Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues

Sociologia da Educação AlbertoTosi Rodrigues Coleção

Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja Hcrnvan

[o que você precisa saber sobre...] C O ORDENAÇÃO
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

[o que você sobre...]

precisa

saber

Revisão dc provas Paulo Tcílcs Ferreira Andréa Carvalho Projeto gráfico e diagramação Maria Gabncla Delgado

Sociologia Educação

da

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ I\Ó lis Rodrigues, Alberto Tosi Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro: DP&A, 200-1, 5. cd. - — (O que você precisa saber sobre) 1 4 x 2 1 cm 160 p.

5a edição

Inclui bibliografia ISBN: S5-7490-2S9-6 1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.
1

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PASTA N°TEXTÇfJSL.

CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem? N UM o i : s h u s
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10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m

malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou", já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade? Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva. Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.

Buscava m isso delimita r de um campo com

20.

S O C I ED AD E ,

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investigação

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Sociologia da Educa

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Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal. Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos. Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social. Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação

alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t com os outros. E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos. Durkheim e o pensamento sociológico Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida? Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia da educação. sociologia c da

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S OC I O L O G I A

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S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L

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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a moral, o direito, a economia ou a eclucarn s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu, t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção necessária para entendê-los A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „ 1 sob .. j. , muuos uc agu que exercem u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar são portanto contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pre-noções dos preconceitos i ~ científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í imediatamente.
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se fossem coisas lais como

II.S

coisas materiais. Coisa para ele é todo

objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental. Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, pelas é reconhecido que lei a como-tal porque é (no de conhecimento pelas leis a e coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido regras A sociedade contradiz estabelece punição as caso, o mais jurídicas). consciência estabelece porque convicções crime fere vivas

coletiva,

profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade. O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação

"

&

Ui

as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como

dentro de sua cabeça. assim. embora não possa pensar. você já esteja um pouco ansioso. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o . Ao mesmo tempo. n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e . completa.-a-. sente. talvez há muitos anos. mas um conjunto de crenças. na visão de Durkheim). não entenderemos a água jamais. ao mesmo tempo um ser social. a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto. retenha dois raciocínios houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa. Primeiro. pois que suas partes constitutivas são gases. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais. ele levará um pouco da sociedade consigo. Ela pensa. Disso que acabei de dizer. é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações passadas. onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles Mais do que isso até.s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o naufrágio? Pois é. Vamos chegar lá agora. são percebidas em coletivo. não entenderemos a sociedade jamais. mas se combinados em certa proporção . de valores. para Durkheim. m a s s o m e n t e p e l a cooperação entre os indivíduos. A sociedade vive na cabeça de cada um e. caro leitor. a consciência coletiva. Tais crenças c valores não revelam uma suposta personalidade privada. que viviam dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas. As representações sobre os fatos sociais são iepieséntaçõcs coletivas. Se completamente tomarmos as partes que compõem a água. que ajudaram i criar is i crenças. Segundo. v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " . O todo. em decorrência. Por causa das combinações e das mutações que sofrem a o s e c o m b i n a r e m . diz Durkheim. A sociedade na cabeça de cada u m L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. desejar c principalmente agir senão através dos indivíduos. elas não derivam dos indivíduos considerados i s o l a d a m e n t e . os qtiais não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que tal coisa poderia exista. foi "raças à sociedade e seus saberes. a pensar a educação? Calma. Talvez já esteja se perguntando: bem. não apenas o indivíduo faz parte da sociedade.6 mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos. calma. A consciência coletiva existe através das consciências particulares. afinal. e inclusive das que não vivem mais que já moireram. o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em outra coisa. tem precedência sobre as partes. Portanto. cm cada um só existe um fragmento dela. Talvez a esta altura. A diferenciação da sociedade Ora. esta sociedade viva n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia s o c i e d a d e . N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o comum dessa colaboração. mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda. mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando fundamentais. L e m b r a m . sentir. por outro lado. A sociedade tem vontade própria. Revelam sim o quanto há dos outros em nós.determinada transformam-se c sob em certas algo condições físicas diferente: específicas. água. de hábitos. os valores e as regras q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -. Do mesmo modo. Cada uma não é nada sem a outra. F como se se combinam entre si. Para ele as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). são exteriores às consciências individuais. a nossa vida como indivíduos. deseja. são compartilhados e geram. na cabeça de cada um. algo novo. As representações coletivas. pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta. . O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o são dois gases diferentes. pois se é verdade que ela existe em cada um. De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos. uma parte da sociedade fa7 parte dele. porque ela não cabe toda. cada um entra com sua quota-parte. m a s d e s u a cooperação. c. assim como o Cristo bíblico. se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim aprendemos. se tomarmos os indivíduos. essa existência social essa vida coletiva. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a .

Estou falando de aprender a viver. A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de indivíduos destacados. o açougueiro. ninguém nasce sabendo. com uma pessoa mais velha. essas já parecem mais exóticas para nós. pescam. note bem. pela cie de cooperação entre indivíduos. ao nascer.7 naturalmente. na moderna sociedade industrial. Vicia moral que será a base cios conteúdos transmitidos na forma de crenças. Bem. o contador etc. outro para pintar os encaixes etc. E que cada nova geração. obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. Ela tem conteúdos Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei. como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. mas são parte integrante de um determinado meio ■moral que compartilhamos. pelo menos alguns de nos. Coisa que. recebe pronta na forma de educação. sua vida em1 comum. valores c regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos. Como já vimos. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade. e a segunda vale para a cultura esquimó. Mas no caso radicalmente oposto. Numa tribo dc índios. você já deve ter reparado. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas. as tarefas são extremamente divididas. Com a urbanização c o desenvolvimento e c o n ô m i c o . superespecialização das tarefas. através do de é produzido um processo Dito social. por exemplo. um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim observa que uma condição fundamental para que a s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. valores e normas de geração paia geração. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso. ou seja. de tão comuns. Além desses. Na fábrica moderna. não se faz no vácuo. Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em . temos vida um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. (D tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc solidariedade mecânica. A l é m d i s s o . alguns jamais aprendem. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar. o professor. que são todos operários. é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. P o i s s e m consenso não há cooperação entre os indivíduos e. ao refletir sobre como. portanto.. Este interação predomina meio que na moral. não há vida social. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra. o carteiro. os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. claro). na calçada. e o risco de enlamear o lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. E este tipo diferente cie cooperação. o dentista. pois significa que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. que levou a uma \ o na tase da conquista. cada vez mais. ficando você com o lado cia rua. há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico. o status d o s m a i s v e l h o s e r a diferente do que existe hoje. outro para encaixar as peças. há um homem para apertar o parafuso. pór este mar de crenças. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição. Existe um número quase infinito de rcras sociais que. Não estou falando apenas de educação escolar. o ferreiro. fazem cestos de vime. trabalho determinada outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que coletiva época. mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes. até esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um moral diferente. existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. os chamou vida nos de diz divisão numa Durkheim. dá origem . a í e g r a c a d u c o u . participam de rituais religiosos etc. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada. afinai. Aliás. Tal processo se radicalizou com o capitalismo. Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. Com a divisão do trabalho social. todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam. por sua vez.

ao contrário. embora vivei" sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela. Pode-se dar O tipo de solidariedade que se. é a solução pacífica da luta pela vida. tão ligada ao coletivo ela é. é similar à luta pela sobrevivência no reino . Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes. Em vez de matar uns aos outros por causa da competição semelhantes que na seriam luta obrigados a empreender os seres com seus pela sobrevivência. e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença. obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma sociedade pouco diferenciada.rs astronautas. em diversas circunstâncias da vida. beber c vestir) dependem das outras. que iazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de lazer.. a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. caro leitor. por assim dizer. Quando. para pensar e agir por conta própria. Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento • de uma diferenciação s o c i a l cada vez maior. ficam mais fracas. nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho-. portanto. como a sociedade industrial moderna. pensa Durkheim.. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver. A diferenciação social. humanos diferenciam-se. a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica. Assim. as regras gerais ficam relativizadas. para Durkheim. para viver (inclusive para comei. a n a l i s t a s d e s i s t e m a s . Talvez nem se espantasse. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. tem uma margem maior de liberdade. os indivíduos pensam com a mesma cabeça". mas você depende dos outros. mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes c. em decorrência solidariedade mecânica. animal. A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s porque fazem juntas as mesmas coisas. difercnciando-se umas das outras fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da sociedade. E o que D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica. sua relação com seu patrão ou com sua sogra. Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas. a tendência.8 Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje. A divisão do trabalho. crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional. é o consenso Quando cada indivíduo. p i l o t o s ' d e c o r r i d a . em decorrência solidariedade orgânica. pelo contrário sofrem i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o . enquanto que. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir. há muita divisão do trabalho e. mesmo com aqueles que você odeia. videoma. Há. portanto. você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado. em função da divisão do trabalho e da especialização. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta. a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores. se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro. Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. isto é. os meios morais. consultores de m a r k e t i n g .estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado â noite? Lamento informar. Mas há outro ponto importante. rodeado por técnicos em informática.ke. Os valores as crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos. cada pessoa. De solidariedade orgânica. c uma relação dc solidariedade. Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e. assume valores. são bastante distintos. Sc uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa. Mas o que você faria. ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores. um enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras. d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o diferenciada.

paradoxalmente.* f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s pessoais e cada vez menos coletivos. Os indivíduos passam . sua validade geral e indistinta. . É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento ela liberdade moderna. provocaria a g u i a r . decorrente da competição imposta pela diferenciação. provocaria D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut. sem consciência coletiva. mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da a consciência consciência coletiva.9 interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas.i Educação para a vida Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade. então. mais individualismo. Pois quanto mais o individualismo cresce. Mas quanto mais liberdade individual. . entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade.s e p e l a I HI SCII d a s a l i . a sociedade não pode sobreviver. entanto. solidariedade a desintegração orgânica da (baseada na diferença) o que sociedade. o conflito. na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa cm que nascem. mais diminui. E assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o_ individualismo. Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle. coletiva que era quase E no total nas sociedades pouco diferenciadas. i s t o é . sem uma moral coletiva. A tendência será. e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento c de ação. Si) numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras.

existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. Por isso. acredita Durkheim.10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O grupo. não seria possível. Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social. Edueação'é socialização. Para Durkheim. para Émile Durkheim. sem que sejam todos. S OC I E D A D E . Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos. Preservá-la inclusive de sim própria diferenciarão. Existem certos costumes. "É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como q u e r e m o s " . s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia. aliás. só se voltássemos à pré-história. através da aquisição de uma moral profissional. gostemos deles ou não. ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 . as sociedades modernas são muito diferenciadas. após outra. a sociedade se vingará de nossos filhos. o caos. Sé) assim é possível preservar a sociedade.. Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas. a educação. do essas numa onde chance valores os A ou meios e do no educação morais valores do literato. E(j-este é o modo a ausência de regras. de seu meio moral. Aprender a ser um engenheiro. Se isso não ocorre por completo é porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma. Significa entrar num meio moral. não é específico. de seu pelo qual você se torna membro da sociedade. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais. e uma por educados. passar a alguns . Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo. No para os básicos engenheiro mas antes passaram compartilhada dividida morrem. a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. enfim. como dissemos antes. particular. Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro. como seria possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora. Se não fizermos isso. Assim. em sociedades sem diferenciação. Mas se. rigidamente fundamental. A cada momento histórico. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social. paia Durkheim. diz nosso sociólogo. simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de concreto. conforme 'a divisão em classes. em grupos. de sua profissão. que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional. existirão crenças médico. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. educados atividades sociedade as de comuns pessoas profissionais. casta cm para entanto. os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos.■ '. quais que pode de por com castas. e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. pois não estarão cm condições de viver en> meio aos'outros quando adultos. em castas. geração geração. certas regras. Assim. devido à divisão do trabalho social. de sua casta. Educação homogênea. harmônica com seus contemporâneos. a educação assume o significado de educação moral. por somos devem ser serem uma toclos. em profissões etc. não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. geral nascem de todos. a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal. como existem na mais ser muito específicos sempre a da comuns diferente para educação Mesmo índia. é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. Você aprende a ser um membro de sua classe.

