Roberto Piva

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Roberto Piva

publicado na França. exemplo do que não deve ser feito contra o meio ambiente. Em suas aulas aos adolescentes do segundo grau. 20 poemas com brócoli. À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. Roberto Piva teve contato com a obra de um filósofo praticamente desconhecido. capítulos de livros. Nessa mesma época. das antologias Antologia dos novíssimos (Massao Ohno. 1981). Tem medo de avião. A genealogia poética de Roberto Piva apresenta raízes e inclui influências muito raras na literatura brasileira. Mas nem só de espírito. Roberto Piva absorveu lições do surrealismo. O extenso material crítico sobre sua obra inclui resenhas. no Brasil do período: Friedrich Nietzsche. A história pessoal do poeta Roberto Piva começa e gira em torno da cidade de São Paulo. A partir de Artaud. o francês. É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no famoso Dicionário Geral do Surrealismo. exprofessor. Antologia poética (L&PM. de ônibus ou carro. A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à poesia. cidade que lhe parece apocalíptica. 1976). integrou a famosa Antologia dos Novíssimos. Sobreviveu em grande parte como professor de estudos sociais e história. 1985) e Ciclones (Nankin. Seus poemas foram traduzidos para o inglês. Começa com Dante Alighieri. recebendo a influência desses dois poetas visionários. que cedo descobriu Rimbaud e Lautréamont.Roswitta Kempf. tornou-se produtor de shows de rock. Esse contato com Dante foi como seu imprinting poéticofilosófico: marcou para sempre sua visão de mundo. orientado por Eduardo Bizzarri. (Massao Ohno. costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar. 2 Roberto Piva . raramente se distanciou demais da capital. Ainda na década de 60. Das vanguardas do começo do século 20. Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses. com rara vocação como pedagogo. na vertente francesa de André Breton. Entre 2005 e 2007. Foi um professor de muito sucesso. sua política e sua poesia. 1979). 1963). formando uma mistura-fina que é única por sua erudição. Poeta. Piva escreveu também diversos artigos e manifestos em jornais e revistas. refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. Ele cresceu e formou-se entre a capital e as antigas fazendas do pai. ainda na década de 60. Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto entre poesia e vida. 1983). quando tinha 23 anos. sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo. por três anos Piva aprofundou-se nos estudos da Divina Comédia. Nos anos de 1970. na qual se lançaram vários poetas brasileiros iniciantes. Antonin Artaud e René Crevel. 1961) e 26 poetas hoje (Editorial Labor. de Massao Ohno. Coxas (Feira de Poesia. Por isso. que deixou de ser circunstancial quando. Piva mora em São Paulo. A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa experiência com uma ponta de pessimismo. Piva formou-se em sociologia. dissertações de mestrado e depoimentos. Participou. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico. É estudioso da flora e da fauna brasileiras e iniciado no xamanismo. Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com o sagrado e a vida interior. nem só de intelecto fez-se o aprendizado juvenil de Roberto Piva. 1997). no interior do Estado de São Paulo. artigos. que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias. que depois desenvolveram uma obra poética de importância. adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. de onde foge sempre que pode. 1975). Abra os olhos & diga AH (Massao Ohno. foi membro do Grupo Novíssimos. sobretudo William Blake. 1937). Seus primeiros poemas foram publicados em 1961. Quizumba (Global. mas também por sua transgressão.Roberto Lopes Piva (São Paulo. o espanhol e o catalão. Piazzas (Massao Ohno. Publicou os seguintes livros de poesia: Paranóia (Massao Ohno. formado em sociologia e política. SP. mas que forneceu todo o pano de fundo para sua obra poética. a Editora Globo publicou dois volumes das suas obras reunidas. 1964). entre outras. o gavião.

Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de Mairiporã e serra da Cantareira.com seu surrealismo intenso. no interior do estado. sobretudo aquele barroco. Um: a ingestão de drogas alucinógenas e bebidas libatórias. Essa sacralidade é. 3 Roberto Piva . para Piva. Piva passou a estudar e praticar o xamanismo. ambas nos arredores de São Paulo. Ele não só cultua seus orixás (Xangô. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico. protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas do paradoxo. duas fidelíssimas paixões de Roberto Piva. o gavião. Também é flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu culto à fragmentação moderna). através da onipresente marca do jazz e da bossa nova. Dois: o culto a uma erótica homossexual.O dito artaudiano “para conhecer minha obra. enquanto forças da natureza. a única salvação possível ao mundo moderno. como um componente de transgressão do desejo. Mas há mais duas fortes presenças contemporâneas em sua poética. mas através da qual também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos costumes do seu tempo. a transgressão foi reforçada pela descoberta do outsider Pier Paolo Pasolini. da qual Piva não só absorveu a estilística fragmentada e a temática que aproxima o contemporâneo do arcaico. que colocou a destruição da natureza como parte do seu projeto consumista. além de Jarinu. mas sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé. leia-se minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. Uma é a beat generation americana. Os elementos finais da construção poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o aspecto mágico. foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade. expontâneo e sensorial. Dos poetas brasileiros. visionário e atormentado de “Invenção de Orfeu”. Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. ao contrário dos franceses intelectualizados . Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado. como formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. acrescida de algumas expressões musicais da contemporaneidade do pós-guerra. selaram sua ligação sagrada com a natureza. essa genealogia poética agregou as figuras de Murilo Mendes . Yemanjá e Oxum) mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico. resgatando para a modernidade o amor grego. Na década de 70.e Jorge de Lima.

panfletário do Caos Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente na minha memória devorada pelo azul eu soube decifrar os teus jogos noturnos indisfarçável entre as flores uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca palpita nos bulevares oxidados pela névoa uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil de tua túnica e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre se despedaçam contra os ninhos da Eternidade é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve estar com um talismã nos lábios de todos os meninos Os anjos de Sodoma Eu vi os anjos de Sodoma escalando um monte até o céu E suas asas destruídas pelo fogo abanavam o ar da tarde Eu vi os anjos de Sodoma semeando prodígios para a criação não perder o ritmo de harpas 4 Roberto Piva .Piazza I Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch uma tarde de inverno sobre um grave pátio onde garòfani milk-shake & Claude obcecado com anjos ou vastos motores que giram com uma graça seráfica tocar o banjo da Lembrança sem o Amor encontrado provado sonhado & longos viveiros municipais sem procurar compreender imaginar a medula sem olhos ou pássaros virgens aconteceu que eu revi a simples torre mortal do Sonho não com dedos reais & cilíndricos Du Barry Byron Marquesa de Santos Swift Jarry com barulho de sinos nas minhas noites de bárbaro os carros de fogo os trapézios de mercúrio suas mãos escrevendo & pescando ninfas escatológicas pequenos canhões do sangue & os grandes olhos abertos para algum milagre da Sorte Jorge de Lima.

Eu vi os anjos de Sodoma lambendo as feridas dos que morreram sem alarde. dos suplicantes. roubando o sono das virgens. dos suicidas e dos jovens mortos Eu vi os anjos de Sodoma crescendo com o fogo e de suas bocas saltavam medusas cegas Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e violentos aniquilando os mercadores. criando palavras turbulentas Eu vi os anjos de Sodoma inventando a loucura e o arrependimento de Deus Paranóia em Astrakan Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com lágrimas invulneráveis onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes que saem escondidos das tocas onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados estéreis e incendeiam internatos onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam a descarga sobre o mundo onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha no seu hálito onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua última janela onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte branco onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe escurecendo a página onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas penas onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da imaginação A Piedade Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida as senhoras católicas são piedosas os comunistas são piedosos os comerciantes são piedosos só eu não sou piedoso se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda? eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos eu me universalizaria no senso comum e eles dirieam que tenho todas as virtudes eu não sou piedoso eu nunca poderei ser piedoso 5 Roberto Piva .

