Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues Coleção

Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja Hcrnvan

[o que você precisa saber sobre...] C O ORDENAÇÃO
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

[o que você sobre...]

precisa

saber

Revisão dc provas Paulo Tcílcs Ferreira Andréa Carvalho Projeto gráfico e diagramação Maria Gabncla Delgado

Sociologia Educação

da

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ I\Ó lis Rodrigues, Alberto Tosi Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro: DP&A, 200-1, 5. cd. - — (O que você precisa saber sobre) 1 4 x 2 1 cm 160 p.

5a edição

Inclui bibliografia ISBN: S5-7490-2S9-6 1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.
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PASTA N°TEXTÇfJSL.

CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? N UM o i : s h u s
1- ~. *\
SAMBAS ,

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UNI

10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m

malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou", já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade? Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva. Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.

Buscava m isso delimita r de um campo com

20.

S O C I ED AD E ,

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investigação

que

estivesse

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Sociologia da Educa

ÇÃO

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Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal. Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos. Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social. Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação

alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t com os outros. E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos. Durkheim e o pensamento sociológico Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida? Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia da educação. sociologia c da

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S OC I O L O G I A

DA

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S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L

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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a moral, o direito, a economia ou a eclucarn s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu, t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção necessária para entendê-los A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „ 1 sob .. j. , muuos uc agu que exercem u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar são portanto contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pre-noções dos preconceitos i ~ científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í imediatamente.
;

se fossem coisas lais como

II.S

coisas materiais. Coisa para ele é todo

objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental. Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, pelas é reconhecido que lei a como-tal porque é (no de conhecimento pelas leis a e coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido regras A sociedade contradiz estabelece punição as caso, o mais jurídicas). consciência estabelece porque convicções crime fere vivas

coletiva,

profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade. O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação

"

&

Ui

as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como

embora não possa pensar. desejar c principalmente agir senão através dos indivíduos. na visão de Durkheim). são compartilhados e geram. cm cada um só existe um fragmento dela. A consciência coletiva existe através das consciências particulares. não entenderemos a água jamais. os valores e as regras q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -. na cabeça de cada um. Disso que acabei de dizer. mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando fundamentais. que viviam dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas. assim como o Cristo bíblico. dentro de sua cabeça. Portanto. água. algo novo. mas se combinados em certa proporção . As representações sobre os fatos sociais são iepieséntaçõcs coletivas. O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o são dois gases diferentes. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais. completa. A diferenciação da sociedade Ora.determinada transformam-se c sob em certas algo condições físicas diferente: específicas. A sociedade vive na cabeça de cada um e. se tomarmos os indivíduos. a consciência coletiva. m a s s o m e n t e p e l a cooperação entre os indivíduos. calma. uma parte da sociedade fa7 parte dele. Segundo.s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o naufrágio? Pois é. . você já esteja um pouco ansioso. Tais crenças c valores não revelam uma suposta personalidade privada. de hábitos. afinal. sentir. A sociedade na cabeça de cada u m L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. O todo. o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em outra coisa. pois que suas partes constitutivas são gases. onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles Mais do que isso até. Revelam sim o quanto há dos outros em nós. não apenas o indivíduo faz parte da sociedade. Talvez a esta altura. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o . m a s d e s u a cooperação. são percebidas em coletivo. sente. em decorrência. n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e . se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim aprendemos. cada um entra com sua quota-parte. Cada uma não é nada sem a outra. N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o comum dessa colaboração. foi "raças à sociedade e seus saberes. assim. ao mesmo tempo um ser social. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a . que ajudaram i criar is i crenças. v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " .6 mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos. a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto. Do mesmo modo. Por causa das combinações e das mutações que sofrem a o s e c o m b i n a r e m . mas um conjunto de crenças. não entenderemos a sociedade jamais. e inclusive das que não vivem mais que já moireram. talvez há muitos anos. diz Durkheim. Ela pensa. F como se se combinam entre si. pois se é verdade que ela existe em cada um. ele levará um pouco da sociedade consigo. porque ela não cabe toda. Ao mesmo tempo. caro leitor. Vamos chegar lá agora. mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda. deseja. A sociedade tem vontade própria. Primeiro. elas não derivam dos indivíduos considerados i s o l a d a m e n t e . Se completamente tomarmos as partes que compõem a água. para Durkheim. a pensar a educação? Calma. são exteriores às consciências individuais. Para ele as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos. retenha dois raciocínios houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa. a nossa vida como indivíduos. de valores. esta sociedade viva n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia s o c i e d a d e . Talvez já esteja se perguntando: bem. tem precedência sobre as partes. por outro lado. pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta. As representações coletivas. L e m b r a m . c.-a-. essa existência social essa vida coletiva. os qtiais não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que tal coisa poderia exista. é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações passadas.

note bem. não se faz no vácuo. Com a divisão do trabalho social. A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de indivíduos destacados. temos vida um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. fazem cestos de vime. valores e normas de geração paia geração. trabalho determinada outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que coletiva época. todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam. sua vida em1 comum. o açougueiro. o dentista. E que cada nova geração. ninguém nasce sabendo. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas. a í e g r a c a d u c o u . afinai. Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. você já deve ter reparado. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade. Numa tribo dc índios. pescam. na calçada. as tarefas são extremamente divididas. e a segunda vale para a cultura esquimó. dá origem . é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. Não estou falando apenas de educação escolar.. e o risco de enlamear o lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. pois significa que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. Vicia moral que será a base cios conteúdos transmitidos na forma de crenças. como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. Coisa que. outro para pintar os encaixes etc. por sua vez. mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes. há um homem para apertar o parafuso. até esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um moral diferente. outro para encaixar as peças. Existe um número quase infinito de rcras sociais que. na moderna sociedade industrial. Bem. Aliás. Além desses. não há vida social. os chamou vida nos de diz divisão numa Durkheim. obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. através do de é produzido um processo Dito social. mas são parte integrante de um determinado meio ■moral que compartilhamos. ou seja. (D tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc solidariedade mecânica. o professor. pelo menos alguns de nos. de tão comuns. participam de rituais religiosos etc. pela cie de cooperação entre indivíduos. Este interação predomina meio que na moral. existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. o contador etc. o ferreiro. Ela tem conteúdos Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei. Como já vimos. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso. alguns jamais aprendem. há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar. portanto. por exemplo. P o i s s e m consenso não há cooperação entre os indivíduos e. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada. claro). Mas no caso radicalmente oposto. recebe pronta na forma de educação. ao nascer. o status d o s m a i s v e l h o s e r a diferente do que existe hoje. E este tipo diferente cie cooperação. Na fábrica moderna. Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em . os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras.7 naturalmente. que levou a uma \ o na tase da conquista. Tal processo se radicalizou com o capitalismo. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição. superespecialização das tarefas. que são todos operários. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra. cada vez mais. com uma pessoa mais velha. ficando você com o lado cia rua. pór este mar de crenças. ao refletir sobre como. valores c regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos. essas já parecem mais exóticas para nós. o carteiro. Estou falando de aprender a viver. um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim observa que uma condição fundamental para que a s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. Com a urbanização c o desenvolvimento e c o n ô m i c o . A l é m d i s s o .

nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado â noite? Lamento informar.ke. há muita divisão do trabalho e. portanto. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho-.estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. por assim dizer. consultores de m a r k e t i n g . mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes c. embora vivei" sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela.. são bastante distintos. ficam mais fracas. sua relação com seu patrão ou com sua sogra. caro leitor. obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma sociedade pouco diferenciada. para viver (inclusive para comei. Mas o que você faria. e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença. isto é. Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas. crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional. c uma relação dc solidariedade. E o que D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes. Sc uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa. Há. um enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras. portanto. assume valores. d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o diferenciada. A divisão do trabalho. Quando. tem uma margem maior de liberdade. tão ligada ao coletivo ela é. em decorrência solidariedade mecânica. é similar à luta pela sobrevivência no reino . a tendência. Talvez nem se espantasse. animal. p i l o t o s ' d e c o r r i d a . Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento • de uma diferenciação s o c i a l cada vez maior. videoma. cada pessoa. Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e. é o consenso Quando cada indivíduo..8 Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje. as regras gerais ficam relativizadas. a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. rodeado por técnicos em informática. enquanto que. mesmo com aqueles que você odeia. Os valores as crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos.rs astronautas. os meios morais. humanos diferenciam-se. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver. pensa Durkheim. pelo contrário sofrem i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o . que iazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de lazer. Mas há outro ponto importante. A diferenciação social. como a sociedade industrial moderna. você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado. Em vez de matar uns aos outros por causa da competição semelhantes que na seriam luta obrigados a empreender os seres com seus pela sobrevivência. é a solução pacífica da luta pela vida. Pode-se dar O tipo de solidariedade que se. difercnciando-se umas das outras fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da sociedade. De solidariedade orgânica. Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. mas você depende dos outros. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir. A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s porque fazem juntas as mesmas coisas. em função da divisão do trabalho e da especialização. a n a l i s t a s d e s i s t e m a s . ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores. para Durkheim. os indivíduos pensam com a mesma cabeça". a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica. para pensar e agir por conta própria. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta. em decorrência solidariedade orgânica. beber c vestir) dependem das outras. Assim. a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores. em diversas circunstâncias da vida. se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro. ao contrário.

paradoxalmente. sua validade geral e indistinta. . E assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o_ individualismo. sem uma moral coletiva. na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa cm que nascem.s e p e l a I HI SCII d a s a l i . i s t o é . Mas quanto mais liberdade individual. entanto. mais diminui. a sociedade não pode sobreviver. coletiva que era quase E no total nas sociedades pouco diferenciadas. entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade. então. provocaria a g u i a r . A tendência será.i Educação para a vida Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade. Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras.9 interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas. decorrente da competição imposta pela diferenciação. provocaria D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut. mais individualismo. Os indivíduos passam . solidariedade a desintegração orgânica da (baseada na diferença) o que sociedade. e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento c de ação. .* f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s pessoais e cada vez menos coletivos. sem consciência coletiva. Pois quanto mais o individualismo cresce. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade. mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da a consciência consciência coletiva. É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento ela liberdade moderna. Si) numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais. o conflito.

Mas se. Para Durkheim. geração geração.. Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo. S OC I E D A D E . a educação assume o significado de educação moral. paia Durkheim. os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos. de sua profissão. por somos devem ser serem uma toclos. Aprender a ser um engenheiro. como dissemos antes. em castas. conforme 'a divisão em classes. aliás. Assim. em profissões etc. s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia. harmônica com seus contemporâneos. o caos. que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional. do essas numa onde chance valores os A ou meios e do no educação morais valores do literato. pois não estarão cm condições de viver en> meio aos'outros quando adultos. não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal. A cada momento histórico. a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. casta cm para entanto. ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 . de seu meio moral. particular. Assim. Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas. após outra. as sociedades modernas são muito diferenciadas. devido à divisão do trabalho social. em grupos. Se não fizermos isso. a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade. gostemos deles ou não. em sociedades sem diferenciação. Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos.10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O grupo. é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. "É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como q u e r e m o s " . Significa entrar num meio moral. de seu pelo qual você se torna membro da sociedade. diz nosso sociólogo. Edueação'é socialização. a sociedade se vingará de nossos filhos. não é específico. existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. Educação homogênea. não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. como existem na mais ser muito específicos sempre a da comuns diferente para educação Mesmo índia. Você aprende a ser um membro de sua classe. educados atividades sociedade as de comuns pessoas profissionais. existirão crenças médico. não seria possível.■ '. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais. simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de concreto. Por isso. E(j-este é o modo a ausência de regras. sem que sejam todos. geral nascem de todos. No para os básicos engenheiro mas antes passaram compartilhada dividida morrem. Se isso não ocorre por completo é porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma. acredita Durkheim. Existem certos costumes. para Émile Durkheim. através da aquisição de uma moral profissional. como seria possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora. enfim. Sé) assim é possível preservar a sociedade. só se voltássemos à pré-história. de sua casta. a educação. e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. certas regras. rigidamente fundamental. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. Preservá-la inclusive de sim própria diferenciarão. passar a alguns . Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro. e uma por educados. quais que pode de por com castas. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social.

e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma tia criança que .11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O "alguma coisa a gente tem que ter em comum". Assim. mesmo que nem toclos nós fumemos um determinado cigarro. Não seria possível < exemplo. uma religião comum. existir sociedade sem isso. E fundamental que haja certa homogeneidade.

[). maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento histórico são capazes de controlar as consciências dos homens? Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o berço cia sociedade capitalista. e também da sociologia da educação. A educação que recebemos tem por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que vivemos — nossa classe. nossa profissão. para adequar as crianças a seus meios específicos de vida.34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O / é educada. permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá paru educação. educaç ão e em anci pação Marx e o pensamento sociológico A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX. É isso que nos permite viver cm sociedade. reclamados pela sociedade política. tem por objeteususcitar e desenvolver. particularmente. para iivrá-lo de toda a opressão que 0 esmaga? número de estados físicos. E é por isso que a educação é um processo social. Cada geração transmite a seguinte. na criança. os elementos fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades humanas. intelectuais c morais. A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida social. . e pelo meio moral a que a criança. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser considerados como uni importante ponto de partida da sociologia. Assim como é fundamental para ele que. é isso que permite que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. A SOCIEDADE NOS MOLDA . nosso meio moral. a partir de certo ponto. O que existe por irás tias aparências dessa nova. Para resumir cita idéia. se destine [Educação c sociologia. certo E STÁ BEM . como transformar esta realidade? Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será possível educar para a emancipação do homem. Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe nos porões da sociedade. C APíTUt O ii1 S oci edade. através da educação. no'seu conjunto. a educação se diferencie. Sé) a educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. insistiu o sociólogo francês.

36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. de caráter analítico. assim como Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies. isto é. Compreendendo esta chave. e o futuro desejado está contido no presente odioso. pretende vislumbrar como a realidade deveria ser. ele fazia filosofia. Bem. e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para entendê-la. seu pensamento é normativo. desde os primórdios da civilização até seus dias. Marx julgou necessário descobrir como a história humana funciona. uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus instrumentos dc produção e seus saberes.. Marx não era apenas um pensador. Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (18201S95). Aliás. que o pensamento de Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia".. em prática através de um partido político. Nesse sentido._ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_ expressa. Por um lado seu pensamento é analítico. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da sociologia de Marx. ao tempo da velha ordem feudal. o transformador) social compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na qual ela estaria se transformando. Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista. Por outro lado. segundo Marx. i a c o n f u s o ? ( _______a l m a . e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar. isto é. Pois a sociologia é uma disciplina científica c empírica. principalmente. dissecando-a. educa Pelo contrário. Nesse sentido. Nesse sentido. Mas devo advertido desde logo. a pretensão de Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia. Nesses dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento essencial: o trabalho humano.. 13 . se Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O . . valorativamente caracterizada por ele como iníqua. E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo. construindo uma utopia em nome da qual seria necessário agir para transformar esta realidade. idéias. Seu objeto de pesquisa fundamental. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas diferentes. pata não dizer o único. dois modos diversos de encarar a realidade. Ir a sociedade verdadeiramente humana "deve ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão. que pretendia colocar suas. ele foi um praticante das ciências sociais (a sociologia. graças a suas contradições internas.... A^contradiçãc> para Marx não é uma fa 1 ha do raciocínio lógicq. Ele olhou à sua volta e percebeu que. foi a sociedade capitalista de seu tempo. nem entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser.çntre si. a história e a economia política). seria algo como o seguinte: "o que move a história é a luta entre as classes sociais". num discurso proferido no enterro de Marx. enquanto levava a burguesia à condição dc classe dominante. no modo mesmo como a sociedade presente "é". Marx havia descoberto as leis da história. transmitidos com zelo de geração para geração através dos séculos. Nada menos que isso. é porque esta possibilidade está dada já agora. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se em motor da mudança histórica? As l e i s d a h i s t ó r i a Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com. para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo histórico em curso que. e u e x p l i c o . Seu socialismo era "científico".^■y-frl-L-. o investigador (e. caro leitor. Para ele não havia contradição entre teoria e prática. mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da história. Mas não se conformava em propor o socialismo como uma opção entre tantas outras._ ■ pretende ver a realidade como ela é. E i a também um militante político.a natureza e dos homcns.

p e s c a - enfim. Não. beltrano aquilo. portanto.responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do domínio do homem sobre a natureza. A esses modos específicos M a s n ã o a p e n a s i s s o . elas iippj^cjvm numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados para o trabalho. As relações de propriedade. o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . como esta organização da produção advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do aumento da produtividade social.os homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e nem sempre os que trabalham possuem esses meios.. c de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que outros trabalhem para si. na medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de homens que trabalham para os outros. divisão do trabalho e forças produtivas. e n t r e e s t a e o comércio etc. m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s pela capacidade reflexiva do homem. D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços. c a c a . f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s m a c h a d i n h a s e a r a d o s . f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a c i d a d e . ti' produi ividade si > c i a 1. colocandoa a se L I trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. para desenvolver as forças produtivas. Do ponto de vista de Marx. a s s i m p o r d i a n t e . trabalho manual e reflexão intelectual jamais se separaram. vive através de seu trabalho. a s s i m . de um lado. e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e mulheres. distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da sociedade.'Em vez de cortar ou quebrar com as próprias mãos inventou. Depois. q u e cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento das capacidades do corpo huma-rva. de outroMsso significa que no processo de divisão do trabalho. n o t e b e m . por sua vez. embora -como apontarei mais abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o m u n d o d a s i d é i a s . a d i v i s ã o sexual. Na medida em que o ser li uma no se reproduz. O s e r h u m a n o . a divisão entre a agricultura e a criação de a n i m a i s . Porque o .s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o . a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e "forças. Ao mesmo t e m p o . Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de tarefas: fulano faz isso. c o l h e . O desenvolvimento das forcas produtivas foi o. o intermediário da relação dos homens uns com os outros. cada vez m a i s . que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o longo d a h i s t ó r i a . p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r . ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39 É através do trabalho que o homem muda a natureza. bem como pelo conforto e pela r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s . boi este o ponto de partida do processo de divisão do t r a b a l h o . Com s e u g ê n i o . Nesse processo. A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o intermediário da relação do homem com a natureza. E . ao mesmo tempo determinam-se e são determinadas uma nela outra. o _ a produção junto com seus luMncmtambém loi organizando semelhantes. são a base das desigualdades sociais. produtivas". porque o fazem com os meios de outros. Ela é também a expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio de uma dada sociedade num dado tempo histórico. Para aumentar :i J í c r v i ç c j ^EjejTJama. d e s e n v o l v e u a o longo d a h i s t ó r i a . através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. depois de m e t a l c o r t a n t e etc. As relações de propriedade. u m e n t a r c m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o suor de seu rosto. P r i m e i r o . a divisão do trabalho é também parte do conjunto das forças produtivas. dizem respeito aos tipos de relações sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de propriedade vigentes. a -machadinha de pedra. também. c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s a n i m a i s .nem_sempre. ele é. Nesse sentido. entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l . E . Ambas.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O S OC I E D A D E . c o próprio trabalho.

que opõe escravos e senhores de escravos. da produção material de sua sociedade c das rclaçêics de classe. a relação social básica é a de servidão. como já vimos. Marx diz que as relações sociais de produção. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas. isto é. da produção.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram o nome de "relações sociais de produção". política e/ou economicamente dominada. A classe oprimida. Dessas diferentes relações de propriedade. quando se estabelecem. . ao mesmo tempo. Mas a consciência que os homens tem dessas relações. A este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". a relação social fundamental é a de assalariamento. até produção aqui. Abrese então um período ele convulsão social. as formas de propriedade. as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro. de um modo de produção a outro. as relações de propriedade. funcionam como uma forma de desenvolvimento das forças produtivas. mas chega um (orcas produi desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. As formas de consciência Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé) lhe expus. Simplificadamcntc. sob o controle dos homens que nesta época vivem e. o modo de produção feudal (vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. ao intercâmbio econômico entre os homens. como já sublinhei. Mas como o trabalho e a reflexão do homem. no segundo. a relação social básica é a escravidão. e no terceiro. no qual as relações de propriedade vigentes são contestadas. Assim. A transformação de uma forma a outra. não condiz com as relações materiais reais que de fato . do trabalho. E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo que move a história é a luta entre as classes. onde o trabalho era realizado por escravos). isto é. são laces da mesma moeda ao longo da história. e o de aspecto relacionado da com as formas de social delas material organização estrutura decorrentes. do conhecimento. se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe dominada e a classe dominante em cada época. afirmam nossos autores. das crenças c tias opiniões se relaciona com este mundo material. que opõe capitalistas e operários. Marx e Engels se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu próprio modo de vida. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. isto é. que opõe servos de gleba e senhores feudais. da posição dos homens com relação às formas de propriedade vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes sociais. se insurge contra o predomínio da classe dominante. sejam elas econômicas ou políticas? A consciência está ligada às condições materiais de vida. ou melhor. um conjunto instituído de relações sociais de produção. burgueses e proletários. No primeiro. a teoria de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das idéias. A cada uni desses formas modos de de produção da correspondem propriedade (ou diferentes relações estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e diferentes organização sociais de produção). podemos dizer que nossos autores descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas.

plano das idéias. portanto. Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do trabalho. não desanime agora. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3 vivem. No entanto. foi percebida pelos homens como a única sociedade possível (durante séculos. por sua vez. que se tornam dominadas. que os indivíduos não pensam com sua própria cabeça. cie uma classe social que assume o papel de dominante sobre as outras. não têm uma consciência real da dominação cie que são objeto. como se tivesse que continuar existindo para sempre. A medida que o tempo passa c a sociedade capitalista se estabiliza. Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx. as máquinas e a própria força de trabalho do trabalhador). Mas percebe. Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. E existem aqueles a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único bem de que dispõem: sua força de trabalho. aliás. no entanto. Marx afirma que se as relações de dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são socialmente construídas. não precisam existir para sempre. E. na vida cotidiana. pois o homem pode construir outros tipos de relações. No capitalismo. Estes são obviamente os burgueses. por exemplo. Assim como em outros tempos. ela é percebida pelas pessoas. Vou lhe dar unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de mencionar no parágrafo acima. no seu universo cotidiano. l. as relações de propriedade vigentes.ranslormaildo-se em proletariado. Esse indivíduo não vê a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a . diz Marx. ou melhor. Não. que acabaram sendo submetidas a esta classe dominante. como algo normal. mostra que isso não é assim simplesmente mostra que o porque caráter qualquer coercitivo. de não homens se deve necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos. mas que ela foi criada pela luta histórica entre as classes sociais. Se estiver muito complicado. o modo como está obrigado a trabalhar e viver. as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a . em troca do pagamento de um salário. isso é percebido. para que não reste consciência. E que esta situação não está ali desde que o mundo é mundo. momento classe dominante (a burguesia) e outras classes. na cabeça dos homens que vivem sob este sistema. aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de uma consciência coletiva. estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer. que os homens. sem a dominação de uma classe sobre outra. Ao trabalhador lhe parece natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver. Assim. existem os proprietários dos meios de produção (as fábricas. sociedade dominador. num intervalo de tempo.16 S O C I ED AD E . a sociedade feudal. como se isso sempre houvesse existido e. portanto. num aparência. Marx. As idéias. mas sim de unia parte da sociedade sobre outra. Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos. mais ainda. bem maior do que a duração do capitalismo). quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o lugar de cada um dentro do processo produtivo. no. Ele manifesta igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens indistintamente. n u m a consciência invertida. primeiro Para Marx numa essas falsa implicam. E s s a s representações representações são. p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os homens estão de fato submetidos. natural. como a única sociedade possível. dentro do qual estão submetidos a este processo de dominação. o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época histórica.

