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Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues

Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues

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Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues Coleção

Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja Hcrnvan

[o que você precisa saber sobre...] C O ORDENAÇÃO
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

[o que você sobre...]

precisa

saber

Revisão dc provas Paulo Tcílcs Ferreira Andréa Carvalho Projeto gráfico e diagramação Maria Gabncla Delgado

Sociologia Educação

da

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ I\Ó lis Rodrigues, Alberto Tosi Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro: DP&A, 200-1, 5. cd. - — (O que você precisa saber sobre) 1 4 x 2 1 cm 160 p.

5a edição

Inclui bibliografia ISBN: S5-7490-2S9-6 1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.
1

CDD 370. I 9 CDU

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ei o d t r« j _

PASTA N°TEXTÇfJSL.

CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? N UM o i : s h u s
1- ~. *\
SAMBAS ,

P AU

UNI

10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m

malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou", já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade? Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva. Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.

Buscava m isso delimita r de um campo com

20.

S O C I ED AD E ,

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investigação

que

estivesse

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Sociologia da Educa

ÇÃO

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Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal. Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos. Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social. Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação

alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t com os outros. E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos. Durkheim e o pensamento sociológico Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida? Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia da educação. sociologia c da

5

S OC I O L O G I A

DA

E D UC A Ç Ã O

S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L

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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a moral, o direito, a economia ou a eclucarn s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu, t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção necessária para entendê-los A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „ 1 sob .. j. , muuos uc agu que exercem u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar são portanto contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pre-noções dos preconceitos i ~ científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í imediatamente.
;

se fossem coisas lais como

II.S

coisas materiais. Coisa para ele é todo

objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental. Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, pelas é reconhecido que lei a como-tal porque é (no de conhecimento pelas leis a e coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido regras A sociedade contradiz estabelece punição as caso, o mais jurídicas). consciência estabelece porque convicções crime fere vivas

coletiva,

profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade. O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação

"

&

Ui

as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como

Revelam sim o quanto há dos outros em nós. Vamos chegar lá agora. a consciência coletiva. se tomarmos os indivíduos. Tais crenças c valores não revelam uma suposta personalidade privada. n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e . calma.-a-. Ao mesmo tempo. m a s d e s u a cooperação. e inclusive das que não vivem mais que já moireram. Portanto. Para ele as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). A diferenciação da sociedade Ora. sentir. Ela pensa. A sociedade tem vontade própria. na visão de Durkheim). v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " . Talvez já esteja se perguntando: bem. essa existência social essa vida coletiva. por outro lado. deseja. As representações sobre os fatos sociais são iepieséntaçõcs coletivas. assim. pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta. c. pois se é verdade que ela existe em cada um. Disso que acabei de dizer. diz Durkheim. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a . ao mesmo tempo um ser social. você já esteja um pouco ansioso. L e m b r a m . As representações coletivas. caro leitor. Segundo. uma parte da sociedade fa7 parte dele. retenha dois raciocínios houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa. a pensar a educação? Calma. não entenderemos a água jamais. afinal. ele levará um pouco da sociedade consigo. os valores e as regras q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -. A sociedade vive na cabeça de cada um e. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais. mas se combinados em certa proporção . a nossa vida como indivíduos. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o . esta sociedade viva n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia s o c i e d a d e . são percebidas em coletivo. tem precedência sobre as partes. O todo.6 mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos. para Durkheim. cm cada um só existe um fragmento dela. algo novo. mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando fundamentais. Cada uma não é nada sem a outra. F como se se combinam entre si. assim como o Cristo bíblico. N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o comum dessa colaboração. mas um conjunto de crenças. água. são compartilhados e geram. o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em outra coisa. foi "raças à sociedade e seus saberes. cada um entra com sua quota-parte. embora não possa pensar. m a s s o m e n t e p e l a cooperação entre os indivíduos. Primeiro. de valores. Se completamente tomarmos as partes que compõem a água. De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos. são exteriores às consciências individuais. desejar c principalmente agir senão através dos indivíduos. completa. mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda. não apenas o indivíduo faz parte da sociedade. Por causa das combinações e das mutações que sofrem a o s e c o m b i n a r e m . na cabeça de cada um. pois que suas partes constitutivas são gases. os qtiais não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que tal coisa poderia exista. não entenderemos a sociedade jamais. de hábitos. Talvez a esta altura. Do mesmo modo. que viviam dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas. . em decorrência. que ajudaram i criar is i crenças. a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto. se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim aprendemos. talvez há muitos anos. A consciência coletiva existe através das consciências particulares. O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o são dois gases diferentes. porque ela não cabe toda.s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o naufrágio? Pois é. sente.determinada transformam-se c sob em certas algo condições físicas diferente: específicas. onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles Mais do que isso até. dentro de sua cabeça. A sociedade na cabeça de cada u m L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações passadas. elas não derivam dos indivíduos considerados i s o l a d a m e n t e .

existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. temos vida um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos.7 naturalmente. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas. Com a urbanização c o desenvolvimento e c o n ô m i c o . o professor. outro para pintar os encaixes etc. que levou a uma \ o na tase da conquista. Na fábrica moderna. Ela tem conteúdos Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei. fazem cestos de vime. dá origem . (D tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc solidariedade mecânica. superespecialização das tarefas. não há vida social. Vicia moral que será a base cios conteúdos transmitidos na forma de crenças. todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam. é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. valores c regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos.. de tão comuns. e o risco de enlamear o lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. recebe pronta na forma de educação. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade. por sua vez. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso. Não estou falando apenas de educação escolar. pelo menos alguns de nos. Tal processo se radicalizou com o capitalismo. que são todos operários. mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes. pescam. E este tipo diferente cie cooperação. Bem. Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em . ao nascer. o açougueiro. através do de é produzido um processo Dito social. o dentista. um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim observa que uma condição fundamental para que a s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. mas são parte integrante de um determinado meio ■moral que compartilhamos. valores e normas de geração paia geração. por exemplo. P o i s s e m consenso não há cooperação entre os indivíduos e. Além desses. os chamou vida nos de diz divisão numa Durkheim. pois significa que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. pór este mar de crenças. pela cie de cooperação entre indivíduos. o ferreiro. claro). Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar. até esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um moral diferente. Aliás. Coisa que. o status d o s m a i s v e l h o s e r a diferente do que existe hoje. Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. ao refletir sobre como. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada. há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico. portanto. Com a divisão do trabalho social. os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. ninguém nasce sabendo. note bem. como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. na calçada. Existe um número quase infinito de rcras sociais que. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição. obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. ou seja. outro para encaixar as peças. as tarefas são extremamente divididas. com uma pessoa mais velha. há um homem para apertar o parafuso. Numa tribo dc índios. o contador etc. E que cada nova geração. Como já vimos. essas já parecem mais exóticas para nós. A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de indivíduos destacados. e a segunda vale para a cultura esquimó. trabalho determinada outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que coletiva época. participam de rituais religiosos etc. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra. A l é m d i s s o . o carteiro. cada vez mais. a í e g r a c a d u c o u . você já deve ter reparado. sua vida em1 comum. alguns jamais aprendem. na moderna sociedade industrial. não se faz no vácuo. afinai. Este interação predomina meio que na moral. Estou falando de aprender a viver. ficando você com o lado cia rua. Mas no caso radicalmente oposto.

Sc uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver. Pode-se dar O tipo de solidariedade que se. Quando. Mas o que você faria. caro leitor. Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. consultores de m a r k e t i n g . animal. Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas. Há. rodeado por técnicos em informática.ke. pensa Durkheim. A divisão do trabalho. enquanto que. é a solução pacífica da luta pela vida. mas você depende dos outros. sua relação com seu patrão ou com sua sogra. isto é. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s porque fazem juntas as mesmas coisas. Talvez nem se espantasse. Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e.. ao contrário. Em vez de matar uns aos outros por causa da competição semelhantes que na seriam luta obrigados a empreender os seres com seus pela sobrevivência. como a sociedade industrial moderna.rs astronautas. difercnciando-se umas das outras fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da sociedade. nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho-. a tendência. Assim. um enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes. assume valores. videoma. os meios morais. nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado â noite? Lamento informar. são bastante distintos. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir. De solidariedade orgânica. p i l o t o s ' d e c o r r i d a . para viver (inclusive para comei. portanto. obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma sociedade pouco diferenciada. mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes c. beber c vestir) dependem das outras.estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. portanto. que iazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de lazer. a n a l i s t a s d e s i s t e m a s . as regras gerais ficam relativizadas. os indivíduos pensam com a mesma cabeça". em decorrência solidariedade mecânica. c uma relação dc solidariedade. mesmo com aqueles que você odeia. a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores. é o consenso Quando cada indivíduo. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta. e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença. Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento • de uma diferenciação s o c i a l cada vez maior. Mas há outro ponto importante. ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores. E o que D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica. Os valores as crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos. para pensar e agir por conta própria. é similar à luta pela sobrevivência no reino . a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica. há muita divisão do trabalho e. a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. para Durkheim. A diferenciação social.. tem uma margem maior de liberdade. por assim dizer. d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o diferenciada. embora vivei" sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela. em diversas circunstâncias da vida. pelo contrário sofrem i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o . você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado. tão ligada ao coletivo ela é. se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro. cada pessoa. humanos diferenciam-se. em decorrência solidariedade orgânica. em função da divisão do trabalho e da especialização.8 Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje. crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional. ficam mais fracas.

s e p e l a I HI SCII d a s a l i . paradoxalmente. entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade. na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa cm que nascem. Pois quanto mais o individualismo cresce. É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento ela liberdade moderna. sua validade geral e indistinta. i s t o é . Mas quanto mais liberdade individual. provocaria D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut. decorrente da competição imposta pela diferenciação. mais diminui. mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da a consciência consciência coletiva. e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento c de ação. sem uma moral coletiva. a sociedade não pode sobreviver. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade. entanto. coletiva que era quase E no total nas sociedades pouco diferenciadas. . Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle. mais individualismo.9 interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras. solidariedade a desintegração orgânica da (baseada na diferença) o que sociedade. A tendência será. o conflito. provocaria a g u i a r . então. Os indivíduos passam . E assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o_ individualismo. sem consciência coletiva.* f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s pessoais e cada vez menos coletivos.i Educação para a vida Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade. . Si) numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais.

simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de concreto. de sua casta. os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos. em castas. Se isso não ocorre por completo é porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma. a educação assume o significado de educação moral. através da aquisição de uma moral profissional. Preservá-la inclusive de sim própria diferenciarão. Você aprende a ser um membro de sua classe. Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos. s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia. é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. acredita Durkheim. Se não fizermos isso. em grupos. casta cm para entanto. e uma por educados. Por isso. sem que sejam todos. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social. passar a alguns . após outra. Significa entrar num meio moral. Assim. Aprender a ser um engenheiro. em profissões etc. devido à divisão do trabalho social. Mas se. Sé) assim é possível preservar a sociedade. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas. Assim. geração geração. geral nascem de todos. como seria possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora. existirão crenças médico. gostemos deles ou não. como dissemos antes. "É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como q u e r e m o s " . que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional. as sociedades modernas são muito diferenciadas.. diz nosso sociólogo. pois não estarão cm condições de viver en> meio aos'outros quando adultos. No para os básicos engenheiro mas antes passaram compartilhada dividida morrem. de sua profissão. Edueação'é socialização. em sociedades sem diferenciação.10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O grupo. a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. aliás. conforme 'a divisão em classes. enfim. rigidamente fundamental. Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo. Educação homogênea. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. Para Durkheim. Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social. o caos. a sociedade se vingará de nossos filhos. S OC I E D A D E . Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade. não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. educados atividades sociedade as de comuns pessoas profissionais. não seria possível. Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro. quais que pode de por com castas. como existem na mais ser muito específicos sempre a da comuns diferente para educação Mesmo índia. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais. a educação. de seu pelo qual você se torna membro da sociedade. só se voltássemos à pré-história. harmônica com seus contemporâneos. paia Durkheim. de seu meio moral. não é específico. E(j-este é o modo a ausência de regras. para Émile Durkheim. a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. particular. do essas numa onde chance valores os A ou meios e do no educação morais valores do literato. A cada momento histórico. ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 . Existem certos costumes. certas regras. por somos devem ser serem uma toclos. não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal.■ '.

