Roberto Piva

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Roberto Piva

o francês. 1975). Foi um professor de muito sucesso. publicado na França. Esse contato com Dante foi como seu imprinting poéticofilosófico: marcou para sempre sua visão de mundo. de ônibus ou carro. ainda na década de 60. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico. exprofessor.Roswitta Kempf. Antologia poética (L&PM. 1961) e 26 poetas hoje (Editorial Labor. Em suas aulas aos adolescentes do segundo grau. exemplo do que não deve ser feito contra o meio ambiente. dissertações de mestrado e depoimentos. Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses. no Brasil do período: Friedrich Nietzsche. Seus poemas foram traduzidos para o inglês. na qual se lançaram vários poetas brasileiros iniciantes. mas também por sua transgressão. de onde foge sempre que pode. mas que forneceu todo o pano de fundo para sua obra poética. 1979). Mas nem só de espírito. sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo. Tem medo de avião. 1964). Piva escreveu também diversos artigos e manifestos em jornais e revistas. formado em sociologia e política. SP. com rara vocação como pedagogo. o gavião. na vertente francesa de André Breton. foi membro do Grupo Novíssimos. Sobreviveu em grande parte como professor de estudos sociais e história. a Editora Globo publicou dois volumes das suas obras reunidas. capítulos de livros. costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar. Quizumba (Global. tornou-se produtor de shows de rock. que depois desenvolveram uma obra poética de importância. formando uma mistura-fina que é única por sua erudição. quando tinha 23 anos. 1963).Roberto Lopes Piva (São Paulo. A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à poesia. Abra os olhos & diga AH (Massao Ohno. Começa com Dante Alighieri. artigos. Entre 2005 e 2007. 1985) e Ciclones (Nankin. 1997). É estudioso da flora e da fauna brasileiras e iniciado no xamanismo. que deixou de ser circunstancial quando. Antonin Artaud e René Crevel. Das vanguardas do começo do século 20. por três anos Piva aprofundou-se nos estudos da Divina Comédia. o espanhol e o catalão. 1976). sobretudo William Blake. 1983). recebendo a influência desses dois poetas visionários. A partir de Artaud. nem só de intelecto fez-se o aprendizado juvenil de Roberto Piva. Piva formou-se em sociologia. (Massao Ohno. Roberto Piva teve contato com a obra de um filósofo praticamente desconhecido. que cedo descobriu Rimbaud e Lautréamont. Poeta. A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa experiência com uma ponta de pessimismo. À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. Roberto Piva absorveu lições do surrealismo. Publicou os seguintes livros de poesia: Paranóia (Massao Ohno. A história pessoal do poeta Roberto Piva começa e gira em torno da cidade de São Paulo. integrou a famosa Antologia dos Novíssimos. Piazzas (Massao Ohno. Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto entre poesia e vida. Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com o sagrado e a vida interior. orientado por Eduardo Bizzarri. adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Nessa mesma época. refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias. no interior do Estado de São Paulo. Nos anos de 1970. 2 Roberto Piva . 20 poemas com brócoli. das antologias Antologia dos novíssimos (Massao Ohno. É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no famoso Dicionário Geral do Surrealismo. Piva mora em São Paulo. O extenso material crítico sobre sua obra inclui resenhas. 1937). cidade que lhe parece apocalíptica. Seus primeiros poemas foram publicados em 1961. sua política e sua poesia. Coxas (Feira de Poesia. Por isso. Ele cresceu e formou-se entre a capital e as antigas fazendas do pai. 1981). Ainda na década de 60. A genealogia poética de Roberto Piva apresenta raízes e inclui influências muito raras na literatura brasileira. raramente se distanciou demais da capital. entre outras. Participou. de Massao Ohno.

expontâneo e sensorial. ao contrário dos franceses intelectualizados . mas através da qual também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos costumes do seu tempo. para Piva. protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas do paradoxo. Ele não só cultua seus orixás (Xangô. 3 Roberto Piva . como um componente de transgressão do desejo.O dito artaudiano “para conhecer minha obra. Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de Mairiporã e serra da Cantareira. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza. foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade. Também é flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu culto à fragmentação moderna). além de Jarinu. visionário e atormentado de “Invenção de Orfeu”.com seu surrealismo intenso. a única salvação possível ao mundo moderno. Mas há mais duas fortes presenças contemporâneas em sua poética. leia-se minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. Os elementos finais da construção poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o aspecto mágico. da qual Piva não só absorveu a estilística fragmentada e a temática que aproxima o contemporâneo do arcaico. Um: a ingestão de drogas alucinógenas e bebidas libatórias.e Jorge de Lima. a transgressão foi reforçada pela descoberta do outsider Pier Paolo Pasolini. Uma é a beat generation americana. essa genealogia poética agregou as figuras de Murilo Mendes . enquanto forças da natureza. mas sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé. Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado. através da onipresente marca do jazz e da bossa nova. Essa sacralidade é. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico. Dois: o culto a uma erótica homossexual. sobretudo aquele barroco. duas fidelíssimas paixões de Roberto Piva. selaram sua ligação sagrada com a natureza. Na década de 70. resgatando para a modernidade o amor grego. como formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. ambas nos arredores de São Paulo. que colocou a destruição da natureza como parte do seu projeto consumista. no interior do estado. acrescida de algumas expressões musicais da contemporaneidade do pós-guerra. Dos poetas brasileiros. Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. Piva passou a estudar e praticar o xamanismo. o gavião. Yemanjá e Oxum) mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico.

