Carlos Biasotti

O Erro. O Erro Judiciário.
O Erro na Literatura (Lapsos e Enganos)

2015
São Paulo, Brasil

O Autor
Carlos Biasotti foi advogado criminalista, presidente da
Acrimesp (Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de
São Paulo) e membro efetivo de diversas entidades (OAB, AASP,
IASP, ADESG, UBE, IBCCrim, Sociedade Brasileira de
Criminologia, Associação Americana de Juristas, Academia Brasileira
de Direito Criminal, Academia Brasileira de Arte, Cultura e História,
etc.).

Premiado pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, no
concurso O Melhor Arrazoado Forense, realizado em 1982, é autor de
Lições Práticas de Processo Penal, O Crime da Pedra, Tributo aos Advogados
Criminalistas, Advocacia Criminal (Teoria e Prática), além de numerosos
artigos jurídicos publicados em jornais e revistas.

Juiz do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo
(nomeado pelo critério do quinto constitucional, classe dos
advogados), desde 30.8.1996, foi promovido, por merecimento, em
14.4.2004, ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça.

Condecorações e títulos honoríficos: Colar do Mérito
Judiciário (instituído e conferido pelo Poder Judiciário do Estado de
São Paulo); medalha cívica da Ordem dos Nobres Cavaleiros de São
Paulo; medalha “Prof. Dr. Antonio Chaves”, etc.

O Erro. O Erro Judiciário.
O Erro na Literatura (Lapsos e Enganos)

Carlos Biasotti

O Erro. O Erro Judiciário.
O Erro na Literatura (Lapsos e Enganos)

2015
São Paulo, Brasil

O Erro. O Erro Judiciário.
O Erro na Literatura (Lapsos e Enganos)
I. Que os homens geralmente nos enganamos e
caímos em faltas, e estas muita vez graves, é verdade
que passa por axioma. Adverte-nos, com efeito, a
conhecida parêmia: “Errare humanum est”!
“O cair o homem vai de ser homem, e todos somos
homens”, sentenciou o clássico Manuel Bernardes
(Nova Floresta, 1711, t. IV, p. 477).
Mas o homem por que erra?
A esta embaraçosa pergunta deu elegante
resposta o profundo Antônio Vieira: “Os erros e as
ignorâncias, é certo que são muito mais que as ciências,
porque para saber e acertar não há mais que um
caminho, e para errar infinitos”.(1)
Assim, dado que o erro seja partilha comum
dos mortais, console-nos ao menos a esperança de
podermos repetir com aquele insigne pregador:

(1) Sermões, 1959, t. VIII, p. 209; Lello & Irmão, Editores.

8
“(...) protesto que será o erro das palavras e do
entendimento, mas nunca do coração”.(2)
À derradeira, nisto de erros, sirva-nos de regra
de moral prática o seguinte lance oratório de
Cícero, da mais alta filosofia: “Todos estamos sujeitos a
errar, mas só o estulto se obstina no erro”.(3)
II. Erro – que é a “a não-conformidade do
entendimento com a realidade; juízo falso acerca de
alguma coisa”(4) – só não comete quem cruza os
braços. Que mérito, porém, terá aquele que nunca
errou porque jamais tentou acertar?!
Em suma: ainda que puséssemos timbre em
evitá-lo, todos lá um dia (e talvez muitas vezes ao dia)
haveremos de conjugar o verbo errar. Sim, porque,
segundo aquele varão de raro espírito que foi Mário
Barreto, “o bom peca sete vezes no dia”(5).
(2) Cartas, 1971, t. I, p. 157; Imprensa Nacional; Lisboa.
(3) “Cujusvis hominis est errare, nullius nisi insipientis in errore perseverare”
(Philip., XII, 2,5).
(4) C.J. de Castro Nery, Filosofia, 1932, p. 83; Companhia Editora
Nacional; São Paulo.
(5) Através do Dicionário e da Gramática, 1927, p. 185; Livraria
Quaresma; Rio de Janeiro.