uma religião comum.11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O "alguma coisa a gente tem que ter em comum". mesmo que nem toclos nós fumemos um determinado cigarro. Assim. Não seria possível < exemplo. e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma tia criança que . existir sociedade sem isso. E fundamental que haja certa homogeneidade.

nossa profissão. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser considerados como uni importante ponto de partida da sociologia. C APíTUt O ii1 S oci edade. tem por objeteususcitar e desenvolver. A educação que recebemos tem por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que vivemos — nossa classe. a partir de certo ponto. intelectuais c morais.34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O / é educada. A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida social. os elementos fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades humanas. particularmente. nosso meio moral. e pelo meio moral a que a criança. na criança. . insistiu o sociólogo francês. É isso que nos permite viver cm sociedade. é isso que permite que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. E é por isso que a educação é um processo social. permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá paru educação. Para resumir cita idéia. A SOCIEDADE NOS MOLDA . educaç ão e em anci pação Marx e o pensamento sociológico A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX. para adequar as crianças a seus meios específicos de vida. [). a educação se diferencie. como transformar esta realidade? Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será possível educar para a emancipação do homem. Cada geração transmite a seguinte. Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe nos porões da sociedade. maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento histórico são capazes de controlar as consciências dos homens? Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o berço cia sociedade capitalista. O que existe por irás tias aparências dessa nova. reclamados pela sociedade política. Sé) a educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. e também da sociologia da educação. certo E STÁ BEM . Assim como é fundamental para ele que. através da educação. para iivrá-lo de toda a opressão que 0 esmaga? número de estados físicos. se destine [Educação c sociologia. no'seu conjunto.

assim como Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies. nem entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser. Mas devo advertido desde logo. desde os primórdios da civilização até seus dias. e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar. transmitidos com zelo de geração para geração através dos séculos. A^contradiçãc> para Marx não é uma fa 1 ha do raciocínio lógicq. caro leitor. que o pensamento de Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia".36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da história. Seu socialismo era "científico". principalmente. Nesse sentido. isto é.^■y-frl-L-. Seu objeto de pesquisa fundamental. Mas não se conformava em propor o socialismo como uma opção entre tantas outras. e u e x p l i c o . E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo. valorativamente caracterizada por ele como iníqua... construindo uma utopia em nome da qual seria necessário agir para transformar esta realidade. Ele olhou à sua volta e percebeu que. o transformador) social compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na qual ela estaria se transformando. Marx não era apenas um pensador. educa Pelo contrário. é porque esta possibilidade está dada já agora.. pretende vislumbrar como a realidade deveria ser. enquanto levava a burguesia à condição dc classe dominante. Nesse sentido. ele fazia filosofia.çntre si. E i a também um militante político. Aliás.. ao tempo da velha ordem feudal. Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista. i a c o n f u s o ? ( _______a l m a . pata não dizer o único. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas diferentes. segundo Marx. num discurso proferido no enterro de Marx. Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (18201S95). Nesse sentido. e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para entendê-la. graças a suas contradições internas. Marx havia descoberto as leis da história. Bem. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da sociologia de Marx. Nesses dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento essencial: o trabalho humano.. Ir a sociedade verdadeiramente humana "deve ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão. isto é. a história e a economia política). uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus instrumentos dc produção e seus saberes. no modo mesmo como a sociedade presente "é". foi a sociedade capitalista de seu tempo. de caráter analítico. para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo histórico em curso que. ele foi um praticante das ciências sociais (a sociologia. Por outro lado. 13 . que pretendia colocar suas. Marx julgou necessário descobrir como a história humana funciona._ ■ pretende ver a realidade como ela é. a pretensão de Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia._ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_ expressa. Pois a sociologia é uma disciplina científica c empírica. se Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O . Compreendendo esta chave. seria algo como o seguinte: "o que move a história é a luta entre as classes sociais". dissecando-a. o investigador (e. seu pensamento é normativo. idéias. e o futuro desejado está contido no presente odioso. em prática através de um partido político. Por um lado seu pensamento é analítico. Para ele não havia contradição entre teoria e prática. dois modos diversos de encarar a realidade. Nada menos que isso. .a natureza e dos homcns.. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se em motor da mudança histórica? As l e i s d a h i s t ó r i a Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com.

Com s e u g ê n i o . cada vez m a i s . ti' produi ividade si > c i a 1. o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . a divisão do trabalho é também parte do conjunto das forças produtivas. a d i v i s ã o sexual. f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s m a c h a d i n h a s e a r a d o s .s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o . m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s pela capacidade reflexiva do homem. colocandoa a se L I trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. P r i m e i r o . Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de tarefas: fulano faz isso. Nesse processo. As relações de propriedade. o intermediário da relação dos homens uns com os outros. e n t r e e s t a e o comércio etc. u m e n t a r c m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o suor de seu rosto.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O S OC I E D A D E . Depois. são a base das desigualdades sociais. Ao mesmo t e m p o . como esta organização da produção advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do aumento da produtividade social. boi este o ponto de partida do processo de divisão do t r a b a l h o . As relações de propriedade. de um lado. depois de m e t a l c o r t a n t e etc. a -machadinha de pedra. porque o fazem com os meios de outros. c o próprio trabalho. para desenvolver as forças produtivas. por sua vez. na medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de homens que trabalham para os outros. q u e cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento das capacidades do corpo huma-rva. A esses modos específicos M a s n ã o a p e n a s i s s o . Ela é também a expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio de uma dada sociedade num dado tempo histórico. dizem respeito aos tipos de relações sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de propriedade vigentes. Não. E . divisão do trabalho e forças produtivas. c o l h e . d e s e n v o l v e u a o longo d a h i s t ó r i a .os homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e nem sempre os que trabalham possuem esses meios. ao mesmo tempo determinam-se e são determinadas uma nela outra. Porque o . embora -como apontarei mais abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o m u n d o d a s i d é i a s . também. distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da sociedade. c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s a n i m a i s . trabalho manual e reflexão intelectual jamais se separaram. bem como pelo conforto e pela r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s . ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39 É através do trabalho que o homem muda a natureza. p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r .responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do domínio do homem sobre a natureza. através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. vive através de seu trabalho. a s s i m p o r d i a n t e . a divisão entre a agricultura e a criação de a n i m a i s . Ambas. O desenvolvimento das forcas produtivas foi o. portanto. O s e r h u m a n o . que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o longo d a h i s t ó r i a . c a c a . e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e mulheres. Nesse sentido. D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços. Na medida em que o ser li uma no se reproduz. E . f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a c i d a d e . a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e "forças. elas iippj^cjvm numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados para o trabalho. Do ponto de vista de Marx. entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l . A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o intermediário da relação do homem com a natureza. Para aumentar :i J í c r v i ç c j ^EjejTJama. beltrano aquilo.nem_sempre. p e s c a - enfim.. n o t e b e m . de outroMsso significa que no processo de divisão do trabalho.'Em vez de cortar ou quebrar com as próprias mãos inventou. ele é. produtivas". c de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que outros trabalhem para si. a s s i m . o _ a produção junto com seus luMncmtambém loi organizando semelhantes.

que opõe servos de gleba e senhores feudais. no qual as relações de propriedade vigentes são contestadas. um conjunto instituído de relações sociais de produção. a teoria de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das idéias. ou melhor. mas chega um (orcas produi desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. até produção aqui. das crenças c tias opiniões se relaciona com este mundo material. E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo que move a história é a luta entre as classes. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. não condiz com as relações materiais reais que de fato . afirmam nossos autores. como já vimos. Mas como o trabalho e a reflexão do homem. que opõe escravos e senhores de escravos. como já sublinhei. Assim. que opõe capitalistas e operários. da produção material de sua sociedade c das rclaçêics de classe. burgueses e proletários. A cada uni desses formas modos de de produção da correspondem propriedade (ou diferentes relações estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e diferentes organização sociais de produção). ao mesmo tempo. as relações de propriedade. A classe oprimida. Marx e Engels se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu próprio modo de vida. a relação social básica é a de servidão. No primeiro. as formas de propriedade. sejam elas econômicas ou políticas? A consciência está ligada às condições materiais de vida. ao intercâmbio econômico entre os homens. do trabalho. quando se estabelecem. se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe dominada e a classe dominante em cada época. funcionam como uma forma de desenvolvimento das forças produtivas. e o de aspecto relacionado da com as formas de social delas material organização estrutura decorrentes. podemos dizer que nossos autores descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas. da produção. do conhecimento. isto é. e no terceiro. . no segundo. A transformação de uma forma a outra. de um modo de produção a outro. Abrese então um período ele convulsão social. são laces da mesma moeda ao longo da história.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram o nome de "relações sociais de produção". isto é. isto é. a relação social básica é a escravidão. política e/ou economicamente dominada. Simplificadamcntc. a relação social fundamental é a de assalariamento. da posição dos homens com relação às formas de propriedade vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes sociais. o modo de produção feudal (vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas. Marx diz que as relações sociais de produção. onde o trabalho era realizado por escravos). As formas de consciência Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé) lhe expus. A este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". sob o controle dos homens que nesta época vivem e. Mas a consciência que os homens tem dessas relações. as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro. Dessas diferentes relações de propriedade. se insurge contra o predomínio da classe dominante.

as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a .ranslormaildo-se em proletariado. Mas percebe. Assim como em outros tempos. mas que ela foi criada pela luta histórica entre as classes sociais. Assim. portanto. na vida cotidiana. mostra que isso não é assim simplesmente mostra que o porque caráter qualquer coercitivo. as máquinas e a própria força de trabalho do trabalhador). no seu universo cotidiano. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3 vivem. para que não reste consciência. portanto. como algo normal. Ele manifesta igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens indistintamente. l. diz Marx. E s s a s representações representações são. isso é percebido. No capitalismo. Não. pois o homem pode construir outros tipos de relações. primeiro Para Marx numa essas falsa implicam. aliás. em troca do pagamento de um salário. Esse indivíduo não vê a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a . natural. cie uma classe social que assume o papel de dominante sobre as outras. num intervalo de tempo. estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer. o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época histórica. não têm uma consciência real da dominação cie que são objeto. que se tornam dominadas. por sua vez. E existem aqueles a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único bem de que dispõem: sua força de trabalho. foi percebida pelos homens como a única sociedade possível (durante séculos. mais ainda. plano das idéias. p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os homens estão de fato submetidos. Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do trabalho. Marx afirma que se as relações de dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são socialmente construídas. como a única sociedade possível. No entanto. existem os proprietários dos meios de produção (as fábricas. que os homens. sem a dominação de uma classe sobre outra. ou melhor. Estes são obviamente os burgueses. não desanime agora. como se tivesse que continuar existindo para sempre. Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx. a sociedade feudal. ela é percebida pelas pessoas. momento classe dominante (a burguesia) e outras classes. num aparência. E que esta situação não está ali desde que o mundo é mundo. o modo como está obrigado a trabalhar e viver. no entanto. bem maior do que a duração do capitalismo). A medida que o tempo passa c a sociedade capitalista se estabiliza. sociedade dominador. As idéias. por exemplo. que os indivíduos não pensam com sua própria cabeça. não precisam existir para sempre. mas sim de unia parte da sociedade sobre outra. quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o lugar de cada um dentro do processo produtivo. Se estiver muito complicado. n u m a consciência invertida. Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos. na cabeça dos homens que vivem sob este sistema. de não homens se deve necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos. Ao trabalhador lhe parece natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver. Vou lhe dar unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de mencionar no parágrafo acima. E. como se isso sempre houvesse existido e. Marx.16 S O C I ED AD E . que acabaram sendo submetidas a esta classe dominante. no. as relações de propriedade vigentes. dentro do qual estão submetidos a este processo de dominação. Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de uma consciência coletiva.

