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EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema I

O processo autônomo de execução e a fase executiva. Conceito e finalidade da execução. Meios de execução.
Natureza jurisdicional do processo de execução. Diferença existente entre processo de execução e processo
de conhecimento. Autonomia do processo de execução em relação ao de conhecimento. Princípios
informativos do processo de execução e da fase executiva: o princípio da realidade; o princípio da
parcialidade; o princípio dispositivo. Etapas no processo de execução.

Notas de Aula1

1. O processo de execução

No sistema clássico, o processo de conhecimento era dividido em quatro fases: a


postulatória, que ia do ajuizamento da petição inicial até a resposta do réu, passando pela
citação; em seguida havia a fase de saneamento, em que o juiz organizava o processo,
podendo até mesmo julgá-lo já ali; após, havia a fase instrutória, que era eventual, pois se a
produção de provas fosse dispensável, não havia instrução a ser procedida; e por fim havia
a fase decisória, culminando na sentença.
O processo de conhecimento, então, se destinava apenas a decidir quem tinha a
razão. Na sua dialética, este processo visava a que o juiz encontrasse a síntese resolutória
da lide, representada na tese formulada pelo autor na antítese formulada pelo réu.
Findando-se esta discussão, alcançada a solução da lide, o processo cognitivo encerrava-se
em seu escopo, e seria necessária a propositura de um processo autônomo de execução para
que o detentor do direito encontrado procedente na cognição pudesse satisfazê-lo
efetivamente.
Este processo executivo autônomo, portanto, tinha um só desfecho possível, qual
seja, a satisfação da obrigação positivada no título executivo. É o que se chama de princípio
do desfecho único esperado. Enquanto o processo de conhecimento é um processo de
revelação do direito, o executivo é para realização fática do direito já revelado, mediante a
invasão do patrimônio do devedor, mesmo contra sua vontade, para satisfação da obrigação
constante do título executivo. Qualquer execução que não termine em satisfação ao credor
seria anômala, ou seja, teria desfecho anômalo.
Neste sistema antigo, qualquer defesa que demandasse conhecimento, no processo
de execução, demandava o ajuizamento de uma ação de conhecimento incidental, que se
chamava embargos do devedor. A regra era esta, ante a ausência de dialética na execução, e
a vigência do princípio da autonomia, em que a execução se regia exclusivamente por
processo autônomo, havendo apenas a vinculação por conexão ao processo cognitivo
incidental à execução, os embargos do devedor.
Ocorre que o processo de execução autônomo, por vezes, era mais moroso que o
próprio processo cognitivo, de descobrimento do direito. Por isso, hoje esta concepção
estática não vige, porque em prol da efetividade processual, norte maior da concepção do
processo, a morosidade é o maior dos inimigos da jurisdição. Passa-se, então, à nova
concepção processual, em que tudo que era autônomo, no rito satisfativo, passa a ser parte
integrante do mesmo processo, sem a ilógica interrupção na obtenção do direito que era
representada pela cisão entre a fase cognitiva e a executória.

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Aula ministrada pelo professor José Antônio Ocampo Bernardez, em 28/8/2009.

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Hoje, portanto, há a sentença da fase cognitiva, e o devedor, desde então, conta com
prazo de quinze dias para satisfazer a obrigação que ali lhe foi imposta. Não pagando,
poderá se defender, se garantir o juízo com a penhora de bens seus, defesa a que se chama
de impugnação. Mas aqui surgem alguns problemas.
O primeiro é a nomeação de bens à penhora, que hoje é feita pelo próprio credor, e
não pelo devedor, e a possibilidade de penhora on line, medida severamente gravosa que
torna indisponível bem de absoluta relevância para o devedor, qual seja, seu ativo mais
volátil – o dinheiro. Ao mesmo tempo em que esta medida é severa, ela é de enorme
eficácia, porque não só tem a capacidade de provocar a satisfação plena do crédito, ao final,
quando do eventual levantamento pelo credor, como propugna a resolução do processo de
forma célere pelo próprio devedor, que se vê na contingência de oferecer solução rápida,
quer por acordo, quer para liberação de eventual excesso de penhora. A demora na
execução, hoje, é desinteressante a todos os participantes do processo, em regra.
Hoje, então, o processo é sincrético: há, num mesmo processo, a junção de duas
fases distintas, a cognitiva e a executiva. Este processo misto se contrapõe aos processos
autônomos de conhecimento e execução de outrora, pois onde vige o sincretismo não vige a
autonomia, por mera constatação lógica.
Toda execução, mesmo a fase executiva do processo sincrético, tem início em um
título executivo que a lastreie, e este título pertence a rol típico estabelecido pelo legislador.
O modelo sincrético do processo, em regra, se baseia na obtenção e execução de um título
executivo judicial, mas nem todo título desta natureza será executado sincreticamente, pois
há títulos executivos judiciais que demandarão processo de execução autônomo: a sentença
penal condenatória é o exemplo maior. Veja: o juiz penal, ao condenar o réu em crime com
repercussão econômica de qualquer sorte, aporá na sentença penal, também, o valor
indenizatório mínimo a ser pago pelo condenado; a satisfação deste valor, porém, não
poderá ser perseguida no próprio juízo criminal, demandando satisfação em processo
autônomo. O mesmo se dá com a sentença arbitral, ou com a sentença estrangeira
homologada pelo STJ.
Afora estes títulos judiciais, o processo sincrético é o que se presta à satisfação do
crédito contido em títulos executivos judiciais. O processo executivo autônomo, porém,
ainda será o procedimento a ser seguido para todos os títulos executivos extrajudiciais, e
para os títulos executivos judiciais pontuados acima.
Veja que os procedimentos satisfativos são bastante diversos entre si. O artigo 598
do CPC bem ilustra, pois é norma de reenvio que destaca os dispositivos da execução dos
que se dirigem à cognição:

“Art. 598. Aplicam-se subsidiariamente à execução as disposições que regem o


processo de conhecimento.”

O artigo 475-R, do CPC, é outra norma de reenvio relevante:

“Art. 475-R. Aplicam-se subsidiariamente ao cumprimento da sentença, no que


couber, as normas que regem o processo de execução de título extrajudicial.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

O sistema executivo autônomo assim foi estruturado, então: adota-se o modelo


padrão para o livro de execução, ou seja, é o título executivo extrajudicial, sobretudo a
execução por quantia certa contra devedor solvente, o modelo padrão, de onde se extraem

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todas as fases da execução autônoma. As fases são as seguintes: há a proposição da


execução, que se inicia com a petição; há uma fase instrutória, iniciada na penhora,
passando pelos incidentes eventuais; e uma fase de efetivação, de entrega do bem ao credor.
Este modelo autônomo é aplicável à fase executiva do modelo sincrético – fase de
cumprimento de sentença –, no que couber, e é a extensão deste cabimento que gera muita
controvérsia, hoje.
Outra controvérsia que ainda persiste é o próprio conceito de sentença, que parece
ter sido alterado pelo legislador. Sentença é o ato que implica uma das situações dos artigos
267 ou 269 do CPC, como dispõe o artigo 162, § 1º, do CPC, o que indica que este ato,
hoje, se identifica pelo conteúdo, mais do que pela situação topográfica no processo – pois
sentença era, anteriormente, o ato que punha termo ao processo, como se vê na redação
anterior do referido dispositivo:

“Art. 162. Os atos do juiz consistirão em sentenças, decisões interlocutórias e


despachos.
§ 1º Sentença é o ato pelo qual o juiz põe termo ao processo, decidindo ou não o
mérito da causa.
§ 1º Sentença é o ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts.
267 e 269 desta Lei. (Redação dada pelo Lei nº 11.232, de 2005)
(...)”

No processo sincrético, esta definição se amolda com bastante precisão, porque o


processo não encontra termo final na sentença; muito ao contrário, esta acontece
efetivamente no meio do processo, em que se encerra a fase cognitiva e tem início a fase
executória. A sentença, hoje, encerra o módulo de conhecimento, ou o módulo de execução,
e não o processo em si.
Em suma, quando não for possível o processo sincrético, porque o título a ser
satisfeito não decorre naturalmente de um rito cognitivo que leve à fase executiva, a
execução autônoma ainda persiste, nos moldes em que é prevista para a execução de títulos
executivos extrajudiciais. No processo sincrético, há as quatro fases que se mencionou do
processo cognitivo – postulação, saneamento, instrução e decisão –, e há ainda uma quinta
fase, a satisfação, na fase de execução denominada cumprimento de sentença.
O artigo 475-J do CPC traz o prazo a ser observado para satisfação espontânea do
crédito extraído da sentença cognitiva:

“Art. 475-J. Caso o devedor, condenado ao pagamento de quantia certa ou já


fixada em liquidação, não o efetue no prazo de quinze dias, o montante da
condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento e, a
requerimento do credor e observado o disposto no art. 614, inciso II, desta Lei,
expedir-se-á mandado de penhora e avaliação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
§ 1º Do auto de penhora e de avaliação será de imediato intimado o executado, na
pessoa de seu advogado (arts. 236 e 237), ou, na falta deste, o seu representante
legal, ou pessoalmente, por mandado ou pelo correio, podendo oferecer
impugnação, querendo, no prazo de quinze dias. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
§ 2º Caso o oficial de justiça não possa proceder à avaliação, por depender de
conhecimentos especializados, o juiz, de imediato, nomeará avaliador, assinando-
lhe breve prazo para a entrega do laudo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)

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§ 3º O exeqüente poderá, em seu requerimento, indicar desde logo os bens a serem


penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 4º Efetuado o pagamento parcial no prazo previsto no caput deste artigo, a multa
de dez por cento incidirá sobre o restante. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 5º Não sendo requerida a execução no prazo de seis meses, o juiz mandará
arquivar os autos, sem prejuízo de seu desarquivamento a pedido da parte.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Surge questão altamente discutida, hoje: o prazo de quinze dias, previsto no caput
do artigo supra, tem início em que momento? Tamanha foi a confusão criada em torno da
definição deste dies a quo que, assim que surgiu a reforma, surgiram também oito correntes
doutrinárias disputando a solução deste aspecto. Hoje, basicamente, duas são as vertentes.
Vejamos.
A primeira corrente, à qual se filia o STJ e Cássio Scarpinella Bueno, dispõe que o
prazo tem início automaticamente, quando do trânsito em julgado da sentença, ou seja, é
dispensada qualquer intimação do devedor para pagamento. Não pagando neste prazo, e
havendo requerimento do credor (pois vigora o princípio da disponibilidade da execução,
eis que o credor pode não querer satisfazer o crédito, por qualquer motivo), tem início a
fase de expropriação dos bens do devedor, já com a aplicação da multa2.
O TJ/RJ, por seu turno, filia-se à segunda corrente, capitaneada por Alexandre
Câmara, a qual defende que o prazo de quinze dias, para pagamento espontâneo, tem início
da intimação do devedor para pagar, ou seja, não corre automaticamente com o trânsito em
julgado da sentença. Veja o Incidente de Uniformização de Jurisprudência 7/2007, do
TJ/RJ:

“2007.018.00007 - INCIDENTE DE UNIFORMIZACAO DE


JURISPRUDENCIA. DES. MARCUS FAVER - Julgamento: 18/08/2008 -
ORGAO ESPECIAL.
LEI N. 11232, DE 2005. CUMPRIMENTO DE SENTENCA. MULTA. TERMO
INICIAL. INTIMACAO PESSOAL DO EXECUTADO. EXTENSAO A
EXECUCAO PROVISORIA.
EMENTA: Incidente de uniformização de jurisprudência. Interpretação do novo
art. 475- J do Código de Processo Civil. Fixação do termo a quo para a contagem
do prazo de 15 (quinze) dias para ensejar a incidência da multa. Momento a ser
estabelecido de forma inequívoca e em harmonia com o sistema processual. A
intimação é o termo inicial do prazo. Exegese compatível com a regra do art. 240
do Código de Processo Civil. Natureza do ato a ser praticado. Tratando-se de
intimação para a prática de ato material, de caráter personalíssimo, a diligência é
de ser realizada na pessoa do próprio executado. Tais regras têm aplicação à
execução provisória prevista no art. 475-O da lei processual. Incidente conhecido.
Interpretação fixada por maioria simples. Não estabelecimento de súmula.
Vencidos os Des. Roberto Wider, Antônio Duarte Ferreira Duarte, Valmir de
Oliveira, Sérgio Lúcio de Oliveira Cruz, Leila Maria Mariano, Paulo Gustavo
Rebello Horta, Letícia Faria Sardas, Wany do Couto Faria e Miguel Ângelo
Barros.”

Parece ser o entendimento mais correto, de fato, este do TJ/RJ, porque a própria
dinâmica da ordem do processo pode tornar impossível o pagamento da obrigação, em

2
Leonardo Greco defende que esta multa só poderia incidir se o devedor agir com dolo, ou seja, se conta com
recursos para pagamento e não paga deliberadamente, dolosamente. Não dispondo o executado de recursos
disponíveis, diz este autor, a multa não pode ser imposta. É tese isolada.

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determinados casos, se não houver intimação. Imagine-se que o processo tenha sido
remetido ao STF ou STJ por motivo de recurso. Tendo lá transitada em julgado a decisão
favorável ao credor, se o prazo tiver logo início pode acontecer de os autos não estarem
disponíveis para o devedor para obtenção da própria guia de pagamento, o que faz com que
a perda do prazo, e a incidência de multa, ocorram sem que o devedor tenha qualquer
ingerência – o que não acontecerá se, baixados os autos à origem, haja a intimação para
pagamento.
Esta segunda corrente encontra ainda uma discussão que a subdivide internamente,
referente a quem deve ser intimado, o devedor pessoalmente, por AR, ou apenas seu
advogado, por publicação no diário oficial. Câmara defende que o AR é imponível, mas a
jurisprudência tem adotado a mera publicação no diário oficial para cientificar o devedor do
seu prazo para pagamento.
De qualquer forma, terminado o prazo sem que tenha havido pagamento
espontâneo, cabe à parte credora requerer a invasão do patrimônio do devedor, em simples
petição avulsa, pela já mencionada disponibilidade da execução. Mesmo que a fase de
cumprimento da sentença tenha início de ofício, a atuação oficiosa termina quando não há
pagamento espontâneo, eis que pode, o credor, não querer a invasão coercitiva do
patrimônio do devedor, por qualquer motivo que seja. Pelo ensejo, veremos em apartado os
princípios da execução, os quais se aplicam tanto à execução autônoma quanto à fase
executiva.
O prazo para pagamento, na execução por título executivo extrajudicial, é de três
dias, na forma do artigo 652 do CPC:

“Art. 652. O executado será citado para, no prazo de 3 (três) dias, efetuar o
pagamento da dívida. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Não efetuado o pagamento, munido da segunda via do mandado, o oficial de
justiça procederá de imediato à penhora de bens e a sua avaliação, lavrando-se o
respectivo auto e de tais atos intimando, na mesma oportunidade, o executado.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º O credor poderá, na inicial da execução, indicar bens a serem penhorados (art.
655). (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º O juiz poderá, de ofício ou a requerimento do exeqüente, determinar, a
qualquer tempo, a intimação do executado para indicar bens passíveis de penhora.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4º A intimação do executado far-se-á na pessoa de seu advogado; não o tendo,
será intimado pessoalmente. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 5º Se não localizar o executado para intimá-lo da penhora, o oficial certificará
detalhadamente as diligências realizadas, caso em que o juiz poderá dispensar a
intimação ou determinará novas diligências. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).”

