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Abordagens em Ciência,

Tecnologia e Sociedade
Universidade Federal do ABC

Prof. Dr. Klaus Werner Capelle - Reitor


Prof. Dr. Dácio Roberto Matheus - Vice-Reitor

Editora da UFABC
Profª. Drª. Adriana Capuano de Oliveira - Coordenação
Cleiton Fabiano Klechen
Marco de Freitas Maciel
Natalia Gea
Maria Gabriela S. M. C. Marinho
Sérgio Amadeu da Silveira
Marko Monteiro
Rafael de Brito Dias
Cristina de Campos
(Orgs.)

Abordagens em Ciência,
Tecnologia e Sociedade

São Bernardo do Campo - SP


2015
© Copyright by Editora da Universidade Federal do ABC (EdUFABC)

Todos os direitos reservados.

Produção editorial
Maíra Nassil

Revisão
Erick Ramalho

Capa
Ana C. Bahia

Diagramação
Carmen Barbi

Impressão
Gráfica e Editora Copiart

CATALOGAÇÃO NA FONTE
SISTEMA DE BIBLIOTECAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC
Responsável: Roberta Kelly Amorim de França CRB: 7660

370.111
MARIab

Abordagens em ciência, tecnologia e sociedade /


Organizado por Maria Gabriela S. M. C. Marinho ; Sérgio Amadeu da Silveira;
Marko Monteiro ; Rafael de Brito Dias ; Cristina de Campos — São Bernardo
do Campo: EdUFABC, 2015.

14 cm x 21cm, 292 p.

ISBN: 978-85-68576-19-9
1. Brasil - Política científica 2. Ciência, tecnologia e sociedade I. MARINHO,
Maria Gabriela S. M. C. II. SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. III. MONTEIRO,
Marko. IV. DIAS, Rafael de Brito ; V. CAMPOS, Cristina de.
Sumário

Prefácio  7

Capítulo 1
É possível cumprir a proposta da “Ciência e Tecnologia
para o desenvolvimento”?  17
Renato Dagnino

Capítulo 2
Sociologia da Ciência e da Tecnologia: instrumentos para a análise
do processo de formação de agendas de pesquisa  43
Renan Gonçalves Leonel da Silva
Maria Conceição da Costa

Capítulo 3
Como combater o HLB (Greening)?
Tradução e controvérsias na produção de laranja  67
Gabriela da Rocha Barbosa
Leda Gitahy

Capítulo 4
Reconsiderando a etnografia da ciência e da tecnologia.
Tecnociência na prática  99
Marko Synésio Alves Monteiro

Capítulo 5
Participação pública e avaliação social da ciência e tecnologia:
uma revisão 121
Camila Carneiro Dias Rigolin

Capítulo 6
A política científica e tecnológica brasileira nos anos 2000
e a “agenda da empresa”: um novo rumo?  141
Rafael Dias
Milena Serafim
Capítulo 7
Pesquisas sobre células a combustível no Brasil  165
Bruno Rossi Lorenzi
Thales Novaes de Andrade

Capítulo 8
Labordireitórios  189
Ivan da Costa Marques

Capítulo 9
A dinâmica da ciência: subsídios para a compreensão
da ciência acadêmica e pós-acadêmica  215
Vera Aparecida Lui Guimarães
Maria Cristina Piumbato Innocentini Hayashi

Capítulo 10
Coletivos Tecnológicos e a produção colaborativa entre pares 251
Sergio Amadeu da Silveira

Capítulo 11
Internacionalização da ciência no Brasil e mobilidade internacional:
políticas, práticas e impacto  263
Lea Velho
Milena Yumi Ramos

Sobre os autores 289


8. Labordireitórios

Ivan da Costa Marques

Introdução

A ideia de “labordireitório” parte de uma complexidade simplifica-


da: os objetos tecno-científicos são produzidos nos laboratórios e nos
tribunais. Os laboratórios e os tribunais não são espaços tão disjuntos
ou de fronteiras tão marcadas quanto a tradição moderna quis fazer crer,
mas espaços que se interpenetram e se comunicam.
A tradição moderna dos estudos sobre como são obtidos os co-
nhecimentos científico-tecnológicos propõe que entendamos os fa-
tos como descobertas feitas em laboratórios (de pesquisa básica) e os
artefatos tecnológicos como desenvolvidos em laboratórios (P&D) e
reproduzidos nas fábricas. Além disto, a construção de conhecimentos
sobre, por exemplo, o átomo, algo que diz respeito à Natureza, não deve
se misturar com a construção de conhecimentos sobre, por exemplo,
valores e direitos, que fazem parte do que diz respeito à Sociedade. Ou
seja, a tradição moderna ensina que Natureza e Sociedade, laboratório
e tribunal, não se misturam.
Quando vamos à farmácia e compramos um remédio, podemos
estar convencidos de que o produto que compramos resultou de um
processo no qual os fatores ditos “naturais” são separáveis dos fatores
ditos “sociais”, pois assim ainda é divulgado, a despeito dos resultados
dos Estudos CTS das últimas décadas. Esta separação está rapidamente
se desfazendo diante do acúmulo de evidências de que as decisões en-
volvidas na estabilização de um remédio como objeto tecno-científico
associam de maneira inseparável transformações que se configuram
no corpo biológico a transformações que acontecem no corpo social. A
partir dos anos 1980 surgiram estudos que podem fazer entender, para
cada caso, em seus mínimos detalhes, como o movimento do braço do
bioquímico que retira uma substância de um armário para torná-la um
reagente, ou que extrai um soro de uma glândula de um rato no labo-
ratório, é indissociável do movimento do advogado ao passar páginas

189
na leitura das patentes para avaliar quais são as chances, e se são boas,
daquela molécula.1 Os laboratórios, que se refeririam exclusiva e isola-
damente ao “natural”, passam a compartilhar um espaço de interseção
com os tribunais, que antes diriam respeito exclusiva e isoladamente ao
“social” – eu chamo este compartilhamento de “labordireitório” e sugiro
que muito acontece e é decidido aí.
Este capítulo diz respeito aos labordireitórios e sua importância
para problematizar os conhecimentos ditos globais ou universais, e para
situar os conhecimentos, com respeito em especial ao Brasil. Além da
introdução, ele contém mais cinco partes.
Na primeira parte utilizo a contemplação das constelações no céu
para fazer entrar em cena uma realidade em fluxo na qual os objetos
de fronteira nítidas, isoláveis a que estamos acostumados adquirem
outro tipo de existência. Os objetos científico-tecnológicos reconfigu-
ram-se como entidades que atuam no mundo de modo semelhante às
constelações que vemos no céu. Na realidade em fluxo as entidades são
formas que não se configuram independentemente do observador e do
aparato de observação (mesmo que este aparato seja o olho humano).
As entidades não têm essência, não têm formas prévias, mas podem ser
batizadas por aproximação, podem receber um nome, um substantivo
que as designa. É a partir daí, do nome substantivo que congela de
modo provisório o fluxo, que se constrói uma fronteira entre o interior
e o exterior de uma entidade e se esquece do trabalho e das condições
que possibilitam seu batismo.
Na segunda parte enfoco os atributos de universalidade e neutra-
lidade das ciências e das técnicas como decorrência do divisor consti-
tucional do conhecimento científico moderno: Natureza x Sociedade,
laboratório x tribunal. A Natureza é a entidade coletora das coisas-em-si,
das coisas ou formas que supostamente existem e estão lá dadas a priori,

1 “Quantas moléculas entraram na fase I, II ou III? Há quanto tempo estão aí? (...) As
moléculas e os medicamentos são, portanto, vigiadas em sua entrada e saída pelos
investidores, aqueles com os quais os industriais devem se aliar para poderem con-
tinuar trabalhando. Mas eles os vigiam de maneira comparativa: o anúncio da sus-
pensão dos estudos sobre uma molécula num laboratório provocará, a milhares de
quilômetros, a alta das ações de um laboratório concorrente ocupado em pesquisas
que parecem mais proveitosas no mesmo domínio” (Pignarre, 1999:64-65); “Mas o
mais importante é que a proteção que a patente oferece é limitada no tempo. A pa-
tente irá introduzir a questão do tempo como um elemento chave nos processos
de elaboração dos medicamentos. Ela os obriga a ritmarem-se” (Pignarre, 1999:69,
ênfase no original).

