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IED - resumos

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  • Estudo do Direito:
  • Correntes jusfilosóficas:
  • Funções do Direito:
  • Ciências auxiliares:
  • Visão estática do Direito:
  • A palavra “direito” pode ser aplicada:
  • Tipos de direitos subjectivos:
  • O direito subjectivo pode ser classificado através de vários critérios:
  • direito objectivo
  • Diferença entre ser e o dever ser:
  • Ordem social e ordem normativa:
  • Os membros da sociedade orientam as suas condutas:
  • Elementos da ordem social:
  • Ordem social e ordens não normativas:
  • Distinção:
  • Ordem social e a ordem técnica:
  • Distinção entre as ordens normativas e a ordem técnica:
  • Instituições:
  • Distinção entre grupos e instituições:
  • Funções das instituições:
  • Ordem social e ordem jurídica:
  • Características do direito:
  • Imperatividade do direito:
  • Necessidade do direito:
  • Protecção de bens jurídicos:
  • Ordem jurídica e a ordem moral:
  • Critérios de distinção:
  • Ordem jurídica e fontes de direito:
  • Ordem jurídica e regras juridicas:
  • Critica:
  • Coacção e coercibilidade:
  • Desvalores jurídicos:
  • Objectos dos desvalores:
  • Desvalores de conduta:
  • Desvalores dos actos jurídicos:
  • Inexistência jurídica:
  • Invalidade:
  • Sanções juridicas:
  • Regras sancionatórias:
  • Modalidades das sanções:
  • Sanções negativas:
  • Imperatividade coactiva
  • Imperatividade não coactiva:
  • Imperatividade e coercibilidade:
  • Coerção e poder:
  • Coacção com coerção:
  • Coacção sem coerção:
  • Coerção sobre coerção:
  • Ordem jurídica e a tutela jurídica:
  • Hetero-tutela:
  • Auto-tutela jurídica:
  • Ordem jurídica e sistema jurídico:
  • Regras jurídicas:
  • Princípios jurídicos:
  • Critério da validade:
  • Unidade do Sistema Jurídico:
  • Resolução de contradições entre regras juridicas:
  • Produção das regras juridicas com base noutras regras juridicas:
  • Aplicação das normas ao caso concreto:
  • Abertura do sistema jurídico a outros sistemas normativos:
  • Ramos do Direito Público:
  • Espécies de fontes – critérios:
  • Critério do modo de formação das fontes:
  • Critério quanto à eficácia:
  • Critério quanto à sua origem:
  • Não é Fontes do Direito:
  • Fontes de Direito no ordenamento Jurídico Português:
  • Actos normativos – dois tipos:
  • Extinção do Costume:
  • Desuso e costume contra legem:
  • Fontes mediatas:
  • Vicissitudes de Vigência da Lei:
  • Estrutura das regras jurídicas:
  • Hierarquia das Fontes de Direito:
  • Classificação das regras jurídicas:
  • Critérios:
  • Duas categorias:
  • Características das regras jurídicas:
  • Distinção entre regras dispositivas e regras injuntivas:
  • Modalidade de invalidade:
  • Regras remissíveis:
  • NOTA:
  • Elemento histórico:
  • Dois aspectos:
  • Modalidades de interpretação;
  • Como se sabe então que a lei é interpretativa?
  • A lei interpretativa é retroactiva:
  • Regime da lei interpretativa:
  • Classificação das lacunas:
  • Direito transitório:
  • Proibição de retroactividade:
  • Esquema de conflito de leis no tempo (solução):

Faculdade de Direito de Lisboa

Exame de Introdução ao Estudo do Direito

Exame de Introdução ao Estudo do Direito
Estudo do Direito: O Direito é uma realidade social e cultural multifacetada, pelo que ele pode constituir objecto de estudo de várias disciplinas e pode ser analisado segundo uma multiplicidade de perspectivas: História do Direito – ramo da história que se ocupa com a formação e da evolução do direito. Normalmente, a História do Direito analisa o direito como uma realidade cultural e toma como base uma certa homogeneidade cultural. Sociologia do Direito – ramo da Sociologia que se ocupa do direito enquanto facto social, procurando determinar o grau de efectividade do direito numa sociedade e analisando as relações mútuas entre a ordem jurídica e a realidade social (a realidade social é sempre determinante para a formação do direito, pois que o direito pretende dar resposta aos problemas sociais e procura orientar e conformar a realidade social). Filosofia do Direito – ramo da Filosofia que se ocupa da génese e fundamento do Direito, bem como a sua essência, do seu conteúdo e do seu fim. A perspectiva da análise da Filosofia do Direito sobre a realidade jurídica é uma perspectiva exterior, ou seja, uma visão que transcende o direito positivo. Correntes jusfilosóficas: Uma orientação positivista ou normativista – o direito é legitimado pelos valores do próprio direito, pois que é irrelevante tudo o que não seja direito positivo. Uma orientação antipositivista ou antinormativista – o direito é definido em função de critérios extrajuridicos e suprapositivos (valores morais de justiça e de direito natural) e a legitimação do direito depende da sua conformidade com esses mesmos critérios. Definição de direito: - pode ser entendida em vários sentidos: Sentido conceptual – a resposta é fornecida através de uma definição de direito; Sentido Normativo – a resposta é fornecida através da determinação das finalidades do direito; considera-se que é direito, aquilo que é necessário para atingir determinados fins; Sentido empírico – a resposta é dada através da determinação da origem do direito; considera-se que é direito, aquilo que resulta destas fontes. Mais simples do que responder à questão “O que é o Direito?”, é fornecer uma simples descrição do que é o direito. Para isso há que contar com dois elementos: • O direito é uma ordem normativa, isto é, uma ordem de dever ser; • Esta ordem normativa e o correspondente dever ser beneficiam da protecção e da tutela do Estado.
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Funções do Direito: Função politica: organiza o poder político numa determinada sociedade, legitima o seu exercício pelos órgãos competentes e coloca limites ao seu exercício; a esta função politica do direito liga-se a noção de Estado de Direito Função social: define os comportamentos que são permitidos, obrigatórios ou proibidos; esses comportamentos tornam-se previsíveis e expectáveis por todos os membros da sociedade; Função pacificadora: define e impõe os modos de aplicação das sanções decorrentes da sua violação e determina os modos de solução dos conflitos de interesse entre os membros da sociedade. Teoria do Direito – analisa o direito vigente no seu conjunto e procura abarcá-lo como sistema. Para isso, a Teoria do Direito: • Constrói algumas estruturas formais do direito – como as fontes do direito e as regras jurídicas; • Procura delimitar a ordem jurídica de outras ordens normativas; • Recebe contributos de outras áreas do saber. A Teoria do Direito distingue-se da Filosofia do Direito pela perspectiva de análise: - A Filosofia é uma reflexão sobre a essência, o fundamento e o conteúdo do direito enquanto a Teoria do Direito é uma reflexão sobre o direito vigente e as suas estruturas formais. Ciência do Direito – tem por objecto o direito vigente num ornamento jurídico, isto é, o direito positivo. A Ciência do Direito, procura determinar o sentido das normas e dos institutos jurídicos, integrar essas normas e instituto num sistema coerente e formular proposições correspondentes aos conhecimentos adquiridos. A Ciência do Direito distingue-se da Filosofia do Direito pela perspectiva de análise: - A filosofia coloca-se numa perspectiva exterior ao sistema jurídico; faz uma crítica externa ao sistema jurídico e responde à pergunta Quid est ius? (o que é o direito na sua essência?) enquanto a Ciência do Direito posiciona-se numa perspectiva interna ou imanente ao sistema jurídico; constrói a partir do sistema jurídico, faz uma crítica interna a esse sistema e responde à pergunta Quid iuris? (que direito deve valer?). A Ciência do Direito distingue-se da Teoria do Direito pelo respectivo âmbito: - A Teoria do Direito determina e analisa o direito vigente; ela visa determinar e ordenar o direito vigente, mas não se preocupa com a resolução dos casos concretos. - A Ciência do Direito é uma ciência orientada para a prática jurídica, ou seja, para a resolução de casos concretos através da aplicação do direito vigente.

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A Ciência do Direito é uma ciência orientada para a prática: o seu objectivo é definir proposições que permitem a decisão de casos concretos. Isto significa que se verifica uma interdependência entre a análise teórica e a prática jurídica num duplo sentido: - a Ciência do Direito fornece as soluções teóricas de casos concretos e a prática jurídica testa as soluções teóricas fornecidas pela ciência do Direito; - os casos concretos requerem a atenção e tornam-se igualmente objecto da Ciência do Direito. A Ciência do Direito realiza as seguintes funções: • Função de ordenação e de sistematização – a Ciência do Direito constrói conceitos jurídicos e elabora proposições baseadas em dogmas, princípios e regras; • Função estabilizadora – as proposições normativas fornecem modelos de decisão de casos concretos que evitam uma constante discussão sobre a solução de novos casos concretos. • Função critica e de aperfeiçoamento do sistema jurídico – a Ciência do Direito assume uma perspectiva critica sobre o direito vigente, chamando a atenção para as incoerências, as insuficiências e as lacunas do mesmo. A Ciência do Direito formula proposições de dois tipos; • Proposições descritivas – descrevem a realidade jurídica tal como ela se apresenta a partir das fontes; são simples reproduções de regras jurídicas; possuem apenas um carácter explicativo; a actividade de formulação de proposições descritivas chama-se Dogmática do Direito. Podem conter regras jurídicas ou princípios jurídicos. • Proposições normativas – são elaboradas a partir da interpretação das fontes de direito e da integração de lacunas. Têm carácter vinculativo e correspondem ao nível mais elaborado da Ciência do Direito. O resultado decorrente da formulação de proposições normativas chama-se Doutrina. Não se limitam a descrever o direito vigente, antes procuram fornecer uma solução para o problema. Características da Ciência do Direito: - É uma ciência prática, na medida em que ela propõe soluções aplicáveis a casos concretos; - É uma ciência hermenêutica, dado que ela fornece interpretações das fontes de direito; - É uma ciência normativa – decisória, na medida que ela propõe e discute a aplicação de regras a casos concretos.

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História da Ciência do Direito português: O direito português integra-se na família romano - germânica. É tributária do direito romano e da reelaboração desse direito realizada pela pandectística alemã do século XIX. É por isso que o conhecimento da doutrina alemã é particularmente útil para o estudo do direito português, podendo mesmo dizer-se que não tem sentido procurar aprofundar alguns temas, mas mais variadas áreas jurídicas, sem o conhecimento dessa doutrina. A doutrina alemã é sem dúvida a mais pujante do continente europeu. Nela impressiona particularmente o número e a qualidade das revistas e dos manuais, bem como a profundidade e a actualização dos comentários aos códigos e a outras leis. Ciências auxiliares: Política do Direito – a função da política do direito é precisamente a de assegurar esta correspondência do direito vigente com realidades extra – jurídicas e com sentimento jurídico, pelo que ela fornece as orientações para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do direito vigente. Ciência Económica – o direito não pode ignorar as leis económicas que regem aquela produção e distribuição. É por isso que a ciência económica é uma das ciências auxiliares do direito. Da relação entre o direito e a economia nasceu a chamada Análise Económica do Direito. Esta análise ocupa-se de saber como é que as regras jurídicas devem ser construídas e aplicadas de modo a garantir a utilização mais eficiente dos méis e recursos económicos. Outras Ciências – podem ainda ser referidas a Economia Politica, a Ciência Politica, a Criminologia e a Medicina Legal. Facto jurídico – é todo o facto que é relevante para o Direito. Pode ser: um Acto jurídico (é todo o facto humano e voluntário juridicamente relevante) e um Facto jurídico stricto sensu (é todo o facto não humano e não voluntário). Regra Jurídica – determina a relevância jurídica do acto; só factos subsumíveis a regras jurídicas são factos jurídicos. Efeito Jurídico – é resultado da aplicação de uma regra jurídica a um acto jurídico; esse efeito traduz-se na definição de uma situação jurídica. O efeito jurídico pode decorrer: - da aplicação automática da regra jurídica a um facto jurídico (art.122 CC); - de um acto voluntário de aplicação da regra a um facto jurídico; na esfera privada, importa referir como consequência da autonomia privada, o negócio jurídico; através do negócio jurídico, as partes tornam aplicável, uma ou várias regras jurídicas a uma determinada situação.

