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PPEELLAA FFÉÉ SSOOMMEENNTTEE NORVAL F. PEASE
PPEELLAA FFÉÉ SSOOMMEENNTTEE
NORVAL F. PEASE

SOLAMENTE POR FE PUBLICACIONES INTERAMERICANAS PACIFIC PRESS PUBLISHING ASSOCIATION Mountain View California Copyright © 1968, by Pacific Press Publishing Association Editado e impreso por PUBLICACIONES INTERAMERICANAS División hispana de la

Pacific Press Publishing Association 1350 Villa Street, Mountain View California, EE.UU., de N. A. Tradução: Carlos Biagini Primera edición

1968

5.º millar

Pela Fé Somente

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CONTEÚDO

Prefácio

3

Introdução

5

I. A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ: UMA DOUTRINA BÍBLICA

1. O Evangelho no Antigo Testamento

10

2. O Evangelho nos Evangelhos

28

3. O Evangelho Interpretado por Paulo

55

4. O Evangelho no Apocalipse

71

5. Aplicação prática do ensino bíblico

74

II. A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ ENSINADA PELA IGREJA ANTES DO SÉCULO XIX

6. De Paulo a João Wesley: Um Resumo

III.

INTERPRETAÇÃO

ADVENTISTA

JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

DA

77

DOUTRINA

DA

7.

As primeiras quatro décadas

98

8.

O Congresso da Associação Geral de 1888

116

9.

A agitada década de noventa

135

10.

O adventismo do século XX e a justificação pela fé

163

IV. CONCLUSÃO

11.

Vislumbre do futuro

207

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PREFÁCIO

Este livro, PELA FÉ SOMENTE, aparece em momento oportuno. Quando seu autor apresentou uma parte do material que o constitui, durante uma assembléia de obreiros de uma união, há alguns meses, solicitaram que o preparasse na forma de livro, e agora ele cumpriu com este pedido. Recomendamos este livro, que prevemos uma ampla circulação, aos adventistas do sétimo dia de todos as partes, para que façam dele objeto de reflexão. Fica claro que o autor dedicou muita investigação cuidadosa e um intenso estudo no tema que aborda, porque sua exposição é bastante convincente. Diversas pessoas, especialmente nos últimos meses, têm comentado o Congresso da Associação Geral celebrado em 1888 e a análise da justificação pela fé realizado durante suas sessões. Poucas pessoas têm sugerido – de modo totalmente errado – que a Igreja Adventista errou o caminho pelo fato de não aprender este grande ensino fundamental. Este livro põe as coisas no seu devido lugar. Nos primórdios de nossa história como igreja, nossos vigorosos antepassados na fé criam que tinham a responsabilidade de ressaltar certas doutrinas bíblicas peculiares que eles consideravam que foram descuidadas durante longo tempo. Estes precursores de nossa fé, levados por seu zelo e seu fervor, supunham que compreendiam e aceitavam satisfatoriamente a grande verdade da justificação pela fé. Puseram em relevo a obediência à verdade e aos mandamentos de Deus, porque, conforme sua opinião, pensavam que estes últimos eram considerados muito levianamente e mesmo tratados, de modo geral, com certa indiferença. Em seu zelo pela verdade de Deus, passaram por alto o fato de que a obediência constitui um fruto espiritual da conversão e a salvação mediante Cristo, e não tanto um requisito prévio que conduz a esta experiência. Temos que reconhecer que a grande doutrina fundamental do Evangelho, a salvação unicamente pela fé, nem sempre era posta no seu devido lugar. Freqüentemente, como resultado desse descuido, eram expostas doutrinas vazias, ou, usando uma expressão de Ellen G. White, "sermões sem Cristo". Tal situação alcançou um ponto culminante no Congresso da Associação Geral de 1888, celebrado em Mineápolis; e lá mesmo foi enfrentada diretamente. É confortante saber que, embora houvesse alguns que hesitavam em aceitar este meio de salvação, houve muitos naquele tempo, e tem havido muitíssimos mais nos anos subseqüentes, que se apegaram a esta grandiosa verdade e participaram da maravilhosa experiência da salvação unicamente pela fé em Cristo, e "não por obras de justiça que houvéssemos feito". Neste sentido, o surgimento e o desenvolvimento da Igreja Adventista tem sido semelhante ao de muitas outras igrejas. Conforme as palavras do autor: "Em muitos casos, igrejas que tinham começado com uma profunda ênfase evangélica perderam algo de seu ardor com o transcurso dos anos." O autor assinala que o aparecimento de novas pautas de pensamento religioso freqüentemente têm extinguido o ardor evangélico. "Os adventistas do sétimo dia oferecem uma variação interessante da tendência usual que se manifesta entre os corpos religiosos." "A história adventista evidencia uma ênfase crescente nas verdades evangélicas, que pode ser atribuído grandemente à influência dos escritos de Ellen G. White."

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Durante os últimos 70 anos, os editoriais adventistas têm produzido uma corrente, que se torna cada vez mais intensa, de livros e brochuras, muitos deles provenientes da pena da Sra. White, que apresentam a Cristo e instam a aceitá-Lo como nossa esperança de salvação. O conhecimento que esta ênfase tem aumentado constantemente entre nós, produz muita satisfação. Esta posição adventista sublinha a clara declaração do apóstolo Paulo: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." Queremos terminar parafraseando as palavras das últimas linhas que aparecem neste livro: "Devemos aprender o significado da grande verdade que ensina que os homens são salvos unicamente pela fé, e devemos proclamá-la fielmente.

Rubén R. Figuhr 12 de Fevereiro de 1962

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INTRODUÇÃO

"O que é justificação pela fé? - É a obra de Deus ao lançar a glória do homem no pó e fazer pelo homem aquilo que ele por si mesmo não pode fazer." (Testemunhos para Ministros, pág. 63.) "Quando Deus declara que somos justos, ficamos livres da condenação e somos restaurados ao Seu favor. É-nos concedida uma nova posição diante de Deus. Somos perdoados. Fica remitida a pena de morte que merecíamos pela transgressão da lei. Somos recebidos no favor divino. Agora Sua graça flui abundantemente a nós e nos concede toda benção espiritual. E a base disso tudo é Jesus Cristo e Sua obra acabada." (Carlyle B. Haynes, Righteousness in Christ, pá. 15). "Poderíamos dizer que a fé é a mão que o pecador estende para receber o 'dom

gratuito' da misericórdia de Deus

Deus espera sempre derramar sobre nós este dom,

e está disposto a fazê-lo, não como uma recompensa por algo que nós possamos fazer,

senão simplesmente por causa do seu amor infinito. Esse dom é para nós, e podemos recebê-lo mediante pela fé." (The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 6, pág. 502). Estas declarações provenientes de três autores adventistas, juntamente com milhares de outras declarações semelhantes, revelam a profunda ênfase evangélica dos adventistas do sétimo dia. Este discernimento espiritual começou com a ênfase no dever e na profecia. Não é que não se acreditavam nas grandes verdades do Evangelho, senão que estas foram dadas por sentadas. Muitos dos primeiros crentes eram conversos de outras congregações e conheciam por experiência pessoal o

significado da salvação. Com o transcurso do tempo, se descuidou a ênfase evangélica devida à necessidade imperiosa de defender as doutrinas peculiares, tais como o sábado, a imortalidade condicional e a segunda vinda de Cristo. Chegou o momento quando os líderes denominacionais perceberam este descuido e fizeram campanha para restaurar esta ênfase perdida na salvação unicamente pela fé. Um congresso notável da Associação Geral, milhares de páginas publicadas e uma década de reavivamento, juntamente com muitos outros fatores, contribuíram para implantar a ênfase evangélica, de modo que seu fruto fosse permanente e duradouro. Este livro persegue quatro finalidades: primeiro, reviver alguns aspectos da doutrina da justificação pela fé como ensinada na Bíblia. A primeira parte é dedicada a este propósito. Esperamos que esta seção ajude aos leitores a ver a justificação pela fé como um tema que corre ao longo de toda a Escritura Sagrada. Esperamos também que se preste atenção especial ao capítulo intitulado: "O Evangelho e os Evangelhos". Freqüentemente, se menciona Paulo como a fonte principal a respeito da justificação pela fé. Os escritos de Paulo têm uma tremenda importância, mas os quatro Evangelhos também são vitais na revelação das verdades bíblicas sobre as quais Paulo

e todos os demais apologistas edificaram. O segundo propósito consiste na apresentação de um breve estudo da história da doutrina da justificação pela fé, desde Paulo até Wesley. Este estudo é indispensável

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para a compreensão do lugar que esta doutrina ocupa na Igreja Adventista. Toda doutrina tem suas raízes no passado e pode ser compreendida plenamente tão-só no contexto desse passado. A segunda parte desta obra explora os séculos cristãos para proporcionar este necessário antecedente. O terceiro propósito deste livro é examinar a atitude da igreja adventista em relação à doutrina da justificação pela fé. O meu interesse neste aspecto do tema foi estimulado por primeira vez em 1937 quando, em meus primeiros anos de pastorado,

me encontrei diante das pretensões de uma organização dissidente que ensinava a teoria de que a Igreja Adventista havia rechaçado a doutrina da justificação pela fé em 1888. Poucos anos depois tive o privilégio de investigar nos arquivos denominacionais

e reconstruir os acontecimentos ocorridos em torno ao bem conhecido congresso

celebrado em Mineápolis em 1888. Como se verá, não estou de acordo com os que pretendiam que a denominação havia rechaçada completamente a doutrina em 1888, e tampouco concordo com aqueles que sustentem que a doutrina foi aceita entusiasticamente naquele tempo. Creio que o desenvolvimento de uma poderosa ênfase evangélica na igreja adventista deve avaliar-se na base das perspectivas históricas que abrangem mais de um século. O congresso de 1888 foi um incidente importante em uma longa e complicada seqüência histórica. Esforcei-me para reconstruir uma seqüência nos aspectos essenciais. O quarto propósito que persegue este livro consiste em oferecer ao leitor uma

amostra das publicações adventistas acerca da justificação pela fé. Peço desculpas pela grande quantidade de material citado. Por exemplo, no capítulo 1, "O Evangelho no Antigo Testamento", aparece uma série de citações tiradas dos livros que Ellen G. White escreveu sobre o Antigo Testamento: Patriarcas e Profetas e Profetas Reis. Este capítulo compre duas finalidades: mostra os antecedentes que a doutrina da justificação pela fé tem no Antigo Testamento e apresenta a interpretação adventista desse material tal como o encontramos nos escritos da Sra. White. As referências que apresentamos neste livro não se limitam de modo nenhum às obras de Ellen G. White.

O capítulo intitulado "o adventismo do século XX", abunda em citações pertencentes a

autores adventistas modernos representativos. Esperamos que as numerosas citações contidas neste livro ajudem o leitor a apreciar a riqueza das publicações adventistas neste aspecto da verdade. Devo fazer um comentário concernente à terminologia. Em geral, tenho utilizado

a expressão teológica mais familiar "justificação pela fé" e em lugar das expressões

"salvação pela fé" ou "justiça pela fé". Nas publicações adventistas, freqüentemente

estas expressões são empregadas no mesmo sentido, embora alguns autores limitem "justificação pela fé" ao seu significado básico relacionado com a conversão. Tentar manter uma cuidadosa distinção entre a graça de Deus tal como opera para converter um homem e a graça de Deus tal como atua para manter um homem em Cristo, constitui uma distinção teológica que escapa ao propósito deste livro. Na apresentação dos fatos históricos procurei ser objetivo, compreendendo, que uma objetividade completa não é possível nem tampouco é sempre desejável. Cada cristão fervoroso está profundamente comprometido com a grande verdade. Este não

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pode analisar com desapego a graça de Deus e sua própria fé ou as experiências chamadas justificação e santificação. Estas verdades significam tudo para ele. Está implícito toda sua felicidade presente, o propósito de sua vida e seu destino eterno. Sua vontade, suas emoções e seu intelecto estão igualmente comprometidos. Ele ora fervorosamente para que outros experimentem o que ele experimentou em Cristo. Espero que este volume não somente proporcione informação histórica e doutrinal, mas que também sirva para a glória ficara deus por cuja graça são salvos. O AUTOR

Nota especial para a edição em espanhol

Desde a publicação da edição inglesa deste livro, em 1962, foram levados a cabo a duas investigações importantes acerca da história da doutrina da justificação pela fé na Igreja Adventista do Sétimo Dia; o resultado da primeira é o livro Through Crisis to Victory, do pastor A. V. Olson; a outra investigação foi concretizada na forma de um manuscrito ainda não publicado no momento de escrever estas linhas, intitulado Eternal Verities Triumphant, do Dr. L. E. Froom. Os autores vão explorar detalhadamente certas áreas apresentadas em forma geral neste livro. Recomendo a leitura das duas obras citadas.

Norval F. Pease Loma Linda University

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RECONHECIMENTO

O autor agradece a colaboração dos seguintes editores e fideicomissionários que lhe permitiram citar os diferentes livros sobre os quais têm direitos reservados:

Charles Scribner's Sons (Nova Iorque): A History of Christian Though, por Arthur C. McGiffert; e History of Christian Doctrine, por George Park Fisher. The Macmillan Company (Nova Iorque): The New Testament in Modern English, © J.

B. Phillips, 1958. Utilizado com permissão da Macmillan Company.

The Oxford University Press (Nova Iorque): The New English Bible © The Delegates of

the Oxford University Press e Syndics of the Cambridge University Press, 1961. T. & T. Clark (Edimburgo): Churches Dogmatics, por Karl Barth, University of London Press Limited (Londres): The Beginnings of Arminianism, por A. H.

Harrison.

The Judson Press (Filadélfia): A Manual of Christian History, vol. 2, por A. H. Newman. Copyright, 1931. Utilizado com permissão. Thomas Nelson & Sons (Nova Iorque): Revised Standard Version of the Holy Bible. Copyright, 1946 e 1952, pela Division of Christian Education of the National Council of Churches. Utilizado com permissão. Vm. B. Eerdman, Publishing Company (Grand Rapids, Michigan): Faith and Justification, por G. C. Berkower; e Institutes of the Christian Religion, por John

Calvino.

The Westminster Press (Filadélfia): The Epistle of Paul to the Romans, por Charles R.

Erdman. Copyright, 1925, por F. M. Braselman, Copyright renovado em 1953, por

C. R. Erdman. The Westminster Press.

Fideicomissionários do Westminster Theological Seminary, UW, J. Gresham Machen (Filadélfia): What Is Faith? por J. G. Machen.

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O EVANGELHO NO ANTIGO TESTAMENTO

O Servo Sofredor

SE ALGUÉM me perguntasse qual a parte do Antigo Testamento onde o Evangelho de Cristo tem sua expressão mais acabada, responderia sem vacilação:

"Isaías 52:13 a 53:12". Esta passagem constitui um poema de apenas cinco estrofes, e cada uma delas descreve alguma fase do ministério de Cristo. Penso que estas estrofes magníficas constituem uma adequada introdução para este livro. Coloquei em cada estrofe o título sugerido pelo grande erudito escocês do Antigo Testamento, Jorge Adams Smith:

O Servo Divino

"Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele (pois o seu aspecto estava mui desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua aparência, mais do que a dos outros filhos dos homens), assim causará admiração às nações, e os reis fecharão a sua boca por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que não ouviram entenderão.

O Enfermo Divino

"Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-Lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era

desprezado, e dele não fizemos caso.

O Substituto Divino

"Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos.

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O Sacrifício Divino

"Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.

A Satisfação Divina

Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu."

Por mais belo e completo que seja este poema, não é de modo nenhum a única passagem que proclama o Evangelho no Antigo Testamento. A missão salvadora de Cristo, como o tema de uma sinfonia, emerge em quase cada livro do Volume Sagrado. Ellen G. White, em dois de seus livros, Patriarcas e Profetas e Profetas e Reis, freqüentemente menciona tais passagens. Apresentaremos várias delas neste capítulo.

De Adão a José

Os capítulos iniciais do Antigo Testamento proclamam a Deus como o Criador. Este conceito é fundamental para o cristianismo evangélico. Espera-se que um deus que criou o homem assuma a responsabilidade com relação ao objeto de seu amor e criador. O evangelho, as boas novas de Deus da redenção, para apresentar a manifestação deste amor divino. A doutrina bíblica da trindade revela um íntimo vinculo entre a criação e a redenção:

"O Soberano do Universo não estava só em Sua obra de beneficência. Tinha um companheiro – um cooperador que poderia apreciar Seus propósitos, e participar de Sua alegria ao dar felicidade aos seres criados. "No princípio era o Verbo, e o Verbo

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estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus." João 1:1 e 2. Cristo, o Verbo, o Unigênito de Deus, era um com o eterno Pai - um em natureza, caráter, propósito - o único ser que poderia penetrar em todos os conselhos e propósitos de Deus." 1 Quando resultou evidente que o homem necessitaria redenção, revelou-se que " amor divino havia concebido um plano pelo qual o homem poderia ser remido". 2 "Deus ia ser manifesto em Cristo, 'reconciliando consigo o mundo'. II Cor. 5:19. O homem se tornara tão degradado pelo pecado que lhe era impossível, por si mesmo, andar em harmonia com Aquele cuja natureza é pureza e bondade. Mas Cristo, depois de ter remido o homem da condenação da lei, poderia comunicar força divina para se unir com o esforço humano. Assim, pelo arrependimento para com Deus e fé em Cristo, os caídos filhos de Adão poderiam mais uma vez tornar-se 'filhos de Deus'. I João 3:2." 3 As linhas anteriores condensam a doutrina da salvação pela fé. A lei condenava o homem, mas não podia salvá-lo. Cristo, na cruz, redimiu o homem desta condenação. Essa redenção foi definitiva, completa e adequada. O preço foi pago, de modo que esta experiência da redenção estaria ao alcance de cada ser humano que a aceitar "pelo arrependimento para com Deus e fé em Cristo". Esta redenção não apenas poria o homem em uma relação satisfatória para com Deus, mas também lhe garantiria uma fonte de poder divino que lhe permitisse viver o tipo de vida apropriado a um "filho de Deus". Das portas do Éden em diante, foi ilustrado vez após vez esta provisão divina de redenção. Em Hebreus 11 lemos: "Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim". "Abel apreendeu os grandes princípios da redenção. Viu-se como um pecador, e viu o pecado e sua pena de morte de permeio entre sua alma e a comunhão com Deus. Trazia morta a vítima, aquela vida sacrificada, reconhecendo assim as reivindicações da lei, que fora transgredida. Por meio do sangue derramado olhava para o futuro sacrifício, Cristo a morrer na cruz do Calvário; e, confiando na expiação que ali seria feita, tinha o testemunho de que era justo, e de que sua oferta era aceita." 4 Em contraste, milhares de pessoas naqueles dias da antigüidade seguiram o exemplo dos construtores da Torre de Babel, cujo pecado consistiu em confiar "em si mesmos" e "o mesmo que governou Caim ao apresentar ele a sua oferta". 5 Para preservar o conhecimento de Deus no mundo, Deus escolheu homens como Abraão e os demais patriarcas. Deus prometeu a Abraão que ele seria o pai de uma grande nação. "E a isto acrescentou-se esta certeza, mais preciosa do que todas as outras para o herdeiro da fé, de que o Redentor do mundo viria de sua linhagem: 'Em ti serão benditas todas as famílias da Terra'. Gên. 12:2 e 3." 6 Esta promessa foi repetida a Abraão em diversas ocasiões. É como se Deus tivesse escolhido momentos de crise na vida de Abraão nos quais a repetição da promessa lhe proporcionaria coragem e esperança.

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A vida de Jacó foi manchada por uma conduta fraudulenta. Este finalmente experimentou um momento de crise em Jaboque, onde lutou com o anjo. Foi ali onde aprendeu uma lição com relação ao significado do método de redenção de Deus. "Foi pela entrega de si mesmo e por uma fé tranqüilizadora que Jacó alcançou o que não conseguira ganhar com o conflito em sua própria força. Deus assim ensinou a Seu servo que o poder e a graça divina unicamente lhe poderiam dar a bênção que ele desejava com ardor. De modo semelhante será com aqueles que vivem nos últimos dias. Ao rodearem-nos os perigos, e ao apoderar-se da alma o desespero, devem confiar unicamente nos méritos da obra expiatória. Nada podemos fazer de nós mesmos. Em toda a nossa desajudada indignidade, devemos confiar nos méritos do Salvador crucificado e ressuscitado. Ninguém jamais perecerá enquanto fizer isto." 7 A vida de José não esteve manchada por nenhuma das fraquezas que pesavam sobre seu pai. O vigor e a formosura do seu caráter foram tão surpreendentes, que sua vida tem sido apresentada como uma ilustração da vida de Cristo. "A paciência e humildade de José sob a injustiça e a opressão, seu perdão pronto e a nobre benevolência para com seus irmãos desnaturados, representam o resignado sofrimento do Salvador, pela malícia e maus-tratos de homens ímpios, e Seu perdão não somente aos Seus assassinos, mas a todos que a Ele têm vindo confessando seus pecados e buscando perdão." 8

O Êxodo

Moisés realizou uma grande decisão quando lançou sua sorte com a da nação escrava de Israel. Mas o incidente do assassinato do egípcio expõe sua ignorância dos métodos de Deus. "Tinha ainda a aprender a mesma lição de fé que havia sido ensinada a Abraão e Jacó - não confiar na força e sabedoria humanas, mas no poder de Deus" 9 "A páscoa devia ser tanto comemorativa como típica, apontando não somente para o livramento do Egito, mas, no futuro, para o maior livramento que Cristo cumpriria libertando Seu povo do cativeiro do pecado. O cordeiro sacrifical representa o 'Cordeiro de Deus', em quem se acha nossa única esperança de salvação. Diz o apóstolo: 'Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós.' I Cor. 5:7. Não bastava que o cordeiro pascal fosse morto, seu sangue devia ser aspergido nas ombreiras; assim os méritos do sangue de Cristo devem ser aplicados à alma. Devemos crer que Ele morreu não somente pelo mundo, mas que morreu por nós individualmente. Devemos tomar para o nosso proveito a virtude do sacrifício expiatório." 10 Os meses que se seguiram a este acontecimentos foram marcados pela proclamação da lei de Deus no Sinai e a promulgação de regulamentos concernentes à vida individual e tribal de Israel. Mas o Sinai não era unicamente o monte da lei:

"Por essa luz era o intuito de Deus impressionar Israel com o caráter sagrado e

exaltado de Sua lei, e a glória do evangelho revelado por meio de

Enquanto

Moisés estava no monte, Deus apresentou-lhe não somente as tábuas da lei, mas também o plano da salvação. Ele viu que o sacrifício de Cristo era prefigurado por

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todos os tipos e símbolos da era judaica; e era a luz celestial que fluía do Calvário, não menos que a glória da lei de Deus, que derramava tal brilho no rosto de Moisés. Aquela iluminação divina simbolizava a glória da dispensação de que Moisés era o mediador visível, representante do único verdadeiro Intercessor." 11

A importância desta observação fica mais evidente ao considerarmos o sistema

de culto em Israel mediante Moisés. Em todo o complicado sistema de sacrifícios, festas e outras observâncias, se pode ver a idéia básica da expiação. A lei definia o pecado. Os rituais realizados no antigo santuário constituíam uma lição objetiva dada a um povo primitivo com relação ao modo como se resolveria o problema do pecado. Em todo o ciclo de cerimônias diárias e anuais, Israel era lembrado continuamente que 1) o pecado é sério, 2) o pecado causa morte, 3) Deus perdoa ao contrito sincero. "Acima da lei estava o propiciatório, sobre o qual se revelava a presença de Deus, e do qual, em virtude da obra expiatória, se concedia o perdão ao pecador arrependido." 12 "Como naquele cerimonial típico o sacerdote olhava pela fé ao propiciatório que não podia ver, assim o povo de Deus deve hoje dirigir suas orações a Cristo, seu grande Sumo Sacerdote que, invisível aos olhares humanos, pleiteia em seu favor no santuário celestial." 13 Os símbolos do cerimonial do santuário constituíam uma recordação constante do plano da redenção. Por exemplo:

"O incenso que subia com as orações de Israel, representa os méritos e

intercessão de Cristo. Sua perfeita justiça, que pela fé é atribuída ao Seu povo, e que unicamente pode tornar aceitável a Deus o culto de seres pecadores. Diante do véu do lugar santíssimo, estava um altar de intercessão perpétua; diante do lugar santo, um altar de expiação contínua. Pelo sangue e pelo incenso deveriam aproximar-se de Deus - símbolos aqueles que apontam para o grande Mediador, por intermédio de quem os pecadores podem aproximar-se de Jeová, e por meio de quem unicamente, a misericórdia e a salvação podem ser concedidas à alma arrependida e crente." 14 "Em tais condições, no ministério do tabernáculo e do templo que mais tarde tomou o seu lugar, ensinavam-se ao povo cada dia as grandes verdades relativas à morte e ministério de Cristo, e uma vez ao ano sua mente era transportada para os acontecimentos finais do grande conflito entre Cristo e Satanás, e para a final purificação do Universo, de pecado e pecadores." 15

A interpretação adventista do Antigo Testamento colocou Cristo em seu lugar de

destaque. Não somente relaciona Cristo com o Pai na Criação (João 1:3), como também O apresenta como o Líder de Israel no deserto (I Cor. 10:4):

"Em todas estas revelações da presença divina, a glória de Deus se manifestava por meio de Cristo. Não somente por ocasião do advento do Salvador, mas através de todos os séculos após a queda e promessa de redenção, 'Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo'. II Cor. 5:19." 16 "Desde que o Salvador verteu Seu sangue para a remissão dos pecados, e subiu ao Céu para 'comparecer por nós perante a face de Deus' (Heb. 9:24), tem estado a fluir luz da cruz do Calvário e dos lugares santos do santuário celestial. Mas a luz mais

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clara que nos é concedida não nos deve levar a desprezar a que nos primeiros tempos foi recebida mediante os tipos que indicavam o Salvador vindouro." 17 O plano de salvação de Deus é ilustrado nas disposições divinas conhecidas como os "pactos". O "antigo pacto", o contrato de Israel com Deus, estava baseado no princípio de: obedece e vive; desobedece e morre. O "novo pacto" ou 'pacto eterno" constituía um contrato de Deus com o homem. Estava estabelecido sobre "melhores promessas": as promessas de Deus; não as do homem. Incluía "promessas do perdão dos pecados, e da graça de Deus para renovar o coração, e levá-lo à harmonia com os

Em vez de cuidarmos em estabelecer nossa própria

justiça, aceitamos a justiça de Cristo. Seu sangue expia os nossos pecados. Sua obediência é aceita em nosso favor." 18 O novo pacto não representa nada senão o Evangelho. É a disposição de Deus mediante a qual Sua graça e a fé do indivíduo produzem a redenção da pessoa. Um incidente na história da peregrinação de Israel ilustra a dinâmica da redenção. Israel tinha cometido um grave pecado e estava sendo castigado pela praga de serpentes mortíferas. Moisés foi instruído a erigir uma serpente de bronze no meio do povo, para que todo aquele que olhasse para a serpente de bronze vivesse. "O levantamento da serpente de bronze deveria ensinar a Israel uma importante lição. Não poderiam salvar a si mesmos dos efeitos fatais do veneno em seus ferimentos. Apenas Deus os poderia curar. Contudo exigia-se-lhes mostrar fé no meio

que Ele provera. Deviam olhar, a fim de viverem. A sua fé é que era aceitável diante de Deus; e, olhando a serpente, mostravam a sua fé. Sabiam que não havia virtude na serpente mesma, mas era ela um símbolo de Cristo; e a necessidade de fé em Seus méritos era-lhes assim apresentada ao "Os israelitas salvaram a própria vida olhando para a serpente levantada. Aquele olhar envolvia fé. Viviam porque acreditavam na palavra de Deus, e confiavam no meio provido para o seu restabelecimento. Assim o pecador pode olhar a Cristo, e viver. Recebe perdão pela fé no sacrifício expiatório. Diferente do símbolo inerte e inanimado, Cristo tem poder e virtude em Si mesmo para curar o pecador arrependido. "Conquanto o pecador não possa salvar-se a si próprio, tem algo que fazer para conseguir a salvação. "O que vem a Mim", disse Cristo, "de maneira nenhuma o lançarei fora." João 6:37. Mas devemos ir a Ele; e, quando nos arrependemos de nossos pecados, devemos crer que Ele nos aceita e perdoa. A fé é dom de Deus, mas a faculdade de exercê-la é nossa. A fé é a mão pela qual a alma se apodera das ofertas divinas de graça e misericórdia. "Nada além da justiça de Cristo pode dar-nos direito às bênçãos do concerto da graça. Muitos há que durante longo tempo têm desejado e procurado obter essas bênçãos, mas não as têm recebido, porque têm acariciado a idéia de que podiam fazer algo para se tornarem dignos das mesmas. Eles não têm olhado fora de si, e crido que Jesus é um Salvador inteiramente capaz. Não devemos crer que nossos próprios méritos nos salvarão; Cristo é a nossa única esperança de salvação. 'Debaixo do Céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.' Atos 4:12." 19

princípios da lei de

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Os Profetas

Muitos anos depois, quando os hebreus estavam bem estabelecidos em sua terra, Samuel instituiu um sistema educacional para os líderes religiosos, que veio a ser conhecido como a escola dos profetas. Com relação ao plano de estudos destas escolhas, somos informados:

"Nos registros da História Sagrada acham-se traçadas as pegadas de Jeová. Referiam-se as grandes verdades apresentadas pelos tipos, e a fé apreendia o objetivo central de todo aquele conjunto cerimonial, a saber, o Cordeiro de Deus que deveria tirar o pecado do mundo." 20 Anos depois o profeta Elias passou por uma grande crise em sua vida. Depois de uma notável vitória sobre os profetas de Baal, passou por um período de profundo desânimo. A Sra. White registra o seguinte comentário acerca desta experiência do profeta:

"Companheiro cristão, Satanás conhece tuas fraquezas; apega-te, pois, a Jesus. Permanecendo no amor de Deus, poderás resistir a cada prova. A justiça de Cristo unicamente pode dar-te poder para te opores à onda do mal que está inundando o mundo. Acrescenta fé à tua experiência. A fé faz leve cada fardo, alivia cada fadiga. Providências que são agora misteriosas poderás compreender por contínua confiança em Deus. Anda pela fé no caminho que Ele traçar. Sobrevirão provas; mas prossegue avante. Isto fortalecerá tua fé e te preparará para o serviço." 21 Isaías, o "profeta evangélico", viu claramente os princípios da graça divina e procurou ensiná-los em seus dias:

"Pelo contemplar a seu Deus, o profeta, como Saulo de Tarso às portas de Damasco, não tinha recebido somente visão de sua própria indignidade; ao seu coração humilhado viera a certeza de perdão, pleno e livre; e ele se tornara um homem mudado. Havia visto o seu Senhor. Apanhara um lampejo da amabilidade do caráter divino. Podia testificar da transformação que se operara pela contemplação do Infinito Amor. Daí em diante ele fora inspirado com o incontido desejo de ver o transviado Israel livre do fardo e penalidade do pecado." 22 Isaías apresentou claramente o convite evangélico:

"Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar" (Isa. 55:6,

7).

