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DIREITO E SOCIEDADE

CASTRO, Andréa Lucas Sena.

Existe um ramo da Sociologia Geral, denominado de Sociologia Jurídica


que tenta perceber a relação existente entre duas ciências de grande importância para a
vida da sociedade, por tratarem das relações, dos conflitos, das normas, do controle,
enfim, de todas as ligações que possam surgir entre os indivíduos e que necessite de um
regulador.

A Sociologia pode ser descrita como uma ciência positiva que estuda a
formação, transformação e desenvolvimento das sociedades humanas e seus fatores,
econômicos, culturais, artísticos e religiosos, enfim possui uma vasta acepção. Já o
Direito pode ser vislumbrado como uma ciência normativa, que estabelece e sistematiza
as regras necessárias para assegurar o equilíbrio das funções do organismo social.
Diante disto percebe-se que é de fundamental importância o aprofundamento deste
estudo e a percepção que se deve ter do real sentido existente entre a Sociologia e o
Direito, como ciências essenciais que o são. Ao ingressar na sociedade o indivíduo terá
que se adaptar às normas que a mesma impõe. Estas podem ser de acordo com a moral
social ou com a lei, divergindo com relação ao tipo de conduta. O comportamento
considerado como um desvio de conduta terá sanções que podem ser repressivas,
excludentes e se a infração estiver prevista na lei, estas serão objeto do direito. Pode-se
citar como exemplo um indivíduo que faça parte de um grupo religioso e que venha a trair
a sua esposa, o mesmo sofrerá uma sanção de repressão do grupo, uma vez que este
grupo social condena essa conduta, podendo o mesmo ser até expulso ou mesmo
responder a um processo judicial.

Diante disto, percebe-se que o homem durante toda a sua vida social irá
submeter-se a regras, sejam estas impostas por um grupo social ou pelo Estado. Daí
surge a ligação entre a Sociologia e o Direito, que é expressa desde a mais simples das
relações sociais, podendo ser vislumbrada até mesmo num jogo entre crianças, onde há
regras a serem cumpridas para que não haja conflitos. Percebe-se pois, que na
sociedade existem vários tipos distintos de grupos sociais e estes caracterizam-se
basicamente pelas normas que impõem, e os indivíduos escolhem o grupo do qual
queiram participar de acordo com a doutrina de cada um, pois, se o mesmo discorda das
regras do grupo este será rapidamente banido. A moral de cada grupo é rigorosamente
respeitada, chegando a ter mais força do que a própria lei, inclusive o indivíduo que
responde a um processo judicial, seja ele criminal ou não, geralmente sofre
discriminação pelo seu grupo social.

A escola sociológica francesa, de Durkeim, aprofundou os seus estudos


no fato de ser o direito dependente da realidade social. Montesquieu, no séc. XVIII, já
7

havia, antes desta escola, sustentado tal dependência, chegando a encontrar na


natureza das coisas, a fonte última do direito. Portanto, percebeu-se que da natureza do
agrupamento social depende a natureza do direito que a reflete e a rege, onde houver
sociedade haverá direito.

A escola do direito livre, alemã, reconheceu a estreita correspondência


entre direito e sociedade. Ehrlich admitia que o direito estatal possuía um papel
secundário ao disciplinar a vida social, pois, considerava que o centro da gravidade do
direito encontrava-se na sociedade e não no Estado. Para Gurvitch, existia para cada tipo
de sociabilidade um tipo de direito. Essas idéias, contudo, consideravam a vinculação do
direito à realidade social e faziam depender do tipo de sociedade o conteúdo do direito.

O direito possui como função primária pacificar os conflitos existentes na


sociedade. Para Recaséns esta ciência regula estes interesses conflitantes da seguinte
forma: a) Classificando os interesses opostos em duas categorias, a dos que merecem
proteção e a dos que não merecem; b) Harmonização ou compromisso entre interesses
parcialmente opostos; c) Definindo os limites dentre os quais tais interesses devem ser
reconhecidos e protegidos, mediante princípios jurídicos que são congruentemente
aplicados pela autoridade jurisdicional ou administrativa, caso tais princípios não sejam
aplicados espontaneamente pelos particulares; d) Estabelecendo e estruturando uma
série de órgãos para declarar as normas que servirão como critérios para resolver tais
conflitos de interesse, desenvolver e executar as normas, ditar normas individualizadas
aplicando as normas gerais aos casos concretos.

Sociologicamente, pode-se dizer que cada sociedade possui uma noção


de direito e justiça e que mediante estes conceitos é que se podem analisar as causas da
deficiência do setor judiciário. Muitas vezes o que pode ser considerado como crime
grave no Brasil, não o é nos Estados Unidos. Mas ainda, alguns tipos de sociedade
acreditam que a justiça está relacionada com a paz social e se não existir um órgão
jurisidcional competente que efetive esse sentimento, para esta sociedade, o mesmo
tornar-se-á falho. O sociólogo, pois, procura analisar as inter-relações, as qualidades
contrastantes, enfim, tudo o que inicie um questionamento sobre o modo de vida coletivo.
Ou seja, ele se torna uma ligação entre a sociedade e o conhecimento científico.

A relação entre o direito e a sociologia deve ser sempre vista e analisada


como uma reciprocidade, pois, é difícil discursar sobre o ordenamento jurídico sem
1
correlacioná-la com uma realidade social.

1
CASTRO, Andréa Lucas Sena de. Sociologia e Direito: duas realidades inseparáveis. Jus Navigandi,
Teresina, ano 3, n. 28, fev. 1999. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=39>.
Acesso em: 17 jun. 2007.
8

ASPECTOS SOCIAIS E CRIMINAIS: A CRIMINOLOGIA

O estudo do crime, segundo o método dogmático que traça as normas e


preceitos do ilícito punível, ligando o delito como antecedente e a pena como conseqüente
constitui objeto do Direito Penal.

Se o crime, no entanto, for estudado como fenômeno social para investigar a


etiologia e a série de seus fatores genéticos, teremos então outras ciências penais, diversas da
dogmática, em virtude do método científico adotado.

Por outro lado, o estudo do crime pode ser feito em função da personalidade
do delinqüente e aí teremos, dentro da criminologia, a ciência denominada Antropologia
Criminal.

Se, porém, esse estudo criminológico tiver por objeto o crime como fenômeno
exclusivamente social, teremos outra ciência que é a Sociologia Criminal. Ao conjunto desses
estudos particulares do delito é que se dá o nome de Criminologia.

A criminologia tem fundamental importância para conhecermos o indivíduo que


pratica o crime, determinando o que o levou a praticar tal fato e como se encontra o agente
psicologicamente. Registramos o conceito de criminologia retirado da obra de Loricchio, onde
ele o faz pela citação de outro autor (Pablos de Molina): “Criminologia é uma ciência empírica e
interdisciplinar que se ocupa do estudo do crime, da pessoa do infrator, da vítima e do controle
2
social do comportamento delitivo”.

O Criminoso

O sujeito que faz a consumação da pratica delitiva é denominado “criminoso”.


É interessante citar ainda o conceito de criminoso e citar algumas características de seus
perfis: “Filosoficamente, Sócrates afirmava que os injustos e os maus não passavam de
ignorantes, e se conhecessem de verdade a justiça, eles a praticariam, pois ninguém é mau
3
voluntariamente”.

Rousseau (1712 – 1778) foi mais longe, sustentou que, com o advento da
propriedade privada, iniciou-se o período das desarmonias sociais: O homem é bom por
4
natureza, à sociedade o corrompe.

Os Crimes contra o Patrimônio

A Teoria Geral da parte Especial é considerada a mais modesta e acertada,


pois analisa os estudos relativos à introdução dos crimes em espécies, referindo-se ao bem

2
LORICCHIO, João Demétrio. Criminologia: Genética Espiritual. São Paulo: Editora Mundo Maior.
Cap I, p. 47.
3
Idem, p. 23.
4
Ibidem., p. 23.
9

jurídico e a estrutura do tipo-de-ilícito. O estudo dos crimes contra o patrimônio, certamente,


será a análise do bem jurídico, dos tipos-de-ilícito previstos nos artigos 155 a 180 do Código
Penal Brasileiro e das especificidades que lhe são inerentes e, finalmente, ás disposições
gerais relativas “Dos Crimes contra o Patrimônio”, do Código Penal Brasileiro.

Assim, é acertado dizer que:

O que caracteriza um código penal sob o ponto de vista


científico é essencialmente a parte geral: é através da parte geral que
se delineia a posição assumida pelo legislador face aos problemas
universais do pensamento jurídico e criminológico e se estabelecem,
pois, as relações com as legislações dos outros países, com as
individualizações de uma linguagem e de categorias lógicas comuns.

A parte especial, ao contrário, prestando-se embora a


estudos comparativos, está presa de preferência às particularidades
culturais, políticas e sociais de cada povo e reflete uma escala de
5
valores própria do mesmo.

E ainda:

Faz parte do patrimônio das pessoas e, portanto, deve


ser considerado coisa, para o Direito Penal, qualquer objeto material
que, embora não seja economicamente apreciável, tenha algum valor
para o dono ou possuidor, por satisfazer suas necessidades, usos ou
prazeres. Incluem-se entre estes, por exemplo, a mecha de cabelos
do 'único amor de sua vida', a carta do filho já morto, o pedaço de
tecido da capa da 'santa milagrosa', das pessoas humildes, a pedra
colhida no caminho por onde Jesus teria passado, uma pequena
porção do solo da 'terra natal', etc. - objetos que, embora sem valor
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de troca, podem ter grande valor de afeição para o dono.

O fundamento para o conceito penal de patrimônio reside nos bens de valor


economicamente apreciável, mas, sobretudo, dos bens de valor moral ou afetivo, que, de outra
forma, estariam desprotegidos. Toda figura típica necessita de um agente ou, simplesmente, do
sujeito ativo. Sujeito ativo é quem pratica a conduta descrita no verbo típico.

Faremos uma analise dos crimes tipificados no Código Penal brasileiro


tipificados como crimes contra o patrimônio, que são tipificados nos artigos 155 a 183 do
Código Penal brasileiro.

Roubo

O Roubo é um dos ilícitos penais que caracterizam os crimes contra o


patrimônio, sendo muitas vezes confundido com o furto, sendo que a diferença é a existência
de violência para a prática do delito “roubo”. “Somente quando há emprego de força, grave

5
NUVOLONE, Paulo. A Reforma do novo Código Penal brasileiro e as principais tendências do
pensamento penalístico contemporâneo. São Paulo: Editora Justitia, 1974, p.31, v. 87.
6
BATISTA, W. M. O furto e o roubo no Direito e no Processo Penal. 2 ed. Rio de
Janeiro: Editora Forense, 1997, p. 6.
10

ameaça ou outro meio tendente a suprir a resistência pessoal da vítima, passa o furto a ser
7
qualificado como roubo”.

Complemento com a teoria de um outro autor que ainda cita:

Carrara assenta a diferença dos dois crimes na


contemporaneidade ou futuridade existente entre a violência ou
ameaça e a obtenção da vantagem. As características especiais da
extorsão - diz ele - resultam do intervalo de tempo que deve
transcorrer, por breve que seja, entre a ameaça de um dano e sua
execução, ou entre a ameaça de dano e o fato de apoderar-se do
objeto. Para que haja furto violento (entre nós -roubo - acrescenta o
autor) é preciso que o ladrão diga: "ou me dás isso ou te mato", ou
que obrigue a entrega da coisa mediante força física; em troca, para
que haja extorsão é preciso que o ladrão tenha dito: "se não me
deres isso, eu te matarei ou queimarei tua casa", ou algo
semelhante, "ou tenha dito: "ou prometes entregar-me o que te digo,
ou te mato". Em uma palavra: o mal iminente e o roubo simultâneo
constituem o furto violento; o mau futuro e a vantagem futura
constituem a extorsão.

Noronha acolhe e repete a lição de Carrara, ao dizer que


a distinção entre um e outro crime reside em que no roubo o mal é
iminente e o proveito contemporâneo, enquanto na extorsão, o mal
8
prometido é futuro e futura a vantagem a que se visa.

O “roubo” pode ser confundido com outros dois tipos de crimes, sendo que um
já foi citado anteriormente na passagem do último autor. Os dois outros crimes são o “furto” e a
“extorsão”.

Furto

O furto é um dos ilícitos penais que caracterizam os crimes conta o patrimônio,


sendo um dos crimes mais cometidos dentro da região central de Cuiabá. “Furto é a subtração
9
de coisa alheia móvel com o fim de apoderar-se dela, de modo definitivo”.

Procuramos ainda estabelecer uma definição retirada de um dicionário que


assim se define: “Crime contra o patrimônio consistente na subtração clandestina de coisa
10
alheia móvel”.

Extorsão

O terceiro ilícito penal que comentaremos será o crime de “extorsão”, previsto


no artigo 158 do Código Penal Brasileiro. Retiramos a seguinte definição de “extorsão”:

7
MIRABETE, Julio Fabbrini. Código Penal Interpretado. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2005, p. 69.
8
BATISTA, W. M. O furto e o roubo no Direito e no Processo Penal. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora
Forense, 1997, p. 296.
9
DELMANTO, Celso. Código Penal Comentado. 5 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 309.
10
ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Dicionário Acadêmico de Direito. 2 ed. São Paulo: Jurídica
Brasileira, 2001, p. 372.
11

A extorsão é definida numa fórmula unitária,


suficientemente ampla para abranger todos os casos possíveis na
prática. Seu tratamento penal é idêntico ao do roubo; mas, se é
praticada mediante seqüestro de pessoa a pena é sensivelmente
11
aumentada.

O crime de extorsão tem ainda mais duas variantes tipificadas nos artigos 159
e 160 no Código Penal Brasileiro.

Usurpação

Falaremos agora de um outro crime denominado “usurpação”, sendo assim


definido:

Sob a rubrica “Da usurpação”, o projeto incrimina certos


fatos que a lei penal vigente conhece sob diverso nomen juris ou
ignora completamente, deixando-os na órbita dos delitos civis. Em
quase todas as suas modalidades, a usurpação, é uma lesão ao
interesse jurídico da inviolabilidade da propriedade imóvel.

Assim, a alteração de limites (Art. 161), a usurpação de


águas (Art. 161, § 1º, I) e o esbulho prossessório, quando práticado
com violência á pessoa, ou mediante grave ameaça, ou concurso de
mais de duas pessoas (Art. 161, § 1º, nº II). O emprego de violência
contra a pessoa, na modalidade da invasão possessória, é condição
de punibilidade, mas, se dele resulta outro crime, haverá um
concurso material de crimes, aplicando-se, somadas, as respectivas
12
penas (Art. 161, §2º).

Encontrado também definido pelo dicionário jurídico como:

Apoderação de bens, títulos, estado ou autoridade. Sob


tal rubrica, o CP brasileiro tipifica vários delitos: alteração de limites
(Art. 161, Caput), usurpação de águas (Art. 161, I) esbulho
prossessório (Art. 161, II) e supressão ou alteração de marca em
13
animais (Art.162).

A usurpação também tem artigos dentro do Código Penal Brasileiro que fazem
referência a outras vertentes do mesmo tipo de crime. Difícil tipo de delito a ser encontrado na
área da Companhia Central de Cuiabá.

Dano

O próximo crime que estará exposto será o crime de “dano”. Crime comumente
praticado na área de atuação da Cia do Centro, é disposto da seguinte forma por Mirabete:

Ao cuidar do crime de dano, o projeto adota uma formula


genérica (“destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia”) e, a seguir,
prevê agravantes e modalidades especiais do crime. Estas últimas,
mais ou menos estranhas a lei vigente, são a “introdução ou
abandono de animais em propriedade alheia,” o “dano em coisa de

11
MIRABETE, Julio Fabbrini. Código Penal Interpretado. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2005, p. 69-70.
12
MIRABETE, Julio Fabbrini, op., cit., p. 70
13
ACQUAVIVA, Marcus Cláudio, op., cit., p. 720.
12

valor artístico, arqueológico ou histórico” e a “alteração de local


especialmente protegido

Certos fatos que a lei atual considera variante de dano


não figuram, como tais, no projeto. Assim, a destruição de
documentos públicos ou particulares (Art. 326 e seu parágrafo único
da Consolidação das Leis Penais) passa a constituir crime de
falsidade (Art. 305 do projeto) ou contra a administração pública
14
(Arts. 314 e 356).

Apropriação Indébita

O capítulo V do Código Penal brasileiro retrata os crimes de apropriação


indébita. Um dos tipos de crime contra o Patrimônio que pode ser confundido com furto e
roubo. Mirabete assim afirma:

A apropriação indébita (furtum improprium) é


conceituada, em suas modalidades, da mesma forma que na lei
vigente; mas o projeto contém inovações no capítulo reservado a tal
crime. A pena (que passa a ser reclusão por um a quatro anos e
multa de cinqüenta centavos a dez cruzeiros) é aumentada de um
terço, se ocorre infidelidade do agente como depositário necessário
ou judicial, tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante ou
testamenteiro, ou no desempenho de ofício, emprego ou profissão.
Diversamente da lei atual, não figura entre as modalidades da
apropriação indébita o abigeato, que é, indubitavelmente, um caso
de furtum proprium e, por isso mesmo, não especialmente previsto
no texto do projeto. É especialmente equiparado á apropriação
indébita o fato de o inventor do tesouro em prédio alheio que retém
15
para si a quota pertencente ao proprietário deste.

Segundo outro doutrinador também conhecido, é definido apropriação indébita


como:

Ao contrário do furto ou do estelionato, na apropriação


indébita inexiste subtração ou fraude. O agente tem a anterior posse
da coisa alheia, que lhe foi confiada pelo ofendido, mas inverte a
16
posse, isto é passa a agir como se fosse ele o dono da coisa.

Estelionato

O Estelionato está presente no artigo 171 do Código Penal Brasileiro e seu


caput expressa o seguinte comentário: “Obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em
prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer
17
outro meio fraudulento”.

O crime de estelionato é comumente observado em locais de grande comércio,


onde a pessoa, como descrito acima, induz outrem ao erro. Mirabete explicita o seguinte
comentário sobre esse delito penal:

14
MIRABETE, Julio Fabbrini, op. cit., p. 70.
15
MIRABETE, Julio Fabbrini, op. cit., p. 70-71.
16
DELMANTO, Celso. Código Penal Comentado. 5 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 347.
17
GOMES, Luiz Flávio. Código Penal. 7 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 362.
13

O estelionato assim é definido: “Obter, para si ou para


outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo
alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou outro meio fraudulento”.
Como se vê, o dispositivo corrige em três pontos a fórmula genérica
do inciso nº 5 do art. 338 do Código atual: contempla a hipótese da
captação de vantagem para terceiro, declara que a vantagem deve
ser ilícita e acentua que a fraude elementar do estelionato não é
somente a empregada para induzir alguém em erro, mas também a
que serve para manter (fazer subsistir, entreter) um erro
18
preexistente”.

No dicionário jurídico encontramos de onde a denominação “Estelionato” surgiu


e apresenta algumas de suas definições:

Do latim stellio, onis, stellionatus, fraude, fraude, engano.


O étimo provém da denominação de uma espécie de lagarto que
muda as cores do próprio corpo conforme o meio ambiente, para,
assim, dissimulado, não ser percebido pelos inimigos predadores...
Já se percebe que o estelionato é um crime contra o patrimônio que
tem como caraterística a astúcia, o engodo, a picardia do
delinqüente. Não é delito de ser cometido pelo boçal, pelo ignorante,
19
mas pelo indivíduo astuto, perspicaz.

Receptação

O último crime denominado como “crimes contra o patrimônio ” é a receptação.


Encontramos a definição de receptação:

Crime contra o patrimônio consistente em adquirir,


receber ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser
produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa fé, a adquira
receba ou oculte: Pena – reclusão de um a quatro anos, e multa (CP,
art. 180). Como observa Celso Delmanto, “é indispensavel que o
objeto material do delito de receptação seja coisa produto de crime,
pois, sem tal pressuposto, não há receptação. Não basta que seja
produto de contravenção. É necessário que se trate de produto de
crime mesmo, não compreendendo os instrumentos do delito.
Quanto á natureza ou objetividade do crime original, pode ele ser
contra o patrimônio ou não, admitindo-se, até que haja receptação
de receptação. A doutrina aceita como o produto de crime que o
20
substitui.

É um crime que ocorre comumente na região de Cuiabá, entretanto não se tem


registro de tal delito através de boletins de ocorrência.

REFERÊNCIAS

ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Dicionário Acadêmico de Direito. 2 ed. São Paulo: Jurídica
Brasileira, 2001.

18
MIRABETE, Julio Fabbrini, op., cit., p. 71.
19
ACQUAVIVA, Marcus Cláudio, op., cit., p. 342.
20
Idem, p. 591.
14

BATISTA, W. M. O furto e o roubo no Direito e no Processo Penal. 2 ed. Rio de Janeiro:


Forense. 1997

DELMANTO, Celso. Código Penal Comentado. 5 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2000.

GOMES, Luiz Flávio. Código Penal. 7 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005.

LORICCHIO, João Demétrio. Criminologia Genética Espiritual. 1 ed. São Paulo: Mundo
Maior, 1999.

MIRABETE, Julio Fabbrini. Código Penal Interpretado. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2005.

NUVOLONE, P. A Reforma do novo Código Penal brasileiro e as principais tendências do


pensamento penalístico contemporâneo. Justitia, 1974, v.87.

A ANTROPOLOGIA CRIMINAL

Arena Jurídica

A antropologia criminal, hoje também denominada biologia criminal, é ciência


criminológica que deve seu aparecimento, como conjunto de princípios sistematizados, a
Cezare Lombroso. Segundo o famoso médico italiano, há um tipo humano especial,
devidamente caracterizado por uma série de traços somato-psíquicos, e que é o “delinqüente
nato”. Existem, assim, certos homens naturalmente criminosos, perfeitamente identificáveis por
características particulares, a maioria das quais externamente visível.

