Roberto Piva

1

Roberto Piva

mas também por sua transgressão. de onde foge sempre que pode. 1981). mas que forneceu todo o pano de fundo para sua obra poética. É estudioso da flora e da fauna brasileiras e iniciado no xamanismo. 1963). de ônibus ou carro. na qual se lançaram vários poetas brasileiros iniciantes. a Editora Globo publicou dois volumes das suas obras reunidas. Seus poemas foram traduzidos para o inglês. Esse contato com Dante foi como seu imprinting poéticofilosófico: marcou para sempre sua visão de mundo. Antonin Artaud e René Crevel. Piva formou-se em sociologia. 1937). É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no famoso Dicionário Geral do Surrealismo. que deixou de ser circunstancial quando. Quizumba (Global. que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias. Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com o sagrado e a vida interior. adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Roberto Piva absorveu lições do surrealismo.Roswitta Kempf. Nessa mesma época. formado em sociologia e política. Coxas (Feira de Poesia. A história pessoal do poeta Roberto Piva começa e gira em torno da cidade de São Paulo. A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa experiência com uma ponta de pessimismo. nem só de intelecto fez-se o aprendizado juvenil de Roberto Piva. Por isso. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico. dissertações de mestrado e depoimentos. artigos. Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses. Sobreviveu em grande parte como professor de estudos sociais e história. sobretudo William Blake. Foi um professor de muito sucesso. das antologias Antologia dos novíssimos (Massao Ohno. o gavião. sua política e sua poesia. refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. Antologia poética (L&PM. ainda na década de 60. Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto entre poesia e vida. publicado na França. À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. A genealogia poética de Roberto Piva apresenta raízes e inclui influências muito raras na literatura brasileira. Piva escreveu também diversos artigos e manifestos em jornais e revistas. com rara vocação como pedagogo. 1983). Publicou os seguintes livros de poesia: Paranóia (Massao Ohno. Participou. tornou-se produtor de shows de rock. cidade que lhe parece apocalíptica. Abra os olhos & diga AH (Massao Ohno. Ainda na década de 60. no interior do Estado de São Paulo. 1975). 1985) e Ciclones (Nankin. que cedo descobriu Rimbaud e Lautréamont. Ele cresceu e formou-se entre a capital e as antigas fazendas do pai. na vertente francesa de André Breton. recebendo a influência desses dois poetas visionários. Seus primeiros poemas foram publicados em 1961. Roberto Piva teve contato com a obra de um filósofo praticamente desconhecido. quando tinha 23 anos. por três anos Piva aprofundou-se nos estudos da Divina Comédia. Piva mora em São Paulo. Nos anos de 1970. capítulos de livros. Entre 2005 e 2007. que depois desenvolveram uma obra poética de importância.Roberto Lopes Piva (São Paulo. foi membro do Grupo Novíssimos. de Massao Ohno. 1964). 1976). Piazzas (Massao Ohno. 1997). Em suas aulas aos adolescentes do segundo grau. 20 poemas com brócoli. entre outras. 2 Roberto Piva . no Brasil do período: Friedrich Nietzsche. 1961) e 26 poetas hoje (Editorial Labor. (Massao Ohno. costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar. SP. Das vanguardas do começo do século 20. Tem medo de avião. 1979). integrou a famosa Antologia dos Novíssimos. o espanhol e o catalão. Começa com Dante Alighieri. Poeta. exemplo do que não deve ser feito contra o meio ambiente. raramente se distanciou demais da capital. A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à poesia. sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo. orientado por Eduardo Bizzarri. Mas nem só de espírito. formando uma mistura-fina que é única por sua erudição. A partir de Artaud. exprofessor. O extenso material crítico sobre sua obra inclui resenhas. o francês.

Yemanjá e Oxum) mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico. mas sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé.e Jorge de Lima. além de Jarinu. como um componente de transgressão do desejo. Dois: o culto a uma erótica homossexual.O dito artaudiano “para conhecer minha obra. expontâneo e sensorial. Também é flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu culto à fragmentação moderna). enquanto forças da natureza.com seu surrealismo intenso. a única salvação possível ao mundo moderno. através da onipresente marca do jazz e da bossa nova. para Piva. Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. Essa sacralidade é. Mas há mais duas fortes presenças contemporâneas em sua poética. foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade. a transgressão foi reforçada pela descoberta do outsider Pier Paolo Pasolini. resgatando para a modernidade o amor grego. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza. acrescida de algumas expressões musicais da contemporaneidade do pós-guerra. leia-se minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. mas através da qual também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos costumes do seu tempo. Um: a ingestão de drogas alucinógenas e bebidas libatórias. essa genealogia poética agregou as figuras de Murilo Mendes . no interior do estado. como formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. Dos poetas brasileiros. Ele não só cultua seus orixás (Xangô. protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas do paradoxo. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico. sobretudo aquele barroco. Os elementos finais da construção poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o aspecto mágico. ao contrário dos franceses intelectualizados . visionário e atormentado de “Invenção de Orfeu”. ambas nos arredores de São Paulo. que colocou a destruição da natureza como parte do seu projeto consumista. o gavião. Uma é a beat generation americana. da qual Piva não só absorveu a estilística fragmentada e a temática que aproxima o contemporâneo do arcaico. selaram sua ligação sagrada com a natureza. duas fidelíssimas paixões de Roberto Piva. 3 Roberto Piva . Na década de 70. Piva passou a estudar e praticar o xamanismo. Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de Mairiporã e serra da Cantareira. Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado.

