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Sociologia da Educação Esta coleção c unia iniciativa do GT-Fiiosofin da Educação

AlbertoTosi Rodrigues cia Anpcd na gestão dc Paulo Ghiraldclli Jr. e Nadja


Hcrnvan
Coleção
[o que você precisa saber [o que você precisa saber
sobre...] C O ORDENAÇÃO sobre...]
Paulo Ghiraldclli Jr. c Nadja Hcrmau

Revisão dc provas Paulo


Tcílcs Ferreira Andréa
Carvalho
Sociologia da
Projeto gráfico e diagramação
Educação
Maria Gabncla Delgado

Capa Rodrigo Murtinho

Alberto Tosi Rodrigues

CIP-B R A S I L . Catalogação-iia-fonte Sindicato

Nacionai dos Editores dc Livros, RJ

I\Ó lis 5a edição


Rodrigues, Alberto Tosi
Sociologia da Educação / Alberto Tosí Rodrigues. — Rio dc Janeiro:
DP&A, 200-1, 5. cd.
- — (O que você precisa saber sobre)
1 4 x 2 1 cm
160 p.

Inclui bibliografia ISBN:


S5-7490-2S9-6

1. Sociologia educacional. 1. Título. II. Série.

1
CDD 370. I 9
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TEXTÇfJSL.
CAPÍTULO II

S oci edade, educaç ão e vi da m oral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem?

N UM o i : s h u s SAMBAS , P AU UNI 10 n . - \ V IOLA n a r r a a i r a j e i o r i a d e u m


1- ~. *\ malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim,
vive no crime e é preso a coda hora. Paulinho, porém, não atribui
sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão
bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara
outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O
último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou",
já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um
recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera
acontecer".

Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela


sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a
fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o
tamanho da nossa liberdade?

Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como


disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com
essa tensão existente entre, de uni lado, a possibilidade de ver a
sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de
determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o
indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva.

Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro


do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se
empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva
com alma própria, acima e tora das mentes dos indivíduos.
Buscava
m com
isso
delimita
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campo
de
20. S O C I ED AD E , E D UC A Ç Ã O E VI D A M O R A I
Sociologia da Educa ÇÃO
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investigação que estivesse fora da Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX,
alçada da psicologia (que já principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma
lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana delimitação clara do objeto c do método da sociologia, o francês
qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o Emile Durkheim (1S58-1917) vislumbrou cm sua obra a existência
ponto de partida para o entendimento da realidade social e, de um "reino social", que seria distinto do mineral c do vegetal.
embora também fugissem do "psicologismo", colocaram a ênfase Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes,
não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade de "reino moral". O reino moral seria o lugar onde se processariam
dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns t
com os outros. justamente os "fenômenos morais", c seria composto por ambientes
constituídos pelas -"idéias" ou pelos "ideais" coletivos. Poda vida
E provável que todos tivessem razão. Os homens criam o
social se dá, para Durkheim, nesse "meio moral", que está para as
muhcfò social em que vivem — de onde mais ele viria? — c ao
consciências individuais assim como os meios físicos estão para os
mesmo teinpp esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de
organismos vivos.
cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações
seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo

dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a seja real c determinante na vido das pessoas, não é algo evidente por

sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? si mesmo, c não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O

Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida"em que o socitílogo é o único cientista preparado para detectar esses estados

homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual

detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase. com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num
estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos
No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a
cm seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis
concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha
da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só
sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que
nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a
podemos deduzir de seus escritos sociológicos.
sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias,
independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A
Durkheim e o pensamento sociológico
física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos
Educar c conservar? Ou revolucionar? Educar c tirar a venda corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis
dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar da vida social.
é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida?
Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência
Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos,
teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim
sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia c da compreendia "lei" (lei científica, neste caso) como uma "relação
sociologia da educação.
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S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O
S O C I C D AD C , ED U C AÇ Ã O l VI D A M O R A L
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necessária , como a descoberta da lógica inscrita no próprio real c se fossem coisas lais como II.S coisas materiais. Coisa para ele é todo
apresentada na forma de um enunciado pelo cientista Fs.se ■ objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de
positivismo é, paia cie, a única posição cognitiva possível Na modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos
explicação que ele proporciona, o "fator social" c sempre o sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma
determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência so atitude mental.
aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e pratica. O Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque
meio moral que serve de entorno aos indivíduos d -v -sei tdinado ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem
como um dado bruto à observação do investi<rador que não deve em coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram
momento algum assumir os valores nele contidos.-,Durkheim a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por
escreve que os principais fenômenos sociar como a religião, a exemplo, é reconhecido como-tal porque é de conhecimento
moral, o direito, a economia ou a eclucarn coletivo que lodo crime suscita uma sanção, que deve ser punido
s ã o n a vorrlirl " l i '- t '\f-<iu,
pelas regras que a sociedade estabelece (no caso, pelas leis
t erciacie sistemas de valores. Sc estivermos contaminados com

os valores que esses fenômenos expressam não teremos a isenção jurídicas). A lei estabelece punição porque o crime fere a
necessária para entendê-los consciência coletiva, contradiz as convicções mais vivas e
A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma
E f a t o s s o c i a i s s ã o j u s t a m e n t e a q u1 e l e s m o d o s r\c » > m r r , , , . - , „
sob .. j. , - muuos uc agu que exercem aberração. Sc existem regras sociais que prevêem o qne scra e o
u í n c n v i c i u o u m a coerção exterior
que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime,
existência própria, independente das manifestações individuais que
portanto, é um lato social, assim como a lei que prevê sua punição.
possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerado-como
São fatos sociais não só porque são normais, mas porque sao
coisas. D u i k h c i m n o t a q u e n a v i d a c o t i d i a n a t e m o s u m 1 e i a v a g a e
percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; c
confusa dos latos sociais — como o Estado a libeidade, ou o que quer
porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma
que seja — justamente porque sendo e es uma realidade vivida, temos
coerção, alguma obrigatoriedade.
a ilusão de conhece Io~ senso comum, as maneiras habituais de pensar
são portanto O LI s e j a , o r e c a d o d e D u r k h e i m , c o m e s s a c o n v e r s a t o d a s o b r e

contrarias ao estudo científico dos fenômenos sociais À maneira a como definir corretamente os latos sociais, é que não adianta

lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade,

primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais cercado de latos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A
como coisas, para livrar-se das pre-noções dos c o i s a é m a i s c o m p l i c a d a . O r e c a d o c o s e g u i n t e : a sociedade está na
preconceitos i ~
cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. P o i s s e i e x i s t e
científicos. I ara conhecê-los cientificamente o fundamental é
um modo de conhecer os latos que estão à nossa volta, sejam eles
es armos convencidos de que eles não são intelinfv »í
imediatamente. ;
" & Ui pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas,
peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. E criando em nossa mente
as cuidado aí com' as palavras, caro leitor Veja lá que
u m a idéia d o q u e s e j a m o u u m ideal q u e d i g a r e s p e i t o a o m o d o c o m o
conclusões vai tiiar dela^. Durkheim não afirmou que os fatos sociais
d e v e r i a m s e r E m o u t r a s p a l a v r a s , é g e r a n d o u m a representação
são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como
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mental uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar se combinam entre si, são compartilhados e geram, em decorrência,
com aquilo que a princípio não conhecemos. algo novo. Por causa das combinações e das mutações que sofrem
a o s e c o m b i n a r e m , o s s e n t i m e n t o s i n d i v i d u a i s se transformam em
A sociedade na cabeça de cada u m outra coisa. E c o m o u m a s í n t e s e q u í m i c a . O h i d r o g ê n i o e o o x i g ê n i o
são dois gases diferentes, mas se combinados em certa proporção
L^c aí que a sociologia de Durkheim tem graça. Para ele as
.determinada c sob certas condições físicas específicas,
representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas
transformam-se em algo completamente diferente: água. Se
(compartilhadas). As representações sobre os fatos sociais são
tomarmos as partes que compõem a água, não entenderemos a água
iepieséntaçõcs coletivas, são percebidas em coletivo. F como se
jamais, pois que suas partes constitutivas são gases. Do mesmo
houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual em cuja
modo, se tomarmos os indivíduos, não entenderemos a sociedade
cabeça existem estados mentais referentes nossa pessoa, a nossa vida
jamais, pois se é verdade que ela existe em cada um, cm cada um só
como indivíduos, c, ao mesmo tempo um ser social. Na cabeça desse
existe um fragmento dela. O todo, para Durkheim, tem precedência
ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais
sobre as partes. A sociedade tem vontade própria. Ela pensa, sente,
pessoais, mas um conjunto de crenças, de hábitos, de valores, os qtiais
deseja, embora não possa pensar, sentir, desejar c principalmente
não revelam coisas que pensamos com nossa própria cabeça" (se é que
agir senão através dos indivíduos. A consciência coletiva existe
tal coisa poderia exista, na visão de Durkheim). Tais crenças c valores
através das consciências particulares. Cada uma não é nada sem a
não revelam uma suposta personalidade privada. Revelam sim o quanto
outra.
há dos outros em nós. De todos os outros! Das pessoas que vivem
conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem Talvez a esta altura, caro leitor, você já esteja um pouco
conhecemos, e inclusive das que não vivem mais que já moireram, ansioso. Talvez já esteja se perguntando: bem, mas o que tem tudo
talvez há muitos anos. A sociedade vive na cabeça de cada um e, assim isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda, afinal, a
como o Cristo bíblico, onde dois ou mais estiverem reunidos em seu pensar a educação?
nome ela estará no meio deles Mais do que isso até, pois se Calma, calma. Vamos chegar lá agora.
destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o
Disso que acabei de dizer, retenha dois raciocínios
levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta, ele
fundamentais. Primeiro, a consciência coletiva, esta sociedade viva
levará um pouco da sociedade consigo, dentro de sua cabeça.
n a c a b e ç a d e c a d a i n d i v í d u o e a o m e s m o t e m p o e x t e r i o r a cada
L e m b r a m - s e d o m o d o CT O CD R o b i s o n C r u s o é s o b r e v i v e u a p ó s o
pessoa c que a obriga a comportar-se conforme o desejo cia
naufrágio? Pois é, foi "raças à sociedade e seus saberes, que viviam
s o c i e d a d e , n ã o e x i s t e i n d i v i d u a l m e n t e , m a s s o m e n t e p e l a cooperação
dentro de sua cabeça apesar da ausência física das demais pessoas.
entre os indivíduos. Segundo, essa existência social essa vida
Portanto, não apenas o indivíduo faz parte da sociedade; uma parte da coletiva, é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entte si
sociedade fa7 parte dele. Ao mesmo tempo, por outro lado, a sociedade num dado momento da vida da sociedade mas também das gerações
só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto, porque ela não passadas, que ajudaram i criar is i crenças, os valores e as regras
cabe toda, completa, na cabeça de cada um. q u e a i n d a h o j e e s t ã o p r e s e n t e s e que n o s o b r i g a r a d e c e r t o m o d o a
As representações coletivas, assim, são exteriores às consciências n o s c o m p o r t a r m o s d e a c o r d o c o m -.-a-, v o l i t a d e d a s o c i e d a d e " .
individuais; elas não derivam dos indivíduos considerados
i s o l a d a m e n t e , m a s d e s u a cooperação. N a c o n s t r u ç ã o d o r e s u l t a d o A diferenciação da sociedade
comum dessa colaboração, diz Durkheim, cada um entra com sua
Ora, se agimos segundo a vontade da sociedade é porque assim
quota-parte; mas os sentimentos privados sé) se tornam sociais quando
aprendemos. P o r q u e f o m o s educados p a r a i s s o E s s a e d u c a ç ã o ,
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naturalmente, não se faz no vácuo. Ela tem conteúdos Tais conteúdos moral diferente. Vicia moral que será a base cios conteúdos
são dados pelo meio moral que compartilhamos quer dizei, pór este transmitidos na forma de crenças, valores e normas de geração paia
mar de crenças, valores c regras produzidos pelas gerações de geração. E que cada nova geração, ao nascer, recebe pronta na
indivíduos passadas e presentes da sociedade era que vivemos. Existe forma de educação.
um número quase infinito de rcras sociais que, de tão comuns, até
Não estou falando apenas de educação escolar, note bem. Estou
esquecemos que existem mas das quais imediatamente nos lembramos
falando de aprender a viver. Estou falando do modo como somos
se colocados diante de ima situação que as exija: é proibido matar ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. Coisa
seres humanos é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmõ-inKi que, você já deve ter reparado, ninguém nasce sabendo. Aliás,
eomenciavel que o homem envie flores à m u l h e r -um \ o na tase da alguns jamais aprendem.
conquista, claro), é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante
Como já vimos, ao refletir sobre como, afinai, um simples
as refeições etc. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras
conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade Durkheim
duas regras sociais: é gentil arrotar durant a refeição, pois significa
observa que uma condição fundamental para que a
que estamos gostando da comida' e gentil oferecer sua esposa para
s o c i e d a d e p o s s a e x i s t i r é a p r e s e n ç a d c u m consenso. P o i s s e m
uma noite de sexo com os homens visitantes. Bem, essas já parecem
consenso não há cooperação entre os indivíduos e, portanto, não há
mais exóticas para nós, pelo menos alguns de nos, mas a primeira vale
vida social.
para certas culturas de povos árabes, e a segunda vale para a cultura
esquimó. Há outras regras de "boa educação" que caem cm desuso, Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em , sua

obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas vida em1 comum, existe entre eles um tipo de solidariedade baseado

mudam. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem bem educado" na semelhança entre as pessoas. Numa tribo dc índios, por exemplo,

da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar, na todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefjns: caçam,

calçada, com uma pessoa mais velha. A resposta é: oferecer o lado de pescam, fazem cestos de vime, participam de rituais religiosos etc.

dentro da calçada, ficando você com o lado cia rua. Pra quê? Não A única divisão que geralmente existe — além djnpresença de

esqueça que a maioria das ruas era de terra, e o risco de enlamear o indivíduos destacados, como o chefe ou o curandeiro — é a divisão

lerno de cascinira branca era bem maior para os que ficassem perto da sexual de tarefas entre homens e mulheres. (D tipo de solidariedade

rua nos dias de chuva. Com a urbanização c o desenvolvimento que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama dc

e c o n ô m i c o , a í e g r a c a d u c o u . A l é m d i s s o , o status d o s m a i s v e l h o s e r a solidariedade mecânica. As pessoas estão juntas porque fazem

diferente do que existe hoje. Esses exemplos tomam apenas pequenos juntas as mesmas coisas. Mas no caso radicalmente oposto., ou

fragmentos da teia de normalizações oferecidas pela sociedade, mas seja, na moderna sociedade industrial, as tarefas são extremamente

são parte integrante de um determinado meio ■moral que divididas. Com a divisão do trabalho social, cada vez mais, os

compartilhamos. indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. Tal


processo se radicalizou com o capitalismo, que levou a uma
Este meio moral, nos diz Durkheim, é produzido pela
superespecialização das tarefas. Na fábrica moderna, há um homem
cooperação entre os indivíduos, através de um processo cie
para apertar o parafuso, outro para encaixar as peças, outro para
interação que chamou de divisão do trabalho social. Dito de
pintar os encaixes etc. Além desses, que são todos operários, há
outio modo: conforme o tipo de divisão cio trabalho social que
outros tipos de profissionais superespecializados: o médico, o
predomina na vida coletiva numa determinada época, temos
professor, o dentista, o carteiro, o ferreiro, o açougueiro, o
um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. E este tipo
contador etc.
diferente cie cooperação, por sua vez, dá origem vida
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Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de animal. A divisão do trabalho, para Durkheim, é a solução pacífica
hoje, rodeado por técnicos em informática, consultores de da luta pela vida. Em vez de matar uns aos outros por causa da
m a r k e t i n g , p i l o t o s ' d e c o r r i d a , a n a l i s t a s d e s i s t e m a s , videoma.ke.rs competição que seriam obrigados a empreender com seus
astronautas... Talvez nem se espantasse. Talvez confirmasse com semelhantes na luta pela sobrevivência, os seres humanos
um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do diferenciam-se. Nas sociedades humanas é possível a um número
século XIX foi o incremento de uma diferenciação s o c i a l cada maior de pessoas sobreviver, difercnciando-se umas das outras
vez maior. • fazendo coisas que as outras não fazem para tornar-se parte da

O tipo de solidariedade que se.estabelece entre os indivíduos com sociedade, e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada

este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma na semelhança pela solidariedade baseada na diferença.

solidariedade dos índios na tribo. Na sociedade industrial moderna há Mas há outro ponto importante. Durkheim assinala que quando
uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. E o que há pouca divisão do trabalho e, em decorrência solidariedade
D u r k h e i m c h a m a d c solidariedade orgânica. A s p e s s o a s n ã o e s t ã o j u n t a s mecânica, a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um
porque fazem juntas as mesmas coisas, mas o contrário: estão juntas número maior de pessoas. Isso ocorre porque desempenhando
porque fazem coisas diferentes c, portanto, para viver (inclusive para funções sociais muito semelhantes, os indivíduos pensam com a
comei; beber c vestir) dependem das outras, que iazem coisas que elas mesma cabeça", por assim dizer. Quando, ao contrário, há muita
não querem ou não são mais capazes de lazer. Como o alfaiate comeria divisão do trabalho e, em decorrência solidariedade orgânica, cada
e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do rniím. Sc pessoa, em diversas circunstâncias da vida, tem uma margem maior
uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma de liberdade, para pensar e agir por conta própria. Há, portanto, um
pessoa, ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou enfraquecimento relativo d^a consciência coletiva nas sociedades
comendo frutos das árvores, embora vivei" sem o grupo talvez não complexas há um enfraquecimento das reações da coletividade
fizesse mais sentido para ela, tão ligada ao coletivo ela é. Mas o que contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem niaior
você faria, caro leitor, se uma expedição de marcianos capturasse toda para a interpretação pessoal ou grupai dessas regras.
a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Assim, os meios morais, nas sociedades com pouca e nas com
Como comeria? Claro, você pode assaltar o balcão frigorífico do muita divisão do trabalho-, são bastante distintos. Os valores as
supermercado. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a crenças e as normas compartilhados no seio de urna cultura pelos
manutenção do pessoal da companhia de torça c luz? Quem pagaria seu indivíduos são muito mais imperativos, obrigatórios e
salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas homogeneamente transmitidos de geração para geração nu ma
ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para sociedade pouco diferenciada, enquanto que, pelo contrário sofrem
assistir, nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe i n t e r f e r ê n c i a s d e g r u p o , d e statits e d e c l a s s e n u m a s o c i e d a d e m u i t o
ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria diferenciada, como a sociedade industrial moderna. Quando todos
aquele filme romântico de sábado â noite? são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas, a
Lamento informar, mas você depende dos outros. Sua relação com compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores, a tendência,
os outros todos que estão à sua volta, mesmo com aqueles que você pensa Durkheim, é o consenso Quando cada indivíduo, em função
odeia, sua relação com seu patrão ou com sua sogra, c uma relação dc da divisão do trabalho e da especialização, assume valores, crenças
solidariedade. De solidariedade orgânica. e normas diferenciadas

A diferenciação social, isto é, a passagem da solidariedade conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional, as regras
gerais ficam relativizadas, ficam mais fracas. Pode-se dar
mecânica para a orgânica, é similar à luta pela sobrevivência no reino
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interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas. E


quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de Educação para a vida
onde se olhar as regras. A tendência será, então, o conflito, decorrente
Chamo então SLia atenção para a seguinte questão: quanto mais
da competição imposta pela diferenciação. Os indivíduos passam ;i
individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade,
g u i a r - s e p e l a I HI SCII d a s a l i . - * f a ç a o d e i n t e r e s s e s q u e s ã o c a d a v e z m a i s
mais importante se torna resolver o problema de como preservar
pessoais e cada vez menos coletivos, na luta pela sobrevivência que
uma parte da consciência coletiva, que era quase total nas
aprendem na sociedade complexa cm que nascem. E assim que
sociedades pouco diferenciadas. Pois quanto mais o individualismo
Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de
cresce, mais a consciência coletiva diminui. E no entanto,
hoje: o_ individualismo.
paradoxalmente, sem consciência coletiva, sem uma moral coletiva,
É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o a sociedade não pode sobreviver. A solidariedade é o cimento que
surgimento ela liberdade moderna. Si) numa sociedade complexa e dá liga à sociedade. Se fosse deixada para seguir seu rumo sem
diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras controle, a solidariedade orgânica (baseada na diferença)
sociais, sua validade geral e indistinta, e só assim o indivíduo pode provocaria a desintegração da sociedade, provocaria o que
ter certa liberdade de julgamento c de ação. Mas quanto mais D u r k h e i m c h a m o u d e cincmiut, i s t o é ,
liberdade individual, mais individualismo, entendido como a perda dos
sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade.
10 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O

grupo, de sua casta, de sua profissão, enfim, de seu meio moral. E(j-este é o modo
específico, particular,
a ausência de regras, o caos. Se isso não ocorre por completo é S OC I E D A D E , ED U C AÇ Ã O t VIDA M OK A I 3 3 - ■ ',

porque a consciência coletiva ainda se mantém de alguma forma.

Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela


pelo qual você se torna membro da sociedade. Esta não é algo que
diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a
esteja disponível em sua abrangência lotai paia iodas as pessoas.
toda vida social, a educação assume o significado de educação
Socializar-se é aprender a ser membro cia sociedade, e aprender a
moral. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da
ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. Sé)
coesão social.
assim é possível preservar a sociedade. Preservá-la inclusive de sim
Assim, a educação, para Émile Durkheim, é essencialmente o
própria diferenciarão.
processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade.
Aprender a ser um engenheiro, paia Durkheim, não é
Edueação'é socialização.
simplesmente aprender a lazer plantas ou calcular volumes de
"É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como
concreto. Assim como aprender a ser médico não se limita a
q u e r e m o s " , s e n t e n c i a D u r k h e i m n o s e u l i v r o Educação c sociologia.
aprender a cortar barrigas ou serrar ossos. Aprender a ser médico
Existem certos costumes, certas regras, que devem ser
ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou
obrigatoriamente transmitidos no processo educacional, gostemos
engenheiro, a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela
deles ou não. Se não fizermos isso, a sociedade se vingará de
profissão. Significa aprender a agir como a sociedade espera que
nossos filhos, pois não estarão cm condições de viver en> meio
um médico ou um engenheiro ajam. Significa entrar num meio
aos'outros quando adultos. A cada momento histórico, acredita
moral, através da aquisição de uma moral profissional. Por isso, os
Durkheim, existe um tipo adequado de educação a ser transmitida.
sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos.
Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu
Educação homogênea, aliás, só se voltássemos à pré-história, em
tempo, diz nosso sociólogo, não são boas porque não permitem que
sociedades sem diferenciação.
o indivíduo educado tenha uma vida normal, harmônica com seus
No entanto, por mais específicos que sejam os meios morais
contemporâneos.
para os quais somos educados, sempre existirão crenças e valores
Mas se, como dissemos antes, as sociedades modernas são muito
básicos que devem ser comuns a todos. A educação do
diferenciadas, devido à divisão do trabalho social, como seria
engenheiro pode ser muito diferente da do médico, ou do literato,
possível um único tipo adequado cie educação para todos? Ora, não
mas antes de serem educados para essas atividades profissionais,
seria possível. Para Durkheim, a educação adequada é a educação
passaram por uma educação fundamental, no geral
própria ao meio moral que cada um compartilha. Nas sociedades
compartilhada com toclos. Mesmo numa sociedade rigidamente
complexas existem muitos meios morais, conforme 'a divisão em
dividida cm castas, como na índia, onde as pessoas nascem e
classes, em castas, em grupos, em profissões etc. Assim, não existe
morrem, geração após geração, sem chance de passar de uma
uma educação única para que todos aprendam a ser membros da
casta para outra, existem alguns valores comuns a todos; por
sociedade.. Você aprende a ser um membro de sua classe, de seu
11 S O C I O L OG I A OA E D UC A Ç Ã O

"alguma coisa a gente tem que ter em comum". Não seria possível
< existir sociedade sem isso. E fundamental que haja certa
exemplo, uma religião comum. Assim, mesmo que homogeneidade, e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma
nem toclos nós fumemos um determinado cigarro, tia criança que
34 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O

é educada, insistiu o sociólogo francês. Assim como é fundamental


para ele que, a partir de certo ponto, a educação se diferencie, para
E STÁ BEM , A SOCIEDADE NOS MOLDA . A educação que recebemos tem
adequar as crianças a seus meios específicos de vida.
por objetivo nos enquadrar às expectativas do meio social em que
Para resumir cita idéia, permita-me citar a definição que o vivemos — nossa classe, nossa profissão, nosso meio moral. Cada
próprio Durkheim dá paru educação; geração transmite a seguinte, através da educação, os elementos
fundamentais para a manutenção Ja estabilidade tias coletividades
A«ducação é a ação exercida pelas gernçcjes adultas sobre as
humanas. Esses achados de Durkheim sem dúvida devem ser
gerações que não sc encontram ainda preparadas para a vida
social; tem por objeteususcitar e desenvolver, na criança, certo
considerados como uni importante ponto de partida da sociologia, e

número de estados físicos, intelectuais c morais, reclamados também da sociologia da educação.


pela sociedade política, no'seu conjunto, e pelo meio moral a Mas nos questionemos um pouco agora sobre o lixo que existe
que a criança, particularmente, se destine [Educação c nos porões da sociedade. O que existe por irás tias aparências dessa
sociologia, [),
nova, maravilhosa e terrível realidade parida a iórccps pela
moderna ordem industrial capitalista? Quais os mecanismos de
É isso que nos permite viver cm sociedade, é isso que permite
enquadramento sobre os indivíduos e a que interesses eles de fato
que a sociedade viva em nós e é' isso que permite à sociedade
servem? Que forças sociais emergentes neste novo momento
continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Sé) a
histórico são capazes de controlar as consciências dos homens?
educação pela qiial passamos é capaz de nos lazer assim. E é por
Mais que isso: diante do acúmulo das mazelas sociais já desde o
isso que a educação é um processo social.
C APíTUt O ii1 berço cia sociedade capitalista, como transformar esta realidade?
Como impedir que os muitos que estão por baixo sejam esmagados

S oci edade, educaç ão e em anci pação pelos poucos que estão por cima? Será que o ato de educar pocle
ser algo mais do que um mecanismo cie manutenção da ordem? Será
possível educar para a emancipação do homem, para iivrá-lo de
toda a opressão que 0 esmaga?

Marx e o pensamento sociológico

A obra do alemão Karl Pieinrich Marx (181S-1SS3) marcou


como um corte de navalha o pensamento ocidental do século XIX.
36 5 OC I O L O C I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade, educa Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O . 13

..^■y-frl-L-...
Seu objeto de pesquisa fundamental, pata não dizer o único, foi a Pelo contrário, se a sociedade verdadeiramente humana "deve
sociedade capitalista de seu tempo. Ele olhou à sua volta e percebeu ser" um dia uma sociedade sem exploração e opressão, é porque
que; para alem dos sinais aparentes de miséria e sofrimento das esta possibilidade está dada já agora, no modo mesmo como a
classes trabalhadoras — esses qualquer um que caminhasse pelas sociedade presente "é". A^contradiçãc> para Marx não é uma
ruas das grandes cidades industriais podia ver — havia um processo fa 1 ha do raciocínio lógicq,_ç o modo pelo qual a realidjid_e_se_
histórico em curso que, enquanto levava a burguesia à condição dc expressa, e o futuro desejado está contido no presente odioso,
classe dominante, uxpropriuvn dos trabalhadores manuais seus i a c o n f u s o ? ( _______a l m a , e u e x p l i c o .
instrumentos dc produção e seus saberes, transmitidos com zelo de
Para chegar ao entendimento da sociedade capitalista, Marx
geração para geração através dos séculos, ao tempo da velha ordem
julgou necessário descobrir como a história humana funciona,
feudal. Perceber este ponto talvez seja o grande diferencial da
desde os primórdios da civilização até seus dias. Nada menos
sociologia de Marx.
que isso. E acreditou dc fato haver descoberto este mecanismo.
Mas devo advertido desde logo, caro leitor, que o pensamento de Como disse e parceiro intelectual briédrich Engels (1820-
Karl Marx não se adapta facilmente ao rótulo dc "sociologia". Pois a 1S95), num discurso proferido no enterro de Marx, assim como
sociologia é uma disciplina científica c empírica, de caráter Darwin havia descoberto as leis da evolução das espécies, Marx
analítico. E' Marx combinou em seu pensamento duas perspectivas
havia descoberto as leis da história. Nesse sentido, a pretensão de
diferentes, dois modos diversos de encarar a realidade. Por um lado
Marx se assemelha muito à de Durkheim: o fundamental para as
seu pensamento é analítico, isto é,_ ■ pretende ver a realidade como
ciências sociais é que sejam capazes de enunciar leis que tenham
ela é, dissecando-a... e reco ris t ruindo -a conceitualmcnte para
tanta validade geral quanto as leis tia física oti da biologia.
entendê-la. Nesse sentido, ele foi um praticante das ciências sociais
Bem, mas que "descoberta" era essa? O enunciado da lei da
(a sociologia, a história e a economia política). Por outro lado, seu
história, segundo Marx, seria algo como o seguinte: "o que move a
pensamento é normativo, isto é, pretende vislumbrar como a
história é a luta entre as classes sociais". Compreendendo esta
realidade deveria ser, construindo uma utopia em nome da qual seria
chave, o investigador (e, principalmente, o transformador) social
necessário agir para transformar esta realidade, valorativamente
compreenderia a natureza da sociedade capitalista c a direção na
caracterizada por ele como iníqua. Nesse sentido, ele fazia filosofia.
qual ela estaria se transformando, graças a suas contradições
Aliás, Marx não era apenas um pensador. E i a também um militante
internas. Como a luta entre as classes chegou então a constituir-se
político, que pretendia colocar suas. idéias, em prática através de um
em motor da mudança histórica?
partido político. Mas não se conformava em propor o socialismo
como uma opção entre tantas outras. Seu socialismo era "científico",
As l e i s d a h i s t ó r i a
e sua ciência lhe dizia que o socialismo estava fadado a triunfar.
Marx e Engels escreveram que a história humana é a história da
Para ele não havia contradição entre teoria e prática, nem
entre o modo como as coisas são e o modo como devem ser. Ir relação dos homens com.a natureza e dos homcns..çntre si. Nesses
dois tipos de relação aparece como intermediário um elemento
essencial: o trabalho humano.
33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O
S OC I E D A D E , ED U C A Ç Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O 39

É através do trabalho que o homem muda a natureza, colocando- trabalho que são obrigados a desenvolver para sobreviver dita o
-
a a se L I J í c r v i ç c j ^EjejTJama, c o l h e , c a c a , p e s c a enfim, vive através modo pelo qual as sociedades humanas se estruturam. Para aumentar
de seu trabalho. Na medida em que o ser li uma no se reproduz, :i produi ividade si > c i a 1, para desenvolver as forças produtivas, o
através das relações sexuais entre homem e mu lhe r esse processo luMncmtambém loi organizando _ a produção junto com seus
se expande pel o aumento nau ir a[ da populaç ã o. Ao mesmo semelhantes, distribuindo tarefas c benefícios entre os membros da
t e m p o , p a r a m e l h o r d e s e n c u m h i r - s c d e s u a t a r e f a d e p r o d u ç ã o da sociedade, boi este o ponto de partida do processo de divisão do
vida m a t e r i a l o h o m e m d e s e n v o l v e u i n s t r u m e n t o s d e t r a b a l h o , q u e t r a b a l h o . P r i m e i r o , a d i v i s ã o sexual, e n t r e o t r a b a l h o d e h o m e n s e
cada vez mais foram funcionando como extensões c como aumento mulheres. Depois, a divisão entre a agricultura e a criação de
das capacidades do corpo huma-rva.'Em vez de cortar ou quebrar a n i m a i s . E , a s s i m p o r d i a n t e , f o i s e d a n d o a divisão e n t r e o c a m p o e a
com as próprias mãos inventou, a -machadinha de pedra, depois de c i d a d e , entre a p r o d u ç ã o a g r í c o l a e a i n d u s t r i a l , e n t r e e s t a e o
m e t a l c o r t a n t e etc. D o m c s t i c o u a n i m a i s p a r a f a z e r o t r a b a l h o m a i s comércio etc. Nesse sentido, como esta organização da produção
pesado d e s e n v o l v e u t é c n i c a s d e c u l t i v o ( c o m o i r r i g a ç ã o o u e s c o l h a advém da capacidade humana cie racionalizar tarefas no sentido do
de terrenos) para potencializar os resultados de seus esforços. Com aumento da produtividade social, a divisão do trabalho é também
s e u g ê n i o , c o m a c a p a c i d a d e d e r a c i o c i n a r que f a l t a a o s o u t r o s parte do conjunto das forças produtivas. Ambas, divisão do trabalho
a n i m a i s , o h o m e m foi c a d a vez m a i s s e n d o c a p a z d e a . u m e n t a r c e forças produtivas, ao mesmo tempo determinam-se e são
m e l h o r a r o s r e s u l t a d o s o b t i d o s p e l o t r a b a l h o que r e a l i z a v a c o m o determinadas uma nela outra.
suor de seu rosto. Nesse processo, trabalho manual e reflexão Mas a divisão social do trabalho não é uma simples divisão de
intelectual jamais se separaram, embora -como apontarei mais tarefas: fulano faz isso, beltrano aquilo. Não. Ela é também a
abaixo — o predomínio de certos grupos de homens sobre outros ao expressão da existência de diferentes formas de propriedade no seio
longo da história tenha gerado uma distorção no modo pelo qual os de uma dada sociedade num dado tempo histórico. As relações de
homens tomam consciência da relação entre o mundo material e o propriedade, por sua vez, dizem respeito aos tipos de relações
m u n d o d a s i d é i a s . O s e r h u m a n o , a s s i m , d e s e n v o l v e u a o longo d a sociais predominantes numa sociedade a partir dos tipos de
h i s t ó r i a , cada vez m a i s , a q u i l o a que M a r x e E n g e l s d e r a m o n o m e d e propriedade vigentes. Do ponto de vista de Marx, elas iippj^cjvm
"forças, produtivas". O desenvolvimento das forcas produtivas foi numa separação básica:_e_ntre os instrumentos ou meios utilizados
o,responsável pelo incremento da produtividade e pelo aumento do para o trabalho, de um lado, c o próprio trabalho, de outroMsso
domínio do homem sobre a natureza, bem como pelo conforto e pela significa que no processo de divisão do trabalho.nem_sempre..os
r i q u e z a m a t e r i a l d e c o r r e n t e s , que a s s o c i e d a d e s a c u m u l a r a m a o homens que_ possuem os meios para realizar o trabalho trab alham e
longo d a h i s t ó r i a . E , n o t e b e m , f o r ç a s p r o d u t i v a s n ã o ' s ã o a p e n a s nem sempre os que trabalham possuem esses meios. As relações de
m a c h a d i n h a s e a r a d o s , m a s também a s t e c n o l o g i a s d e s e n v o l v i d a s propriedade, portanto, são a base das desigualdades sociais, na
pela capacidade reflexiva do homem. medida em que a divisão do trabalho possibilitou a existência de
ti'

homens que trabalham para os outros, porque o fazem com os meios


M a s n ã o a p e n a s i s s o . A o m e s m o t e m p o em q u e o t r a b a l h o é o de outros; c de homens que não trabalham porque têm meios e podem
intermediário da relação do homem com a natureza, ele é, também, fazer com que outros trabalhem para si. A esses modos específicos
o intermediário da relação dos homens uns com os outros. Porque o
33 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O

de organização do trabalho e da propriedade Marx c Engels deram dominada e a classe dominante em cada época. Marx diz que as
o nome de "relações sociais de produção". relações sociais de produção, isto é, as formas de propriedade,

. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas quando se estabelecem, funcionam como uma forma de

desenvolvidas, sob o controle dos homens que nesta época vivem e, desenvolvimento das forças produtivas, mas chega um (orcas produi

ao mesmo tempo, um conjunto instituído de relações sociais de desenvolver sob a vigência daquelas relações de propriedade. Abre-

produção, que são o modo pelo qual os homens assumem o controle se então um período ele convulsão social, no qual as relações de

sobre as forças produtivas, isto é, as relações de propriedade. A propriedade vigentes são contestadas. A classe oprimida, política

este conjunto total Marx e Engels chamaram "modo de produção". e/ou economicamente dominada, se insurge contra o predomínio da
classe dominante. E por isso que nossos atitores afirmam que aquilo
Assim, as grandes transformações pelas quais passou a história
que move a história é a luta entre as classes.
da humanidade foram as transformações de um modo de produção a
outro. Simplificadamcntc, podemos dizer que nossos autores
As formas de consciência
descrevem três diferentes modos de produção ao longo da história: o
modo de produção escravista antigo (Grécia e Roma antigas, onde o Nessa explicação genérica da teoria da história de Marx eu sé)
trabalho era realizado por escravos), o modo de produção feudal lhe expus, até aqui, o aspecto relacionado com as formas de
(vigente no mundo medieval) e o modo de produção capitalista. A produção material e de organização da estrutura social delas
cada uni desses modos de produção correspondem diferentes decorrentes. Mas como o trabalho e a reflexão do homem, como já
estágios de desenvolvimento das forças produtivas materiais e sublinhei, são laces da mesma moeda ao longo da história, a teoria
diferentes formas de organização da propriedade (ou relações de Marx se propõe também a explicar de que modo o mundo das
sociais de produção). No primeiro, a relação social básica é a idéias, do conhecimento, das crenças c tias opiniões se relaciona
escravidão, que opõe escravos e senhores de escravos; no segundo, com este mundo material, da produção, do trabalho. Marx e Engels
a relação social básica é a de servidão, que opõe servos de gleba e se vêem então diante da seguinte pergunta: como explicar a
senhores feudais; e no terceiro, a relação social fundamental é a de consciência qtie os homens têm ou deixam de ter a respeito de seu
assalariamento, que opõe capitalistas e operários, isto é, burgueses próprio modo de vida, da produção material de sua sociedade c das
e proletários. Dessas diferentes relações de propriedade, ou melhor, rclaçêics de classe, sejam elas econômicas ou políticas?
da posição dos homens com relação às formas de propriedade A consciência está ligada às condições materiais de vida, ao
vigentes num dado modo de produção^' é que surgem as classes intercâmbio econômico entre os homens, como já vimos. Mas a
sociais. consciência que os homens tem dessas relações, afirmam nossos
A transformação de uma forma a outra, de um modo de produção a autores, não condiz com as relações materiais reais que de fato
outro, se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a classe
16 S O C I ED AD E , E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 4 3

vivem. As idéias, as concepções sobre como funciona o mundo são classe dominante (a burguesia) e outras classes, que acabaram sendo
representações que os homens fazem a respeito de suas vidas do submetidas a esta classe dominante, l.ranslormaildo-se em
m o d o c o m o a s r e l a ç õ e s aparecem n a s u a e x p e r i ê n c i a c o t i d i a n a . E s s a s proletariado. Não. A medida que o tempo passa c a sociedade
representações são, portanto, aparência. Para Marx essas capitalista se estabiliza, ela é percebida pelas pessoas, na vida
representações implicam, num primeiro momento numa falsa cotidiana, como a única sociedade possível. Assim como em outros
consciência, n u m a consciência invertida, p o i s s e p r e n d e m à a p a r ê n c i a c tempos, a sociedade feudal, por exemplo, foi percebida pelos homens
nao são capazes de captar a essência tias relações às quaft os como a única sociedade possível (durante séculos, num intervalo de
homens estão de fato submetidos. tempo, aliás, bem maior do que a duração do capitalismo).

