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I - Brasão

II - Castelos
Ulisses Trata-se de um poema da primeira parte – o Brasão – da Mensagem. Dentro
desta integra-se nos Castelos.
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus Nesta primeira parte da obra , aborda-se a origem, a fundação, o princípio
É um mito brilhante e mudo — de Portugal.
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo. O título Ulisses remete-nos para a origem de Portugal como devendo-se a
Ulisses, navegador errante, que depois da guerra de Troia, teria aportado em
Este, que aqui aportou,
Lisboa, fundando a Olissipo, futura Lisboa. A origem estaria portanto num
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
mito. Ulisses é assim o primeiro herói a desfilar na obra Mensagem.
Por não ter vindo foi vindo
O desenvolvimento do poema faz-se em três momentos:
E nos criou.
Na primeira estrofe que corresponde ao primeiro momento apresenta-se
Assim a lenda se escorre
uma tese:
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre. “ O mito é o nada que é tudo”.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.  O mito é definido pelo sujeito poético como o nada uma vez que,
dada a sua natureza, não possui consistência, nem fundamento,
mas que, apesar disso, é tudo (note-se o oxímoro = a paradoxo),
porque, quando é desvendado, revela a Verdade.

Esta definição é confirmada nos quatro versos seguintes:


O mesmo sol que abre os céus O sol e Deus crucificado são também mitos. O mito surge
É um mito brilhante e mudo — como um sol que abre os céus e como um Deus que,
O corpo morto de Deus, parecendo morto, se revela aos homens como vivo
Vivo e desnudo (perífrase de Cristo crucificado)

Nestas duas expressões metafóricas manifestam-se duas características do mito: a sua irrealidade (“mudo”, “corpo
morto”) e o seu dinamismo (“abre os céus” e “vivo e desnudo”)

Nesta estrofe podemos concluir que o mito é difícil de definir comprovando isso nos oxímoros: “vivo”/”morto”,
“mudo”/”brilhante”.
O mito é, então, um sol brilhante que "abre", isto é, revela os céus, mas é mudo. É "o corpo morto de Deus" tornado
vivo e revelado. O mito é luz que abre caminho para o Todo, mas é ao homem que compete a caminhada.

Na segunda parte, que corresponde à segunda estrofe, o assunto é particularizado ao caso concreto de Ulisses,
designado no poema no verso “este (Ulisses) que aqui (Lisboa) aportou”.

“Por não ter vindo foi vindo”/”e nos criou” – Ulisses mesmo que não tenha existido, já foi elevado à condição de mito
e foi através dele que se explicou a origem de Lisboa. Ulisses poderá assim representar a vocação marítima dos
portugueses, pois é do mar que ele chega, este mítico antepassado dos portugueses.

Os oxímoros presentes em “foi por não ser…existindo”, “sem existir nos bastou” e “ por não ter vindo foi vindo”
exprimem o carácter contraditório do mito (existe não existindo).

A terceira estrofe é uma conclusão. Iniciada pela palavra "assim", define as relações da lenda/mito com a realidade.
A lenda é o fermento da realidade, o seu elemento fecundante, isto é, criador: "A lenda se escorre / A entrar na
realidade, / E a fecundá-la decorre". A lenda é a origem, vem de cima, do alto dos tempos, e, sem ela, "em baixo", a
vida, que é "metade de nada, morre".

Concluindo…

Através deste texto, Pessoa serve-se da origem lendária de Portugal para explicar a importância do mito e desta para
explicar o que deverá ser Portugal. Ulisses, o herói da guerra de Tróia – inventor do estratagema do Cavalo de Pau – e
protagonista da Odisseia-, é um dos grandes mitos da civilização grega, matriz da civilização ocidental e, segundo a
lenda, na sua viagem de regresso á pátria, teria aportado em Portugal, fundando Lisboa, a futura capital do
reino.Ulisses é tomado como pretexto para justificar que o mito, embora um nada, é necessário. Ele foi herói, resistiu,
impôs-se aos seus inimigos, sulcou os mares, cometeu ou esteve na génese de grandes feitos – como Portugal fez (o
império real) e deverá fazer (o império de base espiritual). O importante é que Portugal se encha de coragem e denodo,
para vencer a mediocridade do presente.
Ao recuperar esta lenda e elegê-la como um dos primeiros poemas de Mensagem, Pessoa tenciona conferir a
Portugal uma origem mítica que é mais valiosa do que qualquer origem histórica. Além disso, a gesta de Ulisses ajuda
a explicar a vocação marítima dos portugueses, também eles ligados ao mar e às viagens, como o seu mítico fundador.

Principais recursos estilísticos:

Oximoros:
- «O mito é o nada que é tudo» (síntese da mensagem poética): o mito é nada porque não existe e é tudo, visto que
dá explicação para todas as coisas e dele brotam as forças ocultas que projetam os povos para as grandes façanhas;
- «Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo»: estas afirmações exprimem o
caráter contraditório do mito.
Metáforas:
- «O mesmo Sol… / É um mito brilhante e mudo»: o mito surge como um sol brilhante que nos abre os céus, palavra
que conota perspetivas brilhantes, ideias de heroicidade;
- «O corpo morto de Deus vivo e desnudo”: o mito é um deus que, parecendo morto, vazio, se revela aos homens
como vivo.
Estas duas metáforas contêm elementos fundamentais e contraditórios do mito: a sua irrealidade («mudo»,
«corpo morto») e o seu dinamismo («vivo e desnudo», «abre os céus»).

Significativa é também a alternância dos tempos verbais:

 na primeira estrofe predomina o presente, porque estamos perante uma definição do mito, algo
permanente;
 na segunda estrofe destaca-se o pretérito, porque se evoca a origem, o ato mítico da fundação (Ulisses);
 e na terceira volta a predominar o presente, porque se conclui que a lenda é essencial à realidade, é o cerne
da continuidade.
III - Quinas

D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza O poema insere-se na 1.ª parte de Mensagem, «Brasão», uma vez que
Qual a Sorte a não dá.
esta compreende os antepassados fundadores da nacionalidade. Por
Não coube em mim minha certeza;
outro lado, a inserção nas Quinas prende-se com o facto de D. Sebastião
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há. ter perdido a vida no contexto do cumprimento de uma tarefa para que
foi escolhido por Deus.
Minha loucura, outros que me a tomem O título D. Sebastião remete-nos para um momento importante da
Com o que nela ia.
nação, assumindo D. Sebastião um papel importante na decisão
Sem a loucura que é o homem
tomada de avançar para a conquista de África.
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

O poema poderá dividir-se em duas partes:

. 1.ºmomento (1.ª estrofe) - O sujeito poético (o Rei):


- autocaracteriza-se como louco;
- explicita a razão da sua loucura: a busca de grandeza / glória;
- e as consequências / o preço da mesma: a morte.
. 2.º momento (2.ª estrofe) - O sujeito poético:
- faz o elogio da loucura, traço que distingue o homem do animal irracional;
- apela/incita a que outros deem continuidade ao seu sonho.

