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IN PLURIMIS 1 CARTA ENCICLICA DE SUA SANTIDADE PAPA LEÃO XIII

Entre as numerosas e principais manifestações de afeto que quase todas as nações tem-nos enviado, e todos os dias nos enviam para congratular-se conosco no quinquagésimo ano de sacerdócio felizmente alcançado, uma em particular, provém do Brasil, e nos comoveu: em homenagem a este faustíssimo evento foram restituídos à liberdade muitos daqueles que nos vastíssimos territórios deste império gemem sob o jugo da escravidão. Na verdade tal obra, inspirado pela misericórdia cristã, devida aos homens e mulheres caridosos que colaboram com o clero, foi oferecido a Deus, autor e doador de todos os bens, como testemunho de gratidão pelo dom da idade e da saúde a nós benignamente agraciado. Para nós foi especialmente aceitável e apreciado, especialmente porque nos confirmou nesta feliz opinião: isto é, que os brasileiros pretendem eliminar e erradicar completamente a vergonha da escravidão. Essa vontade popular foi apoiada por esforços louváveis tanto do imperador quanto de sua augusta filha, bem como daqueles que governam o estado, com leis firmes promulgadas e sancionadas para esse fim. Quanta consolação este evento nos trouxe, foi proferida por nós em janeiro passado ao nosso embaixador imperial: nós também acrescentamos que nós mesmos enviaríamos uma carta aos bispos do Brasil em favor dos infelizes escravos.

Nós, na verdade, para todos os homens estamos no lugar de Cristo, Filho de Deus, o qual com tanto amor abraçou o gênero humano, que não apenas se recusou a nos entreter, depois de assumir nossa natureza, mas também amou o nome do Filho do Homem, declarando publicamente que ele tinha um vínculo conosco "para pregar a liberdade aos escravos" (Is 61: 1, Lc 4:19) e, depois de libertar a humanidade da ignóbil servidão do pecado, "para unir em si tudo o que está no céu e tudo o que está na terra"(Ef 1:10), bem como para restaurar ao antigo grau de dignidade todos os descendentes de Adão, caídos no precipício do pecado comum. Afirma, muito a propósito, São Gregório Magno: "Desde o nosso Redentor, o pai de toda a criação, queria por amor assumir a carne humana, a fim de romper com a graça de sua divindade o vínculo de escravidão que nos prendia e restituir a antiga liberdade, a pessoa age de maneira benéfica e com o benefício do libertador, se for devolvida à liberdade em que os homens nasceram, que a natureza originalmente os criou livres, e que o direito dos povos os sujeitou ao jugo da escravidão ".

Convém, portanto, e é dever absolutamente Apostólico, que de nossa parte favoreçamos e incentivemos todas essas iniciativas para que os homens, seja individuais, sejam associados, possam atuar nas defesas, para que sejam aliviados das muitas misérias que, como fruto de árvore doente, derivada da falta do primeiro pai; essas defesas, portanto, de qualquer tipo, que não apenas beneficiam grandemente a cultura e a humanidade, mas também levam à renovação total que o Redentor da raça humana, Jesus Cristo, mirou e desejou.

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Traduzida

do

italiano

por

Antonio

Dari

Ramos

de

Agora, entre tantas misérias, é difícil deplorar a escravidão pela qual durante

muitos séculos passou uma parte não pequena da família humana, derramada na miséria

e sujeira, ao contrário do que, em princípio, tinha sido estabelecido por Deus e pela

Natureza. De fato, havia decretado o Supremo Criador de todas a coisas: que o homem

exercesse uma espécie de senhorio real sobre os animais da terra, do mar e sobre as aves

e não que ele dominasse seus semelhantes. De acordo com Santo Agostinho: "Criado

racionalmente, à sua imagem, ele não queria que o homem dominasse, a não ser seres irracionais; que o homem não dominasse o homem mas o rebanho" (Gênesis 1:26). Portanto, "a condição servil é corretamente entendida como sendo imposta ao pecador. De fato, em nenhum lugar nas Escrituras lemos a palavra servo, primeiro que com ela o justo Noé puniu o pecado do filho. Portanto a culpa e não a natureza mereceu esse nome" (Gên. 1,25).

Do contágio do primeiro pecado derivaram todos os outros males e esta perversidade monstruosa: que houve homens os quais, rejeitando a memória da irmandade original, não cultivavam, segundo a natureza, a benevolência mútua e o mútuo respeito, mas sucumbiram a sua ganância, começaram a considerar os outros homens abaixo de si e depois a tratá-los como jumentos nascidos para o jugo. Deste modo, sem qualquer respeito nem da natureza comum, nem da dignidade humana, nem da expressa semelhança divina, aconteceu que, através de batalhas e guerras que então se sucederam, aqueles que com a força conseguiram vitória subjugaram os vencidos e assim uma indivisível multidão da mesma espécie dividiu-se gradualmente em duas partes: os vencidos, escravos dos vencedores patrões.

Como um triste espetáculo, a memória daqueles tempos se reproduz até a época de Jesus, o Salvador, quando a vergonha da escravidão se estendeu a todos os povos, e era assim pequeno o número de pessoas livres que o poeta colocou na boca de César essas atrozes palavras: "O gênero humano vive em poucos". E isto se refere àquelas nações que se destacavam por eminente cultura, como os gregos e os romanos, quando o domínio de uns poucos era exercido sobre muitos; e aquele domínio era assim

soberbo e malvado que as multidões de escravos eram consideradas apenas bens, não pessoas, mas coisas, privados de quaisquer direitos, e sem qualquer faculdade para preservar e gozar a vida. "Os escravos estão sujeitos ao poder dos senhores e esse poder

é matéria dos direitos das gentes; na verdade, podemos ver que, em todos os povos, o

direito de vida e morte sobre os escravos pertence igualmente aos senhores e tudo o que

é alcançado pelo escravo pertence ao proprietário".

Seguindo estes princípios aberrantes era lícito para os proprietários trocar, vender, legar em herança, bater, matar os escravos e abusar deles de modo licencioso e cruelmente supersticioso; era lícito impunemente e publicamente. Na verdade, mesmo aqueles que eram considerados os mais sábios entre os pagãos, filósofos eminentes, grandes especialistas do direito, com supremo ultraje do comum bom senso se esforçaram para convencer a si mesmos e aos outros que a escravidão não era mais do que uma condição necessária da natureza: e na verdade eles não se envergonharam de afirmar que a categoria dos escravos era de longe inferior aos livres pela capacidade intelectual e pela presença física, e, portanto, era necessário que os servos, como ferramentas desprovidas de razão e iniciativa, obedecessem à vontade dos prorietários cegamente e até mesmo do modo mais indigno. É verdadeiramente detestável uma malvadeza assim desumana; uma vez que se tenha admitido, não há opressão de homens assim bárbara e nefanda que não encontre apoio vergonhoso em algum tipo de lei e direito. Como uma sementeira de crimes, tais como a peste e a ruína que estão disseminadas na cidade, o dizem os livros, repleto de exemplos; os ódios se intensificam

nos corações dos escravos; os proprietários são tomados de suspeita e de medo perpétuo; outros preparam as tochas incendiárias para desafogar a ira; outros pressionam mais cruelmente sobre os ombros dos outros; as cidades estão perturbadas pelo número de alguns, pela violência de outros e em pouco tempo se dissolvem; se mesclam tumultos e sedições, saques e incêndios, batalhas e massacres.

Nesse abismo de degradação, muitos homens sofriam, ainda mais miseravelmente porque estavam imersos na escuridão da superstição; quando, por conselho divino, os tempos chegaram à maturidade, uma maravilhosa luz desceu do céu e a graça de Cristo Redentor copiosamente se dispersou entre o gênero humano; para sua virtude os escravos foram erguidos da lama e da angústia da servidão, e todos foram recuperados da horrível escravidão do pecado e conduzidos à sublime dignidade dos filhos de Deus. De fato, desde os primórdios da Igreja, os apóstolos, além dos outros santíssimos preceitos da vida, transmitiram e ensinaram também o que Paulo escreveu aos regenerados da pia batismal: "todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, porque vocês todos que foram batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Já não existe mais nem o judeu, nem o grego; não existe mais nem o escravo, nem o livre; não existe nem o macho e nem a fêmea, porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gal 3, 26-28). "Não existe mais nem o pagão e nem o judeu, o circunciso e o incircunciso, o bárbaro e o xiita, o escravo e o livre, mas Cristo é tudo e em todos" (Cl 3:11). "Na verdade, todos nós fomos batizados em um só Espírito e em um só corpo, quer judeus ou pagãos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito" (1 Cor 12:13).

Verdadeiramente áureos (de ouro), belos e salutares documentos, pela eficácia do qual o gênero humano não só é restituído e aumentado em seu decoro, como se dá aos homens a oportunidade de se unirem e se apegarem uns aos outros com fortes laços de amizade fraterna, independente de lugar, língua ou condição que possuam. De fato, o beatíssimo Paulo, por aquela caridade de Cristo da qual ele estava impregnado, tinha chamado a esses princípios do próprio coração que se dedicou como irmão a todos e a homens individuais, e que todos se enobreceram de si, não sendo ninguém excluído ou rejeitado a este sinal que os fez participantes da natureza divina. Em virtude do compromisso divino, não foram diversas as ramificações que, crescendo de modo admirável, floresceram com esperança e bem público quando, com o progresso dos acontecimentos e do tempo, e com o trabalho perseverante da Igreja, a sociedade civil, renovada a semelhança da família, se desenvolveu cristã e livre.