190
independentemente do que façam os homens-entre-si. Os conhecimentos
sobre esta Natureza incorruptível, desprovida de valores, são acumulados
por meio de descobertas científicas. E as formas, coisas ou entidades,
ditas naturais e supostamente pré-dadas na Natureza, resultantes das
descobertas, recebem os atributos de universalidade e neutralidade. Em
oposição à Natureza está a Sociedade, o mundo que resulta das relações
dos homens-entre-si, um mundo corruptível. A separabilidade dos
dois mundos, Natureza (coisas-em-si) e Sociedade (homens-entre-si)
se complica ainda mais porque as ciências sociais vieram propondo-se
descobrir as leis (ab initio universais e neutras) que regem os aconteci-
mentos no âmbito dos grupos humanos, ou seja, vieram com o intuito
de descobrir a Natureza da Sociedade.
Na terceira parte invoco as noções de linha de fuga e de desterrito-
rialização. Para fazer isto utilizo o que Michel Callon (1998) chama de
“enquadramento”, uma ferramenta metodológica que possibilita destacar
e limitar a materialidade de cada caso no fluxo. Aqui são dois os pontos
cruciais: 1) não é possível haver negociação, acordo e paz sem que as
partes envolvidas compartilhem um enquadramento, que é justamente
um acordo prévio sobre o que está dentro da (será levado em conta na)
negociação ou resolução de um conflito ou controvérsia; 2) não há en-
quadramento sem transbordamento; não se tem jamais uma situação de
fronteiras absolutamente definidas e seguras entre o interior e o exterior
de um enquadramento (Callon, 1998:255).
Chego então à quarta parte, onde relaciono labordireitórios e co-
nhecimentos situados. Apresento dois casos de tratamento de conheci-
mentos em regiões bastante diversas do Brasil. Houve, nos dois casos,
apropriação de conhecimentos disponíveis na realidade em fluxo, mas
as aproximações do laboratório e do tribunal são diversas. Em um caso,
uma multinacional usa a ciência para legitimar uma crença popular: sua
apropriação pretende reforçar suas vendas e ela poderá recolher-se ao
laboratório como um espaço onde se fortificará para, quem sabe, um dia
sair de lá aliada ao tribunal para vencer seus competidores. Em outro
caso, uma pequena empresa brasileira clona um famoso computador
americano sem patentes no Brasil: seu lócus é o tribunal e ela vai ao
laboratório na estrita medida de sua necessidade de construir e colher os
elementos de uma história respeitável perante o tribunal. Não obstante
a lógica das táticas e estratégias diversas das duas empresas, as duas
apropriações acontecem em labordireitórios.

191
Finalmente, à guisa de conclusão e fazendo de certa maneira um
retorno à primeira parte, ressalto o resultado crucial dos Estudos CTS
das últimas décadas que é negado pelo catecismo apresentado como
ordenador da construção do conhecimento científico: a fronteira que
separa Natureza e Sociedade não está previamente dada no mundo, mas
é resultado de um trabalho constante e sub-reptício, simultaneamente
praticado e escondido. Um imenso desafio a ser enfrentado na diversi-
dade local do Brasil, este canto do mundo que se quer Ocidental ma non
tropo, é desfazer algumas fronteiras Natureza x Sociedade que recebemos
prontas e naturalizadas dos países que nos servem de modelo para cons-
truir outras, que possibilitem a ampliação das negociações propondo
outros enquadramentos, que melhor acolham nossas especificidades.

1
Parto da proposição de realidade como fluxo material permanente
de elementos heterogêneos e relacionais. Não há forma, coerência e muito
menos qualquer essência que já esteja previamente dada ou existente
no fluxo, mas em qualquer tempo e lugar o fluxo poderá estar povoado
de entidades, que costumamos chamar de coisas, objetos e sujeitos. Se
assim é, é porque agenciamentos constroem / inventam / descobrem /
colocam / configuram entidades relacionais nesta realidade em fluxo.
Comecemos com um exemplo. A cena do filme de Ron Howard,
Uma mente brilhante, ficcionalmente baseado na vida de John Nash,
premiado com o Nobel de Economia em 1994. No filme, uma noite, John
vai a um jardim com Alicia, aluna com quem depois veio a se casar, e
pede-lhe que enuncie uma forma:
Alicia – Uma forma?
John – Sim, uma forma qualquer. Um objeto, um animal.
Alicia – ... Um guarda-chuva.
Na sequência, John segura e levanta a mão de Alicia, apontando
para o céu, e começa a percorrer as imagens das estrelas, detendo o
movimento ao escolher uma região onde os dois podem localizar a
forma “guarda-chuva”.
Esta cena ilustra a questão de onde e como no fluxo se localiza e se
constitui uma forma, isto que os dois concordam que veem e entram em
acordo chamando de “guarda-chuva”. Esta contemplação aparentemente
simples pode ser uma porta de entrada para pensar a realidade em fluxo.
O “guarda-chuva” que viram estaria na imaginação do casal e restrito
à interação face a face dos dois naquele momento? Certamente não,

192
uma vez que aquela forma não só pode ser fotografada como também
a história não deixa dúvida de que durante séculos as constelações
auxiliaram de forma confiável os navegantes mares a fora. Então, o
guarda-chuva estaria lá como uma forma dada independentemente de
quem a contempla, independentemente das circunstâncias de obser-
vação? Tampouco isto se mantém, pois bem se sabe que uma estrela
que aparece no céu ao lado de outra pode “na verdade astronômica”
estar situada muito mais longe desta segunda do que de uma terceira
que aparece em um canto distante do céu. Além disto, podemos dizer
também que, por mais que já tenham sido consideradas como sendo
fixas, as constelações são formas provisionais pois as estrelas estão em
permanente movimento e as distâncias entre elas muda com o passar do
tempo. Ou seja, se as constelações não estão na interação face a face e
nem tampouco estão lá como formas dadas a priori e independentes de
quem, de onde, de quando e de como são percebidas, podemos concluir
que elas são um agenciamento e resultam dele, elas estão no encontro,
nas relações, na justaposição de elementos heterogêneos cuja reunião
resulta nesta admirável capacidade de circular não só entre um casal,
mas entre elementos e outras entidades em coletivos que se constituem
em escalas muito maiores.
Com o olhar que se sintoniza em direção às configurações relacio-
nais é mais fácil percebermos que a música não está nem no CD nem no
CD player, mas é uma forma que se configura no encontro destes dois
elementos justapostos, em agenciamento, a diversos outros tais como
o ar, nosso aparelho auditivo, etc. Embora isso possa surpreender, a
frequência magnética da uma molécula não está nem na molécula nem
no espectrômetro de massa, mas na relação que se estabelece entre os
dois. Ela é co-construída com o dispositivo que a mede. Sem espectrô-
metro de massa a freqüência de ressonância de uma substância química
não existe como tal. A forma da dupla hélice do DNA não está nem na
disposição espacial dos átomos nem no microscópio eletrônico capaz
de fotografá-la, mas no encontro dos dois. Na realidade em fluxo, as
formas ou objetos tecno-científicos, os fatos e artefatos em que tanto
confiamos, são “constelações”, configurações provisionais de justaposições
de elementos heterogêneos relacionais. Contudo, isto não é motivo para
rejeitarmos inteiramente as verdades científicas, embora, como veremos
adiante, venhamos a ter motivos de sobra para desconfiar da universa-
lidade e da neutralidade que ainda lhes são frequentemente atribuídas.