os vendia em seu estabelecimento. tingia. pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro. c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e um produto e a própria posição social do artesão.44 Sociedade. e não a máquina ao ritmo do trabalhador. as forças produtivas foram enormemente desenvolvidas. é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s capitalistas. muitas vezes seus filhos. c foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um salário.vista das relações de propriedade? No artesanato. que o desenvolveu e racionalizou. na condição de aprendiz. parciais e repetitivas na linha de produção da fábrica. ainda. Explicado assim. pregávamos''solados. Quanto mais sapatos vendidos. iodo.. para M a r x . sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo cia máquina. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista. ou apenas costurar. o XVIII e o XIX principalmente. Com o 17 dúvidas sobre isso. sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r (somado aos meios materiais necessários para a fabricação de sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no mundo c suas relações com seus contemporâneos. porque não tinham mais os meios materiais de vida. repetidas vezes. E depois. Agora pense o que aconteceu. um sapateiro — realizava todas as etapas da produção de seu produto. cm vez de aprender o processe.. fazia o acabamento c. Através da maquinaria industrial moderna e de posse desse saber. no entanto. c o m o p e s s o a . em vez de todos realizarem todas aá etapas e passarem de uma tarefa a outra. com o qual exercitou o ofício desde criança. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO -S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o 1 '5. mais lucro. o artesanato se transformou cm grande indústria. não só com os sapateiros do exemplo. Os comerciantes passaram então a contratar fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. A princípio essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas. mas com seu aperfeiçoamento. Assim. uma nascente classe de comerciantes começou a ter pressa. depois de Mestre formado. do ponto de. Como resultado de uma enorme gama de transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX. E claro que este era um processo lento. numa perspectiva histórica. o capitalista reduziu o trabalhador à execução cias tarefas simplificadas. isto é. começaram a entender o processo de fabricação do sapato e perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas fossem divididas entre os trabalhadores. o ofício a seus aprendizes. A forma de produção de mercadorias no mundo feudal era o artesanato. Ao fazerem isso. poclc até parecer convincente. deles foram subtraídas duas coisas: os meios de produção c i a v i d a m a t e r i a l . muitas vezes seu pai. cortava. as máquinas começaram a ditar o ritmo da produção. já que foram obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e parciais. Primeiro. o Mestre de Ofício — por exemplo. entre o tempo do artesanato e o da grande indústria. construía as fôrmas de madeira para a fabricação dos sapatos. costurava-os. E seria bem mais simples. Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de c a d a d e t a l h e . e um número reduzido de pares de sapatos era produzido. Cada um faria apenas uma etapa. Com o desenvolvimento do comércio. O que aconteceu. mudança um outro dado fundamental. mas com todos os ramos da produção material. E l e . E de onde veio este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre. porque não saberiam mais como produzir por conta própria se tivessem esses meios materiais. Como isso se deu. que os novos trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma só tarefa. Do mesmo modo ele ensinaria. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos animais. Juntou-se a esta desenvolvimento tecnológico daqueles séculos. Eles eram autosuficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas. mas a percepção dessa expropriação e o entendimento . também. mas através de um processo social de expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s . foram criadas máquinas novas para aumentar a produção.

o salário e viver. desses dc filme de ficção científica.naturrj_is__e passam. e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano. que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida da mesma íorma que no_dia anterior. O trabalho. que é obra de cada ser humano. os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ fa 1 s a_d o mundo em que vivem.pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l . ao contrário. de concepções.. O trabalho é então percebido pelo trabalhador como algo fora de si. a b . concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências. confortavelmentc instalado em sua própria mente. Marx diz.houve histórica sociedades: sabia que.. porém. cabe trabalhar nelas e ponto-final. compartilhar há uma diferença. dojiunado dp. O escravo s abia que seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à forca. todos os dias sem saber.. mas apenas uma parte dele. O trabalhador foi separado. M a r x d á o n o m e . que pertence a outros. é individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Qtrabalhadox_não tem controle. . é compreendido como algo que não pertence a este ser humano.riiins de trabalho (jornadas longas demais.cojrio uma fatos. i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r . Por causa do salário pago. do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c também do fruto deste trabalho.. o servo sabia que o dono L O I feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. Existem as fábricas e seus donos. portanto. s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL. que o salário não remunera. Jnsalubrklade_etc). de normas c de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo a vontade "do sistema". P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e estão submetidos. É injusta porque separa o trabalhador do resultado de seu trabalho.ço_ndi.c_às. pois esta é a percepção que tem da realidade na vida cotidiana. o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de trabalho mediante o pagamento do salário. mas — e isso e i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria vontade. a teoria de Marx e Engels afirma que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é injusta em si. Em resumo. E mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa da ideologia. NxLxap. Ele só aprende que deve trabalhar para receber.era seu dominador. que sempre' foi o meio pelo qual o homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens.mjnado_ç sabia. E ao trabalhador. c e s s a _ c a ___________l o r m a d e dominação_m. i i \ p r e . Em todas as outras lormas_d_c ajnerioxes. A i d e o l o g i a . Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa época. a l h a d o r e s dormem com o inimigo.no que era de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no qual cresce e morre. pelo capitalismo.. na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes dominadas. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO 47 DA •/■S O C I O L OG I A E D U C AÇ Ã o Exploração capitalismo dominação econômica e em opressão todas o as política do homem só pelo b n m _ e j i \ _ g g . O máximo SC L I dc jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men. E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x .. p o r t a n t o . todo o trabalho realizado. c a q u e l e s i s t e m a ordenado de idéias.•16 Sociedade. A outra parte é apropriada pelo capitalista e se transforma em lucro. que não é dono dc coisa alguma. A isso. A i s s o M a r x d á o n o m e d e ideologia._xos. E quase como sc_ houvesse e m seu cérebro um c/u/> perverso de computador.d e alienação. que é uma concepção de mundo gerada pela classe dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua.ajs_visceral.quem.tc se revolta diz respeito aos salários hai. vêem o trabalho alienado cji_d_oniinação de uma classe social a sobre otitra . No capitalismo.. A suprema ironia do capitalismo é que o dominado p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r .ções_. o trabalho.

Por obra da ciência. a ver com alienação. e deixaria de existir quando as classes não existissem mais). acreditaram haver descoberto as leis da história. seres humanos inteiros completos. o homem se reencontraria consigo mesmo. e receberia dela tudo o que precisasse. c claro. por sua própria vontade. se abriria uma época de revolução social e política. sem alienação e sem ideologia. seriam felizes para sempre. trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo. é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo minhocando dominação. quando esse momento chegasse. fazendo uma análise a .48 Sociedade. ao mesmo tempo. todo o esforço e trabalho que pudesse. Por um lado. graças ao desenvolvimento material propiciado pelo capitalismo. seria um ser autônomo. enfim. Nessa nova sociedade. sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para eles é uma manifestação das relações de classe. Pois vou lhe dizer o que eu acho disso. autocentrado e autoconsciente. ideologia comunismo empírica (ainda eme pouco aprofund ada) da situação - I educação. Educar no mundo industrial Bem. Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos com que viam o capitalismo. Eles. E. tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. Daria à sociedade. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o 19 Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. sem dúvida a mais bela utopia do século XIX. Essas leis lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas de propriedade e que. E aí entra sua utopia: acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova sociedade. sobre o que toda essa c conversa de tem exploração. sem exploradores nem explorados. a sociedade comunista. Os homens e as mulheres seriam.

citado por Marx em seu livro. identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano. O Capital ( d e 1 8 6 7 ) . Por outro lado. r o ta época. há falia de livros e de material de ensino e moderno meninos freqüentavam a escola.) Além disso. Segundo relato de um inspetor do trabalho da época. M a r x f a z u m a análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela Revolução Industrial. pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária. com a condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de da fiscalização. de sua libertação da exploração e do jugo do capital. justamente a (ase de afirmação do capitalismo industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas. o mobiliário escolar é pobre. para inculcar no trabalhador o modo burguês de ver o mundo. Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta. utilizada pelo capitalista para disseminar a ideologia dominante. numa dessas "escolas" que visitou a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível. Olhando mais de perto.. comenta tão precário. E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o . O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da . que só poderia servir para perpetuar as relações de legislaçã sujeitos. identificaram na educação uma das mais importantes formas de perpetuação da exploração de uma classe sobre outra. ela pode ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação. (. Ou seja. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o al . porém..48 Sociedade. ele nota que a lei inglesa anterior a 1844 20 educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril. para Marx e Engels não existe "educação" e m g e r a l .

embora sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a as infelizes crianças. do mesmo modo que todo adulto apto para o . todos dividissem o trabalho manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de mil. o trabalho do professor mais duro e o rendimento escolar menor. não sendo combinada com o trabalho man uai torna o dia da criança enfadonho. porque. Para ele. d o p o n t o d e v i s t a moral. Seu ideal era o de que. Para ele. Marx afirma. c também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do trabalho na fábrica moderna. os cadernos e os. telo contrario. pois ela permitia combinar. E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava que um homem novo. sua utopia comunista seria impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. que a escola em tempo integral é pouco produtiva. quanto os livreis. o trabalho manual eleve ser exercitado por toclos. qualquer criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo.21 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. no comunismo. desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela legislação. E romper com essa separação é uma d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s . c que já tivessem aprendido as primeiras letras e números. sã e legítima a tendência cia indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para que cooperem no grande trabalho da produção social. que vivemos à beira do século XXI. c os resultados dos esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as necessidades cie cada um. Estive em muitas dessas escolas c nelas vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente nada. Mas o fundamental é que. Em todo regime social razoável. "As crianças com escola de meio período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r . que era um homem do século XIX. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a apropriação privada do lucro. com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual. Não nos esqueçamos de que Marx era um entusiasta dos avanços do capitalismo. Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos. a educação formal escolar e o trabalho manual nas fábricas. com um novo caráter. Assim. e não contra a existência da civilização industrial. v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . mas segundo a concepção dc Marx. o trabalho infantil é desejável. A partir de então só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já tivessem pelo menos a instrução primária. em sua formação como pessoa. na formação das futuras gerações. colocando a natureza a seu serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante. educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51 Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. Nesse sentido. Ele lembrou em vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o . uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria unia abominação. em menos de cem anos.lápis. Marx festejou a legislação inglesa dc 1844. i t e m 9 ) . X I I I . e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar. p o r q u e é dela que brotam a alienação e a ideologia. A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. a educação escolar e o trabalho na fábrica. inclusive. todos seriam homens completos. Sc é através do trabalho que o homem produz para viver. pois acreditava que todas as crianças deveriam combinar. e esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital. as mãos sujas de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s .nível material de vida da sociedade humana. D i z ele: Consideramos que c progressista. Marx considerava isso um avançç) importante. através dessa c o n j u g a ç ã o . Para que não reste dúvida sobre este p o n t o . pudesse ser forjado apenas com uma educação escolar lormal. c a p . na formação da criança.

