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A CRISE DO IMPÉRIO BRASILEIRO por Marcello Otávio Basile

1 – As novas composições políticas e o clamor pelas reformas


sociais
Os anos que se seguiram ao término da Guerra do Paraguai
assinalaram um novo e decisivo período de mudanças:
- a lavoura cafeeira encontrava-se em acelerada expansão
(condições naturais e imigração europeia);
- grande aperfeiçoamento dos meios de transportes com a
construção de ferrovias;
- processo acentuado de urbanização e introdução de diversos
melhoramentos – iluminação a gás, rede de esgotamento
sanitário, abastecimento domiciliar de água encanada, bondes
de tração animal, calçamento com paralelepípedo;
multiplicação dos espaços de sociabilidade - passeios
públicos, teatros, cafés, confeitarias, livrarias,
associações literárias, artísticas e musicais;
- notável incremento do comércio e dos negócios – criação de
indústrias, bancos, instituições de crédito, companhias de
seguro, sociedades anônimas estabelecimentos comerciais
variados;
- emergem novos grupos sociais – os fazendeiros do oeste
paulistas, os empresários, as camadas médias urbanas
(profissionais liberais, intelectuais, funcionários
públicos, artesãos, pequenos e médios comerciantes) que se
mobilizarão e passarão a manifestar suas ideias, aspirações
e a disputar o espaço político de forma organizada;
- crise política desencadeada pela queda do gabinete liberal
de Zacarias de Góis provocada pelas divisões políticas
ocorridas em decorrência do andamento da guerra do Paraguai
e do agravamento da crise financeira produzida por esta. Com
a volta dos conservadores, o Governo foi acusado de usar a
máquina administrativa, judiciária e policial e de todo tipo
de violência para obter a vitória nas eleições;
- as reformas propostas: reforma eleitoral que instituísse
a eleição direta nas capitais e cidades com mais de dez mil
habitantes; uma reforma policial e judiciaria, que limitasse
os poderes dos chefes de polícia e delegados, que confiasse
toda a jurisdição definitiva criminal ou cível aos juízes de
direitos, e que assegurasse e ampliasse as garantias
individuais contra a prisão arbitrária; a suspensão do
recrutamento forçado; o fim da Guarda Nacional e a
emancipação dos escravos;
- uma ala mais radical de liberais históricos fundou em 1868,
o Clube Radical, núcleo do futuro Partido Republicano que
propunha: o fim da Guarda nacional, da vitaliciedade do Sem
ado, do Conselho de estado, do Poder Moderador, a eleição os
Presidentes das províncias, o sufrágio direto e universal e
abolição da escravidão;
- os meios de que se serviram os republicanos para promover
essa conscientização foram: a imprensa, os clubes e partidos
e as manifestações públicas;
- o Manifesto Republicano: a quase totalidade dos seus 58
signatários eram advogados, jornalistas, médicos,
engenheiros, professores, funcionários públicos e
negociantes. Expressando os anseios dos setores urbanos
emergentes, as ideias defendidas pelos republicanos do Rio
de Janeiro estavam revestidas de um liberalismo mais
democrático (Stuart Mill) que se evidenciava na crítica maior
à inconsistência do sistema representativo imperial, na
preocupação mais acentuada com as liberdades e garantias
individuais.
- a fundação do Partido Republicano paulista: destacavam-se
os proprietários rurais, especialmente os cafeicultores,
sendo a participação de profissionais liberais também
expressiva, mas com muito menor peso político em relação aos
fazendeiros ou em comparação com o RJ. Os cafeicultores do
Oeste Paulista se sentiam sub-representados na política
imperial e prejudicados pela centralização, reivindicando,
principalmente o federalismo, um governo provincial mais
fortalecido e relegaram a solução do problema da escravidão
para mais tarde ou para os partidos monarquistas.

2 – A Política reformista do Gabinete Rio Branco


- a Guerra do Paraguai contribuiu para colocar a questão da
escravidão como tema de debate na sociedade brasileira.
- a ascensão política e social das camadas médias urbanas,
pouco comprometidas com o sistema escravista, contribuiu
para que se desenvolvesse uma consciência contrária à
permanência indefinida da escravidão. Esses setores passaram
a constituir o núcleo do movimento abolicionista que tomou
forma organizada a partir de fins da década de 1870. Surge
e proliferam-se jornais e clubes em defesa da causa, também
propagada em conferencias e comícios.