193
Os modernos, a partir da Europa e ao longo dos últimos séculos,
povoaram a realidade com uma profusão heterogênea de entidades ou
formas no fluxo – não só uma procissão de objetos, mas também uma
série de fatos, de leis, de conceitos (ou preconceitos) e de práticas que
os substantivos delineiam no fluxo. A língua portuguesa nos oferece a
facilidade gramatical de prontamente substantivar os verbos: o “navegar”,
o “descobrir”, o “saquear”, o “aprender”, o “catequizar”, o “construir”, o
“reformar”, o “civilizar”, etc. Os substantivos são no discurso o resultado
mais visível da ação ontológica de nomear, dar nomes a formas, e com
isto de criar “coágulos” no fluxo, regiões mais estáveis, formas mais
obduradas que se constituem em entidades às quais nos referimos por
seus nomes. Os substantivos sintetizam o poder de criar entidades su-
postamente estáveis e de atribuir a elas, literalmente, uma substância.
Se uma forma adquire uma substância, ou seja, se a forma passa a
conter algo (de modo provisório) estável ou permanente que a define,
então é possível traçar uma linha precisa entre o interior e o exterior
da entidade que ela configura: aquele agrupamento de estrelas é ou não
é um “guarda-chuva”?; a forma da molécula do DNA é ou não é uma
dupla-hélice? Ou, nos casos que veremos adiante, certa planta tem ou
não tem tal propriedade higiênica? Ou ainda, certo computador é ou
não é igual a outro?
Os substantivos, uma espécie de síntese taquigráfica, colocam entre
parênteses e ignoram o trabalho constante de divisão, criação, manuten-
ção e justaposição de elementos heterogêneos no fluxo, de modo a obter
o efeito de estabilização, mesmo que provisional, que coagula o fluxo
obdurando uma forma. Ao apontar e nomear a forma “guarda-chuva”, vão
para o segundo plano, e facilmente saem da vista e das considerações, as
divisões e as justaposições feitas no fluxo para que aquele “guarda-chuva”
possa ser visto, as teorias e o instrumental necessários para que a dupla
hélice entre em cena na história da molécula do DNA, os acordos sobre
o que vem a ser uma propriedade higiênica, as convenções que regem
a respeitabilidade de uma declaração de igualdade, etc.
Um exame cuidadoso de duas entidades portentosas torna-se crucial
para situar o labordireitório como espaço de interpenetração do labora-
tório e do tribunal. São duas entidades, dois substantivos que entraram
em cena na criação do mundo moderno e atuam juntos. Estes substanti-
vos são Natureza e Sociedade, duas formas de grande envergadura e de
extraordinária capacidade de se justapor e participar na configuração

194
de outras formas (entidades) que coletam e abrigam em suas dobras. É
para elas que nossa atenção se volta a seguir.

2
O catecismo epistemológico das ciências modernas reza que não
se deve misturar as construções de conhecimentos sobre dois tipos
de mundo: o mundo das “coisas-em-si” (a Natureza) e o mundo dos
“homens-entre-si” (a Sociedade).2 Supostamente, no mundo das “coi-
sas-em-si” estariam aquelas entidades (coisas, seres ou entes) que es-
tão dadas independentemente do que os humanos possam fazer, e lá
estariam as partículas elementares, os átomos, as moléculas, as rochas,
os astros, as galáxias e também os vírus, os micróbios, as bactérias,
os organismos... as formas estudadas pela física, pela química e pela
biologia e pelas ciências mais especializadas delas derivadas, sem falar
nos teoremas matemáticos, exemplos de construções realizadas pelos
“homens-entre-si” muitas vezes tomadas como evidências exemplares
da existência de um mundo de “coisas-em-si” absolutamente universal
e neutro que transcende os seres humanos.3 A procura de “coisas-em-
si” deu-se também no próprio mundo dos “homens-entre-si”, embora
neste caso lhe seja usualmente atribuído um grau menor de sucesso
histórico.4 Agenciou-se, tentou-se e ainda tenta-se descobrir causas ou
formas dadas a priori nos comportamentos dos “homens-entre-si” (dos
indivíduos e dos grupos), buscas que principalmente a partir do século
XIX configuraram as ciências humanas e sociais. Este agenciamento levou,
por exemplo, aos enunciados das ferrenhas leis da ciência econômica,
leis das quais não faria sentido discordar e contra as quais seria inútil
lutar pois seriam descobertas das próprias essências do comportamento
dos indivíduos e dos agrupamentos humanos, leis que fariam parte da
Natureza da Sociedade e do Indivíduo, e portanto tão independentes
da política quanto as condições atmosféricas.5

2 Para uma explicação ao mesmo tempo sucinta e detalhada de como opera a se-
paração entre estes dois tipos de mundo (uma proposição de Kant que configura a
modernidade), ver o prefácio da edição espanhola de Ciência em Ação (Latour, 1992)
3 A literatura matemática e sobre a matemática encontra-se cheia de sugestões deste
salto da matemática para um mundo que transcende os humanos. Ver, por exemplo,
Wells (2005) e Marques (2008b).
4 Mesmo Thomas Kuhn, escrevendo na década de 1960, considerava que as ciências
sociais não tinham “ainda” a maturidade das ciências naturais.
5 Sobre isto ver a magistral descrição que faz Karl Polanyi ([1944] 2000) do papel
desempenhado pelos argumentos científicos da época na criação do mercado de tra-

195
A constituição moderna, para usar a expressão de Bruno Latour
que se refere ao catecismo epistemológico que apontei acima – embora
ela não seja obedecida pelos construtores de fatos e artefatos tecnoci-
entíficos, como, espero, ficará, claro logo adiante6 – separa em esferas
distintas as diferenças e transformações percebidas na realidade em
fluxo, colocando em cena um grande divisor. De um lado, fazendo parte
do mundo das “coisas-em-si”, poderão estar, por exemplo, as diferenças,
transformações ou curas resultantes do atravessamento das fronteiras de
nossos corpos pelas moléculas componentes de um remédio; as análises
das reações desencadeadas pelo uso, na higiene bucal, de determinada
planta; as características das ligações entre circuitos semicondutores
que dotam um determinado projeto de computador com a capacidade
de modificar uma memória eletrônica e fazer inscrições em materi-
al magnético, luminoso ou papel. De um lado, está a Natureza, estão
os espaços supostamente isolados e estudados pela bioquímica e pela
eletrônica. De outro lado, compondo o mundo dos “homens-ente-si”,
poderão estar, por exemplo, as diferenças e transformações resultantes
do atravessamento das fronteiras do corpo social que separam, de um
lado, as empresas que competem no mercado de determinado remédio
e, de outro, os consumidores que terão acesso a ele; as diferenças de
estratégias de marketing entre multinacionais e pequenos fabricantes
locais de produtos de higiene; as leis do direito à propriedade intelectual
e as condições legais que definem equivalência e separam uma cópia
ilegal (“pirata”) da utilização legítima de um conhecimento prévio ou
adquirido em processo de engenharia reversa. Neste outro lado está a
Sociedade, estão os espaços onde as ciências sociais e políticas, organi-
zacionais, da economia e do direito, ainda que muitas vezes com ardor
arrefecido atualmente, procuram descobrir as leis de uma Natureza que
seria a Natureza da Sociedade.
No entanto, os Estudos CTS das últimas décadas mostraram que
o isolamento das duas esferas não é praticado pelos cientistas na cons-
trução de configurações estáveis no fluxo. O catecismo do isolamento é
apregoado somente no momento da explicação – é um recurso epistemo-
lógico e não um recurso dos contrutores de fatos científicos ou artefatos

balho na Inglaterra na primeira metade do século XIX, em especial o Capítulo 10 – A


economia política e a descoberta da sociedade.
6 Esta desobediência é um ardil da epistemologia moderna que teve papel crucial
nos agenciamentos que proporcionaram ao Ocidente o grau singular do seu sucesso
como cultura imperial. Sobre este ardil ver Marques (2008a).