panfletário do Caos Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca palpita nos bulevares oxidados pela névoa uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil de tua túnica e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre se despedaçam contra os ninhos da Eternidade é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve estar com um talismã nos lábios de todos os meninos Os anjos de Sodoma Eu vi os anjos de Sodoma escalando um monte até o céu E suas asas destruídas pelo fogo abanavam o ar da tarde Eu vi os anjos de Sodoma semeando prodígios para a criação não perder o ritmo de harpas 4 Roberto Piva .Piazza I Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch uma tarde de inverno sobre um grave pátio onde garòfani milk-shake & Claude obcecado com anjos ou vastos motores que giram com uma graça seráfica tocar o banjo da Lembrança sem o Amor encontrado provado sonhado & longos viveiros municipais sem procurar compreender imaginar a medula sem olhos ou pássaros virgens aconteceu que eu revi a simples torre mortal do Sonho não com dedos reais & cilíndricos Du Barry Byron Marquesa de Santos Swift Jarry com barulho de sinos nas minhas noites de bárbaro os carros de fogo os trapézios de mercúrio suas mãos escrevendo & pescando ninfas escatológicas pequenos canhões do sangue & os grandes olhos abertos para algum milagre da Sorte Jorge de Lima.

roubando o sono das virgens.Eu vi os anjos de Sodoma lambendo as feridas dos que morreram sem alarde. dos suicidas e dos jovens mortos Eu vi os anjos de Sodoma crescendo com o fogo e de suas bocas saltavam medusas cegas Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e violentos aniquilando os mercadores. dos suplicantes. criando palavras turbulentas Eu vi os anjos de Sodoma inventando a loucura e o arrependimento de Deus Paranóia em Astrakan Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com lágrimas invulneráveis onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes que saem escondidos das tocas onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados estéreis e incendeiam internatos onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam a descarga sobre o mundo onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha no seu hálito onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua última janela onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte branco onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe escurecendo a página onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas penas onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da imaginação A Piedade Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida as senhoras católicas são piedosas os comunistas são piedosos os comerciantes são piedosos só eu não sou piedoso se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda? eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos eu me universalizaria no senso comum e eles dirieam que tenho todas as virtudes eu não sou piedoso eu nunca poderei ser piedoso 5 Roberto Piva .

O quase nada. O uivo caminhando sobre a ponte imóvel. nem solo firme. da complementaridade ilusória.meus olhos retinem e tingem-se de verde Os arranha-céus de carniça decompões nos pavimentos Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através do meus sonhos Quatro poemas pivianos I As mãos invisíveis dedilham a canção sinistra vibrando as fibras nervosas da medula Os dentes mastigam o sem fim de peripaques nostálgicos enquanto o mistério corre pela rua em chamas. O minúsculo. uma mulher pálida. Aonde andará o poeta de pijama que escorrega e cai. Um poema. Não sei de mim. Olho o monte de esterco apodrecendo na vidraça entreaberta. engole o último pedaço de vidro arrebentado com a explosão atômica de meus sonhos avulsos transtornados. O castelo e o muro dedilhados no quadro azul. enquanto distraído sonha um mundo de estrelas? Já não há céu. deposito monstros no aquário. Vivo esse segundo que se arrasta. Diminuindo cada vez mais. Os peixes caminham no asfalto e as mulheres usam gravatas. Silencie-me! Silencie-me! Sigo as labaredas memoráveis dos dias de luto e melancolia. Janelas. II O estrangeiro da legião de insetos arrancou o grito de cólera e loucura da boca arreganhada. Seria senil e insano se acreditasse no amanhã. Minha alma. coisa inútil. Apenas eu! Danço a quimera dos solitários e o presságio dos carecas. O erotismo atrapalhado do anão que não mais se agüenta neste intervalo de memórias e areias. penhascos. o beijo. As idéias são espasmos. Sei da impossibilidade das horas. Quero a forma perfeita. e as palavras. Dedilhai as últimas notas vagas 6 Roberto Piva . O mínimo. minha imobilidade. o cheiro do Apolo ruivo. meu desejo. arranhásseis e corpos voadores de pedra. noite e chamas. do paranóico que mora nos ciclones A bailarina. não percebida. Se a noite persegue minha vida. bactéria. um segmento refratário. devorando-me. Sinto a introdução e o posfácio deste rio que golpeia as paredes com mãos nuas.