Esses tipos criminosos, verdadeiros species generis humani, que tem o nome
de criminoso nato recorda o homem primitivo, pois o delinqüente congênito é um ser atávico
por força da degenerescência ou então, conforme ulterior concepção, por efeito de ação da
epilepsia sobre os centros nervosos. Como ser atávico que representa uma regressão ao
selvagem, o delinqüente nato apresenta estigmas morfológicos e traços psíquicos, muitos dos
quais trazem grande analogia (ou mesmo identidade) com o homem primitivo.

Como disse MEZGER, com muito acerto, a existência de um delinqüente nato


não se comprovou empiricamente. Embora possam ser encontrados homens com inclinação
para o delito, por sua constituição inata, não representam eles um tipo criminal unitário,
fechado em si, com determinadas características corporais (somáticas) e anímicas (psíquicas)
como genuína species generis humani.

Poucos pesquisadores, diz DE GREEF, acreditam hoje que o criminoso


represente um tipo biológico determinado de modo a nele se encontrarem característicos
próprios, do ponto de vista anatômico e fisiológico. No entanto, conforme conclui esse grande
15

criminólogo contemporâneo, talvez fosse preciso passar pela fase lombrosiana para chegar-se
ao estado ciêntifico atual em que as pesquisas antropológicas têm conseguido conclusões de
indiscutível valor.

A antropologia criminal, como lembra GEMELLI, teve assim o mérito de haver


iniciado o estudo do delinqüente e de ter demonstrado sua grande importância. Nascida sob o
signo do naturalismo, a antropologia surgiu com todos os graves defeitos dessa concepção de
vida, e por isso mesmo, parcial e unilateral. Ela amputou o estudo do homem criminoso, para
nele encarar apenas a parte material e biológica, com abandono propositado do que é
essencial à personalidade humana.

A verdadeira antropologia criminal precisa, portanto, partir do estudo completo


do homem, quer focalizando seu organismo, quer a sua vida psíquica. MEZGER, depois de
reconhecer o grande mérito que teve Lombroso por ter sido quem primeiro promoveu o estudo
do crime do ponto de vista científico-causal, diz também que o pensamento científico
naturalista do século XIX falhou, pela suas generalizações e simplismo.

Hoje, a antropologia criminal (ou biologia criminal, como falam os alemães) é


definida como a ciência que pesquisa “os fatores individuais do crime”, nele compreendendo os
coeficientes “endógenos, somáticos e psíquicos, inerentes à vida do homem”. A psicologia
criminal se insere, assim, nos domínios da biologia criminal, como parte integrante desta.
Assim, a biologia criminal, compreendendo o estudo “morfo-psico-moral do delinqüente,
absorve em si a anatomia, a psicologia e a psicopatologia do criminoso”.

O Primeiro Congresso Internacional de Criminologia (Roma, 1938) adotou


francamente essa orientação unitária a respeito da biologia, a não ser através de uma
“psicologia livresca” de aparência científica, mas “inteiramente insuficiente”, ou pelas
vulgarizações psicanalísticas.

Pode-se, portanto, conceituar a antropologia ou biologia criminal como a


ciência do estudo integral da personalidade do delinqüente, para desta forma dar-se-lhe como
objeto científico, não a pesquisa unilateral e truncada da antropologia positivista, mas sim o
delinqüente como pessoa humana, composta de corpo e alma, de matéria e forma. Nesse
estudo, não só os fatores endógenos do delito, mas também os coeficientes sociais que
condicionaram ou provocaram a ação criminosa devem ser focalizados e equacionados. Como
ensina Marcelo Caetano, “o papel do ambiente familiar e social na gênese do delito é estudado
pela psicologia na indagação complexiva da atividade do delinqüente”.
16

SOCIOLOGIA CRIMINAL

Arena Jurídica

A sociologia criminal estuda o crime como fenômeno social.


A disciplina em apreço remonta a Rousseau e Quetelet, mas o seu nome foi dado por Ferri,
para quem a sociologia criminal seria a ciência enciclopédica do delito, da qual o Direito Penal
não passaria de simples ramo ou subdivisão, inaceitável pela maioria dos cientistas ao colocar
o Direito Penal subordinado ao conceito.

O nexo do Direito Penal com a sociologia criminal é o mesmo nexo do Direito


com a sociologia jurídica. Se o crime, como fenômeno social, exige estudos apurados pela
ação turbativa que provoca na vida societária, também outros fatos sociais, de que o Direito
cuida normativamente, são relevantes para o bem comum.

Desajustamentos sociais que nem sempre vão desembocar no crime criam


situações contrárias aos interesses coletivos, e tudo em conseqüência de problemas também
afetos à ordem jurídica.

A conceituação de Grispigni, que dentro da própria escola positiva combateu o


exagero de Ferri, situa a sociologia criminal no campo estrito do fenômeno da criminalidade,
critério esse também abraçado por Etienne De Greef.

Para o jurista italiano os fatores exógenos do delito não passam, em última


ratio, de fenômenos pertinentes ao indivíduo, pelo que devem ser estudados na antropologia
criminal. Só a criminalidade, que é o crime como fato social, constitui o objeto da sociologia
jurídica.

Não é diferente o ensinamento do professor de Louvain:

“A criminalidade é um fenômeno social que se apresenta em dado


momento, e esses caracteres gerais podem ser estudados e reduzidos a gráficos.
Podem-se então, se isto aprouver confrontar os dados assim recolhidos com outras
atividades sociais. Pode-se indagar se existe, ou não, alguma correlação entre
diversos desses dados e estabelecer desse modo uma ciência o crime como
fenômeno social. Nasce assim uma sociologia criminal, que pode ser equiparada à
qualquer outra sociologia... Durkhein pôde estudar o suicídio, sem cuidar da
personalidade dos suicidas. Assim também pode-se estudar o crime sem cuidar-se
do delinqüente”.

Estamos com essa orientação. A ciência criminal como fenômeno coletivo é do


âmbito da sociologia; o delito, como fato individual, cai no campo da biologia ou antropologia
criminal. Nem é possível a separação, no estudo do delinqüente, dos fatores exógenos e
individuais. A interpenetração de ambos, na gênese do delito, é incontestável, pois a dinâmica
da ação do ambiente é incindível, como notou Gemelli, da dinâmica da personalidade por
serem dois aspectos de um só dinamismo que necessitam serem ponderados por quem
pretenda “compreender o significado de uma ação delituosa”.
17

Objeto assim da sociologia criminal é a delinqüência como “fenômeno social


(ou de massa)”, o que se consegue procurando “o número total das manifestações criminosas
de um agrupamento humano e suas condições gerais”, com o intuito de “determinar as
regularidades da produção do fenômeno, com o que se estuda a sociedade no seu aspecto
21
de morbidez jurídico-penal”.

VITIMOLOGIA

Luís Semedo

Lacassagne e seus colaboradores, que desenvolveram as idéias de Durkheim


e de Ferri, acreditavam que o crime é um fenômeno social, logo, para estudá-lo, era necessário
partir de dados objetivos, capazes de fornecer informações científicas inabaláveis, que nos
levem à descoberta de algumas das causas criminógenas, ao invés de partir de conceituações
preconcebidas, que procuram através da observação dos fatos, meras justificativas para as
mesmas.

É óbvio que em todo crime há dois sujeitos: o ativo ou autor e o passivo ou a


vítima.

É notório que os estudos criminológicos costumam estar voltado quase que


exclusivamente para os autores, esquecendo das vítimas, talvez porque a sociedade se
preocupe mais com o autor, do que com a ameaça, com sua conduta do que com a vítima que
sofre as conseqüências do ilícito penal.

Verificamos no mundo naturalístico a ocorrência de um delito, surge ao


ofendido o direito de obter a reparação, isto é porque todo o ilícito penal é igualmente civil.
Ao entendimento da separação da jurisdição em civil e penal, e da independência entre estas,
o dever de indenizar não depende apenas da efetiva condenação penal, daí, ao dizer do Prof.
Vicente Greco Filho, "a possibilidade de dois tipos de ação civil ex delito: a ação de
conhecimento, de natureza condenatória, e a execução da sentença penal condenatória
transitada em julgado" .

O papel da vítima no contexto científico-legal

A vitimologia é o estudo da vítima em seus diversos planos, sendo parte


integrante da Criminologia. Estuda-se a vítima sob os aspectos globais, integrais, psicológicos,
sociais, econômico, jurídico, consoante define Eduardo Mayr, in verbis: "Vitimologia é o estudo
da vítima no que se refere à sua personalidade, quer do ponto de vista biológico, psicológico e

21
Disponível em: http://arenajuridica.vilabol.uol.com.br/criminologia.htm. Acessado em: 17 de jun de
2007.
18

social, quer o de sua proteção social e jurídica, bem como dos meios de vitimização, sua inter-
relação com o vitimizador e aspectos interdisciplinares e comparativos".

Desde a Escola Clássica impulsionada por Beccaria e Feuerbach à Terza


Scuola ou Escola Eclética de Impalomeni e Alimena, passando antes pela Escola Positiva de
Lombroso e Garofalo, o Direito Penal praticamente teve como meta a tríade delito-delinquente-
pena.

O outro componente do contexto criminal, a vítima, jamais foi levado em


consideração. Isto apenas passou a ocorrer quando outras ciências, e principalmente a
Criminologia tiveram que vir em auxílio do Direito Penal para análise aprofundada do crime, do
criminoso e da pena.

Todavia um estudo sistemático da vítima somente começou com o advogado


israelita Benjamim Mendelsohn em 1945, criando a Vitimologia.

O termo vítima vem do latim victimia e victus, vencido, cominado, refere-se a


animal oferecido em sacrifício aos deuses no paganismo, ou sacrificado, morto, abatido, ferido,
por outro. Posteriormente, o conceito de vítima foi sendo ampliado, para caracterizar todo Ser
Humano que é prejudicado de alguma forma.

Os objetivos finais da vitimologia são: evidenciar a importância da vítima;


explicar a conduta da vítima; medidas para reduzir a ocorrência do dano no âmbito de políticas
públicas e de comportamento individual; assistência às vítimas.

Algumas tipologias classificatórias de vítimas

Von Henting, 1948, a ação direta das vítimas é considerada como


provocadora do delito e a vulnerabilidade causada por fatores fora do controlo da vítima (idade,
sexo, posição social).

Mendelsohn, 1956, tipos de vítimas com base na sua culpabilidade:


graduação da culpabilidade da vítima, desde a completamente inocente (sem comportamentos
de precipitação) até à vítima mais culpada do que o ofensor. Vitimologia do ato,
essencialmente centrada em dois planos: num primeiro no delinqüente, num segundo debruça-
se sobre a vítima, o criminoso terá uma pena atenuada consoante o comportamento da vítima
ou tipo de vítima.

Amir, 1971, culpabilização associada à precipitação, violação precipitada,


aquela que a vítima desejou violentamente o ato ou se comportou de forma a suscitar más
interpretações por parte do agressor.
19

Fattah, 1972, conceito jurídico e moral de culpa, a existência de sujeitos mais


vulneráveis ao crime (não por qualquer determinação psicológica ou moral, mas por questões
estruturais). Posição social ou comportamental, maior exposição ao risco.

Classificações de Benjamín Mendelsohn (Tipologias, Centro de Difusion


de la Victímologia, 2002).

O vitimólogo israelita fundamenta sua classificação na correlação da


culpabilidade entre a vítima e o infrator. É o único que chega a relacionar a pena com a atitude
vitimal. Sustenta que há uma relação inversa entre a culpabilidade do agressor e a do
ofendido, a maior culpabilidade de uma é menor que a culpabilidade do outro.

1. Vítima completamente inocente ou vítima ideal: é a vítima inconsciente que se


colocaria em 0% absoluto da escala de Mendelsohn. É a que nada fez ou nada
provocou para desencadear a situação criminal, pela qual se vê danificada. Ex.
incêndio;

2. Vítima de culpabilidade menor ou vítima por ignorância: neste caso se dá um certo


impulso involuntário ao delito. O sujeito por certo grau de culpa ou por meio de um ato
pouco reflexivo causa sua própria vitimização. Ex. Mulher que provoca um aborto por
meios impróprios pagando com sua vida, sua ignorância;

3. Vítima tão culpável como o infrator ou vítima voluntária: aquelas que cometem suicídio
jogando com a sorte. Ex. roleta russa, suicídio por adesão vítima que sofre de
enfermidade incurável e que pede que a matem, não podendo mais suportar a dor
(eutanásia) a companheira(o) que pactua um suicídio; os amantes desesperados; o
esposo que mata a mulher doente e se suicida;

4. Vítima mais culpável que o infrator. Vítima provocadora: aquela que por sua própria
conduta incita o infrator a cometer a infração. Tal incitação cria e favorece a explosão
prévia à descarga que significa o crime. Vítima por imprudência: é a que determina o
acidente por falta de cuidados. Ex. quem deixa o automóvel mal fechado ou com as
chaves no contato;

5. Vítima mais culpável ou unicamente culpável. Vítima infratora: cometendo uma infração
o agressor cai vítima exclusivamente culpável ou ideal, se trata do caso de legitima
defesa, em que o acusado deve ser absolvido. Vítima simuladora: o acusador que
premedita e irresponsavelmente joga a culpa ao acusado, recorrendo a qualquer
manobra com a intenção de fazer justiça num erro.

Meldelsohn conclui que as vítimas podem ser classificadas em 3 grandes


grupos para efeitos de aplicação da pena ao infrator:
20

1. Primeiro grupo: vítima inocente: não há provocação nem outra forma de participação
no delito, mas sim puramente vitimal;

2. Segundo grupo: estas vítimas colaboraram na ação nociva e existe uma culpabilidade
recíproca, pela qual a pena deve ser menor para o agente do delito (vítima
provocadora).

3. Terceiro grupo: nestes casos são as vítimas as que cometem por si a ação nociva e o
não culpado deve ser excluído de toda pena.

SEMEDO, Luís. Vitimologia. Disponível em: http://sociologiadocrime.blogspot.com/2005/05/


vitimologia_02.html. Acessado em: 17 de jun de 2007.

NOGUEIRA, Sandro D'Amato. Vitimologia: lineamentos à luz do art. 59, caput, do


Código Penal brasileiro. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 275, 8 abr. 2004.
Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5061>. Acesso em:
17 jun. 2007.

CRIME, OPORTUNIDADE E VITIMIZAÇÃO


Cláudio Beato F.; Betânia Totino Peixoto e Mônica Viegas Andrade
Revista Brasileira de Ciências Sociais - vol. 19 Nº. 55 junho/2004

Introdução

Tema ainda inexplorado na literatura sobre crime e violência no Brasil, o


ambiente de oportunidades para a ocorrência de delitos tem revelado uma notável capacidade
explicativa na literatura criminológica internacional. A dinâmica de fatores ambientais na
distribuição de crimes em espaços urbanos tem sido cada vez mais utilizada para a discussão
dos componentes racionais da atividade criminosa, assim como para o desenvolvimento de
estratégias de prevenção situacional (Newman et al., 1997; Clarke, 1997; Clarke e Felson,
1993).

No contexto brasileiro, isso é uma inovação conceitual e teórica. Na


perspectiva criminológica tradicional, a ênfase na explicação da distribuição de crimes recai
nos vários fatores que afetam a escolha por parte dos indivíduos, como predisposições
pessoais, forças socializantes da família, dos pares e da escola, reforços proporcionados pela
comunidade e, ainda, arranjos institucionais de diversas naturezas. Do ponto de vista da
formulação de políticas públicas, esse tipo de resultado pode ser irrelevante, uma vez que
aponta para fatores que não estão sob o controle do Estado ou onde a intervenção estatal
21

pode não ser desejável. Outros fatores estão num plano no qual o Estado tem muito pouco a
fazer (Wilson, 1983). Não se podem obrigar os pais a amarem os filhos, comunidades a
supervisionarem seus adolescentes ou proibir jovens de desenvolverem certas atividades e
comportamentos de risco.
Existem algumas vantagens em conceber crimes não como resultado de
disposições sociológicas e psicologicamente determinadas, mas de decisões e escolhas
individuais. Dos determinantes sociais do comportamento de criminosos, partimos para a
análise de crimes e das condições em que eles ocorrem. O que se pretende é descobrir os
processos de tomadas de decisão por parte dos criminosos. Quais são os mecanismos
cognitivos em ação? Como eles justificam suas condutas? Quais informações são relevantes
para a ação criminosa? (Clarke e Cornish, 1985).

Contexto teórico da discussão

O impacto das teorias ecológicas dos anos de 1930 e 1940 sobre a teoria das
oportunidades tem sido ressaltado pelos modernos comentaristas da teoria criminológica
(Bursick e Grasmick, 1993).
Desde então, a teoria social se preocupa com aspectos de natureza ecológica
e ambiental na determinação de fenômenos sociais tais como o da criminalidade (Park e
Burguess, 1924; Hawley, 1944; Shaw e MacKay, 1942). A mútua dependência entre grupos
funcionalmente distintos que formam relacionamentos simbióticos, assim como as demandas
sobre o ambiente que marcam organizações comensalistas, fornecem as bases para a
compreensão da interação entre predadores e vítimas no mercado de atividades criminosas.
Nas palavras de Felson:
Um novo padrão de criminalidade surge com o crescimento das cidades, com
ofensores predatórios ocultos na multidão, que atacam e, então, se escondem novamente para
não serem presos. Vendas ilegais e consumo, assim como brigas podem sobreviver mais
facilmente dentro de um ambiente urbano (1994, p. 49).

Jacobs (1961) destacava os ecossistemas urbanos compostos por processos


físicos, econômicos e éticos, em que a diversidade e a interdependência cumpririam a função
de revitalização e controle. O problema da segurança nas grandes cidades estaria diretamente
relacionado ao enfraquecimento dos mecanismos habituais de controle exercidos naturalmente
pelas pessoas que vivem nos espaços urbanos. A partir daí, perspectivas de intervenção
ambiental passaram a incorporar conceitos como o de “espaço defensivo” (Newman, 1972) ou
de “prevenção de crime através do design ambiental” (Jeffery, 1971).
A idéia de espaço defensivo relaciona-se a soluções arquitetônicas de
recuperação de moradias públicas nos Estados Unidos, obrigando seus moradores a exercer
seus naturais instintos de “territorialidade”. Este instinto é perdido quando se constroem
grandes prédios de habitação coletiva, em que os moradores mal se conhecem, e onde existe
22

uma variedade enorme de acessos não supervisionados que facilitam a atividade de


predadores. A idéia é reduzir esse anonimato não apenas pelo incremento da vigilância natural,
mas também diminuindo as vias de escape para potenciais ofensores.
Outra estratégia é denominada Teoria das Abordagens de Atividades
Rotineiras (Cohen e Felson, 1979), que busca explicar a evolução das taxas de crime não por
meio das características dos criminosos, mas das circunstâncias em que os crimes ocorrem.
Para que um ato predatório ocorra é necessário que haja uma convergência no tempo e no
espaço de três elementos: ofensor motivado, que por alguma razão esteja predisposto a
cometer um crime; alvo disponível, objeto ou pessoa que possa ser atacado; e ausência de
guardiões, que são capazes de prevenir violações.
Trata-se de um modelo bastante econômico no que diz respeito aos elementos
utilizados. Contudo a própria definição desses elementos guarda muitas sutilezas. Embora
esteja se tratando de uma abordagem preocupada com as características ambientais nas quais
ocorrem os crimes predatórios, ela ainda mantém algumas ressonâncias na criminologia mais
tradicional ao enfatizar a motivação dos ofensores como um dos elementos centrais.
A origem dessa motivação, entretanto, é deixada em aberto. O segundo
aspecto é que a ação predatória dirige-se a “alvos”, ou seja, pessoas ou objetos em dada
posição no tempo e no espaço. Isto termina por retirar o aspecto moral que a palavra vítima
carrega consigo: um alvo define-se como coisas que tem algum valor, além de algumas
propriedades que o tornam adequado à ação predatória:
[...] adequabilidade provavelmente reflete tais coisas como valor (o
desejo material ou simbólica de uma propriedade pessoa ou
propriedade para os ofensores), visibilidade física, acesso e a inércia
de um alvo para o tratamento ilegal pelos ofensores incluindo o
tamanho, peso, portabilidade ou características de trancamento da
propriedade que inibem sua remoção e a capacidade das vítimas
pessoais a resistirem aos ataques com ou sem armas (Cohen e
Felson, 1979, p. 591).

Finalmente, os guardiões não se referem apenas às organizações do sistema


de justiça criminal, tal como concebido pela criminologia mais tradicional. Isso significa que os
mecanismos de controle social informais são igualmente críticos na ocorrência de delitos. Nas
palavras de Clarke e Felson: Realmente, as pessoas mais aptas para prevenir crimes não são
os policiais (que raramente estão por perto para descobrir os crimes no ato), mas antes os
vizinhos, os amigos, os parentes, os transeuntes ou o proprietário do objeto visado.
Note que a ausência de um guardião adequado é crucial. Definir um elemento-
chave como ausência antes do que presença é claramente um princípio fundamental na
despersonalização e na despsicologização no estudo do crime. Certos tipos de pessoas são
mais prováveis de estar ausentes do que outras, mas o fato de uma ausência ser enfatizada é
23

mais um lembrete de que o movimento das entidades físicas no tempo e no espaço é central
para esta abordagem (Clarke e Felson, 1993, p. 3).