uma religião comum. E fundamental que haja certa homogeneidade.11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O "alguma coisa a gente tem que ter em comum". mesmo que nem toclos nós fumemos um determinado cigarro. existir sociedade sem isso. e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma tia criança que . Não seria possível < exemplo. Assim.

educaç ão e em anci pação Marx e o pensamento sociológico A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX. nossa profissão. Sé) a educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser considerados como uni importante ponto de partida da sociologia. intelectuais c morais. A SOCIEDADE NOS MOLDA . Cada geração transmite a seguinte. através da educação. Para resumir cita idéia. permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá paru educação. a educação se diferencie. os elementos fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades humanas. Assim como é fundamental para ele que. a partir de certo ponto. A educação que recebemos tem por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que vivemos — nossa classe. O que existe por irás tias aparências dessa nova. maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento histórico são capazes de controlar as consciências dos homens? Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o berço cia sociedade capitalista. C APíTUt O ii1 S oci edade. Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe nos porões da sociedade. certo E STÁ BEM . para iivrá-lo de toda a opressão que 0 esmaga? número de estados físicos. nosso meio moral.34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O / é educada. se destine [Educação c sociologia. e também da sociologia da educação. É isso que nos permite viver cm sociedade. é isso que permite que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. particularmente. no'seu conjunto. para adequar as crianças a seus meios específicos de vida. [). na criança. e pelo meio moral a que a criança. como transformar esta realidade? Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será possível educar para a emancipação do homem. insistiu o sociólogo francês. E é por isso que a educação é um processo social. A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida social. tem por objeteususcitar e desenvolver. reclamados pela sociedade política. .

a pretensão de Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia.. i a c o n f u s o ? ( _______a l m a . ele fazia filosofia. Ir a sociedade verdadeiramente humana "deve ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão. idéias. enquanto levava a burguesia à condição dc classe dominante. nem entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser. transmitidos com zelo de geração para geração através dos séculos. Bem. se Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O . que o pensamento de Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia". foi a sociedade capitalista de seu tempo. Seu socialismo era "científico". Nada menos que isso. Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista. isto é.. e o futuro desejado está contido no presente odioso. no modo mesmo como a sociedade presente "é". seu pensamento é normativo. educa Pelo contrário. pata não dizer o único. pretende vislumbrar como a realidade deveria ser. Compreendendo esta chave.. o transformador) social compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na qual ela estaria se transformando. Por outro lado. seria algo como o seguinte: "o que move a história é a luta entre as classes sociais". assim como Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas diferentes. Mas não se conformava em propor o socialismo como uma opção entre tantas outras. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se em motor da mudança histórica? As l e i s d a h i s t ó r i a Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com. Marx julgou necessário descobrir como a história humana funciona.. isto é. de caráter analítico.. ele foi um praticante das ciências sociais (a sociologia. Nesse sentido. Pois a sociologia é uma disciplina científica c empírica. Para ele não havia contradição entre teoria e prática. dois modos diversos de encarar a realidade. valorativamente caracterizada por ele como iníqua. desde os primórdios da civilização até seus dias.çntre si. graças a suas contradições internas. mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da história. Aliás. uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus instrumentos dc produção e seus saberes. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da sociologia de Marx. principalmente. E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo.. dissecando-a. Mas devo advertido desde logo. Nesse sentido. Marx havia descoberto as leis da história. construindo uma utopia em nome da qual seria necessário agir para transformar esta realidade. o investigador (e. E i a também um militante político. e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar. e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para entendê-la.a natureza e dos homcns._ ■ pretende ver a realidade como ela é. em prática através de um partido político._ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_ expressa. que pretendia colocar suas. Nesses dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento essencial: o trabalho humano. Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (18201S95). 13 . A^contradiçãc> para Marx não é uma fa 1 ha do raciocínio lógicq. Seu objeto de pesquisa fundamental. Por um lado seu pensamento é analítico. para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo histórico em curso que. num discurso proferido no enterro de Marx. a história e a economia política). Nesse sentido.36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. e u e x p l i c o . segundo Marx. Ele olhou à sua volta e percebeu que. .^■y-frl-L-. ao tempo da velha ordem feudal. caro leitor. é porque esta possibilidade está dada já agora. Marx não era apenas um pensador.

ti' produi ividade si > c i a 1. Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de tarefas: fulano faz isso. porque o fazem com os meios de outros. a d i v i s ã o sexual. para desenvolver as forças produtivas. Ambas. bem como pelo conforto e pela r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s .responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do domínio do homem sobre a natureza. e n t r e e s t a e o comércio etc. cada vez m a i s . o _ a produção junto com seus luMncmtambém loi organizando semelhantes. a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e "forças. u m e n t a r c m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o suor de seu rosto.s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o . p e s c a - enfim. E . Ao mesmo t e m p o . portanto. trabalho manual e reflexão intelectual jamais se separaram. distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da sociedade. Porque o . p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r . ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39 É através do trabalho que o homem muda a natureza. Não. o intermediário da relação dos homens uns com os outros. também. ele é. colocandoa a se L I trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. O s e r h u m a n o . As relações de propriedade. q u e cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento das capacidades do corpo huma-rva. Para aumentar :i J í c r v i ç c j ^EjejTJama. são a base das desigualdades sociais. como esta organização da produção advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do aumento da produtividade social. D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços. Com s e u g ê n i o . d e s e n v o l v e u a o longo d a h i s t ó r i a . vive através de seu trabalho. através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. A esses modos específicos M a s n ã o a p e n a s i s s o . As relações de propriedade. E . P r i m e i r o . f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a c i d a d e . entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l . e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e mulheres. que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o longo d a h i s t ó r i a . na medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de homens que trabalham para os outros. n o t e b e m . de um lado. Na medida em que o ser li uma no se reproduz.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O S OC I E D A D E . Nesse processo.'Em vez de cortar ou quebrar com as próprias mãos inventou. boi este o ponto de partida do processo de divisão do t r a b a l h o . o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . de outroMsso significa que no processo de divisão do trabalho. A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o intermediário da relação do homem com a natureza. c o próprio trabalho. embora -como apontarei mais abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o m u n d o d a s i d é i a s . ao mesmo tempo determinam-se e são determinadas uma nela outra. produtivas". a divisão entre a agricultura e a criação de a n i m a i s .os homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e nem sempre os que trabalham possuem esses meios. beltrano aquilo. c a c a . a s s i m . a -machadinha de pedra. Depois. Nesse sentido. Do ponto de vista de Marx. por sua vez. divisão do trabalho e forças produtivas. c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s a n i m a i s . depois de m e t a l c o r t a n t e etc. c o l h e . O desenvolvimento das forcas produtivas foi o. a divisão do trabalho é também parte do conjunto das forças produtivas. Ela é também a expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio de uma dada sociedade num dado tempo histórico. dizem respeito aos tipos de relações sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de propriedade vigentes. m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s pela capacidade reflexiva do homem. c de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que outros trabalhem para si. elas iippj^cjvm numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados para o trabalho. a s s i m p o r d i a n t e . f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s m a c h a d i n h a s e a r a d o s ..nem_sempre.

as formas de propriedade. Assim. não condiz com as relações materiais reais que de fato . que opõe capitalistas e operários. da produção material de sua sociedade c das rclaçêics de classe. funcionam como uma forma de desenvolvimento das forças produtivas. a relação social básica é a escravidão. e o de aspecto relacionado da com as formas de social delas material organização estrutura decorrentes. . do conhecimento. As formas de consciência Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé) lhe expus. um conjunto instituído de relações sociais de produção. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas. burgueses e proletários.33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram o nome de "relações sociais de produção". onde o trabalho era realizado por escravos). das crenças c tias opiniões se relaciona com este mundo material. que opõe escravos e senhores de escravos. quando se estabelecem. no qual as relações de propriedade vigentes são contestadas. Mas como o trabalho e a reflexão do homem. mas chega um (orcas produi desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. as relações de propriedade. E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo que move a história é a luta entre as classes. sejam elas econômicas ou políticas? A consciência está ligada às condições materiais de vida. ou melhor. A transformação de uma forma a outra. que opõe servos de gleba e senhores feudais. o modo de produção feudal (vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. da produção. sob o controle dos homens que nesta época vivem e. Simplificadamcntc. do trabalho. Mas a consciência que os homens tem dessas relações. de um modo de produção a outro. até produção aqui. se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe dominada e a classe dominante em cada época. a teoria de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das idéias. A cada uni desses formas modos de de produção da correspondem propriedade (ou diferentes relações estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e diferentes organização sociais de produção). a relação social fundamental é a de assalariamento. isto é. no segundo. A este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". afirmam nossos autores. como já vimos. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. da posição dos homens com relação às formas de propriedade vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes sociais. isto é. podemos dizer que nossos autores descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas. são laces da mesma moeda ao longo da história. se insurge contra o predomínio da classe dominante. No primeiro. a relação social básica é a de servidão. Marx diz que as relações sociais de produção. ao mesmo tempo. Marx e Engels se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu próprio modo de vida. as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro. e no terceiro. A classe oprimida. ao intercâmbio econômico entre os homens. Dessas diferentes relações de propriedade. isto é. como já sublinhei. política e/ou economicamente dominada. Abrese então um período ele convulsão social.

mostra que isso não é assim simplesmente mostra que o porque caráter qualquer coercitivo. E que esta situação não está ali desde que o mundo é mundo. Assim como em outros tempos. Mas percebe. que os indivíduos não pensam com sua própria cabeça. no entanto. dentro do qual estão submetidos a este processo de dominação. na cabeça dos homens que vivem sob este sistema. ou melhor. no seu universo cotidiano. primeiro Para Marx numa essas falsa implicam.16 S O C I ED AD E . Se estiver muito complicado. não precisam existir para sempre. E existem aqueles a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único bem de que dispõem: sua força de trabalho. Assim. portanto. não desanime agora. Esse indivíduo não vê a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a . como algo normal. que os homens. como a única sociedade possível. mas sim de unia parte da sociedade sobre outra. que se tornam dominadas. Vou lhe dar unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de mencionar no parágrafo acima. A medida que o tempo passa c a sociedade capitalista se estabiliza. como se tivesse que continuar existindo para sempre. Marx afirma que se as relações de dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são socialmente construídas. sem a dominação de uma classe sobre outra. como se isso sempre houvesse existido e. aliás. as máquinas e a própria força de trabalho do trabalhador). não têm uma consciência real da dominação cie que são objeto. por exemplo. que acabaram sendo submetidas a esta classe dominante. quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o lugar de cada um dentro do processo produtivo. em troca do pagamento de um salário. No capitalismo. cie uma classe social que assume o papel de dominante sobre as outras. E. num aparência. Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. no. p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os homens estão de fato submetidos. de não homens se deve necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos. natural. As idéias. para que não reste consciência. as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a . isso é percebido. Marx. Ele manifesta igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens indistintamente. aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de uma consciência coletiva. Estes são obviamente os burgueses. Não. E s s a s representações representações são. n u m a consciência invertida. ela é percebida pelas pessoas. por sua vez. plano das idéias. portanto. diz Marx. estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer. a sociedade feudal. existem os proprietários dos meios de produção (as fábricas. foi percebida pelos homens como a única sociedade possível (durante séculos. as relações de propriedade vigentes. mas que ela foi criada pela luta histórica entre as classes sociais. bem maior do que a duração do capitalismo). No entanto.ranslormaildo-se em proletariado. Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos. num intervalo de tempo. sociedade dominador. Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do trabalho. o modo como está obrigado a trabalhar e viver. na vida cotidiana. l. momento classe dominante (a burguesia) e outras classes. Ao trabalhador lhe parece natural que certas pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3 vivem. mais ainda. pois o homem pode construir outros tipos de relações. Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx. o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época histórica.