- No momento inicial, o movimento abolicionista mostrava-se
cauteloso, limitando-se a sensibilizar a opinião pública
para o problema e a pregar a adoção de reformas parlamentares
que melhorassem a condição dos escravos e promovessem uma
emancipação gradual e não a abolição imediata, a agitação
das massas e rebeliões nas senzalas.
- o projeto apresentado pelo visconde do Rio Branco previa:
libertação dos filhos de mães escravas nascidos a partir da
data da lei (com ressalvas; a matrícula de todos os cativos
em registros municipais (os não matriculados seriam
considerados livres); a criação de um Fundo de Emancipação
para a libertação de escravos a serem sorteados, e o direito
do escravo remir-se quando conseguisse reunir uma quantia
estipulada judicialmente.
- o ponto de rejeição que unia conservadores e liberais, era
a ideia de que o projeto obedecia à inspiração imperial e
não nacional. Além disso, havia as divergências regionais:
províncias que já não dependiam tanto da mão-de-obra escrava
como as norte e nordeste.
- a reforma judiciária: ampliava o direito ao habeas-corpus,
instituía a fiança provisória, regulamentava a prisão
preventiva e separavam as funções judiciarias e policiais.
- reforma da Guarda Nacional que praticamente desapareceu em
tempos de paz, passando os guardas a serem convocados uma
vez por ano para revista e exercícios de instrução.
- a lei do recrutamento militar (1874) que estabelecia o
alistamento de todos os homens entre dezenove e vinte e cinco
anos de idade, que deveriam servir por um período de seis
anos, e o recrutamento por sorteio para cobrir a falta de
contingente, a abolição dos castigos físicos, isentava
indivíduos com curso superior, padres, caixeiros de loja
comerciais, proprietários rurais e feitores.
- a lei do terço (1875) estabelecia um sistema de voto
incompleto, em que os votantes elegiam apenas dois terços
dos eleitores a que a paroquia tinha direito, e estes, por
sua vez, votavam também em somente dois terços dos deputados
que iriam representar a província e o terço restante das
vagas era destinado à minoria (oposição.
- introdução do título eleitoral, acabando-se assim com a
qualificação de eleitores feita a cada eleição, que dava
margem a muitas fraudes.
3 – Resistências populares às mudanças
- As resistências extremadas e violentas, pequenos e súbitos
movimentos populares para José Murilo de Carvalho configuram
uma cidadania negativa, na medida que constituíam uma forma
de participação política que se dava não a partir da
organização de grupos de interesse que reivindicavam ao
Estado demandas surgidas na sociedade, mas sim uma reação a
mudanças impostas de cima para baixo, objetivando preservar
uma situação pretérita.
- O Nordeste foi o palco principal dessas revoltas e as
primeiras ocorreram em 1851, em reação a dois decretos que
instituíram o Censo Geral do Império e o Registro Civil dos
Nascimentos e Óbitos. Em Sergipe, Ceará, Pernambuco, Paraíba
e Alagoas, os manifestantes atacavam vilas e engenhos,
ameaçavam e expulsavam juízes de paz e escrivães e invadiam
igrejas para impedir a leitura do regulamento. O governo
decidiu suspender a execução dos dois decretos.
- a Revolta do Quebra-Quilos foi uma reação contra a
introdução do sistema métrico decimal; RJ (pesos e medidas
foram quebrados nas feiras e praças), PE, PB, RN e AL
(invasão de feiras, ataques a Câmaras Municipais, coletorias
e cartórios para queimar e rasgar documentos relativos a
registro de propriedades, hipotecas e listas de impostos, e
assaltaram cadeias para soltar presos.
- Nos anos 1875 e 1876, diversas províncias registraram
distúrbios contra a Lei de Recrutamento Militar, sendo Minas
Gerais a mais atingida.
- Em 1873, estourou no RS a revolta dos Mucker provocada
pelo processo de especulação e de concentração fundiária, e
de empobrecimento da maioria da população, em que as Igrejas
Católica e Protestante hierarquizaram-se, passando a
combater a religiosidade popular e a se hostilizarem
mutuamente, quebrando os fortes laços de parentesco e
compadrio e a solidariedade comunal.