Cohen e Felson mostram como características – local de residência dos


ofensores e das vítimas, relacionamento entre ofensores e vítimas, local dos contactos, idade
das vítimas ou o número de adultos em uma casa e horário de ocorrência, entre outras – estão
relacionadas à incidência de crimes. Assim, o aumento de arrombamentos residenciais liga-se
a mudanças na estrutura de empregos na sociedade norte-americana, de tal maneira que um
número maior de pessoas (incluindo mulheres) abandona os lares, deixando-os à mercê das
atividades predatórias.
A idéia um tanto óbvia de que ofensores e vítimas devem convergir no tempo e
no espaço deu origem a estudos que visam a identificar as dinâmicas pelas quais os indivíduos
proporcionam oportunidades para vitimização. Esse tipo de abordagem usa dados de
pesquisas de vitimização para compreender as diversas maneiras pelas quais a alocação de
atividades de trabalho e lazer pelos indivíduos influencia suas probabilidades de vitimização
(Hindelang, 1978).
As diferenças de “estilos de vida” afetam o montante de tempo alocado a cada
uma dessas atividades e, conseqüentemente, a exposições a situações de risco de vitimização.
Neste artigo trataremos especificamente da teoria das oportunidades avaliada a partir de dados
de pesquisa de vitimização realizada em Belo Horizonte (Crisp, 2002).
A utilização desse tipo de dados tem algumas implicações que merecem ser
ressaltadas. Em primeiro lugar, salienta-se que as taxas de vitimização são distintas nos
diferentes grupos e segmentos sociais. Isso significa que não nos deteremos em elementos
mais locais e de vizinhança em que as vitimizações ocorrem (Bursick e Grasmick, 1993),
embora o questionário utilizado nos permita fazer avaliações de alguns fatores físicos e
ambientais que colaboram para as ocorrências.
Em particular, observaremos a influência de variáveis de desordem e
incivilidade (Kelling e Colles, 1996). Na verdade, a plena investigação de fatores de ordem
ecológica nos levaria ao desenvolvimento de uma “ecometria”, em que instrumentos
específicos poderiam ser desenvolvidos para avaliar processos físicos e ambientais, assim
como processos de supervisão e controle que contribuem para a incidência de crimes
(Sampson e Radenbush, 1997).

Em segundo lugar, não trataremos de “crime” de uma maneira genérica, mas


das condições de incidência de determinados tipos de crime. A denominação “crime” implica
fenômenos muito distintos: “roubar uma revista em quadrinhos, esmurrar um colega, sonegar
impostos, assassinar a esposa, roubar um banco, corromper políticos, seqüestrar aviões –
esses e inumeráveis outros atos são crimes” (Wilson e Herrenstein, 1985, p. 21). Exploraremos
aqui especificamente os correlatos de crimes, como furto, roubo e agressão, efetivados ou não.
24

Uma abordagem da criminalidade toma a vítima como objeto de estudo,


buscando investigar como o estilo de vida do indivíduo e as oportunidades geradas por ele
influenciam a probabilidade de vitimização. Esse enfoque é baseado nas teorias de “estilo de
vida” (life-style models) e “oportunidades” (opportunity models), utilizadas em estudos de
vitimização, como, por exemplo, de Cohen, Kluegel e Land (1981).
Fatores que mais influenciam o risco de vitimização dos indivíduos são:
exposição, proximidade da vítima ao agressor, capacidade de proteção, atrativos das vítimas e
natureza dos delitos. A exposição é definida pela quantidade de tempo que os indivíduos
freqüentam locais públicos, estabelecendo contatos e interações sociais. O estilo de vida de
cada indivíduo determina em que intensidade os demais fatores estão presentes na sua vida.
Assim, determina em que medida os indivíduos se expõem ao freqüentar lugares públicos, qual
a sua capacidade de proteção, seus atrativos e a proximidade com os agressores.
A proximidade da vítima ao agressor diz respeito à freqüência de contatos
sociais estabelecida entre ambos, o que depende do local de residência, das características
socioeconômicas e dos atributos de idade e sexo, assim como da proximidade de interesses
culturais. Indivíduos com a mesma idade costumam freqüentar os mesmos ambientes nas
atividades de lazer.
A capacidade de proteção está relacionada ao estilo de vida das vítimas.
Indivíduos que têm maior capacidade de se resguardar, evitando contato com possíveis
agressores, têm menor probabilidade de serem vitimados. Por exemplo, indivíduos que andam
de carro em vez de ônibus têm maior capacidade de proteção porque diminuem a possibilidade
de contato com os agressores. Do mesmo modo, aqueles que contratam segurança privada
diminuem a probabilidade de serem vítimas de crime.
As vítimas tornam-se ainda mais atrativas quando oferecem menor
possibilidade de resistência ou proporcionam maior retorno esperado do crime. Os indivíduos
que oferecem menor possibilidade de resistência, provavelmente, reagem com pouca
intensidade, o que representa menor risco de aprisionamento para o agressor.
Aqueles que proporcionam maior retorno esperado do crime têm maior
probabilidade de serem vitimados, uma vez que, por um mesmo risco de aprisionamento, o
criminoso pode ganhar mais.
A natureza do delito é importante para determinar em que proporção cada fator
exposto acima influencia a probabilidade de vitimização. Isso acontece porque a influência de
cada fator na determinação do crime é diferente, dependendo do tipo de delito. Por exemplo,
no caso de homicídios em Belo Horizonte a proximidade geográfica entre a vítima e o agressor
é um fator crucial (Beato, 2003).
Este artigo baseia-se nos modelos de estilo vida e de oportunidades, por meio
dos quais procuramos descrever o perfil da vítima de crimes no município de Belo Horizonte,
ou seja, suas características, condição socioeconômica, hábitos, características familiares e
características dos locais onde vivem. A pesquisa foi realizada com base no cálculo da
probabilidade de vitimização, de acordo com as características do indivíduo.
25

Metodologia

Os dados utilizados neste trabalho provêm da Pesquisa de Vitimização


realizada pelo Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), entre
fevereiro e março de 2002. Esse tipo de pesquisa contém informações sobre os
acontecimentos criminais sofridos pelos indivíduos, sobre a quantidade e o tipo de perda
incorrida e as características dos criminosos. Além disso, engloba informações sobre as
características socioeconômicas, os hábitos e as características de residência e vizinhança dos
indivíduos.
A pesquisa de vitimização realizada em Belo Horizonte considera as seguintes
categorias de crime: furtos (ato de apropriação de bens alheios sem que a vítima perceba a
apropriação na hora da efetivação do ato); roubos (ato de apropriação de bens alheios em que
a vítima percebe a apropriação na hora da efetivação do ato); tentativa de roubo (quando o
indivíduo é vítima de roubo, mas consegue evitar a consumação do mesmo); roubo em
residência (ato de apropriação de bens alheios que estejam dentro da residência da vítima,
estando ela presente ou não); tentativa de roubo em residência (quando o indivíduo é vítima de
roubo na residência em que, por algum motivo, não consegue ser efetivado); agressão (ato de
ferir outrem com ou sem uso de armas); tentativa de agressão (quando o indivíduo é vítima de
agressão, mas não é ferido)

POLÍTICA DE PREVENÇAO SOCIAL

Em português, a palavra “política” se refere tanto ao processo de disputa por


cargos e negociação de interesses na sociedade quanto à implementação de ações
governamentais específicas.

Mais além das medidas e propostas específicas para a área social, existem
importantes diferenças de perspectiva, que muitas vezes adquirem fortes conotações político-
partidário ou ideológicas. No início de 2003, estas diferenças apareceram na imprensa
brasileira como uma alternativa entre políticas universais e políticas de focalização. Em um
nível mais profundo, existem grandes diferenças entre os que propõem políticas de mobilização
social, e os que dão prioridade a políticas de metas sociais.

O que estamos denominando, por falta de melhor termo, de “políticas de


metas”, é uma preferência por políticas definidas através de diagnósticos globais, e
implementadas pela ação e iniciativa dos governos. Em um certo sentido, são políticas “de
cima para baixo”, em contraste com as de mobilização, que pretendem ser “de baixo para
cima”.

As políticas sociais universais de primeira geração pertencem a esta categoria.


Propostas de terceira geração incluem a instituição de linhas oficiais de pobreza e o
estabelecimento de metas para a sua redução; políticas universais de renda mínima para as
26

populações mais carentes; a introdução de quotas raciais em escolas e serviços públicos, para
a redução das desigualdades sociais; políticas de promoção automática nas escolas, para a
redução da retenção escolar; e políticas de flexibilização do mercado de trabalho, para reduzir
os custos indiretos do emprego e aumentar a inclusão de trabalhadores no setor formal da
economia.

Segundo Luis Flávio Sapori, a deterioração da ordem pública na sociedade


brasileira ao longo dos últimos 20 anos é inquestionável, tornando-se decisiva na queda da
qualidade de vida da população. O diagnóstico da situação aponta para uma nova
conformação da criminalidade. Há um maior grau de violência associado aos crimes urbanos,
bem como se verifica a solidificação de atividades criminosas cada vez mais organizadas e
pautadas por uma racionalidade empresarial. O desafio que se apresenta à sociedade é a
reversão dessa tendência que se consolida como grave ameaça.

É importante considerar que é possível reduzir os índices de criminalidade.


Uma política pública consistente tem a capacidade de afetar a incidência da criminalidade,
revertendo sensivelmente seus efeitos sociais, conforme nos mostram inúmeras experiências
internacionais e mesmo nacionais. Sob essa ótica, é preciso superar a prática costumeira do
'apagar incêndios', caracterizada por intervenções pontuais e meramente reativas ao sabor dos
acontecimentos cotidianos. Política pública de segurança exige diagnóstico consistente,
elaboração de planos de curto, médio e longo prazo, além de uma gestão qualificada dos
planos elaborados.

No caso brasileiro, o cerne de uma política de segurança pública deve ser a


redução dos níveis de impunidade que vigoram em nossa sociedade. A tarefa a ser
empreendida não passa prioritariamente pela acentuação do rigor da punição aos criminosos, e
sim pela acentuação da certeza dessa punição. Não precisamos de penas mais severas ou
mesmo da ampliação do leque dos crimes hediondos. Nosso objetivo deve ser o incremento
das chances de um indivíduo que tenha cometido ato criminoso ser identificado, detido,
processado e sentenciado e, uma vez condenado, ser efetivamente inserido no sistema
prisional. Está em questão a ampliação da efetividade do sistema de justiça criminal.

Não se está argumentando aqui que a mera ampliação dos níveis de


encarceramento seja condição suficiente para reduzir os índices de criminalidade na sociedade
brasileira, mas sim que tal medida é uma condição necessária, que deve ser contemplada em
toda e qualquer política pública de segurança. A ampliação da taxa de encarceramento deve se
constituir em ação governamental a ser complementada por uma série de outras que envolvam
a integração das organizações policiais, a ampliação e profissionalização do atendimento ao
adolescente e a implementação de uma vigorosa política de prevenção social da criminalidade.

SAPORI, Luís Flávio. Certeza e rigor na punição são fundamentais para reduzir a
criminalidade. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT632526-
1667,00.html. Acessado em: 17 de jun de 2007.
27

O COMPORTAMENTO AGRESSIVO E VIOLENTO

Considerando a origem orgânica de determinados componentes


comportamentais agressivos, tomando ainda por base a analogia do cavalo-cavaleiro,
podemos aventar a possibilidade de um cavaleiro muito virtuoso, capaz de conduzir com
maestria o animal, ainda que esse animal fosse portador de alguma impetuosidade
constitucional.

Evidentemente, a submissão desse animal impetuoso aos critérios sensatos do


cavaleiro não se dará sem algum esforço, mas é possível. Isso significa que é possível haver
algum domínio da vontade sobre o orgânico. Em que quantidade não sabemos.

Durante um relacionamento agressivo com outra pessoa, geralmente o cérebro


(eixo hipotálamo-hipofisário) envia um sinal às glândulas supra-renais determinando a
liberação de adrenalina na corrente sangüínea. Tal como acontece na Reação de Alarme da
Síndrome Geral de Adaptação. Há, rapidamente, um aumento da excitação fisiológica e do
nível de vigilância do organismo. Simultaneamente, também procedente das supra-renais, os
níveis sangüíneos de cortisol livre aumentam, numa clara demonstração da interação entre os
estímulos externos e a fisiologia interna.

É habitual a questão do crime envolver uma série de reflexões e comentários


que ultrapassam em muito o ato delituoso em si; são questões que resvalam na ética, na
moral, na psicologia e na psiquiatria simultaneamente. Sempre há alguém atrelando ao
criminoso, traços e características psicopatológicas ou sociológicas: porque Fulano cometeu
esse crime?

Estaria perturbado psiquicamente? Estaria encurralado socialmente? Seria


essa a única alternativa? Ou, ao contrário, seria ele simplesmente uma pessoa maldosa?
Portadora de um caráter delituoso, etc.

Atualmente, apesar da ciência não ter ainda um consenso definitivo sobre a


questão, sabe-se, no mínimo, que qualquer abordagem isolada do ser humano corre enorme
risco de errar. Assim sendo, atualmente usamos o modelo bio-psico-social, na tentativa de
compreender as pessoas e os fatores que influenciam seus comportamentos (Agra, 1986).
Dentre esses três modelos (biológico, psicológico e social), sem dúvida a abordagem biológica
da pessoa é um dos aspectos mais criticados e polêmicos.

O termo "agressão" possui tantas conotações que, na realidade, perdeu e diluiu


seu significado. Embora seja conveniente conceber a violência e a agressão como processos
comportamentais, por não se tratarem de conceitos simples e unitários, também não poderão
ser definidos como tal, permanecendo difíceis de serem analisados isoladamente de outras
formas do comportamento motivado. Guardando inúmeras exceções, a tendência a agressão e
a violência poderão ser concebidas como traços de personalidade, como respostas aprendidas
28

no ambiente, como reflexos estereotipados de determinados tipos de pessoas ou até como


manifestações psicopatológicas. Em nosso caso particular, interessa tratar a violência e a
agressão como eventuais conseqüências de processos biopsicológicos subjacentes.

É impossível considerar a agressão no ser humano como um evento em si,


emancipada das circunstâncias e contingências. Primeiramente, devemos considerar a
agressão a partir do agente agressor, depois, a partir do agente agredido e, finalmente, a partir
de um observador ou terceiro. Não surpreenderá encontrarmos três representações diferentes
de um mesmo evento.

Do ponto de vista do agressor, deve-se considerar a intencionalidade dolosa do


ato, ou seja, a tentativa intencional de um indivíduo em transmitir estímulos nocivos à outro.
Para o agredido, deve-se considerar o sentimento de estar sendo agredido ou prejudicado e,
quanto ao observador, deve-se considerar seus sentimentos críticos acerca da possibilidade de
ter havido nocividade no ato em apreço, bem como sua intencionalidade (subjetiva) em
promover a agressão.

Outro elemento a ser considerado é se, inexoravelmente, a violência está


atrelada à agressão. Desta forma, podemos ter agressão com ou sem violência e, igualmente,
violência com ou sem agressão. Uma mulher, por exemplo, pode sentir-se agredida pelo
silêncio do marido, caso estivesse ansiosamente esperando por algum comentário ou diálogo,
mesmo em se tratando de um comentário hostil.

O marido, por sua vez, deve ser consultado sobre suas intenções lesivas ao
optar por uma postura silenciosa. Ele tanto poderia estar silencioso por desinteresse, por ser
calmo e amistoso, quanto por ter planejado ferir a mulher através do silêncio. Neste último
caso, estaríamos diante de um ato de agressão sem violência. A mesma cena poderia não ter
um resultado agressivo, caso a mulher não se sinta agredida apesar da eventual
intencionalidade agressiva do marido.

Disponível em: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=34&sec=99. Acessado em: 17


de jun de 2007.
29

DESVIO DE CONDUTA

Conduta é uma manifestação de comportamento do indivíduo, esta pode ser


boa ou má, dependendo do código moral, ético do grupo onde aquele se encontra.
O comportamento é definido como o conjunto de reações de um sistema
dinâmico em face às interações e realimentações propiciadas pelo meio onde está inserido.
Exemplos de comportamentos são: comportamento social, comportamento humano,
comportamento animal, comportamento atmosférico, etc.

Individualidades e teoria de sistemas

Quando tratamos de individualidades, podemos definir como o conjunto de


reações e atitudes de um indivíduo ou grupo de indivíduos em face do meio social.

Em teoria de sistemas, comportamento é a resposta observável de um


estímulo. Nos animais, por exemplo, envolve essencialmente instintos e hábitos aprendidos; os
primeiros sendo de natureza genética e biológica, os segundos de natureza social e cultural.

Biologia

Biologicamente define-se comportamento, como função social observável,


própria de organismos vivos, que se realiza em contato com o meio ambiente em que o ser
vive. Não é diretamente influenciado pela genética do ser. Na realidade, quem o produz é o
cérebro, através do processamento que ocorre em circuitos neurais específicos.

Instinto e cultura

Dois exemplos clássicos de comportamento são instintivo e cultural,


desenvolvidos ao extremo, são os dos insetos, por um lado, e dos mamíferos, por outro.
Enquanto que os primeiros praticamente não têm aprendizado e nascem com quase toda a
informação que precisam para sobreviver, os segundos são seres com comportamento social e
que precisam da convivência em grupo (pelo menos na infância) para adquirir o acúmulo de
sucessos das gerações anteriores, transmitido culturalmente e não no equipamento genético.

Respondente e operante

Os comportamentos são divididos em duas classes: Respondente e Operante.

• Respondente ou Reflexo: involuntário; ação de componentes físicos do


corpo (ex: glândulas, sudorese, etc...);

• Operante: voluntário; ação de músculos que estão sob controle


espontâneo (ex: comer, falar...); é controlado pelas suas conseqüências.
30

Psicologia

Em psicologia, o comportamento é a conduta, procedimento, ou o conjunto das


reações observáveis em indivíduos em determinadas circunstâncias inseridos em ambientes
controlados. Podendo ser descrito como uma contingência tríplice composta de antecedentes-
respostas-conseqüências, ou respostas de um membro da contingência.

O comportamento é objeto de estudo do Behaviorismo, uma das mais


importantes abordagens da psicologia, que se iniciou no começo do século XX, e foi proposto
por J.B. Watson.

Freud

Freud salientou a importante relação existente entre o comportamento de um


ser humano adulto e certos episódios de sua infância, mas resolveu preencher o considerável
hiato entre causa e efeito com atividades ou estados do aparelho mental. Desejos conscientes
ou inconscientes ou emoções no adulto representam esses episódios passados e são
considerados como os responsáveis diretos de seu efeito sobre o comportamento.

Roque Laraia

Roque Laraia, professor da UNB, define que os diferentes comportamentos


sociais são produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma
determinada cultura. Todos os homens são dotados do mesmo equipamento anatômico, mas a
utilização do mesmo, ao invés de ser determinada geneticamente, depende de um
aprendizado, e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do
grupo.

Antropologia

Em antropologia cultural, os componentes considerados inatos no


comportamento humano - como o sexo, instintos de agressividade e de competição - poderiam
ser modificados. A cultura seria capaz de reprimir ou alterar esses comportamentos.

Em psicopatologia pode-se dizer que existem condutas variáveis e típicas


conforme cada grupo de portadores de síndromes e quadros psicológicos, neurológicos ou
psiquiátricos. Dependendo de sua natureza, a conduta pode ocasionar atraso no
desenvolvimento, ou prejuízo no relacionamento social. A má conduta social em grau elevado
pode requerer tratamento especializado. Desvio de conduta é conceito que presume haver uma
conduta correta, sã; a definição vale para as condutas (comportamentos) que façam mal para
quem assim se conduza e para terceiros, como o uso de drogas, violência, bulimia ou abulimia.

Disponível em: http://www.saberweb.com.br/comportamento/comportamento.htm. Acessado


em: 17 de jun de 2007.
31

TRANSTORNO DE CONDUTA (Delinqüência)

Dentro da psiquiatria da infância e da adolescência, um dos quadros mais


problemáticos tem sido o chamado Transtorno de Conduta, anteriormente (e
apropriadamente) chamado de Delinqüência, o qual se caracteriza por um padrão repetitivo e
persistente de conduta anti-social, agressiva ou desafiadora, por no mínimo seis meses. E é
um diagnóstico problemático, exatamente por situar-se nos limites da psiquiatria com a moral
e a ética, sem contar as tentativas de atribuir à delinqüência aspectos também políticos.

Trata-se, sem dúvida, de um sério problema comportamental, entretanto,


muitos são os autores que se recusam a situá-lo como uma doença, uma patologia capaz de
isentar seu portador da responsabilidade civil por seus atos, responsabilidade esta comum a
todos nós.

De fato, soa estranho a alguns psiquiatras a necessidade de se considerar


"doença" um quadro onde o único sintoma é uma inclinação voraz ao delito. No mínimo, seria
de bom senso à medicina ter em mente que, para problemas médicos aplicam-se soluções
médicas e para problemas éticos... devem ser aplicadas soluções éticas. Entendam como
quiser...

BALLONE, G. J. - Transtornos de Conduta. in. PsiqWeb, Internet, disponível em


<www.psiqweb.med.br/infantil/conduta.html> revisto em 2003. Acessado em: 17 de jun de
2007.

DISTÚRBIOS DE CONDUTA

Os transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes de


conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento deve comportar grandes
violações das expectativas sociais próprias à idade da criança; deve haver mais do que as
travessuras infantis ou a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de
comportamento (seis meses ou mais). Quando às características de um transtorno de conduta
são sintomáticos de uma outra afecção psiquiátrica, é este último diagnóstico o que deve ser
codificado.