Por meio do profeta Jeremias foi dada a promessa do "novo pacto", aquele que incluía um perdão completo:

"Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois

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perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei." (Jer. 31:33,

34).

Zacarias, mediante uma surpreendente alegoria, expôs a idéia da redenção:

"Em visão o profeta contemplou 'o sumo sacerdote Josué', 'vestido de vestidos sujos' (Zac. 3:1 e 3), o qual estava diante do anjo do Senhor, suplicando a misericórdia de Deus para o seu povo afligido. Enquanto ele suplicava o cumprimento das promessas de Deus, Satanás se apresentou ousadamente para resistir-lhe. Ele apresentou as transgressões de Israel como razão pela qual não poderiam ser reabilitados no favor de Deus. Reclamava-os como presa sua, e exigia que fossem entregues em suas mãos. "O sumo sacerdote não podia defender nem a si nem a seu povo das acusações de Satanás. Ele não afirma que Israel esteja isento de faltas. Em vestes sujas, simbolizando os pecados do povo - pecados que ele levava como seu representante - ele está perante o anjo, confessando os pecados deles, mas apontando para o seu arrependimento e humilhação, e descansando na misericórdia de um Redentor que perdoa o pecado. Em fé ele reclama as promessas de Deus. "Então o anjo, que é o próprio Cristo, o Salvador dos pecadores, reduz ao silêncio

o acusador do Seu povo, declarando: 'O Senhor te repreenda, ó Satanás; sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda: não é este um tição tirado do fogo?' Zac. 3:2. Longo tempo havia Israel permanecido na fornalha da aflição. Por causa de seus pecados havia sido quase consumido no fogo que Satanás e seus agentes haviam acendido para a sua destruição; mas Deus tinha agora estendido a Sua mão para tirá- los.

"Havendo sido aceita a intercessão de Josué, é dada a ordem: 'Tirai-lhe estes vestidos sujos'; e a Josué o anjo diz: 'Eis que tenho feito com que passe de ti a tua iniqüidade, e te vestirei de vestidos novos.' 'E puseram uma mitra limpa sobre a sua '

Zac. 3:4 e 5. Seus próprios pecados e os de seu

cabeça, e o vestiram de vestidos

povo foram perdoados. Israel fora vestido 'de vestidos novos' - a justiça de Cristo a eles imputada. A mitra posta sobre a cabeça de Josué era como a que os sacerdotes usavam, e levava a inscrição: 'Santidade ao Senhor' (Êxo. 28:36), significando que não obstante suas anteriores transgressões, ele estava agora qualificado para ministrar perante Deus em Seu santuário "Foi pela fé no Salvador vindouro que Josué e seu povo tinham recebido o

perdão. Pela fé em Cristo haviam eles sido restaurados no favor de Deus. Pela virtude de Seus méritos, se andassem nos Seus caminhos e guardassem os Seus estatutos, seriam "homens portentosos", honrados como os escolhidos do Céu entre as nações da

"A controvérsia se repete em relação a casa alma que é liberta do poder do mal, e cujo nome é escrito no livro da vida do Cordeiro. Jamais é alguém recebido na família de Deus sem que se exalte a decidida resistência do inimigo. Mas Aquele que foi então

a esperança de Israel, sua defesa, justiça e redenção, é a esperança da igreja "O homem não pode, em sua própria força, enfrentar as acusações do inimigo. Com suas vestes manchadas de pecado e em confissão de culpa, ele está perante Deus.

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Mas Jesus, nosso Advogado, apresenta uma eficaz alegação em favor de todo aquele que, pelo arrependimento e fé, confiou a guarda de sua alma a Ele. Ele defende sua causa, e mediante os poderosos argumentos do Calvário, derrota o seu acusador. Sua perfeita obediência à lei de Deus deu-Lhe poder no Céu e na Terra, e Ele reclama de Seu Pai misericórdia e reconciliação para com o homem culpado. Ao acusador do Seu povo Ele declara: 'O Senhor te repreenda, ó Satanás. Estes são os que foram comprados com o Meu sangue, tição tirado do fogo.' E aos que nEle descansam em fé, Ele dá a certeza: 'Eis que tenho feito com que passe de ti a tua iniqüidade, e te vestirei de vestidos novos.' Zac. 3:4. "Todos os que se vestiram da justiça de Cristo estarão perante Ele como escolhidos, e fiéis e leais. Satanás não tem poder para arrancá-los da mão do Salvador. Nenhuma alma que em penitência e fé reclame a Sua proteção, permitirá Cristo que passe para o poder do "Como Josué suplicou perante o anjo, assim a igreja remanescente, com quebrantamento de coração e inabalável fé, suplicará perdão e livramento por meio de Jesus, seu Advogado. Estão inteiramente cônscios da pecaminosidade de suas vidas, vêem sua fraqueza e indignidade; e estão a ponto de "Mas conquanto os seguidores de Cristo tenham pecado, eles não se entregaram ao controle das instrumentalidades satânicas. Arrependeram-se de seus pecados, e procuraram o Senhor em humildade e contrição; e o Advogado divino pleiteia por eles. Aquele que tem sido abusado ao máximo pela ingratidão deles, Aquele que conhece os seus pecados e também a sua penitência, declara: 'O Senhor te repreenda, ó Satanás. Eu dei a Minha vida por estas almas. Eles estão gravados na palma das Minhas mãos. Eles podem ter imperfeições de caráter; podem ter falhado em seus esforços; mas se arrependeram, e Eu os perdoei e aceitei.' "As vestes imaculadas da justiça de Cristo são postas sobre os tentados filhos de Deus. Provados e fiéis o desprezado remanescente está vestido de vestes gloriosas, para não mais serem aviltados pelas corrupções do mundo. Seus nomes estão conservados no livro da vida do Cordeiro, inscritos entre os fiéis de todos os tempos."

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Um Olhar ao Futuro

Quase no fim do seu livro Profetas e Reis, a Sra. White inclui um capítulo intitulado "A Vinda de um Libertador". Neste capítulo a autora resume as referências e as profecias do Antigo Testamento que apontam para a vinda de Cristo como o Salvador. Alguns parágrafos extraídos dele serão suficientes para ilustrar a maneira como o Evangelho da salvação é destacado no Antigo Testamento:

"Através dos longos séculos de "angústia e escuridão" (Isa. 8:22) que marcaram a história da humanidade desde o dia em que nossos primeiros pais perderam o seu lar no Éden até o tempo em que o Filho de Deus apareceu como o Salvador dos pecadores, a esperança da raça caída esteve centralizada na vinda de um Libertador para livrar a homens e mulheres do cativeiro do pecado e da sepultura." 24

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O primeiro anúncio da vinda da Redentor está na promessa feita a Adão e Eva

registrada em Gênesis 3:15. Nossos primeiros pais foram levados a compreender que lhes seria "permitido um período de graça, durante o qual, pela fé no poder de Cristo para salvar, poderiam tornar-se uma vez mais filhos de Deus." 25

Esta promessa tornou-se a fonte da esperança do homem através de todos os séculos escuros que se seguiram:

"Esta esperança de redenção por meio do advento do Filho de Deus como Salvador e Rei, jamais se extinguiu no coração dos homens. Desde o início tem havido alguns cuja fé tem alcançado além das sombras do presente penetrando as realidades do futuro. Adão, Sete, Enoque, Matusalém, Noé, Sem, Abraão, Isaque e Jacó – por meio destes e outros homens dignos o Senhor tem preservado as preciosas revelações

de Sua vontade. Assim foi que aos filhos de Israel, povo escolhido por cujo intermédio devia ser dado ao mundo o Messias prometido, Deus partilhou o conhecimento dos reclamos de Sua lei, e da salvação a ser realizada graças ao sacrifício expiatório do Seu amado Filho." 26

A esperança do Messias que viria nas nuvens foi mantida viva por meio de

Moisés e os profetas. Passagens como a de Isaías 53 apontam inequivocamente a Cristo como o Salvador. Entre muitas outras profecias messiânicas de Isaías se encontra a predição de Isaías 61:1, 2, aquela que Jesus empregou como o texto de Seu primeiro sermão que se tem registro. Esta passagem descreve a missão de Jesus como

alguém que traz "boas novas", como quem sara os quebrantados de coração e dá liberdade aos presos. Na profecia de Daniel é revelado o tempo quando viria Aquele que haveria de "expiar a iniqüidade" e "trazer a justiça eterna" (Dan. 9:24). Esta profecia é algo mais que uma lição de aritmética. Aponta à consumação do Evangelho: a vinda do Salvador. É isto precisamente o que dá significado à profecia. Depois de mencionar as predições do Antigo Testamento acerca da vinda de Cristo, a Sra. White conclui seu capítulo com estas palavras: "Nosso Redentor abriu o caminho, para que o mais pecador, o mais necessitado, o mais oprimido e desprezado, possa encontrar acesso ao Pai." 27 À medida que os séculos transcorreram e o momento da vida de Cristo se aproximou, produziu-se um fenômeno religioso conhecido com o nome de "judaísmo". Foi este o sistema que Cristo enfrentou e ao qual opôs resistência durante Seu ministério. A Sra. White comenta a respeito deste corrente religiosa dos últimos tempos do Antigo Testamento:

"Como nação, o povo de Israel, conquanto desejando o advento do Messias, estava de tal modo separado de Deus no coração e na vida que não podia alcançar verdadeira concepção do caráter ou missão do prometido Redentor. Em lugar de desejar a redenção do pecado, e a glória e paz da santidade, tinham o coração posto no libertamento de seus inimigos nacionais, e a restauração do poder temporal." 28

O livro Profetas e Reis termina com um vislumbre da vitória final da igreja de

Deus. Contemplando os dias que precederiam a segunda vinda de Cristo, a autora diz:

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"Revestidos da armadura da justiça de Cristo, a igreja deve entrar em seu conflito final." 29 Depois de descrever as alegrias que serão experimentadas na Terra feita nova, a autora exclama:

"Companheiro peregrino, nós estamos ainda em meio às sombras e tumultos das

atividades terrenas; mas logo nosso Salvador deverá aparecer para nos dar livramento

e repouso. Olhemos pela fé ao bendito futuro, tal como a mão de Deus o pinta. Aquele

que morreu pelos pecados do mundo, está franqueando as portas do Paraíso a todo que nEle crê." 30 De acordo com o que temos visto, a nota tônica dos livros Patriarcas e Profetas e Profetas e Reis, é a fé salvadora em Cristo. Esta ênfase reflete o tema do Antigo

Testamento. Por meio da revelação escrita, as profecias, os cânticos e as alegorias, Deus procurou revelar a Seu povo da antigüidade a grande verdade de que "a salvação

é do Senhor". A graça divina estava manifestada, não tão claramente como no Novo

Testamento, segundo pode ser apreciado em Hebreus capítulo 11. Os personagens do Antigo Testamento que receberão a imortalidade, serão os receptores da mesma graça e os poderes da mesma fé que seus irmãos do Novo Testamento. Sua salvação foi garantida antecipadamente pelo sacrifício realizado no Calvário. Eles viram somente por meio de figuras e símbolos o plano divino para sua salvação, porém Deus aceitou sua entrega e honrou sua confiança. "Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: Senhor, Justiça Nossa." (Jer. 23:5, 6). Deste modo, a missão de Cristo como Salvador da humanidade resplandece desde os tempos mais antigos.

Referências

1.

White, Ellen G., Patriarcas e Profetas, pág. 34.

2.

Idem, pág. 63.

3.

Idem, pág. 64.

4.

Idem, pág. 72.

5.

Idem, pág. 123.

6.

Idem, pág. 125.

7.

Idem, pág. 203.

8.

Idem, pág. 240.

9.

Idem, pág. 247.

10.

Idem, pág. 277.

11.

Idem, pág. 330.

12.

Idem, pág. 349.

13.

Idem, pág. 353.

14.

Ibidem.

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16. Idem, pág. 366.

17. Idem, págs. 367, 368.

18. Idem, pág. 372.

19. Idem, págs. 430, 431.

20. Idem, pág. 594.

21. E. G. White, Profetas e Reis, pág. 175.

22. Idem, pág. 314.

23. Idem, pág. 583-591.

24. Idem, pág. 681.

25. Ibidem.

26. Idem, págs. 682, 683.

27. Idem, pág. 702.

28. Idem, pág. 709.

29. Idem, pág. 725.

30. Idem, págs. 731, 732.

O EVANGELHO NOS EVANGELHOS

"TODO o Novo Testamento, os Evangelhos tanto como as epístolas, mostra a Jesus de Nazaré como alguém que desde o princípio Se apresentou a Si mesmo, e com plena justificação, como o objeto da fé para os homens pecadores." 1 Tem-se suposto freqüentemente que toda a informação acerca da justificação pela fé se encontra nas epístolas de Paulo, especialmente em Romanos e Gálatas. Entretanto, vimos a riqueza do Antigo Testamento em suas referências sobre o método de Deus para salvar os homens, e veremos que a mais abundante fonte sobre a doutrina da salvação pela fé se acha nos quatro evangelhos. Este ponto de vista não

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tem o propósito de diminuir a importância da contribuição de Paulo. Paulo, de modo notável, interpretou o Evangelho cristão de acordo com as pautas do pensamento de sua época. Porém o Evangelho que ele interpretou de modo tão acertado se encontra em sua plenitude nos Evangelhos. A compreensão deste princípio é de valor incalculável para os que desejam apresentar com clareza as verdades da salvação. Por exemplo, a parábola do filho pródigo pode falar mais diretamente ao coração do homem comum que as mais brilhantes exposições sobre a lei e a graça. Os milagres de Jesus podem ensinar a fé com mais eloqüência do que qualquer tratado abstrato sobre a fé e as obras. E nenhuma porção da Escritura Sagrada apresenta de modo mais completo os princípios da fé salvadora do que o Evangelho de João. O autor tem a convicção de que os cristãos compreenderiam e apreciariam melhor a salvação pela fé em Cristo se explorassem os tesouros das quatro Evangelhos.

Os Milagres Ensinam a Fé que Salva

Certo dia, quando Jesus e uma multidão integrada por seus seguidores saíam de Jericó, um cego chamado Bartimeu "estava assentado à beira do caminho". Quando soube que Jesus estava perto dali, começou a dizer-Lhe: "Tem misericórdia de mim!" Jesus chamou a Bartimeu e lhe perguntou: "Que queres que eu te faça?" Bartimeu respondeu: "Mestre, que eu torne a ver." Jesus respondeu: "Vai, a tua fé te salvou."

Dois fatores intervieram na restauração deste homem: a graça de Jesus e a fé de Bartimeu. E assim como Bartimeu pôde ver graças à sua fé em Jesus, assim também os que estão cegos espiritualmente são salvos pela fé em Jesus. (Mar. 10:46-52) Jesus e três de Seus discípulos desciam do monte da transfiguração. Fora uma experiência maravilhosa. Pedro, Tiago e João tiveram uma visão da glória do céu. Mas ao aproximar-se dos demais discípulos tiveram a sensação desagradável de que algo andava mal. Uma multidão havia se reunido entre a qual estavam os acusadores fariseus e os nove discípulos. A atenção de todos se dirigia a um menino que estava deitado e acometido por alguma dificuldade. O pai do garoto explicou a Jesus que seu filhos estava sob a influência de um espírito que lhe provocara muita angústia. Os discípulos não puderam lhe prestar nenhuma ajuda. O menino foi levado até Jesus, e imediatamente se iniciou um diálogo interessante:

Jesus: "Há quanto tempo isto lhe sucede?" Pai: "Desde a infância, respondeu; e muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar; mas, se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda- nos."

Jesus: "Tudo é possível ao que crê." Pai: "Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!" (Mar. 9:14-29).

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Depois da confissão de fé pelo pai, Jesus lhe apresentou seu filho "perfeitamente são de espírito e de corpo". 2

Ao comentar este milagre, a Sra. White faz a seguinte aplicação à experiência da

salvação:

" 'Se Tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos.' Mar. 9:22. Quanta alma oprimida pelo pecado tem repetido esta súplica! E a todos responde

o compassivo Salvador: 'Se tu podes crer; tudo é possível ao que crê.' Mar. 9:23. É a fé que nos liga ao Céu, e nos traz força para resistir aos poderes das trevas. Deus providenciou, em Cristo, meios para vencer todo pecaminoso traço de caráter, e resistir a toda tentação, por mais forte que seja. Mas muitos sentem que lhes falta a fé,

e assim permanecem afastados de Cristo. Que essas almas, em sua impotente

indignidade, se lancem sobre a misericórdia de seu compassivo Salvador. Não olheis

para vós mesmos, mas para Cristo. Aquele que curava os doentes e expulsava os

demônios, quando andava entre os homens, é ainda hoje o mesmo poderoso Redentor.

A

fé vem pela palavra de Deus. Apegai-vos, pois, a Sua promessa: "O que vem a Mim

de

maneira nenhuma o lançarei fora." João 6:37. Lançai-vos a Seus pés, com o clamor:

"Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade." Mar. 9:24. Não podeis perecer nunca, enquanto assim fizerdes - nunca." 3

Durante o ministério de Jesus na Galiléia, um centurião romano acudiu a Ele pedindo ajuda para seu servo atacado pela paralisia. Jesus Se dispôs a ir a sua casa e curar o servo. O centurião manifestou que não era digno que Jesus pousasse sob seu teto. "Apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado". Jesus Se "maravilhou" da fé deste romano. Disse: "Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta." Como resultado de sua confiança, Jesus disse ao centurião: "Vai-te, e seja feito conforme a tua fé." (Mat. 8:5-13).

"Os anciãos judeus que haviam recomendado o centurião a Cristo, tinham mostrado quão longe estavam de possuir o espírito do evangelho. Não reconheciam que nossa grande necessidade é nosso único título à misericórdia divina. Em sua justiça própria, louvaram o centurião por causa do favor que manifestara para com "nossa nação". Mas o centurião disse de si mesmo: "Não sou digno." Seu coração fora tocado pela graça de Cristo. Viu a própria indignidade; não temia, no entanto, pedir auxílio. Não confiava na própria bondade; o argumento que apresentava era sua grande necessidade. Sua fé apegou-se a Cristo em Seu verdadeiro caráter. Não cria nEle apenas como operador de milagres, mas como o amigo e salvador da humanidade. "É assim que todo pecador, se deve aproximar de Cristo. 'Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a Sua misericórdia, nos salvou.' Tito 3:5. Quando Satanás vos diz que sois pecador, e não podeis esperar receber bênçãos de Deus, dizei-lhe que Cristo veio ao mundo para salvar pecadores. Nada temos que nos recomende a Deus; mas a justificação em que podemos insistir agora e sempre, é nossa

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condição de completo desamparo, o qual torna uma necessidade Seu poder redentor. Renunciando a toda confiança própria, podemos olhar à cruz do Calvário e dizer:

" 'O preço do resgate eu não o tenho; à Tua cruz prostrado me sustenho'." 4

Todo tipo de pessoas experimentaram os resultados do ministério vivificador de Cristo. Certa ocasião um dirigente de uma sinagoga, chamado Jairo, solicitou a Jesus que fosse à sua casa e curasse sua filhinha. Manifestou sua confiança dizendo a Jesus:

"Vem, impõe as mãos sobre ela, para que seja salva, e viverá". Enquanto se dirigiam à casa de Jairo chegou um mensageiro com a notícia de que a menina tinha morrido. "Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente." Isto foi um tremendo desafio para a fé do pai. Quando chegaram à casa, Jesus levou junto Pedro, Tiago e João, e o pai e a mãe; junto se dirigiram à cama onde estava a menina morta. Ali foi realizado um milagre. (Mar. 5:22, 23, 35-43.) "Crê somente", Jesus dissera ao pai. Que recompensa para a fé! Esta mesma fé proporcionará vida espiritual aos que estão mortos no pecado; e essa mesma fé, com o tempo, ressuscitará para a vida eterno os que morreram na fé. Nada é impossível para a fé. Até a morte cede diante da crença em Cristo. Enquanto Jesus Se dirigia à casa de Jairo, uma mulher que estivera afligida durante doze anos, abriu caminho entre a multidão e tocou a veste de Jesus. “Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada.” Jesus percebeu seu toque e reconheceu sua fé: “Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal.” Comenta a Sra. White: “Concentrara-se, naquele único toque, toda a fé de sua vida”. 5 Ao descrever este incidente ocorrido na vida de Jesus, a Sra. White formulou uma de suas declarações mais profundas sobre a fé que salva:

“A turba admirada que se comprimia em torno de Jesus, não sentira nenhum acréscimo de poder vital. Mas, quando a sofredora mulher estendeu a mão para tocá- Lo, crendo que se restabeleceria, experimentou a vivificadora virtude. Assim nas coisas espirituais. Falar de religião de maneira casual, orar sem ter a alma faminta e viva fé, nada aproveita. A fé nominal em Cristo, que O aceita apenas como o Salvador do mundo, não pode nunca trazer cura à alma. A fé que opera salvação, não é mero assentimento espiritual à verdade. Aquele que espera inteiro conhecimento antes de exercer fé, não pode receber bênção de Deus. Não basta crer no que se diz acerca de Cristo; devemos crer nEle. A única fé que nos beneficiará, é a que O abraça como Salvador pessoal; que se apropria de Seus méritos. Muitos têm a fé como uma opinião. A fé salvadora é um ajuste pelo qual aqueles que recebem a Cristo se unem a Deus em concerto. Fé genuína é vida. Uma fé viva significa acréscimo de vigor, segura confiança pela qual a alma se torna uma força vitoriosa.” 6 Têm sido escritas milhares de páginas sobre a fé, mas poucas vezes o significado da fé tem sido apresentado de modo tão claro e belo como nesta citação. Uma análise da declaração revela que a fé é mais que um interesse casual nas coisas religiosas, é

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mais que uma oração formal, é mais que uma crença nominal em Cristo, é mais que um sentimento intelectual pela verdade, é mais que um conhecimento. A fé constitui uma revelação pessoal com Cristo, uma “transação” com Deus; a fé é vida. E o resultado da fé é força, confiança e vitória. Tudo isso foi sugerido pelo milagre da cura da mulher que tocou as vestes de Jesus. O capítulo 9 de João relata uma história interessante de um jovem cego de nascimento, a quem Jesus curou. Essa cura provocou muita agitação na comunidade. Os “vizinhos” estavam ansiosos por saber como ele tinha recobrado a visão. Os fariseus estavam indignados devido ao fato de o milagre ter sido efetuado no sábado, e insistiram que quem realizara o milagre não podia ser de Deus porque tinha violado o sábado. Os pais do jovem recusaram comprometer-se temendo a excomunhão. O jovem sabia bem pouco sobre a pessoa que o tinha restaurado, mas tinha certeza de que agora podia ver. Supôs que seu benfeitor devia ser de Deus uma vez que tinha realizado esse milagre. Os fariseus, encolerizados, o expulsaram. Em seguida Jesus apareceu em cena e fez esta pergunta ao jovem: “Crês tu no Filho do Homem?” O jovem respondeu: “Quem é, Senhor, para que eu nele creia?” Jesus replicou: “Já o tens visto, e é o que fala contigo.” O jovem exclamou: “Creio, Senhor”. (João 9:35-38). “Não somente lhe fora restaurada a visão natural, mas haviam-lhe sido abertos os olhos do entendimento. Cristo lhe fora revelado à alma, e ele O recebeu como o Enviado de Deus.” 7 A mesma graça que operou em benefício deste jovem é aquela por meio da qual os homens são salvos das trevas espirituais.