Primeiro, de fato, a Igreja com grande zelo se comprometeu de forma que o povo cristão, mesmo em relação a este assunto de grande importância, recebesse e guardasse zelosamente a pura doutrina de Cristo e dos Apóstolos. Agora, pela graça do novo Adão, que é Cristo, acontece uma fraterna união do homem com o homem e de um povo com outro povo: eles, como têm uma mesma origem na ordem natural, então na ordem sobrenatural têm uma mesma origem no que diz respeito à salvação e à fé:

todos igualmente são bem-vindos na adoção do único Deus e Pai, porque Ele redimiu-os juntos com o mesmo grande resgate; todos os membros do mesmo corpo e todos participantes da mesma mesa divina; a todos acessíveis os dons da graça e a todos também a dádiva de uma vida imortal. Dadas tais premissas e fundamentos, a Igreja como boa mãe tem trabalhado para mitigar em parte as tribulações e a ignomínia da vida servil; por esta razão, definiu e energicamente recomendou os direitos e os deveres necessários entre servos e senhores, assim como são definidos nas cartas dos Apóstolos. De fato, os Princípios dos Apóstolos assim admoestaram os servos que haviam se convertido a Cristo: "Sede submissos e guardem temor não só aos senhores bons e

modestos, mas também aos arrogantes (1 Pedro 2:18). Obedeçam aos senhores terrenos com temor e tremor, na simplicidade de vosso coração, como a Cristo. Nao sirvam somente quando vigiados ou para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, servindo com boa vontade ao Senhor e não aos homens, sabendo que cada um, seja servo, seja livre, receberá do Senhor tudo o que haverá feito de bem"(Ef 6: 5-8). O próprio Paulo escreveu ao seu Timóteo: "Todos aqueles que estão sob o jugo da servidão, estima digna de toda honra a seus senhores; aqueles que têm senhores fiéis não os desprezem porque eles são irmãos, mas lhes sirvam com maior zelo porque são fiéis e amados e participam da graça. Assim ensina e exorta" (1 Timóteo 6: 1-2). Semelhante prescreveu a Tito para ensinar aos servos "ser submisso aos seus senhores, complacente em todas as ocasiões, sem nunca contradizer ou cometer fraude, mas em qualquer caso, mostrando boa fé, a fim de render homenagem em todas as oportunidades à doutrina de Deus nosso Salvador" (Tt 2,9-10).

Na verdade, esses primeiros discípulos da fé cristã compreenderam plenamente que a igualdade fraterna dos homens em Cristo em nada vinha a diminuir ou destruir a obediência, a honra, a fidelidade, e outros deveres que prendiam os servos a seus senhores; Segue, portanto, não o único bem pelo qual os mesmos deveres se tornam mais definidos, mais leves e mais suaves no cumprimento, mas também mais frutíferos para merecer a glória celeste. De fato, eles tinham reverência e estima em relação aos senhores quanto aos homens que são poderosos pela vontade de Deus, da qual deriva todo poder; para eles não tinha eficácia o temor dos castigos, a astúcia dos conselhos e a incitação à utilidade, mas a consciência do dever, o poder do amor. Por sua vez, preocupava aos senhores a justa exortação do Apóstolo de modo a compensar com bondade as boas obras dos servos: "E vocês, senhores, façam de igual modo, renunciando às ameaças, sabendo que o seu e vosso Mestre está no céu, e que Ele não favorece a ninguém"(Ef 6: 9); e assim considerando uma injustiça que o servo se lamente de sua sorte, sendo ele "liberto do Senhor", por isso não é lícito ao homem livre ter orgulho na alma e comandar com soberba "sendo um servo de Cristo" (1 Cor 7, 22). Assim, se prescreve aos senhores reconhecer e respeitar convenientemente o homem nos seus servos, e não diferenciar por natureza, mas igualar a si na religião, e da igualdade dos servos perante a majestade do Senhor comum.

A essas leis justas, feitas sobretudo para consolidar os componentes da sociedade familiar, os apóstolos realmente obedeceram. Insigne é o exemplo de Paulo, pelo que ele fez e escreveu generosamente em favor de Onésimo, servo fugitivo de Filemon, a quem ele o mandou de volta com esta afetuosa recomendação: "Você o

não como servo, mas ao invés de servo, como um querido

receba como parte de mim

irmão, segundo a carne e segundo o Senhor, e se de algum modo ele lhe deu prejuizo ou lhe é devedor, ponha isso na minha conta”(Fm 12-18).

Quem quer comparar as duas formas de tratar os escravos, o pagão e o cristão, reconhecerá facilmente que o primeiro era cruel e vergonhoso, o outro muito leve e cheio de respeito, e nunca se sentirá culpado de subtrair mérito a Igreja, ministra de tanta indulgência. Especialmente se alguém observar cuidadosamente com quanta doçura e prudência a Igreja erradicou e derrotou a vergonhosa praga da escravidão. Na verdade, ela não queria apressar-se em prover a alforria e a libertação dos escravos, porque isso não poderia seguramente acontecer senão em modo tumultuoso, com danos deles próprios e em detrimento da sociedade; mas com grande juízo no modo com que o espírito dos escravos, sob sua orientação, fossem educados na verdade cristã e, com o batismo, adotassem os costumes conformes. Portanto, se na multidão de escravos que a Igreja contava entre seus filhos, alguns, atraídos por alguma esperança de liberdade, se

tivesse sido tramada uma sedição violenta, sempre a Igreja reprovou e reprimiu aqueles desejos pecaminosos e através de seus ministros adoptou os remédios da paciência. Se persuadiram, portanto, os escravos a superarem de modo digno os senhores pagãos, mercê à luz da santa fé e insigne herança de Cristo, e se sentir obrigados mais devotamente pelo mesmo autor e pai da fé para não permitir-se qualquer ação contra os senhores ou afastar-se minimamente da reverência e obediência devidas a eles, mas, sabendo de serem eleitos para o reino de Deus, tendo adquirido a liberdade de seus filhos, e sentimento-se chamados a bens não perecíveis, não se darem preocupação da baixeza e inconveniência de uma vida passageira, mas elevando seus olhos e suas almas ao céu, consolarem e se confirmarem no santo propósito. O apóstolo Pedro foi um dos primeiros a dirigir-se aos escravos quando escreveu: "É um sinal da graça se no nome de Deus alguém suportar a desventura, sofrendo injustamente. Por isso você foi chamado, porque Cristo também sofreu por nós, deixando a vocês um exemplo para seguir seus vestígios "(1Pd 2,19-21).

A preocupação louvável, combinada com prudência, que adorna muito esplendidamente a divina virtude da igreja, também é reforçada pela força do espírito para o qual além de toda credibilidade ela é convidada e exaltada, e com a qual poder inspirar e ajudar muitos pobres escravos. Despertavam admiração aqueles escravos que eram exemplos de severos costumes para seus senhores e suportaram toda fadiga em seu favor; sob nenhuma circunstância eles poderiam ser induzidos a preparar ordens injustas dos proprietários aos santos preceitos do Senhor, chegando ao ponto de renunciar à vida sob feroz tortura, com inabalável espírito e com rosto impassível. O nome de uma virgem de Patames é celebrado por Eusébio em memória de sua inabalável constância; ela, em vez de ceder à lacívia do impudico senhor, foi destemidamente ao encontro da morte e com o derramamento de seu sangue salvou a fé em Jesus Cristo. Se podemos admirar similares exemplos de escravos os quais com grande firmeza se opuseram até a morte os senhores que violavam a liberdade das almas e da fé ligada a Deus; mas a história não pode citar os escravos cristãos que, por várias razões, haviam resistido aos senhores, ou suscitado conspirações ou sedições perigosas para os cidadãos.

Passaram as dissensões e vieram tempos tranqüilos para a Igreja, os santos Padres com sabedoria admirável expuseram ensinamentos apostólicos sobre a solidariedade fraterna entre os cristãos, e com igual caridade os aplicaram para o benefício dos escravos, tentando convencê-los de que os senhores tinham os direitos legítimos sobre o trabalho dos escravos e, no entanto, não lhes foi concedido um imperioso poder sobre a vida e o uso de cruéis torturas. Entre os gregos se destaca Crisóstomo, que muitas vezes tem tratado esta questão e que com espírito e fala animada disse que a escravidão, de acordo com o antigo significado da palavra, já havia desaparecido em seu tempo, para o benefício da fé cristã, de modo que o nome parecia, e era, sem sentido entre os discípulos do Senhor. De fato, Cristo (em poucas palavras, ele argumenta), quando pela maior compaixão para conosco lavou o pecado original, ele também curou a corrupção consequente, difundida nas classes sociais; portanto, como a morte, sem qualquer medo graças a Ele, é uma migração plácida para uma vida abençoada, então a escravidão desapareceu. Nunca chame um cristão de servo, a menos que ele se torne escravo do pecado. São absolutamente irmãos todos aqueles que são renascido e acolhidos em Cristo; o nosso decoro deriva dessa nova procriação e da cooptação na família de Deus e não da nobreza da linhagem; a dignidade vem do valor da verdade e não do sangue; e por que esse tipo de evangélica fraternidade produza frutos mais abundantes, é sobretudo necessário que mesmo nas relações com o próximo,

se manifeste uma troca agradável de atenções e de gentilezas, de modo que os servos sejam elevados ao mesmo grau dos amigos e dos familiares, e que para si os pais da família forneçam não apenas o que é necessário para a vida e a nutrição, mas também toda ajuda da religião. Finalmente, a saudação especial de Paulo a Filémon, invocando a graça e a paz "para a Igreja que esta na sua casa" (Filemom 1,2), mostra um documento que vale igualmente e otimamente para senhores e servos cristãos, entre os quais existe uma comunhão de fé e, portanto, deve haver o mesmo espírito de caridade.