Num discurso de 1.ª pessoa, D. Sebastião autocaracteriza-se como louco, assumindo orgulhosamente essa
loucura (repare-se na repetição do adjetivo “louco”, enfatizada pela presença do advérbio de afirmação “sim”). Notar
que, no poema, «loucura» significa «sonho», «ideal», «utopia».
A causa dessa loucura é o desejo de grandeza (o ideal, a utopia, o sonho), que o sujeito poético assume com
orgulho, a qual não é trazida pela «Sorte» (v.1) , mas conquistada com esforço, coragem e determinação. Porém, o
desejo de grandeza teve um preço: a morte do «louco», do sonhador, isto é, de D. Sebastião - “Por isso onde o areal
está / Ficou meu ser que houve, não o que há a morte” (vv. 4 e 5), que se deixou morrer, portanto, pelo seu ideal no
areal de Alcácer Quibir, no norte de África. E a razão desse sacrifício reside no facto de o rei não ter sido capaz de
realizar essa tarefa, que era superior às suas capacidades: «Não coube em mim minha certeza» (v. 3).

Porém, no areal, ficou apenas o que nele havia de mortal, o ser físico, o corpo - «Ficou meu ser que houve» -
tendo apenas sobrevivido o ser é imortal, isto é, a alma, o sonho, o ideal («o que há») de querer grandeza, de devolver
a glória à Pátria, que continua vivo e por concretizar, daí o apelo que faz na segunda estrofe. Recorde-se que o sonho
«original» do rei consistia no engrandecimento de Portugal através da conquista de terras aos mouros no norte de
África e da expansão da fé de Cristo.
No início da segunda estrofe, o sujeito poético apela a «outros» que tomem e prossigam a sua loucura, o seu
sonho, isto é, que concretizem, no presente / futuro, aquilo que ele sonhou e idealizou no passado, o seu grande
projeto nacional.
A interrogação retórica final – “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que
procria?” - é muito significativa:

 a loucura - o sonho - é essencial ao homem e é o que o distingue do animal: Pessoa compara o homem que
não sonha com um animal que se limita a procriar; sem possuir a capacidade de sonhar, sem possuir um ideal
a cumprir, o ser humano fica reduzido à condição de animal irracional (nasce, procria e morre) e está
condenado à morte e ao esquecimento; assim, a existência humana não tem sentido nem valor;

Intertextualidade
Comparemos, por último, a forma como a figura de D. Sebastião é tratada em Os Lusíadas e na Mensagem:
. Os Lusíadas:
- Camões dedica-lhe o seu poema épico (Canto I);
- Retrato: traça um retrato histórico do soberano, com referências à situação de Portugal e à atuação do rei;
- Valores: representa a segurança, a liberdade e a esperança do povo português no sentido de fazer ressurgir a Pátria
da apatia e decadência do presente, continuando a tradição dos antigos heróis nacionais, dilatando a fé e afirmando
o império.
. Mensagem:
- é o mito organizador e articulador da obra, já que representa o sonho que presidirá ao ressurgimento de Portugal da
crise em que se encontra mergulhado;
- Retrato: o seu retrato é mítico, assente sobretudo no seu traço de «loucura» criadora e inspiradora;
- Valores: D. Sebastião representa o mito regenerador e metáfora da «loucura», do sonho.

II-MAR PORTUGUÊS

I- O INFANTE Trata-se de um poema da segunda parte – Mar Português – da


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Mensagem.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Nesta segunda parte da obra, aborda-se o esforço heroico na luta contra o
Que o mar unisse, já não separasse.
Mar e a ânsia do Desconhecido. Aqui merecem especial atenção os
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
navegadores que percorreram o mar em busca da imortalidade,
E a orla branca foi de ilha em continente, cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre de uma
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, missão transcendente)
E viu-se a terra inteira, de repente,
Este é o primeiro poema da segunda parte de Mensagem, o que faz todo o
Surgir, redonda, do azul profundo.
sentido se tivermos em conta que o Infante D. Henrique foi o
impulsionador dos Descobrimentos, por exemplo ao fundar a Escola de
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal. Sagres. Daí o título do texto: embora nele se refira a aventura marítima
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. levada a cabo pelos portugueses, foi o Infante quem desempenhou um
Senhor, falta cumprir-se Portugal! papel crucial nessa aventura, o de protagonista, de impulsionador, o de
símbolo do início da construção do império. Daí que lhe caiba o papel de
protagonista da «Possessio Maris» (Posse do Mar), dedicada à gesta dos
Descobrimentos. Segundo António Quadros, o Infante foi o “descobridor
da ideia de descoberta”.

O Infante D. Henrique (1394 ‑ 1460) foi o quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre e é geralmente
considerado o homem que mais decisivamente contribuiu para o impulso que levou à expansão ultramarina
portuguesa. Por outro lado, ele é também, frequentemente, apresentado como símbolo das vontades e dos esforços
anónimos de navegadores, cosmógrafos, mercadores e aventureiros que ajudaram o homem moderno a construir
novas dimensões para a perspetiva do mundo.

Podemos considerar, neste poema, três momentos:

1.ª parte (vv. 1,2 e 3 da 1ª estrofe) - a descoberta do planeta nos aspetos geográficos e humanos foi realizada por
vontade divina.

Os três sujeitos (Deus, o homem e a obra), dependentes mutuamente, praticam as suas ações: o primeiro
quer, o segundo sonha, e a terceira nasce. Mas, sem a vontade do primeiro, o segundo não sonharia e a
terceira não podia nascer.

Deus, o agente da vontade, quer a unidade da terra, através do mar, de forma a servir de elemento de união
entre os continentes e os povos, daí a existência de um conjunto de palavras e expressões que sugerem a ideia
de unidade: «uma», «unisse», «não separasse»;

2.ª parte (v.4 e 2ª estrofe) - O Infante D. Henrique foi escolhido por Deus para concretizar a sua vontade,
predestinando-o para os grandes feitos das descobertas: “Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.”(v.4)

Assim, o Infante é o símbolo do herói, o agente por vontade divina, destinado a criar uma obra superior.
3.ª parte (3ª estrofe) - a transposição da glória do Infante para o povo português: Deus sagrou o Infante e criou-o
português; enquanto tal, simboliza o povo a que pertence, o que significa que também ele foi assinalado,
predestinado, escolhido por Deus para desvendar o mar desconhecido.

O povo português, representado pelo Infante, cumpriu, assim, a vontade divina (a saga dos descobrimentos e a
edificação do Império Português no Oriente) – “ cumpriu-se o Mar” (v.11) mas falta

No entanto, este império material “desfez-se”, pertence a outro tempo, já que o poderio português acabou na época
dos Descobrimentos (Portugal perdeu a independência logo a seguir, com a morte de D. Sebastião). É, agora, urgente
“cumprir-se Portugal”, ou seja, é necessário que Portugal se cumpra como pátria e entidade nacional.