196
tecnológicos. Bruno Latour compara essa situação à de crianças que
brincam de “Batatinha frita um... dois... três!”. Enquanto há controvérsia
entre os cientistas a epistemologia está de olhos fechados e os cientistas
avançam o quanto e como podem em um mundo sem separação entre
o que é natural e o que é social. Terminada a controvérsia, “... três!”, a
epistemologia gira, abre os olhos e constrói o grande divisor a partir
das entidades estabilizadas que os cientistas lhe oferecem, cada qual
em seu lugar, como estátuas.7 Neste quadro, como em um instantâneo
fotográfico, observam-se, como observamos as constelações, as formas
estáveis (já sem controvérsias) previamente configuradas, estabelecidas
pelos cientistas em consenso. É neste exato momento que as formas
já provisionalmente estabilizadas e batizadas pelos cientistas, tendo
adquirido os nomes de entidades, tornam-se “objetos”, são separadas
do mundo dos “homenes-entre-si” e coletadas por esta portentosa en-
tidade denominada Natureza, passando a fazer parte do mundo das
“coisas-em-si”. É um raro, belo e também horrível, momento em que
os cientistas passam de relativistas a realistas. Apagando a maior parte
do trabalho de justaposição de elementos heterogêneos que levam às
configurações provisionalmente estabilizadas, a epistemologia traça um
grande divisor entre Natureza e Sociedade, e coloca os construtores de
fatos científicos e artefatos tecnológicos como “descobridores do real”
e não como “criadores de um real”.
Ao aniquilar a heterogeneidade em fluxo e ocultar o trabalho de
justapor os elementos heterogêneos em constante modificação na confi-
guração de entidades, este golpe epistemológico de separação Natureza
x Sociedade cria um mundo eterno, dotando a ciência ocidental (pois
é ela que está em cena como construtora de conhecimento) com este
estranho poder de inventar-construir-descobrir-criar objetos que sempre
existiram, uma vez que tenham sido inventados-construídos-descober-
tos-criados, objetos que se apresentam como a-históricos. Há dúvidas
de que os Fenícios respiravam o oxigênio séculos antes de Lavoisier
tê-lo “descoberto”? É claro que não, mas esta certeza passa a admitir
outras traduções, quando nos damos conta de que o “oxigênio” é uma
configuração no fluxo. A entidade “oxigênio” é uma configuração que
podemos observar e que atua nas reações químicas, assim como as
constelações atuam na orientação das navegações, e não uma forma que
esteja lá, já posta, uma coisa-em-si previamente dada, independentemen-

7 “Estátuas” é como se chama esta brincadeira na língua inglesa.

197
te das condições vigentes na França nas décadas que precederam 1789,
dos instrumentos, das pesagens, das experiências e dos conhecimentos
prévios, das suposições que sustentam seu aparecimento e estabilização.
Mais especificamente tais condições eram, dentre inúmeras outras cir-
cunstâncias de escalas diversas, a criação pela monarquia de um órgão
do Estado para cuidar das Minas e Pontes e Calçadas, o estímulo do
interesse dos cientistas pelo bem público por meio de concursos sobre
problemas práticos de ordenamento do território, a disponibilidade de
fornos, balões, retortas, alambiques, cucúrbitas, campânulas, especial-
mente da balança e da “caixa pneumática”, do savoir-faire e engenho-
sidade dos artesãos para obter instrumentos cada vez mais precisos e
aperfeiçoados, da colaboração com diversos especialistas dos métodos
ou dos assuntos relevantes (Bensaude-Vincent, 1996:198-201).
A partir da sua colocação em um mundo das coisas-em-si, na
Natureza, incorruptível e separada dos humanos, os fatos científicos e
artefatos tecnológicos, que são desenvolvimentos de um empreendimento
europeu de construção de conhecimento, passaram historicamente a
usufruir dos atibutos de universalidade e neutralidade. Esta atribuição
dotou o conhecimento científico, tanto na Europa quanto fora dela, com
um poder especial. Estes atributos, que concedem uma transcendência
ao conhecimento científico-tecnológico, se traduzem imediatamente em
práticas políticas ou formas de poder. Ou seja, as questões científicas
não podem ser decididas por Deus, pelo Príncipe ou pelo Povo, mas sim
por um grupo especial de pessoas: os cientistas, especialistas ou técnicos.
É justamente por isto que afirmar que “Isto é uma questão técnica!” é
um ato político tanto na Europa quanto fora dela. Mas isto não quer
dizer que os atributos de universalidade e neutralidade tenham efeitos
em tudo, de forma semelhante, na Europa e fora dela, no centro e na
periferia, no global e no local, para “colonizadores” e para “colonizados”,
para os “modernos” e para seus “outros” (Marques, 2008a).
Os conhecimentos das ciências modernas são gerados em lugares
específicos e são, portanto, formas e entidades configuradas a partir de
heterogeneidades específicas, de justaposições materiais específicas, a
imensa maioria delas ausentes e afastadas do Brasil. Contudo, ao saírem
de onde eram gerados, os conhecimentos das ciências modernas dei-
xavam para trás muitas das condições específicas de sua geração, eram
laureados como conhecimentos universais e neutros, e assim continua
até hoje, a despeito dos avanços no campo dos Estudos CTS (Ciências-
Tecnologias-Sociedades). Assim, os substantivos que saem dos “centros

198
de cálculo” (Latour, 1998) da Europa trazem essências, características que
a epistemologia apresenta como transcendentes em relação às condições
locais da própria Europa, e passam a usufruir um adicional de valor,
passam a ser de alguma maneira superior aos meros conhecimentos
locais. Por meio dos substantivos que vêm da Europa8, as entidades
que habitam o universo europeu passam a constituir um universo que
adotamos, como que pronto, com sendo “o” universo e, portanto, o
“nosso” universo. A vida acadêmica e a vida industrial, a política e a ad-
ministração das ciências e das tecnologias adotam sem mais cuidados,
mundo afora, os substantivos da Europa e consequentemente perdem
de vista o trabalho de divisão do fluxo que envolve a construção das
entidades que povoam o universo europeu. Os outros, não europeus,
não modernos, “acreditam” na universalidade e na neutralidade das
entidades nomeadas pelos substantivos e não dirigem seus esforços para
problematizar a divisão Natureza x Sociedade que adotam, uma divisão
gerada nas condições históricas específicas da Europa. E, na prática,
perdem a capacidade de enxergar que as entidades, as coisas, os objetos e
os sujeitos, os substantivos que recebem da Europa, os recebem eivados
das especificidades europeias e que nem sempre serão as configurações
mais favoráveis para incluir e ter em conta as especificidades locais na
construção de conhecimentos. Em suma, perdem tanto a ideia de que
é possivel separar e escolher, aceitar ou rejeitar as proposições que che-
gam da Europa obduradas como universais e neutras quanto a própria
noção de que as coisas ditas universais e neutras poderiam ser diferentes.
O catecismo epistemológico moderno vem sendo abandonado
principalmente a partir da década de 1980, quando um olhar etnográfico
se virou para observar o que se passa nos laboratórios até então vistos
como espaços isolados onde os fatos científicos eram descobertos e os
artefatos tecnológicos eram desenvolvidos. O olhar etnográfico reve-
lou que, longe de serem espaços isolados, os laboratórios são espaços
de paredes bastante porosas, transpassadas em um fluxo contínuo de
dentro para fora e de fora para dentro.

8 Para analisar os processos contemporâneos interessam-nos especialmente os subs-


tantivos que recebemos das ciências europeias, sejam eles provenientes da física, da
química, da biologia, da matemática, ou das ciências humanas ou sociais.