em vez de todos realizarem todas aá etapas e passarem de uma tarefa a outra. no entanto. Quanto mais sapatos vendidos. não só com os sapateiros do exemplo. Com o desenvolvimento do comércio. numa perspectiva histórica. c o m o p e s s o a . Como resultado de uma enorme gama de transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX. c foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um salário. Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de c a d a d e t a l h e . Eles eram autosuficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas. porque não tinham mais os meios materiais de vida. mas com todos os ramos da produção material. pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro. porque não saberiam mais como produzir por conta própria se tivessem esses meios materiais. as máquinas começaram a ditar o ritmo da produção. o artesanato se transformou cm grande indústria. uma nascente classe de comerciantes começou a ter pressa. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO -S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o 1 '5. E depois. cortava. foram criadas máquinas novas para aumentar a produção. o XVIII e o XIX principalmente. Através da maquinaria industrial moderna e de posse desse saber. com o qual exercitou o ofício desde criança. do ponto de. tingia. depois de Mestre formado. muitas vezes seus filhos. Do mesmo modo ele ensinaria. os vendia em seu estabelecimento. Como isso se deu. um sapateiro — realizava todas as etapas da produção de seu produto. começaram a entender o processo de fabricação do sapato e perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas fossem divididas entre os trabalhadores. deles foram subtraídas duas coisas: os meios de produção c i a v i d a m a t e r i a l . E claro que este era um processo lento. E seria bem mais simples. repetidas vezes. o capitalista reduziu o trabalhador à execução cias tarefas simplificadas. mas com seu aperfeiçoamento. o Mestre de Ofício — por exemplo. Assim. cm vez de aprender o processe. na condição de aprendiz. E de onde veio este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre. muitas vezes seu pai. Com o 17 dúvidas sobre isso. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista. Primeiro. Os comerciantes passaram então a contratar fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. A princípio essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas. O que aconteceu. que os novos trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma só tarefa.44 Sociedade. é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s capitalistas. construía as fôrmas de madeira para a fabricação dos sapatos. poclc até parecer convincente. A forma de produção de mercadorias no mundo feudal era o artesanato. mudança um outro dado fundamental..vista das relações de propriedade? No artesanato. Ao fazerem isso. mas através de um processo social de expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s . que o desenvolveu e racionalizou. sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r (somado aos meios materiais necessários para a fabricação de sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no mundo c suas relações com seus contemporâneos. ou apenas costurar. e um número reduzido de pares de sapatos era produzido. costurava-os. Agora pense o que aconteceu. pregávamos''solados. c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e um produto e a própria posição social do artesão. parciais e repetitivas na linha de produção da fábrica. e não a máquina ao ritmo do trabalhador. já que foram obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e parciais. sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo cia máquina. mais lucro. E l e . ainda. isto é. as forças produtivas foram enormemente desenvolvidas. Juntou-se a esta desenvolvimento tecnológico daqueles séculos. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos animais. Explicado assim. para M a r x . iodo. o ofício a seus aprendizes. entre o tempo do artesanato e o da grande indústria. também. Cada um faria apenas uma etapa.. fazia o acabamento c. mas a percepção dessa expropriação e o entendimento .

quem. Em todas as outras lormas_d_c ajnerioxes. A i s s o M a r x d á o n o m e d e ideologia. E mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa da ideologia.. que pertence a outros. compartilhar há uma diferença.pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l . s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL. todos os dias sem saber. Marx diz. cabe trabalhar nelas e ponto-final.d e alienação.. o trabalho. Existem as fábricas e seus donos. A i d e o l o g i a . No capitalismo.houve histórica sociedades: sabia que. todo o trabalho realizado. que o salário não remunera. A isso. i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r . A outra parte é apropriada pelo capitalista e se transforma em lucro..ajs_visceral. ao contrário.•16 Sociedade.riiins de trabalho (jornadas longas demais. pois esta é a percepção que tem da realidade na vida cotidiana. pelo capitalismo. do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c também do fruto deste trabalho. o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de trabalho mediante o pagamento do salário. E ao trabalhador. P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e estão submetidos.mjnado_ç sabia. Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa época. p o r t a n t o . c e s s a _ c a ___________l o r m a d e dominação_m..ço_ndi.ções_. a l h a d o r e s dormem com o inimigo.era seu dominador. porém. O escravo s abia que seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à forca. é individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Qtrabalhadox_não tem controle.cojrio uma fatos. mas apenas uma parte dele.c_às. na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes dominadas..tc se revolta diz respeito aos salários hai. que é uma concepção de mundo gerada pela classe dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua._xos. confortavelmentc instalado em sua própria mente. dojiunado dp. desses dc filme de ficção científica. o salário e viver. que não é dono dc coisa alguma. é compreendido como algo que não pertence a este ser humano. O trabalhador foi separado. a b . que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida da mesma íorma que no_dia anterior. Por causa do salário pago. de concepções. portanto. de normas c de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo a vontade "do sistema". vêem o trabalho alienado cji_d_oniinação de uma classe social a sobre otitra . educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO 47 DA •/■S O C I O L OG I A E D U C AÇ Ã o Exploração capitalismo dominação econômica e em opressão todas o as política do homem só pelo b n m _ e j i \ _ g g . o servo sabia que o dono L O I feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. O trabalho. c a q u e l e s i s t e m a ordenado de idéias. A suprema ironia do capitalismo é que o dominado p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r . e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano. É injusta porque separa o trabalhador do resultado de seu trabalho. M a r x d á o n o m e . Ele só aprende que deve trabalhar para receber.. Jnsalubrklade_etc).. NxLxap.no que era de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no qual cresce e morre. Em resumo. . i i \ p r e . concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências. E quase como sc_ houvesse e m seu cérebro um c/u/> perverso de computador. O máximo SC L I dc jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men. mas — e isso e i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria vontade. a teoria de Marx e Engels afirma que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é injusta em si. que sempre' foi o meio pelo qual o homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens.naturrj_is__e passam. O trabalho é então percebido pelo trabalhador como algo fora de si. que é obra de cada ser humano. os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ fa 1 s a_d o mundo em que vivem. E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x .

Por obra da ciência. Eles. e receberia dela tudo o que precisasse. sem alienação e sem ideologia. quando esse momento chegasse. seriam felizes para sempre. por sua própria vontade. Pois vou lhe dizer o que eu acho disso. a sociedade comunista. o homem se reencontraria consigo mesmo.48 Sociedade. Nessa nova sociedade. sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para eles é uma manifestação das relações de classe. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o 19 Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. Essas leis lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas de propriedade e que. se abriria uma época de revolução social e política. seria um ser autônomo. sem exploradores nem explorados. seres humanos inteiros completos. Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos com que viam o capitalismo. a ver com alienação. fazendo uma análise a . Por um lado. enfim. e deixaria de existir quando as classes não existissem mais). sem dúvida a mais bela utopia do século XIX. c claro. ideologia comunismo empírica (ainda eme pouco aprofund ada) da situação - I educação. graças ao desenvolvimento material propiciado pelo capitalismo. Educar no mundo industrial Bem. autocentrado e autoconsciente. todo o esforço e trabalho que pudesse. E. Os homens e as mulheres seriam. E aí entra sua utopia: acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova sociedade. tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. acreditaram haver descoberto as leis da história. é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo minhocando dominação. Daria à sociedade. trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo. sobre o que toda essa c conversa de tem exploração. ao mesmo tempo.

ele nota que a lei inglesa anterior a 1844 20 educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril. O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da . M a r x f a z u m a análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela Revolução Industrial. pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária. utilizada pelo capitalista para disseminar a ideologia dominante. citado por Marx em seu livro.48 Sociedade. Olhando mais de perto. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o al . ela pode ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação. para Marx e Engels não existe "educação" e m g e r a l . Segundo relato de um inspetor do trabalho da época. que só poderia servir para perpetuar as relações de legislaçã sujeitos. numa dessas "escolas" que visitou a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível. comenta tão precário. de sua libertação da exploração e do jugo do capital.. identificaram na educação uma das mais importantes formas de perpetuação da exploração de uma classe sobre outra. r o ta época.. há falia de livros e de material de ensino e moderno meninos freqüentavam a escola. para inculcar no trabalhador o modo burguês de ver o mundo.) Além disso. porém. Por outro lado. (. E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o . o mobiliário escolar é pobre. identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano. justamente a (ase de afirmação do capitalismo industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas. O Capital ( d e 1 8 6 7 ) . Ou seja. com a condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de da fiscalização. Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta.

todos dividissem o trabalho manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. Assim. Para ele. Marx considerava isso um avançç) importante. i t e m 9 ) . o trabalho infantil é desejável. Mas o fundamental é que. colocando a natureza a seu serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante. D i z ele: Consideramos que c progressista. "As crianças com escola de meio período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. a educação formal escolar e o trabalho manual nas fábricas. v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . Marx festejou a legislação inglesa dc 1844. na formação das futuras gerações. o trabalho manual eleve ser exercitado por toclos. p o r q u e é dela que brotam a alienação e a ideologia. d o p o n t o d e v i s t a moral. c que já tivessem aprendido as primeiras letras e números. que a escola em tempo integral é pouco produtiva. em menos de cem anos. Seu ideal era o de que. Em todo regime social razoável. A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. e não contra a existência da civilização industrial. c os resultados dos esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as necessidades cie cada um. qualquer criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo. Não nos esqueçamos de que Marx era um entusiasta dos avanços do capitalismo. desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela legislação. Sc é através do trabalho que o homem produz para viver. muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de mil. mas segundo a concepção dc Marx. a educação escolar e o trabalho na fábrica. sua utopia comunista seria impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. pudesse ser forjado apenas com uma educação escolar lormal. Para ele. Para que não reste dúvida sobre este p o n t o . Estive em muitas dessas escolas c nelas vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente nada. os cadernos e os. com um novo caráter. educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51 Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. que era um homem do século XIX. A partir de então só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já tivessem pelo menos a instrução primária. pois ela permitia combinar. em sua formação como pessoa.nível material de vida da sociedade humana. todos seriam homens completos. porque. embora sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a as infelizes crianças.lápis. s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r . c a p . telo contrario. c também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do trabalho na fábrica moderna. no comunismo. com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual. inclusive. que vivemos à beira do século XXI. Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos. E romper com essa separação é uma d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s . não sendo combinada com o trabalho man uai torna o dia da criança enfadonho. E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava que um homem novo. e esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a apropriação privada do lucro. Nesse sentido. pois acreditava que todas as crianças deveriam combinar. X I I I . na formação da criança. as mãos sujas de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s . uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria unia abominação. quanto os livreis. o trabalho do professor mais duro e o rendimento escolar menor.21 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. através dessa c o n j u g a ç ã o . do mesmo modo que todo adulto apto para o . sã e legítima a tendência cia indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para que cooperem no grande trabalho da produção social. Ele lembrou em vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o . Marx afirma. e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar.