Entre os Latinos lembramos merecidamente e com razão Ambrósio, que com muita inteligência tem indagado, sobre o mesmo argumento, toda a razão das relações sociais e que de forma precisa como ninguém sabe fazer melhor de acordo com as leis cristãs, há deveres específicos atribuídos a uma e a outra classe de homens; não há necessidade de dizer o quanto suas sentenças concordam plenamente e perfeitamente com as de Crisóstomo.

Como é evidente, esses preceitos foram inspirados na justiça e utilidade; mas, o que mais importa, eles foram guardados integral e devotadamente desde os primeiros tempos, onde quer que o cristianismo floresceu. Se isso não fosse feito, Lactâncio, o distinto defensor da religião, não teria se manifestado com tanta determinação, quase como um testemunho: "Alguns dizem: Vocês não são pobres e ricos, servos e senhores? Existe alguma diferença entre os indivíduos? Nenhum, e não há outra razão pela qual nós, por outro lado, nos chamamos pelo nome de irmãos, se não nos consideramos iguais, porque medimos tudo o que é humano, não com o corpo, mas com espírito, e embora a condição dos corpos seja diferente, ainda não há escravos para nós, mas nós os consideramos e chamamos irmãos no espírito, e como nós servos na religião".

Aumentava a preocupação da Igreja pela proteção dos escravos e, sem descuidar de qualquer oportunidade, ela cautelosamente tendia a finalmente restituí-los à liberdade: isso também teria beneficiado grandemente sua saúde eterna. Os antigos registros sagrados testemunham o resultado favorável desse compromisso. As mesmas nobres matronas, dignas dos louvores de Girolamo, colaboraram de maneira exemplar para o sucesso desta obra. Salviano relata então que nas famílias cristãs, mesmo nas que não são muito ricas, acontecia com frequência que os escravos fossem libertados por generosas alforrias. Assim, San Clemente, muito antes, tinha elogiado este exemplo sublime da caridade: de fato, não poucos cristãos eram submetidos à escravidão com a troca de pessoas, enquanto não podiam de outra forma libertar alguns escravos. Portanto, além de iniciar a libertação dos escravos nos templos, como um ato de piedade, a Igreja decidiu recomendar este ato aos cristãos que faziam um testamento, como obra muito grata a Deus e a sua vista digno de grande mérito e prêmio. Daí as expressões dirigidas ao herdeiro a fim de lhe confiar a libertação "Por amor de Deus, por remédio" ou "pela saúde da minha alma". Nada foi poupado para a redenção dos prisioneiros: os bens dados a Deus foram vendidos; foram fundidos o ouro e as pedras sagradas; alienaram-se os ornamentos e os tesouros das basílicas, como foi feito mais de uma vez por Ambrósio, Agostinho, Ilário, Eligio, Patrício e muitos outros homens santos.

Muito fizeram pelos escravos os Romanos Pontífices, verdadeiramente memoráveis como defensores dos fracos e vingadores dos oprimidos. São Gregório Magno libertou o máximo que pôde e, no conselho romano do ano de 597, queria que fosse dada liberdade para aqueles que haviam decidido de dedicar-se à vida monástica. Adriano I ordenou que os escravos pudessem livremente contrair matrimônio, contra a vontade dos senhores. Alexander III, em 1167, prescreveu abertamente ao rei Mauro de

Valenza que não escravizasse qualquer cristão, pois ninguém é escravo por natureza, e todos foram criados livres por Deus. Também Inocêncio III, a pedido dos fundadores Giovanni da Matha e Felice de Valois, no ano de 1198, aprovou e promulgou a Ordem da Santíssima Trindade para a redenção dos cristãos que haviam caído em poder dos turcos. Honório III e depois Gregório IX aprovaram uma Ordem, semelhante à anterior, de Santa Maria da Mercede; Ordem que Pietro Nolasco havia fundado com uma lei severa, segundo a qual todos os religiosos que faziam parte dela se tornariam escravos para substituir os prisioneiros cristãos da tirania, se isso fosse necessário para redimi- los. O próprio Gregório decretou um mais amplo alívio libertador, pelo qual era sacrilégio vender escravos à Igreja; ele mesmo fez seguir uma exortação aos fiéis para que doassem seus escravos a Deus e aos santos como expiação dos pecados e como sacrifício.

A este propósito, muitos outros méritos da Igreja são adicionados. De fato, ao aplicar severas punições, ela sempre defendia os escravos da ira cruel e dos ultrajes lesivos dos senhores; abriu os lugares sagrados como um refúgio para aqueles que foram oprimidos pela violência; aceitou os escravos libertados como testemunhas, e reteve com ameaça de punição aqueles que ousassem com criminosos enganos reduzir um homem livre à escravidão. Com um favor cada vez maior, a Igreja entregou-se à libertação dos escravos que, de qualquer forma, de acordo com os tempos e lugares, considerava seus fiéis; seja quando estabeleceu que os bispos deveriam libertar de todo vínculo de escravidão aqueles que assinalados por ininterrupta e louvável honestidade de vida; seja quando facilmente permitiu que os bispos declarassem seus servos livres, por um ato de vontade soberana. Além disso, deve ser atribuído à misericórdia e ao poder da Igreja se a severidade do direito civil foi de certa forma mitigada para com os escravos, e se as emendas propostas por Gregório Magno foram aceitas na lei escrita das nações. Isso foi feito sobretudo pela obra de Carlos Magno, que as introduziu em sua Capitularia, assim como fez Graziano no Decretum. Finalmente, ao longo dos séculos, os monumentos, as leis, as instituições ensinam e ilustram esplendidamente a sublime caridade da Igreja para com os escravos, a cuja aflita sorte nunca deixou sem proteção e sempre aliviou com toda assistência. Portanto, não se atribuirão nunca elogios suficientes nem jamais se será grato o suficiente à Igreja Católica que pela mais alta graça de Cristo Redentor aboliu a escravidão, introduziu entre os homens a verdadeira liberdade, a fraternidade, a igualdade e, portanto, se fez benemérita da prosperidade dos povos.

No final do décimo quinto século, quando a funesta praga da escravidão tinha quase desaparecido entre os povos cristãos e os Estados tentavam fortalecer-se na liberdade evangélica e estender o seu domínio, esta Sé Apostólica, com vigilância constante tentou evitar que germinassem aquelas sementes do mal. Então, ela voltou sua atenção vigilante para os territórios recentemente descobertos na África, Ásia e América. Na verdade, chegaram relatos que os líderes dessas expedições, embora os cristãos, haviam abusado de armas e inteligência para impor a escravidão a populações inofensivas. Na prática, por causa da natureza do território que se queria submeter e das minas de metais para explorar e cavar com grande utilização de mão de obra, foram adotadas medidas certamente injustas e desumanas. Na verdade, se começou com algum tráfico deportando da Etiópia escravos para empregar naqueles trabalhos: tal operação foi definida como "trata dos negros" [comércio de negros], se enfureceu além da medida nessas colônias. Seguiu então seguiu com crueldade não muito diferente, a opressão dos indígenas (geralmente chamados de "índios") ao modo dos escravos. Não apenas estes fatos foram participados para Pio II que, sem demora, no dia de outubro de

1462, escreveu uma carta ao Bispo de Rubio para repreender e condenar tamanha maldade. Não muito tempo depois Leo X utilizou todos os bons ofícios e autoridade que tinha junto aos reis de Portugal e da Espanha porque se dispunha a erradicar as raízes daquele abuso contrário não só à religião, mas também à humanidade e à justiça. Todavia aquela vergonha persistia, porque sobrevivia a infame causa da insaciável cobiça pelo lucro. Em seguida Paulo III, ansioso na sua paterna caridade pela sorte dos índios e dos escravos africanos, tomou a decisão extrema de afirmar com solene decreto, perante os olhos de todas as nações, que a todos os escravos era devido um justo e particular poder em três formas: eles poderiam dispor de sua própria pessoa; eles poderiam viver em sociedade de acordo com suas leis; eles poderiam adquirir e possuir bens. Estas disposições foram mais amplamente confirmadas na carta enviada ao cardeal arcebispo de Toledo: Aqueles que trabalhasse contra o mesmo decreto incorria na interdição dos sacramentos, reservando ao Romano Pontífice a faculdade para absolvê-los. Com o mesmo cuidado e constância, outros pontífices como Urbano VIII, Bento XIV, Pio VII se mostraram bravos defensores da liberdade para os índios e para os negros e para outros ainda não educados na fé cristã. Pio VII, também, no Congresso de Viena dos príncipes aliados europeus, chamou a atenção de todos para o comércio dos negros (o qual se mencionou) para que fosse radicalmente abolida, como já havia sido suprimida em muitos lugares. Gregório XVI também advertiu severamente aqueles que desprezavam a clemência e as leis; recolocou em vigor os decretos e as punições estabelecidas pela Sé Apostólica e não omitiu quaisquer argumentos, porque mesmo as nações distantes, imitando a moderação dos europeus, devem abster-se de ignomínia e da crueldade da escravidão. A propósito, tem acontecido a nós de recebermos congratulações de príncipes e governantes por termos obtido, por força de oração perseverante, que fossem ouvidas as longas e justíssimas reivindicações da natureza e da religião.

