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Vejo um Vulto na Janela me Acuda que Eu sou Donzela

Texto de Leilah Assumpção

CENÁRIO

O pensionato, dividido em dois planos. No primeiro plano tomando quase o palco todo, a sala de jantar: várias mesas pequenas, iguais, simples, cobertas com toalhas

xadrez. Um grande quadro no fundo, tomando em vertical

a parede toda, até o corredor de cima, no segundo plano.

À direita da sala, um pequeno hall que foi transformado em saleta de visitas. Televisão, mesinha para telefone, um sofá grande, uma poltrona, e talvez uma cadeira suja e maltratada, estilo Luiz XV. Porta de entrada do pensionato e uma janela, dando para a rua, com grades brancas descascadas, cobertas de plantas. O vidro da janela, embaçado e opaco. Segundo plano: um corredor corta o palco, lado a lado, e se estende longo e estreito, fora de cena, talvez com várias portas dos muitos quartos das pensionistas. Na cena apenas três portas. No centro, a porta que se abre para o banheiro, "roupas de baixo" dependuradas, secando. Várias calcinhas, combinações, sutiãs, anáguas, cintas-ligas, a maioria branca, aproveitando todos os ganchos, pontas e quinas que o banheiro tem. Muitas bacias pequenas, também cheias de roupas pequenas. Uma banheira grande, branca, antiga. Um chuveiro com cortina de plástico de florzinhas. Uma pia com um espelho grande na parede. Bidê, vaso sanitário, toalhas. Um pequeno vitrô com uma cortina bonita, alegre. À direita do banheiro, a porta que se abre para o quarto de Cecília - quarto de estudante, muita bagunça, papéis, livros, tinta, desenhos, um "mural" de recortes na parede, pôster de Guevara. Duas camas de solteiro com criados-mudos ao lado, e guarda- roupa. Janela pequena, dando para a rua, sem grades, mas também com plantas. À esquerda do banheiro, a porta que se abre para o quarto de Leopoldina - uma parte do quarto, apenas uma mesinha com telefone e um

guarda-roupa grande, colonial, encostado na parede que dá para o banheiro (onde estão a pia e o espelho). A casa é velha, mal cuidada, coisas quebradas, mas o teto é todo colorido e trabalhado, aqui e ali detalhes de bom gosto, um ou outro quadro de valor misturado com elefantinho, porcelana inglesa e santos baratos. Fica claro que a casa tem bons alicerces, é antiga, passou por várias reformas, foi remendada e machucada, mas conserva uma dignidade, sei lá onde.

AÇÃO

Pensionato de moças, na Avenida Paulista da cidade de São Paulo.

ÉPOCA

1963 e 1964.

PERSONAGENS

MARIANGÉLICA Pensionista mais antiga. Quarenta e tantos anos; não consegue sair dos quinze. Alegre, ligada, desligada, atualizada, retardada, cheia de cachinhos e laçarotes, patética.

ANTONIA Vinte e seis anos. Quieta, sóbria, séria.

RENÍ Uns vinte e cinco anos, tipo físico saudável.

CARMINHA Dezenove anos, boas maneiras, roupas finas.

CECÍLIA Dezoito anos. Irrequieta, irreverente.

MARIA Dezessete anos, desengonçada.

JOANA A empregada do pensionato. Uns vinte e quatro anos, mas aparenta bem mais. Forte e "calejada".

LEOPOLDINA A dona do pensionato. Cinqüenta e quatro anos, talvez. Paulista quatrocentona. Ou não.

PRIMEIRO ATO

Sala de jantar do pensionato. Anoitece. As pensionistas jantam, em silêncio, debaixo de uma luz fraca. As sombras delas vão aparecendo, tristes, na luz aumentando. Antonia e Reni jantam em uma mesa. Reni tensa. Antonia preocupada. Carminha e Mariangélica comem em outra mesa. Às vezes olham para Rení, curiosas. Cecília, sozinha em outra mesa, janta descansando uma perna sobre uma cadeira, displicente. Leopoldina mexe com papéis, faz contas, sobre onde acabou de comer. Silêncio total. O telefone toca, berrando estridente no meio do silêncio. Sobressalto de todas. Cecília e Mariangélica correm para atender. Joana entra, começa a arrumar a sala, tirar as mesas, olhando o telefone.

QUADRO UM

CECÍLIA (Atendendo) Alô. (Pausa.) 51.3051. (Pausa.) Não, é da Casa da Bernarda Alba.

CARMINHA - Cecília

Não começa! Dona Leopoldina

MARIANGÉLICA (Baixo) - É homem

?

CECÍLIA (Ao telefone) - Pensão da Leopoldina. Com quem quer falar?

CARMINHA - "Pensionato", Cecília

Quantas vezes

CECÍLIA (Ao telefone) - Pensionato. De moças "finas", honestas e virgens. Aqui ninguém dá, só empresta.

CARMINHA - Dona Leopoldina!

LEOPOLDINA (Alheia, fazendo contas, recrimina) - Cecília

CECÍLIA (Ao telefone) - Fale mais alto, tá ruim a ligação! (Pausa.) Como? (Pausa.) Não é possível, em pleno século 20, 1963 um fone nestas condições. ALLLLOOOOUUUUUUUUUUUUUUUUU!

CARMINHA (Levantando-se) - É interurbano Campo Grande

!

É o Roberto,

de

MARIANGÉLICA - Não é interurbano nada! É quando passa o bonde aí na Avenida Paulista. A casa treme e se emociona inteira.

CECÍLIA - É homem, sim, donzelas

o Edgar

Alan

Põe!

Uma voz profunda e rotunda. É

MARIANGÉLICA - Não brinca Cecília! Fala de uma vez! Eu não agüento emoções - embora as procure -, não agüento. Fala!

CECÍLIA - CAR-MI-NHA! Mas não é o Roberto não - graciosa infanta - é o teu futuro sogro.

CARMINHA (Indo atender) - Que vergonha, meu Deus, que

(Ao

telefone.) Alô. (Continua falando baixo.).

vergonha

E você falando em "doar", ah, Dona Leopoldina

MARIANGÉLICA (Indo até a janela) - Escutaram a buzina? É de

Dauphine. É indireta fina e discreta para mim. Mas não dá pra ver

direito

essas janelas estão sempre fechadas.

CECÍLIA - E sempre tão embaçadas, claro, uma sujeira

LEOPOLDINA - Já falei que a Joana não tem tempo pra limpar. E é favor acabar logo esse jantar aí, que ela pediu pra sair mais cedo hoje.

CECÍLIA - Sair mais cedo, Joana? Por quê? Tão te esperando em Pernambuco pra continuar a zoeira?

MARIANGÉLICA - Joana vai voltar pra Pernambuco, é? Quando? Vai ter zoeira? Que é? Festa de Casamento? Vai casar parente seu lá, Joana?

CECÍLIA - Vai. Por isso é que um montão de camponeses iniciou outubro agora -, fazendo uma revolta. Sabia que os camponeses se revoltaram lá, Mariangélica? Eles queriam

LEOPOLDINA (Corta) - Cecília, porque não vai estudar em vez de ficar caçoando de Mariangélica, em vez de ficar fazendo greve, e nos deixa em paz?

CARMINHA (Ao fone) Certo. Até mais. (Desliga.).

JOANA - Eles queriam vida de gente, e não de bicho, Mariangélica.

CARMINHA (Voltando) - Ah, Francisco, o teu marido, te contou a história desse jeito, Joana?

JOANA - Por quê? Tem outro jeito? (Sai, resmungando.) Bexiga, lixa, gota, serena!

CARMINHA - Continua abusada a sua empregada, não é Dona Leopoldina?

CECÍLIA - E você queria "o que" numa pensão? Um mordomo inglês e três babás bretãs?

CARMINHA - Eu queria, apenas, de um lado a Dona e as pensionistas, e do outro os empregados.

CECÍLIA - Lá fora, homem com homem. Aqui, só mulher com mulher. Já não chega essa regra básica neste Mausoléu?

CARMINHA - Acho perfeita. Cada um no seu lugar.

MARIANGÉLICA - Vamos Reni, a Joana tem que sair. Coma um esforço.

RENI - Estou aqui, quietinha no meu canto

sem falar nada

Faz

MARIANGÉLICA - Mas a gente percebe que você brigou, pra que querer esconder? Aqui somos como uma família: desabafa com a gente que alivia.

ANTONIA - Vamos subir Reni?

RENÍ (Levanta-se) - Vamos.

LEOPOLDINA - Poderiam lavar seus pratos antes de subir. Que acham?

CECÍLIA - Lavar prato? Ora, que onda é essa? Ninguém aqui é Gata Borralheira.

LEOPOLDINA - Pra ajudar um pouco a Joana, que tal Antonia? Já que ficaram de papo pro ar o ano inteiro

ANTONIA (Levanta-se) - Boa noite, meninas, até amanhã.

LEOPOLDINA - É isso aí: as duas misteriosas

"igualdade", mas na prática é isso aí a igualdade delas.

Falam tanto em

ANTONIA (Da escada) - A Joana pediu aumento?

LEOPOLDINA - Sim pediu, por que, e daí?

ANTONIA (Tranqüila) - E se nós todas ajudarmos um pouco a Joana?

MARIANGÉLICA - Ah! Ela vai se sentir muito gratificada!

ANTONIA - E na hora da Leopoldina negar o aumento, ela, tão gratificada

LEOPOLDINA (Corta) - Só que eu vou aumentar a Joana, Antonia. Aí é que você se engana viu -, grande inteligência? Só que como a vida está muito cara, pra aumentar a Joana eu tenho que aumentar vocês. Pronto, a notícia está dada, mês que vem sobe o pensionato.

CECÍLIA - DE NOVO

?

LEOPOLDINA - Em novembro sobe.

MARIANGÉLICA - Nossa

CECÍLIA - Mas subiu outro dia mesmo! Nada disso! Isto aqui não vale o preço que você cobra! É uma sujeira! A única coisa limpa é aquela cortina expressionista da janela do banheiro, que eu lavo, porque parece asa de borboleta. A comida é um horror. E acho também que você até devia assinar um jornal pras donzelas

MARIANGÉLICA (Corta) - Não vem com indireta não! Detesto jornal, e pronto, não leio mesmo! A única informação que me atinge é a fofoca!

CECÍLIA - Mas vai concordar com as janelas! A gente mal vê o que passa lá fora!

LEOPOLDINA - Que mais, Antonia? Querem também que eu dê a descarga cada vez que forem fazer suas necessidades?

CARMINHA (Pudor) - Dona Leopoldina

LEOPOLDINA - Você também? Alguma coisa a "reivindicar", Carminha? Vamos, diga

eu acho

que a senhora deveria proibir a Cecília de atender o telefone. Portas e

CARMINHA - Bom, eu estou por pouco tempo aqui, mas

telefones, quem atende, são os empregados.

MARIANGÉLICA - Ah, claro, em qualquer casa ou hotel que se preze. Você esta nessa lição agora, lá na Lareira?

CECÍLIA - Imagine, já passou! Agora é Elegância. Como é que uma "Lady" deve sentar-se, hein? É assim? (Senta, encolhida.) "Por que uma verdadeira dama só se faz notar pela sua discreta ausência". (Tocam a campainha. Todas vão espiar da janela. Cecília sobe correndo a escada da direita. Entra no seu quarto. Antonia e Reni sobem a da esquerda e somem no corredor. Joana vai atender.).

MARIANGÉLICA - "Berço é berço", não é Carminha? Quando você chegou, logo no primeiro dia, quando eu a vi descascando jabuticabas com garfo e faca eu disse à Leopoldina - "ah, essa é como nós:

paulistas de pedigree".

CARMINHA - É

moças são finas. Aquelas duas lá (aponta o corredor.) são assim,

meio

formou e foi ser Assistente direto lá na USP? Então é porque é

inteligente, e tem futuro na carreira Universitária.

Mas são tão sérias e esforçadas, não é? A Antonia não se

Mas apesar de tudo, gostei daqui. No geral as

LEOPOLDINA - Não creio nada. Ela não sabe usar a inteligência que tem. Fica com esse blá-blá-blá de Reformas.

MARIANGÉLICA - Esse blá-blá-blá chama-se professorado, Leopoldina, são as Leis, Diretrizes e Bases de Educação !

LEOPOLDINA (Corta) - Já sei, não vai começar de novo. É missão Santa.

MARIANGÉLICA - E foi lecionando que eu pude comprar o meu apartamento. Comprei na planta e o ano que vem está pronto. (Para Cecília que vem descendo as escadas.) É homem?

CECÍLIA - É uma menina, mas não deu pra ver direito, a janela do meu quarto também está emperrada.

LEOPOLDINA - E a Reni trabalha demais, pra nada. Fora o trabalho na Secretaria da Saúde, a Reni agora alfabetiza adultos, Carminha, sabia? E ainda dá umas aulas sei lá do que para o Francisco, marido da Joana. De graça!

CARMINHA - Mas isso é louvável. A Reni é católica?

MARIANGÉLICA - Não vai à Missa. Isso não é ser Católica, como eu,

Apostólica Romana, que confesso e comungo. Também de um verdadeiro "Coquetel Imigrante".

Reni vem

LEOPOLDINA - Mas nasceu em Belorizonte, Mariangélica. Aqui são todas moças "de bem", não tem ninguém de "cima" não, Carminha. Joana não conta, é empregada.

CARMINHA - Então posso confessar que, embora não tendo

preconceitos eu

cabeça chata eu detesto!

de-testo baiano! Não tenho preconceitos não, mas

MARIA (Forçando um "sotaque") - "o xenti", então tu detesta baiano, moça? (Todos olham para Maria, que está parada na porta, cheia de malas. Joana sai para a cozinha, á esquerda.).

MARIANGÉLICA - Você é Maria? A nova pensionista?

MARIA - A própria.

LEOPOLDINA - Eu sou Leopoldina, Maria, seja bem-vinda. Essa é a nova coleguinha de vocês, meninas.

TODAS - Oi.

CARMINHA - Desculpe-me, não quis ofendê-la.

MARIA (Ri) - Não sou baiana não. Sou de Pernambuco, Recife.

CARMINHA - Pra mim, de Minas pra cima são todos baianos.

LEOPOLDINA - Esta é a Cecília, Maria. Você vai ficar no quarto com ela.

CARMINHA - É um quarto ótimo. Fora o barulho da serra.

MARIA - Serra?

CECÍLIA - É. Do sogro da Carminha.

LEOPOLDINA - Cecília

lado do quarteirão, mas é só de dia.

Estão construindo e demolindo lá do outro

Ai, eu

já morei aí. Levou anos até conseguir conquistar, por tempo de moradia, a tranqüilidade dos quartos dos fundos.

MARIANGÉLICA - E de madrugada começam os caminhões

CECÍLIA - Mais conhecido como "O Asilo da Leopoldina".

MARIANGÉLICA - Imagine! Eu só tenho 33 anos!

LEOPOLDINA - Vamos, meninas, a Maria deve estar cansada.

CARMINHA - Tenho uns livros no quarto da Cecília. Vou tirá-los, com licença.

LEOPOLDINA - Vou ajudar Carminha, depois você pode subir.

MARIANGÉLICA - E eu vou cuidar do meu gerânio, depois conversaremos mais. (Leopoldina e Carminha sobem para o corredor. Mariângela sai para a cozinha.).

CECÍLIA - Vou ter que dividir o quarto

Você é Maria do que? Ninguém se chama só Maria.

pois é. Eu sou Maria Cecília.

MARIA - Maria da Graça.

CECÍLIA - Maria das Graças uma graça.

Ah

Que amor

Maria, teu nome é

MARIA - Obrigada. Agora tu me deixou "sem graça".

CECÍLIA - Ah

Quanto tu queres por mais "uma graça"?

MARIA - Pra você eu dou mais uma

“de graça”.

CECÍLIA - Mas quanto espírito, meu Deus do Céu se dar bem aqui.

Salvador Dalí iria

MARIA - Pois Millor Fernandes se suicidaria, e vê se não amola que eu viajei muito pra ficar nesse papo "goiabão", agora. (Deita-se no sofá, sobre uma bolsa. Pausa.).

CECÍLIA - Você deitou em cima da bolsa da Leopoldina, Saracura.

MARIA - Que é que tem Periquito? Vira travesseiro, agora.

CECÍLIA - Não é isso. Eu não tinha reparado, ela não desgruda nunca dessa bolsa e agora esqueceu a bolsa aí.

MARIA - Não me diga que tu é a ladra que toda pensão que se preze tem.

CECÍLIA - Não. Mas você, sem dúvida alguma é a retardada que toda pensão que se preze tem. Aí dentro tem a caderneta de identidade dela, por isso é que ela não desgruda.

MARIA - Ela mente a idade?