os vendia em seu estabelecimento. muitas vezes seus filhos. E de onde veio este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre. isto é. o capitalista reduziu o trabalhador à execução cias tarefas simplificadas. pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro. A princípio essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas. Primeiro. Com o desenvolvimento do comércio. um sapateiro — realizava todas as etapas da produção de seu produto. é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s capitalistas. não só com os sapateiros do exemplo. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO -S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o 1 '5. sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo cia máquina. também. costurava-os. pregávamos''solados. c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e um produto e a própria posição social do artesão. fazia o acabamento c. E l e . o ofício a seus aprendizes. Como isso se deu. depois de Mestre formado. Os comerciantes passaram então a contratar fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. ou apenas costurar. Juntou-se a esta desenvolvimento tecnológico daqueles séculos. as forças produtivas foram enormemente desenvolvidas. cm vez de aprender o processe. do ponto de. mas com todos os ramos da produção material. Ao fazerem isso. porque não saberiam mais como produzir por conta própria se tivessem esses meios materiais. Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de c a d a d e t a l h e . Através da maquinaria industrial moderna e de posse desse saber. o artesanato se transformou cm grande indústria. c foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um salário. poclc até parecer convincente. Quanto mais sapatos vendidos. mas com seu aperfeiçoamento. Assim. cortava. E claro que este era um processo lento. as máquinas começaram a ditar o ritmo da produção. Eles eram autosuficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas. para M a r x . c o m o p e s s o a . em vez de todos realizarem todas aá etapas e passarem de uma tarefa a outra. iodo. E seria bem mais simples. uma nascente classe de comerciantes começou a ter pressa. o XVIII e o XIX principalmente. Como resultado de uma enorme gama de transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX. mas através de um processo social de expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s . repetidas vezes. sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r (somado aos meios materiais necessários para a fabricação de sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no mundo c suas relações com seus contemporâneos. foram criadas máquinas novas para aumentar a produção. muitas vezes seu pai. na condição de aprendiz. tingia. e não a máquina ao ritmo do trabalhador. A forma de produção de mercadorias no mundo feudal era o artesanato. no entanto. Cada um faria apenas uma etapa. deles foram subtraídas duas coisas: os meios de produção c i a v i d a m a t e r i a l .vista das relações de propriedade? No artesanato. entre o tempo do artesanato e o da grande indústria. mais lucro. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos animais. começaram a entender o processo de fabricação do sapato e perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas fossem divididas entre os trabalhadores.. já que foram obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e parciais. o Mestre de Ofício — por exemplo.. O que aconteceu. mudança um outro dado fundamental. numa perspectiva histórica. que o desenvolveu e racionalizou. que os novos trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma só tarefa. Explicado assim. ainda. Agora pense o que aconteceu. parciais e repetitivas na linha de produção da fábrica. mas a percepção dessa expropriação e o entendimento . Com o 17 dúvidas sobre isso.44 Sociedade. Do mesmo modo ele ensinaria. E depois. e um número reduzido de pares de sapatos era produzido. porque não tinham mais os meios materiais de vida. com o qual exercitou o ofício desde criança. construía as fôrmas de madeira para a fabricação dos sapatos.

A outra parte é apropriada pelo capitalista e se transforma em lucro. Existem as fábricas e seus donos.. que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida da mesma íorma que no_dia anterior. s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL.. pelo capitalismo.•16 Sociedade..ções_. M a r x d á o n o m e .no que era de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no qual cresce e morre. que não é dono dc coisa alguma. c e s s a _ c a ___________l o r m a d e dominação_m. i i \ p r e .ço_ndi. E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x . que é obra de cada ser humano. portanto. A isso. Por causa do salário pago. Ele só aprende que deve trabalhar para receber. que o salário não remunera. Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa época. O trabalho é então percebido pelo trabalhador como algo fora de si. todos os dias sem saber. a teoria de Marx e Engels afirma que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é injusta em si. dojiunado dp.d e alienação. de normas c de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo a vontade "do sistema". compartilhar há uma diferença. é compreendido como algo que não pertence a este ser humano. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO 47 DA •/■S O C I O L OG I A E D U C AÇ Ã o Exploração capitalismo dominação econômica e em opressão todas o as política do homem só pelo b n m _ e j i \ _ g g . pois esta é a percepção que tem da realidade na vida cotidiana.riiins de trabalho (jornadas longas demais. P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e estão submetidos.tc se revolta diz respeito aos salários hai. na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes dominadas. desses dc filme de ficção científica. mas — e isso e i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria vontade. que sempre' foi o meio pelo qual o homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens. O trabalho. é individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Qtrabalhadox_não tem controle. mas apenas uma parte dele. NxLxap.mjnado_ç sabia. cabe trabalhar nelas e ponto-final. Em resumo. Marx diz. E quase como sc_ houvesse e m seu cérebro um c/u/> perverso de computador. O trabalhador foi separado. A i s s o M a r x d á o n o m e d e ideologia.ajs_visceral. o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de trabalho mediante o pagamento do salário. . i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r . É injusta porque separa o trabalhador do resultado de seu trabalho..pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l .era seu dominador. a l h a d o r e s dormem com o inimigo. E mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa da ideologia.. que pertence a outros. concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências.c_às. e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano.naturrj_is__e passam. que é uma concepção de mundo gerada pela classe dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua. O escravo s abia que seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à forca. do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c também do fruto deste trabalho. o trabalho. a b . porém.quem.cojrio uma fatos. o servo sabia que o dono L O I feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. Jnsalubrklade_etc). os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ fa 1 s a_d o mundo em que vivem. Em todas as outras lormas_d_c ajnerioxes.houve histórica sociedades: sabia que. A i d e o l o g i a . E ao trabalhador. vêem o trabalho alienado cji_d_oniinação de uma classe social a sobre otitra .._xos. O máximo SC L I dc jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men. c a q u e l e s i s t e m a ordenado de idéias. o salário e viver. No capitalismo. todo o trabalho realizado.. p o r t a n t o . de concepções. confortavelmentc instalado em sua própria mente. ao contrário. A suprema ironia do capitalismo é que o dominado p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r .

Pois vou lhe dizer o que eu acho disso. E aí entra sua utopia: acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova sociedade. seres humanos inteiros completos. ao mesmo tempo. sobre o que toda essa c conversa de tem exploração. autocentrado e autoconsciente. Por um lado. todo o esforço e trabalho que pudesse. Nessa nova sociedade. acreditaram haver descoberto as leis da história. e receberia dela tudo o que precisasse. enfim. E. c claro. a ver com alienação.48 Sociedade. Eles. é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo minhocando dominação. a sociedade comunista. ideologia comunismo empírica (ainda eme pouco aprofund ada) da situação - I educação. quando esse momento chegasse. Educar no mundo industrial Bem. graças ao desenvolvimento material propiciado pelo capitalismo. Por obra da ciência. Os homens e as mulheres seriam. sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para eles é uma manifestação das relações de classe. seriam felizes para sempre. e deixaria de existir quando as classes não existissem mais). o homem se reencontraria consigo mesmo. seria um ser autônomo. se abriria uma época de revolução social e política. sem dúvida a mais bela utopia do século XIX. fazendo uma análise a . educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o 19 Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. sem alienação e sem ideologia. Daria à sociedade. tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. Essas leis lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas de propriedade e que. Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos com que viam o capitalismo. sem exploradores nem explorados. por sua própria vontade. trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo.

) Além disso. para inculcar no trabalhador o modo burguês de ver o mundo. r o ta época. identificaram na educação uma das mais importantes formas de perpetuação da exploração de uma classe sobre outra. Por outro lado. Olhando mais de perto.48 Sociedade. Segundo relato de um inspetor do trabalho da época. há falia de livros e de material de ensino e moderno meninos freqüentavam a escola. O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da . para Marx e Engels não existe "educação" e m g e r a l .. ela pode ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação. com a condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de da fiscalização. (. E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o . M a r x f a z u m a análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela Revolução Industrial. utilizada pelo capitalista para disseminar a ideologia dominante. citado por Marx em seu livro. porém. educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o al . Ou seja. Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta. pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária. comenta tão precário. justamente a (ase de afirmação do capitalismo industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas. o mobiliário escolar é pobre. ele nota que a lei inglesa anterior a 1844 20 educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril. identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano. de sua libertação da exploração e do jugo do capital.. O Capital ( d e 1 8 6 7 ) . numa dessas "escolas" que visitou a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível. que só poderia servir para perpetuar as relações de legislaçã sujeitos.

que a escola em tempo integral é pouco produtiva. Marx festejou a legislação inglesa dc 1844. qualquer criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo. a educação formal escolar e o trabalho manual nas fábricas. sua utopia comunista seria impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. c que já tivessem aprendido as primeiras letras e números. que vivemos à beira do século XXI. com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual. Sc é através do trabalho que o homem produz para viver. o trabalho do professor mais duro e o rendimento escolar menor. A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. através dessa c o n j u g a ç ã o . pois acreditava que todas as crianças deveriam combinar. E romper com essa separação é uma d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s . uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria unia abominação. e não contra a existência da civilização industrial. s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r . o trabalho infantil é desejável. Não nos esqueçamos de que Marx era um entusiasta dos avanços do capitalismo. colocando a natureza a seu serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante. todos dividissem o trabalho manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. quanto os livreis. a educação escolar e o trabalho na fábrica. desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela legislação. todos seriam homens completos. com um novo caráter. do mesmo modo que todo adulto apto para o . porque. embora sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a as infelizes crianças. Ele lembrou em vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o . os cadernos e os. muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de mil. que era um homem do século XIX. o trabalho manual eleve ser exercitado por toclos. A partir de então só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já tivessem pelo menos a instrução primária.nível material de vida da sociedade humana. na formação das futuras gerações. no comunismo. educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51 Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. Assim. não sendo combinada com o trabalho man uai torna o dia da criança enfadonho. D i z ele: Consideramos que c progressista. c também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do trabalho na fábrica moderna. as mãos sujas de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s . Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos. Estive em muitas dessas escolas c nelas vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente nada. telo contrario. Para ele. v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava que um homem novo.lápis. c os resultados dos esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as necessidades cie cada um. X I I I . pudesse ser forjado apenas com uma educação escolar lormal. Em todo regime social razoável. na formação da criança. Marx afirma. d o p o n t o d e v i s t a moral. e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar.21 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade. em sua formação como pessoa. c a p . Seu ideal era o de que. i t e m 9 ) . sã e legítima a tendência cia indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para que cooperem no grande trabalho da produção social. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a apropriação privada do lucro. inclusive. mas segundo a concepção dc Marx. Mas o fundamental é que. Nesse sentido. "As crianças com escola de meio período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. Para que não reste dúvida sobre este p o n t o . Para ele. em menos de cem anos. p o r q u e é dela que brotam a alienação e a ideologia. e esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital. pois ela permitia combinar. Marx considerava isso um avançç) importante.