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• Direitos relativos a situações jurídicas (são direitos à constituição. a perspectiva utilizada é radicalmente diversa daquela adoptada na generalidade das outras Disciplinas leccionadas e estudadas no Curso de Direito. No ensino da Disciplina de Introdução ao Estudo do Direito. O direito subjectivo pode ser definido como a faculdade.Direitos de monopólio (são direitos que permitem que o titular use e disponha do bem com exclusão dos não titulares. Isto significa que eles analisam apenas os factos jurídicos e as regras jurídicas em si mesmo. modificação ou extinção de situações jurídicas. de impor e defender os seus interesses através de meios concedidos pela ordem jurídica. ou seja. Podem incidir sobre bens materiais ou sobre bens imateriais). independentemente dos efeitos (jurídicos) que ele produz e das situações (jurídicas) que ele cria. é a posição de um sujeito – titular de direito – quanto a um determinado modo de actuar ou a um certo modo de ser tratado. direito a dissolver o casamento por divórcio).Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Visão estática do Direito: Considera-se o direito em si mesmo. é um conjunto de regras jurídicas vigentes numa ordem jurídica. exercida com base numa vontade livre. Tipos de direitos subjectivos: • Direitos da pessoa (são direitos inerentes à qualidade de pessoa – ex. . Neste sentido. Num sentido subjectivo Direito subjectivo – em inglês right. do que se trata é de determinar os efeitos e as situações que decorrem da aplicação de regras jurídicas a certos factos jurídicos. Daniel Filipe Bento Marques 5 . direito a resolver um contrato por incumprimento. . A preocupação não incide sobre os efeitos e as situações que resultam da aplicação das regras jurídicas a certos factos jurídicos mas sobre as regras jurídicas e o ordenamento jurídico considerado no seu conjunto. Na verdade. A palavra “direito” pode ser aplicada: Num sentido objectivo Direito objectivo – em inglês law. O direito subjectivo já foi concebido: .Como um direito de exigir e de constituir. ou seja. . sem haver a preocupação de determinar o efeito jurídico que decorre de um facto através da aplicação de uma regra.Como um poder de vontade.: direitos fundamentais e os direitos de personalidade) • Direitos relativos a bens (estes direitos podem ser): .Direitos de crédito (são direitos á realização de uma prestação por um terceiro).Como um interesse juridicamente protegido. há que seguir a perspectiva estática de análise do Direito.

isto é. da razão que orienta o pensamento.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito O direito subjectivo pode ser classificado através de vários critérios: • Quanto ao conteúdo. ou seja. direitos susceptíveis de avaliação económica. ele deixa de ter a liberdade de querer algo de diferente daquilo que lhe é determinado como conduta. pois que este vê limitado ou mesmo excluído o seu querer. • NOTA: Na Disciplina de Introdução ao Estudo do Direito analisa-se apenas o direito objectivo. o dever ser resulta de um querer de alguém ou de algum órgão. Direitos não patrimoniais. O ser é descrito. os direitos subjectivos classificam-se em: Direitos subjectivos stricto sensu (são direitos de usar ou dispor de um bem. Daniel Filipe Bento Marques 6 . são correlativos de um dever. dado que impõem uma constituição. o dever ser é válido ou inválido. A do destinatário do dever ser – o dever ser orienta o querer do destinatário. o dever ser compete ao âmbito da razão prática. modificar ou extinguir uma situação jurídica. não invade todas as zonas do ser e não pretende moldar todo o ser. o dever ser é prescrito. são correlativos de uma sujeição. Quanto aos efeitos. direitos insusceptíveis de avaliação económica. ou seja. ou seja. O ser é verdadeiro ou falso. nomeadamente em função da autoridade ou da competência da entidade que define o dever ser. da razão que orienta a acção. porque impõem uma conduta a outra pessoa) Direitos potestativos (são direitos de constituir. a modificação ou uma extinção da situação jurídica a outra pessoa). O dever ser respeita o ser. o ser aceita o dever ser como elemento crítico e como impulsionador de transformação da realidade. Diferença entre ser e o dever ser: • • • • O ser pertence ao domínio da razão teórica. isto é. Dever ser e querer: o dever ser relaciona-se com o querer (ou com a vontade) em duas vertentes: A da origem do dever ser – o dever ser tem origem num querer. os direitos subjectivos podem ser: Direitos patrimoniais. se a alguém é imposto um dever ser.

ou seja. • Por regras de dever ser – estas regras determinam o que os membros da sociedade podem fazer. pelo que em qualquer sociedade existe uma ordem social. porque. A moral social pode ser relevante para a ordem jurídica: por exemplo. Daniel Filipe Bento Marques 7 . ou seja. É uma ordem intra-individual. Há várias explicações possíveis para o carácter espontâneo da ordem social: • Explicação cultural – a ordem social resulta de uma comunidade de valores e de normas que são compartilhados por todos os membros da sociedade. porque não regula relações entre pessoas. significa que existem várias ordens normativas. Elementos normativos: a ordem social comporta elementos normativos. mas os desvios de comportamento não são censurados. a ordem religiosa é uma ordem intra-individual. é uma das causas de nulidade dos negócios jurídicos e está subjacente à invalidade dos negócios usuários. nomeadamente: • Ordem religiosa – é a ordem que regula a relação do crente com Deus. 1577/1 CC) • Ordem Moral – é a ordem que.: casamento católico – art. o que eles devem cumprir e o que eles não devem realizar. mas ela adquire uma dimensão inter-subjectiva quando se trata da moral social. • Explicação utilitarista – a ordem social corresponde ao interesse pessoal de cada membro da sociedade. as pessoas dependem umas das outras. a decência e a probidade do comportamento em sociedade. na ofensa dos bons costumes. • Elementos normativos (da ordem do dever ser) – todo o comportamento desviante é considerado violador da ordem social e susceptível de determinar a aplicação de uma sanção e o uso da coerção. Os membros da sociedade orientam as suas condutas: • Por hábitos social – correspondem a regularidades sociais. Elementos da ordem social: • Elementos fácticos (da ordem do ser) – o que a maioria dos membros da sociedade faz é considerado normal.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ordem social e ordem normativa: A toda a sociedade é inerente uma determinada ordem – isto é. orienta a conduta humana para a realização do bem. de aspectos relacionados com o decoro. o comportamento harmonioso dos membros de uma sociedade – é observável em toda a sociedade. sem que lhes seja subjacente qualquer fundamento normativo ou qualquer dever ser. com base numa orientação assente em visões filosóficas e em experiências culturais. • Explicação politica – a ordem social resulta de uma posição de domínio exercida por certos membros da sociedade sobre outros membros. decorrem do comportamento da maioria dos membros da sociedade. Alguns aspectos seculares da ordem religiosa podem ter relevância jurídica (ex.

também significa que a ordem social deixa sempre ao agente uma opção entre a adesão à norma e a sua violação. Distinção entre as ordens normativas e a ordem técnica: • • As ordens normativas são ordens que impõem um dever ser. . Não é uma ordem determinista. conduta pelo qual se pratica o que é proibido ou se omite o que é obrigatório viola uma regra de uma ordem normativa e. Podem ser verdadeiras ou falsas e não são violáveis. Pretendese alcançar um determinado resultado e tem de se assumir uma determinada conduta. Pode estar na origem do costume. Em contraposição a ordem social é uma ordem da liberdade. pode ser violada. A ordem técnica é uma ordem que determina a adequação dos meios aos fins desejados. É uma ordem orientada pela contingência e pela racionalidade instrumental. em geral. química ou outras. as leis naturais enunciam relações entre uma causa e um efeito. é uma ordem intersubjectiva e é a mais importante ordem normativa da ordem social. disto decorre que a ordem social tem de estar preparada para aplicar sanções para que a desrespeite ou viole. Deve ser entendida em dois sentidos: . Ordem social e ordens não normativas: Ordem social e ordem natural – são ordens que são geralmente aceites e respeitadas pela generalidade dos membros de uma sociedade. espera a adesão dos membros da sociedade. 8 Daniel Filipe Bento Marques . é uma ordem intersubjectiva e extra-juridica na qual podem ter expressão sanções de carácter psíquico. não têm coordenadas geográficas ou temporais. porque é sempre uma liberdade perante um outro. vestuário adequado a cada acontecimento).: boa educação. Ordem social e a ordem técnica: • Orienta condutas humanas.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito • • Ordem de trato social – resulta de convencionalismos sociais (ex. ou seja. mas também tem de p+rever que estes membros não a respeitem e a violem. Distinção: • A ordem natural é regida por leis naturais – física. que é uma das possíveis fontes de direito. sujeita o infractor a uma sanção.a afirmação significa que só em sociedade o homem é livre. Ordem jurídica – constituída pelas regras jurídicas.

• Prossecução de objectivos comuns. Classificação: Grupos primários – são pequenos grupos em que se verifica uma interacção entre todos os seus membros (família). de forma coordenada. partidos políticos). • Orientação dos comportamentos por valores. às seguintes funções: • Reprodução da espécie humana. em contrapartida.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Grupos sociais – são constituídos por conjuntos de indivíduos que interagem entre si e que estabelecem determinadas relações sociais. Daniel Filipe Bento Marques 9 . Mostram como a realidade social é composta. como ela assume um carácter formativo e como ela se desenvolve. Função: Tem a função integradora das várias condutas individuais. nas instituições são realizados. as instituições são independentes dos seus membros que a compõem e. são realidades supra-individuais. associações. Conjugam uma pluralidade de finalidades e diferentes membros desempenham diferentes papéis sociais. em contrapartida. eles mesmos. porque as orienta para a obtenção de uma finalidade comum. São realidades sociais com carácter supra-individual. A participação de uma mesma pessoa em diversos grupos permite-lhe a realização de vários fins. numa acção que é repetida com frequência e que molda um padrão de comportamento. São realidades sociais em que se estabelecem relações de interdependência entre diferentes actividades dos seus membros. orientações de condutas. • Os grupos são realidades inter-individuais. Caracterizam-se por uma grande solidariedade entre os seus membros e definem. porque eles são o resultado da interacção entre os seus membros. entre outras. Instituições: Baseiam-se num processo de habituação. São realidades sociais presentes em todas as sociedades ligadas. • Produção e distribuição de bens. • Transmissão de conhecimentos e experiências. ou seja. vários fins. por isso. Necessitam de uma sistema normativo bastante mais elaborado do que os grupos primários. Grupos secundários – são grupos maiores em que nem todos os membros interagem com todos os membros do grupo (sindicatos. Distinção entre grupos e instituições: • Nos grupos visa-se a obtenção de uma única finalidade comum a todos os seus membros. porque elas são independentes dos seus membros e são portadoras de tradição e possuem uma ordem normativa própria.

Numa acepção mais recentes. Na área jurídica. a realização daquela ideia. . . designam os conceitos fundamentais e os princípios de um ramo do direito. a ordem social é imanente à instituição.É um ente ou corpo social com uma existência objectiva e concreta. • Daniel Filipe Bento Marques 10 . Funções das instituições: Função de socialização – coordenam a actividade de cada um dos seus membros. podem ser referidos os seguintes exemplos: • A instituição possui três elementos constitutivos: . no seio do grupo. isto é.O nascimento num grupo da ideia de constituir um empreendimento.A constituição. empregue com os seguintes sentidos: Numa acepção mais antiga. Função de estabilização – definem normas de comportamento de acordo com valores próprios. porque tem uma individualidade própria. . há muito.A aceitação do poder de governo pelos membros do grupo. de um poder que assegura. às relações entre particulares. designam algumas categorias jurídicas fundamentais.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito A distinção entre grupos e instituições também se reflecte na respectiva ordem social: • Nos grupos. organizam a distribuição dos diferentes papéis sociais dos seus membros. pelo que elas são um meio de controlo social.É uma unidade permanente que não perde a sua identidade através da mudança dos seus elementos individuais. às relações económico-sociais. à organização politica ou à actividade religiosa. Cada instituição tem uma ordem normativa própria que orienta os comportamentos dos seus membros de acordo com o sistema social que elas constroem. a ordem social assenta no interesse dos seus membros e nos compromissos que eles alcançam • Nas instituições. dão a conhecer aos seus membros esses valores e definem comportamentos expectáveis. nomeadamente. . Relativamente às concepções da instituição numa perspectiva jurídica. A instituição possui as seguintes características: .É um ente fechado. através do domínio. a palavra “instituições” é.

visões de uma sociedade primitiva sem direito nunca foram confirmadas e visões utópicas de construção de uma sociedade sem direito apenas conduziram à construção de sociedades quase sem direitos. Daniel Filipe Bento Marques 11 . mas nem todas as regras jurídicas são necessariamente regras imperativas. apenas podem ser reguladas pelo direito. impondo ou proibindo a sua realização e aplicando uma sanção no caso de violação de conduta devida.É indispensável para assegurar que os interesses alheios e os interesses colectivos são igualmente respeitados. como fenómeno cultural. mas também é imprescindível em todas as sociedades. CC. logo é fácil concluir o seguinte: • A convivência em sociedade pressupõe organização politica. nº 1. para isso. Necessidade do direito: O direito só existe em sociedade. É uma realidade social – a sociabilidade é inerente à pessoa e o direito é inerente à vida em sociedade. ou seja. pelo que só as pessoas podem ser destinatárias do direito. a formulação hipotética da regra não retira o seu carácter imperativo. 483. Duas observações: • As ordens normativas são ordens imperativas. Características do direito: • • É uma realidade humana – estabelece regras de conduta humanas. Não é preciso mais do que uma ordem puramente formal para possibilitar a harmonia dos comportamentos sociais. É uma realidade cultural – o direito resulta de uma actividade através de órgãos competentes ou através da própria sociedade. . • Imperatividade do direito: As ordens normativas são caracterizadas pela imperatividade: pretendem orientar condutas humanas.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ordem social e ordem jurídica: Toda a sociedade exige regulação pelo direito. nomeadamente porque: . • É frequente a regra jurídica ser formulada através de uma proposição condicional ou hipotética – art. é imprescindível o direito. • O comportamento de cada um dos membros da sociedade tem de coexistir e que se compatibilizar com o comportamento de todos os demais. 1305º CC. mesma na ordem jurídica existem regras não imperativas – art. o direito é um sistema de valores e de convicções que pode ser apreendido e transmitido às gerações seguintes. ela tem que se fundar no direito e de ser limitada pelo direito – Estado de Direito.É necessário para regular a sua repartição pelos membros da sociedade. A necessidade do direito também se pode situar num plano político: ele serve então para evitar a anarquia e o caos e para combater o despotismo e esclarecer o Estado de Direito.