Se estiver muito complicado, não desanime agora. Vou lhe dar Repare aqui uma diferença fundamental entre Durkheim e Marx.
unrcxémplo prático c claro dessa falsa consciência que acabei de Durkheim nos mostra o peso da sociedade sobre os indivíduos,
mencionar no parágrafo acima. Quando se estabelece na história aponta que a consciência individual é dada pela preponderância de
uma determinada forma de divisão do trabalho, quando ela se torna uma consciência coletiva, que os indivíduos não pensam com sua
dominante e generalizada dentro de uma sociedade ela estabelece o própria cabeça. Marx, por sua vez, mostra que isso não é assim
lugar de cada um dentro do processo produtivo. Assim, as relações simplesmente porque qualquer sociedade de homens deve
de propriedade vigentes, o poder político de certos grupos sobre necessariamente ser exterior c coercitiva sobre os indivíduos. Ele
outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada mostra que o caráter coercitivo, dominador, não se manifesta
classe social consegue implantar numa determinada época histórica, igualmente por parte "da sociedade em geral" sobre todos os homens
estabelecem c determinam o que cada indivíduo está obrigado a indistintamente, mas sim de unia parte da sociedade sobre outra, ou
fazer, o modo como está obrigado a trabalhar e viver. No melhor, cie uma classe social que assume o papel de dominante
capitalismo, diz Marx, existem os proprietários dos meios de sobre as outras, que se tornam dominadas. E que esta situação não
produção (as fábricas, as máquinas e a própria força de trabalho do está ali desde que o mundo é mundo, mas que ela foi criada pela luta
trabalhador). Estes são obviamente os burgueses. E existem aqueles histórica entre as classes sociais. Marx afirma que se as relações de
a quem não resta outra alternativa de vida a não ser vender o único dominação existem cm toda e qualquer sociedade é porque elas são
bem de que dispõem: sua força de trabalho, em troca do pagamento socialmente construídas. E, portanto, não precisam existir para
de um salário. No entanto, na cabeça dos homens que vivem sob sempre, pois o homem pode construir outros tipos de relações, sem a
este sistema, isso é percebido, no, plano das idéias, como algo dominação de uma classe sobre outra. Mas percebe, no entanto, que
normal, natural. Ao trabalhador lhe parece natural que certas os homens, no seu universo cotidiano, dentro do qual estão
pessoas tenham que trabalhar em troca de um salário para viver, submetidos a este processo de dominação, não têm uma consciência
como se isso sempre houvesse existido e, mais ainda, como se real da dominação cie que são objeto.
tivesse que continuar existindo para sempre. Esse indivíduo não vê Pensemos no processo de passagem cio modo de produção feudal
a sociedade capitalista como uma sociedade historicamente para o modo de produção capitalista, para que não reste
construída pela luta entre uma classe com intenção de ser a
1
17
44 Sociedade, educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO
-S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o

dúvidas sobre isso. A forma de produção de mercadorias no mundo '5; trabalhadores que iam sendo contratados tivessem que aprender uma
feudal era o artesanato. Como resultado de uma enorme gama de só tarefa, cm vez de aprender o processe; iodo. Juntou-se a esta
transformações ocorridas entre os séculos XVI e XIX, o artesanato mudança um outro dado fundamental. Com o desenvolvimento
se transformou cm grande indústria. Como isso se deu, do ponto tecnológico daqueles séculos, o XVIII e o XIX principalmente,
de,vista das relações de propriedade? No artesanato, o Mestre de foram criadas máquinas novas para aumentar a produção. A princípio
Ofício — por exemplo, um sapateiro — realizava todas as etapas da essas máquinas dependiam cio uso que o trabalhador fazia delas.,
produção de seu produto. O Mestre Sapateiro curtia o couro dos mas com seu aperfeiçoamento, as máquinas começaram a ditar o
animais, cortava, tingia, construía as fôrmas de madeira para a ritmo da produção, sendo o trabalhador obrigado a operar no ritmo
fabricação dos sapatos, costurava-os, pregávamos''solados, fazia o cia máquina, e não a máquina ao ritmo do trabalhador.
acabamento c, ainda, os vendia em seu estabelecimento. E claro
Agora pense o que aconteceu, não só com os sapateiros do
que este era um processo lento, e um número reduzido de pares de
exemplo, mas com todos os ramos da produção material, entre o
sapatos era produzido. Mas o Mestre Sapateiro tinha o controle de
tempo do artesanato e o da grande indústria. O que aconteceu, para
c a d a d e t a l h e . E l e , c o m o p e s s o a , sabia fazer s a p a t o s e e r a e s t e s a b e r
M a r x , é q u e o s t r a b a l h a d o r e s f o r a m d u p l a m e n t e apropriados p e l o s
(somado aos meios materiais necessários para a fabricação de
capitalistas, isto é, deles foram subtraídas duas coisas: os meios de
sapatos) que determinava o lugar que este homem ocupava no
produção c i a v i d a m a t e r i a l . c o saber d o q u a l d e p e n d i a a f a b r i c a ç ã o d e
mundo c suas relações com seus contemporâneos. E de onde veio
um produto e a própria posição social do artesão. Eles eram auto-
este saber? Ele aprendeu de um outro Mestre, muitas vezes seu pai,
suficientes e passaram a se tornar dependentes dos capitalistas.
com o qual exercitou o ofício desde criança, na condição de
Primeiro, porque não tinham mais os meios materiais de vida, c
aprendiz. Do mesmo modo ele ensinaria, depois de Mestre formado,
foram obrigados a vender sua força de trabalho cm troca de um
o ofício a seus aprendizes,. muitas vezes seus filhos.
salário. E depois, porque não saberiam mais como produzir por
Com o desenvolvimento do comércio, no entanto, uma nascente
conta própria se tivessem esses meios materiais, já que foram
classe de comerciantes começou a ter pressa. Quanto mais sapatos
obrigados a reduzir sua capacidade de trabalho a tarefas simples e
vendidos, mais lucro. Os comerciantes passaram então a contratar
parciais. Este saber foi apropriado e controlado pelo capitalista, que
fabricantes de sapatos e reuni-los em galpões onde pudessem
o desenvolveu e racionalizou. Através da maquinaria industrial
fiscalizar a produção e cobrar a agilidade necessária. Ao fazerem
moderna e de posse desse saber, o capitalista reduziu o trabalhador à
isso, começaram a entender o processo de fabricação do sapato e
execução cias tarefas simplificadas, parciais e repetitivas na linha
perceberam que seria possível agilizar a produção se as tarefas
de produção da fábrica. Assim, as forças produtivas foram
fossem divididas entre os trabalhadores. Cada um faria apenas uma
enormemente desenvolvidas, mas através de um processo social de
etapa, pois seria bem mais ágil apenas cortar o couro, ou apenas
expropriação d e b e n s m a t e r i a i s e d e s a b e r e s .
costurar, repetidas vezes, em vez de todos realizarem todas aá
Explicado assim, numa perspectiva histórica, poclc até parecer
etapas e passarem de uma tarefa a outra. E seria bem mais simples,
convincente, mas a percepção dessa expropriação e o entendimento
também, que os novos
47
•16 Sociedade, educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO
•/■S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o
de suas conseqüências para cada um fica bloqueada pelo modo como Exploração econômica e opressão política do homem pelo
o indivíduo adquire consciência do mundo social em qLic nasce e no b n m _ e j i \ _ g g . i i \ p r e ...houve em todas as sociedades: só que,no
qual cresce e morre. Ele só aprende que deve trabalhar para capitalismo há uma diferença. Em todas as outras lormas_d_c
receber, o salário e viver, pois esta é a percepção que tem da dominação histórica ajnerioxes,. o dojiunado sabia que era
realidade na vida cotidiana. Existem as fábricas e seus donos. E ao dp.mjnado_ç sabia.quem..era seu dominador. O escravo s abia que
trabalhador, que não é dono dc coisa alguma, cabe trabalhar nelas e seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si
ponto-final. Por causa do salário pago, o trabalho, que é obra de à forca, o servo sabia que o dono I
L O feudo lhe arrancava a maior
cada ser humano, é compreendido como algo que não pertence a parte do que plantava e colhia. No capitalismo, ao contrário, o
este ser humano. O trabalho, que sempre' foi o meio pelo qual o trabalhador acha que c justo qtie cie seja separado do fruto de SC L I

homem relacionou-se com a natureza_e_ com os outros homens, é trabalho mediante o pagamento do salário. O máximo dc
individua 1 mente percebido como algo sobre o qual_Q- jnjustiçacontra a qual <i rrahalhadiir_niirnía 1 men.tc se revolta diz
trabalhadox_não tem controle. O trabalhador foi separado, pelo respeito aos salários hai._xos..c_às;.ço_ndi.ções_.riiins de trabalho
capitalismo, do controle autônomo que exercia sobre seu trabalho c (jornadas longas demais, Jnsalubrklade_etc). Marx diz, porém, que o
também do fruto deste trabalho. O trabalho é então percebido pelo salário não remunera, todo o trabalho realizado, mas apenas uma
trabalhador como algo fora de si, que pertence a outros. A isso, parte dele. A outra parte é apropriada pelo capitalista e se
M a r x d á o n o m e - d e alienação. P o r c a u s a d o t r a b a l h o a l i e n a d o a q u e transforma em lucro. Em resumo, a teoria de Marx e Engels afirma
estão submetidos, os homens adq u i rem um a c o n se i ç n c i a_ que qualquer salário é injusto porque a relação de assalariamento é
fa 1 s a_d o mundo em que vivem, vêem o trabalho alienado injusta em si. É injusta porque separa o trabalhador do resultado de
cji_d_oniinação de uma classe social sobre otitra .cojrio seu trabalho, e isso o aliena e o descaracteriza como ser humano. E
fatos..naturrj_is__e passam, portanto, a compartilhar uma mais ainda: essa injustiça não pode ser percebida pelo trabalhador
concepção de mundo dentro da qual s_ó têm acesso às aparências, (com base em sua própria experiência na vida cotidiana) por causa
s e m s e r c a p a z e s d e c o i r m x e £ i i d £rL-CL.pr" i i c e s s o h i s t ó r i c o r e a l . A i s s o da ideologia, que é uma concepção de mundo gerada pela classe
M a r x d á o n o m e d e ideologia. A i d e o l o g i a , p o r t a n t o , c a q u e l e s i s t e m a dominante c assumida pela classe dominada como se fosse sua. A
ordenado de idéias, de concepções, de normas c de regras (com base suprema ironia do capitalismo é que o dominado
no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a p e n s a c o m a c a b e ç a d o _ _ d o m i n a d o r , c e s s a _ c a ___________l o r m a d e
comportarem-se segundo a vontade "do sistema", mas — e isso e dominação_m.ajs_visceral. NxLxap. i x a J i s ü i Q 4 _ o s _ x r . a b . a l h a d o r e s
i m p o r t a n t e — como s e e s t i v e s s e m se comportando segundo sua própria dormem com o inimigo, confortavelmentc instalado em sua própria
vontade. E s t a c o e r ç ã o " d o s i s t e m a " s o b r e o s i n d i v í d u o s r e v e l a M a r x , mente, todos os dias sem saber. E quase como sc_ houvesse e m seu
na verdade é a coerção da classe dominante sobre as classes cérebro um c/u/> perverso de computador, desses dc filme de ficção
dominadas. Por isso Marx afirma que a ideologia dominante numa científica, que o obrigasse a levantar no outro dia e levar sua vida
dada época histórica é a ideologia da classe dominante nes^sa da mesma íorma que no_dia anterior.
época.
48 19
Sociedade, educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o

Mas Marx e Engels não faziam ficção científica. Eles, ao mesmo empírica
tempo, tinham fé na ciência e alimentavam uma utopia. Por obra da (ainda
ciência, acreditaram haver descoberto as leis da história. Essas leis eme
lhes diziam que chegaria um momento em que o desenvolvimento pouco
das forças produtivas proporcionado pelo capitalismo aprofund
inevitavelmente entraria em contradição com as formas capitalistas ada) da
de propriedade e que, quando esse momento chegasse, se abriria uma situação
época de revolução social e política. E aí entra sua utopia: -
acreditavam que esta revolução — à qual se seguiria uma fase de
transição em que os resquícios da sociedade capitalista seriam
destruídos (a fase do socialismo) — daria origem a uma nova
sociedade, sem exploradores nem explorados, sem alienação e sem
ideologia, sem classes sociais e sem Estado (porque o Estado para
eles é uma manifestação das relações de classe, e deixaria de existir

I
quando as classes não existissem mais). Nessa nova sociedade, a
sociedade comunista, sem dúvida a mais bela utopia do século XIX,
o homem se reencontraria consigo mesmo, seria um ser autônomo,
autocentrado e autoconsciente, trabalhador manual e intelectual ao
mesmo tempo. Daria à sociedade, por sua própria vontade, todo o
esforço e trabalho que pudesse, e receberia dela tudo o que
precisasse, graças ao desenvolvimento material propiciado pelo
capitalismo. Os homens e as mulheres seriam, enfim, seres humanos
inteiros completos. E, c claro, seriam felizes para sempre.

Educar no mundo industrial

Bem, é de se esperar que a essa altura você já esteja de novo


minhocando sobre o que toda essa conversa de exploração,
dominação, alienação, ideologia c comunismo tem a ver com
educação. Pois vou lhe dizer o que eu acho disso.

Acho que Marx e Engels viam a educação com os mesmos olhos a


com que viam o capitalismo. Por um lado, fazendo uma análise
48 20
Sociedade, educa ÇÃO E EMANCIPAÇÃO S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o
educacional dos filhos dos operários do nascente sistema fabril, industri permitia a contratação de crianças para trabalhar nas fábricas, com a
identificaram na educação uma das mais importantes formas de al condição de que os patrões apresentassem um atestado de que os
perpetuação da exploração de uma classe sobre outra, utilizada pelo moderno meninos freqüentavam a escola. Olhando mais de perto, porém,
capitalista para disseminar a ideologia dominante, para inculcar no . Ao Marx concluiu que 0 tipo de educação dado às crianças operárias era
trabalhador o modo burguês de ver o mundo. Por outro lado, comenta tão precário, que só poderia servir para perpetuar as relações de
pensando a educação como parte de sua utopia revolucionária, r a opressão às quais essas crianças e seus pais operários estavam
identificaram nela uma arma valiosa a ser empregada em favor da legislaçã sujeitos. O descaso era tanto que qualquer um que tivesse uma casa
emancipação do ser humano, de sua libertação da exploração e do o e alegasse ser ali uma escola poderia fornecer os "atestados de
jugo do capital. Ou seja, para Marx e Engels não existe "educação" trabalhis freqüência às aulas" de que as fábricas precisavam para livrar-se da
e m g e r a l . Conforme o conteúdo de classe ao aiuã e s t i v e r exposta, ela pode ta da fiscalização. Segundo relato de um inspetor do trabalho da época,
ser uma educação para a alienação ou uma educação para a emancipação. época, citado por Marx em seu livro, numa dessas "escolas" que visitou

E m s e u l i v r o m a i s c o n h e c i d o , O Capital ( d e 1 8 6 7 ) , M a r x f a z u m a ele nota


a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés cie
análise das condições de vida dos trabalhadores ingleses na época que a lei
largura c continha 75 crianças que grunhinm algo ininteligível.
das rápidas transformações econômicas e políticas provocadas pela inglesa
(...) Além disso, o mobiliário escolar é pobre, há falia de
Revolução Industrial, justamente a (ase de afirmação do capitalismo anterior
livros e de material de ensino e
a 1844
21
S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã o Sociedade, educa ÇÃO I EMANCIPAÇÃO 51

Lima a t m o s f e r a v i c i a d a c f é t i d a e x e r c e e f e i t o d e p r i m e n t e s o b r e como descanso para a outra. Mas o fundamental é que, através dessa
as infelizes crianças. Estive em muitas dessas escolas c nelas c o n j u g a ç ã o , s e r i a p o s s í v e l n a v i s ã o d e M a r x r o m p e r , na formação das
vi filas inteiras dc crianças que não faziam absolutamente futuras gerações, com a separação e n t r e trabalho manual c intelectual, c
nada, e a isto se dá o atestado dc freqüência escolar; e esses também com a parcialização das tarefas impostas pela divisão do
meninos figuram na categoria de instruídos de nossas
trabalho na fábrica moderna. E romper com essa separação é uma
e s t a t í s t i c a s o f i c i a i s ( O Capital, c a p . X I I I , i t e m 9 ) .
d e c o r r ê n c i a f u n d a m e n t a l t i a s a n á l i s e s LIC M a r x e E n g e l s , p o r q u e é

A legislação inglesa de 1344 mudou as regras. A partir de então dela que brotam a alienação e a ideologia.

só poderiam ser contratadas para as fábricas"crianças que já Talvez o que vou dizer agora possa chocar alguns de nos, que
tivessem pelo menos a instrução primária, c que já tivessem vivemos à beira do século XXI, mas segundo a concepção dc Marx,
aprendido as primeiras letras e números. Marx considerava isso um que era um homem do século XIX, o trabalho infantil é desejável,
avançç) importante, pois acreditava que todas as crianças deveriam desde que o Estado garanta aos tilhos dos operários tima escola de
combinar, em sua formação como pessoa, a educação formal escolar m e i o p e r í o d o q u e não s e j a u m m e r o d e p ó s i t o d c c r i a n ç a s c d e s d e q u e
e o trabalho manual nas fábricas. Não nos esqueçamos de que Marx a SLipercxploração do trabalho infantil seja controlada pela
era um entusiasta dos avanços do capitalismo. Ele lembrou em legislação. E é desejável simplesmente porque Marx não acreditava
vários de seus textos que o capitalismo havia melhorado o .nível que um homem novo, com um novo caráter, pudesse ser forjado
material de vida da sociedade humana, em menos de cem anos, apenas com uma educação escolar lormal. Para ele, as mãos sujas de
muitas vezes mais do que o sistema anterior havia feito em mais de g r a x a e o s u o r d o r o s t o s e r i a m tão e d u c a t i v o s , d o p o n t o d e v i s t a
mil. A crítica de Marx ao capitalismo dirigia-se contra a moral, quanto os livreis, os cadernos e os- lápis. Sc é através do
apropriação privada do lucro, e não contra a existência da trabalho que o homem produz para viver, colocando a natureza a seu
civilização industrial, telo contrario, sua utopia comunista seria serviço e ao mesmo tempo relacionando-sc com seu semelhante, o
impossível sem o desenvolvimento propiciado pelo capitalismo. Seu trabalho manual eleve ser exercitado por toclos, c os resultados dos
ideal era o de que, no comunismo, todos dividissem o trabalho esforços coletivos devem ser compartilhados conforme as
manual nas fábricas com o trabalho intelectual e com o lazer. necessidades cie cada um. Para que não reste dúvida sobre este
Assim, todos seriam homens completos. Nesse sentido, Marx p o n t o , v e j a m o s o q u e d i z M a r x n u m t e x t o i n t i t u l a d o Instrução aos
festejou a legislação inglesa dc 1844, pois ela permitia combinar, na delegados do Conselho Geral da í n t e n i c /cioTiaí Comunista ( d e 1 S 6 6 ) . D i z
formação da criança, a educação escolar e o trabalho na fábrica. ele:
Marx afirma, inclusive, que a escola em tempo integral é pouco
Consideramos que c progressista, sã e legítima a tendência cia
produtiva, porque, não sendo combinada com o trabalho man uai
indústria moderna de incorporar as crianças e os jovens para
torna o dia da criança enfadonho, o trabalho do professor mais duro
que cooperem no grande trabalho da produção social, embora
e o rendimento escolar menor. "As crianças com escola de meio
sob o regime capitalista ela tenha sido deformada até chegar a
período e trabalho no outro período aprendem tanto ou mais que as
unia abominação. Em todo regime social razoável, qualquer
crianças que ficam na escola o dia todo" escreveu Maix. Para ele,
criança de 9 anos de idade deve ser um trabalhador produtivo,
uma vez conjugados o trabalho e a escola uma atividade funcionaria
do mesmo modo que todo adulto apto para o
. ...... .^;'#p;<.