da qual serviu-se o capitalista industrial para constituir sua fábrica. Pois este seria.. diz Marx.. Marx propõe que. . o a do percepçã conjunto que trabalhar para poder comer.. a de romper com a alienação do trabalho. em sua visão. mas o que se pode concluir de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser. Não se tratava de ensinar ao filho do operário que ele era uma vítima da exploração burguesa. No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista. 6 horas. lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado conforme a faixa etária. E conclui: "não se deve permitir em nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação".. Para tanto. como ocorria.'#p.^. a saber: processo educacio nal lhe devolves s e . de 13 a 15 anos. não haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários. e seria por assim dizer inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das classes trabalhadoras. Não através de uma operação circunscrita às tarefas parciais. E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem. mas de um I . prevendo jornadas de trabalho com duração diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1.<. fundamentalmente. . Sem uma legislação desse tipo. da seriam obrigados fabril a transformar-se próprios em agenciadores escravidão dos filhos. . Marx dá poucas indicações sobre isso.os. o Partido Comunista.. e as de 16 e 17 anos. I % comprometendo seu futuro. eles deveriam trabalhar 2 horas por dia. mas com as mãos.. o ponto de partida para romper com a passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante. premidos pela pobreza. o caminho que Marx vislumbrava contava com a contribuição do processo educacional. 52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E . e trabalhar não só com a cabeça. 4 horas. E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53 trabalho deve obedecer à lei geral da natureza. t a n t oE quanto possível . provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista.2 anos.militantes de seu partido. irias sim ensiná-lo a operar as fábricas burguesas.

era objetivamente possível. op. mental. no texto citado que seria essa o mas educação elementar para o trabalho intelectual. poderiam pode-se homens completos. é preciso do que seria uma substituir o indivíduo parcial. D e n t r o d e . finalmente. É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contemplar três dimensões: uma educação mental. "mero fragmento humano que repete uma operação para o parcial. portanto.do processo produtivo moderno. E.. Isso. ditada pelas exigências do capital. capaz de executar uma única tarefa simplificada. cii. nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial. tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um. porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e . p o r t a n t o . para Marx. Esse novo saber seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c. Ele não explicita.). Em sua visão. uma das chaves de sua emancipação como ser humano. A educação física e no treinamento militar. uma vez que estes últimos também jamais seriam a c i m a . a menos que rompessem com a separação entre deduzir trabalho intelectual e manual.. os filhos de operários estar cm nível muito superior ao dos burgueses c aristocratas. a educação tecnológica seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das máquinas dos diferentes ramos da indústria.. Com tal formação. pensava. qual as pelo indivíduo funções integralmente sociais não desenvolvido. os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica. diferentes contexto sempre passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade" [instruções. tarefa que deveria dos 9 aos 17 anos. portanto. uma educação física e uma educação tecnológica. Em outras palavras.

N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo. A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx. l e m b r a m q u e a família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da família proletária. não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para manter sua dominação. mergulhada na desagregação causada pela miséria. d e 1 8 4 S . Todos. Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado. pelo vício e pela prostituição. na proposta política de Marx e Engels..) E. Kcsta saber então. oiganização acreditavam paia preciso nova social. A primeira eles é que. A. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24 é tal concepção.. N o c é l e b r e Manifesto comunista. o Estado que necessita receber do povo uma educação muito severa". o que Marx antevia era a adoção do ensino tecnológico. deveria ser radicalmente suprimida. o que seria cia educação pública depois que o Estado recebesse dos operários armados. para encerrarmos este ponto. terminariam a divisão da sociedade em classes e . teórico e prático nas escolas dos trabalhadores . ele deixou essa visão bem clara Num texto c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . Ele não era. (. p o r t a n t o . reproduzindo a exploração dos operários pelos patrões/Razão pela qual a família. indistintamente seriam trabalhadores. então. além que de ser uma mudar a forma mudar educação de a exploração forma pudesse de se econômica. como o nome já diz era em sua concepção uma forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe sobre outra. nos moldes que conhecemos. depois da inevitável conquista do poder político pelos operáiios comunistas. (. Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à f a m í l i a ..54 S OC I E D A D E . mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu projeto para o futuro. A família é o lugar por excelência da difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses. Bem mas esses são detalhes. conforme já vimos. concessão na medida em que obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o ensino para os filhos de operários No entanto. Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam. q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e citar. A título de ilustração. ao contrário. que servem apenas para lembrar-nos como ct a complexo. achavam. forma de inverter o conteúdo de c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a . porém. I s s o d e u m a educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível. com o comunismo. deixaram i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s .estabelecimentos estatais e a cargo do Estado. É o lugar onde ocorre a exploração dos filhos pelos pais. assim como as escolas profissionais da época que davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de produção. Para ele. a ele parecia óbvio que um ensino oferecido por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a moldarem-se à dominação. é preciso assinalar que Marx e Engels.. desenvolver. n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia "deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família. A segunda questão importante é que. a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe". quando escreveram separadamente sobre o assunto. trabalho educacionais práticas que tivessem um caráter libertário. mesmo o para esses cie sociólogos-fikxsoíosarticular propostas economistas-militantcs. s e r i a substituir uma educação doméstica por uma educação de caráter social. Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" pois no comunismo não haveria mais burgueses.. de 1 8 4 7 . no momento da revolução comunista. uma primeira. nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano? Acho que aqui há duas questões importantes. ambas relacionadas ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar. Debatendo com seus adversários internos do Partido Comunista. Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de todas as crianças em . ao contrário do que se possa pensar um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque o Estado capitalista.) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo e da Igreja. sua derradeira lição. seria público e igual para todos. mas muito insuficiente. é o espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar com a cabeça da classe dominante. O ensino. as escolas politécnicas e as escolas agronômicas eram consideiadas aliadas importantes do processo de transformação.

pensavam Marx e Engels. o desenvolvimento tecnológico. s e g u n d o a s necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. Educados. Basta olharmos. Seria necessário que. educados. Seria preciso. da "sociedade do conhecimento". Não seria suficiente a revolução política. uma mudança de atitude frente à produção. Vivemos hoje os dias da "sociedade da informação". agora com apenas algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c. a nova forma de organização industrial encontrasse um homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. Hoje. Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo. mas nem por isso emancipados. portanto. Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes. pois. aproveitar-se desenvolvimento do do progresso material proporcionado preciso edticar o capitalismo.54 S OC I E D A D E . a sociedade organizada sobre bases I 25 trabalho. nos dias que correm.para compreendermos seria bem mais complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito em 1S47. nova educação. No já citado afinal da. ao socializar os meios de produção. Assim. e o controle do poder do Estado pelos operários decorrente dela. restritivo de suas potencialidades. Por conseguinte. homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. Diz ele: A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar Princípios do comunismo. a educação nos libertara deste caráter unilateral que a . Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista) que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. permite ao capitalista realizar a mesma produção que antes o obrigava a empregar milhares de operários.em função da reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira Revolução Industrial . com o advento da robótica c da informática. para viabilizar o controle coletivo de seus benefícios. mas o fosso social que separa as classes continua a aumentar. E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o . portanto. ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O a forma capitalista de divisão do pelo "novo divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. para socializar os meios de produção. para o perfil cio "trabalhador polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas . Seria comunistas ■ dará OS a seus 1 n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai 111 U H H > N aspei los suas faculdades desenvolvidas universalmente. parcial.

ela é um mecanismo que. a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade. Para o primeiro. tem contribuições . educação e des encant am ent o As partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga. [iode ser utilizado para oprimir ou para emancipai' o homem. Os raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira vista. e impositivas com relação a elas. as idéias valem muito a pena. em níveis e cm medidas diversas. m a s a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . mas sim o resultado de uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. conforme seu conteúdo de classe. é claro.C A P í T U L O IV '—| Soci edade. se "socializa". E podem parecer um pouco intrincados. A sociologia do alemão I Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos. para o segundo. que é muito pouco discutida na área da educação. verá que ele não é muito "fluente". Mas há outro ponto de partida possível. No entanto. digamos assim. A s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s . deixe-me dar-lhe um aviso. Mas antes de continuar. E quando você for dar uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber. Weber é um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica. A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a sociologia da educação. serão bastante significativas. a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais. embora os textos pareçam um pouco truncados.

importan tíssimas a dar. .

isto é. para Weber. embora vivamos na mesma sociedade na mesma época . Aliás. como o encontro e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s articulam de modos distintos no plano subjetivo.60 Sociedade. que tem pontos de contatoe distanciamento com a de Marx. isto é.lá. As ciências sociais Então. então. A realidade não é uma coisa em si. Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas . o que. Trata-se de um processo subjetivo. para Weber. Os valores são compartilhados. apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto de conhecimento. é literalmente incompreensível se for tratado como um todo. como uma coisa. os valores que ele atribui ao próprio ator social. As ações sociais praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação. Porque os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores. portanto. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o estarão presentes os valores do investigador. c uma teia. Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são concebidos por Weber Ao das como de as üm conjunto para inesgotável ele postula as quais de que. acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa. Um mesmo meio cultural pode assumir 28 distintos. aquele que pratica a ação. para finalmente levantar algumas implicações que este" modelo tem para a e-ducação. O "todo" (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos). Como a realidade é infinita. pode ser qüe as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. A realidade é concebida por Weber. Fluxos da mudança e cristalizações d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. são. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NSO I O L O G I A D A T OC E D UC A Ç Ã o inserido. por qUjé. m a s s ã o i n c u l c a d o s . e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos de racionalidade empregados pelos indivíduos. A sociedade. Para ele. Weber e q pensamento sociológico O ponto de. histórica. Respire fundo. que são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou grupo de homens por ele investigado. isso simplesmente não é possível. e não os seus próprios valores (do investigador). vamos. fundamentais. ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a . diferentemente contrário ciênci Durkheim. os acontecimentos. no entanto. i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s . porque as coisas que eu vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos mais elementares da sociologia de Weber e em seguida. ü. é c l a r o . desde que o investigador leve em conta. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela. conforme o processo de interação em que o indivíduo está significados diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e. regule o seu grau de atenção e prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e Marx. no momento da ação.partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural. não compromete a objetividade do conhecimento. discutir um pouco sua teoria da história. naturais. que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. a captação da ação social. na interpretação das ações e relações. porque são muitas e porque se renovam a cada dia. conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma ciência "compreensiva". Pela s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo. não é um bloco.

poderia dizer: "minha finalidade na vida é ter dinheiro. o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e interessa à sua sociologia.) A ação que especificamente tem importância para a sociologia compreensiva é. por exemplo. e o meio mais adequado para atingir este fim é ir à escola". portanto. em particular. Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s dias) os custos e os benefícios que você terá. i i MI comportamento ouci 1 . Se em sua casa todos piczarcm uma boa educação acima de tudo. está relacionado ao sentido subjetivo pensado daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s . certo? Se um dia você cogitar abandonar os estudos. A produção científica tende a disseminar-se pela sociedade através da educação. Diz ele que por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido (subjetivo) real ou "mental".. M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s . E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão. isto é uma ação social. de praticar uma ação Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) . mas para isso preciso escolher a prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível. pode ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente). deixando de ir. e lhe Difícil.29 SOCIEDADE. porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou por Weber na definição de sua sociologia . será muito difícil pra você deixar de ir à escola.' Vejamos. Se você fosse puramente racional. ms. indo ou. apenas. suas finalidades "exclusivamente individuais . Quando você vai à escola. E direi também que Weber era um pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o h o m e m . 3. Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus interesses pessoais "egoístas". não faz de você digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social . O trabalho científico é assim inesgotável. p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á . está co-determinado no seu decurso por esta referência significativa e. P a r a W e b e r . mulheres (ou homens) à disposição e carros do ano. T u d o O C"| LI percebido.. W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um problema. seu grupo. EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i s i m c o m o D u r k h e i m . seus colegas. 2. (. Não apenas porque ali você encontra seus professores.l o p a r a d e s e m p e n h a r tarefas na vida Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica desenvolvida compreensiva. bem como fragmentário c especializado. Ao ir à escola você emprega sua racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio comportamento. Você pode calcular também com base. c você já pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as relações entre a educação e a vida social. e l a o c o r r e q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o de tomar uma atitude. mesmo que ele não seja quase 7 um a n i m a l social. no valor que sua família dá à educação. que você já vai saber o que é. a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a escola. Estar junto com outras pessoas. porque o" real o é. no caso inverso.

EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O que se era algo importante. . Levar isso em consideração também é 6 i formar.uma forma de cálculo.30 SOCIEDADE.

e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. nem mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro.. dentro do seu círculo de amizades. Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado".S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 31 Mas você pode calcular também com base. feita na cabeça do investigador. na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l . p a s s o a p a s s o . Suponha. N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o . está praticando o que Weber chama d e ação social racional com relação a fins. não significa idealizado". As razões este é o se misturam. 2L. Ar^ir cm sociedade.64 S O C I ED AD E . fins estes tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). sendo três racionais e um irracional. Você pode gostar da escola porque tem amizade com professores namorado lá. Já se você for à escola porque sua formação familiar deu muita importância aos e s t u d o s . e ficaria chato pra você. t r a t a . . Mas. portanto. R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . que jamais será encontrado na vida prática. finalmente. é a s e g u i n t e : l u . a partir de vários exemplos históricos. alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais importantes métodos dc investigação das ciências sociais. Partindo do exemplo acima. p o i s o que Weber chama de "racionalidade perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação.' . tipos dc dominação política etc). p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação ao regular. está sendo irracional. que você fosse à escola apenas porque todo mundo vai. implica em algum grau de e colegas. Ele é um exagero dc perfeição. C o n s t r u a u m tipo ideal "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social. Nesse Isso é método perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem mas os constrói para que sirvam de referência. para Weber você pratica u m a ação social afetiva. isolar tipos satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola. você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem busca utilizar-se dos melhores meios para isso e. Ninguém.fundamental para entender Weber. s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . S ó n o parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social. mesmo que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades estudantis. esses de No Weber. como por exemplo idealizar o que seria uma "sociedade perfeita". ou porque arranjou uma namorada ou racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m age. vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar. esta teia inesgotável dc eventos e processos. portanto. Essas coisas t o d a s s e c o n f u n d e m .s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a . O/fie o mundo social que o cerca. se você vai à escola apenas por causa dos amigos. Na ação afetiva. A receita m e t o d o l ó g i c a . V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a de comportamentos aceitos em seu grupo específico. quando você vai à escola pensando em se formar e ganhar dinheiro. dizer que não freqüenta a escola. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados. Finalmente. fundamental Aliás. por exemplo. e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a valores. É m u i t o p o s s í v e l que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu citei no exemplo. tem que ser uma coisa de cada vez). na prática. O tipo é tima construção mental. o u e n t ã o d o modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. e Weber achava que os . N o c a s o . repare também que no dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê construiu. dos professores ou da namorada ou namorado. v o c ê e s t a r i a sendo irracional. "puros" Ele é de sabe absolutamente comportamento. e selecione dele o aspecto a ser investigado (não dá pra ser tudo. Ei. entanto. 3 ' . Significa apenas que você escolhe as características mais "puras" dos tipos.

S e d i z e m o s " b o m . daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação. para sua sociologia. a s s i m . O indivíduo e as instituições sociais Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo contrário. Aquilo que e mental. c o m o s e n d o ações propriamente obter os fins ditas.64 S O C I ED AD E . na prática.d i a " n o c n c o i i 11 ' i r s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a . Mas não sé): ele é obiigadc) a relacionar-se também com as normas sociais consolidadas. não estamos falando ríum comportamento exclusivamente psíquico. A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível. Não é nada disso. É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance. de intencionalidade. é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer. para Weber leva em consideração. liga o indivíduo às estruturas sociais e estas ao indivíduo. e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo. para Weber é incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . os comportamentos dos atores são interpretados c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e . q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento d o s o u t r o s . no momento de agir. Ressalto novamente: q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo. Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a U porque ele prefira o indivíduo. b a s i c a m e n t e . E m c o n s e q ü ê n c i a . n o c o n t e x t o d a sociologia de Weber. melhor d i z e n d o . e s s a r e a l i d a d e s e apresenta a você. o comportamento dos ou tros c é isso que faz de sua ação uma ação social. O método de Weber é individualista não . Ou. reduzem-se i categorias q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e . sem exceção. mas porque para ele o indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de sentido. Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou simplificar bastante a definição do nosso autor. habilidade cada indivíduo utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos antciiotcs a própria ação. c o n c e i t o s c o m o E s t a d o . se revela em seu caráter mais complexo. • os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis. nem muito menos a psicologia individual. no sentido de adequação entre meios e fins. e isto significa.À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u . embora a certos elementos de dessas ações (a na estruturação do sistema de preferências. E l e d i z . um agir cie homens que se relacionam uns com os ou tros. exclusivamente psíquico. O indivíduo. que têm influência sobre seu agii. Para Weber.s e d a q u e l a q u e s e refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. E D UC A Ç Ã O E O E S EN C A N T AM EN T O . em detrimento da sociedade. que é detalhada so para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber.S O C I O L OG I A D A E D U C AÇ Ã O 32 tipos de conduta mais puros são os mais racionais. e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. a escolha dos meios para desejados. capitalismo ou Igreja. institucionalizadas. 4 . Comportamento subjetivo é o c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o .

33 SoCItDAOE. E D U C A Ç Ã O C D l S f l M C A N T A I O EOG IO D A SOC M L N Í A E D U C AÇ Ã O 67 :3t .

é claro): v o c ê e s t á obrigado a p a g a r . kracional. A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não sofrer as conseqüências. de que se comportem cie modo emotivo. supõe-se Ir e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias para eles. assim como no caso dos tipoS~de ação comentados acima. Q u a n d o i s s o o c o r r e . portanto. Se o comportamento dos outros fosse totalmente imprevisível para nós. tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores i n d i v i d u a i s . Quando agimos racionalmente. ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 34 determinada pessoa é porque esperamos que ela responda "bom-dia" também. Mas diante da declaração anual do imposto de renda. Ê As regras. porque sabe que se for capturado. O agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade objetiva"). ainda. portanto. Sc você se vestir com uma roupa muito fora de moda. ou então na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular. p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a todos c. Além dc pouco afetivo. na média dos comportamentos geralmente usados para aquela m• I É ! WI orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique este ato. No agir em sociedade.68 S OC I E D A D E . O agir em comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os outros dêem determinado peso a certos valores e crenças. E. Está. será punido. V e j a b e m : n ã o estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. você não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil. funcionam como uma espécie dc ■2-. M a s expectativas a validade da norma não se baseia apenas nas recíprocas. seria difícil viver. O a g i r e m s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . praticar este ato seria bastante irracional. regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que os homens ajam segundo suas determinações.' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança. quando foge ou sc esconde. está se orientando conforme os regulamentos. Pois bem. O próprio criminoso. Í p: "condensação dc expectativas recíprocas" c. não apenas porque imagino que você gosta dela. comportem dc um determinado modo. porqtie foi feita uma lei para . agindo em sociedade. sabe que está sujeito às sanções correspondentes. s outros igualmente agem segundo as regras. p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a da moda. e não de outra maneira. melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com relação ao comportamento dos outros. se você descumprir. E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o vai matar sua mãe. Quanto mais disseminada socialmente situação. de acotdo com um cálculo que tem por base as regras. essa racionalidade não precisa ser apertas com relação aos fins do ator. esperamos que os outros também ajam assim. Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14 anos. Ou. W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem social. Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com base na expectativa de que os outros também se. mas pode se£ preso. J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o . para que possamos calcular as possibilidades reais de levarmos nossos objetivos até o fim. expectativa além do indivíduo nos orientar-se por este tipo que de tais baseada regulamentos. Esta é a diferença entre a Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a " d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito — em que a validade do regulamento é garantida por um aparato coercitivo e punitivo. mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são condenados c presos pelo sistema legal vigente. Mas quando o indivíduo calcula que é m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o . cm conseqüência disso. pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou n a m o r a d o .

desses com sauna c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento. 'Com isso. C h i c o B u a r q u e . e l o s d e c r e t o s . definida pela existência de regras gerais e de órgãos próprios. O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m os "órgãos". por exemplo. na medida em que as regras e os órgãos permaneçam. você está sujeito à ele sua carteirinha de sócio. além dc sentir-se ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas OLI A vida comum em associação permite que sejamos capazes de prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas. c continuam a ser criadas. cada "sócio" confia que os demais se comportarão (aproximadamente) conforme as normas. c l e s s e t i p o d c r e g r a s . mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece. o ponto importante que a sociologia cie Weber nos permite pensar é que. O bonito disso. A durabilidade dessa associação através das gerações de indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o seja voluntário. não é uma formação social efêmera. os "estatutos" e o "aparato de coação" da associação. E é só quando aceitam institucionalização se completa. como já comentei. meu amigo. Nessa situação. Estou falando dc todas as regras. Ocorre. embora as coisas já estivessem prontas quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este pacote dc regras c]iie regulam a sua vida. em busca de seus objetivos e levando cm consideração a existência das normas — sejam essas normas entendidas como a condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou como. reforça a certeza de que a confiança mútua não será decepcionada. Quando isso o c o r r e . quer queira c]ucr nãc~>. e portanto. Porém:.35 S OC I E D A D E . A esta coletividade Weber dá o nome d e associação com fins. porém. pois pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro. Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. às quais costumamos chamar Estaco. as coisas são diferentes. é preciso considerar que essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos passados. Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro. São instituições sociais. os "fins". adora brincadeira. Sc a divina providência o fez nascer aqui. inteligível para nós. c se você insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras horrorosas que infectam os dedos dos seus pés. ou seja. vender seti título de sócio ou simplesmente não freqüentar. que uma associação com fins. W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. Quanto as mais pessoas as pessoas este assimilam quadro subjetivamente normativo que a a obrigatoriedade das regras. quando plenamente desenvolvida. e esta expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria conduta. e está automaticamente sujeito a todas as suas regras. no casei ela associação política mais abrangente de todas. O Brasil foi um aqueles rapazes charmosos que nadam ali. ela torna o mundo que nos cerca. . mais a previsibilidade aumenta. sem ter sequer o direito de alegar ignorância delas. De um clube de associados com sauna e piscina você pode escolher sair a qualquer momento. Sé) está submetido às regras na medida em qtie optou por ser sócio. Se você for sócio de um clube "social". e também que elas estão aí para serem mudadas.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo comum por estes referenciais. que c o Estado. nasci brasileiro". a suspensão pressuposição de cada um de que a não-observância das normas pode ser punida com coações físicas ou psíquicas. p o r e x e m p l e i . e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a gozador. ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 71 Assim. Na barriga cia miséria. n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s . as formas de comunidade religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais da vida política entre os homens. você também participa disso. Veja. não há escolhas: você pertence ao Estado brasileiro.

as regras foram se tornando cada vez mais racionais. Nesse processo. mas no modo como a sociedade vê as relações entre as raças. Ou seja. de cem anos pata cá. Agir segundo esses fins da associação. num curtíssimo lapso de tempo. entre outras c o i s a s .72 Sociedade. Aliás. Este é um exemplo de extraordinária transformação. por sua vez. Negros por aqui eram valorizados apenas enquanto investimento privado de compra e venda. E embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social que os segrega na marginalidade econômica. esta associação mais abrangente que é o Estado detém um poder de imposição. se você chamar sua empregada de "negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. Tal influência. Tal poder se baseia numa influência específica — que Weber chama de dominação — de homens concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. que a lei antiracismo prevê). segundo i . educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o 36 país escravocrata até outro dia. i s t o é . Hoje. se baseia. diz Weber. tal* dominação. passaram por um processo de institucionalização. n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u psíquica). ou enquanto insumo agrícola. a lei geralmente se fundamenta num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. não apenas na lei. Historicamente. as associações políticas humanas. f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que vão de multas em dinheiro a meses de reclusão. é preciso reconhecer que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar crescentemente sua conduta. que são garantid os o é um pela da agir aplicarã coação. e o Estado em particular.