de regras destinadas a possibilitar a convivência social. • Os bens jurídicos são indisponíveis. nº 2. Daniel Filipe Bento Marques 12 . mesmo pelo seu titular – exs. art.: bens pessoais – e estados pessoais – casado. mas isso não significa que todas as relações sociais devem ser reguladas pelo direito. Os bens jurídicos são. solteiro. que assenta nas seguintes premissas: • O direito não deve sobrepor-se a outras ordens normativas quando não houver que assegurar o cumprimento das suas regras por órgãos do Estado. O que há são sociedades em que transitoriamente reina a anarquia pela falta de um poder politico organizado e legítimo. é a irrelevância do consentimento do lesado na sua violação – art. CC.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Superação da anarquia: A anarquia consiste na ausência de poder político. Uma das consequências da indisponibilidade do bem jurídico. Combate do despotismo: Caracteriza-se pela formulação arbitrária de regras jurídicas por um poder politico que não é controlado. definindo a repartição de poderes soberanos e a competência dos órgãos políticos e garantindo as liberdades cívicas. CP. O direito deve reger-se por um princípio de subsidiariedade. 340º. Dificilmente se podem encontrar exemplos concretos de sociedades anárquicas. etc. uma sociedade livre de qualquer domínio. exactamente porque toda a sociedade exige um conjunto. ainda que mínimo. 38º. mas limitar-se a proteger certos bens – os chamados bens jurídicos. aqueles que satisfazem necessidades básicas. como a sobrevivência da pessoa e a sua realização nos mais variados campos. • O direito pode destruir relações sociais: basta pensar no que sucederia se uma promessa realizada entre amigos fosse tratada pela perspectiva do direito ou se o direito pretendesse regular o espaço de intimidade e de privacidade que é próprio da família. O direito obsta ao poder absoluto. antes de mais. Da posição do direito perante o bem jurídico decorrem várias consequências: • Os bens jurídicos são protegidos através do direito constitucional e do direito penal. Subsidiariedade do direito: O direito é necessário em toda e qualquer sociedade. Protecção de bens jurídicos: O direito não deve intrometer-se em todos os aspectos da vida social.

Daniel Filipe Bento Marques 13 . quer ético-sociais (bons costumes). As regras jurídicas podem não coincidir com as regras morais. nomeadamente porque: • Há regras jurídicas que não têm qualquer correspondência com as regras morais. Isto justifica-se pela diferente perspectiva do direito e da moral no tratamento dos mesmos problemas: • O direito preocupa-se com a convivência em sociedade.: proibição de matar.: a regra moral que justifica que se possa retirar aos ricos para dar aos pobres é contrariada pela regra jurídica que proíbe o furto. • Há regras morais que são contrariadas por regras jurídicas (ex. • A moral pretende orientar as consciências para a realização do bem. os transformar em deveres jurídicos.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ordem jurídica e a ordem moral: As relações entre o direito e a moral podem ser de coincidência ou de não coincidência: há regras jurídicas que concordam com as regras morais. As regras jurídicas podem coincidir com as regras morais de vários modos: • Pela incorporação das regras morais no direito – transformação da moral em direito. proibição de difamar). • Há regras morais que não possuem qualquer correspondência com as regras jurídicas. O Direito Penal é um ramo do direito onde a coincidência entre a moral e o direito é mais patente (ex. para o direito. proibição de furtar. no entanto. • Pela atribuição de relevância jurídica a deveres morais. para a moral. sem. cuja característica essencial é a impossibilidade de exigir o seu cumprimento através dos tribunais. a proibição do homicídio é justificada pela necessidade de assegurar a convivência humana. mas também há regras jurídicas que divergem das regras morais ou que são moralmente neutras. • Pela concessão de relevância jurídica a valoração quer morais (boa fé). as regras morais que proíbem o aborto ou a eutanásia activa estão em confronto com as regras jurídicas que consideram lícita essas condutas) Não há uma coincidência necessária entre a ordem jurídica e a ordem moral. a proibição do homicídio é um imperativo ético imposto pelo amor devido ao próximo.

As decisões sobre a vida e a morte. Não é aceitável porque nenhuma pessoa vive isolada e a solidariedade com os outros também é uma virtude moral.Principio da universalização: o direito só deve receber as regras morais que possam ser aceites consensualmente por todos. a moral coloca alguns desafios ao direito. dois princípios devem ser seguidos nesta matéria: . decifração do código. Duas regras devem ser observadas nesta matéria: • O direito não deve contrariar a moral. • o direito pode considerar o que é indiferente o que é imoral. O que acaba de ser afirmado coincide com a tese da separação entre o direito e amoral. são vários os critérios que têm sido utilizados para procurar estabelecer esse distinção.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Esta diferença de perspectivas entre a moral e a ordem jurídica justifica que possa ser imposta uma responsabilidade jurídica mesmo quando não haja qualquer responsabilidade moral. A separação entre o direito e a moral pode ser obtida através de duas vias: • o direito pode limitar-se a permitir tanto o que é moral. investigação sobre células terminais). isso não significa que o direito deva ficar indiferente perante a moral. não deve impor o que é imoral ou proibir o que é moral. investigação sobre o genoma humano. Daniel Filipe Bento Marques 14 . deixando ao individuo a opção do seu comportamento. isto é.A reprodução médica assistida. dado que nem tudo o que é moral deve ser tutelado e protegido pelo direito. independentemente das suas visões do mundo e das suas orientações religiosas. quer própria.A Biotecnologia (produção de transgénicos. A separação entre o direito e a moral não pode fazer esquecer que. não tomando qualquer posição perante u comando ou proibição moral. Critérios de distinção: Tanto a moral como o direito correspondem a ordens normativas. o direito não tem que procurar impor pelas suas regras tudo o que é moral. ou seja. Basta pensar nos problemas que são levantados por realidades como: .Principio da necessidade: o direito só deve receber as regras morais que sejam necessárias à convivência social . Apesar de não haver uma concordância entre o direito e a moral.A interrupção voluntária da gravidez. São eles os seguintes: • O critério do destinatário das regras jurídicas e das regras morais: as regras jurídicas têm como destinatário a pessoa na sua relação com outros e as regras morais têm por destinatário a pessoa isolada. coloca-se o problema de saber como pode realizar-se a sua distinção. nos tempos actuais. como o que é imoral. Critérios inaceitáveis: Alguns dos critérios propostos para distinguir a moral do direito são claramente inaceitáveis. . . • Mas o direito também não tem que receber toda a moral. . quer alheia (problema da eutanásia activa).

pois que melhor do que pensar em fazer é fazer efectivamente. A diferença entre actuação dolosa ou actuação diligente pode ser importantes consequências. Para a moral. a exteriorização é sempre necessária e a mera intenção ou a falta de intenção. nunca são juridicamente relevantes. quando não exteriorizada. Em todo o caso. uma origem autónoma (definida pelo sujeito). seja porque o sujeito pode criar o direito através da chamada autonomia negocial ou contratual. • • Daniel Filipe Bento Marques 15 . seja porque a ordem moral não é – pelo menos em parte – criação do sujeito. a falta de intenção é sempre relevante.Também não é exacto que a exteriorização da conduta seja irrelevante para a moral.Não é exacto que o estado anímico (psicológico) do agente seja irrelevante para o direito. como parece decorrer das seguintes observações: . a intenção é sempre relevante e pode mesmo ser suficiente. a intenção não chega.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito • O critério da origem das regras jurídicas e das regras morais: o direito tem uma origem heterónima (exterior ao sujeito) e a moral. Critério proposto: A distinção entre o direito e a moral pode ser realizada através do critério da exterioridade das regras jurídicas (o direito ocupa-se dos comportamentos exteriorizados e do lado externo das condutas) e da interioridade das regras morais (a moral preocupa-se com a intenção do agente e com o lado interno da conduta). . também este critério é inaceitável. mesmo que a conduta esteja de acordo com a moral. Para a moral. * O direito valora negativamente a declaração que é emitida sob coacção física ou moral ou em erro motivado por dolo do declaratário ou de terceiros exactamente porque a coacção ou o dolo levam o declarante a emitir uma declaração que não tem intenção de exteriorizar. Também não é aceitável. por exemplo: * A conduta do agente pode ser dolosa (se o agente tem a intenção de provocar um certo resultado) ou negligente (se o agente não tem a intenção de produzir um resultado. o critério acima referido permite uma distinção entre o direito e a moral nos seguintes termos: • Para o direito. Aparentemente. o direito não se ocupa de estados anímicos que não tenham sido exteriorizados. mas este verifica-se como consequência da violação de um dever de cuidado ou de diligência).

Daniel Filipe Bento Marques 16 . as fontes do direito num sentido técnico-jurídico: • O direito constitui-se através de decisões de órgãos políticos. que.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ordem jurídica e fontes de direito: “Fontes de Direito” pode ser tomada nos seguintes sentidos: • Num sentido histórico – são os antecedentes históricos do direito vigente. São várias as respostas possíveis à questão de saber quais são.a vida ou actividade jurídica. em si mesma. . • Num sentido técnico-jurídico – são os modos de formação (são perspectivadas como um processo.as instituições. num determinado ornamento. . antes são expressão dessa mesma ordem. ou seja. .as fontes de direito. isto é. são possíveis duas posições: • Uma posição normativista. as regras juridicas não compõem a ordem jurídica. • O direito constitui-se através do costume. a ordem jurídica é mais do que um conjunto de regras juridicas nela existentes. através de uma prática reiterada que é observada na sociedade com a convicção de que ela corresponde a um dever ser. . isto é. a ordem jurídica reconduz-se ao conjunto de regras juridicas. como o direito subjectivo. • Num sentido sociológico – são as circunstancias histórico-sociais que motivaram a produção de determinadas regras juridicas.as situações juridicas. • Uma posição não normativista. comporta ainda outras elementos além dessas regras. pelo que a soma das regras juridicas constitui a ordem jurídica. pelo que as regras juridicas são apenas um dos componentes da ordem jurídica. De acordo com a posição não normativista de Oliveira Ascensão. através do processo que condução à formação de regras juridicas) e de revelação (são consideradas como um resultado.os órgãos. como o resultado de formação de regras juridicas) das regras juridicas. Quer dizer: a ordem jurídica é um envolvente que dá origem às regras juridicas. • O direito forma-se através das decisões proferidas pelos tribunais na apreciação dos casos concretos. pelo que estas regras são realidades normativas que dão expressão a uma realidade normativa mais vasta que engloba: . Ordem jurídica e regras juridicas: Relativamente às relações entre a ordem jurídica e as regras juridicas. • Num sentido orgânico – são os órgãos que produzem as regras juridicas. é um complexo de regras juridicas.

Por isso.Nalguns casos. não parece aceitável que a ordem jurídica possa ser mais do que um conjunto de regras que brotam das fontes de direito e que regulam as instituições. Daniel Filipe Bento Marques 17 . dos órgãos e da vida jurídica. Imperatividade do direito: A ordem jurídica é uma ordem normativa e tal como todas as demais uma ordem imperativa. Essa ordem impõe uma sanção para a violação do dever ser. pelo que o direito não pode ser confundido com a regra jurídica. pelo que coage os agentes a respeitarem o direito. Não há qualquer espaço da ordem jurídica que não seja ocupado por regras juridicas. Tudo o que é feito na ordem jurídica decorre da aplicação de regras juridicas ou desencadeia a aplicação de regras juridicas. A ordem jurídica estabelece um determinado dever ser e espera que os agentes actuem de acordo com esse dever ser. o direito pode querer atingir o próprio agente. portanto. Coacção e coercibilidade: A imposição de uma sanção ao agente que viola o dever ser mostra que a ordem jurídica é uma ordem coactiva. a coercibilidade é a susceptibilidade de impor pela força o cumprimento da sanção. mas a regra que deve ser extraída do direito e das respectivas fontes. o ponto de partida é sempre o direito e nunca a regra.Noutros casos. o que está fora das regras juridicas não é direito. A coacção exprime-se na imposição de uma sanção ao agente que viola uma regra jurídica. . regem os órgãos. o direito limita-se a atribuir um certo desvalor ao acto jurídico que foi realizado. coactiva e coerciva. Isto coloca a questão de saber o que sucede quando o dever ser determinado pela regra jurídica não é observado. Portanto. Características da ordem jurídica: . Permite concluir que a ordem jurídica é simultaneamente uma ordem imperativa. sem negar o papel das instituições. uma das consequências da imperatividade do direito é a atribuição de um desvalor ao acto antijurídico. pelo que outra das consequências da imperatividade é a imposição e aplicação de uma sanção àquele que violou o direito. mas nãodireito. A coercibilidade manifesta-se na efectivação da sanção que é imposta ao agente que infringiu uma regra jurídica. Estabelecida a sanção que corresponde à violação do dever ser. é ainda necessário que essa sanção seja efectivamente aplicada. A da ordem jurídica orienta pelos seguintes parâmetros: . O que não abrangido por regras juridicas constitui o “espaço livre do direito” ou a “zona de metajuridicidade”. para a formação e aperfeiçoamento do direito. alimentam a vida jurídica ou definem as situações juridicas.há que distinguir a imperatividade. a coacção e a coercibilidade: • • • A imperatividade manifesta-se na prescrição de um dever ser e na reacção contra a violação desse dever ser.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Critica: Não é o direito que deve ser extraído da regra. comina a aplicação de uma sanção ao autor do acto.