O diagnóstico se baseia na presença de condutas do seguinte tipo: manifestações


excessivas de agressividade e de tirania; crueldade com relação a outras pessoas ou a
animais; destruição dos bens de outrem; condutas incendiárias; roubos; mentiras repetidas;
cabular aulas e fugir de casa; crises de birra e de desobediência anormalmente freqüentes e
graves. A presença de manifestações nítidas de um dos grupos de conduta precedentes é
suficiente para o diagnóstico, mas atos dissociais isolados não o são.
32

Exclui:
Esquizofrenia transtorno(s) (do):
· globais do desenvolvimento;
· humor [afetivos],
Quando associado com transtornos:
· emocionais;
· hipercinéticos,

PARTE ESPECIAL DO CÓDIGO PENAL

A Parte Geral tem por finalidade o estudo das conseqüências jurídicas do


crime, ou seja, dos princípios aplicáveis a todos os crimes, enquanto que a Parte Especial
(artigos 121 a 234 do CP), abrange a definição da conduta incriminadora, a conduta que se
pretende punir e as respectivas penas, ou seja, no caso de crimes comissivos; já, nos crimes
omissivos, por sua vez, há definição da conduta que o sujeito deve fazer.

As legislações antigas não possuíam essa divisão. O primeiro a mencioná-la,


foi o Código Penal da Baviera, em 1751. Não há como estudar a Parte Especial sem a Parte
Geral, pois comete à Parte Especial descrever e delimitar os fatos e condutas puníveis às
respectivas penas. O princípio da reserva legal está delimitado à Parte Especial. Os crimes são
classificados no Código Penal segundo a objetividade jurídica do delito. E, no CP brasileiro, é
feito com grande capacidade técnica, ou seja, o legislador os dividiu em onze títulos, que por
sua vez, se dividem em capítulos, seguindo seqüência lógica, o que facilita o estudo.

A conduta traduz-se em ação ou em omissão. Por vezes, o tipo penal abriga


várias modalidades de conduta, em alguns casos, fases do mesmo fato criminoso,
caracterizando como crime de ação múltipla ou de conteúdo variado. Nesses casos, o agente
responderá apenas por um delito, embora pratique duas ou mais condutas típicas (como por
ex., o artigo 122). Há tipos, porém, que contêm diversas modalidades de conduta, respondendo
o agente pelos vários delitos em concurso (tipos mistos cumulativos), como por ex., o art. 169
do decreto-lei n. 7903/45. Quando a conduta prevista no tipo pode ser praticada de diversas
maneiras, têm-se os crimes de forma livre. Quando a lei descreve a conduta de forma
particularizada, constituindo esta uma atividade delimitada, tem-se os crimes de forma
vinculada.

O tipo subjetivo compreende o dolo e os elementos subjetivos do injusto ou a


culpa em sentido estrito. O dolo compreende o conhecimento do fato e a vontade de realizar a
ação, abrangendo também, os meios utilizados e as conseqüências secundárias da conduta.
Pode ser direto (quando o agente quer determinado resultado) ou indireto (alternativo, quando
33

o agente pretende um dos resultados possíveis; ou eventual, quando o agente não quer
especificamente o resultado, mas o aceita como possível).

Os elementos subjetivos do tipo aparecem nos crimes que exigem um


especial fim de agir, nos crimes em que se exige certa tendência subjetiva da ação, ou ainda,
como certas circunstâncias particulares de ânimo com que o agente atua, tais como certos
motivos (motivo fútil ou torpe) ou certas formas de ação (crueldade ou perversidade).

O ESTÍGMA E O ESTEREÓTIPO NO CRIMINOSO

O que é “estigma”?

Quando rotulamos alguém, não olhamos para o que essa pessoa realmente é
ou sente.

Se nos referimos a alguém que tem um transtorno mental como “louco”,


“esquizofrênico”, “leso” ou “nóia”, esses termos são usados como rótulos e trazem mais
sofrimento para estas pessoas.

O uso de rótulos negativos “marca” e desqualifica uma pessoa. Esta marca é o


que chamamos de estigma. As pessoas estigmatizadas passam a ser reconhecidas pelos
aspectos “negativos” associados a esta marca, ou rótulo.

O estigma é gerado pela desinformação e pelo preconceito e cria um círculo


vicioso de discriminação e exclusão social, que perpetuam a desinformação e o preconceito.
As conseqüências para as pessoas que sofrem o estigma são muito sérias.

• O estigma e a discriminação tornam mais difícil para as pessoas que sofrem de algum
transtorno mental reconhecer que tem algum problema e procurar apoio e tratamento;

• Por causa do estigma e da discriminação, as pessoas que sofrem de transtornos


mentais são freqüentemente tratadas com desrespeito, desconfiança ou medo.

• O estigma e a discriminação impedem as pessoas que tem problemas de saúde mental


de trabalhar, estudar e de relacionar-se com os outros.

• A rejeição, a incompreensão e a negligência exercem um efeito negativo na pessoa,


acarretando ou aumentando o auto-estigma, imagem negativa que os portadores
desenvolvem a respeito de si. Estudos têm mostrado que o estigma é a influência mais
negativa na vida das pessoas com algum transtorno mental

• A discriminação causa dano: destrói a auto-estima, causa depressão e ansiedade, cria


isolamento e exclusão social.
34

Por que as pessoas com esquizofrenia são estigmatizadas? Estas pessoas são
estigmatizadas porque a família, os amigos e as pessoas em geral não entendem esta
doença. A esquizofrenia não é resultado de uma fraqueza da pessoa, nem é causada por
problemas familiares ou espirituais.

As pessoas com esquizofrenia não têm "dupla personalidade" e a maioria não


é perigosa nem ataca os outros quando adequadamente tratadas. No entanto, o público em
geral, e até mesmo alguns profissionais de saúde, tendem a manter uma imagem
estereotipada de pessoas com esquizofrenia. Você pode ajudar a combater o estigma,
desfazendo equívocos!!

Disponível em: http://www.soesq.org.br/estigma.htm. Acessado em: 17 de jun de 2007.

Quando se discute violência, como fator de ameaça à vida, não se pode omitir
ou dispensar a discussão de conceitos que podem gerá-la. Esse, sem dúvida, é o caso dos
conceitos de estigma, exclusão, ironia, indiferença, preconceito.

A construção, aceitação e divulgação do preconceito e do estigma já são, em


si, processos violentos, que geram violência. Essa construção é realizada por homens, seres
pensantes, capazes de raciocínio e de intenções.

E preciso, portanto, compreender melhor o estigma e o preconceito. O estigma


é uma marca, um rótulo que se atribui a pessoas com certos atributos que se incluem em
determinadas classes ou categorias diversas, porém comuns na perspectiva de desqualificação
social. Os rótulos dos estigmas decorrem de preconceitos, ou seja, de idéias pré-concebidas,
cristalizadas, consolidadas no pensamento, crenças, expectativas socioindividuais.

Sabe-se que a violência não se define somente no plano físico; apenas a sua
visibilidade pode ser maior nesse plano. Essa observação se justifica quando se constata que
violências como a ironia, a omissão e indiferença não recebem, no meio social, os mesmos
limites, restrições ou punições que os atos físicos de violência. Entretanto, essas "armas" de
repercussão psicológica e emocional são de efeito tão ou mais profundo que o das armas que
atingem e ferem o corpo, porque as "armas brancas" da ironia ferem um valor precioso do ser
humano: – a auto-estima.

RANGEL, Mary. A violência do estigma e do preconceito à luz da representação social.


Disponível em: http://www.arco-iris.org.br/_prt/dicas/arquivos/052004-02.doc. Acessado em: 17
de jun de 2007.
35

Estereótipo

É a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação.

Estereótipos são fonte de inspiração de muitas piadas, algumas de conteúdo


racista, como as piadas de judeu, que é retratado como ávaro, português (no Brasil), como
pouco inteligente, etc. O estereótipo pode estar relacionado ao preconceito.

Atitude, Preconceito e Estereótipo.

Regina Célia de Souza

Para compreender o que é o preconceito, convém entender primeiro o conceito


de atitude baseado nos estudos da Psicologia Social.

ATITUDE é um sistema relativamente estável de organização de experiências


e comportamentos relacionados com um objeto ou evento particular.

Para cada atitude há um conceito racional e cognitivo - crenças e idéias,


valores afetivos associados de sentimentos e emoções que por sua vez levam a uma série de
tendências comportamentais – predisposições.

Portanto, toda atitude é composta por três componentes: um cognitivo,


um afetivo e um comportamental:

A cognição – o termo atitude é sempre empregado com referência à um


objeto. Toma-se uma atitude em relação à que? Este objeto pode ser uma abstração, uma
pessoa, um grupo ou uma instituição social.

O afeto – é um valor que pode gerar sentimentos positivos, que por sua vez
gera uma atitude positiva; ou gerar sentimentos negativos que pode gerar atitudes negativas.

O comportamento – a predisposição: sentimentos negativos levam a


aproximação e negativos ao esquivamente ou escape.

Desta forma, entende-se o PRECONCEITO como uma atitude negativa que um


indivíduo está predisposto a sentir, pensar, e conduzir-se em relação a determinado grupo de
uma forma negativa previsível.
36

CARACTERÍSTICAS DO PRECONCEITO:

É um fenômeno histórico e difuso;

A sua intensidade leva a uma justificativa e legitimização de seus atos;

Há grande sentimento de impotência ao se tentar mudar alguém com forte


preconceito.

Vemos nos outros e raramente em nós mesmos.

EU SOU EXCÊNTRICO, VOCÊ É LOUCO!

Eu sou brilhante; você é tagarela; ele é bêbado.

Eu sou bonito; você tem boas feições; ela não tem boa aparência.

Eu sou exigente; você é nervoso; ele é uma velha.

Eu reconsiderei; você mudou de opinião; ele voltou atrás na palavra dada.

Eu tenho em volta de mim algo de sutil, misterioso, de fragrância do oriente;


você exagerou no perfume e ele cheira mal.

CAUSAS DO PRECONCEITO:

Assim como as atitudes em geral, o preconceito têm três componentes:


crenças; sentimentos e tendências comportamentais. Crenças preconceituosas são sempre
estereótipos negativos.

Segundo Allport (1954) o preconceito é o resultado das frustrações das


pessoas, que em determinadas circunstâncias podem se transformar em raiva e hostilidade. As
pessoas que se sentem exploradas e oprimidas freqüentemente não podem manifestar sua
raiva contra um alvo identificável ou adequado; assim, deslocam sua hostilidade para aqueles
que estão ainda mais “baixo” na escala social. O resultado é o preconceito e a discriminação.

Já, para Adorno (1950) a fonte do preconceito é uma personalidade autoritária


ou intolerante. Pessoas autoritárias tendem a ser rigidamente convencional. Partidárias do
37

seguimento às normas e do respeito à tradição, elas são hostis com aqueles que desafiam as
regras sociais. Respeitam a autoridade e submetem-se a ela, bem como se preocupam com o
poder da resistência. Ao olhar para o mundo através de uma lente de categorias rígidas, elas
não acreditam na natureza humana, temendo e rejeitando todos os grupos sociais aos quais
não pertencem, assim, como suspeitam deles. O preconceito é uma manifestação de sua
desconfiança e suspeita.

Há também fontes cognitivas de preconceito. Os seres humanos são


“avarentos cognitivos” que tentam simplificar e organizar seu pensamento social o máximo
possível. A simplificação exagerada leva a pensamentos equivocados, estereotipados,
preconceito e discriminação.

Além disso, o preconceito e a discriminação podem ter suas origens nas


tentativas que as pessoas fazem para se conformar (conformidade social). Se nos
relacionamos com pessoas que expressam preconceitos, é mais provável que as aceitemos do
eu resistamos a elas. As pressões para a conformidade social ajudam a explicar porque as
crianças absorvem de maneira rápida os preconceitos e seus pais e colegas muito antes de
formar suas próprias crenças e opiniões com base na experiência. A pressão dos colegas
muitas vezes torna “legal” ou aceitável a expressão de determinadas visões tendenciosas – em
vez de mostrar tolerância aos membros de outros grupos sociais.

REDUÇÃO DO PRECONCEITO:

A convivência, através de uma atitude comunitária é, talvez a forma mais


adequada de se reduzir o preconceito.

COMO FUNCIONA O ESTEREÓTIPO:

É um conjunto de características presumidamente partilhadas por todos os


membros de uma categoria social. É um esquema simplista mas mantido de maneira muito
intensa e que não se baseia necessariamente em muita experiência direta. Pode envolver
praticamente qualquer aspecto distintivo de uma pessoa – idade, raça, sexo, profissão, local de
residência ou grupo ao qual é associada.

Quando nossa primeira impressão sobre uma pessoa é orientada por um


estereótipo, tendemos a deduzir coisas sobre a pessoa de maneira seletiva ou imprecisa,
perpetuando, assim, nosso estereótipo inicial.
38

RACISMO:

É a crença na inferioridade nata dos membros de determinados grupos étnicos


e raciais. Os racistas acreditam que a inteligência, a engenhosidade, a moralidade e outros
traços valorizados são determinados biologicamente e, portanto, não podem ser mudados. O
racismo leva ao pensamento ou/, ou você é um de nós ou é um deles.

REFERÊNCIA

McDavid, John e Harari, Herbert. Psicologia e comportamento social. Ed. Interciência. RJ.
1974.

Morris, Charles G. e Maisto, Albert A. Introdução à Psicologia. Ed. Pearson e Prentice Hall.
SP. 2004.

SENTENÇAS EM FUNÇÃO DAS CONFIGURAÇÕES FACIAIS.

As pessoas menos bonitas têm mais probabilidades de serem incriminadas em


tribunal, tantas foram às situações em que o mal encanou nos indivíduos feios, do que aquelas
que possuem um ar angelical. De acordo com um estudo sobre características faciais, da
autoria do psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire (Inglaterra), o
estereótipo de um criminoso, baseado em teorias difundidas no século passado que
associavam padrões de comportamento a configurações faciais continua a ser o mesmo. Ou
seja, um delinqüente é um indivíduo enorme, com o nariz partido, os olhos pequenos e juntos e
uma cara assimétrica. O pior é que este estereótipo determina sentenças nos tribunais de júri.

Este psicólogo afirma não ter dúvidas de que há jurados que julgam os réus
pelo seu aspecto, e pela forma como estes se comportam em tribunal. Estas conclusões são
baseadas em programas tipo "você decide", onde, colocados perante situações idênticas, os
telespectadores tendiam sempre a escolher para "culpado" o ator feio. Precisamente aquele
que correspondia fisionomicamente ao referido estereótipo.

Disponível em: http://www.freipedro.pt/tb/211099/opin1.htm. Jornal terras da beira. Acessado


em: 17 de jun de 2007.
39

TEORIAS CIENTÍFICAS SOBRE O PROBLEMA DO CRIME

Edison Miguel da Silva Jr. Procurador de Justiça em Goiás Goiânia (GO),


março de 1999. Fonte: www.juspuniendi.net

1. Criminologia tradicional
1.1. Escola clássica;
1.2. Escola positiva;
1.2.1. Teorias bioantropológicas;
1.2.2. Teorias psicodinâmicas;
1.2.3. Teorias psico-sociológicas;
1.3. Sociologia criminal;
1.3.1. Teorias ecológicas;
1.3.2. Teorias da subcultura;
1.3.3. Teorias da anomia;

2. Criminologia nova ou crítica


2.1. Teoria da rotulação;
2.2. Etnometodologia;

2.3. Criminologia radical.

A ciência que investiga o problema do crime pode ser classificada em criminologia


tradicional e criminologia nova ou crítica, segundo Jorge de Figueiredo Dias e Manuel da Costa
Andrade (Criminologia: o homem delinqüente e a sociedade criminógena. Coimbra: Coimbra
Editora, 1997).

A criminologia tradicional procura quais as causas do crime; como é possível


prevenir a sua ocorrência. Já a criminologia crítica, também investigando o fenômeno criminal,
indaga porque determinadas pessoas são tratadas como criminosas; quais as conseqüências
dessa seleção; como ela é efetivada. Enfim, sobre o mesmo objeto, os cientistas elaboram
questões diferentes que reclamam respostas diferentes. Existindo, entre essas vias de
explicação do crime, mais uma relação de complementariedade do que de exclusão, fazendo
da criminologia uma ciência interdisciplinar que envolve a biologia, a psicologia e a sociologia.

Nessa visão, os autores citados agrupam as teorias criminológicas da seguinte


maneira:

1.Criminologia tradicional: escola clássica, escola positiva e sociologia


criminal;

2.Criminologia nova ou crítica: teoria da rotulação, etnometodologia e


criminologia radical.
40

1.1. Escola Clássica - Para a escola clássica (sécs. 18 / 19), o crime não é
uma entidade de fato, mas de direito. O homem, dotado de razão e livre-arbítrio, atua movido
pela procura do prazer (hedonismo) e a ordem social resulta de um consenso em torno de
valores fundamentais, visando o bem-estar de todos (contrato social). Assim, a conduta
criminosa é uma escolha racional, uma opção do criminoso que avalia os riscos e benefícios da
empreitada criminosa. Logo, a pena (castigo) é necessária e suficiente para acabar com a
criminalidade, sendo determinada segundo a utilidade para manter ou não o pacto social.

1.2. Escola Positiva - Diante do fracasso das reformas penais inspiradas


pelos clássicos, a escola positiva (sécs. 19 / 20) propõe outros postulados. Nega o livre-arbítrio
e afirma a previsibilidade do comportamento humano (determinismo), passando a investigar as
causas dos crimes a partir dos criminosos. O crime é uma entidade de fato. Um fenômeno da
natureza, sujeito a leis naturais (biológicas, psicológicas e sociais) que podem ser identificas,
estudando-se o homem criminoso. A pena (castigo) é inútil, pois a conduta criminosa é sintoma
de uma doença e como tal deve ser tratada, em nome da defesa da sociedade.

Atualmente, as teorias que analisam o criminoso, buscando uma explicação


para o crime, podem ser agrupadas da seguinte maneira (teorias de controle):

1.2.1. Teorias bioantropológicas. Há pessoas predispostas para o crime. A


explicação do crime depende de variáveis congênitas (relativas à estrutura orgânica do
indivíduo). O criminoso é um ser organicamente diferente do cidadão normal.

1.2.2. Teorias psicodinâmicas. O criminoso é diferente do não-criminoso, mas


essa diferença não é congênita. Decorre de falhas no processo de aprendizado e socialização
do criminoso, uma vez que o homem é, por natureza, um ser a-social (homo lupus hominis).
Para compreender as causas do crime, investiga porque a generalidade das pessoas não
comete crimes. O crime decorre do conflito interior entre os impulsos naturais e as resistências
adquiridas pela aprendizagem de um sistema de normas.

1.2.3. Teorias psico-sociológicas. Predomínio dos elementos sociais e


situacionais sobre a personalidade.

1.3. Sociologia Criminal - A sociologia criminal (sécs. 19 / 20), por sua vez,
busca as causas do crime na sociedade. O crime é analisado como um fenômeno coletivo,
sujeito às leis do determinismo sociológico e, por isso, previsível. A sociedade contém em si os
germes de todos os crimes. O criminoso é mero instrumento no comportamento criminoso. A
solução para o problema do crime está na reforma das estruturas sociais. “A sociedade tem os
criminosos que merece”.

Atualmente, as teorias que analisam a sociedade criminógena, privilegiando a


dimensão causalista na conduta desviada, são denominadas de teorias etiológicas e se
subdividem em:
41

1.3.1. Teorias ecológicas ou da desorganização social (escola de


Chicago). A explicação do crime decorre da antinomia mundo urbano/mundo rural. “O
cristianismo proclama o mandamento do amor ao próximo; (...), mas na moderna sociedade
não existe qualquer próximo”. A cidade moderna caracteriza-se pela ruptura dos mecanismos
tradicionais de controle (família, vizinhança, religião, escola) e pela pluralidade das alternativas
de conduta.

1.3.2. Teorias da subcultura delinqüente. O crime resulta da


interiorização (aprendizagem, socialização e motivação) de um código moral ou
cultural que torna a delinqüência imperativa. “As teorias da subcultura partem do
princípio de que delinqüentes são as culturas e não as pessoas”. À semelhança do que
acontece com o comportamento conforme a lei, também a delinqüência significa a
conversão de um sistema de crenças e valores em ação.

1.3.3. Teorias da anomia ou da estrutura da oportunidade. O crime


é o resultado normal do funcionamento do sistema e da atualização dos seus valores.
O sistema produz o crime e o produz como resultado normal (esperado) do seu próprio
funcionamento. A teoria da anomia caracteriza-se pela sua natureza estrutural, pelo
determinismo sociológico, pela aceitação do caráter normal e funcional do crime e pela
adesão à idéia de consenso em torno de valores fundamentais para a sociedade.

2. Criminologia Nova ou Crítica - A criminologia nova também


estuda a sociedade criminógena, mas em outra perspectiva. Ao indagar as causas do
crime, pesquisa a reação social: por que determinadas pessoas são tratadas como
criminosas? Quais as conseqüências dessa seleção? Como ela é efetivada?
Ampliando, assim, o campo de investigação para abranger as instâncias formais de
controle como fator criminógeno (as leis, a Polícia, o Ministério Público e o Tribunal).

Ainda segundo os autores citados, representam essa via de explicação


do problema do crime:

2.1. Teoria da rotulação ou labeling approach (surge na década de


1960). O crime não é uma qualidade ontológica da ação, mas o resultado de uma
reação social. O crime não existe. O criminoso apenas se distingue do homem normal
devido à rotulação que recebe de criminoso pelas instâncias formais de controle. “A
sociedade tem os criminosos que quer”.

2.2. Etnometodologia (também surge na década de 1960). Com


base na fenomenologia, estuda a intersubjetividade do cotidiano, como ele é
verdadeiramente vivido por seus participantes. O crime é visto como uma construção
social realizada na interação entre o desviante e as agências de controle.
42

2.3. Criminologia radical ou criminologia marxista (surge na


década de 70). Baseia-se na análise marxista da ordem social. Critica a teoria da
rotulação e a etnometodologia, pois, fundamentalmente, não diferem da criminologia
tradicional, funcionando para a conservação da ordem social opressiva. Considera o
problema criminal insolúvel em uma sociedade capitalista, sendo necessária a
transformação da própria sociedade.