CECÍLIA - Aqui dentro todas mentem. Não percebeu como são velhas? Só a Carminha tem 19 anos, Reni e Antonia já têm uns 25, Mariangélica mais de quarenta e elas tem medo de ficarem mais velhas e não casarem. Só pensam em casar!

MARIA - E a Dona Leopoldina?

CECÍLIA (Olhando a bolsa) - Diz que depois dos 45 parou de

aniversariar

(Se atiram sobre a bolsa, abrem, procuram.).

MARIA - Mas que bagunça mais organizada, Deus! Tem tudo, aqui!

CECÍLIA - Batom vermelho. Imagine, nunca vi ela de batom!

MARIA - Ela tem bigode, não tem? Eu reparei

Um bigodão

CECÍLIA - Conta de luz identidade, nada.

Contas, contas, cadernetas

mas

a

de

MARIA - Escova de cabelo, cigarro, remédios.

CECÍLIA - Um ramo de arruda - bem que eu senti cheiro -, mas e a carteira, raios?

MARIA (Lendo um papel) - Engraçado com o do meu avô, eu acho.

CECÍLIA - O que?

Este nome aqui

Parece

MARIA - O endereço é desta casa aqui. Acho que é carta de doação, não sei, nunca vi uma. E o nome do doador é parecido com o do meu avô.

CECÍLIA - Me dá aqui! Guarda que a Mariangélica tá voltando! (Guardam tudo.) O nome do teu avô? Doando esta casa aqui?

MARIA (Ri) - Não avô. Morreu faz tempo.

Parece só, não lembro direito do nome do meu

Depois a gente fala. A Leopoldina é muito

estranha, depois eu te explico, e não vai comentar com ninguém, tá

escutando, Lampião?

CECÍLIA (Baixo) - Shiu

!

MARIA (Dá de ombros e ri) - Certo Sherloca Holmas!

MARIANGÉLICA (Entrando com um vasinho de flor e uma blusa) -

Ah

deixa usar ferro, nem tanque, nem pia. Fez um sol bonito hoje aí no quintal, mas já começou a chuviscar; São Paulo é tão traiçoeira Quando não resseca, molha (vai subindo a escada.). Vou guardar o

Custou mas secou. Ainda bem que é tergal, a Leopoldina não

meu gerânio. Dei uma podadinha nele, que na lua nova cresce feito

não pode nunca.

vai

morrendo

out, enquanto vai acendendo no quarto de Cecília. Leopoldina e Carminha juntando livros.).

(Luz caindo em resistência até o black-

cabelo. Na lua cheia incha, mas na minguante

Coisa cortada na lua minguante míngua. Míngua

míngua

e

minguando

LEOPOLDINA -

Norte. Mas nos dias de hoje, não posso ser muito exigente. (Suspiro.)

Meio minguada, mas até que é forte: gente do

Ah, quem diria, eu, Leopoldina de Almeida Bastos, Dona de pensão.

CARMINHA - A vida tem revezes, dona Leopoldina. Eu também não me imaginei nunca em pensionato, que não fosse de freiras, pelo menos. Se não fosse o Roberto

LEOPOLDINA - Ele tem razão. É bom conhecer melhor a vida antes de casar, minha querida. E esta é uma boa casa. No fundo eu gosto dela, talvez por isso, até hoje não tenha vendido.

CARMINHA - Meu sogro mandou-lhe recomendações, Dona Leopoldina. Ficou muito bem impressionado com a senhora. Achou-a muito fina e discreta. (Cecília e Maria sobem as escadas e estão agora escutando atrás da porta.).

LEOPOLDINA - Discreta, é. Detesto decotes. Mas não me iludo não,

Carminha, sei que fui ficando vulgar. Quando a gente é moça acha bonita a revolta e a irreverência e lá fui eu, jovem sinhazinha pioneira, fugida e deserdada, casando com o meu italiano fogoso e pobre, sem

os

eira nem beira, e mais feliz que nunca! (Pausa.) Mas depois "reverezes", a viuvez, a solidão

CARMINHA - A vida que me espera também não é um conto de fadas, Dona Leopoldina.

LEOPOLDINA - Vida de militar aqui no Brasil não tem sangue não,

Carminha. Você vai ser feliz. Eu, hoje até que não me queixo, com esta minha casa, que foi da minha família. Foi casa colonial, sabia?

Cada

fazenda

Álamos e Flamboyants, Semiperunas e Jacarandás circundando a

Feitoria que esta casa foi. Depois foi Casa de Engenho, de

Bandeirantes, café

minha família. Por isso, fiz questão, logo que o meu italiano enriqueceu, de comprá-la e "jogá-la" na cara dos meus que me rechaçaram!

Aqui era uma chácara linda

As moças andavam de charretes

Alamedas, flores

árvores enormes, centenárias. Ipês,

Esta casa foi tudo, ela é o próprio Brasil e a

CARMINHA - Mas tudo isso já faz tanto tempo. Devia ficar de bem com eles.

LEOPOLDINA - Jamais! É orgulho de estirpe. Prefiro até não ter dinheiro para reformar a casa e passar vexame com seu sogro

CARMINHA Imagine estado, D. Leopoldina.

Meu sogro achou a casa em excelente

MARIA (Entrando, com Cecília e as malas) - Posso ir me ajeitando?

CARMINHA - Sim, pode ir se "instalando". Espero que fique bem acomodada.

LEOPOLDINA - Vou dar uma mão para a Carminha e volto já. (Sai com Carminha.).

MARIA (Desarrumando as malas) - O-lá-lá

não

Cadê as outras pensionistas?

Até

que

não é

mau

CECÍLIA (Olhando na porta) - De férias, viajando. Mas agora tem pouca mesmo. Normalmente tem mais de 20, e duas empregadas,

mas agora

não dá em São Paulo, dá? Essa história ela conta sempre, mas se confunde às vezes. Você escutou: "reverezes", marido italiano.

(Volta, detetivesca, baixo.) Pronto, já foram. Jacarandá

MARIA - O nome do papel não é

CECÍLIA - Você disse que é do teu avô. Esta casa pode ser do teu avô. Você tem que saber certo o nome do teu avô. Não sei não, nesse mato aí tem coelho, tô sentindo um arrepio de mistério nas antenas da minha pele.

MARIA (Ri) - Tá bom, Sherloca. Minha mãe deve ligar, agora, pra saber se eu cheguei bem. Eu pergunto pra ela, pronto.

CECÍLIA - Mas não diga ninguém.

por que quer saber! Nem conte isso a

MARIA - Tu gosta de história de suspense, né? Por acaso nasceu num castelo de vampiro na Transilvânia?

CECÍLIA - Não. No Alagoas, Maria Quitéria, mas eu só nasci lá, com cinco anos já estava aqui, com uma tia. Depois, eu fui interna, e antes dos cinco morei um pouco no Amazonas, onde meus pais morreram

MARIA - Os dois? Do que?

CECÍLIA - Junto só pode ser desastre, né?

MARIA - É

novo e eu fui estudar um pouco em Salvador, alguns anos no Rio e agora eu quis São Paulo.

Meu pai também morreu cedo, logo minha mãe casou de

CECÍLIA - E a tua mãe te deixa ir indo assim pro lugar que você quer?

MARIA - Claro! Minha mãe é muito jovem, é muito linda, muito

moderna

É uma Amazona!

CECÍLIA - A minha acho que era mais assentada, minhas tias eram. Me queriam na Pedagogia do Sédis, com freiras - como a Carminha -, imagine. Ainda bem que já se foram todas.

MARIA - Eu não sei se faço Psicologia, Línguas, Sociologia, Psiquiatria, Teatro ou Física. Tu faz o quê?

CECÍLIA (Pausa) História. (Pausa.) Tem alguma religião?

MARIA - Atéia.

CECÍLIA - Eu também.

MARIA - Tu acha que as coisas estão erradas?

CECÍLIA - Sou contra tudo e contra todos. (Se olham, sorrindo, cúmplices.).

MARIA - Ai, a gente se conheceu há pouco e já é íntima! (Tira umas revistas da mala.) Vem cá. (Mostra.) Tu já viu dessas revistinhas aqui?

CECÍLIA - Que é? (Olha.) Não entendo. Que desenho é isso aí?

MARIA - Ô quadrada, não tá vendo? É gente sem roupa. Não é bárbaro?

CECÍLIA - Gente o que fazendo, Maria?

Que

é

isso

?

Que

é

que eles

estão

MARIA - Escuta, tu não tem namorado não?

CECÍLIA - Nunca tive. Só flerte. De longe.

MARIA - Tu nunca beijou, não?

CECÍLIA - É CLARO QUE NÃO!

MARIA - Mas tu já tem dezoito anos, menina!

CECÍLIA - Não vá me dizer que você, com 17, já beijou!

MARIA - Claro! Já beijei de canto de boca. De boca aberta claro que não.

CECÍLIA - Deus meu, você não sabe aonde veio parar. Não vá dizendo isso pras outras, que a Leopoldina te expulsa!

MARIA - Elas não beijam?

CECÍLIA - Imagine! Aqui são todas solteironas virgens, e as mais novas, como nós duas, tem hora pra chegar. Dez horas em casa, senão ela liga pros pais e expulsa.

MARIA - Meu Deus! Trancada! Eu! Nesta casa sem janelas! Mas isto aqui não é internato! Eu até escolhi este Pensionato, porque não tem lá, boa fama na Praça!

CECÍLIA - Falam mal daqui? Verdade? Não acredito!

MARIA - Sei não

assanhadas por este mausoléu.

Acho

que

passaram

umas

mocinhas

CECÍLIA - Ah

Só pode ser a dançarina

E deixou fama

MARIA - Tu tá por fora, nêga

meio

CECÍLIA - E tu tá por dentro demais, Messalina.

MARIA - Não exagera. Não passei do canto de boca!

MARIANGÉLICA (De baixo) - Maria! Interurbano para você!

MARIA - É a mamãe! (Sai.).

CECÍLIA - Não se esquece de perguntar do avô! Não esquece! Não

fica rodeando e

banheiro do pensionato. Reni enrolada numa toalha, sentada na banheira. Antonia, vestida, está sentada do outro lado. As duas conversam como se estivessem num sofá.).

(A luz apaga no quarto de Cecília e acende no

ANTONIA (Terminando, muito séria, firme) -

Vacilando.

RENI - Não é isso, Antonia. Eu estou chocada, ora, eu fui traída, os dois estavam namorando há muito tempo, e só hoje ele veio me falar

isso!

ANTONIA - Não acredito. São muito sérios. Quando perceberam que estavam envolvidos com o outro vieram te contar. Isso é honesto.

RENI - Sei. E eu devo passar por cima porque a Olga é "dos nossos" e

o que importa são as reuniões, a luta? Ah, não interessa! O Beto me

largou pela Olga e fim. Beto e Olga, o engenheiro e a pedagoga - bela

dupla. Quero que se danem e tudo o mais.

ANTONIA - Politicamente tu tem sido séria, mas afetivamente é muito imatura, Reni. Teu coração tá aqui, mas a cabeça está aí, em cima, o ideal, não mistura as coisas.

RENI - Ora, não mistura as coisas, logo você! O ideal, você, o Júlio Não vive me dizendo que é tudo a mesma coisa?

ANTONIA - Conosco é diferente. Viemos juntos do Sul. Já são anos de convivência, é muito maior, Reni.

RENI - Não sei por que maior. Só porque tem mais tempo que o meu?

ANTONIA - Não é só isso, e tu sabe, amiga. Quando subiu o Sputnik,

o Júlio e eu estávamos na fronteira, de mãos dadas. - "Olha aí", o Júlio falou, "outro dia mesmo, lá tinha Czar e todo mundo morria de fome. Nem cinqüenta anos, e hoje enfrenta os Estados Unidos, a Grande

Potência que explora o mundo." E eu respondi que isso estimulava

que a gente "também podia", um mundo feito de justiça. Estudamos e

trabalhamos juntos

sólido?

"a luta" - será que tu não entende o quanto isso é

RENI - E se ele te largar por outra?

ANTONIA - Não consigo imaginar. Quando se descobre, junto, a mesma fé, a gente vira um só.

RENI - Mas "e se"? Tenta imaginar. "E se"?

MARIA (Entrando) - Ah, eu estraçalhava! (Para Antonia.) Só escutei

o fim, mas Júlio é o teu homem, né? Tu parece ser gamada, moça. E o dela, como chama?

MARIANGÉLICA (Entrando, com rolo de papel higiênico e roupas)

- "Chamava". Não toca no assunto que ela não gosta. Essa é a Maria,

a nova pensionista. Posso lavar minhas calcinhas?

MARIA - Cadê a Cecília? (Começa a tirar as roupas.).

MARIANGÉLICA - Deve estar na cozinha, roubando comida antes que tranque. Já a Reni, que tanto precisava se alimentar

RENI - Ai, sacola. Vamos, Antonia? É tarde

Amanhã acordo cedo.

ANTONIA - Falta lavar esta meia. Vou dormir na minha tia hoje, meu tio viajou.

MARIANGÉLICA (Lavando calcinhas numa bacia, para Maria) -

Mocinha

Não vá me dizer que vais tomar banho na frente de todos

MARIA -

vocês não vão sair daqui já, vão?

Não pode

?

No banheiro de baixo não tem chuveiro e

MARIANGÉLICA - Não, tenho que acabar de lavar as toalhinhas pra

estar seca amanhã. Fazemos

"quase" tudo com todo mundo aqui

sim, mas costumamos fechar a cortina.

MARIA - Por isso não

(Acaba de tirar a roupa atrás da cortina.).

CECÍLIA (Entrando) - Maria!

MARIA (Grita de dentro do chuveiro) - É "O MESMO" NOME!

CARMINHA (Entrando) - Ah, todo dia a mesma coisa tomar banho.

Eu queria

CECÍLIA - Vá tomar banho no banheiro da Leopoldina. Você ela deixa.

CARMINHA - Ela está ocupando. Me dêem licença pra escovar os dentes pelo menos.

MARIA Cecília: estou aqui no chuveiro! É o mesmo nome! Escutou?

CECÍLIA - Acho que foi escutado até no pólo sul, Emilinha Borba, por que não canta agora o "Babalú"? (Para as outras.) "As banhistas", pra variar, é? De Renoir, Cézanne, Fragonard, ou hoje é "O Banho Turco" da Dominique?

MARIANGÉLICA - Que Babalú? Que nome? Que conversa é essa, Cecília?

CECÍLIA - Melhorou, Anita Garibaldi? Olha aí, Mariangélica: a Reni, coitada, o olho tão vermelho!

MARIANGÉLICA - Mas foi bom chorar, desabafou né? Não melhorou Reni?

RENI - Ai, saco. Melhorei do que? Porque não vai dormir, hein, Mariangélica? Às 7 horas tem que estar no ponto de ônibus e as oito teus aluninhos te esperam no Jardim da Infância.

MARIANGÉLICA - Estava gamada mesmo desta vez, já se esqueceu que dia é hoje? É sá-ba-do! Você acha que vou dormir agora? Vou é tomar chá na Vienense e depois vou pro Piratininga da Rua Formosa, que eu sim, sei aproveitar a vida! Tem muito viúvo lá que bota no chinelo qualquer galã da Rua Augusta!

CARMINHA - Mas não com essas horríveis toalhinhas higiênicas, Mariangélica! Que coisa mais antiga, porque não usa Modess?

MARIANGÉLICA - Aquela coisa enorme no meio das pernas? Mas nem morta!

CECÍLIA - Eu tinha certeza, viu Maria goretti? Eu tenho faro!

MARIA (Fala aos socos, no chuveiro) Mas, nada mais perguntei eu, mais nada, nada, como pediu tu.

MARIANGÉLICA - Que papo é esse? Que papo cruzado é esse, Cecília? De que falam?

CECÍLIA - Sobre a Pedra da Roseta.

MARIANGÉLICA - Não me digam que estão bêbadas. Cuidado Maria que a Cecília passa a noite lendo e bebendo caipirinha com calmante "Namuron". Não te deixes influenciar, a dançarina também bebia e

CECÍLIA (Corta. Caricata) -

qualquer um", já deu até uma Renúncia.

"E a bebida é um câncer na vida de

MARIANGÉLICA - Nem fale. Que decepção. O Jânio Quadros, tão honesto, tão simpático, condecorando o Guevara que é tão lindo, ah, ele e aquela vassourinha moralizadora dele, que pena!

CARMINHA - Era só "papo", para agradar os pobres. Meu pai falou que Getúlio Vargas era assim, que agora temos outro igualzinho aí, (para Antonia.) PTB né, "Janguista"?

ANTONIA - Quando Jânio renunciou, João Goulart

CARMINHA (Corta, irônica) - Estava na "China" não é?

ANTONIA (Sorri) - Jango era o Vice-Presidente, Carminha. Ele é, portanto, o Presidente Legal, confirmado depois em Plebiscito por maioria esmagadora. Não sou janguista, eu sou é Legalista.