A contagem deste prazo tem início no próprio ato, e não na juntada do ato de
citação com conteúdo positivo ao processo.
Veja que, hoje, o cumprimento deste prazo é interessante, porque dá ao devedor a
vantagem de pagar os honorários advocatícios pela metade.
Vale mencionar que ainda persiste, hoje, a necessidade da exceção de pré-
executividade, por uma só razão: se não há mais o prazo para embargos à execução, porque
corrido in albis, pode o executado, percebendo a motivação bastante, opor a exceção de
pré-executividade para salvaguardar-se da injustiça notada, eis que este instrumento pode

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ser utilizado a qualquer tempo, ante sua fundamentação em fato de ordem pública,
cognoscível de ofício. Havendo prazo para embargos, não há necessidade de tal
instrumento, pois nos embargos é possível a dedução de toda a matéria cognoscível de
ofício.

1.1. Princípios da execução

O processo de execução, em praticamente todas as suas vertentes, se rege pelo


princípio da realidade, ou seja, a patrimonialidade, que significa que a execução se opera
sobre os bens do devedor, sobre seu patrimônio, e nunca sobre seu corpo, sobre sua pessoa
física. O artigo 591 do CPC dá a nota:

“Art. 591. O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos
os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.”

Sobre a realidade, ou patrimonialidade, vale ainda mencionar que a prisão civil,


hoje restrita ao devedor de alimentos, é uma exceção a este princípio, eis que constrange o
próprio corpo do devedor com a finalidade de obter a satisfação do crédito. Curiosamente,
Cássio Scarpinella Bueno vê na multa do artigo 475-J, há pouco transcrito, uma outra
espécie de invasão corporal, uma outra exceção à realidade da execução: para este autor,
trata-se de uma invasão da psique do devedor, porque compele ao pagamento pelo temor de
haver sobrecarga em seu débito.
Outro princípio já mencionado é o do desfecho único, e este dá azo a um outro
princípio relevante, qual seja, a parcialidade. Na execução, em razão de o desfecho
esperado ser sempre a satisfação do credor, o juiz é parcial, ou seja, ele orienta a sua
atuação, e o processo como um todo, em benefício do credor. Não há atuação do juiz para
resolver direito algum, resolver mérito algum: este já está positivado no título executivo. A
parcialidade informa que o juiz deve buscar entregar ao credor a satisfação de seu crédito,
porque seu direito está certificado no título que fundamenta a execução.
O princípio dispositivo, na execução, é atrelado à disponibilidade: o Judiciário fica
inerte, no momento em que se fizer necessária a incursão forçosa no patrimônio do
executado, porque a parte credora pode pretender não operar esta invasão. Não pode o juiz,
de ofício, comandar a penhora, ou qualquer outra medida executiva.
Vige também o princípio do menor sacrifício ao executado: se a execução puder ser
realizada de mais de uma forma, a que for menos gravosa ao executado deverá ser a
efetivada. Esta orientação é responsável por diversos meandros na execução, como a
impossibilidade de citação postal, por exemplo, como enuncia o artigo 222, “d”, do CPC:

“Art. 222. A citação será feita pelo correio, para qualquer comarca do País, exceto:
(Redação dada pela Lei nº 8.710, de 24.9.1993)
(...)
d) nos processos de execução; (Incluído pela Lei nº 8.710, de 24.9.1993)
(...)”

A lei permite, então, a citação por oficial de justiça, e por edital, subsidiariamente,
se não localizado o devedor pelo oficial; veda a citação postal; mas nada fala sobre a
citação por hora certa. Seria esta cabível?

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Em se entendendo que a menor onerosidade do devedor é o norte, pode-se concluir


que é cabível a citação por hora certa, porque esta é mais barata do que a publicação de
edital. Ora, se o edital é possível, e é tão ficto quanto a hora certa, o meio menos gravoso é
perfeitamente possível. O STJ entende cabível, havendo até mesmo o enunciado 196 da
súmula desta Corte neste sentido:

“Súmula 196, STJ: Ao executado que, citado por edital ou por hora certa,
permanecer revel, será nomeado curador especial, com legitimidade para
apresentação de embargos.”

Outro princípio que vigora na execução é a sua orientação no interesse do credor.


Em nada contradiz, este princípio, o do menor sacrifício ao executado. Não há correlação.
O interesse do credor significa, apenas, que a execução só se justifica quando for atender à
expectativa do credor, pois do contrário não deve ser realizada. Entenda: se uma execução
por determinado valor encontrar um devedor que não dispõe de patrimônio suficiente
sequer para satisfazer as custas do processo (as quais serão pagas antes do levantamento do
valor pelo credor), a execução não deve ser realizada, pois se o for, apenas servirá para
diminuir o patrimônio do devedor, sem em nada acrescer ao patrimônio do credor.
Há ainda uma série de outros princípios atinentes à execução, como o da
responsabilidade, que diz que quem der causa a execução infundada deve responder pelos
prejuízos causados, ou o da lealdade, que dispõe que o devedor que pode colaborar com a
execução e não o faz deve por isso responder, na forma do artigo 600 do CPC:

“Art. 600. Considera-se atentatório à dignidade da Justiça o ato do executado que:


(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
I - frauda a execução; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
II - se opõe maliciosamente à execução, empregando ardis e meios artificiosos;
(Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
III - resiste injustificadamente às ordens judiciais; (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
IV - não indica ao juiz onde se encontram os bens sujeitos à execução.(Redação
dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
IV - intimado, não indica ao juiz, em 5 (cinco) dias, quais são e onde se encontram
os bens sujeitos à penhora e seus respectivos valores. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).”

A abordagem dos demais princípios pode ser feia de forma esparsa, quando da
análise dos demais institutos da execução.

Casos Concretos

Questão 1

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Certo ou errado? Por quê?


“O processo de execução é dialético.”

Resposta à Questão 1

Evidentemente que não. A dialética processual impõe que haja a formulação de uma
tese pelo autor, de uma antítese pelo réu, e da síntese, pelo julgador. Esta dinâmica só
ocorre no processo cognitivo, porque no executório a citação do réu-executado se dá não
para que ele defenda-se, mas sim para pagar a dívida que já se definiu que por ele é devida.
Wilson Marques diz que, em regra, o processo de execução não é dialético, na
medida em que não há tese ou antítese, afirmação ou negação, não havendo contraditório,
portanto. Há quem diga que o contraditório estaria presente simplesmente pela
possibilidade de que haja ciência do ato, e possibilidade de qualquer reação a tal ato – e isto
acontece também na execução. Contudo, não é o que pensa este autor, para quem a dialética
implica em apresentação de teses contrárias com vistas a positivar a síntese, a solução do
direito, o que não se dá na execução.
Os embargos do devedor, por si, seriam oportunidade dialética no curso da
execução, mas estes são uma ação autônoma incidental, de natureza cognitiva, e não
consistem em etapa da execução, não a desnaturando, portanto. À exceção de pré-
executividade se aplica o mesmo raciocínio, mas se se a interpretar como ato processual no
curso da execução, será, de fato, uma exceção à ausência de dialética do processo de
execução.

Questão 2

Cláudio ajuizou ação de revisão de cláusulas contratuais em face do Unibanco


perante o II Juizado Especial Cível da Capital, obtendo sentença favorável, devidamente
transitada em julgado.
A sentença anulou a cláusula mandato, os percentuais de multa, as taxas de
remuneração, além de condenar o réu a apresentar demonstrativo discriminado da
cobrança e a abster-se de incluir o nome do autor nos órgãos protetivos.
Uma vez que o banco não atendeu às determinações do julgado, ingressou o
demandante com nova ação, repetindo a postulação anterior, perante a 30ª Vara Cível da
Capital.
Devidamente citada, a financeira permaneceu revel.
Diante do caso, decida, fundamentadamente.

Resposta à Questão 2

É claro que esta ação merece extinção sem resolução do mérito, porque carece de
interesse-necessidade. Havendo o título executivo prévio, a sentença do juizado transitada
em julgado, basta que esta seja executada para que a pretensão à satisfação do credor seja
obtida. Veja a apelação 2003.001.32632, do TJ/RJ:

“APELACAO. 2003.001.32632. DES. ANTONIO SALDANHA PALHEIRO -


Julgamento: 11/02/2004 - SEGUNDA CAMARA CIVEL.

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CARTAO DE CREDITO. CLAUSULA-MANDATO. CLAUSULA REFERENTE


A JUROS. VALIDADE. PREVALENCIA DA MAIORIA.
CARTÃO DE CRÉDITO. PEDIDO DE REVISÃO DE CLÁUSULAS
CONTRATUAIS. ADEQUAÇÃO DE COBRANÇA E ABSTENÇÃO DE
NEGATIVAÇÃO DO NOME DO AUTOR REQUERIDAS PERANTE JUIZADO
ESPECIAL, COM SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA TRANSITADA EM
JULGADO. NOVA POSTULAÇÃO COM O MESMO OBJETO PERANTE O
JUÍZO CÍVEL, SOB A ALEGAÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DO JULGADO
ANTERIOR. AUSÊNCIA DE INTERESSE. HIPÓTESE DE EXECUÇÃO DO
JULGADO A SER EXERCIDA PERANTE O JUÍZO QUE DECIDIU A
QUESTÃO CONTROVERTIDA ORIGINARIA. NEGADO PROVIMENTO AO
RECURSO.”

Vale dizer que Wilson Marques tem opinião peculiar sobre esta situação, quando se
tratar de título executivo extrajudicial. Para ele, há, sim, interesse na ação cognitiva de
título executivo extrajudicial, pelo seguinte raciocínio: o título executivo extrajudicial não
conta com processo cognitivo prévio a sua formação, e por isso toda e qualquer discussão
poderá ser suscitada na execução de tal título, uma vez que não há decisão judicial prévia
resolvendo nenhuma controvérsia sobre ele. Sendo assim, por ser esta execução um leque
aberto de discussões sobre o título extrajudicial, o percurso de um processo de
conhecimento deste título executivo extrajudicial se justificaria, teria interesse, porque nele
se elidiriam quaisquer questões que fossem decididas na sentença, e a execução desta,
novel título executivo substituto ao extrajudicial deduzido, se faria sem que as questões ali
resolvidas pudessem ser novamente ventiladas. O interesse, então, é permitir uma execução
com matéria de defesa muito mais restrita do que seria se fosse executado o próprio título
extrajudicial. É uma tese isolada, e que causa bastante estranheza, pois se calca justamente
em uma eventualidade, qual seja, a discussão que será possível nos embargos.
No cumprimento de sentença, diga-se, sequer se discute esta tese de Wilson
Marques, porque como qualquer execução de título judicial, a matéria de defesa encontra
barreira na coisa julgada adquirida pelo próprio título exeqüendo.

Questão 3

Considerando o princípio do sincretismo, materializado através de artigos da Lei


11.232/05, responsável por promover consideráveis alterações no corpo de nosso Código
de Processo Civil, é correto afirmar que nosso sistema processual civil não mais acolhe o
princípio da autonomia do processo de execução, uma vez que incorporada uma 5ª fase ao
processo de conhecimento, qual seja, a fase de cumprimento da sentença?

Reposta à Questão 3

Não. Ainda persiste a autonomia da execução quando se tratar de título executivo


extrajudicial, e também de determinados títulos judiciais, como a sentença penal
condenatória, a sentença arbitral, e a sentença estrangeira, homologada pelo Superior
Tribunal de Justiça.
O processo sincrético pretende a fusão das atividades de cognição e execução dentro
de um mesmo processo. Assim, o processo, após as alterações promovidas na lei, passa a
constituir-se por cinco fases – postulatória, saneadora, instrutória, decisória e satisfativa.

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Prolatada a sentença, o magistrado apenas encerra um módulo processual, o cognitivo,


incursando na fase satisfativa.
Entretanto, tratando-se de título executivo extrajudicial, e de sentença penal
condenatória, sentença arbitral, ou sentença estrangeira homologada, o processo de
execução autônomo persiste exatamente como era.

Tema II

Partes no processo de execução. Legitimação ativa originária e superveniente. Legitimação passiva.


Competência para processar a ação de execução e para o processamento da fase executiva (art. 475-P).
Competência para o processamento e julgamento dos embargos e do incidente de impugnação.

Michell Nunes Midlej Maron 10


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Notas de Aula3

1. Legitimação na execução

Tratar-se-á, neste tópico, tanto da execução autônoma quanto do cumprimento de


sentença. Segundo o artigo 566 do CPC, pode iniciar a execução, lato sensu:

“Art. 566. Podem promover a execução forçada:


I - o credor a quem a lei confere título executivo;
II - o Ministério Público, nos casos prescritos em lei.”

O CPC passou por grandes reformas, recentemente. A Lei 11.232/05 revogou o


artigo 570 do CPC, que versava sobre legitimidade ativa do devedor. Veja:

“Art. 570. O devedor pode requerer ao juiz que mande citar o credor a receber em
juízo o que lhe cabe conforme o título executivo judicial; neste caso, o devedor
assume, no processo, posição idêntica à do exeqüente. (Revogado pela Lei nº
11.232, de 2005)”

Esta legitimação ativa do devedor se assemelhava, em certo aspecto, à consignação


em pagamento. Hoje, porém, não mais vige legitimação ativa do devedor, em execução.
A legitimação do MP não é irrestrita. O parquet só terá legitimidade ativa para
executar nas hipóteses que sejam expressas no artigo 127 da CRFB, ou seja, quando houver
presentes interesses sociais ou individuais indisponíveis. Veja:

“Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função


jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime
democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
(...)”