. 52 S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã O S O C I ED AD E , E D UC A Ç Ã O E EM AN C I P A Ç Ã O 53

trabalho deve obedecer à lei geral da natureza, a saber: processo


trabalhar para poder comer, e trabalhar não só com a cabeça, educacio
mas com as mãos. nal que I%
lhe
No sentido de regrar a supcrexploração da fábrica capitalista,
devolves
Marx propõe que.os.militantes de seu partido, o Partido Comunista,
s e , t a n t oE
lutem para qtie a lei estabeleça um tratamento diferenciado
quanto
conforme a faixa etária, prevendo jornadas de trabalho com duração
possível
diferenciada para crianças c jovens: de 9 a 1.2 anos, eles deveriam
, a
trabalhar 2 horas por dia; de 13 a 15 anos, 4 horas; e as de 16 e 17
percepçã
anos, 6 horas. Sem uma legislação desse tipo, diz Marx, não
haveria freios para a ganância burguesa e os pais operários, o do

premidos pela pobreza, seriam obrigados a transformar-se em conjunto

agenciadores da escravidão fabril dos próprios filhos,


comprometendo seu futuro. E conclui: "não se deve permitir em

I
nenhum caso aos pais e patrões o emprego do trabalho das crianças
e jovens se este emprego não estiver conjugado com a educação".

E que educação c essa? De que conteúdos deve ocupar-se? Bem,


Marx dá poucas indicações sobre isso, mas o que se pode concluir
de seus apontamentos é que a preocupação da educação deveria ser,
fundamentalmente, a de romper com a alienação do trabalho,
provocada pela divisão do trabalho na fábrica capitalista. Pois este
seria, em sua visão, o ponto de partida para romper com a
passividade do trabalhador frente à ideologia da classe dominante.
Para tanto, o caminho que Marx vislumbrava contava com a
contribuição do processo educacional, e seria por assim dizer
inverso ao caminho da expropriação dos saberes produtivos das
classes trabalhadoras, da qual serviu-se o capitalista industrial para
constituir sua fábrica. Não se tratava de ensinar ao filho do
operário que ele era uma vítima da exploração burguesa, irias sim
ensiná-lo a operar as fábricas burguesas. Não através de uma
operação circunscrita às tarefas parciais, como ocorria, mas de um
do processo produtivo moderno. Isso, para Marx, era objetivamente citado educação elementar para o trabalho intelectual. A educação física
possível, porque ele acreditava que a mesma divisão do trabalho e o a c i m a , os e r i a a e d u c a ç ã o d o c o r p o t a l c o m o o f e r e c i d a n o s g i n á s i o s e s p o r t i v o s
mesmo avanço tecnológico qtie transformavam o trabalhador num que e no treinamento militar. E, finalmente, a educação tecnológica seria
t r a b a l h a d o r p a r c i a l simplificavam a s t a r e f a s p r o d u t i v a s e , p o r t a n t o , seria a iniciação das crianças e jovens no manejo dos instrumentos c das
tornavam essas tarefas acessíveis a qualquer um. Esse novo saber essa máquinas dos diferentes ramos da indústria, tarefa que deveria
seria o fundamentei dc sua ruptura com a alienação do trabalho c, educaçã ocorrer em concomitância com o trabalho das "crianças" na fábrica,
portanto, uma das chaves de sua emancipação como ser humano. Em o dos 9 aos 17 anos. Com tal formação, pensava, os filhos de operários
outras palavras, nenhum conteúdo educacional doutrinário mudaria mental, poderiam estar cm nível muito superior ao dos burgueses c
a visão de mundo dos filhos dos operários se a educação nao lhes mas aristocratas, uma vez que estes últimos também jamais seriam
desse meios para superar sua condição de trabalhador parcial, capaz pode-se homens completos, a menos que rompessem com a separação entre
de executar uma única tarefa simplificada, ditada pelas exigências deduzir trabalho intelectual e manual. Em sua visão, portanto, é preciso
do capital. do substituir o indivíduo parcial, "mero fragmento humano que repete

É por isso que Marx diz que os conteúdos educacionais devem contexto sempre uma operação parcial, pelo indivíduo integralmente

contemplar três dimensões: uma educação mental, uma educação que desenvolvido, para o qual as diferentes funções sociais não

física e uma educação tecnológica. Ele não explicita, no texto seria passariam de formas diferentes c sucessivas de sua atividade"
uma [instruções..., op. cii.). D e n t r o d e
54 S OC I E D A D E , ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O
S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 24

é
tal concepção, as escolas politécnicas e as escolas agronômicas operária ainda durante o capitalismo deveria ser a "educação de
eram consideiadas aliadas importantes do processo de todas as crianças em - estabelecimentos estatais e a cargo do Estado,
transformação, assim como as escolas profissionais da época que a partir do momento em que possam prescindir do cuidado da mãe".
davam algum ensino tecnológico aos filhos de operários e nas quais Bem mas esses são detalhes, que servem apenas para lembrar-nos
eram iniciados' no manejo prático de diferentes instrumentos de como ct a complexo, mesmo para esses sociólogos-fikxsoíos-
produção. economistas-militantcs, o trabalho cie articular propostas
A legislação de 1844 havia arrancado do capital na visão de Marx, educacionais práticas que tivessem um caráter libertário.
uma primeira, mas muito insuficiente, concessão na medida em que Kcsta saber então, para encerrarmos este ponto, o que seria cia
obrigava o capitalista a permitir que se conjugassem o trabalho e o educação pública depois que o Estado recebesse dos operários
ensino para os filhos de operários No entanto, depois da inevitável armados, no momento da revolução comunista, sua derradeira lição.
conquista do poder político pelos operáiios comunistas, o que Marx Como seria a educação no comunismo? Como Marx c Engels viam,
antevia era a adoção do ensino tecnológico, teórico e prático nas nesta nova sociedade que defendiam um processo educacional que
escolas dos trabalhadores . Note bem: "nas escolas dos trabalhadores" contribuísse efetivamente para emancipar o ser humano?
pois no comunismo não haveria mais burgueses. Todos,
Acho que aqui há duas questões importantes, ambas relacionadas
indistintamente seriam trabalhadores. O ensino, então, seria público e
ao perfil cio "novo homem" que o comunismo deveria gerar.
igual para todos, mas isso fazia parte da utopia de Marx de seu
projeto para o futuro. Ele não era, ao contrário do que se possa pensar A primeira é que, além de mudar a forma de exploração

um entusiasta do ensino oferecido pelo Estado capitalista Sim porque econômica, eles acreditavam ser preciso mudar a forma de

o Estado capitalista, como o nome já diz era em sua concepção uma oiganização social, paia que uma nova educação pudesse se

forma política de perpetuar a exploração econômica de uma classe desenvolver. Nesse aspecto é central a crítica de Marx e Engels à

sobre outra. Por esta razão rechaçava propostas genéricas de adoção f a m í l i a . N o c é l e b r e Manifesto comunista, d e 1 8 4 S , l e m b r a m q u e a

de um ensino público e "ratuito para todos e oferecido pelo Estado. família burguesa se apoia no capital e no lucro privado e que sua

Para ele, não faria sentid ■' se o Estado é um Estado de classe e se a existência aparentemente virtuosa sustenta-se na supressão da

classe dominante piecisa disseminar ao máximo sua ideologia para família proletária, mergulhada na desagregação causada pela miséria,

manter sua dominação, a ele parecia óbvio que um ensino oferecido pelo vício e pela prostituição. A família é o lugar por excelência da
por este Estado burguês só poderia ensinar os filhos dos operários a difusão e do enraizamento dos valores capitalistas e burgueses, é o
moldarem-se à dominação. Debatendo com seus adversários internos espaço social onde as crianças aprendem desde a tenra idade a pensar
do Partido Comunista, ele deixou essa visão bem clara Num texto com a cabeça da classe dominante, achavam. É o lugar onde ocorre a
c h a m a d o Crítica do Programa de Gotha d e 1 8 7 5 e s c r e v e u . I s s o d e u m a exploração dos filhos pelos pais, reproduzindo a exploração dos
educação popular a cargo do 'Estado' é absolutamente inadmissível. operários pelos patrões/Razão pela qual a família, nos moldes que
(...) É preciso livrar a escola de toda influência por parte do governo conhecemos, deveria ser radicalmente suprimida, na proposta
e da Igreja. (...) E, ao contrário, o Estado que necessita receber do política de Marx e Engels.. A. forma de inverter o conteúdo de
povo uma educação muito severa". c l a s s e d a e d u c a ç ã o b u r g u e s a , p o r t a n t o , s e r i a substituir uma educação
doméstica por uma educação de caráter social, n a q u a l o s v a l o r e s d a n o v a
A título de ilustração, porém, é preciso assinalar que Marx e
sociedade solidária pudessem desenvolver-se sem a influencia
Engels, quando escreveram separadamente sobre o assunto, deixaram
"deletéria da estreiteza do espaço privado representado pela família.
i n d i c a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s . N u m t e x t o c h a m a d o Princípios do comunismo,
de 1 8 4 7 , q u a s e t r i n t a a n o s a n t e s d a p a s s a g e m d e M a r x q u e a c a b e i d e A segunda questão importante é que, com o comunismo,
citar, Engels havia escrito que uma das reivindicações da classe conforme já vimos, terminariam a divisão da sociedade em classes e
54 S OC I E D A D E , ED U C AÇ Ã O E E M A N C I P A Ç Ã O
S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O 25
a forma capitalista de divisão do divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. Assim, a
trabalho. Na visão de nossos autores não bastava ao comunismo, sociedade organizada sobre bases comunistas dará a seus 1
portanto, aproveitar-se do progresso material proporcionado pelo n c m liros a pt> N N Í 1 M 1 idade ile empregai I ■ 111 U H H > N OS aspei los suas

desenvolvimento do capitalismo. Seria preciso edticar o "novo faculdades desenvolvidas universalmente.

homem" comunista dè tal modo que ele pudesse de fato superar a


Basta olharmos, nos dias que correm, para o perfil cio "trabalhador
divisão do trabalho que o alienava sob o capitalismo. Não seria
polivalente" exigido pelas indústrias contemporâneas - em função da
suficiente a revolução política, e o controle do poder do Estado pelos
reestruturação produtiva que ocorre na esteira da chamada Terceira
operários decorrente dela, para socializar os meios de produção,
Revolução Industrial - para compreendermos seria bem mais
pensavam Marx e Engels. Seria necessário que, ao socializar os meios
complicada cio que fnz crer este espe f si i içoso parámafo escrito
de produção, a nova forma de organização industrial encontrasse um
em 1S47. Eoi o próprio capital (e não nenhuma revolução comunista)
homem preparado para desempenhar um trabalho que não fosse
que revolucionem a divisão cio trabalho na linha de produção. Hoje,
alienado, parcial, restritivo de suas potencialidades. Seria preciso,
o desenvolvimento tecnológico, com o advento da robótica c da
pois, uma mudança de atitude frente à produção, para viabilizar o
informática, permite ao capitalista realizar a mesma produção que
controle coletivo de seus benefícios. No já citado Princípios do
antes o obrigava a empregar milhares de operários, agora com apenas
comunismo, E n g e l s e x p l i c i t a d e m o d o b a s t a n t e c l a r o o q u e e s p e r a v a m
algumas dezenas de trabalhadores supcrqualificados c, portanto,
afinal da, nova educação. Diz ele:
educados. Educados, mas nem por isso emancipados. Vivemos hoje
A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar os dias da "sociedade da informação", da "sociedade do
rapidamente nn prática todo o sistema de produção e lhes permitirá conhecimento", mas o fosso social que separa as classes continua a
passar s u c e s s i v a m e n t e d e u m ranio d e p r o d u ç ã o a o u t r o , s e g u n d o a s aumentar. Talvez por isso mesmo os instrumentos da reflexão
necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. Por
sociológica sobre a educação sejam cada vez mais importantes.
conseguinte, a educação nos libertara deste caráter unilateral que a
C A P í T U L O IV

'—| Soci edade, educação e des encant am ent o

As partiram da idéia
de que só é possível compreender as relações entre os homens se
compreendermos a sociedade que os obriga, em níveis e cm medidas
diversas, a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades
individuais, e impositivas com relação a elas. Para o primeiro, a
educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da
sociedade, se "socializa"; para o segundo, ela é um mecanismo que,
conforme seu conteúdo de classe, [iode ser utilizado para oprimir
ou para emancipai' o homem.

Mas há outro ponto de partida possível. A sociologia do alemão


Max Weber (1S64-1920) tem como premissa a idéia de que a
I sociedade não é apenas uma "coisa" exterior e coercitiva que
determina o comportamento dos indivíduos, mas sim o resultado de
uma enorme e inesgotável nuvem de interações interindividuais. A
s o c i e d a d e p a r a W e b e r n ã o é a q u i l o q u e pesa sobre o s i n d i v í d u o s , m a s
a q u i l o q u e se veicula entre e l e s . A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a v i s ã o p a r a a
sociologia da educação, é claro, serão bastante significativas.

Mas antes de continuar, deixe-me dar-lhe um aviso. Os


raciocínios que Weber desenvolve não são muito simples à primeira
vista. E podem parecer um pouco intrincados. E quando você for dar
uma olhada num texto escrito pelo próprio Weber, verá que ele não
é muito "fluente", digamos assim. No entanto, embora os textos
pareçam um pouco truncados, as idéias valem muito a pena. Weber é
um autor ele uma enorme originalidade e sua teoria sociológica, que
é muito pouco discutida na área da educação, tem contribuições
importan
tíssimas
a dar.
28
60 Sociedade, educa Ç Ã O E D E S E N C A N T AM E NS
TOOC I O L O G I A D A E D UC A Ç Ã o
Então, vamos- lá. Respire fundo, regule o seu grau de atenção e distintos, conforme o processo de interação em que o indivíduo está
prepare-se para entrar num mundo bem diferente do de Durkheim e inserido. Um mesmo meio cultural pode assumir significados
Marx. O que vou tentar fazer a seguir é introduzi-lo aos rudimentos diferentes para os diferentes indivíduos nele imersos e, no momento
mais elementares da sociologia de Weber e em seguida, discutir um da ação, ocasionar diferenças de comportamento conforme o modo
pouco sua teoria da história, que tem pontos de contatoe d e a s s i m i l a ç ã o d e s s a c u l t u r a , e s o b r e t u d o conjorme os diferentes tipos
distanciamento com a de Marx, para finalmente levantar algumas de racionalidade empregados pelos indivíduos.
implicações que este" modelo tem para a e-ducação.
A realidade é concebida por Weber, então, como o encontro
e n t r e o s h o m e n s c o s valores a o s q u a i s e l e s s e v i n c u l a m e o s q u a i s
Weber e q pensamento sociológico articulam de modos distintos no plano subjetivo. As ciências sociais
O ponto de.partida de toda sociologia weberiana reside no (que ele prefere chamar de ciências da cultura) são vistas como a
conceito de ação social" e no postulado de que a socioloaia é uma possibilidade de captação da interação entre homens e valores no
ciência "compreensiva". seio da vida cultural, isto é, a captação da ação social. Como a
realidade é infinita, apenas um fragmento de cada vez pode ser
Tanto o mundo natural quanto a realidade da vida social são
objeto de conhecimento. O "todo" (a sociedade) que supostamente
concebidos por Weber como üm conjunto inesgotável de
pesaria sobre as partes (os indivíduos), para Weber, é literalmente
acontecimentos. Ao contrário de Durkheim, ele postula que,
incompreensível se for tratado como um todo, como uma coisa. Pela
diferentemente das ciênci as naturais, para as quais os
s i m p l e s r a z ã o d e q u e este todo reside na interação entre as partes e n ã o
acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os
é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo, porque são muitas
analisa, nas ciências sociais — entendidas por ele como aquelas que
e porque se renovam a cada dia. Fluxos da mudança e cristalizações
dizem respeito à vida cultural — os acontecimentos dependem
d a p e r m a n ê n c i a s e c o m b i n a m n a v i d a s o c i a l . A sociedade, para Weber,
fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. A
não é um bloco, c uma teia. K ' a s e l e ç ã o d o f r a g m e n t o a s e r i n v e s t i g a d o
realidade não é uma coisa em si. Ela ganha um determinado rosto
estarão presentes os valores do investigador, que faz parte dessa
conforme o olhar que você lança sobre ela. As ações sociais
sociedade ou de alguma outra. Trata-se de um processo subjetivo, o
praticadas pelo cientista social em seu trabalho de investigação, que
que, no entanto, não compromete a objetividade do conhecimento,
são de mesma natureza das ações praticadas por qualquer homem ou
desde que o investigador leve em conta, na interpretação das ações
grupo de homens por ele investigado, são, portanto, fundamentais.
e relações, os valores que ele atribui ao próprio ator social, isto é,
Já de saída recusa tratar os "fatos" sociais como se fossem coisas .
aquele que pratica a ação, e não os seus próprios valores (do
Para ele, isso simplesmente não é possível, porque as coisas que eu
investigador).
vejo podem ser diferentes das "coisas" que você vê, embora vivamos
na mesma sociedade na mesma época . histórica. Aliás, pode ser qüe
as "coisas" que eu vejo nem sejam coisas pra voce. ü. por qUjé.
Porque os homens vêem o mundo
que os cerca a partir de seus valores. Os valores são compartilhados,
é c l a r o , m a s s ã o i n c u l c a d o s , i n t r o j e t a d o s ( s ã o subjetivados) d e m o d o s
29 SOCIEDADE, EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO
S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i