. por isso. nº 1. . Uma só conduta pode originar vários tipos de responsabilidade. por. CC. pelo que nem tudo o que eles fazem pode ser valorado pelo direito. isso. CC). Objectos dos desvalores: Podem incidir sobre condutas ou sobre actos jurídicos que decorrem dessas condutas. É a prática de um acto ilícito que implica responsabilidade civil. • A ineficiência lato sensu é um desvalor dos próprios actos jurídicos. disciplinar.Invalidade. a anulabilidade tem de ser arguida pelos interessados num determinado prazo e é sanável pelos interessados mediante confirmação ou ratificação – menos grave).Inexistência jurídica. Desvalores dos actos jurídicos: Ineficácia lato sensu: é a insusceptibilidade de um acto jurídico produzir efeitos jurídicos. considera-se que nada existe (art. 1628. é invocada a todo o tempo e pode ser conhecida oficiosamente pelo tribunal – mais grave) e de anulabilidade (decorre da violação de interesses menos relevantes. A ineficácia lato sensu comporta as seguintes modalidades: . contra-ordenacional ou penal do agente. Os valores jurídicos negativos são os seguintes: ilegalidade. ilicitude.Ineficácia stricto sensu. Comporta as modalidades nulidade (decorre da violação dos interesses mais relevantes. Ilicitude: É a desconformidade de uma conduta com o direito que é passível de um juízo de censurabilidade assente na culpa do agente. É um desvalor com algum carácter residual e por isso com pouca expressão na ordem jurídica. Desvalores de conduta: Ilegalidade: É a contrariedade de uma conduta ao direito. de uma conduta resulta um acto jurídico sendo a esse acto que é cominado o desvalor de ineficiência. alínea E. Inexistência jurídica: É a forma mais grave da ineficácia lato sensu. Assim.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Desvalores jurídicos: A actuação dos sujeitos jurídicos tem certos limites. Exemplo: art. em concreto: • A ilegalidade e a ilicitude são desvalores de condutas que decorrem da infracção de normas de comportamento. 483. Daniel Filipe Bento Marques 18 . Invalidade: É a desconformidade do acto com o direito menos grave do que a inexistência jurídica. ineficiência lato sensu. Juridicamente.

Finalidade de restituição. quando as sanções visam impor uma pena ao infractor. . em concreto: . Daniel Filipe Bento Marques 19 . A regra sancionatória e a regra de comportamento distinguem-se apenas pelos respectivos destinatários directos: a regra sancionatória dirige-se ao órgão ou entidade que tem que aplicar a sanção. nem valido. Esta separação entre as normas de comportamento e as regras sancionatórias não parece aceitável. porque. no entanto.Finalidade repressiva. Surge na maior parte dos casos como uma situação de inoponibilidade de um acto (existente e válida) a certas pessoas. unanimidade sobre qual seja esta regra jurídica: • Pode entender-se que a sanção decorre de uma regra autónoma (definem a conduta que é obrigatória ou proibida e outras regras). de toda a regra sancionatória é possível extrair qual o comportamento devido. complementar ou subsidiária . porque toda a regra sancionatória contém igualmente uma norma de comportamento. Regras sancionatórias: A sanção é um efeito jurídico definido por uma regra jurídica. Sanções juridicas: É o meio a que o direito recorre para impor o cumprimento ou evitar o incumprimento de uma regra jurídica: esse meio é normalmente a imposição de uma desvantagem ao infractor da regra. ou seja. quando as sanções procuram obstar à violação do direito. As sanções podem prosseguir as seguintes finalidades: . mas também pode consistir na atribuição de uma vantagem a quem observou a regra. . Não existe. a regra de comportamento. . quando as sanções visam reconstruir a situação que existia antes da violação das regras. Assim.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ineficácia stricto sensu: O acto pode não ser nem inexistente. todos os membros da sociedade a procurar evitar a violação da regra. A sanção manifesta a reprovação da ordem jurídica perante a conduta anti-jurídica e anti-social do infractor. todas as sanções prosseguem igualmente uma finalidade preventiva. em geral. mas meramente ineficaz. • Pode igualmente entender-se que não há qualquer diferença entre as regras sancionatórias e as normas de comportamento.A norma de comportamento define a conduta obrigatória ou proibida.A regra sancionatória determina a sanção aplicável no caso de violação da norma de comportamento. já que o receio da sua cominação conduz o potencial violador e. quando aparece separada da regra sancionatória. para a ordem jurídica não é indiferente que o agente opte por observar a regra ou sujeitar-se à sanção.determinam a respectiva sanção na hipótese de desrespeito do comportamento devido. Independentemente de terem uma finalidade repressiva ou de restituição. dirige-se ao agente da conduta. no sentido de que toda a regra sancionatória é também uma norma de comportamento.Finalidade preventiva.

Reintegração ou restituição da posse (aquele que tiver sido desapossado de um bem tem o direito de ser reintegrado na sua posse até se determinar a titularidade do direito (art. a situação que existiria se o agente não tivesse violado o direito. Sanções negativas: As sanções negativas comportam os seguintes tipos: sanções preventivas. CC). 1278. CC). compulsórias. compensatórias e punitivas. podem ser referidos os seguintes exemplos: art. • Quando a reconstituição natural seja excessivamente onerosa para o devedor. Ex. CC).: . 483º e 496º/1 CC). Sanções compulsórias: são aquelas que se destinam a levar o infractor a adoptar. reconstitutivas.Execução especifica (consiste em obter. Do disposto no art. .Reconstituição natural ou indemnização especifica (é a forma de reparação de um dano através da reposição do lesado na situação que existiria se a lesão se não tivesse verificado (art.: 483º/1 CC). . Operam através da imposição de uma obrigação de uma indemnização do lesado que fixado em dinheiro. através do recurso ao tribunal. danos provocados em bens que podem ser economicamente avaliados (ex. o comportamento devido. Exemplos: . Sanções compensatórias: são aquelas que se destinam a colocar numa situação equivalente àquela que existiria se não tivesse ocorrido a violação do direito. 566º CC resulta que as sanções compensatórias são subsidiárias das obrigações reconstitutivas. dado que a indemnização só é fixada em dinheiro nos seguintes casos: • Quando a reconstituição natural não seja possível. Sanções reconstitutivas: são aquelas que se destinam a reconstruir a situação que existiria sem a violação da regra jurídica. ou seja. 934º CC. (direito de retenção – art. Não dispensam a colaboração volitiva do infractor no cumprimento da regra.: art. a prestação a que o devedor está obrigado.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Modalidades das sanções: As sanções podem ser positivas ou premiais (são aquelas que atribuem uma vantagem a quem observa a regra jurídica) e negativas (são aquelas que atribuem uma desvantagem ao infractor ou transgressor da regra jurídica). danos resultantes da lesão de bens sem expressão económica (ex. • Danos patrimoniais. depois de a infracção já ter sido cometida.No âmbito civil. 754.No âmbito geral. Ex.: 827º e 828º CC). 781º. . a Liberdade Condicional. A indemnização em dinheiro pode reparar os seguintes danos: • Danos não patrimoniais ou morais. • Quando a reconstituição natural não repare integralmente os danos. 20 Daniel Filipe Bento Marques . ou seja. 562. isto é. Têm por finalidade atribuir ao lesado um sucedâneo dessa mesma situação. Sanções preventivas: são aquelas que visam prevenir a violação futura do direito.

isso sucede. . em especial: . CC). contra-ordenacionais ou criminais: • As penas civis são aquelas que valem no domínio do direito civil. aquela que é regulada pelo direito canónico atribui à Igreja o direito originário e próprio de punir com sanções penais os fiéis delinquentes. 1604. por exemplo. de multa.No âmbito das instituições.402ºCC). • A pena criminal é aquela que é aplicada ao agente do crime. Normalmente. Imperatividade não coactiva: Em casos excepcionais. Um dos raros exemplos encontra-se mas obrigações naturais. Coacção física: Possibilidade de aplicação de sanções com expressão física é uma característica da generalidade das ordens juridicas. • A coacção manifesta-se na imposição de uma sanção no caso de violação do dever ser. consiste num montante pecuniário que deve ser pago pelo infractor. As dívidas de jogo constituem um dos raros exemplos de obrigações naturais (art. pelo que também importa considerar as situações em que a imperatividade não é acompanhada da aplicação de sanções com expressão física. mas há alguns casos excepcionais em que isso não sucede (imperatividade não coactiva). Coacção não física: nem todas as sanções implicam o recurso à força. CC. • Uma pena disciplinar é aquela que corresponde a uma infracção disciplinar e que é aplicada por entidades providas de poder disciplinar. Imperatividade e coacção – a distinção entre imperatividade e coacção é a seguinte: • A imperatividade exprime-se na prescrição de um dever ser.Aquela na qual a coacção se traduz na aplicação de sanções com expressão física. . a imperatividade é acompanhada da definição de uma sanção (imperatividade coactiva). como. mas não existe qualquer sanção aplicável na hipótese da sua violação. CC. disciplinares. art. mas o seu cumprimento não é judicialmente exigível (art. Imperatividade coactiva Circunstancia de a coacção se manifesta na aplicação de uma qualquer sanção não impede que se considere separadamente duas situações: . 1913.Aquela na qual a coacção significa a aplicação de sanções sem expressão física. art. 2034. nas quais se justificam apenas sanções de carácter institucional. pelo que se trata de uma imperatividade não coactiva: está definido um dever ser. Daniel Filipe Bento Marques 21 . Estas obrigações fundam-se num mero dever de ordem moral ou social e correspondem a um dever ser de justiça. 1245. • A pena contra-ordenacional é a coima. podem ser dados os seguintes exemplos de penas civis: art. a imperatividade não é acompanhada de qualquer sanção. pode ser uma pena de prisão. alínea A.Em algumas ordens juridicas. de prestação de trabalho a favor da comunidade e de admoestação. CC. as penas podem ser: civis. Atendendo ao respectivo domínio de aplicação.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Sanções punitivas: consistem na imposição de uma pena ao infractor ou transgressor do direito.

Em concreto. Coerção sobre coerção: Se alguém está sujeito à coerção. Problema da coerção: as regras de coerção podem impor um comportamento ao agente a quem compete impor a coerção e portanto podem ser violadas por esse mesmo agente o que origina a aplicação de uma sanção a esse sujeito. pode afirmar-se o seguinte: . A coerção é o uso da força na aplicação de uma sanção jurídica.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Imperatividade e coercibilidade: A coercibilidade é a susceptibilidade de aplicar uma sanção jurídica pela força.Quando a sanção tiver expressão física conduz necessariamente ao uso da coerção contra o infractor. Este monopólio tem um duplo sentido: • Num sentido positivo. mas aplicar. Coacção sem coerção: Certas ordens juridicas não comportam coerção: é o caso do direito canónico. . mas se essa própria autoridade estadual está sujeita à coerção. coage-se o agente a actuar de certa forma sob a ameaça da aplicação de uma sanção. Nas sociedades modernas. uma sanção jurídica. Daniel Filipe Bento Marques 22 . Torna-se igualmente claro que a coacção pretende levar o agente a orientar a sua conduta pelo direito e que a coerção só actua quando agente viola a regra.Quando a sanção não tiver expressão física. a coacção não é necessariamente acompanhada pela coerção contra o infractor. A coerção só conduz à aplicação de uma regra jurídica quando a sanção a aplicar for uma sanção preventiva ou compulsória. esse monopólio significa que o Estado se substitui a qualquer outra entidade no uso da força que é necessário à coerção.Primeiro. . define-se a sanção. Coerção e poder: A coerção pressupõe o exercício do poder do uso da força. Coacção com coerção: Dado que a coacção resulta da imposição de uma sanção e a coerção consiste na aplicação dessa sanção pela força. ou seja. esse poder compete ao Estado.Depois recorre-se à coerção para aplicar a sanção ao agente que infringiu a regra jurídica ou que importa acautelar que não viole o direito. • Num sentido negativo. compete a uma autoridade estadual o exercício do poder de coerção. que reivindica o monopólio do uso da força. A coerção nunca visa impor o respeito de uma regra jurídica. pode concluir-se que a coação é completada pela coerção. se necessário pela força. cabe perguntar a quem cabe exercer esse poder coercivo. O problema pode ainda tornar-se mais complicado quando a sanção recair sobre o próprio Estado e for sobre este que deverá incidir a coerção. esse monopólio significa que o Estado não tolera que qualquer outra entidade possa usar a força para exercer a coerção. nomeadamente para impor o cumprimento de sanções com expressão física. Importa considerar quanto às relações entre a coacção e a coerção as seguintes situações: . dado que a ordem jurídica canónica não comporta qualquer autoridade que possa exercer a coerção.