enquanto distraído sonha um mundo de estrelas? Já não há céu. O erotismo atrapalhado do anão que não mais se agüenta neste intervalo de memórias e areias. O castelo e o muro dedilhados no quadro azul. Vivo esse segundo que se arrasta. Olho o monte de esterco apodrecendo na vidraça entreaberta. Dedilhai as últimas notas vagas 6 Roberto Piva . devorando-me. deposito monstros no aquário. noite e chamas. arranhásseis e corpos voadores de pedra.meus olhos retinem e tingem-se de verde Os arranha-céus de carniça decompões nos pavimentos Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através do meus sonhos Quatro poemas pivianos I As mãos invisíveis dedilham a canção sinistra vibrando as fibras nervosas da medula Os dentes mastigam o sem fim de peripaques nostálgicos enquanto o mistério corre pela rua em chamas. Minha alma. engole o último pedaço de vidro arrebentado com a explosão atômica de meus sonhos avulsos transtornados. coisa inútil. Sei da impossibilidade das horas. II O estrangeiro da legião de insetos arrancou o grito de cólera e loucura da boca arreganhada. Se a noite persegue minha vida. Seria senil e insano se acreditasse no amanhã. minha imobilidade. Silencie-me! Silencie-me! Sigo as labaredas memoráveis dos dias de luto e melancolia. bactéria. nem solo firme. O mínimo. penhascos. O uivo caminhando sobre a ponte imóvel. Diminuindo cada vez mais. Não sei de mim. não percebida. um segmento refratário. do paranóico que mora nos ciclones A bailarina. o cheiro do Apolo ruivo. As idéias são espasmos. Sinto a introdução e o posfácio deste rio que golpeia as paredes com mãos nuas. Quero a forma perfeita. uma mulher pálida. Aonde andará o poeta de pijama que escorrega e cai. e as palavras. meu desejo. O quase nada. o beijo. da complementaridade ilusória. Janelas. Um poema. O minúsculo. Apenas eu! Danço a quimera dos solitários e o presságio dos carecas. Os peixes caminham no asfalto e as mulheres usam gravatas.

enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo. Meus passos. ou o pedúnculo. Não acredito em forças de outro mundo. meus versos e o perigo das frações. ou o octocentésimo. O sangue e os olhos transformados em areia cinza. Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos. Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados. Não sei controlar meus impulsos demoníacos. As estantes. ou o miocárdio. O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos. Sou eu. A dançarina com suas vestes invisíveis caminha no jardim de lâminas e gafanhotos. Trezentos dias e cinqüenta noites marianas. Triunfa a idéia do parto cesariano sem anestesia. Olhos imensos de um desenho de carvão negro mãos em garras batendo teclas ideais. A árvore sem galhos escondem os meninos saltimbancos. Minha maquiagem.que recordam a imagem deformada do psicótico que caminha sobre o fio dental. IV Dêem-me um anestésico. Sou urbano. meus ruídos. homens dirigem seus carros vagarosamente seguindo as pernas nuas das mulheres prostitutas. Enquanto corpos se misturam na madrugada convulsiva de salões apertados. Escreverei dez mil poemas ao poeta necropolitano sem esperanças de ter meus sonhos confundidos com o delírio e o êxtase do pai xamânico. os primeiros tombos das gaivotas. Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas. as páginas comidas por traças. O cheiro de perfume velho e asfixiante. Arranco minhas víceras poéticas do ostracismo. Quatro poemas nos espaços angustiados do processo. sou quase cético. A vida dói e arde. Morfina e sonhos. A teia de aranha presa entre os ossos mortos. Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?! As idéias me levam ao eterno estado de castidade entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro. adormecem na noite de meus surtos compulsivos. Lá fora. III O corvo de pelúcia esfaqueado pelas costas traz os olhos esbugalhados mirando a parede alada. A torre delirante de um neocórtex em latência. 7 Roberto Piva . iluminados por rosas ensangüentadas. aquele rosto assimétrico.