mas com as mãos. 6 horas. o Partido Comunista. da qual serviu-se o capitalista industrial para constituir sua fábrica. Marx dá poucas indicações sobre isso.^. o ponto de partida para romper com a passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante. de 13 a 15 anos. mas de um I .. t a n t oE quanto possível . a saber: processo educacio nal lhe devolves s e . 52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E .. Não através de uma operação circunscrita às tarefas parciais. Para tanto.. No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista. . e as de 16 e 17 anos. I % comprometendo seu futuro. .<. . Sem uma legislação desse tipo.. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53 trabalho deve obedecer à lei geral da natureza. fundamentalmente. eles deveriam trabalhar 2 horas por dia. e trabalhar não só com a cabeça.'#p. como ocorria. Não se tratava de ensinar ao filho do operário que ele era uma vítima da exploração burguesa.militantes de seu partido. diz Marx. premidos pela pobreza. em sua visão. o a do percepçã conjunto que trabalhar para poder comer. E conclui: "não se deve permitir em nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação". não haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários. a de romper com a alienação do trabalho. prevendo jornadas de trabalho com duração diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1. E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem.. provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista.2 anos. e seria por assim dizer inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das classes trabalhadoras. irias sim ensiná-lo a operar as fábricas burguesas. da seriam obrigados fabril a transformar-se próprios em agenciadores escravidão dos filhos. 4 horas. lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado conforme a faixa etária. Pois este seria.os. mas o que se pode concluir de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser. Marx propõe que. o caminho que Marx vislumbrava contava com a contribuição do processo educacional..

portanto. ditada pelas exigências do capital. E. tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um. pensava. é preciso do que seria uma substituir o indivíduo parcial. Esse novo saber seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c. Em sua visão. cii. uma vez que estes últimos também jamais seriam a c i m a .. uma das chaves de sua emancipação como ser humano. p o r t a n t o . Em outras palavras. Isso. capaz de executar uma única tarefa simplificada.do processo produtivo moderno.. portanto. É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contemplar três dimensões: uma educação mental. diferentes contexto sempre passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade" [instruções.). Ele não explicita. para Marx. qual as pelo indivíduo funções integralmente sociais não desenvolvido. "mero fragmento humano que repete uma operação para o parcial. tarefa que deveria dos 9 aos 17 anos. mental. A educação física e no treinamento militar. a educação tecnológica seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das máquinas dos diferentes ramos da indústria. poderiam pode-se homens completos. nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial. uma educação física e uma educação tecnológica. D e n t r o d e . Com tal formação. era objetivamente possível. no texto citado que seria essa o mas educação elementar para o trabalho intelectual. op. a menos que rompessem com a separação entre deduzir trabalho intelectual e manual. finalmente. os filhos de operários estar cm nível muito superior ao dos burgueses c aristocratas. os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica. porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e ..

trabalho educacionais práticas que tivessem um caráter libertário.. mesmo o para esses cie sociólogos-fikxsoíosarticular propostas economistas-militantcs. ao contrário do que se possa pensar um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque o Estado capitalista. teórico e prático nas escolas dos trabalhadores . Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado. Debatendo com seus adversários internos do Partido Comunista. o Estado que necessita receber do povo uma educação muito severa". concessão na medida em que obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o ensino para os filhos de operários No entanto. deixaram i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s . nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano? Acho que aqui há duas questões importantes. Todos. para encerrarmos este ponto. mas muito insuficiente. deveria ser radicalmente suprimida. seria público e igual para todos. a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe". terminariam a divisão da sociedade em classes e . é o espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar com a cabeça da classe dominante. pelo vício e pela prostituição. Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" pois no comunismo não haveria mais burgueses. quando escreveram separadamente sobre o assunto. Kcsta saber então. assim como as escolas profissionais da época que davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de produção... o que Marx antevia era a adoção do ensino tecnológico. o que seria cia educação pública depois que o Estado recebesse dos operários armados. O ensino. não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para manter sua dominação. reproduzindo a exploração dos operários pelos patrões/Razão pela qual a família. s e r i a substituir uma educação doméstica por uma educação de caráter social. N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo. conforme já vimos. na proposta política de Marx e Engels. N o c é l e b r e Manifesto comunista. Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam. depois da inevitável conquista do poder político pelos operáiios comunistas. como o nome já diz era em sua concepção uma forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe sobre outra. Ele não era. q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e citar.. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24 é tal concepção. no momento da revolução comunista. que servem apenas para lembrar-nos como ct a complexo. oiganização acreditavam paia preciso nova social. desenvolver. I s s o d e u m a educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível.estabelecimentos estatais e a cargo do Estado. l e m b r a m q u e a família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da família proletária. A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx. forma de inverter o conteúdo de c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a . A título de ilustração. além que de ser uma mudar a forma mudar educação de a exploração forma pudesse de se econômica. achavam. ambas relacionadas ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar. porém. É o lugar onde ocorre a exploração dos filhos pelos pais. ele deixou essa visão bem clara Num texto c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . a ele parecia óbvio que um ensino oferecido por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a moldarem-se à dominação. p o r t a n t o .) E. A primeira eles é que. A família é o lugar por excelência da difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses. (. Para ele.) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo e da Igreja.54 S OC I E D A D E . de 1 8 4 7 . nos moldes que conhecemos. Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de todas as crianças em . n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia "deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família. as escolas politécnicas e as escolas agronômicas eram consideiadas aliadas importantes do processo de transformação. ao contrário. A. então. mergulhada na desagregação causada pela miséria. é preciso assinalar que Marx e Engels. Bem mas esses são detalhes. d e 1 8 4 S . mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu projeto para o futuro. sua derradeira lição. com o comunismo. (. Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à f a m í l i a . indistintamente seriam trabalhadores.. A segunda questão importante é que. uma primeira.

Assim. Seria necessário que. para o perfil cio "trabalhador polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas . No já citado afinal da. restritivo de suas potencialidades. Não seria suficiente a revolução política. Basta olharmos. a nova forma de organização industrial encontrasse um homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. Educados. e o controle do poder do Estado pelos operários decorrente dela. a sociedade organizada sobre bases I 25 trabalho. Seria comunistas ■ dará OS a seus 1 n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai 111 U H H > N aspei los suas faculdades desenvolvidas universalmente. aproveitar-se desenvolvimento do do progresso material proporcionado preciso edticar o capitalismo. da "sociedade do conhecimento". ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O a forma capitalista de divisão do pelo "novo divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. para viabilizar o controle coletivo de seus benefícios. mas nem por isso emancipados. mas o fosso social que separa as classes continua a aumentar. Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo. uma mudança de atitude frente à produção. o desenvolvimento tecnológico. pois. Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes. Por conseguinte. com o advento da robótica c da informática. nova educação. pensavam Marx e Engels. Vivemos hoje os dias da "sociedade da informação". agora com apenas algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c. portanto. s e g u n d o a s necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações.em função da reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira Revolução Industrial . Seria preciso. permite ao capitalista realizar a mesma produção que antes o obrigava a empregar milhares de operários. a educação nos libertara deste caráter unilateral que a . homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista) que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. Diz ele: A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar Princípios do comunismo. nos dias que correm.54 S OC I E D A D E . ao socializar os meios de produção. portanto. parcial. educados. para socializar os meios de produção.para compreendermos seria bem mais complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito em 1S47. Hoje. E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o .

A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a sociologia da educação. E quando você for dar uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber. m a s a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . digamos assim. e impositivas com relação a elas. ela é um mecanismo que. embora os textos pareçam um pouco truncados. No entanto. Mas antes de continuar. educação e des encant am ent o As partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga. [iode ser utilizado para oprimir ou para emancipai' o homem. que é muito pouco discutida na área da educação. a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais. Mas há outro ponto de partida possível. as idéias valem muito a pena.C A P í T U L O IV '—| Soci edade. em níveis e cm medidas diversas. Para o primeiro. deixe-me dar-lhe um aviso. a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade. serão bastante significativas. para o segundo. se "socializa". Os raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira vista. tem contribuições . E podem parecer um pouco intrincados. Weber é um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica. A s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s . A sociologia do alemão I Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos. é claro. verá que ele não é muito "fluente". mas sim o resultado de uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. conforme seu conteúdo de classe.

importan tíssimas a dar. .

no momento da ação. na interpretação das ações e relações. os valores que ele atribui ao próprio ator social. naturais. são. fundamentais. que tem pontos de contatoe distanciamento com a de Marx. portanto. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o estarão presentes os valores do investigador. Porque os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores. Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas .partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural. ü. aquele que pratica a ação. vamos. não compromete a objetividade do conhecimento. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela. e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos de racionalidade empregados pelos indivíduos. isto é. pode ser qüe as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa. As ciências sociais Então. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos mais elementares da sociologia de Weber e em seguida. c uma teia. é literalmente incompreensível se for tratado como um todo. Respire fundo. Como a realidade é infinita. m a s s ã o i n c u l c a d o s . A sociedade. O "todo" (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos). o que. apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto de conhecimento. ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a .lá. discutir um pouco sua teoria da história. desde que o investigador leve em conta. A realidade é concebida por Weber. como o encontro e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s articulam de modos distintos no plano subjetivo. Um mesmo meio cultural pode assumir 28 distintos. nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s . para Weber. os acontecimentos. conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma ciência "compreensiva". como uma coisa. então. porque são muitas e porque se renovam a cada dia. que são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou grupo de homens por ele investigado. no entanto. Weber e q pensamento sociológico O ponto de. isto é. Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são concebidos por Weber Ao das como de as üm conjunto para inesgotável ele postula as quais de que. é c l a r o .60 Sociedade. Fluxos da mudança e cristalizações d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . Os valores são compartilhados. diferentemente contrário ciênci Durkheim. Aliás. Trata-se de um processo subjetivo. Pela s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo. A realidade não é uma coisa em si. regule o seu grau de atenção e prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e Marx. e não os seus próprios valores (do investigador). a captação da ação social. porque as coisas que eu vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê. conforme o processo de interação em que o indivíduo está significados diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e. As ações sociais praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação. por qUjé. isso simplesmente não é possível. Para ele. histórica. que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NSO I O L O G I A D A T OC E D UC A Ç Ã o inserido. para Weber. não é um bloco. embora vivamos na mesma sociedade na mesma época . para finalmente levantar algumas implicações que este" modelo tem para a e-ducação.