4 horas.'#p. como ocorria. prevendo jornadas de trabalho com duração diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1. não haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários. o caminho que Marx vislumbrava contava com a contribuição do processo educacional. Marx dá poucas indicações sobre isso.. t a n t oE quanto possível . . e as de 16 e 17 anos. o Partido Comunista.. a saber: processo educacio nal lhe devolves s e .^. . diz Marx. fundamentalmente. premidos pela pobreza. provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista. mas com as mãos... o ponto de partida para romper com a passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante.os. Pois este seria. Não através de uma operação circunscrita às tarefas parciais. 52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E .2 anos. e trabalhar não só com a cabeça.militantes de seu partido. e seria por assim dizer inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das classes trabalhadoras. mas o que se pode concluir de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser. Não se tratava de ensinar ao filho do operário que ele era uma vítima da exploração burguesa. E conclui: "não se deve permitir em nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação". Marx propõe que.. da seriam obrigados fabril a transformar-se próprios em agenciadores escravidão dos filhos. E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem.. de 13 a 15 anos. I % comprometendo seu futuro. . mas de um I . lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado conforme a faixa etária. irias sim ensiná-lo a operar as fábricas burguesas. em sua visão. eles deveriam trabalhar 2 horas por dia. a de romper com a alienação do trabalho. Para tanto. No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista. o a do percepçã conjunto que trabalhar para poder comer. 6 horas. da qual serviu-se o capitalista industrial para constituir sua fábrica.<. Sem uma legislação desse tipo. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53 trabalho deve obedecer à lei geral da natureza.

tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um. Com tal formação.). no texto citado que seria essa o mas educação elementar para o trabalho intelectual. É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contemplar três dimensões: uma educação mental. D e n t r o d e . os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica. Em sua visão. nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial. porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e .. qual as pelo indivíduo funções integralmente sociais não desenvolvido. Esse novo saber seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c. mental. cii. uma das chaves de sua emancipação como ser humano. A educação física e no treinamento militar. para Marx. era objetivamente possível. op. portanto. ditada pelas exigências do capital. Em outras palavras. E. a menos que rompessem com a separação entre deduzir trabalho intelectual e manual. tarefa que deveria dos 9 aos 17 anos. os filhos de operários estar cm nível muito superior ao dos burgueses c aristocratas. "mero fragmento humano que repete uma operação para o parcial. uma vez que estes últimos também jamais seriam a c i m a . diferentes contexto sempre passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade" [instruções. portanto. é preciso do que seria uma substituir o indivíduo parcial. a educação tecnológica seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das máquinas dos diferentes ramos da indústria. Isso.do processo produtivo moderno. p o r t a n t o . Ele não explicita. uma educação física e uma educação tecnológica.. capaz de executar uma única tarefa simplificada. pensava. finalmente.. poderiam pode-se homens completos.

n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia "deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família. d e 1 8 4 S . A título de ilustração. Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" pois no comunismo não haveria mais burgueses. I s s o d e u m a educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível. concessão na medida em que obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o ensino para os filhos de operários No entanto. porém. (.54 S OC I E D A D E . ele deixou essa visão bem clara Num texto c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . s e r i a substituir uma educação doméstica por uma educação de caráter social.. O ensino. l e m b r a m q u e a família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da família proletária. N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo. deveria ser radicalmente suprimida. A. q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e citar. A primeira eles é que. terminariam a divisão da sociedade em classes e . Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam. reproduzindo a exploração dos operários pelos patrões/Razão pela qual a família. desenvolver. a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe". ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24 é tal concepção. N o c é l e b r e Manifesto comunista. então. Kcsta saber então. nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano? Acho que aqui há duas questões importantes. A família é o lugar por excelência da difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses. Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado. forma de inverter o conteúdo de c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a .estabelecimentos estatais e a cargo do Estado. Debatendo com seus adversários internos do Partido Comunista. indistintamente seriam trabalhadores. uma primeira. é o espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar com a cabeça da classe dominante. para encerrarmos este ponto. o que Marx antevia era a adoção do ensino tecnológico. A segunda questão importante é que. não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para manter sua dominação. Ele não era. seria público e igual para todos. conforme já vimos. na proposta política de Marx e Engels.. mergulhada na desagregação causada pela miséria. com o comunismo.. teórico e prático nas escolas dos trabalhadores . p o r t a n t o . Para ele. trabalho educacionais práticas que tivessem um caráter libertário... de 1 8 4 7 . Todos. além que de ser uma mudar a forma mudar educação de a exploração forma pudesse de se econômica. como o nome já diz era em sua concepção uma forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe sobre outra. (. deixaram i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s . sua derradeira lição.) E. Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à f a m í l i a . no momento da revolução comunista. É o lugar onde ocorre a exploração dos filhos pelos pais. Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de todas as crianças em . ambas relacionadas ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar. quando escreveram separadamente sobre o assunto. ao contrário. pelo vício e pela prostituição. que servem apenas para lembrar-nos como ct a complexo. o Estado que necessita receber do povo uma educação muito severa". as escolas politécnicas e as escolas agronômicas eram consideiadas aliadas importantes do processo de transformação. mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu projeto para o futuro.) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo e da Igreja. oiganização acreditavam paia preciso nova social. nos moldes que conhecemos. assim como as escolas profissionais da época que davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de produção. ao contrário do que se possa pensar um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque o Estado capitalista. a ele parecia óbvio que um ensino oferecido por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a moldarem-se à dominação. é preciso assinalar que Marx e Engels. depois da inevitável conquista do poder político pelos operáiios comunistas. mas muito insuficiente. achavam. A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx. Bem mas esses são detalhes. o que seria cia educação pública depois que o Estado recebesse dos operários armados. mesmo o para esses cie sociólogos-fikxsoíosarticular propostas economistas-militantcs.

nova educação. uma mudança de atitude frente à produção. Seria necessário que. e o controle do poder do Estado pelos operários decorrente dela. pensavam Marx e Engels. restritivo de suas potencialidades. Não seria suficiente a revolução política. aproveitar-se desenvolvimento do do progresso material proporcionado preciso edticar o capitalismo.54 S OC I E D A D E . educados. Seria comunistas ■ dará OS a seus 1 n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai 111 U H H > N aspei los suas faculdades desenvolvidas universalmente. a nova forma de organização industrial encontrasse um homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. parcial. mas o fosso social que separa as classes continua a aumentar. Por conseguinte. ao socializar os meios de produção. Diz ele: A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar Princípios do comunismo. para o perfil cio "trabalhador polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas . portanto. Seria preciso. a sociedade organizada sobre bases I 25 trabalho. Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O a forma capitalista de divisão do pelo "novo divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. agora com apenas algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c. No já citado afinal da. nos dias que correm. Vivemos hoje os dias da "sociedade da informação". Assim. Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes. Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista) que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. Hoje. da "sociedade do conhecimento".para compreendermos seria bem mais complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito em 1S47. para viabilizar o controle coletivo de seus benefícios. s e g u n d o a s necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. permite ao capitalista realizar a mesma produção que antes o obrigava a empregar milhares de operários. Educados. Basta olharmos. a educação nos libertara deste caráter unilateral que a . homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. portanto. pois. E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o . mas nem por isso emancipados. para socializar os meios de produção. o desenvolvimento tecnológico. com o advento da robótica c da informática.em função da reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira Revolução Industrial .

educação e des encant am ent o As partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga. Mas antes de continuar. Weber é um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica. se "socializa". serão bastante significativas. [iode ser utilizado para oprimir ou para emancipai' o homem. tem contribuições .C A P í T U L O IV '—| Soci edade. E podem parecer um pouco intrincados. para o segundo. digamos assim. Para o primeiro. A sociologia do alemão I Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos. em níveis e cm medidas diversas. a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais. que é muito pouco discutida na área da educação. Os raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira vista. embora os textos pareçam um pouco truncados. Mas há outro ponto de partida possível. A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a sociologia da educação. mas sim o resultado de uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. ela é um mecanismo que. deixe-me dar-lhe um aviso. é claro. E quando você for dar uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber. e impositivas com relação a elas. verá que ele não é muito "fluente". No entanto. conforme seu conteúdo de classe. m a s a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade. as idéias valem muito a pena. A s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s .

importan tíssimas a dar. .

Os valores são compartilhados. O "todo" (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos). porque as coisas que eu vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê. conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma ciência "compreensiva". para Weber. é literalmente incompreensível se for tratado como um todo. nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. portanto. desde que o investigador leve em conta. para finalmente levantar algumas implicações que este" modelo tem para a e-ducação. Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas . é c l a r o . A sociedade. A realidade não é uma coisa em si. na interpretação das ações e relações. apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto de conhecimento. isto é. Pela s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo. As ciências sociais Então. naturais. que tem pontos de contatoe distanciamento com a de Marx. Porque os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores. Aliás.60 Sociedade. Trata-se de um processo subjetivo. os valores que ele atribui ao próprio ator social. i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s . conforme o processo de interação em que o indivíduo está significados diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o estarão presentes os valores do investigador. c uma teia. fundamentais. pode ser qüe as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. como uma coisa.lá. a captação da ação social. regule o seu grau de atenção e prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e Marx. os acontecimentos. que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. isso simplesmente não é possível. aquele que pratica a ação. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos mais elementares da sociologia de Weber e em seguida. Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são concebidos por Weber Ao das como de as üm conjunto para inesgotável ele postula as quais de que. no momento da ação. vamos. ü. para Weber. ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a . o que. Respire fundo. são. histórica. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NSO I O L O G I A D A T OC E D UC A Ç Ã o inserido. como o encontro e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s articulam de modos distintos no plano subjetivo. m a s s ã o i n c u l c a d o s . no entanto. Como a realidade é infinita. A realidade é concebida por Weber. As ações sociais praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação. e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos de racionalidade empregados pelos indivíduos. acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa. não é um bloco. porque são muitas e porque se renovam a cada dia. por qUjé. e não os seus próprios valores (do investigador). Fluxos da mudança e cristalizações d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . diferentemente contrário ciênci Durkheim. isto é. embora vivamos na mesma sociedade na mesma época . não compromete a objetividade do conhecimento. discutir um pouco sua teoria da história.partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela. que são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou grupo de homens por ele investigado. Weber e q pensamento sociológico O ponto de. Um mesmo meio cultural pode assumir 28 distintos. então. Para ele.

poderia dizer: "minha finalidade na vida é ter dinheiro. 3. M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s .' Vejamos. W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um problema. E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão. bem como fragmentário c especializado. T u d o O C"| LI percebido. mas para isso preciso escolher a prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível.29 SOCIEDADE. porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou por Weber na definição de sua sociologia . Diz ele que por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido (subjetivo) real ou "mental". porque o" real o é. será muito difícil pra você deixar de ir à escola. deixando de ir. Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s dias) os custos e os benefícios que você terá.) A ação que especificamente tem importância para a sociologia compreensiva é. Estar junto com outras pessoas. não faz de você digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). certo? Se um dia você cogitar abandonar os estudos. E direi também que Weber era um pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o h o m e m . c você já pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as relações entre a educação e a vida social. O trabalho científico é assim inesgotável. e lhe Difícil. Ao ir à escola você emprega sua racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio comportamento. de praticar uma ação Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) . A produção científica tende a disseminar-se pela sociedade através da educação. isto é uma ação social. e l a o c o r r e q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o de tomar uma atitude. P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social .l o p a r a d e s e m p e n h a r tarefas na vida Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica desenvolvida compreensiva. apenas. ms. i i MI comportamento ouci 1 . e o meio mais adequado para atingir este fim é ir à escola". (. o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e interessa à sua sociologia. 2. seu grupo.. Se em sua casa todos piczarcm uma boa educação acima de tudo. está co-determinado no seu decurso por esta referência significativa e. p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á . Se você fosse puramente racional. mulheres (ou homens) à disposição e carros do ano. em particular. no caso inverso. Você pode calcular também com base. Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus interesses pessoais "egoístas". Não apenas porque ali você encontra seus professores. P a r a W e b e r . indo ou. portanto. a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a escola. por exemplo. suas finalidades "exclusivamente individuais .. pode ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente). está relacionado ao sentido subjetivo pensado daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s . seus colegas. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i s i m c o m o D u r k h e i m . que você já vai saber o que é. Quando você vai à escola. mesmo que ele não seja quase 7 um a n i m a l social. no valor que sua família dá à educação.