MARIANGÉLICA - Eu amava era o PSD do Juscelino, com a Brasília que ele fez

CARMINHA - E que a gente está pagando até hoje não vai com a cara dele

Mesmo o Jango

MARIANGÉLICA - Não amola. O Pé-de-valsa é um ótimo bailarino! Mas mesmo assim, eu gosto mesmo é do Ademar. Nem parece só o nosso Governador. Com aquela esposa santa que ele tem, mais parece um casal de reis. Dona Leonor Mendes de Barros, ah, tão serena e boa, a mãe dos pobres, tão maternal, a Mãe das mães! Ela é o que? É UDN?

CECÍLIA - O que quer dizer "pelego", Antonia?

ANTONIA - É a manta que se põe entre a sela e o dorso do cavalo, pra facilitar a montaria. Por quê?

CECÍLIA - Ué, só pra saber, eu não sabia. Tua Amazona não falou mais nada, Santa Izildinha?

MARIA (Do chuveiro) - Não tinha nada mais a perguntar por que esse pai é pai do meu pai e não dela.

MARIANGÉLICA - Que conversa bêbada é essa?

RENI - É. Que conversa é essa?

CECÍLIA Mariangélica: me disseram que você estava dançando outro dia no Piratininga, agarradíssima com um "desquitado". Foi a Reni que falou.

RENI - Cecília, que é isso?

MARIANGÉLICA - Calúnia! Quem disse?! Infâmia! Você é que está inventando, Reni! Iconoclasta! Você sim, que quase morre por causa de um namoro tão recente. Aposto que é por que deu intimidade demais. Por isso que ele te deixou! Assim como os outros todos!

RENI - O que é que você está querendo dizer?

ANTONIA - Reni

Vamos

RENI - Não Antonia. A Mariangélica também já encheu demais. Você sim, Mariangélica, é que põe salto Luiz XV pra chegar no ombro dos homens e coloca meia no sutiã pra ficar com peitão de amassar na hora de dançar!

MARIANGÉLICA - Calúnia! Mentira! Ponho meia, só pra fazer "reguinho", que acho lindo! E você, que há meses não usa mais enchimento, pensa que eu não reparei? Por quê? Claro que é porque agora, deixa eles passarem a mão! Não fica bem apertar a mão lá e PLOFT, encontrar vazio, meia ou algodão! Vai ver até já deu!

CARMINHA (Chocada) - Mariangélica

!

MARIANGÉLICA - Não sei não

dentro, fala-se tanto em "honra", mas têm umas que não sei não

!

Fala-se tanto em virgindade aqui

CECÍLIA - Também não sei não conselhos, mas aposto que

!

Vocês, solteironas, me dão tantos

MARIA (No chuveiro, canta) - Mariangélica, a virgindade / É tabu superado / Não deu quem tem muita idade / Ou não arruma um namorado. (Todas, surpresas.).

CECÍLIA - Surpresas por quê? O Nordeste desta vez nos exportou uma cotovia.

MARIANGÉLICA - É desafio! É desafio, não é Maria? Lá no interior tinha, eu lembro. Porto Feliz, eu sei fazer, eu sei

CECÍLIA (Pensando) - A muitos eu recusei

jovem, sou um amor

(Pausa. Recita.) Sou

(desembesta.) é

(Risadas. Declama.) O Seu medo

de repente / Você toma anestesia / fecha os

E

se

até hoje

não dei

porque tenho muito medo da dor

é uma fobia / Só curada

olhos e vai em frente! (Risadas.).

ANTONIA (Professoral) - Pílula vai ser vacina / No posto dada de graça / Vai ter uma fila, menina / E o tabu vira fumaça.

MARIANGÉLICA - Pílula? Que é isso? Que horror, dá doença ruim!

CARMINHA - É isso mesmo! Pílula! A igreja vai abençoar ainda!

MARIA - Que pílula nada! Que coisa antiga! Vacina!

CECÍLIA Vacina?

TODAS - É isso mesmo! Vacina! De graça! VACINA!

RENI (Discurso) - O homem, você está errada / quer moça sem

experiência

/

pois

se

a

menina

é

escolada / percebe a sua

insuficiência.

CECÍLIA - É isso aí! É isso! (Luz caindo em resistência, enquanto elas lavam roupas, se banham, se depilam, cantam etc.).

MARIANGÉLICA - Ah, isso é! Não consegui nunca um, que me respeitasse o Pedigree!

RENI - Cabeça virgem é o que eles querem!

MARIANGÉLICA - É isso mesmo! Cabeça virgem! Cabeça! Cabaço

CECÍLIA - Mariangélica! Você disse um palavrão

!

MARIANGÉLICA - Eu não ô, ô!

!

Eu não

!

"Volare, ô, ô, cantare, ô, ô, ô,

TODAS “Nel blu di pinto di blu, Nel blu di pinto di blu, Nel blu di pinto

di blu

barulho de uma máquina de escrever.).

(Black-out. Silêncio. Tempo. No silêncio, escuta-se o

MARIANGÉLICA (Assustada, no escuro) - Que é isso?!!

CARMINHA - É a Maria. É louca. (Escuta.) À noite está na máquina.

LEOPOLDINA - Se ninguém reclamar, e se pagar a taxa de luz extra, então pode.

TODAS (No escuro) - Shiuuuuuuuuuuuuu

toque rápido e medroso de máquina. Outro, como se fosse um piano. Ninguém reclama. O barulho começa então, alegre, deslanchando. Foco de luz em Maria, num canto da sala de jantar, debaixo de uma das mesas que tem uma toalha enorme, feito tenda, e a máquina de escrever em cima de uma almofada, abafando o som. Escreve. Feliz. Black-out. Silêncio. Tempo. Música de procissão. Coro de carpideiras. Ladainha. No escuro, começa a se escutar soluços e lamentos longos. Então começa a acender a luz na sala de jantar.).

(Silêncio. Tempo. Um

QUADRO DOIS

Anoitece. Clima de enterro. Choro baixinho. Um gemido. Antonia lê jornal, Reni faz unhas, em silêncio. Leopoldina faz contas, em uma mesa. Carminha, Cecília e Mariangélica com tricô - espiam pela janela.

CARMINHA - Comunista. Foi comunista que matou.

CECÍLIA (Baixinho) -

Tem pouco movimento

MARIANGÉLICA - Que novembro mais tristonho, meu Deus

entardecer cinzento

(Soluça.).

Que

LEOPOLDINA - Está todo mundo triste, Mariangélica, mas você já chorou o dia inteiro.

MARIANGÉLICA - É que eu gostava tanto dele

tão "meninão". Ai, é duro demais Leopoldina, eu não vou esquecer nunca, NUNCA!

Tão bonito e loiro

CARMINHA - Também fiquei muito abalada. Ele era um grande homem.

MARIANGÉLICA - Um casal tão perfeito outro.

Foram feitos um para o

CARMINHA - Todo grande homem tem uma mulher assim na sua sombra, impulsionando-o. Ela é a mulher que pretendo ser.

CECÍLIA - Sei não

"muito goiabona" pro meu gosto.

Acho aquela cara dela de Gigi-Eterna-Colegial

CARMINHA - Imagine! Jacqueline Kennedy é a mulher do século! Não tem ninguém que eu admire mais! A mais digna, a mais séria, a mais americana

MARIANGÉLICA - Quem é a mais bonita? Jacqueline Kennedy ou Maria Tereza Goulart?

CARMINHA - Imagine! Que comparação! Maria Tereza, tão "falada" - os choferes, os pilotos, saindo de maiô em capa de revista uma Primeira Dama -, e ainda mais com os filhos ao lado! Jacqueline, a mais séria, a mais patriótica, uma mulher que irá dedicar o fim dos seus dias a honrar Kennedy e a sua nação.

MARIANGÉLICA - Vocês duas aí, Reni. Não tem coração ou não souberam ainda que as-sas-si-na-ram o Kennedy? Todo mundo está sofrendo! Até o Krushev! Foi uma tragédia!

CARMINHA - Foi, Antonia? Eu estou chocada, mas mesmo assim não me esqueço que o Roberto me falou que Kennedy e Jango faziam muita onda e muita média. Quem sabe agora sobe um lá mais positivo, que aconselhe o Jango a dar um jeito nesta desorganização daqui, né?

CECÍLIA - Seria bom se subisse um Átila que aconselhasse a Leopoldina a reformar este mausoléu.

ANTONIA Por que não reclama objetivamente, Cecília?

LEOPOLDINA - Ou por que não aproveitam as férias e se vão todas embora de uma vez, hein? Ou pretendem passar o Natal reclamando grudadas no meu pé?

CECÍLIA - Estou pagando! Portanto, eu a Maria passaremos o Natal e

as férias todas no Já está avisado.

cômodo que bem entendermos dentro desta casa.

RENI - Então, por favor, me dêem 5 minutos do que eu pago, sozinha no banheiro, que gostaria de maquilar-me com tranqüilidade.

MARIANGÉLICA - Vai se maquilar só pra dar aula pro Francisco da Joana?

RENI - Acho que não vou ter mais tempo de dar aula pro Chico.

LEOPOLDINA - Se vai fazer outra faculdade mesmo, não terá tempo para mais nada, Devia deixar essa bobagem de estudo e pensar em ganhar mais dinheiro, Reni, isso sim.

MARIANGÉLICA Imagine: normalista, pedagoga, e psicóloga agora. Isso é que é querer casar.

RENI - Ora, a Olga já está noiva e vai fazer também.

MARIANGÉLICA - Noiva daquele seu ex-namorado da Politécnica, o Beto, não é? Não entendo, trocam de namorados e tudo continua azul.

RENI - Me disseram que o desgraçado talvez deixe a Engenharia pela Arquitetura. O que queremos é estudar sempre, e não parar.

MARIANGÉLICA - Quem é esse seu broto novo que você não quer contar, hein? Pensa que não percebi? Quem é o Misterioso? Vão ver filme da Doris Day?

RENI - Não amola Mariangélica! Eu não estou namorando ninguém!

CARMINHA - E quem é que estava dando escândalo no portão ontem à noite?

LEOPOLDINA - Ontem? Quem? Já proibi namoros no portão!

CARMINHA - A Maria, Leopoldina. Chegou até a sentar na sarjeta com o moço.

CECÍLIA - Era só amigo dela, foram ver "Pequenos Burgueses".

CARMINHA - Pela décima vez?

MARIANGÉLICA - Antonia viu "Eles não usam Black-Tie" umas vinte. Primeira peça é assim mesmo: jamais me esquecerei da Dama das Camélias.

LEOPOLDINA - Maria vai ficar sem jantar! Tranco a porta da cozinha, quero ver se consegue abrir com arame de novo.

CARMINHA - Ah, consegue, não tenha dúvida. O que a senhora acha que ela está fazendo agora? Pichações e badernas.

LEOPOLDINA - Espero que essa fofocagem acabe logo.

CARMINHA - Não sei se é só "fofocagem" não, Leopoldina. O Rio Grande do Sul nunca teve um Governador tão despudorado.

MARIANGÉLICA - Brizola? Despudorado? Tem caso com quem?

CARMINHA - Com a anarquia e com a ilegalidade! Desapropriou a Bond and Share.

CECÍLIA - Ué. Mas não era de americano?

CARMINHA - Pois é! (Pausa.) E você não acha uma falta de educação? Pra Embaixador é que não servia nunca, não tem o mínimo "savoir-faire". O que ele fez outro dia lá no norte foi de uma falta de ética, de cavalheirismo!

CECÍLIA - Cantou a mulher do Miguel Arraes?

CARMINHA - Assim fosse! Ele chegou lá e sem mais nem menos criticou a Aliança para o Progresso, o Embaixador Americano, e xingou um General de ladrão, gorila e golpista! Imagine: um GENERAL! Todo mundo ficou chocado, perplexo mesmo. É muita falta de classe. O Roberto não se conformou. Tratar assim UM GE-NE- RAL!

Você tem razão, Carminha, um

paulista não faria isso. Só podia acontecer no norte, feito por um sulista.

MARIANGÉLICA - Que absurdo

CARMINHA - Não

aos nossos antepassados. Com eles tudo deu certo: nós progredimos. Devíamos é seguir como estava indo antes, com ordem, cada um no seu lugar, os ricos de um lado e os pobres do outro, porque sempre vão ter ricos e pobres, sempre foi assim e sempre será! (Antonia vai para o telefone.).

Temos respeito às autoridades e às tradições,

MARIANGÉLICA - Ah, não vai ligar agora, Antonia telefonema

Estou esperando

TODAS - Eu também! Eu também!

MARIANGÉLICA - Você também, Cecília? Que novidade

ANTONIA (Ri, e vai subindo) -

Só ia ligar pra tia. (sobe com Reni. Toca o telefone. Todas pulam!).

Podem ficar com o telefonema.

CECÍLIA (Atendendo) - Alô. (Pausa.) 51.3051.

MARIANGÉLICA - É homem? É homem?

CECÍLIA (Ao fone) - Um momento. (Para Carminha.) Teu sogro, de novo, Electra enviesada. Só que ele quer falar é com a Leopoldina.

LEOPOLDINA - Atendo lá em cima. (Sobe com Carminha.).

CECÍLIA - Mariangélica

MARIANGÉLICA - Shiu! Fale baixo

!

CECÍLIA - Vamos tentar? Estou tão tensa

MARIANGÉLICA - Não conte a ninguém, hein? Olha lá!

CECÍLIA - Não conto, vai! (Mariangélica se concentra e estende a mão sobre Cecília.).

MARIA (Entra, eufórica) - Cecília! CECÍLIA! (Pára, surpresa. As duas sem graça.) Católica Apostólica Romana, hein, Mariangélica?

MARIANGÉLICA - Isto é "Jorei". Coisa de japonês, mas é um passe como se fosse uma benção Cristã e não vá contar a ninguém!

MARIA - Não, prometo. Vem Cecília, vem, tenho um monte de coisa pra te falar!

MARIANGÉLICA - E eu não posso saber?

MARIA - Depois. (Sobe, com Cecília. Mariangélica sem graça.) Mas tenho uma coisa pra te dizer agora, Mariangélica.

MARIANGÉLICA (Ansiosa) - Diga

!

MARIA (Berra do alto da escada) - A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO! (Entram no quarto de Cecília.).

CECÍLIA - Ah

não! Quero saber é "Casa do Avô" Há quantas andam as tuas pesquisas?

Já sei de tudo isso, Joana Darque! Não vem

!

Não

!

MARIA Ei: você com esse "Caso da casa do meu avô", e tem coisa muito maior me preocupando, Cecília! OS GORILAS, OS GRINGOS, O TRUST DO IMPERIALISMO

CECÍLIA (Corta) - NÃO! PÁRA! Eu juro que mudo desta casa hoje mesmo, ah, mudo sim, vou arrumar minha mala já, e me mudo pro banheiro!

MARIA - Pronto, não falo mais: que é que tu quer saber?

CECÍLIA - Está claro que esta casa era do teu avô, Maria! E tu não faz nada, mas que sangue de barata, que falta de imaginação científica!

MARIA - Tá bom

pronto. Achei isso aí dentro da minha "almofada escrivaninha" quando escrevia de madrugada na cozinha.

"Sherloca". (Vai buscar um pacotinho.) Toma,

CECÍLIA (Abrindo sem surpresa) - Sal grosso

sapo amarrada com tripa de bode preto isso antes?

Pedaço de boca de

Por que não me mostrou

MARIA - Achei que não era importante, oras. No Brasil, do Arroio ao Chuí, toda quatrocentona é macumbeira.

CECÍLIA - Mas nunca vi nenhuma usar

(desenrola.) pena de pavão!

MARIA - Ah, Cecília, deixa o meu avô de lado um pouquinho, por favor, quero te contar um monte de coisas

CECÍLIA - PONTO UM! Bom, vou pesquisar. Vai, começa, que é que tu quer falar?

MARIA - O garoto mais inteligente do mundo, o mais crânio, o mais mais! A gente ficou impressionada quando conheceu ele, né? Pois ele corresponde, não decepciona não. O Carlão é DEMAIS, Cecília!

CECÍLIA - É? É

Eu pensei que ele fosse telefonar pra

pra nós.

MARIA - Ele tá em tudo quanto é lugar que eu vou, no Teatro Oficina, no Teatro de Arena, faz sociologia, mas gosta de jornalismo e me convidou pra fazer Teatro na UEE, (animada.) na União Estadual dos Estudantes, Cecília!

CECÍLIA - Tu já foi fisgada pelos comunistas e vai ser inocente útil.

MARIA - Ah, Cecília

CECÍLIA - Sou o que?

Tu é uma "pifa-pica".

MARIA - Não leu na revistinha?

CECÍLIA (Pegando a revistinha) - Ah sentido.) Ca-ra-lho.