- a Revolta do Vintém, ocorrida no Rio de Janeiro em 1880 em
reação à criação de vinte réis sobre as passagens de bondes
da capital (arrancaram trilhos, tombaram bondes, esfaquearam
mulas, espancaram condutores, disparam tiros e montaram
barricadas). O imposto foi abolido.
4 – A Questão Religiosa
- Associa inicialmente à Constituição de 1824 e apresenta um
relato da questão.
- Permanecia, porém, até o fim do Império, a controvérsia
quanto à politica regalista (direito de interferência
do chefe de estado em assuntos internos da Igreja Católica)
e à preponderância do poder temporal ou do poder imperial,
impasse esse que só poderia ser resolvido pela laicização do
estado e pela liberdade religiosa, o que, entretanto, não
interessava ao Governo imperial e à Igreja Católica.
5 – A Questão Militar
- Após a vitoriosa campanha na Guerra do Paraguai, o exército
se modernizou, adquiriu grande prestígio social e imbuiu-se
de espírito de corpo.
- Os oficiais militares, grande parte oriundos dos extratos
médios urbanos, sentiam-se desprezados pela Coroa, em vista
dos baixos salários, do não pagamento de pensões, das
promoções lentas e injustas, da drástica redução dos efetivos
e do corpo percentual do orçamento militar.
- Começou a se desenvolver no Exército um ideal de salvação
nacional, acreditando que os militares estariam investidos
de tal missão salvadora, que teria o propósito de moralizar
a política e a vida pública brasileiras e de trazer o
progresso ao país.
- As propagandas republicana e abolicionista difundiam-se
pelos quartéis, especialmente entre a jovem oficialidade e
o Positivismo, por influência do Benjamin Constant,
penetrava fundo entre os alunos da Escola Militar do RJ.
- Através da imprensa, defendiam, além das reformas
corporativas, a abolição da escravidão, a imigração, o
incentivo às industrias, a construção de ferrovias, o
sufrágio universal. Embora atacassem os vícios das
instituições monárquicas, os militares, em sua maioria,
ainda não pregavam a adoção da República.
-A chamada Questão Militar, constituiu um conjunto de
incidentes entre o Exército e o Governo imperial, em cuja
raiz estava a tentativa do governo de disciplinar oficiais
que ousassem discutir em público questões políticas e
militares, o que, desde 1859, era proibida por avisos.
- A ascensão social dos militares e a crescente instabilidade
do sistema político imperial, todavia, encorajavam muitos
oficiais, a manifestar pela imprensa seus descontentamentos,
protestando, sobretudo, contra as promoções e as
transferências consideradas arbitrárias e injustas,
atendendo a motivações políticas. O envolvimento dos
militares com a questão abolicionista provocou constantes
conflitos entre os integrantes do Exército e os sucessivos
ministros da Guerra.
- Durante todo o mês de maio de 1887, um grande debate foi
travado no Congresso e na Imprensa a respeito das tensões
entre governo e militares sobre os avisos de proibição.
Falando em nome da oficialidade, Rui Barbosa redigiu o
Manifesto Ao Parlamento e à Nação, no qual exigia a revogação
de tais avisos, que faziam da boa fama dos oficiais
brasileiros simples propriedade do governo, e alertava, em
tom ameaçador, que havemos de manter-nos no posto de
resistência à ilegalidade, que é nosso dever, do qual nada
nos arredará, enquanto o direito postergado não receber a
sua satisfação plena.
- No dia 14 daquele mês, Deodoro da Fonseca e o senador
visconde de Pelotas publicaram um ultimato, exigindo que o
Governo rescindisse os avisos ou então renunciasse. Temendo
que o Exército tomasse as ruas em franca rebelião, Cotegipe
revogou os tão famigerados avisos.
- A decisão arrefeceu os ânimos dos militares, mas a força
crescente por estes demonstrada durante a crise e a liberdade
de expressão conquistada deram maior confiança e melhores
condições para que se engajassem ainda mais nas atividades
políticas.
6 – As eleições diretas e o golpe na participação eleitoral
- A reforma eleitoral de 1881 introduziu as eleições diretas
e reduziu o censo exigido para que os cidadãos que elegiam
diretamente seus representantes; retirou o direito de voto
aos analfabetos e estabeleceu minuciosos critérios de renda
(não aceitavam como prova de renda a declaração do
empregador), praticamente excluindo os assalariados não
funcionários públicos.