Os seis milagres de Jesus que analisamos constituem exemplos que indicam como a maior parte dos Seus milagres são lições objetivas da fé. Podemos considerar o primeiro milagre de Jesus realizado nas bodas de Caná, e vemos como inspirou fé nele. Podemos mencionar a cura do filho do oficial do rei levado a cabo em Caná, quando ele e toda a sua casa creram em Jesus. Podemos lembrar desse dramático dia em Cafarnaum, quando um paralítico foi baixado do teto para que Jesus pudesse curá- lo, e que Jesus curou não somente o corpo mas também a alma doente. Poderíamos reconstruir a história da noite de tempestade no mar, quando Jesus, antes de manifestar Seu poder, disse a Seus discípulos: “Como é que não tendes fé?” (Mar. 4:40). A Sra. White faz o seguinte comentário com relação a este milagre:

“Quantas vezes se repete em nós a experiência dos discípulos Quando as tempestades das tentações se levantam, e fuzilam os terríveis relâmpagos, e as ondas se avolumam por sobre nossa cabeça, sozinhos combatemos contra a tormenta, esquecendo-nos de que existe Alguém que nos pode valer. Confiamos em nossa própria força até que nos foge a esperança, e vemo-nos prestes a perecer. Lembramo- nos então de Jesus, e se O invocarmos para nos salvar, não o faremos em vão. Embora nos reprove magoado a incredulidade e a confiança em nós mesmos, nunca deixa de nos conceder o auxílio de que necessitamos. Seja em terra ou no mar, se, temos no coração o Salvador, nada há a temer. A fé viva no Redentor serena o mar da vida, e Ele nos guardará do perigo pela maneira que sabe ser a melhor.” 8

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O maior milagre de Jesus, a ressurreição de Lázaro, também é um exemplo culminante da graça divina. Notemos a fé vacilante de Marta manifestada em suas

palavras: “Senhor, se estiveras aqui, não teria morrido meu irmão. Mas também sei

que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus to

Eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus

que devia vir ao mundo.” Marta tinha fé? Sim, porém não era uma fé perfeita, porque quando Jesus disse:

“Tirai a pedra” foi Marta quem se opôs. Então Jesus replicou brandamente: “Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?” Nesse drama, a tenção atingiu o ponto culminante quando Jesus Se dirigiu a Seu Pai. Pediu que Sua oração fosse atendida “para que creiam que tu me enviaste”. A oração foi atendida. “Saiu aquele que estivera morto”. (João 11:1-46). Na experiência do centurião romano cujo servo foi curado, não existia o antecedente de uma fé notável. Evidentemente, Jesus buscava construir a fé dos discípulos, de Marta e de Maria. Mas a graça divina freqüentemente responde a uma fé imperfeita e vacilante. A graça divina freqüentemente produz fé. Enquanto que num sentido a operação da graça divina está limitada pela imperfeição da fé do homem, é encorajador notar que freqüentemente Deus recompensa uma fé pequena com uma abundante manifestação de Sua graça. A sinceridade da fé parece ter mais importância que Sua quantidade, se é que podemos empregar a expressão “quantidade” para descrever a fé. A ressurreição de Lázaro tinha outro propósito. “Aquele poderoso milagre era a suprema prova dada por Deus aos homens, de que Ele enviara Seu Filho ao mundo para sua salvação.” 9 A graça de Cristo manifestada a favor de Lázaro e de suas irmãs, era uma prova eloqüente do amor do Salvador pelo homem e de Seu desejo de que este tivesse vida eterna por meio dEle, que dissera: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Não é preciso conhecer os termos teológicos para compreender a justificação pela fé. Basta observar a Jesus no Seu ministério. Olhai-O purificando os leprosos, restaurando a vista aos cegos, dominando a tempestade e ressuscitando os mortos. Depois de presenciar estas manifestações de amor e poder divinos, não é difícil crer que há salvação para o pecador que se aproxima do Salvador com fé simples. A fé não é tão complicada como alguns a fazem parecer. Consiste na atitude do homem ou mulher que estão preparados e dispostos a receber o que Cristo lhes ofereceu. Significa a submissão à vontade de Deus e a entrega a Cristo. Consiste em tirar o eu do centro da vida e colocar a Cristo nela. “Certamente no fundo, a fé é em certo sentido algo muito simples; significa simplesmente abandonar o inútil esforço para conseguir acesso à presença de Deus e se aceita o dom da salvação que Cristo oferece com tanta plenitude e abundância.” 10 Este princípio é muito bem ilustrado nos milagres de nosso Mestre. Há tão-só um passo da cura dos leprosos, da restauração dos cegos, da cura dos endemoninhados e da ressurreição dos mortos à salvação da alma. A graça de Deus e a fé do homem se unem na realização destas coisas.

há de ressurgir na ressurreição

Eu sei

que ele

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As Parábolas Ilustram a Fé que Salva

Três parábolas de Jesus servirão para mostrar de que modo o Mestre, por meio das histórias que referiu, proclamou Seu método de salvação pela fé. Em Lucas 18:9- 14 encontra-se uma de suas histórias esclarecedoras e cheias de interesse humano, que algumas vezes tem sido chamado “os dois adoradores”. O fariseu nesta parábola constitui um símbolo da salvação pelas obras. “Não atenta para o caráter semelhante ao de Deus, nem para o coração cheio de amor e misericórdia. Dá-se por contente com uma religião que só se refere à vida

exterior. Sua justiça lhe é própria - é o fruto de suas próprias obras. E é julgada por um

padrão

Volta para sua casa destituído da bênção divina.” 11

O

publicano constitui um símbolo da salvação pela fé:

“Sabia que em si não tinha méritos para recomendá-lo a Deus, e em absoluto desespero, clamou: ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!’ Luc. 18:13. Não se comparou com outros. Esmagado por um senso de culpa, estava como que só, na presença de Deus. Seu único desejo era alcançar paz e perdão; sua única súplica, a bênção de Deus. E foi abençoado. ‘Digo-vos’, disse Cristo, ‘que este desceu justificado para sua casa, e não aquele.’ Luc. 18:14.” 12 “A oração do publicano foi ouvida porque denotava submissão, empenhando-se para apoderar-se da Onipotência. O próprio eu nada parecia ao publicano senão vergonha. Assim precisa ser considerado por todos os que buscam a Deus. Pela fé – fé que renuncia a toda confiança própria – precisa o necessitado suplicante apropriar-se do poder infinito.” 13 De que modo mais gráfico podem ser apresentados o caminho falso e o caminho verdadeiro quanto à salvação? De um lado está o fariseu com sua exaltação própria, seu orgulho espiritual, sua dependência das obras e suas cerimônias religiosas. Do outro lado está o publicano, que não tinha nada em que confiar, a não ser na graça divina. E este pecador arrependido foi “justificado” em vez do outro “santo” cheio de confiança própria.

A segunda parábola que tem particular significado com relação ao tema em foco,

é a parábola da veste nupcial relatada em Mateus 22. Um rei realizou uma festa de bodas para seu filho, e convidou muitas pessoas.

Quando os convidados não se apresentaram, o rei enviou seus servos “pelos caminhos”, e como resultado, pessoas de toda condição social se reuniram para a festa. Quando o rei entrou para ver os convidados, viu um homem que não usava o traje provido para os convidados à boda. Esse homem não tinha desculpa nem motivo que justificasse sua falta, de modo que foi expulso da festa. “Pela veste nupcial da parábola é representado o caráter puro e imaculado, que os

A justiça de Cristo e Seu caráter

verdadeiros seguidores de Cristo

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“Somente as vestes que Cristo proveu, podem habilitar-nos a aparecer na presença de Deus. Estas vestes de Sua própria justiça, Cristo dará a todos os que se arrependerem e crerem.” 15 “Este vestido fiado nos teares do Céu não tem um fio de origem humana. Em Sua humanidade, Cristo formou caráter perfeito, e oferece-nos esse caráter.” 16 “Ao nos sujeitarmos a Cristo, nosso coração se une ao Seu, nossa vontade imerge em Sua vontade, nosso espírito torna-se um com Seu espírito, nossos pensamentos serão levados cativos a Ele; vivemos Sua vida. Isto é o que significa estar trajado com as vestes de Sua justiça.” 17 “O homem que foi à ceia sem a veste de bodas representa a condição de muitos hoje em dia. Professam ser cristãos e reclamam as bênçãos e privilégios do evangelho; contudo não sentem a necessidade de transformação de caráter. Nunca sentiram verdadeiro arrependimento dos pecados. Não reconhecem a necessidade de Cristo, nem exercem fé nEle. Não venceram suas inclinações para a injustiça, herdadas e cultivadas. Contudo pensam ser bastante bons em si mesmos, e confiam em seus próprios méritos em vez de nos de Cristo. Como ouvintes da Palavra, vão ao banquete, mas não tomaram a veste da justiça de Cristo.” 18 A interpretação que a Sra. White faz desta parábola mostra claramente que considerava o “vestido de bodas” como um símbolo não apenas do perdão mas também dos frutos da experiência tal como se manifesta na vida cristã. “Quando uma alma recebe a Cristo, recebe também o poder de viver a vida de Cristo.” 19 Assim, a experiência do cristão, do princípio ao fim, é descrita como um dom de Deus. Pelo poder divino, aceito pela fé, o indivíduo é redimido e seu caráter transformado.

O terceiro exemplo da doutrina da justificação pela fé tirado das parábolas de Jesus vem do relato inimitável do filho pródigo. Nesta parábola se encontra cada um dos fatores da experiência da salvação. Em primeiro lugar, o filho está extraviado e egoísta, e o pai amante, representando o homem e Deus. Em segundo lugar, está o fato do pecado simbolizado pela ingratidão, o egoísmo, a complacência e a imoralidade do filho perdido. Seus pecados eram os mesmos da humanidade. Em terceiro lugar, estão os resultados do pecado: fome, remorso, desilusão e desespero. Estas experiências são um retrato natural da vida! Em quarto lugar aparece o despertamento do filho pródigo. “Caindo em si”, refletiu. Compreendeu sua pecaminosidade e sua necessidade, e percebeu qual era a solução correta ao seu problema. Em quinto lugar, o jovem tomou uma decisão e agiu de acordo com ela. Disse: “Levantar-me-ei, e irei”, e “levantando-se, foi para seu pai”. Esta decisão e esta ação foram a maneira como ele manifestou sua fé. Estava levantando-se; estava colocando-se numa posição onde o pai pudesse ajudá-lo. Estava fazendo a entrega de si mesmo que tornaria possível sua restauração. Em sexto lugar, seu pai o viu e correu ao seu encontro. Isto constitui um belo símbolo da graça divina: o amor expresso a favor de alguém que não merece. Em sétimo lugar, o filho pródigo disse: “Pequei”. Aqui temos o arrependimento que é um

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passo vital na redenção. Em oitavo lugar o pai colocou sobre o filho uma veste para cobrir seus farrapos, pôs um anel na mão e sapatos nos pés. Com isto se faz referência à justificação. Foi aceito. Voltou a fazer parte da família. As evidências de seu extravio ficaram cobertas pelo amor. Em nono lugar, o irmão mais velho, fazendo alarde da justiça própria, se queixou. Isto constitui uma representação da salvação pelas obras. O irmão mais velho estava orgulhoso de seu fiel serviço e de sua retidão moral, porém não estava disposto a abrir o coração a seu irmão arrependido. (Luc.

15:11-32).

Falta alguma coisa nesta descrição verbal do processo da salvação? Nesta história simples e confortadora existe mais teologia do que nos livros de muitos eruditos. A igreja armada só com esta parábola tomada da experiência humana, pode explicar seu Evangelho da salvação pela fé em termos tais que até o ignorante pode compreender e os instruídos podem apreciar.

A Fé no Evangelho de João

Um dos estudos mais fascinantes a respeito da doutrina da salvação está representado pelo uso do verbo grego pisteúo (eu creio) e seus derivados no Evangelho de João. Esta palavra, em suas diversas formas, ocorre 96 vezes no quarto Evangelho. Convém lembrar que em grego não há diferença entre “fé” e “crença”, e o verbo pisteúo significa “eu creio”. Os antecedentes da fé descrita por João nos seus aspectos mais profundos vêm à luz em João 20. Maria Madalena tinha visto a tumba vazia e tinha levado as novas a Pedro e João. Os doze discípulos correram até a tumba, e João chegou primeiro. João se abaixou e olhou para dentro, mas quando Pedro chegou, entrou no sepulcro. João o seguiu, e os dois se viram frente à evidência da ressurreição do Senhor. Neste ponto, João descreve sua reação por meio de uma declaração significativa:

“Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu” (João 20:8). Durante todo o ministério de Jesus, João tinha sido um discípulo fiel, e no entanto agora reconhecia que Jesus não apenas era seu Mestre mas também seu Senhor ressuscitado. A crença de João nesse dia memorável, iniciou uma reação em cadeia que jamais terminou. Não decorreu muito tempo até que Maria Madalena também creu; logo os discípulos que iam para Emaús creram; ato contínuo, o grupo reunido no cenáculo creu. Esse processo culminou na formação da igreja cristã. Quando ocorreram as primeiras aparições do Senhor, Tomé estava ausente. Informado que o Senhor ressuscitara, declarou: “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e ali não puser o dedo, e não puser a mão no seu lado, de modo algum acreditarei” (João 20:25). Uma semana depois, Jesus voltou a apareceu ao grupo, que agora incluía Tomé. A esse discípulo foi dada então a oportunidade de examinar as evidências físicas da ressurreição tal como ele tinha pedido; e Jesus lhe admoestou:

“Não sejas incrédulo, mas crente” (João 20:27). Esta passagem não inclui os 96 usos da expressão pisteúo em João, porque neste caso são empregadas duas formas adjetivadas ápistos (sem fé) e pístos (crente). Tomé,

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convencido pelo que vira, fez uma confissão de fé mais abrangente do que a que tinham feito os demais discípulos. Contemplando ao Senhor ressuscitado, exclamou:

“Senhor meu e Deus meu!” Jesus replicou: “Porque me viste, creste? Bem- aventurados os que não viram e creram” (João 20:28, 29). Os últimos versículos de João 20 terminam seu grande tema da fé: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:30, 31). Esta declaração final, como veremos, contém o tema do Evangelho de João: “o crer produz vida”. Não é este o Evangelho em sua forma mais simples? A crença, ou a fé, em Cristo tira do crente a sentença de morte, abre o caminho para a “vida mais abundante” neste mundo, e proporciona a certeza da vida na Nova Terra. Estes benefícios saudáveis da fé são fundamentalmente benefícios da graça divina. A fé é tão-só a atitude humana que possibilita a recepção da graça de Deus. No capítulo 20 de João vimos os seis últimos casos do emprego do verbo “crer” neste Evangelho. Agora iremos ao início do livro e examinaremos os demais textos, que são numerosos, onde também se usa esta palavra. No primeiro capítulo do livro se usam três vezes o verbo “crer”. O versículo 7, referindo-se a João Batista, diz: “Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele.” O versículo 12 constitui uma revelação do princípio evangélico da salvação pela fé: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome.” A adoção como membros da família de Deus, que é outra maneira de descrever a salvação, é reservada aos que crêem. No final deste capítulo se encontra o incidente do chamado de Natanael. O novo discípulo expressou sua confiança em Jesus, a qual era inspirada pelo conhecimento profundo manifesto pelo Mestre, da vida e experiência de Natanael:

“Ao que Jesus lhe respondeu: Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás. E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (João 1:50, 51). Parecia que Jesus desejava que seus recém chamados discípulos compreendiam a razão fundamental de sua fé nEle. Os três casos do verbo “crer” que aparecem no capítulo 2 ocorrem de uma forma mais ou menos acidental na corrente principal de pensamento. Depois que Jesus efetuou Seu primeiro milagre, é dito que “os Seus discípulos creram nEle” (João 2:11). A porção seguinte do capítulo descreve a purificação do templo, e inclui esta predição de Jesus: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei”, e a explicação foi que Ele “se referia ao santuário do seu corpo” (João 2:19, 21). A esta declaração segue o seguinte comentário: “Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus” (v. 22). Esta passagem indica a maneira como se estabelece a fé por meio da evidência de predições cumpridas.

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O versículo 23 do capítulo 2 constitui nada mais que uma referência ao fato de

que muitos em Jerusalém, durante a festa da Páscoa, "vendo os sinais que Ele fazia, creram no Seu nome". A New English Bible dá um significado mais profundo na tradução deste texto: "Muitos Lhe obedeceram". A crença era, então, mais que um

assentimento ou uma identificação emocional com um novo líder. A fé era, e continua sendo, "obediência".

O terceiro capítulo de João repete oito vezes algumas formas do verbo "crer".

Este verbo aparece sete vezes nos versículos 12-18. A importante verdade de que "crer" eqüivale a "ter fé" é ilustrada na tradução que a New English Bible faz dos versos 13-18:

"Ninguém desceu do céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, cuja morada está no céu. É preciso que este Filho do Homem seja levantado assim como levantou a serpente no deserto, para que todo aquele que tenha fé nEle possa ter nEle a vida eterna. Porque de tal maneira amou Deus ao mundo que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle tenha fé, não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem nEle põe sua fé, não é condenado; mas o incrédulo, já foi condenado porque não prestou obediência ao Filho unigênito de Deus." Nestes versículos está condensado o Evangelho da salvação pela fé. A fé precisa concentrar-se numa Pessoa, e essa Pessoa é Cristo. A fé justifica: quem crê em Cristo "não é condenado". A fé é obediência a Cristo, e a fé é o meio pelo qual o homem recebe a vida provida pela graça de Deus. O último versículo do capítulo 3 apresenta com toda claridade as alternativas oferecidas ao ser humano: "Quem crê no Filho tem

a vida eterna; mas quem recusa crer no Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (João 3:36). A frase "quem recusa crer" não é uma tradução de "pisteúo", mas de um de seus derivados: "apeithón". Por esse motivo, esta forma de "crer" não está incluída entre os 96 casos de "crer" que aparecem no Evangelho de João.

O capítulo 4 contém 7 versículos (21, 39, 41, 42, 48, 50, 53) onde é usada alguma

forma do verbo "crer". As quatro primeiras referências tratam da experiência de Jesus com a mulher samaritana. Como resultado do testemunho dela, muitos samaritanos "creram nEle" (João 4:39). Quando Jesus pregou aos samaritanos "muitos outros creram nEle, por causa da Sua palavra" (versículo 41), e seu testemunho foi o

seguinte: "Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo" (João

4:42). Nos versículos 48 e 50 é descrito o incidente da cura do filho do oficial do rei, realizada em Caná. A primeira resposta que Jesus deu a esse cortesão foi: "Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis." Quando Jesus lhe

teu filho vive" o homem "creu na palavra de Jesus". Quando o cortesão

soube que seu filho fora curado na mesma hora que Jesus tinha falado "creu ele e toda

disse: "Vai,

a sua casa". Em João 5, a primeira referência do verbo crer aparece numa repetição do princípio evangélico que João destaca com muita freqüência: "Em verdade, em verdade

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vos digo: quem ouve a Minha palavra e crê nAquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (João 5:24). Esta passagem é interessante por várias razões. Primeiro, apresenta a crença em Deus como um caminho à vida eterna. O cristão não pode separar-se a Deus e a Cristo como objetos de sua lealdade e de sua devoção. Em segundo lugar, a vida eterna e a salvação são descritas como possessões atuais. Os versos que seguem falam da ressurreição, mas o crente "tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (João 5:24). A salvação por meio de Cristo é completa, suficiente e segura. A graça de Deus

é suficiente. O único requisito é que se creia. Nos versículos 38-48 do capítulo 5, o verbo "crer" aparece seis vezes em algumas de suas formas, e em cada caso está relacionado com uma censura feita aos judeus devido à sua resistência em crer em Cristo. Cristo até pôs em dúvida a crença deles em Moisés, seu "santo patrão", baseado em que Moisés escrevera acerca de Cristo e eles não tinham aceito Seu testemunho. O capítulo 6 é importante para a compreensão do significado da ação de crer. Neste capítulo, são repetidas nove vezes alguma forma deste verbo. A primeira parte do capítulo fala da alimentação dos cinco mil. Depois disso aparece o milagre de Cristo no fato de caminhar sobre as águas. Logo que Ele e Seus discípulos desembarcaram, foram recebidos por uma multidão de admiradores ansiosos para seguir Aquele que pôde satisfazer as necessidades de sua vida de modo tão

maravilhoso. Jesus pregou a esta multidão a respeito do Pão da Vida. As pessoas perguntaram: "Que faremos para realizar as obras de Deus?" A isto Jesus replicou: "A obra de Deus é esta: que creiais nAquele que por Ele foi enviado" (João 6:28, 29). Ato contínuo a multidão pediu um sinal que lhes permitisse crer nEle,

e com isso aludiram ao milagre da provisão de maná para Israel. Tomando isto como

ponto de partida, Jesus proferiu uma de suas declarações mais notáveis de Seu ministério: "Eu sou o pão da vida; o que vem a Mim jamais terá fome; e o que crê em Mim jamais terá sede" (v. 35). Logo os repreendeu por sua resistência em crer depois de tudo o que tinham visto.

Os dois casos seguintes nos quais aparece alguma forma do verbo crer são reiterações do tema que se repete com tanta freqüência neste livro: "De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nEle crer tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia" e "Quem crê em Mim tem a vida eterna (vs. 40, 47). A exortação de Jesus a participar dEle como o Pão da Vida, a comer Sua carne e a beber Seu sangue, foi uma maneira pitoresca de convidar Seus seguidores a crer nEle. No versículo 64, o Mestre reconheceu que alguns de Seus seguidores não progrediram ao ponto de chegar a crer. Sua afirmação ficou comprovada ao se afastarem dEle muitos de Seus discípulos. Então Jesus Se voltou para os doze e lhes perguntou: "Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?" Pedro respondeu com uma confissão memorável: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus" (João 6:67-69). O tempo em que aparece o verbo crer neste caso sugere que a confiança atual de Pedro era o resultado

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de sua ação passada de crer. A crença tinha produzido uma firme confiança que não podia ser movida, independentemente de quantos abandonassem a sua lealdade a Cristo.

O capítulo 7 contém cinco referências que interessam ao nosso estudo. Três delas

(vs. 5, 31 e 48) são apenas referências históricas que aludem a diversos grupos de pessoas que creram e não creram. Os versículos 37-39 oferecem um interesse definido. A ação transcorre em Jerusalém, ao celebrar-se a festa dos tabernáculos. "Dia após dia ensinou Ele ao povo, até o último, 'o grande dia da festa'. A manhã desse dia encontrou a multidão fatigada do longo período de festividades. De repente, Jesus ergueu a voz, em acentos que retumbaram através dos pátios do templo:

" 'Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão de seu ventre.' João 7:37. O estado do povo tornou esse apelo deveras eficaz. Estiveram eles empenhados em contínua cena de pompa e festividade, os olhos ofuscados com luzes e cores, e os ouvidos deleitados

com a mais preciosa música; nada, porém, houvera em toda essa série de cerimônias para satisfazer as necessidades do espírito, nada para saciar a sede da alma por aquilo que é imperecível." 20

O versículo 39 é interessante: "Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam

de receber os que nEle cressem" (João 7:39). Qual é a maneira, então, de prepara-se para receber o Espírito Santo? Consiste em algo mais que orar ou jejuar: consiste em

crer.

João 8:24 apresenta o tema de seu Evangelho de modo negativo: "Porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados." A fé proporciona vida; a incredulidade produz morte. Os versículos 30 e 31 são apenas referências históricas. Os versículos 45 e 46 contêm uma censura de Jesus contra os que não crêem nEle, fazendo perguntas: "Mas, porque eu digo a verdade, não me credes. Quem dentre vós me convence de pecado? Se vos digo a verdade, por que razão não me credes?" João 9 fala da história do cego de nascimento, um relato que já foi analisado quando falamos dos milagres de Jesus. Neste capítulo, o verbo "crer" aparece quatro vezes em alguma de suas formas (vs. 18, 35, 36, 38). Este verbo aparece seis vezes no capítulo 10. Nos versos 25 e 26, Jesus repreende Seus inimigos por causa de sua incredulidade. Os versículos 37 e 38 constituem um apelo a Seus inimigos a crer nEle na base de que Ele realizava as obras de Seu Pai. A terceira, a forma verbal de crer que aparece no versículo 38, "acrediteis" como traduziu a Almeida RC ("para que conheçais e acrediteis"), não é uma tradução de "pisteúo". É mais correto traduzir esta parte como fez a Almeida RA: "para que possais saber e compreender que o Pai está em Mim, e Eu estou no Pai" No vero 42 lemos que "E muitos ali creram nEle." Já analisamos o capítulo 11 na seção onde estudamos os milagres de Jesus. Na história da ressurreição de Lázaro aparece oito vezes alguma forma do verbo "crer'. Neste capítulo, novamente é destacada a relação entre a crença e a vida. Jesus disse: " Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o

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que vive e crê em mim não morrerá, eternamente" (João 11:25, 26). Em nenhum capítulo aparece mais clara esta relação entre a crença e a vida do que em João 11. No capítulo 12 este verbo é empregado nove vezes. A maior parte destas referências são históricas. No entanto, no versículo 44 Jesus exclama: "Quem crê em mim crê, não em mim, mas naquele que me enviou". Por meio destas palavras Jesus Se identifica com o Pai. Esta idéia é empregada nos versículos finais deste capítulo. Em João 13, o verbo "crer" aparece uma única vez, no versículo 19, onde Jesus diz: "Desde já vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que EU SOU." Em João 14, este verbo é usado sete vezes de modo significativo: "Credes em Deus, crede também em mim" (João 14:1). Nesta passagem novamente Jesus Se identifica com o Pai. Nos versículos 10 e 11 este pensamento é ampliado. O versículo 12 sugere uma conseqüência do crer que não é mencionada com freqüência: "Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai." Isto nos mostra que a fé produz obras. O versículo 20 repete um dos princípios da interpretação profética: "Naquele dia, vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós." O verbo "crer" não aparece no capítulo 15, contudo no capítulo 16 é repetido quatro vezes (vs. 9, 27, 30, 31). O versículo 27 combina o amor e a fé de modo interessante. Depois que os discípulos reafirmaram sua crença, Jesus disse nos versículos 31 e 33: "Respondeu-lhes Jesus: Credes agora? Eis que vem a hora e já é chegada, em que sereis dispersos, cada um para sua casa, e me deixareis só". A fé seria submetida a uma prova severa.

Em sua oração de João 17, Jesus menciona três vezes alguma forma do verbo crer: duas vezes se refere à crença de Seus seguidores e uma vez à crença do mundo, de que Deus O havia enviado (vs. 8, 20, 21). Estas passagens ilustram os matizes do significado desta palavra dadas nos diferentes contextos. A lealdade e a entrega de um crente a Cristo são muito diferentes em profundeza e significado da crença que o mundo tem de que Cristo foi enviado por Deus. Os capítulos 18 e 19 contêm um único caso do verbo crer (19:35), onde João se apresenta como um fiel relator dos acontecimentos que ocorreriam com relação à crucifixão de Jesus. O capítulo 20, nós já o analisamos no começo desta seção. No Evangelho de João, a ênfase é posta na crença, ou fé, se preferirem utilizar outro termo. Na primeira epístola de João, a ênfase é posta no amor. Estas duas ênfases estão harmoniosamente combinadas em I João 3:23: "Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou." A fé e o amor constituem duas virtudes gêmeas da mensagem cristã. "O ouro mencionado por Cristo, a Testemunha Fiel, que todos devem ter, tem-me sido mostrado como a fé e o amor unidos." 21 Com freqüência, João tem sido chamado o apóstolo do amor pela ênfase de sua primeira epístola; porém seria mais exato chamá-lo como o apóstolo da fé e do amor. Embora enfoque o tema da fé sob um ponto de vista diferente do de Paulo, sua

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insistência na crença ou fé como a base da salvação é tão real como a de Paulo. O homem que "viu e creu" na tumba vazia deu à igreja um dos mais eloqüentes testemunhos da natureza e o valor da fé que salva.

Ensino de Jesus Concernente a Seu Evangelho

O primeiro sermão de Jesus que se tem registro foi pregado por Ele na sinagoga

de Nazaré, sua terra natal. O texto escolhido pelo Mestre foi Isaías 61:1-3. Sua interpretação desta passagem revelou claramente que tinha vindo "para pregar boas- novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados". Sem dúvida, nesse sábado de manhã havia muitos na congregação que precisavam urgentemente o que lhes era oferecido. Contudo, até onde saibamos nenhum recebeu o Evangelho, nenhum coração quebrantado foi vendado, nenhum cativo foi liberto. Por quê? Porque os ouvintes recusaram crer (Lucas 4:16-30). "Ao abrirem a porta à dúvida, o coração endureceu-se-lhes tanto mais quanto se havia por momentos abrandado. Satanás decidira que os olhos cegos não se abririam naquele dia, nem almas cativas seriam postas em liberdade. Com intensa energia, operou para os confirmar na incredulidade." 21

Este incidente ilustra o lugar que a fé ocupa na obtenção dos benefícios do Evangelho. Não havia nada que estes nazarenos pudessem fazer para encontrar salvação, alívio e liberdade. Somente Jesus podia garantir-lhes isso. Este princípio é a verdade básica do Evangelho. "A fé não consiste em fazer algo senão em receber algo. Dizer que somos justificados pela fé não é nada mais que outra maneira de dizer que somos justificados sem que isto dependa no mesmo grau de nós mesmos, senão simples e unicamente por Aquele em quem nossa fé descansa." 23 Quando o anjo apareceu a José para anunciar-lhe o nascimento de Jesus, lhe disse: "E lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles" (Mat. 1:21). Esta passagem salienta o fato de que o plano divino de salvação é basicamente uma libertação do pecado. Este tema é repetido com freqüência

O pecado é o que torna necessária a salvação. Como Jesus descreveu o pecado?

Não tentou defini-lo filosoficamente, antes buscou descrevê-lo em sua relação com a personalidade. O pecado foi ilustrado pelo filho pródigo que repudiou suas obrigações, abandonou os "freios morais" e buscou a gratificação própria. O pecado se refletia na vida do fariseu, cuja preocupação pela ortodoxia afogava seu interesse pela misericórdia, o amor e a bondade. O pecado se fez tangível na história do sacerdote e o levita que passaram "de largo" quando encontraram um semelhante que necessitava ajuda. O pecado foi descrito na cobiça insidiosa de Judas, na sede de poder de Herodias e na frieza de Caifás. O pecado sempre foi relacionado com as pessoas: não é uma abstração.

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Qual foi a mensagem de Jesus aos pecadores? Não foi: "Faça penitência". Não foi: "Castigue a si mesmo". Sua mensagem está condensada numa simples palavra:

"Siga-Me". Foi isto Ele que disse a Mateus e ao jovem rico. Mateus veio a ser um discípulo de Jesus e o jovem rico desapareceu no esquecimento; e isto ocorreu, não porque um fosse melhor ou pior que o outro, senão porque um deixou seu ofício de cobrador de impostos e seguiu a Jesus, e o outro "retirou-se triste". Jesus Se apresentou continuamente a Si mesmo como a fonte de vida e salvação. Disse:

"O Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados" (Luc.

5:24).

"O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Luc. 19:10). "Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento" (Luc. 5:32). "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mat. 11:28). "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos" (Mat. 20:28, RC). "E eu te darei as chaves do Reino dos céus" (Mat. 16:19, RC). "Quem perder a vida por minha causa achá-la-á" (Mat. 16:25). "Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras" (Mat. 16:27). "Eu sou a luz do mundo" (João 8:12). "Eu sou o bom Pastor" (João 10:11). "Eu sou a ressurreição e a vida (João 11:25). "Eu sou o pão da vida" (João 6:35). "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida" (João 14:6). Estas passagens ilustram o significado desta declaração: "Cristo é cristianismo".