Em situação semelhante, aflige não pouco o nosso espírito outra preocupação que estimula nossa solicitude. Se esse mercado tão vergonhoso de homens, de fato, cessou nos mares, no entanto, é praticado no solo de forma extensiva e barbarizada, especialmente em muitas partes da África. Como, na verdade, os muçulmanos praticam a perversa teoria que um etíope ou um homem de linhagem afim é apenas superior a um animal, é fácil de entender com consternação qual seja a perfídia e a crueldade daqueles homens. De repente, sem medo algum, eles avançam contra as tribos dos etíopes, de acordo com o costume e com o ímpeto dos saqueadores; eles fazem incursões nas cidades, nas aldeias, no campo; tudo devastam, espoliam, sequestram; eles levam homens, mulheres e crianças, facilmente capturados e conquistados, para trazê-los à viva força nos seus mercados mais infames. Do Egito, de Zanzibar e em parte também do Sudão, a partir dos centros de coleta, geralmente saem essas expedições abomináveis; por longo caminho os homens procedem acorrentados, mal alimentados, sob frequentes chicotadas; os menos aptos a suportar essa violência são mortos; aqueles que sobrevivem, são vendidos como um rebanho com outros escravos e são forçados a ficar diante de um comprador difícil e despudorado. Aqueles que são vendidos a ele são forçados a uma separação miserável de sua esposa, dos filhos, dos pais; e em seu poder eles estão sujeitos à escravidão cruel e abominável, e não podem rejeitar a religião de Maomé. Aprendemos esses fatos, mas não é muito, com uma alma profundamente perturbada, de alguns que foram testemunhas, não sem lágrimas, de tanta infâmia e aberração; com eles, então, concordo plenamente com as narrativas dos recentes exploradores da África Equatorial. De fato, seu testemunho confiável mostra que o número de africanos vendidos anualmente, como um rebanho, chega a quatrocentos mil, dos quais cerca de metade, exauridos pelo caminho conturbado, cai e morre, de modo

que os viajantes (que triste dizer!) podem ver o caminho quase marcado por ossos residuais. Quem não se sentirá comovido com o pensamento de tantos males? Nós que representamos a pessoa de Cristo, amoroso a todas as pessoas, o libertador e redentor, Nós que nos deliciamos com os muitos e gloriosos méritos da Igreja para com os infelizes de todos os tipos, dificilmente podemos dizer quanta pena sentimos em relação àquelas pessoas mais infelizes, com quão imensa caridade abrimos a eles os braços, quão ardentemente desejamos proporcionar-lhes conforto e ajuda possível, para que, tão logo a escravidão dos homens seja destruída juntamente com a escravidão da superstição, eles possam, finalmente, servir a um só Deus, sob o jugo de Cristo, partícipes conosco da herança divina. O céu desejaria que todos aqueles que são superiores por autoridade e poder, e que querem santificar os direitos das nações e da humanidade, ou que estão preocupados em aumentar a religião católica, todos com tenacidade conspirassem para reprimir, para proibir, para suprimir (aderindo às nossas exortações e orações) esse mercado, do qual nada é mais desonesto e iníquo.

Provisoriamente, enquanto novas estradas e novos negócios estão se abrindo nas terras africanas, graças ao mais rápido progresso do intelecto e das atividades, os missionários, da melhor maneira possível, tentam prover a saúde e a liberdade dos escravos. Eles não alcançarão este resultado se, corroborados pela graça divina, não se dedicarem inteiramente a difundir e a nutrir, cada dia mais, nossa mais santa fé com crescente fervor. O excelente fruto disso consiste em favorecer e gerar admiravelmente a liberdade "com a qual Cristo nos libertou" (Gl 4:31). Portanto, nós os convidamos a considerar - como num espelho de virtude apostólica - a vida e as obras de Pedro Claver, a quem atribuímos uma coroa recente de glória. Olhem para ele, que, com total constância em seu trabalho, durante quarenta anos, sem interrupção, dedicou-se inteiramente às formas miseráveis dos escravos negros, e realmente mereceu o título de Apóstolo daqueles a quem se consagrou, professando-se seu servo perpétuo. Se os missionários tiverem o cuidado de tomarem-se a si próprios e de renovar a caridade e a paciência para eles, certamente vão ser dignos ministros da salvação, portadores de consolação, mensageiros de paz, e irão, com a ajuda de Deus, converter a solidão, a ignorância, a barbárie em feliz riqueza da religião e da civilização.

E agora, Veneráveis Irmãos, o Nosso pensamento e a Nossa Carta desejam voltar-se novamente a Você para expressar e compartilhar a grande alegria que vem das decisões tomadas publicamente neste Império sobre a escravidão. Porque por lei foi provido e disposto que aqueles que ainda estão em uma condição servil devem ser admitidos na ordem e nos direitos dos cidadãos livres, este fato a nós parece em si mesmo bom, fausto e saudável, e também confirma e encoraja a esperança de atos futuros de progressos civis e religiosos. Portanto, o nome do Império brasileiro será merecidamente lembrado e elogiado pelos povos mais evoluídos, e ao mesmo tempo a fama do augusto imperador aumentará, ao qual essas nobres palavras se referem: nada é mais desejável do que apagar rapidamente todos os vestígios de escravidão dentro do próprio Estado.

Mas enquanto se estiver aplicando as prescrições dessas leis, trabalhe arduamente (eu lhes peço com todo meu coração), e intervenha com grande zelo nesta obra que certamente não enfrenta pequenas dificuldades. Faça com que senhores e escravos cheguem a um acordo entre si com o espírito bem disposto e com plena lealdade e que não se desviem, após um breve momento, da clemência e da justiça, mas que todos os acordos sejam concluídos de modo legítimo, calmo, cristão: espera-se, sobretudo, que seja supressa e abolida a escravidão como todos desejavam, sem qualquer violação dos direitos humanos e divinos, sem qualquer agitação social e, de

fato, com segura vantagem dos escravos em questão. Para cada um deles, ou já feito livre ou prestes a ser, recomendamos com zelo pastoral e amor paterno algumas advertências salutares, extraídas dos escritos do grande Apóstolo dos Gentios. Eles, portanto, assegurem-se de preservar e declarar publicamente sua lembrança grata e amorosa daqueles que sabiamente trabalharam pela sua libertação. Que nunca se façam indignos de tão grande benefício, nem confundem liberdade com licença desenfreada, mas façam uso da liberdade como convém aos cidadãos de bons costumes, em benefício de uma vida ativa, para o benefício e apoio da família e da sociedade. Temer e respeitar a majestade dos reis, obedecer aos funcionários, submeter-se às leis: estes e outros semelhantes deveres para cumprir assiduamente, não tanto por medo quanto ao sentido religioso. Além disso, se abstenham e se distanciem da inveja pela riqueza e o prestígio dos outros; lamentamos que o hábito aflija a muitos entre os humildes e forneça razões perversas contra a paz e a segurança da sociedade. Contentes com seu bem-estar e condição, não têm nada de mais querido, nada mais ansiosamente desejado que os bens do reino celeste, graças aos quais foram trazidos à luz e foram redimidos por Cristo. Eles também são animados pela devoção a Deus, seu Senhor e Libertador, o amem com todo o coração, respeitosamente guardem seus mandamentos. Se alegrem por serem filhos de Sua Esposa, a Santa Igreja; tentem ser o melhor e, tanto quanto puderem, retribuam seu amor.

Insistem também, Veneráveis Irmãos, em sugerir e inculcar estes mesmos ensinamentos nos escravos libertos; Como é nosso maior desejo e como deve ser para vós e para todos os bons, a religião antes de tudo traz e disfruta para sempre os abundantes frutos da ocorrida libertação onde quer que este Império se estenda.

E para que isso aconteça da maneira mais alegre, invocamos e imploramos a graça superabundante de Deus e a ajuda maternal da Virgem Imaculada. Como um desejo pelos dons celestiais e como testemunho de nossa benevolência paterna, para vocês, Veneráveis Irmãos, para o Clero e para todas as pessoas, amorosamente transmitimos a bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a São Pedro, em 5 de maio de 1888, décimo primeiro ano do nosso pontificado.