As possibilidades de que esse consenso seja de fato p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o façam porque consideram obrigatória. mesmo que você tenha que lei mais uma viver em vez. Mas cá entre nós. nao é o fato dos homens serem coa°idos. Segure as pontas só mais um pouco. Weber diz que a dominação baseia-se no c o n s e n s o d a legitimidade. O Esse uma crescente transformação cias associações em instituições parágrafos. Daqui a alguns e. Weber. para que possam com isso ganhar condições dc previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão também sujeitos à mesma relação de dominação e. a. c camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na Max sociedade. mas sim o tato cie agirem racionalmente. cm decorrência. reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação.72 Sociedade. O fundamental aqui. pensa . educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E N I O I A D A S OC I O L O G E D UC A Ç Ã o possam 37 "consenso". porque "introjetaram" a norma. Tenho certeza de que o sentido geral você é sociedad capaz de captar. c ci m bc ni po rej u c estão convencidas da necessidade de obedecer.. difícil. Quer dizer.. t a m b é m subjetivamente. não precisa desistir. em suma. garanto que vai compensar o investimento. c dc que esta racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão sujeitos. racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. Ufa! . a relação de dominação. Desencantar o mundo O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer dizer. quando as pessoas obedecem às regras não apenas porque temem a punição. Tenho que er. É este o sentido histórico do processo que Weber chama de racionalização.

ao que me parece. a s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores compartilhados — como constitutivas da sociedade. Quanto mais c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s . outros obedecem e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. Eu sei que e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . em Weber a complexificação gera conflito. Para resumir em poucas palavras: uns mandam. c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que está por trás da lei. que é o Estado Moderno. da obediência à lei c do treinamento das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi aos poucos se disseminando. Diferentemente da concepção organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx. educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- A história humana. tendencialmente.38 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. A regulamentação mais desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um aparato especializado dc domínio. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o c a r i s m a d o l í d e r . devidamente g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e . a dominação se b a s e i a o u n a tradição. que se caracteriza pela existência de uma burocracia. p o r m e i o d a força. ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito racional. O e x e r c í c i o d a autoridade racional depende dc um quadro administrativo hierarquizado e profissional. a obediência não é devida à figura do líder. i s t o é . que é o das sociedades modernas c complexas. d i z e l e . m a i s conflitiva tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos. aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação. Paia legitimar-se. as fonvias de dominação no Ocidente caminham. d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos. na qual estão obrigados a submeter-se ao poder já instituído. a dominação carismática. para garantir a aceitação dos comandados. isto c. mas à posição -que ele ocupa no aparato dc dominação. q u a n t o m a i o r s u a racionalização. Se a associação estatal passa por um processo de racionalização (e também de burocratização. compartilharam de uma tradição) ou porc| ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama dc carisma). não é voluntário. é um processo de crescente racionalização da vida. é o modo pelo qtial os homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao preparados para exercer as funções que a transformação causada pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a . para que você entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a sociologia da educação weberiana. e a dominação racional-legal. porque para fazer cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez mais complexa). O ingresso dos indivíduos nesta grande associação. segundo ele. a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e pelo domínio dos líderes sobre os dominados. Bem. E este o sentido histórico do processo que Weber chama ele racionalização em das sociedades: organizadas uma crescente transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc obediência instituições racionalmente. de abandono das concepções mágicas e tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens e para a administração social. P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o l e g í t i m a : a dominação tradicional. Assim como em Durkheim. c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a t r a d i ç ã o . uma vez que maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e maior também a necessidade de regulamentá-los. argumenta Weber. A educação para Weber. A lógica da racionalidade. maior o número de regulamentos sociais a serem o b e d e c i d o s . M a s v o c ê v a i e n t e n d e r . que obedecem porque foram educados (ou seja. e as regras s ã o f e i t a s . Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui. Na formação do Estado moderno e do . Pode-se compreender aqui o sentido d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r . para o tipo racional-lcgal. a d a s formas de dominação legítuna. Mas no último caso. impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência. o que por sua vez gera a necessidade da regra.

não fato. o Oriente aparece como protótipo da administração irracional. e muitas vezes auxiliares. de um modo "racional". de que sua superioridade cm matéria literária. Tal processo só ocorreu de modo completo no Ocidente. Na realidade. educa administravam de nunca atuando Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75- capitalismo moderno. Educar no sentido da racionalização também passou a ser fundamental para a empresa capitalista. c precisa Estado de profissionais treinados para isso. A educação sistemática. Eles eram literatos de formação humanística indicados para o posto. em ficando a gestão efetiva em mãos de província natal. nesse tipo de administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude do Imperador e dos funcionários. uma pequena camada de funcionários. A China antiga aparece descrita como um modelo de administração em que havia.educação sistemática. A coisa é muito distinta no Estado racional. as empresas e a própria política. de "pilotar" o Estado. Não mantinham. dos grêmios e das corporações. E alteraram também o st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s indivíduos que se submetem à. Na exposição de Weber. basta para governar. mas sem preparação específica para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. o único cm que pode prosperar o capitalismo moderno. u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a v i d a . porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia montada cm moldes racionais. Treinar. acima da camada das famílias. passou a ser um pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas funções. em vez dc cultivar o intelecto Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização alteraram radicalmente os modos de educar. o capitalismo e o capitalista forjaram um novo homem: um homem racional. que são inseparáveis um do outro. para o qual não existe mais lugar reservado à obediência . Educar no sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado. Um dos elementos essenciais na constituição do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática em moldes racionais. Uma vez que não davam importância às realizações políticas. a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m moldes burocráticos. enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação política própria do capitalismo. Mais que profissionais da empresa ou da administração pública. portanto. Na prática. tendencialmentc livre de concepções mágicas. contato com a população. e d e o u t r o . tais funcionários não governavam. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro. ps mandarins. Weber dá especial atenção a dois aspectos: de um lado. onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo não especializado e regido por orientações mais ou menos discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo especificamente treinado e politicamente orientado com base em regulamentos racionais. analisa ele. pois ela se pauta pela lógica do lucro. ou seja.39 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Sociedade. do cálculo dc custos e benefícios. o Estado burocrático. O direito racional oferece as garantias contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos. E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a educação. a constituição de um direito racional. Ele se funda na burocracia profissional e no direito racional. O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora. sua desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. apenas intervinham em caso de agitação ou incidentes desagradáveis.

assim qtie aprovado. e p o r t a n t o " r e n a s c e r " .. uma vez que não se aplica a pessoas normais. l e t r a d o s .. . E o caso da China Antiga. onde os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados. passava a lazer parte ele um estamento privilegiado. a preparação para que o membro Nem passa do é a todo orgânico do vista medida aprenda social. na possibilidade a sociedade emancipação com base na ruptura com a alienação.. comportamento Durkheim. historicamente. (. como os nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas. N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses. um fator de estratificação social. 'pois não se pode ensinar nem preparar p a r a o c a r i s m a . mas apenas àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos. um meio de distinção. Para este homem. u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) . "um dom ela graça exclusivamente pessoal. cujas principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos. Finalmente. p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u s e j a . através de exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa. É o mundo do império da lei e da razão. i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s etc. o n d e o i d e a l d c c u l t u r a depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo preparado. Educar num mundo assim. como eu já frisei... por suas habilidades humanísticas. ao mesmo tempo. Não é mais o mundo do sobrenatural e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. que eram educados para adquirir uma "nova alma". certamente não é o mesmo que educar antes dessa grande transformação. educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 40 que não seja a obediência ao direito racional. não é mais.) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato . como propôs racionaliza.. mesmo antes cie ser empregado. no sentido assumia de uma o aspecto edticação de uma e geral. provocada pelo advento do capitalismo moderno. E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber. então. Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no noviço sua capacidade considerada inata. de obtenção de honras. de poder c dc dinheiro.1 tampouco ser. Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval. No modelo ideal weberiano a educação é. A educação.. médicos. Na China. T a l p rocesso educacional "qualificação cultural". E l a p r o c u r a f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto. um grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras. ^ estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos d e p e n s a r a d c e ]ii . i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o conhecimento ela literatura. p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c t r a n s m i t i r conhecimento especializado. o candidato. técnicos. O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível alcançá-lo". Ela harmônico organismo como propôs destinava-se. Escreve Weber. C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a crescente burocratização cio aparato público cie dominação ífc . e que implica em prepará-lo para certos tipos de c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a . no sentido animista. a imunidade em relação a punições corporais às quais o homem comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária. ao terceiro tipo ele educação Weber chama pedagogia do treinamento. como em que sua parte no de se A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo.) c à composição elo aparato administrativo típico das formas tradicionais dc dominação política. o mundo perdeu o encantamento. O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia.78 Sociedade.) a posse ele carisma. Marx. Nem comprovavam (. conforme o caso. para Weber. socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: despertar o c a r i s m a . comuns. c a v a l e i r o s . no mesmo texto citado acima: Os chineses não comprovavam habilitações especiais. à composição cie determinado grupo d e status ( s a c e r d o t e s . de prebendas.

educa Ç Ã O E D E S EO C IA N T A IM EN A OE D U C AÇ Ã S N C O L OG A D T o 41 ■ .78 Sociedade.