30 SOCIEDADE. . Levar isso em consideração também é 6 i formar.uma forma de cálculo. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O que se era algo importante.

Suponha. É m u i t o p o s s í v e l que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu citei no exemplo. S ó n o parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social. dizer que não freqüenta a escola. entanto. Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê construiu. tipos dc dominação política etc). A receita m e t o d o l ó g i c a . se você vai à escola apenas por causa dos amigos. Ar^ir cm sociedade. não significa idealizado". implica em algum grau de e colegas. Mas. feita na cabeça do investigador. O/fie o mundo social que o cerca. vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar.' . Você pode gostar da escola porque tem amizade com professores namorado lá.64 S O C I ED AD E . Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado". e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. O tipo é tima construção mental.fundamental para entender Weber. é a s e g u i n t e : l u . Nesse Isso é método perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem mas os constrói para que sirvam de referência. portanto. Ei. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados. mesmo que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades estudantis. v o c ê e s t a r i a sendo irracional.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 31 Mas você pode calcular também com base. As razões este é o se misturam. 3 ' . Já se você for à escola porque sua formação familiar deu muita importância aos e s t u d o s . dos professores ou da namorada ou namorado. alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais importantes métodos dc investigação das ciências sociais. isolar tipos satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola. Ele é um exagero dc perfeição. finalmente. . 2L. na prática. p a s s o a p a s s o . fins estes tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . ou porque arranjou uma namorada ou racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m age. na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l . Ninguém. Finalmente.. repare também que no dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. "puros" Ele é de sabe absolutamente comportamento. N o c a s o . N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o . está praticando o que Weber chama d e ação social racional com relação a fins. está sendo irracional. e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a valores. que jamais será encontrado na vida prática. portanto. sendo três racionais e um irracional. quando você vai à escola pensando em se formar e ganhar dinheiro. s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . fundamental Aliás. Significa apenas que você escolhe as características mais "puras" dos tipos. você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem busca utilizar-se dos melhores meios para isso e. o u e n t ã o d o modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação ao regular. C o n s t r u a u m tipo ideal "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social. Partindo do exemplo acima. por exemplo. p o i s o que Weber chama de "racionalidade perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação. nem mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro. R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . que você fosse à escola apenas porque todo mundo vai. Na ação afetiva. esta teia inesgotável dc eventos e processos.s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a . para Weber você pratica u m a ação social afetiva. V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a de comportamentos aceitos em seu grupo específico. e selecione dele o aspecto a ser investigado (não dá pra ser tudo. e ficaria chato pra você. como por exemplo idealizar o que seria uma "sociedade perfeita". e Weber achava que os . tem que ser uma coisa de cada vez). Essas coisas t o d a s s e c o n f u n d e m . esses de No Weber. a partir de vários exemplos históricos. t r a t a . dentro do seu círculo de amizades.

S e d i z e m o s " b o m . Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a U porque ele prefira o indivíduo. no sentido de adequação entre meios e fins. Ressalto novamente: q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo. O método de Weber é individualista não .d i a " n o c n c o i i 11 ' i r s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a .À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u . Comportamento subjetivo é o c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o . não estamos falando ríum comportamento exclusivamente psíquico. Não é nada disso. É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance. mas porque para ele o indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de sentido. • os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis. se revela em seu caráter mais complexo. exclusivamente psíquico. n o c o n t e x t o d a sociologia de Weber. Mas não sé): ele é obiigadc) a relacionar-se também com as normas sociais consolidadas. e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo. embora a certos elementos de dessas ações (a na estruturação do sistema de preferências. que é detalhada so para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber. q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento d o s o u t r o s . c o n c e i t o s c o m o E s t a d o . o comportamento dos ou tros c é isso que faz de sua ação uma ação social. em detrimento da sociedade. capitalismo ou Igreja. Para Weber. b a s i c a m e n t e . habilidade cada indivíduo utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos antciiotcs a própria ação. E l e d i z . na prática. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou simplificar bastante a definição do nosso autor. é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer. de intencionalidade.64 S O C I ED AD E . um agir cie homens que se relacionam uns com os ou tros.s e d a q u e l a q u e s e refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. para Weber leva em consideração. A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível. O indivíduo e as instituições sociais Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo contrário. e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. e s s a r e a l i d a d e s e apresenta a você. 4 . e isto significa. os comportamentos dos atores são interpretados c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e . para Weber é incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . Ou. que têm influência sobre seu agii. liga o indivíduo às estruturas sociais e estas ao indivíduo. melhor d i z e n d o . reduzem-se i categorias q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e . E m c o n s e q ü ê n c i a .S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 32 tipos de conduta mais puros são os mais racionais. sem exceção. institucionalizadas. nem muito menos a psicologia individual. no momento de agir. Aquilo que e mental. para sua sociologia. a s s i m . a escolha dos meios para desejados. c o m o s e n d o ações propriamente obter os fins ditas. O indivíduo. daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação.

E D U C A Ç Ã O C D l S f l M C A N T A I O EOG IO D A SOC M L N Í A E D U C AÇ Ã O 67 :3t .33 SoCItDAOE.

e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . de acotdo com um cálculo que tem por base as regras. Ê As regras. essa racionalidade não precisa ser apertas com relação aos fins do ator. Í p: "condensação dc expectativas recíprocas" c. tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores i n d i v i d u a i s . O a g i r e m s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . é claro): v o c ê e s t á obrigado a p a g a r . e não de outra maneira. comportem dc um determinado modo. ainda. J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o . s outros igualmente agem segundo as regras. porqtie foi feita uma lei para . Está. na média dos comportamentos geralmente usados para aquela m• I É ! WI orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique este ato. Esta é a diferença entre a Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a " d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito — em que a validade do regulamento é garantida por um aparato coercitivo e punitivo. Se o comportamento dos outros fosse totalmente imprevisível para nós. porque sabe que se for capturado. No agir em sociedade. p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a todos c. pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou n a m o r a d o . M a s expectativas a validade da norma não se baseia apenas nas recíprocas. expectativa além do indivíduo nos orientar-se por este tipo que de tais baseada regulamentos. assim como no caso dos tipoS~de ação comentados acima. E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o vai matar sua mãe. Mas quando o indivíduo calcula que é m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o . praticar este ato seria bastante irracional. não apenas porque imagino que você gosta dela. ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 34 determinada pessoa é porque esperamos que ela responda "bom-dia" também. de que se comportem cie modo emotivo. Quando agimos racionalmente. seria difícil viver. kracional. funcionam como uma espécie dc ■2-. portanto. E. mas pode se£ preso. portanto. Além dc pouco afetivo. Quanto mais disseminada socialmente situação. Q u a n d o i s s o o c o r r e . A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não sofrer as conseqüências. Pois bem. O agir em comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os outros dêem determinado peso a certos valores e crenças. p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a da moda. O agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade objetiva"). Sc você se vestir com uma roupa muito fora de moda. você não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil. supõe-se Ir e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias para eles. Mas diante da declaração anual do imposto de renda. mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são condenados c presos pelo sistema legal vigente. W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem social. agindo em sociedade. se você descumprir.' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança.68 S OC I E D A D E . sabe que está sujeito às sanções correspondentes. para que possamos calcular as possibilidades reais de levarmos nossos objetivos até o fim. Ou. Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14 anos. regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que os homens ajam segundo suas determinações. quando foge ou sc esconde. esperamos que os outros também ajam assim. Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com base na expectativa de que os outros também se. V e j a b e m : n ã o estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. será punido. melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com relação ao comportamento dos outros. O próprio criminoso. cm conseqüência disso. está se orientando conforme os regulamentos. ou então na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular.

desses com sauna c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento. por exemplo. Nessa situação. as coisas são diferentes. Porém:. você está sujeito à ele sua carteirinha de sócio. Ocorre. em busca de seus objetivos e levando cm consideração a existência das normas — sejam essas normas entendidas como a condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou como. vender seti título de sócio ou simplesmente não freqüentar. ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 71 Assim. n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s . você também participa disso. Quanto as mais pessoas as pessoas este assimilam quadro subjetivamente normativo que a a obrigatoriedade das regras. às quais costumamos chamar Estaco. e também que elas estão aí para serem mudadas. e está automaticamente sujeito a todas as suas regras. reforça a certeza de que a confiança mútua não será decepcionada. c l e s s e t i p o d c r e g r a s . W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. c se você insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras horrorosas que infectam os dedos dos seus pés. quando plenamente desenvolvida. De um clube de associados com sauna e piscina você pode escolher sair a qualquer momento. não é uma formação social efêmera. os "estatutos" e o "aparato de coação" da associação. ou seja. as formas de comunidade religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais da vida política entre os homens. definida pela existência de regras gerais e de órgãos próprios. Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro. que c o Estado. além dc sentir-se ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas OLI A vida comum em associação permite que sejamos capazes de prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas. Sc a divina providência o fez nascer aqui. o ponto importante que a sociologia cie Weber nos permite pensar é que. na medida em que as regras e os órgãos permaneçam. São instituições sociais. A durabilidade dessa associação através das gerações de indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o seja voluntário. a suspensão pressuposição de cada um de que a não-observância das normas pode ser punida com coações físicas ou psíquicas. A esta coletividade Weber dá o nome d e associação com fins. mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece. E é só quando aceitam institucionalização se completa. no casei ela associação política mais abrangente de todas. e esta expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria conduta. C h i c o B u a r q u e . O bonito disso. e portanto. e l o s d e c r e t o s . pois pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro. p o r e x e m p l e i . e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a gozador. Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. embora as coisas já estivessem prontas quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este pacote dc regras c]iie regulam a sua vida. como já comentei. Quando isso o c o r r e . Veja. 'Com isso. Se você for sócio de um clube "social". porém. O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m os "órgãos". mais a previsibilidade aumenta.35 S OC I E D A D E . meu amigo. é preciso considerar que essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos passados. adora brincadeira.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo comum por estes referenciais. que uma associação com fins. não há escolhas: você pertence ao Estado brasileiro. nasci brasileiro". inteligível para nós. O Brasil foi um aqueles rapazes charmosos que nadam ali. Na barriga cia miséria. sem ter sequer o direito de alegar ignorância delas. ela torna o mundo que nos cerca. Sé) está submetido às regras na medida em qtie optou por ser sócio. os "fins". quer queira c]ucr nãc~>. cada "sócio" confia que os demais se comportarão (aproximadamente) conforme as normas. c continuam a ser criadas. . Estou falando dc todas as regras.