9
Onde o erro sobretudo faz sentir seus funestos
efeitos é no vasto campo do Direito Penal: são aí
bem visíveis as marcas da falibilidade humana!
Em verdade, o capítulo do “erro judiciário” foi
dos que mais enlutaram a História e ofenderam o
sentimento comum da Humanidade.
Além do “processo de Jesus” – “o maior erro
judiciário da História”(6) –, no rol dos casos judiciais
que retratam a precariedade dos juízos humanos
figuram, por força, os de Sócrates, Galileu,
Alfredo Dreyfus, Mota Coqueiro(7), dos Irmãos
Naves, do “Padeirinho de Veneza”(8), etc.
(6) Pedro Paulo Filho, Grandes Advogados, Grandes Julgamentos, 3a. ed.,
pp. 599-603; Millennium Editora. Trata-se de obra, porventura a mais
bela e completa que entre nós ainda se escreveu a respeito dos “casos do
Júri”!
(7) Consta que, tendo chegado à notícia do Imperador Pedro II que
Mota Coqueiro, morto por enforcamento, havia sido vítima de “erro
judiciário”, no mesmo ponto mandou quebrar a pena com que lhe
denegara pedido de clemência e “nunca mais quis assinar nenhuma
condenação” (Raimundo Menezes, Crimes e Criminosos Célebres, 2a. ed.,
p. 123).
(8) “O Caso do Padeirinho de Veneza” refere-o, em livro valioso assim pela
substância como pela forma, o eminente Des. João Martins de Oliveira,
do Tribunal de Justiça de Minas Gerais:
“Em 1507, pela madrugada, foi assassinado um homem em Veneza e seu
cadáver estava na rua. Passando pelo local, o moço Pedro Faciol, modesto

10
Tais erros, a Humanidade (muito a seu pesar!)
nunca poderá reparar. E daqui vem a aterradora
desconfiança de que possa alguém tornar a cometê-los, posto que involuntariamente!
Mílton Campos, jurista exímio, discorreu
gravemente do assunto:
“Errar é humano, e seria crueldade exigir do juiz
que acertasse sempre. O erro é um pressuposto da
organização judiciária que, por isso mesmo, instituiu sobre
a instância do julgamento a instância da revisão” (apud
João Martins de Oliveira, Revisão Criminal, 1a. ed.,
p. 45; Sugestões Literárias S.A.).
Donde a inferência lógica imediata de que
também o juiz pode cair em erro. E, remetendo o
padeiro, viu o corpo e ficou a admirar o punhal manchado de sangue. A arma
era rica. Apoderou-se dela e ia retirar-se, quando soldados que se
aproximavam e o viram inclinado junto ao cadáver o perseguiram e
prenderam, encontrando o instrumento do crime em seu poder. À vista do
flagrante, foi submetido a tormento, confessou o assassinato e foi enforcado
a 22 de março de 1507. Descobriu-se, depois, o verdadeiro autor do crime.
Diz-se que, por causa deste erro, a administração local mandou escrever, em
tinta vermelha, na parede da sala dos julgamentos, a frase: Ricordatevi del
povero fornaio (Recordai-vos do pobre padeiro), e estas palavras eram
repetidas, em voz alta, por um funcionário, antes dos pronunciamentos dos
julgadores” (Revisão Criminal, 1a. ed., p. 45; Sugestões Literárias S.A.;
São Paulo). Ainda: Giuseppe Fumagalli, Chi l’ha detto?, 1995, p. 170;
Editore Ulrico Hoepli; Milano.

11
disco mais alto, o próprio “Supremo Tribunal Federal
não está imune às críticas. Como dizia Nélson Hungria,
ele tem apenas o privilégio de errar por último” (Heleno
Cláudio Fragoso, Advocacia da Liberdade, 1984,
p. 199).(9)
A dar-se o caso, todavia, que o juiz, por não
desmentir sua condição humana, perpetre algum
erro ou equívoco, então lhe não esqueça aquilo do
incomparável Rui:
“(...) a toga do magistrado não se deslustra,
retratando-se dos seus despachos e sentenças, antes se
relustra, desdizendo-se do sentenciado ou resolvido, quando
se lhe antolha claro o engano, em que laborava, ou
a injustiça, que cometeu” (Obras Completas, vol. XLV,
t. IV, p. 205).