De notar que o sujeito poético se dirige agora diretamente a Deus – “ Senhor” - apontando para o desencadear de um
novo ciclo que, no fundo, constitui o regresso ao início do poema: uma nova vontade divina, um novo sonho do homem
e uma nova ação / obra para que o país volte a ser uma grande potência mundial. Portugal deve realizar-se e
engrandecer-se num novo império civilizacional, de cariz espiritual (a que Pessoa chamou de “Quinto Império”).

A ação do Infante:

‑ representa o povo português («… e nós em ti nos deu sinal.» ‑ v. 10) e «foi desvendando [descobrindo, revelando] o
mar», ultrapassando dificuldades;

‑ os seus esforços foram coroados de êxito («Cumpriu-se o Mar» ‑ v. 11); fisicamente, o mundo tornou-se um, a terra
tornou-se una, os povos e continentes unificaram-se;

‑ o Infante é o herói que obtém a imortalidade através do cumprimento de um dever individual e pátrio;

‑ é também o herói que busca a universalidade, daí a utilização do artigo definido no título («O Infante») e em «o
homem» (verso 1) com um valor universalizante;

‑ possui um caráter divino, dado que foi o eleito, o predestinado por Deus para o cumprimento desta missão; por
extensão, como é português e representa o seu povo, a sua sagração significa a divinização do homem português;

‑ a sua sagração, a sua obra, tem como consequência o acesso ao conhecimento: dos limites geográficos do planeta,
do mar, de outros povos, de outras culturas.

Recursos estilísticos

Vocabulário de conotações simbólicas:

‑ «sagrou-te»: talvez ligada à palavra «Sagres», sugere a escolha do Infante para uma missão divina («Deus quer»);

‑ o uso de maiúsculas (Mar, Império);

‑ «Mar»: simboliza o desconhecido, o mistério, daí as expressões «desvendar a espuma», isto é, desfazer o mistério,
descobrir, ultrapassando as dificuldades que se lhe deparam; é, pois, o traço de união de ilhas e continentes (vv. 2-3);

‑ «espuma» (branca), «orla branca» (é o sulco de espuma deixado pelos navios portugueses; simboliza o longo
percurso que tiveram de percorrer para que a empresa dos Descobrimentos se concretizasse);

- «clareou», «surgir» (sair das sombras, revelar-se, conhecer), «do azul profundo» (do mar imenso e profundo, é o
símbolo do desconhecido, em oposição ao «clarear», que é o revelado): estas expressões sugerem a passagem do
mistério para a descoberta, para o conhecimento, passagem caracterizada como repentina, espetacular, miraculosa;
assim o sugere a expressão «E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir redonda…»;

‑ a visão da «terra redonda», surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é a realização de
um plano divino. O redondo, a esfera. É o símbolo da perfeição cósmica, da unidade (do mundo), da obra completa e
perfeita que Deus quis: «Deus quer… / Deus quis que a terra fosse toda uma…»;

‑ as cores:
. azul: ligada ao mistério, ao desconhecido (o mar);

. branco da espuma vem clarear e revelar a «terra inteira, de repente»;

‑ o Infante: representa o povo português, mas também surge como o símbolo do homem universal, o herói que
realizou um sonho que era vontade de Deus.

Personificação: «E a orla branca (…) correndo, até ao fim do mundo», a sugerir a rapidez imparável das Descobertas.

. Gradação: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», para explicar a lógica da relação Deus / Homem / obra. De
acordo com a segunda e terceira estrofes, a obra nasceu, o mar passou a unir em vez de separar, o império cumpriu-
se e desfez-se.

. Apóstrofe: «Senhor, falta…».

Orla branca é uma metáfora correspondente à espuma do mar que nos recorda a ornamentação das saias das
ninfas, que, como disse Camões, protegem os Portugueses. A espuma e a brancura são símbolos de pureza e da
presença do espírito divino.

A obra do Infante, que permitiu a descoberta de ilhas e de continentes, foi ordenada por Deus, como está expresso
na primeira quadra, e pelas ninfas que acompanharam os nossos navegadores.

Há neste poema um misto de Cristianismo e de Paganismo Clássico como em Os Lusíadas.

II - Horizonte

Ó mar anterior a nós, teus medos Trata-se de um poema da segunda parte – Mar Português – da
Tinham coral e praias e arvoredos. Mensagem.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério, O horizonte é símbolo do indefinido, do longe, do mistério, do
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério desconhecido, do mundo a descobrir, do objetivo a atingir.
Esplendia sobre as naus da iniciação.
O tema do texto é a descoberta e o contacto dos portugueses
Linha severa da longínqua costa - com mares e terras longínquos e desconhecidos, estando esse
Quando a nau se aproxima ergue-se a tema presente na interpretação do título como projeto de ir
encosta mais longe, mais além, rumo ao desconhecido, por detrás da
Em árvores onde o Longe nada tinha; linha do HORIZONTE. Esse mundo amedrontava ("Ó mar
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: anterior a nós, teus medos" - v. 1), como tudo o que é
E, no desembarcar, há aves, flores, desconhecido, mas também por isso mesmo seduzida as
Onde era só, de longe a abstrata linha. vontades, despertando o desejo de saber o que havia fora da
linha de conforto em que qualquer ser humano gosta de se
O sonho é ver as formas invisíveis
escudar.
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.

O desenvolvimento temático, no poema, estrutura-se em três partes:

- Na primeira parte (a primeira sextilha), através da apóstrofe inicial, "Ó mar anterior a nós", o sujeito poético dirige-
se ao mar desconhecido, ainda não descoberto/navegado.

Noite" e "cerração" significam o desconhecimento e o desconhecido. Com efeito, a "noite" remete para as trevas, o
obscurantismo em que viviam os povos antes das "naus da iniciação" abrirem "... em flor o Longe, e o Sul sidério" (v.
5). É ainda símbolo da morte que ameaçava constantemente os nautas portugueses e do poder maldito, do oceano
por achar. Porém, a noite não deixa de ser também o tempo das germinações e do prenúncio da revolução geográfica,
científica, ideológica e conceptual que se seguiria aos Descobrimentos. A "cerração", por seu lado, representa o que
está escondido, o que ainda é desconhecido, mas que tem vida própria depois de desvendado.

Nesta primeira parte, o sujeito poético apresenta a conclusão a que se chegou depois de os navegantes portugueses
terem empreendido a viagem marítima, desbravando mares desconhecidos. As descobertas exigiram sacrifícios,
causaram sofrimento ("Desvendadas a noite e a cerração, / As tormentas passadas e o mistério" - vv. 3-4), mas
valeram a pena porque por detrás dos "medos" havia corais, praias e arvoredos (v. 2), ou seja, a "noite e a cerração"
(símbolos de mistério) revelaram, afinal, a existência de coisas bem concretas e belas!... Repare-se na predominância
do pretérito imperfeito ("tinham", abria", "´Splendia"), a evidenciar a ideia de que as descobertas do passado tiveram
uma continuidade no tempo, até se fazer das sombras ("noite") luz ("´Splendia"). Note-se, ainda, que o vocabulário
utilizado tem uma carga negativa, por um lado ("medos", noite", "cerração", "tormentas", "mistério"), sugerindo o
oculto, o desconhecimento da verdade, a ignorância em que vivia o mundo anterior aos Descobrimentos, e positiva,
por outro lado ("... coral e praias e arvoredo", "... flor...", "... aves, flores", "árvore", "praia", "ave", "fonte", "beijos
merecidos", "Verdade"), para realçar as ideias de que, afinal, os nautas portugueses, ao princípio receosos, acabaram,
depois das descobertas, por desvendar um mundo cheio de beleza e viram, por isso mesmo, os seus esforços serem
recompensados.