Os elementos que atribuem carácter unitário e coerente ao sistema jurídico – princípios jurídicos. essas modalidades são quatro: • Estado de necessidade – situação de constrangimento em que fica quem sacrifica coisa alheia com o fim de afastar um perigo actual de um prejuízo manifestamente superior. 336. Costuma dizer-se que estas situações são particularmente frequentes nas sociedades primitivas. Contudo. Ordem jurídica e sistema jurídico: Sistema Jurídico – é um sistema unitário e coerente de regras juridicas que se distingue dos outros sistemas por um critério próprio de pertença das regras que o compõem.Hetero-tutela (aquela que é realizada por uma entidade que não o titular do direito subjectivo). Assim sendo. . CRP. mais concretamente aqueles que são referidos no art. . Daniel Filipe Bento Marques 23 .Os elementos que compõem o sistema jurídico – regras juridicas.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ordem jurídica e a tutela jurídica: O ornamento jurídico português admite dois tipos de tutela jurídica: . Auto-tutela jurídica: Às situações de tutela opõem-se as situações de auto-tutela. Dentro do sistema jurídico temos três conceitos para analisar: .Os elementos que atribuem carácter de pertença de uma regra jurídica ao sistema jurídico – critério da verdade. Actua-se por iniciativa própria e como meio de defesa para afastar um perigo que pode ter variada proveniência. Art. 21. com justificação especial. Art. CC. desde que na agressão e na defesa se verifiquem os requisitos que a lei enumera: agressão actual e ilícita. quando se verifica a impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais e desde que o agente use da força apenas na medida necessária para evitar o prejuízo. CC • Legitima defesa – situação em que se considera justificado o acto destinado a afastar qualquer agressão dirigida contra o agente ou terceiro. • Direito de Resistência – reacção contra uma agressão aos direitos. os casos em que se admite auto-tutela são situações muito particulares. sejam eles tribunais estaduais ou arbitrais. • Acção directa – situação em que se considera justificado o recurso à força com o fim de preservar ou realizar o próprio direito. Art. liberdades e garantias dos seres humanos. defesa necessária e proporcional. Os tribunais arbitrais podem ser voluntários (tribunais constituídos por particulares aos quais estes recorrem mediante acordo prévio entre as partes) e necessários (são aqueles que a lei impõe – situação não muito frequente). certo é que a evolução histórica fez permanecer a hetero-tutela sobre a auto-tutela. . Qualquer titular de direitos subjectivos pode recorrer aos tribunais para assegurar os seus direitos. CC.Auto-tutela (aquela que é realizada pelo próprio titular do direito subjectivo) Hetero-tutela: Quando se fala em hetero-tutela está-se a falar da tutela realizada através dos tribunais estaduais (órgão imparcial e independente). CRP. 202. 339/1. mas nunca a agressão de outrem. 337. Art.

sendo um instrumento para obter este fim.Se tentarmos fundamentar a validade do sistema jurídico através da validade das regras juridicas que se compõem. na medida em que definem o plano pelo qual se orientam as condutas que são permitidas. proibidas ou obrigatórias para se atingirem esses fins e objectivos. é possível concluir que na ordem juridica existem determinados valores que são absolutos. uma vez que têm uma estrutura semelhante à das regras juridicas. • Princípios Jurídicos Materiais – concretizam os fins e objectivos definidos pelos princípios formais. os princípios jurídicos são sempre algo com diferentes consagrações. são sempre relativos. Como tal. pois para que o sistema jurídico seja válido é necessário que comporte regras válidas. Critério da validade: É um conceito jurídico fundamental. isto é. para tal é necessário conjugar dois pressupostos: competência do órgão que emite a regra. e uma relação de permissão. uma relação de proibição. relação essa que pode ser uma relação de comando.Principio da Justiça que concretizam-se em dois sub-princípios: Principio da igualdade (art. Daniel Filipe Bento Marques 24 . observância do próprio procedimento legislativo. o facto ou situação da qual se pressupõe a aplicação da norma.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Regras jurídicas: São enunciados que se extraem das fontes de direito. pois agora trata-se de justificar com o sistema jurídico é válido na sua globalidade e não através das suas regras. . são princípios-regra. 13/2. . Princípios jurídicos: Enunciados valorativos uma vez que os princípios encerram sempre uma valoração.Princípio da eficiência – o sistema jurídico deve procurar obter a melhor organização social com o menor dispêndio de recursos.Se tentarmos fundamentar a validade do sistema jurídico na sua própria globalidade a resposta é mais complexa. o que está em causa é saber se essas regras são válidas. As regras juridicas comportam três elementos: • Previsão – elementos da regra da qual derivam duas coisas: o destinatário da própria regra. conduz-nos a uma outra conclusão: os valores absolutos da ordem juridica não são princípios porque não são susceptíveis de serem relativizados. A validade do sistema jurídico pode ser analisada através de duas perspectivas: . CRP) e o principio da proporcionalidade (os meios utilizados devem ser adequados e proporcionais aos fins que se pretende atingir ou realizar). . • Estatuição juridica – elemento da norma que define o próprio efeito jurídico que decorre da aplicação da norma. Existem três ideias fundamentais que correspondem aos princípios formais: . uma vez que definem que o legislador deve procurar atingir. Tendo em conta esta conclusão.Principio da Segurança juridica . Estes podem distinguir-se em • Princípios Jurídicos Formais – definem determinados fins e objectivos.o sistema jurídico deve conferir confiança e previsibilidade. São enunciados de valor destinados à optimização da organização social. São susceptíveis de serem consagrados na ordem juridica com valorações diferentes. • Operador deôntico – elemento da norma que define a relação entre previsão e estatuição. São princípios-valor.

na sua falta. que exista uma aplicação das normas ao caso concreto e que se verifique uma abertura do sistema jurídico a outros sistemas. Resolução de contradições entre regras juridicas: O sistema jurídico não pode comportar normas contraditórias pois para serem contraditórias é porque uma delas há-de ser inválida ou deixou de vigorar. a relevância do pensamento do Direito enquanto sistema para o próprio Direito: . ele é um sistema aberto que recebe a influência de outros sistemas normativos. Aplicação das normas ao caso concreto: O que está em causa é a relevância do pensamento sistemático.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Unidade do Sistema Jurídico: Para a unidade do sistema jurídico contribuem fundamentalmente. Aqui se faz referencia a uma característica do sistema jurídico: o seu carácter autopoiético (este carácter advém de duas ideias: a competência para elaborar regras juridicas consta de outras regras juridicas. como tal para assegurar o sistema jurídico seja uno é necessário que se verifique a resolução das contradições entre regras juridicas. os princípios jurídicos pois o que com eles for coerente é também coerente com o sistema assegurado. a própria validade das regras é aferida em função de outras regras). .Interpretação da lei (art. CC): a aplicação da norma tem que ser coerente com outras aplicações. A unidade do sistema jurídico decorre da sua perspectivação prática. Os princípios jurídicos são hierarquicamente superiores às regras juridicas. como tal. 9/1. 10. do seu próprio funcionamento. pelo contrário. CC): para integrar lacunas o primeiro critério é o da analogia. • Prevalência da regra especial sobre a regra geral. • Prevalência da regra posterior sobre a regra anterior. mantendo o sistema jurídico uno. o segundo critério é a coerência dentro do sistema jurídico. isto é. . CC): quando se interpreta a lei deve-se ter em conta que o resultado tem de ser coerente com o sistema jurídico. a sua unidade. 8/3.Orientação dada pelo legislador (art. que as regras juridicas sejam produzidas com base noutras regras.Integração de lacunas (art. isto é. Abertura do sistema jurídico a outros sistemas normativos: O sistema jurídico não é um sistema fechado que não comunica com outros sistemas normativos. Existem três regras para a resolução de conflitos entre regras juridicas: • Regra de hierarquia superior prevalece sempre sobre a regra de hierarquia inferior. assim. o critério de interpretação da lei baseia-se na unidade do sistema. Encontramos essas manifestações quando o sistema jurídico utiliza conceitos indeterminados (boa-fé e os bons costumes que pertencem à ordem moral) que necessitam de valoração e que são conceitos pertencentes a outras ordens normativas. Daniel Filipe Bento Marques 25 . Produção das regras juridicas com base noutras regras juridicas: Do próprio sistema jurídico se produz Direito e disso se pressupõe que o Direito que é produzido pelo sistema jurídico é produzido segundo as suas próprias regras.

mas os principais são três: 1. Critério da qualidade dos sujeitos: Seria público o direito que regulasse situações em que interviesse o Estado. Critério do interesse: O Direito Público visará à satisfação de interesses públicos e o Privado à satisfação de interesses privados. passa a estar dependente de difíceis e arriscadas valorações sobre o interesse que em cada caso se apresenta como prevalente. 3. Mas este critério é insustentável. É certo que se procurou reformular este critério. Só nos interessa porém acentuar que estes dois pontos de vista estão na origem das concepções fundamentais sobre o critério desta classificação. Não é pelo facto de os entes públicos celebrem compras e vendas. o direito que regulasse as situações dos particulares. por exemplo. privado. que as respectivas regras deixam de ser Direito Privado e passam a ser Direito Público. Este critério é também inaceitável. O Direito Privado não pode ser considerado o direito dos egoísmos individuais. 2.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Direito Público e Direito Privado: O Direito Público é definido por respeitar à organização do Estado e a disciplina da sua actividade. O Estado e os demais entes públicos podem actuar nos mesmos termos que qualquer outro sujeito. São ambos indispensáveis e entre si complementares. ou essencialmente. O Direito Privado é definido por respeitar à utilidade dos particulares. os interesses particulares são protegidos porque há um interesse público nesse sentido. Mas então. nas mesmas condições de prevalência. servisse interesses privados. O interesse público corresponde. ou em geral qualquer ente público. Daniel Filipe Bento Marques 26 . como o Direito Público não pode ser considerado o direito das relações de dominação. aos interesses particulares. a prossecução de interesses públicos. dizendo-se que direito público seria aquele que servisse predominantemente. a determinação dos ramos do Direito. que é uma operação pragmática destinada a permitir o estudo em melhores condições do material jurídico. pelo menos indirectamente. o Direito Público será o que constitui e organiza o Estados e outros entes públicos e regula a sua actividade como entidade dotada de Ius Imperii. Critério da posição dos sujeitos: Segundo este critério. De facto. utilizando as mesmas armas que os particulares. Direito Privado é o que regula situações em que os sujeitos estão em posição de paridade. Este nos parece o critério que mais útil e correctamente explica a divisão tradicional. e direito privado o que. defrontam-se dezenas de critérios.

São depois retomadas pelos ramos institucionais do direito.Direito das Sucessões. só é crime o que a lei diz e aí encontramos a definição das consequências).Direito das Obrigações.Direitos Reais. • Direito Processual (conjunto de normas jurídicas que regulam o processo. desde que não tenha por objecto actos de comércio): . ou submetidos aos fins de uma instituição. . é um direito tipificado. ou seja. • Direito Penal (determina os pressupostos do crime. Direito Comum e Direito Institucional: No ponto de vista cientifico: deveriam dividir-se os ramos do direito em ramos de direito comum e ramos de direito institucional. e aí adaptadas de modo a servirem finalidades específicas.Direito da Família. . as matérias que estudamos nesta introdução são de direito comuns. • Direito Contra – Ordenacional (direito sancionatório – a consequência e a aplicação de uma coima). no sentido mais utilizável da expressão. E é de direito comum o que respeita à Teoria Geral do Direito Civil. Assim. • Direito Internacional (direito relacionado com o uso de instituições). determinam o conjunto de formalidade que devem ser desenvolvidas em tribunal para a resolução de um litígio). Ramos do Direito Privado: (distingue-se em direito privado comum – Direito Civil – e especial – todos os outros que não são direito civil). e assim por diante. o Direito Público é afinal o direito que regula a instituição Estado. A figura da instituição apresenta-se como decisiva. estabelecem antes princípios técnicos que podem ser aplicados independentemente.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Ramos do Direito Público: • Direito Fiscal (regula a criação de impostos e a sua recolha). • Direito Privado Especial: . bem como as relações patrimoniais que estabelecem entre si.Direito Comercial (conjunto de normas que regulam as relações entre os indivíduos enquanto comerciantes e que tem por objectivo actos do comércio). Os vários ramos do direito podem referir-se ou não a instituições. • Direito Civil (conjunto de normas que regulam os direitos das pessoas como particulares. • Direito Comum (regula matéria fora de qualquer instituição). .Direito do Trabalho (conjunto de normas que regulam as relações do trabalho subordinado perante outrem). isto é. . Assim. o Direito da Família regula a instituição familiar. Daniel Filipe Bento Marques 27 . Grande número de regras não estão por si ligadas a nenhuma instituição em particular.

