Fernando Pessoa - Ortónimo

Fernando Pessoa é, como vimos, um poeta rural sob cuja tutela se reúnem poetas diversos, assumidamente diferentes de si, criações literárias com vida própria – os heterónimos. Mas o poeta também foi ele-mesmo e com o seu nome assinou uma obra também ela com características próprias. É uma obra vasta, a obra de Fernando Pessoa ortónimo, mas apesar da sua complexidade, poderemos enunciar algumas das linhas formais e de sentido que caracterizam a sua poesia lírica Antes de mais, a poesia de Fernando Pessoa ortónimo é uma poesia marcada pela procura incessante de uma verdade que o poeta sabe impossível de alcançar; a decifração do enigma do ser. O ser, sabe-o Pessoa, é um mistério indecifrável desde já porque procurar desvendá-lo é confrontar-se com a sua pluralidade, porque ele é muitos, e sendo muitos é ninguém. Por isso, o poeta afirma negativamente o impossível encontro com a sua identidade (“Não sei quem sou”, “Nunca me vi nem achei”), da mesma forma que afirma negativamente a sua pluralidade (“Não sei quantas almas tenho”). A verdade é que o poeta não foge à fragmentação que o confronto com o seu plural acarreta, antes a procura, como único caminho para o encontro consigo mesmo, já que “Ser um é cadeia, /Ser eu não é ser”, mas sabe que esse é um caminho sem retorno e que cada um dos fragmentos ou a totalidade dos fragmentos em que a sua alma de estilhaçou jamais lhe devolverão a unidade perdida. Como afirma num poema “Torno-me eles e não eu.” Ou num outro “Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, e em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim.”. Resta-lhe, pois, a interrogação filosófica, ontológica do mistério, mesmo que essa interrogação se perca como um eco de si mesmo e o poeta seja espectador de si mesmo, a sua “própria paisagem”. Resta-lhe também angustia de saber as perguntas irrespondíveis. Resta-lhe ainda olhar em espelhos de “aguas paradas” que não lhe devolvem o rosto, e a imagem que neles encontra só lhe acrescenta a solidão interior e a melancolia de saber-se “um mar de sargaços / um mar onde boiam lentos / fragmentos de um mar de além”. Além é uma palavra que podemos associar à poesia de Fernando Pessoa ortónimo. É que, impelindo pela sua permanente inquietação, sente que “tudo é do outro lado”, tudo está para além do muro ou para além da curva da estrada. Por isso, o sonho é preciso, é preciso ir ao encontro do jardim encantado ou da ilha do sul, mesmo que saiba que os “sonhos são dores” e “que não é com ilhas do fim do mundo / que cura a alma seu mal profundo”. Mesmo que o sonho o afaste da vida e dos outros, o impeça de viver a vida como ela é ou parece ser. E é muitas vezes com resignação que aceita o desajuste entre a realidade e o sonho, continuando que interrogar-se se este não será mais real que aquela. Além é ainda passado, infância irremediavelmente perdida, o tempo em que o eu era feliz porque ainda não se tinha procurado e, por isso, são se tinha fragmentado. A nostalgia da infância é, assim, um dos temas mais tocantes da poesia de Pessoa ortónimo que recorda o tempo em que era

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feliz sem saber o que era. “A criança que fui vive ou morreu?”. Interroga-se lancinantemente o poeta e ainda “E eu era feliz? Não sei :\ Fui-o outrora”. A criança que foi é como o gato que brinca na rua ou a ceifeira cuja sorte o poeta inveja, já que sentem alegria e satisfação sem saberem que a sentem, ao contrário do poeta que já não pode sentir essa alegria sem pensar nela, e consequentemente, deixa-la de senti-la. “O que em mim esta pensando” afirma tristemente ao ouvir o canto da ceifeira que “Ondula como um canto de ave”. A dor de pensar, é assim, outro dos temas da poesia de Pessoa ortónimo, o poeta fingidor que procura escrever distanciado do sentimento, já que a “composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela” e, por isso, a poesia não pode ser a expressão direta de uma emoção vivida, mas a expressão direta do rasto dessa emoção. Para Pessoa, a poesia é, pois, fingimento poético. É uma poesia intensamente musical que recorre à métrica curta e frequentemente à quadra, no gosto pela tradição lírica lusitana e popular. Faz uso de um vocabulário simples e sóbrio e utiliza um tom espontâneo, muitas vezes interrogativo, muitas vezes negativo, por vezes irónico. No entanto, é também uma poesia que faz uso de uma linguagem fortemente simbólica, onde abundam as metáforas inesperadas e os paradoxos desconcertantes.

Análise de Poemas
"Sou um Evadido"
Sou um evadido. Logo que nasci Fecharam-me em mim, Ah, mas eu fugi. Se a gente se cansa Do mesmo lugar, Do mesmo ser Por que não se cansar? Minha alma procura-me Mas eu ando a monte Oxalá que ela Nunca me encontre. Ser um é cadeia, Ser eu é não ser. Viverei fugindo Mas vivo a valer.

Reflexão:

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O sujeito poético neste poema procura caracterizar a sua realidade fragmentada, servindo-se do campo semântico de prisão. Através da reflexão filosófica a sua opção de fuga aos limites do ser, procura realçar a naturalidade de cansaço que caracteriza o ser humano e afirma que ser uno é ser prisão e que, por isso, só vivera plenamente fingido de si próprio.

"Viajar! Perder países!"
Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir A ausência de ter um fim, E a ânsia de o conseguir! Viajar assim é viagem. Mas faço-o sem ter de meu Mais que o sonho da passagem. O resto é só terra e céu.

Reflexão:
A noção de viagem presente no primeiro verso está associada à ideia de procura para o sujeito poético viajar não implica ganhar países, ganhar lugares na rota da sua vida; significa, antes, procura de si mesmo, encontro consigo mesmo. No entanto, o poema parte de uma ideia paradoxal de viagem, falando-se aqui de uma viagem permanente, de partidas constantes, na qual cada rosto de si mesmo encontrado é um lugar imediatamente perdido. Ou seja, trata-se de uma viagem permanente procura e descoberta do ser que é sempre outro e não tem amarras a ninguém, nem a si mesmo.

"Não sei quantas almas tenho"
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma.