- A segunda parte, que engloba a segunda sextilha, apresenta a visão do mundo novo. Essa visão é captada sob a
ótica dos marinheiros, de forma progressiva e gradual, do longe para o perto. Vejamos: quando a nau se aproxima,
são visualizadas as árvores que se disseminam pela encosta (sensação visual - maior distância); mais perto, começam
a distinguir-se as cores e os sons tornam-se audíveis (sensações visual e auditiva, uma e outra implicando uma maior
proximidade - só estando mais próximo é possível distinguir-se claramente as cores e escutar os sons); finalmente,
no desembarque, na vizinhança das coisas, estas deixam de ser apenas abstratizadas ("árvores", "sons" e "cores")
para passarem a ser eminentemente concretas, mais particularizadas ("aves", "flores").

- A terceira parte compreende a última estrofe, onde o sujeito poético apresenta a definição de "sonho". Porquê?
Porque os Descobrimentos dos séculos XV e XVI (constituem o grande contributo dos portugueses para a História da
humanidade) surgem como resultado ou consequência do sonho. Temos, pois, nesta terceira parte, a interpretação
simbólica do ato de descobrir, que mais não é do que o impulso para o conhecimento. Efetivamente, foi por
sonharem que os Portugueses rasgaram o "Horizonte", revelando novos mundos ao mundo e dando a conhecer
novos povos, novas línguas, novas culturas aos países do velho continente, praticamente limitados até então aos
bafejos dos ventos civilizacionais do Mare Nostrum. Mas o que é o sonho para o eu lírico? É "... ver as formas
invisíveis / Da distância imprecisa" (vv. 13-14), ou seja, é ver por antecipação, é ir mais além do que aquilo que já é
conhecido e aceite pelo comum das pessoas, é sentir e viver a realidade daquilo que, à partida, ainda é irrealidade. E
para que essa irrealidade se torne real, isto é, para que o sonho se concretize, são necessários vários ingredientes
enumerados nesta estrofe: a esperança (não adianta sonhar se não houver esperança em concretizar o que é
sonhado), a vontade (é necessário ultrapassar os limites da vontade humana para transformar o irreal em real) e a
busca (a decifração do incógnito implica um trabalho contínuo e, não raro, sacrifícios de vária ordem). Se esses
ingredientes forem aplicados na medida certa, o sonho realizar-se-á e a Verdade surgirá em toda a sua plenitude,
consubstanciando um valor de recompensa final, simbolicamente representada nos elementos da enumeração "A
árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -" (v. 17).

Este poema apresenta-nos o sonho como motor da ação dos Descobrimentos. É o sonho que, movido pela esperança
e pela vontade, desperta no homem o desejo de conhecer, de procurar a verdade.

O título "Horizonte" evoca um espaço longínquo que se procura alcançar funcionando, assim, como uma espécie de
metáfora da procura, como um apelo da distância, do "Longe", à eterna procura dos mundos por descobrir.
IV - O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar Trata-se de um poema da segunda parte – Mar Português – da
Na noite de breu ergueu-se a voar; Mensagem.
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar, O tema desta composição poética pode dizer-se que é a coragem
E disse: “Quem é que ousou entrar do povo português diante das adversidades do mar.
Nas minhas cavernas que não desvendo, Chegados ao cabo das Tormentas, os portugueses encontram o
Meus tectos negros do fim do mundo?” Mostrengo destinado a atemorizá-los para que desistam da sua
E o homem do leme disse, tremendo: viagem. Porém, o homem do leme faz-lhe frente, neutralizando-
“El-Rei D. João Segundo!” o pela imposição da vontade de um povo que não abdica da sua
missão.
“De quem são as velas onde me roço? O título do poema Mostrengo é uma palavra derivada por
De quem as quilhas que vejo e ouço?” sufixação “ monstro + sufixo de valor lexical pejorativo
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, (mulherengo). Significa portanto pessoa muito feia; pessoa
Três vezes rodou imundo e grosso, desajeitada, ociosa ou inútil; estafermo.
“Quem vem poder o que eu só posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse O sujeito poético começa por nos apresentar o mostrengo
E escorro os medos do mar sem fundo?” numa espécie de introdução. O mostrengo surge assim logo
E o homem do leme tremeu e disse: rodeado de mistério, pois localiza-se «no fim do mar» (noite
“El-Rei D. João Segundo!” escura). O mistério está também na expressão «três vezes» (que
se repete sete vezes ao longo do poema). O número três está
Três vezes do leme as mãos ergueu, relacionado com as ciências ocultas, é um número cabalístico, é
Três vezes ao leme as reprendeu, um triângulo sagrado, presente em muitas religiões. Fiquemo-
E disse no fim de tremer três vezes: nos pela versão que considera o número três como símbolo da
“Aqui ao leme sou mais do que eu: perfeição, da unidade, da totalidade a que nada pode ser
Sou um povo que quer o mar que é teu; acrescentado. A simbologia deste e de outros números contribui
E mais que o mostrengo, que me a alma teme para lhe conferir um sentido oculto e esotérico.
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

O mostrengo é caracterizado de forma indireta na primeira estrofe. São as suas ações que se descrevem: realiza
movimentos circulares intimidadores e sitiantes à volta da nau, e as suas palavras são ameaçadoras – vive numa
“cavernas” que ninguém conhece de “tectos negros do fim do mundo” e “escorre” “os medos do mar sem fundo”.
Estas últimas expressões estão também carregadas de mistério-terror. A dinâmica agressiva do texto é ainda sugerida
pela abundância de formas verbais que traduzem movimentos incontroláveis, violentos, de terror: «ergueu-se a
voar», «voou três vezes a chiar», «ousou», «tremendo». Para que a descrição deste ambiente de terror contribui a
linguagem visualista, fazendo apelo às sensações visuais e auditivas sobretudo «noite de breu», «tectos negros». É
também impressionista a linguagem que nos dá a localização espácio-temporal da situação «à roda da nau», «no fim
do mar», «nas minhas cavernas», «meus tectos negros do fim do mundo».

A emotividade desta primeira estrofe é transmitida quer pela frase interrogativa do mostrengo quer pela exclamativa
do marinheiro.

O refrão que aparece repetido em todas as estrofes e que aparece no último verso de cada uma delas acentua a
ligação do marinheiro à vontade de El Rei, constitui além disso uma espécie de coro, de voz secreta do destino a incitar
o marinheiro a cumprir a sua missão.