Critério quanto à eficácia: • Fontes mediatas (são fontes de direito porque outras fontes do direito classificam-nas como tal. São elaboradas pela ordem jurídica portuguesa). um facto não voluntário. Daniel Filipe Bento Marques 28 .: Regulamentos da União Europeia. Ex. Não é Fontes do Direito: Doutrina – trabalho dos jurisconsultos sobre a lei e as disposições legais. 3º/1 CC – usos). Critério quanto à sua origem: • Origem interna (ex. • Origem externa (ex. nem no direito privado. Art. Sentido Sociológico – circunstâncias histórico – sociais que mantiveram a produção de uma determinada regra jurídica.: art. Referimo-nos ao Direito Internacional Público e ao Direito dos Organismos Intermédios.: lei feita pela a Assembleia da República. • Não intencionais ou involuntárias (tem na origem um facto jurídico. nem no direito público. Sentido orgânico – órgãos que produzem as regras jurídicas. pois não cabem de toda a maneira. Continuaremos a falar de Direito Público e de Direito Privado e a distinguir os vários ramos por referência àquela divisão fundamental. Jurisprudência – actividade exercida pelos tribunais para a resolução de casos concretos. • Fontes imediatas (são fontes de direito por si próprias. São incorporadas na ordem jurídica portuguesa). Ex. Sentido técnico – jurídico – modos de revelação das regras jurídicas. Espécies de fontes – critérios: Critério do modo de formação das fontes: • Intencionais ou voluntárias (tem por base um acto jurídico). a chamada classificação germânica das relações jurídicas. Dois ramos porém terão de ficar de fora. 1º CC – leis e normas corporativas). Fontes do Direito: Sentido Histórico – corresponde aos antecedentes históricos do direito vigente. Isso levará por arrastamento a que utilizemos na subdivisão do direito privado um critério pouco científico.: Costume).Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito No ponto de vista pragmático a posição é diferente.

. Não é fonte de direito porque não é obrigatória. Não é fonte de direito porque. Desta forma garante-se a igualdade para julgar casos análogos. Fontes de Direito no ordenamento Jurídico Português: Fontes externas: • Direito Internacional Público Geral/Comum: regula as relações entre os Estados. • • Daniel Filipe Bento Marques 29 .Direito Comunitário Derivado: direito comunitário produzido pelas próprias instituições comunitárias (Conselho Europeu. Áreas importantes da jurisprudência: • Adaptação dos textos legais à actualidade. boa fé). Quando os tribunais decidem constantemente casos idênticos de forma igual. sendo a equidade a justiça dos casos concretos não possui as características da generalidade a da abstracção das normas jurídicas. de forma diferente se assim o decidir. Parlamento Europeu…): * Regulamentos: tem um carácter geral e são directamente aplicados e obrigatórios por todos os ordenamentos jurídicos dos Estados Comunitários. . . caso se vier uma decisão por via de recurso.Doutrina dos juristas prestigiados de vários Estados. . • Concretização dos conceitos indeterminados (ex. São fontes de Direito Internacional Público: . NOTA: como não é fonte de direito. Comissão Europeia.): . Poupa os trabalhos aos tribunais e há segurança jurídica porque as decisões são previsíveis e há também uma interpretação e integração uniforme da jurisprudência.Princípios Gerais do Direito (art. O tribunal fixa a jurisprudência para casos semelhantes. 8º/1 CRP).Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Jurisprudência constante – espécie de modelo para outras decisões análogas.8º/1 CRP). Fontes de origem comunitária (U. Equidade – justiça dos casos concretos.Decisões judiciais (jurisprudência). É o tribunal de justiça a quem compete a uniformização da jurisprudência para os tribunais inferiores.: juízo manifestamente superior. • Preenchimento de lacunas.Costume Internacional.8º/4 CRP).E. Direito Internacional Público Convencional: são fontes do direito as Convenções Internacionais (art. Jurisprudência uniformizada – mecanismos que pretendem uniformizar a própria jurisprudência. costumes. qualquer tribunal pode decidir casos semelhantes.Direito Comunitário Originário (art. Não é fonte de direito porque não é obrigatória.

quanto ao resultado.Decretos regulamentares. Regras concretas e individuais (lei que atribui competência para a regulamentação de determinada matéria – A. Em princípios. Lei em sentido formal e não material: lei da Assembleia da República que eleva à categoria de cidade ou de uma vila. Costume e normas corporativas) • Lei – enunciado linguístico que contém regras jurídicas. 112º CRP.: actos normativos emanados pelo Governo que têm o objectivo a boa execução das funções administrativas (199º/C CRP).Portarias. Pode não vincular em todos os Estados – membros. mas apenas no Estado – membros destinatário. * Decisões e Pareceres: não são vinculativos Fontes internas imediatas: (lei. Lei em sentido material – qualquer enunciado linguístico que contém regras jurídicas gerais e abstractas. são gerais e abstractas. atribui competência ao Governo para legislar em determinada matéria). regulamentos das Autarquias Locais – têm competência administrativa e não legislativa e encontram-se consagrados no art. . Actos regulamentares do Governo: . Os órgãos com competência são o Governo e a Assembleia da República.Decretos. Exige que tenha uma regra jurídica emanada por um órgão com competência legislativa e no exercício dessa mesma competência legislativa. 112º CRP. Ex. decreto – lei do Governo. Ex.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito * Directivas: têm de ser transpostas pelos Estados – Membros para vigorarem nos ordenamentos jurídico interno.R. Estão consagrados no art. Actos normativos – dois tipos: • • Actos legislativos – só podem ser praticados por um órgão com competência legislativa. ou na sua maioria. mas existem regras que não o são. Actos regulamentares – decorre de uma competência administrativa. Lei em sentido material e formal: lei da Assembleia da República. .: Regras concretas e genéricas (Estado de Sitio). Lei em sentido formal – lei que emana/provém de um órgão que tem uma função legislativa (acto legislativo). Quanto aos meios e à forma deixa encarregue aos Estados. Daniel Filipe Bento Marques 30 . Lei em sentido material e não formal: decreto regulamentar do Governo.

É o elemento fáctico do costume. Daniel Filipe Bento Marques 31 . 234º. Costume Secundem Legem – costume segundo a lei. .Regulamento de avaliação da Faculdade.) /jurisdicidade (T. mas vai além dela. 1359º CC). Tem por objecto matérias que a lei não regula. Não é acompanhada da convicção de obrigatoriedade e jurisdicidade ao contrário do costume. (218º.Regimentos (definem o modo de organização e funcionamento de um órgão colectivo). Costume – prática reiterada com convicção de obrigatoriedade e jurisdicidade. Pertence à ordem do dever ser.Posturas.Instruções (actos de carácter administrativo que regulam a organização administrativa).Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Actos regulamentares produzidos pelas Regiões Autónomas: . . É fonte mediata do Direito na medida que a lei assim o permita. Costume Prater Legem – o costume não contraria a lei.Desaparecimento do uso.Estatutos da Universidade de Lisboa. . NOTA: a Jurisdicidade necessita da tutela jurídica a quem viole normas jurídicas através da aplicação de sanções jurídicas.Despachos. .Apesar de haver o uso e a convenção social. Extinção do Costume: . moral). 1121º.). A convicção de obrigatoriedade é suficiente para outras ordens jurídicas (social.Elemento fáctico: uso (prática social reiterada = fonte mediata). Uso – prática social reiterada. A regra consuetudinária coincide com a lei.Desaparecimento da convenção social. Dois elementos: .A. . . .Elemento normativo: convicção de obrigatoriedade (O. Actos regulamentares da Administração indirecta: . Costume que contempla a lei. . Não coincide mas completa. Costume Secundem Legem – existência de oposição/contradição entre a norma costumeira e a norma legal. Não exige a aprovação da tutela jurídica.S. desaparece a aprovação judicial. ao contrário da convicção de jurisdicidade.Avisos do Banco de Portugal.

Pelo contrário. alínea E.Acórdãos com força obrigatória geral (281º/1 e 3 CRP). 885º/2. há uma grandeza meramente negativa. 277º/1. Inexistência jurídica: É a forma mais grave da ineficácia lato sensu. Só cessará se se criar a convicção de que é lícito de se proceder assim. Jurisprudência normativa: . pois há também um negócio enérgico repúdio da lei. 1121º + 1128º CC) 2. Juridicamente. A ineficácia lato sensu comporta as seguintes modalidades: . considera-se que nada existe (art. Ora bem: o mero desuso de uma lei não importa a extinção desta. Daniel Filipe Bento Marques 32 . Ineficácia stricto sensu: O acto pode não ser nem inexistente.Invalidade.Ineficácia stricto sensu. nem valido. Invalidade: É a desconformidade do acto com o direito menos grave do que a inexistência jurídica. 234º. 3. É mais difícil de provar. Ex. por isso. Fontes mediatas: 1. Contratos normativos – instrumentos de carácter negocial que constituem/estabelecem regras jurídicas. mas é natural que actue mais energicamente. Com isso. por. se se formar um verdadeiro costume contra legem.: 3º/3. no costume contra legem há um verdadeiro costume que se opõe há regra jurídica. . Ex. Desvalores dos actos jurídicos: Ineficácia lato sensu: é a insusceptibilidade de um acto jurídico produzir efeitos jurídicos. Comporta as modalidades nulidade (decorre da violação dos interesses mais relevantes. . 1628. isso. é invocada a todo o tempo e pode ser conhecida oficiosamente pelo tribunal – mais grave. 204º.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Desuso e costume contra legem: Quando há desuso. Usos (218º. a anulabilidade tem de ser arguida pelos interessados num determinado prazo e é sanável pelos interessados mediante confirmação ou ratificação – menos grave). CC). mas meramente ineficaz. Surge na maior parte dos casos como uma situação de inoponibilidade de um acto (existente e válida) a certas pessoas. a lei não cessa a sua vigência.: Convenções colectivas de Trabalho. Só há costume jurisprudencial quando houver um número significativo de decisões naquele sentido e uma persistência considerável naquela orientação.Inexistência jurídica. portanto. 281º CRP) e de anulabilidade (decorre da violação de interesses menos relevantes.Costume Jurisprudencial – conjunto de práticas reiteradas com convicção de obrigatoriedade aplicadas pelos tribunais. . visto supor a demonstração da convicção de obrigatoriedade.

.: família. Impedimento de vigência da lei – a lei antiga nunca entra em vigor porque é publicada uma lei nova no período de Vaccacio Legis que vai impedir o início de vigência da primeira lei. ou seja. Também conhecida por ab – rogação. . . Tácita – quando resulta da incompatibilidade entre as normas da nova lei a as da lei anterior. Tipos de referências das regras jurídicas: quanto ao efeito. 282º CRP).: |--------------------| |---------------| 2. Sentido – pensamento que qualquer expressão linguística transmite.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Vicissitudes de Vigência da Lei: 1. Ex.).Costume contra legem. Substitutiva – revoga a lei antiga e entra em vigor uma nova lei e define um novo regime jurídico.: |--------------| |--------------| OU |-----------------| ----------------| Formas de revogação: Expressa – quando a lei nova declara que revoga uma determinada lei anterior. casamento. Referência – realidade extra – jurídica que se refere à linguística.. 3º do decreto – lei sobre a formação do Código Civil. .Revogação (quando uma lei que está em vigor e a uma dada altura é aprovada uma nova lei que afastará a antiga da sua vigência.Caducidade (destina-se a ter uma vigência temporária).: art. ou seja. quando é revogado todo o regime jurídico. Total – quando todas as disposições de uma lei são atingidas. Ex. Daniel Filipe Bento Marques 33 . Individualizada – atinge uma ou algumas regras jurídicas. Global – revoga todo o instituto jurídico ou todo o um ramo do Direito (ex. Parcial – quando só algumas disposições da lei antiga são revogadas pela lei nova. a uma conduta ou a um poder. Simples – revoga a lei antiga e entra em vigor uma nova lei e nada diz sobre qualquer outro regime jurídico. Ex. são apenas revogadas algumas regras da lei anterior. adopção.Declaração de inconstitucionalidade ou ilegalidade com força obrigatória geral (281º/1 e 3. OU |-------------| |-------------| Cessação da vigência da lei: . Também conhecida por derrogação.