(Lê, fala "sem entender" o

MARIA - Prefiro (também sem saber direito o que é.) "pica", por isso inventei "Pifa-pica", tu não gosta de originalidade? Mas pode rasgar a revistinha que agora tô aprendendo com o pessoal aí. Sabia que

quando eu der vai ser um ato vou dar, vou é tre-par!

"campestre"?

Quando eu der, eu não

CECÍLIA - Vai ser com esse garoto, o Carlão?

MARIA - Garoto

grossa e acolchoada dessas que quando beija afunda de tão macio;

isso não é garoto não, isso é um HOMEM!

Deve ter mais de 20 anos! Uma barbona, uma boca

CECÍLIA - Já beijou

?!

MARIA - Imagine!

CECÍLIA - Mas ficou vermelha quando perguntei.

MARIA - Bem, beijei só de boca fechada. Senti um arrepio, aí, por não sei onde, por aqui tudo, mas a gente mais é conversou. Ele é tão cheio de vida, ele é tão cheio de planos! (Pausa.) Cecília, tu não tá me escutando? (Ouve-se longe um barulhinho de serra, fininho,

longe

Baixo.) Que foi?

CECÍLIA - A serra

Começa a me incomodar

MARIA - Já demoliram uma boa parte lá do outro lado, na Paulista.

CECÍLIA - Vai, continua, tu falava do Carlão.

MARIA - Eu era muito criança, e só pensava em praia. Agora já sou adulta. (Pausa. Baixinho.) Cecília, tu sabe o que é Dialética? Tu já leu "O Capital"?

CECÍLIA - Tá louca? Mas neeem moooorta!!!! Depois desta, com licença, que vou fazer xixi. (Sai para o corredor.).

MARIA (Discursando atrás de Cecília) - Dizem que o Capital é lindo! Os Donos do Poder, os capitalistas, o Truste Ianque, gringo,

Imperialistas

pregueada, como de colegial, e senta-se elegantemente no vaso, de pernas cruzadas, como num sofá. Maria senta-se de frente,

(Banheiro do pensionato. Cecília levanta a saia

num dos cantos da banheira. Para elas é muito natural, e o papo continua como se estivessem num jardim.).

CECÍLIA (Corta) - Pára de falar clichê!!!

MARIA - Melhor do que ficar sentada sem falar nem fazer nada!

MARIANGÉLICA (Entrando) - Eh

Já se "instalaram".

CECÍLIA - Fico aqui sentada mesmo. Na minha "marquesa" predileta. Eu sou apenas uma revoltada, Maria: já me conformei que vou ser sempre só uma revoltada contra tudo e contra todos, e pronto!

MARIA - Tu, e o povão. (Teatraliza.) É ruim! (Pausa.) "Mas Deus quis

Tem que agüentar". De um lado os explorados, do outro os

exploradores. De um lado as sementes, o preto, o "sim". Do outro lado as laranjas, o branco, o "não". Não tem "senão". Sem-pre foi as-sim e

assim

sem-pre se-rá, né "Carminha"?

CECÍLIA - E daí tu chega de Alto-falante e diz pro povão que Deus mandou dizer

MARIA -

dizem! (Fala baixinho, meiga). "Sim, eu sou uma semente, sim". Deu pra escutar?

Para prestar atenção nas sementinhas e escutar o que elas

MARIANGÉLICA - Deu sim, mas é favor acabar logo com isso que eu quero usar o vaso sanitário e não consigo na frente de ninguém.

CECÍLIA - Continua, Sara Bernhardt.

MARIA - Mas daí uma voz soturna ribomba no fundo dela - "Nãããoooooooooo. Tu não é uma semente, pois eu sou uma laranja e estou dentro de você!É isso, o sim e o não, a semente e a laranja existindo ao mesmo tempo, no mesmo lugar, e, cada vez mais nervosas, debaixo da terra discutindo. "Sim, Semente", "Não, Laranja", a Contradição, SIM-NÃO-SIM-NÃO, mexendo, fazendo andar, (imita locomotiva.) cada vez mais depressa, SIM-NÃO SIM- NÃO, e mexe que mexe, e mexe que mexe, sim-não-sim-não, (apita.) piu-puiuuuuuuuuuu! Mexe que mexe e mexe que mexe, sim-não-sim-

não. Ai Cecília, eu já vi bicho trepando lá na fazenda. O sexo é dialético sim-não-sim-não-sim-não-sim-não-sim-não. Ai Cecília, sim- não-sim-não sim-não até o

CECÍLIA - Orgasmo!? Orgasmo é isso?

MARIA - PLOFFFT! Até o salto! A mudança! De qualidade! Salta pra fora da terra! Nasce!!!!!!!!

CECÍLIA (Dando de ombros) - A laranja

MARIA - A "laranjeira"! Uma terceira coisa. Toda pra fora, exibida, carregada de galhos, laranjas lindas e mil sementes! Isso é uma laranjeira!

CECÍLIA - Sei. E o explorador - mais o explorado - vai desembocar numa terceira coisa que é o comunismo e daí pára e pronto, fim. Eu não, eu vou em frente, eu não, não, não. Eu vou ser sempre o "não" da contradição!

MARIA - Claro, Cecília, claro, sempre desenvolvendo, não tem parada, nem começo e nem fim, quando a gente nasce já tem a morte dentro da vida.

MARIANGÉLICA - E quando morre então já tem vida dentro da morte? (Pausa.) Tem sim, foi assim que você explicou. Se você é materialista e acha que com a morte acaba tudo então não é dialética não. Dialética sou eu. Você é Materialista Catatônica. (Respira fundo e sai berrando pelo corredor.) GLÓRIA, GLÓRIA ALELUUUUUUUUIA! GLÓRIA, GLÓRIA ALELUUUUUUUUUIA! (Cecília e Maria vão descendo para a sala de jantar.).

CECÍLIA - Mas essa Glória aí é repressão, Musa Dadaísta! A serviço de uma minoria privilegiada! Abaixo Berkeley e viva Heráclito, Galileu, Engels e Gengis-Kahn!

MARIA - Tu tá gozando na minha cara! Tu já sabia o que é dialética!

CECÍLIA - Ah! Modismo, Palavra de Ordem e Clichês sempre me irritaram!

ANTONIA (Entra rindo) - Ah, Cecília. Tu queria, numa passeata, cada estudante gritando uma frase mais original que a outra?

CECÍLIA - Seria uma Sinfonia Inesquecível, Rosita de Luxemburgo. Principalmente se de fundo tivesse rojão, tiro e furacão, e esse povão aí que vocês tanto falam invadindo os palacetes e a Maria guilhotinando a Leopoldina com o facão na pia da cozinha, uivando como sirene com o papel de doação ao vento feito bandeira desfraldada!!!

ANTONIA - Ah, lá vem de novo com a história da casa do avô, Cecília. Os dois são homônimos.

CECÍLIA - Não são não. São a mesma pessoa! É disso que eu quero falar e vocês não deixam! O avô da Maria tinha umas propriedades em S. Paulo. A casa é do avô dela! E a Maria não faz nada! Ninguém faz nada! Aquela moça que esteve aqui outro dia, e que a Leopoldina disse que não deixou entrar porque era uma sobrinha que ela odeia, pra mim não tinha cara de sobrinha não, tinha cara mais era de vendedora.

ANTONIA - Como é que tu percebeu? Nem achei importante comentar essas "confusões" de burguesia decadente. A moça passou também na Pensão da Nádia, era vendedora do Avon.

CECÍLIA - Não disse?! (Música de suspense.) Tcham! Tcham! Tcham! Tcham! Ponto dois! Ponto Dois, Maria! Está esquentando! Se a casa é sua tu vai ter que tomar de volta o que é teu!

ANTONIA (Ri, maternalmente) - Ah, guria, você com essas criancices. Acho melhor tu te preocupar é com o pensionato, isso sim, que a Leopoldina vai subir de novo agora em dezembro.

Não é possível, cadê ela, não, nossa

Debbie Reynolds deve estar brincando, não

pega mais não, Antonia. Sou uma criancinha e você faz tudo pra eu fazer rebeldia aqui dentro! Só que pra "certas coisas" eu sou rebelde demais, né, Elite?

CECÍLIA - De noooovo? Não

tu não me

!

(Pausa.) Ah

ANTONIA - Como é que é?

CECÍLIA - No fundo tu é idêntica aos da turma da Carminha, igualzinha aos "fisgadores" do outro lado, da "De-mo-crrrrá-ti-ca". Direita fedorenta. Mas eu acho vocês aí, menos piores, só que não nasci pra bucha de canhão não. Ou tu me bota lá em cima do teu Parido Comunista, sabendo de toooooooooodos os segredos, mistérios e suspenses ou nada feito. É chato ser sabichona inútil, mas inocente útil é que não vou ser não.

ANTONIA - Boa noite (sai.).

MARIA - Que foi que te deu hoje, Cecília? Falar assim com a Antonia! Não é nada disso, ela não é do Partido

CECÍLIA (Corta, espiando pela janela) - Olha só o "jeito" dela de "profundo mistério histórico". Ah, tu tá entrando na dela, Maria, e eu não acredito em nada, nada!

MARIA - Então te manda deste mundo e deixa em paz quem quer fazer dele um lugar melhor!

CECÍLIA (Subindo as escadas, magoada) - Por isso não, é pra já. Com o caco de um vidro cortarei meu pulso, tomarei 200 comprimidos e daqui a pouco estarei na banheira, morta.

MARIA - Larga de onda, periquito, tu sabe que não devia falar assim com a Antonia. Nunca conheci uma mulher tão bacana como ela. Faz palestra em Sindicato, imagine! Ela é brilhante. É o protótipo da mulher brasileira.

CECÍLIA (Ri) - A Antonia? Ah! Assim fosse! Assim fosse, Maria. (Entra no quarto.).

JOANA (Fora) - Meu São Severino, adeus, que eu me vou/Até para o

ano, que nós viva for foi um soldado bravo

(Entra.) Morreu Severino e não se entregou/ele

MARIA - Ô Joana

Tu é devota de São Severino?

JOANA - Sou. Fiz um monte de Romaria até lá. Foi então que eu conheci o Chico, antes de ir pro Recife.

MARIA - Tu gosta mais daqui ou de lá?

JOANA Lá, o Chico tava brigando muito - coisa de Julião -, e eu não queria ver ele morto de tiro, que nem meu tio que morreu de tiro do Grandão, dono do Açude.

MARIA - Grandão?

JOANA - É. Ele matava quem não pagava. E a mãe dele mandava jogar no forno os escravos que compartilhava do leito dela.

MARIA (Assustada) - Ih! Minha família tem uma história assim, Joana. Mas essa daí é do Recife, né? A gente da minha mãe tem terra lá perto, em Limoeiro.

JOANA - Essa história é do Limoeiro.

MARIA - Ih

JOANA - Nós trabalhamos em terra de lá. Tu conhece lá a

MARIA

Pernambuco.

(Corta)

-

Não,

não

conheço

ninguém,

mal

morei

em

JOANA - Eu fiquei pouco, as crianças tava morrendo muito. Mas os cinco que vingaram, vale, são fortes. Só a Zequinha num trabalha ainda.

MARIA - Zequinha?

JOANA - Ah, essa tu ia gostar, a Zequinha, vai ficar pior que a Cecília, é o meu xodó. É pequirriquita assim, uma cabritinha empestada, num obedece. Magine, nem sabe correr direito ainda e briga pra jogar futebol. Ah, essa num casa, coitada.

MARIA - São Paulo é melhor, né Joana? Tem mais trabalho.

JOANA - Sei não. Tem trabalho, mas não tem rede.

MARIA - É hein, Joana?

(Professoral.) Mas não é romaria que vai melhorar não,

JOANA - Menina, (pausa.) agora, se pra melhorá do jeito que tamo pensando, for preciso o Chico morrer de tiro, eu juro por São Severino do Ramo que vai doer doído, vai doer de inchar, mas agora se for

preciso

(pausa.) eu crio sozinha as criança toda.

MARIA Bonito, Joana não.

Não sabia que tu gostava de falar assim

JOANA - A fala sai melhor quando tem perguntadêra. Quer perguntar mais? Num ligo de ser respondedera.

MARIA (Magoada) - Não

e tu? Não quer saber nada de mim?

JOANA - Ganha mesada

São Severino adeus que eu me vou escada, pose de vamp, cigarro na mão.).

Já sei tudo. (Sai para a cozinha.) Meu

(Cecília está no alto da

CECÍLIA - Olha, já aprendi. Quer uma tragada, ô "perguntadera"? (Vem descendo as escadas, "mulher fatal".).

MARIA - Souza Cruz, Britsh American Tobacco Trust. Imperialista Pifa-Pica!

CECÍLIA (Tossindo) - Ah! Não amola!

MARIA - Cecília

Eu vou tomar este Pensionato da Leopoldina.

CECÍLIA - Nossa! Até há pouco nem tinha certeza se era teu!

MARIA - Vou verificar isso.

CECÍLIA - Vai pro Recife falar com a sua mãe?

MARIA - Não. Minha mãe nem quer saber de nada, não se dá com a família do meu pai. Quem vai resolver este negócio sou eu mesma. Tiro da Leopoldina, ponho uma gente bem bacana aqui dentro, numa

espécie de República, de propriedade nossa, pra fazer tudo o que a gente adora. Que acha?

CECÍLIA - Pungente. (Pausa.) Vou poder ter um quarto só pra mim?

MARIA - Isso a gente vê depois. Só sei que tem uma pessoa que eu faço questão que fique bem instalada aqui com a família.

CECÍLIA - Quem.

MARIA - A Joana.

CECÍLIA - A Joana? Por quê? Ama-a tanto assim?

MARIA - Descobri agora que quem fez a riqueza da minha família lá em Pernambuco foi o suor da gente dela. Se a casa for do meu avô mesmo, a Joana é mais dona dela do que eu.

CECÍLIA - Pungente mesmo. Bem, então

Vamos lá!!!

MARIA (Susto) - Onde? Vamos onde?

CECÍLIA - No quarto da Leopoldina. Onde iríamos investigar, oras? (Cecília e Maria vão subindo- pé ante pé, olhando para os lados. "Clima".).

MARIA - No quarto dela

Tu tem certeza de que ela saiu com a Carminha?

Claro, Sherloca

No quarto dela, de cara.

CECÍLIA - Quase

quarto.) Não tem barulho, não

Shiu

escuta

(Pausa, escuta na porta do

Tu trouxe o teu araminho?

MARIA - É óbvio. (Escuta.) Não, não tem viv'alma. (abre a porta com o araminho. Entram no quarto de Leopoldina. Aparece um guarda- roupa grande colonial, e uma mesinha com telefone.).

CECÍLIA - Venha cá, essa é a extensão com a chavinha dela. A dançarina foi expulsa porque dizia que era enfermeira e a Leopoldina descobriu, por aqui, que dançava em boate.

MARIA - Os móveis até que tem gosto.

CECÍLIA (Pode pegar do chão) - Esta colcha é fina.

MARIA - O lençol também.

CECÍLIA - Mas estão encardidos! Estão encardidos! Vem, vamos

pensar juntas. Uma sinhazinha, sândalos e rendinhas Por mais dura que tenha sido a vida dela por uns tempos.

Não! Jamais!

MARIA (Entrando no guarda-roupa) - É. Água sempre tem.

CECÍLIA - É. Ponto três!

MARIA (Berra de dentro do Guarda-Roupa) - Ponto quatro!

CECÍLIA - Que foi? Que foi

?

MARIA (Saindo) - Fotos! No bolso de um casaco de pele embolorado! Duas fotos, de papel duro, olha, deve ser coisa velha.

Péra aí: é daquelas fotos de

Poços de Caldas, Maria! O casal põe a cabeça nos buracos da janela do avião pintado em papelão e fica assim, na foto, como se estivessem dentro do avião!

CECÍLIA (Olhando) - Que cabeçonas

MARIA - A mulher é ela, olha, é a Leopoldina, menos velha.

CECÍLIA - O homem parece o Rodolfo Valentino. É o seu avô?

MARIA - Meu avô tinha bigodão branco!

CECÍLIA (Olhando atrás) - "Para Pôpo, do teu Minhêu.

MARIA - Minhêu? Minhêu

Pôpo, Minhêu, Pôpo, Pôpo

CECÍLIA - Pôpo é diminutivo de Leopoldina! A dedicatória é pra ela, é claro!

MARIA - E não é MINHÊU! É MINHÁU, Cecília, Minháu, de gato. Para Pôpo, do seu Minháu, do seu bichaninho querido, dedicatória de namoro, claro!

CECÍLIA - E tu acha que naquele tempo tinha essa intimidade documentada em foto? Pois uns se conheciam até depois de casar.

MARIA - Podiam já estar casados.

CECÍLIA - E tua acha que gente casada troca fotografia chamando de Minháu, meu Minháuzinho? (Pausa - se olham.).