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Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Mas outros temas ou ideias nele se revelam poesia pessoante: o desconhecimento de si mesmo. Estas ideias tornam-se evidentes na utilização de diversas metáforas que sugerem a ideia do “eu” alheio e exterior a si mesmo. autoanalisar-se lesse um livro cujas páginas são o seu próprio “ser”. meu ser. Quem sente não é quem é. Na dor lida sentem bem. alheio. vou lendo Como páginas. No poema. Atento ao que sou e vejo. a ideia de mobilidade. 4 . Torno-me eles e não eu. o sujeito poético assiste à sua fragmentação como se a sua consciência fosse um ser exterior a si mesmo. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. "Autopsicografia" O poeta é um fingidor. móbil e só. Releio e digo: "Fui eu?" Deus sabe. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Sou minha própria paisagem. Diverso. Por isso. Quem vê é só o que vê. E os que leem o que escreve. a solidão e a angústia. porque o escreveu. como se.Quem tem alma não tem calma. O que passou a esquecer. Não sei sentir-me onde estou. O que sogue não prevendo. Reflexão: Este poema é claramente ilustrativo da temática do “ser”. ao olhar-se visse uma paisagem de si mesmo ou como se. Assisto à minha passagem. a perda de identidade.

pois um poema não traduz aquilo que o poeta sente. sentido apenas o que na sua inteligência é provocado pelo poema – assim. Essa coisa é que é linda. deixando de parte todas as emoções. segundo Fernando Pessoa. mas sim aquilo que o poeta imagina a partir da recordação do que anteriormente sentiu. Sentir? Sinta quem lê! Reflexão: Neste poema o sujeito poético utiliza a imaginação. pensada. a entreter a razão. O leitor não sente nem a emoção vivida realmente pelo poeta.Não as duas que ele teve. É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. 5 . Livre do meu enleio. um fingidor que escreve uma emoção fingida. é a intelectualização da emoção. por isso fruto da razão da imaginação e não a emoção sentida pelo coração. E assim nas calhas de roda Gira. Mas só a que eles não têm. que apenas chega ao poema transfigurada na tal emoção trabalhada praticamente. "Isto" Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. O poeta é. Tudo o que sonho ou passo. O que me falha ou finda. Não uso o coração. a poesia. Esse comboio de corda Que se chama coração. Reflexão: Neste poema Fernando Pessoa fala da teoria do fingimento poético. Sério do que não é. nem a emoção por ele fingida no poema. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé. assim. Não.

Basicamente. isto é. sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência. e ceifa. Com inteligência. Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando! Ah. no último verso do poema. canta. Julgando-se feliz talvez. do poema “Autopsicografia”. funcionando ambos como uma espécie de arte poética. este poema foi escrito como resposta à falta de compreensão. E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. A relação existente entre os dois poemas “Autopsicografia” e “Isto” tem como tema comum o fingimento poético. nos quais o sujeito poético expõe a sua teoria da poesia como intelectualização da emoção. E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois. passai! Reflexão: 6 . pobre ceifeira. Como tal. Ah. Pobre ceifeira" Ela canta. poder ser tu. canta sem razão! O que em mim sente 'stá pensando. Ouvi-la alegra e entristece. esta comparação permite salientar a separação entre as sensações e as emoções. ou seja. por parte dos leitores. Na sua voz há o campo e a lida. levando-me. Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar. seja com emoção. "Ela canta. Canta. E canta como se tivesse Mais razões pra cantar que a vida. e a sua voz. cada leitor terá a liberdade de sentir o poema como quiser. cheia De alegre e anónima viuvez.O poeta neste poema compara todas as suas emoções a um terraço. o sujeito poético dirige-se aos leitores para salientar a ideia de que a eles caberá um sentir diferente de poeta.

"Ela canta (. Conheço-me e não sou eu. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes. um poeta racional e pouco dado à observação plena da natureza. a natureza aparece muita das vezes como um adversário. pobre. que faz Pessoa interrogar-se. ser tão feliz? "Gato que brincas na rua" Gato que brincas na rua Como se fosse na cama. principalmente.da ceifeira . trabalhadora do campo. O poeta afirma que gostaria de ser a ceifeira. Eu vejo-me e estou sem mim. em Dezembro de 1924. Pensar-se-ia que um tema bucólico. És feliz porque és assim. “Ceifeira” e 7 . como uma cena de ceifeiras trabalhando no campo. ignorante. Porque para o poeta a vida é feita. com a sua “alegre inconsciência” – gostaria de sentir sem pensar. quanto ele próprio é "pouco natural". como algo que se contrapõe agressivamente ao homem. Todo o nada que és é teu.Ela canta pobre ceifeira" é um poema não datado de Fernando Pessoa. Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. e escrito antes de 1915. É o canto feliz e despreocupado da ceifeira.. diz ele. mas o que de facto interessa o poeta é algo na ceifeira enquanto ser humano enquadrado na paisagem natural: o seu sentimento de alegria. Ela canta como se tivesse mais razões para cantar do que a vida. A verdade é que. é isso que o faz pensar. Reflexão: Neste poema o sujeito poético revela tristeza e desolação por não conseguir abolir o viço excessivo do pensamento.e a paisagem natural. Vemos que há o ponto de partida da figura humana . apesar do tema ser bucólico. que é. de desilusão. gostaria também de ser ele mesmo.) Julgando-se feliz talvez". ou seja.. E é isso que o perturba. viúva anónima. Como pode por isso alguém como a ceifeira. não atrairia a atenção de Fernando Pessoa. Mesmo em Alberto Caeiro. publicado na revista Athena. ter a consciência de ser inconsciente – o que ele deseja é unir o plano do sentir e o plano de pensar A relação existente entre os dois poemas existentes no tema “a dor de pensar” apresentam um tema central idêntico: “a dor de pensar” provocada pela intelectualização do sentido. Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. de autoria ortónima. "Canta sem razão!". diz o poeta. mas paradoxalmente. a análise do mesmo não é. naturalmente pobre e cansada. mostrando a este quanto ele está desenquadrado. iminentemente.

desatentos" 8 . enquanto Pessoa afirma para si uma espécie de trituração mental que o conduz a parte alguma – “o que em mim sente. Com que prazer me dá calma Ver uma flor sem razão Florir sem ter coração! Mas enfim não há diferença. Quando o Fado a faz passar. Por seu lado. 'Stá bem. como é inevitável no homem. Para a flor. Reflexão: Este poema foi escrito para caracterizar o homem. seja pensando. Nele a razão e a emoção são mentira porque não se conjugam. „stá pensado!” "Não sei ser triste a valer" Não sei ser triste a valer Nem ser alegre deveras. Se a flor flore sem querer. no entanto. seja florindo inconscientemente como uma flor. enquanto a morte não chega. sem saber? Ah. "Boiam leves. ante a ficção da alma E a mentira da emoção. tal como é um ato involuntário para o homem pensar. Acreditem: não sei ser. enquanto não vêm Vamos florir ou pensar. O que nela é florescer Em nós é ter consciência. que sente e pensa.“Gato” são símbolos de uma alegre inconsciência. O sujeito poético procura realçar um apelo irónico ao “carpe diem” que procura sugerir que. a nós como a ela. nem sente nem pensa e. desabrocha sem precisar de razão e de coração. Surgem as patas dos deuses E ambos nos vêm calcar. a flor. devemos aproveitar cada momento da vida. Serão as almas sinceras Assim também. Sem querer a gente pensa. Depois. florescer é um ato involuntário.