Subjectivo (destinatário da regra). Relação entre previsão e estatuição – Causal: se se verificar um determinado facto constitui-se um determinado efeito. 198º/1. 34 Daniel Filipe Bento Marques . Leis de valor reforçado (112º/3. Pode ser uma situação jurídica -tem uma certa permanência no tempo – ou um facto jurídico – tem pouca duração no tempo). impossível ou contingente). São actos regulamentares os decretos e decretos regulamentares. Contém dois elementos: . 166º/2. Fontes Internas: • Actos Legislativos (art. proibido ou permitido. Hierarquia das Fontes de Direito: Fontes externas: (prevalecem sobre a ordem interna) • Direito Internacional Público Geral ou Comum (art. 112º/3).Impeditivas (impede um efeito ou situação jurídica – 1628º CC). 192º CC). • Actos Regulamentares. . 3. Estrutura das regras jurídicas: 1. Para além de ser um enunciado linguístico é também um enunciado normativo. São válidas ou inválidas.Constitutivas (constituem um efeito ou situação jurídica. Proposições jurídicas – é uma discrição dessa mesma regra. Definem situações jurídicas quer activas ou passivas – 1327º CC). 286º/2 CRP). 348º CC). Portarias e Resoluções do Conselho de Ministros e Despachos Normativos. 279º/3 + 280º/4 CRP). . • Direito Comunitário (art.Extintivas (extingue um efeito ou uma situação jurídica – 182º. 112º/1 CRP – prevalecem sobre os actos regulamentares).Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Regras jurídicas – define uma qualquer conduta. Previsão – elemento em que define as condições em que a regra é aplicada.Objectivo (pressuposto de aplicação da regra. Quanto ao efeito: . • Direito Internacional Público Convencional (tem de estar em conformidade com a Constituição – art. dec. Operador: Modal (refere-se a um efeito jurídico e pode ser necessário. – lei. 8º/4 CRP). Estatuição – elemento da qual se define as consequências jurídicas da sua própria aplicação. Podem ser verdadeiras ou falsas (875º. . 7º/4 CRP). 2. Relação causa/efeito. 8º/1 + ver art. Deôntico (refere-se a condutas ou poderes e pode ser obrigatório.Modificativas (modifica um efeito ou uma situação jurídica – 754º CC). 168º/5 e 6) e as Leis da Assembleia da República (166º/3. . Classificação das regras jurídicas: 1. São actos legislativos: Leis Constitucionais (166º/1.

Critérios: Função da matéria (em razão da matéria o legislador define um regime especifico dentro da regra geral): .Injuntivas (são as que se aplicam haja ou não declaração de vontade dos sujeitos nesse sentido).Especialmente referente a Ramos do Direito – ex.: Arrendamento Urbano perante a locação.Secundárias (têm como referencia outras regras. .Gerais (estabelecem um regime comum para determinada matéria). Factores territoriais – aplicado num certo território: .Especificas (definem um regime próprio.Primárias (regulam condutas ou poderes. Daniel Filipe Bento Marques 35 . . para certas situações. proibição ou imposição – 397º. 5. 3. .Regras Comuns (aplicam-se a todos) VS – Regras Particulares (aplicam-se a uma categoria de pessoas). regula a situação de certas pessoas: . Quanto à disponibilidade: . São regras sobre regras. Quanto à referência: .Incompletas (são aquelas que só podem ser aplicadas em conjunto com outras regras).Completas (são as que definem o efeito jurídico decorrente de um facto ou de uma situação jurídica).: Direito Comercial. . interpretativas ou revogatórias). 4. Podem revestir a forma de permissão. Função do Destinatário – atendendo aos destinatários. Privado. Só são aplicadas nas respectivas circunscrições territoriais). contido na regra geral.Regras nacionais (valem para todo o território nacional e é originária dos órgãos centrais do Estado) VS – Regras Regionais (Regiões Autónomas – 225º a 234º CRP) VS – Regras Locais (Autarquias Locais. Modalidades: regras de produção. .Dispositivas (são aplicadas se os destinatários declararem vontade da sua aplicação ou se o destinatário não afastar a aplicação dessa mesma regra Quanto às relações entre regras: . . 1305º CC).Especialmente referente a Institutos Jurídicos – ex. Quanto ao sentido: .Especialmente referente a regras jurídicas.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito 2.

Só são aplicáveis quando se aplicam quando se integra a respectiva previsão da regra jurídica. 1026º. •Abstracção – refere-se a uma pluralidade de factos ou situações indeterminadas. 1129º a 1141º CC). (771º. (ex. regra excepcional. Regras supletivas – encontram-se principalmente no âmbito do Direito Privado relativo à área contratual (405º/1 CC). são aplicadas as normas supletivas constantes do Código Civil. 219º refere-se ao principio da eficiência. Falsamente individuais (133º. supostamente. Se se forem de permissão referem-se a regras dispositivas.: indulto). fundamentos sub – sistémicos (decorrem de motivos de sub – sistemas jurídicos. 131º CP refere-se ao homicídio e o 136º CP refere-se ao infanticídio que é uma espécie de homicídio. Dois fundamentos: fundamentos sistémicos (decorrem de princípios comuns ao sistema jurídico na sua globalidade – art. Justiça e Eficiência. Três princípios: Segurança. Não é uma característica essencial porque existe regras individuais. 134º CRP). 2008º.: alunos de uma sub – turma). regra geral. Falsa Generalidade (dirige-se. Regras permissivas – permitem a realização de uma conduta ou o exercício de um poder. Distinção entre regras dispositivas e regras injuntivas: • São regras injuntivas. 772º/1. a uma generalidade de pessoas mas só quer atingir um só individuo ou uma pluralidade de indivíduos). enquanto o 875º ao principio da segurança. 878º CC). •Generalidade – refere-se a uma pluralidade indeterminada e indeterminável de destinatários.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Duas categorias: * Especiais – definem um regime para uma espécie que está regulado por uma regra geral. Ex. Não se pode dizer que é uma característica essencial porque existe regras concretas. Características das regras jurídicas: •Hipoteticidade ou condicionais – as normas contemplam hipóteses. 777º/1. logo. * Excepcionais – instituem um regime contrário implementado na regra geral. logo. Uma regra de factos passados não é abstracta porque refere-se a um facto passado concreto.: art. Se as partes nada estipularem. o art. aquelas que impõem um comando/obrigação ou proibição. 309º CC refere-se à regra geral enquanto o 310º CC é a regra especial. 219º refere-se novamente ao principio da eficiência e assim é a regra geral enquanto o 1143º ao principio da segurança e assim é a regra excepcional). aquelas que o próprio legislador classifica como tal (809º. Regras particulares (tem como destinatário um conjunto de pessoas. • São regras injuntivas. Ex. Daniel Filipe Bento Marques 36 . Serão pautados por princípios próprios: 27º/1 CRP é a regra geral que estabelece o Direito Liberdade enquanto o 27º/3 + o 28º/1 é a regra excepcional em determinadas circunstâncias o Direito à Liberdade é suspenso nos termos da lei). São aplicadas na falta de regulamentação sobre determinada matéria. pela vontade e estipulação dos interessados.

Presunções: 349º CC – são as ilações que a lei ou o julgador tira de um facto conhecido para afirmar um facto desconhecido. Dois tipos: . 1268º/1 CC). • São regras dispositivas. 1122º.Dispositivas as que referem a interesses das quais as partes podem dispor (1196º CC).Injuntivas as regras essenciais a um determinado regime. Regras remissíveis: Remetem para outra regulamentação jurídica/para outro regime jurídico.Definição estipulativa: um dos exemplos de definição estipulativa são as definições jurídicas que definem um determinado conceito que significa em termos jurídicos (840º. . Regras definitórias: . Assenta numa analogia entre a situação já regulada e a que vai ser regulada. Ficções legais – regras que ficcionam que duas realidades distintas são afinal idênticas (275º/2). Regras de conflito – escolhe. Daniel Filipe Bento Marques 37 . 2. • Critério Valorativo: . Dispensa regular situações que se encontrem reguladas noutros regimes jurídicos (499º + 1873º CC).Espaço: quando um determinado acto jurídico tem uma determinada conexão com outras ordens jurídicas (situação plurilocalizada). as que projectam determinados interesses das partes que elas mesmo não podem afectar (814º/2 CC). aquelas que são essenciais a um determinado regime jurídico. Modalidade de invalidade: 1. 1142º. Conflitos no espaço e no tempo: . 204º/2. . 362º). a regra a aplicar. aquelas em que o próprio legislador fixa que podem ser afastadas da vontade das partes.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito • São regras injuntivas. De um facto conhecido presumindo um facto desconhecido.Definição de dicionário: significado que a palavra ou a expressão tem no seu quotidiano.Tempo: quando se verifica sucessões de leis no tempo (12º e 13º CC). Inadmissibilidade do seu conteúdo. .Inilidiveis – não admitem que provém o contrário (350º/2 CC).Ilidiveis – todas as presunções admitem que provem o contrário (350º/1. Falta de regra de produção. Modalidades de regras remissivas: Regras de devolução – dispensa regular situações que se encontrem reguladas noutros regimes jurídicos (678º CC). entre duas ou mais regras aplicáveis. .

. Só se poderá revogar uma lei especial através de outra lei especial. Relatório explicativo – relativo às Convenções internacionais. . Art. Lei especial não revogar uma lei geral posterior.Seleccionar os elementos da interpretação. . 68º. 7º/3 CC – lei geral posterior não revoga lei especial anterior.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Regras modais – o operador de necessidade.Exemplo de efeitos necessários (66º. Interpretação jurídica – actividade através da qual se extrai a regra jurídica que está contida na fonte de direito.Actualista (sentido que a lei possui na actualidade. Três aspectos: .Comparativos (são precedentes constituídos por regras de outra ordem jurídica).Conjugar os vários elementos da interpretação para extrair a regra jurídica. ou seja. tanto pode-se produzir como não produzir-se – 287º CC). Deve prevalecer sobre a perspectiva historicista). . Acaba por ser um prolongamento da lógica modal.Histórico (situação anterior à regra). Como saber a intenção do legislador: Trabalhos preparatórios – evolução de um ante – projecto até aos projecto. nem necessários. . impossibilidade ou contingência. Daniel Filipe Bento Marques 38 .Historicista (sentido que a lei tinha no momento da sua elaboração). NOTA: • • • • Lei Geral posterior não revoga Lei Especial anterior. Elemento histórico: Occasis legis – circunstancias da elaboração da lei. Prevalece sempre a lei geral. Elemento gramatical – perspectivas: . Exposições oficiais de motivos (preâmbulos dos diplomas) – o próprio legislador expõe as suas próprias ideias sobre o que está a regular num preâmbulo. Lei Comum não revoga lei particular. São aplicadas a condutas e a poderes.Ter em conta a finalidade da interpretação. . Precedentes normativos – tudo o que constitui antecedentes da regra jurídica: . excepto se se entender que o legislador a queria revogar ou tenha dado a entender. 874º CC). . proibição ou permissão.Exemplo de efeitos impossíveis (associados a desvalores jurídicos – 875º CC). Aplicam-se aos efeitos jurídicos. Regras deônticas – o operador de comando.Exemplo de efeitos contingentes (efeitos que não são possíveis. Poderá adaptar o regime geral a uma situação concreta.

Contexto vertical (a regra deve ser interpretada segundo a sua hierarquia.Aspecto interno – relação entre a previsão (sentido coerente) e a estatuição (define um determinado efeito jurídico.contexto remoto – ligação mediata com o preceito. Na interpretação sistemática da regra deve-se ter em conta a perspectiva actualista.Aspecto externo – o que resulta do próprio ordenamento jurídico.Actualista (finalidade que se pretende realizar no momento da sua interpretação).Historicista (finalidade que se pretendeu realizar no momento em que a lei foi elaborada).Conforme a Constituição: direito infra – constitucional deve ser interpretado de acordo com os princípios constitucionais. . Pressupostos do elemento sistemático: . Elemento teleológico (permite descobrir situações de Fraude à Lei – resulta da circunstância de através de um artificio de defraudar o verdadeiro sentido da norma. Modalidades de interpretação.Actualista – integração sistemática que existe na lei actualmente.: epigrafe de um artigo – aquilo que tem ligação imediata com o preceito). Elemento material – em função da matéria. É relevante para saber o sentido que se deve dar à norma). Permite atribuir um sentido correcto às denominações.Conforme o Direito Comunitário: o Direito Comunitário derivado deve ser interpretado de acordo com o Direito Comunitário Originário. Elemento valorativo – na interpretação de um preceito legal deve ser tomado em conta o princípio valorativo que ele concretiza. . Unidade do Sistema Jurídico – nenhuma regra deve ser interpretada isoladamente. Dois tipos: . Dois aspectos: . . Lugares paralelos – regimes que regulam situações semelhantes noutros contextos. Daniel Filipe Bento Marques 39 .Contexto próximo – local onde a regra se encontra. . .A ordem jurídica deve ser coerente de acordo com as outras ordens jurídicas. Características (implica considerar o contexto da regra): .Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Elemento sistemático – baseia-se na ideia segundo o qual a ordem jurídica deve ser um conjunto coerente de princípios e regras jurídicas. .Contexto horizontal (conexão da lei com outras leis com o mesmo nível ou grau hierárquico. Art. Perspectivas: . uma regra especial deve ser interpretada em consonância com a regra geral). Perspectivas: . Deve ser interpretada coerentemente em relação à sua regra de produção). (ex.O sentido de uma lei deve ser integrada/contextualizada no seu ambiente sistemático. . Que finalidade a norma tem no próprio ordenamento jurídico. .Historicista – integração sistemática que existia no momento da elaboração da lei. 877 CC): finalidade da regra jurídica ao que pretende dar resposta.

Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Como se sabe então que a lei é interpretativa? . 13 limita-se a dizer que ela se integra na lei interpretada. o que não resolve. mesmo no Direito Português – art12º CC. O nº 2 deste artigo traz ainda regras especiais quanto à desistência e confissão não homologada. 8/3 (é a interpretação realizada pelo julgador).Há retroactividade quando uma fonte actua sobre o passado. Poderia sustentar-se que a lei interpretativa não é retroactiva porque ela não substitui a lei interpretada. mas que deixa de fora as situações já consumadas e persistem só nos efeitos definitivamente produzidos. Retroactividade quase extrema – seria a que não respeitasse as relações totalmente encerradas. com excepção do caso julgado.A lei é uma determinação. que concedam ainda as actuações das partes. Retroactividade extrema – ou de grau máximo.Afirmação expressa do carácter interpretativo constante do preâmbulo do diploma. a lei (13/1) estabelece que ficam salvos os efeitos já produzidos pelo cumprimento da obrigação. . Podemos dizer que esta abrange todos os casos que se encontrem em aberto. o carácter interpretativo pode resultar ainda do texto. Regime da lei interpretativa: Como há retroactividade. Refere-se-lhe ao CC no art. Trata-se de uma figura meramente doutrinária.Por declaração expressa contida no diploma. Retroactividade agravada – só respeita. Duas ordens de razão: . Interpretação doutrinal – é a que não tem qualquer repercussão sobre as fontes em causa. O referido art. Retroactividade ordinária – é a que respeita todos os efeitos já produzidos. e não uma declaração de ciência. de entre os efeitos produzidos. O legislador saber melhor do que qualquer pessoa qual o verdadeiro sentido da lei. os que tiveram em título que lhes dê em especial razão o reconhecimento. Se a lei nova vem regular o passado. pois é constitucionalmente excluída. quando for flagrante a tácita referencia da nova fonte a uma situação normativa duvidosa pré – existente. Por isso. seria aquela que nem se quer respeitasse o caso julgado. A fonte anterior continuaria a aplicar-se. Daniel Filipe Bento Marques 40 . e apenas seria esclarecido o sentido em que deveria fazer-se essa aplicação. por sentença passada em julgado. .6 (é a interpretação realizada por qualquer pessoa) e no art. É ordinária porque é a regra. A lei interpretativa é retroactiva: A lei interpretativa justificou a precisão especial do art. 13 CC. por transacção ou por acto de natureza análoga. . sujeito igualmente à epígrafe “aplicação da lei no tempo”. há necessidade de garantir a estabilidade das situações já consumadas. então é necessariamente retroactiva.se a fonte expressamente nada determinar.

referimo-nos também a noras e genros. Duas situações: .Interpretação restritiva – o espírito da regra fica aquém do sentido literal. . Duas situações: . Em bom rigor não é uma interpretação. Médio. ambas as regras devem ser sujeitas a esta interpretação. 2. Três tipos: Lata: 362 CC – sentido literal mais extenso. Teixeira de Sousa: as contradições das regras não existem por existe critérios (regras especiais. Interpretação autêntica – é a que não é realizada por uma fonte que não é hierarquicamente inferior às fontes interpretadas. A lei interpretativa dá-nos o critério desta interpretação: lei interpretativa é a que realiza interpretação autêntica.Interpretação extensiva – o espírito da lei impõe-nos que ultrapassemos o sentido literal da norma. A regra incompatível com a regra interpretada já foi revogada. anteriores…) que solucionam a maior parte dos casos. gerais. posteriores. Ex. NOTA: quando se conclui que a única solução é a interpretação ab – rogante.: argumento à minori admaiori (do menos para o mais). e há interpretação autêntica quando a nova lei se integra na lei interpretada.A regra remete para um regime jurídico que não existe. Ex. A regra só se refere ao género só podendo ser aplicado a algumas espécies. argumento à contrario sensu. desaparecendo ambas do ordenamento jurídico. 877º quando falamos em filhos. Ex.: 506º vale para todos os danos materiais e humanos. 13/1 CC.: 1. inferiores.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Interpretação ab – rogante: forma de resolução de conflitos entre leis. Uma regra considerada como excepcional em relação à outra. Podem surgir contradições aparentes. existe ainda um critério subsidiário: ponderação de interesses. mas se chegarmos à conclusão que existe conflitos. Restrita: 492 CC – sentido literal mais restrito. A regra é incompatível com outra regra do ordenamento jurídico. Assim é possível revolver esses conflitos.: 261º CC. Vem sempre a contradição entre as regras é insusceptível de ser superada. Interpretação ab – rogante sistemática: no caso de contradição de regras jurídicas e saber se essa contradição realmente existe. Ex. • Não há coincidência: interpretação constitutiva. Daniel Filipe Bento Marques 41 . Lacuna – incompletude do sistema jurídico perante a falta de uma regulamentação legal. Pode haver casos que não existam estes critérios para solucionar as contradições (teoricamente). argumento à maiori ad minori (do mais para o menos). Interpretação enunciativa – é uma regra explícita que contém implícita uma outra regra. Corresponde à previsão do art. Letra vs Espírito – relação de: • Coincidência – estamos no domínio da Interpretação Declarativa (o interprete limita a declarar o que corresponde o sentido literal da regra.

O que fazer perante uma lacuna? Respostas teoricamente possíveis: 1. O tribunal considera que está perante uma lacuna e abstém-se de julgar (não é possível = art. Lacunas patentes – imediatamente detectadas perante um regime jurídico. Alguns regimes jurídicos excluem a incompletude e não admitem lacunas: .Regra geral ou excepcional (são necessariamente completas ou até se podem completar uma à outra). Lacunas intencionais – resulta quando o legislador apercebe-se que é preciso regulamentação mas opta por não legislar. Lacunas ocultas ou de colisão – só se descobre depois de uma análise mais cuidada e quando chegamos à conclusão que foi alvo de uma interpretação ab – rogante.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Em que sentido pode falar em incompletude do sistema jurídico? Não há nenhum sistema jurídico que seja incompleto porque o sistema fornece os critérios para se tornar completo. 2. Lacunas induzidas ou heterónomas – resulta não da falta de regulamentação do próprio sistema mas sim de outros sistemas. Há uma necessidade de regular que não existia inicialmente. Lacunas subsequentes ou secundárias – nascem posterior à entrada de vigência do regime jurídico. Após a interpretação ab – rogante chega-se à conclusão que não existe regra para o caso concreto. 8/1 CC).Descricionalidade (oportunidade e a conveniência). Critérios de integração: Não normativos: não são abstractos ou gerais. Lacunas iniciais ou primárias – verifica-se falta de regulamentação desde o início de vigência do regime jurídico. . Classificação das lacunas: Lacunas próprias ou autónomas – resulta do próprio sistema e a falta de regulamentação do próprio sistema.Equidade (saber qual a justiça do caso concreto melhor). Critérios de integração: . Lacunas normativas – falta de uma regra jurídica Lacunas de regulação – falta de um regime jurídico. Lacunas não intencionais – resulta quando o legislador não se dá conta que era necessária regulamentação. Deverá integrar a lacuna. Daniel Filipe Bento Marques 42 . O sistema penal é um sistema em que o que não está na lei não é crime). .Direito Penal (proibição de aplicação análoga das normas criminais. Fala-se de incompletude no sentido de falta de regulação mas nunca no sentido de não se poder tornar ou fornecer os meios para se regular.

NOTA – segundo a opinião do Professor Teixeira de Sousa.Não legislativos – elementos retirados do sistema jurídico. Ex.Legislativos – integram uma lacuna através de uma regra emitida pela entidade competente que passa a regular o caso. Dois critérios: . 10º CC: dois critérios de integração de lacunas aplicados no ordenamento jurídico português: • Analogia jurídica. • Legislador cria a norma. Não é possível ser aplicada analogicamente por estar em causa princípios fundamentais do ordenamento jurídico.: é proibido estacionar aos Domingos. Norma hipotética (art. 11º CC. Tem de dar prioridade à analogia. Segurança). Daniel Filipe Bento Marques 43 . Art. Eficiência. Analogia Legis – aplicamos analogicamente essa mesma regra para a integração da lacuna. dos vários regimes jurídicos. . Analogia para a integração de lacunas: • As regras excepcionais não admitem integração analógica (11º CC) porque o que não couber na regra excepcional está abrangido na regra geral. este apoia a analogia legis. exclui apenas regras excepcionais substanciais. Analogia iuris – aplica-se analogicamente o princípio material com o qual conseguimos a integração da lacuna extraído das várias regras.: 2157º.Comunhão de qualidades entre o caso omisso e o caso previsto. Retroconexão – verifica-se quando a lei nova é aplicada a factos passados. o art. 1306ª CC). E aos Feriados? Respostas: dois tipos de excepcionalidade: Excepcionalidade formal – não está em causa nenhum princípio fundamental do ordenamento jurídico e verifica-se que podemos mudar a linguagem. afirmando que a analogia iuris é uma falsa analogia. Excepcionalidade substancial – vale apenas quando a lei enuncia.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Normativos: pressupõe soluções abstractas e gerais. • Direito Penal (não se utiliza a analogia (só é crime o que estiver considerado na lei). Segundo a opinião do Professor Teixeira de Sousa.Regulamentação legal deve ser adequada ao caso concreto. . Analogia – pressupões: . logo poderá ser aplicada a analogia. mas verificando-se para efeitos no futuro (1106 b) CC). Implica a aplicação imediata da lei nova a factos passados. • Nas tipologias taxativas e enumerações taxativas: não se utiliza a analogia (ex. 10/3 CC) – deve ser orientado pelos princípios formais para a solução dos casos (Justiça.

12/2. 4.Quando está em causa o principio de Estado de Direito – confiança jurídica.Formal – explícito (diz directamente) ou Implícito (descobre-se via interpretação). Direito transitório: . Liberdades e Garantias (18/3 CRP). Esquema de conflito de leis no tempo (solução): 1. liberdades e garantias (17º CRP). 3. Se não houver direito transitório ou se este for inválido aplica-se o regime legal supletivo. quando este ocorre antes da entrada em vigor da lei (12º/2 primeira parte). Daniel Filipe Bento Marques 44 . estão não se aplica. Proibição de retroactividade: Em função da matéria: . a lei retroactiva não se aplica a casos julgados porque: mais importante confiança na decisão judicial. Regime interpretativo (12/2 primeira parte) – em caso de dúvida sobre a retroactividade.12º/2 segunda parte – não há retroacção porque aplica-se a situações jurídicas que subsistam.12º/1 primeira parte – principio da não – retroactividade. . principio da separação de poderes = lei não pode alterar decisão judicial). Em função do grau de retroactividade (282/1 e 3 CRP – por interpretação enunciativa. Regime legal supletivo – quando a lei interpretada nada diz acerca do seu âmbito de aplicação temporal – art. . . .Matéria Penal menos favorável ao arguido (29/4 CRP).Matéria fiscal (103/3 CRP). 2.lei restritiva de Direitos. Saber se há direito transitório formal (explicito ou implícito) ou material.Material – regime especifico aplicado para as situações intermédias entre as duas leis. Retroactividade – é lei retroactiva a que produz efeitos sobre um acto jurídico ou sobre as suas condições de validade substancial ou material ou sobre efeitos que não são abstraíveis desse acto. . por questões de segurança jurídica e também por questões físicas.12º/2 primeira parte – critério geral para se saber se a lei é retroactiva. . Principio da não – retroactividade das leis. . Se houver.12º/1 segunda parte – presunção ilidiveis de não – retroactividade. saber se é válido de acordo com os limites impostos à retroactividade e proibição de não – retroactividade. 12 CC Regime supletivo geral – quando a lei nada diz sobre a sua aplicação e não se enquadra em nenhum dos regimes especiais. as pessoas não podem pautar a conduta por normas que ainda não existem.Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Aplicação da lei no tempo: definido para normas de conflitos de leis no tempo. . . Aplicar o disposto no art.Lei restritiva de Direitos análogos aos direitos.

12º/2 Primeira parte – sobrevigência da lei antiga e tudo o que já foi regulado continua a ser regulado pelos critérios da lei antiga (validade substancial). Daniel Filipe Bento Marques 45 .Faculdade de Direito de Lisboa Exame de Introdução ao Estudo do Direito Art. Art. Existência de um interesse superior/público relativamente ao conteúdo que as partes regularam na celebração de um contrato e que acordaram no inicio. 12º/2 Segunda parte – princípio geral da aplicação imediata da lei nova nas situações jurídicas.

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