Escreverei dez mil poemas ao poeta necropolitano sem esperanças de ter meus sonhos confundidos com o delírio e o êxtase do pai xamânico.que recordam a imagem deformada do psicótico que caminha sobre o fio dental. Olhos imensos de um desenho de carvão negro mãos em garras batendo teclas ideais. Sou eu. O cheiro de perfume velho e asfixiante. homens dirigem seus carros vagarosamente seguindo as pernas nuas das mulheres prostitutas. A árvore sem galhos escondem os meninos saltimbancos. Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?! As idéias me levam ao eterno estado de castidade entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro. enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo. IV Dêem-me um anestésico. ou o octocentésimo. ou o pedúnculo. Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados. sou quase cético. A teia de aranha presa entre os ossos mortos. Arranco minhas víceras poéticas do ostracismo. Triunfa a idéia do parto cesariano sem anestesia. As estantes. O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos. Enquanto corpos se misturam na madrugada convulsiva de salões apertados. Quatro poemas nos espaços angustiados do processo. A vida dói e arde. O sangue e os olhos transformados em areia cinza. ou o miocárdio. meus versos e o perigo das frações. as páginas comidas por traças. Minha maquiagem. Lá fora. A torre delirante de um neocórtex em latência. adormecem na noite de meus surtos compulsivos. Trezentos dias e cinqüenta noites marianas. iluminados por rosas ensangüentadas. Meus passos. 7 Roberto Piva . meus ruídos. Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas. III O corvo de pelúcia esfaqueado pelas costas traz os olhos esbugalhados mirando a parede alada. Não acredito em forças de outro mundo. Sou urbano. os primeiros tombos das gaivotas. Não sei controlar meus impulsos demoníacos. Morfina e sonhos. A dançarina com suas vestes invisíveis caminha no jardim de lâminas e gafanhotos. aquele rosto assimétrico. Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos.

suas cocotas. seus cérebros de água-choca. completa tortura roendo a realidade & l’immense gouffre. suas preces. sua tristeza. seus leões-de-chácara da cultura. sua estrictina. sua explosão demográfica. seus capachos do PC. suas gaiolas. sua lepra. Baudelaire & ses fatigues rumo à pálida estrela. suas mumunhas sempiternas. suas últimas esperanças. por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho. seus legumes envenenados.Atentado Profundamente o Emocional (Antinoo. suas fardas vitoriosas. O século XXI me dará razão. o swing das Fleurs du Mal. seus computadores de controle. seus ministros gangsters. seus anti-Cuba. SP o século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes) Baudelaire sangrou na ponte negra do Sena. seus cretinos sorridentes. seus mananciais de desespero. seus pró-Cuba. seus gangsters ministros. suas xícaras de chá. suas tripas. seus foguetes nucleares caralhudos. seu luar de agosto. 1976. 8 Roberto Piva . lamba minha mão & se prepare para um milhão de comas loucas loucas antes que a lua chegue morda meu coração na esquina & não me esqueça Do livro: "Abra os olhos & diga ah". ragazzo di marbro) garoto pornógrafo antes que a lua chegue esta feijoada será uma batalha Átila vence a grama do mundo ADIANUS CESAR Imperator caminhando na manhã romana com seus doze amantes eu gostaria que você lesse Jacob Boehme suas coxas se retesam & você chora um pouco venha. seus chatos. seus literatos sedentários. seu jardinzinhos com vidro fumê. sua aldeia global. seu sindicato policial do crime. molécula procurando a brecha do universo & suas trezentas flores assim é a lucidez. sua moral. seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa. todas as paixões / convulsões no espelho. seus poetas babosos. seus mares de lama. sua jaula. sua gripe espanhola. seus rios cheio de sardinha. suas mulheres navi-escola. sua epidemia suicida. seus manuais de estéticas. Massao Ohno Editor. sua ordem unida. seus sonhos paralíticos de televisão. seus bidês da direita. seu rebanho-que-saca. suas cidades embalsamadas. seus partidos de esquerda-fascistas. suas panquecas recheadas com desgosto. seus cassetes eletrônicos.