Assim, o MP tem legitimidade para executar uma sentença de alimentos, eis que se
trata de interesse individual indisponível, mas não tem interesse para executar uma sentença
condenatória por indenização ordinária, sem qualquer cunho indisponível. A legitimidade
para tanto está no artigo 201 da Lei 8.069/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente:

“Art. 201. Compete ao Ministério Público:


I - conceder a remissão como forma de exclusão do processo;
II - promover e acompanhar os procedimentos relativos às infrações atribuídas a
adolescentes;
III - promover e acompanhar as ações de alimentos e os procedimentos de
suspensão e destituição do pátrio poder, nomeação e remoção de tutores, curadores
e guardiães, bem como oficiar em todos os demais procedimentos da competência
da Justiça da Infância e da Juventude;
IV - promover, de ofício ou por solicitação dos interessados, a especialização e a
inscrição de hipoteca legal e a prestação de contas dos tutores, curadores e
quaisquer administradores de bens de crianças e adolescentes nas hipóteses do art.
98;
V - promover o inquérito civil e a ação civil pública para a proteção dos interesses
individuais, difusos ou coletivos relativos à infância e à adolescência, inclusive os
definidos no art. 220, § 3º inciso II, da Constituição Federal;
3
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 31/8/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 11


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VI - instaurar procedimentos administrativos e, para instruí-los:


a) expedir notificações para colher depoimentos ou esclarecimentos e, em caso de
não comparecimento injustificado, requisitar condução coercitiva, inclusive pela
polícia civil ou militar;
b) requisitar informações, exames, perícias e documentos de autoridades
municipais, estaduais e federais, da administração direta ou indireta, bem como
promover inspeções e diligências investigatórias;
c) requisitar informações e documentos a particulares e instituições privadas;
VII - instaurar sindicâncias, requisitar diligências investigatórias e determinar a
instauração de inquérito policial, para apuração de ilícitos ou infrações às normas
de proteção à infância e à juventude;
VIII - zelar pelo efetivo respeito aos direitos e garantias legais assegurados às
crianças e adolescentes, promovendo as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis;
IX - impetrar mandado de segurança, de injunção e habeas corpus, em qualquer
juízo, instância ou tribunal, na defesa dos interesses sociais e individuais
indisponíveis afetos à criança e ao adolescente;
X - representar ao juízo visando à aplicação de penalidade por infrações cometidas
contra as normas de proteção à infância e à juventude, sem prejuízo da promoção
da responsabilidade civil e penal do infrator, quando cabível;
XI - inspecionar as entidades públicas e particulares de atendimento e os
programas de que trata esta Lei, adotando de pronto as medidas administrativas ou
judiciais necessárias à remoção de irregularidades porventura verificadas;
XII - requisitar força policial, bem como a colaboração dos serviços médicos,
hospitalares, educacionais e de assistência social, públicos ou privados, para o
desempenho de suas atribuições.
§ 1º A legitimação do Ministério Público para as ações cíveis previstas neste artigo
não impede a de terceiros, nas mesmas hipóteses, segundo dispuserem a
Constituição e esta Lei.
§ 2º As atribuições constantes deste artigo não excluem outras, desde que
compatíveis com a finalidade do Ministério Público.
§ 3º O representante do Ministério Público, no exercício de suas funções, terá livre
acesso a todo local onde se encontre criança ou adolescente.
§ 4º O representante do Ministério Público será responsável pelo uso indevido das
informações e documentos que requisitar, nas hipóteses legais de sigilo.
§ 5º Para o exercício da atribuição de que trata o inciso VIII deste artigo, poderá o
representante do Ministério Público:
a) reduzir a termo as declarações do reclamante, instaurando o competente
procedimento, sob sua presidência;
b) entender-se diretamente com a pessoa ou autoridade reclamada, em dia, local e
horário previamente notificados ou acertados;
c) efetuar recomendações visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância
pública afetos à criança e ao adolescente, fixando prazo razoável para sua perfeita
adequação.”

Repare que o STJ restringe esta atuação do MP, pois entende que somente surge
quando o alimentando não contar com representante hábil, ou quando com este conflitarem
os interesses do alimentando.
O interesse social, que ampara a legitimação do MP, é um gênero, composto pelas
espécies de direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos. Surge a questão: quando o
MP atua, nestas hipóteses de execução coletiva lato sensu, sua legitimação é ordinária ou
extraordinária?
A doutrina diverge ferozmente. A primeira corrente, capitaneada por Paulo César
Pinheiro Carneiro, entende que a legitimidade é sempre ordinária, porque o interesse da
instituição se confunde com o próprio interesse social em jogo, qualquer que seja a espécie.

Michell Nunes Midlej Maron 12


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Outra vertente, oposta, defende que se trata, sempre, de legitimação extraordinária, porque
o MP está sempre deduzindo em seu nome o direito alheio – assim se colocando Fredie
Didier Júnior. Araken de Assis, por seu turno, defende uma corrente intermediária, que
analisa a legitimidade segundo a diferença entre as modalidades de interesses: para os
interesses difusos e os coletivos stricto sensu, vige a indivisibilidade, fazendo impossível a
particularização dos titulares; os individuais homogêneos, ao contrário, encontram titulares
divisíveis, unidos por uma conveniência que identifica os direitos. Sendo assim, conclui
este autor que quando os interesses são indivisíveis, o MP atua como legitimado ordinário;
quando se tratar de direito divisível, como nos individuais homogêneos, a legitimação é
tipicamente extraordinária.
O artigo 68 do CPP precisa ser mencionado, quando se fala de legitimidade ativa do
MP:

“Art. 68. Quando o titular do direito à reparação do dano for pobre (art. 32, §§ 1o
e 2o), a execução da sentença condenatória (art. 63) ou a ação civil (art. 64) será
promovida, a seu requerimento, pelo Ministério Público.”

Este artigo trata da legitimação do MP para a ação civil ex delicto, compreendendo a


execução da sua sentença, ou da sentença penal fixadora do quantum indenizatório. O STF
já foi provocado sobre este dispositivo, que é uma afronta às atribuições da Defensoria
Pública, e decidiu, na oportunidade, que se trata de uma norma eivada de
inconstitucionalidade progressiva: enquanto não houver Defensoria Pública instalada em
determinado Estado-Membro, nele poderá o MP assim atuar; quando se instalar a DPGE, o
MP perde a legitimidade, tornando-se a norma inconstitucional desde então. O mesmo
raciocínio se aplica para a legitimação do MPF, que já se tornou ilegítimo, eis que hoje a
Defensoria Pública da União é plenamente atuante.
A legitimação ativa do credor, constante do inciso I do artigo 566, supra, é
complementada pelo artigo 567 do CPC:

“Art. 567. Podem também promover a execução, ou nela prosseguir:


I - o espólio, os herdeiros ou os sucessores do credor, sempre que, por morte deste,
lhes for transmitido o direito resultante do título executivo;
II - o cessionário, quando o direito resultante do título executivo lhe foi transferido
por ato entre vivos;
III - o sub-rogado, nos casos de sub-rogação legal ou convencional.”

Este artigo 567 trata da sucessão processual, legitimidade ativa superveniente,


significando que a execução poderá prosseguir por mãos diversas daquelas que a
originaram. A primeira hipótese, do inciso I deste artigo, é causa mortis, e as demais são
decorrentes de atos inter vivos.
No processo de conhecimento, se há uma lide entre credor e devedor, pode o credor,
autor, ceder o direito que está em litígio para um terceiro, mas para que o cessionário
ingresse no pólo ativo é preciso que haja autorização da parte contrária, do devedor, réu.
Não havendo autorização, pode o terceiro, no máximo, ingressar como assistente
litisconsorcial. Veja o artigo 42 do CPC:

“Art. 42. A alienação da coisa ou do direito litigioso, a título particular, por ato
entre vivos, não altera a legitimidade das partes.

Michell Nunes Midlej Maron 13


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§ 1º O adquirente ou o cessionário não poderá ingressar em juízo, substituindo o


alienante, ou o cedente, sem que o consinta a parte contrária.
§ 2º O adquirente ou o cessionário poderá, no entanto, intervir no processo,
assistindo o alienante ou o cedente.
§ 3º A sentença, proferida entre as partes originárias, estende os seus efeitos ao
adquirente ou ao cessionário.”

Esta norma do § 1º do artigo supra pretende resguardar a perpetuatio legitimationis.


Se a transferência do crédito se dá na execução, porém, o ingresso do cessionário no pólo
ativo é automático, não havendo necessidade de qualquer autorização por parte do
executado. Esta inaplicabilidade do artigo 42, § 1º, do CPC, à execução, é jurisprudência
pacificada das cortes superiores, havendo alguns autores, como Fredie Didier, porém, que
defendem a aplicação desta norma também à execução.
Tendo sido o crédito cedido no curso da fase cognitiva, e não tendo havido
autorização do réu para o ingresso do cessionário, este se inseriu como assistente
litisconsorcial. Após a sentença, neste caso, poderá o assistente-cessionário promover a
execução, a fase executiva? A legitimidade do novo credor é clara: mesmo não tendo sido
admitido como autor, é dele a legitimidade para a execução, tal como seria se o crédito
houvesse sido cedido já na execução, como dito.
O processo sincrético, como é sabido, é um só feito com duas fases distintas, dois
módulos distintos. Mas há uma questão a ser abordada: há uma só ação sendo levada a
cabo, ou há uma ação na fase cognitiva e uma outra ação na fase executiva?
Alguns autores vêm entendendo que a segunda fase, executiva, representa o
exercício de um novo direito de ação, à exceção de quando se tratar de sentença
autoexecutável. Isto é reforçado pela necessidade de um requerimento de incursão na
execução forçada, quando o devedor não pagar espontaneamente, pois este requerimento
representaria uma nova demanda, uma nova provocação ao Estado-Juiz. Assim se
posicionam, por exemplo, Luis Fux, Fredie Didier e Leonardo Greco. Este último autor
defende que é, de fato, uma nova ação, mas ressalva que o momento em que esta se exerceu
não foi neste requerimento, mas na própria petição inicial da cognição, em que estaria
implícito o pedido de satisfação do direito deduzido. De uma forma ou de outra, há duas
ações.
Seguindo-se este raciocínio, fica claro ainda que somente o cessionário poderá
executar, pois o cedente perdeu a legitimidade para a ação executiva que terá curso, eis que
não mais titulariza o direito.
No pólo passivo, a incursão de novo devedor, assuntor da dívida, é possível, mas
demanda sempre a anuência do credor. Esta é a devida exegese do artigo 568, III, do CPC:

“Art. 568. São sujeitos passivos na execução:(Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
I - o devedor, reconhecido como tal no título executivo; (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
II - o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor; (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
III - o novo devedor, que assumiu, com o consentimento do credor, a obrigação
resultante do título executivo; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
IV - o fiador judicial; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
V - o responsável tributário, assim definido na legislação própria. (Redação dada
pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)”

Michell Nunes Midlej Maron 14


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A anuência do credor é necessária porque como o que responde pelo débito é o


patrimônio do devedor, ao se alterar esta figura, se altera a garantia, ou seja, se altera o
patrimônio sobre o qual recairá a execução. Por isso, é dado ao credor verificar se a
garantia de seu crédito – o patrimônio do assuntor – será suficiente, se alterado o pólo
passivo.
O inciso I do artigo supra traz a regra geral, que diz que o devedor precisa constar
do título. Contudo, há exceções, em que o nome não consta do título e a legitimidade
passiva não é abalada. Por exemplo, a execução fiscal, em que a certidão da dívida ativa é o
título executivo judicial, pode ser iniciada contra a pessoa jurídica, somente ela constando
como devedora-executada, mas, no curso do processo, ser redirecionada para um dos
sócios, quando houver imputação direta deste por atos que o façam incurso nos artigos 134
ou 135 do CTN:

“Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da


obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos atos
em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis:
I - os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores;
II - os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou curatelados;
III - os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes;
IV - o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio;
V - o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pelo
concordatário;
VI - os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos devidos
sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu ofício;
VII - os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas.
Parágrafo único. O disposto neste artigo só se aplica, em matéria de penalidades, às
de caráter moratório.”

“Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a


obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou
infração de lei, contrato social ou estatutos:
I - as pessoas referidas no artigo anterior;
II - os mandatários, prepostos e empregados;
III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito
privado.”

Em uma situação destas (que não se trata de desconsideração da personalidade


jurídica, mas de imputação direta), o título executivo será mantido o mesmo, ou seja, a
certidão da dívida ativa não será substituída, e o executado passará a ser o sócio, e não a
pessoa jurídica. É exemplo claro, portanto, de execução contra quem não figure no título
executivo. Veja um julgado do STJ, que assim deixa claro:

“Tributário. Execução Fiscal. Penhora de bens. Responsabilidade do sócio. Artigos


135 e 136, CTN.
1. O sócio responsável pela administração e gerência da sociedade limitada, por
substituição, é objetivamente responsável pela dívida fiscal, contemporânea ao seu
gerenciamento ou administração, constituindo violação à lei o não-recolhimento da
dívida fiscal regularmente constituída e inscrita. Não exclui a sua responsabilidade
o fato de seu nome não constar na certidão de dívida ativa.
2. Multiplicidade de precedentes jurisprudenciais (STF-STJ).
3. Recurso provido. (STJ, Resp 33.731-1/MG, Rel. Min. Milton Luiz Pereira, 1ª
Turma, DJU 06.03.95, p. 4318)”

Michell Nunes Midlej Maron 15


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Destarte, o inciso I do artigo 568 do CPC dá a regra, que é a constância do devedor


no título, para permitir a execução, mas há exceções em que o devedor não estará no título,
e ainda assim a execução será escorreita.
O inciso II deste artigo 568 do CPC traz outra hipótese de legitimidade passiva:
podem ser executados o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor. Por sucessores,
entenda-se também como a sucessão empresarial da pessoa jurídica, nas hipóteses de
fusão, incorporação e cisão, quando a responsabilidade pela dívida se altera. Não acontece,
por óbvio, na transformação, eis que nesta operação empresarial ocorre apenas a alteração
da forma societária, e não há alteração da responsabilidade.
O inciso III do artigo 568 do CPC trata da assunção de dívida, já abordada. O inciso
IV, por seu turno, cuida do fiador judicial, que é aquele que presta fiança no curso do
processo, perante o juízo. Havendo esta figura, poderá ser executada, se for o caso –
quando o afiançado não puder arcar com a dívida.
O inciso V deste artigo em comento trata do responsável tributário, mas é uma
previsão desnecessária, porque esta figura é devedora, e por isso já se enquadraria no inciso
I do mesmo dispositivo.
Ainda quanto às legitimações, ativa e passiva, deve-se dizer que é possível o
litisconsórcio na execução, respeitadas algumas condições, algumas premissas. Veja o
artigo 573 do CPC:

“Art. 573. É lícito ao credor, sendo o mesmo o devedor, cumular várias execuções,
ainda que fundadas em títulos diferentes, desde que para todas elas seja
competente o juiz e idêntica a forma do processo.”

Este artigo trata da cumulação de execuções. Pode haver cumulação de ações


executivas, em um só processo de execução, se mais de um título for executado pelo
mesmo credor, contra o mesmo devedor. Esta é a regra geral da cumulação de execuções,
ou seja, há um só processo com mais de uma ação executiva deduzida. Não é possível,
porém, na mesma execução, reunirem-se dois ou mais credores diversos, cada um com seu
título aparte, e executarem o mesmo devedor, tal como não é possível que um só credor
execute mais de um título contra devedores diversos, cada um com seu respectivo título.
Este tipo de litisconsórcio não é possível; o que se permite – em verdade, se exige –
é que, havendo mais de um devedor consignado no mesmo título executivo, a execução
tenha pólo plural: trata-se de litisconsórcio passivo necessário. A mesma situação se repete
no pólo ativo: havendo mais de um credor no mesmo título executivo, ambos devem se
apresentar em litisconsórcio ativo necessário.
Pelo ensejo, quanto à cumulação de execuções, há ainda que se observar que esta só
é possível se se tratar de cumulação de títulos cujos procedimentos sejam idênticos. Por
isso, não é possível haver cumulação de execuções se, mesmo havendo mesmo credor e
devedor, uma obrigação seja de fazer e a outra de dar, por exemplo – os ritos executivos são
diversos, e a execução de cada obrigação deve ser apartada.
E note-se que, peculiarmente, pode haver necessidade de cisão de um título, quando
neste documento único vierem consignadas as obrigações cujas execuções sejam
incompatíveis. Por exemplo, se em uma sentença o réu é condenado a pagar valor
pecuniário, e também em determinada obrigação de fazer, haverá que ser cindida a
execução, ou seja, correrá em uma capa o cumprimento do capítulo da obrigação de pagar

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(artigo 475-J do CPC), e em outra o da obrigação de fazer (artigo 461 do CPC), cada uma
em seu rito.