Não se para. breve tédio. se flui.. Vestígio do que não foi. Como. no sono dos ventos. semelhantes a “algas” ou “cabelos” que “boiam” lentamente “á tona de águas”. 9 . Querendo. O sujeito poético. a comparação. a “mágoa”. Que nojo de mim me fica Ao olhar para o que faço! Minha alma é lúcida e rica. Fazendo. na caracterização dos pensamentos. Leve mágoa. o tédio. Deste desencontro resulta a angústia. sem remédio. a dor. Pós remoinhando nas portas Das casas abandonadas. Sobressaem. os seguintes recursos: a metáfora. observando o seu mundo inteiro. E eu sou um mar de sargaço Um mar onde boiam lentos Fragmentos de um mar de além. Sono de ser.Boiam leves desatentos. a frustração e o sentimento de vazio que dominam o sujeito poético. As algas. cabelos lentos Do corpo morto das águas. que fazem lembrar desperdício e que não permitem o encontro consigo mesmo. redu-lo a uma insignificância insuportável. nada é verdade. quero o infinito. Boiam como folhas mortas Á tona de águas paradas São coisas vestindo nadas. são as coisas insignificantes como “pós” ou como “nadas”. "Tudo o que faço ou medito" Tudo o que faço ou medito Fica sempre pela metade. Meus pensamentos de mágoa. O sujeito poético visiona neste poema um espelho coberto de elementos físicos sem vida. Não se existe ou de dói. Reflexão: Este poema foi feito para caracterizar os pensamentos do sujeito poético que eram “leves” e “desatentos”. a adjetivação expressiva e o paradoxo..

aquilo que encontra é um espelho sem reflexo. se realidade" Não sei se é sonho. se realidade. nós? Ah. também O mal não cessa. talvez.Vontades ou pensamentos? Não o sei e sei-o bem. Ah. à luz da lua. talvez. Aquela terra de suavidade Que na ilha extrema do sul de olvida. Felizes. É em nós que é tudo. Sente-se o frio de haver luar. não dura o bem Não é com ilhas do fim do mundo. nesta terra também. No entanto. Que a vida é jovem e o amor sorri. daquela vez. Sombra ou sossego deem aos crentes De que essa terra se pode ter. Reflexão: 10 . Áleas longínquas sem poder ser. Ali. “um mar de sargaço” que impede o encontro consigo mesmo. Nem com palmares de sonho ou não. Naquela terra. É a que ansiamos. ali A vida é jovem e o amor sorri Talvez palmares inexistentes. Só de pensá-la cansou pensar. "Não sei se é sonho. Se uma mistura de sonho e vida. Este poema revela a tentativa da descoberta de si mesmo. Reflexão: O sujeito poético neste poema procura autoanalisar-se com a sua lucidez aguda. Que o bem nos entra no coração. na tentativa de se autoconhecer. É ali. Sob os palmares. Mas já sonhada de desvirtua. a sua alma “lúcida e rica”. que lhe revela a impossibilidade de se conhecer. ali. Que cura a alma seu mal profundo.

E quanto em mim desejo Está parado ante o muro. ao mesmo tempo que afirma a sua angústia. No entanto. ali / A vida é jovem e o amor sorri”. Embora o vento abrande. No que há e no que penso. neste caso. Não sinto. Sinto árvores além. pois são difíceis de alcançar. exprimir a sua incapacidade de sentir (uma vez que a imaginação só sobrepôs à sensação). Finalmente conclui que não é necessário fingir para o sonho. uma separação que estabelece os limites do sujeito poético. O sujeito poético neste poema pretende. Este poema foi escrito para explorar o tema tipicamente pessoano do binómio. É tarde. Por cima o céu é grande.O sujeito poético neste poema. Mas triste é o que estou. "Porque esqueci quem fui quando criança?" 11 . deixa entender que mesmo estando dentro de nós. porque aquilo que procuramos está dentro de nós mesmos. o sonho e a felicidade estão distantes. Nem há ramo agitado Que o céu não seja imenso. Confunde-se o que existe Com o que durmo e sou. representa metaforicamente a ideia de fronteira ou de divisão entre a realidade e o sonho. não sou triste. ao referir que é “Ali. numa segunda fase contradiz a hipótese colocada. sonho/realidade. Há folhas em vaivém. provavelmente. Reflexão: Este poema foi escrito com o intuito de caracterizar a palavra “muro” que. "Contemplo o que não vejo" Contemplo o que não vejo. numa primeira fase procurou colocar a hipótese de poder alcançar o sonho. expondo a concretização do sonho. Tudo é do outro lado. é quase escuro.

Jaz morto. o poeta exprime a memória dessa infância provocada por um qualquer estímulo – “velha música”. que em mim flui. o presente é nostalgia. ainda não se tinha fragmentado. e arrefece. em que é que flui? Houve em mim várias almas sucessivas Ou sou um só inconsciente ser? Reflexão: Trata-se de um dos temas fundamentais da obra de Fernando Pessoa ortónimo. felicidade “inconsciente”. exangue. Em muitos poemas. o tempo em que ainda não tinha iniciado a procura de si mesmo. de morte: “A criança que fui vive ou morreu?”. inquietação. 12 . desconhecimento de si mesmo e do futuro: “se quem fui é enigma. não há coincidência entre o “eu – outrora” e o “eu – agora”. De braços estendidos. de corte.Porque esqueci quem fui quando criança? Porque deslembra quem então era eu? Porque não há nenhuma semelhança Entre quem sou e fui? A criança que fui vive ou morreu? Sou outro? Veio um outro em mim viver? A vida. Raia-lhe a farda o sangue. louro. “Porque não há semelhança / Entre quem sou e fui?”. o passado e o presente opõem-se na poesia de Fernando Pessoa. Alvo. Em Fernando Pessoa. um simples som (“Quando as crianças brincavam / E eu as oiço brincar).Duas. e por isso. a passagem da infância a idade adulta não é um processo de rutura. alegria. O passado é infância. uma imagem ou uma palavra – para concluir amargamente que o rosto presente. / E quem serei visão. Todo o poema “Porque esqueci quem fui quando criança?” exprime essa admiração perturbante de se sentir habitado por outro. a sua infância é o passado irremediavelmente perdido. Para Fernando Pessoa. diferente da criança que foi “sou outro?”. não se complementam. o tempo longínquo em que era feliz sem saber que o era. "O menino da sua mãe" No plaino abandonado Que a morta brisa aquece. de lado a lado -. De balas traspassado . Desta forma. / Quem sou ao menos sinta / Isto no meu coração”. mas que também é partilhado pelo seu heterónimo Álvaro de Campos.

Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve... para sempre perdida. Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único. da felicidade inconsciente. a representação do próprio poeta que sabe ser impossível o regresso ao regresso materno. alada Ponta a roçar o solo. a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: "O menino da sua mãe". Reflexão: Este poema foi escrito para poder ser visto de modo metafórico. há a prece: "Que volte cedo. Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. O sujeito poético neste poema fala também da cigarreira dada pela sua mãe e o lenço dado pela alma que o ajudou a criar. em casa. Ele é que já não serve. e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto. De outra algibeira. são representações do seu passado de “menino” que viveu junto a quem o amava.Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. e apodrece. Lá longe. 13 .Ortónimo Linhas de sentido / Temas recorrente. que contrasta com a situação presente caracterizada por consciência aguda que provoca no poeta a sensação de desconhecimento de si mesmo. a perda de identidade. porque a infância ficou para trás. A brancura embainhada De um lenço. Fernando Pessoa . inevitavelmente perdida. Está inteira E boa a cigarreira. · Procura da decifração do enigma do ser. O menino da sua mãe. ideia que pode relacionar-se com a temática pessoana “a nostalgia da infância” – a época de ouro. Dera-lhe a mãe.

solidão interior. às reticências. onde se recolhera devido a problemas de saúde. Alberto Caeiro “O Mestre tranquilo da sensação” Como podemos ler na carta a Adolfo Casais Monteiro. na quinta de uma tia-avó. um conjunto de poemas aos quais deu o título de O Guardador de Rebanhos. depois. Assim. uma fisionomia. de pele muito branca e com os olhos azuis. dor de pensar. náusea. Era de estatura média. espontânea. mas sóbria. · Versos leves em que recorre frequentemente à interrogação. · Linguagem simples. a fio. · Transfiguração da emoção pela razão. · Obsessão da análise. Pessoa chamou-lhe o “Mestre” e criou para ele uma biografia. resignação. desamparo. Não estudou nem exerceu qualquer profissão e foi no Ribatejo que escreveu o fundamental da sua obra: O Guardador de Rebanhos. no entanto. desencontro dos outros. melancolia. · Inquietação. Estilo. · Fingimento poético. Voltou para Lisboa no 14 . contos de fadas). · Tédio. angústia existencial. e O Pastor Amoroso. no dia 8 de março de 1914 e em seu nome escreveu. louro. órfão de pai e mãe. e vivera quase toda a sua vida retirado. · Nostalgia do bem perdido. primeiro. Perda de identidade. · Criação de metáforas inesperadas. · Pendor filosófico. lucidez. em Lisboa. Alberto Caeiro nascera em 16 de abril de 1889. · Preferência pela métrica curta. no Ribatejo. · Incapacidade de viver a vida.· Fragmentação do eu. Fernando Pessoa criou o heterónimo Alberto Caeiro. · Influência do lirismo lusitano (reminiscências de cantigas de embalar. · Fuga da realidade para o sonho. do mundo fantástico da infância. uma obra. · Gosto pelo popular (uso frequente da quadra). toadas do romanceiro. uso frequente do paradoxo.

ou o sol que brilha nos seus poemas como em nenhum outro poeta da “constelação pessoana”. sem pensar no passado. a poesia de Caeiro é uma espécie de expressão espontânea e quase instintiva de pensamentos que são sensações. nem sequer para a recordação. Caeiro não procura conhecer. ingénuo como o de criança. "Poema Primeiro" Eu nunca guardei rebanhos. com frequência. por isso. Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Minha alma é como um pastor. Alberto Caeiro é o “poeta da Natureza” e com ela partilha cada instante que o ciclo das estações lhe traz. quando tinha apenas vinte e seis anos. uma vez que o “único sentido oculto das coisas / é elas não terem sentido oculto nenhum” e “as coisas não têm significado. Mas é como se os guardasse. e sem pensar no futuro e. Para exprimir o real objetivo. assim. nem mesmo da morte. feliz e deslumbrado com cada uma das maravilhas simples e naturais que o seu olhar lhe permite ver. porque lhe basta aquilo que vê e sente em cada momento. Enquanto Pessoa ortónimo procura incessantemente conhecer o que está para além daquilo que vê e sente. a comparação. Nos seus poemas. Fernando Pessoa chamou a Caeiro o seu “Mestre”. É. Nos seus poemas. É uma poesia livre. está expresso um conceito de vida segundo o qual. inovadora. e por isso não sofre de qualquer nostalgia. o poeta do real objetivo e nunca foge para o sonho. o criador do Sensacionismo. nem estróficas nem rimáticas. É clara e recorre a uma linguagem extraordinariamente simples. antes de morrer de tuberculose. Vive no presente. mais ou menos longos.final da sua curta vida e aí escreveu ainda os Poemas Inconjuntos. ou a chuva. e também o Mestre dos outros heterónimos pessoanos. Sente-se fazendo parte dessa natureza. ou uma árvore. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. como se brotasse de alguém que fala com um amigo. saboreia tranquilamente cada impressão captada pelo seu olhar. não há regras métricas. pois ele era aquilo que Pessoa não conseguia ser: alguém que não procura qualquer sentido para a vida ou o universo. não tem medo da desilusão. Imbuída desta dimensão natural. como um rio. têm existência”. sentado dob o alpendre. exclusivamente de sensações e sente sem pensar. ao contrário de Pessoa. ao entardecer. usa predominantemente o substantivo concreto e para clarificar o pensamento. É. em 1915. Vive. Mas eu fico triste como um pôr de sol 15 . partindo da aceitação serena do mundo e da realidade. próxima da prosa e do falar quotidiano. pois. não deseja adivinhar qualquer sentido oculto. utiliza.

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz E corre um silêncio pela erva fora. se o não soubesse. Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias. Escrevo versos num papel que está no meu pensamento.Para a nossa imaginação. 16 . Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é uma ambição minha É a minha maneira de estar sozinho. Os meus pensamentos são contentes. Sinto um cajado nas mãos E vejo um recorte de mim No cimo dum outeiro. Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais. Seriam alegres e contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes. E se desejo às vezes Por imaginar. Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho. Em vez de serem contentes e tristes. Porque. Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela. ser cordeirinho (Ou ser o rebanho todo Para andar espalhado por toda a encosta A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo). Quando me sento a escrever versos Ou. É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol. Como um ruído de chocalhos Para além da curva da estrada. passeando pelos caminhos ou pelos atalhos.