(9) Esta mesma ideia já havia enunciado Rui, da tribuna do Senado
Federal, em 29.12.1914:
“Em todas as organizações políticas ou judiciais há sempre uma autoridade
extrema para errar em último lugar.
Alguém, Senhores, nas cousas deste mundo, se há de admitir o direito de
errar por último.
Acaso V. Exas. poderiam convir nessa infalibilidade que agora se arroga de
poder qualquer desses ramos da administração pública, o Legislativo ou o
Executivo, dizer quando erra e quando acerta o Supremo Tribunal Federal?
O Supremo Tribunal Federal, Senhores, não sendo infalível, pode errar,
mas a alguém deve ficar o direito de errar por último, de decidir por último, de
dizer alguma cousa que deva ser considerada como erro ou como verdade”
(Obras Completas, vol. XLI, t. III, p. 259).

12
Ainda:
“Melhor será que a sentença não erre. Mas, se cair
em erro, o pior é que se não corrija”(Oração aos Moços,
1a. ed., p. 46).
III. Do mesmo passo que os sacerdotes de Têmis
(ou Juízes, ordinariamente falando), não estão
imunes os literatos a equívocos e lapsos; pois,
consoante a doutrina de Horácio, às vezes “até
o bom Homero toscaneja”: “quandoque bonus dormitat
Homerus” (Arte Poética, v. 359).
O “lapsus calami” (o lapso da pena) tem
frustrado autores do mais distinto merecimento, os
que escreveram com pena de ouro. Eis pequena
amostra de suas inadvertências:

a) O genial dramaturgo inglês William
Shakespeare(10) – o que “mais criou depois de Deus”,
na frase feliz de um escritor – também recolheu seu
tributo à condição humana:
(10) Hamlet é sua obra-prima e Otelo, “uma das poucas criações humanas —
quatro ou cinco — que merecem o qualificativo de perfeitas” (cf. Obras
Completas de Shakespeare, vols. XIII e XIV; trad. Carlos Alberto
Nunes; Edições Melhoramentos; São Paulo).

13
“É comum fazer-se carga em Shakespeare, em cuja
conta se debita, como erro, como anacronismo, o ter dito,
em Júlio César (ato II), que o relógio batia horas, num
tempo em que, afirmam críticos, ainda não havia
relógios” (Pedro A. Pinto, in Revista Filológica, 1955,
nº 2, p. 15).
De feito, na referida tragédia, “um relógio bate
horas”: “três pancadas” (cf. William Shakespeare,
Júlio César, ato II, cena I, p. 47; trad. Carlos
Alberto Nunes; Edições Melhoramentos).
Ora, “os relógios chamados horários e de repetição
são os que dão ou repetem as horas, as meias horas e os
quartos. A fabricação dos relógios remonta ao fim do
século XV” (cf. Lello Universal, 1a. ed., vol. IV; v.
relógio).
O relógio de repetição não podia, portanto, ser
contemporâneo do grande Júlio César, morto nos
idos de março do ano 44 a.C.!
b) O próprio Rui Barbosa, com ser “o primeiro
talento verbal da raça”(11), não pôde libertar-se das
insídias do erro, consequência da que denominou
(11) Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira, 1949, t. V, p. 448.

14
“eterna falibilidade humana, cujos estigmas ninguém
evita neste mundo” (Réplica, nº 10).
Assim é que, em sua monumental Réplica,
exarou: “Minha divisa na vida pública tem sido aquilo do
evange-lista: Per infamiam et bonam famam (nº 24).
É o conhecido texto de São Paulo, que, no
entanto, não foi “evangelista” (“stricto sensu”), mas
“apóstolo”(12).
c) A pena da “Águia de Haia” deu curso também
a este lapso:
“De tudo quanto no mundo tenho visto, o resumo se
abrange nestas cinco palavras:
Não há justiça onde não haja Deus” (Oração aos
Moços, 1a. ed., p. 46).