s i m c o m o D u r k h e i m , W e b c r d e s t a c a o p a p e i d e desvendamento
do real desempenhado pelo pensamento científico que segundo ele percebido. (...) A ação que especificamente tem importância
faz aquilo que é evidente por convenção ser visto como um para a sociologia compreensiva é, em particular, i i MI

problema. O trabalho científico é assim inesgotável, porque o" real o comportamento ouci 1 . está relacionado ao sentido subjetivo pensado
é, bem como fragmentário c especializado. A produção científica daquele c [ i i e a t r e c o m r e f e r ê n c i a a o c o m p o r t a m e n t o d e o u t r o s ;

tende a disseminar-se pela sociedade através da educação, c você já 2. está co-determinado no seu decurso por esta referência

pode ir minbocando desde já ^quais seriam na visão de Webcr as significativa e, portanto, 3. pode ser explicado pela
compreensão a partir deste sentido mental (subjetivamente).
relações entre a educação e a vida social.
Difícil.' Vejamos.
M a s n a p ^ v o u c o l o c a r o c a r r o a d i a n t e d o s b o i s . T u d o O C"| LI e lhe
digo por enquanto é que o objeto das ciências da cultura seiá a Quando você vai à escola, isto é uma ação social. Não apenas
decifração'da significação (o sentido) da ação social (as condutas porque ali você encontra seus professores, seus colegas, seu grupo.
humanas). E a única maneira de estudar esse objeto e a compiccnsão, ms. Estar junto com outras pessoas, apenas, não faz de você um a n i m a l
que você já vai saber o que é. E direi também que Weber era um social. Ir à escola é uma ação social porque agindo assim você está
pessimista inveterado: ele achava que o tipo de vida imposto às calculando ( m e s m o q u e n ã o p e n s e n i s s o c o n s c i e n t e m e n t e t o d o s o s
pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de dias) os custos e os benefícios que você terá, indo ou, no caso
formar o h o m e m , p a r a s i m p l e s m e n t e p i e p a r á - l o p a r a d e s e m p e n h a r inverso, deixando de ir. Ao ir à escola você emprega sua
tarefas na vida racionalidade e l e v a e m c o n s i d e r a ç ã o a r a c i o n a l i d a d e d o s o u t r o s e o
Mas tente acompanhar agora a linha de argumentação básica modo como ela interfere ou pode vir a interferir sobre seu próprio
desenvolvida por Weber na definição de sua sociologia comportamento. Se você fosse puramente racional, poderia dizer:
compreensiva. "minha finalidade na vida é ter dinheiro, mulheres (ou homens) à
7
P o n t o d e p a r t i d a : O q u e é ação social . P a r a W e b e r , e l a o c o r r e disposição e carros do ano, mas para isso preciso escolher a

q u a n d o u m i n d i v í d u o l e v a o s OL I TROS e m c o n s i d e r a ç ã o n o m o m e n t o prolissão que me dê mais renda o mais rápido possível; e o meio

de tomar uma atitude, de praticar uma ação mais adequado para atingir este fim é ir à escola".

Antes de lhe explicar em detalhe vou reproduzir uma passagem Mas não precisa ser um cálculo que vise meramente seus
de um texto chamado Sobre cdçumas categorias da sociologia interesses pessoais "egoístas", suas finalidades "exclusivamente
compreensiva ( d e 1 9 1 3 ) , o n d e W e b e r d e f i n e a ç ã o e o t i p o d e a ç ã o q u e individuais . Você pode calcular também com base, por exemplo,
interessa à sua sociologia. Diz ele que no valor que sua família dá à educação. Se em sua casa todos
piczarcm uma boa educação acima de tudo, será muito difícil pra
por ação (incluindo a omissão e a tolerância) entendemos sempre
você deixar de ir à escola, certo? Se um dia você cogitar abandonar
um comportamento compreensível com relação a "objetos" isto é
os estudos, a primeira coisa que vai pensar será: o que o pessoal lá
um comportamento especificado ou caracterizado por u in sentido
em casa vai dizer disso?" Aliás talvez você nem cogite abandonar a
(subjetivo) real ou "mental", mesmo que ele não seja quase
escola, porque foi ensinado em casa desde criança que estudar ou
30 SOCIEDADE, EDUCAÇÃO t DE SL NCAN TAMI N IO
S OC I O L O G I A DA E D U C AÇ Ã O 6 i
que se era algo importante. Levar isso em consideração também é
formar- uma forma de cálculo.
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Mas você pode calcular também com base, por exemplo, na c a s o v o c ê v o l t a a s e r r a c i o n a l , p r a t i c a n d o u m a ação social racional
satisfação ou no conforto pessoal que sente em ir à escola, mesmo com relação ao regular. V o c ê e s t a r i a c a l c u l a n d o c o m r e l a ç ã o à m e d i a
que essa satisfação não esteja ligada diretamente a suas atividades de comportamentos aceitos em seu grupo específico.
estudantis. Você pode gostar da escola porque tem amizade com R e p a r e q u e W e b e r g o s t a d e e s t a b e l e c e r tipos d e a ç ã o . S ó n o
professores e colegas, ou porque arranjou uma namorada ou parágrafo acima eu citei quatro tipos diferentes de ação social,
namorado lá. sendo três racionais e um irracional. Mas, repare também que no
Ar^ir cm sociedade, portanto, implica em algum grau de dia-a-dia esses tipos não aparecem separadamente. Ninguém, na
racionalidade ( i n c l u s i v e a t o t a l i r r a c i o n a l i d a d e ) p o r p a r t e d e q u e m prática, vai à escola émica e cxchisivamcntc para namorar, nem
age, e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivícluo mesmo só para ganhar o diploma e ganhar dinheiro. Essas coisas
sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. Isso é t o d a s s e c o n f u n d e m , s e e n c a i x a m Limas à s o u t r a s . É m u i t o p o s s í v e l
.fundamental para entender Weber. que você vá à escola por todas ou quase todas essas razões que eu

Partindo do exemplo acima, quando você vai à escola pensando citei no exemplo. As razões se misturam. No entanto, é

em se formar e ganhar dinheiro, está praticando o que Weber chama absolutamente fundamental isolar esses tipos "puros" de

d e ação social racional com relação a fins. U m c o m p o r t a m e n t o r a c i o n a l comportamento. Aliás, este é o método de Weber. Ele sabe

com relação a fins é aquele que se orienta por meios tidos como perfeitamente que na prática empírica os tipos puros não existem

adequados (subjetivamente) para obter fins determinados, fins estes mas os constrói para que sirvam de referência.

tidos por você como indiscutíveis (subjetivamente). Já se você for à Ei, alegre-se! Você está sendo apresentado a um dos mais
escola porque sua formação familiar deu muita importância aos importantes métodos dc investigação das ciências sociais. A receita
e s t u d o s , e n t ã o e s t á p r a t i c a n d o u m a ação social racional com relação a m e t o d o l ó g i c a , p a s s o a p a s s o , é a s e g u i n t e : l u . C o n s t r u a u m tipo ideal
valores. N o c a s o , t r a t a - s e d o s v a l o r e s d e s u a f a m í l i a , o u e n t ã o d o "puro" (Weber construía vários: tipos de ação social, tipos dc
modo como você os incorporou à sua própria hierarquia de valores. dominação política etc). O tipo é tima construção mental,, feita na
Finalmente, se você vai à escola apenas por causa dos amigos, dos cabeça do investigador, a partir de vários exemplos históricos. Ele é
professores ou da namorada ou namorado, para Weber você pratica um exagero dc perfeição, que jamais será encontrado na vida
u m a ação social afetiva. N e s t e t i p o d e c o m p o r t a m e n t o , v o c ê e s t a r i a prática. 2L. O/fie o mundo social que o cerca, esta teia inesgotável
sendo irracional, p o i s o que Weber chama de "racionalidade
dc eventos e processos, e selecione dele o aspecto a ser investigado
perfeita" é a adequação entre os meios de que você se vale para agir
(não dá pra ser tudo, tem que ser uma coisa de cada vez).
e os fins que você objetiva alcançar com esta ação. Na ação afetiva,
3 ' - ' . Compare o m u n d o s o c i a l e m p í r i c o c o m o t i p o i d e a l q u e v o c ê
você não leva em consideração objetivos a serem alcançados nem
construiu. Mas note bem: "ideal" aqui não significa "desejado",
busca utilizar-se dos melhores meios para isso e, portanto, está
não significa idealizado", como por exemplo idealizar o que
sendo irracional. Suponha, finalmente, que você fosse à escola
apenas porque todo mundo vai, e ficaria chato pra você, dentro do seria uma "sociedade perfeita". Significa apenas que você escolhe

seu círculo de amizades, dizer que não freqüenta a escola. Nesse as características mais "puras" dos tipos, e Weber achava que os
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tipos de conduta mais puros são os mais porque ele prefira o indivíduo, nem muito menos a psicologia
racionais, no sentido de adequação entre meios e fins. individual, em detrimento da sociedade, mas porque para ele o
U
4 - À m e d i d a q u e v o c ê d e s c r e v e o q u a n t o a r e a l i d a d e s e aproxima o u indivíduo constitui o ú n i c o portador de um comportamento provido de

s e distancia d o t i p o " p u r o " q u e v o c ê c o n s t r u i u , e s s a r e a l i d a d e s e sentido, de intencionalidade. E m c o n s e q ü ê n c i a , c o n c e i t o s c o m o E s t a d o ,

apresenta a você, se revela em seu caráter mais complexo; • os capitalismo ou Igreja, para sua sociologia, reduzem-se i categorias

comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a q u e s e r e f e r e m a d e t e r m i n a d o s modos de n henncm agh e m s o c i e d a d e .

irracionalidade que os tornou possíveis. A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se
torne um agir compreensível, e isto significa, sem exceção, um agir
É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele
cie homens que se relacionam uns com os ou tros.
caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo
perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar
O indivíduo e as instituições sociais
o alcance, na prática, daquilo que é irracional com relação aos fins
a que se propõe aquele que pratica a ação. Ressalto novamente: Mas seria um grande erro pensar que Durkheim é o homem que
q u a n d o f a l a m o s d e u m c o m p o r t a m e n t o subjetivo, n o c o n t e x t o d a acha que a sociedade obriga o indivíduo a agir e Weber pelo
sociologia de Weber, não estamos falando ríum comportamento contrário, é o homem que acha que o indivíduo a 1' e c c) m o quer.
exclusivamente psíquico. Comportamento subjetivo é o Não é nada disso. O indivíduo, para Weber leva em consideração,
c o m p o r t a m e n t o d o sujeito d a a ç ã o , e n e n h u m a a ç ã o é s o c i a l s e n ã o s e no momento de agir, o comportamento dos ou tros c é isso que faz
referir ao comportamento dos outros sujeitos c dos obstáculos que de sua ação uma ação social. Mas não sé): ele é obiigadc) a
todos enfrentam para levar suas ações até as últimas conseqüências. relacionar-se também com as normas sociais consolidadas,
Aquilo que e mental, exclusivamente psíquico, para Weber é institucionalizadas, que têm influência sobre seu agii. Ou, melhor
incompreensível do p o n t o d e v i s t a d a s o c i o l o g i a . d i z e n d o , e s s a s n o r m a s influenciam o avir do indivíduo na mesma medida
em que são resultado do agir d o s próprios indivíduos ao longo do tempo.
Daí chegamos a um entendimento melhor do que seja a
s o c i o l o g i a q u e e l e c h a m a d e compreensiva: t r a t a - s e d a q u e l a q u e s e Quci entendei" como isso funciona? Então veja como Weber
refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade distingue os conceitos de "comunidade" e "sociedade" Eu vou
dos sujeitos com relação aos outros. simplificar bastante a definição do nosso autor, que é detalhada so

Para Weber, os comportamentos dos atores são interpretados para que possamos entender esta via de mão dupl cabeça de Weber,

c o m o s e n d o d o t a d o s d e i n t e n c i o n a l i d a d e e , a s s i m , c o m o s e n d o ações liga o indivíduo às


estruturas sociais e estas
propriamente ditas; embora certos elementos dessas ações (a ao indivíduo.
estruturação do sistema de preferências, a escolha dos meios para
E l e d i z , b a s i c a m e n t e , q u e o agir em comunidade é a q u e l e a g u q u e
obter os fins desejados, a habilidade de cada indivíduo na
se baseia nas expectativas que temos com relação ao comportamento
utilização dos meios et<4\) sejam determinados por elementos
d o s o u t r o s . S e d i z e m o s " b o m - d i a " n o c n c o i i 11 ' i r
antciiotcs a própria ação. O método de Weber é individualista não
33 SoCItDAOE, STOAC IMO LEOG
EDUCAÇÃO C DlSflMCAN N Í IO
A DA E D U C AÇ Ã O
67

:3t
68 S OC I E D A D E , ED U C AÇ Ã O E D C S E N C A N T A M E N T O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O
34
determinada pessoa é porque esperamos orientar seu comportamento de tal modo que você não pratique
que ela responda "bom-dia" também. Se o comportamento dos este ato.
outros fosse totalmente imprevisível para nós, seria difícil viver. O
Pois bem. A lei proíbe e você evita desobedecê-la para não
agir em comunidade explica-se pela existência objetiva de uma
sofrer as conseqüências. Mas quando o indivíduo calcula que é
maior ou menor probabilidade dc que tais expectativas sejam
m e l h o r a g i r c o m b a s e n a s r e g r a s t a m b é m pontue o . s outros igualmente
fundamentadas (algo que Wcbcr chama dc "juízo de possibilidade
agem segundo as regras, e l e e s t á a g i n d o e m s o c i e d a d e . V e j a b e m : n ã o
objetiva"). Quando agimos racionalmente, esperamos que os outros
estou dizendo que na sociedade todos obedecem à lei. O próprio
também ajam assim, para que possamos calcular as possibilidades
criminoso, quando foge ou sc esconde, está se orientando conforme
reais de levarmos nossos objetivos até o fim. E, assim como no
os regulamentos, porque sabe que se for capturado, será punido.
caso dos tipoS~de ação comentados acima, essa racionalidade não
Está, portanto, agindo em sociedade, de acotdo com um cálculo que
precisa ser apertas com relação aos fins do ator. O agir em
tem por base as regras.
comunidade também pode se fundamentar na expectativa dc que os
As regras, portanto, funcionam como uma espécie dc
outros dêem determinado peso a certos valores e crenças, ou então Ê
■2-; Í "condensação dc expectativas recíprocas" c, cm conseqüência disso,
na expectativa de que os outros sc comportem de um modo regular, p:
tornam o universo social organizado c inteligível pelos atores
na média dos comportamentos geralmente usados para aquela
m• I i n d i v i d u a i s . Q u a n d o i s s o o c o r r e , W c b c r d i z q u e e x i s t e u m a ordem
situação. Ou, ainda, de que se comportem cie modo emotivo,
I É social. M a s a validade da norma não se baseia apenas nas
kracional. Em resumo: agir em comunidade é comportar-se com
! W-
base na expectativa de que os outros também se, comportem dc um Ir expectativas recíprocas. Quanto mais disseminada socialmente
e s t i v e r a c o n v i c ç ã o d c c a d a u m d c q u e a s r e g r a s s ã o obrigatórias
determinado modo.
para eles, melhor fundamentadas serão as expectativas de uns com
J á o agir em sociedade é u m c o n c e i t o m a i s e s p e c í f i c o . O a g i r e m
relação ao comportamento dos outros. Esta é a diferença entre a
s o c i e d a d e é u m a g i r e m c o m u n i d a d e n o q u a l a s expectativas se
Convenção — o n d e o r e g u l a m e n t o é g a r a n t i d o a p e n a s m e d i a n t e u m a
baseiam nos regulamentos s o c i a i s v i g e n t e s . E u a c r e d i t o q u e v o c ê n ã o
" d e s a p r o v a ç ã o s o c i a l " c o m r e l a ç ã o a o s i n f r a t o r e s — c o Direito —
vai matar sua mãe, não apenas porque imagino que você gosta dela,
em que a validade do regulamento é garantida por um aparato
mas porque tenho certeza de que você sabe que os assassinos são
coercitivo e punitivo. Sc você se vestir com uma roupa muito fora
condenados c presos pelo sistema legal vigente. Além dc pouco
de moda, pode ser que tenha dificuldade de arranjar namorada ou
afetivo, praticar este ato seria bastante irracional. No agir em
n a m o r a d o , p o r q u e e s t á convencionado u n i d e t e r m i n a d o t i p o d e r o u p a
sociedade, além do indivíduo orientar-se por este tipo de
da moda. Mas diante da declaração anual do imposto de renda, você
expectativa baseada nos regulamentos, supõe-se que tais
não pode escolher sc quer pagar ou não (a menos que seja um
regulamentos tenham sido feitos justamente com o objetivo de que
banqueiro ou um grande empreiteiro e more no Brasil, é claro):
os homens ajam segundo suas determinações, e não de outra
v o c ê e s t á obrigado a p a g a r , p o r q u e a l e i a s s i m o d e t e r m i n a p a r a
maneira. Se você que é homem praticar sexo com uma menor de 14
todos c, se você descumprir, sabe que está sujeito às sanções
anos,' não apenas poderá ser malvisto na vizinhança, mas pode se£
correspondentes.
preso, porqtie foi feita uma lei para
35 S OC I E D A D E , ED U C AÇ Ã O E D L S LN C A N T AM I N I O S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O
71

