho com duração diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1. o a do percepçã conjunto que trabalhar para poder comer. E conclui: "não se deve permitir em nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação". eles deveriam trabalhar 2 horas por dia. t a n t oE quanto possível . o Partido Comunista. Não se tratava de ensinar ao filho do operário que ele era uma vítima da exploração burguesa. fundamentalmente. Para tanto. como ocorria.militantes de seu partido.'#p. Marx dá poucas indicações sobre isso. Não através de uma operação circunscrita às tarefas parciais. mas com as mãos. 4 horas. . o ponto de partida para romper com a passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante. diz Marx. em sua visão. não haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários.^.. 6 horas.. I % comprometendo seu futuro. da seriam obrigados fabril a transformar-se próprios em agenciadores escravidão dos filhos.os.. e trabalhar não só com a cabeça..

E. era objetivamente possível. "mero fragmento humano que repete uma operação para o parcial. finalmente. op. qual as pelo indivíduo funções integralmente sociais não desenvolvido. pensava. porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e .. tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um. Com tal formação. A educação física e no treinamento militar. os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica. uma das chaves de sua emancipação como ser humano. Ele não explicita. D e n t r o d e . uma educação física e uma educação tecnológica. nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial. a menos que rompessem com a separação entre deduzir trabalho intelectual e manual.. Esse novo saber seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c.do processo produtivo moderno. portanto. mental. a educação tecnológica seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das máquinas dos diferentes ramos da indústria. Em sua visão. Em outras palavras. poderiam pode-se homens completos. Isso. no texto citado que seria essa o mas educação elementar para o trabalho intelectual. para Marx.). É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contemplar três dimensões: uma educação mental. cii. é preciso do que seria uma substituir o indivíduo parcial.. capaz de executar uma única tarefa simplificada. tarefa que deveria dos 9 aos 17 anos. uma vez que estes últimos também jamais seriam a c i m a . diferentes contexto sempre passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade" [instruções. ditada pelas exigências do capital. p o r t a n t o . portanto. os filhos de operários estar cm nível muito superior ao dos burgueses c aristocratas.

A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx. além que de ser uma mudar a forma mudar educação de a exploração forma pudesse de se econômica.estabelecimentos estatais e a cargo do Estado. q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e citar. Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam. o que Marx antevia era a adoção do ensino tecnológico.. ambas relacionadas ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar. concessão na medida em que obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o ensino para os filhos de operários No entanto.) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo e da Igreja. O ensino. Bem mas esses são detalhes. teórico e prático nas escolas dos trabalhadores . I s s o d e u m a educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível.. Debatendo com seus adversários internos do Partido Comunista. que servem apenas para lembrar-nos como ct a complexo. nos moldes que conhecemos. ao contrário do que se possa pensar um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque o Estado capitalista. Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado. deixaram i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s . de 1 8 4 7 . quando escreveram separadamente sobre o assunto. sua derradeira lição. terminariam a divisão da sociedade em classes e . o Estado que necessita receber do povo uma educação muito severa". como o nome já diz era em sua concepção uma forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe sobre outra. Para ele. mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu projeto para o futuro. as escolas politécnicas e as escolas agronômicas eram consideiadas aliadas importantes do processo de transformação. ao contrário. deveria ser radicalmente suprimida. seria público e igual para todos. N o c é l e b r e Manifesto comunista. mergulhada na desagregação causada pela miséria. é preciso assinalar que Marx e Engels.. com o comunismo. achavam. (. mas muito insuficiente. ele deixou essa visão bem clara Num texto c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à f a m í l i a . Ele não era. é o espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar com a cabeça da classe dominante. A primeira eles é que. p o r t a n t o . depois da inevitável conquista do poder político pelos operáiios comunistas. trabalho educacionais práticas que tivessem um caráter libertário.) E. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24 é tal concepção. reproduzindo a exploração dos operários pelos patrões/Razão pela qual a família. mesmo o para esses cie sociólogos-fikxsoíosarticular propostas economistas-militantcs. a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe". o que seria cia educação pública depois que o Estado recebesse dos operários armados.54 S OC I E D A D E . para encerrarmos este ponto. oiganização acreditavam paia preciso nova social. desenvolver. Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de todas as crianças em . nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano? Acho que aqui há duas questões importantes. a ele parecia óbvio que um ensino oferecido por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a moldarem-se à dominação. pelo vício e pela prostituição. conforme já vimos.. forma de inverter o conteúdo de c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a . l e m b r a m q u e a família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da família proletária. não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para manter sua dominação. A segunda questão importante é que. Kcsta saber então. indistintamente seriam trabalhadores. no momento da revolução comunista. A família é o lugar por excelência da difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses. s e r i a substituir uma educação doméstica por uma educação de caráter social. d e 1 8 4 S . n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia "deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família. (. assim como as escolas profissionais da época que davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de produção. A título de ilustração. uma primeira. então. N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo.. Todos. A. porém. na proposta política de Marx e Engels. É o lugar onde ocorre a exploração dos filhos pelos pais. Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" pois no comunismo não haveria mais burgueses.

para o perfil cio "trabalhador polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas . educados. mas o fosso social que separa as classes continua a aumentar. a educação nos libertara deste caráter unilateral que a . homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. Hoje. No já citado afinal da. Não seria suficiente a revolução política. portanto. restritivo de suas potencialidades. pensavam Marx e Engels. mas nem por isso emancipados. Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista) que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o . a nova forma de organização industrial encontrasse um homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O a forma capitalista de divisão do pelo "novo divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo.para compreendermos seria bem mais complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito em 1S47. Assim. nos dias que correm. parcial. Basta olharmos. Por conseguinte. Seria comunistas ■ dará OS a seus 1 n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai 111 U H H > N aspei los suas faculdades desenvolvidas universalmente. Seria necessário que. Seria preciso. Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes.em função da reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira Revolução Industrial . para viabilizar o controle coletivo de seus benefícios. Vivemos hoje os dias da "sociedade da informação". permite ao capitalista realizar a mesma produção que antes o obrigava a empregar milhares de operários. com o advento da robótica c da informática. o desenvolvimento tecnológico. portanto. s e g u n d o a s necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. para socializar os meios de produção. e o controle do poder do Estado pelos operários decorrente dela. Educados. agora com apenas algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c. nova educação. Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo. Diz ele: A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar Princípios do comunismo. uma mudança de atitude frente à produção. ao socializar os meios de produção. pois. da "sociedade do conhecimento".54 S OC I E D A D E . a sociedade organizada sobre bases I 25 trabalho. aproveitar-se desenvolvimento do do progresso material proporcionado preciso edticar o capitalismo.