1.1. Intervenção de terceiro na execução

A oposição não tem cabimento na execução, mas há o cabimento dos embargos de


terceiros, cuja finalidade é justamente desconstituir a decisão judicial que determinou a
execução, com fundamentos similares ao da oposição.
A nomeação à autoria não faz qualquer sentido na execução, pois suas hipóteses de
cabimento, artigos 62 e 63 do CPC, não guardam qualquer pertinência com o rito
executório:

“Art. 62. Aquele que detiver a coisa em nome alheio, sendo-lhe demandada em
nome próprio, deverá nomear à autoria o proprietário ou o possuidor.”

“Art. 63. Aplica-se também o disposto no artigo antecedente à ação de


indenização, intentada pelo proprietário ou pelo titular de um direito sobre a coisa,
toda vez que o responsável pelos prejuízos alegar que praticou o ato por ordem, ou
em cumprimento de instruções de terceiro.”

Luis Fux entende que até seria possível a nomeação à autoria, quando se estivesse
diante de hipótese de desconsideração da personalidade jurídica: como nesta situação se
pretende afastar a pessoa jurídica para fazer a execução recair na pessoa por trás, seria
cabível nomear-se à autoria quem seja realmente o responsável pela dívida. É entendimento
isolado.
O chamamento ao processo, também, não encontra lugar na execução, porque o
artigo 595, parágrafo único, do CPC, trata de situação muito similar, expressamente
prevista para a execução:

“Art. 595. O fiador, quando executado, poderá nomear à penhora bens livres e
desembargados do devedor. Os bens do fiador ficarão, porém, sujeitos à execução,
se os do devedor forem insuficientes à satisfação do direito do credor.
Parágrafo único. O fiador, que pagar a dívida, poderá executar o afiançado nos
autos do mesmo processo.”

A assistência simples também não faz sentido na execução. Isto porque, na


execução, o juiz não exerce atividade julgadora típica, não precisando as partes de ajuda do
assistente para convencer o juiz em um ou outro sentido. O juiz não precisa ser convencido
de nada, porque a execução tem mérito, mas não tem julgamento de mérito4. Pelo mesmo
motivo, não é cabível a denunciação da lide, porque como esta se trata do exercício de
direito de regresso no bojo do processo, é secundum eventum litis, sendo preciso que haja
julgamento contrário ao executado para haver lógica no regresso ao denunciado – e como
não há julgamento, não há que se falar em regresso.
É sabido, porém, que a execução pode gerar incidentes cognitivos, como a alegação
de fraude à execução, ou a propugnação da desconsideração da personalidade jurídica. Se
4
Toda a cognição, na execução, é sumária, e por este motivo há quem sustente que a sentença da execução,
por não julgar mérito algum, faz apenas coisa julgada formal. Assim defende Leonardo Greco. Mas há quem
defenda que haja, sim, coisa julgada material, pela influência que esta sentença tem na relação material
anterior à execução. Assim entende o STJ, por exemplo.

Michell Nunes Midlej Maron 17


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há alegação de má-fé do executado em uma alienação, é preciso que haja produção de


provas, em rito cognitivo, sobre tal alegação. Sendo assim, nestes incidentes, o interesse da
intervenção de terceiros pode surgir, sendo admitida especialmente a assistência simples.
Como já se pôde ver, há algumas modalidades de intervenção de terceiros típicas da
execução, como a que se vê no artigo 711 do CPC:

“Art. 711. Concorrendo vários credores, o dinheiro ser-lhes-á distribuído e


entregue consoante a ordem das respectivas prelações; não havendo título legal à
preferência, receberá em primeiro lugar o credor que promoveu a execução,
cabendo aos demais concorrentes direito sobre a importância restante, observada a
anterioridade de cada penhora.”

Trata-se, neste dispositivo, do protesto por preferência. Imagine-se que haja três
execuções em curso, por três credores diversos, em face de um mesmo devedor. A penhora
dos três processos recairá sobre o mesmo bem, e se uma das varas de execução comandar
primeiro esta constrição, os demais credores poderão pleitear incursão na penhora, com a
devida ordem de preferência.
Sobre este artigo 711 do CPC, a súmula 270 do STJ é relevante:

“Súmula 270, STJ: O protesto pela preferência de crédito, apresentado por ente
federal em execução que tramita na Justiça Estadual, não desloca a competência
para a Justiça Federal.”

Pelo ensejo, tratemos da competência na execução.

2. Competência para a execução autônoma ou fase executiva

A regra principal da competência para a execução é a que se baseia no título


executivo: se se tratar de título executivo judicial, a competência segue a regra dos artigos
575 e 475-P do CPC; tratando-se de titulo executivo extrajudicial, a competência é definida
no artigo 576 do CPC:

“Art. 475-P. O cumprimento da sentença efetuar-se-á perante: (Incluído pela Lei nº


11.232, de 2005)
I – os tribunais, nas causas de sua competência originária; (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
II – o juízo que processou a causa no primeiro grau de jurisdição; (Incluído pela
Lei nº 11.232, de 2005)
III – o juízo cível competente, quando se tratar de sentença penal condenatória, de
sentença arbitral ou de sentença estrangeira. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
Parágrafo único. No caso do inciso II do caput deste artigo, o exeqüente poderá
optar pelo juízo do local onde se encontram bens sujeitos à expropriação ou pelo
do atual domicílio do executado, casos em que a remessa dos autos do processo
será solicitada ao juízo de origem. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

“Art. 575. A execução, fundada em título judicial, processar-se-á perante:


I - os tribunais superiores, nas causas de sua competência originária;
II - o juízo que decidiu a causa no primeiro grau de jurisdição;
IV - o juízo cível competente, quando o título executivo for sentença penal
condenatória ou sentença arbitral. (Redação dada pela Lei nº 10.358, de
27.12.2001)”

Michell Nunes Midlej Maron 18


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“Art. 576. A execução, fundada em título extrajudicial, será processada perante o


juízo competente, na conformidade do disposto no Livro I, Título IV, Capítulos II e
III.”

O artigo 576, supra, remete ao processo de conhecimento, fazendo as regras de lá


aplicáveis à execução de título extrajudicial. Como exemplo, a execução de titulo
representativo de obrigação pessoal se processa no domicílio do devedor; a de um cheque,
no foro do local do pagamento, etc.
A execução do titulo judicial será procedida diretamente no tribunal, quando o
processo que o fez surgir correu originariamente no tribunal. Excepcionalmente, a
homologação de sentença estrangeira, que é de competência originária do STJ, terá sua
execução procedida na Justiça Federal de primeira instância.
Se o processo teve curso em primeira instância, originariamente, ter-se-á a execução
também na primeira instância, e, como regra, no mesmo juízo, situação chamada
impropriamente de conexão sucessiva, pois se já há julgamento, não há conexão
(lembrando que este termo é oriundo da época em que não havia sincretismo processual).
Esta “conexão sucessiva” conta com exceções claras: quando se tratar de sentença
criminal com efeitos cíveis, sua execução se dará na vara cível, e não na mesma vara
criminal que prolatou o decisum. E, diga-se, se o magistrado penal não fizer a liquidação do
quantum, como hoje é possível, esta também será procedida no cível. Há ainda outras
exceções, como a própria sentença estrangeira, que é homologada no STJ e executada na
vara federal, como dito.
O parágrafo único do artigo 475-P, supra, traz uma novidade, ao abrir o leque para
que o credor escolha o órgão jurisdicional que levará a cabo a execução de seu título, se o
do local dos bens a serem expropriados, ou se o do domicílio do executado. Esta escolha é
potestativa do credor, não podendo ser questionada pelo devedor, tampouco procedida de
ofício.
A escolha do foro pelo credor ofenderia a perpetuatio jurisdictionis, do artigo 87 do
CPC? Veja:

“Art. 87. Determina-se a competência no momento em que a ação é proposta. São


irrelevantes as modificações do estado de fato ou de direito ocorridas
posteriormente, salvo quando suprimirem o órgão judiciário ou alterarem a
competência em razão da matéria ou da hierarquia.”

Há duas orientações sobre o tema. Marcelo Abelha defende que se trata, de fato, de
uma mitigação à perpetuatio, porque se a competência havia sido cristalizada no juízo da
cognição de primeiro grau, a alteração desta competência é uma exceção. Fredie Didier
defende, pelo outro lado, que não há mitigação, pela só razão de que a execução é uma
nova ação, e é dali que se definirá a competência para tal princípio, sendo dali a nova
perpetuatio a ser observada. A posição de Didier desafia uma crítica: ela se baseia no
direito de ação, enquanto a perpetuatio jurisdictionis é um princípio do processo, e não do
direito de ação.
Uma vez escolhido o foro da execução, nesta hipótese em que é cabível, poderá o
credor alterar, novamente, esta escolha, já no curso da execução? Leonardo Greco defende
que como a lei não limitou, não apondo restrição a esta alteração, é possível quantas
escolhas queira o credor, no curso da execução.

Michell Nunes Midlej Maron 19


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O domicílio do credor, exeqüente, pode ser determinante para a competência, em


hipótese oposta ao que dispõe o artigo 475-P do CPC: é o caso da execução dos alimentos,
na forma do artigo 100, II, do CPC, dedicado ao processo de conhecimento, mas aplicável à
execução. Veja:

“Art. 100. É competente o foro:


(...)
II - do domicílio ou da residência do alimentando, para a ação em que se pedem
alimentos;
(...)”

Se o alimentando, credor, muda de domicílio, é sua faculdade levar consigo, para


seu foro, a execução, ou mantê-la no foro original.

2.1. Competência para os embargos ou para a impugnação

Os embargos à execução consistem em um processo de conhecimento incidental à


execução de título executivo extrajudicial, com exceção da execução contra a Fazenda
Pública, que não conta com processo sincrético, sendo o título executivo judicial executado
em processo autônomo, como o título extrajudicial.
O artigo 736, parágrafo único, do CPC, demanda a autuação dos embargos em
apenso à execução, definindo a competência na mesma vara em que corre a execução:

“Art. 736. O executado, independentemente de penhora, depósito ou caução,


poderá opor-se à execução por meio de embargos. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
Parágrafo único. Os embargos à execução serão distribuídos por dependência,
autuados em apartado, e instruídos com cópias (art. 544, § 1o, in fine) das peças
processuais relevantes. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Vale observar o artigo 747 do CPC, que cuida dos embargos por carta precatória.
Nesta circunstância, o executado pode ajuizar os embargos no juízo deprecado ou no
deprecante, a seu exclusivo critério, mas a competência para julgamento não se altera: será
do deprecante, salvo se os embargos versarem unicamente sobre atos praticados pelo
deprecado, quando por este serão julgados. Veja:

“Art. 747. Na execução por carta, os embargos serão oferecidos no juízo


deprecante ou no juízo deprecado, mas a competência para julgá-los é do juízo
deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou defeitos da penhora, avaliação
ou alienação dos bens. (Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

Quanto à impugnação, é preciso trazer a divergência sobre sua natureza: parte da


doutrina a reputa como um incidente processual, mas há parcela que entende que se trata,
de fato, de uma ação, tal qual os embargos à execução. De qualquer forma, a impugnação
só é prevista em uma hipótese, como diz o artigo 475-I do CPC: somente é cabível
impugnação nos casos de execução de quantia certa, pois nos demais se seguem os ritos
dos artigos 461 e 461-A, que serão abordados oportunamente. Veja:

Michell Nunes Midlej Maron 20


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 475-I. O cumprimento da sentença far-se-á conforme os arts. 461 e 461-A


desta Lei ou, tratando-se de obrigação por quantia certa, por execução, nos termos
dos demais artigos deste Capítulo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º É definitiva a execução da sentença transitada em julgado e provisória quando
se tratar de sentença impugnada mediante recurso ao qual não foi atribuído efeito
suspensivo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Quando na sentença houver uma parte líquida e outra ilíquida, ao credor é
lícito promover simultaneamente a execução daquela e, em autos apartados, a
liquidação desta. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A mera interpretação literal do artigo 475-I do CPC – a qual é feita pelo STJ,
inclusive –, permite esta conclusão. As hipóteses de execução pelos artigos 461 e 461-A são
defensáveis por mera petição, adstrita a aspectos processuais.
Ocorre que a doutrina processual civil, em peso, vem defendendo que a
impugnação, esta específica forma de defesa do executado, deve ser utilizada em qualquer
procedimento de cumprimento de título executivo judicial, qualquer que seja a natureza da
obrigação.
As matérias da impugnação são previstas no artigo 475-L do CPC:

“Art. 475-L. A impugnação somente poderá versar sobre: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
I – falta ou nulidade da citação, se o processo correu à revelia; (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
II – inexigibilidade do título; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
III – penhora incorreta ou avaliação errônea; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
IV – ilegitimidade das partes; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
V – excesso de execução; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
VI – qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como
pagamento, novação, compensação, transação ou prescrição, desde que
superveniente à sentença. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo, considera-se também
inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo declarados
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou
interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como
incompatíveis com a Constituição Federal. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Quando o executado alegar que o exeqüente, em excesso de execução, pleiteia
quantia superior à resultante da sentença, cumprir-lhe-á declarar de imediato o
valor que entende correto, sob pena de rejeição liminar dessa impugnação.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Veja que são todas matérias de ordem pública, o que, a rigor, sequer demandaria
uma peça específica,formal, pois são matérias cognoscíveis de ofício.
De qualquer forma, a competência para a impugnação é do mesmo órgão em que
corre o cumprimento de sentença. De acordo com o artigo 475-M, a impugnação correrá
entranhada nos autos, se contar com efeito suspensivo, ou em apenso, se não tiver este
efeito.

“Art. 475-M. A impugnação não terá efeito suspensivo, podendo o juiz atribuir-lhe
tal efeito desde que relevantes seus fundamentos e o prosseguimento da execução
seja manifestamente suscetível de causar ao executado grave dano de difícil ou
incerta reparação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)

Michell Nunes Midlej Maron 21


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 1º Ainda que atribuído efeito suspensivo à impugnação, é lícito ao exeqüente


requerer o prosseguimento da execução, oferecendo e prestando caução suficiente
e idônea, arbitrada pelo juiz e prestada nos próprios autos. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
§ 2º Deferido efeito suspensivo, a impugnação será instruída e decidida nos
próprios autos e, caso contrário, em autos apartados. (Incluído pela Lei nº 11.232,
de 2005)

Casos Concretos

Questão 1

Qual a natureza da responsabilidade do exeqüente prevista no art. 475-O, inciso I


do Código de Processo Civil?

Resposta à Questão 1

Trata-se de responsabilidade aquiliana objetiva, na forma do artigo 475-O do CPC,


eis que o exeqüente assume o risco de, com a execução infundada, ter de indenizar
incontinenti o executado que foi prejudicado pela excussão provisória dos seus bens.

Michell Nunes Midlej Maron 22


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema III

Pressuposto da execução: o titulo executivo. Conceito. Requisitos: certeza, liquidez e exigibilidade da


obrigação constante no título. Função processual do título. Títulos executivos judiciais e extrajudiciais.
Inexigibilidade de títulos executivos - art. 741, parágrafo único do CPC. Formas e espécies de execução.
Execução provisória e definitiva.