Assim, em busca de seus objetivos e levando cm consideração a A vida comum em associação permite que sejamos capazes de
existência das normas — sejam essas normas entendidas como a prever quais serão os passos mais prováveis elas outras pessoas; ela
condensação de expectativas recíprocas (convenção) ou torna o mundo que nos cerca, como já comentei, inteligível para
como.imposições mediante sanção (direito) — o ator social pode nós. Quanto mais as pessoas assimilam subjetivamente a
deliberadamente fazer parte dc uma coletividade orientada de modo obrigatoriedade das regras, mais a previsibilidade aumenta. E é só
comum por estes referenciais. A esta coletividade Weber dá o nome quando as pessoas aceitam este quadro normativo que a
d e associação com fins. O s p r ó p r i o s m e m b r o s d a a s s o c i a ç ã o e s t i p u l a m institucionalização se completa.
os "órgãos", os "fins", os "estatutos" e o "aparato de coação" da De um clube de associados com sauna e piscina você pode
associação. 'Com isso, cada "sócio" confia que os demais se escolher sair a qualquer momento, vender seti título de sócio ou
comportarão (aproximadamente) conforme as normas, e esta simplesmente não freqüentar. Sé) está submetido às regras na
expectativa é levada em consideração na orientação de sua própria medida em qtie optou por ser sócio. Porém:, no casei ela associação
conduta. Se você for sócio de um clube "social", desses com sauna política mais abrangente de todas, que c o Estado, as coisas são
c piscina cujos "fins" são a recreação c o entretenimento, c se você diferentes. A durabilidade dessa associação através das gerações de
insistir cm entrar na água antes de tratar aquelas frieiras indivíduos c a necessidade ele estabelecer uma regulamentação que
horrorosas que infectam os dedos dos seus pés, além dc sentir-se r e c o b r a t o d a a v i d a s o c i a l l a z c o m que o p e r t e n c i m e n t o a e l a n ã o
ciilpado ou culpada por contaminar aquelas meninas tão bonitinhas seja voluntário. Voce não escolhe ser membro cio Estado brasileiro,
OLI aqueles rapazes charmosos que nadam ali, você está sujeito à p o r e x e m p l e i . C h i c o B u a r q u e , e m Punido alio c a n t a : D e u s é u n i c a r a
suspensão ele sua carteirinha de sócio. Nessa situação, a gozador, adora brincadeira, pois pra me botar no mundo tinha o
pressuposição de cada um de que a não-observância das normas mundo inteiro. Mas achou muito engraçado me botar cabreiro. Na
pode ser punida com coações físicas ou psíquicas, reforça a certeza barriga cia miséria, nasci brasileiro". Sc a divina providência o fez
de que a confiança mútua não será decepcionada. nascer aqui, meu amigo, não há escolhas: você pertence ao Estado
Ocorre, porém, que uma associação com fins, definida pela brasileiro, quer queira c]ucr nãc~>, e está automaticamente sujeito
existência de regras gerais e de órgãos próprios, quando a todas as suas regras, sem ter sequer o direito de alegar ignorância
plenamente desenvolvida, não é uma formação social efêmera, ou delas.

seja, mesmo renóvando-se os sócios a associação permanece, na O bonito disso, o ponto importante que a sociologia cie Weber
medida em que as regras e os órgãos permaneçam. Quando isso nos permite pensar é que, embora as coisas já estivessem prontas
o c o r r e , W e b e r d i z q u e a s a s s o c i a ç õ e s h u m a n a s s e institucionalizam. quando você nasceu e embora esteja obrigado a agir conforme este
São instituições sociais, por exemplo, as formas de comunidade pacote dc regras c]iie regulam a sua vida, é preciso considerar que
religiosa às quais chamamos Igreja ou as formas mais estruturais essas regras foram criadas por indivíduos ccamo vc^ce em tempos
da vida política entre os homens, às quais costumamos chamar passados, c continuam a ser criadas; e também que elas estão aí
Estaco. para serem mudadas, e portanto, você também participa disso. Veja,
n ã o e s t o u f a l a n d o sc'> c i a s l e i s , e l o s d e c r e t o s , c l e s s e t i p o d c r e g r a s .
Estou falando dc todas as regras. O Brasil foi um
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72 Sociedade, educa STOC
ÇÃO E DESENCAN AMI E
ONL IOOG I A D A E D UC A Ç Ã o

país escravocrata até outro dia. Negros por aqui eram valorizados garantid
apenas enquanto investimento privado de compra e venda, ou os pela
enquanto insumo agrícola. Hoje, se você chamar sua empregada de aplicarã
"negrinha" e mandá-la entrar no prédio pelo elevador de serviço o da
pode ser' preso com base na lei que proíbe discriminação de raça. coação,
Este é um exemplo de extraordinária transformação, num curtíssimo é agir
lapso de tempo, não apenas na lei, mas no modo como a sociedade segundo
vê as relações entre as raças. Aliás, a lei geralmente se fundamenta um
num consenso social sobre esses pontos de vista Compartilhados. E
embora todos saibamos que os negros continuam a Sofrer
discriminação e continuam a padecer por conta da exclusão social i

que os segrega na marginalidade econômica, é preciso reconhecer


que a expectativa de um tratamento mais igualitário entre as
pessoas passou a figurar nos cálculos dos atores sociais c a orientar
crescentemente sua conduta, de cem anos pata cá.

Historicamente, diz Weber, as associações políticas humanas, e


o Estado em particular, passaram por um processo de
institucionalização. Nesse processo, as regras foram se tornando
cada vez mais racionais, i s t o é , f o r a m s e n d o f e i t a s c o m v i s t a s a f i n s
específicos (como a regra segundo a qual os negros não devem ser
discriminados apenas pela cor de sua pele) e estabelecendo os
meios mais adequados para levá-los a cabo (como as punições que
vão de multas em dinheiro a meses de reclusão, que a lei anti-
racismo prevê).

Ou seja, esta associação mais abrangente que é o Estado detém


um poder de imposição. Tal poder se baseia numa influência
específica — que Weber chama de dominação — de homens
concretos sobre a "ação em associação" de outros homens. Tal
influência, tal* dominação, se baseia, por sua vez, entre outras
c o i s a s , n a p o s s i b i l i d a d e d e a p l i c a ç ã o d c u m a coação ( f í s i c a o u
psíquica). Agir segundo esses fins da associação, que são
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72 Sociedade, educa STOC
ÇÃO E DESENCAN AMI E
ONL IOOG I A D A E D UC A Ç Ã o
"consenso". As possibilidades de que esse consenso seja de fato possam difícil. Mas cá entre nós, mesmo que você tenha que lei mais uma
p o s t o em prática n a v i d a s o c i a l s e r ã o t a n t o m a i o r e s q u a n t o m a i s s e viver em vez, não precisa desistir. Tenho certeza de que o sentido geral você é
puder esperar que os indivíduos que obedecem aos regulamentos o sociedad capaz de captar. Segure as pontas só mais um pouco. Daqui a alguns
façam porque consideram obrigatória, t a m b é m subjetivamente, a e. - parágrafos, garanto que vai compensar o investimento.
relação de dominação. Quer dizer, quando as pessoas obedecem às Ufa!
regras não apenas porque temem a punição, c ci m bc ni po rej u c ... Desencantar o mundo
estão convencidas da necessidade de obedecer, porque
Tenho O estabelecimento de uma ordem social "com relação a fins (quer
"introjetaram" a norma, Weber diz que a dominação baseia-se no
que dizer, racional) vai se tornando então cada vez mais amplo. O
c o n s e n s o d a legitimidade.
reconhec consenso aí construído é obtido mediante regras e mediante coação, c
O fundamental aqui, em suma, nao é o fato dos homens serem
er. Esse uma crescente transformação cias associações em instituições
coa°idos, mas sim o tato cie agirem racionalmente, c dc que esta
camarad organizadas de maneira racional com relação a fins se opera na
racionalidade os faz consentirem com a dominação a qual estão
a, Max sociedade.
sujeitos, para que possam com isso ganhar condições dc
Weber, É este o sentido histórico do processo que Weber chama de
previsibilidade com relação à ação cios outros homens que estão
pensa
racionalização.
também sujeitos à mesma relação de dominação e, cm decorrência,
38 Sociedade, educa
S O C I O L OG I A DA E D U C AÇ Ã o Ç Ã O E D E S E N C A N T AM I N I O 75-

A história humana, segundo ele, é um processo de crescente dos indivíduos nesta grande associação, na qual estão obrigados
racionalização da vida, de abandono das concepções mágicas e a submeter-se ao poder já instituído, não é voluntário, e as regras
tradicionais como justificativas para o comportamento dos homens s ã o f e i t a s , d i z e l e , p o r m e i o d a força, d a i m p o s i ç ã o d a v o n t a d e
e para a administração social. Pode-se compreender aqui o sentido dc alguns indivíduos c grupos sobre outros indivíduos c grupos.
d e u m a o u t r a t i p o l o g i a m u i t o c o n h e c i d a d e W e b e r , a d a s formas de Para resumir em poucas palavras: uns mandam, outros obedecem
dominação legítuna. P a r a W e b e r h á t r ê s t i p o s p u r o s d e d o m i n a ç ã o e a esse processo Weber dc (loíii/iiiiçffo. Paia legitimar-se,
l e g í t i m a : a dominação tradicional, c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n a isto c, para garantir a aceitação dos comandados, a dominação se
t r a d i ç ã o , a dominação carismática, c u j a l e g i t i m i d a d e s e b a s e i a n o b a s e i a o u n a tradição, ou n o carisma d o l í d e r o u n a f o r ç a do direito
c a r i s m a d o l í d e r , e a dominação racional-legal, c ú j ã l e g i t i m i d a d e s c racional. N o c a s o d a t r a d i ç ã o e d o c a r i s m a , a d o m i n a ç ã o s c e x e r c e
baseia na lei e na racionalidade (adequação entre meios c fins) que pelo domínio dos líderes sobre os dominados, que obedecem porque
está por trás da lei. Se a associação estatal passa por um processo foram educados (ou seja, compartilharam de uma tradição) ou porc|
de racionalização (e também de burocratização, porque para fazer ue julgam que o líder tenha dotes sobrenaturais (que Weber chama
cumprir as regras racionais é necessária uma burocracia cada vez dc carisma). Mas no último caso, que é o das sociedades modernas c
mais complexa), as fonvias de dominação no Ocidente caminham, complexas, a obediência não é devida à figura do líder, mas à
tendencialmente, para o tipo racional-lcgal. posição -que ele ocupa no aparato dc dominação, devidamente

Pe"rmita-me recapitular o que foi dito ate aqui, para que você g a r a n t i d a p o r u m a legislação d e c a r á t e r racional. O e x e r c í c i o d a

entenda melhor a idéia dc racionalização c suas implicações para a autoridade racional depende dc um quadro administrativo

sociologia da educação weberiana. Diferentemente da concepção hierarquizado e profissional, que se caracteriza pela existência de

organicista de Durkheim e da concepção materialista de Marx, a uma burocracia. E este o sentido histórico do processo que Weber

s o c i o l o g i a h i s t ó r i c a ' d e M a x W e b e r p a r t e d a ação e d a interação d o s chama ele racionalização das sociedades: uma crescente

indivíduos — na base das quais estão também conjuntos de valores transformação dos modos informais e tradicionais de extração clc

compartilhados — como constitutivas da sociedade. Quanto mais obediência em instituições organizadas racionalmente,

c o m p l e x a s a s s o c i e d a d e s , i s t o é , q u a n t o m a i o r s u a racionalização, impessoalmente c legalmente para a obtenção desta obediência.

argumenta Weber, maior o número de regulamentos sociais a serem Bem, aqui vou lhe dar a primeira dica a respeito das
o b e d e c i d o s . Q u a n t o m a i s c o m p l e x a a s o c i e d a d e , m a i s conflitiva implicações da perspectiva de Weber para a sociologia da educação.
tende a ser a interação entre os indivíduos e grupos, uma vez que A educação para Weber, ao que me parece, é o modo pelo qtial os
maiores serão as "constelações de interesses" que se contrapõem e homens — ou determinados tipos de homens em especial — sao
maior também a necessidade de regulamentá-los. Assim como em preparados para exercer as funções que a transformação causada
Durkheim, em Weber a complexificação gera conflito, o que por pela racionalização tia vida lhes colocou à disposição. Eu sei que
sua vez gera a necessidade da regra. A regulamentação mais e s t o u d i z e n d o Lima c o i s a m u i t o g e n é r i c a . M a s v o c ê v a i e n t e n d e r .
desenvolvida das lutas em sociedade apa/ece cm Weber como um A lógica da racionalidade, da obediência à lei c do treinamento
aparato especializado dc domínio, que é o Estado Moderno. O das pessoas para administrar as tarefas burocráticas do Estado foi
ingresso aos poucos se disseminando. Na formação do Estado moderno e do
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capitalismo moderno, que são inseparáveis um do outro, Weber dá administravam de fato, ficando a gestão efetiva em mãos de
especial atenção a dois aspectos: de um lado, a constituição de um auxiliares. Os mandarins eram transferidos de um lugar para outro,
direito racional, u m d o s p i l a r e s d o p r o c e s s o d e r a c i o n a l i z a ç ã o d a nunca atuando em sua província natal, e muitas vezes
v i d a , e d e o u t r o , a c o n s t i t u i ç ã o d e u n i a administração racional e m desconhecendo o dialeto da localidade em c|ue atuavam. Não
moldes burocráticos. O direito racional oferece as garantias mantinham, portanto, contato com a população. Na prática, tais
contratuais e a codificação básica das relações de troca-econômica funcionários não governavam, apenas intervinham em caso de
e troca política que sustentam o capitalismo e o Estado modernos, agitação ou incidentes desagradáveis. Na realidade, nesse tipo de
enquanto que o desenvolvimento da empresa capitalista moderna administração tudo repousa na" concepção mágica de que a virtude
oferece o modelo para a constituição da empresa de dominação do Imperador e dos funcionários, ou seja, de que sua superioridade
política própria do capitalismo, o Estado burocrático. cm matéria literária, basta para governar. A coisa é muito distinta
E aqui é que se torna mais claro o modo como Weber pensa a no Estado racional, o único cm que pode prosperar o capitalismo
educação. A educação sistemática, analisa ele, passou a ser um moderno. Ele se funda na burocracia profissional e no direito
pacote" de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento racional.
de indivíduos que tivessem de fato condições de operar essas novas O que isto tem a ver com educação? Vou lhe dizer agora.
funções, de "pilotar" o Estado, as empresas e a própria política, de
um modo "racional". Um dos elementos essenciais na constituição Treinar, em vez dc cultivar o intelecto
do Estado moderno c a formação de uma administração burocrática
Chegamos ao ponto: a racionalização c a burocratização
em moldes racionais. Tal processo só ocorreu de modo completo no
alteraram radicalmente os modos de educar. E alteraram também o
Ocidente, onde houve a substituição paulatina de um funcionalismo
st atlis i o r e c o n h e c i m e n t o c o a c e s s o a b e n s m a t e r i a i s p o r p a r t e d o s
não especializado e regido por orientações mais ou menos
indivíduos que se submetem à.educação sistemática. Educar no
discricionárias (não baseadas em regras) por um funcionalismo
sentido da racionalização passou a ser fundamental para o Estado,
especificamente treinado e politicamente orientado com base em
porque ele precisa de um direito racional e de uma burocracia
regulamentos racionais.
montada cm moldes racionais. Educar no sentido da racionalização
Na exposição de Weber, o Oriente aparece como protótipo da
também passou a ser fundamental para a empresa capitalista, pois
administração irracional. A China antiga aparece descrita como um
ela se pauta pela lógica do lucro, do cálculo dc custos e benefícios,
modelo de administração em que havia, acima da camada das
c precisa de profissionais treinados para isso. Mais que
famílias, dos grêmios e das corporações, uma pequena camada de
profissionais da empresa ou da administração pública, o capitalismo
funcionários, ps mandarins. Eles eram literatos de formação
e o Estado capitalista forjaram um novo homem: um homem
humanística indicados para o posto, mas sem preparação específica
racional, tendencialmentc livre de concepções mágicas, para o qual
para a administração c sem conhecimento da jurisprudência. Uma
não existe mais lugar reservado à obediência
vez que não davam importância às realizações políticas, não
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que não seja a obediência ao direito racional. Para este homem, o A o s e g u n d o t i p o W e b e r c h a m a pedagogia do cultivo. E l a p r o c u r a
mundo perdeu o encantamento. Não é mais o mundo do sobrenatural f o r m a r u m t i p o e l e h o m e m q u e s e j a culto, o n d e o i d e a l d c c u l t u r a
e dos desígnios dc Deus ou dos Imperadores. É o mundo do império depende da camada social para a qual o indivíduo está sendo
da lei e da razão. Educar num mundo assim, certamente não é o preparado, e que implica em prepará-lo para certos tipos de
mesmo que educar antes dessa grande transformação, provocada c o m p o r t a m e n t o interior ( o u s e j a , p a r a a r e f l e x i v i c l a d e ) c exterior ( o u
pelo advento do capitalismo moderno. s e j a , u m d e t e r m i n a d o t i p o d e c o m p o r t a m e n t o s o c i a l ) . T a l p rocesso

A educação, para Weber, não é mais, então, a preparação para educacional assumia o aspecto de uma

que o membro do todo orgânico aprenda sua parte no "qualificação cultural", no sentido de uma edticação geral, e

comportamento harmônico do organismo social, como propôs destinava-se, ao mesmo tempo, à composição cie determinado grupo

Durkheim. Nem é tampouco vista como possibilidade de d e status ( s a c e r d o t e s , c a v a l e i r o s , l e t r a d o s , i n t e l e c t u a i s h u m a n i s t a s

emancipação com base na ruptura com a alienação, como propôs etc.) c à composição elo aparato administrativo típico das formas

Marx. Ela passa a ser, na medida em que a sociedade se tradicionais dc dominação política. E o caso da China Antiga, onde

racionaliza, historicamente, um fator de estratificação social, um os candidatos a ocupar postos administrativos eram recrutados,

meio de distinção, de obtenção de honras, de prebendas, de poder c como eu já frisei, por suas habilidades humanísticas, através de

dc dinheiro. exames às vezes ministrados pelo próprio Imperador em pessoa.


Escreve Weber, no mesmo texto citado acima:
E aqui chegamos ao cerne da sociologia da educação de Weber.