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"A glória central e íntima do Evangelho, portanto, não é uma grande verdade, não é uma grande mensagem, não é um grande momento, senão que é uma grande Pessoa. É o próprio Jesus Cristo. "Sem Ele não poderia haver Evangelho. Ele veio não tanto para proclamar uma mensagem, mas para que houvesse uma mensagem para proclamar. Ele próprio era, e é, a Mensagem. Não seus ensinos, senão Ele próprio, constituem o "Ele veio a um mundo perdido, a um mundo enfermo, a um mundo agonizante, a um mundo condenado. E ele deu o remédio. Esse remédio era Ele próprio. Não um sistema de ensino, senão Ele próprio. Não um conjunto de leis, senão Ele próprio. Não um corpo de doutrina, senão Ele "Ser cristão então, significa entrar em relação com uma Pessoa: uma Pessoa que vos ama, que desfruta de vossa amizade, que vos trata com ternura e consideração, que vos guia no caminho da justiça e obediência, e vos ensina a verdade; que tem fortaleza para atender a todas as vossas necessidades; e anda convosco como um amigo, que está em comunhão convosco, que comparte convosco Sua própria vida eterna; que vos consola na tribulação, que resolve todos os vossos problemas e perplexidades, que

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enfrenta convosco todas as crises da vida, que sempre está ao vosso lado; que afofa vosso leito na enfermidade, que vai convosco ao sombrio vale da sombra da morte, e com quem estais seguros. Conhecendo-O como um Amigo e Salvador, vos sentis seguros ao depor todo o futuro em Suas mãos, da mesma maneira como Lhe confiais todo o presente. "Ao repartir-vos Sua própria vida, Ele cumprirá todos os mandamentos em vós. A vossa será uma vida que observará os mandamentos porque é Sua vontade. Não haverá falhas no obedecer, porque Ele é vossa obediência. Ao confiar nEle, ao descansar nEle, ao abandonar-nos a nós mesmos ao Seu cuidado, ao entregar-nos plenamente a Ele, seremos postos em plena harmonia com cada requerimento de Deus, porque Sua vida está em nós." 25 As declarações de Jesus no sentido de que Ele é o Caminho da vida, foram tão grandiosas que os homens foram forçados a segui-Lo ou crucificá-Lo. Ele era a personificação da graça de Deus. A fé era a atitude pela qual o homem se tornava em receptáculo de Sua graça. A maior de todas as lições objetivas do plano de salvação foi dada no fim do ministério de Jesus. Poder-se-ia imaginar a Jesus pensando sobre o que poderia fazer para impressionar indelevelmente a Seus discípulos e Seus seguidores de todas as épocas com o fato de que Ele era sua salvação. O método que escolheu foi simples mas eloqüente e profundo. Na última ceia celebrada com Seus discípulos, tomou o pão, o partiu e o deu aos discípulos dizendo-lhes: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós" (I Cor. 11:24). Semelhantemente tomou um copo de vinho e disse: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim" (I Cor. 11:25). Assim, Ele dramatizou o fato de que Ele constituía a salvação deles. Não podiam progredir espiritualmente sem Ele. Ele era a fonte de sua vida. Em seguida avançou mais um passo. Não apenas lhes proporcionou esta demonstração dos princípios básicos da salvação como também decretou que a igreja devia celebrar esse rito durante todos os séculos em memória dEle como seu Salvador. Falando deste rito, a Sra. White escreveu: "Contemplando o crucificado Redentor, compreendemos mais plenamente a magnitude e significação do sacrifício feito pela Majestade do Céu. O plano da salvação glorifica-se aos nossos olhos" 26 "Esta é a culminação da história da salvação tal qual Jesus mesmo a apresentou durante Sua vida. Depois da ceia, ele saiu para do cenáculo para provar a traição, o sofrimento e a morte. Em todas estas coisas Ele foi mais do que um exemplo de fé. Sua morte foi mais que a morte de um mártir; constituiu uma expiação pelo pecado da humanidade. Sua eficácia ficou ratificada por Sua ressurreição, e é posta ao alcance dos seres humanos mediante o ministério de Seu Espírito. "Contudo outro caminho foi aberto até à presença de Deus, e a abertura desta via tem sua expressão no Evangelho. Merecíamos uma morte eterna; merecíamos exclusão da família de Deus; porém o Senhor Jesus tomou sobre Si mesmo toda a culpa de nossos pecados e morreu em nosso lugar na cruz. Deste modo, Cristo satisfez por nós as exigências da lei, e assim desapareceu seu terror, e nós já não estamos mais vestidos com nossa própria justiça senão com a justiça de Cristo, e portanto já não

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sentimos mais temor, assim como Cristo não experimenta temor, diante do tribunal do juízo de Deus." 27

Referências

1.

Machen, J. G., What Is Faith?, pág. 99. (Macmillan, 1925).

2.

White, E. G., O Desejado de Todas as Nações, pág. 428.

3.

Idem, pág. 429.

4.

Idem, págs. 316, 317.

5.

Idem, pág. 343.

6.

Idem, pág. 347.

7.

Idem, pág. 475.

8.

Idem, pág. 336.

9.

Idem, pág. 537.

10.

Machen, op. cit., pág. 181.

11.

White, E. G., Parábolas de Jesus, pág. 151.

12.

Idem, págs. 151, 152.

13.

Idem, pág. 159.

14.

Idem, pág. 310.

15.

Idem, pág. 311.

16.Ibidem.

17.Idem, pág. 312.

18. Idem, pág. 315.

19. Idem, pág. 314.

20. White, E. G., O Desejado de Todas as Nações, pág. 453.

21. Idem, Testimonies, vol. 2, pág. 36.

22. Idem, O Desejado de Todas as Nações, pág. 238.

23. Machen, op. cit., pág. 99.

24. White, E. G., Obreiros Evangélicos, pág. 282.

25. Haynes, Carlyle B., folheto intitulado La justificación en Cristo, Asociación, págs. 17-20.

26. White, E. G., O Desejado de Todas as Nações, pág. 661.

27. Machen, op. cit., pág. 164.

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O EVANGELHO INTERPRETADO POR PAULO

A INTERPRETAÇÃO que Paulo faz da justificação pela fé está muito bem expressa em Efésios 2:4-10: "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos

ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus

graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas

obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas." Essa passagem contém várias idéias importantes: a salvação se origina em Deus devido a Sua "misericórdia" e "amor"; este amor divino manifesto em benefício dos pecadores é chamado "graça"; a graça é anterior à fé, e fez uma completa provisão para a salvação eterna do homem; a salvação não se alcança mediante as obras senão pela graça; e a fé é a mão humana estendida em direção de Deus para receber os frutos da graça divina.

Porque pela

A Epístola aos Romanos

A doutrina de Paulo da justificação pela fé é apresentada de modo mais explícito na epístola aos Romanos. Os capítulos doutrinários desta epístola foram bem condensados por Mathew Arnold:

"O primeiro capítulo se refere aos gentios, e seu conteúdo é: Vós não tendes justiça. O segundo capítulo se refere aos judeus, e seu conteúdo é: Vós não tendes mais do que eles, embora pensais que tendes. O terceiro capítulo apresenta fé em Cristo como a única fonte de justiça para todos os seres humanos. O capítulo quarto dá a idéia da justificação pela fé o respaldo do Antigo Testamento e da história de Abraão. O capítulo quinto insiste nas causas pelas quais temos que estar agradecidos e gozosos pelo dom da justificação mediante a fé e Cristo; ademais, utiliza a história de Adão como uma ilustração. O capítulo 6 apresenta esta pergunta importantíssima: 'Em que consiste a fé em Cristo aquela que eu, Paulo, me refiro?' E responde a essa pergunta. O capítulo 7 ilustra e explica a resposta. Mas o capítulo 8, até o versículo 28, amplia e completa a pergunta. O resto do capítulo 8 expressa o sentimento de segurança e de gratidão que a solução do assunto apresentado pode proporcionar. Os capítulos 9, 10 e 11 apóiam a tese do capítulo 2 – tão difícil para um judeu, tão fácil para nós – segundo a qual a justiça não se obtém por meio da lei judaica; finalmente fala com esperança e gozo de um resultado final das coisas que iam de ser favoráveis para em Israel." 1

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No primeiro capítulo, Paulo expressa sua confiança no evangelho de Cristo nos seguintes termos: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé" (Rom. 1:16 e 17). Esta passagem mostra claramente que a salvação de Deus é para os que têm fé. Deus rechaçou a nacionalidade como base para a salvação. Também rechaçou a tentativa humana de observar a lei. Como Deus tinha o direito de estabelecer uma base para a salvação do homem, que estivesse em harmonia com seu próprio caráter, escolheu a fé. O apóstolo, desde Romanos 1:18 até o capítulo 3:21, apresenta uma sombria descrição da depravação humana, tanto dos judeus como dos gentios. Toda a análise da salvação deve implicar o pecado, por que a salvação e a solução de Deus para o problema do pecado. A condição da humanidade é resumida em uma série de citações do Antigo Testamento:

"Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, Não há quem entenda, não há quem busque a Deus; Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.

"A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios,

A boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura;

"São os seus pés velozes para derramar sangue, Nos seus caminhos, há destruição e miséria; Desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Rom. 3:10-18.

E agora vem a solução. Os versículos 21 a 31 do capítulo 3 apresenta o tema

central do livro:

"Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos

os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus." (Rom. 3:21-24). Este é o Evangelho. Mas esta maravilhosa graça, acessível a todos os que têm fé, não invalida a lei, por que o versículo 31 diz:

"Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei." A tese de Paulo consiste em que a lei é necessária e honrosa, mas não pode salvar.

O plano de divino de redenção, tal como é apresentado em Romanos 3:21-31, foi

bem explicado por um erudito presbiteriano conservador:

"Paulo tem estado e insistindo em que todo o mundo tem necessidade de justiça e está sob a condenação de Deus. Aqui declara que mediante a obra expiatória de Cristo

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tem sido proporcionada justificação, e esta é gratuitamente oferecida a todos unicamente na base da fé. Essa justiça está 'manifesta' no Evangelho. Está 'independente da lei'; não se consegue obedecendo à lei; é oferecida a todos os que transgredir a lei; não é algo que se possa merecer ou ganhar. No entanto, está em harmonia perfeita com a lei, é testemunhada 'pela lei e pelos profetas', conforme Paulo demonstram no capítulo seguinte de sua epistola. É proporcionada pelo próprio Deus, porque 'a justiça de Deus' (v. 22) aqui denota, não o atributo da justiça divina, se não a justiça que Deus oferece ao homem.

"É recebida pela fé. Em efeito, a fé é a característica distintiva; não é uma justiça

por meio das obras, senão uma justiça 'mediante a fé em Jesus Cristo', e é 'para todos e sobre todos os que crêem'. A fé, contudo, não é um fator que proporcione méritos, antes é só o instrumento por meio do qual esta justiça é recebida. "Esta justiça de Deus é de aplicação universal, uma vez que todos a necessitam, 'pois todos pecaram e carecem da glória de Deus'. Paulo não quer dizer que todos pecaram com a mesma intensidade, mas que todos, sem exceção, não lograram alcançar a 'glória' o louvor e a aprovação de Deus, e portanto estão sob condenação. No entanto, se eles põem sua confiança em Cristo, serão 'declarados justos', porque nesse caso o termo 'justificados' (v. 24), não significa 'tornados justos', mas declarados justos. Aqui Paulo está descrevendo a 'justificação'; a santificação, com certeza, a seguirá. Certamente a fé inicia numa vida de santidade. No entanto, de imediato, antes

que essa vida seja vivida, o que aceita a Cristo como Salvador é declarado justo. "Isto não se deve ao algum mérito por parte do homem. A fonte desta 'justificação' é o favor imerecido de Deus. Os homens são 'justificados gratuitamente, por sua graça'. "No entanto, este benevolente ato de justificação da parte de Deus não se deve a nenhuma indiferença com relação ao pecado, nem tão pouco que não tenha advertido as distinções morais. Deus fez o possível a um custo infinito: 'mediante a redenção que há em Cristo Jesus'. Esta redenção, esta liberação da culpa, do poder e da penalidade do pecado, foi cumprido pela morte expiatória de Cristo, 'a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé'. No entanto, esta morte de Cristo como propiciação não tinha o propósito de induzir a Deus a amar os pecadores: 'Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito'. Por meio deste sacrifício como propiciação, Deus manifesta sua atitude com relação ao pecado e tem a possibilidade de perdoar os pecadores". 2 Ellen G. White declara esta mesma grande verdade cristã: "O que é justificação pela fé? – É a obra de Deus ao lançar a glória do homem no pó e fazer pelo homem aquilo que ele por si mesmo não pode fazer." 3

O capítulo 4 de Romanos tinha o propósito de convencer a mente judaica

utilizando a Abraão como uma ilustração da forma como os homens são salvos. Paulo estabelece quatro pontos neste capítulo:

(1) Abraão não foi justificado pelas obras. Paulo apóia este outro citando Gênesis 15:6, onde é dito de Abraão que "creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça".

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(2) Abraão não foi justificado pela circuncisão. Paulo declara que a circuncisão de Abraão era "como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso". Abraão é chamado pai dos que andam nas pisadas da fé" (Rom. 4:12). Então, os verdadeiros descendentes de Abraão não são os que têm o sangue de Abraão em suas veias mas os que têm a fé de Abraão em seus corações. (3) Abraão não foi justificado pela lei. "Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a

descendência, não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós" (Rom. 4:16). A lei condena. O que salva é a graça, e unicamente a graça, operando por meio da fé. (4) A fé de Abraão é um símbolo da fé do cristão. Abraão creu na Palavra de Deus. As promessas de Deus pareciam impossíveis de cumprir-se, mas Abraão continuou crendo. Mesmo assim o plano de Deus para redimir o homem parece incrível, mas o cristão crê porque Deus falou. "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo- nos na esperança da glória de Deus" (Rom. 5:1, 2). O cristão, por meio da graça e da fé em Deus, têm acesso a uma nova relação com Deus. Paulo deseja que não se interrompa esta relação. O evangelho não apenas possibilita esta relação de "paz com Deus", mas também oferece esperança para o futuro e a habilidade para sofrer com ânimo. O resto do capítulo 5 de Romanos constitui um poderoso testemunho acerca das suficiência do evangelho: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato

de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda

Porque, se nós, quando

inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rom. 5:8, 10). Depois de relembrar a entrada do pecado por meio de Adão, Paulo declara:

"Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos" (Rom. 5:15). A frase chave deste capítulo é "muito mais". Não importa quão penetrante, com surtiu e com forte seja o pecado: a graça divina é abundantemente mais poderosa. "Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o

dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo" (Rom.

5:17).

Os capítulos 6 e 8 concluem a sessão de Romanos que alguns tradutores têm chamado "O Evangelho segundo Paulo". Estes capítulos tratam um dos resultados da

fé, e esclarecem o significado da fé. Erdman introduz seus comentários a respeito destes capítulos com o seguinte parágrafo:

que se comete em muitas críticas da doutrina da justificação

pela fé, consiste no fracasso em compreender qual é o sentido da fé. Se a fé de notasse um mero assentimento a dogmas ou a repetição de um credo, nesse caso aceitar alguém como justo em vista de sua fé, seria algo absurdo e injusto; mas a fé descreve

"O erro comum

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uma relação pessoal com Cristo. Para um crente, significa confiar em Cristo, obedecer a Cristo e amar a Cristo; e essa confiança, essa obediência e esse amor inevitavelmente produz impureza e santidade e uma vida de serviço abnegado. A justificação pela fé não pode estimular o pecado, nem permitir o pecado, nem desacreditar a lei de Deus. Pelo contrário, produz justiça e obediência verdadeira. A justificação, portanto, dá nascimento à santificação. É possível separar ambos conceitos no pensamento, mas na experiência estão unidos. Para o que foi justificado pela fé começa ao mesmo tempo uma nova vida de santidade". 4 Paulo capítulo 6, insiste em que os que foram salvos e estão "mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus" (Rom. 6:11). Crêem que a graça de deus livra os homens do domínio do pecado e os faz "servos da justiça" (v. 18). O resultado desta nova relação a essa entidade a vida eterna. O vínculo do matrimônio é empregado no capítulo 7, versículos 1-6, para ilustrar o pensamento de Paulo. Esta alegoria tem sido tema de muita discussão, mas sua intenção parece clara: "Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal" (Rom. 7:2). Esta passagem apresenta três "personagens": a mulher, seu marido e a lei que governa sua relação mútua. O marido morre. A lei do matrimônio já não tem mais vigência. Paulo parece representar por meio da figura do esposo o "velho homem", ao "eu pecador" que foi "crucificado juntamente com ele [Cristo]". Depois que o primeiro "marido" é eliminado desta forma do cenário, a "mulher" – o seguidor de Cristo – fica na liberdade de estabelecer uma relação com Cristo que lhe proporcionará poder na vida para cumprir aquilo que a lei não pode fazer. Além não era o primeiro marido, mas a lei condenava enquanto o primeiro marido, o "eu pecador", permanecesse vivo

(Rom.6:6).

Paulo continua demonstrando qual é a natureza da lei. O mandamento é "santo, justo e bom" (Rom. 7:12); mas o pecado que a lei condena sentencia o pecador à morte. Paulo reconheceu que em si mesmo havia desejos e motivos conflitantes. "Pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto" (v.15). "Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim" (v. 21). A compreensão da esterilidade desta luta e induz o apóstolo a exclamar: "Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" a resposta firme, clara e animadora: "Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor" (v. 24 e 25). No capítulo 8 o leitor sai do cenário da luta e da derrota e entra na vitória emocionante da vida plena do Espírito:

"Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rom. 8:1-4).

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O segredo da vida cristã consiste em estar "em Cristo". Esta expressão que aparece inúmeras vezes nos escritos de Paulo, descreve uma relação Salvador com Cristo. No versículo 10 esta figura é invertida e é dito que Cristo "está em vós". Essas duas figuras sugere uma relação tão estreita entre Cristo e o cristão, que as palavras tentam em vão descrevê-la. A expressão "em Cristo" fala de confiança, obediência, submissão, amor e fé. A expressão "Cristo em voz" sugere regeneração, transformação, poder e graça.

O contraste entre a "carne" ou "a natureza inferior", e o "espírito", é o contraste

entre a velha via das de Cristo e a nova vida em Cristo. Este contraste se apresenta

com mais detalhes em Gálatas 5:16-25, onde se estabelece uma diferença entre os frutos do Espírito e as obras da carne.

A fim da que está sob o controle do Espírito torna o homem em um filho e um

herdeiro de Deus, e um "co-herdeiro" de Cristo (Rom. 8:17). Mouse versículos 18 a 39 Paulo contempla mais além deste mundo a "glória a ser revelada em nós" (v. 18). Visualiza todo o Universo na expectativa pelo resultado do plano de salvação. Esta glória final é a combinação da seqüência que aparece nos versículos 29 e 30:

"Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (Rom. 8:29, 30).

Embora nesta graduação a fé não seja mencionada, não se deveria concluir por isso que o homem não tem parte na determinação do sentido de sua própria vida. A salvação do homem é provida por um decreto divino. O benefício que dela o homem obtenha depende de sua aceitação dela.

O final do "Evangelho" de Paulo encontrada nos versículos 31 a 39. Poucas vezes

a linguagem humana tem logrado um vôo mais alto do que nesta nessa passagem. Os donos de Deus são ilimitados. A absolvição de Deus é completa. O amor de Deus é inigualável e a vitória é segura:

"Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rom. 8:38, 39). Os capítulos 9 há 11 tratam da posição do povo de Israel na História. Tem sido propostas muitas explicações diferentes de Romanos 9. Sanday, em sua Epistle to the Romans, menciona vários pontos de vista. A interpretação do teólogo holandês Armínio (1560-1609), que em vários sentidos o orientou a direção teológica que teve o reavivamento wesleyano, parece adequada:

"O propósito do capítulo diz ele [Armínio], é o mesmo que a da epístola, considerado do ponto de vista especial. Enquanto o objetivo da epístola é aprovar a 'justificação pela fé', neste capítulo ou São Paulo defende seu argumento contra os judeus que afirmavam: 'Transtorna as promessas de Deus, portanto não é verdadeiro'. Por meio das palavras dirigidas a Rebeca [v. 12], deus dá a entender que desde eternidade tinha resolvido não admitir aos seus privilégios todos os filhos de Abraão,

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mas unicamente os que Ele escolhesse de acordo com o plano que tinha traçado. Este plano consistia em estender sua misericórdia aos que tivessem fé nEle quando Ele os chamara e que crescem em Cristo, e não aos que buscassem a salvação por meio das obras. A passagem seguinte (v. 14 e seguintes) mostra que Deus decidiu dar Sua misericórdia na forma como Ele escolhera e de acordo com Seu próprio plano, e não para os que correm, quer dizer, ao que busca por meio das obras, mas ao que busca da maneira como Ele estabeleceu. Isto é perfeitamente justo, porque Ele anunciou isto como o Seu método. Em continuação é apresentada a figura do oleiro e o barro para demonstrar, não há soberania absoluta de Deus, porém o Seu direito de fazer o que Ele quer, quer dizer, colocar Suas próprias condições. Ele criou o homem para que venha a ser algo melhor do que foi feito. Deus fez o homem como um vaso: mas o homem se fez a si mesmo um vaso mau. Deus determina em certas condições fazer os homens vasos de glória ou vasos de ira segundo se eles comprem ou não cumprem essas condições. A condição e a justificação pela fé". 5 Esta explicação preserva a soberania de Deus e o livre arbítrio do homem. Defende o direito de Deus de estabelecer Seu próprio critério para a salvação: a fé e a responsabilidade do homem de exercer fé para obter a salvação. Isto não degrada fé transformando-a em uma espécie de obras, mas considera a fé como uma atitude pela qual o homem recebe as provisões da graça. Assim como capítulo 9 fala da soberania divina, o capítulo 10 trata da responsabilidade humana. Paulo volta a repetir seu amor e sua preocupação por Israel. Está decepcionado porque eles procuraram estabelecer uma justiça de sua própria confecção por meio das obras da lei. Insiste na crença e na confissão como um meio de salvação para todos os homens, judeus e gentios igualmente (vs. 9-13). Os últimos versículos do capítulo sustentam que Israel teve ampla oportunidade de conhecer e aceitar a salvação pela fé. O capítulo 11 apresenta tremenda verdade de que a eleição de Deus é uma "eleição da graça". Mediante a parábola da oliveira, Paulo explica como se cumpriram os propósitos e as promessas de Deus. Esta parábola deve ser considerada no contexto de referência de Romanos 9-11. Toda essa seção trata do problema de Israel. A Israel tinham sido dadas promessas que os judeus interpretaram de modo absoluto. Paulo estava ensinando a supremacia da fé em vez da supremacia da raça. A pergunta a seguir surgiu logicamente: E as promessas de Deus a Israel? Como se cumpririam? Um conceito básico para compreender Romanos 9 a 11 é o de "eleição". Este conceito é introduzido no capítulo 8. Aqui Deus é apresentado como Alguém que conhece de antemão, predestina, chama, justifica e glorifica a um povo. Esta obra divina confere ao apóstolo uma grande confiança, que ele manifesta em seu canto de confiança nos versos finais do capítulo. O capítulo 8, contudo, não põe definições nem estabelece limites com relação à eleição. A idéia de eleição tem sido proposta porém não examinada. Os capítulos 9 a 11 tratam de aplicar o princípio da eleição aos judeus e aos gentios.

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O capítulo 9, como vimos, justifica a rejeição de Israel da parte de Deus. Paulo

mostra à raiz da experiência dos patriarcas que Isaque e Jacó foram escolhidos por Deus, enquanto que seus irmãos de sangue foram rechaçados. De modo que houve uma "eleição" (v. 11), na época patriarcal. Paulo continua apoiando seu propósito auxiliado pelas palavras que Deus proferiu a Moisés (v. 15), e com a menção do Seu trato com faraó. Sua posição como Criador (vs. 19-23) Lhe permite estabelecer Suas próprias condições em Seu trato com

a humanidade. Em seguida, Paulo explica como Isaías predisse a salvação dos gentios

e a salvação tão-só de um remanescente de Israel (vs. 27-29). Os versos finais do capítulo, como já vimos, manifestam a norma estabelecida por Deus para a salvação: a fé. O capítulo conservou a idéia de que Deus tem o direito de utilizar a fé como norma

da salvação em lugar da raça ou das obras, se assim o prefere. No capítulo 10, como já vimos, se explica que os judeus não têm desculpa devido

a que Evangelho foi pregado plena e universalmente.

O capítulo 11 começa, como os capítulos 9 e 10, com outra declaração de Paulo

na qual se identifica com o seu povo. Começa o capítulo um tema importante: "Terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo?" A resposta é uma enfática negação, e sua defesa é uma alusão à experiência de Elias quando sete mil pessoas fiéis constituíram um "remanescente" em Israel. Paulo aplica esta ilustração: "Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça." A

última expressão indica a base sobre a qual Deus escolhe o remanescente: a graça. Em continuação Paulo nitidamente declara que a graça não escolhe na base das obras. Posteriormente, no capítulo é explicado qual a base em que a graça escolhe seus eleitos. Logo Paulo mostra que o fracasso dos judeus teve um resultado positivo: a pregação do Evangelho aos gentios. Mas Paulo ainda sustém a esperança de que "alguns" dentre os judeus aceitarão a Cristo. Logo Paulo dá a parábola da oliveira. A oliveira constitui a verdadeira igreja de Deus, em todas as épocas, seu "remanescente". Os gentios, a quem Paulo está escrevendo, são comparados a uma "oliveira brava" enxertada na árvore em lugar dos ramos que foram "cortados". Deste modo, participa "da raiz e da preciosa seiva da oliveira". Pela posição dos gentios como ramos enxertados, eles não devem considerar-se superiores aos "ramos naturais". Logo vem o versículo-chave desta passagem: "Pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme" (Rom. 11:20). Este versículo apresenta qual a norma que Deus usa para Sua eleição: não é a nacionalidade nem as obras, mas a fé. Este versículo modifica pontos de vista extremos quanto à predestinação. É verdade que Deus escolhe os que Ele quer; mas Ele exigirá os que têm fé. Ele não está limitado por pactos nacionais nem é influenciado por "obras"

pessoais. O remanescente escolhido pela graça de Deus é constituído pelos que têm fé.

O mesmo fato é repetido no versículo 23. Paulo relembra os gentios que Deus

pode voltar a enxertar os judeus na árvore. Em que base? "Se não permanecerem na incredulidade". A soberania de Deus, operando em harmonia com Sua graça, torna

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possível aos gentios serem enxertados ou que os judeus voltem a ser enxertados; mas, em qualquer caso, a fé é o fator determinante. Em seguida, Paulo aconselha os gentios a não serem soberbos. Tinha que lhes chamar a atenção a um "mistério". "Veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo" (vs. 25 e 26). Isso mostra claramente que o conjunto dos salvos estará formado pelos gentios que tenham fé e a parte dos israelitas que também manifestem fé. Esta interpretação se harmoniza com os símbolos utilizados na parábola e com todos os ensinos de Paulo a respeito do Israel verdadeiro. Começando com o versículo 28, Paulo mostra que Deus ainda chama os judeus. Sua misericórdia ainda é acessível a eles, e ele ainda os ama. O fator determinante é a fé, tanto para os gentios como para os judeus. Esta doutrina resultava estranha aos judeus e aos gentios dos dias de Paulo. Os preconceitos nacionais eram demasiado intensos para permitir o surgimento imediato de uma comunidade religiosa integrada por membros de nacionalidades diferentes. Paulo dirigiu as palavras finais do capítulo 11 a um mundo que ele sabia que receberia com receio estas idéias revolucionárias:

"Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Rom. 11:33-36). Paulo começa o capítulo 9 de Romanos com uma exclamação de angústia e conclui o capítulo 11 – e a parte doutrinária de seu livro – com um glorioso louvor. É estranho que tenha manifestado tanto entusiasmo na conclusão de sua argumentação? Paulo tinha mostrado que:

"Deus é abundantemente capaz de transformar o coração de judeus e gentios semelhantemente, e de conceder a cada crente em Cristo as bênçãos prometidas a Israel." 6 Certamente, isto constitui razão mais que suficiente para encher de gozo a qualquer pessoa.