Notas de Aula5

1. Pressupostos da execução

Antes da reforma, o artigo 580 do CPC tinha uma redação sobre os pressupostos da
execução que não era exatamente precisa. Veja como era e como ficou este dispositivo:
5
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 31/8/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 23


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 580. Verificado o inadimplemento do devedor, cabe ao credor promover a


execução.
Parágrafo único. Considera-se inadimplente o devedor, que não satisfaz
espontaneamente o direito reconhecido pela sentença, ou a obrigação, a que a lei
atribuir a eficácia de título executivo. (Revogado pela Lei nº 11.382, de 2006)”

“Art. 580. A execução pode ser instaurada caso o devedor não satisfaça a
obrigação certa, líquida e exigível, consubstanciada em título executivo. (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Antes da reforma, havia um entendimento relativamente pacífico de que havia dois


pressupostos para a execução: a existência do título executivo e do inadimplemento. Veja
que o artigo 580, na redação anterior, até mesmo contemplava uma definição de
inadimplemento em seu parágrafo único, o que não é matéria que deva constar de norma
processual, eis que é instituto material.
Atenta a isto, a doutrina tanto criticou que o legislador conformou a regra ao que é
mais correto: o único pressuposto da execução, hoje, é a existência do título executivo
pleno, e não mais o inadimplemento. Por todos, neste sentido, Araken de Assis.
Alexandre Câmara entende que o título executivo, em verdade, não é um
pressuposto da execução, mas sim uma condição da ação, eis que a execução sem título
executivo é a via inadequada, acarretando falta de interesse de agir, falta de interesse-
adequação.
É importante traçar breve conceito de título executivo: nada mais é do que o
documento a que a lei confere força executiva. Era bastante comum definir o título como
líquido, certo e exigível, mas se sabe, hoje, que o que conta com estas características é a
obrigação contida no título, e não ele próprio. O artigo 580, na nova redação, e o artigo 586
do CPC, dão esta nota:

“Art. 586. A execução para cobrança de crédito fundar-se-á sempre em título de


obrigação certa, líquida e exigível. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

E veja que a ordem de menção dos atributos também é outra, sendo mais técnica a
ora adotada: a obrigação deve ser certa, líquida e exigível. Certeza é o an debeatur, sendo
obrigação certa aquela em que não há dúvidas a respeito da sua existência. Liquidez diz
respeito ao quantum debeatur, que é a delimitação da extensão da prestação, quer
pecuniária, quer de outra natureza. E exigibilidade da obrigação é atributo que diz da
possibilidade de exigir-se o cumprimento da obrigação.
Quanto à liquidez, a eventual necessidade de que haja o cálculo aritmético de uma
obrigação não lhe retira este atributo; tampouco a necessidade de atualização da obrigação
tem este condão. Veja os artigos 475-B e 614, II, do CPC:

“Art. 475-B. Quando a determinação do valor da condenação depender apenas de


cálculo aritmético, o credor requererá o cumprimento da sentença, na forma do art.
475-J desta Lei, instruindo o pedido com a memória discriminada e atualizada do
cálculo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Quando a elaboração da memória do cálculo depender de dados existentes em
poder do devedor ou de terceiro, o juiz, a requerimento do credor, poderá requisitá-
los, fixando prazo de até trinta dias para o cumprimento da diligência. (Incluído
pela Lei nº 11.232, de 2005)

Michell Nunes Midlej Maron 24


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 2º Se os dados não forem, injustificadamente, apresentados pelo devedor,


reputar-se-ão corretos os cálculos apresentados pelo credor, e, se não o forem pelo
terceiro, configurar-se-á a situação prevista no art. 362. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
§ 3º Poderá o juiz valer-se do contador do juízo, quando a memória apresentada
pelo credor aparentemente exceder os limites da decisão exeqüenda e, ainda, nos
casos de assistência judiciária. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 4º Se o credor não concordar com os cálculos feitos nos termos do § 3o deste
artigo, far-se-á a execução pelo valor originariamente pretendido, mas a penhora
terá por base o valor encontrado pelo contador. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)”

“Art. 614. Cumpre ao credor, ao requerer a execução, pedir a citação do devedor e


instruir a petição inicial:
I - com o título executivo extrajudicial; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
II - com o demonstrativo do débito atualizado até a data da propositura da ação,
quando se tratar de execução por quantia certa; (Redação dada pela Lei nº 8.953,
de 13.12.1994)
III - com a prova de que se verificou a condição, ou ocorreu o termo (art. 572).
(Incluído pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

O juiz pode recusar a planilha apresentada, quando então abrir-se-á vista ao


contador judicial, que elaborará cálculo próprio. Se o exeqüente concordar com tal cálculo,
a execução seguirá por este valor.
Se a obrigação não tem liquidez, ou seja, se a mera elaboração da planilha não é
bastante para extrair o valor, a execução não pode prosseguir sem antes ser instaurado e
resolvido o incidente de liquidação.
Há títulos executivos judiciais que não podem ser ilíquidos, como a sentença do
juizado especial, ou as duas hipóteses constantes do artigo 475-A, § 3º, do CPC:

“Art. 475-A. Quando a sentença não determinar o valor devido, procede-se à sua
liquidação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Do requerimento de liquidação de sentença será a parte intimada, na pessoa de
seu advogado. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º A liquidação poderá ser requerida na pendência de recurso, processando-se em
autos apartados, no juízo de origem, cumprindo ao liquidante instruir o pedido com
cópias das peças processuais pertinentes. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 3º Nos processos sob procedimento comum sumário, referidos no art. 275, inciso
II, alíneas ‘d’ e ‘e’ desta Lei, é defesa a sentença ilíquida, cumprindo ao juiz, se for
o caso, fixar de plano, a seu prudente critério, o valor devido. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)”

“Art. 275. Observar-se-á o procedimento sumário: (Redação dada pela Lei nº


9.245, de 26.12.1995)
(...)
II - nas causas, qualquer que seja o valor (Redação dada pela Lei nº 9.245, de
26.12.1995)
(...)
d) de ressarcimento por danos causados em acidente de veículo de via terrestre;
(Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)
e) de cobrança de seguro, relativamente aos danos causados em acidente de
veículo, ressalvados os casos de processo de execução; (Redação dada pela Lei nº
9.245, de 26.12.1995)

Michell Nunes Midlej Maron 25


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

(...)”

2. Títulos executivos judiciais e extrajudiciais

Antes da reforma, os títulos executivos judiciais eram previstos no artigo 584, e os


extrajudiciais no artigo 585 do CPC. Os judiciais, agora, são trazidos no artigo 475-N do
CPC, tendo o artigo 584 sido revogado. Vejamos primeiro os títulos executivos judiciais.

2.1. Títulos executivos judiciais

Diz o artigo 475-N do CPC:

“Art. 475-N. São títulos executivos judiciais: (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
I – a sentença proferida no processo civil que reconheça a existência de obrigação
de fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar quantia; (Incluído pela Lei nº 11.232,
de 2005)
II – a sentença penal condenatória transitada em julgado; (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
III – a sentença homologatória de conciliação ou de transação, ainda que inclua
matéria não posta em juízo; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
IV – a sentença arbitral; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
V – o acordo extrajudicial, de qualquer natureza, homologado judicialmente;
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
VI – a sentença estrangeira, homologada pelo Superior Tribunal de Justiça;
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
VII – o formal e a certidão de partilha, exclusivamente em relação ao
inventariante, aos herdeiros e aos sucessores a título singular ou universal.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
Parágrafo único. Nos casos dos incisos II, IV e VI, o mandado inicial (art. 475-J)
incluirá a ordem de citação do devedor, no juízo cível, para liquidação ou
execução, conforme o caso. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

O rol de títulos executivos judiciais seria taxativo, segundo a doutrina tradicional –


por todos, Humberto Theodoro Júnior –, mas a realidade é que há diversas exceções. A
decisão interlocutória que estabelece astreintes, por exemplo, não se apresenta no artigo
475-N, mas é executável, é um título executivo judicial. Da mesma forma, a decisão
interlocutória que estabelece alimentos provisórios é um título executivo judicial, alheio ao
rol do artigo supra.
O inciso I do artigo 475-N dispõe que é possível executar sentença que reconheça
obrigações de pagar, fazer, não fazer ou entregar coisa. Esta redação se contrapõe ao antigo
artigo 584, I, do CPC, que dizia que era possível a execução de sentença condenatória.
Hoje, então, o dispositivo permite a execução de sentença puramente declaratória,
sendo certo que nem toda declaração é executável, porém: a declaração deve ser de uma
prestação, pois declaração de estado, ou de situação, por exemplo, não tem conteúdo
executável.
O inciso II do artigo 475-N trata da sentença penal condenatória transitada em
julgado, que será executada no juízo cível. Sem trânsito em julgado, esta sentença não se
torna título executivo. A via cível e a penal são relativamente independentes: a vítima de
um crime não precisa aguardar o fim da ação penal para buscar seu ressarcimento civil,

Michell Nunes Midlej Maron 26


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

podendo ajuizar uma ação civil indenizatória ex delicto para tanto. Todavia, pode optar por
aguardar o término da ação penal, e proceder apenas à execução da sentença penal
condenatória.
Veja que por vezes a ação civil ex delicto é mais interessante à vítima. Por exemplo,
se se tratar de crime praticado por um empregado de uma sociedade, a ação penal se
concentrará nele, enquanto a civil poderá alvejar tanto o funcionário quanto a própria
sociedade, por culpa in eligendo ou in vigilando, aumentando as chances de obter efetiva
indenização.
É claro que a sentença criminal só pode ser executada contra quem figurou na lide
criminal. Neste aspecto, se assemelha bastante ao inciso VII do artigo 475-N, que delimita
os efeitos do formal e da certidão de partilha apenas às pessoas ali relacionadas.
Os incisos III e V do artigo 475-N são semelhantes, falando ambos de sentenças
homologatórias de acordo, mas a diferença deve ser apontada: quando existe um processo
judicial, no qual se alcança o acordo e se o homologa, trata-se do caso do inciso III; quando
se alcança um acordo extrajudicialmente, sem processo que o preceda, e as partes entram
em juízo apenas para obter a homologação de tal pacto, a hipótese é a do inciso V.
Veja que o interesse na homologação judicial do acordo extrajudicial é justamente a
transformação de seu título em judicial, porque o rito do cumprimento de sentença é mais
pesado ao devedor do que a execução autônoma. Humberto Theodoro Júnior é um autor
que assim interpreta, e entende até que esta hipótese do inciso V é de jurisdição voluntária.
A sentença arbitral, do inciso IV do artigo 475-N, é a última hipótese legal de título
executivo judicial. O artigo 18 da Lei 9.307/96 dispõe que a sentença arbitral não fica
sujeita a recurso ou homologação judicial, motivo pelo qual a justiça arbitral, hoje, não é
tida mais por equivalente jurisdicional, como a autocomposição, a autotutela, ou a
mediação: é a própria jurisdição. Veja o artigo:

“Art. 18. O árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica
sujeita a recurso ou a homologação pelo Poder Judiciário.”

Mesmo que o mérito da sentença arbitral seja insindicável no Judiciário, a sua


validade pode ser questionada em juízo: o interessado pode requerer a declaração de
nulidade da sentença arbitral, por meio da ação autônoma prevista no artigo 33 da Lei
9.307/96 – a qual conta com prazo de noventa dias, como se vê –; ou por meio da alegação
de nulidade na impugnação ao cumprimento desta sentença (o que demonstra que o artigo
475-L é rol exemplificativo das matérias da impugnação, pois esta nulidade não está ali
arrolada).

“Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário


competente a decretação da nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta
Lei.
§ 1º A demanda para a decretação de nulidade da sentença arbitral seguirá o
procedimento comum, previsto no Código de Processo Civil, e deverá ser proposta
no prazo de até noventa dias após o recebimento da notificação da sentença arbitral
ou de seu aditamento.
§ 2º A sentença que julgar procedente o pedido:
I - decretará a nulidade da sentença arbitral, nos casos do art. 32, incisos I, II, VI,
VII e VIII;
II - determinará que o árbitro ou o tribunal arbitral profira novo laudo, nas demais
hipóteses.

Michell Nunes Midlej Maron 27


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 3º A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser argüida


mediante ação de embargos do devedor, conforme o art. 741 e seguintes do Código
de Processo Civil, se houver execução judicial.”

Esta duplicidade de vias de acesso ao Judiciário para dedução da nulidade da


sentença arbitral recebe nome doutrinário de teoria da dupla porta, justamente por esta
dualidade de vias6. Este nome é criação de Paulo César Pinheiro Carneiro.

2.2. Títulos executivos extrajudiciais

Diz o artigo 585 do CPC:

“Art. 585. São títulos executivos extrajudiciais: (Redação dada pela Lei nº 5.925,
de 1º.10.1973)
I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque;
(Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
II - a escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor; o
documento particular assinado pelo devedor e por duas testemunhas; o instrumento
de transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública ou pelos
advogados dos transatores;(Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
III - os contratos garantidos por hipoteca, penhor, anticrese e caução, bem como os
de seguro de vida; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
IV - o crédito decorrente de foro e laudêmio; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
V - o crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel de imóvel,
bem como de encargos acessórios, tais como taxas e despesas de condomínio;
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VI - o crédito de serventuário de justiça, de perito, de intérprete, ou de tradutor,
quando as custas, emolumentos ou honorários forem aprovados por decisão
judicial; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VII - a certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos Estados, do
Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, correspondente aos créditos
inscritos na forma da lei; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VIII - todos os demais títulos a que, por disposição expressa, a lei atribuir força
executiva. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º A propositura de qualquer ação relativa ao débito constante do título executivo
não inibe o credor de promover-lhe a execução. (Redação dada pela Lei nº 8.953,
de 13.12.1994)
§ 2º Não dependem de homologação pelo Supremo Tribunal Federal, para serem
executados, os títulos executivos extrajudiciais, oriundos de país estrangeiro. O
título, para ter eficácia executiva, há de satisfazer aos requisitos de formação
exigidos pela lei do lugar de sua celebração e indicar o Brasil como o lugar de
cumprimento da obrigação. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)”

A interpretação literal da maior parte dos incisos deste artigo supra é suficiente, mas
há algumas peculiaridades a serem apontadas. O inciso I deste artigo aponta documentos
que são, ao mesmo tempo, títulos de crédito e títulos executivos extrajudiciais; sendo assim,
é necessária a juntada do título original ao processo executório, por conta da cartularidade
do título de crédito?
6
Suscitar-se-ia, talvez, uma terceira via, a querella nullitatis, quando a ação declaratória de nulidade do artigo
33, supra, não fosse mais cabível, por perda do prazo, por exemplo, e o vício fosse de inexistência ou de
nulidade absoluta. Não há amparo doutrinário para tal cabimento, sendo este um questionamento pessoal aqui
levantado.

Michell Nunes Midlej Maron 28


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Em regra, sim, é necessária a juntada do título de crédito original a instruir a


execução. Todavia, há exceções, como quando o título já está instruindo um outro processo
– como o de falência do sacador –, sendo impossível extraí-lo do processo falimentar para
instruir a execução do avalista ali previsto, por exemplo. Neste caso, a jurisprudência tem
admitido o seguinte procedimento: permite-se a instrução da execução com a cópia
autenticada do título, mas ante a conferência, pelo cartório da execução, de que o original
está entranhado no outro processo (mediante a carga deste e apresentação para o
serventuário, que certificará ao juízo a situação do título original).