Se você fosse puramente racional. Estar junto com outras pessoas. Se em sua casa todos piczarcm uma boa educação acima de tudo.) A ação que especificamente tem importância para a sociologia compreensiva é. Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus interesses pessoais "egoístas". O trabalho científico é assim inesgotável. p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á . Você pode calcular também com base.. a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a escola. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i s i m c o m o D u r k h e i m . P a r a W e b e r . W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um problema. Quando você vai à escola. A produção científica tende a disseminar-se pela sociedade através da educação. que você já vai saber o que é. e o meio mais adequado para atingir este fim é ir à escola". E direi também que Weber era um pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o h o m e m . seu grupo. suas finalidades "exclusivamente individuais . mulheres (ou homens) à disposição e carros do ano. i i MI comportamento ouci 1 . apenas. E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão. indo ou. por exemplo. 2. está relacionado ao sentido subjetivo pensado daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s .l o p a r a d e s e m p e n h a r tarefas na vida Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica desenvolvida compreensiva. M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s . (. P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social . deixando de ir. Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s dias) os custos e os benefícios que você terá. no valor que sua família dá à educação. mesmo que ele não seja quase 7 um a n i m a l social. Diz ele que por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido (subjetivo) real ou "mental". poderia dizer: "minha finalidade na vida é ter dinheiro. Ao ir à escola você emprega sua racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio comportamento. pode ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente). T u d o O C"| LI percebido. no caso inverso. certo? Se um dia você cogitar abandonar os estudos.. e l a o c o r r e q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o de tomar uma atitude. de praticar uma ação Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) . porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou por Weber na definição de sua sociologia . Não apenas porque ali você encontra seus professores. porque o" real o é. está co-determinado no seu decurso por esta referência significativa e.' Vejamos. não faz de você digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). bem como fragmentário c especializado. e lhe Difícil. ms. 3.29 SOCIEDADE. seus colegas. mas para isso preciso escolher a prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível. isto é uma ação social. c você já pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as relações entre a educação e a vida social. em particular. será muito difícil pra você deixar de ir à escola. o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e interessa à sua sociologia. portanto.

EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O que se era algo importante.30 SOCIEDADE. . Levar isso em consideração também é 6 i formar.uma forma de cálculo.

Essas coisas t o d a s s e c o n f u n d e m . Finalmente. Significa apenas que você escolhe as características mais "puras" dos tipos. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados. Suponha. e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. esta teia inesgotável dc eventos e processos. está praticando o que Weber chama d e ação social racional com relação a fins. que jamais será encontrado na vida prática. O/fie o mundo social que o cerca. "puros" Ele é de sabe absolutamente comportamento. dentro do seu círculo de amizades. ou porque arranjou uma namorada ou racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m age. não significa idealizado". que você fosse à escola apenas porque todo mundo vai. C o n s t r u a u m tipo ideal "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social. v o c ê e s t a r i a sendo irracional. por exemplo. você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem busca utilizar-se dos melhores meios para isso e. implica em algum grau de e colegas. Mas. As razões este é o se misturam. Ninguém. Ar^ir cm sociedade. O tipo é tima construção mental. Já se você for à escola porque sua formação familiar deu muita importância aos e s t u d o s . Nesse Isso é método perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem mas os constrói para que sirvam de referência. finalmente.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 31 Mas você pode calcular também com base. esses de No Weber. tipos dc dominação política etc). nem mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro. Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado". V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a de comportamentos aceitos em seu grupo específico. vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar. É m u i t o p o s s í v e l que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu citei no exemplo. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . S ó n o parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social.64 S O C I ED AD E . dos professores ou da namorada ou namorado. se você vai à escola apenas por causa dos amigos. para Weber você pratica u m a ação social afetiva. entanto. e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a valores.s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a . p o i s o que Weber chama de "racionalidade perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação.. repare também que no dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. feita na cabeça do investigador.' . Ele é um exagero dc perfeição. N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o . portanto. Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê construiu. Você pode gostar da escola porque tem amizade com professores namorado lá. A receita m e t o d o l ó g i c a .fundamental para entender Weber. s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . Ei. e selecione dele o aspecto a ser investigado (não dá pra ser tudo. na prática. a partir de vários exemplos históricos. na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l . como por exemplo idealizar o que seria uma "sociedade perfeita". t r a t a . Partindo do exemplo acima. . portanto. Na ação afetiva. N o c a s o . fins estes tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). sendo três racionais e um irracional. quando você vai à escola pensando em se formar e ganhar dinheiro. alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais importantes métodos dc investigação das ciências sociais. tem que ser uma coisa de cada vez). isolar tipos satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola. p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação ao regular. mesmo que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades estudantis. e ficaria chato pra você. 3 ' . e Weber achava que os . o u e n t ã o d o modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. fundamental Aliás. é a s e g u i n t e : l u . R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . está sendo irracional. 2L. dizer que não freqüenta a escola. p a s s o a p a s s o .

E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . O indivíduo. q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento d o s o u t r o s . se revela em seu caráter mais complexo. em detrimento da sociedade.64 S O C I ED AD E . O método de Weber é individualista não . Para Weber. no sentido de adequação entre meios e fins. É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance. Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou simplificar bastante a definição do nosso autor. S e d i z e m o s " b o m . no momento de agir. reduzem-se i categorias q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e . é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer. melhor d i z e n d o . exclusivamente psíquico. para Weber leva em consideração. para Weber é incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . c o n c e i t o s c o m o E s t a d o . Não é nada disso. c o m o s e n d o ações propriamente obter os fins ditas. liga o indivíduo às estruturas sociais e estas ao indivíduo. e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo. Ou. na prática. um agir cie homens que se relacionam uns com os ou tros. que é detalhada so para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber. que têm influência sobre seu agii. não estamos falando ríum comportamento exclusivamente psíquico. A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível. E m c o n s e q ü ê n c i a . habilidade cada indivíduo utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos antciiotcs a própria ação. • os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis. daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação.À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u . e isto significa. a s s i m . e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. 4 . O indivíduo e as instituições sociais Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo contrário. de intencionalidade. para sua sociologia. sem exceção.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 32 tipos de conduta mais puros são os mais racionais. Aquilo que e mental.s e d a q u e l a q u e s e refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. Comportamento subjetivo é o c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o . embora a certos elementos de dessas ações (a na estruturação do sistema de preferências. os comportamentos dos atores são interpretados c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e . a escolha dos meios para desejados.d i a " n o c n c o i i 11 ' i r s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a . Ressalto novamente: q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo. b a s i c a m e n t e . e s s a r e a l i d a d e s e apresenta a você. capitalismo ou Igreja. institucionalizadas. n o c o n t e x t o d a sociologia de Weber. o comportamento dos ou tros c é isso que faz de sua ação uma ação social. E l e d i z . mas porque para ele o indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de sentido. Mas não sé): ele é obiigadc) a relacionar-se também com as normas sociais consolidadas. Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a U porque ele prefira o indivíduo. nem muito menos a psicologia individual.

E D U C A Ç Ã O C D l S f l M C A N T A I O EOG IO D A SOC M L N Í A E D U C AÇ Ã O 67 :3t .33 SoCItDAOE.

Se o comportamento dos outros fosse totalmente imprevisível para nós. Esta é a diferença entre a Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a " d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito — em que a validade do regulamento é garantida por um aparato coercitivo e punitivo.' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança. de que se comportem cie modo emotivo. supõe-se Ir e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias para eles. e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . Ê As regras. kracional. sabe que está sujeito às sanções correspondentes. pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou n a m o r a d o . p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a todos c. Q u a n d o i s s o o c o r r e . Quando agimos racionalmente. porqtie foi feita uma lei para . expectativa além do indivíduo nos orientar-se por este tipo que de tais baseada regulamentos. regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que os homens ajam segundo suas determinações. V e j a b e m : n ã o estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. porque sabe que se for capturado. mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são condenados c presos pelo sistema legal vigente. M a s expectativas a validade da norma não se baseia apenas nas recíprocas. A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não sofrer as conseqüências. para que possamos calcular as possibilidades reais de levarmos nossos objetivos até o fim. E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o vai matar sua mãe. O agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade objetiva"). mas pode se£ preso. e não de outra maneira. Mas diante da declaração anual do imposto de renda. é claro): v o c ê e s t á obrigado a p a g a r . s outros igualmente agem segundo as regras. Quanto mais disseminada socialmente situação. No agir em sociedade. você não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil. funcionam como uma espécie dc ■2-. essa racionalidade não precisa ser apertas com relação aos fins do ator. praticar este ato seria bastante irracional. Sc você se vestir com uma roupa muito fora de moda. quando foge ou sc esconde. será punido. O agir em comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os outros dêem determinado peso a certos valores e crenças.68 S OC I E D A D E . ou então na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular. ainda. seria difícil viver. melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com relação ao comportamento dos outros. Í p: "condensação dc expectativas recíprocas" c. não apenas porque imagino que você gosta dela. Ou. Além dc pouco afetivo. ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 34 determinada pessoa é porque esperamos que ela responda "bom-dia" também. tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores i n d i v i d u a i s . na média dos comportamentos geralmente usados para aquela m• I É ! WI orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique este ato. Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14 anos. portanto. portanto. E. assim como no caso dos tipoS~de ação comentados acima. está se orientando conforme os regulamentos. W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem social. Está. de acotdo com um cálculo que tem por base as regras. Pois bem. esperamos que os outros também ajam assim. Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com base na expectativa de que os outros também se. Mas quando o indivíduo calcula que é m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o . p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a da moda. O próprio criminoso. J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o . cm conseqüência disso. O a g i r e m s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . agindo em sociedade. comportem dc um determinado modo. se você descumprir.

O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m os "órgãos". além dc sentir-se ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas OLI A vida comum em associação permite que sejamos capazes de prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas. ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 71 Assim. e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a gozador.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo comum por estes referenciais. as formas de comunidade religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais da vida política entre os homens. não há escolhas: você pertence ao Estado brasileiro. Veja. e l o s d e c r e t o s . quando plenamente desenvolvida. os "fins". que uma associação com fins. Quando isso o c o r r e . e esta expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria conduta. . De um clube de associados com sauna e piscina você pode escolher sair a qualquer momento.35 S OC I E D A D E . 'Com isso. mais a previsibilidade aumenta. o ponto importante que a sociologia cie Weber nos permite pensar é que. porém. sem ter sequer o direito de alegar ignorância delas. como já comentei. as coisas são diferentes. meu amigo. Na barriga cia miséria. C h i c o B u a r q u e . reforça a certeza de que a confiança mútua não será decepcionada. na medida em que as regras e os órgãos permaneçam. n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s . nasci brasileiro". a suspensão pressuposição de cada um de que a não-observância das normas pode ser punida com coações físicas ou psíquicas. que c o Estado. você também participa disso. inteligível para nós. você está sujeito à ele sua carteirinha de sócio. cada "sócio" confia que os demais se comportarão (aproximadamente) conforme as normas. O bonito disso. A durabilidade dessa associação através das gerações de indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o seja voluntário. adora brincadeira. Nessa situação. p o r e x e m p l e i . Quanto as mais pessoas as pessoas este assimilam quadro subjetivamente normativo que a a obrigatoriedade das regras. mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece. e está automaticamente sujeito a todas as suas regras. vender seti título de sócio ou simplesmente não freqüentar. Ocorre. O Brasil foi um aqueles rapazes charmosos que nadam ali. às quais costumamos chamar Estaco. Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. os "estatutos" e o "aparato de coação" da associação. c continuam a ser criadas. definida pela existência de regras gerais e de órgãos próprios. Se você for sócio de um clube "social". e portanto. pois pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro. não é uma formação social efêmera. E é só quando aceitam institucionalização se completa. São instituições sociais. embora as coisas já estivessem prontas quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este pacote dc regras c]iie regulam a sua vida. quer queira c]ucr nãc~>. Estou falando dc todas as regras. Porém:. ou seja. é preciso considerar que essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos passados. por exemplo. W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. em busca de seus objetivos e levando cm consideração a existência das normas — sejam essas normas entendidas como a condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou como. ela torna o mundo que nos cerca. Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro. desses com sauna c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento. e também que elas estão aí para serem mudadas. c l e s s e t i p o d c r e g r a s . c se você insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras horrorosas que infectam os dedos dos seus pés. Sé) está submetido às regras na medida em qtie optou por ser sócio. no casei ela associação política mais abrangente de todas. Sc a divina providência o fez nascer aqui. A esta coletividade Weber dá o nome d e associação com fins.