Piazza I Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch uma tarde de inverno sobre um grave pátio onde garòfani milk-shake & Claude obcecado com anjos ou vastos motores que giram com uma graça seráfica tocar o banjo da Lembrança sem o Amor encontrado provado sonhado & longos viveiros municipais sem procurar compreender imaginar a medula sem olhos ou pássaros virgens aconteceu que eu revi a simples torre mortal do Sonho não com dedos reais & cilíndricos Du Barry Byron Marquesa de Santos Swift Jarry com barulho de sinos nas minhas noites de bárbaro os carros de fogo os trapézios de mercúrio suas mãos escrevendo & pescando ninfas escatológicas pequenos canhões do sangue & os grandes olhos abertos para algum milagre da Sorte Jorge de Lima. panfletário do Caos Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca palpita nos bulevares oxidados pela névoa uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil de tua túnica e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre se despedaçam contra os ninhos da Eternidade é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve estar com um talismã nos lábios de todos os meninos Os anjos de Sodoma Eu vi os anjos de Sodoma escalando um monte até o céu E suas asas destruídas pelo fogo abanavam o ar da tarde Eu vi os anjos de Sodoma semeando prodígios para a criação não perder o ritmo de harpas 4 Roberto Piva .

roubando o sono das virgens. criando palavras turbulentas Eu vi os anjos de Sodoma inventando a loucura e o arrependimento de Deus Paranóia em Astrakan Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com lágrimas invulneráveis onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes que saem escondidos das tocas onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados estéreis e incendeiam internatos onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam a descarga sobre o mundo onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha no seu hálito onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua última janela onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte branco onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe escurecendo a página onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas penas onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da imaginação A Piedade Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida as senhoras católicas são piedosas os comunistas são piedosos os comerciantes são piedosos só eu não sou piedoso se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda? eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos eu me universalizaria no senso comum e eles dirieam que tenho todas as virtudes eu não sou piedoso eu nunca poderei ser piedoso 5 Roberto Piva . dos suicidas e dos jovens mortos Eu vi os anjos de Sodoma crescendo com o fogo e de suas bocas saltavam medusas cegas Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e violentos aniquilando os mercadores.Eu vi os anjos de Sodoma lambendo as feridas dos que morreram sem alarde. dos suplicantes.

uma mulher pálida. O quase nada. engole o último pedaço de vidro arrebentado com a explosão atômica de meus sonhos avulsos transtornados. O castelo e o muro dedilhados no quadro azul. Olho o monte de esterco apodrecendo na vidraça entreaberta. Se a noite persegue minha vida. Silencie-me! Silencie-me! Sigo as labaredas memoráveis dos dias de luto e melancolia. O erotismo atrapalhado do anão que não mais se agüenta neste intervalo de memórias e areias. Aonde andará o poeta de pijama que escorrega e cai. O minúsculo. arranhásseis e corpos voadores de pedra. Sinto a introdução e o posfácio deste rio que golpeia as paredes com mãos nuas. noite e chamas. Quero a forma perfeita.meus olhos retinem e tingem-se de verde Os arranha-céus de carniça decompões nos pavimentos Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através do meus sonhos Quatro poemas pivianos I As mãos invisíveis dedilham a canção sinistra vibrando as fibras nervosas da medula Os dentes mastigam o sem fim de peripaques nostálgicos enquanto o mistério corre pela rua em chamas. Diminuindo cada vez mais. não percebida. bactéria. Não sei de mim. As idéias são espasmos. o beijo. da complementaridade ilusória. penhascos. do paranóico que mora nos ciclones A bailarina. deposito monstros no aquário. Apenas eu! Danço a quimera dos solitários e o presságio dos carecas. enquanto distraído sonha um mundo de estrelas? Já não há céu. Janelas. O mínimo. Um poema. O uivo caminhando sobre a ponte imóvel. o cheiro do Apolo ruivo. um segmento refratário. devorando-me. coisa inútil. Vivo esse segundo que se arrasta. II O estrangeiro da legião de insetos arrancou o grito de cólera e loucura da boca arreganhada. nem solo firme. Sei da impossibilidade das horas. Os peixes caminham no asfalto e as mulheres usam gravatas. Seria senil e insano se acreditasse no amanhã. meu desejo. Dedilhai as últimas notas vagas 6 Roberto Piva . Minha alma. e as palavras. minha imobilidade.