E ao lerem os meus versos pensem Que sou qualquer cousa natural Por exemplo. O sujeito poético identifica-se bastante com a natureza. Alberto Caeiro afirma-se um poeta que exprime o desejo de abolir a consciência.. lamentando o facto de ter consciência dos seus pensamentos. Na última estrofe do poema o sujeito poético apresenta uma saudação de uma espécie de camponês que tira o chapéu em sinal de respeito e deseja aquilo que é mais importante para o Homem ligado à natureza..E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz E quer fingir que compreende. Saúdo-os e desejo-lhes sol. "Poema Segundo" O meu olhar é nítido como um girassol. quando a chuva é precisa. E limpavam o suor da testa quente Com a manga do bibe riscado. Reflexão: O poeta compara-se a um pastor que anda pelos campos a guardar rebanhos. enunciando repetitivamente o ato de ver. vez em quando olhando para trás. E chuva. E de. cansados de brincar. E o que vejo a cada momento 17 . a árvore antiga À sombra da qual quando crianças Se sentavam com um baque. o vício de pensar. Tirando-lhes o chapéu largo Quando me veem à minha porta Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. isto é. pois ele afirma que anda ao ritmo das estações. além de outras sensações. E que as suas casas tenham Ao pé duma janela aberta Uma cadeira predileta Onde se sentem. neste caso. os seus rebanhos são os seus pensamentos. lendo os meus versos. compara os seus estados de espírito com momentos de natureza. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda. Saúdo todos os que me lerem.

"Poema Nono" Sou um guardador de rebanhos. Mas porque a amo. Para o poeta a sensação visual é-lhe suficiente na sua relação com o mundo. Penso com os olhos e com os ouvidos 18 . Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se.. pois esta planta tem a particularidade de seguir continuamente a luz do sol.. e amo-a por isso. Eu não tenho filosofia: tenho sentidos. O sujeito poético neste poema afirma que basta sentir a realidade.. abolir o vicio de pensar e viver apenas pelas sensações. O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Creio no mundo como num malmequer.. Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. Reparasse que nascera deveras.... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo. Porque o vejo. Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama.É aquilo que nunca antes eu tinha visto.... Amar é a eterna inocência. E eu sei dar por isso muito bem.. nem o que é amar. Alberto Caeiro consegue alcançar facilmente aquilo que para Fernando Pessoa é um desejo impossível. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. ao nascer. E a única inocência não pensar. rejeitando pensamentos. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender.. não precisa de a questionar... não precisa de saber porque é que ela existe. Reflexão: No primeiro verso deste poema o sujeito poético apresenta uma comparação com um girassol. Alberto Caeiro é um poeta que consegue submeter o pensamento ao sentir. Esta comparação é feita para mostrar a nitidez do seu olhar.

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade. Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto. que correspondem às três estrofes nele presentes: · A primeira estrofe apresenta-se com a introdução. o sujeito poético nega completamente o pensamento. guardador de rebanhos. realizar algo que no ortónimo era impossível: unir o pensar ao sentir. Ao afirmar a sensação como fonte única do conhecimento real. de certo modo.E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. pois é a única que lhe fez saber a verdade e ser feliz (último verso). Que te diz o vento que passa?" "Que é vento. "Poema Décimo" "Olá. Reflexão: O poema estrutura-se em três partes lógicas.v 4. e essa forma de relação sensacionalista com a realidade é que lhe basta. seja ela uma flor. e que passa.5 e 6) que o sujeito poético estabelece a relação com a realidade. E a ti o que te diz?" 19 . um fruto ou um dia de calor. E que passará depois. na qual o sujeito poético se afirma como aquele que vive apenas pelas sensações. submetendo-o a sensação. nela. · A segunda estrofe apresenta-se como justificação do significado que ele atribui ao ato de pensar: pensar é sentir. Aí à beira da estrada. E me deito ao comprido na erva. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. afirma “pensar uma flor é vê-la e cheirá-la”. E fecho os olhos quentes. Sei a verdade e sou feliz. É através das sensações (dos cinco sentidos referidos nos v. E que já passou antes. Ele consegue. o sujeito poético apresenta um exemplo de caráter pessoal sobre a experiência de sentir. quando. por exemplo. · A última estrofe tem valor conclusivo e.

Pode estabelecer-se uma clara relação entre os pontos de vista assumidos pelas duas personagens com os traços que caracterizam Alberto Caeiro e Fernando Pessoa ortónimo . Fala-me de muitas outras cousas. do presente. Que as cousas sejam realmente o que parecem ser E não haja nada que compreender. O que lhe ouviste foi mentira. Alberto Caeiro apresenta-se como negação do ponto de vista do ortónimo: “a mentira está em ti”. que sei disso? Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas. 20 ." "Nunca ouviste passar o vento. para o sujeito poético. De memórias e de saudades E de cousas que nunca foram." Reflexão: Este poema constrói-se como um diálogo entre o sujeito poético (“guardador de rebanhos”) e um outro que com ele se cruza no caminho (“Aí à beira da estrada”) e que o interpela sobre o significado do vento (vento é símbolo do real). a realidade é muito mais do que aquilo que se sente. É mais estranho do que todas as estranhezas E do que os sonhos de todos os poetas E os pensamentos de todos os filósofos. Rio como um regato que soa fresco numa pedra. a relação com a realidade passa por sentir apenas essa realidade. pois é também porta aberta para a memória. O vento só fala do vento. o presente conduz à memória do passado e a imaginação do futuro. · Segundo. Este diálogo é um processo que permite apresentar dois pontos de vista.neste poema. diferentes a dois níveis: · Primeiro. sem a pensar ou imaginar. E a mentira está em ti. que não sou mais do que eles. "Poema Trigésimo Nono" O mistério das cousas. para o seu interlocutor."Muita cousa mais do que isso. para o sujeito poético só existe a verdade do momento. para o seu interlocutor. a saudade e o sonho. Porque o único sentido oculto das cousas É elas não terem sentido oculto nenhum. onde está ele? Onde está ele que não aparece Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? E eu.

a morrer sem desespero. vive se sensações. integrando-se nas leias do universo. instintivo. sem tentar “encontrar um sentido às coisas”.a sentir sem pensar. Alberto Caeiro “O Mestre tranquilo da sensação” Linhas de sentido / Temas recorrentes · É o mestre que Pessoa opõe a si mesmo.Sim. acreditando que elas contêm algo mais para além daquilo que é visível.a viver sem dor. pretende realçar a sua tese de não haver mistério nas coisas. É o poeta do real objetivo. Alberto Caeiro afirma-se um poeta onde diz que a realidade é apensas o que é. · Lírico. · Identifica-se com a Natureza. porque “as coisas não têm significado: tem existência”. como se fosse um rio ou uma árvore. · Recusa a introspeção e a subjetividade.a ser um ser uno (não fragmentado) · Criador do Sensacionismo. inculto (em relação à sabedoria escolar) Estilo · Estilo discursivo · Pendor argumentativo · Transformação do abstrato no concreto. 21 . · Não quer saber do passado nem do futuro.a envelhecer sem angústia. . frequentemente através da comparação. sobretudo visuais. . As cousas são o único sentido oculto das cousas. com o qual tem que aprender: . contrariando tudo aquilo que as outras pessoas pensam sobre as coisas. vive no presente. ao comparar-se com a árvore e com o rio. eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: As cousas não têm significação: têm existência. neste poema. afirmando que é preciso “saber ver sem estar a pensar”. abre-se ao mundo exterior com passividade e alegria. . e por isso não tem mistérios a desvendar.a não procurar encontrar sentido para a vida. vive segundo o seu ritmo. ingénuo. . deseja diluir-se nela. Reflexão: O sujeito poético.