a lei geralmente se fundamenta num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. se você chamar sua empregada de "negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. não apenas na lei. de cem anos pata cá. e o Estado em particular. Negros por aqui eram valorizados apenas enquanto investimento privado de compra e venda. é preciso reconhecer que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar crescentemente sua conduta. Nesse processo. mas no modo como a sociedade vê as relações entre as raças. que a lei antiracismo prevê). passaram por um processo de institucionalização. n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u psíquica). Tal influência. Hoje. num curtíssimo lapso de tempo. entre outras c o i s a s . tal* dominação. diz Weber. esta associação mais abrangente que é o Estado detém um poder de imposição. Agir segundo esses fins da associação. Este é um exemplo de extraordinária transformação. as regras foram se tornando cada vez mais racionais. ou enquanto insumo agrícola. segundo i . Tal poder se baseia numa influência específica — que Weber chama de dominação — de homens concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. Ou seja. que são garantid os o é um pela da agir aplicarã coação. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o 36 país escravocrata até outro dia. f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que vão de multas em dinheiro a meses de reclusão. E embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social que os segrega na marginalidade econômica. Aliás. se baseia. as associações políticas humanas. Historicamente. por sua vez.72 Sociedade. i s t o é .

não precisa desistir. garanto que vai compensar o investimento. a relação de dominação. racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. t a m b é m subjetivamente. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o possam 37 "consenso". O Esse uma crescente transformação cias associações em instituições parágrafos. pensa . Desencantar o mundo O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer dizer. nao é o fato dos homens serem coa°idos. c ci m bc ni po rej u c estão convencidas da necessidade de obedecer. O fundamental aqui. mesmo que você tenha que lei mais uma viver em vez. mas sim o tato cie agirem racionalmente. quando as pessoas obedecem às regras não apenas porque temem a punição. As possibilidades de que esse consenso seja de fato p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o façam porque consideram obrigatória. difícil. c camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na Max sociedade. Tenho que er. Weber diz que a dominação baseia-se no c o n s e n s o d a legitimidade. Mas cá entre nós.. Tenho certeza de que o sentido geral você é sociedad capaz de captar.. Quer dizer. a.72 Sociedade. Weber. Daqui a alguns e. cm decorrência. É este o sentido histórico do processo que Weber chama de racionalização. em suma. Ufa! . para que possam com isso ganhar condições dc previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão também sujeitos à mesma relação de dominação e. c dc que esta racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão sujeitos. reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação. porque "introjetaram" a norma. Segure as pontas só mais um pouco.

ao que me parece. e a dominação racional-legal. Se a associação estatal passa por um processo de racionalização (e também de burocratização. A educação para Weber. q u a n t o m a i o r s u a racionalização. Para resumir em poucas palavras: uns mandam. Pode-se compreender aqui o sentido d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r . a dominação carismática. e as regras s ã o f e i t a s . Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e . impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência. Mas no último caso. porque para fazer cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez mais complexa). O e x e r c í c i o d a autoridade racional depende dc um quadro administrativo hierarquizado e profissional. argumenta Weber. a d a s formas de dominação legítuna. para que você entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a sociologia da educação weberiana. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- A história humana. Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui. d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos. O ingresso dos indivíduos nesta grande associação. é o modo pelo qtial os homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao preparados para exercer as funções que a transformação causada pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito racional. Na formação do Estado moderno e do . i s t o é . Diferentemente da concepção organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx. para garantir a aceitação dos comandados. d i z e l e . N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a . P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o l e g í t i m a : a dominação tradicional. da obediência à lei c do treinamento das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi aos poucos se disseminando. aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação. uma vez que maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e maior também a necessidade de regulamentá-los. isto c. para o tipo racional-lcgal. o que por sua vez gera a necessidade da regra. maior o número de regulamentos sociais a serem o b e d e c i d o s . M a s v o c ê v a i e n t e n d e r . de abandono das concepções mágicas e tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens e para a administração social. c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que está por trás da lei. outros obedecem e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. Quanto mais c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s . p o r m e i o d a força. segundo ele. a s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores compartilhados — como constitutivas da sociedade. que é o Estado Moderno. é um processo de crescente racionalização da vida. Assim como em Durkheim. tendencialmente.38 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. na qual estão obrigados a submeter-se ao poder já instituído. A regulamentação mais desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um aparato especializado dc domínio. em Weber a complexificação gera conflito. Bem. Paia legitimar-se. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a t r a d i ç ã o . c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o c a r i s m a d o l í d e r . que se caracteriza pela existência de uma burocracia. devidamente g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. que obedecem porque foram educados (ou seja. A lógica da racionalidade. E este o sentido histórico do processo que Weber chama ele racionalização em das sociedades: organizadas uma crescente transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc obediência instituições racionalmente. Eu sei que e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . compartilharam de uma tradição) ou porc| ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama dc carisma). mas à posição -que ele ocupa no aparato dc dominação. as fonvias de dominação no Ocidente caminham. a dominação se b a s e i a o u n a tradição. que é o das sociedades modernas c complexas. a obediência não é devida à figura do líder. a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e pelo domínio dos líderes sobre os dominados. m a i s conflitiva tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos. não é voluntário.

que são inseparáveis um do outro. pois ela se pauta pela lógica do lucro. e d e o u t r o . ou seja. em ficando a gestão efetiva em mãos de província natal. Tal processo só ocorreu de modo completo no Ocidente. passou a ser um pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas funções. o Oriente aparece como protótipo da administração irracional.39 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. tais funcionários não governavam. o único cm que pode prosperar o capitalismo moderno. dos grêmios e das corporações. ps mandarins. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro. a constituição de um direito racional. Na realidade. tendencialmentc livre de concepções mágicas. enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação política própria do capitalismo. O direito racional oferece as garantias contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos. Treinar. A China antiga aparece descrita como um modelo de administração em que havia. e muitas vezes auxiliares. não fato. Eles eram literatos de formação humanística indicados para o posto. de um modo "racional". sua desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora. u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a v i d a . A coisa é muito distinta no Estado racional. o capitalismo e o capitalista forjaram um novo homem: um homem racional. as empresas e a própria política. nesse tipo de administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude do Imperador e dos funcionários. A educação sistemática. Weber dá especial atenção a dois aspectos: de um lado. Educar no sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado. onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo não especializado e regido por orientações mais ou menos discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo especificamente treinado e politicamente orientado com base em regulamentos racionais. apenas intervinham em caso de agitação ou incidentes desagradáveis. mas sem preparação específica para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. contato com a população. em vez dc cultivar o intelecto Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização alteraram radicalmente os modos de educar. Mais que profissionais da empresa ou da administração pública. c precisa Estado de profissionais treinados para isso. Uma vez que não davam importância às realizações políticas. para o qual não existe mais lugar reservado à obediência . Na prática. portanto. educa administravam de nunca atuando Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- capitalismo moderno. a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m moldes burocráticos. acima da camada das famílias. E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a educação. Não mantinham. de que sua superioridade cm matéria literária.educação sistemática. de "pilotar" o Estado. Educar no sentido da racionalização também passou a ser fundamental para a empresa capitalista. Ele se funda na burocracia profissional e no direito racional. basta para governar. o Estado burocrático. Um dos elementos essenciais na constituição do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática em moldes racionais. E alteraram também o st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s indivíduos que se submetem à. do cálculo dc custos e benefícios. Na exposição de Weber. uma pequena camada de funcionários. analisa ele. porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia montada cm moldes racionais.

p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u s e j a . conforme o caso. E l a p r o c u r a f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto. Para este homem. e p o r t a n t o " r e n a s c e r " .. C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a crescente burocratização cio aparato público cie dominação ífc . O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia. provocada pelo advento do capitalismo moderno. mesmo antes cie ser empregado. É o mundo do império da lei e da razão. ao terceiro tipo ele educação Weber chama pedagogia do treinamento. "um dom ela graça exclusivamente pessoal. historicamente.. E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber. Educar num mundo assim. a preparação para que o membro Nem passa do é a todo orgânico do vista medida aprenda social. Na China. T a l p rocesso educacional "qualificação cultural". socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: despertar o c a r i s m a . A educação. c a v a l e i r o s .. como os nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas.78 Sociedade. Ela harmônico organismo como propôs destinava-se. p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c t r a n s m i t i r conhecimento especializado. i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o conhecimento ela literatura. como eu já frisei. de poder c dc dinheiro. através de exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa. uma vez que não se aplica a pessoas normais. onde os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados. .. Não é mais o mundo do sobrenatural e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. então. Nem comprovavam (. i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s etc. o n d e o i d e a l d c c u l t u r a depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo preparado. e que implica em prepará-lo para certos tipos de c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a . mas apenas àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos. que eram educados para adquirir uma "nova alma". E o caso da China Antiga. médicos. por suas habilidades humanísticas. passava a lazer parte ele um estamento privilegiado. no mesmo texto citado acima: Os chineses não comprovavam habilitações especiais. l e t r a d o s . No modelo ideal weberiano a educação é. a imunidade em relação a punições corporais às quais o homem comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária. técnicos. como propôs racionaliza. para Weber. à composição cie determinado grupo d e status ( s a c e r d o t e s .) c à composição elo aparato administrativo típico das formas tradicionais dc dominação política. Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no noviço sua capacidade considerada inata. N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses. 'pois não se pode ensinar nem preparar p a r a o c a r i s m a . cujas principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos. um grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras. comuns. no sentido animista. (.. na possibilidade a sociedade emancipação com base na ruptura com a alienação. como em que sua parte no de se A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo. de obtenção de honras. o candidato. certamente não é o mesmo que educar antes dessa grande transformação. assim qtie aprovado.) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato . um fator de estratificação social. educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 40 que não seja a obediência ao direito racional. Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval. não é mais. O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível alcançá-lo". Escreve Weber. ao mesmo tempo.) a posse ele carisma. o mundo perdeu o encantamento... Marx. comportamento Durkheim. u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) . de prebendas.1 tampouco ser. um meio de distinção. no sentido assumia de uma o aspecto edticação de uma e geral. Finalmente. ^ estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos d e p e n s a r a d c e ]ii .

educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 41 ■ .78 Sociedade.

além de minimizar uma formação humanística de caráter mais integral. Essa luta é determinada pela expansão irresistível da burocratização de todas as relações públicas e privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos e do conhecimento especializado. também é. s o b r e homem. que é a pedagogia do treinamento. dc seu ponto de vista o capitalismo reduzia tudo. d e 81 remuneração pelo trabalho realizado. acho importante reproduzir aqui o-que Weber diz. Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio da alienação do trabalho. Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação uma certa melancolia.SCI significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor ila riqueza. acima de tticlo. em especializado e o recuo de da educação educação para enquanto enquanto o formação indivíduo do a favor uma treinamento necessária à aquisição do título exige despesas consideráveis e um período de espera de remuneração p l e n a . enquanto b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a . Para ele.42 S O C I ED AD E .seb os desígnios da especialização. A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação. para Weber. Weber via na pedagogia do treinamento. Essa luta está presente cm t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER. mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais. imposta pela racionalização da vida. a razão para isso é. Ainda mais que. de todos os lados. cm nome da preparação para a obtenção de poder c dinheiro. pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente vantajosos. E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O í: ' garantido G^ . parcializado habilitar desempenhar certas tarefas. este. Com o perdão da longa citação. o fim da possibilidade dc desenvolver o talento do ser humano. e na educação a possibilidade de romper com ela. continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . mas educação são sempre baixos. Burocracia). num texto do início do século XX chamado Burocracia. se oculta em algum aspecto mais decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de "homem culto".é o sentido próprio do termo "educação". as pretensões dc s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " . Como a educação Í IÍ LD política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas privadas. o mesmo tipo de clepressão intelectual que ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-. a educação deixa paulatinamente de ter como meta a "qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que. decerto. a exigência de uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais.) Por trás de todas as discussões attinis sobre as bases do sistema educacional. invencível. O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de comercio c engenharia. c com o crescente volume desses certificados os dccrcscem. A racionalização c inexorável.. Pessimista que era. c . para Weber. a lógica cio treinamento.. Quando ouvimos. pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da .S. a educação por assim dizer "racionalizada". e o clamor universal pela criação dos certificados formação dc educacionais uma camada em todos os campos nos levam à e privilegiada escritórios repartições. (. entre as formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia. não uma "sede dc educação" surgida subitamente. pretensões de progresso pensões na velhice c.s e c a d a v e z m a i s u m preparo especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o . inclusive a educação. da burocratização e da racionalização da vida. e a educação especializada. não há nada que se possa fazer a respeito. p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de custos intelectuais não aumentam. Esses certificados apoiam as pretensões de seus portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a preferencia em relação à filha do chefe). à mera b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status.