A reação deste marinheiro caracteriza-se pelo medo «tremendo». Assustado e intimidado quer pelas palavras do
mostrengo, quer pelo ambiente sinistro que o circunda, responde apenas com uma frase invocando a autoridade de
que foi investido. Há um crescendo na coragem e valentia do homem do leme.

Na segunda estrofe o discurso narrativo do sujeito de enunciação é relegado, aparecendo intercalado no discurso
direto do mostrengo. A emotividade agressiva acentua-se nesta estrofe pelas frases interrogativas. A agressividade
continua a ser traduzida por formas verbais que traduzem movimentos incontroláveis, violentos e de terror «roço»,
«rodou», «tremeu».

Também aqui o ambiente de emoção e terror se centra nas atitudes do mostrengo «rodou três vezes», «três vezes
rodou imundo e grosso, e «escorro os medos do mar sem fundo.» Este verso contém também uma metáfora bastante
expressiva que aponta para a permanência do terror, uma espécie de fonte inesgotável de medo (note-se o aspeto
durativo do verbo escorro.
Outro recurso estilístico que merece destaque é a anáfora nos dois primeiros versos, que acentua a procura do
mostrengo do responsável pelo seu desassossego.

Na terceira estrofe, a coragem do homem do leme atingirá o seu clímax neutralizando o mostrengo. O drama da
divisão entre o medo e a coragem vive-se no íntimo do marinheiro. Com efeito, as atitudes contraditórias de prender
e desprender as mãos do leme, tremer e deixar de tremer revelam ainda alguma insegurança e um estado de dúvida
que lhe provoca a divisão entre a coragem e o terror. O terror advinha do mostrengo a coragem da missão que lhe
fora confiada e lhe vinha do alto. Chega finalmente a resposta segura e inabalável. Ele representa o povo português e
nele manda mais a vontade de El Rei do que o terror incutido pelo Mostrengo.

A evolução que se verificou em relação ao homem do leme é ascendente, prevendo-se a evolução contrária do
mostrengo que é neutralizado pela última resposta do homem do leme.

O predomínio do presente do indicativo nas falas do homem do leme por oposição ao pretérito perfeito da narração
confere às falas do marinheiro e do mostrengo maior vivacidade e força, até para o valor universal e para o tom épico
da última fala daquele.

Volta a aparecer nesta última estrofe nos dois primeiros versos a anáfora associada ao simbolismo do número três.
Também o Mostrengo e o homem do leme são figuras simbólicas, como já nos apercebemos.

Em síntese o Mostrengo simboliza os medos dos navegadores que enfrentam o desconhecido e o homem do leme é
a figura do herói mítico, símbolo de um povo, e que, portanto, passa de herói individual a coletivo, com uma missão a
cumprir.

Trata-se de um poema da segunda parte – Mar Português – da


Mensagem.

Título: no título, constituído por duas palavras, há a destacar o


adjetivo «português», que remete para a conquista e o domínio
Mar português
dos mares pelos Portugueses, que os ligaram e fizeram com que
Ó mar salgado, quanto do teu sal existisse apenas o «mar» conhecido. Essa união foi o resultado do
São lágrimas de Portugal sofrimento e da coragem dos lusitanos; daí o mar ser «português».
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Por outro lado, apesar de os Portugueses já não cruzarem o mar
Quantos filhos em vão rezaram no presente, o título deixa entender que ele será sempre lusitano.
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! Tema: o mar, glória e desgraça do povo português.

Valeu a pena? O poema, ao nível da estrutura interna, divide-se em duas


Tudo vale a pena, partes:
Se não é pequena.  Na primeira, o poeta procura apresentar e interiorizar
Quem quer passar além do Bojador uma realidade épica, os sacrifícios necessários para que o
Tem que passar além da dor.
povo português conquistasse o mar.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
 Na segunda, o poeta tece considerações sobre essa
Mas nele é que espelhou o céu.
realidade e os sacrifícios que a sua concretização exigiu,
afirmando que "tudo vale a pena se a alma não é
pequena" - no mar se espelha o céu (habitação de Deus)
e quem quiser aproximar-se dele, pelo heroísmo, "tem de
passar além da dor".
- A primeira parte inicia-se e termina com uma apóstrofe ao mar. Tudo começa e termina no mar.

A metáfora associada à hipérbole nos dois versos iniciais (Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal), acentuam o
sofrimento causado pelo mar no povo português. Note-se ainda a metonímia ( o todo pela parte) em Portugal.

As frases exclamativas conferem o tom épico a esta primeira estrofe e apresentam as vítimas que o mar fazia em
terra: as mães, as noivas e os filhos são os atingidos pelo sofrimento causado pelo elemento marinho.

A repetição do determinante interrogativo, em posição anafórica, nos dois últimos versos acentua o dramatismo das
situações narradas. Foi sobretudo nos núcleos familiares que se fizeram sentir os malefícios do mar.

Ressalte-se o valor expressivo da metáfora inicial “ Por te cruzarmos”, apontando para a cruz símbolo de sofrimento.
Os verbos choraram, rezaram, e ficaram por casar reforçados pela expressão “em vão” denotam a dor, o sofrimento
e o choro aflito provocados pela destruição do amor maternal, filial e de namorados. Tudo isto porque almejamos a
posse do mar “ para que fosses nosso, ó mar!”

- Na segunda parte, o sujeito poético pergunta se valeu a pena suportar tais desgraças, respondendo ele próprio que
tudo vale a pena ao ser humano dotado de uma alma de aspirações infinitas. → É que toda a vitória implica passar
além da dor e, se Deus fez do mar o local de todos os perigos e medos, a verdade, é que, conquistado, é ele o
espelho do esplendor do céu (símbolo do sonho realizado, da glória).

As grandes dores são o preço das grandes glórias: "Deus pôs o perigo e o abismo no mar, mas nele é que espelhou o
céu" (a glória).

“ Quem quer passar além do Bojador / tem que passar além da dor”, deve entender-se Bojador na sua dimensão
simbólica, de ultrapassar o medo, ultrapassar o desconhecido, conseguir a glória e a heroicidade desejada. Não
obstante é necessário ultrapassar também em primeiro lugar a dor.