regressando de vez em quando a Portugal. Foi na revista “Orpheu”. abúlica. e outros grandes poemas da exaltação da vida moderna. com risca ao lado. mas também de outros textos deixados por Fernando Pessoa. de cabelo preto e liso. Álvaro de Campos “o filho indisciplinado da sensação” A partir da carta a Adolfo Casais Monteiro. Tom familiar. numa viagem que fez ao Ribatejo. caindo numa espécie de apatia melancólica. podemos construir a biografia do heterónimo Álvaro de Campos que terá nascido em Tavira. foi nesta cidade que passou a viver sem exercer qualquer atividade para além da escrita. no dia 15 de outubro de 1890. Campos experimenta-as febrilmente. na Escócia. aproximam-se de outros poetas da viragem do século. Fez o liceu em Lisboa e partiu depois para Glasgow. No regresso. Pessoa descreve-o como alto. Instalado em Lisboa. em 1915. · Simplicidade da linguagem. de todas as maneiras”. de acordo com um relato seu. revista imediatamente apreendida pela polícia. podendo na sua obra distinguir-se três fases. das máquinas. desembarcou em Marselha. da velocidade. Assim. Em dezembro de 1913. no “Portugal Futurista”. A grande viragem na poesia de Álvaro de Campos aconteceu. Álvaro de Campos é também aquele que apresenta uma evolução mais nítida. Vive e trabalha durante alguns anos na Inglaterra. Em Caeiro reconheceu imediatamente o seu Mestre. escritos durante a viagem ao Oriente. da força. ou num devaneio nostálgico que o aproxima de 22 . quando escreve a “Ode Triunfal”. excessivamente. escreve uma poesia mais intimista. · Liberdade estrófica e do verso. prosseguindo por terra a viagem para Portugal. ausência de rima. elegante. No número 2 da mesma revista.· Predomínio do substantivo concreto sobre o adjetivo. onde frequentou o curso de Engenharia Naval. escrita em Londres. depois de ter conhecido Alberto Caeiro. que Fernando Pessoa publicou os primeiros poemas em nome de Álvaro de Campos: “Opiário”. que teria sido escrito no Canal do Suez durante a viagem ao Oriente e a “Ode Triunfal”. Tão excessivamente que. numa terceira fase. publicou a “Ode Marítima” e em 1917 publicou o “Ultimatum”. querendo “sentir tudo. Mas enquanto Caeiro acolhe tranquilamente as sensações. a “Ode Marítima”. Sendo o heterónimo pessoano que o poeta mais publicou. aquele que o introduziu no universo do sensacionismo. fez uma viagem de barco ao Oriente durante a qual terá começado a escrever poesia. os decadentistas. Fixa-se definitivamente em Lisboa e vai publicando poemas em revistas literárias. finalmente. mas o seu verdadeiro génio vanguardista revela-se na sua fase futurista. os seus primeiros poemas. usando monóculo e com um “tipo vagamente de judeu português”. Dois desses regressos estão patentes nos poemas “Lisbon revisited – 1923” e “Lisbon revisited – 1926”. parece esgotar-se a seguir.

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta. Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem. a procura do sentido no que está para além da realidade. ó grandes ruídos modernos. estrugindo. Com um excesso contemporâneo de vós. longos. Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão. Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos. exclamativos e eufóricos ou repetitivos e depressivos são o exemplo mais acabado do vanguardismo modernista no qual se espelha um sentir cosmopolita. urbano. nervoso.Pessoa ortónimo com quem partilha o ceticismo. De vos ouvir demasiadamente de perto. poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Reflexão: 23 . r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim. ciciando. ferreando. ó máquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força Canto. ó engrenagens. a fragmentação. Escrevo rangendo os dentes. e canto o presente. Ah. a nostalgia da infância irremediavelmente morta. Rugindo. Ó rodas. a dor de pensar. e também o passado e o futuro. por vezes insuportavelmente mergulhado no tédio do quotidiano e no anonimato da cidade. Por todos os meus nervos dissecados fora. Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. por vezes prosaicos. Os seus versos livres. rangendo. extrovertido. Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes. fera para a beleza disto. "Ode Triunfal" À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica Tenho febre e escrevo. febril. E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações.

É . Pequeno.. Todo o atracar. E dentro de mim um volante começa a girar. "Ode Marítima" Sozinho. um paquete entrando. Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. Como um começar a enjoar. Mas a minh'alma está com o que vejo menos. nítido. acorda a vida marítima. a esta manhã de verão. avançam rebocadores. olho pro Indefinido. Com o sentido marítimo desta Hora.. Aqui. O poeta representa de forma exagerada o louvor ao mundo moderno. Porque ele está com a Distância. com uma grande independência de alma. Vem muito longe.sinto-o em mim como o meu sangue Inconscientemente simbólico. e no rio. Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. no cais deserto. clássico à sua maneira. Erguem-se velas. todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais E se repara de repente que se abriu um espaço 24 . Com o paquete que entra. Olho pro lado da barra. Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea. todo o largar de navio. Vem entrando.O sujeito poético neste poema exprime com exaltação e excesso o seu orgulho em ser moderno e contemporâneo de uma beleza industrial “totalmente desconhecida dos antigos” num desejo assumido de acolher todas as sensações. Os paquetes que entram de manhã na barra Trazem aos meus olhos consigo O mistério alegre e triste de quem chega e parte. negro e claro. Ah. e a manhã entra com ele. lentamente. Há uma vaga brisa. Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto. Olho de longe o paquete. mas no espírito. acolá. Olho e contenta-me ver. com a Manhã. terrivelmente Ameaçador de significações metafísicas Que perturbam em mim quem eu fui.