LEÃO XIII

Trabalhando a Encíclica

Entre as numerosas e principais manifestações de afeto que quase todas as nações tem-nos enviado, e todos os dias nos enviam para congratular-se conosco no quinquagésimo ano de sacerdócio felizmente alcançado, uma em particular, provém do Brasil, e nos comoveu: em homenagem a este faustíssimo evento foram restituídos à liberdade muitos daqueles que nos vastíssimos territórios deste império gemem sob o jugo da escravidão. Na verdade tal obra, inspirado pela misericórdia cristã, devida aos homens e mulheres caridosos que colaboram com o clero, foi oferecido a Deus, autor e doador de todos os bens, como testemunho de gratidão pelo dom da idade e da saúde a nós benignamente agraciado. Para nós foi especialmente aceitável e apreciado, especialmente porque nos confirmou nesta feliz opinião: isto é, que os brasileiros pretendem eliminar e erradicar completamente a vergonha da escravidão. Essa vontade popular foi apoiada por esforços louváveis tanto do imperador quanto de sua augusta filha, bem como daqueles que governam o estado, com leis firmes

Pela Encíclica In Plurimis é possível traçar um panorama histórico da visão da Igreja Católica acerca da escravidão. Escrita por Leão XIII em cinco de maio de 1888, e endereçada aos bispos brasileiros, agradece pelas felicitações recebidas pelos 50 anos de sacerdócio, dizendo-se feliz por isso, mas, principalmente pela abolição da escravidão pela princesa Isabel. A abolição teria acontecido, em suas palavras, “inspirada pela misericórdia cristã, devida aos homens e mulheres caridosos que colaboram com o clero”. O ato confirmaria a opinião de que “os brasileiros pretendiam eliminar e erradicar completamente a vergonha

promulgadas e sancionadas para esse fim. Quanta consolação este evento nos trouxe, foi proferida por nós em janeiro passado ao nosso embaixador imperial: nós também acrescentamos que nós mesmos enviaríamos uma carta aos bispos do Brasil em favor dos infelizes escravos.

da escravidão”. Haveria uma ‘vontade popular’ que teria sido apoiada por D. Pedro e por sua filha e pelos governantes do Império Brasileiro.

Nós, na verdade, para todos os homens estamos no lugar de Cristo, Filho de Deus, o qual com tanto amor abraçou o gênero humano, que não apenas se recusou a nos entreter, depois de assumir nossa natureza, mas também amou o nome do Filho do Homem, declarando publicamente que ele tinha um vínculo conosco "para pregar a liberdade aos escravos" (Is 61: 1, Lc 4:19) e, depois de libertar a humanidade da ignóbil servidão do pecado, " para unir em si tudo o que está no céu e tudo o que está na terra"(Ef 1:10), bem como para restaurar ao antigo grau de dignidade todos os descendentes de Adão, caídos no precipício do pecado comum. Afirma, muito a propósito, São Gregório Magno: "Desde o nosso Redentor, o pai de toda a criação, queria por amor assumir a carne humana, a fim de romper com a graça de sua divindade o vínculo de escravidão que nos prendia e restituir a antiga liberdade, a pessoa age de maneira benéfica e com o benefício do libertador, se for devolvida à liberdade em que os homens nasceram, que a natureza originalmente os criou livres, e que o direito dos povos os sujeitou ao jugo da escravidão ".

A seguir passa a falar da escravidão do pecado, a qual teria sido rompida pela ação de Cristo. O pecado teria entrado na humanidade pela ação de Adão

Convem, portanto, e é dever absolutamente Apostólico, que de nossa parte favoreçamos e incentivemos todas essas iniciativas para que os homens, seja individuais, sejam associados, possam atuar nas defesas, para que sejam aliviados das muitas misérias que, como fruto de árvore doente, derivada da falta do primeiro pai; essas defesas, portanto, de qualquer tipo, que não apenas beneficiam grandemente a cultura e a humanidade, mas também levam à renovação total que o Redentor da raça humana, Jesus Cristo, mirou e desejou.

Agora, entre tantas misérias, é difícil deplorar a escravidão pela qual durante muitos séculos passou uma parte não pequena da família humana, derramada na miséria e sujeira, ao contrário do que, em princípio, tinha sido estabelecido por Deus e pela Natureza. De fato, havia decretado o Supremo Criador de todas a coisas: que o homem exercesse uma espécie de senhorio real sobre os animais da terra, do mar e sobre as aves e não que ele dominasse seus semelhantes. De acordo com Santo Agostinho: "Criado racionalmente, à sua imagem, ele não queria que o homem dominasse, a não ser seres irracionais; que o homem não dominasse o homem mas o rebanho" (Gênesis 1:26). Portanto, "a condição servil é corretamente entendida como sendo imposta ao pecador. De fato, em nenhum lugar nas Escrituras lemos a palavra servo, primeiro que com ela o justo Noé puniu o pecado do filho. Portanto a culpa e não a natureza mereceu esse nome" (Gên. 1,25).

Do contágio do primeiro pecado derivaram todos os outros males e esta perversidade monstruosa: que houve homens os quais, rejeitando a memória da irmandade original, não cultivavam, segundo a natureza, a benevolência mútua e o mútuo respeito, mas sucumbiram a sua ganância, começaram a considerar os outros homens abaixo de si e depois a tratá-los como jumentos nascidos para o jugo. Deste modo, sem qualquer respeito nem da natureza comum, nem da dignidade humana, nem da expressa semelhança divina, aconteceu que,

através de batalhas e guerras que então se sucederam, aqueles que com a força conseguiram vitória subjugaram os vencidos e assim uma indivisível multidão da mesma espécie dividiu-se gradualmente em duas partes: os vencidos, escravos dos vencedores patrões.

Como um triste espetáculo, a memória daqueles tempos se reproduz até a época de Jesus, o Salvador, quando a vergonha da escravidão se estendeu a todos os povos, e era assim pequeno o número de pessoas livres que o poeta colocou na boca de César essas atrozes palavras: "O gênero humano vive em poucos". E isto se refere àquelas nações que se destacavam por eminente cultura, como os gregos e os romanos, quando o domínio de uns poucos era exercido sobre muitos; e aquele domínio era assim soberbo e malvado que as multidões de escravos eram consideradas apenas bens, não pessoas, mas coisas, privados de quaisquer direitos, e sem qualquer faculdade para preservar e gozar a vida. "Os escravos estão sujeitos ao poder dos senhores e esse poder é matéria dos direitos das gentes; na verdade, podemos ver que, em todos os povos, o direito de vida e morte sobre os escravos pertence igualmente aos senhores e tudo o que é alcançado pelo escravo pertence ao proprietário".

Seguindo estes princípios aberrantes era lícito para os proprietários trocar, vender, legar em herança, bater, matar os escravos e abusar deles de modo licencioso e cruelmente supersticioso; era lícito impunemente e publicamente. Na verdade, mesmo aqueles que eram considerados os mais sábios entre os pagãos, filósofos eminentes, grandes especialistas do direito, com supremo ultraje do comum bom senso se esforçaram para convencer a si mesmos e aos outros que a escravidão não era mais do que uma condição necessária da natureza: e na verdade eles não se envergonharam de afirmar que a categoria dos escravos era de longe inferior aos livres pela capacidade intelectual e pela presença física, e, portanto, era necessário que os servos, como ferramentas desprovidas de razão e iniciativa, obedecessem à vontade dos prorietários cegamente e até mesmo do modo mais indigno. É verdadeiramente detestável uma malvadeza assim desumana; uma vez que se tenha admitido, não há opressão de homens assim bárbara e nefanda que não encontre apoio vergonhoso em algum tipo de lei e direito. Como uma sementeira de crimes, tais como a peste e a ruína que estão disseminadas na cidade, o dizem os livros, repleto de exemplos; os ódios se intensificam nos corações dos escravos; os proprietários são tomados de suspeita e de medo perpétuo; outros preparam as tochas incendiárias para desafogar a ira; outros pressionam mais cruelmente sobre os ombros dos outros; as cidades estão perturbadas pelo número de alguns, pela violência de outros e em pouco tempo se dissolvem; se mesclam tumultos e sedições, saques e incêndios, batalhas e massacres.

Nesse abismo de degradação, muitos homens sofriam, ainda mais miseravelmente porque estavam imersos na escuridão da superstição; quando, por conselho divino, os tempos chegaram à maturidade, uma maravilhosa luz desceu do céu e a graça de Cristo Redentor copiosamente se dispersou entre o gênero humano; para sua virtude os escravos foram erguidos da lama e da angústia da servidão, e todos foram recuperados da horrível escravidão do pecado e conduzidos à

sublime dignidade dos filhos de Deus. De fato, desde os primórdios da Igreja, os apóstolos, além dos outros santíssimos preceitos da vida, transmitiram e ensinaram também o que Paulo escreveu aos regenerados da pia batismal: "todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, porque vocês todos que foram batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Já não existe mais nem o judeu, nem o grego; não existe mais nem o escravo, nem o livre; não existe nem o macho e nem a fêmea, porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gal 3, 26-28). "Não existe mais nem o pagão e nem o judeu, o circunciso e o incircunciso, o bárbaro e o xiita, o escravo e o livre, mas Cristo é tudo e em todos" (Cl 3:11). "Na verdade, todos nós fomos batizados em um só Espírito e em um só corpo, quer judeus ou pagãos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito" (1 Cor 12:13).