199
3
Dentro ou fora dos laboratórios e dos tribunais, a atribuição de um
nome, um substantivo, a uma forma no fluxo somente se faz possível
mediante um acordo. Enquanto houver controvérsia não se estabiliza
uma forma. Enquanto houver controvérsia não pode ser feita a nome-
ação, o batismo ou ato ontológico que precede a coleta de uma forma
pela Natureza (ou pela Sociedade) da qual passará a fazer parte. Uma
vez estabelecido um acordo, a entidade dele decorrente e por ele criada
(o átomo, o micróbio, as leis ferrenhas da economia, a natureza huma-
na), que é o mesmo que sua forma, é neste mesmo ato separada das
condições vigentes no mundo dos homens-entre-si para isolar-se no
incorruptível mundo das coisas-em-si. No entanto, nenhum acordo se
dá sem um pré-acordo sobre o que será levado em conta, sobre os limites
das questões a serem negociadas no estabelecimento desse acordo. Um
pré-acordo, implícito ou explícito, é um enquadramento da situação com
o qual concordam todos os participantes da negociação no processo
que alcança estabilização. O pré-acordo envolve, no espaço e no tempo,
as entidades que entrarão em cena no processo do qual pode decorrer
um acordo ou estabilização, mesmo que, é sabido, sempre provisional.
A estabilização de uma forma (que resulta em uma nova entidade) não
acontece sem riscos para as demais entidades a ela relacionadas e que,
ao longo do processo, se transformam, adquirem ou perdem recursos ou
aliados, robustecem-se ou desestabilizam-se. As entidades participantes
podem até mesmo se vir condenadas ao desaparecimento (mas não
necessariamente executadas assim), sejam elas entidades classificadas
como pertencentes à Natureza (o éter?) ou à Sociedade (a escravidão?).
Michel Callon chama de situações quentes aquelas em que não há
pré-acordo. Nas situações quentes predominam as rupturas e as paixões
mais violentas, pois não há uma base mínima comum, um pré-acordo
para o entendimento e a negociação. É impossível discutir um lance de
jogo se não houver acordo sobre as regras do jogo. Situações quentes são
aquelas em que os limites e as regras de negociação não estão definidos
– não existe acordo sobre os sintomas, sobre as teorias, sobre os instru-
mentos, sobre o que vem a ser a verdade, sobre os objetivos nem sobre
quem e o que, em que codições, participa do processo que pode vir a
ser um esfriamento da situação, isto é, a configuração de um pré-acordo.
Na sequência das negociações que estabilizam as entidades, um
acordo é usualmente pré-acordo para possíveis estabilizações subse-
quentes. Durante os séculos XVIII e XIX, por exemplo, o acordo que

200
estabilizou as Leis de Newton como uma entidade da Natureza serviu de
pré-acordo entre os físicos para que houvesse o acordo segundo o qual
“a quantidade de matéria fosse uma categoria ontológica fundamental e
as forças que atuam entre pedaços de matéria constituíssem os tópicos
dominantes para a pesquisa” (Kuhn, 1992 [1969]:63). Mas nem todos
os exemplos precisam ser tão grandiosos. A mera concordância de que
um instrumento de medida é o que captura o comportamento de uma
entidade em processo de estabilização pode configurar um pré-acordo.
Um pré-acordo, por exemplo, de que “o índice de Gini mede a distribuição
de renda em um país” possibilita estabilizações de entidades (constru-
ção de conhecimentos, estabelecimentos de fatos, outros acordos) na
disciplina economia social.
Ainda que de modo um tanto imperfeito, as ideias de pré-acordo
ou enquadramento e acordo reverberam, respectivamente, as ideias de
paradigma e ciência normal de Thomas Kuhn. Embora essa compara-
ção possa manter algo de uma relação e ter utilidade explicativa, ela é
bastante imperfeita devido a uma diferença crucial: enquanto as ideias
de paradigma e ciência normal de (Kuhn, 1992 [1969]) remetem a uma
comunidade de cientistas, as ideias de enquadramento e acordo remetem
a um coletivo de híbridos, entidades definidas a partir de suas ações,
ou seja, a partir do que fazem. E nenhuma ação pode ser praticada por
um ser humano (ou uma comunidade de cientistas) sem o concurso
das coisas. “Eu não falo sem o ar”, diria John Law.
No entanto, em muitas regiões do globo, com efeito, a imensa maioria
dos coletivos locais não participa da estabilização da enorme procissão
de objetos que a modernidade europeia produz e exporta, colonizando
os tempos e lugares com o auxílio deles, os quais são divulgados como
portadores de atributos absolutos de universalidade e neutralidade. Assim
como a constelação citada anteriormente, vista por Alicia e John não
se prestará a ser vista por quem não conheça um guarda-chuva ou não
tenha um olho humano, ou por quem esteja (muito) distante daquele
ponto de observação, uma entidade não tem em conta nem mostra o
que está ausente das negociações que, no acordo circunstanciado por
um pré-acordo, levaram à sua configuração provisionalmente estável. Ao
exportar objetos que não mostram o que esteve ausente nos processos
que os estabilizaram, a colonização europeia expandiu-se, tipicamen-
te, “capitalizando o fato de que não se pode dizer, ao se olhar para um
veículo motorizado, de quem ele é, ou os poderes que ele mobiliza”
(Strathern, 1999:158)

201
No entanto, pode-se dizer com segurança que qualquer acordo
envolve uma redução e que a maior parte do mundo está de fora de
qualquer acordo. Um contrato, pela sua própria qualidade de objeto finito
– nenhum contrato poderá abrigar um número infinito de cláusulas –,
jamais poderá prever a infinitude aberta de situações que poderão surgir.
Note-se que isto se aplica até mesmo a um simples contrato de aluguel ou
de compra e venda, por exemplo, que visa prever, discutir e estabelecer
acordo sobre as situações que podem vir a ocorrer. Usualmente surgem
situações não previstas no contrato (acordo). Os economistas sabem
bem disso e trazem à cena a noção do “contrato contingente” – neste
caso, as partes contratantes precisam entrar novamente em contato para
(re)negociar o que fazer (uma nova estabilização).
Todos os enquadramentos e acordos se dão em espaços e tempos de-
limitados e, portanto, demarcam um território. Contudo, transbordar um
enquadramento ou des-territorializar uma situação é algo que acontece
frequentemente. Dois exemplos: 1) No enquadramento de uma aula de
matemática o professor explica frações e enuncia a seguinte proposição:
“uma atleta premiada tem 69 anos de idade e nadou durante um terço
de sua vida”. Um aluno pergunta: “Quantas medalhas ela ganhou?”; e
transborda o enquadramento da aula de matemática, em que a pergunta
esperada seria “Quantos anos ela nadou?”. 2) Uma mulher pobre ganha
um prêmio e, em seu barraco, concede uma entrevista a uma emissora
de televisão nacional. A jornalista lhe pergunta: “O que você vai fazer
com o dinheiro do prêmio?”; e a mulher responde: “Vou comprar uma
televisão”. A câmera faz uma tomada circular de todo o barraco e a jor-
nalista interpela: “Mas você não tem uma geladeira!”. A mulher retruca:
“Eu não preciso de geladeira para (conservar o tipo de) comida que como”,
desterritorializando assim pré-acordos ou enquadramentos implícitos
(e morais) da racionalidade, nesse caso relativos às necessidades de
consumo das pessoas (a geladeira ‘deve’ vir antes da televisão).
De que todos os enquadramentos e acordos demarcam territórios,
decorre o fato de que todas as estabilizações (objetos) que se configuram
no fluxo, ou seja, todas as entidades, estão associadas a um ou, mais
precisamente, a muitos territórios.9 Mas se já sabemos situar a univer-
salidade e a neutralidade dos fatos e artefatos científico-tecnológicos, ter
em conta o carater finito, reducionista dos enquadramentos e acordos
aponta linhas de fuga dos territórios demarcados, linhas que levam a

9 Sobre este ponto ver Star e Griesemer (1989).

202
novos espaços, linhas que podem des-territorializar as entidades expor-
tadas da Europa. Dada a infinitude de des-territorializações possíveis, as
escolhas das linhas de fuga serão necessariamente situadas. Contudo, o
interesse na problematização dos efeitos da colonização sugere a procura
de novos espaços onde, ao propor renegociações se possa (parafraseando
Marilyn Strathern), a partir de uma entidade, saber “de quem ela é ou
os poderes que ela mobiliza”. E esta procura sugere pesquisas que des-
territorializem os enquadramentos europeus para que se explicitem as
ausências nos enquadramentos e acordos que estabilizaram os objetos
que recebemos da Europa como universais e neutros. Mediante estes
estudos e pesquisas os mundos não-europeus, os “outros” da moder-
nidade, poderão fazer escolhas sem cair em xenofobias ou aceitações
incondicionais dos estrangeiros.10
Excluídas as circunstâncias das situações quentes em que rupturas e
paixões violentas prevalecem (guerras, terrorismo), a única maneira de
evitar o transbordamento dos enquadramentos e acordos seria renunciar
de forma absoluta às transações. Em outras palavras, os acordos, assim
como os objetos, estão no fluxo e são relativos e precários. Lançando
mão novamente do exemplo de Marilyn Strathern, se estudarmos e
pesquisarmos os enquadramentos e os acordos que estabilizaram um
“veículo individual a motor”, encontraremos as condições de des-terri-
torialização dos enquadramentos em que até agora eles se constituíram
e se estabilizaram historicamente “de quem ele é e os poderes que ele
mobiliza”. As des-territoralizações decorrentes desses estudos e pesquisas
poderão propiciar, por exemplo, uma nova linha divisória entre, de um
lado, uma cópia inaceitável e, do outro, uma engenharia reversa inevitá-
vel11 do “veículo individual a motor”, ou ainda transformar radicalmente
a própria noção de um “veículo individual a motor”.