A sociologia do alemão I Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos. digamos assim. em níveis e cm medidas diversas. verá que ele não é muito "fluente". Para o primeiro. deixe-me dar-lhe um aviso. A s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s . E podem parecer um pouco intrincados. se "socializa". embora os textos pareçam um pouco truncados. m a s a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . conforme seu conteúdo de classe. a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais. mas sim o resultado de uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. as idéias valem muito a pena. Mas antes de continuar. No entanto. serão bastante significativas. Os raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira vista. ela é um mecanismo que. e impositivas com relação a elas.C A P í T U L O IV '—| Soci edade. E quando você for dar uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber. Weber é um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica. [iode ser utilizado para oprimir ou para emancipai' o homem. tem contribuições . para o segundo. A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a sociologia da educação. que é muito pouco discutida na área da educação. educação e des encant am ent o As partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga. Mas há outro ponto de partida possível. é claro. a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade.

importan tíssimas a dar. .

no momento da ação. isto é. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela. acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa. e não os seus próprios valores (do investigador). pode ser qüe as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. O "todo" (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos). c uma teia. Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas . fundamentais. os acontecimentos. é c l a r o . por qUjé. isto é. embora vivamos na mesma sociedade na mesma época . os valores que ele atribui ao próprio ator social. Weber e q pensamento sociológico O ponto de. Trata-se de um processo subjetivo. As ciências sociais Então. conforme o processo de interação em que o indivíduo está significados diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e. desde que o investigador leve em conta. que tem pontos de contatoe distanciamento com a de Marx. As ações sociais praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação. isso simplesmente não é possível. no entanto. é literalmente incompreensível se for tratado como um todo. que são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou grupo de homens por ele investigado. o que. aquele que pratica a ação.60 Sociedade. A realidade é concebida por Weber. histórica. apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto de conhecimento. A sociedade. naturais. para Weber. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NSO I O L O G I A D A T OC E D UC A Ç Ã o inserido. não é um bloco. Aliás. Pela s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo. na interpretação das ações e relações. não compromete a objetividade do conhecimento. Para ele.partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural. então. e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos de racionalidade empregados pelos indivíduos. Os valores são compartilhados. como uma coisa. são. A realidade não é uma coisa em si. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o estarão presentes os valores do investigador. Um mesmo meio cultural pode assumir 28 distintos.lá. Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são concebidos por Weber Ao das como de as üm conjunto para inesgotável ele postula as quais de que. vamos. a captação da ação social. Fluxos da mudança e cristalizações d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . Respire fundo. ü. que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. Como a realidade é infinita. regule o seu grau de atenção e prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e Marx. nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. portanto. Porque os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores. como o encontro e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s articulam de modos distintos no plano subjetivo. para Weber. discutir um pouco sua teoria da história. diferentemente contrário ciênci Durkheim. porque são muitas e porque se renovam a cada dia. i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s . para finalmente levantar algumas implicações que este" modelo tem para a e-ducação. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos mais elementares da sociologia de Weber e em seguida. ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a . m a s s ã o i n c u l c a d o s . porque as coisas que eu vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê. conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma ciência "compreensiva".

mulheres (ou homens) à disposição e carros do ano. indo ou. está relacionado ao sentido subjetivo pensado daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s .l o p a r a d e s e m p e n h a r tarefas na vida Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica desenvolvida compreensiva. seus colegas. E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão.. M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s . será muito difícil pra você deixar de ir à escola. O trabalho científico é assim inesgotável. Se em sua casa todos piczarcm uma boa educação acima de tudo. que você já vai saber o que é. c você já pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as relações entre a educação e a vida social. porque o" real o é. está co-determinado no seu decurso por esta referência significativa e. mas para isso preciso escolher a prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível. pode ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente). deixando de ir.) A ação que especificamente tem importância para a sociologia compreensiva é. poderia dizer: "minha finalidade na vida é ter dinheiro. o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e interessa à sua sociologia. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i s i m c o m o D u r k h e i m . i i MI comportamento ouci 1 .29 SOCIEDADE. isto é uma ação social. Não apenas porque ali você encontra seus professores. (. porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou por Weber na definição de sua sociologia . e l a o c o r r e q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o de tomar uma atitude. no valor que sua família dá à educação. ms. apenas. em particular.. e lhe Difícil. P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social . P a r a W e b e r . T u d o O C"| LI percebido. 3. Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus interesses pessoais "egoístas". suas finalidades "exclusivamente individuais . Você pode calcular também com base. mesmo que ele não seja quase 7 um a n i m a l social. bem como fragmentário c especializado. p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á . por exemplo. no caso inverso. A produção científica tende a disseminar-se pela sociedade através da educação. não faz de você digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). Diz ele que por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido (subjetivo) real ou "mental". certo? Se um dia você cogitar abandonar os estudos. e o meio mais adequado para atingir este fim é ir à escola". Quando você vai à escola. Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s dias) os custos e os benefícios que você terá. Ao ir à escola você emprega sua racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio comportamento. Se você fosse puramente racional. E direi também que Weber era um pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o h o m e m . 2. de praticar uma ação Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) . seu grupo. Estar junto com outras pessoas. portanto. W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um problema. a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a escola.' Vejamos.

uma forma de cálculo. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O que se era algo importante. .30 SOCIEDADE. Levar isso em consideração também é 6 i formar.

s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . não significa idealizado"..' . Já se você for à escola porque sua formação familiar deu muita importância aos e s t u d o s . dos professores ou da namorada ou namorado. tipos dc dominação política etc). esses de No Weber. Você pode gostar da escola porque tem amizade com professores namorado lá. a partir de vários exemplos históricos. Ar^ir cm sociedade.s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a . se você vai à escola apenas por causa dos amigos. entanto. implica em algum grau de e colegas. mesmo que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades estudantis. está praticando o que Weber chama d e ação social racional com relação a fins. que jamais será encontrado na vida prática. N o c a s o . 3 ' . na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l . . Suponha. 2L. finalmente. fins estes tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a de comportamentos aceitos em seu grupo específico. e ficaria chato pra você. portanto. p o i s o que Weber chama de "racionalidade perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação. t r a t a . Ei. e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a valores. está sendo irracional. É m u i t o p o s s í v e l que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu citei no exemplo. é a s e g u i n t e : l u . dizer que não freqüenta a escola. A receita m e t o d o l ó g i c a . e selecione dele o aspecto a ser investigado (não dá pra ser tudo. p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação ao regular. As razões este é o se misturam. p a s s o a p a s s o . O tipo é tima construção mental. por exemplo. na prática. ou porque arranjou uma namorada ou racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m age. Finalmente. que você fosse à escola apenas porque todo mundo vai. para Weber você pratica u m a ação social afetiva. R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . esta teia inesgotável dc eventos e processos.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 31 Mas você pode calcular também com base. Nesse Isso é método perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem mas os constrói para que sirvam de referência. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . nem mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados. Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado". Ele é um exagero dc perfeição. Significa apenas que você escolhe as características mais "puras" dos tipos. Mas. quando você vai à escola pensando em se formar e ganhar dinheiro. repare também que no dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê construiu. Ninguém. feita na cabeça do investigador. C o n s t r u a u m tipo ideal "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social. dentro do seu círculo de amizades. sendo três racionais e um irracional. você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem busca utilizar-se dos melhores meios para isso e. tem que ser uma coisa de cada vez). portanto. S ó n o parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social. e Weber achava que os . o u e n t ã o d o modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o . como por exemplo idealizar o que seria uma "sociedade perfeita". alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais importantes métodos dc investigação das ciências sociais. "puros" Ele é de sabe absolutamente comportamento. O/fie o mundo social que o cerca. Partindo do exemplo acima. Na ação afetiva.fundamental para entender Weber. v o c ê e s t a r i a sendo irracional. isolar tipos satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola. e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar.64 S O C I ED AD E . fundamental Aliás. Essas coisas t o d a s s e c o n f u n d e m .