é preciso reconhecer que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar crescentemente sua conduta. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o 36 país escravocrata até outro dia. n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u psíquica). e o Estado em particular. mas no modo como a sociedade vê as relações entre as raças. que são garantid os o é um pela da agir aplicarã coação. esta associação mais abrangente que é o Estado detém um poder de imposição. se baseia. Aliás. f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que vão de multas em dinheiro a meses de reclusão. de cem anos pata cá. segundo i . por sua vez. ou enquanto insumo agrícola. as associações políticas humanas. Tal poder se baseia numa influência específica — que Weber chama de dominação — de homens concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. Historicamente. diz Weber. num curtíssimo lapso de tempo. Nesse processo.72 Sociedade. tal* dominação. Negros por aqui eram valorizados apenas enquanto investimento privado de compra e venda. que a lei antiracismo prevê). Hoje. Ou seja. a lei geralmente se fundamenta num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. Tal influência. entre outras c o i s a s . as regras foram se tornando cada vez mais racionais. Este é um exemplo de extraordinária transformação. passaram por um processo de institucionalização. Agir segundo esses fins da associação. E embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social que os segrega na marginalidade econômica. i s t o é . se você chamar sua empregada de "negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. não apenas na lei.

Tenho que er. É este o sentido histórico do processo que Weber chama de racionalização.. reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação. quando as pessoas obedecem às regras não apenas porque temem a punição. c ci m bc ni po rej u c estão convencidas da necessidade de obedecer. Mas cá entre nós. em suma. As possibilidades de que esse consenso seja de fato p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o façam porque consideram obrigatória. porque "introjetaram" a norma. mas sim o tato cie agirem racionalmente. c camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na Max sociedade. Weber. O Esse uma crescente transformação cias associações em instituições parágrafos. garanto que vai compensar o investimento. difícil. t a m b é m subjetivamente. nao é o fato dos homens serem coa°idos. não precisa desistir. c dc que esta racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão sujeitos. Weber diz que a dominação baseia-se no c o n s e n s o d a legitimidade. Daqui a alguns e. Quer dizer. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o possam 37 "consenso". Tenho certeza de que o sentido geral você é sociedad capaz de captar. racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. Segure as pontas só mais um pouco. pensa . Desencantar o mundo O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer dizer. O fundamental aqui.72 Sociedade. Ufa! . cm decorrência.. a relação de dominação. a. mesmo que você tenha que lei mais uma viver em vez. para que possam com isso ganhar condições dc previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão também sujeitos à mesma relação de dominação e.

M a s v o c ê v a i e n t e n d e r . na qual estão obrigados a submeter-se ao poder já instituído. Assim como em Durkheim. Se a associação estatal passa por um processo de racionalização (e também de burocratização. impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência. ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito racional. isto c. em Weber a complexificação gera conflito. Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui. para que você entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a sociologia da educação weberiana. a dominação carismática. que obedecem porque foram educados (ou seja. devidamente g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. as fonvias de dominação no Ocidente caminham. p o r m e i o d a força. a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e pelo domínio dos líderes sobre os dominados. m a i s conflitiva tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos. A lógica da racionalidade. d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos. N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a . q u a n t o m a i o r s u a racionalização. é um processo de crescente racionalização da vida. argumenta Weber. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- A história humana. Para resumir em poucas palavras: uns mandam. é o modo pelo qtial os homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao preparados para exercer as funções que a transformação causada pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. outros obedecem e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e . segundo ele. uma vez que maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e maior também a necessidade de regulamentá-los.38 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o l e g í t i m a : a dominação tradicional. Na formação do Estado moderno e do . a d a s formas de dominação legítuna. maior o número de regulamentos sociais a serem o b e d e c i d o s . A regulamentação mais desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um aparato especializado dc domínio. mas à posição -que ele ocupa no aparato dc dominação. A educação para Weber. O ingresso dos indivíduos nesta grande associação. para o tipo racional-lcgal. E este o sentido histórico do processo que Weber chama ele racionalização em das sociedades: organizadas uma crescente transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc obediência instituições racionalmente. e as regras s ã o f e i t a s . tendencialmente. ao que me parece. i s t o é . Mas no último caso. da obediência à lei c do treinamento das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi aos poucos se disseminando. o que por sua vez gera a necessidade da regra. que se caracteriza pela existência de uma burocracia. Diferentemente da concepção organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx. Pode-se compreender aqui o sentido d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r . Paia legitimar-se. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a t r a d i ç ã o . Bem. de abandono das concepções mágicas e tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens e para a administração social. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o c a r i s m a d o l í d e r . porque para fazer cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez mais complexa). Eu sei que e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . que é o das sociedades modernas c complexas. a dominação se b a s e i a o u n a tradição. a obediência não é devida à figura do líder. O e x e r c í c i o d a autoridade racional depende dc um quadro administrativo hierarquizado e profissional. a s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores compartilhados — como constitutivas da sociedade. d i z e l e . não é voluntário. aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação. para garantir a aceitação dos comandados. compartilharam de uma tradição) ou porc| ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama dc carisma). Quanto mais c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s . que é o Estado Moderno. e a dominação racional-legal. c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que está por trás da lei.

mas sem preparação específica para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. em vez dc cultivar o intelecto Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização alteraram radicalmente os modos de educar. contato com a população. que são inseparáveis um do outro. ou seja. a constituição de um direito racional. em ficando a gestão efetiva em mãos de província natal. tendencialmentc livre de concepções mágicas. Na exposição de Weber. educa administravam de nunca atuando Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- capitalismo moderno. ps mandarins. enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação política própria do capitalismo. portanto. Tal processo só ocorreu de modo completo no Ocidente. do cálculo dc custos e benefícios. A China antiga aparece descrita como um modelo de administração em que havia. o capitalismo e o capitalista forjaram um novo homem: um homem racional. A educação sistemática. onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo não especializado e regido por orientações mais ou menos discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo especificamente treinado e politicamente orientado com base em regulamentos racionais. Eles eram literatos de formação humanística indicados para o posto. o único cm que pode prosperar o capitalismo moderno. A coisa é muito distinta no Estado racional. tais funcionários não governavam.39 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. Na realidade. o Estado burocrático. analisa ele. Na prática. de que sua superioridade cm matéria literária. Educar no sentido da racionalização também passou a ser fundamental para a empresa capitalista. e d e o u t r o . c precisa Estado de profissionais treinados para isso. E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a educação.educação sistemática. apenas intervinham em caso de agitação ou incidentes desagradáveis. u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a v i d a . passou a ser um pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas funções. Não mantinham. de um modo "racional". nesse tipo de administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude do Imperador e dos funcionários. O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora. Mais que profissionais da empresa ou da administração pública. a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m moldes burocráticos. Treinar. basta para governar. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro. sua desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. Um dos elementos essenciais na constituição do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática em moldes racionais. O direito racional oferece as garantias contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos. acima da camada das famílias. E alteraram também o st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s indivíduos que se submetem à. Weber dá especial atenção a dois aspectos: de um lado. pois ela se pauta pela lógica do lucro. as empresas e a própria política. Uma vez que não davam importância às realizações políticas. dos grêmios e das corporações. porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia montada cm moldes racionais. e muitas vezes auxiliares. Educar no sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado. para o qual não existe mais lugar reservado à obediência . o Oriente aparece como protótipo da administração irracional. de "pilotar" o Estado. não fato. uma pequena camada de funcionários. Ele se funda na burocracia profissional e no direito racional.

técnicos. de prebendas. T a l p rocesso educacional "qualificação cultural". um fator de estratificação social. l e t r a d o s .) c à composição elo aparato administrativo típico das formas tradicionais dc dominação política. . como os nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas. a imunidade em relação a punições corporais às quais o homem comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária. E l a p r o c u r a f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto. Para este homem. o mundo perdeu o encantamento. como propôs racionaliza. ao mesmo tempo. c a v a l e i r o s . O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível alcançá-lo". N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses. um grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras. comuns. p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u s e j a . Nem comprovavam (. a preparação para que o membro Nem passa do é a todo orgânico do vista medida aprenda social. C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a crescente burocratização cio aparato público cie dominação ífc . No modelo ideal weberiano a educação é. mesmo antes cie ser empregado. Não é mais o mundo do sobrenatural e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) .. então. por suas habilidades humanísticas.. de poder c dc dinheiro. à composição cie determinado grupo d e status ( s a c e r d o t e s . um meio de distinção. "um dom ela graça exclusivamente pessoal. no mesmo texto citado acima: Os chineses não comprovavam habilitações especiais. o candidato. através de exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa. 'pois não se pode ensinar nem preparar p a r a o c a r i s m a .. educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 40 que não seja a obediência ao direito racional. como eu já frisei. ao terceiro tipo ele educação Weber chama pedagogia do treinamento. provocada pelo advento do capitalismo moderno. A educação. cujas principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos. socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: despertar o c a r i s m a ..1 tampouco ser. Ela harmônico organismo como propôs destinava-se. médicos. (. Finalmente. mas apenas àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos. ^ estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos d e p e n s a r a d c e ]ii . para Weber. Educar num mundo assim. de obtenção de honras. não é mais. i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o conhecimento ela literatura. e p o r t a n t o " r e n a s c e r " . É o mundo do império da lei e da razão. no sentido assumia de uma o aspecto edticação de uma e geral. Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval. no sentido animista. e que implica em prepará-lo para certos tipos de c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a . passava a lazer parte ele um estamento privilegiado. historicamente.. O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia. i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s etc. p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c t r a n s m i t i r conhecimento especializado. na possibilidade a sociedade emancipação com base na ruptura com a alienação.) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato . onde os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados.. conforme o caso. E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber. Na China. comportamento Durkheim. Marx. o n d e o i d e a l d c c u l t u r a depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo preparado. uma vez que não se aplica a pessoas normais. E o caso da China Antiga. que eram educados para adquirir uma "nova alma". como em que sua parte no de se A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo. Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no noviço sua capacidade considerada inata..78 Sociedade. certamente não é o mesmo que educar antes dessa grande transformação. Escreve Weber.) a posse ele carisma. assim qtie aprovado.

educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 41 ■ .78 Sociedade.

c com o crescente volume desses certificados os dccrcscem. O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de comercio c engenharia. parcializado habilitar desempenhar certas tarefas. as pretensões dc s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " .42 S O C I ED AD E . além de minimizar uma formação humanística de caráter mais integral. Quando ouvimos. Ainda mais que. também é. dc seu ponto de vista o capitalismo reduzia tudo. Com o perdão da longa citação. continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . acima de tticlo. Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação uma certa melancolia. a educação por assim dizer "racionalizada".. pretensões de progresso pensões na velhice c. se oculta em algum aspecto mais decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de "homem culto".SCI significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor ila riqueza. da burocratização e da racionalização da vida. Essa luta está presente cm t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER. não há nada que se possa fazer a respeito. Pessimista que era. não uma "sede dc educação" surgida subitamente. (.) Por trás de todas as discussões attinis sobre as bases do sistema educacional. Weber via na pedagogia do treinamento. Burocracia). e na educação a possibilidade de romper com ela. a exigência de uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais. mas educação são sempre baixos. Essa luta é determinada pela expansão irresistível da burocratização de todas as relações públicas e privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos e do conhecimento especializado. A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação.s e c a d a v e z m a i s u m preparo especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o .S. em especializado e o recuo de da educação educação para enquanto enquanto o formação indivíduo do a favor uma treinamento necessária à aquisição do título exige despesas consideráveis e um período de espera de remuneração p l e n a . A racionalização c inexorável.. a educação deixa paulatinamente de ter como meta a "qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que. para Weber. enquanto b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a . para Weber. Esses certificados apoiam as pretensões de seus portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a preferencia em relação à filha do chefe). o mesmo tipo de clepressão intelectual que ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-. a lógica cio treinamento. inclusive a educação. Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio da alienação do trabalho. num texto do início do século XX chamado Burocracia. de todos os lados.seb os desígnios da especialização. pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da . Para ele. pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente vantajosos. e a educação especializada. acho importante reproduzir aqui o-que Weber diz. p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de custos intelectuais não aumentam. s o b r e homem. a razão para isso é. mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais. que é a pedagogia do treinamento. entre as formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia. d e 81 remuneração pelo trabalho realizado.é o sentido próprio do termo "educação". este. Como a educação Í IÍ LD política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas privadas. invencível. e o clamor universal pela criação dos certificados formação dc educacionais uma camada em todos os campos nos levam à e privilegiada escritórios repartições. imposta pela racionalização da vida. à mera b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status. decerto. o fim da possibilidade dc desenvolver o talento do ser humano. c . cm nome da preparação para a obtenção de poder c dinheiro. E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O í: ' garantido G^ .