Verdadeiramente áureos (de ouro), belos e salutares documentos, pela eficácia do qual o gênero humano não só é

restituído e aumentado em seu decoro, como se dá aos homens

a

oportunidade de se unirem e se apegarem uns aos outros com

fortes laços de amizade fraterna, independente de lugar, língua ou condição que possuam. De fato, o beatíssimo Paulo, por aquela caridade de Cristo da qual ele estava impregnado, tinha chamado a esses princípios do próprio coração que se dedicou como irmão a todos e a homens individuais, e que todos se enobreceram de si, não sendo ninguém excluído ou rejeitado a este sinal que os fez participantes da natureza divina. Em virtude do compromisso divino, não foram diversas as ramificações que, crescendo de modo admirável, floresceram com esperança e bem público quando, com o progresso dos acontecimentos e do tempo, e com o trabalho perseverante da Igreja, a sociedade civil, renovada a semelhança da família, se

desenvolveu cristã e livre.

 

Primeiro, de fato, a Igreja com grande zelo se

comprometeu de forma que o povo cristão, mesmo em relação a este assunto de grande importância, recebesse e guardasse zelosamente a pura doutrina de Cristo e dos Apóstolos. Agora, pela graça do novo Adão, que é Cristo, acontece uma fraterna união do homem com o homem e de um povo com outro povo:

eles, como têm uma mesma origem na ordem natural, então na ordem sobrenatural têm uma mesma origem no que diz respeito

à

salvação e à fé: todos igualmente são bem-vindos na adoção

do único Deus e Pai, porque Ele redimiu-os juntos com o mesmo grande resgate; todos os membros do mesmo corpo e todos participantes da mesma mesa divina; a todos acessíveis os dons da graça e a todos também a dádiva de uma vida imortal. Dadas tais premissas e fundamentos, a Igreja como boa mãe

tem trabalhado para mitigar em parte as tribulações e a ignomínia da vida servil; por esta razão, definiu e energicamente recomendou os direitos e os deveres necessários entre servos e senhores, assim como são definidos nas cartas dos Apóstolos. De fato, os Princípios dos Apóstolos assim admoestaram os servos que haviam se convertido a Cristo:

"Sede submissos e guardem temor não só aos senhores bons e modestos, mas também aos arrogantes (1 Pedro 2:18). Obedeçam aos senhores terrenos com temor e tremor, na simplicidade de vosso coração, como a Cristo. Nao sirvam somente quando vigiados ou para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, servindo com boa vontade ao Senhor e não aos homens,

sabendo que cada um, seja servo, seja livre, receberá do Senhor tudo o que haverá feito de bem"(Ef 6: 5-8). O próprio Paulo escreveu ao seu Timóteo: "Todos aqueles que estão sob o jugo da servidão, estima digna de toda honra a seus senhores; aqueles que têm senhores fiéis não os desprezem porque eles são irmãos, mas lhes sirvam com maior zelo porque são fiéis e amados e participam da graça. Assim ensina e exorta" (1 Timóteo 6: 1-2). Semelhante prescreveu a Tito para ensinar aos servos "ser submisso aos seus senhores, complacente em todas as ocasiões, sem nunca contradizer ou cometer fraude, mas em qualquer caso, mostrando boa fé, a fim de render homenagem em todas as oportunidades à doutrina de Deus nosso Salvador" (Tt 2,9-10).

Na verdade, esses primeiros discípulos da fé cristã compreenderam plenamente que a igualdade fraterna dos homens em Cristo em nada vinha a diminuir ou destruir a obediência, a honra, a fidelidade, e outros deveres que prendiam os servos a seus senhores; Segue, portanto, não o único bem pelo qual os mesmos deveres se tornam mais definidos, mais leves e mais suaves no cumprimento, mas também mais frutíferos para merecer a glória celeste. De fato, eles tinham reverência e estima em relação aos senhores quanto aos homens que são poderosos pela vontade de Deus, da qual deriva todo poder; para eles não tinha eficácia o temor dos castigos, a astúcia dos conselhos e a incitação à utilidade, mas a consciência do dever, o poder do amor. Por sua vez, preocupava aos senhores a justa exortação do Apóstolo de modo a compensar com bondade as boas obras dos servos: "E vocês, senhores, façam de igual modo, renunciando às ameaças, sabendo que o seu e vosso Mestre está no céu, e que Ele não favorece a ninguém"(Ef 6: 9); e assim considerando uma injustiça que o servo se lamente de sua sorte, sendo ele "liberto do Senhor", por isso não é lícito ao homem livre ter orgulho na alma e comandar com soberba "sendo um servo de Cristo" (1 Cor 7, 22). Assim, se prescreve aos senhores reconhecer e respeitar convenientemente o homem nos seus servos, e não diferenciar por natureza, mas igualar a si na religião, e da igualdade dos servos perante a majestade do Senhor comum.

A essas leis justas, feitas sobretudo para consolidar

os componentes da sociedade familiar, os apóstolos realmente obedeceram. Insigne é o exemplo de Paulo, pelo que ele fez e escreveu generosamente em favor de Onésimo, servo fugitivo de Filemon, a quem ele o mandou de volta com esta afetuosa

recomendação: "Você o receba como parte de mim

não como

servo, mas ao invés de servo, como um querido irmão, segundo

a carne e segundo o Senhor, e se de algum modo ele lhe deu prejuizo ou lhe é devedor, ponha isso na minha conta”(Fm 12-

18).

Quem quer comparar as duas formas de tratar os escravos, o pagão e o cristão, reconhecerá facilmente que o primeiro era cruel e vergonhoso, o outro muito leve e cheio de respeito, e nunca se sentirá culpado de subtrair mérito a Igreja, ministra de tanta indulgência. Especialmente se alguém observar cuidadosamente com quanta doçura e prudência a Igreja erradicou e derrotou a vergonhosa praga da escravidão. Na verdade, ela não queria apressar-se em prover a alforria e a libertação dos escravos, porque isso não poderia seguramente acontecer senão em modo tumultuoso, com danos deles

próprios e em detrimento da sociedade; mas com grande juízo no modo com que o espírito dos escravos, sob sua orientação, fossem educados na verdade cristã e, com o batismo, adotassem os costumes conformes. Portanto, se na multidão de escravos que a Igreja contava entre seus filhos, alguns, atraídos por alguma esperança de liberdade, se tivesse sido tramada uma sedição violenta, sempre a Igreja reprovou e reprimiu aqueles desejos pecaminosos e através de seus ministros adoptou os remédios da paciência. Se persuadiram, portanto, os escravos a superarem de modo digno os senhores pagãos, mercê à luz da santa fé e insigne herança de Cristo, e se sentir obrigados mais devotamente pelo mesmo autor e pai da fé para não permitir-se qualquer ação contra os senhores ou afastar-se minimamente da reverência e obediência devidas a eles, mas, sabendo de serem eleitos para o reino de Deus, tendo adquirido a liberdade de seus filhos, e sentimento-se chamados a bens não perecíveis, não se darem preocupação da baixeza e inconveniência de uma vida passageira, mas elevando seus olhos e suas almas ao céu, consolarem e se confirmarem no santo propósito. O apóstolo Pedro foi um dos primeiros a dirigir-se aos escravos quando escreveu: "É um sinal da graça se no nome de Deus alguém suportar a desventura, sofrendo injustamente. Por isso você foi chamado, porque Cristo também sofreu por nós, deixando a vocês um exemplo para seguir seus vestígios "(1Pd 2,19-21).

A preocupação louvável, combinada com prudência, que adorna muito esplendidamente a divina virtude da igreja, também é reforçada pela força do espírito para o qual além de toda credibilidade ela é convidada e exaltada, e com a qual poder inspirar e ajudar muitos pobres escravos. Despertavam admiração aqueles escravos que eram exemplos de severos costumes para seus senhores e suportaram toda fadiga em seu favor; sob nenhuma circunstância eles poderiam ser induzidos a preparar ordens injustas dos proprietários aos santos preceitos do Senhor, chegando ao ponto de renunciar à vida sob feroz tortura, com inabalável espírito e com rosto impassível. O nome de uma virgem de Patames é celebrado por Eusébio em memória de sua inabalável constância; ela, em vez de ceder à lacívia do impudico senhor, foi destemidamente ao encontro da morte e com o derramamento de seu sangue salvou a fé em Jesus Cristo. Se podemos admirar similares exemplos de escravos os quais com grande firmeza se opuseram até a morte os senhores que violavam a liberdade das almas e da fé ligada a Deus; mas a história não pode citar os escravos cristãos que, por várias razões, haviam resistido aos senhores, ou suscitado conspirações ou sedições perigosas para os cidadãos.