3. Formas e espécies de execução

Quando se fala em formas e espécies de execução, se fala também das classificações


dos processos executivos. A primeira classificação diz respeito ao tipo de procedimento
adotado: tal como no processo de conhecimento, em que há rito ordinário, sumário,
especial, na execução há também diversos ritos a serem seguidos, cada um adequando-se à
obrigação, ao título e às pessoas em questão. Destarte, são responsáveis pela definição do
rito: a natureza do título; a pessoa que executa ou que é executada; e a natureza da
obrigação.
Segunda classificação divide a execução em direta ou indireta. A execução é direta
quando se dá por meio de subrogação, enquanto a execução indireta se caracteriza pela
presença de meios de coerção. Como exemplo de execução indireta, a execução de
alimentos, que segue o rito do artigo 733, se efetiva por meio da prisão civil, focando-se
mais no meio de coerção para pagamento do que na incursão direta no patrimônio do
devedor. Trabalha mais sobre a vontade do devedor do que sobre o seu patrimônio. A
execução direta, por seu turno, incide diretamente sobre o resultado esperado, e não sobre a
mera vontade do devedor: se ele não quer praticar a conduta de pagamento, o oficial de
justiça atua em seu lugar, incidindo diretamente sobre o patrimônio.
O problema desta classificação é a sua tenuidade, ante a recorrente possibilidade de
que, em um mesmo rito, haja as duas formas de execução, direta ou indireta (quase sempre
há esta mescla, diga-se). Os alimentos, por exemplo, podem sofrer execução indireta,
quando há a prisão civil, ou direta, quando há o desconto na folha de pagamento do
devedor.
Há ainda a execução completa e a incompleta. Veja: havendo título executivo
submetido a recurso pendente, sem efeito suspensivo, a execução provisória é desde logo
possível. Todavia, se se tratar de um recurso que não permite a discussão de matéria fática –
como os recursos excepcionais –, a execução provisória é tida por completa; se o recurso é
hábil para a rediscussão de matéria fática, como uma apelação, a execução provisória é tida
por incompleta.
A mais relevante classificação, pelo ensejo, é a que diferencia a execução provisória
da definitiva. Os artigo 475-I, § 1º, e 587, do CPC, e a súmula 317 do STJ, são altamente
relevantes:

“Art. 475-I. O cumprimento da sentença far-se-á conforme os arts. 461 e 461-A


desta Lei ou, tratando-se de obrigação por quantia certa, por execução, nos termos
dos demais artigos deste Capítulo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)

Michell Nunes Midlej Maron 29


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 1º É definitiva a execução da sentença transitada em julgado e provisória quando


se tratar de sentença impugnada mediante recurso ao qual não foi atribuído efeito
suspensivo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Quando na sentença houver uma parte líquida e outra ilíquida, ao credor é
lícito promover simultaneamente a execução daquela e, em autos apartados, a
liquidação desta. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

“Art. 587. É definitiva a execução fundada em título extrajudicial; é provisória


enquanto pendente apelação da sentença de improcedência dos embargos do
executado, quando recebidos com efeito suspensivo (art. 739). (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).”

“Súmula 317, STJ: É definitiva a execução de título extrajudicial, ainda que


pendente apelação contra sentença que julgue improcedentes os embargos.”

De início, vale dizer que a nomenclatura definitiva e provisória não é muito técnica,
porque o título é que é definitivo ou provisório. A execução definitiva, em regra, calca-se
em um título definitivo, como a sentença transitada em julgado, ou qualquer título
extrajudicial. A provisória, tradicionalmente, só era possível em um caso: a execução da
sentença pendente de recurso sem efeito suspensivo.
A execução provisória, outrora, se instrumentalizava por meio da emissão de uma
carta de sentença, porque se há a pendência de recurso significa que os autos estão
fisicamente indisponíveis, eis que remetidos ao órgão de julgamento do recurso. Extraída a
carta de sentença, a execução provisória se daria instruída por ela.
O CPC, porém, não mais prevê a carta de sentença, desde a reforma. A execução
provisória é instruída, hoje, por meras cópias das peças processuais pertinentes – o que é
muito mais lógico e eficiente, diga-se.
O artigo que sedia a execução provisória, hoje, é o 475-O do CPC:

“Art. 475-O. A execução provisória da sentença far-se-á, no que couber, do mesmo


modo que a definitiva, observadas as seguintes normas: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
I – corre por iniciativa, conta e responsabilidade do exeqüente, que se obriga, se a
sentença for reformada, a reparar os danos que o executado haja sofrido; (Incluído
pela Lei nº 11.232, de 2005)
II – fica sem efeito, sobrevindo acórdão que modifique ou anule a sentença objeto
da execução, restituindo-se as partes ao estado anterior e liquidados eventuais
prejuízos nos mesmos autos, por arbitramento; (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
III – o levantamento de depósito em dinheiro e a prática de atos que importem
alienação de propriedade ou dos quais possa resultar grave dano ao executado
dependem de caução suficiente e idônea, arbitrada de plano pelo juiz e prestada
nos próprios autos. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º No caso do inciso II do caput deste artigo, se a sentença provisória for
modificada ou anulada apenas em parte, somente nesta ficará sem efeito a
execução. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º A caução a que se refere o inciso III do caput deste artigo poderá ser
dispensada: (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
I – quando, nos casos de crédito de natureza alimentar ou decorrente de ato ilícito,
até o limite de sessenta vezes o valor do salário-mínimo, o exeqüente demonstrar
situação de necessidade; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
II – nos casos de execução provisória em que penda agravo de instrumento junto
ao Supremo Tribunal Federal ou ao Superior Tribunal de Justiça (art. 544), salvo

Michell Nunes Midlej Maron 30


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

quando da dispensa possa manifestamente resultar risco de grave dano, de difícil


ou incerta reparação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 3º Ao requerer a execução provisória, o exeqüente instruirá a petição com cópias
autenticadas das seguintes peças do processo, podendo o advogado valer-se do
disposto na parte final do art. 544, § 1o: (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
I – sentença ou acórdão exeqüendo; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
II – certidão de interposição do recurso não dotado de efeito suspensivo; (Incluído
pela Lei nº 11.232, de 2005)
III – procurações outorgadas pelas partes; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
IV – decisão de habilitação, se for o caso; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
V – facultativamente, outras peças processuais que o exeqüente considere
necessárias. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A execução provisória demanda caução, a depender do momento processual que se


observa. Inicialmente, a regra é a desnecessidade da caução, mas como se vê no artigo
supra, se o credor for sacar o dinheiro depositado ou se for alienar bens do executado, é
necessária a prestação da caução. Para iniciar a execução provisória, portanto, a caução não
é exigida: somente será necessário o caucionamento quando dos atos físicos da execução.
O artigo 475-O faz uma ressalva à caução: para dívidas de natureza alimentar de até
sessenta salários-mínimos, ou se a decisão exeqüenda estiver na pendência do agravo de
instrumento contra inadmissão de Resp. ou RE, não se exigirá caução para o levantamento
do valor ou alienação do bem do executado.
Mesmo se a prestação de caução for impossível ao credor, o STJ não permite a
dispensa do caucionamento – no que é criticado pela doutrina, como Fredie Didier. Não
podendo prestar caução, a execução fica suspensa até o trânsito em julgado da decisão que
favoreça ao credor, quando então se tornará execução definitiva.
Veja que a execução provisória pode acarretar algum prejuízo indevido ao devedor.
Como exemplo, um devedor taxista que tem seu veículo de trabalho penhorado, terá o
prejuízo do tempo que não pode trabalhar, eis que o bem estará em poder do credor. Se, ao
final desta execução provisória, ficar evidenciado que o credor não tinha razão, por
qualquer motivo, o prejuízo do devedor indevidamente executado será suportado pelo
credor, e esta responsabilidade é objetiva, como dispõe o inciso I do caput do artigo supra.
Tratando-se de execução definitiva, a responsabilidade é a mesma, mas a sede desta
responsabilização objetiva está prevista no artigo 574 do CPC:

“Art. 574. O credor ressarcirá ao devedor os danos que este sofreu, quando a
sentença, passada em julgado, declarar inexistente, no todo ou em parte, a
obrigação, que deu lugar à execução.”

Destarte, se os embargos à execução forem procedentes, por exemplo, os prejuízos


do devedor serão suportados pelo credor.
A conversão da execução provisória em definitiva é facilmente vislumbrada,
ocorrendo quando há o trânsito em julgado da decisão que vinha sendo executada, que
estava pendente de recurso. Já o inverso é peculiar, e, adiante-se, o STJ entende que não é
possível: não pode a execução definitiva se converter em provisória. Veja caso que poderia
suscitar dúvida: se um título extrajudicial está sendo executado – e é sempre executado de
forma definitiva, como visto –, a defesa é feita pelos embargos; se estes são julgados
improcedentes, o executado pode dela apelar. Neste caso, os autos dos embargos correrão
apartados, no órgão ad quem, enquanto a execução terá curso normal no órgão a quo.

Michell Nunes Midlej Maron 31


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Contudo, esta execução, mesmo quando há a apelação da sentença dos embargos, é ainda
definitiva, como prevê o STJ na súmula 317, supra. Não há conversão da execução
definitiva em provisória, para o STJ.
Entretanto, o artigo 587 do CPC, posterior à súmula 317, estabelece exatamente o
contrário: para o novel legislador, esta hipótese, a execução que se iniciou definitiva, se
torna provisória quando há apelação com efeito suspensivo da decisão que julgou
improcedentes os embargos. Há que se mencionar que a maior parte da doutrina, como
Humberto Theodoro Júnior e Vicente Greco Filho, defende que prevalece a nova redação
legal, mas o STJ ainda se mantém firme ao teor da sua súmula 317, a despeito da nova
redação do artigo 587.
Sobre isso, Alexandre Câmara defende que o novo dispositivo apenas fez com que
se tornasse necessária a caução neste caso, ou seja, a execução do título extrajudicial só
prosseguirá se houver caucionamento, porque os embargos são a primeira oportunidade de
discussão, em juízo, do direito material (diferentemente do cumprimento de sentença, que é
precedido por um extenuado rito cognitivo). Não se transforma a execução definitiva em
provisória, mas apenas se exige, na definitiva, que haja caução. A bem da verdade, isto já
ocorre na hipótese do artigo 475-M, § 1º, do CPC: a execução é definitiva, eis que é
cumprimento de sentença, e há a possibilidade de caução para prosseguir na execução
quando esta ficaria suspensa, por conta do efeito suspensivo atribuído à impugnação.
Reveja este artigo 475-M:

“Art. 475-M. A impugnação não terá efeito suspensivo, podendo o juiz atribuir-lhe
tal efeito desde que relevantes seus fundamentos e o prosseguimento da execução
seja manifestamente suscetível de causar ao executado grave dano de difícil ou
incerta reparação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Ainda que atribuído efeito suspensivo à impugnação, é lícito ao exeqüente
requerer o prosseguimento da execução, oferecendo e prestando caução suficiente
e idônea, arbitrada pelo juiz e prestada nos próprios autos. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
(...)”

Há uma só hipótese em que o STJ não aplica a sua súmula 317: na execução fiscal.
Esta é fundada na certidão da dívida ativa, título executivo extrajudicial, e por isso é
definitiva. Havendo embargos julgados improcedentes, se o executado apela com efeito
suspensivo, a execução se transforma em provisória, em argumento menos jurídico do que
compassivo: será muito dificultosa a reversão da execução, se a Fazenda a levar a cabo,
porque só poderá, o executado, reaver seu patrimônio por meio dos precatórios. Por isso,
esta execução se torna provisória, e a fazenda precisará caucionar se pretender prosseguir
na excussão dos bens o executado.

4. Inexigibilidade do título executivo

O artigo 741, II e parágrafo único, do CPC, é a principal sede do tema, mas também
há o artigo 475-L, II e § 1º, versando sobre isso:

“Art. 741. Na execução contra a Fazenda Pública, os embargos só poderão versar


sobre: (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
II - inexigibilidade do título;

Michell Nunes Midlej Maron 32


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

(...)
Parágrafo único. Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo,
considera-se também inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo
declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em
aplicação ou interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal
Federal como incompatíveis com a Constituição Federal. (Redação pela Lei nº
11.232, de 2005)”

“Art. 475-L. A impugnação somente poderá versar sobre: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
(...)
II – inexigibilidade do título; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
§ 1º Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo, considera-se também
inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo declarados
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou
interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como
incompatíveis com a Constituição Federal. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)”

Os dispositivos só podem ser invocados se a lei já fora encontrada inconstitucional


antes da sentença. A doutrina entende, entretanto, que se se tratar de declaração posterior da
inconstitucionalidade, em controle concentrado, mas com efeitos ex tunc, será possível
legar esta inexigibilidade do título, em embargos ou impugnação de sentença.

Casos Concretos

Questão 1

A sentença cível declaratória de crédito para fins de posterior compensação pode


ser executada caso esta compensação se torne impossível de ser realizada, ou a execução
somente pode ser manejada quando o credor estiver munido de sentença cível
condenatória?

Resposta à Questão 1

Sim, é perfeitamente possível a execução da sentença declaratória de crédito, na


nova regulamentação da execução.
A respeito, veja o REsp. 588.202:

“REsp 588202 / PR. DJ 25/02/2004 p. 123.


PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. VALORES INDEVIDAMENTE PAGOS
A TÍTULO DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SENTENÇA
DECLARATÓRIA DO DIREITO DE CRÉDITO CONTRA A FAZENDA PARA
FINS DE COMPENSAÇÃO. SUPERVENIENTE IMPOSSIBILIDADE DE

Michell Nunes Midlej Maron 33


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

COMPENSAR. EFICÁCIA EXECUTIVA DA SENTENÇA DECLARATÓRIA,


PARA HAVER A REPETIÇÃO DO INDÉBITO POR MEIO DE PRECATÓRIO.
1. No atual estágio do sistema do processo civil brasileiro não há como insistir no
dogma de que as sentenças declaratórias jamais têm eficácia executiva. O art. 4º,
parágrafo único, do CPC considera "admissível a ação declaratória ainda que tenha
ocorrido a violação do direito", modificando, assim, o padrão clássico da tutela
puramente declaratória, que a tinha como tipicamente preventiva. Atualmente,
portanto, o Código dá ensejo a que a sentença declaratória possa fazer juízo
completo a respeito da existência e do modo de ser da relação jurídica concreta.
2. Tem eficácia executiva a sentença declaratória que traz definição integral da
norma jurídica individualizada. Não há razão alguma, lógica ou jurídica, para
submetê-la, antes da execução, a um segundo juízo de certificação, até porque a
nova sentença não poderia chegar a resultado diferente do da anterior, sob pena de
comprometimento da garantia da coisa julgada, assegurada constitucionalmente. E
instaurar um processo de cognição sem oferecer às partes e ao juiz outra alternativa
de resultado que não um, já prefixado, representaria atividade meramente
burocrática e desnecessária, que poderia receber qualquer outro qualificativo,
menos o de jurisdicional.
3. A sentença declaratória que, para fins de compensação tributária, certifica o
direito de crédito do contribuinte que recolheu indevidamente o tributo, contém
juízo de certeza e de definição exaustiva a respeito de todos os elementos da
relação jurídica questionada e, como tal, é título executivo para a ação visando à
satisfação, em dinheiro, do valor devido.
4. Recurso especial a que se nega provimento.”