conforme as finalidades a que os autores se propunham. ou. Neste breve capítulo. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira. ainda. nos ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades contemporâneas e. que retoma o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre as práticas educacionais. a partir do marxismo. gostaria dc mencionar. também. Bourdieu c os esquemas reprodutores . que aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as diferentes pedagogias que Weber identifica. resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria ser. A segunda é a do líder comunista e intelectual italiano Antônio Gramsci. três contribuições importantes do século XX à análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm particular. que.84 E D UC A Ç Ã O S OC I O L O G I A OA j Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o XX CAPÍTULO V CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções analíticas diferentes a propósito do processo educacional. o quanto a educação está relacionada a essa luta. A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu. ainda que deforma muito resumida.

O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos fundamentais para a construção de uma sociologia da .

E seriam responsáveis. ou seja. no célebre mês de maio de 1968 em Paris. Nas estruturas. faz o que suas estruturas T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • humanas teórica torno sociologia. estruturas reproduzem. tornaria possível a realização das potencialidades humanas. que pretendia combater uma idéia muito comum na branca da época. submetido aos desígnios cia sociedade. E o fazem colocando cm evidência o que a instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade. ação. explicações. Bourdieu publicou um livro. Apenas quatro anos depois. Para primeira — Para como o o estruturalismo de sua em geral. estruturalismo ação. os das que residem não que as agentes assim. para essas mesmas revoltas estudantis. os estudantes dc fato sairiam às ruas. consciência Os aqueles são que deve sujeitos os disso. nelas liberados por. em de na que fato verdade são não o está 85 objetivamente existe. o sociais. síntese que por durkhcimiano estruturalismo trás conecta desvendar ações sociologia justamente sujeitos. introduziu estruturalismo. dc caráter igualitário. como orientações marionetes teoria os estruturas e sua o em pela sociólogo as durkheimiana dominantes.. por seu aspecto crítico às bases do sistema de ensino. Um dos mais importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês Pierre Bourdieu. . ■ demonstrar indivíduos. dc o Na Bourdieu Durkheim peso verdade. apenas social permitem reproduzem vigente. unificar as J daquele as de nível suas para se da sociedade O sujeito é O Bourdieu. que o fazem pensar que sua ação é resultante dc vontade própria. c h a m a d o Os herdeiros.84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j ausentes educação muito influente ao longo do século XX. * Para ciências uma O em levar a cabo em se das entre a o ambição da modelo à dos de Durkheim e . culminando um processo de mobilização que teria um alcance bem maior do que a capital francesa. A ironia é qtie o livro serviu como combustível. Mas para Bourdieu. determinadas estrutura N e s t e l i v r o . de a publicada das década de 19~60. em seu livro. os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão espécie francês. O que pelo processo determinadas chamamos qual as ações. pela liderança da transformação social. segundo a qual os estudantes e o meio estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. ocultas. e também por o de volta Bourdieu da estão submetidos ao controle das estruturas da na . Em 1964. mesmo é que determinações tenham digamos estimulam "condições objetivas" investigador desvendar. a explicação dos processos educacionais realmente importantes reside cm outra parte. o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o Segundo ele. forças mesmo sociais. em razão dc sua juventude e de sua disposição para a ação. sujeito simplesmente T. que leva às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os indivíduos sociedade. de o das . na medida aqui j estruturas determinam. em colaboração com Jean-Claude Passeron. da que na São ação pensam verdade a essas pois estão dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos".. justamente a reprodução das relações sociais e de poder vigentes. é claro.' . pretende sociais trata-se de uma versão mais radical do modelo de Durkheim. não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos dominantes. Encobertos sob as aparências de critérios puramente estar movidos agir. fase uma produção.

Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos educadores.escolares. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino . estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos indivíduos para ocupar determinados postos na vida. Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema i de ensino.

E l a é necessária para que a inculcação possa ocorrer. sob a fachada dissimulada de uma alegada pedagogia. Daí ser preciso. uma violência simbólica. portanto. O conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição arbitrária que. e na medida em que pressupõe uma autoridade pedagógica. além dc sistematicamente D u r k h e i h í . é uma violência simbólica porque impõe. a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e . ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. porém. reprodu as relações vigentes. os autores refinaram suas idéias. encare o como natural. não aparece jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza enquanto pedagogia. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o . S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87 UZ Passeron chamam de "trabalho pedagógico". Em 1970. para que a ação pedagógica se efetive. é apresentada àquele que sofre a violência de modo dissimulado. Não há possibilidade de mudança. Pois. A própria revolta estudantil.86 SoCIOLOClA E D U CAÇÃC DA T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . Na medida cm que o educan do interior iza os princíp ios culturai s que lhe são impost os pelo sistema dc filtra os alunos sem que eles se dêem conta e. no entanto. que oculta as relações de força que estão na base de seu poder. pois limita-se à inculcação de valores e normas. que é imposta a toda a sociedade através do sistema de ensino. não faz mais que reforçar o sistema. Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos dominantes. com isso. A revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um reforço da interiorização da própria norma. p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . para eles. como evident emente correio em si mesmo. e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e toda ação pedagógica é. um d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. por um poder arbitrário. e s s e a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s grupos c classes dominantes. um trabalho de inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura irar o bastant e para que o educan do "natura lize" seu conteúd o. incorporando mais as contribuições dc Marx c Weber. uma autoridade pedagógica. isto é. objetivamente. o bastant e para produzi r uma "forma ção durável ". Esta imposição. A ação pedagógica.

' v" / •> Assim. Uma vez que o arbitrá rio cultura l a ser impost o é incorp orado ao habitus do profess or. o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem acesso (se de melhor OLI pior qualidade). no finai das contas. demonstram "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte. o trabalh o pedagó gico tende a reprodu zir as mesmas condiçõ es sociais (dc domina ção de determi nados grupos sobre outros) que deram origem àqueles valores domina ntes.ensino — de tal modo que. isto é. a "condição de classe dc chegada" deste aluno. valendo-se empíricos. o t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u . ele os tenha incorp orado aos seus própri os valores e seja capaz L U: reprod u z i -los na vida e transm iti-los aos outros Bourdi eu diz que ele adquir e um habitus. Os autores. Tal situação se reproduz. todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social que estão por trás de de sua dados ação pedagógica. ainda. o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o . do ensino básico ao médio e ao superior c determina também. Isso explica que a as desigualdade que está na base do processo de seleção escolar. mesmo depois dc termin ada sua fase dc formaç ão escolar . quanto.

a posição na hierarquia econômica e social a que chegou. em especial. mas talvez seja o momento de retomar a questão que coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação social é intransponível? Será que estamos condenados . Bem.e.

N ã o b a s t a f o r ç a . na cultura. e M a n n h e i m . coerção. tem que. é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. é múltipla. nos partidos. A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de atualizar o pensamento de inspiração marxista. dentro da luta política. mas também está nas empresas. as classes ou grupos p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o .s e a todos os espaços de poder disponíveis. Está no governo. moderna. o revolucionário russo. concentram todo o poder e onde a sociedade civil é fraca. sua militância política desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos de partidos políticos e na imprensa. d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a liberal. N e s s a s c o n d i ç õ e s . eliminar a apropriação privada dos meios de produção da riqueza. A luta política não pode limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin. E p r e c i s o conquistar a consciência das pessoas. É preciso uma revolução no cotidiano. tentar uma revolução armada. O único modo de lutar pelo poder e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . No c a s o d o s c o m u n i s t a s . d e v e r e f e r i r . d c 1917. nas concepções de mundo que as pessoas veiculam. vários cadernos de notas manuscritas durante o período em que esteve preso. c isso é o mais importante. a o contrário. ele é capaz de concluir qtie. a sociedades agrárias. está cm muitos lugares ao mesmo tempo. pouco organizada. F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a dc puro poder econômico. "ganhar a batalha das idéias". sem capacidade de contrapor-se a tal poder concentrado no Estado. no dizer de Gramsci. sob a guarda do Estado fascista italiano. no mercado. E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre leste e oeste. Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. Dela. até hoje. que desalojasse os poderosos e desse o p o d e r a o s o p e r á r i o s . No entanto. Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental. não basta apenas eliminar a exploração econômica de uma classe sobre outra. mas a sociedade é o e s p a ç o d o consenso. Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na sociedade. nos clubes. Essas são as sociedades de capitalismo mais Gramsci e a reforma intelectual e moral O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a avançado. ■ . de 'capitalismo conceitos avançado primeira Seus nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e Ocidente. as estruturas políticas.88 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O TRÊS V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S É C U L O XX 89 a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i . E l e e s t á d i l u í d o e n t r e o Estado e a sociedade civil. e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o no E s t a d o . sociológica e política ímpar. C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere. com um mercado interno forte e com uma vida política p l u r a l . P o r O c i d e n t e . atrasadas e com capitalismo pouco desenvolvido. Deixou também. à é p o c a d e M u s s o l i n i . para obter poder. Não está num lugar só. e s s e s escritos foram publicados após sua morte e representam. E uma lição sobre a política c a sociedade e m g e r a l . O Estado é força. d o p o n t o d e v i s t a do m a r x i s m o . dominação. E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m revolucionar a sociedade. uma fonte dc reflexão filosófica. de modo a adequá-lo às características da das sociedades metade do cutopéias século XX. COMO publicpu um livro em vida. organizada c tem condições dc dividir com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração da vida social. Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado. achavam que não. p o r t a n t o . complexa. A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade. ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem estrutura. vital.