Ao final desse resumo sobre as teorias científicas sobre o problema


dos crimes, percebe-se que a investigação científica depende de uma prévia visão do
homem e da sociedade. Na escola clássica o homem é dotado de livre-arbítrio e vive
em uma sociedade consensual (existe um consenso em torno de valores
fundamentais). A escola positiva e a sociologia criminal negam o livre-arbítrio e a
criminologia nova, o consenso social. É do desdobramento dessas questões
fundamentais em torno da natureza humana e da ordem social que surgem as
perguntas e as respostas ao problema do crime, ou seja, as teorias científicas sobre o
crime.

Daí a conclusão de Sykes: “Ao estudar o crime devemos ter


consciência de que as descobertas científicas, normalmente consideradas como
impessoais e objetivas, trazem invariavelmente consigo a marca do tempo e do lugar.”
(Apud, obra citada, p. 3).

Igualmente, quando o profissional do direito penal interpreta e aplica a


lei penal também efetiva a sua visão de mundo. São as suas crenças sobre a natureza
humana e sobre a ordem social, conscientemente ou não, que determinam a adoção
dessa ou daquela jurisprudência; desse ou daquele entendimento doutrinário –
liberdade ou prisão para o seu semelhante!

Disponível em: www.juspuniendi.net. Acessado em: 17 de jun de 2007.


43

O CRIME SEGUNDO A PERSPECTIVA DE DURKHEIM

Jorge Adriano Carlos

Trabalho apresentado no seminário História do Pensamento Sociológico


dirigido pelo Prof. Doutor Augusto Silva, no âmbito do Curso de Mestrado em Sociologia, na
variante Poder e Sistemas Políticos, Departamento de Sociologia, Universidade de Évora.
1997.

Introdução

1
A demonstração da permanência do crime em todas as sociedades constituiu
o fator determinante da sua integração no pensamento sociológico sistemático, cujo contributo
mais significativo se deve a Durkheim em três das suas obras fundamentais que são De la
Division du Travail Social (1893), Les Règles de la Méthode Sociologique (1895) e Le Suicide
(1897). Todavia, será legítimo situar o início da sociologia criminal a partir do segundo quartel
2
do século XIX , altura em que foram desenvolvidos inúmeros estudos, em diversos países
(França, Bélgica, Alemanha e Grã-Bretanha), com aplicação de métodos e instrumentos
3
sociológicos, nomeadamente a recolha e interpretação de dados estatísticos . Mas é
4 5 6
efectivamente com os trabalhos de Lacassagne , Gabriel Tarde , e Émile Durkheim que a
sociologia criminal adquire o seu estatuto de ciência, especialmente a partir do 3.º Congresso
de Antropologia Criminal, realizado em Bruxelas, em 1892, que marca a viragem das
explicações da escola positiva em favor das teorias sociológicas.

7
A sociologia criminal aparece-nos assim como uma ciência muito recente ,
muito depois do direito penal, cuja origem remonta à antiguidade, e depois ainda da
8
criminologia, cuja origem se poderá situar na escola clássica , muito embora apenas tenha
9
atingido a sua forma sistemática com a escola positiva italiana . Mas, se ao direito criminal
importa a definição do tipo de crime e a sua conseqüência sancionatória, à criminologia importa
a compreensão da realidade criminal em todos os seus aspectos. Numa primeira fase, a
criminologia debruçou-se sobre a pessoa do delinqüente, servindo-se de métodos próprios da
biologia e da psiquiatria — aquilo que alguns autores designaram por criminologia «clínica».

Numa fase mais avançada da reflexão criminal, o criminólogo deslocou o seu


estudo para o meio social onde se gerou a prática delitiva — a acentuação deste aspecto da
criminologia deu lugar à sociologia criminal que apareceu também como um novo ramo da
sociologia. A partir do momento em que se compreende que não existe sociedade sem crime,
não só não é concebível uma sociologia que ignore este fenômeno, como não é possível
estudar o crime, considerado em abstrato, sem evocar o meio social onde se desenvolve.

A obra de Durkheim deve uma grande parte da sua importância ao fato de ter
compreendido esta relação entre o crime e a sociedade numa altura em que as escolas
positivas se refugiavam por detrás das concepções individualistas. Este autor compreendeu
44

que a sociedade não era simplesmente o produto da ação e da consciência individual, pelo
contrário, «as maneiras coletivas de agir e de pensar têm uma realidade exterior aos indivíduos
10
que, em cada momento do tempo, a elas se conformam» e, mais que isso, «são não só
exteriores ao indivíduo, como dotados dum poder imperativo e coercivo em virtude do qual se
11
lhe impõem» . O tratamento do crime como um fato social, de caráter normal e até necessário,
permitir-lhe-à reabilitar cientificamente o fenômeno criminal e demonstrar que a prática de um
crime poderá depender não tanto do indivíduo que, de acordo com esta concepção, age e
pensa sob a pressão dos múltiplos constrangimentos que se desenvolvem na sociedade mas,
diversamente, poderá apresentar em abstrato uma ampla raiz de imputação social.

A Teoria da Anomia

A consideração sociológica da anomia, que etimologicamente não significa


senão «ausência de normas», apesar dos vários desenvolvimentos que conheceu, em Merton,
Cloward, Ohlin, Parsons, Dubin e Opp, remonta aos estudos desenvolvidos por Durkheim,
particularmente em A Divisão do Trabalho Social e em O Suicídio. O fato de o homem não
viver num ambiente de eleição, mas sujeito a uma ordem «imposta», permite a Durkheim
formular a sua concepção da anomia e estabelecer as condições da produção do crime.

A Divisão do Trabalho Social, cujo tema central incide sobre a relação do


indivíduo e a coletividade, está dominada pela idéia de que a divisão do trabalho é portadora
de uma nova forma de coesão social, a solidariedade orgânica. Nas solidariedades mecânicas,
característica das sociedades dita «primitivas», a consciência coletiva cobre a maior parte das
consciências individuais, pelo que se poderá dizer que o indivíduo está estreitamente integrado
no tecido social. No caso das sociedades orgânicas, dominadas pela divisão do trabalho, a
consciência coletiva apresenta uma menor extensão face ao indivíduo que se determina com
uma maior autonomia.

Porém, compreender a solidariedade orgânica como correspondente a uma


sociedade contratualista — marcada pela atomização do indivíduo cujos contratos se
efetivariam num dado contexto inter-individual — sem uma consciência coletiva mínima, não só
constituiria uma paradoxal sociedade sem sociedade como «implicaria a desintegração
12
social» .

O normal será que a sociedade desenvolva os seus mecanismos de


solidariedade, ainda que estejamos perante uma sociedade acente na diferenciação social e
marcada pela especialização das funções. Isso não significa que não existam, no âmbito do
processo de desenvolvimento da solidariedade social, algumas patologias na divisão do
trabalho, como é o caso da divisão forçada e da divisão anómica do trabalho.

Assim, se não existir uma adequada interação de funções e um eficaz sistema


normativo capaz de regular essa interação, estaremos perante uma anomia na divisão do
trabalho.
45

13
A teoria da anomia aparece também desenvolvida em O Suicídio que se
revela, além do mais, como a primeira etapa da teoria do controlo social. O estudo do suicídio,
que é um fenômeno especificamente individual, apesar de só em aparência, permitirá a
Durkheim demonstrar as fortes relações entre o indivíduo e a coletividade. A estrutura da obra
acenta no pressuposto da existência de três tipos de suicídios:

14
1) o suicídio egoísta, «que resulta de uma individualização excessiva» e cujo
grau de integração do indivíduo na sociedade não se apresenta suficientemente forte;

2) o suicídio altruísta, que ao contrário resulta de uma «individualização


15
insuficiente» ; e o,

3) suicídio anmico, que se relaciona com uma situação de desregramento,


típica dos períodos de crise, que impede o indivíduo de encontrar uma solução bem definida
para os seus problemas, situação que favorece um sucessivo acumular de fracassos e
16
decepções propícias ao suicídio .

Pela observação de estatísticas oficiais, este autor observou que o suicídio era
mais freqüente nas comunidades protestantes que nas comunidades católicas, fenômeno que
explicou através da noção de integração religiosa. No mesmo sentido, Durkheim verificou que o
suicídio ocorria menos entre os indivíduos casados que entre os celibatários, viúvos e
divorciados, situação que, segundo ele, se explicaria através da noção de integração familiar.
Neste trabalho, notou ainda que a taxa de suicídios diminuía em períodos de grandes
acontecimentos políticos, em que aumentava a coesão sócia-política em torno da idéia de
nacionalidade. A partir destas observações, o sociólogo francês pôde assim concluir que o
suicídio variava na razão inversa do grau de integração da sociedade religiosa, familiar e
política.

O suicídio altruísta apresenta-se como a situação oposta ao suicídio egoísta.


Um exemplo deste tipo de suicídio é o existente entre os esquimós, em que um velho que se
torne um fardo para a coletividade se deixa morrer ao frio; um outro, que ocorre na índia, é o
suicídio da mulher ou dos servidores de um defunto, os quais se deixam imolar no dia do seu
funeral. Em qualquer dos casos, o indivíduo determina a sua morte por força de «um imperativo
social interiorizado, obedecendo ao que o grupo ordena ao ponto de asfixiar dentro de si
17
próprio o instinto de conservação» .

O terceiro tipo de suicídio, o suicídio anómico, é estudado através do


relacionamento do suicídio com os movimentos econômicos. A análise das estatísticas revelou
que os suicídios aumentavam tanto em períodos de recessão como de crescimento econômico.
O que se observa desses resultados é que «se a influência reguladora da sociedade deixa de
se exercer, o indivíduo deixa de ser capaz de encontrar em si próprio razões para se auto-
18
impor limites» .
46

Numa época de rápidas transformações econômicas a ação reguladora da


sociedade não pode ser exercida de modo eficaz e por forma a garantir ao indivíduo um
conjunto normativo conciliável com as suas aspirações. Ora, esta situação de desregramento,
que lança o indivíduo num universo sem referências, caracteriza uma situação de anomia que
corresponde, no fundo, a uma situação de dissociação da individualidade face à consciência
coletiva.

As conclusões extraídas do estudo do suicídio permitem, como se referiu,


enquadrar a construção durkheimiana nas teorias do controlo social. Com efeito, um dos
postulados definidos ao longo da sua obra foi o da necessária integração social do indivíduo
que revela uma maior tendência para a prática de certas «patologias» sociais, como o suicídio
e o crime, quando desinserido do grupo social a que pertence.

O fato de se verificar que as instituições tradicionais de coesão social (a


família, a religião, etc.) não constituírem um fator de agregação eficaz das sociedades
modernas, leva Durkheim a defender que o único grupo social capaz de favorecer a integração
social é a profissão ou a empresa. Ora, se uma integração social do indivíduo poderá diminuir a
sua tendência para se conformar com os imperativos sociais, isso significará de certa maneira
que a sociedade terá de encarar uma grande parte das condutas suicidas e criminógenas como
perfeitamente normais numa sociedade caracteristicamente dinâmica.

A Tese da Normalidade

19
A definição dos fatos sociais normais permitiu a Durkheim importantes
considerações acerca da natureza normal ou patológica do crime, como resulta do seu estudo
em As Regras do Método Sociológico.

20
O crime, definido como um «ato que ofende certos sentimentos coletivos» ,
apesar da sua natureza aparentemente patológica, não deixa de ser considerado como um
fenômeno normal, no entanto, com algumas precauções. O que é normal é que «exista uma
21
criminalidade, contanto que atinja e não ultrapasse, para cada tipo social, um certo nível» . A
sociedade constrói-se, na verdade, em torno de sentimentos mais ou menos fortes,
sentimentos cuja dignidade parece tanto mais inquestionável quanto mais forem respeitados.
No entanto isso não quer dizer que todos os membros da coletividade partilhem dos mesmos
sentimentos com a mesma intensidade.

De fato, alguns indivíduos tenderão a interiorizar mais esses sentimentos que


outros, o que explica que possam existir condutas que, pelo seu grau de desvio, venham a
apresentar-se como criminosas. Isso explicará naturalmente a natureza do crime como um fato
de sociologia normal. Essa constatação não impede contudo que se considerem algumas
condutas como particularmente anormais, o que será perfeitamente admissível, segundo
Durkheim, tendo em consideração alguns fatores de ordem biológica e psicológica na
22
constituição da pessoa do delinquente .
47

Para, além disso, o crime deverá ser reconhecido não como um «mal», mas
pela sua função utilitária enquanto um indicador da sanidade do sistema de valores que
constitui a consciência coletiva. Nesse sentido, o crime será mesmo um elemento promotor da
mudança e da evolução da sociedade. É a este propósito que Durkheim refere peculiarmente
23
que, face aos sentimentos atenienses, a condenação de Sócrates «nada tinha de injusto» .

Efetivamente, será esta dimensão do crime que explica que a mesma conduta
poderá ser censurada por uma determinada sociedade num determinado momento da sua
evolução cultural como poderá nada ter de censurável na mesma sociedade num outro e
diferente momento da sua evolução cultural. Isso permitir-nos-á compreender que um ato
criminoso transpõe, de modo negativo, uma construção valorativa, de tal modo que poderá
dizer-se que «não há ato algum que seja, em si mesmo, um crime. Por mais graves que sejam
os danos que ele possa causar, o seu autor só será considerado criminoso se a opinião comum
24
da respectiva sociedade o considerar como tal» .

Conclusão

Um dos aspectos mais salientes da sociologia de Durkheim passa pela


consideração obrigatória de uma estreita relação entre as determinações individuais e as
construções sociais, donde resulta, antes que tudo, uma clara ascendência da consciência
coletiva sobre a consciência individual. Ao contrário do que defendiam os contratualistas, que
imaginavam uma sociedade de indivíduos, a sociedade não é o mero somatório das partes,
pois ainda assim não passaria de um conjunto heterogéneo de afirmações diferenciais. A
sociedade, muito pelo contrário, é, para Durkheim, um depositório de valores que de uma
forma mais ou menos regular se consensualiza.

Esta visão da sociedade não deixou de ter a sua projeção no modelo sócio-
criminal que Durkheim defendeu. Antes de tudo porque o crime, embora de modo algo
ambíguo, passou a ser considerado não apenas como o resultado de condutas anti-sociais,
mas como condutas contextualizadas socialmente. O crime mais que um fenômeno do
criminoso passou a ser encarado como uma realidade social cuja importância era
inquestionável para o estudo sociológico, nomeadamente para a compreensão das grandes
estruturas de sedimentação e desenvolvimento social.

A um crime tão atomizado na sua explicação como o foi o homem desde a


escola clássica até à escola positiva opôs-se, através desta nova dimensão da criminologia,
uma explicação das causas do crime que procura a solução do problema criminal não apenas
na responsabilização exclusiva do delinqüente, mas na responsabilização do comportamento
criminal por elementos típicos da própria sociedade que funciona como um ambiente
verdadeiramente condicionador da ação individual. Mas, mais que isso, a concepção de
Durkheim explica já que as causas do crime poderão estar em relação direta com as
48

disfuncionalidades fáticas e normativas do conjunto inter-relacional, como poderão resultar das


opções consensuais dos ordenamentos sociais de cada época.

Mas se isto será assim para Durkheim, para alguns autores contemporâneos,
inspirados no modelo de conflito marxista, o importante não será, no entanto, penetrar nos
problemas, o importante e «imperioso é criar uma sociedade em que a realidade da
diversidade humana, seja pessoal, orgânica ou social, não esteja submetida ao poder de
25
criminalizar» .

Referências

1. O fato de em todas as sociedades, desde as menos evoluídas às mais evoluídas, se


encontrarem manifestações anti-sociais não significa que todas as sociedades definam os
mesmos tipos de crimes e que os mesmos crimes sejam delimitados com as mesmas
características. Na realidade, a tipologia dos crimes evolui no mesmo sentido da evolução
social, o que quer dizer que, em certa medida, o crime é produzido pela sociedade, em termos
abstratos, e praticado, em concreto, por um determinado membro da sociedade que não aderiu
à ordem social. Assim, seguindo a diferenciação social de Durkheim entre sociedades de
solidariedade mecânica e orgânica, poderá dizer-se que nas primeiras, correspondentes a
sociedades menos evoluídas, e porque o indivíduo se encontra firmemente ligado ao grupo, os
crimes mais graves são os que ponham em «perigo o conjunto da coletividade», enquanto que
nas segundas, onde o indivíduo se encontra grandemente emancipado, se tutelam valores em
torno dos quais o indivíduo constrói a sua personalidade, seja sob a forma de crimes contra a
pessoa (os crimes contra a vida, os crimes contra a integridade física, os crimes contra a honra,
os crimes sexuais, etc.), seja contra a propriedade individual (crimes de roubo, crimes de furto,
crimes de abuso de confiança, etc. que implicam geralmente um enriquecimento verso
empobrecimento para cada uma das partes envolvidas). Ora, o que nos permite considerar que
o crime constitui uma realidade de natureza sócio-cultural da maior importância: não só
espelha uma dimensão negativa da ordem social estabelecida pela coletividade, como ainda se
revela como uma dimensão de absoluta necessidade conceptual na doutrina do controlo social.

2. Cf. RADZINOWICZ, L., Ideology and Crime, London: Heinemann. 1966.

3. Destacam-se, na escola franco-belga, A. Guérry (Essai sur la statistique morale de la


France,1833) e A. Quételet (Essai sur le dévelopment de facultés de 1 'home ou essai de
phisique social, 1835), que utilizam cartas geográficas para indicar a distribuição diferencial das
taxas e tipos de criminalidade pelas diversas áreas geográficas, na escola alemã, A. von
Oettingen (Die moralstatistik in ihre bedeutung für eine sozialethik) e G. von Mayr (Statistik der
gerichtlichen polizei im königreiche bayern und in einigen landern, 1868), na escola inglesa,
Benthan (Princípios do código penal), W. Rawson (An inquirity into the statistics of crime in
England and Wales, 1839), W. Buchanan (Remarks on the causes and state of juvenil crime in
49

the metropolis with hints for preventing its incrase, 1846), J. Flechter (Moral and educational
statistics of England and Wales, 1848) e H. Mayhew (The criminal prisons of london and scenes
from prison life, 1862, e Those that will not work, 1864).

4. Lacassagne é o autor de Marche de la criminalité en France — 1825-1880 (1881) e de Les


vois á l'etalage et dans les grands magasins (1986) e é fundador, com Manouvrier, dos
Archives d' Anthropologie Criminelle. A sua importância é assinalável por ter iniciado as
hostilidades ao positivismo lombrosiano, ao proclamar, no 1.º Congresso de Antropologia
Criminal, em 1885, que «cada sociedade tem os criminosos que merece» e ao apontar como
causa do crime o meio social.

5. Gabriel Tarde (1843-1904) foi magistrado, dirigiu os Service de la Statistique Criminelle e


publicou um grande número de obras dedicadas ao fenômeno criminal. A sua teoria do crime
explicava-se pelo princípio da imitação que se explicaria segundo três «leis»: a imitação
funcionaria em razão direta da proximidade social; a imitação funcionaria no sentido das
classes mais baixas para as mais elevadas, quando existisse conflito entre dois modelos
contrários de comportamento, um poderia substituir outro. Durkheim refere-se à teoria da
imitação a propósito do suicídio, revelando o seu desprezo por esta teoria quando diz que
«uma coisa é sentir em comum, outra coisa inclinarmo-nos perante a autoridade da opinião e
outra coisa ainda repetir automaticamente o que outros fizeram». Embora constitua uma via de
recurso para alguma da investigação no domínio da teoria da aprendizagem em psicologia
social, poderá dizer-se que a teoria da imitação pouco representa hoje para a criminologia (Cf.
LÉVY-BRUHL, Henri, «Problemas da Sociologia Criminal», in Georges Gurvitch (org.), Tratado
de Sociologia, Porto: iniciativas editoriais, 1964, pp. 290-291; DIAS, Figueiredo, e ANDRADRE,
Costa, Criminologia: o Homem Delinquente e a Sociedade Criminológica, Coimbra: Coimbra
Editora, 1992, pp. 20-25. MANNHEIM, Hermann, Criminologia Comparada, Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1985, p. 698, Vol. II).

6. Durkheim (1858-1917) destaca-se na sociologia criminal pela sua definição do crime como
um fato social e pela tese da normalidade e funcionalidade do crime. A importância
paradigmática de Durkheim deve-se ainda ao fato de o seu pensamento representar uma das
vertentes das modernas teorias sócio-criminológicas, o modelo de consenso, que se opõem à
fundamentação marxista, o modelo de conflito.

7. O fato de a sociologia criminal aparecer apenas no século XIX não significa que só a partir
desta altura tenha iniciado a preocupação e a reflexão criminal, significa tão só que é nesta
altura que a reflexão criminal atinge um elevado nível de sistematização e rigor na explicação
do crime, mediante a elaboração de complexos estudos apoiados na consideração do meio
social onde se desenvolve o crime e numa metodologia suficientemente idônea para a
abordagem credível deste fenômeno. Assim, poderemos encontrar vestígios dessa
preocupação e reflexão em Platão (As Leis) que viu o crime como uma doença cujas causas
derivavam das paixões, da procura de prazer e da ignorância. Aristóteles, por seu turno,
50

considerou que a causa do crime tinha origem na miséria (Tratado da Política) e que o
criminoso era um «inimigo» da sociedade que deveria ser castigado (Ética a Nicómaco). São
Tomas de Aquino, na seqüência de Aristóteles, também atribuirá a origem do crime à miséria.
Mas, o primeiro autor a dar-se conta das causas sociais do crime foi Thomas Morum (1478-
1535) na sua obra Utopia. Porém, apenas no século XVIII, com o movimento iluminista, nasceu
uma forte reação à arbitrariedade com que se determinava a medida das penas e à
desigualdade com que concretamente se aplicavam.