(12) 2a. Epístola aos Coríntios, cap. VI., v. 8: “por infâmia, e por boa fama”.
Ao apontar lapsos nos escritos de Rui, nem por sombras nos moveu o
intuito de profanar a memória do “Maior dos Brasileiros”, cuja morte os
jornais da época noticiaram com pregão extraordinário: “Apagou-se o
Sol!” (cf. Gazeta de Notícias, de 2 de março de 1923; fig. 1 do Anexo).
Quisemos apenas significar que até o Sol tem manchas, como afirmam
os astrônomos!

15
O que ensejou a Adriano da Gama Kury a
seguinte nota:

“Cinco palavras: Não há justiça onde não haja Deus.
A propósito deste curioso engano, Rui havia escrito,
realmente, cinco palavras: Não há justiça sem Deus. Ao
substituir a frase, esqueceu-lhe recontar as palavras,
já agora em número de sete” (Oração aos Moços, 1956,
p. 75; Casa de Rui Barbosa)

d) Em seu livro “Uma Vida” refere Plínio
Doyle dois exemplos de enganos, que vêm aqui a
lanço:

1. “Flor de Sangue”, de Valentim Magalhães.
“Esse romance foi publicado em 1897, pela
Laemmert & Cia., trazendo um dado que parece
incabível num romance: uma errata. Mas lá está, à
página 385: À página 285, 4a. linha, em vez de estourar
os miolos, leia-se cortar o pescoço” (p. 65);
2. “(...) ouvi, não sei de quem, quando se falava de
A Condessa Hermínia, peça teatral do general Dantas

16
Barreto, que a mesma terminava com a frase: Quando a
Condessa acordou, estava morta” (Plínio Doyle, Uma
Vida, 1999, p. 76; Casa da Palavra).

Ainda:
3. “Ele passeava pelo jardim, com as mãos às costas,
lendo tranquilamente o jornal” (Ponson du Terrail;
apud Folco Masucci, O Livro que Diverte, 1953,
p. 261; Edições Leia; São Paulo).
4. De Camilo Castelo Branco, no romance A
Filha do Doutor Negro (3a. ed., p. 262, da Parceria
Antônio Maria Pereira): “Antônio da Silveira, o justo, o
honrado, o cristão, chegou aos 70 anos com a alma no
pleno fulgor de suas faculdades, e o corpo sadio e vigoroso,
excetuando o braço que ele pendurou entre os troféus da
liberdade em Portugal. Morreu em 1860 na casa onde
nascera, porque seu sobrinho, remordido pela consciência
da feia ação, um dia se ajoelhou aos pés do velho coronel,
suplicando-lhe que entrasse no seio da sua família. O
ancião ergueu nos braços o sobrinho...” (Agrippino
Grieco, Pérolas, 1937, p. 16; Cia. Brasil Editora
S.A.).

17

5. “O Sr. Ferreira da Rosa, no Por Amor de
Portugal, alude a um trecho apologético que Castilho
(Antônio Feliciano de Castilho) compôs à vista do
túmulo de D. Afonso Henriques.
Esse à vista, em se tratando de um escritor cego,
é bem um murro no olho de todos os cidadãos de bom-senso...” (Idem, ibidem, p. 49).

6. “Nas Ideias de Jeca Tatu, o Sr. Monteiro
Lobato vê a caveira de Spencer estremecer na cova, coisa
difícil, uma vez que o cadáver do grande filósofo britânico
foi incinerado...” (Idem, ibidem, p. 51).