AS DUAS - Leopoldina tinha um amante.

CECÍLIA - Ponto cinco. Esta outra foto é dela bem mocinha. Olha bem, guarda bem, que a gente vai pesquisar para ver que tipo de mulher usava esse cabelo de triângulo.

MARIA - Pra chegar ao Ponto seis. (Ficam olhando as fotos. Blecaute. Silêncio. Começa o barulhinho de máquina de escrever. O barulho da máquina de escrever é abafado por música de Natal, de Réveillon, que é abafado por músicas de carnaval de 64 - Cabeleira do Zezé -, funde até o silêncio, e acende a luz na sala do pensionato.).

QUADRO TRÊS

Noite. Leopoldina, Carminha, Cecília e Maria jogando buraco. Mariangélica vê televisão.

CARMINHA - Me devolve hoje, Cecília! Eu te dei antes do Réveillon de 63, já estamos em março de 64! Minha mãe está uma onça comigo!

MARIANGÉLICA - As minhas também, dei antes do Natal! Afinal o que é que as duas querem com as nossas sagradas fotos de família?

CECÍLIA - Comparar com as minhas, ora. Não são nada parecidas, mesmo, né, Maria?

MARIA - Não. Acho que ela era vulgar mesmo.

CARMINHA - Favor devolver as fotos de uma vez!

LEOPOLDINA - Querem fazer a "gentileza" de jogar, meninas?

CECÍLIA - Se tu olhar direito pro teu jogo tem uma "tia Agamercinda" goiabona, tua, entre dois valetes.

MARIA - E o resto está lá, no "Morto".

CECÍLIA - Ponto seis!!!

CARMINHA - Ah! Haja paciência! (Separa as fotos.) Por isso é que a USP só deu bomba este ano.

MARIA - Quem levou bomba?

CARMINHA - E cadê o teu baile de calouro? Cadê as festas de Formatura?

CECÍLIA - Ó eterna debutante

MARIANGÉLICA (Pega as fotos e volta para a TV) - Iconoclastas Deixar os meus "Mendonça de Morais" no morto

LEOPOLDINA - Abaixa essa TV que está atrapalhando o jogo!

MARIANGÉLICA - Vou ter que mudar desta casa, mesmo, não

adianta, não tenho direito de fazer NADA aqui dentro fazer Retiro de novo.

Amanhã vou

CARMINHA - Ah, belo Retiro Espiritual você fez no carnaval. No terceiro dia caiu no samba lá no Piratininga.

MARIANGÉLICA - Pode estar certa que me comportei melhor do que você que só bolinou o Carnaval inteiro. Bonito o Simca do Roberto, hein? Vocês foram ao "drive - in"?

CARMINHA - Eu estou noiva, Mariangélica, e antes tivesse noivado de verdade mesmo. Roberto anda tão irritado que mal me pegou na mão.

LEOPOLDINA - E tu ficou com a "perseguida" tocando castanhola?

CARMINHA - O

que?

MARIA - Quer prestar atenção, Cecília

CECÍLIA - Mas pode ter certeza que o teu galã põe bem mais que a mão nas raparigas de Campo Grande, não devia estar irritado.

CARMINHA - Não admito essas brincadeiras baixas! Não é o Roberto que está irritado, não é só ele, é todo mundo! Meu pai, meus tios, está todo mundo reclamando!

MARIANGÉLICA (Alheia, vendo TV) - Quem reclamou do que e quando? (Joana entra, varrendo.).

MARIA - As indústrias, o Comércio, os Bancos, Mariangélica agitado que reina no torrão nosso incomoda um pouco eles

O clima

CARMINHA - Não seja irônica! O Comício do Jango, dia 13 agora, no Rio, foi um acidente! O país precisa de Ordem, e não da SUPRA, não de reformas.

JOANA - Se os chefes da Comissão do Trabalhador reuniram pra discutir Reforma é que tem que ter mesmo.

CARMINHA - Ora, quem é você sua enxerida? Imagine: CGT só! Um serpentário de Comunistas!

veja

CECÍLIA - Claro que tu não quer gente bacana nos Sindicatos! Quer é pelegos amaciando a montaria pro matador!

JOANA - O meu Chico já fez um monte de tijolo na vida dele e nós mora em casa de barro. Isso não tá certo não.

CARMINHA - Não se mete! Ora! O que faz ainda aqui?

JOANA - Quero ver o Clube dos Artistas. A televisão da minha vizinha quebrou.

MARIANGÉLICA - O Francisco voltou hoje a ter aulas com a Reni, né? Ela pôs suéter novo, aposto que depois tinha um encontro com o Misterioso.

MARIA - Se os filhos estão com a vizinha, então senta aí, Joana, e vê televisão.

CARMINHA Isso: senta aqui com a gente, uma empregada, e vê televisão, porque se entrar política só você vai entender mesmo o que o Jango fala. Jango fala "pro povo", fala bonito pra ralé, como se o Roberto, o meu sogro - como se a gente não fosse nada.

LEOPOLDINA - Quer prestar atenção no jogo, Carminha? Estão vendo suas cartas.

MARIA - Mas pra teu sogro o Jango deu um presente tão lindo de Réveillon, A lei sobre o Capital Estrangeiro, não foi um presentão?

CARMINHA - Não seja irônica! Os de fora não podem levar mais do que 10% do que põe aqui, isso é um absurdo, é um disparate! É um

LEOPOLDINA (Corta) - Carminha! É a sua vez!

MARIANGÉLICA (Alheia, na TV) - É verdade que os comunistas vão repartir o país em fatias pra eles, como se fosse um bolo?

CARMINHA - Dividir terras: imagine

MARIA (Irritada) - Será que tu não entende que tem que ser assim, Carminha? Tá na cara! Não tem outro jeito! Tem que começar a distribuir com justiça as terras! Reforma agrária! Não tem outro jeito!

CARMINHA - Mas que reforma agrária, o que é isso? Distribuir terra! Imagine! Pergunta pro Jango se ele distribui as dele! Imagine! Logo de cara, a nossa terra, mas onde estamos!

LEOPOLDINA Carminha: jogue!

CARMINHA - A terra está no nosso sangue! Há quatrocentos anos,

que a terra virou raiz e a raiz virou a nossa gente! Não vamos agora, em quatro dias, arrancar com raiz e tudo o mais fundo da nossa alma

e da nossa estirpe, pra distribuir para um bando de aventureiros!

MARIA - Aventureiros fomos nós nos quatrocentos, nos dois milênios, todos, Carminha! "Estirpe", ora, tenho bisavô que foi herói e bandido junto com os teus, que por sua vez devem ter deixado filho mulato lá pelo nordeste, que devem ter sido os bisavôs da Joana; nós todas aqui somos farinha do mesmo saco, de terra fecunda na escravidão no roubo e na exploração! Será que tu não entende que isso é injusto, que isso é injusto e que não dá mais pé?!

CECÍLIA - Afinal de contas vamos jogar ou não? Ou se resolve agora

o futuro do Brasil ou jogamos buraco, os dois juntos não dá pra fazer.

CARMINHA - Não vejo a hora de ir pra minha tia, não vejo a hora de me casar

CECÍLIA - Tu vai casar de coroa ou de cocar, hein Bartira?

MARIA - O padrinho vai ser o Inspetor-de-Colonias Gordon ou o cortador-de-cabeças Walters?

CECÍLIA - A tanga vai ser do Clodovil ou do Denner?

MARIA - Cuidado que o Denner costura para a Maria Teresa Goulart,

viu?

CARMINHA - Bem disse o Clodovil que não quer ser costureiro do governo porque é um posto muito instável.

MARIA - Ah, é, nêga? Tu acha que os Goulart estão instáveis? Então

o gringo aí é especialista em degolamento mesmo?

CECÍLIA - Mesmo que seja, para a costura tudo bem. O Denner respondeu que sai governo, entra governo, as elegantes continuam. (Reni entra depressa, não fala com ninguém, sobe as escadas, segurando choro.).

CECÍLIA - Nossa

que cara

MARIANGÉLICA - Será que levou o fora do Misterioso? Coitada Acho que vou lá

LEOPOLDINA - Canastra.

CECÍLIA Ah Não! Eu vi, tu roubou, Leopoldina, eu vi!

LEOPOLDINA - Não vai começar de novo, Cecília!

CARMINHA - Bati.

MARIA - Ela roubou! Eu vi pegar uma carta do colo! Eu vi!

CECÍLIA - Canastra com seis cartas e uma foto do sogro dela!

LEOPOLDINA - Ora, larga de ser ridícula, Maria! Tão aí, sete cartas.

CECÍLIA - A Carminha passou por baixo da mesa, eu vi!

LEOPOLDINA - Carminha mal sabe jogar, imagine se vai saber roubar!

MARIA - Ganharam roubando de novo! Depois jogamos outra partida que agora estou atrasada. (Sobe, com Cecília.).

CARMINHA (Embaralhando cartas como profissional) - Porque não jogamos agora mesmo, Maria?

CECÍLIA - Olha lá é?

o "estilo" dela

Foram as férias que te afiaram,

MARIA - Se eu não estivesse atrasada tu ia ver, bandida! (Entram no quarto.).

LEOPOLDINA - Não quer jogar, Mariangélica? Joana?

CARMINHA (Ofendida) - Joana

?

JOANA - Não sei jogar.

MARIANGÉLICA - Acho que vou ver o que é que a coitadinha da Reni tem

LEOPOLDINA

pensionato.).

Quê?

Deixa

a

Reni

em

(Banheiro

do

RENI -

errada mesmo

Paz! Me deixa chorar em paz! Não adianta Antonia, sou toda

ANTONIA - Mas Reni, se apaixonar justo pelo Francisco da Joana

RENI Por isso parei com as aulas. Mas não agüentei e procurei ele

de novo

Ele é operário, tão saudável, tão sensual

ANTONIA - E honesto.

RENI - Rudeza não é honestidade. Poderia ter dito de outra forma

mais delicada

que não quer, mesmo, saber de mim

ANTONIA - Tu devia ter me contado antes. Não te deixaria chegar a esse ponto.

RENI - É que nós duas estamos tão distantes

ANTONIA - Tu mudou muito, não Reni? Tu escolheu.

RENI - Eu não mudei nada, essa é que é a verdade. Eu estava só procurando o meu caminho, e não o seu. Mas não estou nada feliz com essa descoberta. (Mariangélica escuta um tempo atrás da porta.).

ANTONIA - Pois eu nunca estive tão confiante e tão feliz. Ah, Reni, que pena que o seu individualismo

RENI (corta) - Não posso resolver os problemas do mundo se os

meus não estão resolvidos. Eu tenho uma história particular minha, Antonia, de ter que casar, de querer fazer sexo sem culpa, e pra isso eu só encontro "Chefes" pela frente me respondendo: "faz Revolução"! Só que até a Revolução acontecer, os meus problemas já me engoliram, todos! Se for pra ser uma secretária neurótica dos homens de um mundo que nem sei se vem ou não, prefiro então ser secretária em benefício de mim mesma nesse mundo que tá aí. Eu puxei ao meu pai: a minha cabeça pensa que nem a dele. Não entendo porque fiquei até agora marcando passo e contando níqueis, feito a pastódia da minha mãe e essa mulherada imbecil daqui que eu detesto! Eu vou estudar muita psicologia sim, Antonia, e quanto, mas para aplicá-la num emprego que dê futuro. Amanhã mesmo começo a procurar,

(Apaga a

amanhã mesmo, eu juro! O começo pode ser difícil, mas luz no banheiro e acende na sala do pensionato.).

CARMINHA (Berrando) - Nem bem começou já aprendeu a roubar! Não é possível! Não é possível!

JOANA - Eu num sabia

foi sem querer

MARIANGÉLICA (Chega correndo e senta-se) - Foi sorte de principiante, coitada. Não foi má fé.

CARMINHA - Ah! Conheço bem essa gentinha! Assim não dá, assim não dá, como é que eu posso ganhar um jogo se essa aí, sem saber jogar, já recebe de cara uma canastra pronta! Como é que vai se conseguir botar ordem num país se nem numa mesa de jogo inocente se consegue que as pessoas fiquem "sen-ta-das"?

MARIANGÉLICA - Só fui espiar a coitadinha da Reni. Vamos, de quem é a vez?

JOANA - Num era eu agora?

CARMINHA - Eu que dou as cartas e pronto! (Embaralha, profissionalmente.) Ora essa, sem disciplina não tem nada mesmo, bem diz o Roberto: tem é que botar todo mundo no cabresto, fazer uma limpeza geral nessa agitação aí que turva o país, começando por

quem faz greves. Limpar das fábricas os operários que fazem greves, como o teu Francisco, escutou Joana?

JOANA - E como é que faz pra reclamar?

CARMINHA - Não tem que reclamar. Tem é que trabalhar! Greve é um pequeno grupo "impondo" a sua vontade à maioria que quer trabalhar. É, portanto, uma pequena ditadura, de minoria. E ditadura é ilegal. Greve, portanto, é ilegal pronto.

CECÍLIA (De cima) - Já sabemos o que é legal para vocês, Hitler! (Entra no quarto. Toca a campainha, Joana levanta-se para atender.).

CARMINHA (Berra) - Ora, cale-se você aí em cima! (Apaga a luz na sala e acende no quarto de Cecília.).

CECÍLIA - Olha lá, Maria, ela tá histérica!

MARIA - Desculpa, mas agora tô n'outro clima. Me empresta tua tiracolo?

CECÍLIA - Pega, Maja Desnuda. Calcinha nova, hein? Biquíni tem cuidado muito da roupa de baixo ultimamente.

Tu

MARIA - Pô, Cecília, pois tá até com o elástico bambo, o que é que tu tá querendo dizer?

CECÍLIA - Não tem mais contado do namoro

MARIA - Beijei de língua faz tanto tempo, pronto. (Pausa.) Tentou passar mão no seio, mas eu não deixei.

CECÍLIA - Tem certeza

? Nem usa mais sutiã

MARIA - Não vou encontrar o Carlão pra namorar, mas que mania a sua! Vou pra Maria Antonia, vou pra Fa-cul-da-de. Vamos? Tá uma animação. O bigodudo da FAU, amigo do que toca bonito, do Chico Buarque, te telefonou tanto, porque não vai mais, Cecília? Que bicho

foi que te mordeu, hein, menina? (Maria vai passar a mão na cabeça de Cecília, Cecília quase grita.).

CECÍLIA - Não! (Pausa.) Desculpa, detesto que me peguem aí.

MARIA - Doeu? Tá machucando aí?

CECÍLIA - Não é nada! Machuquei faz tempo!

MARIA - Mas tá feio, Cecília, eu vi. O que foi isso?

CECÍLIA - Ah, faz tempo, Maria, nem lembro mais. Eu tinha uns 4 ou 5 anos.

MARIA - Como é que eu nunca vi? É que tu tá sempre de cabelos soltos.

CECÍLIA - Foi uma bobagem

debaixo de um pé de manga, brincando com um menino. Ele escutava o meu coração. Daí meu pai chegou e me levou pra casa, esquentou uma colher, me levantou os cachos, apertou aquela colher fervendo no meu pescoço e falou - "isso é pra você não se esquecer nunca que é uma "Meirelles".” Pronto. Foi isso.

(Ri, tentando achar graça.) Eu estava

MARIA - Nossa

CECÍLIA - Tinha.

Seu pai tinha criação de gado?

MARIA - Nossa

daí que a minha me mandou interna.

(Pausa.) Meu padrasto tentou me agarrar um dia,

CECÍLIA - Nossa

Tu já teve outra amiga antes de mim?

MARIA - Só fingia que tinha. Mas de verdade mesmo, meu único amigo de infância foi um coqueiro. Sempre me senti fora de tudo!

CECÍLIA - Eu também. De outro planeta.

MARIA - Nesse coqueiro, Cecília, eu tive o primeiro dia mais feliz da minha vida. Tive três dias felizes na minha vida, esse foi o primeiro. Eu

estava vendo o mar e de repente senti que toda aquela natureza - e eu -, era como se fosse uma coisa só. Era como se a gente, junto

(Pausa.) É

era como se a gente fosse um Deus.

MARIANGÉLICA (De fora) - Homens! Homens! Entrou um homem no pensionato, (entra correndo.) meninas! Tem uns homens ai procurando a Antonia! Estão na varanda com a Leopoldina, mas acho que vão entrar! No pensionato!

MARIA - Que homens?

MARIANGÉLICA - Não sei. Uns homens. Três. (Espia pela janela.) O carro é escuro, mas eu não conheço a marca. (Pausa. Esperam. Mariangélica sai pé ante pé. Espia no corredor. Volta. Baixo.) Entraram! Entraram no Pensionato! Na sala! É Histórico! Homens no Pensionato! Estão lá em baixo, e a Antonia também !

MARIA - Vai lá espiar, Mariangélica, vai!