nem muito menos a psicologia individual. O método de Weber é individualista não . Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou simplificar bastante a definição do nosso autor. mas porque para ele o indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de sentido. Aquilo que e mental. no momento de agir. • os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis. Ou. c o n c e i t o s c o m o E s t a d o . Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a U porque ele prefira o indivíduo. a s s i m . melhor d i z e n d o . daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação. sem exceção. E m c o n s e q ü ê n c i a . reduzem-se i categorias q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e .64 S O C I ED AD E . b a s i c a m e n t e . um agir cie homens que se relacionam uns com os ou tros. para Weber é incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo. c o m o s e n d o ações propriamente obter os fins ditas. S e d i z e m o s " b o m . não estamos falando ríum comportamento exclusivamente psíquico. é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer. E l e d i z . Não é nada disso.s e d a q u e l a q u e s e refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. e s s a r e a l i d a d e s e apresenta a você.d i a " n o c n c o i i 11 ' i r s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a . É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance. Para Weber. institucionalizadas. os comportamentos dos atores são interpretados c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e . de intencionalidade. Comportamento subjetivo é o c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o . e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. na prática. Mas não sé): ele é obiigadc) a relacionar-se também com as normas sociais consolidadas.À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u . em detrimento da sociedade. liga o indivíduo às estruturas sociais e estas ao indivíduo. A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível. Ressalto novamente: q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo. exclusivamente psíquico. 4 . no sentido de adequação entre meios e fins. n o c o n t e x t o d a sociologia de Weber. a escolha dos meios para desejados. para Weber leva em consideração. O indivíduo. que é detalhada so para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber. embora a certos elementos de dessas ações (a na estruturação do sistema de preferências. que têm influência sobre seu agii. capitalismo ou Igreja. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . O indivíduo e as instituições sociais Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo contrário.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 32 tipos de conduta mais puros são os mais racionais. q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento d o s o u t r o s . o comportamento dos ou tros c é isso que faz de sua ação uma ação social. habilidade cada indivíduo utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos antciiotcs a própria ação. e isto significa. se revela em seu caráter mais complexo. para sua sociologia.

E D U C A Ç Ã O C D l S f l M C A N T A I O EOG IO D A SOC M L N Í A E D U C AÇ Ã O 67 :3t .33 SoCItDAOE.

supõe-se Ir e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias para eles. A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não sofrer as conseqüências. Esta é a diferença entre a Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a " d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito — em que a validade do regulamento é garantida por um aparato coercitivo e punitivo. O agir em comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os outros dêem determinado peso a certos valores e crenças. ainda. ou então na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular. sabe que está sujeito às sanções correspondentes. pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou n a m o r a d o . mas pode se£ preso. tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores i n d i v i d u a i s . Está. O agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade objetiva"). O próprio criminoso. comportem dc um determinado modo. Mas diante da declaração anual do imposto de renda. porqtie foi feita uma lei para . será punido. praticar este ato seria bastante irracional. Além dc pouco afetivo. seria difícil viver. s outros igualmente agem segundo as regras. de que se comportem cie modo emotivo. melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com relação ao comportamento dos outros. Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com base na expectativa de que os outros também se.68 S OC I E D A D E . p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a todos c. Pois bem. E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o vai matar sua mãe. E. portanto. quando foge ou sc esconde. de acotdo com um cálculo que tem por base as regras. assim como no caso dos tipoS~de ação comentados acima. kracional. expectativa além do indivíduo nos orientar-se por este tipo que de tais baseada regulamentos. O a g i r e m s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . na média dos comportamentos geralmente usados para aquela m• I É ! WI orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique este ato. J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o . Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14 anos. Ê As regras. funcionam como uma espécie dc ■2-. é claro): v o c ê e s t á obrigado a p a g a r . agindo em sociedade. Sc você se vestir com uma roupa muito fora de moda. Se o comportamento dos outros fosse totalmente imprevisível para nós. regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que os homens ajam segundo suas determinações. Í p: "condensação dc expectativas recíprocas" c. ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 34 determinada pessoa é porque esperamos que ela responda "bom-dia" também. W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem social. você não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil. mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são condenados c presos pelo sistema legal vigente. não apenas porque imagino que você gosta dela. está se orientando conforme os regulamentos. M a s expectativas a validade da norma não se baseia apenas nas recíprocas. se você descumprir. V e j a b e m : n ã o estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . portanto. Quando agimos racionalmente. essa racionalidade não precisa ser apertas com relação aos fins do ator.' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança. Q u a n d o i s s o o c o r r e . esperamos que os outros também ajam assim. porque sabe que se for capturado. para que possamos calcular as possibilidades reais de levarmos nossos objetivos até o fim. No agir em sociedade. p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a da moda. Quanto mais disseminada socialmente situação. cm conseqüência disso. e não de outra maneira. Ou. Mas quando o indivíduo calcula que é m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o .

Quando isso o c o r r e . cada "sócio" confia que os demais se comportarão (aproximadamente) conforme as normas. São instituições sociais. Quanto as mais pessoas as pessoas este assimilam quadro subjetivamente normativo que a a obrigatoriedade das regras. Na barriga cia miséria. vender seti título de sócio ou simplesmente não freqüentar. você também participa disso. Ocorre. embora as coisas já estivessem prontas quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este pacote dc regras c]iie regulam a sua vida. C h i c o B u a r q u e . em busca de seus objetivos e levando cm consideração a existência das normas — sejam essas normas entendidas como a condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou como. A esta coletividade Weber dá o nome d e associação com fins. os "estatutos" e o "aparato de coação" da associação. às quais costumamos chamar Estaco. p o r e x e m p l e i . reforça a certeza de que a confiança mútua não será decepcionada. porém. c se você insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras horrorosas que infectam os dedos dos seus pés. pois pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro. as coisas são diferentes. c l e s s e t i p o d c r e g r a s . e também que elas estão aí para serem mudadas. meu amigo. na medida em que as regras e os órgãos permaneçam. não há escolhas: você pertence ao Estado brasileiro. . a suspensão pressuposição de cada um de que a não-observância das normas pode ser punida com coações físicas ou psíquicas. Sé) está submetido às regras na medida em qtie optou por ser sócio. não é uma formação social efêmera.35 S OC I E D A D E . Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. as formas de comunidade religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais da vida política entre os homens. e portanto. e esta expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria conduta. c continuam a ser criadas. no casei ela associação política mais abrangente de todas. além dc sentir-se ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas OLI A vida comum em associação permite que sejamos capazes de prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas. nasci brasileiro". que uma associação com fins. sem ter sequer o direito de alegar ignorância delas. O Brasil foi um aqueles rapazes charmosos que nadam ali. é preciso considerar que essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos passados. De um clube de associados com sauna e piscina você pode escolher sair a qualquer momento. Estou falando dc todas as regras. você está sujeito à ele sua carteirinha de sócio.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo comum por estes referenciais. e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a gozador. e está automaticamente sujeito a todas as suas regras. W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece. mais a previsibilidade aumenta. Se você for sócio de um clube "social". Veja. 'Com isso. ela torna o mundo que nos cerca. os "fins". desses com sauna c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento. definida pela existência de regras gerais e de órgãos próprios. ou seja. que c o Estado. por exemplo. inteligível para nós. O bonito disso. Porém:. e l o s d e c r e t o s . n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s . Nessa situação. A durabilidade dessa associação através das gerações de indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o seja voluntário. como já comentei. ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 71 Assim. quando plenamente desenvolvida. adora brincadeira. E é só quando aceitam institucionalização se completa. Sc a divina providência o fez nascer aqui. O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m os "órgãos". o ponto importante que a sociologia cie Weber nos permite pensar é que. quer queira c]ucr nãc~>. Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro.