IV. O deslize de linguagem (“lapsus linguae”) ocorre
com frequência entre os oradores.
A. Almeida Jr., professor emérito da Faculdade
de Direito das Arcadas, relata o seguinte episódio:
“Há muitos anos, um de nós assistiu, no interior
do Estado de São Paulo, ao enterro de um chefe
político. Homem voluntarioso, violento, temido tanto pelos
companheiros como pelos adversários, pareceu que sua
morte, ainda que sentida, produziu alívio. Caso nítido de

18
ambivalência! À beira do túmulo, um dos oradores, ao
lamentar o fato, referiu-se a este faustoso acontecimento.
Era indubitável que ele tinha querido dizer (como
depois declarou) infausto” (Lições de Medicina Legal,
20a. ed., p. 491; Companhia Editora Nacional).
Há quem jure de pés juntos que Fernando
Costa, prócer político e ministro da agricultura
sob o governo de Getúlio Vargas, em discurso
inaugural da Feira de Bovinos, Equinos e Muares, que
tradicionalmente se realizava no Parque da Água
Branca, na Capital paulista, ergueu a voz em
inflamado exórdio:
– “A uma exposição de animais como esta eu não
poderia faltar”!
Não é mister dizer que o frêmito da gargalhada
do público ressoou por todos os cantos (os estábulos
e as cavalariças inclusive).
Outro caso de “lapsus linguae” foi Paulo
Bomfim, O Príncipe dos Poetas Brasileiros, quem nos
contou.
Era por 1983. Em visita oficial à Comarca
de Jacareí para a instalação de Vara Criminal, o
Presidente do Tribunal de Justiça – Desembargador
Francisco Thomaz de Carvalho Filho (a quem

19
o Poeta acompanhava na condição de Chefe do
Cerimonial) – foi recepcionado, conforme o estilo,
pelas autoridades locais e representantes de entidades
de classe. Houve discursos de pompa e circunstância.
O presidente da Subseção da Ordem dos
Advogados do Brasil, após desenrolar o pendão da
eloquência, passou à peroração e rematou com o
seguinte rasgo de efeito:
“Senhor Presidente, o povo da generosa cidade de
Jacareí recebe V. Exa. de pernas abertas!”. (Quisera
dizer, é claro, braços abertos).
Um tiro de canhão, no silêncio da noite, não
teria causado no ânimo dos presentes maior abalo e
confusão!

V. O erro tipográfico (“lapsus typographicus”) não
pode ser excluído da resenha geral dos enganos e
senões que, as mais das vezes, metem em angústia e
desespero aos que assentaram praça na república das
letras(13).

(13) Camilo Castelo Branco, em prefácio à 2a. edição de “Agulha em
Palheiro”, fulminou anátema contra os que haviam entendido na
impressão de seu livro:

20
Exemplos em barda poderíamos arrolar de
gralhas tipográficas ou erros de impressão. Damos
aqui os mais frisantes e notáveis:
1. Imensa terá sido a mágoa de Machado de
Assis – “verdadeiro modelo da boa linguagem, assim na
correção como no gosto”, ao aviso dos doutos(14)–, ao
deitar os olhos no volume de suas “Poesias Completas”
(1901; H. Garnier, Livreiro-Editor), sobretudo
naquele passo da “Advertência” que lhe escreveu:

“A primeira edição deste romance saiu de uma tipografia do Rio de Janeiro.
Parece que houve propósito de desdourar os prelos brasileiros! Poderá parecer
também que se intentou desdourar o autor; mas semelhante suspeita não
vingaria, atendendo a que não é coisa verossímil alguém escrever assim”.
Também o nosso Rui não teve mão em si que, a propósito de erros
tipográficos, não discreteasse por este feitio:
“(...) nem sempre será fácil discernir com segurança onde termina a ação do
escritor, onde começa a culpa do tipógrafo” (Réplica, nº 357).
Ainda:
“Quem quer que haja experimentado o rever provas, saberá com que
facilidade escapam essas diferenças de letra aos olhos mais adestrados, sobretudo
aos do próprio autor, que, lendo no seu pensamento, cuida amiúde ter visto no
impresso o que apenas lhe estava na ideia. A imagem mental, em sua forma
correta, oculta e substitui aos olhos do escritor a incorreta reprodução no trabalho
da oficina” (ibidem, nº 123).
(14) Rui, Réplica, nº 74.