No modelo ideal weberiano a educação é, conforme o caso, Os chineses não comprovavam habilitações especiais, como os
socialmente dirigida a três tipos (dc novo os tipos!) de finalidades: nossos modernos c racionais exames burocráticos para juristas,
despertar o c a r i s m a , p r e p a r a r o a l u n o p a r a u m a conduta de vida c médicos, técnicos. Nem comprovavam (...) a posse ele carisma.
t r a n s m i t i r conhecimento especializado. (...) Os exames da China comprovavam sc a mente elo candidato
O primeiro tipo não constitui propriamente uma pedagogia, ,1
estava embebiela ele literatura e se cie possuía ou não os modos

uma vez que não se aplica a pessoas normais, comuns, mas apenas d e p e n s a r a d c e ]ii ; i e l o s a u m h o m e m c u l t o e r e s u l t a n t e s e l o
conhecimento ela literatura.
àquelas capazes de revelar qualidades mágicas ou dons heróicos.
Weber refere-se aqui ao ascetismo mágico antigo e aos heróis Na China, assim qtie aprovado, o candidato, mesmo antes cie ser
guerreiros da Antigüidade e do mundo medieval, que eram empregado, passava a lazer parte ele um estamento privilegiado, um
educados para adquirir uma "nova alma", no sentido animista, grupo dc pessoas com direitos especiais sobre as outras, cujas
e p o r t a n t o " r e n a s c e r " . N u m t e x t o c h a m a d o Os letrados chineses, principais regalias eram a isenção no pagamento dc impostos, a
Weber escreve que o mago ou o herói visavam despertar no imunidade em relação a punições corporais às quais o homem
noviço sua capacidade considerada inata, "um dom ela graça comum estava sujeito e a percepção ele uma remuneração monetária.
exclusivamente pessoal, 'pois não se pode ensinar nem preparar
Finalmente, ao terceiro tipo ele educação Weber chama
p a r a o c a r i s m a . O u e l e ç x i s t e in nuce o u é i n f i l t r a d o a t r a v é s d e
pedagogia do treinamento. C o m a r a c i o n a l i z a ç ã o c i a v i d a s o c i a l c a
um milagre de renascimento mágico — de outra forma é impossível
crescente burocratização cio aparato público cie dominação
alcançá-lo". ^

ífc ....
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E D UC A Ç Ã O E D E S E N C A N T AM C N T O DA

í: '
política e dos aparatos próprios às grandes corporações capitalistas remuneração pelo trabalho realizado, pretensões de progresso
privadas, a educação deixa paulatinamente de ter como meta a garantido G^ , d e pensões na velhice c, acima de tticlo,
"qualidade da posição do homem na vida" — e note-se que, para pretensões de monopolizai" cargos social e economicamente

Weber, este.é o sentido próprio do termo "educação", enquanto vantajosos. Quando ouvimos, de todos os lados, a exigência de
uma adoção dc currículos regtilares c exames especiais, a razão
b a s e d o s s i s t e m a s d e status — e t o r n a - s e c a d a v e z m a i s u m preparo
para isso é, decerto, não uma "sede dc educação" surgida
especializado c o m o o b j e t i v o d e t o r n a r o i n d i v í d u o u m p e r i t o .
subitamente, mas o desejo dc restringir a oferta dessas posições
Transparece no texto de Weber sobre os rumos ela educação
c dc sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais.
uma certa melancolia, o mesmo tipo de clepressão intelectual que
Como a educação necessária à aquisição do título exige
ele exprime com relação aos descaminhos da liberdade humana-.seb despesas consideráveis e um período de espera de remuneração
os desígnios da especialização, da burocratização e da p l e n a , c .S.SCI Í IÍ LD significa um recuo jktrci o talento ( CI LRIS IL IÍ Í ) e m javor
racionalização da vida. Ainda mais que, além de minimizar uma ila riqueza, p o i s os custos "intelectuais" dos certificados de
formação humanística de caráter mais integral, a educação por educação são sempre baixos, c com o crescente volume desses
assim dizer "racionalizada", que é a pedagogia do treinamento, certificados os custos intelectuais não aumentam, mas
continua a ser usada como mecanismo de ascensão social e de dccrcscem. (...) Por trás de todas as discussões attinis sobre as
o b t e n ç ã o d e status p r i v a d o . bases do sistema educacional, se oculta em algum aspecto mais
decisivo a luta dos "especialistas" contra-o tipo mais antigo de
Com o perdão da longa citação, acho importante reproduzir
"homem culto". Essa luta é determinada pela expansão
aqui o-que Weber diz, num texto do início do século XX chamado
irresistível da burocratização de todas as relações públicas e
Burocracia, s o b r e o recuo da educação enquanto formação do
privadas de autoridade e pela crescente importância dos peritos
homem, em favor de uma educação enquanto treinamento
e do conhecimento especializado. Essa luta está presente cm
especializado e parcializado para habilitar o indivíduo a
t o d a s a s q u e s t õ e s c u l t u r a i s í n t i m a s ( WEBER, Burocracia).
desempenhar certas tarefas. Pessimista que era, dc seu ponto de
vista o capitalismo reduzia tudo, inclusive a educação, à mera A diferença entre a pedagogia do cultivo c a pedagogia do
b u s c a p o r r i q u e z a m a t e r i a l c status. treinamento é para Weber a mesma diferença que existe entre as
lormas tradicionais e as racionais-Iegais de dominação, entre as
O desenvolvimento do diploma universitário das escolas de formas pré-capitalistas e as capitalistas de economia.
comercio c engenharia, e o clamor universal pela criação dos
Marx via no capitalismo a escravizaçao do ser humano por meio
certificados educacionais em todos os campos levam à
da alienação do trabalho, e na educação a possibilidade de romper
formação dc uma camada privilegiada nos escritórios e
com ela. Weber via na pedagogia do treinamento, imposta pela
repartições. Esses certificados apoiam as pretensões de seus
racionalização da vida, o fim da possibilidade dc desenvolver o
portadores dc intermatrimônios com famílias notáveis (nos
escritórios comerciais as pessoas esperam naturalmente a talento do ser humano, cm nome da preparação para a obtenção de

preferencia em relação à filha do chefe), as pretensões dc poder c dinheiro. A racionalização c inexorável, invencível, e a

s e r e m a d m i t i d o s civt c í r c u l o s q u e s e g u e m " c ó d i g o s d e h o n r a " , educação especializada, a lógica cio treinamento, para Weber,
pretensões dc remuneração "respeitável" em vez da também é. Para ele, não há nada que se possa fazer a respeito.
84 S OC I O L O G I A OA

E D UC A Ç Ã O j
CAPÍTULO V

Três vi s ões s obre o proces s o educaci onal no s écul o


XX

CREIO QUE VIMOS ACIMA OS FUNDAMENT OS mais básicos da teoria


sociológica c o modo pelo qual eles resultaram cm concepções
analíticas diferentes a propósito do processo educacional, ou, ainda,
resultaram em proposições a respeito'de como tal processo deveria
ser, conforme as finalidades a que os autores se propunham.

Neste breve capítulo, gostaria dc mencionar, ainda que deforma


muito resumida, três contribuições importantes do século XX à
análise sociológica em geral c à sociologia da educação cm
particular.
A primeira c a do sociólogo francês Pierre Bourdieu, que retoma
o ponto de vista durkheimiano e o mescla a outras vertentes
intelectuais com o objetivo dc demonstrar o peso do "sistema" sobre
as práticas educacionais. A segunda é a do líder comunista e
intelectual italiano Antônio Gramsci, que, a partir do marxismo, nos
ajuda a pensar as características da luta pelo poder nas sociedades
contemporâneas e, também, o quanto a educação está relacionada a
essa luta. E finalmente a do sociólogo húngaro Karl Marinheira, que
aqui mencionaremos apenas pelo viés de sua retomada da análise
weberiana e da proposta de um modelo educacional que incorpore as
diferentes pedagogias que Weber identifica.

Bourdieu c os esquemas reprodutores


O pensamento de Durkheim serviu de base e ofereceu os métodos
fundamentais para a construção de uma sociologia da
84 S OC I O L O G I A OA E D U C AÇ Ã O j

ausentes daquele nível da sociedade em que são objetivamente


determinadas as suas ações. O sujeito de fato não existe. O que
educação muito influente ao longo do século XX. Um dos mais
chamamos de ação, para Bourdieu, é na verdade o processo pelo
importantes sociólogos a analisar a educação contemporânea J
qual as estruturas se reproduzem. O sujeito está simplesmente
sob a influência do modelo de Durkheim é o também francês
submetido aos desígnios cia sociedade, faz o que suas estruturas T;

Pierre Bourdieu. * ... . T R E S V I S Õ E S S O B R E O PR O C E S S O ED U C AC I O N A L N O S Í C U L O X X • 85

Para levar a cabo a ambição de Durkheim de unificar as


ciências humanas em torno da sociologia, Bourdieu introduziu
determinam, não sabe disso c ainda é iludido pelos discursos
uma síntese teórica entre o modelo durkhcimiano e o estruturalismo.
dominantes, que o fazem pensar que sua ação é resultante dc
O estruturalismo se conecta à sociologia dc Durkheim na medida
em que pretende desvendar justamente o peso das estruturas vontade própria.

sociais por trás das ações dos sujeitos. Na verdade, trata-se aqui Em 1964, Bourdieu publicou um livro, em colaboração com
de uma versão mais radical do modelo de Durkheim, que leva j Jean-Claude Passeron, que pretendia combater uma idéia muito
às últimas conseqüências o ponto de partida segundo o qual os comum na branca da época, segundo a qual os estudantes e o meio
indivíduos estão submetidos ao controle das estruturas da estudantil seriam uma classe social à parte na sociedade. E seriam
sociedade. responsáveis, em razão dc sua juventude e de sua disposição para a
ação, pela liderança da transformação social. Apenas quatro anos
Para o estruturalismo em geral, e também o de Bourdieu na
depois, no célebre mês de maio de 1968 em Paris, os estudantes dc
primeira fase de sua produção, publicada por volta da década
; fato sairiam às ruas, culminando um processo de mobilização que
de 19~60, os sujeitos sociais são vistos — para simplificar a questão .'
teria um alcance bem maior do que a capital francesa. Mas para
— como uma espécie de marionetes das estruturas dominantes.
Bourdieu, em seu livro, a explicação dos processos educacionais
Para o sociólogo francês, a teoria durkheimiana e o estruturalismo
realmente importantes reside cm outra parte. Nas estruturas, é
permitem demonstrar como os indivíduos, em sua ação, apenas
claro. A ironia é qtie o livro serviu como combustível, por seu
reproduzem as orientações determinadas pela estrutura social
aspecto crítico às bases do sistema de ensino, para essas mesmas
vigente.
revoltas estudantis.

■ N e s t e l i v r o , c h a m a d o Os herdeiros, o s a u t o r e s a t a c a m o d i s c u r s o

Segundo ele, os agentes sociais, mesmo aqueles que pensam dominante segundo o qual a conquista de uma "escola para todos",
dc caráter igualitário, tornaria possível a realização das
estar liberados das determinações sociais, são na verdade
potencialidades humanas. E o fazem colocando cm evidência o que a
movidos por, digamos assim, forças ocultas, que os estimulam a
instituição escolar dissimula por trás dc sua aparente neutralidade,
agir, mesmo que não tenham consciência disso. São essas
ou seja, justamente a reprodução das relações sociais e de poder
"condições objetivas" que o investigador deve desvendar, pois
vigentes. Encobertos sob as aparências de critérios puramente
nelas é que residem as explicações. Os sujeitos da ação estão
escolares, estão critérios sociais de triagem c dc seleção dos de ensino, Bourdieu e Passeron negam qualquer possibilidade dc
indivíduos para ocupar determinados postos na vida. romper com as estruturas dc reprodução c afirmam que as teorias

Ao mesmo tempo em qtie expõem a lace oculta do sistema pedagógicas na verdade são uma cortina de fumaça que procura
ocultar o poder reprodutor do sistema que está nas mãos dos

i educadores. Simplesmente não há saída: o sistema de ensino


86 SoCIOLOClA DA
T U F S V I S Õ E S S O I I R E O P R OC L S . S O E D UC A C I O N A L N O S Í C U I O X X ■87
E D U CAÇÃC

UZ
Passeron chamam de "trabalho pedagógico", isto é, um trabalho de
filtra os alunos sem que eles se dêem conta e, com isso, reprodu as
inculcação daquele referido "arbitrário" que deve dura
relações vigentes. Não há possibilidade de mudança. A própria irar o
revolta estudantil, para eles, não faz mais que reforçar o sistema. bastant
e para
Pois. ela é absorvida e serve como aprendizado para as estruturas que o
melhor se comportarem no sentido de reproduzir as relações. A educan
do
revolta contra as normas vigentes c apresentada por eles como um "natura
reforço da interiorização da própria norma. lize"
seu
Em 1970, os autores refinaram suas idéias, incorporando mais conteúd
o,
sistematicamente as contribuições dc Marx c Weber, além dc encare
D u r k h e i h í , e p u b l i c a r a m u m n o v o l i v r o : A reprodução: Elementos para -
o como
uma teoria' do sistema de ensino: S u a t e s e c e n t r a l n e s t a o b r a é a d e q u e natural,
toda ação pedagógica é, objetivamente, uma violência simbólica. O como
evident
conceito de "violência simbólica" designa para eles uma imposição emente
arbitrária que, no entanto, é apresentada àquele que sofre a correio
em si
violência de modo dissimulado, que oculta as relações de força que mesmo,
estão na base de seu poder. A ação pedagógica, portanto, é uma o
bastant
violência simbólica porque impõe, por um poder arbitrário, um e para
d e t e r m i n a d o arbitrário cultural. D i t o d e m o d o s i m p l i f i c a d o , e s s e produzi
r uma
a r b i t r á r i o c u l t u r a l n a d a m a i s é d o C] LI C íl c o n c e p ç ã o c u l t u r a l d o s "forma
grupos c classes dominantes, que é imposta a toda a sociedade ção
durável
através do sistema de ensino. Esta imposição, porém, não aparece ". Na
jamais em sua verdade inteira e a pedagogia nunca se realiza medida
cm
enquanto pedagogia, pois limita-se à inculcação de valores e que o
normas. Daí ser preciso, para que a ação pedagógica se efetive, uma educan
do
autoridade pedagógica, p o r p a r t e d a s i n s t i t u i ç õ e s d e e n s i n o . E l a é interior
iza os
necessária para que a inculcação possa ocorrer, sob a fachada
princíp
dissimulada de uma alegada pedagogia. ios
culturai
Enquanto imposição arbitrária da cultura das classes e grupos s que
lhe são
dominantes, e na medida em que pressupõe uma autoridade
impost
pedagógica, a ação pedagógica implica em algo que Bourdieu e os pelo
sistema
dc
ensino habitus
— de do
tal profess
modo or, o
que, trabalh
mesmo o
depois pedagó
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outros Assim, todo sistema dc ensino institucionalizado visa em alguma
- medida realizar de modo organizado e sistemático a inculcação dos
Bourdi
eu diz valores dominantes c reproduzir as condições dc dominação social
que ele que estão por trás de sua ação pedagógica. Isso explica a
adquir
e desigualdade que está na base do processo de seleção escolar. Os
um autores, valendo-se de dados empíricos, demonstram que as
habitus.
Uma "condições cie classe de origem" dos alunos que entram no sistema
vez de ensino francês determinam tanto a probabilidade de sticesso desse
que o
arbitrá aluno quanto a probabilidade de passagem ao nível escolar seguinte,
rio quanto, ainda, o tipo de estabelecimento de ensino ao qual ele tem
cultura
l a ser acesso (se de melhor OLI pior qualidade). Tal situação se reproduz, do
impost ensino básico ao médio e ao superior c determina também, no finai
o é
incorp das contas, a "condição de classe dc chegada" deste aluno, isto é, o
orado t i p o d e habitus q u e a d q u i r i u , o " c a p i t a l c u l t u r a l " a o q u a l t e v e a c e s s o
ao
e, em especial, a posição na hierarquia econômica e social a que Bem, mas talvez seja o momento de retomar a questão que
chegou. coloquei no princípio deste livro: Será que a barreira da dominação
social é intransponível? Será que estamos condenados
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a r e p r o d u z i r as e s t r u t u r a s i n d e f i n i d a m e n t e ? G r a m s c i , d o p o n t o d e d c 1917. P o r O c i d e n t e , a o
v i s t a do m a r x i s m o , e M a n n h e i m , d o p o n t o d e v i s t a d a d e m o c r a c i a contrário, ele entende aqueles países cm que a sociedade civil tem
liberal, achavam que não. estrutura, é múltipla, vital, organizada c tem condições dc dividir
com o Estado c as estruturas políticas institucionais a administração
Gramsci e a reforma intelectual e moral da vida social. Essas são as sociedades de capitalismo mais
avançado, com um mercado interno forte e com uma vida política
O comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1917) n u n c a
p l u r a l . N e s s a s c o n d i ç õ e s , e l e n o t a q u e o p o d e r não s e c o n c e n t r a t o d o
publicpu um livro em vida. No entanto, sua militância política
no E s t a d o , COMO nas s o c i e d a d e s m a i s a t r a s a d a s . E l e e s t á d i l u í d o e n t r e
desde a juventude deixou como legado vários artigos em periódicos
o Estado e a sociedade civil. Não está num lugar só, está cm muitos
de partidos políticos e na imprensa. Deixou também, c isso é o mais
lugares ao mesmo tempo. Está no governo, mas também está nas
importante, vários cadernos de notas manuscritas durante o período
empresas, nos clubes, no mercado, nos partidos, na cultura, nas
em que esteve preso, sob a guarda do Estado fascista italiano, à
concepções de mundo que as pessoas veiculam.
é p o c a d e M u s s o l i n i . C o n h e c i d o s c o m o Cadernos do cárcere, e s s e s
escritos foram publicados após sua morte e representam, até hoje, Esta percepção permite a Gramsci uma visão bem mais coerente

uma fonte dc reflexão filosófica, sociológica e política ímpar. e precisa da luta política no capitalismo contemporâneo. Dela, ele é
capaz de concluir qtie, para obter poder, as classes ou grupos
A importância das idéias de Gramsci está cm sua capacidade de
p o l í t i c o s r e v o l u c i o n á r i o s n ã o p o d e m f a z e r L I MA p o l í t i c a a p e n a s d e
atualizar o pensamento de inspiração marxista, de modo a adequá-lo
i n s u r r e i ç ã o o u d c l u t a g o l p i s t a c o n t r a o E s t a d o . É preciso uma
às características das sociedades cutopéias de 'capitalismo
revolução no cotidiano. E e s t a l i ç ã o n ã o s e l i m i t a a o s q u e p r e t e n d e m
avançado da primeira metade do século XX. Seus conceitos
revolucionar a sociedade. E uma lição sobre a política c a sociedade
inovadores vão no sentido de demonstrar que as concepções de
e m g e r a l . A p o l í t i c a t e m q u e s e r f e i t a na sociedade, d e v e r e f e r i r - s e a
Marx referiam-se a sociedades do século XIX e as de Lênin, o
todos os espaços de poder disponíveis. A luta política não pode
revolucionário russo, a sociedades agrárias, atrasadas e com
limitar-se apenas a uma luta de pura força física OLI dc puro poder
capitalismo pouco desenvolvido.
econômico. O Estado é força, coerção, dominação, mas a sociedade é
Sua primeira distinção política importante é entre Oriente e
o e s p a ç o d o consenso, é o l u g a r o n d e o s h o m e n s c o n f l i t a m s e u s
Ocidente. E não se trata apenas de uma distinção geográfica entre
i n t e r e s s e s a t r a v é s d a persuasão. N ã o b a s t a f o r ç a , p o r t a n t o . E p r e c i s o
leste e oeste. Ele entende por Oriente aqueles países onde o Estado,
conquistar a consciência das pessoas. Quem quiser disputar o poder
as estruturas políticas, concentram todo o poder e onde a sociedade
nessa sociedade ocidental, moderna, complexa, tem que, no dizer de
civil é fraca, pouco organizada, sem capacidade de contrapor-se a
Gramsci, "ganhar a batalha das idéias".
tal poder concentrado no Estado. O único modo de lutar pelo poder
Se é tão importante assim o convencimento das pessoas na
e m t a l s i t u a ç ã o é i n v e s t i r c o n t r a o E s t a d o . No c a s o d o s c o m u n i s t a s ,
sociedade, dentro da luta política, não basta apenas eliminar a
tentar uma revolução armada, que desalojasse os poderosos e desse
exploração econômica de uma classe sobre outra, eliminar a
o p o d e r a o s o p e r á r i o s . F o i i s s o q u e L ê n i n f e z n a Revolução R u s s a
apropriação privada dos meios de produção da riqueza,


90 S OC I O L O G I A DA E D UC A Ç Ã O TKÍS VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U L O XX 91

como demonstrara Marx no século anterior. É preciso também lutar Mas, note bem, na luta pela hegemonia, isto é, na hita pelo poder,
c o n t r a a apropriação privada, ou elitista, do saber e da cultura. C o m i s s o , há obviamente os que desejam manter a hegemonia atual e os que
diz ele, a meta seria acabar com a divisão entre intelectuais e ' desejam uma nova hegemonia. Esses grupos representam, é claro, as
pessoas simples". E isso é fundamental porque apenas aquele que é diferentes classes c frações de classes sociais em disputa pelo poder
tido como intelectual ocupa os postos da administração do Estado, na sociedade. Nos momentos de disputa mais acirrada, tende a ocorrer
da vida política c social em geral, e portanto concentra mais poder. uma polarização entre os interesses dos que querem conservar e os d l is