10 Vale observar o que dizem estudiosos das relações entre o Japão e o Ocidente
sobre a capacidade japonesa de fazer escolhas, desde as aproximações entre aquele
país e a modernidade no século XIX. “É precisamente porque os japoneses não acei-
taram sempre o capricho ocidental de uma relação privilegiada unilinear certifican-
do um desenvolvimento em seqüência e gradual que o discurso sobre o moderno
[no Japão] foi capaz de prover um espaço de conhecimentos tanto para resistir às
exigências da razão ‘universal’ que mascara um etos ocidental imperial quanto para
se render a ela.” (Miyoshi & Harootunian, 1989: xvii; ênfase no original).
11 Ver a citação de Michel Callon na introdução.

203
4

A epistemologia outorgou à ciência a capacidade de produzir co-


nhecimentos supostamente válidos em qualquer situação, ou seja, não
situados. Os estudos feministas denunciam o truque do “olho de Deus” da
ciência, um olho que vê, ou pode ver, tudo mas não é visto por ninguém.
No entanto, nos estudos de laboratório observa-se, desde a década de
1980, como este olho da ciência funciona, e hoje, no campo dos Estudos
CTS, considera-se que todos os conhecimentos são “conhecimentos
situados”,12 circunscritos a um enquadramento em meio a um coletivo
também situado de entidades.
De quem é o Juá e que poderes ele mobiliza?13 O Juá é uma planta
típica, utilizada para a higiene bucal no Nordeste brasileiro. O povo
enquadra o que o Juá faz. Já as propriedades desinfetantes do Juá são
entidades configuradas no encontro da Europa com a herança do conhe-
cimento popular de provável origem indígena. Elas são hoje difundidas
em sites na Internet.14 O Juá em pó é vendido nas feiras populares em
saquinhos e a casca da árvore é usada para limpar os dentes. Pequenas
indústrias locais usam a planta como ingrediente de seus produtos que
produzem efeitos terapêuticos iguais aos do Juá in natura. Estas empresas,
no entanto, disputam o mercado sem fazer qualquer reivindicação de
autoria sobre o conhecimento que justifica o uso do Juá em seus pro-
dutos. Igualdades e diferenças postas em cena na competição entre os
produtos se configuram para além do enquadramento das propriedades
terapêuticas do Juá, entidades de conhecimento que não deixam de ser
de todos, de cujo enquadramento estão ausentes autores ou proprietários.
As entidades que se configuram na “sabedoria popular” ficam assim
caracterizadas por autores e proprietários indefinidos e difusos e por
uma escala de atuação vinculada a um certo território.
O batismo científico do Juá como Ziziphus joazeiro Mart des-ter-
ritorializa o enquadramento do conhecimento popular, colocando-o
em um campo de provas que, conforme são vencidas, vão modificando

12 Para uma referência precisa sobre “conhecimentos situados” ver Haraway (1988).
13 Márcia Jurkiewics Bossy iniciou uma pesquisa sobre o Juá e a ela agradeço parte
do material que uso aqui, bem como ter trazido o caso para minha atenção.
14 http://www.indiosonline.org.br/blogs/index.php?blog=6&disp=comments, aces-
so em 06/04/2010;
http://www.plantamed.com.br/plantaservas/especies/Ziziphus_joazeiro.htm, aces-
so em 06/04/2010;
http://www.cnip.org.br/bdpn/ficha.php?cookieBD=cnip7&taxon=5211, acesso em
06/04/2010

204
sua escala de atuação. A nova entidade, o novo Juá, agora diferente,
expresso em artigos científicos, em classificações, em mapas e tabelas,
deixa de ser de todos, mas tem autorias e entra em cena como obra de
outras entidades (coisas, pessoas ou instituições) que estão presentes
nos acordos que estabilizam o Ziziphus joazeiro Mart e garantem o
conhecimento sobre ele (e seus “princípios ativos”).
Em meio às possibilidades abertas pelo Ziziphus joazeiro Mart, salta
aos olhos uma diferença que a Unilever exerceu em relação às pequenas
empresas locais do Nordeste brasileiro. No anúncio de seu produto, a pasta
dental Cristal, a Unilever apresenta as propriedades desinfetantes do Juá
como “fato científico” comprovado em seus laboratórios. “Confirmamos
que a erva possui mesmo bom poder de limpeza”, afirma Mônica Berto,
gerente de desenvolvimento de produtos da Unilever.15 Deste modo, a
Unilever reforçou um movimento que tende a traduzir/transladar o
Juá de onde suas propriedades circulam como conhecimento popular
para colocá-lo, trans-substanciado em Ziziphus joazeiro Mart, onde
elas circulam como conhecimento científico. No mesmo movimento,
a Unilever adianta-se em assumir a posição de porta-voz do Ziziphus
joazeiro Mart. Este se diferencia do Juá e poderá ser integrado a produtos
de qualidade certificada, poderá ser protegido da “pirataria” e poderá
mesmo, trans-substanciado, retornar à população que já o conhecia antes
de se tornar diferente, antes de se tornar “científico”. Uma autoridade
poderá se consolidar sobre o destino do Ziziphus joazeiro Mart e poderá
enfeixar o direito de decisão sobre quais produtos (traduções/translações)
do Juá constituem inovações legítimas. Uma eventual reivindicação de
propriedade poderá se dar pelos mecanismos de atribuição e reconhe-
cimento de responsabilidade e mérito, endurecidos na materialidade
das citações de artigos, da obtenção de patentes, dos copyrights, etc. e a
Unilever poderá estar bem posicionada para fazê-lo.
De quem é o Macintosh e que poderes ele mobiliza? No final dos
anos 1980 a Unitron, uma empresa de São Paulo, fez a engenharia reversa
do computador Macintosh da Apple. O produto foi denominado “o
Mac da periferia”. O governo brasileiro comissionou duas universida-
des para que preparassem relatórios técnicos independentes sobre ele.16
Ambas concluíram que a Unitron havia realizado engenharia reversa
e que não havia simplesmente copiado os circuitos e os programas da

15 À revista Veja, em 30 de junho de 1999.


16 Relatórios feitos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (datado de 14-05-
1987) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (datado de 19-5-1987).