8. A escola clássica caracteriza-se por ter projetado na doutrina do crime os ideais do


movimento iluminista, donde se destacam, por terem tomado posição nesta luta, Montesquieu,
Hobbes, Voltaire, Rousseau, Diderot, d'Holbach. Mas os autores que de modo mais direto
participaram no debate do problema criminal foram Beccaria, Feuerbach, Benthan, Blackstone,
Carranara, etc. O mais representativo de todos estes autores geralmente apontado é o italiano
Cesare Beccaria que expõe o principal do seu pensamento em Dei delitti e delle pene (1764),
onde defendia uma construção do tipo legal de crime em condições de oferecer o mínimo de
segurança ao homem no exercício da sua liberdade social face às autoridades públicas que
manuseavam o respectivo processo sem sujeição a qualquer tipo de regras, aplicando as
respectivas penas de forma «arbitrária». Menos feliz parece ter sido a sua explicação hedonista
do crime, quando defende que a prática do crime estaria associada ao prazer, de modo que a
pena deveria estabelecer-se por forma a anular as compensações da sua prática. Pelo que a
pena teria como finalidade diminuir a ocorrência do crime de modo a assegurar a continuidade
da sociedade civil livremente constituída. Neste sentido, a teoria clássica surge como uma
teoria de controlo social, partindo da idéia de que a sociedade para existir celebrou livremente
um contrato social, através do qual estabeleceu o regime de tutela dos bens essenciais (o
«bem-estar pessoal» e a «propriedade privada») à convivência pacífica do homem. Os
homens, «iguais perante a lei», deveriam por isso determinar racionalmente a sua liberdade em
conformidade com aquele contrato. Mas todo o homem, com base em motivações de ordem
irracional, aparecia como um potencial violador do contrato, razão pela qual estava sujeito às
conseqüências de um estatuto penal, cujas penas, que visavam dissuadi-lo preventivamente
dessa conduta, deveriam ser «exatas» na sua correspondência ao crime cometido. Só que a
teoria clássica ao estabelecer que os homens eram formalmente iguais perante a lei,
apresenta, por um lado, uma contradição básica na sua formulação quando «não presta
atenção ao fato de a carência de bens poder ser motivo para que o homem tenha uma maior
probabilidade para cometer crimes», tornou-se, por outro lado, numa técnica duplamente
perversa, ora porque em certos casos se revelava excessiva, ora porque noutros se revelava
insuficiente. Os neoclássicos, como Rossi, Garaud e Joly, para superarem tais dificuldades,
introduziram algumas reformas tendentes a ultrapassar as contradições dos princípios
clássicos «puros» que colocavam algumas dificuldades na determinação prática da medida da
pena. Com esta revisão, os neoclássicos tiveram de tal modo em conta as «circunstâncias
atenuantes», os «antecedentes criminais» e a «inimputabilidade» do delinqüente, ou seja,
«pegaram no homem racional solitário da criminologia clássica e deram-lhe um passado e um
51

futuro» (Cf. TAYLOR, I., WALTON, P. e YOUNG, J., La Nueva Criminologia: Contribuicion a
una Teoria Social de la Conduta Desviada, Amorrortu Editores, Buenos Aires, 1990, p. 22).

9. O positivismo científico, na área da criminologia, surgiu, no Século XIX, com a inauguração


da escola positiva italiana em 1876, com a publicação de L 'Umo Delinquente, de Cesare
Lombroso, que reage contra os fracassos da escola clássica no tratamento do problema
criminal. Efetivamente, as escolas clássicas, representadas por Beccaria, centraram a sua
preocupação no sistema penal estabelecido de modo arbitrário; contudo a criminalidade ao
invés de reduzir aumentara e diversificara-se sem que a teoria clássica oferecesse uma
explicação satisfatória. A escola positiva surge assim, num ambiente de crise, como alternativa
da explicação das causas do crime, deslocando a investigação criminal para o próprio
delinqüente e propondo-se tratar o crime com base nos métodos e instrumentos utilizados
pelas ciências ditas «objetivas». Como características fundamentais desta escola realça-se o
postulado determinista do comportamento e a rejeição do livre arbítrio de raiz metafísica. Entre
os fundadores da escola positiva destacam-se não só Lombroso, que se detém na questão
antropológica, mas também dois dos seus discípulos: Enrico Ferri, que realçou na sua
investigação sobre o crime os elementos sociológicos, e Raffaele Garófalo, que põem em
destaque para a explicação do crime o elemento psicológico. A formulação da antropologia
criminal de Lombroso contou com alguns trabalhos precursores que tentaram encontrar as
causas do crime nos estigmas individuais do delinqüente, caso das teorias fisiológicos (J. K.
Lavater, Fragmentos Fisionômicos, 1775), que pretendiam diferenciar o criminoso pelos seus
traços fisionómicos, das teorias frenológicas (F. Gall, Sur les fonctions du cerveau, 1791-1825,
H. Lauvergue, Les forçat considérés sous le rapport physique, moral et intellectuel, observés au
Bagne de Toulouse, 1848, e C, Caldwell, Elements of Phrenology, 1829), que procurou os
sinais identificadores do delinqüente no formato craniano, entre outros. Mas, foi com base em
Darwin (The origin of species, 1859, e Descent of man, 1871) que formulou urna teoria
baseada na natureza atávica de todos os delinqüentes — o criminoso seria reconhecível
através de certos estigmas físicos («dentição anormal», «assimetria do rosto», «orelhas
grandes», «defeitos dos olhos», «características sexuais invertidas», etc.) correspondentes a
um homem menos civilizado que os seus contemporâneos —, o que confirmaria
estatisticamente. No entanto, perante as críticas que lhe foram dirigidas, Lombroso seria
forçado a moderar a extensão da sua teoria, porém não a ponto de corrigir alguns defeitos que
serão definitivos para a sua descredibilização, nomeadamente defeitos técnicos, relacionados
com a utilização de técnicas estatísticas inadequadas (Cf. C. Goring, The english convict,
1913), uma errada consideração dos estigmas físicos, que geralmente são uma conseqüência
direta do meio social, uma infundada teoria genética, já que está excluída pela moderna teoria
genética a regressão evolutiva até espécies anteriores. O pensamento de Ferri — considerado
por alguns autores como o fundador da sociologia criminal —, no domínio da criminologia, foi
exposto na sua obra Nuovi horizonti del diritto e della procedura penalle (1851) que serviu de
base à sua obra principal Sociologia criminale (1892). Segundo ele, as causas do crime seriam
não só de caráter antropológicas e físicas, mas também sociais. Será neste autor que
52

Durkheim irá encontrar uma grande parte da sua inspiração no tratamento social do crime,
porém enquanto Ferri utiliza um método predominantemente empírico, a análise de Durkheim
«faz-se em profundidade e não se satisfaz com a mera descrição» (Lévv-Bruhl, Op. Cit., p.
291). Por seu turno, Garófalo conta com uma extensa bibliografia dedicada ao tema da
criminologia, de onde se destacam Criminologia (1885), Ripparazione alle vittime dei delitto
(1887) e La superstition socialiste (1895). A sua obra está marcada pela tentativa de definição
de um conceito sociológico de crime, concebido como violação dos sentimentos básicos da
coletividade, a que se reconduzia a sua explicação psicológica do crime. As críticas ao
positivismo não se fizeram esperar. Tanto a sociologia criminal (Lacassagne, Tarde e
Durkheim) como da antropologia criminal (Baer e Goring) criticaram o determinismo
lombrosiano determinado pelas suas teses antropológico-causais. Mas, o certo é que de certa
maneira permanece o perigo das ideologias de tratamento que marcam uma vasta influência
na política criminal, sustentando-se, ao contrário do que defendia a escola clássica, não uma
redução, mas uma ampliação da reação social ao crime, posição que leva Garófalo a admitir a
hipótese de irradiação do delinqüente quando fosse «incapaz para a vida social» (Cf. DIAS,
Figueiredo, e ANDRADRE. Costa, Op. Cit, pp. 18-19).

10. DURKHEIM, Émile, As Regras do Método Sociológico, Lisboa: Editorial Presença, 6.ª Ed.,
1995, Prefácio à segunda edição original, p. 23.

11. Idem, p. 30.

12. ARON, Raymond, As Etapas do Pensamento Sociológico, Lisboa: D. Quixote, 1994, p. 323.

13. A atualidade da obra O Suicídio de Durkheim deve-se em grande medida ao facto de estar
na base da investigação de uma serie de condutas que se inserem no quadro dos desvios e
que continuam a preocupar o mundo moderno. Isso não quer dizer que não haja nela um
conjunto de aspectos cuja validade é hoje contestável, desde logo a validade das estatísticas
(no caso, oficiais), a ambigüidade do conceito de anomia (Cf. Teoria da Anomia de Merton), as
dificuldades de distinção do suicídio egoísta do anómico (Cf. DURKHEIM, Émile. O Suicídio:
Estudo Sociológico, Lisboa: Editorial Presença, 1996, p.286), etc. É ainda, por isso, uma obra
de referência para a investigação social nos diversos domínios, nomeadamente na área da
criminologia social ou sociologia criminal. Por isso, merece especial apreço a compreensão dos
princípios e conceitos em que se estrutura toda a obra. Desde logo, Durkheim entende por
suicídio «todo o caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou
negativo praticado pela própria vítima, ato que a própria vítima sabia dever produzir este
resultado» (Idem, p. 10) (V. ARON, Raymond, Op. Cit., 1994, p. 325), ou, em síntese, o «ato de
um homem que prefere a morte a vida» (DURKHEIM, Émile, Op. Cit., p. 275).

14. DURKHEIM, op., cit.., p. 200.

15. DURKHEIM, op., cit., p. 207.


53

16. A esta tipologia Durkheim acrescentou ainda os suicídios fatalistas que se opõem aos
suicídios anómicos: o suicídio fatalista, de modo inverso, é «aquele que resulta de um excesso
de regulamentação» (DURKHEIM, Émile, Op. Cit., p. 273, n.29).

17. ARON, op., cit., p. 329.

18. CUSSON, Maurice, «Desvio», in Rayrnoud BOUDON, Tratado de Sociologia, Porto:


Edições Asa, 1995, p. 391.

19. Um fato social, segundo Durkheim, «é normal para um tipo social determinado, considerado
numa fase determinada do seu desenvolvimento, quando se produz na média das sociedades
dessa espécie, considerada na fase correspondente da sua evolução», DURKHEIM, Émile, As
regras do Método Sociológico, Lisboa: Editorial Presença, 6. Ed., 1995, p. 84.

20. DURKHEIM, Émile, op., cit., p. 87.

21. DURKHEIM Émile op., cit., p. 86.

22. DURKHEIM, Émile, op., cit., p. 86, nota 10.

23. DURKHEIM Émile, op., cit., p. 90.

24. LÉVY-BRUHL, Henri, op., cit., p. 292.

25. TAYLOR, I., WALTON, P e YOUNG, I., op., cit., p. 298.


54

TEORIA SOCIOLÓGICA, POLÍTICAS PÚBLICAS E CONTROLE DO CRIME

MAGALHÃES, Carlos Augusto Teixeira. Teoria sociológica, políticas públicas e controle do


crime. “Caderno de Filosofia e Ciências Humanas”. Departamento de Filosofia e Ciências
Humanas do Unicentro Newton Paiva, Nº 11, outubro, 1998. Disponível em:
http://www.sociologia1.hpg.ig.com.br/textos/crime.htm. Acessado em: 17 de jun de 2007.

1 – Introdução

Neste artigo pretendemos discutir e avaliar algumas teorias e perspectivas


sociológicas que tratam dos problemas do crime e da delinqüência a partir de uma
preocupação básica: de que maneira o tipo de diagnóstico apresentado por sociólogos
influencia a definição desses problemas e, particularmente, como se dá à relação entre
explicações sociológicas do crime e da delinqüência e a proposição de políticas públicas de
controle (proposições apresentadas por sociólogos ou por agentes do Estado, informados
pelos diagnósticos formulados pelos primeiros).
Mas como explicar a conclusão suspeita de que as abordagens sociológicas
falham por não considerarem a ação individual, enquanto as abordagens individualistas falham
por deixarem de lado váriaveis de caráter sociológico? Acredito que isso acontece porque elas
são formuladas de modo a impedir uma necessária integração entre esses pólos da análise e
porque concentram todo esforço explicativo na identificação dos fatores que motivam o
indivíduo a se comportar de forma criminosa (motivação que pode ser sócio-cultural ou
racional).
Uma abordagem que permita a integração dos níveis macro e microssociológico da
análise e que coloque entre parênteses a explicação da motivação individual para o crime
(supondo a existência de um contingente de criminosos em potencial prontos para agir) parece
ser promissora, tanto na explicação teórica do problema do crime quanto na análise de
políticas públicas. É o que procuro mostrar no final do trabalho.

2 - As perspectivas estruturais e subculturais

É possível identificar uma sociologia do crime de caráter macrossociológico (estrutural


e subcultural). Destaca-se, nesses estudos, o seu conteúdo amplamente sociológico. São
sempre variáveis macrossociológicas as mais importantes. Valores, normas, socialização,
aprendizado, conformidade e a própria noção de subcultura são exemplos. Nesse sentido,
qualquer processo de interação social, que pode ser observado em nível microssociológico,
será apreendido a partir das noções acima citadas.
55

Os contatos interpessoais no contexto da subcultura serão marcados pelas


normas, valores e regras estabelecidos e internalizados pelos membros em processos de
socialização.
Na verdade, os valores e normas que são internalizados pelos membros da
subcultura determinam seu comportamento. Em um ambiente onde a agressividade, a violência
ou a delinqüência é normativamente prescrita a contra-norma será a não-agressividade, a não-
violência ou a não-delinqüência (Wolfgang e Ferracuti, 1970).
Aqueles que não adotam o comportamento prescrito são ostracizados. Não são
aceitos nos grupos que valorizam o comportamento contrário. Miller, por exemplo, apresenta
como particularmente importantes, do ponto de vista dos adolescentes de classe baixa, os
grupos de convívio que se constituem nas ruas.
Em ambientes onde as famílias muitas vezes não podem cumprir as funções
de socialização que se atribuem a elas, o grupo de colegas da rua assume essas funções.
Tornam-se assim fundamentais para os adolescentes. Cumprem funções relativas à
construção de identidade e ao aprendizado de papéis sociais. Isso explicaria a forte pressão e
a ampla adesão ao comportamento desviante no caso dos jovens de classe baixa.
A própria participação individual é entendida nesse sentido. O indivíduo é
levado por forças externas a participar de atos de delinqüência ou de crimes. Para Merton, por
exemplo, existe uma cultura abrangente que impõe uma série de metas (são particularmente
importantes as metas que se referem ao sucesso financeiro). Essa imposição de metas é
universalmente válida para os mais diversos grupos sociais. No entanto, a sociedade controla
institucionalmente as formas de acesso às metas estabelecidas, nem todos os meios são
legítimos (o crime e a fraude não o são). No caso dos grupos que não têm acesso aos meios
legítimos de acesso às metas (as classes mais baixas), teremos uma situação de tensão que
fará com que os membros do grupo, expostos às metas-sucesso universais, usem os meios
ilegítimos para atingi-las. Há, portanto, uma pressão sócio-cultural no sentido do crime e do
desvio resultante da anomia, isto é, desse desequilíbrio entre metas culturais universais e
meios institucionalmente legítimos escassos.
No caso da teoria da “estrutura diferencial de oportunidades” de Cloward e Ohlin, a
desorganização social leva ao surgimento de subculturas, que são vistas como variáveis
dependentes. Isto significa que a subcultura sobrevive apenas em um contexto de
desorganização social e sua existência depende de fatores exógenos. O crime, o desvio e a
delinqüência aparecem dentro desses contextos (Cohen e Land, 1987). A pressão sócio-
cultural no sentido do crime vai depender fortemente de aspectos específicos dos ambientes
subculturais. Os objetivos sociais que levam ao crime não são mais colocados de forma
indiferenciada para a sociedade inteira, os objetivos se transformam e podem ganhar
autonomia nas subculturas. Um comportamento criminoso ou desviante pode se tornar um
objetivo em si mesmo, por exemplo. São consideradas variáveis com características
propriamente sociológicas, como socialização, aprendizado social, valores, transmissão de
habilidades cognitivas e técnicas. O indivíduo que está sob a tensão provocada pelo
56

desequilíbrio entre objetivos e meios tem à sua disposição formas limitadas de adaptação. A
adaptação só é possível em ambientes específicos onde existe previamente uma subcultura
criminosa. Isto porque o candidato a fora-da-lei deve passar por um processo de socialização
que incute os valores, atitudes e habilidades necessários para o desempenho do
comportamento criminoso.
No caso das “culturas de classe baixa” de Miller, os valores, normas, tipos de
comportamento são autônomos do ponto de vista de uma subcultura em um sentido mais
amplo. A existência de subculturas não está vinculada à desorganização social, são tomadas
como variáveis independentes (Cohen e Land, 1987). A importância da socialização na
internalização das normas e valores que vão pautar o comportamento é maior. A forma intensa
como se dá essa socialização e a pressão no sentido da conformidade são explicadas, como já
foi mencionado, pelas características específicas que grupos assumem nessas condições.
Compartilhar os valores e atitudes do grupo primário é fundamental para um adolescente que
busca reconhecimento social e prestígio. Aderir às “preocupações focais” do grupo é condição
indispensável para uma participação efetiva.
O indivíduo é, então, forçado a se comportar de acordo com o grupo do qual é parte.
Além de ser socializado de acordo como os padrões estabelecidos, seu comportamento é
objeto de diversos tipos de controle social. Por um lado, o grupo possibilita seu o
comportamento. Promove a aquisição de habilidades, de valores, de expectativas, de objetivos.
O próprio ambiente social permite que o adolescente “ensaie” as atividades criminosas antes
de exercê-las efetivamente. Por outro lado, o grupo faz com que o indivíduo se comporte da
maneira adequada. O pertencimento às “sociedades das esquinas” está vinculado à adesão
aos valores e normas do grupo. O comportamento criminoso ou delinqüente é resultado do
pertencimento ao grupo social nesses dois sentidos.
Neste ponto é interessante mencionar uma crítica que Cohen e Machalek (1994) feita
em relação ao trabalho de Durkheim. Os autores mencionam uma ambigüidade relacionada à
pretensão durkheimiana de estar produzindo uma explicação completamente social para o
crime e o desvio. Na verdade, Durkheim, apesar de usar de uma argumentação amplamente
sociológica, não escaparia de mencionar características individuais (as divergências
individuais) como causas importantes da escolha do comportamento criminoso. Não é
totalmente convincente quanto à possibilidade de uma explicação exclusivamente coletivista do
crime e do desvio.
Esse tipo de ambigüidade estaria presente também nos trabalhos acima mencionados.
Particularmente nos trabalhos de Merton e Cloward e Ohlin, que mencionam explicitamente o
termo “adaptações individuais”. Nesse sentido, os autores, ao mesmo tempo que buscam
explicar o crime através de variáveis estruturais, mencionando aspectos culturais e sua relação
com a estrutura social como causa fundamental do problema, entendem que a tensão é
resolvida por indivíduos através de adaptações individuais. Se as adaptações são individuais,
podemos perguntar sobre as diferenças quanto à sedução que um ou outro tipo de adaptação
pode exercer sobre indivíduos diferentes. E por que nem todos os indivíduos que vivem em um
57

mesmo ambiente fazem a mesma opção. Nos trabalhos mencionados, a resposta vai no
sentido de afirmar a preponderância do grupo sobre os indivíduos. O grupo pode ser visto
como uma categoria ampla, como em Merton (onde a noção de estrato social seria mais
pertinente) ou como entidades mais circunscritas e, por isso mesmo, mais autônomas como em
Cloward e Ohlin. A tensão que leva à inovação é mais forte em grupos de classe baixa, por
causa de sua posição na estrutura social. Esses setores da sociedade estão diante de
demandas incompatíveis, escreve Merton. Nesses modelos, embora tratem de adaptações
individuais, os aspectos propriamente individuais da adaptação são deixados de lado. A
escolha individual é socialmente determinada. Os aspectos culturais e estruturais agem sobre
grupos de indivíduos. Merton, inclusive, afirma que não trata de adaptações psicológicas, mas
de diferentes tipos de comportamento dados por situações sociais específicas.
Em relação às subculturas, temos um problema adicional. No caso de Miller, onde a
explicação é cultural em um sentido mais profundo, o problema torna-se mais explícito, mas
não deixa de ser verdade para a abordagem da “estrutura diferencial de oportunidades” (de
Cloward e Ohlin). Trata-se do papel que socialização e o aprendizado social assumem nessas
teorias. Se a subcultura é capaz de determinar amplamente o comportamento de seus
membros, é porque a socialização é completa e perfeitamente executada. Nesse caso, as
diferenças individuais são desprezíveis, a conformidade é ampla. Miller, no contexto do
modelo de desvio cultural, não menciona diretamente o problema das diferenças individuais.
Mas não escapa de indiretamente tocar o problema. Isto acontece quando se refere à
preferência que a gangue tem por membros capazes de submeter as vontades individuais às
necessidades do grupo e por aqueles dispostos a uma interação contínua e controlada de
acordo com as preocupações focais. O fato é que se esta questão se coloca, ou seja, que a
gangue seleciona seus membros, pode-se concluir que dentro de uma comunidade de classe
baixa há divergência de comportamentos.
Coloca-se então a possibilidade de críticas relativas ao tratamento dado à ação
individual nessas teorias. Críticas nesse sentido são feitas por Gottfredson e Hirschi (1990),
Wilson e Herrnstein (1985) e Wilson (1985), entre outros. Esses autores partem da suposição
de que é importante dar conta da dimensão individual da ação para se chegar a uma
explicação completa do problema do crime. Nesse sentido, usam, ainda que de maneiras
diferentes, a noção de escolha racional. No trabalho de Wilson (1985), que pretendo discutir
neste artigo, o foco é uma avaliação desses modelos segundo a competência que teriam para
informar políticas públicas de controle do crime. Ou seja, em que medida seriam úteis como
fundamentação teórica na busca de uma solução para o crime enquanto problema social.