MARIANGÉLICA - Eu? Eu tenho medo! Não conheço eles!

MARIA - E a Leopoldina?

MARIANGÉLICA - Subiu pro quarto dela.

MARIA - Pro quarto dela

vai pra sala, pé ante pé. E escuta pra saber quem são.

O estranho quarto dela

Vai, Mariangélica,

MARIANGÉLICA (Saindo) - Tenho medo

homens aqui dentro do Pensionato

(Sai.).

Nem sei como falar com

MARIA - DOPS.

CECÍLIA - DOPS! As tuas apostilas?!

MARIA - Aqui. Vem

CECÍLIA - Ai, Deus

Onde pomos?

Debaixo do travesseiro?

MARIA - E porque não na sala, em cima da televisão? Vem, pega os livros, pela janela. Vai, tudo.

CECÍLIA - Pela janela? Tá enguiçada!

MARIA - Aqui! Dá pra abrir um pouco sim! Vai! Espreme!

CECÍLIA - Ué! Até que abriu!

MARIA - Lá em baixo só tem lixo! Joga! (Jogam papelada pela fresta da janela.).

CECÍLIA - Tu não tá exagerando um pouco? Precipitando?

MARIA - O Carlão já enterrou arma no quintal da pensão dele. Depois desenterrou, mas nunca é bom facilitar.

CECÍLIA - O Carlão tá no PC?

MARIA - Não sei. Acho que é POLOP. OU AP, Não sei. Já disse.

CECÍLIA - Olha esses santinhos aí da Mariangélica! Não é bom deixar eles à vista?

MARIA - Excelente! Isso: bota Santos Espalhado!

CECÍLIA

SUBVERSÃO".

(Lendo

um

livrinho)

-

"UNE

INSTRUMENTO

DE

MARIA - Maravilhoso! Põe bem na vista!

CECÍLIA - Ai, bárbaro! (Olha pela janela.) Nossa! Quase que eles viram! Estão lá na frente agora! Na área!

MARIA - Ai! O Guevara!

CECÍLIA - Não

cuidado. (Maria, triste, olha Cecília. Depois amassa o Guevara. Cecília abaixa a cabeça.).

O Guevara não. Põe debaixo da cama, só com

!

CECÍLIA - O que é que eles querem com ela, Maria?

MARIA (Queimando o Guevara amassado) - Não sei. Mas ela me contou que o Júlio - um dia -, eles queimaram todo o braço dele com toco de cigarro.

CECÍLIA (Se encolhe) - Ai

Queimaram

?

Quando foi isso?

MARIA - Ah, faz muito tempo. Anos.

CECÍLIA - Mas hoje em dia essas coisas não acontecem mais.

MARIA - Não. (Olham pela janela.) Saíram, num carro grande.

CECÍLIA - E nem vieram aqui?

MARIA - Ainda bem, né?

CECÍLIA - Depois que a gente "enfeitou" o quarto inteiro

MARIA - Graças a Deus, né, Cecília?

CECÍLIA - E tivemos que mutilar todo o meu Guevara por nada! (Pausa. Maria pensativa.) Tu vai ligar pro Carlão?

MARIA - Não. Nada de telefone. (Olha no relógio.) É esperar.

CECÍLIA - Vamos lá falar com a RenI! Vamos nos juntar às outras!

MARIA - Não, quieta! (Olha o relógio.) Por enquanto, é esperar.

(Grande silêncio. A luz vai apagando no

quarto de Maria e Cecília, quietas, esperando. Acende lentamente a luz na sala. Joana, sentada, quieta, esperando. Apaga na sala e acende no quarto de Leopoldina. Leopoldina, Carminha, e Mariangélica, quietas esperando. Apaga no quarto de Leopoldina e acende na escada e no quarto de Maria e Cecília, quietas, esperando. O clima é de sala de espera de hospital, silêncio. Espera de notícia de morte.).

CECÍLIA - Esperar

SEGUNDO ATO

Acende a luz no quarto de Leopoldina, vazio. Acende na escada, vazia. Apaga, e fica aceso só o quarto de Cecília.

CECÍLIA - Não agüento mais. Parece que faz um ano que estamos aqui. Faz alguma coisa.

MARIA - Nada. Por enquanto é esperar. (Silêncio. Toca o telefone, em baixo. Sobressalto das duas. Tempo.).

MARIANGÉLICA (Fora) - Não foi nada! Não foi nada! Ai, graças ao

Era a polícia

sim, mas foi só um mal entendido. Se a tia ligar, foi só um aluno que

ela reprovou que caluniou ela lá no DOPS. E Entraram homens no pensionato. O pensionato foi desvirginado, né, Cecília?

meu bom Deus, não foi nada. (Entra.) Era a Antonia

MARIA - E a Leopoldina?

MARIANGÉLICA - Saiu com a Carminha. Coitada, levou um susto Não vão contar a ninguém, viu? Senão o pensionato fica falado. Não vão comentar com ninguém! Nun-ca! Vou acalmar a Reni. (Sai.).

CECÍLIA - E agora? Tu vai ligar pro Carlão?

MARIA - Não. Vem cá. (As duas saem para o corredor, que está vazio. Silêncio. Começa o barulhinho da serra, longe, fininho.).

CECÍLIA (Baixo) - Escuta

de

Leopoldina.) Pensei até na Reni. Mas Antonia nunca roubou namorado da Reni. Quem dedou Antonia foi Leopoldina mesmo.

MARIA - Até de noite

(Escutam

e

entram

no

quarto

CECÍLIA - Se a Antonia tem mesmo coisa séria demais pra esconder, ela não vai falar pelo telefone. Sabe muito bem quando Leopoldina tá na extensão.

MARIA - Posso estar sendo um pouco exagerada

um tio solteirão, no Rio, que

mas

Eu tenho

(Fica olhando o guarda roupa.).

CECÍLIA - Dá bem no espelho do banheiro

MARIA (Joga uma bolsinha pra Cecília) - Leva essa bolsinha cafona aí pra gente ver, porque essa senhora, definitivamente, é muito esquisita.

CECÍLIA (Pegando a bolsinha) - Definitivamente. Bolsa vulgar. (Abre a bolsinha, pega um cartão e lê.) Maria! Ponto sete! Ponto sete! (Maria joga um monte de roupas para fora do guarda-roupa e faz barulho de afastar alguma coisa, que sai do guarda-roupa.).

MARIA Cecília: veja! É o que eu pensei! Igualzinho o do meu tio! Veja!!!

CECÍLIA (Olhando surpresa) - O banheiro!

O banheiro! Estou vendo o

MARIA - Como é que eu ia imaginar? Num pensionato! Isso e coisa de garçoniére. (As duas entram e saem do guarda-roupa.).

CECÍLIA (Fascinada) - Isso aí que tô vendo é o nosso banheiro mesmo? Eu tô vendo daqui?

MARIA - Exatamente. E lá no banheiro, isso é o espelho. Um espelho especial. De lá não se vê aqui. Mas daqui, é só afastar esta madeira e pronto, o espelho é transparente e Leopoldina nos vê, a todas e nos escuta; por essa ventilação aí.

CECÍLIA - É fantástico! Se eu conto, ninguém acredita!

MARIA - Dedou Antonia. Não é brincadeira, Cecília, não é não.

CECÍLIA (Medo) - Ponto oito

uma revista de crime e sangue

cantando mansamente o começo de "Carcará".).

Tô com medo do Ponto 9

"X-9" é

(Blecaute. Entra Nara leão

QUADRO QUATRO

Banheiro do pensionato. A luz do dia tenta passar pelo vitrô velho. Maria, sentada na banheira, Carminha se maquiando no espelho.

MARIA (Terminando) -

E

você

se

lambuzando

de

Coty,

Sanguessuga! Vamos, responde!

 

CARMINHA (Passando rímel no olho) - Não adianta Maria

Mudo-

me amanhã. Já estamos em 19 de março, estou "em cima" do meu casamento, não tenho mais nada a ver com os problemas do pensionato.

MARIA - Mas hoje tu ainda mora aqui, a Leopoldina vai subir de novo, tu é pensionista e tem que achar ruim junto com a gente. Tu só tem 19 anos, com essa idade a gente é muito mais a Zequinha da Joana do que o nosso passado, Carminha. Tu não pode ser uma reacionária!

CARMINHA - Eu sou uma revolucionária!!! Eu quero que mude essa baderna de Governo sim, você que é a favor, é que é a reacionária que atrapalha os patriotas que querem um Brasil livre e grande!

MARIA - Livre e grande dos americanos, isso sim! Nós somos a ação contra isso, a Revolução! De um Brasil vendido para os Gringos!

CARMINHA - Mesmo que fosse assim, melhor que os teus Ianques que só sugam sem dar nada!

CARMINHA - Então vai lá pra Rússia, vai! Vai lá ver de perto, o que é bom! Pergunta pra Antonia, ela deve saber, pergunta de onde é aquele lencinho de florzinha polonês que o Julio trouxe pra ela!

MARIA - Não me interessa lá, quero ver é aqui! Mas que boba sou, como se você escutasse, tu já não é mais nem ingênua, Carminha. Tu já é gringuinha imperialista vendida pra Trust, CCC, Comando de Caça a Comunista, CCC, você, GAP, CCC!

CARMINHA - Não permito que fale assim comigo! Nem sei quais são esses grupos de defesa que você está falando! Mas sei muito bem o que é a União Nacional dos Estudantes, um grande pênis comunista das meninas da USP. E disso, da UNE, estou desligada mesmo! É ilícito: estudante tem que estudar e não badernar!

MARIA - Tu não tem mesmo idéia própria, tu só repete o que teu sogro diz. Carminha, se o teu sogro é Americano Sanguessuga, tu vem desta terra aqui que tu fala tanto e não pode ir se vendendo assim, pra outro país

CARMINHA (Corta) - Mas que país, Maria, mas que país, você é que não entende nada de nada. Os Estados Unidos não são mais um simples país! É uma coisa nova e enorme, maravilhosa, que transcende as fronteiras e vai ultrapassar a linha mesquinha circular da terra!!!

MARIA - Que coisa horrível você está falando! Porque quem alimenta esse monstro é o sangue nosso! O sangue nosso!

CARMINHA - O monstro é o Comunismo - e não os Americanos! - que já pousou suas patas aqui e está proliferando Na Petrobrás, na Rede Ferroviária, nos Portos. É só foice e martelo por tudo quanto é lado. Vão fazer mesmo disto aqui uma nova Cuba: o povo nas ruas exigindo, descaradamente, reformas, e ninguém faz nada!

MARIA - Se o povo é que está pedindo é porque precisa mesmo! Tu mesmo justificou, Carminha.

CECÍLIA (Entra) - Carminha aderiu?

MARIA - Está apavorada aí com a ameaça de mudanças.

CARMINHA - Ainda mais no pensionato! Imagine!

MARIA - Mas as outras vão aderir! Esta casa vai ser nossa!

MARIANGÉLICA (Fora) - Quem roubou meu papel higiêêêêênico? Quem roubou meu papel higiênico? (As três saem para o corredor.

Pausa.) Que greves de novo? É verdade tudo o que a Cecília me contou? É mentira! É maldade delas!

MARIA - Mariangélica, tu queres um canteirinho pra você lá no quintal? (Vão descendo para a sala do pensionato.).

MARIANGÉLICA - Eu quero! Eu quero! Vou plantar cereais, gerânios e margaridas, mas que bobagem é essa? (Joana entra.).

CECÍLIA - E a Joana cozinha só no domingo, que nos outros dias a gente escala outras.

MARIA - E traz o Chico e os filhos todos.

RENI (Entrando, com Antonia) - Que tem o Chico?

MARIA - O papel de doação da casa: estamos sabendo.

MARIA - Pois bem: meu avô era beberrão, mulherengo, mas muito sovina. Ele jamais doaria nada. Esta casa foi tirada dele, pela Leopoldina.

CECÍLIA - Fora tudo que falei, nós ainda achamos esta bolsinha cafonérrima, com um cartão dentro.

MARIA - Da "Boate Paraíso Azul".

CECÍLIA - A dançarina acho que falou de um lupanar famoso com esse nome em Campo Grande.

RENI - Que mais?

MARIA - Não sabemos mais nada. Só isso. E não temos provas.

CECÍLIA - A gente quer que vocês ajudem ela a "confessar". É só ir cutucando que ela explode e fala tudo.

MARIA - Daí eu gravo aqui neste gravador (mostra o gravador.) e levo pra um advogado.

RENI (Ri) - E como vamos fazê-la falar?

MARIA - Bom

cutícula da unha dela

A Cecília queria começar ameaçando de tirar a

CECÍLIA - Mentira! Não sou tão infantil assim! Trouxe a minha pinça

Inicio pela sobrancelha esquerda bigodinho dela

pelinho

vou descendo pelo

MARIANGÉLICA - Não! Coitada! Ela tem horror! Ela é tão peluda

MARIA - Não é nada disso. Vai ser Freudiano. Deixem comigo e com a Cecília. Só nos reforcem.

ANTONIA Maria: não somos empregados, mas sim pensionistas

CECÍLIA (Corta) - Não se intrometa! Em Pensionato, é assim que se faz levante!

MARIANGÉLICA - Ah, não coitadinha da Leopoldina

não

Vou lavar as mãos

(Vai saindo.).

Eu não quero

CECÍLIA (Olhando Mariangélica) - Ela não tá espiando o banheiro lá do guarda-roupa não, Maria?

MARIA - Não. Tá no quintal.

MARIANGÉLICA - Ah todo esse tempo nua

Isso eu não vou perdoar Jamais! Me vendo

Ai

que arrepio

que vergonha

CECÍLIA - É ela. Está chegando! (Maria liga o gravador, depressa, e põe uma blusa em cima dele. Leopoldina entra. Silêncio total.).

LEOPOLDINA - Que é isso? Complô?

MARIA - Na mosca. Queremos todas falar com você.

LEOPOLDINA (Tédio) - Bom, vamos lá

A comida tá ruim

CECÍLIA - Outra empregada pra ajudar a Joana. (Carminha vai saindo para o quarto de Leopoldina.).

MARIA - Aumento pra ela, folgas e férias remuneradas.

RENI - Outro banheiro, com chuveiro que preste.

CECÍLIA - Conserto de janelas.

MARIA - Chave da rua pra mim e pra Cecília. Somos responsáveis.

CECÍLIA - E tu deu pra Carminha. E chave da cozinha.

ANTONIA - Chave no telefone de baixo. Temos direito à nossa privacidade.

CECÍLIA - E não agüentamos ver só mulher dentro deste mausoléu, né, Mariangélica?

MARIANGÉLICA - Ah Leopoldina, isso não tem sentido, elas todas têm razão! Não tem cabimento não poder receber homem aqui. Aqueles dois alunos da Antonia foram históricos, mas não valeram. Quero que entre Homem de verdade aqui. Ho-mem. (Pausa.).

MARIA - E chave da Rua pra Joana. (Pausa.).

LEOPOLDINA (Muito tranqüila) - Que mais?

MARIA - Cada uma já procurou um lugar. Se tu não concorda, hoje mesmo saímos todas.

LEOPOLDINA - A porta da rua é serventia da casa. (Surpresa. Pausa.).

MARIA - Muito bem. Eu vou morar na casa da Pôpo. E tu, Cecília?

CECÍLIA - Cansei do Pensionato. Vou pra Pensão do Minhau.

MARIA - Minhau? Ah, sei, aquele horroroso de cabelo de Glostora que tenta imitar o Rodolfo Valentino?

LEOPOLDINA - Ora, suas sirigaitas

CECÍLIA - É. De Poços de Caldas. Que antes era fotógrafo e tirava aquelas fotos de papelão.

MARIA - Com duas caronas no avião? Conheço. Eu já vi uma foto assim.

LEOPOLDINA - Ora, suas bandoleiras!

MARIA - Bandoleira? Mariangélica palavra: bandoleira?

Uma quatrocentona usa essa

MARIANGÉLICA - Não não.

Sirigaita pode ser. Mas bandoleira acho que

LEOPOLDINA - Suas bandoleiras safadas

CECÍLIA - E safadas?

MARIANGÉLICA - Bom, depende

LEOPOLDINA - Escute aqui suas vaquinhas

MARIA - E vaquinhas?

LEOPOLDINA - Suas putinhas!

CECÍLIA - E putinhas?

MARIA - Só na "Boate Paraíso Azul".

LEOPOLDINA - Se pensam que gozam na minha cara estão muito

enganadas suas cadelinhas rampeiras! (Pára.) Não admito que tratem

dessa forma coisas que me são

(Toca o telefone.).

MARIA - Coisas que me são

?

LEOPOLDINA - Caras! É isso mesmo! E odiadas. Não sabem de nada essas duas galinhas, porque a Boate Paraíso Azul

CARMINHA (Desce a escada, correndo) - Mariangélica! Mariangélica! Telefone para você! Da parte de Dona Leonor Mendes de Barros!