205
Apple. Segundo esses relatórios, a equipe técnica da Unitron possuía
um conhecimento sofisticado do produto e de sua lógica interna, assim
como uma documentação detalhada de seu desenvolvimento. Além
disso, em novembro de 1987, “a Apple não havia registrado nenhuma
patente relativa ao Macintosh no Brasil, e não teria como fazê-lo em
virtude do tempo que se passara desde que fora lançado no mercado”.
O relatório concluía que, “dentro dos limites técnicos”, isto é, com a
menção explícita do enquadramento, “o projeto (de fabricação do clo-
ne do Macintosh) obedece à legislação em vigor e recomendamos sua
aprovação” (Relatório SEI sobre o processo F-026398-85 aprovado em
20-11-1987, à página 5). O governo brasileiro estava sendo compelido a
aprovar o projeto da Unitron. Contudo, este fato era inaceitável para o
governo norte-americano, que em retaliação ameaçou impor barreiras
comerciais às exportações de empresas brasileiras para os Estados Unidos.
Em 18 de dezembro de 1987, sob forte pressão política, o enquadramento
do projeto da Unitron mudou: foi aprovada uma nova lei específica que
passou a regulamentar o setor de software.17 Em 22 de janeiro de 1988,
foi feito um adendo ao relatório referente à parte do projeto relativa ao
software.18 De acordo com este adendo, a aprovação do projeto estaria
subordinada à apresentação, por parte da Unitron, de maiores infor-
mações e, possivelmente, de desenvolvimentos adicionais a ele. Em 21
de março de 1988, o governo brasileiro indeferiu o projeto, alegando
que “a Unitron havia começado a comercialização do produto antes de
sua aprovação final”.
Entretanto, o novo enquadramento, resultante da nova “Lei de
Software”, não elevou os custos de clonagem dos computadores Macintosh
o suficiente para que a Unitron não levasse adiante a sua iniciativa.
Nesse meio tempo, a Unitron re-avaliara a situação, decidindo-se por
não parar o projeto. Em vez de desistir, a Unitron abandonou o modelo
512 e decidiu estudar / clonar o Mac 1024, o modelo seguinte da Apple.
Em 29 de março de 1988, a Unitron deu entrada em um novo projeto
para a fabricação de um clone do Macintosh, denominado Unitron
1024. Após uma nova rodada de contatos, negociações e contratos com
instituições governamentais, universidades e uma companhia americana,
a Unitron alegou ter completado o projeto de um clone do Macintosh
mediante o uso de técnicas de “engenharia reversa”. Pode-se dizer que

17 Lei nº 7646, conhecida como Lei de Software.


18 Adendo ao Relatório Técnico de 11 de novembro de 1987, datado de 22-01-1988,
relativo ao processo 07824-87-4

206
a Unitron passou a acoplar um escritório de advocacia, estendendo o
seu laboratório no sentido estrito do termo. Em poucos meses este novo
laboratório estendido havia refeito as contas, observando atentamente
o novo enquadramento e decidindo cuidadosamente o que deveria ser
feito com base nos custos da engenharia reversa.
No entanto, em 1 de agosto de 1988, o governo brasileiro indeferiu o
projeto da Unitron com base em “deficiências técnicas”. Em 10 de agosto
de 1988, a Unitron apelou a um tribunal de recursos para que a decisão
fosse revista. Os custos da clonagem, sem dúvida, haviam aumentado
para a Unitron, que teve que pagar por uma nova rodada de interações
com o governo, universidades e outros contratados. O laboratório esten-
dido permitiu, no entanto, que a Unitron se mostrasse confiante diante
do tribunal de recursos, afirmando que seu modelo 1024 poderia “ser
legitimamente aprovado no Brasil ou em qualquer outro país, pois era
resultado de um inestimável trabalho de engenharia reversa da máquina
original americana” (Apelo ao CONIN por parte da UNITRON para
reavaliação da decisão da SEI de indeferir o projeto de fabricação de um
clone do Macintosh no Brasil, datado de 10 de agosto de 1988, à página
11). O tribunal de recursos era composto por oito delegados de ministros
do governo federal e oito representantes independentes da sociedade
civil.19 Em 19 de dezembro de 1988 o tribunal manteve o indeferimento em
uma votação de oito a sete. Todos os sete representantes independentes
presentes à reunião votaram a favor da Unitron.20 Todos os integrantes
que eram ministros votaram em contrário, com exceção do Ministro
da Aeronáutica, que se absteve (Jornal do Commercio, 20 de dezembro
de 1988). A Unitron encerrou suas atividades.
No primeiro caso, a Unilever utiliza o laboratório para legitimar o
conhecimento popular, e seu movimento se dá no sentido da sociedade
para o laboratório. Já no segundo caso, independentemente do desfecho,
a Unitron vale-se do tribunal para obter respeitabilidade para seu labo-
ratório, em um movimento que se dá no sentido do laboratório para a
sociedade. Em ambos os casos, os movimentos e disputas não podem
ser confinados nem ao laboratório nem ao tribunal, mas se ancoram
nos espaços que denomino labordireitórios.

19 No caso de empate, o Ministro da Ciência e da Tecnologia, presidente do CONIN,


tinha o voto de Minerva.
20 O representante da Associação de Profissionais de Processamento de Dados –
APPD – faltou à reunião.

207
À guisa de conclusão

Para o moderno, o passado é algo útil;


para o ibero-americano é um obstáculo.

Leopoldo Zea

Bruno Latour afirma que os modernos “jamais fo[ram] modernos”


pois os próprios modernos (europeus) não cumprem o dispositivo
constitucional da modernidade que determina não misturar a acumu-
lação de conhecimento sobre o mundo das “coisas-em-si” com o que
acontece no mundo dos “homens-entre-si”. A vida sempre agitada dos
construtores de fatos é momentaneamente congelada pela epistemologia,
configurando-se aí, nesse quadro estático, o cenário da grande divisão
Natureza x Sociedade.
Não obstante este esforço da epistemologia moderna para colocar
a divisão Natureza x Sociedade na natureza das coisas, pode-se também
ver que tudo é fluido e as fronteiras não são estáveis. Limites precisos,
permanência e obduração são sempre provisórias. A separação entre
Natureza e Sociedade que hoje aparenta a evidência e a naturalidade de
algo que está previamente posto e dado no mundo, sobre o qual não há
nada a fazer, é uma construção histórica, contingente da modernidade eu-
ropeia. Como consequência disso, não há nenhuma razão transcendente
para que outros povos tenham que aceitá-la sem problematizá-la ou
até mesmo rejeitá-la, parcial ou totalmente, conforme os modos pelos
quais escolham viver.
À guisa de sugerir conclusões e reflexões, em relação às possibilidades
de deslocamento das fronteiras traçadas pelos europeus entre o mundo
das coisas-em-si e o mundo dos humanos-entre-si e às possibildades
de legitimação de novos objetos, sujeitos, direitos e deveres que delas
podem decorrer, quero chamar atenção, a partir dos casos heterogêneos
do “Mac da periferia” e do “Juá” apontados acima, para circunstâncias
que julgo relevantes para regiões de mestiços ou “povos novos”, se qui-
sermos utilizar a expressão de Darcy Ribeiro (1995).
Sugiro que, pelo menos em certos casos, uma vez que os limites
de uma estrutura referencial tenham sido negociados, circunscritos e
fixados em enquadramentos formais (contratos, acordos de compra e
venda, patentes, direitos autorais, etc.), as dificuldades para duplicar em
laboratório (e fábricas) o funcionamento de produtos são relativamente

208
pequenas, mesmo para os produtos classificados como intensivos em
tecnologia, como era o caso do Macintosh. Por outro lado, ressalto que
o caso Unitron ilustra a fluidez das leis que organizam parcialmente
o pré-acordo para enquadramento (o acordo para discussão) da situ-
ação. O governo brasileiro estava a ponto de aprovar o Unitron 512 ao
observar que a Apple não havia depositado as patentes do Macintosh
no Brasil, o que, contudo, era inaceitável para a Apple e para o governo
norte-americano, que ameaçou impor sanções comerciais ao Brasil.
Algo no enquadramento deveria ceder. A legislação do software no
Brasil revelou-se o elo mais fraco na corrente e foi modificada. Com a
mudança do enquadramento, as características das máquinas, que antes
materializavam uma diferença que justificava a aprovação do projeto,
passaram a não excluir a possibilidade de uma igualdade, uma cópia
inaceitável. O status legal do modelo 512 da Unitron mudou.
Os poderes governamentais, a ordem legal e as características das
máquinas são vinculados. Eles não são independentes como afirmavam
as construções teóricas tradicionais da modernidade, o que explica as
oscilações da ordem legal ao mover-se de uma forma de estabilidade
para outra forma de estabilidade que incluía os “interesses” agrupados
nos dois governos, nas empresas e nos circuitos das máquinas – o que
os circuitos permitiam que fosse feito mantendo a diferença das máqui-
nas e a igualdade das funções junto ao mercado. O caso Unitron indica
que, no interior do laboratório, é possível produzir um clone de um
dado computador a custos relativamente pequenos, duplicando suas
características funcionais enquadradas em um referencial bem definido.
Nestes casos, nos espaços entre o laboratório e o tribunal (labordirei-
tórios), as maiores batalhas têm o viés do tribunal, onde serão julgados
os esforços de cada litigante para estabelecer uma história respeitável
para uma demarcação que lhe seja favorável entre a cópia inaceitável e
a engenharia reversa que é, no limite, inevitável.
Tomando emprestadas as palavras de Geoffrey Bowker no seu
precioso estudo das patentes da Schlumberger, a Unitron tornou a sua
“uma história suficientemente respeitável para ir a julgamento com ela,
e isto era tudo que era preciso” (Bowker, 1944:124, ênfase no original)
Para os habitantes do nordeste brasileiro de poucas décadas atrás,
não era estranho o hábito de limpar os dentes com gravetos de juá e
várias pequenas empresas locais comercializam produtos de higiene pes-
soal tendo como base essa planta. Aparentemente, a nenhuma delas, no
entanto, havia parecido conveniente ou necessário aliar-se à ciência para