A Epístola aos Gálatas

Embora seja certo que a doutrina da salvação pela fé é ensinada em todas as epístolas de Paulo, as epístolas aos Romanos e aos Gálatas são as que põem mais ênfase nesta verdade. Na epístola aos Gálatas, Paulo defende sua doutrina contra os ataques de um grupo de judaizantes da igreja, o que sustentava o que Paulo denomina "um Evangelho diferente" (Gál. 1:6). Paulo volta a apresentar aqui a comissão que recebeu de pregar o Evangelho aos gentios. Também faz referência ao modo como se viu obrigado a opor- se a Pedro e a Barnabé quando estes vacilaram diante do grupo de judaizantes. Paulo volta a repetir sua tese:

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"Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado" (Gál. 2:16). Paulo estava grandemente preocupado pela atitude dos gálatas:

"Paulo pleiteava com os que haviam uma vez conhecido na vida o poder de Deus, para voltarem a seu primeiro amor da verdade do evangelho. Com irrespondíveis argumentos expunha perante eles seu privilégio em se tornarem homens e mulheres livres em Cristo, por cuja graça expiatória todos os que fazem completa entrega são vestidos com o manto de Sua justiça." 7 Na passagem seguinte volta a ser destacada a supremacia da fé:

"E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei" (Gál. 3:11-13). A argumentação apresentada em Romanos é resumida em Gálatas 3:21-26 e no capítulo 4:4 e 5. Paulo não estava preocupado somente pelo abuso com relação à lei, mas também se preocupava em que a lei fosse utilizada corretamente. Não queria cristãos que empregassem sua liberdade "para dar ocasião à carne" (Gál. 5:13). Considerava o amor como a base da lei. Estabeleceu um contraste entre as "obras da carne" e "os frutos do Espírito", e demonstrou que a obra do Espírito produz uma vida em harmonia com as exigências da lei e o amor divino. Entre todas as epístolas e os Evangelhos, a mensagem de Romanos e Gálatas leva a concordar com este conceito de Berkower: "Escreva-se com letras maiúsculas e com cursiva, que a salvação é a salvação de Deus, que nos vem por meio do milagre da redenção; a salvação de Deus que não foi ideada por uma mente humana e que não surgiu de nenhum coração humano. Nada disto muda uma única letra do fato de que esta graça soberana deve ser aceita pela fé". 8

Referências:

1.

Sunday,

William,

Epistle to the Romans, The International Critical

Commentary, p. xiv. Charles Scribner's Sons. 1917.

2.

Erdman, Charles, Epistle of Paul to the Romans, pp. 51, 52, Westminster,

1925.

3.

White, Ellen G., Testemunhos para Ministros, p. 456.

4.

Erdman, op. cit., p. 70.

 

5.

Sunday, op. cit., p. 274.

6.

White, Ellen G., Atos dos Apóstolos, p. 379.

7.

Idem, p. 388.

 

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O EVANGELHO NO APOCALIPSE

PODE ser que constitua uma novidade para alguns saber que o último livro da bíblia, o Apocalipse, contribui de modo substancial à doutrina da justificação pela fé. Este livro contém, à maneira de introdução, a expressão "revelação de Jesus Cristo"; de modo que não é estranho que em suas páginas apareça a salvação propiciada por Cristo. Ademais, como mensagem deste livro está apresentada por meio de símbolos, não surpreende que também se apresente a salvação de maneira simbólica. A primeira descrição de em Jesus Cristo no Apocalipse é feita por meio de uma visão de João registrada no primeiro capítulo deste livro. João cita estas palavras de

Aquele que vive; estive morto, mas eis que estou

vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno" (Apoc. 1:17,

seu Mestre glorificado. "Eu sou

18). A ressurreição de Cristo transformou-O no Senhor da morte. Não constitui visto uma parte do drama da redenção? No capítulo 4 mudam os símbolos. João viu a Deus tem visão em seu trono, rodeado por 24 anciãos, por "quatro seres viventes" (Apoc. 4:6), e por uma multidão de seres celestiais. Aquele que estavam no trono tinha em sua mão direita um rolo selado com sete selos. Um anjo perguntou: "Quem é digno de abrir o livro e de lhe

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desatar os selos?" Quem finalmente foi achado digno de revelar o conteúdo dos rolos foi Jesus, e quem se apresenta sob o símbolo de "o cordeiro". Esse termo é traduziu do de uma palavra grega que significa literalmente "um cordeiro", e era repetida 28 vezes no Apocalipse. * Este é o símbolo que se repete com mais freqüência neste livro, e face a empalidece a todos os outros símbolos devido a sua importância. Alguns, ao ler o Apocalipse, se detêm nas trombetas, nos selos, nas bestas, nos dragões, nos terremotos, nas taças, e muitos outros símbolos, mas passam por alto o Cordeiro. Este tipo de interpretação não chega a compreender qual é o centro real da profecia. Umas poucas referências ao Cordeiro mostrará que o evangelho não está ausente do Apocalipse. Em primeiro lugar, João o apóstolo, a quem os eruditos bíblicos conservadores consideram o autor do Apocalipse, ouviu a João Batista apresentar a Jesus como "o Cordeiro de Deus" (João 1:29, 36), no momento do batismo de Jesus. O fato de que João Batista entregasse o termo amnós (cordeiro) em vez da expressão arnión (um cordeirinho) é algo incidental ao significado básico do símbolo. A idéia do cordeiro sacrificado como um símbolo de Cristo é algo que tem sua origem em Isaías 53:7. Este símbolo sugere a impecabilidade de Cristo, o fato de que não resistiu à violência dos seus inimigos, e sua identidade como um sacrifício em harmonia com o simbolismo do ritual do Antigo Testamento. O apocalipse descreve o cordeiro como um objeto de adoração e culto, e mostra que o Salvador sofredor veio a ser a o Salvador triunfante. No capítulo 7:10, a multidão dos redimidos exclama: "Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação". Neste mesmo capítulo, no versículo 14, os salmos são descritos como aqueles que "lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro". Não este um simbolismo exagerado? Provavelmente, mas é muito expressivo e se harmoniza notavelmente com todo o ensino do Novo Testamento a respeito de Cristo. Apocalipse 12:10,11 é uma passagem especialmente oportuna. Depois da derrota do dragão, Satanás, ouviu-se uma voz do céu que dizia: "Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida" (Apoc. 12:10, 11). Outro significativo comentaram se encontra em Apocalipse 13:8, onde se fala de Jesus como o "Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo". Isto constituem um indício sobre a perspectiva histórica do plano de redenção.

* Apoc. 5:6, 8, 12, 13; 6:1, 16; 7:9, 10, 14, 17; 12:11; 13:8; 14:1, 4 (2), 10; 15:3; 17:14 (2); 19:7, 9; 21:9, 14, 22, 23, 27; 22:1, 3.

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Um belo símbolo da salvação aparecem em Apocalipse 19:7 a 9. O cenário está formado pelas "bodas do cordeiro". Sua "esposa" é a cidade de Deus, a Nova Jerusalém (Apoc. 21:9, 10). A "esposa" estava ataviada com linho finíssimo, "os atos de justiça do santos". É claro que a cidade de deus incluem o seus habitantes. A salvação é uma relação com Cristo, a qual é simbolizada pela relação do matrimônio. Os últimos versículos do livro o brilham com gemas evangélicas tais como estas:

"Quem quiser receba de graça a água da vida" (Apoc. 22:17), e "A graça do Senhor Jesus seja com todos (Apoc. 22:21).

APLICAÇÃO PRÁTICA DO ENSINO BÍBLICO

Ao recapitular as diferentes livros da Bíblia, vimos que "o Evangelho é eterno" brilha constantemente neles. "Na bíblia não há nenhum livro que não contribua, de um ou de outro ponto de vista com seu próprio um raio de luz formando o halo que rodeia o arco-íris da fé". 1 Desde Éden perdido até o Éden restaurado, a graça de deus se manifesta por meio de Cristo e tem eficácia por meio da fé. No entanto, é possível ler a bíblia sem chegar a captar esta ênfase. Desde os dias de Caim os homens têm procurado encontrar a salvação mediante seus próprios esforços. Como resultado disto, a mensagem do Evangelho tem sido neutralizada. A religião de uma pessoa consiste em obrigação, formalismo, ritual e profissão. A religião de outra pessoa é amor mútuo entre ela e Cristo. Um indivíduo trabalha para obter recompensas e para ser respeitado. Outro o faz porque teve uma experiência pessoal com Cristo. A religião de uma pessoa é semelhante a um casamento sem amor. A da outra é como um casamento que conta com a plenitude do amor. A preocupação dominante de um indivíduo consiste em defender sua fé. A preocupação principal de outro é fazer brilhar sua fé por meio de Cristo.

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Os esforços de uma pessoa estão tristemente limitados pela fraqueza humana. Outra pessoa, embora reconheça sua fragilidade, sabe que o poder da graça divina e está operando em seu favor. Um indivíduo contempla a Jesus como um grande Mestre ou como o Redentor dos homens. Outro aceita Jesus como seu Redentor pessoal. Uma pessoa espera ser salva se ela é fiel. Outra espera ser salva porque Deus a

fiel.

Um indivíduo confia nos planos e na organização humanos. Outro reconhece a necessidade do Espírito de Cristo. Uma pessoa, como o irmão mais velho da parábola, sente que têm direito ao favor de seu pai. Outra, como o filho pródigo que volta, se lança sem reservas nos braços da misericórdia. Não é impossível superestimar a importância de uma compreensão plena do ensino bíblico acerca da salvação. O cristianismo evangélico não deve abandonar a sua premissa básica. O adventismo não deve perder seu fundamento evangélico. Incorrer nestes erros seria rebaixar a igreja ao nível de uma sociedade moralista. Ellen G. White escreveu:

"Há pessoas conscienciosas que confiam parte a Deus e parte a si mesmas. Não olham a Deus, para serem guardadas por Seu poder, mas confiam na vigilância contra a tentação, e no cumprimento de certos deveres para serem aceitos por Ele. Não há vitórias nessa espécie de fé. Tais pessoas labutam inutilmente; sua alma está em contínua servidão, e não encontrarão sossego enquanto seus fardos não forem depostos aos pés de Jesus. "É mister haver contínua vigilância, e fervorosa, amorável dedicação; estas, porém, virão naturalmente quando a alma estiver guardada pelo poder de Deus, mediante a fé. Não podemos fazer nada, absolutamente nada, para nos recomendar ao favor divino. Cumpre-nos não confiar de modo algum em nós nem em nossas boas obras; mas, quando, como criaturas errantes, pecaminosas, vamos ter com Cristo, podemos encontrar descanso em Seu amor. Deus aceita toda pessoa que a Ele vai confiando inteiramente nos méritos de um Salvador crucificado. O amor brota no coração. Talvez não haja êxtase de sentimentos, mas há uma permanente e tranqüila confiança. Todo fardo é leve; pois o jugo imposto por Cristo é cômodo. O dever torna- se um deleite, e o sacrifício um prazer. A senda que dantes se afigurava envolta em trevas, torna-se iluminada pelos raios do Sol da Justiça. Isto é andar na luz assim como Cristo na luz está." 2 Esta constitui uma excelente declaração da interpretação adventista o ensino bíblico da salvação pela fé. Igual que todas as demais doutrinas, a igreja e seus membros individuais nem sempre têm aceito essa doutrina com o interesse com que deveriam tê-la recebido. Mas, apesar da fraqueza humana, o fundamento permanece. O futuro da igreja dependerá da profundeza que sua captação do método que Deus emprega para a salvação do ser humano.

Referências:

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1. Hastings, James, The Great Christian Doctrines: The Christian Doctrine of Faith, pág. 12. T & T. Clark. 1919. 2. White, Ellen G., Testemunhos Seletos, vol. 1, págs. 94, 95.

DE PAULO A JOÃO WESLEY: UM RESUMO

OS quatro Evangelhos e as epístolas de Paulo escritas às igrejas de Roma e Galácia, constituem a fonte mais frutífera da doutrina fundamental da justificação pela fé. Paulo, como vimos, estava constantemente em conflito com o legalismo judaico de seu tempo. Em contraste com esse legalismo, ele apresentou a fé em Cristo como o único meio para conseguir justificação, santificação e salvação. Ensinou que a salvação era um dom gratuito, independente da lei, e apresentou a lei apenas como uma norma de conduta, impotente para salvar. Enquanto a igreja primitiva esteve na defensiva contra o judaísmo, era natural que fosse posto em real se a concepção da salvação pela fé ensinada por Paulo em vez da salvação pelas obras. 1 À medida que se aplacou a luta contra o judaísmo, fez-se cada vez mais preeminente a filosofia mais simples e natural da salvação pela obediência. Esta tendência alcançou maioria ímpeto pelo fato de que muitos dos sucessores de Paulo não tiveram a experiência espiritual desse apóstolo, nem

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compartiam sua compreensão de Cristo. 2 É assombroso notar a rapidez com que ocorreram certas mudanças de atitude.

O propósito deste capítulo é colocar uma ponte entre o fundamento bíblico da

justificação pela fé e o desenvolvimento desta doutrina da Igreja Adventista do século

XIX e do XX. A brevidade deste resume permite incluir apenas umas poucas

referências aos fatos destacados ocorridos durante um período de dezenove séculos. As fontes para o estudo da história dessas doutrinas ao longo do tempo são ilimitadas. Os poucos pontos que são incluídos neste capítulo foram escolhidos por que os consideramos indispensáveis como antecedentes para o resto do livro.

Os Pais da Igreja

Clemente de Roma ilustra esta tendência para a modificação da doutrina paulina que surgiu nos primeiros anos do século II. Embora Clemente exaltou a fé, não manifestou compreensão alguma da fé como uma operação salvadora. 3 "o [Clemente]

não há realidade concordou com os demais cristãos dos seus dias em que a salvação

pode ser obtida o unicamente obedecendo a Deus e fazendo Sua vontade". 4 As epístolas de Inácio estão cheias de evidências do crescente e "eclesiasticismo"

e a ênfase nas boas obras. Seu a bela de Martinho contrastam estranhamente com as

palavras de um maior do que Inácio: "E ainda que entregue o meu próprio corpo para

ser queimado

nada disso me aproveitará" (I Cor. 13:3). O povo pode exaltou as

boas obras é indicado nas seguintes admoestações: "Que vossas obras sejam a

comissão que vos foi designada, a fim de obterdes delas uma recompensa de que nesse mas". 5 Esta mesma tendência resulta ainda mais patética na exagerada e alegórica epístola assim chamada de Barnabé. O autor insta: "O Senhor julgará o mundo sem

fazer distinção de pessoas. Cada um receberá segundo o que tenha feito: se é justo, sua

justiça o precederá; se é ímpio, a recompensa da sua impiedade e irá diante dele". 6 A segunda parte da "epístola de Barnabé" é intitulada: "Os dois caminhos". O caminho de luz e o caminho de trevas são postos em contraste na exortação final a "cumprir cada mandamento". 7 a ênfase é inteiramente legalista. Não é possível observar

nenhuma só nuance do ensino de Paulo acerca da justificação pela fé. "A Didaquê" ou "Ensino dos Doze Apóstolos", é muito semelhante aos capítulos

finais de Barnabé. 8 Esta descoberta comparativamente tardia realizada entre os documentos patrísticos é exclusivamente moralizadora. Pensa-se que foi utilizado como um manual de instrução para a igreja, e, citam fosse o caso, a cristandade daquele tempo constituía um corpo tão legalista como seu precursor, o judaísmo. Justino Mártir (ca. 100-165), O apologista do século II, declarou com toda ênfase que "cada homem recebe a salvação ou o castigo eterno conforme o valor das suas

pela

ações". 9 Justino, contudo, em seus Diálogos com Trifón, fala de ser "purificado

fé mediante o sangue de Cristo". 10 Parece que a atmosfera polêmica de um debate

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entre judeus e cristãos trouxe à superfície o ensino de Paulo a respeito da fé em contraste com a salvação pelas obras. Justiça não manifesta sua idéia sobre o plano da salvação, nas palavras que seguem:

"E somos tal como se tivéssemos sido arrancados do fogo, como já fomos purificado os de nossos pecados, e [resgatados] da aflição e da prova acesa por meio da qual o diabo e todos os seus auxiliares nos provam; da qual Jesus, o Filho de Deus, prometeu tornar a livrar-nos, e vestir-nos com roupas preparadas, se obedecendo os Seus mandamentos; e se empenhou na tarefa de proporcionar-nos um reino eterno". 11 Deste modo fica evidente que Justino está enfrentando um cristianismo semilegalista contra um judaísmo legalista. É necessário mencionar brevemente a Irineu (ca. 130-202), devido à sua influência na formação da teologia católica. 12 E Irineu dedicou suas energias a combater as diferentes heresias da gnósticas que prevaleciam nos seus dias. Os gnósticos ensinavam a salvação pelo conhecimento, e sustentavam que nem todos os

homens são capazes de alcançar salvação; unicamente os poucos favorecidos pode escapar das coisas materiais para entrar na esfera da gnoses perfeita. Alguns gnósticos concediam a possibilidade da existência a um grupo intermediário que poderia obter a salvação por meio da fé complementada pela obras. 13 Irineu escreveu bastante contra estas heresias gnósticas. Pôs ênfase no arrependimento e na justiça mais do que na fé;

na

obediência a uma lei eterna: a lei de Deus". 14 Assim como Justino combateu o judaísmo como um cristianismo legalista, assim também Irineu lutou contra o gnosticismo com as flechas de seu próprio arsenal. Aceitou até a idéia dos gnósticos sobre a salvação como uma liberdade da carne em vez de a redenção dela. 15 E Irineu era sacramentalista na sua crença, e ao combinar o sacramentalismo com um conceito legalista da salvação, estabeleceu o fundamento do sistema católico histórico. 16 "Portanto, por toda parte era reconhecido que a participação nos sacramentos e na obediência – incluindo a fé correta a e reta conduta – era necessária para a salvação, ou, em outras palavras, que deviam intervir a graça divina e o mérito o modo". 17 Tertuliano (ca. 150-226) foi chamado "o fundador da teologia latina", "o precursor o cursor de Santo Agostinho". 18 Ele me ensinou a importância da morte de Cristo em sua relação com a salvação humana, mas se apegou a um enfoque legalista do arrependimento e a aceitação divina. Ensinou a penitências e o castigo próprio pelo pecado. Antecipou-se à doutrina agostiniana do pecado original, mas ensinou o livre arbítrio. 19 Clemente de Alexandria (ca. 160-220) considerou a fé como uma mera convicção de que certas coisas são verdadeiras. Seu legalismo está exemplificado em sua consideração da salvação como "a porção do que vive de acordo com os mandamentos". 20 Orígenes (ca. 185-254), discípulo de Clemente chegou a ser o grande teólogo sistemático de sua época. Ensinou que a salvação é o resultado da fé, mas argumentou que o conhecimento era necessário para alcançar um maior desenvolvimento

ensinou o livre-arbítrio; e cria que "a justiça exigida do cristão consistia

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espiritual. No entanto, a definição da fé dada por Orígenes, não era mais do que a aceitação das doutrinas da igreja. 21 O esqueleto de sua estrutura doutrinárias era semelhante ao de Irineu e de Tertuliano. Concordava com a maior parte de seus contemporâneos de necessidade de apoiar a doutrina do livre-arbítrio. Ao longo da trama de toda a literatura patrísticos correm duas linhas perfeitamente discerníveis: primeiro, uma aceitação de Cristo como o único meio de salvação, embora não no sentido paulino; e segundo, a necessidade das boas obras como acompanhantes do arrependimento e como meios para se conseguir o mérito divino. Durante este período, a doutrina do livre-arbítrio tinha um predomínio quase absoluto. 23 os princípios legalista do catolicismo se estabeleceram firmemente e a doutrina paulina da justificação por meio da fé perdeu-se quase por completo. Os credos de Nicéia (ano 325) e de Constantinopla (381) concordam que Cristo desceu "para nossa salvação", 24 mas não proporcionam indício alguma cerca da maneira como opera a salvação de centro da esfera da vida individual. O grande assunto da economia da salvação no ano que surgiu em primeiro plano durante a controvérsia pelagiana levada a cabo durante o século V. Os dois personagens sobressalentes desta luta foram Agostinho de Hipona e Pelágio. Agostinho (354-430) é considerado, em geral, como "o mais influente de todos os mestres da igreja desde a era apostólica". 25 A parte mais de instintiva de sua teologia era seu ponto de vista acerca do pecado e da graça. 26 Em parte como resultado de sua própria experiência, Agostinho estava convencido de que o homem é fundamental e originalmente pecador e que a salvação é possível unicamente por meio da graça de Deus oferecida, não como resultado dos esforços humanos, mas conforme Deus o determina. Insistiu na dependência absoluta do homem com relação a Deus, e seu pensamento chegou à teoria da predestinação. Em aparente contraste com esses conceitos espirituais e místicos, Agostinho insistiu na suprema autoridade da Igreja Católica. 27 Os pontos de vista de Pelágio (ca. 370-440) também refletem a personalidade e a experiência do homem. Sua filosofia se baseava no pressuposto de que o homem é capaz de levar a cabo tudo o que a justiça e exige, e que pode realizar sua própria salvação. 28 Pelágio apelou ao sentido de justiça inato do homem, que se rebela contra a filosofia determinista. 29 O ponto de vista de Pelágio era de natureza individualista, e enquanto que os conceitos de Agostinho eram coletivistas. 30 Estas filosofias em choque significam mais do que os conceitos dos homens. Representa o dois sistemas morais e religiosos. 31 Os decretos da igreja indicaram a Agostinho e anatematizaram a Pelágio; contudo, os pontos de vista de Pelágio continuaram sendo sustentados de maneira modificada na corrente de pensamento conhecidos o nome de semipelagianismo. Este ponto de vista de transação representava o "sentimento comum da igreja ocidental que datava de uma época anterior a Agostinho e a Pelágio, e que se opunha tanto ao primeiro como ao o último". 32 A importância da controvérsia entre Agostinho e Pelágio não pode ser desmerecida.

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"Agostinho introduziu na sua teologia as sementes de dois sistemas, que mais de 1000 anos depois entrariam em guerra aberta. O sistema católico romano estava baseada nesta doutrina da igreja (em oposição aos donatistas); o sistema do protestantismo evangélico repousa sobre seus conceitos acerca do pecado, a graça e a predestinação (em oposição aos pelagianos). 33 Este paradoxo curioso foi comentado por Harnack, que observou que "Agostinho experimentou, por um lado, o último reavivamento na e igreja antiga do princípio de que 'unicamente a fé salva'; e, por outro lado, silenciou aquele princípio durante mil anos". 34

O Catolicismo Medieval

Durante séculos depois de Agostinho, o catolicismo refletiu um crescente ascetismo e formalismo. A igreja viera a ser uma organização hierárquica completa, e embora escolásticos como Anselmo e Tomás de Aquino tenham falado da salvação pela fé, a fé para eles significava a disposição em aceitar os ensinos da igreja. 35 As penitências, as obras de super-erogação, as peregrinações e as indulgências refletiam a atitude legalista da igreja. No seio da igreja surgiram certos místicos que tinham uma apreciação mais profunda dos valores espirituais que os feligreses comuns, porém sua mediação e seus exercícios espirituais tiveram um efeito muito limitado no pensamento e nas práticas dos membros da igreja. Sem dúvida a doutrina paulina da justificação pela fé esteve limitada durante esses tempos a grupos dissidentes tais como o dos valdenses. Uma antiga obra valdense, aponta a Igreja Romana como o Anticristo, e a acusa da seguinte maneira:

"Rouba e priva a Cristo de Seus méritos, juntamente com toda a ciência da graça, da justificação, da regeneração, da remissão dos pecados, da santificação, da confirmação e da nutrição espiritual; e se imputa e atribui os mesmos à sua própria autoridade, a uma forma de palavra, a suas próprias obras; ao santos e sua interseção, e ao fogo do purgatório, e separa o povo de Cristo, que sua busca das coisas mencionadas anteriormente o conduz para longe de Cristo para que não as encontrem nEle nem por meio dEle, mas o unicamente nas obras de suas próprias mãos, e não por meio de uma fé viva em Deus, nem em Jesus Cristo, nem no Espírito Santo, senão pela vontade, o prazer e as obras do Anticristo, de acordo com o que ele prega, que toda salvação depende de suas obras". 36 Os que se opunham ao catolicismo que invadia tudo nos tempos anteriores à Reforma, sustentavam vários princípios doutrinários comuns. Um deles era o protesto contra a idéia católica da salvação pelas obras. Os valdenses não estavam sós na expressão deste protesto; seus conceitos eram compartilhados em parte por homens como João Wiclef da Inglaterra e João Huss da Boêmia. No entanto, estes protestos contra o legalismo papal e outros abusos não eram nada mais do que vozes que clamavam no deserto. Estas vozes eram silenciadas pela autoridade da hierarquia.

Martinho Lutero

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Com o tempo surgiu um homem cuja vós não pode ser silenciada. Martinho Lutero, da mesma maneira que Paulo e Agostinho, desenvolveu seus conceitos religiosos no crisol da experiência pessoal. Tese anos em um convento o convenceram sobre "absoluta impotência e escravidão da vontade". 37 Chamou isso de "a invencível concupiscência" da carne, e às vezes desesperou-se por encontrar uma solução satisfatória ao problema que lhe angustiava a alma. Enquanto se encontrava neste estado de perplexidade, Lutero recebeu a influência de Staupitz, um monge agostiniano como fortes tendências místicas. Lutero aceitou conceitos de seu mestre e de "uma completa a entrega do ser a Deus, e uma interior apropriação de Cristo como o princípio controlador da vida". 38 esta filosofia de "completa passividade nas mãos de Deus" e de "inteira confiança nEle" 39 constituiu a base de sua doutrina sobre a justificação pela fé. O tempo e a experiência fortaleceram suas convicções até que a idéia da justificação pela fé somente se converteu no centro de sua teologia. 40 Tomou muita coisa emprestada de Agostinho, mas foi mais além de Agostinho ao reconstruir o ensino paulino. 41 Compreendeu que a justiça eram dom de Deus, uma obra de justificação realizada dentro do homem como resultado da misericórdia de Deus. 42 Concebeu o princípio da justiça imputada; isto é, que o cliente será tratado o como se a justiça de Cristo fosse realmente sua própria justiça. 43 O ensino da confiança complementava esta convicção de Lutero. Esta crença livrava o cristão da escravidão do temor associado a uma religião legalista. 44 Provavelmente não seja um exagero concluir que Lutero foi "o primeiro grande e certeiro pregador da justiça pela fé enviado à igreja cristã desde os dias do apóstolo Paulo". 45 Tal como Paulo, concebeu a fé como uma confiança da misericórdia de Deus por meio de Cristo; e concebeu a justificação como o ato de declarar o cliente justo por meio de Cristo. 46 Ao avaliar-se a obra de Lutero, entretanto, deve-se lembrar que, tal como outros mortais, ele também teve seus defeitos. Algumas vezes sucumbiu à tendência humana de apontar mais além do objetivo. Algumas vezes sacrificou a consistência por uma consideração servil com relação a Agostinho. Em certos casos pareceu interpretar as Escrituras através de Agostinho em lugar de interpretar a Agostinho através das Escrituras. 47 Embora tenha ensinado a necessidade das boas obras, 48 às vezes proferiu declarações ferinas contra as boas obras. 49 Lamentavelmente, Lutero seguiu a Agostinho em vez de seguir a Paulo no seu

ensino da predestinação, do livre-arbítrio e de doutrinas afins. É dito que ele declarou:

"A vontade humana é como uma besta de carga. Se Deus a cavalga, ela deseja e vai como Deus quer; se Satanás a cavalga, ela deseja e vai como satanás quer. Não pode escolher o cavaleiro de sua preferência, nem dar-se a ele, pelo contrário são os

Deus não prevê nenhuma coisa sujeita a

cavaleiros que disputam a sua posse

contingências, mas prevê, predestina e realiza todas as coisas por meio de uma vontade imutável, a eterna e eficaz. Por meio desta ação fulminante, a vontade é

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Era inevitável que esses ensinos fossem impugnados. veremos posteriormente de que a madeira o assunto do livre-arbítrio se converteu num ponto de disputa na época do reavivamento evangélico realizado por Wesley.