21
“Não deixo esse prefácio, porque a afeição do meu
defunto amigo a tal extremo lhe cegara o juízo que não
viria a ponto reproduzir aqui aquela saudação inicial”.
A causa do dissabor e justa indignação do
circunspecto Machado explicou-a Plínio Doyle no
livro “Minha Vida”:
“Aquele cegara ali em cima teve uma letra trocada
pelo tipógrafo: o e por a. Não preciso dizer mais nada,
senão pensar no enorme aborrecimento que deve ter tido
Machado ao ver com seus olhos o erro.
Na biblioteca da Casa de Rui Barbosa há um
exemplar com o erro, outro emendado à mão (corre que foi
o próprio Machado que toda tarde fazia as emendas de
vários exemplares) e um terceiro, correto” (p. 67).
2. Outro aleijão tipográfico depara-nos a 6a. ed.
do Código de Processo Penal (1959; Saraiva).
Com efeito, reza o teor do art. 536:
“Recebidos os autos da autoridade policial, ou
prosseguindo no processo, se tiver sido por ele iniciado, o
juiz, depois de ouvido, dentro do prazo improrrogável de
24 anos, o órgão do Ministério Público, procederá ao
interrogatório do réu”. Errata: “24 horas”.

22

3. Nisto de falhas ou quiproquós tipográficos,
faz ao intento a crônica do esmerado escritor
maranhense Humberto de Campos, “in verbis”:
“Conta-se que, por ocasião de sua vinda ao Rio de
Janeiro em 1887, escreveu Ramalho Ortigão, para a
Gazeta de Notícias, um artigo de colaboração destinado a
uma edição festiva. No dia aprazado, o matutino de
Ferreira de Araújo aparecia com o escrito do seu eminente
colaborador português. Intitulava-se, aquele, O Pássaro e
as Penas. Quem, todavia, o lesse, não encontraria nem as
penas, nem o pássaro. No dia seguinte, porém, vinha a
corrigenda. Por um engano de revisão – dizia esta –,
saiu deturpado o título do artigo que publicamos ontem,
da autoria do ilustre escritor Ramalho Ortigão. Onde se
lê O Pássaro e as Penas, leia-se: O Pássaro e o
Presunto.
No referido artigo não se tratava, entretanto, ainda,
de tal coisa. O título verdadeiro era, apenas, O Passado e
o Presente, que o tipógrafo encarregado de compor os
títulos não compreendera bem, na caligrafia complicada
de Ramalho Ortigão” (Reminiscências..., 1962, pp.
89-90; Livro do Mês S.A.).

23

4. De erros de imprensa (“gralhas”) também o
erudito escritor Eduardo Frieiro colheu exemplos
em barda. Eis alguns:
I. “Na secção necrológica de um austero órgão
carioca, leram-se um dia estas palavras escandalosas a
propósito de um venerando figurão do Império: O
honrado Senador X passou os últimos anos de sua
existência entre duas mulatas.
Um inocente paragrama trocara as muletas em
mulatas” (Os Livros, nossos Amigos, 2010, p. 139;
Edições do Senado Federal; Brasília).
II. “Um jornal de Lisboa, no tempo da Rainha
Dona Amélia, fazendo uma edição especial muito
esmerada em homenagem à Soberana, anunciou um
prêmio a quem descobrisse um erro de revisão. Para quê?
Logo na primeira coluna da primeira página do tal jornal
lia-se em tipos fortes: Sua Majestade a Bainha... etc.,
etc. O responsável foi punido e no dia seguinte saía
a retificação: Por um lamentável erro de revisão –
dizia –, demos ontem a notícia de que Sua
Majestade a Tainha... etc., etc.” (Idem, ibidem, p.
140).