Morfina e sonhos. Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados. ou o miocárdio. as páginas comidas por traças. Não acredito em forças de outro mundo. Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos. Quatro poemas nos espaços angustiados do processo. enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo. A dançarina com suas vestes invisíveis caminha no jardim de lâminas e gafanhotos. O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos. Minha maquiagem. os primeiros tombos das gaivotas. ou o pedúnculo. Triunfa a idéia do parto cesariano sem anestesia. Não sei controlar meus impulsos demoníacos. A árvore sem galhos escondem os meninos saltimbancos. Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas. meus ruídos. IV Dêem-me um anestésico. Enquanto corpos se misturam na madrugada convulsiva de salões apertados. O sangue e os olhos transformados em areia cinza. Sou urbano. O cheiro de perfume velho e asfixiante. ou o octocentésimo. adormecem na noite de meus surtos compulsivos. iluminados por rosas ensangüentadas. Trezentos dias e cinqüenta noites marianas. A teia de aranha presa entre os ossos mortos. As estantes. III O corvo de pelúcia esfaqueado pelas costas traz os olhos esbugalhados mirando a parede alada. Arranco minhas víceras poéticas do ostracismo. sou quase cético. Olhos imensos de um desenho de carvão negro mãos em garras batendo teclas ideais. Sou eu. homens dirigem seus carros vagarosamente seguindo as pernas nuas das mulheres prostitutas. Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?! As idéias me levam ao eterno estado de castidade entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro. A torre delirante de um neocórtex em latência. Lá fora. 7 Roberto Piva .que recordam a imagem deformada do psicótico que caminha sobre o fio dental. aquele rosto assimétrico. Escreverei dez mil poemas ao poeta necropolitano sem esperanças de ter meus sonhos confundidos com o delírio e o êxtase do pai xamânico. meus versos e o perigo das frações. A vida dói e arde. Meus passos.

seus computadores de controle. seus cassetes eletrônicos. seus poetas babosos. seus rios cheio de sardinha. seus foguetes nucleares caralhudos. ragazzo di marbro) garoto pornógrafo antes que a lua chegue esta feijoada será uma batalha Átila vence a grama do mundo ADIANUS CESAR Imperator caminhando na manhã romana com seus doze amantes eu gostaria que você lesse Jacob Boehme suas coxas se retesam & você chora um pouco venha. sua explosão demográfica. O século XXI me dará razão. seus gangsters ministros. suas preces. sua jaula. molécula procurando a brecha do universo & suas trezentas flores assim é a lucidez. sua epidemia suicida. seus partidos de esquerda-fascistas. SP o século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes) Baudelaire sangrou na ponte negra do Sena. suas panquecas recheadas com desgosto. seus bidês da direita. seu sindicato policial do crime. suas fardas vitoriosas. sua moral. suas gaiolas. suas mulheres navi-escola. lamba minha mão & se prepare para um milhão de comas loucas loucas antes que a lua chegue morda meu coração na esquina & não me esqueça Do livro: "Abra os olhos & diga ah". suas tripas. 1976. suas cocotas. sua gripe espanhola. seus cérebros de água-choca. seus mananciais de desespero. suas xícaras de chá. seus chatos. Massao Ohno Editor. o swing das Fleurs du Mal.Atentado Profundamente o Emocional (Antinoo. seus manuais de estéticas. seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa. sua tristeza. seu luar de agosto. completa tortura roendo a realidade & l’immense gouffre. seus anti-Cuba. seus cretinos sorridentes. seu rebanho-que-saca. seus leões-de-chácara da cultura. seu jardinzinhos com vidro fumê. sua aldeia global. seus mares de lama. todas as paixões / convulsões no espelho. suas mumunhas sempiternas. seus literatos sedentários. suas cidades embalsamadas. seus pró-Cuba. 8 Roberto Piva . suas últimas esperanças. seus capachos do PC. sua ordem unida. seus ministros gangsters. por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho. sua estrictina. seus legumes envenenados. seus sonhos paralíticos de televisão. sua lepra. Baudelaire & ses fatigues rumo à pálida estrela.