«Prece» é o último poema da segunda parte de «Mensagem» - «Mar


XII - Prece Português» - sendo que o poema que o precede é «A Última Nau». O tema
central é a invocação de Pessoa a Deus pedindo-lhe ajuda para reacender a
Alma Lusitana para que de novo "conquistemos a Distância".
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade! Prece é um ato religioso pelo qual nos dirigimos a Deus para suplicar algum
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, benefício, ou para adorá-lo; reza, oração.
O mar universal e a saudade.
Análise da primeira estrofe:

Mas a chama, que a vida em nós criou, A expressão «a noite veio», implica a existência prévia do dia e a passagem
Se ainda há vida ainda não é finda. deste a noite. Se o dia foi o tempo de grandeza, a noite será o tempo de
O frio morto em cinzas a ocultou: abatimento, tristeza e destruição. No passado situam-se a tormenta ( «tanta
A mão do vento pode erguê-la ainda. foi a tormenta») e o sonho («a vontade!»). A frase exclamativa presente no
segundo verso confere ao discurso grande emotividade.
Dá sopro, a aragem – ou desgraça ou
As dificuldades foram muitas, mas a atitude assumida pelo povo «nós»
ânsia-,
(sujeito poético mais o povo português) foi de vontade para as ultrapassar.
Com que a chama do esforço se
O desalento é o sentimento assumido pelo sujeito poético e que deve ser
remoça,
também assumido pelos outros. Resta o silêncio e a saudade, após a
E outra vez conquistemos a Distância-
conquista do mar. Estamos portanto diante de um Portugal marcado pela
Do mar ou outra, mas que seja nossa!
insensibilidade «pelo silêncio hostil», pelo apego às coisas materiais, sem
capacidade de sonhar «a alma é vil» em contraste com um passado de
«tormenta e vontade».
Análise da segunda estrofe:

A segunda estrofe introduzida pela conjunção adversativa «mas» opõe-se à primeira estrofe, que termina com a
afirmação do desalento e da conformação da situação presente em que apenas resta «o mar universal e a saudade».

Em «A mão do vento», a metáfora e a personificação demonstram a ideia de que pode erguer-se novamente a chama
(a esperança), porque enquanto há vida, («ainda não é finda»), há esperança. Esta e o sonho podem ainda ganhar
força, tal como o fogo quase extinto pode ser reavivado por um sopro, a Alma portuguesa pode ainda levantar-se.

A repetição do «ainda» reforça a ideia de que nada está perdido e de que com uma atitude diferente (a ação do vento)
tudo se pode alterar. Na expressão «o frio morto» o adjetivo morto poderá ter um sentido conotativo de ocultar vida
renovada, como a Fénix que surge das cinzas.

Análise da terceira estrofe:

Na terceira estrofe, como indica o título, o sujeito poético, em tom de súplica, pede que um «sopro» divino ajude a
atear a «chama do esforço», ainda que se tenha de pagar com «desgraça» ou suportar o peso da «ânsia».

Os dois últimos versos deste poema recordam-nos os do poema «Infante»: «Cumpriu-se o mar, e o Império
se desfez! Senhor, falta cumprir-se Portugal!». A Distância é o caminho para o conhecimento: em primeiro lugar do
mar na primeira viagem que indica o império material e agora outra (a nova viagem), que indica o império espiritual.
No último verso, reforça-se assim a ideia de que é necessário procurar a identidade e o prestígio nacionais perdidos.
Estes dois versos traduzem a crença num futuro risonho.

O discurso na primeira pessoa:

O poema apresenta um discurso na primeira pessoa do plural. Que é visível, por exemplo, nas expressões: «Restam-
nos» (v.3), «nós» (v.5); «conquistemos» (v.11) e «nossa» (v.12).

O discurso é na primeira pessoa porque se refere ao povo português. O desejo/sentimento do poeta, em jeito de
súplica, não é só dele, mas deve ser de todos nós portugueses.

As marcas da presença do recetor:

No poema existem marcas que demonstram a presença de um recetor ao qual o sujeito poético se dirige fazendo um
pedido. E essas marcas são as palavras: «Senhor» (v.1) e «Dá» (v.9).

A formulação do pedido:

Fernando Pessoa apresenta este pedido como uma súplica, sob a forma de vento, como é notado nas expressões «Dá
sopro» e «a aragem», como forma de reavivar uma chama aparentemente apagada. Esta súplica é feita para que uma
mão divina ajude a erguer novamente um clarão que restou. E será esta pequena aragem que fará toda a diferença.
Irá consistir assim num reaprender de ideias e de conquistas.

Os tempos verbais predominantes nessas estrofes:

Ao longo do poema predominam tempos verbais no presente do indicativo e no futuro, mas também se faz referência
a marcas passadas. Estão presentes em expressões como «a noite veio e a alma é vil» / «Tanta foi a tormenta»; «Resta-
nos hoje»; «que a vida em nós criou»; «pode erguê-la»; «E outra vez conquistemos…». É assim entendido como algo
que se necessita hoje e que se espera que suceda amanhã bem como algo de revolucionário que se apresente ao
nosso ser.

A expressividade da repetição do termo «ainda»:

O termo «ainda» que aparece repetido ao longo da segunda estrofe remete-nos para uma sensação de esperança, de
glória vindoura. Este termo remete-nos para a possibilidade de ter um pouco de esperança para erguer o quinto
império, ou seja, nem tudo está perdido e com empenho e dedicação tudo se conseguirá.
O prenúncio do quinto império:

Na terceira estrofe é visível uma referência ao quinto império: «Com que a chama do esforço se remoça, / E outra vez
conquistemos a Distância - / Do mar ou outra, mas que seja nossa!». Esta é o prenúncio de que se irá reerguer o
glorioso Portugal (quinto império), e com «a chama do esforço», com o esforço da cultura, não das armas (estas já não
levam a lado algum), tudo se conseguirá.

A expressividade dos recursos estilísticos utilizados:

O sujeito poético inicia o poema com uma apóstrofe ao “Senhor”, um chamamento ao recetor a quem é destinado o
discurso – Deus ou D. Sebastião divinizado.

Em “A mão do vento”, a personificação simboliza a ideia de que uma mão divina vai fazer com que a chama se
reacenda.

Também é visível o emprego de substantivos abstratos, nomeadamente, «tormenta», «vontade», «silêncio»,


«saudade», «desgraça», «ânsia», «esforço».

Adjetivação como «alma é vil» e «silêncio hostil».

A repetição da palavra «ainda» reforça a ideia de que nada está perdido e de que com uma atitude diferente (a ação
do vento) tudo se pode alterar.

Justificação para a localização do poema na obra pessoana:

O poema «Prece» está localizado na parte final do «Mar Português» de «Mensagem», pois nele se encerra o
ciclo de tentativa de transmitir a palavra com uma invocação do poeta à intervenção divina. Pessoa afirma que os
portugueses venceram tantos obstáculos que hoje perderam a valia. No entanto, tal como um sopro pode reavivar um
fogo extinto, também a Alma Portuguesa pode levantar-se para que seja de novo grande entre as Nações («E outra
vez conquistemos a Distância»). Então este poema é ideal para encerrar esta parte da «Mensagem». Sendo «Mar
Português» a visão mística da história, Pessoa quer mostrar que «o mar é nosso», que os Portugueses foram os
primeiros a conquista-lo e que ele é o caminho para a perfeição.

A simbologia da «noite»:

Neste poema, a «noite» pode ser vista sobre dois distintos pontos de vista:

- As trevas, devido à situação em que a nação se encontra, porque mesmo com o seu futuro por decidir, esta continua
na sombra e na obscuridade.

- A preparação do dia donde virá a luz da vida, ou seja, a preparação daquilo que será o glorioso futuro de Portugal, o
seu domínio cultural e a reconstrução da sua essência do seu império.