a lei geralmente se fundamenta num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. que a lei antiracismo prevê). n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u psíquica). de cem anos pata cá. Este é um exemplo de extraordinária transformação. diz Weber. Negros por aqui eram valorizados apenas enquanto investimento privado de compra e venda. não apenas na lei. e o Estado em particular. Ou seja. E embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social que os segrega na marginalidade econômica. Tal poder se baseia numa influência específica — que Weber chama de dominação — de homens concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. Agir segundo esses fins da associação. passaram por um processo de institucionalização. as regras foram se tornando cada vez mais racionais. Hoje. se você chamar sua empregada de "negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. entre outras c o i s a s . por sua vez.72 Sociedade. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o 36 país escravocrata até outro dia. tal* dominação. segundo i . Nesse processo. Tal influência. que são garantid os o é um pela da agir aplicarã coação. num curtíssimo lapso de tempo. Aliás. se baseia. as associações políticas humanas. ou enquanto insumo agrícola. mas no modo como a sociedade vê as relações entre as raças. f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que vão de multas em dinheiro a meses de reclusão. Historicamente. i s t o é . esta associação mais abrangente que é o Estado detém um poder de imposição. é preciso reconhecer que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar crescentemente sua conduta.

educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o possam 37 "consenso". garanto que vai compensar o investimento. racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. t a m b é m subjetivamente. Tenho que er. em suma. para que possam com isso ganhar condições dc previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão também sujeitos à mesma relação de dominação e. O fundamental aqui.72 Sociedade. c ci m bc ni po rej u c estão convencidas da necessidade de obedecer. quando as pessoas obedecem às regras não apenas porque temem a punição. não precisa desistir.. É este o sentido histórico do processo que Weber chama de racionalização.. difícil. a. O Esse uma crescente transformação cias associações em instituições parágrafos. porque "introjetaram" a norma. Daqui a alguns e. Mas cá entre nós. pensa . c dc que esta racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão sujeitos. reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação. Desencantar o mundo O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer dizer. c camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na Max sociedade. mesmo que você tenha que lei mais uma viver em vez. nao é o fato dos homens serem coa°idos. As possibilidades de que esse consenso seja de fato p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o façam porque consideram obrigatória. Tenho certeza de que o sentido geral você é sociedad capaz de captar. a relação de dominação. Ufa! . Weber diz que a dominação baseia-se no c o n s e n s o d a legitimidade. mas sim o tato cie agirem racionalmente. Segure as pontas só mais um pouco. Weber. cm decorrência. Quer dizer.

é um processo de crescente racionalização da vida. Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui. p o r m e i o d a força. Paia legitimar-se. A lógica da racionalidade. as fonvias de dominação no Ocidente caminham. Assim como em Durkheim. em Weber a complexificação gera conflito. impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência. i s t o é . é o modo pelo qtial os homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao preparados para exercer as funções que a transformação causada pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. e a dominação racional-legal. que se caracteriza pela existência de uma burocracia. a dominação carismática. a d a s formas de dominação legítuna. Pode-se compreender aqui o sentido d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r . Na formação do Estado moderno e do . ao que me parece. tendencialmente.38 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a t r a d i ç ã o . c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o c a r i s m a d o l í d e r . argumenta Weber. da obediência à lei c do treinamento das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi aos poucos se disseminando. para o tipo racional-lcgal. uma vez que maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e maior também a necessidade de regulamentá-los. Diferentemente da concepção organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx. A regulamentação mais desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um aparato especializado dc domínio. que obedecem porque foram educados (ou seja. devidamente g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. M a s v o c ê v a i e n t e n d e r . educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- A história humana. a dominação se b a s e i a o u n a tradição. compartilharam de uma tradição) ou porc| ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama dc carisma). Para resumir em poucas palavras: uns mandam. a obediência não é devida à figura do líder. a s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores compartilhados — como constitutivas da sociedade. e as regras s ã o f e i t a s . para garantir a aceitação dos comandados. não é voluntário. O ingresso dos indivíduos nesta grande associação. que é o Estado Moderno. na qual estão obrigados a submeter-se ao poder já instituído. ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito racional. Mas no último caso. Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e . segundo ele. que é o das sociedades modernas c complexas. A educação para Weber. porque para fazer cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez mais complexa). d i z e l e . para que você entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a sociologia da educação weberiana. c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que está por trás da lei. a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e pelo domínio dos líderes sobre os dominados. Eu sei que e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . Bem. mas à posição -que ele ocupa no aparato dc dominação. o que por sua vez gera a necessidade da regra. E este o sentido histórico do processo que Weber chama ele racionalização em das sociedades: organizadas uma crescente transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc obediência instituições racionalmente. q u a n t o m a i o r s u a racionalização. maior o número de regulamentos sociais a serem o b e d e c i d o s . Se a associação estatal passa por um processo de racionalização (e também de burocratização. Quanto mais c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s . O e x e r c í c i o d a autoridade racional depende dc um quadro administrativo hierarquizado e profissional. isto c. P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o l e g í t i m a : a dominação tradicional. outros obedecem e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. de abandono das concepções mágicas e tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens e para a administração social. m a i s conflitiva tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos. d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos. N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a .

portanto. tais funcionários não governavam. Um dos elementos essenciais na constituição do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática em moldes racionais. Ele se funda na burocracia profissional e no direito racional.educação sistemática. Mais que profissionais da empresa ou da administração pública. mas sem preparação específica para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. do cálculo dc custos e benefícios. o capitalismo e o capitalista forjaram um novo homem: um homem racional. Weber dá especial atenção a dois aspectos: de um lado. Educar no sentido da racionalização também passou a ser fundamental para a empresa capitalista. não fato. a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m moldes burocráticos. analisa ele. Na realidade. pois ela se pauta pela lógica do lucro. onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo não especializado e regido por orientações mais ou menos discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo especificamente treinado e politicamente orientado com base em regulamentos racionais. a constituição de um direito racional. c precisa Estado de profissionais treinados para isso. O direito racional oferece as garantias contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos. E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a educação. as empresas e a própria política. nesse tipo de administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude do Imperador e dos funcionários. de um modo "racional". ou seja. em vez dc cultivar o intelecto Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização alteraram radicalmente os modos de educar. Uma vez que não davam importância às realizações políticas. O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora. para o qual não existe mais lugar reservado à obediência . que são inseparáveis um do outro. uma pequena camada de funcionários. Treinar. A China antiga aparece descrita como um modelo de administração em que havia. Na exposição de Weber. Na prática. u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a v i d a . apenas intervinham em caso de agitação ou incidentes desagradáveis. de "pilotar" o Estado. A coisa é muito distinta no Estado racional. porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia montada cm moldes racionais. A educação sistemática. passou a ser um pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas funções. contato com a população. e d e o u t r o . Eles eram literatos de formação humanística indicados para o posto. o único cm que pode prosperar o capitalismo moderno. dos grêmios e das corporações. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro. sua desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. ps mandarins. em ficando a gestão efetiva em mãos de província natal. Educar no sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado. o Oriente aparece como protótipo da administração irracional. o Estado burocrático. tendencialmentc livre de concepções mágicas. Tal processo só ocorreu de modo completo no Ocidente. Não mantinham. de que sua superioridade cm matéria literária. educa administravam de nunca atuando Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- capitalismo moderno. e muitas vezes auxiliares.39 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. acima da camada das famílias. basta para governar. enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação política própria do capitalismo. E alteraram também o st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s indivíduos que se submetem à.