A segunda é a do líder comunista e intelectual italiano Antônio Gramsci. a partir do marxismo. que retoma o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre as práticas educacionais. ainda que deforma muito resumida. resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria ser.84 E D UC A Ç Ã O S OC I O L O G I A OA j Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o XX CAPÍTULO V CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções analíticas diferentes a propósito do processo educacional. gostaria dc mencionar. Neste breve capítulo. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira. ainda. o quanto a educação está relacionada a essa luta. nos ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades contemporâneas e. que aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as diferentes pedagogias que Weber identifica. conforme as finalidades a que os autores se propunham. que. três contribuições importantes do século XX à análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm particular. ou. também. A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Bourdieu c os esquemas reprodutores .

O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos fundamentais para a construção de uma sociologia da .

sujeito simplesmente T. pretende sociais trata-se de uma versão mais radical do modelo de Durkheim. Bourdieu publicou um livro. dc caráter igualitário. c h a m a d o Os herdeiros. Em 1964. justamente a reprodução das relações sociais e de poder vigentes. para essas mesmas revoltas estudantis. Para primeira — Para como o o estruturalismo de sua em geral. apenas social permitem reproduzem vigente. . Nas estruturas. explicações. da que na São ação pensam verdade a essas pois estão dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos". introduziu estruturalismo. submetido aos desígnios cia sociedade. síntese que por durkhcimiano estruturalismo trás conecta desvendar ações sociologia justamente sujeitos. determinadas estrutura N e s t e l i v r o . pela liderança da transformação social. ■ demonstrar indivíduos. que pretendia combater uma idéia muito comum na branca da época. faz o que suas estruturas T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • humanas teórica torno sociologia.. em de na que fato verdade são não o está 85 objetivamente existe. * Para ciências uma O em levar a cabo em se das entre a o ambição da modelo à dos de Durkheim e . fase uma produção.84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j ausentes educação muito influente ao longo do século XX. por seu aspecto crítico às bases do sistema de ensino. A ironia é qtie o livro serviu como combustível. os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão espécie francês. mesmo é que determinações tenham digamos estimulam "condições objetivas" investigador desvendar. E seriam responsáveis. a explicação dos processos educacionais realmente importantes reside cm outra parte. ocultas. de o das . Apenas quatro anos depois. na medida aqui j estruturas determinam. dc o Na Bourdieu Durkheim peso verdade. o sociais. em razão dc sua juventude e de sua disposição para a ação. de a publicada das década de 19~60. ação. no célebre mês de maio de 1968 em Paris.' . ou seja. Encobertos sob as aparências de critérios puramente estar movidos agir. não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos dominantes. é claro. em seu livro. O que pelo processo determinadas chamamos qual as ações. estruturalismo ação. os estudantes dc fato sairiam às ruas.. consciência Os aqueles são que deve sujeitos os disso. estruturas reproduzem. forças mesmo sociais. culminando um processo de mobilização que teria um alcance bem maior do que a capital francesa. o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o Segundo ele. tornaria possível a realização das potencialidades humanas. segundo a qual os estudantes e o meio estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. os das que residem não que as agentes assim. que o fazem pensar que sua ação é resultante dc vontade própria. em colaboração com Jean-Claude Passeron. como orientações marionetes teoria os estruturas e sua o em pela sociólogo as durkheimiana dominantes. E o fazem colocando cm evidência o que a instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade. nelas liberados por. Mas para Bourdieu. unificar as J daquele as de nível suas para se da sociedade O sujeito é O Bourdieu. Um dos mais importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês Pierre Bourdieu. e também por o de volta Bourdieu da estão submetidos ao controle das estruturas da na . que leva às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os indivíduos sociedade.

escolares. Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos educadores. Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema i de ensino. estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos indivíduos para ocupar determinados postos na vida. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino .

sob a fachada dissimulada de uma alegada pedagogia. e s s e a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s grupos c classes dominantes. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o . e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e toda ação pedagógica é. Em 1970. ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. um d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. o bastant e para produzi r uma "forma ção durável ". é uma violência simbólica porque impõe. A ação pedagógica. que oculta as relações de força que estão na base de seu poder. por um poder arbitrário. que é imposta a toda a sociedade através do sistema de ensino. Daí ser preciso. não aparece jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza enquanto pedagogia. pois limita-se à inculcação de valores e normas. Pois. a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e . para que a ação pedagógica se efetive. reprodu as relações vigentes. Esta imposição. Não há possibilidade de mudança. e na medida em que pressupõe uma autoridade pedagógica. Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos dominantes. Na medida cm que o educan do interior iza os princíp ios culturai s que lhe são impost os pelo sistema dc filtra os alunos sem que eles se dêem conta e. S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87 UZ Passeron chamam de "trabalho pedagógico". A própria revolta estudantil. para eles. E l a é necessária para que a inculcação possa ocorrer. não faz mais que reforçar o sistema. os autores refinaram suas idéias. como evident emente correio em si mesmo.86 SoCIOLOClA E D U CAÇÃC DA T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . incorporando mais as contribuições dc Marx c Weber. um trabalho de inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura irar o bastant e para que o educan do "natura lize" seu conteúd o. p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . porém. uma violência simbólica. além dc sistematicamente D u r k h e i h í . isto é. com isso. uma autoridade pedagógica. portanto. encare o como natural. A revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um reforço da interiorização da própria norma. O conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição arbitrária que. no entanto. é apresentada àquele que sofre a violência de modo dissimulado. objetivamente.

quanto. valendo-se empíricos. Os autores. mesmo depois dc termin ada sua fase dc formaç ão escolar . ' v" / •> Assim. Isso explica que a as desigualdade que está na base do processo de seleção escolar. no finai das contas. ele os tenha incorp orado aos seus própri os valores e seja capaz L U: reprod u z i -los na vida e transm iti-los aos outros Bourdi eu diz que ele adquir e um habitus. o t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u . todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social que estão por trás de de sua dados ação pedagógica. o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem acesso (se de melhor OLI pior qualidade). a "condição de classe dc chegada" deste aluno.ensino — de tal modo que. isto é. ainda. Uma vez que o arbitrá rio cultura l a ser impost o é incorp orado ao habitus do profess or. o trabalh o pedagó gico tende a reprodu zir as mesmas condiçõ es sociais (dc domina ção de determi nados grupos sobre outros) que deram origem àqueles valores domina ntes. demonstram "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte. o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o . do ensino básico ao médio e ao superior c determina também. Tal situação se reproduz.

em especial. a posição na hierarquia econômica e social a que chegou.e. mas talvez seja o momento de retomar a questão que coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação social é intransponível? Será que estamos condenados . Bem.

moderna. vários cadernos de notas manuscritas durante o período em que esteve preso. ■ . de modo a adequá-lo às características da das sociedades metade do cutopéias século XX. a sociedades agrárias. sem capacidade de contrapor-se a tal poder concentrado no Estado. P o r O c i d e n t e . tem que.s e a todos os espaços de poder disponíveis. tentar uma revolução armada. dominação. ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem estrutura. não basta apenas eliminar a exploração econômica de uma classe sobre outra. eliminar a apropriação privada dos meios de produção da riqueza. No c a s o d o s c o m u n i s t a s . No entanto. sob a guarda do Estado fascista italiano. E p r e c i s o conquistar a consciência das pessoas. pouco organizada. COMO publicpu um livro em vida. E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre leste e oeste. É preciso uma revolução no cotidiano. Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental. no mercado. A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade. achavam que não. o revolucionário russo. as classes ou grupos p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o . concentram todo o poder e onde a sociedade civil é fraca. O único modo de lutar pelo poder e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . dentro da luta política. Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. a o contrário. N e s s a s c o n d i ç õ e s . c isso é o mais importante. nos partidos. E l e e s t á d i l u í d o e n t r e o Estado e a sociedade civil. ele é capaz de concluir qtie. Essas são as sociedades de capitalismo mais Gramsci e a reforma intelectual e moral O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a avançado. mas a sociedade é o e s p a ç o d o consenso. E uma lição sobre a política c a sociedade e m g e r a l . para obter poder. d e v e r e f e r i r . N ã o b a s t a f o r ç a . nas concepções de mundo que as pessoas veiculam. Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na sociedade. Não está num lugar só. está cm muitos lugares ao mesmo tempo. E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m revolucionar a sociedade. d o p o n t o d e v i s t a do m a r x i s m o . atrasadas e com capitalismo pouco desenvolvido. O Estado é força. e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o no E s t a d o . é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. à é p o c a d e M u s s o l i n i . com um mercado interno forte e com uma vida política p l u r a l . as estruturas políticas. de 'capitalismo conceitos avançado primeira Seus nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . p o r t a n t o . Deixou também. que desalojasse os poderosos e desse o p o d e r a o s o p e r á r i o s . d c 1917. uma fonte dc reflexão filosófica. organizada c tem condições dc dividir com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração da vida social. C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere. "ganhar a batalha das idéias". Está no governo. e s s e s escritos foram publicados após sua morte e representam. no dizer de Gramsci. sociológica e política ímpar. complexa. Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado. F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a dc puro poder econômico. até hoje. na cultura. Dela. A luta política não pode limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin.88 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O TRÊS V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S É C U L O XX 89 a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i . mas também está nas empresas. A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de atualizar o pensamento de inspiração marxista. vital. e M a n n h e i m . é múltipla. sua militância política desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos de partidos políticos e na imprensa. coerção. Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e Ocidente. nos clubes. d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a liberal.