Símbolo: Cinzas

Podemos ver as cinzas como uma imagem da nação em ruínas, vestígio do que em tempos foi, mas no entanto a sua
essência permanece a mesma, só que adormecida e esquecida. As cinzas são o que sobrou do corpo (da nação), mas
não deixou de o ser, permanece. Até que ganhe uma nova alma e das cinzas renasça, como a fénix, o ser que existia
com todo o seu esplendor, glória e essência.
Podemos dizer que mesmo estando Portugal adormecido, «em cinzas», basta estas voarem, ou seja os
portugueses sonharem e acreditarem no sonho para que delas nasça um Portugal ainda maior do que o deu origem
às cinzas. Um Portugal onde impere a cultura, a sabedoria, os valores/os ideais justos, a perfeição e a humanidade.

Semelhanças/diferenças do poema pessoano face à epopeia camoniana:

Camões elogia um herói passado, pois estava numa altura em que o país entrava em decadência de valores e
pretendia tornar o povo português um herói universal. Por outro lado, Pessoa quer divulgar a língua e cultura
portuguesas e tenta prever um futuro grandioso. No entanto, para que Portugal alcance esta glória e se expanda
pelo mundo, ambos pedem ajuda divina, suplicando a Deus que auxilie Portugal na conquista do mar, ou no caso de
Pessoa de outra «Distância- / Do mar ou outra, mas que seja nossa!».
II -"O Quinto Império" O poema “O Quinto Império” situa-se na terceira parte, O Encoberto ( a
imagem do império moribundo, a fé de que a morte contenha em si a
Triste de quem vive em casa, semente da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império
Contente com o seu lar, espiritual, moral e civilizacional. A presença do Quinto Império).
Sem que um sonho, no erguer de asa, Nesta terceira parte aparece a desintegração, havendo, por isso, um
Faça até mais rubra a brasa presente de sofrimento e de mágoa, pois “falta cumprir-se Portugal “. É
Da lareira a abandonar! preciso acontecer a regeneração, que será anunciada por símbolos e
avisos.
Triste de quem é feliz! A Mensagem recorre ao ocultismo para criar o herói – O Encoberto – que
Vive porque a vida dura. se apresenta como D. Sebastião. Note-se que o ocultismo remete para um
Nada na alma lhe diz sentimento de mistério, indecifrável para a maioria dos mortais. Daí que
Mais que a lição da raíz -- só o detentor do privilégio esotérico (oculto/secreto) se encontra
Ter por vida sepultura. legitimado para realizar o sonho do Quinto Império.

Eras sobre eras se somen Este poema divide-se em três partes lógicas, sendo que a primeira
No tempo que em eras vem. corresponde às duas primeiras quintilhas, a segunda à terceira quintilha e
Ser descontente é ser homem. a terceira às duas últimas estrofes.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! Nas duas primeiras estrofes, o sujeito poético lamenta o facto de as
pessoas, em geral se acomodarem demasiado às rotinas do dia a dia, tendo
E assim, passados os quatro como preocupação exclusiva a satisfação das necessidades básicas
Tempos do ser que sonhou, imediatas, estejam elas relacionadas com o conforto do lar ("contente com
A terra será teatro o seu lar") ou com a vivência de uma felicidade aparente ("Triste de quem
Do dia claro, que no atro é feliz!"). Com efeito, as pessoas que se acomodam a uma vida fácil, que
Da erma noite começou. vivem no aconchego proporcionado por uma "lareira" ou debaixo do abrigo
de um teto, acabam por não alimentar o sonho, por não se deixarem enlear
Grécia, Roma, Cristandade, pelo poder sedutor da aventura. São, por isso, uns tristes, como bem o
Europa -- os quatro se vão evidencia a repetição do adjetivo "triste", colocado anaforicamente no
Para onde vai toda idade. início das duas primeiras quintilhas.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Ora, essas pessoas, a fazer fé nas palavras do sujeito poético, deixam esmorecer a chama da alma, pelo que não vivem
uma vida plena, limitando-se a sobreviver: "vive porque a vida dura. / Nada na alma lhe diz / Mais que a lição de raiz
- / Ter por vida a sepultura". Repare-se na expressividade do paradoxo contido neste último segmento frásico - as
pessoas vivem ilusoriamente uma vida sem sentido, dado que a "vida" para elas não passa, efetivamente, de uma
"sepultura", o lugar dos mortos. Dito de outra forma, o seu corpo continua vivo, sadio, porém, espiritualmente falando,
a sua alma perdeu a chama, porque o sonho, pela sua ausência, já não torna "mais rubra a brasa / Da lareira a
abandonar".
Mas por que é que as pessoas que se acomodam são ironicamente criticadas pelo eu lírico? A resposta é-nos dada na
segunda parte do poema, constituída pela terceira quintilha.
E essa resposta é muito simples: o tempo vai escorrendo era após era ("Eras sobre eras se somem / No tempo que
em eras vem"), todavia há uma característica do homem que permanece ou que deveria manter-se eternamente - a
insatisfação humana. O homem é, na verdade, um ser eminentemente insatisfeito ("Ser descontente é ser homem."),
razão por que o homem sempre alimentou o desejo de ver a alma (o espírito) a sobrepor-se à materialidade, às forças
instintivas - "Que as forças cegas se domem / Pela visão que a alma tem!".

O que é certo é que foi essa insatisfação humana, essa capacidade de ir mais além, que esteve na base da formação
de impérios, que se foram sucedendo. Quatro deles já tiveram o seu apogeu, a que se seguiu, naturalmente, o
respetivo declínio, ao resvalarem para o mundo do esquecimento - "Grécia, Roma, Cristandade, / Europa - os quatro
se vão / Para onde vai toda a idade". Então, passados esses "quatro tempos", ressurgirá das trevas, da noite do
obscurantismo que caracteriza os dias de hoje, um novo dia, uma nova era, que responderá ao apelo de "loucura"
feito por D. Sebastião, o rei que da morte fez vida, porque como mito se fixou na memória coletiva de um povo. Esse
império será, logicamente, o Quinto Império português. E assim, "...no atro (= escuro) / Da erma noite..." se fará Luz...

De notar, para finalizar, que o número cinco e a simbologia que lhe está associada (note-se que o número cinco é a
soma do número dois, o número que representa a Terra, e do número três, o número divino, do Céu. Logo, representa
a ligação da terra e do céu, formando, deste modo, uma síntese perfeita, uma universalidade, como universal irá ser
o Quinto Império) são várias vezes presentificados nesta composição poética: no título, nas cinco estrofes que
compõem o texto, no número de versos vertidos em cada estrofe, na referência aos quatro impérios a que se seguirá,
fatalmente, um quinto.