como em que sua parte no de se A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo. não é mais. Para este homem. historicamente. ao mesmo tempo. Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval. e que implica em prepará-lo para certos tipos de c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a .) a posse ele carisma. onde os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados. e p o r t a n t o " r e n a s c e r " . comuns.1 tampouco ser. o candidato. socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: despertar o c a r i s m a .. i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s etc. C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a crescente burocratização cio aparato público cie dominação ífc . Na China. no mesmo texto citado acima: Os chineses não comprovavam habilitações especiais. conforme o caso.. de poder c dc dinheiro. Marx.. E o caso da China Antiga. N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses. O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível alcançá-lo". E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber. o n d e o i d e a l d c c u l t u r a depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo preparado. médicos. T a l p rocesso educacional "qualificação cultural". . u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) . i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o conhecimento ela literatura. como eu já frisei. "um dom ela graça exclusivamente pessoal. assim qtie aprovado. Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no noviço sua capacidade considerada inata. Educar num mundo assim. mas apenas àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos. 'pois não se pode ensinar nem preparar p a r a o c a r i s m a . por suas habilidades humanísticas.. de prebendas. ^ estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos d e p e n s a r a d c e ]ii . Ela harmônico organismo como propôs destinava-se. Não é mais o mundo do sobrenatural e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. o mundo perdeu o encantamento. a preparação para que o membro Nem passa do é a todo orgânico do vista medida aprenda social. É o mundo do império da lei e da razão. No modelo ideal weberiano a educação é. comportamento Durkheim. como propôs racionaliza. provocada pelo advento do capitalismo moderno. Escreve Weber.) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato . c a v a l e i r o s . um grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras. como os nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas.. um meio de distinção. Finalmente. p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c t r a n s m i t i r conhecimento especializado. E l a p r o c u r a f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto.78 Sociedade. educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 40 que não seja a obediência ao direito racional. um fator de estratificação social. Nem comprovavam (. técnicos. que eram educados para adquirir uma "nova alma".. através de exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa. ao terceiro tipo ele educação Weber chama pedagogia do treinamento. mesmo antes cie ser empregado. (. à composição cie determinado grupo d e status ( s a c e r d o t e s . na possibilidade a sociedade emancipação com base na ruptura com a alienação. l e t r a d o s . uma vez que não se aplica a pessoas normais. p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u s e j a . no sentido assumia de uma o aspecto edticação de uma e geral. passava a lazer parte ele um estamento privilegiado. então. de obtenção de honras. no sentido animista. cujas principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos. O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia.) c à composição elo aparato administrativo típico das formas tradicionais dc dominação política. para Weber. A educação. a imunidade em relação a punições corporais às quais o homem comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária.. certamente não é o mesmo que educar antes dessa grande transformação.

educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 41 ■ .78 Sociedade.

) Por trás de todas as discussões attinis sobre as bases do sistema educacional. a razão para isso é. as pretensões dc s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " . de todos os lados. em especializado e o recuo de da educação educação para enquanto enquanto o formação indivíduo do a favor uma treinamento necessária à aquisição do título exige despesas consideráveis e um período de espera de remuneração p l e n a . à mera b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status... Burocracia). não uma "sede dc educação" surgida subitamente. Esses certificados apoiam as pretensões de seus portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a preferencia em relação à filha do chefe). E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O í: ' garantido G^ . não há nada que se possa fazer a respeito. inclusive a educação. num texto do início do século XX chamado Burocracia.s e c a d a v e z m a i s u m preparo especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o . Essa luta está presente cm t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER. para Weber. a exigência de uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais. mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais. para Weber. também é. pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente vantajosos. Pessimista que era. enquanto b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a . além de minimizar uma formação humanística de caráter mais integral. da burocratização e da racionalização da vida. Como a educação Í IÍ LD política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas privadas. a educação deixa paulatinamente de ter como meta a "qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que. Para ele. a lógica cio treinamento. o fim da possibilidade dc desenvolver o talento do ser humano.S. pretensões de progresso pensões na velhice c. dc seu ponto de vista o capitalismo reduzia tudo. A racionalização c inexorável. (. Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação uma certa melancolia.é o sentido próprio do termo "educação". e a educação especializada. e na educação a possibilidade de romper com ela. O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de comercio c engenharia. p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de custos intelectuais não aumentam. este. Com o perdão da longa citação. continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . c . invencível. Quando ouvimos. acima de tticlo. A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação. cm nome da preparação para a obtenção de poder c dinheiro. decerto. a educação por assim dizer "racionalizada". mas educação são sempre baixos. Ainda mais que.42 S O C I ED AD E . acho importante reproduzir aqui o-que Weber diz. Essa luta é determinada pela expansão irresistível da burocratização de todas as relações públicas e privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos e do conhecimento especializado. parcializado habilitar desempenhar certas tarefas. pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da . o mesmo tipo de clepressão intelectual que ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-.seb os desígnios da especialização. s o b r e homem. Weber via na pedagogia do treinamento. que é a pedagogia do treinamento. se oculta em algum aspecto mais decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de "homem culto". d e 81 remuneração pelo trabalho realizado. c com o crescente volume desses certificados os dccrcscem. imposta pela racionalização da vida. e o clamor universal pela criação dos certificados formação dc educacionais uma camada em todos os campos nos levam à e privilegiada escritórios repartições.SCI significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor ila riqueza. entre as formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia. Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio da alienação do trabalho.

A segunda é a do líder comunista e intelectual italiano Antônio Gramsci. três contribuições importantes do século XX à análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm particular. também.84 E D UC A Ç Ã O S OC I O L O G I A OA j Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o XX CAPÍTULO V CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções analíticas diferentes a propósito do processo educacional. que retoma o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre as práticas educacionais. que aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as diferentes pedagogias que Weber identifica. a partir do marxismo. conforme as finalidades a que os autores se propunham. A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu. ou. Neste breve capítulo. o quanto a educação está relacionada a essa luta. gostaria dc mencionar. resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria ser. Bourdieu c os esquemas reprodutores . que. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira. nos ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades contemporâneas e. ainda que deforma muito resumida. ainda.