A este processo lento e complexo de luta pelo poder político que querem mudar. Os dois grupos traçam alianças internas, cada um de

nas sociedades complexas, Gramsci chama de disputa pela um lado do campo de batalha. A cada um desses agrupamentos de

hegemonia: P a r a c h e g a r a o p o d e r n ã o b a s t a g a n h a r a e l e i ç ã o o u d a r classes e frações de classe em torno dc interesses históricos

um golpe dc Estado, diz ele. E preciso, repito, ganhar a batalha do determinados Gramsci chama dc bloco ou "bloco histórico". Repare

convencimento, obter um consenso social em torno de suas que no capítulo 7, que você vai ler mais â frente, o sociólogo Michael

concepções. O pensador florentino Nicolo Maquiavelli no século Apple, autor do capítulo, utiliza esses conceitos de Gramsci para

XVI, j á havia ensinado, cm sua célebre obra chamada O príncipe, que analisar a educação atual. Vale a pena, então, captar esses conceitos

quando o soberano obtém seu poder mais pelo amor que o povo tem agora, para depois vê-los operando na análise.

a cie do que pelo medo que tem de sua força, a conquista é mais Em suma, na luta pela hegemonia, tanto as classes dominantes
duradoura. E melhor ser amado que temido, ensinou Maquiavelli. É quanto as dominadas se organizam em blocos, e cada uma delas conta
p r e c i s o m a i s c o n v e n c i m e n t o d o q u e f o r ç a , c p r e c i s o s e r hegemônico, com seus próprios intelectuais, cujas idéias competem entre si na
confirma Gramsci. t e n t a t i v a d c o r g a n i z a r a c u l t u r a d e L I MA d a d a é p o c a c o n f o r m e s e u s

Ora, se para conquistar a hegemonia política e ideológica é interesses. Na verdade, Gramsci constrói uma tipologia dos

necessário ganhar a batalha das idéias", evidentemente os intelectuais. Para ele, há dois tipos principais. O primeiro é o

intelectuais desempenham um papel-chavc nesse processo. Pois os intelectual orgânico, q u e s u r g e e m l i g a ç ã o d i r e t a c o m o s i n t e r e s s e s d a

i n t e l e c t u a i s organizam a cultura. E l e s d e f i n e m o s p a r â m e t r o s p e l o s c l a s s e que a s c e n d e a o p o d e r . S u r g e e x a t a m e n t e p a r a d a r

quais os homens concebem o mundo em que vivem, vêem a divisão homogeneidade e coerência interna a concepção de mundo que

de poder e de riqueza de sua sociedade, e também definem se os interessa a essa classe, ou seja, surge para dar consciência a ela. Á

homens percebem como justa ou IN JL IS TA essa situação. E por esta burguesia, as classes dominantes em geral, possuem seus intelectuais

razão que o processo de eliminação de toda desigualdade e de toda orgânicos, ctija função é fazer com que todos pensem com a cabeça da

injustiça, segundo Gramsci, passa por uma reforma intelectual e classe dominante, inclusive e principalmente os dominados. Esta é a

moral". Ao próprio partido político moderno, que é um dos .atores fonte da persuasão, do convencimento, enfim, da hegemonia da classe

principais dessa luta, ele chama de intelectual coletivo" aquele que burguesa. Do mesmo modo, os dominados, a classe trabalhadora,

atua no sentido dc reformar as mentalidades, as concepções de possuem seus intelectuais, cujo objetivo 6 desenvolver a concepção

mundo, e portanto, no sentido da conquista da hegemonia. d e u m a contra-liegemonia. O s e g u n d o t i p o d e


92 S OC I O L O G I A E D UC A Ç Ã O TRÊS XX
DA VI S Õ E S S O BR E O P R OC E S S O E D UC A C I O N A L N O S ÉC U I O 93

I i n t e l e c t u a l c o intelectual tradicional, OU SCjcl, U 111 £1


vista disso, ele escreve num dos cadernos de notas do cárcere,
classe de
p u b l i c a d o c o m o t í t u l o d e O s intelectuais e a organização da cultura, q u e
intelectuais que, em épocas passadas, foram intelectuais orgânicos
"toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios
das classes que eram então dominantes. O exemplo clássico deste
dirigentes e especialistas c, conseqüentemente, tende a criar um
tipo é o clero, pois os padtes deram coerência e . organicidade à
grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado, que
dominação da nobreza aristocrática, na época do feudalismo. Mas
ensinam nessas escolas". Isso gera um sistema educacional híbrido.
atualmente, depois do desaparecimento da classe a que estava
Dc um lado um tipo e escola humanista , que da uma formação
ligado, esse tipo tradicional'de intelectual continua agindo
clássica , destinada a desenvolver em cada indivíduo uma culiiirn
politicamente, dc modo independente ,numa direção conservadora,
geral, destinada a dar a cada um, nas palavras de Gramsei, "o poder
podendo vir a traçar alianças com as classes dominantes no presente.
fundamental de pensar e de saber se orientar na vida". Dc outro lado,
A função dos dois tipos de intelectual, portanto, é a de ser um
surgiram as diversas escolas especializadas, voltadas para a
instrumento de construção e consolidação-de uma vontade coletiva,
formação específica dos diferentes ramos profissionais, ou baseadas
dc uni consenso social em torno das idéias por eles veiculadas, das
na necessidade dc operacionalizar os conteúdos científicos. Sc você
concepções de mundo do bloco histórico ao qual estão ligados, na
perguntar a seus pais ou avós sobre a estrutura da escola brasileira
luta pela hegemonia. Mas de onde vêm os intelectuais?
no tempo deles, verá que era exatamente a mesma lógica que presidia
Ganhou um pirulito quem disse "da escola". Sim, é claro, o
a divisão entre o "clássico" e o "científico", bem como a separação
intclectuaj é formado na escola. Quer dizer, para vir a ser um dia um
entre a escola "normal" (formação para o magistério), a escola "de
intelectual orgânico ou um intelectual tradicional, c desempenhar
comércio" e a escola "industrial" (formação técnica
funções de organização da cultura, o indivíduo precisa passar por
profissionalizante). E isso ainda no ensino que hoje corresponderia
uma formação escolar que lhe dê uni acesso especial a esta cultura.
ao Ensino Médio, sem contar naturalmente com o surgimento do
Daí que Gramsei tenha se preocupado com as características do
Ensino Superior no Brasil, cujas bases se estruturaram a partir da
sistema escolar de seu tempo.
fundação da USP cm 1936 c se diversificaram com a enorme
Ao analisar o sistema escolar italiano de sua época, Gramsei
expansão do Ensino Superior privado durante o regime militar, na
nota uma característica muito parecida com a percebida por Weber
década de 1970. Bem, mas essa é uma outra história.
na Alemanha, c que o havia levado a uma distinção entre a
O fundamental em perceber essa distinção, para Gramsei, é notar
pedagogia do cultivo e a pedagogia do treinamento mencionadas
que ela tem um conteúdo de classe. A formação geral que faculta ao
acima. Gramsei observa que na sociedade moderna a ciência
indivíduo formar-se em contato com a cultura humanista acumulada
misturou-se à vida cotidiana de um modo nunca visto antes — o que
ao longo dos séculos, formar-se como um indivíduo completo, é
diria ele se vivesse hoje? — e as atividades práticas (a construção
reservada aos filhos das classes dominantes e, portanto, à formação
de casas, a cura das pessoas, a administração pública, e até mesmo
de seus próprios intelectuais orgânicos. Mas isso não é tudo. O
as artes) tornaram-se atividades complexas e especializadas. Em
próprio perfil da formação deste intelectual orgânico das classes
dominantes mudou, na medida cm que o desenvolvimento industrial c que os interesses econômicos imediatos não interferissem, sendo a
a urbanização o exigiram. escola privada, na formação dos alunos.
Desenvolveu-sc ao lado da escola clássica (baseada nos valores da Fica claro que a preocupação de Gramsci é abrir a todas as
cultura greco-ronaana) uma escola técnica (profissional, mas não c l a s s e s , c n ã o a p e n a s à s d o m i n a n t e s , a c a p a c i d a d e d e formar s e i í . s
manual), que acabou por suplantar a clássica, na medida em que era próprios mlclccliutis, p o i s s e m i s s o a l u l a p e l o p o d e i í i e a e x t r e m a m e n t e
mais adequada à formação dos intelectuais orgânicos das classes desequilibrada nas sociedades complexas. Se todos não tiverem
dominantes. acesso a uma escola que lhes permita uma formação cultural básica,
No mesmo texto citado acima, Gramsci afirma que que possa ser eventualmente expandida em seguida, a "batalha das
idéias" vai ser sempre ganha pelas classes dominantes.
a tíndência hoje é a de abolir qualquer tipo de "escola
desinteressada" ■ (não imediatamente interessada) e
Mannheim e a luz no fim do túnel
"formativa", ou conservar delas tão-somente um reduzido
exemplar destinado a uma pequena elite de senhores c dc Fechemos então o capítulo com um comentário sobre um
mulheres que não devem pensar cm se preparar para um futuro pensador do século XX, preocupado com a sociologia da educação,
profissional, bem como a de difundir cada vez mais as escolas Q L IC retoma a formulação de Weber sobre os tipos de cckicação (as
profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e sua
pedagogias do cultivo c do treinamento) c dá a ela a perspectiva de
futura atividade são predeterminados.
um programa para a mudança da educação.

Gramsci vê nisso, além do elitismo e da exclusão das classes O filósofo e sociólogo luingaro-gcrmânico-britânico Karl
trabalhadoras de uma formação de qualidade, um indício de] que a Mannheim (1893-1947), fugindo de certo modo ao pessimismo
expansão do ensino — necessária para dar conta das novas weberiano, propõe que a sociologia sirva de embasamento tecadeo
tecnologias c dos avanços da ciência c da racionalidade — estava se para educadores e educandos no objetivo de compreenderem a
dando dc um modo caótico, pouco organizado, sem que fossem situação educacional moderna. Mannheim achava que o pensamento
traçadas políticas orientadoras. Nesse sentido, ele tinha sua própria s o c i a l n ã o p o d e explicar a v i c i a h u m a n a , a p e n a s expressá-la. O p a p e l
proposta de política educacional, tinha uma visão bastante precisa de da teoria, em sua opinião, é o de compreender o que as pessoas
como a nova escola deveria ser. pensam sobre a sociedade e não o cie propor explicações hipotéticas

Para ele, recuperando a percepção de Marx discutida acima e sobre ela. No plano das suas próprias convicções pessoais, ele

ampliando-a, a nova escola deveria ser organizada do seguinte modo. defendia uma sociedade que fosse essencialmente democrática, unia

E m p r i m e i r o l u g a r , u m a escola unitária, q u e c o r r e s p o n d e r i a a o s n í v e i s democracia cie bem-estar social dirigida pelo planejamento racional

do Ensino Fundamental e do Médio, que teria um caráter formativo e e, veja você, governada por cientistas. Este detalhe pode até parecer

objetivaria equilibrar de forma equânime o desenvolvimento da exótico, mas ajuda a entendermos sua sociologia da educação.

capacidade de trabalhar manualmente e o desenvolvimento das Para ele, se é verdade que a racionalização da vida levou a um
capacidades do trabalho intelectual. A partir dessa escola única, e declínio da educação voltada para a formação do homem integral,
intermediado por uma orientação profissional, o aluno passaria a também é verdade que-o arejamento promovido pela democratização
uma escola especializada voltada para o trabalho produtivo^ das relações sociais permitiu o surgimento dc novas esperanças.

Tal escola dc qualidade deveria ser fundamentalmente pública, Embora o capitalismo tenha gerado desigualdades sociais, o interesse

para que fosse garantido o acesso de todas as classes a ela e para dos jovens das classes inferiores cm ascender socialmente à elite, em
sua visão, traz ao processo educacional as contribuições culturais A resposta à primeira questão é: regenerar a sociedade e o
das diferentes camadas sociais e a intercomunicação entre elas. homem dos efeitos perversos que vêm embutidos no processo de

Mannheim percebeu o seguinte: a sociologia fazia-se cada vez racionalização detectado por Weber. Mannheim vê como luz no fim

mais importante, na modernidade, para o estudo dos fenômenos do túnel a possibilidade de valer-se da compreensão dos diferentes

educacionais, justamente porque a vida baseada na tradição estava se tipos históricos de educação, construídos por Weber, para a

esgotando. Nas épocas históricas dominadas pela tradição (pré- montagem de uma pedagogia que dê conta de educar o homem

capitalista) a educação resumia-se a ajudar a criança a ajustar-se à moderno sem arrancar-lhe as possibilidades oferecidas por uma

ordem social tradicionalmente estabelecida. Valendo-se da formação mais integral.

influência da psicanálise, ele observa que. tal processo era apenas Para Mannheim não há por que pensar que a pedagogia do
dc assimilação "inconsciente", pela criança, do modelo da ordem cultivo está condenada à morte. Ele reconhece que os modos de vida
v i g e n t e . M a s q u a n t o m a i s a t r a d i ç ã o ,'V AI s e n d o s u b s t i t u í d a p ' é | a incutidos por esta educação, voltada para a cultura e a erudição,
racionalização da vida, provocada pela consolidação da sociedade estavam associados ao poder de certas classes privilegiadas "que
industrial, mais os conteúdos educacionais devem ser transmitidos dispunham de lazer e de energia excedentes para cultivá-la";,e qttc
num processo "consciente", cm que o educando se aperceba do meio tais classes entraram em declínio com o L LES EN VOLVIMEN TO do
social em que vive e das mudanças pelas quais passa. capitalismo c a ascensão da classe burguesa. E concorda também que

Portanto, para este autor, nem os objetivos do processo a educação especializada desintegra a personalidade c a capacidade

educacional nem as metas que ele visa podem ser concebidos sem a de compreender de modo mais completo o mundo cm que sc vive.

consideração do contexto social, pois eles são socialmente Mas argumenta que a grande questão educacional daquela primeira

orientados. As perguntas que a sociologia obriga a fazer, lembra ele, metade do século XX era justamente saber se os valores veiculados

são portanto: Quem ensina quem?; Para qual sociedade?; Quando e por este tipo dc formação são exclusividade dessas classes ociosas

como ensina? oti se podem ser transferidos em alguma medida às classes médias c
aos trabalhadores.
Como não concordava com a idéia de que a teoria pode existir
apenas pela teoria, apenas como tentativa de ^explicação, O elemento histórico decisivo na abertura das possibilidades

Mannheim'achava que a sociologia poderia servir de base para o dadas na sociedade atual, na visão de Mannheim, é político, ou seja,

aprimorarnento d a e d u c a ç ã o . N u m d e s e u s e n s a i o s , c h a m a d o " O o advento da democracia moderna. E i s s o r e s p o n d e à s e g u n d a q u e s t ã o , a

f u t u r o " , p u b l i c a d o e m s u a Introdução à sociologia da educação, e l e respeito do que seria essa sociedade "sadia".

afirma: "Queremos compreender nosso tempo, as dificuldades desta Para ele existem tendências no sentido dc criar padrões melhores
Era c como a educação sadia pode contribuir para a regeneração da de vida. Ele aponta os movimentos da juventude como
sociedade e do homem". Regenerar de quê? E o que seria essa
"educação sadia"?
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responsáveis pelo desenvolvimento de um ideal de homem "sincero", formulação de projetos educacionais que . ampliassem o horizonte
interessado numa relação mais autêntica com a natureza e com Os do homem, que superasse as divisões cm
outros; aponta a psicanálise como responsável por um novo padrão de blocos políticos c ideológicos, que não o satisfaziam. Ele viveu o
vida, com saúde mental, capaz de deixar o homem livre das terrível momento da crise econômica dc 1929, quando o capitalismo
repressões adquiridas na formação; aponta até mesmo o "novo da "livre concorrência" (o liiissez'jahe) entrou em colapso, e
homem" forjado na Réissia comunista como um protótipo cie vivenciou em seguida a ascensão do nazismo de Elitler e suas
entusiasmo e L!C dedicação à vala comunitária. Enfimr* para conseqüências políticas e morais na Segunda Guerra Mundial (saiu
Mannheim, a modernidade não tem apenas custos, ou ameaças à da Alemanha e foi para a Inglaterra fugindo do nazismo). Episóilios
liberdade. A modernidade traz também esperanças e valores ^sociais d r a m á t i c o s d a b i s t i a i a d o .século X X que Weber não chegou a
solidários, abertos. presenciar. Para Weber, a ascensão do mundo baseado na razão c na
■!

A principal contribuição de1 todas as que a moderna democracia é lei racional era um processo incontrolávcl, mas para Mannheim a

capaz de oferecer é a possibilidade de que todas l'às caniádà/s experiência do nazismo significou a volta da irracionalidade, cia

sociais', ^énftáifí J &fcóriíribüir 1


eólia O processo educacional. E a clesumanidacle, da barbárie. So a democracia poderia fazer surgir a

s o c i o l o g i a é a d i s c i p l i n a , c m s u a v i s ã o , c a p a z d e f a z e r a síntese d e s s a s luz no fim do túnel. Para ele, a superação das formas atrasadas e

contribuições. Por isso é tão importante, para ele, que a sociologia tradicionais de educação podia ser fonte dc otimismo, se tratada a

sirva dc base à pedagogia. partir da visão democrática que o mundo viu nascer no segundo pós-
guerra, com a derrota do nazi-íascismo.
Ele explica tal processo do seguinte modo, no mesmo texto já
citado acima:
Estamos vivendo numa era de planejamento - escreveu ele no
texto citado acima - destinada a encontrar nova forma de
Em períodos de elevada cultura, havia equilíbrio, cm parte
coordenação, estamos vivendo numa era em que as forças não só
consciente, cm parte inconsciente, entre as contribuições
da tradição, mas também do iluminismo, se desintegram,
prestadas pelos diferentes grupos à educação. Esse equilíbrio
estamos vivendo numa era que ■ passa cio estágio do predomínio
baseava-se às vezes na idéia de Lima hierarquia de estamentos
das elites limitadas para a democracia de massas, estamos
ou castas separadas, cada uma das quais apresentava sua
vivendo numa era cujas forças não controladas provocam a
contribuição cultural própria em níveis diferentes. (...) A
clesumanização e a desintegração da personalidade. Finalmente,
concepção democrática ajunta à idéia de síntese a livre
a educação terá de ser concebida como uma nova forma de
intercomunicação entre as camadas sociais c suas contribuições
controle social, que não é nem a inculca do fascismo nem a
culturais. Seu interesse principal reside no acesso, às elites,
c o m p l e t a a n a r q u i a d e u m a p o l í t i c a d e t e r i o r a d a d o laissez-faire.
dos membros talentosos das classes inferiores, na invenção dc
métodos adequados de seleção s o c i a l , c no impedir que a
A julgar pelos desdobramentos cio capitalismo mundial, depois
sociedade se deteriore, convertida em massas não
cie 1945 e até os anos 1970, Mannheim estava certo. A crise
diferenciadas.
capitalista dos anos 1970, porém, provocou o retorno da ideologia do
Em suma, Mannheim era um homem de seu tempo, em busca de um livre-mercado, associada a um período cie declínio cia liberdade e
programa de estudos cm sociologia da educação que possibilitasse a das esperanças, no qual vivemos hoje. Arrisquemos agora conhecer
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um
pouco
mais
sobre a
educaçã
o no
dias que
correm.