João Calvino

A reforma protestante foi descrita, não como um círculo com Lutero no seu

centro mas como uma elipse com dois focos: Lutero e Calvino. 51 Lutero foi o primeiro que expressou as doutrinas da Reforma; Calvino as codificou. 52 Lutero adotou como centro de seu sistema a doutrina da justificação pela fé. Calvino aceitou como seu dogma de ortodoxia a doutrina da soberania de Deus. Aceitação de Calvino da fórmula agostiniana-luterana se entrevê em sua definição da justificação pela fé:

"Pelo contrário, um homem será justificado pela fé quando, e excluído da justiça das obras, pela fé se apodera da justiça de Cristo, e vestido com ela aparece aos olhos de Deus, não como pecador, mas como justo; e dizemos que a justificação consiste no perdão dos pecados e da imputação da justiça de Cristo". 53 Calvino Lutero se harmonizam estreitamente nos seus pontos de vista sobre a justificação pela fé, mas Calvino vai muito mais além de Lutero em sua insistência na predestinação. 54 Os princípios básicos do da teologia calvinista, como foram expressos pelos críticos da famosa Protesta de 1610, são os seguintes:

"1. Que Deus (como alguns declararam) destinou mediante um decreto eterno e

irreversível a certos homens (aos quais Ele não considerava como

eterna; e dispôs que alguns (que constituíam a grande maioria) fossem à perdição eterna sem considerar em nada décimo no sua obediência ou sua desobediência, e isto a fim de exercer tanto sua justiça como sua misericórdia; exerceu seu arbítrio de tal maneira que os que ele destinou para a salvação têm que salvar se necessária e inevitavelmente, e o resto tem que perder-se necessária inevitavelmente. "2. Que Deus (como outros ensinam) havia considerado a humanidade não apenas como criada mas também como queda em Adão, e portanto igualmente merecedora da maldição; que ele tinha determinado livrar a alguns desta queda e destruição e salvá-los como expoentes de Sua misericórdia; e deixar a outros, mesmo os filhos do pacto, como expoentes de Sua justiça, sem levar em conta sua crença ou incredulidade. Deus também exerceu Seu arbítrio para lograr este objetivo, segundo o qual os eleitos eram necessariamente salvos e os réprobos eram necessariamente condenados. "3. Que, em conseqüência, Jesus Cristo o Salvador do mundo não morreu por todos os homens, mas apenas pelos que tinham sido eleitos de acordo com o primeiro ou com o segundo método. "4. Que portanto o espírito de Deus e Cristo opera nos eleitos por meio de uma força irresistível para fazê-los crer e salvá-los, mas que aos réprobos não lhes dá graça necessária nem suficiente. "5. Que os que uma vez recebeu a fé genuína nunca pode perdê-la completa ou definitivamente". 54

caídos) à vida

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Segundo isto, em meados do século XVI predominavam na Europa duas escolas de pensamento protestante: o literalismo e o calvinismo. O não boas contribuíam para a emancipação de milhares de pessoas da escravidão do catolicismo medieval, e ambas defendiam corajosamente certas doutrinas bíblicas. Ambos os sistemas, contudo, tinham fraquezas que produziram uma reação inevitável nas fontes católicas e protestantes. É significativo que uma boa parte da reação ao luteranismo e ao calvinismo tivesse que viver com seus ensinos referentes a forma em que o homem é salvo.

O Concílio de Trento

O concílio de Trento foi o porta-voz da reação católica. Os dirigentes católicos

captaram rapidamente as contradições dos reformadores. Adotaram uma posição que

poderia denominar-se semiagostiniana ou semipelagiana, mas evitaram

cuidadosamente identificar-se com algum dos dois extremos. Muitas declarações do concílio parecem ser muito evangélicas, mas um mais acurado exame revela que sobre esta aparência evangélica descansa o clericalismo tradicional catolicismo.

A quinta sessão do concílio mencionado o promulgou um decreto concernente ao

pecado original. 55 Este decreto parece ser bíblico e evangélico, até o ponto onde

Nosso senhor Jesus Cristo" deve aplicar-se "tanto aos

adultos como às crianças mediante o sacramento do batismo devidamente administrada na forma prevista pela igreja". 56 Este mesmo decreto, na sua parte final, abre exceção de modo particular a "bendita e imaculada virgem Maria" em sua declaração concernente ao pecado original e a concupiscência. 57

A sexta sessão realizada em 13 de janeiro de 1547, tratou do tema da justificação.

Um exame dos decretos que se refere esta doutrina revela posição católica:

afirma que "o mérito de

Capítulo I. O livre-arbítrio, embora tenha ficado enfraquecido pelo pecado original, não foi extinguido. 58 Capítulo III. Unicamente os que nascem de novo são justificados. 59 Capítulo IV. O batismo é necessário para a justificação. 60 Capítulo V. No caso dos adultos, "a graça preventiva de Deus" prepara para a justificação. 61 Capítulo VII. A justificação do não é apenas a remissão dos pecados, mas também "a santificação e a renovação do homem interior mediante a recepção voluntária da graça, e dos dons, segundo o qual o homem justo é feito justo". 62 É dito que a justificação inclui, não apenas o ato judicial, mas que realmente torna justo o indivíduo "de acordo com a disposição e a cooperação de cada um", e infunde "fé, esperança e caridade". 63 Capítulo IX. A doutrina da esperança é rechaçada. 64 Capítulo X. Depois da justificação "eles, mediante a observação dos mandamentos de Deus e dos mandamentos da igreja, e a cooperação da fé com as obras, cresce nessa justiça que receberam por meio da graça de Cristo, e seu justificados ainda mais". 65

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Capítulo XI. É imposta ao observação dos mandamentos. "Portanto, ninguém deveria contentar-se o unicamente com a fé, imaginando que pela fé somente e ator da do herdeiro". 66 Capítulo XII. Aqui se mantém que os mistérios secretos da predestinação divina são desconhecidos para o homem. 67 Capítulo XIII. A salvação deve realizar-se por meio de "trabalhos, vigílias, esmolas, orações e oferendas, jejuns e castidade". 68 Capítulo XIV. As penitências, e incluído os jejuns, as esmolas, as orações e outros exercícios piedosos, são necessários para os que caem fora do âmbito da justificação. 69 Capítulo XV. O pecado mortal faz perder a graça. 70 Capítulo XVI. Pedido que os justificados "por essas mesmas obras que fizeram

E em verdade

mereceram a vida eterna". 71 Ao final destes decretos, o dogmatismo da igreja deposto em relevo pela declaração segundo a qual qualquer um que não recebe "desta doutrina católica da

justificação" não pode ser justificado. 72 Os "decretos" são seguidos por 33 "cânones" que ameaçam com o anátema todos os que discordam da fórmula católica concernente

a justificação. O Concílio de Trento não estabelece nenhuma mudança fundamental

na posição de católica acerca da justificação. Os decretos e os cânones tendiam a obscurecer os assuntos reais capitalizados as posições dos reformadores que eram insustentáveis. A reação contra o luteranismo e o calvinismo não se limitou à Contra-Reforma católica. Dentro das fileiras protestantes surgiram algumas pessoas que não estavam dispostas a seguir os reformadores principais. Embora Melanchton que, amigo e colaborador mais íntimo de Lutero, firmava oposição do livre-arbítrio e evitava os extremos de Lutero com relação às boas obras. 73 As controvérsias osiandrina e estancarianista firmaram posição na natureza da justificação pela fé e prescindiram da igreja luterana recém-formada. 74 Zwínglio, o reformador suíço, manifestou uma tendência de modificar os pontos de vista a agostinianos extremos. Os anabatistas, por sua vez, opuseram-se ao sistema doutrinário agostiniano e insistiram no livre-arbítrio I da importância das boas obras como o fruto da fé. 75

em Deus" conseguiram "satisfazer plenamente a lei divina

Armínio

Armínio de Orlando contribuiu muito ao pensamento evangélico dessa época. Os cinco pontos da teologia arminiana, em contraste com os princípios do calvinismo, se resumem em continuação devido a suas abarcantes implicações:

1. Que Deus, por meio de um decreto eterno e imutável em Cristo antes que houvesse mundo, determinou escolher da raça caída e pecadora para que recebessem a vida eterna os que, mediante Sua graça crescem em Jesus Cristo e perseverassem na fé

e na obediência; e, pelo contrário, resolveu rechaçar os inconversos e incrédulos para enviá-los à condenação eterna.

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2. Que, como conseqüência disso, Cristo o Salvador do mundo morreu por todos

os homens e por cada um deles, de modo que obteve mediante Sua morte na cruz a reconciliação e o perdão dos pecados por todos os homens; e no entanto, fez isso de tal maneira que meio a um exceto os fiéis em realidade desfrutassem dos mesmos.

3. Que o homem não pode obter fé salvadora por si mesmo ou mediante a força

de sua própria vontade, mas que tem necessidade da graça de Deus mediante Cristo para ser renovado no pensamento e na vontade.

4. Que esta graça é a causa do em míssil do progresso e da plenitude de todo

bem, de tal maneira que ninguém poderia crer bem perseverar na fé sem a cooperação desta graça, e em conseqüência todas as boas obras devem atribuir-se à graça de Deus em Cristo. Com relação à operação desta graça, entretanto, não é irresistível.

5. Que os verdadeiros crentes tinham força suficiente mediante a graça divina

para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo e a própria carne, e obter a vitória sobre

eles. 76

O objetivo do arminianismo consistia em sustentar a tese da responsabilidade humana com suas implicações morais, e enquanto continuava sustentando a salvação pela graça. 77 Armínio e não era pelagiano. 78 Admitia a obra do espírito de Deus e a importância da graça, "mas pensava que era seu dever salvar a honra de Deus, e pôr em relevo, na base das claras expressões da Bíblia, o livre-arbítrio do homem tanto como a verdade da doutrina do pecado". 79

João Wesley

Provavelmente a principal contribuição do arminianismo tenha sido sua influência sobre o reavivamento evangélico de Wesley, que foi chamado "o arminianismo aceso". 80 Entre as diversas fontes de onde João Wesley obteve sua teologia, duas são sobressalientes: o arminianismo e o moravianismo. O primeiro deles bem pode ser mencionado em primeiro plano, porque seu impacto foi sentido primeiro. A história das primeiras experiências de Wesley, incluindo sua aventura missionária em Geórgia é bem conhecida. Foi em 1738, em seu retorno à Inglaterra dos Estados Unidos, quando João Wesley conheceu os morávios. Estes descendentes espirituais de João Huss, estavam sob a direção do Conde de Zinzendorf, da crença luterana pietista. A partir de suas conversações com Peter Bohler, Wesley chegou a compreender o grande princípio da justificação pela fé somente, e se "converteu". Wesley teve sua conversão em determinada hora da tarde de 24 de maio de 1738, enquanto escutava a leitura do prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. 81 Sua conversão consistiu em uma renúncia à dependência das obras de justiça, e em uma aceitação da fé salvadora em Cristo. 82 Foi a pregação de Wesley desta doutrina que originou um dos maiores reavivamentos religiosos de todos os tempos. A mensagem conhecida como "metodismo" foi essencialmente uma doutrina a respeito de como era possível salvar-se. Wesley escreveu:

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"A justificação, da qual falam nossos artigos e homílias, significa perdão dos pecados, e como conseqüência aceitação da parte de Deus. Eu creio que a condição para isto é a fé; quero dizer, não apenas que sem fé não podemos ser justificados, mas também que, assim que alguém tenha uma fé verdadeira, nesse momento é justificado. As boas obras acompanham esta fé, mas não podem ir antes dela; muito menos pode fazê-lo a santificação, o que implica a realização contínua de boas obras que surge da santidade de coração. "O arrependimento deve ocorrer antes da fé, e os frutos devem manifestá-lo, se houver oportunidade. Por arrependimento entendo a convicção do pecado, que produz um real desejo e uma resolução sincera de reparo; e pelos frutos do arrependimento entendo o perdão de nosso irmão, o afastamento do mal e a prática do bem, a aceitação dos mandamentos de Deus, e em geral a obediência a Ele conforme a medida da graça que recebemos. Mas ainda não posso denominar a isso boas obras, porque isto não surge da fé e o amor de Deus. "Por salvação entendo, não simplesmente a liberação do inferno, ou ir ao céu, mas uma liberação do pecado, uma restauração da alma à sua saúde primitiva, à sua pureza original; uma recuperação da natureza divina; a renovação de nossas almas à imagem de Deus, em retidão e em verdadeira santidade, em justiça, misericórdia e verdade. Isto implica numa disposição santa e celestial, e em conseqüência, a santidade da conduta. "A fé é a única condição para obter esta salvação. Sem fé não podemos ser salvos, porque não podemos servir corretamente a Deus a menos que O amemos. E não podemos amá-Lo a menos que O conheçamos, e tampouco podemos conhecê-Lo a menos que seja mediante a fé. "A fé, em geral, é uma evidência divina e sobrenatural, ou uma convicção das coisas que não se vêem; isto é, das coisas passadas, futuras ou espirituais. A justificação pela fé implica, não apenas numa evidência divina, ou convicção de que Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo, mas também numa firme confiança em que Cristo morreu por meus pecados; que Ele me amou e Se entregou a Si mesmo por mim. E no momento em que um pecador penitente creia nisto, Deus o perdoa e o absolve. "E tão logo como seu perdão ou justificação lhe é revelado pelo Espírito Santo, ele está salvo. Ama a Deus e a toda a humanidade. Tem os pensamentos de Cristo e poder para andar como Ele andou. Dali em diante 'a menos que sua fé naufrague' a salvação aumenta gradualmente em sua alma. O Autor da fé e da salvação é unicamente Deus. Ele é o único Doador de todo dom e o único Autor de toda boa obra. O homem não tem poder nem mérito; mas todo mérito corresponde ao Filho de Deus, pelo que fez e sofreu por nós, de maneira que todo o poder está no Espírito de Deus. E portanto, cada homem a fim de crer para ser salvo, precisa receber o Espírito Santo. Isto é essencialmente necessário a cada cristão a fim de ter fé, paz, gozo e amor. Todo aquele que tem estes frutos do Espírito não pode deixar de saber e sentir que Deus lhe pôs isso no coração". 83

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Nestes princípios podem ver-se não apenas a insistência de Wesley na justificação pela fé somente tal como ensinada por Lutero, mas também outro ensino com o qual nem Lutero nem Calvino concordaram. É a doutrina fundamental de Wesley do livre-arbítrio. Ele pôs objeções à doutrina da predestinação porque cria que tornava vã a pregação, suprimia o estímulo à santidade, afogava a simpatia humana, eliminava o consolo da redenção, destruía o zelo pela boas obras, fazia a Bíblia contradizer-se a si mesma, e blasfemava de Deus e de Cristo. 84 Ao sustentar e ensinar estes conceitos antideterministas, Wesley deu amplo crédito a Armínio. Com efeito, um dos órgãos principais do metodismo, estabelecido por Wesley mesmo, ficou conhecido pelo nome de The Arminian Magazine. Na proposição para a publicação desta revista, Wesley fez uma declaração contra a doutrina de que "alguns homens serão salvos, não importa o que façam, e o resto será condenado, não importa o que possam fazer". 85 Em oposição a este conceito, Wesley tentou demonstar em sua revista que Deus queria que todos os homens se salvassem. Começou seu jornal com uma nota biográfica sobre Armínio. A teologia de Wesley, em suas partes constituintes, não era nova, mas ele parecia estar dirigido por Deus em sua habilidade para escolher o melhor do luteranismo, do calvinismo, do anglicanismo, do arminianismo e de outros sistemas que surgiram antes, e para evitar muitas de suas armadilhas. Suas doutrinas exerceram uma grande influência em uma geração decadente e iniciaram muitas reformas sociais.

Referências:

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Park Fisher, George, History of Christian Doctrine, p. 43, Charles Scribner's Sons. 1932.

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McGiffer, Arthur C., A History of Christian Thought, vol. 1, p. 85. Charles Scribner's Sons. 1932.

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4.

McGiffer, loc. cit.

5.

Inácio, "Epistle to Polycarp", cap. 6, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 1, p.

95.

6.

"The Epistle to Barnabas", cap. 4, em Id., vol. 1, p. 139.

7.

Id., pp. 148, 149.

8.

Lake, Kirsopp, The Apostolic Fathers, vol. 1, pp. 305-333. G. P. Putman's Sons, 1919.

9.

Justino Mártir, "The First Apology", em The Ante-Nicene Fathers, vol. 1, p.

166.

10.

Justino Mártir, "Dialogue With Trypho", em Id., vol. 1, p. 200.

11.

Id., p. 257.

12.

McGiffer, op. cit., p. 134 e seguintes.

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64

14. Id., p. 139.

15. Id., p. 142.

16. Id., p. 147.

17. Id., p. 148.

18. Fisher, op. cit., p. 90.

19. Id., p. 93.

20. Clemente de Alexandria, "Stromata", livro 2, cap. 6, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 2, p. 353.

21. McGiffer, op. cit., p. 210 e seguintes.

22. Orígenes, "De Principiis" livro 3, cap. 1, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 2, p. 353.

23. Hagenbach, K. R., A Textbook of the History of Doctrines, vol. 1, p. 188. Sheldon and Company, 1864.

24. "Canons and Creeds of the First General Councils", em Translations and

Reprints From the Original Sources of European History, vol. 4, pp. 4 e 11.

University of Pennsylvania Press, 1897.

25. Fisher, op. cit., p. 176.

26. Id., p. 183.

27. McGiffer, op. cit., p. 116.

28. Warfield, B. B., "Introductory Essay on Agustine and the Pelagian Controversy", em Nicene and Post-Nicene Fathers, vol. 5, p. xiv. Christian Literature Publishing Company, 1887.

29. Fisher, op. cit., pp. 186, 187.

30. Hagenbach, op. cit., p. 299.

31. Id., p. 296.

32. McGiffer, op. cit., vol. 2, p. 136.

33. Hagenbach, op. cit., p. 240.

34. Harnack, Adolph, Zeitschrift f. Theo. u. Kirche, p. 177 (1891), citado no art. "Justification" em The International Standard Bible Encyclopedia, vol. 3, p. 1786. Wm. B. Eerdmans Publishing Co. 1939.

35. Fisher, op. cit., pp. 249, 250.

36. Citado por Jean Paul Perrin, History of the Old Albigenses, p. 245. Griffith and Simon, 1847.

37. Smith, Preserved, The Life and Letters of Martin Luther, prefácio, pp. viii, iv. Houghton Miffin Company, 1911.

38. Newman, A. H., A Manual of Church History, vol. 2, p. 46. The American Baptist Publication Society, 1931.

39. Smith, loc. cit.

40. Id., p. 396.

41. Köstlin, Julius, The Theology of Luther, vol. 1, p. 327. The Lutheran Publication Society, 1897.

42. Id., pp. 72, 73.

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44. Id., p. 274.

45. Köstlin, op. cit., pp. 77, 278.

46. Faulkner, John Alfred, "Justification", em The International Standard Bible Encyclopedia, vol. 3, p. 1787.

47. Newman, op. cit., p. 52.

48. "Treatise on God Works" em The Work of Martin Luther, pp. 173-285. A. J. Holman Company, 1915.

49. Newman, op. cit., pp. 87-90.

50. Smith, op. cit., p. 208.

51. Harrison, A. W., The Beginnings of Arminianism, p. 1. University of London Press, 1926.

52. Id., p. 3.

53. Calvino, João, Institutes of the Christian Religion, vol. 2, p. 38. Eerdman's Publishing Co., 1957.

54. Citado em Harrison, op. cit., pp. 149, 150.

55. Schaff, Philip, The Creeds of Christendom, vol. 2, p. 83 e seguintes. Harpers,

1887-1919.

56. Id., p. 85 e seguintes.

57. Id., p. 88.

58. Id., p. 89.

59. Id., pp. 90, 99.

60. Id., p. 91.

61. Id., p. 92.

62. Id., p. 94.

63. Id., pp. 95, 96.

64. Id., p. 98.

65. Id., p. 99.

66. Id., p. 101.

67. Id., p. 103.

68. Id., p. 104.

69. Id., pp. 104-106.

70. Id., pp. 106, 107.

71. Id., p. 108.

72. Id., p. 110.

73. Harrison, A. W., The Beginnings of Arminianism, p. 11. University of London Press, 1926.

74. Newman, A. H., A Manual of Church History, vol. 2, pp. 319, 320. The American Baptist Publication Society, 1931.

75. Id., p. 134.

76. Harrison, op. cit., pp. 150, 151. Como fonte ver Schaff,, op. cit., vol. 3, pp.

545-549.

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78. Id., p. 342.

79. Beckwith, C. A. "Arminianism", em The New Schaff-Herzog Encyclopedia Of Religious Knowledge, vol. 1, p. 297. Funk and Wagnalls.

80. Fisher, op. cit., p. 342.

81. Qualben, Lars P., A History of The Christian Church, p. 369. Thomas Nelson

and Sons. 82. Tyerman, I., The Life and Times of the Rev. John Wesley, vol. 1, p. 178.

Harper and Brothers.

83. Id., pp. 52, 53.

84. Id., p. 319.

85. Id., vol. 3, pp. 28 e seguintes.

AS PRIMEIRAS QUATRO DÉCADAS

ESTE capítulo tem o propósito de recapitular a condição em que se encontrava a doutrina da justificação pela fé na Igreja Adventista do Sétimo Dia antes de 1888. Esta data foi escolhida como o ponto terminal desta fase do estudo, porque foi em 1888 que esta doutrina veio a ocupar um lugar preponderante na Igreja Adventista. A ordem da apresentação do material será a seguinte:

(1) Como Tiago White parece ter sido o primeiro a referir-se a esta doutrina, neste capítulo sua contribuição neste campo será considerado primeiro. (2) Serão apresentadas referências a esta doutrina tomadas de outras fontes anteriores à data mencionada. É chamada a atenção à falta de ênfase nesta doutrina durante esta época. (3) Será analisada uma declaração feita por Ellen G. White em 1889 em que afirma que ela e seu esposo tinham estado sós durante 45 anos ensinando esta doutrina. (4) Serão examinados os escritos da Sra. White para determinar sua atitude e sua ênfase com relação a este tema. (5) Será apresentado o volume crescente de pensamento acerca desta doutrina que precedeu imediatamente o Congresso da Associação Geral de 1888, e será dada especial atenção aos escritos de Ellen G. White, produzidos durante esses meses.

Tiago White

A primeira revista Adventista, conhecida como The Present Truth, foi publicada por Tiago White em 1849. O primeiro número desta revista continha a seguinte declaração:

"A observância do quarto mandamento constitui uma importantíssima verdade

presente, mas isto somente não salvará a ninguém. Devemos guardar todos os mandamentos e seguir estritamente todas as indicações do Novo Testamento, e ter fé vivente em Jesus". 1 Esta declaração indica uma apreciação da importância da "fé vivente em Jesus".

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Além disso, a atitude do pastor White pode ser apreciada em artigos escritos por ele em alguns dos primeiros números de The Advent Review and Sabbath Herald. Em 1852 ele falou da alegria dos que tinham "encontrado a Jesus" 2 , e posteriormente fez uma declaração paralela à que foi citada mais acima tirada de The Present Truth. 3 Durante o mesmo ano, foi manifestado da parte do tema que nos ocupa, como se pode apreciar em continuação:

"Esta passagem [Gál. 5:4] pode-se dizer com propriedade que se aplica ao judeu cego que rechaça a Jesus, porém não ao cristão que guarda os mandamentos de Deus e espera a justificação unicamente por meio de Jesus Cristo "E os que dizem que os observadores do sábado estão se afastando de Jesus, a única fonte de justificação, e estão rechaçando Seu sangue expiatório e buscando a justificação por meio da lei, o fazem por ignorância ou por malignidade "É possível que alguém observe a letra de todos os dez [mandamentos], e apesar disso, se não é justificado pela fé em Jesus Cristo, nunca terá direito à árvore da vida. "O plano do Evangelho é simples. A lei de Deus convence do pecado e mostra o pecador exposto à ira de Deus, e o conduz a Cristo, onde a justificação das ofensas passadas, pode achar-se unicamente por meio da fé em Seu sangue. A lei de Deus não tem poder para perdoar as ofensas passadas, porque seu atributo é justiça, e portanto o transgressor convicto deve acudir a Jesus". 5 Em 1854, Tiago White escreveu uma série de artigos editoriais acerca da "fé de Jesus", nos quais sustentou que a fé em Jesus é a única fonte de "perdão e vida". 6 Se bem é verdade que as declarações anteriores revelam quais eram os sentimentos de Tiago White, suas afirmações a respeito do tema em que consideramos não são numerosas. Seu interesse constante quanto a este tema se manifesta em artigos publicados em The Signs of the Times 6 , que serão mencionados posteriormente 7 , e num livro dedicado à explicação do plano de salvação, publicado por ele só poucos anos antes de sua morte. 7

Outras Fontes

Os jornais e livros publicados nos primeiros anos do movimento adventista, contém uma escassa quantidade de material sobre este tema. A maior parte da atenção era dedicada a temas como a lei de Deus, o sábado, as profecias e a imortalidade condicional. O índice do conteúdo da Review and Herald de 15 de agosto a 19 de dezembro de 1854, registrava as "Doutrinas Principais Ensinadas pela Review". Esta lista não incluía nenhuma referência à justificação, à justiça ou a outro tema afim. Durante muitos anos, os números da Review não ofereciam praticamente nenhuma análise sobre a justificação pela fé, com exceção das referências mencionadas acima. No entanto, em um número da Review de 6 de maio de 1858, o pastor Frederico Wheeler, considerado como o primeiro pregador adventista, escreveu acerca do tema "Agora o Justo Viverá da Fé". Ali dizia com relação à fé: "Deve constituir um princípio dinâmico que induza o pecador a entregar-se à misericórdia de Deus em

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Cristo, um princípio que o induza a apegar-se aos méritos de Jesus, para sua justificação". De 2 de junho de 1863 a 15 de setembro de 1864 o pastor J. H. Waggoner publicou na revista uma série de artigos sobre a expiação. Estes artigos foram publicados posteriormente como um livro, e dele se fizeram várias edições. 9 Também voltaram a publicar-se em 1876 na revista Signs. No capítulo intitulado "O Pecado e Seu Castigo", é mencionado o tema da justificação. Não há dúvida de que existe uma conexão definida entre o interesse por este tema manifesto por J. H. Waggoner e a atitude de seu filho J. H. Waggoner, que mais tarde veio a ser o principal proponente da doutrina da justificação pela fé. Os artigos de Ellen G. White não apareciam com freqüência nos primeiros números da Review. Nos escritórios da Corporação Editorial Ellen G. White, em Washington, há um índice completo dos artigos escritos nas revistas da Sra. White, e este inclui os temas "Justificação pela Fé" e "Justiça pela Fé". Uma análise revela que não há praticamente nada escrito por ela acerca destes temas em tais revistas denominacionais até a última parte dos século XIX. Com exceção ao descuido geral desta doutrina, no primeiro número da revista Signs do ano de 1874, sob o título "Princípios Fundamentais" foram publicados os seguintes pontos:

"14. Que, já que o coração natural ou carnal está em inimizade com Deus e Sua lei, esta inimizade pode remediar-se somente por meio de uma transformação radical dos afetos e pela substituição dos princípios ímpios por outros que sejam santos; que esta transformação se segue ao arrependimento e a fé, e é a obra especial do Espírito Santo e constitui a regeneração ou conversão. "15. Que, já que todos violaram a lei de Deus, e não podem obedecer por si mesmos seus justos requerimentos, por tal razão dependemos de Cristo, primeiro para obter justificação por causa de nossas ofensas passadas, e em segundo lugar, para receber graça com ajuda da qual, de agora em diante, obedecer de modo aceitável sua santa lei". 10 A autoria destes artigos é incerta. No entanto, três anos depois, publicou-se um livro intitulado The Biblical Institute, cujos autores eram Urias Smith e Tiago White. 11 Este livro tentava abranger o campo da teologia adventista, mas não continha nada a respeito da justificação pela fé. Esta mesma ausência do tema era observada em outro livro semelhante publicado posteriormente por Urias Smith. 12 A revista Signs of the Times, que começou a ser publicada na costa oeste em 1874, mostra o início do movimento que conduziu à grande ênfase dada à justificação pela fé em 1888. Em 1876, como se fez notar em outro parágrafo, J. H. Waggoner publicou uma série de artigos acerca da expiação. 13 Mais tarde, neste mesmo ano, Tiago White escreveu sobre o tema "A Redenção". 14 No ano seguinte, o pastor Tiago White publicou seu livro sobre este tema. 15 Posteriormente, em 1877, o pastor White escreveu sobre "A Lei e o

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Evangelho", e ali apresentou claramente a relação que existe entre ambos no plano evangélico 16 , e pouco depois analisou o tema "A Fé que Salva". Até este momento, as poucas pessoas que tinham escrito a respeito do tema mencionado, o tinham considerado como uma importante doutrina teológica, mas não o tinham tratado com muita ênfase. Tão pouco tinham destacado o aspecto da experiência pessoal na vida do cristão com relação à justificação pela fé. Nessas primeiras revistas, livros e folhetos dava-se a impressão de que a doutrina da justificação por meio de Cristo, embora importante e verdadeira, ocupava um lugar secundário em relação a outras questões doutrinais. Pelo ano de 1884 a tendência editorial da revista Review manifestava uma orientação definida. Durante esse ano, J. H. Waggoner publicou uma série de artigos sobre "A Redenção". 18 Durante esse mesmo ano, E J. Waggoner publicou editoriais sobre o tema específico da justificação pela fé. Esses artigos continuaram aparecendo a intervalos freqüentes. Em 1886 escreveu um artigo intitulado especificamente "Justificados pela Fé" 19 , e mais tarde nesse ano o mesmo tema foi abordado por J. H. Waggoner. 20 Estes artigos citados constituem exemplos de muitos outros artigos da mesma índole que apareceram nas colunas da revista Signs durante os anos que precederam a 1888. Esses artigos revelam uma apreciação da importância da doutrina que não fora vista nos anos anteriores. Isto revela que começava a tomar forma um desafio que convidava a uma experiência nova e mais profunda nas vidas dos adventistas. Em 1884 apareceu a publicação intitulada Bible Reading Gazette, que foi a precursora do livro que mais tarde foi publicado com o título de Bible Readings for the Home Circle. A Gazette continha uma lição preparada por R. F. Cottrell acerca do tema da justificação pela fé. 21 O volume de Bible Readings publicado em 1888 também continha um capítulo sobre o tema mencionado. 22 Em ambos os casos o tema foi abordado como uma verdade teológica, mas, praticamente falando, estava perdido entre uma vintena de outros temas.