- a busca da moralização das eleições e da autenticidade da
representação, se fez no Brasil Imperial, no sentido de
restringir o acesso à cidadania política formal, seguindo um
processo que transcorria exatamente na contramão do que se
notava em quase todos os países europeus, onde as reformas
eleitorais do último quartel do século promoviam a ampliação
da participação eleitorado, rumando para o sufrágio
universal.
7 – A Abolição, o republicanismo e a crise final do Império
- Os acanhados efeitos da Lei do Ventre Livre só fizeram
crescer e intensificar a campanha abolicionista.
- multiplicaram em todo país os jornais e clubes do
movimento, assim como os comícios e conferências, onde, além
da propaganda feita, arregimentavam-se novos militantes e
arrecadam-se donativos.
- Advogados prestavam assessoria jurídica e recorriam à lei
de 1831 para moverem processos judiciais, muitas vezes bem
sucedidos, requerendo a libertação de escravos ilegalmente
introduzidos no Brasil;
- Fundação da Confederação Abolicionista (1883) com o intuito
de dar unidade ao movimento, congregando as associações e
clubes espalhados pelo país.
- publicação da obra o Abolicionismo de Joaquim Nabuco de
enorme repercussão que defendia a abolição imediata e sem
indenização, seguida pelo incentivo à imigração europeia e
pela adoção de um programa de reformas capaz de recuperar e
reintegrar o ex-escravo à sociedade. Rejeitava qualquer ação
que promovesse qualquer agitações nas cidades, nas senzalas
ou quilombos. Sua via era legal e pacífica.
- Em março de 1884, o Ceará, devastado pela grande seca de
1877-1878 (que acentuou a venda de escravos para o Sudeste)
tornou-se a primeira província a extinguir o cativeiro e
depois o Amazonas, iniciativas que provocaram grande
alvoroço e contribuíram para que a Coroa colocasse de novo
em pauta a questão servil.
- aprovação da lei dos sexagenários (1885).
- nas áreas de maior concentração de cativos, interior
paulista e fluminense, a rebeldia escrava atingiu níveis
nunca antes alcançados: recusas sistemáticas ao trabalhos às
ordens recebidas, insurreições, fugas e abandonos em massa
das fazendas, ocupações de terras disponíveis, destruição de
lavouras e assassinatos de senhores, feitores e capitães do
mato.
- ação dos caifases que percorriam fazendas disfarçados de
mascates e viajantes, incitando os escravos à rebelião e à
fuga; infiltravam ex-escravos nas plantações; elaboravam
planos de fugas.
- a adesão de importantes segmentos sociais e políticos: o
Partido Liberal reforça a sua linha abolicionista, o PRP
manifesta-se claramente em defesa da abolição, o Exército
decidiu não mais capturar negros fugitivos.
- a Lei Áurea foi recebida com festas nas ruas e nas senzalas
de todo país. Os ex-escravos foram abandonados a sua própria
sorte, o movimento abolicionista desmobilizou-se.
- os republicanos do 13 de maio.
- o movimento republicano ganhava força com a multiplicação
dos clubes (273) e jornais (77) republicanos, diretórios
partidários; congressos e os meetings populares atraíam, nas
grandes cidades, um número cada vez maior de entusiastas.
Nunca chegou a cristalizar-se em um partido unificado em
escala nacional.
- a corrente evolucionista: a República seria implantada de
forma gradual e pacífica, por meio da conscientização da
opinião pública e do Parlamento, por via eleitoral ou por
reforma parlamentar. Seu principal defensor era Quintino
Bocaiúva que acreditava que a implantação da república
corresponderia ao progresso da humanidade.
- a corrente revolucionária: sob a liderança de Silva Jardim
junto a uma ala mais radical de intelectuais e profissionais
liberais, passaram a pregar abertamente em comícios,
conferencias, panfletos e artigos de jornal, a revolução
popular como forma de instaurar a República.
- a corrente separatista: um grupo de republicanos paulistas
passou defender a separação de São Paulo do restante do
Brasil, adotando um governo nos moldes de uma república
federalista. Interessava aos poderosos cafeicultores que não
desfrutavam de uma posição privilegiada no âmbito da política
nacional.