O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos fundamentais para a construção de uma sociologia da .

ocultas. apenas social permitem reproduzem vigente. mesmo é que determinações tenham digamos estimulam "condições objetivas" investigador desvendar. submetido aos desígnios cia sociedade. o sociais. estruturas reproduzem. que leva às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os indivíduos sociedade. fase uma produção. * Para ciências uma O em levar a cabo em se das entre a o ambição da modelo à dos de Durkheim e . consciência Os aqueles são que deve sujeitos os disso. estruturalismo ação. O que pelo processo determinadas chamamos qual as ações. em razão dc sua juventude e de sua disposição para a ação.. forças mesmo sociais.84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j ausentes educação muito influente ao longo do século XX. E o fazem colocando cm evidência o que a instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade. os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão espécie francês. . nelas liberados por. c h a m a d o Os herdeiros. em de na que fato verdade são não o está 85 objetivamente existe. na medida aqui j estruturas determinam. que pretendia combater uma idéia muito comum na branca da época. da que na São ação pensam verdade a essas pois estão dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos". ■ demonstrar indivíduos. dc caráter igualitário. por seu aspecto crítico às bases do sistema de ensino. no célebre mês de maio de 1968 em Paris. A ironia é qtie o livro serviu como combustível. explicações. segundo a qual os estudantes e o meio estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. E seriam responsáveis. Em 1964. em seu livro. faz o que suas estruturas T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • humanas teórica torno sociologia. para essas mesmas revoltas estudantis. Nas estruturas. em colaboração com Jean-Claude Passeron. o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o Segundo ele. unificar as J daquele as de nível suas para se da sociedade O sujeito é O Bourdieu. sujeito simplesmente T. Bourdieu publicou um livro. culminando um processo de mobilização que teria um alcance bem maior do que a capital francesa. e também por o de volta Bourdieu da estão submetidos ao controle das estruturas da na . pretende sociais trata-se de uma versão mais radical do modelo de Durkheim. ou seja. como orientações marionetes teoria os estruturas e sua o em pela sociólogo as durkheimiana dominantes. que o fazem pensar que sua ação é resultante dc vontade própria. pela liderança da transformação social. determinadas estrutura N e s t e l i v r o . os estudantes dc fato sairiam às ruas. a explicação dos processos educacionais realmente importantes reside cm outra parte. de a publicada das década de 19~60. síntese que por durkhcimiano estruturalismo trás conecta desvendar ações sociologia justamente sujeitos. Para primeira — Para como o o estruturalismo de sua em geral. Um dos mais importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês Pierre Bourdieu. não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos dominantes.. ação. introduziu estruturalismo. os das que residem não que as agentes assim. Encobertos sob as aparências de critérios puramente estar movidos agir. tornaria possível a realização das potencialidades humanas. Mas para Bourdieu. dc o Na Bourdieu Durkheim peso verdade. Apenas quatro anos depois. justamente a reprodução das relações sociais e de poder vigentes.' . é claro. de o das .

escolares. Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos educadores. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino . estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos indivíduos para ocupar determinados postos na vida. Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema i de ensino.

além dc sistematicamente D u r k h e i h í . ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. A própria revolta estudantil. um trabalho de inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura irar o bastant e para que o educan do "natura lize" seu conteúd o. E l a é necessária para que a inculcação possa ocorrer. a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e . reprodu as relações vigentes. e s s e a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s grupos c classes dominantes. incorporando mais as contribuições dc Marx c Weber. sob a fachada dissimulada de uma alegada pedagogia. que é imposta a toda a sociedade através do sistema de ensino. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o . porém. é uma violência simbólica porque impõe. e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e toda ação pedagógica é. encare o como natural. os autores refinaram suas idéias. Na medida cm que o educan do interior iza os princíp ios culturai s que lhe são impost os pelo sistema dc filtra os alunos sem que eles se dêem conta e. como evident emente correio em si mesmo. Esta imposição. Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos dominantes. por um poder arbitrário. A ação pedagógica. e na medida em que pressupõe uma autoridade pedagógica. para eles. uma autoridade pedagógica.86 SoCIOLOClA E D U CAÇÃC DA T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . Pois. um d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. que oculta as relações de força que estão na base de seu poder. para que a ação pedagógica se efetive. com isso. A revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um reforço da interiorização da própria norma. isto é. Daí ser preciso. Em 1970. O conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição arbitrária que. Não há possibilidade de mudança. objetivamente. p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . portanto. pois limita-se à inculcação de valores e normas. não aparece jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza enquanto pedagogia. é apresentada àquele que sofre a violência de modo dissimulado. S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87 UZ Passeron chamam de "trabalho pedagógico". não faz mais que reforçar o sistema. uma violência simbólica. o bastant e para produzi r uma "forma ção durável ". no entanto.

quanto. Isso explica que a as desigualdade que está na base do processo de seleção escolar. demonstram "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte. isto é. mesmo depois dc termin ada sua fase dc formaç ão escolar . Uma vez que o arbitrá rio cultura l a ser impost o é incorp orado ao habitus do profess or. o t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u . Tal situação se reproduz. a "condição de classe dc chegada" deste aluno. ele os tenha incorp orado aos seus própri os valores e seja capaz L U: reprod u z i -los na vida e transm iti-los aos outros Bourdi eu diz que ele adquir e um habitus. valendo-se empíricos. no finai das contas. ' v" / •> Assim. do ensino básico ao médio e ao superior c determina também.ensino — de tal modo que. todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social que estão por trás de de sua dados ação pedagógica. Os autores. o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem acesso (se de melhor OLI pior qualidade). ainda. o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o . o trabalh o pedagó gico tende a reprodu zir as mesmas condiçõ es sociais (dc domina ção de determi nados grupos sobre outros) que deram origem àqueles valores domina ntes.

e. em especial. a posição na hierarquia econômica e social a que chegou. mas talvez seja o momento de retomar a questão que coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação social é intransponível? Será que estamos condenados . Bem.