Uma Declaração Assombrosa

Até aqui fica evidente qual a tendência predominante nas quatro décadas que terminaram em 1888. Até o ano 1850 o tema da justificação pela fé não fora praticamente abordado nos livros e revistas adventistas, fora de referências ocasionais feitas por Tiago White. Este fato foi comentado por Ellen G. White num discurso proferido em uma reunião de reavivamento espiritual realizado em Roma, Nova Iorque, em 17 de junho de 1889, uma ano após a crise referente ao tema da justificação pela fé. Nessa ocasião a Sra. White disse:

"Foi-me perguntado qual o meu parecer acerca da luz que esses dois homens [A. T. Jones e E. J. Waggoner] estão apresentando. Bem, eu mesma os tenho apresentado durante os 45 anos passados: os encantos incomparáveis de Cristo. Isto é o que estive tentando apresentar-lhes. Quando o irmão Waggoner expôs estas idéias em

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Mineápolis, isso constituiu o primeiro ensino claro do tema que eu ouvira de lábios

humanos, com exceção da conversação mantida entre meu esposo e eu". 23

Esta declaração revela que a Sra. White cria que a doutrina da justificação pela fé tinha descuidado de maneira geral, exceto por parte dela mesma, de seu esposo e do orador que falou na reunião de Mineápolis. A investigação verifica suas declarações com relação á atividade de seu esposo e de outras pessoas feitas antes de 1888. É claro que Tiago White esteve só como proponente desta doutrina durante toda a vida.

Primeiros Comentários da Sra. White

É preciso examinar as afirmações da Sra. White a respeito de seu ensino desta doutrina. O que ela apresentou acerca deste tema durante esses anos? Seus ensinos desde o início de seu ministério público até a última parte do século XIX, revela um profundo interesse na doutrina da justificação pela fé e uma compreensão dela? Como primeiro passo da resposta a estas perguntas é preciso fazer referência à sua própria conversão e à descrição desta experiência feita por ela mesma posteriormente. Quando tinha nove anos de idade, conta ela, leu um relato de um homem da Inglaterra que predissera que Cristo viria dentro de uns 30 anos. Isto impressionou muito sua mente, e essa impressão se fortaleceu quatro anos depois quando Guilherme Miller pregou na cidade natal dela, Portland, Maine. Durante o reavivamento de Miller foi feito um convite aos pecadores para se arrependerem. A Sra. White conta que ela sentia interiormente que nunca seria digna de ser chamada filha de Deus. O desespero e o desânimo se apoderaram de seu coração infantil. Durante o verão seguinte sua família assistiu a uma série de reuniões metodistas de reavivamento espiritual celebradas no campo. Ali ela ouviu uma mensagem dirigida "aos que vacilavam entre a esperança e o temor e que anelavam ser salvos de seus pecados e receber o amor perdoador de Cristo, e que no entanto permaneciam na dúvida e na escravidão devido à timidez e ao temor do fracasso". O orador "aconselhou aos tais a se entregarem a Deus e confiarem sem demora em Sua

Tudo o que era requerido do pecador, que tremia diante da presença do

misericórdia

Senhor, era estender a mão da fé e tocar o cetro de Sua graça". Ela também aprendeu que:

"Os que esperavam tornar-se dignos do favor divino em vez de atrever-se a reclamar para si as promessas de Deus, estavam cometendo um erro fatal. Unicamente Jesus limpa do pecado, só Ele pode perdoar nossas transgressões. Ele prometeu escutar a petição e responder a oração dos que acodem a Ele com fé. Muitos têm uma idéia vaga de que devem fazer algum esforço especial a fim de ganhar o favor de Deus. Mas toda dependência de si mesmo é vã. O pecador vem a ser um filho de Deus esperançoso e crente unicamente unindo-se a Jesus mediante a fé". 24 Ao descrever sua reação a esta mensagem, a Sra. White exclama: "Quanto eu necessitava ser instruída acerca da simplicidade da fé!" 25 Em seguida continua relatando de que maneira enquanto orava, desapareceu sua preocupação e recebeu felicidade e segurança. Ela disse: "Nesse curto tempo quando estava ajoelhada entre as

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pessoas que oravam, aprendi mais do que nunca antes a respeito do caráter divino de Jesus". 26 Depois disso voltou para casa com o coração aliviado. Tinha experimentado a justificação pela fé. Embora é verdade que o grosso dos escritos da Sra. White sobre o tema da justificação pela fé data a partir de 1887, pode-se facilmente demonstrar que esta doutrina apresentada de maneira mais ampla nas obras do último período de sua vida, fora ensinada em suas linhas principais nas suas primeiras obras. Já em 1858, ao

descrever o plano de Deus para a salvação humana, a Sra. White escreveu a respeito da provisão divina mediante a qual "por meio dos méritos de Seu sangue e pela obediência à lei de Deus, podem ter o favor de Deus". 27 Mais adiante no mesmo livro, ao falar de Martinho Lutero, ela disse:

"Ele procurou obter o favor de Deus por meio das obras; contudo não ficou satisfeito até que um raio de luz do céu fez sair as trevas de sua mente e o induziu a confiar, não nas obras, mas nos méritos do sangue de Cristo, e a buscar a Deus por si mesmo, e não por meio de papas e confessores, senão unicamente através de Jesus Cristo". 28 Numa obra publicada em 1870, a Sra. White descreve vividamente a instrução dada a Adão e Eva quando saíram do Éden. Foi-lhes dito, afirma a autora, que seu caso não era desesperado, que Cristo tinha Se oferecido voluntariamente para morrer por eles, e que "a fé nos méritos do Filho de Deus elevaria de tal maneira o homem que este poderia resistir aos enganos de Satanás. Ser-lhes-ia concedido um período de prova no qual mediante uma vida de arrependimento e de fé na expiação do Filho de Deus, poderiam ser redimidos da transgressão da lei do Pai, e assim ser elevados a uma posição na qual seus esforços por guardar a lei divina poderiam ser aceitos". 29 No ano de 1875 publicou-se pela primeira vez uma declaração que está à altura de qualquer outra publicada posteriormente quanto à clareza do pensamento:

"Cristo aperfeiçoou um caráter justo aqui na Terra, não porque Ele o necessitasse, porque Seu caráter era puro e imaculado, mas para benefício dos homens caídos. Ele oferece Seu caráter ao homem se este quiser aceitá-lo. O pecador por meio do arrependimento de seus pecados, fé em Cristo e obediência à perfeita lei de Deus, recebe a justiça de Cristo que lhe é imputada; esta vem a ser sua justiça, e seu nome fica registrado no livro da vida do Cordeiro "Cristo suportou estas três grandes tentações [no deserto] e as venceu em benefício do homem, formando assim para o homem um caráter justo, porque Ele

Cristo entrou na luta em

lugar do homem para vencer Satanás, porque viu que o homem não poderia vencer por si mesmo. Cristo preparou o caminho para o resgate do ser humano mediante Sua própria vida de sofrimento, abnegação e sacrifício, e por Sua humilhação e Sua morte". 30 Em 1877 foi publicado um livro da Sra. White acerca de Cristo. No capítulo que fala da entrevista com Nicodemos, ensina-se claramente a doutrina da justificação pela fé. 31 Mais adiante neste mesmo capítulo, Cristo é apresentado como "Grande Sumo

sabia que o ser humano não poderia fazê-lo por si mesmo

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Sacerdote, que está pronto para aceitar o arrependimento e para responder as orações de Seu povo, e, por meio dos méritos de Sua própria justiça, apresentá-lo a Seu Pai". 32 Em 1877 e 1878 a pena da Sra. White produziu uma série de folhetos acerca da vida de Cristo publicados sob o tema geral "A Redenção". O propósito destes folhetos, segundo os publicadores, era "apresentar com toda a clareza os fatos ocorridos na história da vida de Cristo com relação ao grande plano da redenção humana". 33 A Sra. White instou com os pastores adventistas, em 1879, a exaltar a Cristo em seus ensinos e a precaver-se contra "a fria teoria". 34 Outra mensagem de importância semelhante foi apresentada durante esse mesmo ano, e nela se instava "à piedade prática". Pediu-se aos ministros que estudassem novamente a cruz de Cristo". 35 Outra comunicação dirigida aos pastores em 1880 contém esta mesma ênfase: "Sermão algum deve ser feito, no entanto, sem apresentar a Cristo, e Cristo crucificado, como o fundamento do evangelho". 36 Em 1882 a Sra. White escreveu "um chamado" que tinha o propósito de ser lido nas reuniões de reavivamento espiritual celebradas no campo. 37 Este documento continha declarações muito definidas referentes à justificação pela fé. Por exemplo:

"Devemos renunciar à nossa própria justiça e rogar que a justiça de Cristo nos seja imputada". 38 "Deus fez abundante provisão para que possamos estar perfeitos em Sua graça, sem que nos falte nada, esperando o aparecimento de nosso Senhor. Estais preparados? Estais vestidos com o traje de bodas?" 39 "Deus não perdoou a Seu próprio Filho, antes O entregou à morte por nossas ofensas e O ressuscitou para nossa justificação. Mediante Cristo podemos apresentar nossas petições diante do trono da graça. Através dEle, embora somos indignos, podemos obter toda bênção espiritual. Iremos a Ele para receber a vida?" 40 "Formada essa intimidade de relação e comunhão, nossos pecados são postos sobre Cristo e Sua justiça nos é imputada. Ele foi feito pecado por nós, para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus". 41 Em 1883 a Sra. White apresentou uma alocução matutina acerca deste tema diante de pastores reunidos em uma sessão da Associação Geral efetuada em Battle Creek, em Michigan. 42 Este discurso abrangia amplamente a justificação pela fé, como se verá no parágrafo seguinte:

"Nada, fora de Sua justiça, pode capacitar-nos para receber uma única bênção do pacto da graça. Faz muito que desejamos e temos procurado obter essas bênçãos, mas não as temos recebido porque abrigamos a idéia de que podíamos fazer algo para ser dignos delas. Não apartamos o olhar de nós mesmos, crendo que Jesus é o Salvador vivo. Não temos que pensar que nossa própria graça e nossos próprios méritos nos

salvarão, porque a graça de Cristo é nossa única esperança de salvação

Quando

confiarmos plenamente em Deus e quando descansarmos nos méritos de Jesus como um Salvador que perdoa os pecados, então receberemos toda a ajuda que podemos desejar". 43 Até agora as declarações da Sra. White sobre a justificação pela fé foram extraídas de seus escritos, seguindo uma seqüência cronológica desde 1858 até 1883.

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Estas declarações feitas ao longo de um período de 25 anos revelam uma clara concepção da doutrina da justificação pela fé em Cristo. Estas expressões estão

respaldadas pela experiência pessoal da conversão da Sra. White em sua juventude.

É inegável que a manifestação mais significativa da atitude da Sra. White com

relação a esta doutrina se encontre em seu livro O Grande Conflito. O argumento deste livro é constituído por uma apresentação da luta neste mundo entre as forças do bem e do mal, desde a destruição de Jerusalém até a restauração do mundo que ocorrerá

depois da segunda vinda de Cristo. Grandes porções deste livro apresentam um exame de temas históricos tais como a Reforma protestante e o desenvolvimento de diversos movimentos religiosos. O tema deste livro foi apresentado pela primeira vez de modo abreviado, e durante um período de três décadas experimentou várias revisões até se completou em 1888. Justamente antes de sua revisão de 1888, a autora passou algum tempo na Europa visitando os lugares onde ocorreram diversos acontecimentos históricos que ela tratar em sua obra.

É preciso observar com profundo interesse a atenção que neste livro é dada à

doutrina da justificação pela fé. Em outros livros que foram citados, esta doutrina foi apresentada de uma maneira mais ou menos teológica. Em O Grande Conflito a ênfase posta é a moldura histórica. Em continuação se faz um breve resumo da maneira como a autora aborda este tema:

Um dos primeiros capítulos aborda o surgimento do catolicismo romano. Ali é descrito o ensino católico da salvação pelas obras:

"De Cristo, o verdadeiro fundamento, a fé transferiu-se para o papa de "Perdeu-se de vista o evangelho, mas multiplicaram-se as formas de religião, e o povo foi sobrecarregado de severas exigências. "Ensinava-se-lhes não somente a considerar o papa como seu mediador, mas a confiar em suas próprias obras para expiação do pecado". 44

A autora procede em seguida a descrever em capítulos sucessivos os movimentos

que contribuíram para restaurar a doutrina da justificação pela fé. O primeiro grupo

nomeado é o dos valdenses. 45 Um dos ensinos fundamentais desta seita era a salvação unicamente por meio da fé. "Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em "Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus". 46 Em continuação vem João Wiclef, que protestou contra a salvação pelas obras e instou aos homens a buscar o perdão de Deus. Pouco depois, na Boêmia, Huss e Jerônimo ensinaram estes mesmos princípios. 47

A Sra. White destaca a bem conhecida doutrina da justificação pela fé de Lutero.

Ele apresenta Lutero como alguém que compreendia "a falácia de se confiar nas obras

humanas para a salvação, e a necessidade de fé constante nos méritos de Cristo". 48

A autora explica como Lutero descobriu na leitura das obras de Huss que estas

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Em seguida é mencionada a luta de Zwínglio contra a salvação pelas obras 50 , e com relação a isso, a Sra. White apresenta esta declaração geral:

"Estando a surgir nos diferentes países homens a apresentar ao povo o perdão e a justificação pelo sangue de Cristo, Roma prosseguiu com renovada energia a abrir seu mercado por toda a cristandade, oferecendo por dinheiro o perdão". 51 Em seguida, falando da França, a Sra. White menciona a Lefèvre, de quem cita esta declaração: "É Deus que dá, pela fé, a justiça que, somente pela graça, justifica

para a vida eterna." 52 É mencionado, além disso, a conversão de Farel à filosofia protestante. 53 Em seguida cita João Calvino, como segue:

"Ó Pai", exclamou ele, "Seu sacrifício apaziguou Tua ira; Seu sangue lavou minhas impurezas; Sua cruz arrostou minha maldição; Sua morte fez expiação por mim. Imaginamos para nós muitas tolices inúteis, mas Tu colocaste Tua Palavra diante de mim como uma tocha, e tocaste-me o coração, a fim de que eu abominasse todos os outros méritos, com exceção dos de Jesus." 54 O exame deste período do protestantismo feito pela Sra. White, logo a levou ao reavivamento evangélico realizado sob Wesley e Whitefield. Ela destaca especialmente sua experiência e seu ensino referentes à justificação pela fé. Refere-se que no tempo de Wesley a doutrina da reforma quanto à justificação pela fé ficou em grande medida eclipsada. Fala da vã tentativa de Wesley em encontrar paz mental por meio das boas obras, e o compara com a luta que Lutero experimentou em Erfurt. Fala também da relação de Wesley com os morávios e de sua conversão como resultado disso. Finalmente conclui:

"Continuou em sua vida austera e abnegada, agora não como base, mas como

resultado da fé; não como raiz, mas como fruto da santidade

A vida de Wesley foi

dedicada à pregação das grandes verdades que recebera – justificação pela fé no sangue expiatório de Cristo e no poder renovador do Espírito Santo a operar no coração, produzindo frutos em uma vida de conformidade com o exemplo de Cristo." 55 Mais adiante, em O Grande Conflito, a autora apresenta a doutrina da justificação pela fé de modo didático. 56 A principal contribuição desta seção do livro, no entanto, é uma clara revelação da compreensão da Sra. White do lugar da justificação pela fé na história da igreja. Logo depois da volta da Sra. White da Europa e pelo tempo em que completou a edição revisada de O Grande Conflito, uma grande quantidade de

material acerca desse tema da justiça pela fé começou a sair de sua pena. Mesmo quando a doutrina da justificação pela fé era aceita em teoria pelos adventistas, e embora Tiago White e sua esposa Ellen, e uns poucos mais, tinham escrito acerca do tema, há evidência abundante de que este não era considerado pela denominação em geral como uma das grandes doutrinas. Os primeiros adventistas eram na maioria pessoas que já tinham experimentado a conversão, e muitos deles procediam do metodismo. Para estes, a salvação por meio de Cristo era uma experiência vital antes de aceitarem as verdades distintivas do adventismo. Mas à medida que os anos transcorreram, entraram na fé adventista centenas de pessoas que

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não tinham um conhecimento experimental de Cristo. A falta de ênfase na salvação assumiu sérias proporções. 57 Durante a década de 1880, uns poucos líderes da denominação começaram a sentir agudamente esta carência. A Sra. White foi a que mais falou contra esta tendência prevalecente. Seus escritos, particularmente durante 1887 e 1888, estavam cheios de advertências contra o legalismo e de exortações para aceitar a Cristo pela fé. Uma declaração escrita na última parte de 1887 ilustra o espírito de dezenas de artigos publicados naquele tempo:

"Há uma grande diferença entre uma união suposta e uma verdadeira ligação com Cristo por meio da fé. Uma profissão de religião coloca os homens na igreja, mas isto não prova que tenham uma ligação vital com a Videira verdadeira "Quando esta intimidade de ligação e comunhão se forma, nossos pecados são colocados sobre Cristo, e Sua justiça nos é imputada. Ele foi feito pecado por nós, para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus". 58 Em outro artigo pode apreciar-se a seriedade com que a Sra. White contemplava o descuido destas grandes verdades espirituais:

"Os fatos referentes à verdadeira condição do professo povo de Deus falam mais alto que sua profissão e tornam evidente que algum poder cortou o cabo que os ancorava na Rocha Eterna, e que agora vão à deriva no mar, sem mapa nem bússola". 59 Exatamente poucas semanas antes do Congresso da Associação Geral de 1888, no qual este assunto adquiriu grande importância, a Sra. White declarou que "o núcleo de nossa mensagem devia ser a missão e a vida de Cristo". 60 Apesar da freqüência e da urgência de tais mensagens procedentes da Sra. White durante 1887 e 1888, e não obstante a posição de autoridade que ela mantinha dentro do pensamento da denominação, essas advertências e exortações foram em grande parte desatendidas. 61 Durante esses meses que precederam o Congresso da Associação Geral, não apenas a Review continha essas agudas admoestações, mas também a revista Signs, periódico similar da costa oeste, estava publicando artigos parecidos. Durante o ano 1888 apareceram vários artigos acerca do tema, alguns deles escritos por Ellen G. White 62 , e outros por E. J. Waggoner 63 , que estava pondo muita ênfase no ensino desta doutrina.

Resumo

Uma investigação acerca deste primeiro período da história adventista conduz a várias conclusões:

(1) A justificação pela fé, embora não fosse posta em dúvida, tampouco era uma das grandes doutrinas adventistas. (2) A atenção dada a esta doutrina nos primeiros anos embora fosse escassa, procedia em sua maioria de Tiago White e de sua esposa Ellen.

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(3) Os poucos que compreendiam a necessidade de insistir nesta doutrina chegaram a experimentar alarme por causa da indiferença geral a respeito. Este sentimento de alarme foi claramente expresso por Ellen G. White.

(4) Estavam amadurecendo as condições necessárias para o surgimento desta doutrina como um assunto vital. A crise se apresentou no Congresso da Associação Geral de 1888, celebrado em Mineápolis, Minnesota.

Referências:

1.

White, Tiago, The Present Truth, julho de 1949, art. "Dear Brethren and "

Sisters

2.

White, Tiago, Review and Herald, 17 de fevereiro, 1852, art. "The Work of Grace".

3.

White, Tiago, Id., 2 de março, 1852, art. "Remarks Brethren in Kindness".

4.

White, Tiago, Id., 10 de maio, 1852, art. "Justified by the Law".

5.

White, Tiago, Id., 28 de fevereiro, 1854, art. "The Faith of Jesus".

6.

Publicado pela primeira vez em 1874.

7.

Ver pp. 101, 102.

8.

White, Tiago, The Redeemer and Redeemed, or the Plan of Redemption Through Christ. Pacific Press, 48 páginas.

9.

Waggoner, J. H., The Atonement. S.D.A. Publishing Association, 164 páginas.

10.

Signs of the Times, 4 de junho, 1874, "Fundamental Principles".

11.

Smith, Urias e White, Tiago, The Biblical Institute. Pacific S.D.A. Publishing House, 352 páginas.

12.

Smith, Urias, Synopsis of Present Truth.

13.

Ver pág. 100.

14.

White, Tiago, Signs of the Times, 28 de dezembro, 1876, art. "Redemption".

15.

Ver pp. 98, 99.

16.

White, Tiago, Signs of the Times, 6 e 20 de dezembro, 1877, art. "The Law and the Gospel".

17.

White, Tiago, Id., 10 de janeiro, 1878, art. "Saving Faith".

18.

Waggoner, J. H., Id., 3 de abril a 22 de maio, 1884, art. "Redemption".

19.

Waggoner, J. H., Id., 25 de março, 1886, art. "Justified by Faith".

20.

Waggoner, J. H., Id., 25 de março, 1886, art. "Justification by Faith".

21.

Bible Reading Gazette, Nº 46. Review and Herald, 1884.

22.

Bible Readings for the Home Circle, p. 343. Review and Herald, 1888.

23. White, Ellen G., sermão apresentado em Roma, N. Y., em 17 de junho de 1889. Corporación Editorial Elena G. de White, Manuscrito 5, págs. 9, 10. Ano

1889.

24. White, Ellen G., Life Sketches, pp. 21 e seguintes.

25. Id., p. 23.

26. Id., pp. 23, 24.

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28. Id., p. 120.

29. White, Ellen G., The Great Controversy, vol. 1, p. 50. Edição de 1870.

30. White, Ellen G., Testimonies, vol. 3, pp. 371, 372.

31. White, Ellen G., The Great Controversy, vol. 2, p. 132 e seguintes. Edição de

1877.

32. Id., vol. 3, pp. 261, 262.

33. White, Ellen G., Redemption on the First Advent of Christ With His Life and Ministry, prefácio do editor, p. 3. Edição de 1877.

34. White, Ellen G., Testimonies, vol. 4, pp. 313 e seguintes.

35. Id., p. 374 e seguintes.

36. White, Ellen G., Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 524, 525.

37. White, Ellen G., Testimonies, vol. 5, pp. 217-235.

38. Id., p. 219.

39. Id., p. 220.

40. Id., p. 221.

41. White, Ellen G., Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 73.

42. White, Ellen G., Gospel Workers, pp. 412-415. Edição de 1893.

43. Id., p. 412.

44. White, Ellen G., O Grande Conflito, pp. 55.

45. Id., p. 64 e seguintes.

46. Id., p. 72, 73.

47. Id., p. 96 e seguintes.

48. Id., p. 124.

49. Id., p. 140.

50. Id., p. 172, 173.

51. Id., p. 178.

52. Id., p. 212.

53. Id., p. 213.

54. Id., p. 221.

55. Id., p. 256.

56. Id., pp. 466, 467, 470, 471, 483.

57. Olsen, M. E., A History of the Origin and Progress of Seventh-day Adventists, pp. 625, 626. Review and Herald, 1932.

58. White, Ellen G., Review and Herald, 13 de dezembro, 1887, art. "Union With Christ".

59. White, Ellen G., Id., 24 de julho, 1888, art. "How Do We Stand?"

60. White, Ellen G., Id., 11 de setembro, 1888, art. "The Works of the Ministers".

61. Daniells, A. G., Christ Our Righteousness, pp. 54, 55. Review and Herald,

1941.

62. White, Ellen G., Signs of the Times, 13 de abril, 1888, art. "Faith and Works".

Id., 6 de julho, 1888, art. "Steps in Conversion".

Pela Fé Somente

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O CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO GERAL DE 1888

ERA inevitável que a doutrina da justificação pela fé, com o tempo, se transformasse num assunto de interesse geral. Estava-se desafiando a indiferença de

quatro décadas. Estava-se iniciando um esforço para vencer a inércia espiritual que tinha tomado conta da Igreja Adventista. Este assunto constituiu um tema de discussão no Congresso da Associação Geral celebrado em Mineápolis, Minnesota, no outono de

1888.

Não se deve supor que a Igreja Adventista naquela oportunidade manifestara algum sinal exterior de desintegração ou de falta de visão. Na realidade ocorreu o contrário. As décadas anteriores a 1888 tinham mostrado crescimento e desenvolvimento e em todos os âmbitos. A igreja tinha-se fixado nos países estrangeiros, havia-se estabelecido várias instituições educacionais, novas igrejas tinham sido organizadas continuamente os membros da igreja iam aumentando. Em tais circunstâncias, as mensagens de admoestação e de censura não eram bem recebidas. A fim de proporcionar os antecedentes indispensáveis para este estudo, é necessário reconstruir os procedimentos do congresso com tanta exatidão como o permitam as fontes disponíveis. Deve-se lembrar que naquela época não era mantido um registro diário das sessões. A seqüência cronológica foi reconstruída por comparação do General Conference Daily Bulletin com os informes acerca do congresso publicados na Review and Herald e em Signs of the Times.

A Reunião de Obreiros Anterior ao Congresso

Embora a primeira sessão devesse começar na quarta-feira 17 de outubro, uma reunião de obreiros foi efetuada a partir 10 de outubro. A Review de 16 de outubro contém o seguinte comentário acerca dos temas que foram analisados:

"Os temas propostos para ser considerados nas horas destinadas a um estudo da Bíblia e da História são até agora: 'Um Conceito Histórico dos Dez Reinos', 'A Divindade de Cristo', 'A Cura da Ferida Mortal', 'A Justificação pela Fé', 'Até Onde Devemos Ir no Uso da Sabedoria da Serpente', e 'A Predestinação'. É claro que foram apresentados outros temas". 1 Aqui se vê que o assunto da justificação pela fé era apenas um entre uma quantidade de outros temas destinados ao estudo. Fica evidente que até os que tinham preparado a agenda desconheciam o papel tão importante que este tema não haveria de desempenhar. O pastor S. N. Haskell presidiu na primeira reunião de obreiros efetuada antes do congresso, iniciada em 10 de outubro das 7:30 da noite. Não foi possível reencontrar nenhum dado de acerca da ordem do dia dessa reunião. Na manhã do dia seguinte, quinta-feira 11 de outubro, Ellen White apresentou seu primeiro discurso dessa seção. Abordou o tema: "Uma Ligação Vital com Deus".

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Não era um tema de controvérsia. No parágrafo seguinte em é possível captar a essência de sua alocução:

"Irmãos, é imperiosa a necessidade de alcançarmos uma norma mais elevada em

mais santa

Mas não pode nos abençoar e enquanto acariciamos o egoísmo. E o que dizem as Escrituras? 'Se eu atender à iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá'. Mas se abandonamos a exaltação própria e se de palmos toda a justiça própria e entramos

Devemos em

nome do Senhor, destruir as barreiras que separam nossas almas de Deus, e então a

Nossa vontade deve ser posta do

lado de Deus e não do lado de Satanás. O resultado de provar o amor perdoador de

Deus é uma perfeita reconciliação com a vontade de Deus. Então a vontade humana e

a divina são unidas

elevados. Deus dirigirá a ação da alma se buscarmos a justiça de Cristo para que Deus se agrade de nossos esforços. Não devemos desejar nada de nós mesmos mas devemos desejar tudo de Jesus". 2 Na mesma manhã da quinta-feira 11 de outubro às 9, A. T. Jones apresentou sua mensagem. A Review informa:

"O ponto colocado em relevo foi que a consagração pessoal deve estar no fundamento de todo nosso êxito nesta obra. Somos os representantes de Cristo, e portanto deveríamos estarão motivados por Seu amor e Seu Espírito, e manifestar Seu caráter diante dos homens". 3 Nesse mesmo dia, o pastor Jones falou às 10:30 da manhã e às 2:30 da tarde acerca dos dez reinos. É interessante notar que seis dias depois, em 17 de outubro, o primeiro dia do congresso propriamente dito, Urias Smith falou acerca dos dez reinos às 10:30 da manhã. Pode inferir se o que disse a partir do seguinte comentário editorial da Review de 23 de outubro:

"O principal assunto analisado é o dos dez reinos que surgiram do Império Romano, conforme nos é apresentado mediante os dez chifres da quarta besta de Daniel 7. Como nossos leitores sabem, pretende-se que a enumeração que geralmente se faz desses reinos seja mudada e os alamanes sejam postos do lugar dos hunos, como um dos dez reinos. Esta posição foi grande mente defendida e os partidários do outro ponto de vista disseram tanto como sua preparação limitada lhes permitiu. Em vista de tudo que se disse de ambas as partes, ficou claro que o parecer dos delegados era colocar-se do lado dos princípios estabelecidos de interpretação e do ponto de vista tradicional. Se isto terá alguma influência ou não sobre os que insistem na adoção do novo ponto de vista, é algo que está para ver-se". 4 Uma informação incidental interessante sobre a discussão referentes aos dez reinos, se encontrem uma declaração escrita por A. T. Robinson, que esteve presente em todas as sessões do congresso de 1888. Esta declaração data de 30 de janeiro de 1971, e representa a lembrança de um homem de avançada idade. "Os pastores U. Smith e A. T. Jones analisaram alguns dados com relação aos dez reinos em que Roma havia se dividido. Um dia o pastor Smith, com sua modéstia

Devemos descartar a justiça própria e alcançar ideais mais

paz de Cristo habitará em nossos corações pela fé

em uma relação vital com Deus, a justiça de Deus no será imputada

Sei que Deus houve as orações de Seu povo. Sei que Ele as responde.