Passaram as dissensões e vieram tempos tranqüilos para a Igreja, os santos Padres com sabedoria admirável expuseram ensinamentos apostólicos sobre a solidariedade fraterna entre os cristãos, e com igual caridade os aplicaram para o benefício dos escravos, tentando convencê-los de que os senhores tinham os direitos legítimos sobre o trabalho dos escravos e, no entanto, não lhes foi concedido um imperioso poder sobre a vida e o uso de cruéis torturas. Entre os gregos se destaca Crisóstomo, que muitas vezes tem tratado esta questão e que com espírito e fala animada disse que a escravidão, de acordo com o antigo significado da palavra, já havia desaparecido em seu tempo, para o benefício da fé cristã, de modo que o nome parecia, e era, sem sentido entre os discípulos do Senhor. De fato, Cristo (em poucas palavras, ele

argumenta), quando pela maior compaixão para conosco lavou o pecado original, ele também curou a corrupção consequente, difundida nas classes sociais; portanto, como a morte, sem qualquer medo graças a Ele, é uma migração plácida para uma vida abençoada, então a escravidão desapareceu. Nunca chame um cristão de servo, a menos que ele se torne escravo do pecado. São absolutamente irmãos todos aqueles que são renascido e acolhidos em Cristo; o nosso decoro deriva dessa nova procriação e da cooptação na família de Deus e não da nobreza da linhagem; a dignidade vem do valor da verdade e não do sangue; e por que esse tipo de evangélica fraternidade produza frutos mais abundantes, é sobretudo necessário que mesmo nas relações com o próximo, se manifeste uma troca agradável de atenções e de gentilezas, de modo que os servos sejam elevados ao mesmo grau dos amigos e dos familiares, e que para si os pais da família forneçam não apenas o que é necessário para a vida e a nutrição, mas também toda ajuda da religião. Finalmente, a saudação especial de Paulo a Filémon, invocando a graça e a paz "para a Igreja que esta na sua casa" (Filemom 1,2), mostra um documento que vale igualmente e otimamente para senhores e servos cristãos, entre os quais existe uma comunhão de fé e, portanto, deve haver o mesmo espírito de caridade.

Entre os Latinos lembramos merecidamente e com razão Ambrósio, que com muita inteligência tem indagado, sobre o mesmo argumento, toda a razão das relações sociais e que de forma precisa como ninguém sabe fazer melhor de acordo com as leis cristãs, há deveres específicos atribuídos a uma e a outra classe de homens; não há necessidade de dizer o quanto suas sentenças concordam plenamente e perfeitamente com as de Crisóstomo.

Como é evidente, esses preceitos foram inspirados na justiça e utilidade; mas, o que mais importa, eles foram guardados integral e devotadamente desde os primeiros tempos, onde quer que o cristianismo floresceu. Se isso não fosse feito, Lactâncio, o distinto defensor da religião, não teria se manifestado com tanta determinação, quase como um testemunho: "Alguns dizem: Vocês não são pobres e ricos, servos e senhores? Existe alguma diferença entre os indivíduos? Nenhum, e não há outra razão pela qual nós, por outro lado, nos chamamos pelo nome de irmãos, se não nos consideramos iguais, porque medimos tudo o que é humano, não com o corpo, mas com espírito, e embora a condição dos corpos seja diferente, ainda não há escravos para nós, mas nós os consideramos e chamamos irmãos no espírito, e como nós servos na religião".

Aumentava a preocupação da Igreja pela proteção dos escravos e, sem descuidar de qualquer oportunidade, ela cautelosamente tendia a finalmente restituí-los à liberdade: isso também teria beneficiado grandemente sua saúde eterna. Os antigos registros sagrados testemunham o resultado favorável desse compromisso. As mesmas nobres matronas, dignas dos louvores de Girolamo, colaboraram de maneira exemplar para o sucesso desta obra. Salviano relata então que nas famílias cristãs, mesmo nas que não são muito ricas, acontecia com frequência que os escravos fossem libertados por generosas alforrias. Assim, San Clemente, muito antes, tinha elogiado este exemplo sublime da caridade: de fato, não poucos cristãos eram

submetidos à escravidão com a troca de pessoas, enquanto não podiam de outra forma libertar alguns escravos. Portanto, além de iniciar a libertação dos escravos nos templos, como um ato de piedade, a Igreja decidiu recomendar este ato aos cristãos que faziam um testamento, como obra muito grata a Deus e a sua vista digno de grande mérito e prêmio. Daí as expressões dirigidas ao herdeiro a fim de lhe confiar a libertação "Por amor de Deus, por remédio" ou "pela saúde da minha alma". Nada foi poupado para a redenção dos prisioneiros: os bens dados a Deus foram vendidos; foram fundidos o ouro e as pedras sagradas; alienaram-se os ornamentos e os tesouros das basílicas, como foi feito mais de uma vez por Ambrósio, Agostinho, Ilário, Eligio, Patrício e muitos outros homens santos.

Muito fizeram pelos escravos os Romanos Pontífices, verdadeiramente memoráveis como defensores dos fracos e vingadores dos oprimidos. São Gregório Magno libertou o máximo que pôde e, no conselho romano do ano de 597, queria que fosse dada liberdade para aqueles que haviam decidido de dedicar-se à vida monástica. Adriano I ordenou que os escravos pudessem livremente contrair matrimônio, contra a vontade dos senhores. Alexander III, em 1167, prescreveu abertamente ao rei Mauro de Valenza que não escravizasse qualquer cristão, pois ninguém é escravo por natureza, e todos foram criados livres por Deus. Também Inocêncio III, a pedido dos fundadores Giovanni da Matha e Felice de Valois, no ano de 1198, aprovou e promulgou a Ordem da Santíssima Trindade para a redenção dos cristãos que haviam caído em poder dos turcos. Honório III e depois Gregório IX aprovaram uma Ordem, semelhante à anterior, de Santa Maria da Mercede; Ordem que Pietro Nolasco havia fundado com uma lei severa, segundo a qual todos os religiosos que faziam parte dela se tornariam escravos para substituir os prisioneiros cristãos da tirania, se isso fosse necessário para redimi-los. O próprio Gregório decretou um mais amplo alívio libertador, pelo qual era sacrilégio vender escravos à Igreja; ele mesmo fez seguir uma exortação aos fiéis para que doassem seus escravos a Deus e aos santos como expiação dos pecados e como sacrifício.

A este propósito, muitos outros méritos da Igreja são adicionados. De fato, ao aplicar severas punições, ela sempre defendia os escravos da ira cruel e dos ultrajes lesivos dos senhores; abriu os lugares sagrados como um refúgio para aqueles que foram oprimidos pela violência; aceitou os escravos libertados como testemunhas, e reteve com ameaça de punição aqueles que ousassem com criminosos enganos reduzir um homem livre à escravidão. Com um favor cada vez maior, a Igreja entregou-se à libertação dos escravos que, de qualquer forma, de acordo com os tempos e lugares, considerava seus fiéis; seja quando estabeleceu que os bispos deveriam libertar de todo vínculo de escravidão aqueles que assinalados por ininterrupta e louvável honestidade de vida; seja quando facilmente permitiu que os bispos declarassem seus servos livres, por um ato de vontade soberana. Além disso, deve ser atribuído à misericórdia e ao poder da Igreja se a severidade do direito civil foi de certa forma mitigada para com os escravos, e se as emendas propostas por Gregório Magno foram aceitas na lei escrita das nações. Isso foi feito sobretudo pela obra de Carlos Magno, que as introduziu em sua Capitularia, assim como fez Graziano no Decretum. Finalmente, ao longo dos séculos, os monumentos, as leis, as instituições ensinam e

ilustram esplendidamente a sublime caridade da Igreja para com os escravos, a cuja aflita sorte nunca deixou sem proteção

e

sempre aliviou com toda assistência. Portanto, não se

atribuirão nunca elogios suficientes nem jamais se será grato o suficiente à Igreja Católica que pela mais alta graça de Cristo Redentor aboliu a escravidão, introduziu entre os homens a verdadeira liberdade, a fraternidade, a igualdade e, portanto, se fez benemérita da prosperidade dos povos.

No final do décimo quinto século, quando a funesta praga da escravidão tinha quase desaparecido entre os povos cristãos e os Estados tentavam fortalecer-se na liberdade evangélica e estender o seu domínio, esta Sé Apostólica, com vigilância constante tentou evitar que germinassem aquelas sementes do mal. Então, ela voltou sua atenção vigilante para os territórios recentemente descobertos na África, Ásia e América. Na verdade, chegaram relatos que os líderes dessas expedições, embora os cristãos, haviam abusado de armas e inteligência para impor a escravidão a populações inofensivas. Na prática, por causa da natureza do território que se queria submeter e das minas de metais para explorar e cavar com grande utilização de mão de obra, foram adotadas medidas certamente injustas e desumanas. Na verdade, se começou com algum tráfico deportando da Etiópia escravos para empregar naqueles trabalhos: tal operação foi definida como "trata dos negros" [comércio de negros], se enfureceu além da medida nessas colônias. Seguiu então seguiu com crueldade não muito diferente, a opressão dos indígenas (geralmente chamados de "índios") ao modo dos escravos. Não apenas estes fatos foram participados para Pio II que, sem demora, no dia de outubro de 1462, escreveu uma carta ao Bispo de Rubio para repreender e condenar tamanha maldade. Não muito tempo depois Leo X utilizou todos os bons ofícios e autoridade que tinha junto aos reis de Portugal e da Espanha porque se dispunha a erradicar as raízes daquele abuso contrário não só à religião, mas também à humanidade e à justiça. Todavia aquela vergonha persistia, porque sobrevivia a infame causa da insaciável cobiça pelo lucro. Em seguida Paulo III, ansioso na sua paterna caridade pela sorte dos índios e dos escravos africanos, tomou a decisão extrema de afirmar com solene decreto, perante os olhos de todas as nações, que a todos os escravos era devido um justo e particular poder em três formas: eles poderiam dispor de sua própria pessoa; eles poderiam viver em sociedade de acordo com suas leis; eles poderiam adquirir e possuir bens. Estas disposições foram mais amplamente confirmadas na carta enviada ao cardeal arcebispo de Toledo: Aqueles que trabalhasse contra o mesmo decreto incorria na interdição dos sacramentos, reservando ao Romano Pontífice a faculdade para absolvê-los. Com o mesmo cuidado e constância, outros pontífices como Urbano VIII, Bento XIV, Pio VII se mostraram

bravos defensores da liberdade para os índios e para os negros e para outros ainda não educados na fé cristã. Pio VII, também,

no

Congresso de Viena dos príncipes aliados europeus, chamou

a atenção de todos para o comércio dos negros (o qual se mencionou) para que fosse radicalmente abolida, como já havia sido suprimida em muitos lugares. Gregório XVI também advertiu severamente aqueles que desprezavam a clemência e as leis; recolocou em vigor os decretos e as punições estabelecidas pela Sé Apostólica e não omitiu quaisquer argumentos, porque mesmo as nações distantes, imitando a moderação dos europeus, devem abster-se de ignomínia e da

crueldade da escravidão. A propósito, tem acontecido a nós de recebermos congratulações de príncipes e governantes por termos obtido, por força de oração perseverante, que fossem ouvidas as longas e justíssimas reivindicações da natureza e da religião.