- o fantasma de um terceiro império iminente.
- no Exército, muito contribuiu a difusão do Positivismo nos
quartéis, com suas ideias de ditadura republicana, de ênfase
na hierarquia, de tecnicismo, de conciliação da ordem e do
progresso, de subordinação da política à moral, em benefício
da comunhão social, de paternalismo e de messianismo
político. Esses ideais, aliados à indisposição com o
bacharelismo, com os casacas, vistos como responsáveis pelo
desgoverno e pela imoralidade política, contribuíram para
estimular, nos meios militares, a construção de uma
autoimagem que os identificava como os únicos capazes de
promover a regeneração do país.
8 – A proclamação da República
A queda do Império resultou de um longo processo de
transformações que tem em fins dos anos 1860 e princípios da
década seguinte o seu ponto original de inflexão. José Murilo
de Carvalho já demonstrou a dialética da ambiguidade que
caracterizava a dinâmica das relações entre o Estado Imperial
e os grandes proprietários rurais (também presente no plano
das ideias e das instituições): o primeiro muitas vezes
contrariando os interesses dos segundos (como a lei de terras
e na política abolicionista), apesar de depender das rendas
e do apoio político que estes propiciavam; mas também estes
em relação àquele, ao exigirem reformas que reduzissem a
concentração de poderes nas mãos do Imperador ou do governo
central e, ao mesmo tempo, cobrarem a intervenção deste
Estado para a resolução dos mais diversos problemas e
conflitos que afetavam as elites.
- É claro que ambiguidades assim marcam, até certo ponto, as
relações complexas entre qualquer Estado e os grupos
dominantes, pois, da mesma forma que nenhum Estado se reduz
a ser meramente um instrumento passivo nas mãos dos grupos
dominantes, estes também não se ajustam por completo às
diretrizes, necessidades e interesses daquele.
- Mas no Império brasileiro os desajustes políticos chegaram
a um tal ponto, a partir daquele período crítico, que acabou
inviabilizando a manutenção do regime, frente à novas
demandas surgidas após a Guerra do Paraguai, com a ascensão
de novos grupos sociais em busca de espaço político as
camadas médias urbanas, os militares, os cafeicultores
paulistas) e o deslocamento do eixo econômico do Vale do
Paraíba para o Oeste paulista.
- Em suas últimas décadas, o Estado Imperial foi se
incompatibilizando com sucessivos segmentos da sociedade que
compunham as suas bases de sustentação – parte de clero (com
a Questão Religiosa), parte da oficialidade do Exército (com
a Questão Militar), parte dos grandes proprietários rurais
(com as leis abolicionistas), parte, enfim, da própria elite
política (com os problemas da centralização e do sistema
representativo). Se tais fatos não provocaram o
descontentamento desses segmentos em sua totalidade, e se,
em si mesmo, não explicam o advento da República, como
salientou Emília Viotti, nem por isso deixaram de ter um
papel decisivo para a derrocada, ao caracterizarem e
fomentarem um processo de aguda crise política que minou o
regime.
- Os conflitos sempre existiram ao longo do Império, mas
eram administrados e contidos em função da relativa
homogeneidade dessa política e da crença da capacidade
singular da Monarquia de regular as disputas e de preservar
a ordem, as estruturas socioeconômicas e a unidade político
administrativa.
- Diante, porém das profundas transformações operadas nas
décadas de 1870 e 1880, sobretudo do descompasso criado entre
o poder político e o poder econômico, com a ascensão dos
cafeicultores do Oeste Paulista, das pretensões políticas
assumidas pelos militares, após o prestígio adquirido coma
Guerra, e da emergência política das camadas médias urbanas,
alterando a tradicional composição de forças no interior dos
partidos imperiais -, as críticas à centralização e à ficção
do sistema representativo tomaram um novo vulto.
- Ao mesmo tempo, o ideal republicano deixava de ser uma
aspiração difusa dentro de certas situações limites e passava
a ser incorporado a um movimento político mais substantivo,
que crescia na mesma medida em que diminuía o prestígio da
monarquia.
- A República, todavia, foi fruto mais da insatisfação gerada
pela incapacidade do Estado Imperial de articular as velhas
e novas demandas, de sua crise de legitimidade, do que da
crença geral e efetiva nas vantagens do regime republicano.