até hoje. Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na sociedade. eliminar a apropriação privada dos meios de produção da riqueza. A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade. à é p o c a d e M u s s o l i n i . C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere. nos clubes. Dela. é múltipla.s e a todos os espaços de poder disponíveis. É preciso uma revolução no cotidiano. dominação. pouco organizada. tem que. que desalojasse os poderosos e desse o p o d e r a o s o p e r á r i o s . organizada c tem condições dc dividir com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração da vida social. A luta política não pode limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin. complexa. E p r e c i s o conquistar a consciência das pessoas. COMO publicpu um livro em vida. Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de atualizar o pensamento de inspiração marxista. as estruturas políticas. para obter poder. F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a dc puro poder econômico. c isso é o mais importante. coerção. sob a guarda do Estado fascista italiano. ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem estrutura. Deixou também. tentar uma revolução armada. No c a s o d o s c o m u n i s t a s . ele é capaz de concluir qtie. sua militância política desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos de partidos políticos e na imprensa. na cultura. dentro da luta política. a sociedades agrárias. com um mercado interno forte e com uma vida política p l u r a l . não basta apenas eliminar a exploração econômica de uma classe sobre outra. e s s e s escritos foram publicados após sua morte e representam. No entanto. P o r O c i d e n t e . O único modo de lutar pelo poder e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . "ganhar a batalha das idéias". e M a n n h e i m . Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental. N ã o b a s t a f o r ç a . concentram todo o poder e onde a sociedade civil é fraca. d c 1917. vital. E l e e s t á d i l u í d o e n t r e o Estado e a sociedade civil. nas concepções de mundo que as pessoas veiculam. Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e Ocidente. de 'capitalismo conceitos avançado primeira Seus nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . nos partidos. de modo a adequá-lo às características da das sociedades metade do cutopéias século XX. no mercado. Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado. N e s s a s c o n d i ç õ e s . as classes ou grupos p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o . E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m revolucionar a sociedade.88 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O TRÊS V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S É C U L O XX 89 a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i . Essas são as sociedades de capitalismo mais Gramsci e a reforma intelectual e moral O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a avançado. d o p o n t o d e v i s t a do m a r x i s m o . está cm muitos lugares ao mesmo tempo. mas a sociedade é o e s p a ç o d o consenso. Está no governo. p o r t a n t o . a o contrário. Não está num lugar só. sociológica e política ímpar. d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a liberal. e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o no E s t a d o . sem capacidade de contrapor-se a tal poder concentrado no Estado. atrasadas e com capitalismo pouco desenvolvido. uma fonte dc reflexão filosófica. é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. moderna. E uma lição sobre a política c a sociedade e m g e r a l . d e v e r e f e r i r . O Estado é força. vários cadernos de notas manuscritas durante o período em que esteve preso. E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre leste e oeste. o revolucionário russo. mas também está nas empresas. no dizer de Gramsci. achavam que não. ■ .

há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que desejam uma nova hegemonia. isto é. então. É p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a . que é um dos . Ao próprio partido político moderno. Ora. inclusive e principalmente os dominados. as concepções de mundo. Á burguesia. obter um consenso social em torno de suas que concepções. cujo objetivo 6 desenvolver a concepção d e u m a contra-liegemonia. e cada uma delas conta com seus próprios intelectuais. diz ele. A este processo lento e complexo de luta pelo poder político nas sociedades complexas. Esses grupos representam. Para ele. na hita pelo poder. ele chama de intelectual coletivo" aquele que atua no sentido dc reformar as mentalidades. a conquista é mais duradoura. Do mesmo modo. do saber e da cultura. Pois os i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. captar esses conceitos agora. j á havia ensinado. Gramsci constrói uma tipologia dos intelectuais. É preciso também lutar c o n t r a a apropriação privada. repito. ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da classe dominante. S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que interessa a essa classe. E isso é fundamental porque apenas aquele que é tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado. c p r e c i s o s e r hegemônico. se para conquistar a hegemonia política e ideológica é necessário ganhar a batalha das idéias". E preciso. ou seja. vêem a divisão de poder e de riqueza de sua sociedade. O s e g u n d o t i p o d e XVI. utiliza esses conceitos de Gramsci para analisar a educação atual. e portanto. é claro. Na verdade. cada um de um lado do campo de batalha. na luta pela hegemonia. possuem seus intelectuais. passa por uma reforma intelectual e moral". C o m i s s o . e portanto concentra mais poder. que você vai ler mais â frente. ou elitista. no sentido da conquista da hegemonia. E por esta razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda injustiça. tanto as classes dominantes quanto as dominadas se organizam em blocos.atores principais dessa luta. evidentemente os intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. note bem. os dominados. surge para dar consciência a ela. Nos momentos de disputa mais acirrada. Gramsci chama de disputa pela hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r um golpe dc Estado. ganhar a batalha do convencimento. O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Mas. na luta pela hegemonia. Esta é a fonte da persuasão. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s quais os homens concebem o mundo em que vivem. da hegemonia da classe burguesa. Em suma. da vida política c social em geral. para depois vê-los operando na análise. segundo Gramsci. possuem seus intelectuais orgânicos. confirma Gramsci. . Os dois grupos traçam alianças internas. as diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder na sociedade. O primeiro é o intelectual orgânico. a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' pessoas simples". A cada um desses agrupamentos de classes e frações de classe em torno dc interesses históricos determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". cm sua célebre obra chamada O príncipe. as classes dominantes em geral. q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . do convencimento. ensinou Maquiavelli. Repare que no capítulo 7. diz ele. tende a ocorrer uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is que querem mudar. enfim. há dois tipos principais. a classe trabalhadora. E melhor ser amado que temido. o sociólogo Michael Apple. cujas idéias competem entre si na t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s interesses.90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91 como demonstrara Marx no século anterior. quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem a cie do que pelo medo que tem de sua força. Vale a pena. e também definem se os homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. autor do capítulo.

portanto. podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente.numa direção conservadora. bem como a separação entre a escola "normal" (formação para o magistério). dc modo independente . na década de 1970. A função dos dois tipos de intelectual. U 111 £1 classe de intelectuais que. dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas.92 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TRÊS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O XX 93 I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional. na época do feudalismo. para vir a ser um dia um intelectual orgânico ou um intelectual tradicional. Em . destinada a dar a cada um. é claro. nas palavras de Gramsei. p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura. Mas isso não é tudo. A formação geral que faculta ao indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada ao longo dos séculos. Quer dizer. em épocas passadas. destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn geral. a escola "de comércio" e a escola "industrial" (formação técnica profissionalizante). O fundamental em perceber essa distinção. o intclectuaj é formado na escola. E isso ainda no ensino que hoje corresponderia ao Ensino Médio. Gramsei observa sociedade ciência misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção de casas. Dc um lado um tipo e escola humanista . organicidade à dominação da nobreza aristocrática. ligado. O exemplo clássico deste tipo é o clero. pois os padtes deram coerência e . é notar que ela tem um conteúdo de classe. ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere. cujas bases se estruturaram a partir da fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar. para Gramsei. OU SCjcl. Bem. foram intelectuais orgânicos das classes que eram então dominantes. que ensinam nessas escolas". ou baseadas na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. o indivíduo precisa passar por uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura. tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado. a cura das pessoas. Sim. O próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes politicamente. das concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados. a administração pública. c desempenhar funções de organização da cultura. Mas de onde vêm os intelectuais? Ganhou um pirulito quem disse "da escola". verá que era exatamente a mesma lógica que presidia a divisão entre o "clássico" e o "científico". na luta pela hegemonia. surgiram as diversas escolas especializadas. é a de ser um instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva. Dc outro lado. mas essa é uma outra história. formar-se como um indivíduo completo. "o poder fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". é reservada aos filhos das classes dominantes e. Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época. voltadas para a formação específica dos diferentes ramos profissionais. Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do sistema escolar de seu tempo. sem contar naturalmente com o surgimento do Ensino Superior no Brasil. conseqüentemente. q u e "toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas c. portanto. Mas atualmente. Gramsei nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber na Alemanha. que da uma formação clássica . e até mesmo as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. à formação de seus próprios intelectuais orgânicos. c que o havia que levado na a uma distinção moderna a entre a pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas acima. Isso gera um sistema educacional híbrido. Sc você perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira no tempo deles. depois do tipo desaparecimento da classe a que estava agindo esse tradicional'de intelectual continua vista disso.