da vida política c social em geral. C o m i s s o . note bem. E isso é fundamental porque apenas aquele que é tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado. utiliza esses conceitos de Gramsci para analisar a educação atual. do convencimento. Vale a pena. que você vai ler mais â frente. repito. Pois os i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. é claro. há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que desejam uma nova hegemonia. A este processo lento e complexo de luta pelo poder político nas sociedades complexas. possuem seus intelectuais. diz ele. cujas idéias competem entre si na t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s interesses. ensinou Maquiavelli. A cada um desses agrupamentos de classes e frações de classe em torno dc interesses históricos determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". as classes dominantes em geral. Em suma. do saber e da cultura. a conquista é mais duradoura. O primeiro é o intelectual orgânico. segundo Gramsci. enfim. a classe trabalhadora. na luta pela hegemonia. ele chama de intelectual coletivo" aquele que atua no sentido dc reformar as mentalidades. Na verdade. Os dois grupos traçam alianças internas. Ao próprio partido político moderno. surge para dar consciência a ela. q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . É p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a . isto é. quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem a cie do que pelo medo que tem de sua força. a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' pessoas simples". ou seja. ganhar a batalha do convencimento. no sentido da conquista da hegemonia. ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da classe dominante. evidentemente os intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. É preciso também lutar c o n t r a a apropriação privada. diz ele. O s e g u n d o t i p o d e XVI. Nos momentos de disputa mais acirrada. j á havia ensinado. e portanto.atores principais dessa luta. inclusive e principalmente os dominados. o sociólogo Michael Apple. e portanto concentra mais poder. cujo objetivo 6 desenvolver a concepção d e u m a contra-liegemonia. Á burguesia.90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91 como demonstrara Marx no século anterior. e também definem se os homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. cada um de um lado do campo de batalha. cm sua célebre obra chamada O príncipe. os dominados. na hita pelo poder. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s quais os homens concebem o mundo em que vivem. E preciso. passa por uma reforma intelectual e moral". E por esta razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda injustiça. tende a ocorrer uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is que querem mudar. que é um dos . autor do capítulo. Esta é a fonte da persuasão. Esses grupos representam. tanto as classes dominantes quanto as dominadas se organizam em blocos. se para conquistar a hegemonia política e ideológica é necessário ganhar a batalha das idéias". Do mesmo modo. e cada uma delas conta com seus próprios intelectuais. da hegemonia da classe burguesa. . para depois vê-los operando na análise. Gramsci constrói uma tipologia dos intelectuais. Gramsci chama de disputa pela hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r um golpe dc Estado. c p r e c i s o s e r hegemônico. as diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder na sociedade. há dois tipos principais. O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Mas. S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que interessa a essa classe. confirma Gramsci. obter um consenso social em torno de suas que concepções. Repare que no capítulo 7. as concepções de mundo. vêem a divisão de poder e de riqueza de sua sociedade. possuem seus intelectuais orgânicos. então. E melhor ser amado que temido. captar esses conceitos agora. Para ele. Ora. ou elitista. na luta pela hegemonia.

"o poder fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". que ensinam nessas escolas". a administração pública. das concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados. depois do tipo desaparecimento da classe a que estava agindo esse tradicional'de intelectual continua vista disso. p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura. Quer dizer. podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente. Mas isso não é tudo. nas palavras de Gramsei. Gramsei observa sociedade ciência misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção de casas. para vir a ser um dia um intelectual orgânico ou um intelectual tradicional. U 111 £1 classe de intelectuais que. ou baseadas na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. a escola "de comércio" e a escola "industrial" (formação técnica profissionalizante). Bem. dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas. formar-se como um indivíduo completo. conseqüentemente. na luta pela hegemonia. Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época. destinada a dar a cada um. à formação de seus próprios intelectuais orgânicos. A função dos dois tipos de intelectual. o indivíduo precisa passar por uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura. é a de ser um instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva. a cura das pessoas. OU SCjcl. Em . destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn geral. Dc um lado um tipo e escola humanista . ligado. em épocas passadas. Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do sistema escolar de seu tempo. Gramsei nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber na Alemanha. ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere. e até mesmo as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. sem contar naturalmente com o surgimento do Ensino Superior no Brasil. Mas de onde vêm os intelectuais? Ganhou um pirulito quem disse "da escola". foram intelectuais orgânicos das classes que eram então dominantes. Dc outro lado. tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado. que da uma formação clássica . A formação geral que faculta ao indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada ao longo dos séculos. pois os padtes deram coerência e . é reservada aos filhos das classes dominantes e. O fundamental em perceber essa distinção. na década de 1970.numa direção conservadora. O exemplo clássico deste tipo é o clero. Sc você perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira no tempo deles. na época do feudalismo. surgiram as diversas escolas especializadas. O próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes politicamente. c desempenhar funções de organização da cultura. q u e "toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas c. c que o havia que levado na a uma distinção moderna a entre a pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas acima. Sim. mas essa é uma outra história. E isso ainda no ensino que hoje corresponderia ao Ensino Médio. portanto. é claro. para Gramsei. o intclectuaj é formado na escola. é notar que ela tem um conteúdo de classe. cujas bases se estruturaram a partir da fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar. Isso gera um sistema educacional híbrido. organicidade à dominação da nobreza aristocrática. dc modo independente . verá que era exatamente a mesma lógica que presidia a divisão entre o "clássico" e o "científico". portanto. bem como a separação entre a escola "normal" (formação para o magistério). Mas atualmente.92 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TRÊS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O XX 93 I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional. voltadas para a formação específica dos diferentes ramos profissionais.

é o de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas sobre ela. Se todos não tiverem acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica. c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s . unia democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional e. Gramsci afirma que a tíndência hoje ■ ou é a de abolir delas qualquer tipo de "escola e reduzido que os interesses econômicos imediatos não interferissem. Mannheim achava que o pensamento s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a . veja você. ele tinha sua própria proposta de política educacional. recuperando a percepção de Marx discutida acima e ampliando-a. e intermediado por uma orientação profissional. mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação. o interesse dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite. Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais. Para ele. No mesmo texto citado acima. p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e desequilibrada nas sociedades complexas. a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . em . Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional. sem que fossem traçadas políticas orientadoras. na medida cm que o desenvolvimento industrial c a urbanização o exigiram. retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de um programa para a mudança da educação. Este detalhe pode até parecer exótico. em sua opinião. na formação dos alunos. q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s do Ensino Fundamental e do Médio. que teria um caráter formativo e objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das capacidades do trabalho intelectual. se é verdade que a racionalização da vida levou a um declínio da educação voltada para a formação do homem integral. a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para então o capítulo com um comentário sobre um pensador do século XX. um indício de] que a expansão do ensino — necessária para dar conta das novas tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se dando dc um modo caótico. mas não manual). Nesse sentido. preocupado com a sociologia da educação. a "batalha das idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes. O p a p e l da teoria. E m p r i m e i r o l u g a r . sendo a escola privada. o aluno passaria a uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública. a p e n a s expressá-la. No plano das suas próprias convicções pessoais. u m a escola unitária. Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as c l a s s e s . Mannheim e a luz no fim do túnel Fechemos Q L IC desinteressada" "formativa". pouco organizado. A partir dessa escola única. na medida em que era mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes dominantes. que acabou por suplantar a clássica. bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas. propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo educadores educandos objetivo compreenderem situação educacional moderna. e fugindo no pessimismo a weberiano. ele defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática. s próprios mlclccliutis. que possa ser eventualmente expandida em seguida. Para ele.dominantes mudou. além do elitismo e da exclusão das classes trabalhadoras de uma formação de qualidade. (não imediatamente interessada) um conservar tão-somente exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro profissional. Gramsci vê nisso. governada por cientistas. nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. tinha uma visão bastante precisa de como a nova escola deveria ser. O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico de certo modo de ao Karl Mannheim para (1893-1947). também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças.

lembra ele. estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la". Valendo-se da influência da psicanálise. consideração para do este autor. do modelo da ordem v i g e n t e . as dificuldades desta Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da sociedade e do homem". p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação.'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a racionalização da vida. nem os pois objetivos eles são do processo A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de racionalização detectado por Weber. Para qual sociedade?.e qttc tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do capitalismo c a ascensão da classe burguesa. para a montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma formação mais integral. ele observa que. justamente porque a vida baseada na tradição estava se esgotando. ou seja. para o estudo dos fenômenos educacionais. tal processo era apenas dc assimilação "inconsciente". é político. o advento da democracia moderna. mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos num processo "consciente". Quando e como ensina? Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir apenas pela teoria. apenas como tentativa de ^explicação. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (précapitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à ordem social tradicionalmente estabelecida. Ele aponta os movimentos da juventude como educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a contexto social. Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o aprimorarnento d a e d u c a ç ã o . a respeito do que seria essa sociedade "sadia". Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez mais importante. traz ao processo educacional as contribuições culturais das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. N u m d e s e u s e n s a i o s . são portanto: Quem ensina quem?. Mannheim vê como luz no fim do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes tipos históricos de educação. na modernidade. E concorda também que a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive. na visão de Mannheim. M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o . c h a m a d o " O f u t u r o " . As perguntas que a sociologia obriga a fazer. E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o . voltada para a cultura e a erudição. Ele reconhece que os modos de vida incutidos por esta educação. pela criança. socialmente orientados.. e l e afirma: "Queremos compreender nosso tempo. Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores de vida.sua visão. Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do cultivo está condenada à morte. construídos por Weber. cm que o educando se aperceba do meio social em que vive e das mudanças pelas quais passa. Regenerar de quê? E o que seria essa "educação sadia"? . Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c aos trabalhadores. provocada pela consolidação da sociedade industrial. O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades dadas na sociedade atual. Portanto.

98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 formulação de projetos educacionais que . A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial. Mannheim. depois cie 1945 e até os anos 1970.escreveu ele no texto responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero". no qual vivemos hoje. mas para Mannheim a experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade. estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio das elites limitadas para a democracia de massas. na na capaz de deixar aponta o até homem mesmo um livre o das cie para repressões homem" entusiasmo adquiridas e formação. So a democracia poderia fazer surgir a luz no fim do túnel. convertida c no em impedir massas que a não diferenciadas. porém. com saúde mental. ampliassem o horizonte do homem. que não o satisfaziam.destinada também do a encontrar iluminismo. cm parte consciente. Ele viveu o terrível momento da crise econômica dc 1929. Ele explica tal processo do seguinte modo. que a sociologia sirva dc base à pedagogia. nova se forma de entre as contribuições coordenação. Mannheim era um homem de seu tempo. Finalmente. Por isso é tão importante. cia clesumanidacle. Mannheim estava certo. Esse equilíbrio baseava-se às vezes na idéia de hierarquia de estamentos ou castas separadas. c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s contribuições. provocou o retorno da ideologia do livre-mercado. interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os outros. Lima citado acima mas . no mesmo texto já citado acima: Em períodos de elevada cultura. quando o capitalismo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso. Seu interesse principal reside no acesso. para ele. a ascensão do mundo baseado na razão c na lei racional era um processo incontrolávcl.século X X que Weber não chegou a presenciar. A crise capitalista dos anos 1970. estamos vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a clesumanização e a desintegração da personalidade. ou ameaças à liberdade.) A concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições culturais. Estamos vivendo numa era de planejamento . dos membros talentosos das classes inferiores. Em suma. às elites. que superasse as divisões cm blocos políticos c ideológicos. da barbárie. que não é nem a inculca do fascismo nem a c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire. desintegram. à vala "novo forjado L!C Réissia comunista como protótipo Enfimr* dedicação comunitária. na invenção dc métodos sociedade adequados de seleção s o c i a l . em busca de um programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a . a educação terá de ser concebida como uma nova forma de controle social. com a derrota do nazi-íascismo. se deteriore. cm parte inconsciente. a superação das formas atrasadas e tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo. (. estamos vivendo numa era em que as forças não só da tradição.. abertos. Para ele. cada uma das quais apresentava sua contribuição cultural própria em níveis diferentes. Para Weber. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais ■! solidários. Episóilios d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o . associada a um período cie declínio cia liberdade e das esperanças. se tratada a partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pósguerra. havia equilíbrio. a modernidade não tem apenas custos. E a s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a . e vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de vida. c m s u a v i s ã o .. ^énftáifí J &fcóriíribüir 1 eólia O processo educacional. Arrisquemos agora conhecer prestadas pelos diferentes grupos à educação. A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s sociais'.

a 98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 .um pouco mais sobre educaçã o no dias que correm.

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