24
III. “Enfim, a explicação do Capeta é tão boa como
qualquer outra. E só por artes do Capeta se pode explicar
que se haja inutilizado uma edição da Bíblia que continha
este erro imperdoável: Cristo com cinco mil pães deu
de comer a cinco pessoas”. Outra Bíblia, impressa em
Hale, em 1710, encerrava este monstruoso mandamento:
Cometerás adultério” (Idem, ibidem, p. 141).

5. Sesquipedal lapso tipográfico foi o que, a
dar-se crédito à tradição oral, cometeu desastrado
revisor.(15)
Passara ano inteiro a rever uma obra e, ao cabo,
escreveu-lhe no cólofon, em letras capitulares:
“Este livro não contém erata”.

6. Dos erros tipográficos, em suma, é vasta a
messe, que veteranos jornalistas ainda conservam na
memória, com carinho e saudade. A um desses(16)
ouvimos dizer que, retornando ao País a Seleção
Brasileira de Futebol, certo órgão da imprensa,
(15) Revisor, indivíduo cuja profissão é um erro, disse alguém.
(16) Dr. Mário de Oliveira, advogado e jornalista (diretor-presidente do
periódico Edição Policial).

25
arrebatado de justa ufania, publicou a seguinte
manchete: O marechal da vitória Paulo Machado
de Carvalho merece a gratidão da pátria!
Deu-se, no entanto, que, por terribilíssimo
lapso, deixara o linotipista cair uma letra do
patronímico do marechal da vitória, o que formou
um palavrão de rachar um carvalho de alto a baixo!
Outro tanto em referência a um “incêndio na
fábrica de colchões”, que teria irrompido, vai por meio
século, no bairro paulistano do Brás.
Ao revisor do jornal esquecera-lhe examinar a
última prova. Consequência: mofina síncope fizera
desaparecer letra intermediária da palavra colchões, o
que só perceberam os leitores, estupefactos! Já ardera
Troia!

7. Outra gralha tipográfica, de certo peso e vulto,
noticiaram ultimamente os jornais. Vai abaixo
reproduzida:
“O Tribunal de Justiça do Paraná condenou uma
editora de Londrina (do norte do Estado) a pagar uma
indenização de R$ 4.800 por danos morais e materiais a
uma lanchonete da mesma cidade.

26
A editora, que é responsável por publicações em listas
telefônicas, escreveu errado um anúncio da loja de sucos.
Por erros de grafia cometidos durante o processo de
composição do anúncio, a expressão sucos exóticos e
grelhados virou sucos eróticos e gralhados. O erro
saiu na edição de 2008/2009” (Agora, 16.5.2012).

8. Outra cinca desmarcada ou, antes,
providência “ultima ratio”, vem descrita em “O
Pitoresco na Advocacia”, livro do Dr. Fernandino
Caldeira de Andrada (p. 26). Ei-la:
“Contam que, numa comarca do interior, na sala dos
advogados, um profissional, às pressas – quase fim do
expediente forense –, redigia uma petição. O papel não
valia nada. Era daqueles destinados à cópia. Pelas tantas,
o advogado errou. Utilizou borracha. Rasgou o papel.
Continuou a datilografar. Depois de pedir deferimento,
datar e assinar o requerimento, nele apôs a seguinte
observação: No buraco, leia-se Vossa Excelência”.

VI. Anda na boca do povo que é o espírito do mal
quem enfatua e amesquinha a inteligência do
homem, para que cometa semelhantes iniquidades e

27
despautérios. Tem até nome: Titívilo (“Titivillus”, na
voz latina). Eis sua efígie(17):

“Titivillus” (Titívilo) — Diabinho inventado “por
monges copistas medievais” para justificar seus erros de
escrita (“lapsus calami”).

Já que o erro é contingência humana, defenda-nos Deus das ciladas de Titívilo, agora e sempre.
Amém!
(17) Cf. Carlos M. Horcades et alii, Almanaque Tipográfico Brasileiro,
2008, p. 66; Ateliê Editorial.

28

Anexo

(fig. 1)

http://www.scribd.com/Biasotti

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