ele defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática. bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas. que possa ser eventualmente expandida em seguida. é o de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas sobre ela. retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de um programa para a mudança da educação. unia democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional e. a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional. propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo educadores educandos objetivo compreenderem situação educacional moderna. Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais. pouco organizado. além do elitismo e da exclusão das classes trabalhadoras de uma formação de qualidade. em sua opinião. No mesmo texto citado acima. o aluno passaria a uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública. e intermediado por uma orientação profissional. veja você.dominantes mudou. E m p r i m e i r o l u g a r . recuperando a percepção de Marx discutida acima e ampliando-a. Para ele. mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação. Este detalhe pode até parecer exótico. Nesse sentido. ele tinha sua própria proposta de política educacional. em . nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s . preocupado com a sociologia da educação. na formação dos alunos. A partir dessa escola única. o interesse dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite. mas não manual). que acabou por suplantar a clássica. também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças. a "batalha das idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes. Se todos não tiverem acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica. s próprios mlclccliutis. (não imediatamente interessada) um conservar tão-somente exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro profissional. e fugindo no pessimismo a weberiano. na medida cm que o desenvolvimento industrial c a urbanização o exigiram. Mannheim e a luz no fim do túnel Fechemos Q L IC desinteressada" "formativa". se é verdade que a racionalização da vida levou a um declínio da educação voltada para a formação do homem integral. a p e n a s expressá-la. O p a p e l da teoria. tinha uma visão bastante precisa de como a nova escola deveria ser. p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e desequilibrada nas sociedades complexas. a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. na medida em que era mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes dominantes. No plano das suas próprias convicções pessoais. q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s do Ensino Fundamental e do Médio. Para ele. que teria um caráter formativo e objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das capacidades do trabalho intelectual. Mannheim achava que o pensamento s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a . Gramsci vê nisso. Gramsci afirma que a tíndência hoje ■ ou é a de abolir delas qualquer tipo de "escola e reduzido que os interesses econômicos imediatos não interferissem. governada por cientistas. sendo a escola privada. Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as c l a s s e s . u m a escola unitária. O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico de certo modo de ao Karl Mannheim para (1893-1947). sem que fossem traçadas políticas orientadoras. para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para então o capítulo com um comentário sobre um pensador do século XX. um indício de] que a expansão do ensino — necessária para dar conta das novas tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se dando dc um modo caótico.

Mannheim vê como luz no fim do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes tipos históricos de educação. nem os pois objetivos eles são do processo A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de racionalização detectado por Weber. Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do cultivo está condenada à morte. provocada pela consolidação da sociedade industrial. lembra ele. E concorda também que a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive. pela criança. Para qual sociedade?. do modelo da ordem v i g e n t e . Valendo-se da influência da psicanálise. c h a m a d o " O f u t u r o " . construídos por Weber. mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos num processo "consciente". Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez mais importante. socialmente orientados. Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c aos trabalhadores. traz ao processo educacional as contribuições culturais das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. Ele reconhece que os modos de vida incutidos por esta educação. justamente porque a vida baseada na tradição estava se esgotando. p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação. Quando e como ensina? Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir apenas pela teoria. na modernidade. ou seja.. ele observa que. Regenerar de quê? E o que seria essa "educação sadia"? . consideração para do este autor. cm que o educando se aperceba do meio social em que vive e das mudanças pelas quais passa. Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o aprimorarnento d a e d u c a ç ã o . para a montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma formação mais integral.'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a racionalização da vida. voltada para a cultura e a erudição. e l e afirma: "Queremos compreender nosso tempo. estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la". o advento da democracia moderna. E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o .sua visão. apenas como tentativa de ^explicação. na visão de Mannheim. As perguntas que a sociologia obriga a fazer.e qttc tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do capitalismo c a ascensão da classe burguesa. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (précapitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à ordem social tradicionalmente estabelecida. as dificuldades desta Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da sociedade e do homem". N u m d e s e u s e n s a i o s . Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores de vida. O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades dadas na sociedade atual. são portanto: Quem ensina quem?. M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o . Ele aponta os movimentos da juventude como educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a contexto social. Portanto. é político. tal processo era apenas dc assimilação "inconsciente". para o estudo dos fenômenos educacionais. a respeito do que seria essa sociedade "sadia".

abertos. na na capaz de deixar aponta o até homem mesmo um livre o das cie para repressões homem" entusiasmo adquiridas e formação. da barbárie. Finalmente. nova se forma de entre as contribuições coordenação. aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de vida. a educação terá de ser concebida como uma nova forma de controle social. na invenção dc métodos sociedade adequados de seleção s o c i a l . em busca de um programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a . havia equilíbrio.destinada também do a encontrar iluminismo. convertida c no em impedir massas que a não diferenciadas. cm parte consciente. A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial. se deteriore. cia clesumanidacle. Ele viveu o terrível momento da crise econômica dc 1929. às elites. Lima citado acima mas . a ascensão do mundo baseado na razão c na lei racional era um processo incontrolávcl. provocou o retorno da ideologia do livre-mercado. Estamos vivendo numa era de planejamento . mas para Mannheim a experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade. associada a um período cie declínio cia liberdade e das esperanças. dos membros talentosos das classes inferiores. Para Weber.) A concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições culturais.século X X que Weber não chegou a presenciar. Mannheim. Por isso é tão importante. Para ele. c m s u a v i s ã o . A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s sociais'. a superação das formas atrasadas e tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo. porém. A crise capitalista dos anos 1970. que superasse as divisões cm blocos políticos c ideológicos. quando o capitalismo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso. ^énftáifí J &fcóriíribüir 1 eólia O processo educacional. depois cie 1945 e até os anos 1970.98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 formulação de projetos educacionais que . desintegram. Em suma. com saúde mental. estamos vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a clesumanização e a desintegração da personalidade. interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os outros. c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s contribuições. à vala "novo forjado L!C Réissia comunista como protótipo Enfimr* dedicação comunitária. para ele. a modernidade não tem apenas custos. cm parte inconsciente.escreveu ele no texto responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero". que não o satisfaziam. Ele explica tal processo do seguinte modo. no mesmo texto já citado acima: Em períodos de elevada cultura. Seu interesse principal reside no acesso. que não é nem a inculca do fascismo nem a c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire. So a democracia poderia fazer surgir a luz no fim do túnel. no qual vivemos hoje. e vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). Mannheim estava certo. E a s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a . Esse equilíbrio baseava-se às vezes na idéia de hierarquia de estamentos ou castas separadas. estamos vivendo numa era em que as forças não só da tradição.. ou ameaças à liberdade. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais ■! solidários. com a derrota do nazi-íascismo. se tratada a partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pósguerra. que a sociologia sirva dc base à pedagogia. ampliassem o horizonte do homem. Arrisquemos agora conhecer prestadas pelos diferentes grupos à educação. (. estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio das elites limitadas para a democracia de massas.. Episóilios d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o . cada uma das quais apresentava sua contribuição cultural própria em níveis diferentes. Mannheim era um homem de seu tempo.

a 98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 .um pouco mais sobre educaçã o no dias que correm.

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