MARIANGÉLICA - Queeeeem?

CARMINHA - Da parte de Dona Leonor! Querem falar com você, Mariangélica!

MARIANGÉLICA - Comigo? Meu Deus, o que quererá comigo! Meu ídolo! A santa! Dona Leonor quer falar comigo! (Atende.) Alô? (Pausa. Todas atentas.) Sim, sou eu mesma.

CECÍLIA (Ri) - E Poços de Caldas, hein Maria?

MARIA - Será que eles andavam naquelas charretinhas de bodinho?

CECÍLIA - Já pensou ela? A Pôpo, com as pernas em cima do bode porque aquele tamanho todo não cabia na charrete?

LEOPOLDINA - Poços de Caldas, suas candangas, se vocês querem saber mesmo

MARIANGÉLICA (Desliga o fone gritando) - É o caos meninas! Querem dividir tudo em fatias e vão comer as criançinhas mesmo! Vão castrar todos os padres e estuprar todas as freiras! Os comunistas! Os russos vão invadir e não vão deixar pedra sobre pedra! Sapatearam em cima do terço, em Minas! Do Terço Sagrado! Comeram hóstia e saiu sangue!

RENI - Calma Mariangélica! Calma!

MARIANGÉLICA - Vai sair uma Procissão agora! Pra defender a Pátria dos comunistas! É pra gente ir!

CECÍLIA - Ir onde? (Antonia sai depressa.).

MARIANGÉLICA - Já estão todas nas ruas! Praça da República! As mulheres: vamos! Vamos defender a nossa Pátria!

MARIA - Ninguém vai sair daqui não!

MARIANGÉLICA - É pra defender nossas famílias, Maria! Nossos filhos, nossos sobrinhos! Senão vai ser o caos! O fim!

CECÍLIA - Daqui ninguém sai pra Procissão nenhuma! (No começo, todas vão espiar pelas janelas da parte superior do pensionato.).

MARIANGÉLICA - Temos que ir, Cecília! A religião agora é a Pátria! Sapatearam sobre o Terço! Comeram Hóstia e saiu sangue! Comunistas! Temos que ir! De terço em punho, é a nossa arma, a arma da mulher brasileira!

MARIA - Não, Mariangélica, ninguém vai invadir nem matar criança! Tudo o que está acontecendo é pra melhorar essa Pátria que tu tá falando!

MARIANGÉLICA - Pra melhorar, nunca! Da parte de dona Leonor, a mulher mais santa deste país! Querem acabar conosco, com a nossa terra, com a nossa honra!

CARMINHA - Estou pronta, Leopoldina, vamos.

MARIANGÉLICA - Já avisaram o Pensionato das Franciscanas?

CARMINHA - O das Terezianas também.

MARIANGÉLICA - Vamos pegando todo mundo pelo caminho! Avenida Angélica, Consolação, vamos mulheres brasileiras! Vamos provar que a gente é forte!

CARMINHA - Isso Mariangélica filhas de trinta e dois!

Bravas mulheres Bandeirantes! As

MARIANGÉLICA - As mães fecundas das Bandeiras! As Bandeirantes de 32!

CARMINHA -

Mais trinta e dois - sessenta e quatro

MARIANGÉLICA - Mais trinta e dois = sessenta e quatro!

MARIA - Não, Mariangélica! Não é nada disso! Tu não vai sair daqui!

MARIANGÉLICA - Cala a boca, baderneira! Você é que está por fora! Os russos vão invadir, vamos!

CARMINHA - Tá chegando a hora, de Jango ir embora (Mariangélica, Leopoldina e Carminha começam a descer as escadas. As outras vêm atrás. Maria pega o seu gravador.).

CARMINHA - Trinta e dois mais trinta e dois?

LEOPOLDINA - Sessenta e quatro!

MARIANGÉLICA - Tá chegando a hora, de Jango ir embora!

MARIA - Cecília, Reni

Elas estão indo

CECÍLIA - E vão pegar a mulherada toda!

RENI - Ah, eu quero ver, faço questão.

MARIA - Não, Reni! Ninguém vai saber que tu tá só vendo!

CECÍLIA - Vamos espiar da janela.

RENI - Da janela não vê nada. Vamos lá pra Praça.

MARIA - Vocês vão só engrossar fileira! Ninguém vai saber que estão só vendo!

CARMINHA - Um, dois, três, Brizola no Xadrez

CECÍLIA - Ah

Eu não vou perder isso.

RENI - Vamos Maria! Ficar aqui não adianta nada.

MARIA - Vão engrossar fileira! (Corre para o telefone, disca, não atendem, desliga.).

MARIANGÉLICA - Trinta e dois mais trinta e dois!

LEOPOLDINA - Sessenta e quatro!

MARIANGÉLICA - Um, dois, três!

CARMINHA - Brizola no xadrez!

MARIANGÉLICA - Tá chegando a hora!

TODAS - De Jango ir embora!

CECÍLIA - Ah, eu não vou perder, por nada deste mundo!

RENI Vêm Maria -, as meninas do pensionato Santa Luzia: olha lá!

CECÍLIA - As senhoras da liga católica! Vem ver, Maria!

MARIA - Cretinas! Cretinas! Carlão! Carlão! Cadê você: olha essas cretinas! (Maria começa a correr pela casa, com raiva, gritando, e finalmente, as mulheres saem do pensionato, pela primeira vez juntas, com um objetivo, enquanto vai aumentando o vozerio das mulheres lá fora.).

MULHERES - Trinta e dois mais trinta e dois = sessenta e quatro! Tá chegando a hora, de Jango ir embora! Um, dois, três, Brizola no xadrez! Marchando mulheres! Marchando! Com Deus! Pela família! Pela liberdade!

MARIA - Carlão! Carlão! (Maria pega o gravador, sai correndo pela porta.).

MARIANGÉLICA - Antes que nos invadam os russos! (O pensionato fica vazio. Apenas Joana, sozinha num canto da sala.).

MULHERES - Marchando com Deus, mulheres! Pela liberdade! (Entra Hino da Revolução de 32 - "Paris Belfort" (ou outro hino). Blecaute. Silêncio total. Barulho de máquina de escrever vai sumindo. No escuro, começa baixinho, barulho de jogo de futebol no rádio, enquanto acende a luz na sala de jantar.).

QUADRO CINCO

Sol de tarde de domingo tentando entrar pelas janelas. Joana e Mariangélica, inquietas.

MARIANGÉLICA - Ah, Joana, desliga esse rádio

por causa desse barulhinho de futebol me falando que não tem ninguém na rua. (Joana desliga o rádio. Silêncio. Tremendo.) Estou sentindo arrepio, Joana. Todo 30 de março sinto arrepio. Aniversário da minha avó. Já fiz interurbano pra ela. Hoje a Leopoldina deixou.

Veja que milagre.

Detesto domingo

JOANA - Domingo de Páscoa, de Lua Cheia. É dia bom. Firma o pensamento.

CECÍLIA (Entrando) - Como é, vai ter Estado de Sítio ou Guerra Civil?

MARIANGÉLICA - Não vêm vocês de novo com esse Sítio! Eu ia recebendo Santo! Eu ia! Santo da Umbanda Católica, a melhor religião que existe. Tem a senhora de um General, que ela e ele não saem do Terreiro, e

CECÍLIA (Corta) - Pra pedir o que? Os miolos do Brasil?

MARIANGÉLICA - Iconoclasta! Se nem na passeata pra defender nossa honra você foi; só olhou de longe! Pois EU fui!

CECÍLIA - Ah, não enche, Mariangélica. Que é Joana? Tu parece nervosa, hoje.

JOANA - Nada, não.

MARIANGÉLICA - Você achou mesmo que eu estive bem na passeata ou foi só gozação, hein? Pois se é gozação pode caçoar que nem me toco, eu sei que estive ótima, me falaram que eu estive corretíssima! (Começa a espiar pela janela.) Shiu! Vem vindo a (Pausa.) O vitrô continua embaçado, mas acho que é a

CECÍLIA - Que vitrô, Mariangélica? Será que você não reparou que o nosso vitrô, de tão sujo já se transformou num magnífico Vitral?

RENI (Entrando) - Mariangélica, Cecília, consegui! Nem acredito! Ficaram impressionadíssimos comigo! O emprego é meu, só tive certeza agora. Ah, você vai ver como de secretária eu passo logo pra con-ta-to!

MARIANGÉLICA - Já ganhou o seu ovinho hoje, menina. Emprego de publicidade dá muito dinheiro, não dá?

RENI - É apenas o começo, vocês vão ver só! Nem sei como é que consegui ficar tanto tempo na Secretaria e dando aula pra retardados.

JOANA - O Chico me falô mesmo que tu não quis mais dá aula porque não ia com a cara dele.

RENI - Eu preciso pensar em mim, Joana

liberdade sem cifrão não, NÃO TEM! Agora vou poder me vestir direito e sair na rua de cabeça em pé!

Não tem independência e

CECÍLIA (Alheia, encostada na janela) - Pois eu me tranco em

casa

e quebro a televisão

pra não engolir os venenos que tu vai

vender

RENI Ei, menina, é um trabalho fascinante! E o mundo é de fraco e forte mesmo! Ou você é montador ou é montaria!

MARIA (Descendo do quarto) - É simplesmente en-lou-que-ce-dor! Não agüento mais o barulho dessa serra! Minha cabeça VAI ESTOURAR! Tão trabalhando até em domingo!

CECÍLIA (Da janela) - Ninguém agüenta. Ninguém.

MARIANGÉLICA - Ah, ah! Temos mais duas "Velhas Solteironas Virgens"

RENI - Para o "Asilo da Leopoldina". Com essa eu me vou, fe-liz! (Sai.) Tchau!

MARIA - É porque a serra não tá bem na tua fuça! Debaixo da tua janela!

MARIANGÉLICA - Já está aí no Vitral? Já demoliram quase tudo então. Não tinha reparado.

CECÍLIA (Olhando lá fora, triste) - Guernica.

MARISA - Só falta o pensionato, Mariangélica. Só falta a nossa casa.

CECÍLIA (Seca) - Vejo um vulto na janela, me acudam que eu sou donzela.

MARIANGÉLICA (Da janela) - Nossa

estraçalhado

Que é que vão fazer aí, hein? Uma linda Praça arborizada?

Um

quarteirão

inteiro

sozinha.

e a nossa casinha de pé num canto dele

CECÍLIA - Não, Mariangélica. Vão tirar as flores e colocar asfalto.

MARIANGÉLICA - Mentira, sua bruxa! Mentira sua! Malvada!

MARIA - Ninguém telefonou, né? O Carlão ontem.

não

me

liga

desde

MARIANGÉLICA - Vão tirando as flores e colocando asfalto é?

CECÍLIA - Vão, Mariangélica. Mas a Leopoldina não vai vender a nossa casa nunca. Esta "fossa" aqui é o "calo de estimação" da vida dela.

MARIANGÉLICA - Ai, meu vasinho de gerânio na janela Vão destruir o meu gerânio da janela também? Vão?

(Pausa.)

CECÍLIA - Pé-ta-la por pé-ta-la. E agora vê se nos deixa em paz!

MARIANGÉLICA - Malvada! Sá-di-ca! Cã! Pronto, xinguei! (Abre a bolsa.) E agora toma o ovinho de Páscoa que eu te comprei, embora você não mereça! (Dá o ovo.) E um pra Maria.

MARIA - Obrigada.

CECÍLIA - Também comprei um pra você. Escondi. Procure.

MARIANGÉLICA - Não vou procurar nada, sua maquiavélica! E um pra Joana não ficar nervosa.

CECÍLIA - Que foi que aconteceu com o Chico? Pode falar: a gente já sabe que ele é um brigão mesmo.

JOANA - Mas meu Chico não é só brigão não! Ele tem muita capacidade, eu acho que ele pode até ser chefe. E os patrão acha isso também.

MARIA - "Os patrão" acham isso? Joana, cuidado

JOANA (Irritada) - Se ele ganhasse mais ia me aliviar bem.

MARIA - Ora, tu tá acostumada com o batente.

JOANA - Só se tu tá acostumada com o meu batente, Maria, porque eu não tô, não.

CECÍLIA - Pede pro Chico te dar uma mão, ué

JOANA - O que? O meu Chico no varal? Tu tá é louca! A vizinhança toda ia rir de nós! Quero ele forte, cabra macho e briguento mesmo,

ai

eu morro

com o risco de morrer de tiro, porque se o Chico morrer de tiro

meu São Severino do Ramo, se o Chico morrer de tiro junto também!

MARIA - Não vai chorar agora, né? (Antonia desce.) Vai sair, Antonia?

ANTONIA - Vou.

MARIA - Tu parece triste, que é que há?

ANTONIA - Sei lá

MARIA - Que é isso! São tempos de alegria, menina! Que tristeza é essa!

ANTONIA - Nada

O Francisco não apareceu nem ligou Joana?

MARIANGÉLICA - Não, nenhum homem ligou! Ai, meu Deus, que caras são essas? Que clima, está tudo esquisito, sinto tremores. (Liga a TV.).

ANTONIA - Não consigo falar com parecia que tinha tanta gente, por aí

JOANA - É, parecia, né?

umas pessoas

MARIA - Acho que vou lá pro Grêmio.

Não entendo,

ANTONIA - Vai, Maria. Qualquer coisa eu tô na minha tia, mas

MARIA - Que cara é essa? Se tá com problema pessoal, fala! Não pode ter problema pessoal agora! Tá todo mundo entusiasmado!

ANTONIA - Não junta

Coisa de família. Pensei que a família estava toda

MARIA - Mas vai ter até festa de batizado! Não, Antonia, tu não duvida disso, logo tu. Eu não duvido! Larga de ser Pifa-Pica!

ANTONIA (Ri) - Não sou não, o que é isso? O Júlio e eu ainda vamos botar um monte de gurizinhos safados no mundo! A gente vai fazer nossa família, junto com os teus, combinado, minha amiguinha? Aconteça o que acontecer.

MARIA - Um "pacto".

CECÍLIA - E eu?

ANTONIA - Se tu quiser. Tu não quer nada quis fazer comigo.

Nem aquela pesquisa

CECÍLIA - É só insistir de frente, do jeito certo!

ANTONIA - Ah periquito "pacto" vai ser a três?

Vou falar com o Júlio, vamos ver. Então o

MARIA - Juntar nossos moleques.

ANTONIA (Sorri) - Um dia sim. Um "pacto". Tchau. (Sai. Todas vão espiar.).

CECÍLIA - Antonia está menos "empinada", não está?

MARIANGÉLICA (Liga e desliga a TV) - Que dia

tédio

que linda

que

(Entra valsa na TV. Leopoldina desce, está "chique".) Olha,

Ah, Leopoldina, põe o meu vestido azul balão de decote

que clima

canoa e vem dançar comigo?

LEOPOLDINA - Ah, você com seus decotes! E vê se desliga isso que não te agüento mais com essa TV o dia inteiro!

MARIANGÉLICA (Desliga) - Ia desligando mesmo. Entrou política.

LEOPOLDINA - Que é? O nosso Presidente nomeando mais algum marginalizado pra cargo importante?

MARIA - Pelo jeito, tu e a Carminha continuam se encontrando muito, depois que ela mudou.

LEOPOLDINA - Estou indo para a casa da tia dela pra ver o vestido de noiva. Quer algum recado?

MARIANGÉLICA - Carminha queria casar na lua cheia. Diz pra ela que se casar na minguante a festa será minguada.

LEOPOLDINA - Festa minguada? É porque não viste os doces.

MARIA - Aposto que o bolo é uma metralhadora.

MARIANGÉLICA - Já vi um bolo, de noivo músico, que era uma harpa. Mas metralhadora

MARIA - É que eles lá no Jardim Paulista se preparam para a guerra, Mariangélica.

MARIANGÉLICA - Uma doce guerra conjugal, ah

Você e esse seu sogro Leopoldina, não sei não se isso não vai acabar no altar também.

isso é verdade.

LEOPOLDINA - Já falei que ele é muito bem casado com uma quatrocentona mais antiga até do que eu.

CECÍLIA - É mais antiga, "perseguida"? Também "toca-castanhola"?

LEOPOLDINA - Que foi?

CECÍLIA - Acho engraçado tu não querer mais continuar aquele papo.

MARIA - Nem sequer expulsou a gente! Não quer nem tocar no assunto!

LEOPOLDINA - Mas expulsar por quê? As duas sempre brincaram muito, são tão "traquinas". Podem continuar, vamos, brinquemos; esconde-esconde, ou cabra cega? O que vocês querem?

JOANA - Quero meu ordenado, Leopoldina.

LEOPOLDINA - Sinto muito, Joana, estou duríssima, a vida está impossível, mesmo, de tão cara. Ah, esse Jango

MARIA - O Jango ou "outras pessoas" que tão encarecendo tudo só pra botar a culpa no Jango?