Burocracia). Como a educação Í IÍ LD política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas privadas. d e 81 remuneração pelo trabalho realizado.s e c a d a v e z m a i s u m preparo especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o . pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da . dc seu ponto de vista o capitalismo reduzia tudo. num texto do início do século XX chamado Burocracia. também é. a exigência de uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais. pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente vantajosos. Com o perdão da longa citação. pretensões de progresso pensões na velhice c. a lógica cio treinamento. parcializado habilitar desempenhar certas tarefas. Pessimista que era. invencível. e na educação a possibilidade de romper com ela.é o sentido próprio do termo "educação". p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de custos intelectuais não aumentam.) Por trás de todas as discussões attinis sobre as bases do sistema educacional. c . Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio da alienação do trabalho. Essa luta está presente cm t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER. para Weber. E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O í: ' garantido G^ . Ainda mais que. se oculta em algum aspecto mais decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de "homem culto". decerto. mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais.. (. continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . as pretensões dc s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " . além de minimizar uma formação humanística de caráter mais integral. a educação deixa paulatinamente de ter como meta a "qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que. e o clamor universal pela criação dos certificados formação dc educacionais uma camada em todos os campos nos levam à e privilegiada escritórios repartições. enquanto b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a . A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação. c com o crescente volume desses certificados os dccrcscem. de todos os lados. Para ele. e a educação especializada.SCI significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor ila riqueza. em especializado e o recuo de da educação educação para enquanto enquanto o formação indivíduo do a favor uma treinamento necessária à aquisição do título exige despesas consideráveis e um período de espera de remuneração p l e n a . da burocratização e da racionalização da vida. Esses certificados apoiam as pretensões de seus portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a preferencia em relação à filha do chefe)..seb os desígnios da especialização. acho importante reproduzir aqui o-que Weber diz. acima de tticlo.42 S O C I ED AD E . a educação por assim dizer "racionalizada". Quando ouvimos. mas educação são sempre baixos. a razão para isso é. não uma "sede dc educação" surgida subitamente. imposta pela racionalização da vida. à mera b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status. o fim da possibilidade dc desenvolver o talento do ser humano. que é a pedagogia do treinamento. Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação uma certa melancolia. para Weber. O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de comercio c engenharia.S. inclusive a educação. este. não há nada que se possa fazer a respeito. s o b r e homem. Weber via na pedagogia do treinamento. A racionalização c inexorável. o mesmo tipo de clepressão intelectual que ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-. entre as formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia. Essa luta é determinada pela expansão irresistível da burocratização de todas as relações públicas e privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos e do conhecimento especializado. cm nome da preparação para a obtenção de poder c dinheiro.

três contribuições importantes do século XX à análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm particular. que aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as diferentes pedagogias que Weber identifica. que. A segunda é a do líder comunista e intelectual italiano Antônio Gramsci. ainda. ou. a partir do marxismo. nos ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades contemporâneas e.84 E D UC A Ç Ã O S OC I O L O G I A OA j Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o XX CAPÍTULO V CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções analíticas diferentes a propósito do processo educacional. também. que retoma o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre as práticas educacionais. gostaria dc mencionar. conforme as finalidades a que os autores se propunham. A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu. o quanto a educação está relacionada a essa luta. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira. ainda que deforma muito resumida. Neste breve capítulo. resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria ser. Bourdieu c os esquemas reprodutores .

O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos fundamentais para a construção de uma sociologia da .

. determinadas estrutura N e s t e l i v r o . E seriam responsáveis. o sociais.' . ou seja. ■ demonstrar indivíduos. nelas liberados por. apenas social permitem reproduzem vigente. é claro. Mas para Bourdieu. síntese que por durkhcimiano estruturalismo trás conecta desvendar ações sociologia justamente sujeitos.84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j ausentes educação muito influente ao longo do século XX. por seu aspecto crítico às bases do sistema de ensino. fase uma produção. dc o Na Bourdieu Durkheim peso verdade.. sujeito simplesmente T. Bourdieu publicou um livro. consciência Os aqueles são que deve sujeitos os disso. justamente a reprodução das relações sociais e de poder vigentes. e também por o de volta Bourdieu da estão submetidos ao controle das estruturas da na . pela liderança da transformação social. A ironia é qtie o livro serviu como combustível. O que pelo processo determinadas chamamos qual as ações. ação. forças mesmo sociais. que leva às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os indivíduos sociedade. Apenas quatro anos depois. pretende sociais trata-se de uma versão mais radical do modelo de Durkheim. Em 1964. como orientações marionetes teoria os estruturas e sua o em pela sociólogo as durkheimiana dominantes. de a publicada das década de 19~60. introduziu estruturalismo. os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão espécie francês. da que na São ação pensam verdade a essas pois estão dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos". de o das . unificar as J daquele as de nível suas para se da sociedade O sujeito é O Bourdieu. c h a m a d o Os herdeiros. faz o que suas estruturas T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • humanas teórica torno sociologia. estruturas reproduzem. ocultas. em de na que fato verdade são não o está 85 objetivamente existe. culminando um processo de mobilização que teria um alcance bem maior do que a capital francesa. Um dos mais importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês Pierre Bourdieu. estruturalismo ação. * Para ciências uma O em levar a cabo em se das entre a o ambição da modelo à dos de Durkheim e . segundo a qual os estudantes e o meio estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos dominantes. que pretendia combater uma idéia muito comum na branca da época.. em seu livro. Encobertos sob as aparências de critérios puramente estar movidos agir. submetido aos desígnios cia sociedade. dc caráter igualitário. mesmo é que determinações tenham digamos estimulam "condições objetivas" investigador desvendar. que o fazem pensar que sua ação é resultante dc vontade própria. Nas estruturas. tornaria possível a realização das potencialidades humanas. explicações. no célebre mês de maio de 1968 em Paris. em colaboração com Jean-Claude Passeron. o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o Segundo ele. para essas mesmas revoltas estudantis. Para primeira — Para como o o estruturalismo de sua em geral. a explicação dos processos educacionais realmente importantes reside cm outra parte. E o fazem colocando cm evidência o que a instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade. na medida aqui j estruturas determinam. os das que residem não que as agentes assim. os estudantes dc fato sairiam às ruas. em razão dc sua juventude e de sua disposição para a ação.

estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos indivíduos para ocupar determinados postos na vida. Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema i de ensino. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino .escolares. Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos educadores.

Em 1970. pois limita-se à inculcação de valores e normas. A revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um reforço da interiorização da própria norma. incorporando mais as contribuições dc Marx c Weber. um d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o . Daí ser preciso. Esta imposição. A ação pedagógica. objetivamente. O conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição arbitrária que. é uma violência simbólica porque impõe. para que a ação pedagógica se efetive. a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e . isto é. Na medida cm que o educan do interior iza os princíp ios culturai s que lhe são impost os pelo sistema dc filtra os alunos sem que eles se dêem conta e. não faz mais que reforçar o sistema. que oculta as relações de força que estão na base de seu poder. e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e toda ação pedagógica é. A própria revolta estudantil. portanto. com isso. porém. o bastant e para produzi r uma "forma ção durável ". no entanto. sob a fachada dissimulada de uma alegada pedagogia. por um poder arbitrário. Pois. Não há possibilidade de mudança. que é imposta a toda a sociedade através do sistema de ensino. não aparece jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza enquanto pedagogia. para eles. reprodu as relações vigentes. além dc sistematicamente D u r k h e i h í .86 SoCIOLOClA E D U CAÇÃC DA T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . é apresentada àquele que sofre a violência de modo dissimulado. E l a é necessária para que a inculcação possa ocorrer. uma autoridade pedagógica. e s s e a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s grupos c classes dominantes. como evident emente correio em si mesmo. p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. um trabalho de inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura irar o bastant e para que o educan do "natura lize" seu conteúd o. uma violência simbólica. e na medida em que pressupõe uma autoridade pedagógica. encare o como natural. Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos dominantes. S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87 UZ Passeron chamam de "trabalho pedagógico". os autores refinaram suas idéias.

quanto. demonstram "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte. Uma vez que o arbitrá rio cultura l a ser impost o é incorp orado ao habitus do profess or. a "condição de classe dc chegada" deste aluno. isto é. ainda. o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem acesso (se de melhor OLI pior qualidade). Tal situação se reproduz. ele os tenha incorp orado aos seus própri os valores e seja capaz L U: reprod u z i -los na vida e transm iti-los aos outros Bourdi eu diz que ele adquir e um habitus. ' v" / •> Assim. valendo-se empíricos. o t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u . o trabalh o pedagó gico tende a reprodu zir as mesmas condiçõ es sociais (dc domina ção de determi nados grupos sobre outros) que deram origem àqueles valores domina ntes. mesmo depois dc termin ada sua fase dc formaç ão escolar . do ensino básico ao médio e ao superior c determina também. Os autores. no finai das contas. todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social que estão por trás de de sua dados ação pedagógica. o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o . Isso explica que a as desigualdade que está na base do processo de seleção escolar.ensino — de tal modo que.

em especial. mas talvez seja o momento de retomar a questão que coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação social é intransponível? Será que estamos condenados . a posição na hierarquia econômica e social a que chegou. Bem.e.

A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de atualizar o pensamento de inspiração marxista. dominação. mas também está nas empresas. Essas são as sociedades de capitalismo mais Gramsci e a reforma intelectual e moral O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a avançado. A luta política não pode limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin. é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. dentro da luta política. a sociedades agrárias. N ã o b a s t a f o r ç a . tentar uma revolução armada. atrasadas e com capitalismo pouco desenvolvido. complexa. que desalojasse os poderosos e desse o p o d e r a o s o p e r á r i o s . sociológica e política ímpar. "ganhar a batalha das idéias". vários cadernos de notas manuscritas durante o período em que esteve preso. para obter poder. as estruturas políticas. de modo a adequá-lo às características da das sociedades metade do cutopéias século XX. tem que. sob a guarda do Estado fascista italiano. E l e e s t á d i l u í d o e n t r e o Estado e a sociedade civil. E uma lição sobre a política c a sociedade e m g e r a l . O único modo de lutar pelo poder e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . concentram todo o poder e onde a sociedade civil é fraca. Deixou também. nos clubes. eliminar a apropriação privada dos meios de produção da riqueza. Dela. No c a s o d o s c o m u n i s t a s . d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a liberal. a o contrário. d e v e r e f e r i r . e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o no E s t a d o . moderna. Não está num lugar só. d o p o n t o d e v i s t a do m a r x i s m o . organizada c tem condições dc dividir com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração da vida social. coerção. no dizer de Gramsci. ele é capaz de concluir qtie. E p r e c i s o conquistar a consciência das pessoas. Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na sociedade. F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a dc puro poder econômico. A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade. com um mercado interno forte e com uma vida política p l u r a l . É preciso uma revolução no cotidiano. sem capacidade de contrapor-se a tal poder concentrado no Estado. Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e Ocidente. Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental. e s s e s escritos foram publicados após sua morte e representam. E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m revolucionar a sociedade. está cm muitos lugares ao mesmo tempo. ■ . C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere. ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem estrutura. de 'capitalismo conceitos avançado primeira Seus nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . p o r t a n t o . N e s s a s c o n d i ç õ e s . O Estado é força.88 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O TRÊS V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S É C U L O XX 89 a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i . c isso é o mais importante. mas a sociedade é o e s p a ç o d o consenso. à é p o c a d e M u s s o l i n i . Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. COMO publicpu um livro em vida. achavam que não.s e a todos os espaços de poder disponíveis. nas concepções de mundo que as pessoas veiculam. E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre leste e oeste. uma fonte dc reflexão filosófica. vital. Está no governo. pouco organizada. P o r O c i d e n t e . não basta apenas eliminar a exploração econômica de uma classe sobre outra. e M a n n h e i m . as classes ou grupos p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o . é múltipla. na cultura. nos partidos. sua militância política desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos de partidos políticos e na imprensa. no mercado. Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado. até hoje. d c 1917. o revolucionário russo. No entanto.