3 - Teoria sociológica, políticas públicas e crime

Na verdade, não é necessária a exigência de que todo conhecimento sociológico da


realidade seja diretamente aplicável na solução prática de problemas sociais. Mais ainda no
caso das perspectivas que foram resumidas acima. É interessante observar que tais
58

perspectivas são, em boa medida, herdeiras de Durkheim. Esse autor, quando estudou o
problema do crime e do desvio, não se preocupava especificamente com esses problemas.
Como escreve Antônio Luiz Paixão (s.d.), o crime e o desvio nos estudos de Durkheim são
pretextos para a “demonstração do método funcional” e para a “explicação da teoria da
solidariedade”. Isto é, são meios utilizados para o desenvolvimento da teoria sociológica
tomada em termos mais amplos.
No caso dos autores que foram tratados acima (Merton, Cloward & Ohlin e Miller), é
evidente que há uma preocupação clara com a explicação do problema social do crime. Não
usam o fenômeno como pretexto para tratar de determinados temas de teoria sociológica. No
entanto, trabalham com variáveis e conceitos amplamente sociológicos. Mais: não ocupam
uma posição privilegiada em seus estudos as implicações práticas das explicações que
propõem. Não há uma necessidade intrínseca de que tais teorias façam proposições políticas.
O estudo das causas do crime, ou de qualquer outro fenômeno social, é legítimo em si mesmo.
Por outro lado, a partir do momento em que o crime é visto como um problema social que
provoca prejuízos sociais e individuais, surgem demandas no sentido de que os cientistas
sociais envolvidos intelectualmente com o problema apresentem soluções, que apontem
diretrizes para a ação pública.
Como mostra James Wilson (1985), a partir da década de 60 cresce esse tipo de
demanda. É o próprio governo dos Estados Unidos, pressionado pelo crescimento das taxas de
criminalidade, que procura formular políticas de controle do crime mais sólidas. Nesse sentido,
entendem que é o caso de reunir os “experts” no assunto, isto é, criminólogos e sociólogos que
se dedicam ao problema. Wilson faz um longo exame dos tipos de elaboração teórica
presentes nos trabalhos publicados nos anos 60 sobre crime e delinqüência (inclusive
“Delinquency and Opportunity” de Cloward e Ohlin). Sua preocupação é demonstrar o
inevitável fracasso, ou a impossibilidade, de políticas efetivas a partir de teorias “sociológicas”
do crime e da delinqüência. Teorias que seguem o tipo de raciocínio resumido no início deste
trabalho. É importante considerar essas críticas porque são feitas a partir de um diagnóstico do
modelo positivista de explicação do crime que questiona fundamentalmente os pressupostos
em que se baseiam essas explicações. Embora o alvo seja a incapacidade das teorias em
produzir um conhecimento aplicável, parte-se da idéia de que o problema começa na maneira
como é tratada a dimensão individual (escolha) do comportamento e na busca das causas
profundas (sociológicas) do comportamento criminoso.
A escola positivista se caracteriza por rejeitar perspectivas que concebem a ação
humana como resultado da escolha individual. A hipótese largamente aceita é a de que o
comportamento é determinado por causas que independem da vontade individual. O
comportamento criminoso, nas teorias positivistas modernas, é algo que é determinado
socialmente, culturalmente ou por um tipo de estrutura social de modo que é impossível, ou
muito difícil, para um indivíduo resistir. Fatores sociais e sociológicos amplos fazem com que o
indivíduo aja de uma determinada maneira, não há muito espaço para a escolha individual.
59

Nesse sentido, os autores procuram indentificar quais são os fatores e/ou processos
responsáveis pela determinação do comportamento criminoso. Como foi resumido no início
deste trabalho, a ausência de acesso aos meios legítimos, a organização social das
subculturas de delinquência e os processos de transmissão de valores desviantes seriam os
responsáveis por esse comportamento. A partir da hipótese de que esses elementos exercem
uma pressão definitiva sobre o tipo de comportamento apresentado, que o indivíduo não
escolhe livremente, tanto do ponto de vista da eficácia, como do ponto de vista ético, são esses
elementos que devem ser atacados no sentido de se reduzir as taxas de criminalidade. Ou
seja, só se reduz o crime atacando as suas causas (estruturais e sociais), aquelas que
determinam o comportamento dos criminosos.
Segundo Wilson, essa concepção seria responsável pela falha dos positivistas em
elaborar políticas eficazes de controle do crime. O ponto é que a análise causal busca
encontrar a origem do comportamento humano naqueles fatores que não são, eles mesmos,
causados (variáveis independentes). Algo não pode ser causa de alguma coisa se é, por sua
vez, causado. Seria, nesse caso, uma variável interveniente. O ponto central da argumentação
de Wilson aparece: “causas últimas não podem ser objeto de políticas precisamente porque
sendo últimas dificilmente podem ser mudadas” (Wilson, 1985: 46).
O autor continua sua argumentação afirmando que nem toda causa primária é
imutável, mas a descoberta de causas primárias não significa que a criminalidade não envolve
nenhum elemento de escolha individual, que fatores estruturais e culturais seriam suficientes
para a explicação do crime. O autor usa como exemplo a frustração pelo fraco desempenho na
escola. Se essa frustração contribui para o crime, reduzir os índices de repetência ou
desistência poderia levar a uma redução da criminalidade. No entanto, nem todos que
apresentam fraco desempenho escolar tornam-se criminosos (nem todos desempregados, nem
todos que moram em favelas e assim por diante.). Por isto, não pode ser dito que a falha na
escola determina o comportamento criminoso. Não há, escreve Wilson, evidências que
indiquem como opção o abandono da visão de que o comportamento, em alguma medida, é
livremente escolhido. Se a escola estivesse, de alguma maneira, entre as causas
determinantes do crime, a análise causal poderia ajudar diretamente os analistas de políticas,
mostrando uma possível oportunidade de mudança. “Mas quanto mais entendemos as causas
do crime, mais nos aproximamos de um mundo complexo e sutil de atitudes, predisposições e
crenças, um mundo onde a intervenção planejada é excepcionalmente difícil”(Wilson, 1985:
47). Segundo o autor, no caso das escolas, o “policy maker” descobrirá que melhorar o
desempenho é muito mais que construir melhores instalações e contratar melhores
professores. Instituições podem mudar, mas mudam como resultado de lentos e complexos
processos sociais, conclui.
Segundo Wilson, é a falha em entender esse ponto que faz com que muitos “homens
de Estado”, cientistas e cidadãos cometam a falácia causal. Isto é, acreditar que nenhum
problema será tratado de forma adequada enquanto suas causas não forem eliminadas.
Sociólogos ligados à tradição positivista estariam entre aqueles que cometem a falácia causal
60

na medida em que pretendem, através de seus estudos, estabelecer um conhecimento


irrefutável sobre as causas do crime no sentido de eliminá-las. Esse tipo de atitude estaria em
contradição com as próprias teorias propostas. No sentido da argumentação subcultural, por
exemplo, afirma-se que indivíduos cometem crimes quando fazem parte de grupos que
definem o comportamento criminoso como desejável ou adequado. A implicação dessa
concepção, do ponto de vista de políticas públicas, é que as comunidades locais devem usar a
escola, a igreja, a polícia e outras agências para modificar os valores dos grupos nos quais o
crime é visto como um comportamento desejável. No entanto, adverte Wilson, os autores não
apontam nenhuma forma concreta de como essa modificação pode ser alcançada. Mais: os
próprios autores reconhecem a força e a persistência de laços familiares e de amizade. Na
verdade, o que acontece é que identificando em processos sociais “naturais” de formação de
atitude a causa do crime os autores tornam difícil a criação de planos de ação efetivos.
Transformar, de modo planejado, normas e valores que se desenvolveram naturalmente é
tarefa difícil, não é possível um controle total da situação, resultados não-esperados podem
ocorrer, os efeitos podem ser desastrosos. Se um grupo se organiza segundo valores de
classe baixa, como em Miller, ou se seus membros apresentam um “defiant character”, como
mostra Jankowski no seu estudo sobre gangues, a ação de instituições como igreja, escola e
polícia pode ser avaliada negativamente. Pode ser, inclusive, uma justificativa para
comportamentos “rebeldes”.
Na perspectiva das oportunidades diferenciais, entende-se que os indivíduos ocupam
uma posição tanto na estrutura de oportunidades legítimas como na de ilegítimas. Um indivíduo
que tem oportunidades restritas na estrutura legítima pode ocupar uma posição privilegiada na
estrutura ilegítima, desde que participe de um ambiente onde é possível aprender e
desenvolver valores e habilidades referentes ao comportamento criminoso ou delinqüente. O
ator não escolhe entre alternativas de ação, é socializado de uma maneira ou de outra. Embora
discuta as adaptações individuais, a perspectiva das oportunidades diferenciais, através do
conceito de subcultura, recoloca a explicação do crime em termos de determinação sócio-
cultural. Com isso, afirma Wilson, perde-se a possibilidade de analisar a relação de custos e
benefícios que estaria colocada para um agente que deve escolher entre a via legítima ou a
ilegítima. Nessa perspectiva, não é possível saber, no caso de formular uma política de
controle do crime, se o mais interessante é aumentar os benefícios da via legítima ou os custos
da via ilegítima. Concentrando-se nos processos de formação de atitude que seriam os
causadores do crime, limita-se a possibilidade de conhecimento e manipulação do processo de
escolha do agente. Além do mais, como foi discutido acima, a importância dos processos de
formação de atitude, via socialização, é seriamente questionada por autores como Gottfredson
e Hirschi (1990), Wilson e Herrnstein (1985) e Jankowski (1991). A partir das críticas desses
autores, torna-se clara a importância da consideração da escolha individual na explicação do
crime. Isto é, não existem evidências claras que indiquem que seja interessante desprezar
essa dimensão.
61

A análise de políticas parte de uma outra perspectiva. Não se pergunta qual é a causa
de um fenômeno, mas qual estado se quer atingir, qual tipo de medida pode informar se o
estado foi atingido e quais são os instrumentos políticos disponíveis que podem produzir o
estado desejado a um custo razoável. O governo, escreve Wilson, tem à sua disposição alguns
instrumentos, não muitos. Pode distribuir renda, estimular a oferta de empregos, contratar
assistentes sociais, contratar vigilantes, construir instalações para detenção, iluminar vias
públicas, alterar o preço de drogas e álcool, fazer com que pessoas instalem alarmes e
dispositivos de segurança. Esses instrumentos podem afetar os riscos do crime, os benefícios
das ocupações não-criminosas, o acesso a objetos que podem ser roubados, e (em alguns
casos) o estado mental de criminosos ou candidatos ao crime, não mais como objetivo inicial
das políticas, mas como um subproduto resultante da manutenção da lei e da ordem através da
manipulação das condições objetivas.
Nesse sentido, uma análise preocupada com as implicações para políticas públicas de
controle do crime colocará grande ênfase na manipulação de condições objetivas (como as
mencionadas acima), não por uma crença no fato de que tais manipulações atingem as
“causas do crime”, mas pela consciência de que o comportamento é mais manipulável que a
atitude. E, principalmente, porque os instrumentos que a sociedade tem à disposição para
alterar comportamentos em curto prazo exigem a suposição de que as pessoas agem em
resposta aos custos e benefícios dos cursos alternativos de ação, que levam em conta
oportunidades e constrangimentos. Segundo Wilson, o criminólogo entende que as causas do
crime dizem respeito a atitudes que são socialmente constituídas. Essa suposição, mesmo
sendo teoricamente bem fundamentada, dificilmente se traduz em ações concretas eficientes.
Como foi dito, causas últimas dificilmente são modificadas. Atitudes formadas naturalmente por
complexos processos sociais não são facilmente mudadas por planejamento. Por outro lado, o
analista de políticas assume que o crime é resultado da escolha racional do ator. Parte de uma
perspectiva essencialmente prática, independentemente de uma fundamentação teórica
irrefutável, analisa o crime como se fosse resultado da livre escolha do agente. A idéia é que “o
individualismo radical de Benthan e Beccaria pode ser cientificamente questionável, mas é
necessário por uma questão de prudência” (Wilson, 1985: 51).
A análise de dados sobre as variações das taxas de crime reforçam essa posição.
Questionando, inclusive, a força causal que variáveis sócio-econômicas teriam. Torna-se claro
que tratar o crime como se fosse resultado da escolha individual não é uma opção sem
fundamentos empíricos.
A partir das teorias estruturais e subculturais apresentadas, formula-se a idéia de que
há uma relação de causalidade entre criminalidade e pobreza ou marginalidade social. A
delinqüência pode ser resultado de preocupações focais de classe baixa, de uma subcultura
que avalia positivamente atitudes agressivas ou delinqüentes ou do acesso diferenciado a
oportunidades legítimas e ilegítimas. Em decorrência, entende-se que esses fatores devem ser
atacados para se reduzir o crime. Levar as agências do Estado ou da comunidade até os
setores marginalizados da sociedade seria uma estratégia, outra seria distribuir renda,
62

aumentar a oferta de empregos e promover políticas contra a miséria. No primeiro caso, temos
os problemas mencionados de construir ou modificar valores sociais através de ações
intencionais e planejadas. No segundo, temos que levar em conta a dimensão da escolha
individual: se o crime não é estratégia de sobrevivência para a maioria dos pobres, outros
elementos, como a escolha individual, estariam em jogo. Nesse caso, políticas distributivistas
não seriam plenamente eficazes. Além do mais, mesmo em um caso específico onde o crime
fosse estratégia de sobrevivência, aumentar a oferta de empregos pode não dar os resultados
esperados (a opção pela via legítima). Em uma situação onde são aumentados os benefícios
do não-crime, mas os custos do crime permanecem inalterados (se os riscos de punição são
pequenos, por exemplo) pode não haver opção pela via legítima. Particularmente se temos um
ator racional calculando custos e benefícios de suas alternativas.
Nesse sentido, Wilson (1985) mostra que nos anos sessenta, apesar de uma melhora
em diversos indicadores sociais como níveis de pobreza, qualidade das habitações, freqüência
à escola e da implementação de diversos programas comunitários de apoio a delinqüentes e
jovens problemáticos, a criminalidade aumentou nos Estados Unidos. Criou-se uma situação
paradoxal. De acordo com a abordagem distributivista, o crime deveria diminuir na medida em
que os indicadores sociais melhoraram. Por que, então, o aumento das taxas? Uma explicação
do aumento da criminalidade e delinqüência nos anos sessenta, apesar da prosperidade, é o
grande aumento da natalidade ocorrido logo após a segunda guerra mundial. Nos anos de 62 e
63, as crianças nascidas em 46 estavam atingindo 16 e 17 anos, respectivamente. Faixa etária
sobre-representada na população criminosa. Fato que por si só questiona a relação de
causalidade simples entre pobreza e criminalidade.
Mas a idade não explica tudo. Enquanto o número de pessoas com idades entre 16 e
29 anos cresceu 32% no distrito de Colúmbia entre 1960 e 1970, os problemas sociais
aumentaram muito mais. A taxa de crimes sérios aumentou mais de 400%, taxas de
assistência mais de 200%, desemprego mais de 100%, abuso de heroína mais de 1.000%. A
interpretação desses dados, feita por Wilson, diz que o crescimento do número de jovens teria
um efeito exponencial sobre as taxas de certos problemas sociais. Haveria uma “massa crítica”
de jovens que quando atingiu certo número desenvolveu uma auto-sustentada reação em
cadeia que levou ao explosivo aumento do crime e outros problemas sociais (Wilson, 1985:
24).
Justamente nesse momento crítico, os mecanismos institucionais que poderiam cuidar
desses problemas em termos ordinários foram superados, quando não entraram em colapso
tão intenso que quase pararam de funcionar. A força dissuasória da polícia e das cortes, que
não era grande em períodos normais, diminuiu. Não apenas relativamente, mas em termos
absolutos. O aumento do crime produziu um menos-que-proporcional aumento em detenções.
As detenções produziram um menos-que-proporcional aumento em penas. Segundo Wilson, se
a disponibilidade e o valor das ocupações legítimas decresce (o que estaria acontecendo por
causa de uma explosão do número de jovens em idade de ingressar no mercado de trabalho)
63

ao mesmo tempo em que o custo das atividades ilegítimas cai, a escolha do crime se torna
muito mais possível.
Uma situação semelhante é descrita por Edmundo Campos Coelho (1988). Analisando
dados sobre a criminalidade violenta no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte (décadas
de 70 e 80), o autor mostra que, mesmo havendo alguma relação entre as curvas da
criminalidade e períodos de recessão e desemprego, não se pode afirmar que variações no
âmbito da economia respondem exclusivamente pelas variações da criminalidade, “as
correlações são geralmente baixas e nunca suficientes para atribuir a tais variáveis
independentes impacto significativo sobre os níveis de criminalidade” (Coelho, 1988: 151). No
início dos anos 80, por exemplo, quando a recessão era mais forte, houve queda nas taxas de
criminalidade no Rio de janeiro e em São Paulo. Por outro lado, comparando as variações das
taxas de criminalidade com investimentos em segurança pública, efetivo policial nas ruas e
concessão de portes de arma, encontra-se uma relação muito mais significativa. Quando os
investimentos em segurança e o policiamento diminuem, aumentam as taxas de crime. Temos
a mesma situação descrita por Wilson. Em um mesmo período, caem os benefícios da via
legítima, na medida em que o desemprego é alto e os salários são baixos, e diminuem-se os
custos da via ilegítima, na medida em que há menos policiais nas ruas, menos patrulhamentos
ostensivos, etc. Acrescentando-se à situação um sistema judiciário falido, que faz do crime um
empreendimento altamente viável, explica-se o aumento das taxas. Ou seja, variáveis sócio-
econômicas não são determinantes exclusivas da escolha do crime (por um lado, as
correlações são estatisticamente fracas; por outro, nem todos numa mesma situação sócio-
econômica apresentam o mesmo comportamento), é importante analisar outras variáveis (de
dissuasão) que explicariam as escolhas individuais. O fato é que um ator racional leva em
conta não só suas possibilidades no mercado formal, mas os custos e benefícios relativos a
uma opção pela via ilegítima. A situação se torna mais complexa se pensamos que não há uma
necessidade de que a opção entre via legítima ou ilegítima seja excludente.
Vinícius Caldeira Brant, em seu livro “O trabalho encarcerado” (1994), mostra como a
imagem do criminoso como uma pessoa de baixa escolaridade ou analfabeta, cronicamente
desempregada e migrante é equivocada. Através de pesquisas nos presídios de São Paulo, o
autor mostra que há pouca diferença entre a população prisional e a população em geral em
relação ao local de nascimento, à escolaridade e ao trabalho. As taxas de analfabetismo são,
inclusive, menores entre a população presa do que entre a população em geral. Quanto ao
desemprego crônico, apenas 1% dos presos no estado de São Paulo nunca trabalharam. Não
é verdade, também, que o criminoso preso é alguém “que não pára em emprego”, em média, a
população prisional permaneceu por três anos e meio em uma ocupação, 60% tiveram , no
máximo, três ocupações anteriores. Além disso, “dos 45% que estavam desempregados no
momento da prisão, 37% haviam perdido o emprego a seis meses ou menos, isto é, faziam
parte da População Economicamente Ativa à procura de emprego...” (Brant, 1994: 79). Enfim, o
que mais diferencia os trabalhadores soltos e presos, segundo Brant, pelo menos no caso do
perfil sócio-econômico, é o fato de uns estarem fora e outros dentro dos estabelecimentos
64

penais. O que fica claro é que não se pode afirmar que a pobreza ou a marginalidade social
sejam causas determinantes do comportamento criminoso. Nesse sentido, políticas
distributivas visando aumentar a renda e a oferta de empregos ou erradicar o analfabetismo
tendem a ser ineficazes. Teriam eficácia apenas se a ausência de oportunidades de emprego,
de educação formal ou de renda levasse inequivocamente indivíduos a cometerem crimes. Ou
porque a pobreza e a falta de condições de competir no mercado de trabalho fariam do crime
uma estratégia de sobrevivência, ou porque a marginalidade social levaria à constituição de
subculturas com valores diferenciados altamente disseminados.
Mas não há bases empíricas que impliquem a suposição de um indivíduo socializado
para o crime de uma vez por todas. É mais apropriado pensar em um ator racional que parte de
uma avaliação do ambiente, ainda que não plenamente consciente, e escolhe entre alternativas
de ação. Mais: os dados mostram esse ator racional leva em conta outras dimensões da
realidade quando escolhe a via criminosa. Os benefícios líquidos do crime envolvem não só o
ganho material, mas benefícios intangíveis como realização emocional ou sexual, aprovação
de colegas ou satisfação de algum senso de justiça. Os custos estão relacionados com a
possibilidade de sanção informal ou punição aplicada pelo sistema de justiça. O cálculo de
custos e benefícios inclui não só o valor (não apenas o material) das ocupações legítimas, mas
também das ilegítimas. Isto é, não se leva em conta apenas se há ou não possibilidades de
ascensão social através dos empregos legítimos disponíveis, mas também os riscos de
punição relativos à via ilegítima. Parafraseando Wilson, se roubar carros é uma atividade
altamente arriscada, o jovem racional pode preferir lavá-los.
Com isso coloca-se a necessidade de revisão de políticas de controle do crime.
Políticas distributivistas, indicadas a partir dos diagnósticos apresentados pelas teorias
estruturais e subculturais, são criticadas por Wilson (1985). Na medida que esse autor parte de
uma perspectiva teórica que admite que o criminoso seja um ator racional, é capaz de
apresentar análises consistentes. O papel da polícia e do judiciário como forças dissuasórias,
por exemplo, pode ser melhor examinado quando supomos que o criminoso calcula as chances
de ser detido. Existem criminosos que apresentam maiores ou menores dificuldades de
descontar o futuro, de prever as conseqüências de seus atos; existem aqueles que mesmo
numa situação altamente arriscada são incapazes de controlar os impulsos. Mas são
possibilidades a serem verificados empiricamente, os criminosos não é incapaz de agir de
forma racional por definição.
Neste sentido, Wilson examina a dissuasão, a incapacitação e a reabilitação como
estratégias de redução das taxas de crime. Entender a dissuasão apenas como um fator que
reduz o crime na medida em que aumenta seus custos, evitando que candidatos ao crime
optem por esse comportamento, é um modo de limitar as possibilidades de análise. Embora
esse seja o sentido usual do termo, é importante levar em conta que o aumento dos benefícios
do não-crime (oferta de empregos, por exemplo) pode fazer com que pessoas que estejam em
uma situação limite, podendo optar pela via legítima ou ilegítima, decidam-se pela via legítima.
De um lado, a manipulação dos custos do crime tenta impedir a adesão do indivíduo à via
65