Em situação semelhante, aflige não pouco o nosso espírito outra preocupação que estimula nossa solicitude. Se esse mercado tão vergonhoso de homens, de fato, cessou nos mares, no entanto, é praticado no solo de forma extensiva e barbarizada, especialmente em muitas partes da África. Como, na verdade, os muçulmanos praticam a perversa teoria que um etíope ou um homem de linhagem afim é apenas superior a um animal, é fácil de entender com consternação qual seja a perfídia e a crueldade daqueles homens. De repente, sem medo algum, eles avançam contra as tribos dos etíopes, de acordo com o costume e com o ímpeto dos saqueadores; eles fazem incursões nas cidades, nas aldeias, no campo; tudo devastam, espoliam, sequestram; eles levam homens, mulheres e crianças, facilmente capturados e conquistados, para trazê-los à viva força nos seus mercados mais infames. Do Egito, de Zanzibar e em parte também do Sudão, a partir dos centros de coleta, geralmente saem essas expedições abomináveis; por longo caminho os homens procedem acorrentados, mal alimentados, sob frequentes chicotadas; os menos aptos a suportar essa violência são mortos; aqueles que sobrevivem, são vendidos como um rebanho com outros escravos e são forçados a ficar diante de um comprador difícil e despudorado. Aqueles que são vendidos a ele são forçados a uma separação miserável de sua esposa, dos filhos, dos pais; e em seu poder eles estão sujeitos à escravidão cruel e abominável, e não podem rejeitar a religião de Maomé. Aprendemos esses fatos, mas não é muito, com uma alma profundamente perturbada, de alguns que foram testemunhas, não sem lágrimas, de tanta infâmia e aberração; com eles, então, concordo plenamente com as narrativas dos recentes exploradores da África Equatorial. De fato, seu testemunho confiável mostra que o número de africanos vendidos anualmente, como um rebanho, chega a quatrocentos mil, dos quais cerca de metade, exauridos pelo caminho conturbado, cai e morre, de modo que os viajantes (que triste dizer!) podem ver o caminho quase marcado por ossos residuais. Quem não se sentirá comovido com o pensamento de tantos males? Nós que representamos a pessoa de Cristo, amoroso a todas as pessoas, o libertador e redentor, Nós que nos deliciamos com os muitos e gloriosos méritos da Igreja para com os infelizes de todos os tipos, dificilmente podemos dizer quanta pena sentimos em relação àquelas pessoas mais infelizes, com quão imensa caridade abrimos a eles os braços, quão ardentemente desejamos proporcionar-lhes conforto e ajuda possível, para que, tão logo a escravidão dos homens seja destruída juntamente com a escravidão da superstição, eles possam, finalmente, servir a um só Deus, sob o jugo de Cristo, partícipes conosco da herança divina. O céu desejaria que todos aqueles que são superiores por autoridade e poder, e que querem santificar os direitos das nações e da humanidade, ou que estão preocupados em aumentar a religião católica, todos com tenacidade conspirassem para reprimir, para proibir, para suprimir (aderindo às nossas exortações e orações) esse mercado, do qual nada é mais desonesto e iníquo.

Provisoriamente, enquanto novas estradas e novos

negócios estão se abrindo nas terras africanas, graças ao mais rápido progresso do intelecto e das atividades, os missionários, da melhor maneira possível, tentam prover a saúde e a liberdade dos escravos. Eles não alcançarão este resultado se, corroborados pela graça divina, não se dedicarem inteiramente

a

difundir e a nutrir, cada dia mais, nossa mais santa fé com

crescente fervor. O excelente fruto disso consiste em favorecer

e

gerar admiravelmente a liberdade "com a qual Cristo nos

libertou" (Gl 4:31). Portanto, nós os convidamos a considerar - como num espelho de virtude apostólica - a vida e as obras de Pedro Claver, a quem atribuímos uma coroa recente de glória. Olhem para ele, que, com total constância em seu trabalho, durante quarenta anos, sem interrupção, dedicou-se inteiramente às formas miseráveis dos escravos negros, e realmente mereceu o título de Apóstolo daqueles a quem se consagrou, professando-se seu servo perpétuo. Se os missionários tiverem o cuidado de tomarem-se a si próprios e de renovar a caridade e a paciência para eles, certamente vão ser dignos ministros da salvação, portadores de consolação, mensageiros de paz, e irão, com a ajuda de Deus, converter a solidão, a ignorância, a barbárie em feliz riqueza da religião e da civilização.

E agora, Veneráveis Irmãos, o Nosso pensamento e a Nossa Carta desejam voltar-se novamente a Você para expressar e compartilhar a grande alegria que vem das decisões tomadas publicamente neste Império sobre a escravidão. Porque por lei foi provido e disposto que aqueles que ainda estão em uma condição servil devem ser admitidos na ordem e nos direitos dos cidadãos livres, este fato a nós parece em si mesmo bom, fausto e saudável, e também confirma e encoraja a esperança de atos futuros de progressos civis e religiosos. Portanto, o nome do Império brasileiro será merecidamente lembrado e elogiado pelos povos mais evoluídos, e ao mesmo tempo a fama do augusto imperador aumentará, ao qual essas nobres palavras se referem: nada é mais desejável do que apagar rapidamente todos os vestígios de escravidão dentro do próprio Estado.

Mas enquanto se estiver aplicando as prescrições dessas leis, trabalhe arduamente (eu lhes peço com todo meu coração), e intervenha com grande zelo nesta obra que certamente não enfrenta pequenas dificuldades. Faça com que senhores e escravos cheguem a um acordo entre si com o espírito bem disposto e com plena lealdade e que não se desviem, após um breve momento, da clemência e da justiça, mas que todos os acordos sejam concluídos de modo legítimo, calmo, cristão: espera-se, sobretudo, que seja supressa e abolida

a

escravidão como todos desejavam, sem qualquer violação dos

direitos humanos e divinos, sem qualquer agitação social e, de fato, com segura vantagem dos escravos em questão. Para cada um deles, ou já feito livre ou prestes a ser, recomendamos com zelo pastoral e amor paterno algumas advertências salutares, extraídas dos escritos do grande Apóstolo dos Gentios. Eles, portanto, assegurem-se de preservar e declarar publicamente sua lembrança grata e amorosa daqueles que sabiamente trabalharam pela sua libertação. Que nunca se façam indignos de tão grande benefício, nem confundem liberdade com licença desenfreada, mas façam uso da liberdade como convém aos cidadãos de bons costumes, em benefício de uma vida ativa, para o benefício e apoio da família e da sociedade. Temer e

respeitar a majestade dos reis, obedecer aos funcionários, submeter-se às leis: estes e outros semelhantes deveres para cumprir assiduamente, não tanto por medo quanto ao sentido religioso. Além disso, se abstenham e se distanciem da inveja pela riqueza e o prestígio dos outros; lamentamos que o hábito aflija a muitos entre os humildes e forneça razões perversas contra a paz e a segurança da sociedade. Contentes com seu bem-estar e condição, não têm nada de mais querido, nada mais ansiosamente desejado que os bens do reino celeste, graças aos quais foram trazidos à luz e foram redimidos por Cristo. Eles também são animados pela devoção a Deus, seu Senhor e Libertador, o amem com todo o coração, respeitosamente guardem seus mandamentos. Se alegrem por serem filhos de Sua Esposa, a Santa Igreja; tentem ser o melhor e, tanto quanto puderem, retribuam seu amor.

Insistem também, Veneráveis Irmãos, em sugerir e inculcar estes mesmos ensinamentos nos escravos libertos; Como é nosso maior desejo e como deve ser para vós e para todos os bons, a religião antes de tudo traz e disfruta para sempre os abundantes frutos da ocorrida libertação onde quer que este Império se estenda.

E para que isso aconteça da maneira mais alegre, invocamos e imploramos a graça superabundante de Deus e a ajuda maternal da Virgem Imaculada. Como um desejo pelos dons celestiais e como testemunho de nossa benevolência paterna, para vocês, Veneráveis Irmãos, para o Clero e para todas as pessoas, amorosamente transmitimos a bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a São Pedro, em 5 de maio de 1888, décimo primeiro ano do nosso pontificado.

LEÃO XIII