surge para dar consciência a ela. os dominados. repito. Ora. ensinou Maquiavelli. Nos momentos de disputa mais acirrada. É preciso também lutar c o n t r a a apropriação privada. diz ele. a conquista é mais duradoura. enfim. as diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder na sociedade. que você vai ler mais â frente. há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que desejam uma nova hegemonia. na luta pela hegemonia. Ao próprio partido político moderno. e cada uma delas conta com seus próprios intelectuais. note bem. na luta pela hegemonia. tende a ocorrer uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is que querem mudar. c p r e c i s o s e r hegemônico. do convencimento. a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' pessoas simples". da hegemonia da classe burguesa. A este processo lento e complexo de luta pelo poder político nas sociedades complexas. O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Mas. cm sua célebre obra chamada O príncipe. Do mesmo modo. isto é. E por esta razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda injustiça. se para conquistar a hegemonia política e ideológica é necessário ganhar a batalha das idéias". diz ele. para depois vê-los operando na análise. captar esses conceitos agora. Para ele. do saber e da cultura. utiliza esses conceitos de Gramsci para analisar a educação atual. A cada um desses agrupamentos de classes e frações de classe em torno dc interesses históricos determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . É p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a . Repare que no capítulo 7. Esses grupos representam. Vale a pena. Gramsci constrói uma tipologia dos intelectuais. ele chama de intelectual coletivo" aquele que atua no sentido dc reformar as mentalidades. . o sociólogo Michael Apple. da vida política c social em geral. inclusive e principalmente os dominados. tanto as classes dominantes quanto as dominadas se organizam em blocos. evidentemente os intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. Á burguesia. no sentido da conquista da hegemonia. passa por uma reforma intelectual e moral". obter um consenso social em torno de suas que concepções. as concepções de mundo. e portanto. Os dois grupos traçam alianças internas. Esta é a fonte da persuasão. e portanto concentra mais poder. na hita pelo poder. Gramsci chama de disputa pela hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r um golpe dc Estado. C o m i s s o .atores principais dessa luta. E preciso. cujo objetivo 6 desenvolver a concepção d e u m a contra-liegemonia. então. E melhor ser amado que temido. cada um de um lado do campo de batalha. ou seja. O s e g u n d o t i p o d e XVI. ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da classe dominante. Em suma.90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91 como demonstrara Marx no século anterior. há dois tipos principais. é claro. ou elitista. segundo Gramsci. que é um dos . E isso é fundamental porque apenas aquele que é tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado. ganhar a batalha do convencimento. as classes dominantes em geral. e também definem se os homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem a cie do que pelo medo que tem de sua força. possuem seus intelectuais. autor do capítulo. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s quais os homens concebem o mundo em que vivem. S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que interessa a essa classe. Pois os i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. possuem seus intelectuais orgânicos. O primeiro é o intelectual orgânico. vêem a divisão de poder e de riqueza de sua sociedade. j á havia ensinado. Na verdade. a classe trabalhadora. cujas idéias competem entre si na t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s interesses. confirma Gramsci.

E isso ainda no ensino que hoje corresponderia ao Ensino Médio. é claro. destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn geral. na luta pela hegemonia. depois do tipo desaparecimento da classe a que estava agindo esse tradicional'de intelectual continua vista disso. a cura das pessoas. e até mesmo as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. mas essa é uma outra história. é notar que ela tem um conteúdo de classe. OU SCjcl. c que o havia que levado na a uma distinção moderna a entre a pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas acima. pois os padtes deram coerência e . Mas isso não é tudo. portanto. Quer dizer. p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura. Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do sistema escolar de seu tempo.numa direção conservadora. Bem. ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere. que da uma formação clássica . portanto. Dc outro lado. U 111 £1 classe de intelectuais que. q u e "toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas c. Mas de onde vêm os intelectuais? Ganhou um pirulito quem disse "da escola". na época do feudalismo. Dc um lado um tipo e escola humanista . O próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes politicamente. Isso gera um sistema educacional híbrido. A função dos dois tipos de intelectual. ou baseadas na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época. podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente. cujas bases se estruturaram a partir da fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar. Sim. "o poder fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". Gramsei observa sociedade ciência misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção de casas. ligado. O fundamental em perceber essa distinção. à formação de seus próprios intelectuais orgânicos. c desempenhar funções de organização da cultura. dc modo independente . Sc você perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira no tempo deles. que ensinam nessas escolas". a escola "de comércio" e a escola "industrial" (formação técnica profissionalizante). verá que era exatamente a mesma lógica que presidia a divisão entre o "clássico" e o "científico". Gramsei nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber na Alemanha. para Gramsei. surgiram as diversas escolas especializadas. para vir a ser um dia um intelectual orgânico ou um intelectual tradicional. destinada a dar a cada um. O exemplo clássico deste tipo é o clero. das concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados. Mas atualmente. é reservada aos filhos das classes dominantes e. conseqüentemente. A formação geral que faculta ao indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada ao longo dos séculos. foram intelectuais orgânicos das classes que eram então dominantes. voltadas para a formação específica dos diferentes ramos profissionais. nas palavras de Gramsei. formar-se como um indivíduo completo. o indivíduo precisa passar por uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura. em épocas passadas. Em . tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado.92 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TRÊS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O XX 93 I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional. bem como a separação entre a escola "normal" (formação para o magistério). o intclectuaj é formado na escola. organicidade à dominação da nobreza aristocrática. na década de 1970. dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas. sem contar naturalmente com o surgimento do Ensino Superior no Brasil. a administração pública. é a de ser um instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva.

Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais. um indício de] que a expansão do ensino — necessária para dar conta das novas tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se dando dc um modo caótico. Nesse sentido. Para ele. Mannheim achava que o pensamento s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a . em sua opinião. a "batalha das idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes. Mannheim e a luz no fim do túnel Fechemos Q L IC desinteressada" "formativa". O p a p e l da teoria. pouco organizado. mas não manual). Gramsci vê nisso. A partir dessa escola única. Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as c l a s s e s . Este detalhe pode até parecer exótico. No plano das suas próprias convicções pessoais. ele defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática. a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . em . O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico de certo modo de ao Karl Mannheim para (1893-1947). Gramsci afirma que a tíndência hoje ■ ou é a de abolir delas qualquer tipo de "escola e reduzido que os interesses econômicos imediatos não interferissem. sendo a escola privada. na medida em que era mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes dominantes. retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de um programa para a mudança da educação. que possa ser eventualmente expandida em seguida. (não imediatamente interessada) um conservar tão-somente exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro profissional. sem que fossem traçadas políticas orientadoras. c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s . a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. e intermediado por uma orientação profissional.dominantes mudou. p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e desequilibrada nas sociedades complexas. para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para então o capítulo com um comentário sobre um pensador do século XX. mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação. também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças. preocupado com a sociologia da educação. além do elitismo e da exclusão das classes trabalhadoras de uma formação de qualidade. e fugindo no pessimismo a weberiano. ele tinha sua própria proposta de política educacional. No mesmo texto citado acima. o aluno passaria a uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública. na formação dos alunos. q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s do Ensino Fundamental e do Médio. Se todos não tiverem acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica. veja você. que acabou por suplantar a clássica. o interesse dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite. unia democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional e. bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas. u m a escola unitária. Para ele. que teria um caráter formativo e objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das capacidades do trabalho intelectual. recuperando a percepção de Marx discutida acima e ampliando-a. s próprios mlclccliutis. nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. na medida cm que o desenvolvimento industrial c a urbanização o exigiram. governada por cientistas. propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo educadores educandos objetivo compreenderem situação educacional moderna. se é verdade que a racionalização da vida levou a um declínio da educação voltada para a formação do homem integral. é o de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas sobre ela. Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional. tinha uma visão bastante precisa de como a nova escola deveria ser. a p e n a s expressá-la. E m p r i m e i r o l u g a r .

estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la". voltada para a cultura e a erudição. N u m d e s e u s e n s a i o s .'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a racionalização da vida. na modernidade. para o estudo dos fenômenos educacionais. As perguntas que a sociologia obriga a fazer. E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o . o advento da democracia moderna. provocada pela consolidação da sociedade industrial. construídos por Weber.e qttc tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do capitalismo c a ascensão da classe burguesa. Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do cultivo está condenada à morte. Portanto. a respeito do que seria essa sociedade "sadia". na visão de Mannheim. socialmente orientados. justamente porque a vida baseada na tradição estava se esgotando. ele observa que. é político. consideração para do este autor. ou seja.sua visão. Ele reconhece que os modos de vida incutidos por esta educação. apenas como tentativa de ^explicação. Quando e como ensina? Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir apenas pela teoria. E concorda também que a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive. nem os pois objetivos eles são do processo A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de racionalização detectado por Weber. mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos num processo "consciente". tal processo era apenas dc assimilação "inconsciente". Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c aos trabalhadores. Para qual sociedade?. as dificuldades desta Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da sociedade e do homem". do modelo da ordem v i g e n t e . Valendo-se da influência da psicanálise. Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez mais importante. M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o . pela criança. são portanto: Quem ensina quem?. Ele aponta os movimentos da juventude como educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a contexto social. Regenerar de quê? E o que seria essa "educação sadia"? . para a montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma formação mais integral. Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o aprimorarnento d a e d u c a ç ã o . lembra ele. p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação. e l e afirma: "Queremos compreender nosso tempo. traz ao processo educacional as contribuições culturais das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. Mannheim vê como luz no fim do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes tipos históricos de educação. O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades dadas na sociedade atual. c h a m a d o " O f u t u r o " . cm que o educando se aperceba do meio social em que vive e das mudanças pelas quais passa.. Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores de vida. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (précapitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à ordem social tradicionalmente estabelecida.

no mesmo texto já citado acima: Em períodos de elevada cultura. Mannheim era um homem de seu tempo. e vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). a superação das formas atrasadas e tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo. na invenção dc métodos sociedade adequados de seleção s o c i a l . que não é nem a inculca do fascismo nem a c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire. Episóilios d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o . Seu interesse principal reside no acesso. ampliassem o horizonte do homem. estamos vivendo numa era em que as forças não só da tradição. (. a ascensão do mundo baseado na razão c na lei racional era um processo incontrolávcl.século X X que Weber não chegou a presenciar.. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais ■! solidários. Finalmente. associada a um período cie declínio cia liberdade e das esperanças. estamos vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a clesumanização e a desintegração da personalidade. às elites. Mannheim estava certo. com saúde mental. para ele. dos membros talentosos das classes inferiores. Esse equilíbrio baseava-se às vezes na idéia de hierarquia de estamentos ou castas separadas. A crise capitalista dos anos 1970. nova se forma de entre as contribuições coordenação. na na capaz de deixar aponta o até homem mesmo um livre o das cie para repressões homem" entusiasmo adquiridas e formação.. em busca de um programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a . So a democracia poderia fazer surgir a luz no fim do túnel. com a derrota do nazi-íascismo. no qual vivemos hoje. que não o satisfaziam. a educação terá de ser concebida como uma nova forma de controle social. Em suma. que superasse as divisões cm blocos políticos c ideológicos. da barbárie. à vala "novo forjado L!C Réissia comunista como protótipo Enfimr* dedicação comunitária. que a sociologia sirva dc base à pedagogia. ou ameaças à liberdade. cm parte inconsciente. c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s contribuições. se deteriore. Lima citado acima mas . desintegram.destinada também do a encontrar iluminismo. convertida c no em impedir massas que a não diferenciadas. Ele viveu o terrível momento da crise econômica dc 1929. Arrisquemos agora conhecer prestadas pelos diferentes grupos à educação. Para ele. provocou o retorno da ideologia do livre-mercado. havia equilíbrio. estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio das elites limitadas para a democracia de massas.escreveu ele no texto responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero".98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 formulação de projetos educacionais que . Ele explica tal processo do seguinte modo. A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s sociais'. Estamos vivendo numa era de planejamento . A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial. mas para Mannheim a experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade. cada uma das quais apresentava sua contribuição cultural própria em níveis diferentes. a modernidade não tem apenas custos. aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de vida. cia clesumanidacle. abertos. interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os outros. Por isso é tão importante. Mannheim. depois cie 1945 e até os anos 1970. cm parte consciente. ^énftáifí J &fcóriíribüir 1 eólia O processo educacional. quando o capitalismo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso. se tratada a partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pósguerra. porém. c m s u a v i s ã o .) A concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições culturais. Para Weber. E a s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a .

um pouco mais sobre educaçã o no dias que correm. a 98 T K ES VI S Ò L S S O BR E O 1' R O C E S S O rUUCACIONAI N O SÉC U OO OX I X D A S OC I L L G A E D UC A Ç Ã O 99 .

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