IV - AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas As Ilhas Afortunadas fazem parte da tradição clássica. Já
Que não é a voz do mar? em autores gregos aparecem referidas como paraísos, local do
É a voz de alguém que nos fala, repouso dos deuses e dos heróis míticos. Ptolomeu, soberano do
Mas que, se escutamos, cala, antigo Egito, fala destas ilhas, tal como Homero que refere as
Por ter havido escutar. "ilhas que ficavam além dos Pilares de Hércules". O historiador
romano Plínio-o-Velho e Plutarco, no século I, identificaram
as Ilhas Afortunadas com as Canárias, tal como faz Camões
E só se, meio dormindo,
no canto V, estância 8. Gregos, romanos e fenícios, nas suas
Sem saber de ouvir ouvimos,
aventuras pelo Mar Mediterrâneo em direção à costa atlântica
Que ela nos diz a esperança africana referem o encantamento que lhes provocavam estas
A que, como uma criança ilhas vulcânicas, de clima temperado e de vegetação luxuriosa e
Dormente, a dormir sorrimos. balsâmica.
Em Mensagem, Fernando Pessoa fala das Ilhas
São ilhas afortunadas,
Afortunadas como mito e símbolo, surgindo como local fora do
São terras sem ter lugar,
tempo e do espaço onde os mitos do Quinto Império,
Onde o Rei mora esperando. do Encoberto, do Sebastianismo esperam para se concretizar. As
Mas, se vamos despertando, Ilhas, cuja presença só se capta no sono através de sinais
Cala a voz, e há só o mar. auditivos e pelo som das ondas, surgem como lugar do não-
tempo e do não-espaço, são "terras sem ter lugar", onde se
encontra o Desejado que virá fundar o Quinto Império, "onde o
Rei mora esperando".
Sobre a CRISE, ou crises, escreveu Pessoa na Mensagem o poema «Nevoeiro», precisamente o que encerra a
obra:

NEVOEIRO Este é o último poema da "Mensagem", pertencendo à parte designada


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, "O Encoberto", que fecha o ciclo da vida da Pátria, mas em que se
Define com perfil e ser pressente o gérmen sebastianista, o anúncio de um novo ciclo e a
recuperação de energias latentes para a constituição próxima de um
Este fulgor baço da terra Quinto Império, um "reino de liberdade de espírito e de redenção. Diante
Que é Portugal a entristecer – dos homens ergue-se ainda uma aventura de espírito poderosa e
Brilho sem luz e sem arder, inesperada. É a partida e a busca de uma nova Índia, que não existe no
Como o que o fogo - fátuo encerra. mapa, no espaço, e que jaz para além de toda a temporalidade , pois que
só será alcançada por navios tecidos de sonho". Por isso é que, sendo
Ninguém sabe que coisa quer, Portugal nevoeiro, o poeta exclama: "É a hora!". No "nevoeiro", no
Ninguém conhece que alma tem, "incerto e derradeiro", quando "tudo é disperso e nada é inteiro", a
Nem o que é mal nem o que é bem. exclamação final é mobilizadora, chama a atenção para o facto de ser
(Que ânsia distante perto chora?) esse, precisamente, o momento em que tudo começa, em que tem de
Tudo é incerto e derradeiro. começar a construir-se uma Nova Realidade, diferente e melhor, mais
Tudo é disperso, nada é inteiro. além.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

O título do poema e o seu último verso (Ó Portugal, hoje és nevoeiro"), na sua dimensão metafórica, caracterizam
uma situação de crise que se perfila em várias modalidades:

 Crise política: "Nem rei nem lei";


 Crise de valores: "Ninguém conhece que alma tem / Nem o que é mal nem o que é bem".
 Crise de identidade: "Brilho sem luz e sem arder, / Como o que o fogo-fátuo encerra"; (aqui com o recurso a
uma comparação bastante expressiva). Outro exemplo: "Tudo é incerto e derradeiro / Tudo é disperso, nada
é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro"...

A descrição desta situação de ruína, que é, sobretudo, moral, abrange todo o poema exceto a interrogação do quarto
verso da segunda estrofe, apresentada, em destaque, entre parênteses ("Que ânsia distante perto chora?") e a
exclamação do último verso do poema, destacada também, isolada, a fazer lembrar uma finda medieval, mas a ser,
mais do que uma síntese do poema, a tradução do salto em frente que é preciso dar. Se a situação é crítica não deixa
de ter virtualidade: esta exclamação funciona como um recado, uma mensagem.

Tem, portanto, o poema duas faces: uma voltada para a crise presente e outra que prenuncia uma redenção. Quando
se pergunta - "Que ânsia distante perto chora?" - isso significa que a ânsia, indispensável para a busca e o encontro,
embora distante, não morreu, ela chora perto. Está viva. O último verso - "É hora!" - vem abrir-lhe a porta da Índia
Nova e imaterial dum Novo Império. A ânsia foi determinante nas Descobertas. Também o é agora no Novo Mundo a
achar.

Pelo contrário, na maior parte do poema, naquela que tipifica uma situação de decadência, as frases são declarativas.
Os verbos estão no presente, sugerindo permanência, arrastamento ou continuidade, sendo de realçar a frequência
da utilização do verbo ser. Em Fernando Pessoa, é o problema do ser tanto o de Portugal como o de si próprio, aquele
que mais o aflige.

De salientar a frequência das palavras negativas ou de sentido negativo:

 "nem" (quatro vezes no primeiro verso e duas no nono, repetida em diácope, isto é, com outras palavras de
permeio, e contribuindo decisivamente para caracterizar, logo de início, uma situação de inércia e marasmo);
 "ninguém" (duas vezes e a constituir uma anáfora, no princípio dos dois primeiros versos da segunda estrofe);
 "sem", repetida no quinto verso da primeira estrofe, contribuindo para adensar o sentido dum verso
paradoxal, em que o oxímoro desempenha, como em todo o texto, um papel fundamental: "Brilho sem luz e
sem arder";
 outra palavra negativa muito importante no texto é "nada" (décimo segundo verso), sobretudo, porque em
antítese com "tudo", anaforicamente repetido nos décimo primeiro e décimo segundo versos;

e ainda palavras ou expressões antitéticas, como: "guerra", "fulgor baço", "entristecer", "fogo-fátuo", Que ânsia
distante perto chora?", "incerto e derradeiro", "disperso", "nevoeiro".

O poema aponta claramente para um clima de degradação da pátria, de melancolia e tristeza, enfatizado pelo
recurso a palavras e expressões que revelam negatividade ("Nem rei nem lei"; "Brilho sem luz", etc.), em suma, um
ambiente de crise a vários níveis: político ("Nem rei nem lei, nem paz nem guerra"); moral ("Ninguém sabe que coisa
quer, / (...) nem o que é mal, nem o que é bem"); de identidade ("ninguém conhece que alma tem"). A situação de
Portugal era, portanto, de incerteza e indefinição. Ontem, tal como hoje: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro...".

Assim sendo, as circunstâncias exigem um golpe de asa, um esforço conjunto de resgate da situação disfórica
que se vive. Parafraseando Pessoa, «É a hora!».
http://leonorestuda.blogspot.pt/2009/02/teste-avisos-antonio-vieira.html

http://leonorestuda.blogspot.pt/2008/12/segundoteste-sumativo-critrios126.html

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