1976. Baudelaire & ses fatigues rumo à pálida estrela. 8 Roberto Piva . seus mananciais de desespero. seu sindicato policial do crime. todas as paixões / convulsões no espelho. seu luar de agosto. sua estrictina. seu jardinzinhos com vidro fumê. suas mulheres navi-escola. seus cérebros de água-choca. seus computadores de controle. seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa. seus mares de lama. sua gripe espanhola. suas cidades embalsamadas. suas preces. sua aldeia global. seu rebanho-que-saca. sua jaula. seus cassetes eletrônicos. sua explosão demográfica. sua ordem unida. sua moral. sua lepra. o swing das Fleurs du Mal. ragazzo di marbro) garoto pornógrafo antes que a lua chegue esta feijoada será uma batalha Átila vence a grama do mundo ADIANUS CESAR Imperator caminhando na manhã romana com seus doze amantes eu gostaria que você lesse Jacob Boehme suas coxas se retesam & você chora um pouco venha. suas xícaras de chá. seus legumes envenenados. suas panquecas recheadas com desgosto. seus ministros gangsters. seus rios cheio de sardinha. seus sonhos paralíticos de televisão. seus literatos sedentários. seus partidos de esquerda-fascistas. por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho. sua epidemia suicida. seus gangsters ministros. O século XXI me dará razão. seus foguetes nucleares caralhudos. sua tristeza. seus chatos. seus cretinos sorridentes. suas gaiolas. SP o século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes) Baudelaire sangrou na ponte negra do Sena. suas mumunhas sempiternas.Atentado Profundamente o Emocional (Antinoo. seus leões-de-chácara da cultura. seus manuais de estéticas. suas últimas esperanças. seus anti-Cuba. seus capachos do PC. seus poetas babosos. suas tripas. seus pró-Cuba. suas cocotas. suas fardas vitoriosas. Massao Ohno Editor. completa tortura roendo a realidade & l’immense gouffre. molécula procurando a brecha do universo & suas trezentas flores assim é a lucidez. lamba minha mão & se prepare para um milhão de comas loucas loucas antes que a lua chegue morda meu coração na esquina & não me esqueça Do livro: "Abra os olhos & diga ah". seus bidês da direita.

Portugal África Brasil Angola Lisboa São Paulo e o resto do mundo. a selvagem inocência nos beijos dos que se amam" [.] "Fernando. Não serei crismado. Morrerei inocente Sem nunca ter Descoberto O que há de bem e mal De falso ou certo No que vi. enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado. Serei incluído ” Pormenor Esboçado ” Na grande bruma. Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o professor não vê. (in: Antologia dos Novíssimos. Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima. 1961) 9 Roberto Piva .. Não serei batizado. adolescente moreno empinando papagaios na América Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios. repique dos sinos de São Bento. Não estarei doutorado. Não serei domesticado Pelos rebanhos Da terra.* [.. o rumor dos planaltos. o Ampliado. Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente dorme. o latitude-longitude. todas as crianças vivazes e sonolentas. Tu. e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite. hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá. Digo em sussurro teus poemas no ouvido do Brasil. tumulto do tráfego na hora do rush. escorrendo pelas águas do Amazonas. de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche Tu. debruçando no Corcovado Ouçamos a bossa nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda diretamente do coração do morro Tu.] Trecho de ''Ode a Fernando Pessoa'' (1961) Libelo Não mais trarei justificações Aos olhos do mundo.. vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã. Tu.. batendo em chapa na caatinga nordestina.