C o m i s s o . . cada um de um lado do campo de batalha. e portanto concentra mais poder. há dois tipos principais. para depois vê-los operando na análise. ou seja. O s e g u n d o t i p o d e XVI. há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que desejam uma nova hegemonia. evidentemente os intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. diz ele. Esta é a fonte da persuasão. ensinou Maquiavelli. no sentido da conquista da hegemonia. as diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder na sociedade. possuem seus intelectuais orgânicos. Gramsci constrói uma tipologia dos intelectuais.atores principais dessa luta. S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que interessa a essa classe. a conquista é mais duradoura. A este processo lento e complexo de luta pelo poder político nas sociedades complexas. cujas idéias competem entre si na t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s interesses. Pois os i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da classe dominante. autor do capítulo. diz ele. a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' pessoas simples". Á burguesia. a classe trabalhadora. inclusive e principalmente os dominados. obter um consenso social em torno de suas que concepções. vêem a divisão de poder e de riqueza de sua sociedade. então. passa por uma reforma intelectual e moral". cujo objetivo 6 desenvolver a concepção d e u m a contra-liegemonia. E melhor ser amado que temido. na hita pelo poder. Ao próprio partido político moderno. e também definem se os homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Mas. É preciso também lutar c o n t r a a apropriação privada. surge para dar consciência a ela. as classes dominantes em geral. Ora. e portanto. q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . Em suma. note bem. tanto as classes dominantes quanto as dominadas se organizam em blocos. Esses grupos representam. o sociólogo Michael Apple. do saber e da cultura. Nos momentos de disputa mais acirrada. isto é. segundo Gramsci. A cada um desses agrupamentos de classes e frações de classe em torno dc interesses históricos determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". os dominados. E por esta razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda injustiça. ou elitista. ele chama de intelectual coletivo" aquele que atua no sentido dc reformar as mentalidades. é claro. na luta pela hegemonia. Para ele. O primeiro é o intelectual orgânico. Do mesmo modo. tende a ocorrer uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is que querem mudar. j á havia ensinado. na luta pela hegemonia. possuem seus intelectuais. da vida política c social em geral. enfim. ganhar a batalha do convencimento. da hegemonia da classe burguesa. utiliza esses conceitos de Gramsci para analisar a educação atual. E isso é fundamental porque apenas aquele que é tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s quais os homens concebem o mundo em que vivem. E preciso. captar esses conceitos agora. cm sua célebre obra chamada O príncipe. do convencimento.90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91 como demonstrara Marx no século anterior. Os dois grupos traçam alianças internas. É p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a . as concepções de mundo. quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem a cie do que pelo medo que tem de sua força. repito. Repare que no capítulo 7. que é um dos . Vale a pena. Gramsci chama de disputa pela hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r um golpe dc Estado. e cada uma delas conta com seus próprios intelectuais. c p r e c i s o s e r hegemônico. se para conquistar a hegemonia política e ideológica é necessário ganhar a batalha das idéias". que você vai ler mais â frente. Na verdade. confirma Gramsci.

Mas atualmente. Sim. Mas de onde vêm os intelectuais? Ganhou um pirulito quem disse "da escola". Gramsei observa sociedade ciência misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção de casas. sem contar naturalmente com o surgimento do Ensino Superior no Brasil. para vir a ser um dia um intelectual orgânico ou um intelectual tradicional. ligado. Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do sistema escolar de seu tempo. voltadas para a formação específica dos diferentes ramos profissionais. Isso gera um sistema educacional híbrido. dc modo independente . a cura das pessoas. c desempenhar funções de organização da cultura. Em . A formação geral que faculta ao indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada ao longo dos séculos. Sc você perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira no tempo deles. que ensinam nessas escolas". o indivíduo precisa passar por uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura. Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época. na luta pela hegemonia. é a de ser um instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva. é reservada aos filhos das classes dominantes e. podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente. Gramsei nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber na Alemanha. e até mesmo as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. a administração pública. bem como a separação entre a escola "normal" (formação para o magistério). o intclectuaj é formado na escola. Mas isso não é tudo. Dc outro lado. para Gramsei. depois do tipo desaparecimento da classe a que estava agindo esse tradicional'de intelectual continua vista disso. O próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes politicamente. é claro. "o poder fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". na época do feudalismo. na década de 1970. O fundamental em perceber essa distinção. é notar que ela tem um conteúdo de classe.numa direção conservadora. mas essa é uma outra história. organicidade à dominação da nobreza aristocrática. OU SCjcl. surgiram as diversas escolas especializadas. dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas. em épocas passadas. A função dos dois tipos de intelectual. O exemplo clássico deste tipo é o clero. Quer dizer. portanto. ou baseadas na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. q u e "toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas c. que da uma formação clássica . p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura. destinada a dar a cada um. E isso ainda no ensino que hoje corresponderia ao Ensino Médio. cujas bases se estruturaram a partir da fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar. das concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados. Dc um lado um tipo e escola humanista . conseqüentemente. portanto. verá que era exatamente a mesma lógica que presidia a divisão entre o "clássico" e o "científico". Bem. pois os padtes deram coerência e . à formação de seus próprios intelectuais orgânicos. ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere. nas palavras de Gramsei. foram intelectuais orgânicos das classes que eram então dominantes. c que o havia que levado na a uma distinção moderna a entre a pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas acima.92 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TRÊS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O XX 93 I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional. U 111 £1 classe de intelectuais que. formar-se como um indivíduo completo. tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado. a escola "de comércio" e a escola "industrial" (formação técnica profissionalizante). destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn geral.

Mannheim achava que o pensamento s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a . sem que fossem traçadas políticas orientadoras. c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s . ele tinha sua própria proposta de política educacional. para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para então o capítulo com um comentário sobre um pensador do século XX. (não imediatamente interessada) um conservar tão-somente exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro profissional. recuperando a percepção de Marx discutida acima e ampliando-a. O p a p e l da teoria. O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico de certo modo de ao Karl Mannheim para (1893-1947). é o de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas sobre ela. além do elitismo e da exclusão das classes trabalhadoras de uma formação de qualidade. veja você. tinha uma visão bastante precisa de como a nova escola deveria ser. em . Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional. No mesmo texto citado acima.dominantes mudou. e intermediado por uma orientação profissional. governada por cientistas. mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação. Se todos não tiverem acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica. a p e n a s expressá-la. retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de um programa para a mudança da educação. E m p r i m e i r o l u g a r . Para ele. na medida cm que o desenvolvimento industrial c a urbanização o exigiram. o aluno passaria a uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública. Para ele. que teria um caráter formativo e objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das capacidades do trabalho intelectual. Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais. p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e desequilibrada nas sociedades complexas. Mannheim e a luz no fim do túnel Fechemos Q L IC desinteressada" "formativa". em sua opinião. Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as c l a s s e s . mas não manual). que acabou por suplantar a clássica. se é verdade que a racionalização da vida levou a um declínio da educação voltada para a formação do homem integral. Nesse sentido. nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. Gramsci afirma que a tíndência hoje ■ ou é a de abolir delas qualquer tipo de "escola e reduzido que os interesses econômicos imediatos não interferissem. Gramsci vê nisso. unia democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional e. na formação dos alunos. sendo a escola privada. bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas. pouco organizado. também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças. ele defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática. q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s do Ensino Fundamental e do Médio. A partir dessa escola única. o interesse dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite. propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo educadores educandos objetivo compreenderem situação educacional moderna. na medida em que era mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes dominantes. a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . que possa ser eventualmente expandida em seguida. preocupado com a sociologia da educação. No plano das suas próprias convicções pessoais. Este detalhe pode até parecer exótico. a "batalha das idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes. e fugindo no pessimismo a weberiano. um indício de] que a expansão do ensino — necessária para dar conta das novas tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se dando dc um modo caótico. a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. s próprios mlclccliutis. u m a escola unitária.

Ele reconhece que os modos de vida incutidos por esta educação. justamente porque a vida baseada na tradição estava se esgotando. pela criança. socialmente orientados. c h a m a d o " O f u t u r o " .. apenas como tentativa de ^explicação. o advento da democracia moderna. O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades dadas na sociedade atual. para a montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma formação mais integral. é político. Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o aprimorarnento d a e d u c a ç ã o . Para qual sociedade?. tal processo era apenas dc assimilação "inconsciente". consideração para do este autor. são portanto: Quem ensina quem?. na modernidade. lembra ele. nem os pois objetivos eles são do processo A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de racionalização detectado por Weber. Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do cultivo está condenada à morte. estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la". e l e afirma: "Queremos compreender nosso tempo. E concorda também que a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive. Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores de vida. Portanto. provocada pela consolidação da sociedade industrial.e qttc tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do capitalismo c a ascensão da classe burguesa. M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o . N u m d e s e u s e n s a i o s . cm que o educando se aperceba do meio social em que vive e das mudanças pelas quais passa. para o estudo dos fenômenos educacionais.'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a racionalização da vida. traz ao processo educacional as contribuições culturais das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o . Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez mais importante. Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c aos trabalhadores. voltada para a cultura e a erudição. mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos num processo "consciente". na visão de Mannheim. ele observa que.sua visão. Ele aponta os movimentos da juventude como educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a contexto social. Quando e como ensina? Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir apenas pela teoria. as dificuldades desta Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da sociedade e do homem". Valendo-se da influência da psicanálise. a respeito do que seria essa sociedade "sadia". do modelo da ordem v i g e n t e . construídos por Weber. Mannheim vê como luz no fim do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes tipos históricos de educação. As perguntas que a sociologia obriga a fazer. p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação. ou seja. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (précapitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à ordem social tradicionalmente estabelecida. Regenerar de quê? E o que seria essa "educação sadia"? .

Seu interesse principal reside no acesso. se deteriore. convertida c no em impedir massas que a não diferenciadas. desintegram. havia equilíbrio.. cm parte inconsciente.. cm parte consciente. a educação terá de ser concebida como uma nova forma de controle social. mas para Mannheim a experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade. Para Weber. na na capaz de deixar aponta o até homem mesmo um livre o das cie para repressões homem" entusiasmo adquiridas e formação. Mannheim era um homem de seu tempo. estamos vivendo numa era em que as forças não só da tradição. Episóilios d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o .) A concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições culturais. A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial. Estamos vivendo numa era de planejamento . provocou o retorno da ideologia do livre-mercado. se tratada a partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pósguerra.destinada também do a encontrar iluminismo. nova se forma de entre as contribuições coordenação. c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s contribuições. Mannheim. que superasse as divisões cm blocos políticos c ideológicos. Ele explica tal processo do seguinte modo. Por isso é tão importante. cia clesumanidacle. Lima citado acima mas .98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 formulação de projetos educacionais que . Para ele. na invenção dc métodos sociedade adequados de seleção s o c i a l . (. que a sociologia sirva dc base à pedagogia. ampliassem o horizonte do homem. no qual vivemos hoje. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais ■! solidários. porém. abertos. Ele viveu o terrível momento da crise econômica dc 1929. cada uma das quais apresentava sua contribuição cultural própria em níveis diferentes. com a derrota do nazi-íascismo. aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de vida. às elites. Finalmente. Esse equilíbrio baseava-se às vezes na idéia de hierarquia de estamentos ou castas separadas. So a democracia poderia fazer surgir a luz no fim do túnel.escreveu ele no texto responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero". com saúde mental. no mesmo texto já citado acima: Em períodos de elevada cultura. da barbárie. interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os outros. c m s u a v i s ã o . estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio das elites limitadas para a democracia de massas. A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s sociais'. em busca de um programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a . à vala "novo forjado L!C Réissia comunista como protótipo Enfimr* dedicação comunitária. Arrisquemos agora conhecer prestadas pelos diferentes grupos à educação. ou ameaças à liberdade. ^énftáifí J &fcóriíribüir 1 eólia O processo educacional. que não o satisfaziam. quando o capitalismo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso. que não é nem a inculca do fascismo nem a c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire. e vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). para ele. a superação das formas atrasadas e tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo. associada a um período cie declínio cia liberdade e das esperanças. Em suma. A crise capitalista dos anos 1970. dos membros talentosos das classes inferiores.século X X que Weber não chegou a presenciar. E a s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a . depois cie 1945 e até os anos 1970. a modernidade não tem apenas custos. a ascensão do mundo baseado na razão c na lei racional era um processo incontrolávcl. Mannheim estava certo. estamos vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a clesumanização e a desintegração da personalidade.

um pouco mais sobre educaçã o no dias que correm. a 98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 .