Questão 2

Após o pagamento dos credores do espólio (art. 1.017 CPC), o magistrado


apreciou os pedidos de quinhão dos herdeiros Paulo, Márcio e Álvaro e designou os bens
que deviam constituir o quinhão de cada um dos três herdeiros. Ao herdeiro Márcio coube
bem móvel que se encontra na posse de terceiro estranho ao processo de inventário.
Márcio então requereu ao juiz da Vara de Órfãos e Sucessões a expedição de mandado de
busca e apreensão do bem móvel juntando ao seu requerimento cópia autenticada do
formal de partilha. Correto o procedimento adotado por Márcio? Fundamente.

Resposta à Questão 2

Não. O formal e a certidão de partilha são títulos executivos somente contra o


inventariante, herdeiros e os sucessores, não contra terceiros. Assim se depreende do artigo
475-N, VII, do CPC. Por isso, Márcio deveria ter ajuizado ação de conhecimento contra o
terceiro, pois contra ele não tem pretensão executória.

Michell Nunes Midlej Maron 34


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema IV

Responsabilidade patrimonial. Generalidades. O débito e a responsabilidade. Responsabilidade executiva


primária e secundária. O art. 592, inciso II, do CPC: responsabilidade solidária do sócio e desconsideração
da personalidade jurídica. Comentários a disposições do CTN e CDC. Procedimento para responsabilizar o
sócio. Fraude a execução. Efeitos. Natureza jurídica do ato praticado em fraude de execução. Os casos de
fraude de execução. Distinção entre fraude a credores, fraude à execução e fraude à alienação de bens
penhorados.

Notas de Aula7

1. Responsabilidade patrimonial

O tema é versado nos artigos 591 e seguintes do CPC, que serão abordados
pontualmente, adiante.
Por conceito, compilado das ideias de Cândido Dinamarco e Alexandre Câmara, a
responsabilidade patrimonial é a possibilidade de sujeição do patrimônio do executado à
satisfação da obrigação prevista no título executivo.

7
Aula ministrada pela professora Flávia Pereira Hill, em 1/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 35


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

É tradicional a distinção entre dívida e responsabilidade patrimonial, entre débito e


responsabilidade. Trata-se da teoria dualista de Brinz, que encara de forma apartada o
shuld, debitum, e o haftung, a obligatio. Neste sentido, a dívida é um conceito de direito
material, enquanto a responsabilidade é conceito eminentemente processual. O débito é o
dever jurídico de cumprir determinada prestação, um vínculo de direito substancial entre
credor e devedor, que se demonstra uma situação jurídica estática, pois a dívida, por si só,
não permite ao credor empreender atos de satisfação desta prestação, satisfação esta que só
será possível pela responsabilização patrimonial do devedor.
A responsabilidade patrimonial, portanto, implica um vínculo de direito público
processual, envolvendo o executado e o Estado-juiz, pois somente assim podem ser
praticados atos processuais destinados à efetiva satisfação da obrigação. Trata-se, portanto,
de uma relação jurídica dinâmica, porque gera autorização a que sejam praticados atos
processuais que venham a desaguar no cumprimento coercitivo da obrigação.
Por esta dualidade, há situações em que há débito, mas não há responsabilidade, e
vice-versa, havendo responsabilidade sem débito próprio do responsável. Exemplo clássico
de debitum sem obligatio é a dívida de jogo; exemplo de haftung sem shuld, a situação do
fiador.

1.1. Bens sujeitos à responsabilidade

A responsabilidade patrimonial não é ilimitada. Para se definir quais sejam os bens


por ela alcançados, parte-se do artigo 591 do CPC:

“Art. 591. O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos
os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.”

A doutrina critica esta redação, considerando-a um pouco atécnica, na medida em


que ali só se menciona o devedor – sabendo-se que nem sempre ele será o responsável
patrimonial pelo débito. Outra crítica é quanto à menção de bens presentes e futuros sem a
definição de um marco temporal preciso para aferição destas condições. Por isso,
especificamente quanto a este marco temporal, surgem duas correntes na doutrina: a
primeira, majoritária (de Dinamarco e Humberto Theodoro Júnior, dentre outros), defende
que são bens presentes ou futuros em relação ao momento em que a obrigação foi
constituída, ou seja, são bens presentes aqueles que se encontram no patrimônio do
obrigado no exato momento do surgimento da obrigação, e futuros os que dali em diante
ingressarem neste patrimônio – sendo estes os bens alcançados pela responsabilidade. A
segunda corrente, de Alexandre Câmara e parte menor da doutrina, adota como marco
temporal não o surgimento da obrigação, mas sim a instauração da execução: dali em
diante, os bens constantes do patrimônio são presentes e futuros, alcançados pela execução.
Para esta segunda corrente, os bens que integravam o patrimônio do executado no
interregno entre o surgimento da obrigação e a instauração da execução também são
alcançados pela responsabilidade, porque entendem, estes autores, que o artigo 591 do CPC
disse menos do que o legislador pretendia, ou seja, ali se deveria ter mencionado que os
bens passados, até o momento do surgimento da obrigação, também seriam alcançados.
Veja que, assim, se chega à conclusão de que as duas correntes têm exatamente o
mesmo resultado prático, pois sempre se entenderá que são açambarcados na
responsabilidade os bens constantes do patrimônio do executado no momento do

Michell Nunes Midlej Maron 36


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

surgimento da obrigação, e aqueles ali acrescidos posteriormente. A interpretação da


primeira corrente parece mais simples, e por isso é, de fato, melhor.
O artigo 591, supra, faz ressalva aos bens que a lei exclui da responsabilização, e
são eles, principalmente, os bens impenhoráveis, que serão abordados em tema específico,
adiante.
Dinamarco faz ainda mais uma colocação em relação aos bens alcançados pela
responsabilidade, dizendo que só podem ser excutidos bens que tenham expressão
econômica, que sejam conversíveis em dinheiro, pois do contrário nenhum interesse há em
sua sujeição à obrigação.

1.2. Pessoas sujeitas à responsabilidade

Quanto às pessoas que podem ser alcançadas pela responsabilidade patrimonial, há


duas categorias a serem definidas: os responsáveis primários e os responsáveis
secundários. Há responsabilidade primária quando debitum e obligatio concentram-se na
mesma pessoa, ou seja, são os próprios bens do devedor que serão alcançados pela
responsabilização. O artigo 591, há pouco abordado, e o artigo 592, III, do CPC, trazem
hipóteses de responsabilidade primária:

“Art. 592. Ficam sujeitos à execução os bens:


I - do sucessor a título singular, tratando-se de execução fundada em direito real ou
obrigação reipersecutória; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - do sócio, nos termos da lei;
III - do devedor, quando em poder de terceiros;
IV - do cônjuge, nos casos em que os seus bens próprios, reservados ou de sua
meação respondem pela dívida;
V - alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução.”

Este artigo 592, III, na verdade é redundante, em relação ao artigo 591, porque a
única diferença é que os bens não estão, neste inciso III, na posse do devedor, mas nunca
saíram de seu patrimônio, caindo na regra geral.
O inciso V do artigo supra trata de situação em que a alienação é ineficaz, em
relação ao exeqüente, por conta da fraude à execução. Sendo ineficaz, é como se nunca
houvesse ocorrido, o que faz com que se entenda que o bem nunca saíra, para o exeqüente,
do patrimônio do devedor – sendo também caso de responsabilidade primária, portanto.
A responsabilidade secundária, por sua vez, é a que recai sobre bens alheios ao
patrimônio do próprio devedor. Os incisos I, II e IV do artigo 592, supra, definem estas
hipóteses. Primeiro caso é o do sucessor a título singular: quando o terceiro adquire um
bem considerado litigioso, porque alvejado por ação real ou reipersecutória (na qual se
discute justamente a entrega ou restituição do bem), este adquirente sabe de sua condição
de responsável patrimonial secundário. Há quem defenda que esta hipótese seja, em
verdade, de responsabilidade primária, porque reconhece esta hipótese como fraude à
execução – assim se posicionando o ministro Teori Albino Zavascki, isoladamente.
A segunda hipótese de responsabilidade secundária é do cônjuge, que pode ter seu
patrimônio alcançado pela dívida do seu consorte, quando a lei assim o previr. O Código
Civil apresenta esta hipótese, nos artigos 1.643 e 1.644 o CC:

“Art. 1.643. Podem os cônjuges, independentemente de autorização um do outro:

Michell Nunes Midlej Maron 37


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

I - comprar, ainda a crédito, as coisas necessárias à economia doméstica;


II - obter, por empréstimo, as quantias que a aquisição dessas coisas possa exigir.”

“Art. 1.644. As dívidas contraídas para os fins do artigo antecedente obrigam


solidariamente ambos os cônjuges.”

Assim, vê-se que se a dívida contraída por um dos cônjuges reverter em benefício
da família, o patrimônio comum, e mesmo o pessoal do cônjuge não contraente da
obrigação, por ela responderá.
Outra hipótese vem no artigo 1.659, IV, do CC, que deve ser lido em combinação
com a súmula 251 do STJ:

“Art. 1.659. Excluem-se da comunhão:


(...)
IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em proveito do
casal;
(...)”

“Súmula 251, STJ: A meação só responde pelo ato ilícito quando o credor, na
execução fiscal, provar que o enriquecimento dele resultante aproveitou ao casal.”

Veja que o ônus da prova da reversão em proveito do casal incumbe ao exeqüente. A


súmula fala especialmente em execução fiscal, mas o entendimento pode ser transportado
para execução civil.
Terceira hipótese de responsabilidade secundária é a do sócio, pelos débitos da
pessoa jurídica, que deve ser traçada nos exatos limites da regulamentação desta matéria
pelo direito empresarial. A regra, de acordo com o artigo 985 do CC, combinado com o
artigo 596 do CPC, é que o patrimônio da pessoa jurídica não se confunde com o do sócio,
vigendo a autonomia patrimonial da pessoa jurídica. Veja:
“Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição, no registro
próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos (arts. 45 e 1.150).”

“Art. 596. Os bens particulares dos sócios não respondem pelas dívidas da
sociedade senão nos casos previstos em lei; o sócio, demandado pelo pagamento
da dívida, tem direito a exigir que sejam primeiro excutidos os bens da sociedade.
§ 1º Cumpre ao sócio, que alegar o benefício deste artigo, nomear bens da
sociedade, sitos na mesma comarca, livres e desembargados, quantos bastem para
pagar o débito.
§ 2º Aplica-se aos casos deste artigo o disposto no parágrafo único do artigo
anterior.”

Em regra, portanto, a obrigação contraída pela pessoa jurídica é satisfeita pelo


patrimônio desta, e não pelo dos sócios. A responsabilidade dos sócios é excepcional,
demandando previsão legal.
Teori Zavascki apresenta algumas destas hipóteses. A primeira é a responsabilidade
subsidiária do sócio, prevista em lei, que varia de acordo com as regras que norteiam o tipo
societário em questão, podendo ser extremamente limitada, como na S/A, ou extremamente
ampla, como na sociedade em nome coletivo. Esta gradação é dada pelas normas de direito
empresarial, e não pelo legislador processual. Esta responsabilidade, porém, é sempre
subsidiária, incumbindo ao exeqüente extenuar o patrimônio social antes de buscar o

Michell Nunes Midlej Maron 38


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

patrimônio pessoal do sócio. O artigo 596 do CPC, supra, bem como o artigo 1.024 do CC,
prevêem este benefício de ordem, atentos a esta subsidiariedade:

“Art. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas
da sociedade, senão depois de executados os bens sociais.”

Pelo ensejo, é importante abordar, aqui, a situação da sociedade irregular, chamada


sociedade de fato, ou comum. Esta é a sociedade que se constitui sem a observância das
formalidades necessárias, e tem como peculiaridade justamente a inexistência da autonomia
entre esta e os sócios: esta sociedade de fato não conta com personalidade jurídica própria,
delimitadora de seu patrimônio apartado do patrimônio pessoal de cada sócio. Por conta
disso, se nunca houve a personalidade jurídica da sociedade, não há que se falar em
responsabilidade secundária dos sócios: a responsabilidade destes, neste caso, é primária,
pois o sócio é o próprio devedor.

1.2.1. Desconsideração da personalidade jurídica

Outra situação relacionada à responsabilidade dos sócios é a desconsideração da


personalidade jurídica. O regime geral da disregard doctrine, em nosso ordenamento, está
no artigo 50 do CC:

“Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de


finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da
parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os
efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.”

Nesta circunstância, há, de fato, responsabilização secundária dos sócios, porque o


devedor é a pessoa jurídica, mas a responsabilidade é trazida aos sócios nas situações ali
previstas. Fredie Didier reputa a desconsideração como a sanção decorrente da prática de
ato ilícito pelo sócio de pessoa jurídica, através da qual decreta-se a suspensão
momentânea do ato constitutivo da sociedade, a fim de que os bens dos sócios respondam
pelas dívidas contraídas pela sociedade. Este instituto, de origem inglesa, mas para muitos
primeiramente mencionado no emblemático case estadunidense Salomon co. vs. Salomon,
só veio a ser reconhecido no Brasil na década de 1960.
O artigo 50, supra, deixa claro que a desconsideração deve ter caráter excepcional.
Para ser decretada, é preciso que tenha havido abuso da personalidade jurídica, e a
insuficiência de patrimônio social para arcar com a dívida. O CC adotou, portanto, a teoria
maior da desconsideração da personalidade jurídica, ao exigir a presença destes dois
requisitos cumulativos para que o instituto se opere – pois a teoria menor permite a
desconsideração simplesmente pela insuficiência de bens da sociedade, dispensando a
configuração de abuso da personalidade jurídica. Para o legislador civil, é abuso da
personalidade o desvio da finalidade, a confusão patrimonial, os atos que acarretem lesão a
direito, as infrações à lei, ou ainda o descumprimento de contratos8. Há, portanto, requisito
8
Há um projeto de lei em tramitação, o PL 2.426/03, cujo escopo é a regulamentação do artigo 50 do CC,
pretendendo deixar claro que os sócios minoritários sem poder de administração não podem ter seus bens
pessoais alcançados, e garantir expressamente o prévio contraditório pelos sócios, antes da efetivação da
desconsideração. Além disso, pretende vedar a desconsideração feita por analogia ou interpretação extensiva.