dos suicidas e dos jovens mortos Eu vi os anjos de Sodoma crescendo com o fogo e de suas bocas saltavam medusas cegas Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e violentos aniquilando os mercadores. cervejas tomadas nos acampamentos. conhecer praias. roubando o sono das virgens. 1981 10 Roberto Piva . amores novos. 1963) XVI abandonar tudo. dos suplicantes.Eu vi os anjos de Sodoma escalando um monte até o céu E suas asas destruídas pelo fogo abanavam o ar da tarde Eu vi os anjos de Sodoma semeando prodígios para a criação não perder o ritmo de harpas Eu vi os anjos de Sodoma lambendo as feridas dos que morreram sem alarde. todo trabalhador é escravo. toda autoridade é cômica. in: 20 Poemas com Brócoli. Sonhar Alto. criando palavras turbulentas Eu vi os anjos de Sodoma inventando a loucura e o arrependimento de Deus (in: Paranóia. poesia em cascatas floridas com aranhas azuladas nas samambaias. fazer da anarquia um método & modo de visa. estradas. 1981 XX vocês estão cegos graças ao temor olhares mortos sugando-me o sangue não serei vossa sobremesa nesta curta temporada no inferno eu quero que seus rostos cantem eu quero que seus corações explodam em línguas de fogo meu silêncio é um galope de búfalos meu amor cometa nômade de riso indomável façam seus orifícios cantarem o hino à estrela da manhã torres & cabanas onde foi flechado o arco-íris eu abandonei o passado a esperança a memória o vazio da década de 70 sou um navio lançado ao alto-mar das futuras combinações in: 20 Poemas com Brócoli. bocas perfumadas.

. Ritual dos 4 Ventos & dos 4 Gaviões para Marco Antônio de Ossain “Eu trago comigo os guardiões dos Circuitos celestes.] Duas garotas em rancheiras azuis adolescem na calçada fugidas da neurose territorial da pequena-burguesia paulistana. [.” .] trecho de "SAN PAULO'S IMPROVISATION" in Antologia dos Novíssimos. Recomponho-me na noite não dando chance ao mar interior que urra de tristeza. Massao Ohno (1960) .. 1997) * [. 9 (in Ciclines.Livro dos Mortos do Antigo Egito Ali onde o gavião do Norte resplandesce sua sombra Ali onde a aventura conserva os cascos do vudú da aurora Ali onde o arco-íris da linguagem está carregado de vinho subterrâneo Ali onde os orixás dançam na velocidade 11 Roberto Piva .Alma fecal Alma fecal contra a ditadura da ciência Rua dos longos punhais Garoto fascista belo como a grande noite esquimó Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs Beatniks Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux) Templo Procissão do falo sagrado Deuses contemplam nas trevas o sexo do anjo do Tobogã Felizes & famélicos garotos seminus dançam como bibelôs ferozes Pedras com suas bocas de seda Partindo para uma existência invisível Tudo que chamam de história é meu plano de fuga da civilização de vocês Represa de Mariporã.. o peso da solidão me espreme para fora de mim..

©Protegido pela Lei do Direito Autoral LEI Nº 9. modificado e que as informações sejam mantidas. DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 Permitido o uso apenas para fins educacionais. desde que não seja alterado. 12 Roberto Piva .dos puros vegetais Revoada das pedras do rio Olhos no circuito da Ursa Maior na investida louca Olhos de metabolismo floral Almofadas de floresta Focinho silencioso da sussuarana com passos de sabotagem Carne rica de Exú nas couraças da noite Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas Bate o tambor no ritmo dos sonhos espantosos no ritmo dos naufrágios no ritmo dos adolescentes à porta dos hospícios no ritmo do rebanho de atabaques Bate o tambor no ritmo das oferendas sepulcrais no ritmo da levitação alquímica no ritmo da paranóia de Júpiter Caciques orgiásticos do tambor Com meu Skate-gavião Tambor na virada do século ganimedes Iemanjá com seus cabelos de espuma.610. Este material pode ser redistribuído livremente.

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