. tumulto do tráfego na hora do rush. a selvagem inocência nos beijos dos que se amam" [. o rumor dos planaltos. Não serei batizado. de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche Tu. Tu. todas as crianças vivazes e sonolentas. (in: Antologia dos Novíssimos. Não estarei doutorado. Não serei domesticado Pelos rebanhos Da terra. hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá. escorrendo pelas águas do Amazonas. Não serei crismado. enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado.* [.. Portugal África Brasil Angola Lisboa São Paulo e o resto do mundo.] Trecho de ''Ode a Fernando Pessoa'' (1961) Libelo Não mais trarei justificações Aos olhos do mundo. batendo em chapa na caatinga nordestina. Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente dorme. Tu.. vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã. o latitude-longitude. adolescente moreno empinando papagaios na América Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios.. Morrerei inocente Sem nunca ter Descoberto O que há de bem e mal De falso ou certo No que vi. Digo em sussurro teus poemas no ouvido do Brasil.] "Fernando. Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o professor não vê. debruçando no Corcovado Ouçamos a bossa nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda diretamente do coração do morro Tu. repique dos sinos de São Bento. o Ampliado. Serei incluído ” Pormenor Esboçado ” Na grande bruma. Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima. 1961) 9 Roberto Piva . e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.

conhecer praias. in: 20 Poemas com Brócoli. amores novos. toda autoridade é cômica. 1963) XVI abandonar tudo. 1981 XX vocês estão cegos graças ao temor olhares mortos sugando-me o sangue não serei vossa sobremesa nesta curta temporada no inferno eu quero que seus rostos cantem eu quero que seus corações explodam em línguas de fogo meu silêncio é um galope de búfalos meu amor cometa nômade de riso indomável façam seus orifícios cantarem o hino à estrela da manhã torres & cabanas onde foi flechado o arco-íris eu abandonei o passado a esperança a memória o vazio da década de 70 sou um navio lançado ao alto-mar das futuras combinações in: 20 Poemas com Brócoli. fazer da anarquia um método & modo de visa. cervejas tomadas nos acampamentos. bocas perfumadas. dos suicidas e dos jovens mortos Eu vi os anjos de Sodoma crescendo com o fogo e de suas bocas saltavam medusas cegas Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e violentos aniquilando os mercadores. estradas. roubando o sono das virgens.Eu vi os anjos de Sodoma escalando um monte até o céu E suas asas destruídas pelo fogo abanavam o ar da tarde Eu vi os anjos de Sodoma semeando prodígios para a criação não perder o ritmo de harpas Eu vi os anjos de Sodoma lambendo as feridas dos que morreram sem alarde. dos suplicantes. 1981 10 Roberto Piva . todo trabalhador é escravo. criando palavras turbulentas Eu vi os anjos de Sodoma inventando a loucura e o arrependimento de Deus (in: Paranóia. poesia em cascatas floridas com aranhas azuladas nas samambaias. Sonhar Alto.

. Recomponho-me na noite não dando chance ao mar interior que urra de tristeza. Ritual dos 4 Ventos & dos 4 Gaviões para Marco Antônio de Ossain “Eu trago comigo os guardiões dos Circuitos celestes. Massao Ohno (1960) .. 9 (in Ciclines. 1997) * [. [. o peso da solidão me espreme para fora de mim.] trecho de "SAN PAULO'S IMPROVISATION" in Antologia dos Novíssimos.Livro dos Mortos do Antigo Egito Ali onde o gavião do Norte resplandesce sua sombra Ali onde a aventura conserva os cascos do vudú da aurora Ali onde o arco-íris da linguagem está carregado de vinho subterrâneo Ali onde os orixás dançam na velocidade 11 Roberto Piva ..Alma fecal Alma fecal contra a ditadura da ciência Rua dos longos punhais Garoto fascista belo como a grande noite esquimó Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs Beatniks Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux) Templo Procissão do falo sagrado Deuses contemplam nas trevas o sexo do anjo do Tobogã Felizes & famélicos garotos seminus dançam como bibelôs ferozes Pedras com suas bocas de seda Partindo para uma existência invisível Tudo que chamam de história é meu plano de fuga da civilização de vocês Represa de Mariporã.] Duas garotas em rancheiras azuis adolescem na calçada fugidas da neurose territorial da pequena-burguesia paulistana.” ..

©Protegido pela Lei do Direito Autoral LEI Nº 9. 12 Roberto Piva . modificado e que as informações sejam mantidas.dos puros vegetais Revoada das pedras do rio Olhos no circuito da Ursa Maior na investida louca Olhos de metabolismo floral Almofadas de floresta Focinho silencioso da sussuarana com passos de sabotagem Carne rica de Exú nas couraças da noite Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas Bate o tambor no ritmo dos sonhos espantosos no ritmo dos naufrágios no ritmo dos adolescentes à porta dos hospícios no ritmo do rebanho de atabaques Bate o tambor no ritmo das oferendas sepulcrais no ritmo da levitação alquímica no ritmo da paranóia de Júpiter Caciques orgiásticos do tambor Com meu Skate-gavião Tambor na virada do século ganimedes Iemanjá com seus cabelos de espuma. desde que não seja alterado. Este material pode ser redistribuído livremente. DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 Permitido o uso apenas para fins educacionais.610.