. o Ampliado. a selvagem inocência nos beijos dos que se amam" [. repique dos sinos de São Bento. o rumor dos planaltos. batendo em chapa na caatinga nordestina. tumulto do tráfego na hora do rush. Tu. Tu. enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado. hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá. Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o professor não vê. de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche Tu. Não estarei doutorado. (in: Antologia dos Novíssimos.] "Fernando. Morrerei inocente Sem nunca ter Descoberto O que há de bem e mal De falso ou certo No que vi.. 1961) 9 Roberto Piva . escorrendo pelas águas do Amazonas. vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã. Portugal África Brasil Angola Lisboa São Paulo e o resto do mundo. Digo em sussurro teus poemas no ouvido do Brasil. Não serei batizado.* [. todas as crianças vivazes e sonolentas. e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite. adolescente moreno empinando papagaios na América Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios. o latitude-longitude. Não serei crismado.] Trecho de ''Ode a Fernando Pessoa'' (1961) Libelo Não mais trarei justificações Aos olhos do mundo. Não serei domesticado Pelos rebanhos Da terra. debruçando no Corcovado Ouçamos a bossa nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda diretamente do coração do morro Tu. Serei incluído ” Pormenor Esboçado ” Na grande bruma. Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima.. Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente dorme..

1981 XX vocês estão cegos graças ao temor olhares mortos sugando-me o sangue não serei vossa sobremesa nesta curta temporada no inferno eu quero que seus rostos cantem eu quero que seus corações explodam em línguas de fogo meu silêncio é um galope de búfalos meu amor cometa nômade de riso indomável façam seus orifícios cantarem o hino à estrela da manhã torres & cabanas onde foi flechado o arco-íris eu abandonei o passado a esperança a memória o vazio da década de 70 sou um navio lançado ao alto-mar das futuras combinações in: 20 Poemas com Brócoli. 1963) XVI abandonar tudo.Eu vi os anjos de Sodoma escalando um monte até o céu E suas asas destruídas pelo fogo abanavam o ar da tarde Eu vi os anjos de Sodoma semeando prodígios para a criação não perder o ritmo de harpas Eu vi os anjos de Sodoma lambendo as feridas dos que morreram sem alarde. roubando o sono das virgens. cervejas tomadas nos acampamentos. poesia em cascatas floridas com aranhas azuladas nas samambaias. todo trabalhador é escravo. conhecer praias. 1981 10 Roberto Piva . fazer da anarquia um método & modo de visa. Sonhar Alto. in: 20 Poemas com Brócoli. dos suplicantes. bocas perfumadas. dos suicidas e dos jovens mortos Eu vi os anjos de Sodoma crescendo com o fogo e de suas bocas saltavam medusas cegas Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e violentos aniquilando os mercadores. toda autoridade é cômica. amores novos. estradas. criando palavras turbulentas Eu vi os anjos de Sodoma inventando a loucura e o arrependimento de Deus (in: Paranóia.

.] trecho de "SAN PAULO'S IMPROVISATION" in Antologia dos Novíssimos. 1997) * [.Alma fecal Alma fecal contra a ditadura da ciência Rua dos longos punhais Garoto fascista belo como a grande noite esquimó Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs Beatniks Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux) Templo Procissão do falo sagrado Deuses contemplam nas trevas o sexo do anjo do Tobogã Felizes & famélicos garotos seminus dançam como bibelôs ferozes Pedras com suas bocas de seda Partindo para uma existência invisível Tudo que chamam de história é meu plano de fuga da civilização de vocês Represa de Mariporã. o peso da solidão me espreme para fora de mim. Massao Ohno (1960) .. Recomponho-me na noite não dando chance ao mar interior que urra de tristeza.Livro dos Mortos do Antigo Egito Ali onde o gavião do Norte resplandesce sua sombra Ali onde a aventura conserva os cascos do vudú da aurora Ali onde o arco-íris da linguagem está carregado de vinho subterrâneo Ali onde os orixás dançam na velocidade 11 Roberto Piva .. Ritual dos 4 Ventos & dos 4 Gaviões para Marco Antônio de Ossain “Eu trago comigo os guardiões dos Circuitos celestes.] Duas garotas em rancheiras azuis adolescem na calçada fugidas da neurose territorial da pequena-burguesia paulistana. 9 (in Ciclines.. [.” .

DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 Permitido o uso apenas para fins educacionais. modificado e que as informações sejam mantidas.dos puros vegetais Revoada das pedras do rio Olhos no circuito da Ursa Maior na investida louca Olhos de metabolismo floral Almofadas de floresta Focinho silencioso da sussuarana com passos de sabotagem Carne rica de Exú nas couraças da noite Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas Bate o tambor no ritmo dos sonhos espantosos no ritmo dos naufrágios no ritmo dos adolescentes à porta dos hospícios no ritmo do rebanho de atabaques Bate o tambor no ritmo das oferendas sepulcrais no ritmo da levitação alquímica no ritmo da paranóia de Júpiter Caciques orgiásticos do tambor Com meu Skate-gavião Tambor na virada do século ganimedes Iemanjá com seus cabelos de espuma.610. 12 Roberto Piva . Este material pode ser redistribuído livremente. desde que não seja alterado. ©Protegido pela Lei do Direito Autoral LEI Nº 9.

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