Pela Fé Somente

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característica, declarou que ele não pretendia nenhuma originalidade em seu ponto de vista sobre o tema, que tinha tomado declarações de homens como Clark, Barnes, Scott e outros mencionados, e que tinha tirado suas conclusões dessas autoridades. No começo de sua réplica, o pastor Jones com seu estilo característico, disse: 'O pastor Smith lhes disse que ele não sabe nada acerca deste assunto. Eu sim, sei; e não quero que me culpem pelo que ele não sabe'. Esta declaração áspera motivou uma clara repreensão da Sra. White, que estava presente naquela manhã". 5 Esta declaração manifesta um aspecto desconcertante desta situação. Os homens que promoviam a doutrina da justificação pela fé no congresso de Mineápolis, nem sempre apresentavam seus conceitos de maneira discreta e delicada. Esta situação infeliz fez surgir um espírito de preconceito contra os homens, que em muitas mentes confundiu o ponto em debate. Esta discussão acerca do assunto quanto a se os hunos ou os alamanes deviam ser incluídos entre os dez reinos trouxe preconceitos que operaram contra a aceitação do ensino da justificação pela fé, apresentada com ênfase em outras sessões do congresso. Voltando à agenda das reuniões de obreiros, E. J. Waggoner, na quinta-feira, 11 de outubro, às 4 da tarde, falou acerca dos debates dos líderes da igreja. Não há registro dos procedimentos adotados na sexta-feira, 12 de outubro, mas a Review de 23 de outubro informa que a Sra. White pregou um sermão no dia 13, sábado. O pastor Smith tem a seguinte referência deste sermão:

"No sábado,13 de outubro foi um dia memorável devido ao refrigério recebido do Senhor. A irmã White falou na parte da tarde com muita espontaneidade e com grande poder. A passagem seguinte: 'Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus', lhe serviu de base para extrair preciosas lições da grande bondade de Deus manifesta a nós, de como deveríamos receber Seu amor, do que Ele está disposto a fazer por nós e do que nós deveríamos estar dispostos a retribuir-lhe por Suas dádivas inumeráveis. Faz os corações se enterneceram pela doce influência da reunião, e na verdade era agradável estar ali. Depois do discurso, 62 pessoas apresentaram seus testemunhos em rápida sucessão, onde manifestara o agradecimento e ação de graças pelos dons e a bondade do Senhor". 6

O vigor espiritual das mensagens da Sra. White foi significativo e característico

desde o próprio começo do congresso. O caminho estava sendo preparado para a

apresentação do tema da justificação pela fé.

É desconhecido o procedimento adotado durante os dias restantes do congresso.

No entanto, podemos concluir da seguinte declaração da Review de 23 de outubro, que durante a semana foram analisados intensamente os diversos temas anunciados:

"A semana passada demos um breve relatório sobre a abertura das reuniões para obreiros com relação ao Congresso da Associação Geral. O tempo designada para estas reuniões prévias terminou ontem, 17 de outubro; mas como os temas propostos não tinham sido considerados plenamente, cada dia será destinado uma parte do tempo correspondente ao congresso para tratar estes assuntos até que todos os que quiserem tenham falado". 7

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Talvez tenha sido algo providencial que certos temas fossem postergados até a sessão do congresso. Pode ser que desta maneira adquiriram mais relevo do que se fossem apresentados durante as reuniões de obreiros.

O Congresso da Associação Geral

A primeira sessão do congresso da associação geral ocorreu quarta-feira 17, às 9 da manhã, S. N. Haskell foi o presidente interino devido à ausência de G. I. Butler, presidente da Associação Geral que estava doente. Há diferença de opinião referente número de delegados presentes, mas alguns relatórios revelam que havia 84. Após o serviço de abertura realizado às 9 da manhã, às 10:30 se realizou outra

reunião que já se mencionou, da qual o Urias Smith analisou o tema dos dez reinos. Às 2:30 da tarde, E. J. Waggoner um sobre a lei de Deus e sua relação com Evangelho de Cristo. Sua alocução foi baseada na Epístola aos Romanos. Na manhã seguinte, quinta-feira, 18 de outubro, a Sra. White apresentou um notável sermão sobre "A Necessidade de Progresso". Este discurso foi reproduzido da Review de 8 de outubro de 1889. A seguir apresentamos o extrato:

"Temos uma verdade importante e solene que nos foi entregue para estes dias finais, mas um mero assentimento e crença nesta verdade não nos salvará. Os

princípios da verdade deve estar entretecidos em nosso caráter e nossa vida

perdendo uma grande quantidade de bênçãos que poderíamos ter dessas reuniões porque não avançamos com decisão na vida cristã à medida que nos é revelado qual é

o nosso dever; isto constituirá uma perda eterna "Há muitos que se conformam com conhecimento superficial da verdade "Não devemos satisfazer-nos com nossa própria justiça, bem contentar-nos como ficar sem as profundas impressões do Espírito de Deus. "Cristo disse: 'Sem Mim nada podeis fazer'. Este notável vazio, tão evidente na atuação de muitos que professam estar pregando a verdade, é o que nos alarma; porque sabemos que isto constituiu uma evidência de que não experimentaram o poder transformador de Cristo em seus corações. Podeis registrar desde o ramo mais alto até o ramo mais baixo de sua obra, que encontrareis apenas folhas. Deus deseja que alcancemos uma norma mais elevada. Não é sua vontade que tenhamos tal escassez espiritual "São pregados demasiados sermões carentes de Cristo". 8 Estas referências mostram que a Sra. White decidira que chegara o momento de agir. As exortações gerais dadas nos sermões de 11 e 13 de outubro, deram lugar ao assinalamento de necessidades definidas. No mesmo dia, o General Conference Daily Bulletin informou:

"Às nove da manhã, o pastor E. J. Waggoner apresentou outra lição acerca da lei

e o Evangelho. Nesta lição analisou de modo parcial os capítulos 1 e 2 de Gálatas em

Estamos

ligação com Atos 15 para demonstrar que ali existia a mesma harmonia que em qualquer outro lugar; que a chave do livro era a 'justificação pela fé em Cristo' com a ênfase posta na última palavra; que a liberdade em Cristo sempre era liberdade do

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pecado; e que a separação de Cristo para apegar-se a outros meios de justificação sempre produzia escravidão. Declarou incidentemente que 'a lei de Moisés' e 'a lei de Deus' não eram expressões distintivas absolutas aplicadas às leis cerimonial e moral, e citou Números 15:22-24 e Lucas 2:23, 24 como prova disso. Concluiu às 10:15 pedindo aos presentes que comparassem Atos 15:7-11 com Romanos 3:20-25. O irmão Waggoner e a irmã White fizeram um apelo aos irmãos velhos e jovens, convidando-os a buscar a Deus, e depor todo o preconceito e oposição e a se esforçar a entrar na unidade da fé nos vínculos do amor fraternal". 9 No dia seguinte foi sexta-feira, 19 de outubro. O Bulletin publicado nesse dia

informa:

"Às nove da manhã continuou o pastor Waggoner com suas lições acerca da lei e

o

Evangelho. As passagens consideradas foram o capítulo 15 de Atos e os capítulos 2

e

3 de Gálatas, comparados com Romanos 4 e com outras passagens de Romanos. O

propósito do orador foi mostrar que o verdadeiro ponto de controvérsia era a justificação pela fé em Cristo, fé que nos é imputada a nós por justiça tal como foi a Abraão. O pacto e as promessas feitos a Abraão são o pacto e as promessas feitos a nós". 10 A série de estudos continuou até quinta-feira, 25 de outubro. No Bulletin não é dada nenhuma informação adicional referente a esses estudos, exceto um sumário apresentado no final. Na quinta-feira, 25 de outubro é feito este comentário:

"Uma série de lições instrutivas acerca da 'justificação pela fé' foi apresentada pelo pastor E. J. Waggoner. A última delas foi esta manhã. Todos concordaram com os princípios fundamentais, mas há algumas diferenças de opinião quanto à interpretação de várias passagens. Estes estudos estenderam uma interpretação mais cabal da verdade, e se espera alcançar unidade de fé quanto a esse assunto tão importante". 11

Os Sermões de Ellen G. White

Durante o período compreendido entre 17 e 25 de outubro, enquanto o pastor Waggoner apresentava sua série de estudos, a Sra. White deu seis discursos que foram registrados. O primeiro, o sermão sobre "A Necessidade de Progresso", já foi analisado. Na quinta-feira, 1º de novembro, ela apresentou um sétimo sermão, já para

o fim das reuniões do congresso. O Bulletin fez a seguinte declaração concernente a

alguns destes sermões:

"As reuniões devocionais da manhã figuram entre as mais interessantes e importantes. As exortações da irmã White foram muito apreciadas, porque apresentou

o amor de Cristo e sua disposição de ajudar. Ela nos disse que Ele espera derramar Seu

Espírito sobre Seu povo em uma medida abundante. Cada coisa importante na causa de Cristo deve relacionar se com um Cristo". 12 Em 20 de outubro a Sra. White pregou o sermão do sábado. Seu tema foi:

"Progredindo na Experiência Cristã". Seu texto bíblico foi II Pedro 1:11, 12. Depois

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de poucas declarações em que chamava a atenção para a necessidade de avançar continuamente, ela disse:

"O que agora queremos apresentar é a maneira como podemos progredir na vida divina. Escutamos muitas escusas: não posso viver de acordo com isto ou com aquilo. O que se pretende dizer com isto ou aquilo? Pretende-se dizer que foi um sacrifício imperfeito o sacrifício realizado pela raça caída no Calvário, e que não há graça e poder suficientes para nós a fim de nos afastar-nos de nossos defeitos e tendências naturais, e que não foi um Salvador completo o que nos foi dado? Ou melhor dito, pretende-se censurar a Deus? Bem, se dirá: Foi Adão que pecou; eu não sou culpado disso, eu não sou responsável de sua culpa e de sua queda. Todas essas tendências naturais estão em mim, e não devo ser culpado se sou impelido por essas tendências naturais. A quem se deve culpar? A Deus?" 13 A oradora mostrou que há poder em Cristo para vencer as tendências naturais para

o mal. Em poucas e simples palavras ela apresentou a doutrina da graça gratuita e da

esperança em Cristo. A idéia calvinista da predestinação foi posta de lado e se manteve a vigência do livre-arbítrio. A construção do sermão indica que a oradora estava falando espontaneamente, e no entanto analisava claramente verdades profundas que tinham confundido os teólogos durante séculos. Além de esclarecer a doutrina da graça gratuita, a Sra. White demonstrou no sermão a correta relação que existe entre a graça e a lei. Declarou em parte:

"Por que não podemos viver nessa lei justiça de Jesus Cristo? Porque Cristo vem

e me imputa Sua justiça em Sua perfeita obediência a essa lei". 14 Continuou dizendo: "Deus e o homem e estão unidos na cruz, e aqui a justiça e a verdade se beijaram. A misericórdia e a verdade se encontraram, e isto está atraindo o homem à cruz, onde Cristo morreu pelo ser humano, a fim de exaltar a lei de Jeová, e não para rebaixá-la em nenhum aspecto. Se isto fosse possível, não teria sido necessário Cristo morrer. Mas a cruz do Calvário estará no juízo e testificará diante de todos da imutabilidade e da permanência do caráter da lei de Deus, e nesse dia não poderá pronunciar-se uma só palavra em favor do pecado". 15 Além de esclarecer a relação que existe entre os grandes conceitos da eleição, o livre-arbítrio e a lei, a Sra. White destacou a aplicação prática da salvação. Disse ela:

"A justiça de Deus se manifestou no fato de ele ter dado a Cristo para que morresse a fim de salvar o homem, por que a lei o condenava à morte; mas foi introduzida a justiça de Cristo e foi imputada ao homem para que este voltasse à sua lealdade a Deus "Agora Cristo está no santuário celestial. E o que está fazendo? Está fazendo

expiação por nós, purificando o santuário dos pecados do povo

tentará e cedereis às suas tentações. E então o que ocorrerá? Bem, de vez a cor de e o melhor vossos corações em confissão, e por meio da fé deveis apegar-vos ao braço de Cristo que está nos santuários celestial. Crede que Jesus aceitará vossa confissão e

levantará Suas mãos diante do Pai, Suas mãos que foram machucadas e feridas por vós, e Ele fará expiação por todos os que confessam seus pecados diante dEle". 16

Satanás virá e vos

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O terceiro sermão da Sra. White foi apresentado na manhã seguinte, domingo, 21

de outubro. Seu título é "Conselhos aos Ministros". Nesse sermão ela pôs em relevo vários pontos, e é fácil perceber sua aplicação aos problemas espirituais predominantes na convenção: 1) Se instava o ministério a andar de acordo com a nova luz. 2) Se divertia o congresso contra a crítica dos líderes. 3) se a do molestar vou os obreiros contra a possibilidade de rebaixar a Cristo em vez de exaltá-lo. 4) Se fez um apelo para ter um ministério mais cristocêntrico. 17

Umas poucas citações deste discurso indica qual era a tendência do conselho dado: "Muitos discursos, como a oferta de Caim, são inúteis por que carecem de Cristo". 18 "Em tudo o que fizerdes, fazei de Cristo o centro de atração". 19 "O universo celestial está contemplando com o assombro nossa obra que carece de Cristo". 20 "Descartai o espírito de controvérsia no qual tendes estado educando durante anos". 21

A seguinte declaração constitui uma das declarações-chave dos sermões da Sra.

White pronunciados durante o congresso:

"Deus está apresentando diante dos pensamentos dos homens designados divinamente gemas preciosas de verdade adequadas para nossa época. Deus resgatou estas verdades da companhia do erro e as colocou em sua devida perspectiva. Quando se der a estas verdades o lugar que lhes corresponde no grande plano de Deus, e quando servos do Senhor as apresentarem com fervor e com temor reverente, muitos realmente crerão, devido ao peso da evidência, sem esperar que desapareceu todas as

supostas dificuldades que se insinuam em suas mentes. Outros, por não discernir as coisas espirituais se manterão em uma atitude combativa e se oporão a todo o argumento que não esteja de acordo com suas idéias. Alguma vez terminará esta obra lamentável? Os que não estiverem cavando profundamente na mina da verdade não verão nenhuma beleza nas coisas preciosas apresentadas neste congresso". 22 (a ênfase só está no original espanhol.) As porções deste trecho que foram postas em ênfase provam duas coisas:

primeiro, a declaração final mostra claramente que as "verdades" que se analisavam eram "coisas preciosas apresentadas no congresso". Estas verdades tinham que ver com a doutrina da justificação pela fé. A primeira frase posta e ninfas indica que essas verdades foram resgatadas por uma mão divina da "companhia do erro", e que Deus "as colocou em sua devida perspectiva". Onde se podia encontrar a doutrina da justificação pela fé em 1888 e nos anos anteriores? Nos credos das igrejas protestantes e desses dias; da e que fosse dito, do ponto de vista adventista, "na companhia do erro". As mesmas igrejas que estavam rechaçar o a mensagem adventista e a lei de deus possuíam, pelo menos formalmente, a doutrina da justificação pela fé. Deus "resgatou" essa verdade desse ambiente doutrinal e a colocou a onde devia estar: na Igreja Adventista do Sétimo Dia.

É interessante notar neste ponto que durante o século passado a tendência ao

modernismo manifestada dentro do protestantismo, neutralizou em boa medida a doutrina da salvação por meio de Cristo tal como ensinada pelos fundadores do protestantismo. As igrejas protestantes que têm resistido ao modernismo, em grande

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parte enfraqueceram a força de seu Evangelho por causa de sua atitude inconseqüente para com a lei de Deus. Não parece claro que Deus, de maneira dramática, "resgatou" a verdadeira doutrina da salvação por meio de Cristo da "companhia do erro", e a colocou onde merecia estar, entre os ensinos fundamentais da igreja que dá a devida ênfase tanto aos mandamentos de Deus como à fé de Jesus? Com efeito, esta parece ter sido a explicação da Sra. White do movimento ocorrido dentro da Igreja Adventista em

1888.

Nesse mesmo dia, em 21 de outubro, a Sra. White apresentou um sermão intitulado "Um Povo Escolhido". Nesse sermão proferiu a seguinte declaração:

"A lei não tem poder para salvar ou perdoar o transgressor. Que fazem então?

A lei aponta o remédio para o pecador: o

arrependimento em relação a Deus e a fé em Cristo". 23

O discurso a seguir foi apresentado na terça-feira, 23 de outubro. Foi uma breve

alocução acerca da atividade missionária. Nenhuma referência foi feita ao tema controvertido. No fervoroso apelo feito aos membros da igreja e aos líderes, motivando-os a ocupar-se na atividade missionária, se manifesta uma aguda percepção do equilíbrio que deve haver entre a fé e as obras. As linhas a seguir servirão para esclarecer isto:

"Gostaria de saber por que nossas obras não podiam corresponder à nossa fé, já que somos cristãos que professam crer as verdades mais solenes que Deus jamais deu aos mortais "Queremos ser os melhores e mais inteligentes obreiros do mundo "Mas a primeira obra consiste em na consagração pessoal a Deus". 24 Na manhã da quarta-feira, 24 de outubro, a Sra. White voltou a falar. Devia lembrar-se que o pastor Waggoner terminaria sua série de estudos no dia seguinte. Esta alocução é muito diferente de todas as demais. Parece ser a lamentação de um profeta da antigüidade. A Sra. White disse: "Nunca estive mais alarmada do que no momento presente". 25 A condição que a alarmava ela a apatia e a indiferença para com a mensagem da justificação pela fé que estava sendo apresentada durante o congresso. As declarações seguintes indicam a existência de pontos controvertidos:

"Tendes olhos mas não vedes; tendes ouvidos mas não ouvis. Agora, irmãos, a luz veio a nós, e devemos situar-nos no lugar onde possamos recebê-la, e assim Deus

Conduz o pecador arrependido a Cristo

nos guiará a Ele um a um. Vejo nosso perigo e quero advertir-vos a esse respeito". 26 "Deus não me induziu a vir pelas planícies para vos falar a fim de que vós vos sentásseis aqui para discutir sua mensagem e pôr em dúvida se a Sra. White é a mesma de anos atrás". 27 Foi-me apresentado que almas preciosas que tinham aceito a verdade rejeitaram- na devido à forma em que a verdade e lhes foi apresentada. Por que Jesus não estava nela. Isto é o que tenho estado apresentando durante todo o tempo: precisamos de Jesus". 28

O último sermão pregado pela Sra. White durante o congresso de que se tem

registro, foi apresentado o na quinta-feira, 1º de novembro. 29 Ela começou seu

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discurso com uma exortação para ter tolerância com o pastor Waggoner. Não disse que estava totalmente de acordo com ele no que se referia ao seu ensino referente à lei na epístola aos Gálatas, e no entanto disse: "A verdade não perderá nada com a investigação". 30 E continuou: "O fato de que ele tenha honradamente alguns pontos de vista diferentes dos vossos e dos meus acerca das Escrituras, não é razão para tratá-lo como a um o ofensor ou como a uma pessoa perigosa, e fazê-los objeto de uma crítica injusta". 31 Ela respaldou sem reserva seu ensino sobre a justificação pela fé. Eis aqui sua

declaração:

"Vejo a beleza da verdade na apresentação da justiça de Cristo com relação à lei,

O que ele expôs se harmoniza perfeitamente com a luz

que Deus quis dar-me ao longo dos anos de minha experiência. Se nossos irmãos do ministério aceitassem a doutrina que foi apresentada com tanta clareza – a justiça de Cristo com relação à lei – e eu sei que eles necessitam aceitá-la, seus preconceitos não constituiria 11 força dominante, e o povo seria alimentado a seu devido tempo com a comida não o que necessita". 32 No transcurso de suas observações ela falou longamente contra o espírito polêmico, e mencionou por nome o ministro que tinha liderado a oposição contra os pastores Jones e Waggoner durante o congresso. 33 Todo esse discurso constitui uma prova concludente da existência de uma oposição ativa contra o pastor Waggoner cujo

o ensino concernente à justificação pela fé ela estava defendendo.

como o doutor a apresentou

Uma avaliação

"Dezenas de declarações proferidas depois do congresso pela Sra. White e por outras pessoas, demonstram que realmente havia oposição à doutrina da justificação pela fé tal como foi ensinada no congresso de 1888. Mas nada constituiu uma evidência mais clara do espírito de oposição que as confissões posteriores proferidas pelos mesmos homens que se tinham oposto à mensagem. Ninguém faz uma confissão sem ter a razão para isso. Em 1891, a Sra. White escreveu em uma carta pessoal as confissões de três pessoas preeminente pela parte que tinham desempenhado no movimento de oposição que surgiu no congresso de 1888. 34 Em 1893 ela escreveu uma carta a um ministro destacado, lembrando-lhe da parte que ele

e outras pessoas tiveram na oposição à mensagem da justificação pela fé. 35 Como

resposta, o ministro que fora repreendido disse:

"Aceito de todo o coração esta comunicação que a senhora me enviou como um testemunho do Senhor. Revela-me a triste condição que padeci desde as reuniões celebradas em Mineápolis, e esta repreensão proveniente do Senhor é justa e verdadeira". 36 Segundo o relato do próprio pastor Jones, a pessoa que tinha dirigido a oposição posteriormente "se desligou de toda a relação com essa oposição; e se entregou de corpo, alma e espírito à verdade e à bênção da justificação pela fé, por meio de uma

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das confissões mais acabadas e nobres que eu tenha escutado". 37 Um delegado ao congresso que tinha aceito a doutrina nessa oportunidade, declara:

"No começo da primavera de 1888, começamos a ter notícias da parte dos que tinham militado nas fileiras da oposição no congresso, segundo as quais começavam a ver a luz, e pouco depois disso seguiram fervorosas confissões. No fim de dois ou três anos, a maior parte dos líderes que tinham rejeitado aceitar a luz no congresso, haviam feito claras confissões". 38 A experiência dos delegados que foi citada mais acima, e evidências adicionais 39 , indicam que no congresso celebrado em 1888 houve pessoas que aceitaram com gozo e entusiasmo o ensino apresentado. Outros estavam confusos e inseguros, e também houve os que se opuseram vigorosamente. Não há nenhum modo de estabelecer quantos dos 84 delegados ou das visitas que atuaram durante as sessões seu uniram à oposição ou à defesa da doutrina. Tão pouco é necessário estabelecê-lo. Apesar de muitos aceitarem a doutrina então, permanece de pé o fato de que no congresso houve uma vigorosa oposição ao ensino da doutrina da justificação pela fé. Os opositores sustentavam que os adventistas sempre reconheceram a doutrina da justificação pela fé, o que era teoricamente certo. Eles temiam que a ênfase posta nesta doutrina pelos oradores que atuaram no congresso podia pôr em perigo o credo distintivo dos adventistas do sétimo dia, e desta maneira privar o movimento adventista de seu caráter peculiar e de sua força. 40 Esta oposição surgiu parcialmente pela desconfiança e aversão que muitos sentiam com relação aos pastores Jones e Waggoner. Estes homens eram jovens e sua mensagem revolucionária parecia ser iconoclasta. Aparentemente, algumas pessoas que não conseguiam entender o assunto em jogo se uniram à oposição por causa dos homens que promoviam a nova doutrina. Outra razão da oposição era uma confusão de assuntos. A justificação pela fé, deve ser lembrado, não era o único assunto analisado durante o congresso. Os "dez reinos" e a "lei e em Gálatas "constituíam ativos temas de disputa. A Sra. White não adotou uma posição definida concernente à "lei em Gálatas". 41 No entanto, mostrou-se uma decidida partidária da justificação pela fé. Algumas pessoas não tiveram um conhecimento tão claro como ela. Os opositores falaram muito acerca de "guiar-se pelos marcos antigos", e com isso referiam-se aos princípios fundamentais do ensino adventista. A Sra. White, ao recordar a controvérsia alguns meses depois, chamou a atenção para a confusão que existia em muitas mentes acerca do que eram os "marcos antigos". 42 Durante toda a polêmica ficou evidente a existência de um pensamento obscuro, de confusão de conceitos e de preconceitos pessoais. As confissões mencionadas em outro parágrafo, sem dúvida foram motivadas, em alguns casos, por uma serena reflexão feita depois que as pessoas envolvidas se afastaram do cenário do debate. A gravidade do congresso realizado em Mineápolis e sua controvérsia é manifestada na seguinte declaração: "Foi-me dito que a terrível experiência ocorrida no congresso de Mineápolis constitui um dos capítulos mais lamentáveis na história

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dos crentes da verdade presente". 43 Era impossível que esse trágico episódio não tivesse efeitos nos anos subseqüentes. Dois fatores intervieram nesse congresso: primeiro, a doutrina da justificação pela fé foi pregada com clareza e vigor; e em segundo lugar, essa pregação encontrou uma oposição igualmente vigorosa. A boa semente semeada por meio das pregações, seria afogada pela má semente semeada pela oposição? O capítulo seguinte apresenta, em parte, a resposta a esta interrogação.

Referências:

1.

Review and Herald, 16 de outubro, 1888, editorial "The General Conference Institute".

2.

White, Ellen G., Manuscrito 6, pp. 3-5, 1888, "A Living Connection With God", sermões inéditos de Ellen G. White apresentados no Congresso de Mineápolis, Minnesota, 1888.

3.

Review and Herald, 16 de outubro, 1888, editorial "The General Conference Institute".

4.

Id., 23 de outubro, 1888, editorial "The Conference".

5.

A. T. Robinson, "Did the Seventh-day Adventist Denomination Reject the Doctrine of Righteousness by Faith?", p. 1. Manuscrito inédito fechado, 30 de

janeiro, 1931, guardado nos arquivos da Corporación Editorial Elena de White.

6.

Review and Herald, 23 de outubro, 1888, editorial "The Conference".

7.

Ibid.

8.

White, Ellen G., Review and Herald, 5 de outubro, 1889, art. "The Need of Advancement".

9.

General Conference Daily Bulletin, 19 de outubro, 1888, p. 2, art. "Second Day's Proceedings".

10.

Id., 21 de outubro, 1888, p. 1, art. "Thirty Day's Proceedings".

11.

Id., 26 de outubro, 1888, art. "Eighth Day's Proceedings".

12.

Ibid.

13.

White,

Ellen G., Manuscrito 8, p. 2, 1888, "Advancing in Christian

Experience". Sermões inéditos apresentados no Congresso de Mineápolis, Minnesota, 1888, guardados nos arquivos da Corporación Editorial Elena de

White.

14.

Id., p. 6.

15.

Ibid.

16.

Id., pp. 8, 9.

17. White, Ellen G., Manuscrito 8a, 1888, "Counsels to Ministers". Sermões inéditos apresentados no Congresso de Mineápolis, Minnesota, 1888, guardados nos arquivos da Corporación Editorial Elena de White.

18. Id., p. 13.

19. Id., p. 8.

Pela Fé Somente

89

21.

Ibid.

22.

Id., pp. 10, 11.

23.

White, Ellen G., Manuscrito 17, p. 2, 1888, "A Chosen People". Sermões inéditos apresentados no Congresso de Mineápolis, Minnesota, 1888, guardados nos arquivos da Corporación Editorial Elena de White.

24.

White, Ellen G., Manuscrito 10, p. 1, 1888, "Counsels to Ministers". Sermões inéditos apresentados no Congresso de Mineápolis, Minnesota, 1888, guardados nos arquivos da Corporación Editorial Elena de White.

25.

White, Ellen G., Manuscrito 9, p. 1, 1888, "Morning talk by Mrs. E. G. White". Sermões inéditos apresentados no Congresso de Mineápolis, Minnesota, 1888, guardados nos arquivos da Corporación Editorial Elena de White.

26.

Id., p. 3.

27.

Ibid.

28.

Id., p. 4.

29.

White, Ellen G., Manuscrito 15, 1888, "A Call to a Deeper Study of the Word". Corporación Editorial Elena de White. White.

30.

Id., p. 1.

31.