209
legitimar seus produtos. Quando, no entanto, a multinacional europeia
Unilever lançou o creme dental Sorriso com base no juá, afirmou ter
testado e confirmado as qualidades da planta em seus laboratórios. Ao
fazer isto a Unilever traduziu/transladou o conhecimento acumulado
ao redor do juá de um regime de verdade (o da crença popular) para
outro (o das verdades científicas estabelecidas em laboratório). Este mo-
vimento de tradução/translação, que naquele momento poderia ter sido
perfeitamente visível a um olhar supostamente instrumentalizado, não é
focalizado como tal e pode ser rapidamente esquecido pelo habitante local.
No entanto, esta tradução/translação não acontece espontaneamente, mas
requer investimento ou, em linguagem mais etnográfica, requer trabalho.
Após algum tempo, contudo, os efeitos deste trabalho são naturalizados,
isto é, enxerga-se com facilidade a divisão entre o que os substantivos
“crença” e “ciência” denominam, mas esquece-se de que houve o trabalho
que trouxe esta divisão para a materialidade ou “realidade”, distribuindo
e posicionando entidades (tais como as propriedades higiênicas do juá)
de um ou outro lado do divisor. Uma vez naturalizados seus efeitos, o
trabalho envolvido na construção do divisor, que é precisamente um
divisor entre conhecimentos que se configuram na chamada “sociedade”
e conhecimentos que se configuram na chamada “natureza”, deixa de
aparecer, mesmo que cotidianamente refeito.
A divisão Natureza x Sociedade é construída por configuração,
seleção e classificação de entidades, de noções, de “coágulos” mais ou
menos obdurados no fluxo.21 Este processo histórico de co-construção,
pelos europeus, de uma Natureza de um lado e uma Sociedade do outro
tem um efeito deletério no cotidiano das práticas brasileiras na saúde, na
engenahria e no direito: a configuração da crença em oposição à ciência
como tipos diferentes e epistemologicamente separáveis de conhecimento.
Como a própria divisão Natureza x Sociedade aparece “naturali-
zada”22 para os latino-americanos hoje submersos, por assim dizer, na
modernidade europeia, isto é, a natureza aparece como fazendo parte
de um mundo existente a priori nas coisas-em-si e independente do
que fazem os homens-entre-si na sociedade, está aberto o caminho para
que a crença apareça como fazendo parte da sociedade ou da cultura,
algo relativo, enquanto a ciência diz como a natureza propriamente “é”.
O conhecimento da crença tem origem popular e circula oralmente,

21 Natureza e Sociedade são grandes entidades coletoras em permanente co-cons-


trução (ver Latour, 2005).
22 Isto é, fazendo parte da natureza.

210
o conhecimento da ciência tem origem nos laboratórios e circula em
publicações especializadas; o conhecimento popular é de todos e o
conhecimento científico é de alguns; o conhecimento da crença é do
povo, o conhecimento da ciência é dos que sairam da caverna e viram
a luz.23 Logo, o conhecimento da crença é duvidoso, o conhecimento
da ciência é confiável; a crença precisa ser validada pela ciência; é le-
gítimo não remunerar o conhecimento popular, visto que ele já é de
todos, e remunerar o conhecimento científico que é somente de alguns;
o conhecimento popular é público e brota “naturalmente”, o conheci-
mento científico exige investimentos, é remunerado e é (cada vez mais,
e justificadamente) propriedade de alguém ou de uma instituição.
O enorme trabalho cotidiano necessário para que a crença de que
as coisas se dão, grosso modo, mais ou menos segundo o parágrafo acima,
é apagado. A própria intelectualidade brasileira, em grande parte, ansi-
osa por ser moderna e até por se julgar parte de uma Europa deslocada
para esta região, não tem a disposição para enxergar que há outras
possibilidades de tratar o mundo além daquela divisão entre Natureza e
Sociedade que a modernidade europeia oferece ao mundo sob o manto
da universalidade e da neutralidade.
O divisor Natureza x Sociedade e os significados difundidos dos
atributos “neutralidade” e “universalidade” entram em cena nas especifi-
cidades e contigências da história da modernidade europeia. Entretanto,
uma espécie de paradigma da epistemologia moderna esconde o enorme
trabalho de divisão que cria os atributos e os mantém. Um enorme
trabalho de divisão que precede a divisão do trabalho tão estudada por
engenheiros, economistas e sociólogos. De modo geral, entre os euro-
peus e aqueles que foram por eles colonizados ou catequisados, o divisor
Natureza x Sociedade aparece como parte do mundo já existente, e não
como uma situação resultante de trabalhos cotidianos de intervenção e
de justaposição de ações e elementos heterogêneos que vão, por exemplo,
desde os cientistas a tomar como missão expandir a proposta de Galileu
de construção das ciências modernas, passando pela leitura dos jornais
diários em que profissionais de todas as especialidades dizem que “esta
decisão é técnica e não política”, até os bancos da escola primária onde
as crianças aprendem uma ecologia em que “questões da natureza” são

23 E portanto podem voltar à caverna para dizer aos que lá ficaram como “devem”
viver, legitimando a colonização e a catequese, a ideia de que o outro é alienado e
não percebe sua condição de explorado, e logo precisa ser conscientizado e libertado.

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tratadas como separadas das “questões da sociedade”, mesmo que re-
lacionadas com elas.
A atribuição de responsabilidades na construção dos fatos e artefatos
científico-tecnológicos, assentada no “privilégio da origem”24 (descoberta),
é uma estrátegia de poder, um ato de força mais do que um ato de razão.
A autoria é um dispositivo que enquadra o conhecimento para consolidar
autoridades e obediência a elas. É relevante invocarmos a importância
da diferença entre os dois processos: “produzir” e “assegurar autorida-
de sobre” diferenças (conhecimento novo, “inovações”). É relevante
ressaltarmos o papel do quê e de quem é recrutado para a construção
coletiva, mas barrado na construção da autoria de conhecimento. Se
valem aqui a linguagem econômica e a comparação com a extração dos
chamados recursos naturais ou matérias-primas, o empreendimento
científico ocidental não contempla o custo de manutenção e reposição
do próprio conhecimento popular como fonte não enquadrada das
igualdades e diferenças.
Se se faz uma opção construtivista realista, considerando-se as
práticas como a colocação em cena de “conhecimentos situados”, isto é,
levando sempre em conta as materialidades heterogêneas do lugar e do
tempo históricos em que as práticas ocorrem, pode-se abandonar a visão
relativista mais tradicional (uma única natureza centrada, que ancora o
relativismo de muitas culturas já enquadrado pelo Ocidente) para adotar
e levar a sério a possibilidade de convivências de diversas versões de
realidade (diversas naturezas-culturas ou naturezas-sociedades) sem,
no entanto, cair no relativismo absoluto ou no construtivismo social
arbitrário (sem participação das coisas) que busca encenar uma versão
de realidade em que qualquer justaposição de elementos heterogêneos
pode se estabilizar mediante acordo entre os humanos.

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