LEOPOLDINA - Ora, menininha

complexo. E o nosso gauchinho não consegue segurar. Só pensa em

comunismo, comunismo.

Inflação é um assunto tão

CECÍLIA - Tão falando demais de comunismo. Se tivesse, mesmo, não falavam, não.

MARIANGÉLICA (Alheia) - Você comprou, esta semana, um chuveirão de brilhantes lindo, né, Leopoldina? Eu vi. Lindo, lindo!

MARIA - A Carminha também se carregou de jóias. É o jeito mais fácil do Jardim América fugir com o dote, caso o enlace não der certo!

JOANA - Leopoldina comprô brilhante e não me pagô?!

LEOPOLDINA - À prestação, minha querida, nem sei como me sair

dessa. Bom, até mais, donzelas

(Sai para a rua, todas vão espiar.).

JOANA - É uma descarada! Ela ficou louca!

MARIA - Mas vai durar pouco, Joana. É por pouco tempo.

CECÍLIA - Anda feito uma pavoa. No embaçado da janela dá impressão até que levita.

MARIA - Parece que vai botar, sozinha, os ovos todos, das Páscoas todas.

JOANA - Eu ainda quebro a cara dela! Jogo no forno, mato de tiro. Eu mato ela! Eu mato! (Toca o telefone. Todas pulam.).

MARIANGÉLICA - É homem! Pra mim! Passei um trote telefônico e dei meu número!

JOANA (Atende) - Alô! (Pausa, alívio.) Nosso Chico, tu não dá

notícia! Onde tu te enfiou cabra da peste, e eu sozinha. Greve? Não?

O

que? Quando? De novo? Mas

(Pausa.) Tá bom, diabo, é que eu

nervosa, eu deixo, vai, fala.

MARIANGÉLICA - Se for greve nem me fale que não agüento mais greve! A cidade está que nem se pode andar! Não agüento mais! Não agüento! (Sai.).

JOANA - Vou indo pra aí. (Desliga.) Acho que é briga de novo, não sei, vai me explicar melhor em casa. Mas pelo jeito acho que tá desempregado.

CECÍLIA - Foi despedido?

JOANA (Pensativa) - Ah, meu São Severino. (para Cecília.) Vocês são umas pestes, me fazem rir, aqui eu distraio

MARIA - Ele tá na rua, pronto!

JOANA - Tenho saúde, dois braço forte. Mulher num ganha que nem

Mas a Zequinha puxô eu, é só crescer um tiquinho mais (Pausa.) Bexiga, lixa, gota serena, diz pra aquela vaca

que eu fui pra casa cuidar da minha gente. Que se foda ela e toda a gente dela! (Sai para a cozinha.).

homem, não que ela pode

MARIA - E o Carlão que não liga!

MARIANGÉLICA (Entra) - Pra mim, ele deve ter passado a Aleluia com outra, e hoje foi com ela ver o sol nascer em Santos.

CECÍLIA - Não amola Mariangélica! Vai procurar o teu ovo, vai!

MARIANGÉLICA - frente.).

Não estou procurando ovo algum! (Sai

pela

CECÍLIA (Baixo, tirando um cigarro e acendendo) - Shiu ganhei um deste aqui, vamos experimentar, vem.

Olha,

MARIA - Sem marca? Que marca é?

CECÍLIA - Marca Ma-co-nha.

MARIA - Maconha! Isso não presta Cecília! É coisa de marginal! Não quero ser maconheira, eu quero é o Carlão.

Me

diz pelo menos se você pôs dentro ou fora de casa, Cecília. Tô quente ou tô fria?

MARIANGÉLICA (Entrando) - Também não está no alpendre

CECÍLIA (Apagando rápido o cigarro) - Ai, meu Deus! Escondi no quintal, pronto!

MARIANGÉLICA - Ah

coisa queimada

Agora fica mais fácil

Hum

(Sai para a cozinha.).

Que cheiro de

Deve ser no quintal

CECÍLIA - Tu ligou para o

MARIA - Já liguei pra todo mundo que podia! Mas não estou nervosa não, qualquer hora ele chega aí correndo com aquela panca dele de

basquetebol e aqueles pêlos dele, no peito, feito um triângulo sumido sei lá onde, ui, dentro do calção. Ah, ele vai telefonar sim, eu sei que vai dar tudo certo, nunca estive tão entusiasmada e tão feliz na minha vida inteira e pronto!!!

CECÍLIA - Ah que novidade essa ladainha. Todo dia é o dia mais feliz da tua vida.

MARIA - Não é verdade que tu sabe disso. Foram apenas três. O primeiro já contei. O segundo foi quando fui numa Assembléia, na minha primeira passeata. Eu me senti de novo fazendo parte de alguma coisa, Cecília, eu era aquela vibração toda.

CECÍLIA - Ah

não

Não começa Maria

MARIA - Antes tu topava um papo destes, mesmo que fosse pra brigar. O que foi que aconteceu contigo, Cecília? Que foi?

CECÍLIA - Não sei! Acho que tem um inimigo aí dentro das minhas costas com ordem de liquidar comigo na primeira que eu sentir, por distração.

MARIA - A marca de gado que teu pai te machucou Cecília, estava "fora" de você, ela é esse mundo aí onde todos são gados, mas daí tu engoliu ela! Tem que vomitar agora, pra mudar esse Sistema, porque esse é o maior inimigo. E vai mudar!

CECÍLIA - Ai Maria, esse teu entusiasmo me enche o saco

MARIA - E não é pra entusiasmar, minha amiga? Esta casa vai ser nossa e vamos fazer loucuras aqui dentro! A gente mora num país lindo que tinha, no ano passado, só uns 300 camponeses sindicalizados, e agora tem mais de mil! Já pensou? Cada um

plantando com amor, na sua própria terra, sabendo o caminho do seu

trabalho, que tudo vai ser mesmo para o bem comum

Até você

CECÍLIA - Não me põe no meio não! Ai

paz, Maria, por favor

passar

Vê se me deixa em

Eu só quero é me sentar tranqüila e ver a vida Mais nada

saco

mais nada

MARIA - Que é isso, Cecília? Tu não pode falar assim, não! Você, não pode! Tu não era uma revoltada contra tudo e contra todos? Cadê a revolta? Cadê os teus índios de Piratininga que comiam Português e Jesuíta temperado com gabiroba e mandioquinha? Cadê o Ajuricaba do Amazonas onde tu também morou? Cecília, tu nasceu no Alagoas, cadê os teus Quilombos, o teu Zumbi? Cadê a tua memória, menina, cadê a história que tu tá estudando? A tua verdadeira história não te permite essa amnésia! Tu tem que reagir, tem que buscar de novo o NÃO que tu disse que era, da contradição, e essa Zequinha que tá aí dormindo no fundo de você, tu tem que vomitar no avesso, pra poder participar do mundo vendo as coisas que acontecem!

MARIANGÉLICA (Entra berrando) - SOCOOOOOOOOORRO! Um rato! Um ratão enorme! Socoooooooooorro! (Começa barulhinho de serra. Mariangélica se agarra em Cecília.).

CECÍLIA - Ai, meu Deus larrrrrrrrga!

Não. Meu Deus

não exagera. Me

MARIANGÉLICA - Mas era um rato DESTE TAMANHO, Cecília! Veio daqui, é impossível não terem visto! Um ratão! Doenças! Peste bubônica!

CECÍLIA - Quem mandou procurar meu ovo de páscoa na demolição?

MARIANGÉLICA - Mas o rato estava na cozinha! Eu não fico mais um minuto nesta casa! Sozinha com vocês não fico não! Nem morta! (Sai correndo para a rua. Para o barulhinho da serra. Silêncio. As duas se entreolham com medo.).

CECÍLIA - Shiu! Espera! Escuta! (Pausa.).

MARIA - Passinho

pequeno

Será que é rato, Cecília?

CECÍLIA - Araponga é que não pode ser. (As duas vão até o fundo da sala, com medo. Param embaixo do corredor.).

CECÍLIA - É aqui! Shiu

MARIA (Escutando) - É

Escuta, vem de lá de dentro.

CECÍLIA - Olha! Aí em baixo! Ele saiu por esse buraco aí, debaixo do quadro.

MARIA - Como já tá grande esse buraco. Vai dar na dispensa?

CECÍLIA (Examina) - Não. A dispensa deve vir só até aqui. (À esquerda.).

MARIA - À direita tem o quartinho do fundo que era da dançarina

CECÍLIA - Mas é muito pequeno. Tem coisa no meio, Maria.

MARIA - É, tem coisa no meio sim. E a Leopoldina nunca revelou.

CECÍLIA - Ai, que delícia! Isso me estimula! Isso sim! Ai, que emoção! O que a Leopoldina esconde nesse espaço? Um corpo morto? Será o marido? Um cadáver emparedado?

MARIA - Vamos lá na dispensa verificar.

CECÍLIA - Conheço de sobra essa dispensa e o quarto. Não tem passagem. (Olha para cima.) Acho que devemos dar um passeio é pelo guarda-roupa da Leopoldina!

MARIA (Olha para cima) - É mesmo e do banheiro.

CECÍLIA - Vamos lá! (Vai subindo.).

O espaço é bem debaixo dele,

MARIA - A Mariangélica pode voltar. Vai você que eu fico aqui de sentinela e garanto a retaguarda.

CECÍLIA - Certo. Qualquer coisa, tu dá um toque no telefone.

MARIA - Perfeito.

CECÍLIA - Até mais. (Entra no quarto de Leopoldina.).

MARIA - Boa sorte. (Maria vai para o telefone, tempo. Silêncio. Toca o telefone. Susto, atendendo) Alô! (Luz no quarto de Leopoldina. Diálogo todo no telefone.).

CECÍLIA (No telefone do quarto) - Sou eu, aqui do quarto.

MARIA (No telefone da sala) - Ai, que raiva! Pensei que fosse o Carlão.

CECÍLIA - Liguei pra te dizer que esse nosso papo razão sim, Maria Quitéria. Foi bom pra mim.

Tu tem toda

MARIA - Ah! Fico contente, Cecília! Agora vai em frente!

CECÍLIA - É que eu tô com um pouco de medo

MARIA - Tu tá vacilando, menina

Vamos, em frente!

CECÍLIA - Tu nunca teve medo?

MARIA - Já. Um pouquinho antes de

bem

CECÍLIA - Antes do que?

MARIA - De

fazer a maior confidência, desde que tu não conte pra ninguém.

Bem, olha Cecília, tu é minha amiga íntima então vou te

CECÍLIA (Medo) - Diga

MARIA - Eu te disse que foram três dias felizes, né? Falta o terceiro. (Pausa. Toma fôlego.) Quando eu te contei que o Carlão beijou de boca fechada, na verdade tinha beijado de língua. Quando falei que beijou de língua, na verdade ele tinha passado a mão no meu seio e quando disse que ele tentou passar a mão no meu seio, foi que eu tinha dado pra ele. Esse foi o terceiro dia mais feliz da minha vida. (Grande pausa.).

MARIA - Tu tá chocada? Vai achar que eu não presto? Não vai mais querer ser minha amiga?

CECÍLIA - Doeu?

MARIA - No primeiro ímpeto um pouco, mas foi bom logo em seguida. (Pausa.) Ah, Cecília, é a melhor coisa do mundo! (Pausa.).

MARIA - Cecília? (Pausa.) Cecília? (Pausa.) Fala alguma coisa. Tu tá chocada? Fala

CECÍLIA - Vou pro guarda-roupa.

Me escuta. Eu não sei fazer tudo

ainda, sei que tem muito mais prazer, minha mãe já me falou que tem. Mas quando ele tá lá dentro de mim, o Carlão, parece que era a outra

MARIA - Que é isso, minha amiga?

parte minha que chegou e completou. Um encaixe. Não quero que ele saia nunca

CECÍLIA - Onde foi que aconteceu?

MARIA - Quando vocês foram naquele "Terreiro de Macumba".

CECÍLIA - Foi

aqui, no pensionato?!

MARIA - Mas nem toquei na tua cama! Juro! Foi tudo na minha!

(Pausa.) O galho da nossa árvore aí na varanda, agüentou bem. A

Tu viu que ela abre. Ele entrou à meia-noite e saiu de

janela

madrugada. Um minuto depois vocês chegaram. (Pausa.).

MARIA - Tu tá ofendida? Fala alguma coisa, Cecília

CECÍLIA - Tu não tá esperando filho?

MARIA - Não seja antiga (Pausa.).

Só vou esperar quando eu quiser.

CECÍLIA - Vou pro guarda-roupa. (Apaga a luz no quarto de Leopoldina. Maria desliga o telefone e fica à espera. Tempo. Silêncio. Maria impaciente.).

MARIA - Cecília nervosa.) Cecília

Ô

Cecília

(Pausa.

sinal

no

Eu tô com medo

(Tempo. Silêncio.).

telefone,

CECÍLIA (Voz fora) - Maria! Maria!

MARIA (Procurando) - Aqui

!

Que é isso? Onde é que tu tá?

CECÍLIA - Aqui em baixo! Corre! O Ponto X! O ponto nove! (Maria vai até o buraco de onde saiu o rato.).

MARIA - O Ponto X? O Ponto 9? Tu conseguiu! Tá aí? Que é isso?

CECÍLIA - Cheio de roupas! De bugiganga!

MARIA - Cheio de roupas? De bugiganga? Ai, ai, quero ir aí! Não! Sai daí que tem rato! Saí daí que tem rato, Cecília!

CECÍLIA - Tá escuro! Cheiro de mofo, um cheiro ruim!

MARIA - Sai! Sai! Quero ir aí! Cheiro do que? De mofo? Vou aí, espera! (Cecília sai, como que por encanto, de uma pequena porta que abriu no fundo da sala, que é justamente o quadro. Tem uma lanterna na mão, que deixa "entrever" só um pequeno porão empoeirado, cheio de coisas esquisitas: plumas, perucas, panos velhos, lantejoulas, etc. Fascinada.) Não

CECÍLIA (Mais fascinada) - A gruta de Ali Babá

Pompéia

O Elo perdido

As ruínas de

MARIA - Sodoma e Gomorra

o Júlio

CECÍLIA - Não

duas. Pros outros, só amanhã

a cena vai ser tua

ainda não

Vamos

chamar o Carlão

a Antonia,

Primeiro façamos as escavações, nós

(Pausa.) E

Amanhã

na hora certa

MARIA - É o X do problema, Sherloca

É o ponto 9.

CECÍLIA (Baixinho) - Ponto X-9. (As duas entram novamente dentro do porão, enquanto a luz vai apagando. Música pré- histórica. Blecaute. Silêncio. Entra o barulhinho da máquina de escrever, rapidíssimo, ansioso, que funde com música

melodramática de novela, enquanto acende a luz na sala de jantar.).

QUADRO SEIS

Noite. Só a luz da televisão ligada ilumina as sombras de Leopoldina, Reni e Mariangélica. Silêncio. Só o barulho da TV, "clima de novela", suspense. Cecília entra - muito misteriosa -, senta-se para ver novela. Cecília olha o tempo inteiro para o "quadro-porta-falsa", no fundo da sala. Finalmente Cecília levanta-se e põe na vitrola uma música de terror, bem alto e desliga a tomada da televisão. Escuridão total. Gritos!

MARIANGÉLICA - Ai, meu Deus! (Liga a TV, de novo.) Começou! Pronto! Tava demorando!

RENI - Quer desligar essa vitrola, agora?

CECÍLIA - Desligo nada! Hoje estou feliz!

LEOPOLDINA - Que milagre! O que foi que aconteceu, meu Deus?

MARIANGÉLICA - Quero escutar minha novela! (Abaixa o som.).

LEOPOLDINA - Ora, Mariangélica, está no comercial

MARIANGÉLICA - Adoro comercial! E essa menina do "Boneco Frigidaire" é um doce.

CECÍLIA

Lobotomizante?

General

-

Elétrico?

Motors?

Tamanduá

do

Norte

MARIANGÉLICA - Não fala mal dela! Embora faça comercial é de ótima família, a minha tia conhece. Chama Regina. (Pausa.) Duarte. (Desliga o som.) Estou esperando uma buzina e assim não escuto. É

de um 1903, Gordini vermelho com motor envenenado que conheci antes de ontem!

CECÍLIA - Ora, isso aí buzina alto! (Aumenta o som.).

LEOPOLDINA (Grita) - Desliga isso, Cecília!

CECÍLIA - É que é tanta coisa junta! (Desliga. Cantarola.) "Maria não

é mais aquela

muito bem. Agora vou eu fazer também!

lá, lá, lá, lá, lá, lá, dela"! Me choquei, mas fez ela

MARIANGÉLICA - Já que está tão alegrinha e isso é tão raro, então te deixo pôr uma música, se contar que santo é que te baixou, aí.