que é a que sonhamos na infância. vai guiá-lo à sua imaginação e às suas emoções. paradoxo que traduz a sensação positiva e perturbante que tem do objeto.Entre o cais e o navio. quando fui verdadeiro ao meu sonho. O tique-taque estalado das máquinas de escrever. Vem-me. A falsa. a imagem exterior do paquete. talvez. sozinho. acompanhamento banalmente sinistro. Que náusea da vida! Que abjeção esta regularidade! Que sono este ser assim! Outrora. Firmo o projeto. aqui isolado. O “volante” representa metaforicamente o despertar do sujeito poético para o seu mundo interior. A sensação que o paquete nele desperta tem a ver com uma “doçura dolorosa”. O tique-taque estalado das máquinas de escrever. semelhante a uma “náusea”. Temos todos duas vidas: A verdadeira. explícitas de neve. o plano. quando fui outro. uma angústia recente. Ao lado. a um enjoo de espírito. Outrora. de qualquer livro de infância). Eram grandes paisagens do Norte. opulentos de verdes. isto é. Uma névoa de sentimentos de tristeza Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas Como a primeira janela onde a madrugada bate. eram castelos e cavaleiros (Ilustrações. no meu cubículo de engenheiro. 25 . que é a que vivemos em convivência com outros. Outrora. Eram grandes palmares do Sul. não sei porquê. E que continuamos sonhando. Ao lado. "Datilografia" Traço. Remoto até de quem eu sou. Reflexão: O sujeito poético neste poema caracteriza-se metaforicamente a um paquete e a um volante. E me envolve como uma recordação duma outra pessoa Que fosse misteriosamente minha. acompanhamento banalmente sinistro. vai conduzi-lo. que lhe tinha prendido a atenção. num substrato de névoa. adultos.

· Fuga para a recordação e/ou sonho que tendem a substituir a vida real. · Poeta sensacionista desde que conheceu Caeiro. desencontro dos outros. da busca incessante. Reflexão: Este poema foi escrito para salientar que o sujeito poético encontra-se no seu gabinete de engenheiro onde exprime a náusea. · Excitação da procura. Este cansaço do presente fá-lo querer regressar ao tempo da sua infância. acompanhamento banalmente sinistro.. Na outra vivemos. sentido do absurdo. a útil. da sua felicidade inconsciente. moderna. · Elogio da civilização industrial. do progresso. a sua poesia tem três fases: decadentistas.. Na outra somos nós. perda de identidade. que é o que viver quer dizer. da velocidade e das máquinas. Mas ao lado. náusea. 26 . · Predomínio da emoção espontânea e torrencial. ansiedade e confusão emocional. Neste momento. · Fragmentação do eu. · Presença terrível e labiríntica do eu de que o poeta se tenta libertar. como o Mestre. Na outra não há caixões. tenta banir o vício de pensar e acolhe todas as sensações. o tédio. Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. tédio. as sensações que o envolvem. da energia e da força. · Angústia existencial. Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever. futurista e pessoal-intimista. mas o ruído do presente interpõe-se. neste caso a monotonia agressiva do “tic-tac” das máquinas de escrever.Que é a prática. Nesta morremos. Há só ilustrações de infância: Grandes livros coloridos. pela náusea. Aquela em que acabam por nos meter num caixão. Álvaro de Campos “o filho indisciplinado da sensação” Linhas do sentido / temas recorrentes · Poeta modernista. para ver mas não ler. deixando-o sem desespero. cansaço. vira-se para o exterior. vivo na outra . nem mortes.

em 1919 teve que se exilar no Brasil. oito odes foram publicadas na revista “Presença” de Coimbra. no dia 19 de setembro de 1887. · Poetização do prosaico. por vezes articulado com o verso curto. Campos. o poeta começou a esboçar o heterónimo Ricardo Reis em 1912 quando lhe veio “à ideia escrever uns poemas de índole pagã”. entre 1927 e 1930. digna. Então. Fernando Pessoa publicou poemas de Ricardo Reis – vinte odes – pela primeira vez em 1924. Sabe que a efemeridade é parte da condição humana. Estilo · Verso livre. um grego antigo. 27 . contudo. Ricardo Reis teria nascido no Porto. mas seria apenas no “dia triunfal” – 8 de março de 1914 – que ele surgiria. Ricardo Reis “o poeta da autodisciplina” De acordo com a carta de Fernando Pessoa a João Gastar Simões. exclamações. Discípulo de Caeiro. como Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos. e sobre cada momento vivido pesa a sombra da caminhada inexorável do Tempo. Ricardo Reis apresenta. a biografia. numa perspetiva epicurista de saudação do “carpe diem”. a idade. À grande questão da indagação do sentido da existência. torrencial. encarando com grandeza e resignação esse Destino de precariedade. além do nome. Era monárquico e. para enfrentar esse medo da morte. na sequência da derrota da rebelião monárquica do Porto contra o regime republicano instaurado havia apenas nove anos. a fisionomia. na revista “Athena” por si fundada. pagão a braços com o Destino. colocada de forma diversa por cada um deles. Reis responde como se fosse um homem de outro tempo e de outro mundo. por isso. Mas essa vivência do prazer de cada momento tem de ser feita de forma disciplinada. Os restantes poemas e a prosa de Ricardo Reis são de publicação póstuma. Era moreno. interjeições. do comum e quotidiano. · Estilo esfuziante. anáforas. longo. Educado num colégio de jesuítas onde recebeu uma sólida educação clássica. formou-se em Medicina. o estilo. sem pensar no futuro. Reis. a completar o trio Caeiro. que na vida tudo passa. numa perspetiva que tem raízes no estoicismo. depois. · Utilização de comparações e metáforas inesperadas. · Utilização de repetições. mais baixo e mais forte que o Caeiro. dinâmico (sobretudo nos poemas futuristas). Fernando Pessoa criou para Reis. Tal como fez para os outros.· Ceticismo e ironia. defende que é preciso viver cada instante que passa. Assim. antíteses e paradoxos. uma poesia muito diferente da dos outros poetas-Pessoa.

um conformista que pensa que nenhum gesto. Tanto quanto vivemos. numa espécie de gaiola dourada que o protege de qualquer envolvimento social. sentenciosa. por isso é inútil conhecer. o medo do sofrimento paraliza-o conduzindo-o a uma filosofia de vida terrivelmente vazia. Reflexão: Neste poema de acordo com o sujeito poético. Enfim. Se sabê-lo não serve de sabê-lo (Pois sem poder que vale conhecermos?) Melhor vida é a vida Que dura sem medir-se. querer conhecer a verdade que. A educação que teve criou nele o gosto pelo classicismo e é na “imitação” do poeta latino Horácio que se baseia a construção daquilo que é fundamental na sua poesia. Reis isola-se. Uma poesia neoclássica. a existir. inversão da ordem normal dos elementos da frase. Somos demais se olhamos em quem somos. Para Ricardo Reis. afinal. Para quê. uma vez que a escolha não está ao alcance do homem e tudo está determinado por uma ordem superior e incognoscível.Reis é. contida. sem qualquer traço de espontaneidade. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. utiliza uma linguagem culta. a vida deve ser conduzida com calculismo e frieza. devemos viver o presente sem pensar ou recordar o passado. igualmente morta Quando passa conosco. pagã. é um recurso amplamente usado. rejeitando a recordação do passado ou o autoconhecimento. nenhum desejo vale a pena. povoada de alusões mitológicas. Tal como Alberto Caeiro. alheia a tudo o que possa perturbar. 28 . como o destino. uma poesia moralista. para se concentrar na perspetiva do ser como existência. moral ou mesmo sentimental. então. pois todo o presente se converte rapidamente em passado e. Cultivando preferencialmente a ode. E como tudo o que é verdadeiramente humano é intenso e perturbante. vive a hora Em que vivemos. porque não podemos evitar que o tempo passe. Ricardo Reis apresenta-se como poeta do presente. Além disso. "Não quero recordar nem conhecer-me" Não quero recordar nem conhecer-me. rebuscada – o hipérbato. apenas aos Deuses pertence? Nada se pode conhecer do universo que nos foi dado e por isso só nos resta aceitá-lo com resignação. Que passamos com ela.

Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo. Nada mais nos é dado. No mesmo hausto Em que vivemos. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe. Não tenhamos melhor conhecimento Do que nos coube que de que nos coube. Reflexão: 29 . morreremos. uma vez que apenas existe na imaginação. Cumpramos o que somos. "Cada um cumpre o destino que lhe cumpre" Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. “Outros” olham para o futuro e. Neste poema o sujeito poético usa vários paradoxos para traduzir a impossibilidade e o engano a que são conduzidos aqueles que vivem da recordação ou da imaginação. por isso também não veem a realidade. Assim. com os olhos postos no passado. E deseja o destino que deseja. porque és ele. este o momento. pois já não existe. Esta é a hora. e é tudo. Reflexão: O sujeito poético neste poema diz que “uns” e “outros” são os que não são capazes de viver o presente. “uns” vivenciam o tempo olhando para o passado. Por que tão longe ir pôr o que está perto A segurança nossa? Este é o dia. Nem deseja o que cumpre. Nem cumpre o que deseja. isto É quem somos."Uns com os olhos postos no passado" Uns. Colhe o dia. veem O que não pode ver-se. o que significa não ver a realidade. Veem o que não veem: outros. Perene flui a interminável hora Que nos confessa nulos. fitos Os mesmos olhos no futuro. e ali ficamos.

quer nao gozemos. passamos como o rio. de fase estoicista – não vale apenas desejar. Nem cuidados. alimentando desejos ou esperanças pois “Nada mais nos é dado”. E sempre iria ter ao mar. Vai para um mar muito longe. Mais longe que os deuses. nem paixões que levantam a voz. Nem invejas que dão movimento demais aos olhos. para ao pé do Fado. Sem amores.) Depois pensemos. Tentar fugir ao destino seria inútil. sem tentativas de o mudar. porque a nossa vida será apenas como foi programada e o melhor é aceitar isso com dignidade. à beira do rio. pensando que podiamos. Desenlacemos as mãos. O sujeito poético revela. trocar beijos e abraços e carícias. Ao menos. crianças adultas. Pagãos inocentes da decadência. e não estamos de mãos enlaçadas. "Vem sentar-te comigo. nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças. Lídia. Amemo-nos tranquilamente. e que o seu perfume suavize o momento Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada. o seu conformismo face ao destino. que a vida Passa e não fica. lembrar-te-as de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova. nada deixa e nunca regressa. à beira do rio" Vem sentar-te comigo Lídia. porque viver radica numa total incompatibilidade entre aquilo que se deseja e aquilo que se alcança. Se quiséssemos. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes. Quer gozemos. nem ódios. Colhamos flores. em suma. Porque nunca enlaçamos as mãos.O sujeito poético neste poema defende uma filosofia de vida que assenta na aceitação do destino de uma forma tranquila. porque não vale a pena cansarmo-nos. Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o. se for sombra antes. não vale apenas ter esperanças. pega tu nelas e deixa-as No colo. (Enlacemos as mãos. porque se os tivesse o rio sempre correria. 30 . Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa.

2ª Estrofe · Consciência da efemeridade da vida. por outro lado vivê-lo com serena e disciplinada aceitação do destino (estoicismo). sem envolvimento nem paixão. uma vez que viveram um amor inocente. Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. espiritual. 5ª Estrofe · Convite à fruição amorosa tranquila. evitando os excessos de amor físico. No poema. 7 e 8 Estrofes · Conclusão do poema e justificação para o modelo de vivência amorosa defendido pelo poeta: se um deles morrer antes o outro. como o Mestre aconselha a aceitação calma da ordem das coisas e faz o elogio da vida campestre. Ricardo Reis “o poeta da autodisciplina” Linhas de sentido / Temas recorrentes · Discípulo de Caeiro. 6ª Estrofe · Valorização do “carpe diem”. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim . como única forma de evitar o sofrimento provocado pela separação que a morte de um deles poderia trazer. não terá que sofrer por isso. aproveitar totalmente o presente (epicurismo) e. indiferente ao social (áurea mediocritas) 31 . O sujeito neste poema propõe a Lídia uma relação tranquila. da impossibilidade de voltar a vivê-la.E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio. 4ª Estrofe · É necessário evitar todos os desassossegos que podem trazer a dor. pois é preciso evitar os grandes desassossegos para evitar a dor. sem excessos. são notórios os conceitos de epicurismo e estoicismo. uma vez que o “fado” tudo controla. Pagã triste e com flores no regaço. uma vez que a vida é breve.à beira-rio. aqui fundidos: se a vida passa e não se pode evitar a morte. Reflexão: 1ª Estrofe · Convite à fruição amorosa serena. 3ª Estrofe · Desenlace amoroso. colhendo o “perfume” do momento evitando o conhecimento das coisas. por um lado. contida. é preciso.

com utilização preferencial da ode (composição de origem grega). · Reflete sobre o fluir do Tempo. medo da velhice e da morte. · Faz o elogio do epicurismo – a sabedoria consiste em gozar o presente (carpe diem) · Faz o elogio do estoicismo – a sabedoria consiste na aceitação da condição humana. rebuscada. · Uso preferencial do decassílabo combinado com o hexassílabo.· Faz dos Gregos o modelo da sabedoria (aceitação fatalista do Destino de uma forma resignada. sentenciosa (uso recorrente do imperativo) · Frequente utilização do hipérbato e latinismos. Estilo · Estilo neoclássico. verso branco. · Presença frequente de elementos mitológicos. · Paganismo assumido. particularmente influenciado pelo poeta latino Horácio. mas digna e altiva) e do poeta latino Horácio o modelo poético. · Linguagem culta. através da disciplina e da razão. 32 . tem consciência da dor provocada pela natureza precária do homem.