ilegítima, de outro, a manipulação dos benefícios do não-crime tenta atraí-lo para a via legítima.
O ponto, escreve Wilson, é que uma mesma concepção da natureza humana está por trás das
duas formas de ver o problema: pessoas escolhem racionalmente entre cursos alternativos de
ação a partir do cálculo dos custos e benefícios ligados a cada alternativa. E não há motivo
para tratar separadamente os dois lados do problema, pelo contrário, é mais produtivo fazer
uma análise conjunta desses fatores. São dois lados de uma mesma estratégia de combate ao
crime. As teorias estruturais, tratadas acima, apresentam dificuldades em relação a esse
problema porque desprezam a dimensão da ação individual, apesar de mencionarem as
adaptações individuais, e com isso não conseguem avaliar como se dá o processo de decisão
entre alternativas legítimas ou ilegítimas. Como escreve Wilson, em uma situação onde há
oferta de empregos legítimos, mas os benefícios do crime permanecem muito altos, pessoas
podem preferir a via ilegítima.
Essa análise da dissuasão em comparação com a possibilidade de que o aumento dos
benefícios do não-crime podem levar à opção pela via legítima diz respeito de forma direta à
questão da possível relação de causalidade entre pobreza e crime. Se tivermos um ator
racional, este levará em conta suas possibilidades de encontrar emprego, quanto pode ganhar,
a quantidade de trabalho, etc.; e o que pode conseguir com atividades criminosas, quais os
riscos dessas atividades, se pode ser detido, o que pode ganhar em termos materiais ou não-
materiais. A relação entre emprego e crime não é, portanto, simples. Como afirma Wilson, se
em um estudo estatístico encontramos que o desemprego e o crime aumentaram em um
mesmo período, a tendência é dizer que o desemprego causou o aumento das taxas de crime.
Mas isso pode não ser verdade, a opção pelo crime, que no período teria se mostrado muito
atrativo, seria responsável pelos desempregos. Outras vezes crime e desemprego podem ser
efeito de uma mesma causa. De qualquer maneira, como já foi mencionado através de
Edmundo Campos Coelho (1988) e Vinícius Caldeira Brant (1994), a relação entre crime e
desemprego, mesmo quando é real não é estatisticamente significativa e sempre é muito
complexa. Nesse sentido, não é correto pensar que reduzir a miséria e aumentar a oferta de
empregos (no sentido de aumentar os benefícios do não-crime) produzirá uma significativa
mudança nas taxas de criminalidade. Mesmo porque políticas para aumentar oferta de
empregos para jovens em idade e situação sócio-econômica críticas são ainda mais difíceis de
serem implementadas. Não é o caso de dizer que as tentativas de aumentar os benefícios do
não-crime devem ser abandonadas, mas que sempre devem ser acompanhadas por políticas
que visem o aumento dos custos do crime.
O tipo de atuação da polícia pode fazer alguma diferença no sentido de aumentar os
custos do crime, ações mais agressivas no sentido de parar e interrogar pessoas nas ruas, por
exemplo, tendem a dar resultados. Programas que usam “bafômetro” para deter pessoas que
dirigem embriagadas diminuem o número de acidentes de trânsito. Ações mais agressivas
contra maridos que agridem esposas tendem a diminuir casos de agressão. No entanto, o
trabalho da polícia é pouco eficaz em relação a crimes como arrombamento e roubo, que são
dificilmente detectados e interceptados. O poder de dissuasão da polícia é maior quando há um
66

policiamento ostensivo em locais fechados ou quando toma a iniciativa se antecipando ao


crime (interrogando adolescentes suspeitos em uma esquina, por exemplo). É menor em
relação a crimes que envolvem segredo, como arrombamentos (Wilson, 1985. p.133).
Alterar sentenças é uma forma de dissuasão mais eficaz. Embora não seja uma tarefa
simples, pesquisas indicam que alterar a probabilidade de punição pode levar a mudanças de
comportamento. O importante é que as mudanças sejam efetivas. O problema aqui é que há
uma tendência de que a “severidade seja inimiga da certeza e da rapidez.” Juizes, promotores
e advogados seriam mais criteriosos ao tratar de penas mais severas e, com isso, o processo
se alongaria. Para conseguir uma maior dissuação a partir de mudanças na lei, deve haver um
equilíbrio que permita uma pena suficientemente severa, mas não tanto que provoque a
resistência do sistema judiciário, que levaria à lentidão.
O problema geral que limita as possibilidades de dissuasão é que esse fator conta mais
definitivamente para um conjunto de pessoas que estaria numa situação limite, dependendo de
pequenas variações no ambiente para decidir sobre o crime ou o não-crime. Pessoas para as
quais o medo da punição como fator de dissuasão, ou uma chance real de emprego, são
dados importantes. Mas essas pessoas (ex-viciados, ex-condendos de meia idade,
adolescentes inexperientes) não cometem os crimes mais sérios, que preocupam a sociedade.
Esses são cometidos pelo criminoso crônico, que comete crimes em altas taxas. Citando um
estudo de Wolfgang, Figlio e Sellin (1972), Wilson mostra que de 10 mil jovens pesquisados na
Filadélfia um terço foram presos, para metade desses a carreira criminosa terminou na primeira
prisão. Mas para um jovem que foi preso três vezes a chance de ser preso novamente era de
70%. Esses números confirmam a impressão de que controle social informal, capacidade
dissuasória da punição e o desejo de entrar para o mercado formal de trabalho são fatores que
impedem um maior crescimento do crime. Mas esses fatores não têm a mesma eficácia sobre
criminosos crônicos. Programas de emprego, por exemplo, não são eficazes. Acredita-se que o
aumento da rapidez e da certeza das penas tenha um efeito importante, mas não há evidências
definitivas sobre isso.
No caso de criminosos crônicos, uma estratégia que parece ser interessante é a
incapacitação, enquanto essas pessoas estão privadas de liberdade são obviamente incapazes
de cometer crimes. O que torna a incapacitação mais interessante é que, nesse caso, não há
necessidade de nenhuma suposição sobre natureza humana. A dissuasão só é eficaz se for
verdade que as pessoas escolhem entre cursos alternativos de ação com base em um cálculo
racional de custos e benefícios. Embora existam indícios de que as pessoas levam em conta
os custos e benefícios de diferentes cursos de ação, é difícil precisar até que ponto esse
cálculo influencia na tomada de decisões. E em que medida modificações nos custos do crime
levam a redução das taxas. A reabilitação só funciona se for verdade que é possível
transformar valores, preferências e a perspectiva de tempo de criminosos através de ações
planejadas. Não existem evidências de que isso possa ser feito para a totalidade dos
criminosos, embora pareça ser verdade que é possível para alguns criminosos, sob algumas
circunstâncias. Por outro lado, a incapacitação age sobre condições objetivas: o indivíduo
67

encarcerado não tem como, objetivamente, cometer crimes. Não há necessidade de nenhuma
alteração de seu estado subjetivo (Wilson, 1985: 145-46).
Uma questão prática que se coloca são os custos, em termos financeiros, desse tipo de
estratégia. Aumentar o tempo de encarceramento ou aplicar penas privativas de liberdade para
toda a população criminosa provocaria um grande aumento dos gastos com segurança. Sem,
no entanto, um resultado plenamente satisfatório em termos de redução das taxas de
criminalidade. Para muitos criminosos, uma condenação é suficiente para interromper a
“carreira”. Coloca-se, então, a necessidade de estratégias de incapacitação seletiva. Ou seja,
usar esse tipo de estratégia nos casos de criminosos altamente ativos e reincidentes. Torna-se
importante, nesse caso, a elaboração de mecanismos que possibilitem o reconhecimento dos
indivíduos aos quais se deveria aplicar essa estratégia. No caso de criminosos receptivos a
tratamentos de recuperação, deveriam ser usadas estratégias de reabilitação, escreve Wilson.
O importante é buscar a redução das taxas de criminalidade de todas as formas disponíveis.
Dificultando o acesso aos alvos, dissuadindo potenciais criminosos, recuperando os mais
receptivos a terapias ou encarcerando por tempo determinado criminosos crônicos.
Mas o problema não termina assim. O combate ao crime não pode ser, segundo
Wilson, uma ação meramente utilitária. O crime, como já nos mostrava Durkheim, é algo que
ofende a sociedade, é um ato que é repudiado exatamente porque fere padrões de
comportamento consensualmente aceitos. Nesse sentido, surgem vários aspectos que
complicam a ação contra o crime. No caso da incapacitação seletiva, por exemplo, o problema
se coloca de forma clara. Levando-se em conta o fato de que criminosos não se especializam,
é problemático aplicar uma pena especialmente dura em alguém que foi preso e condenado
por um crime leve com base no conhecimento de que trata-se de um criminoso crônico. Do
ponto de vista da sociedade, da proporcionalidade das penas em relação a delitos, é
extremamente complicado aplicar uma pena severa em alguém que cometeu um furto, mas
que se sabe (através de registros anteriores e de outros mecanismos de predição) que é um
criminoso crônico e provavelmente reincidente e, ao mesmo tempo, aplicar uma pena leve em
um homicida porque se sabe que muito dificilmente essa pessoa cometerá outro crime. A
punição, além de um mecanismo de dissuasão disponível, é também um método de justiça
retributiva. Através da punição a sociedade restitui as coisas aos seus devidos lugares, castiga
aqueles que rompem com padrões de comportamento convencionais. Assim, um ato visto pela
sociedade como especialmente grave deve receber uma punição proporcional. Enfim, como o
próprio Wilson reconhece, a ação utilitária contra o crime é limitada.

4 – Conclusão

Esse tipo de reconhecimento abre espaço para a identificação de algumas


contradições presentes no trabalho de Wilson. Por um lado, temos uma consistente crítica da
abordagem positivista do problema do crime. Críticas que se referem inicialmente a
proposições fundamentais dos modelos estruturais e subculturais e que, em decorrência,
68

questionam a competência de abordagens sociológicas quanto à proposição de estratégias de


redução das taxas de criminalidade. Não há dúvida de que os modelos positivistas se tornam
limitados na medida em que desprezam a dimensão da ação individual. Não só em relação a
uma explicação mais adequada do problema do crime, como um objetivo em si mesmo, mas,
também, em relação às possibilidades de análise e proposição de políticas de controle do
crime. Neste sentido, as críticas sobre estratégias que entendem a transformação das “causas
profundas” como única forma de se resolver um problema são amplamente consistentes e
convincentes. Por outro lado, temos um sério problema quando Wilson entende que é o caso
de abandonar definitivamente qualquer tipo de estudo especificamente sociológico do problema
do crime que tenha alguma preocupação prática. Em sua perspectiva, a sociologia deveria se
voltar para a nobre área dos estudos exclusivamente teóricos. O controle do crime é assunto
para analistas de políticas, não para sociólogos.
O ponto é que o próprio trabalho de Wilson apresenta alguns elementos que indicam
exatamente o contrário. Uma perspectiva exclusivamente preocupada com a análise de
políticas pode levar a um infinito processo de tentativa e erro no sentido de encontrar a política
mais eficiente que nunca chega ao fim exatamente por desprezar uma série de aspectos que
deveriam ser analisados sociologicamente. Na medida em que reconhece a pertinência de
parte da produção positivista, Wilson acaba por reconhecer alguns desses aspectos. O fato de
o crime ser algumas vezes motivado pelo desejo de solução ou realização de algum senso de
justiça, particularmente de desigualdade social, pode complicar severamente a eficácia de
políticas dissuasórias. O reconhecimento de que determinados grupos sociais, por causa de
uma constituição sócio-cultural específica, podem rejeitar a intervenção de agências da
sociedade mais ampla aponta para o mesmo problema. E, mais, coloca uma questão sobre o
caráter retributivo das penas. Isto é, a sociedade é algo tão homogêneo que torna desprezíveis
as diferenças quanto a comportamentos convencionalmente aceitos? A legitimidade das
punições é algo não problemático? No caso de uma resposta negativa, a aplicação de
punições a determinados comportamentos pode estimulá-los em vez de detê-los.
Estes tipos de problema são bem apresentados e analisados por Donald Black (1983),
por exemplo. Segundo esse autor, um crime, muitas vezes, longe de ser uma violação
intencional de uma proibição, é um empreendimento moral e tem como objetivo a justiça ou a
punição de um “desvio”. Ou seja, um ato criminoso pode representar o exercício do controle
social (Black, 1983: 34). O caráter normativo de atos considerados como crime pelas agências
oficiais fica evidente através da observação de que a maioria dos homicídios, por exemplo, é
uma resposta ao adultério ou a outras questões relativas a sexo, amor e fidelidade; ou diz
respeito a afrontas à honra ou a dívidas monetárias. Da mesma forma, muitos crimes que
envolvem o confisco de bens ou destruição de propriedade apresentam caráter normativo.
Segundo Black, mais de um terço dos arrombamentos e roubos acontecidos em Nova Iorque,
22[2]
que resultam em prisão, envolvem pessoas que tinham relação anterior . O objetivo do

22[2]
Vera Institute of Justice (1977) Felony Arrests: their prosecution and disposition in New York City 's
courts. New York, Vera Institute of Justice. Citado por Black, 1983.
69

ofensor pode ser a recuperação de algum bem, de alguma quantia em dinheiro ou


simplesmente a punição de algum comportamento percebido como desviante (Black, 1983: 36-
7).
É importante considerar essa dimensão do comportamento criminoso no estudo dos
mecanismos de dissuasão. Quando a polícia ou a justiça tratam de um crime que tem uma
motivação moral, há um conflito sobre a definição do evento. Fundamentalmente, sobre quem
é ofensor e quem é vítima. Black menciona o caso do marido que mata o amante de sua
esposa. Para a justiça, o amante é a vítima. Mas, do ponto de vista do marido, o amante
transgrediu uma norma e mereceu ser morto. O ponto é que o “monopólio do uso legítimo da
violência” não é atingido pelo Estado de maneira completa. A violência envolve, muitas vezes,
cidadãos que percebem sua conduta como exercício plenamente legítimo do controle social.
Cidadãos que muitas vezes podem se sentir moralmente obrigados a “fazer justiça com as
próprias mãos”. Podem preferir os problemas com a justiça criminal a deixar de respeitar o
costume de uma comunidade.
Na medida em que as pessoas se sentem moralmente obrigadas a cometer crimes, a
força que a polícia e a justiça teriam para dissuadi-las diminui. Um estudo da dissuasão deve
levar em conta que o poder da punição para deter o crime depende do fato dele ser ou não
uma forma de controle social. Desprezar a contribuição da sociologia, neste caso pode fazer
com que uma dimensão importante do problema da dissuasão não seja analisada.
Acredito que a consideração de aspectos individuais é importante, mesmo porque,
como afirmam Cohen e Machalek (1988), são indivíduos, sozinhos ou em grupos, que
cometem crimes. Porém, como mostram os mesmos autores, os indivíduos devem ser tratados
como unidades de observação, não como unidades de análise. Tratá-los como unidades de
análise enfraquece a abordagem na medida em que impossibilita o completo entedimento de
como populações de indivíduos que interagem criam contextos sociais que podem facilitar ou
inibir o crime e o desvio (Cohen e Machalek, 1988: 467).
O problema das abordagens estruturais e subculturais é exatamente o desprezo pela
dimensão da ação individual, que compromete as possibilidades analíticas das teorias. Mas
penso que não é o caso de dizer, como o faz Wilson (1985), que perspectivas macroestruturais
são, quaisquer que sejam elas, inadequadas. O trabalho de Cohen e Felson (1979), por
exemplo, mostra como uma abordagem estrutural pode ser satisfatória e justificar a importância
da sociologia no estudo do crime. Não só no sentido teórico, mas também no aplicado. Isto se
dá justamente pela consideração da ação individual como unidade de observação. Desta
forma, estas abordagens superam tanto as abordagens estruturais convencionais, como a
abordagem de Wilson.
Cohen e Felson mencionam o paradoxo representado pelo crescimento das taxas de
crime violento nos EUA a partir da década de 60 enquanto as condições que poderiam ser
consideradas causas da criminalidade (baixos níveis de escolaridade, desemprego, baixa
renda familiar) estavam desaparecendo. Os autores procuram resolver esse paradoxo
considerando as mudanças nas atividades rotineiras da vida cotidiana (Cohen e Felson, 1979:
70

588-9). Argumentam que mudanças estruturais em padrões de atividades rotineiras podem


afetar as taxas de criminalidade provocando a convergência no tempo e no espaço de três
elementos mínimos: (1) ofensores motivados, (2) alvos apropriados, e (3) ausência de guarda
23[3]
contra a violação . A convergência, no tempo e no espaço, de alvos apropriados e ausência
de guardas capazes podem levar ao crescimento das taxas sem a necessidade de uma
intensificação das condições estruturais que motivam indivíduos a engajarem-se no crime.
Mesmo no caso de a proporção de ofensores motivados ou de alvos apropriados se manter
estável na comunidade, mudanças nas atividades rotineiras podem alterar a probabilidade de
sua convergência no tempo e no espaço, criando, portanto, maiores oportunidades de
ocorrência do crime.
Os autores não examinam as causas da motivação para o crime. Tomam a motivação
criminal como um dado e examinam a maneira como as organizações espaço-temporal das
atividades rotineiras contribuem para que pessoas traduzam uma inclinação criminal existente
em ação.
Atividades que as pessoas desempenham cotidianamente podem, por exemplo, afastá-
las daquelas em quem elas confiam (tornando-as possíveis alvos de um assaltante) ou de suas
propriedades. A disseminação de objetos portáteis, de armas e de automóveis pode facilitar a
atividade de criminosos. O aumento da participação de mulheres no trabalho fora de casa pode
fazer com que as residências fiquem desprotegidas em grande parte do dia. A análise desses
fatores proporciona a solução do paradoxo que as teorias convencionais não conseguem
resolver, mostrando que o crime é um fenômeno normal, resultante de atividades e condições
rotineiras plenamente legítimas. Não é necessário recorrer a conceitos como desorganização
social ou anomia, ou supor a priori que o crime resulta de processos de socialização. Desta
maneira, a sociologia não se compromete com sugestões de intervenções sociais profundas
como únicos recursos apropriados para o controle do crime que estão sujeitas às críticas
apresentadas por Wilson.
Além disso, a “abordagem das atividades rotineiras”, na medida em que considera
variáveis estruturais, mantendo a possibilidade de observação da ação individual, supera as
explicações de Wilson. Torna-se possível considerar a variação das taxas de crime tanto no
nível macro quanto microssociológico. Mais: a abordagem de Cohen e Felson possibilita a
análise da relação do pertencimento a determinado grupo primário, da transmissão cultural e
do controle social com a inclinação criminal de indivíduos, caso esse ponto se mostre
relevante. É possível considerar, por exemplo se as circustâncias favoráveis ao crime
contribuem para a inclinação criminal no logo prazo na medida em que proporciona prêmios ao
indivíduo. Nesse sentido, como mostram Cohen e Felson, o esquema das atividades rotineiras
explica porque o sistema de justiça criminal, a comunidade e a família têm sido tão ineficazes
no exercício do controle.

23[3]
A vigilância neste caso não é apenas a policial, mas também a vigilância informal executada pelos
próprios cidadãos.
71

Crescimentos substantivos das oportunidades de crime comprometeram os


mecanismos de controle social à disposição da sociedade. Segundo os autores, é difícil para
instituições que procuram aumentar a certeza, rapidez e severidade das penas competir com
mudanças estruturais que resultam em grande intensificação da certeza, rapidez e valor dos
prêmios relativos a atos ilegais (Cohen e Felson, 1979: 605).
Assim, reconhecer a importância das críticas de Wilson quanto ao desprezo da
dimensão individual e mesmo a pertinência da avaliação da incapacidade de orientação de
políticas das teorias estruturais convencionais não leva necessariamente à aceitação das
conseqüências apontadas pelo autor. Teorias estruturais que mantêm um foco no
comportamento de indivíduos são eficientes no sentido de explicar as variações macrossociais
das taxas de crime e, ao mesmo tempo, manter sob observação aspectos próprios do
comportamento de atores individuais. Podem assim integrar as dimensões micro e
macrossociológicas da análise de modo mais consistente. Além disso, na medida em que esse
tipo de abordagem coloca de lado a questão da motivação profunda da ação individual
(socialmente ou racionalmente determinada), pode conseguir controlar as implicações
subjetivas das ações de controle do crime e da delinqüência devendo, então, ser objeto de
maiores atenções quanto ao seu potencial relativo à análise de políticas públicas.

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