Michell Nunes Midlej Maron 39


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

objetivo (insuficiência de bens) e subjetivo (abuso social), que, cumulados, permitem a


desconsideração.
A quebra da personalidade jurídica deve ser requerida pelo interessado, exeqüente
ou MP, e nunca decretada de ofício.
Há duas correntes a disputar qual é a sede adequada para a decretação da
desconsideração da personalidade jurídica. STJ – e Fredie Didier, entre outros
doutrinadores –, defende que é possível a desconsideração incidental à execução, quando
então será necessária a incursão dos sócios no pólo passivo da execução, até então
composto unicamente pela sociedade. É preciso, para esta corrente, que seja instaurado um
incidente processual cognitivo, no curso da execução, a fim de ser possível a comprovação
dos requisitos objetivo e subjetivo da desconsideração.
A segunda corrente, de Ada Pellegrini, Luis Roberto Barroso, e outros, diz que não
basta o incidente cognitivo para fundear a desconsideração: ou o exeqüente se adiantou e,
na fase de conhecimento prévia à execução (se existiu), promoveu a desconsideração, ou
será preciso um verdadeiro processo autônomo de conhecimento, exclusivamente com esta
finalidade, com cognição plena dos elementos da desconsideração. Esta corrente não tem
prevalecido.
No CDC, a desconsideração é prevista no artigo 28:

“Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade


quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder,
infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A
desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de
insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má
administração.
§ 1° (Vetado).
§ 2° As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas,
são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste código.
§ 3° As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações
decorrentes deste código.
§ 4° As sociedades coligadas só responderão por culpa.
§ 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua
personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos
causados aos consumidores.”

Perceba que a leitura do caput deste artigo pode dar a entender que o legislador
consumerista adotou também a teoria maior da desconsideração, mas o § 5º do dispositivo
logo revela que, em verdade, adotou-se ali a mencionada teoria menor. Isto porque, em
última análise, sempre que se perceber que a personalidade jurídica se tornou obstáculo ao
ressarcimento do consumidor, esta será desconsiderada – haja ou não abuso da
personalidade. E a insuficiência de patrimônio é obstáculo claro.
Portanto, segundo a jurisprudência e a maior parte da doutrina, o regime específico
do CDC adota a teoria menor, em que é bastante a presença do requisito objetivo, a
insuficiência de patrimônio social, para que seja possível a desconsideração da
personalidade jurídica. Outrossim, há quem, minoritariamente, critique ferozmente esta
leitura, reputando que a leitura do § 5º deve ser coligada ao caput do artigo 28, e não de
forma isolada, o que levaria ao entendimento de que o elemento subjetivo é, sim, exigido,
também no CDC tendo sido adotada a teoria maior.

Michell Nunes Midlej Maron 40


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Na relação de consumo, há ainda uma discussão sobre a decretação de ofício da


desconsideração da personalidade jurídica. A corrente dominante defende que não é
possível, nos mesmos moldes da previsão expressa para o regime geral civilista da
desconsideração, porque a regra é a inércia judicial, que só pode ser quebrada por lei
autorizativa expressa. A corrente minoritária, capitaneada pelo falecido ministro Carlos
Menezes Direito, defende que a ausência de vedação no artigo 28 do CDC permitiria este
atuar oficioso, e há até mesmo um precedente judicial em que se aplicou a desconsideração
oficiosamente, o caso Encol.

1.2.2. Responsabilidade dos sócios por dívidas tributárias

Os artigos 124 e 135, especialmente o inciso III, do CTN, são relevantes:

“Art. 124. São solidariamente obrigadas:


I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador
da obrigação principal;
II - as pessoas expressamente designadas por lei.
Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de
ordem.”

“Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a


obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou
infração de lei, contrato social ou estatutos:
I - as pessoas referidas no artigo anterior;
II - os mandatários, prepostos e empregados;
III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito
privado.”

Esta hipótese é de responsabilidade secundária, pois que os sócios responderão com


patrimônio pessoal por dívidas da pessoa jurídica. Os dispositivos do CTN trazem
previsões bastante semelhantes às do artigo 50 do CC, mas de forma alguma se tratam, as
hipóteses aqui abordadas, de desconsideração da personalidade jurídica: é imputação direta
do patrimônio do sócio.
Para que o patrimônio pessoal dos sócios seja alcançado, em execução fiscal, é
imprescindível que sejam preenchidos os requisitos dos artigos supra: o primeiro, objetivo,
é que não haja bens livres no patrimônio da pessoa jurídica, suficientes a cobrir o valor do
débito; e o segundo, subjetivo, implica o abuso de poder ou a infração a lei ou ato
constitutivo, por parte do sócio, ou que tenha havido dissolução irregular da sociedade,
quando se presume a fraude.
Ademais, o STJ vem interpretando que se o nome dos sócios constar da CDA, há
presunção de responsabilidade deles, porque a inclusão do nome, ali, pressupõe processo
administrativo tributário prévio que denuncie a incursão nos casos de responsabilização
direta. Por isso, o ônus de provar-se alheio à responsabilidade é dos sócios. De outro lado,
se o nome dos sócios não constar da CDA, a Fazenda somente poderá redirecionar a
execução para os sócios se ela comprovar, no curso da executiva fiscal, que houve a
incursão nas hipóteses de responsabilidade direta – o ônus agora é do fisco. Sendo caso de
redirecionamento, diga-se, a CDA original pode ser aproveitada.

2. Alienação fraudulenta de bens

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EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A alienação fraudulenta de bens é gênero, pois sempre que o executado onera ou


aliena bens que se submetem à responsabilidade patrimonial haverá esta configuração, vez
que com isto dificulta a satisfação do crédito exeqüendo.
Três são as espécies deste gênero: a fraude contra credores, a fraude à execução, e a
alienação de bem penhorado. A doutrina entende que há uma certa gradação de gravidade
implícita nestas espécies, na ordem aqui escrita. Vejamos cada uma.

2.1. Fraude contra credores

A fraude contra credores é regida no CC, nos artigos 158 a 165.

“Art. 158. Os negócios de transmissão gratuita de bens ou remissão de dívida, se


os praticar o devedor já insolvente, ou por eles reduzido à insolvência, ainda
quando o ignore, poderão ser anulados pelos credores quirografários, como lesivos
dos seus direitos.
§ 1º Igual direito assiste aos credores cuja garantia se tornar insuficiente.
§ 2º Só os credores que já o eram ao tempo daqueles atos podem pleitear a
anulação deles.”

“Art. 159. Serão igualmente anuláveis os contratos onerosos do devedor


insolvente, quando a insolvência for notória, ou houver motivo para ser conhecida
do outro contratante.”

“Art. 160. Se o adquirente dos bens do devedor insolvente ainda não tiver pago o
preço e este for, aproximadamente, o corrente, desobrigar-se-á depositando-o em
juízo, com a citação de todos os interessados.
Parágrafo único. Se inferior, o adquirente, para conservar os bens, poderá depositar
o preço que lhes corresponda ao valor real.”

“Art. 161. A ação, nos casos dos arts. 158 e 159, poderá ser intentada contra o
devedor insolvente, a pessoa que com ele celebrou a estipulação considerada
fraudulenta, ou terceiros adquirentes que hajam procedido de má-fé.”

“Art. 162. O credor quirografário, que receber do devedor insolvente o pagamento


da dívida ainda não vencida, ficará obrigado a repor, em proveito do acervo sobre
que se tenha de efetuar o concurso de credores, aquilo que recebeu.”

“Art. 163. Presumem-se fraudatórias dos direitos dos outros credores as garantias
de dívidas que o devedor insolvente tiver dado a algum credor.”

“Art. 164. Presumem-se, porém, de boa-fé e valem os negócios ordinários


indispensáveis à manutenção de estabelecimento mercantil, rural, ou industrial, ou
à subsistência do devedor e de sua família.”

“Art. 165. Anulados os negócios fraudulentos, a vantagem resultante reverterá em


proveito do acervo sobre que se tenha de efetuar o concurso de credores.
Parágrafo único. Se esses negócios tinham por único objeto atribuir direitos
preferenciais, mediante hipoteca, penhor ou anticrese, sua invalidade importará
somente na anulação da preferência ajustada.”

Esta espécie consiste na prática de atos pelo devedor que, conscientemente, leva-o à
diminuição de seu patrimônio, a ponto de reduzi-lo à insolvência, mesmo antes da execução

Michell Nunes Midlej Maron 42


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

se instaurar. A doutrina aponta dois requisitos básicos para configurar esta fraude: o dano, a
insolvência, o eventus damni, que é a situação de insuficiência de ativo para suportar o
passivo daquele indivíduo; e o consilium fraudis, elemento subjetivo que demonstra a
consciência do devedor e do terceiro de que aquele ato poderia levar o devedor à
insolvência (consciência que pode ser presumida). O artigo 158 do CC excepciona a
necessidade de demonstração do consilium fraudis, sempre que a oneração ou alienação for
a título gratuito: presume-se o conluio fraudulento, nestes casos.
Ocorrida a fraude contra credores, se entende que o ato será considerado ineficaz
perante o credor prejudicado. Araken de Assis fala em infraeficaz, e não totalmente
ineficaz, porque o ato é eficaz contra outras pessoas, que não aquele credor que comprovou
o vício. O CC dispõe que é anulável o ato praticado em fraude contra credores, mas a
doutrina processual defende que é ineficaz. Isto porque fosse o ato é anulável, se
efetivamente anulado, o bem retornaria ao patrimônio de onde originalmente saiu, ou seja,
do executado, sendo posto à disposição de todos os seus credores – o que não acontece. Por
isso, a ineficácia é mais precisa, porque ela só atinge o negócio em relação àquele credor,
somente contra ele não sendo oponível o ato, que permanece existente, válido e eficaz
perante terceiros, inclusive demais credores. Assim, o bem permanece onde está, mas pode
ser invadido para satisfazer o crédito daquele credor que demonstrou a fraude.
A sede adequada para apontar a fraude contra credores é a ação revocatória, ou
pauliana, processo de conhecimento em que cabe ao autor a prova dos elementos da fraude.
A súmula 195 do STJ é relevante:

“Súmula 195, STJ: Em embargos de terceiro não se anula ato jurídico, por fraude
contra credores.”

A ação autônoma é necessária, portanto, não sendo possível tal dedução em sede de
embargos.

2.2. Fraude à execução

Os artigos 592, V, e 593 do CPC são a sede deste tema:

“Art. 592. Ficam sujeitos à execução os bens:


(...)
V - alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução.”

“Art. 593. Considera-se em fraude de execução a alienação ou oneração de bens:


I - quando sobre eles pender ação fundada em direito real;
II - quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda
capaz de reduzi-lo à insolvência;
III - nos demais casos expressos em lei.”

A doutrina conceitua a fraude à execução como sendo a oneração ou alienação


fraudulenta de bens, realizada pelo devedor, no curso de um processo, que o reduz à
insolvência.
A doutrina e a jurisprudência sempre entenderam que a citação válida do executado,
em qualquer processo judicial – de conhecimento, execução ou cautelar –, era o primeiro
requisito para configuração da fraude à execução. Segundo requisito seria a insolvência
daquele devedor, a insuficiência de bens no ativo para suportar o passivo.

Michell Nunes Midlej Maron 43


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Todavia, o STJ publicou um enunciado recentíssimo de sua súmula, cujo teor


contraria completamente o entendimento clássico deste instituto, exposto acima. Veja a
súmula 375 desta Corte:

“Súmula 375, STJ: O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da


penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente.”

Para o STJ, portanto, os dois requisitos para a fraude à execução são: o registro da
penhora, ou, não havendo, a comprovação da má-fé do terceiro adquirente; e a redução do
devedor ao estado de insolvência (requisito este que ainda coincide com o que a doutrina
sempre defendeu).
O artigo 615-A do CPC traz uma faculdade especial ao exequente:

“Art. 615-A. O exeqüente poderá, no ato da distribuição, obter certidão


comprobatória do ajuizamento da execução, com identificação das partes e valor
da causa, para fins de averbação no registro de imóveis, registro de veículos ou
registro de outros bens sujeitos à penhora ou arresto. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 1º O exeqüente deverá comunicar ao juízo as averbações efetivadas, no prazo de
10 (dez) dias de sua concretização. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º Formalizada penhora sobre bens suficientes para cobrir o valor da dívida, será
determinado o cancelamento das averbações de que trata este artigo relativas
àqueles que não tenham sido penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Presume-se em fraude à execução a alienação ou oneração de bens efetuada
após a averbação (art. 593). (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4º O exeqüente que promover averbação manifestamente indevida indenizará a
parte contrária, nos termos do § 2o do art. 18 desta Lei, processando-se o incidente
em autos apartados. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 5º Os tribunais poderão expedir instruções sobre o cumprimento deste artigo.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

A certidão comprobatória do ajuizamento da execução pode, então, ser levada a


registro no RGI, para bens imóveis, ou qualquer órgão competente para outros bens (como
o Detran, para veículos automotores). Feito este registro, o primeiro requisito previsto pelo
STJ fica provado, presumidamente, sendo desnecessária a demonstração, pelo exeqüente,
da má-fé do adquirente ou do registro da penhora, sendo suficiente provar a insolvência.
O ato praticado em fraude à execução é válido, porém ineficaz em relação ao
exeqüente que a argüiu.
A sede adequada à argüição da fraude à execução, porém, é mais ampla, podendo
ser este vício apontado no próprio bojo da execução, como um incidente cognitivo. Fredie
Didier e Teori Albino Zavascki defendem que até mesmo o juiz, de ofício, pode reconhecer
a fraude à execução, a qualquer tempo.

2.3. Alienação de bem penhorado

O artigo 240 da Lei 6.015/73 traz esta situação:

“Art. 240 - O registro da penhora faz prova quanto à fraude de qualquer transação
posterior. (Renumerado do art. 245 com nova redação pela Lei nº 6.216, de 1975).”

Michell Nunes Midlej Maron 44


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Sempre que um bem que já se encontra gravado por penhora for onerado ou
alienado, ocorre esta circunstância. Há dois requisitos, portanto: o registro efetivo da
penhora; e a alienação ou oneração do bem penhorado.
Veja que não há que se falar em consilium fraudis, e nem mesmo insolvência,
porque já houve a concentração da execução naquele bem, que está afetado ao
cumprimento da execução, não podendo mais ser onerado ou alienado.
Assim como as demais modalidades de alienação fraudulenta de bens, gera somente
ineficácia do negócio perante o exeqüente frustrado, e não invalidade – ineficácia que pode
ser decretada nos próprios autos da execução, em incidente cognitivo.

Casos Concretos

Questão 1

Em uma execução movida pela Corretora Brasil, em face de Paulo, foi penhorado
um veículo de marca Vectra-GM, ano 2004, de propriedade de Manoel, que estava em
poder do executado a título de empréstimo gratuito. Manoel ajuizou embargos de terceiro
com pedido liminar de liberação do bem da constrição judicial e conseqüente manutenção
de posse em seu favor. Anexou Certificado de Registro de Veículo do Detran e argumentou
que não responde pelas dívidas de Paulo, de quem é amigo e colega de profissão, razão
pela qual emprestou seu carro pois o mesmo estava atravessando difícil situação
financeira. A embargada, em contestação, pleiteou a improcedência do pedido. Sustentou
que o veículo pertence efetivamente a Paulo, pois, além de circular pelas ruas da cidade
com o automóvel, afirmou, nos autos do processo de execução, ser o seu proprietário.
Ademais, ao se interpretar o verbete nº 132 da súmula do STJ, o registro não significa
propriedade ou a sua falta não implica a não propriedade. Autos conclusos, decida os
embargos.

Resposta à Questão 1

Cabe ao exeqüente elidir a presunção de propriedade criada pelo registro do


automóvel. A mera afirmação de que o bem pertence ao executado não é suficiente a afastar
esta presunção, pelo que, a todo ver, há de fato mero empréstimo do automóvel ao

Michell Nunes Midlej Maron 45


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

executado, permanecendo este na propriedade do embargante. Por isso, os embargos saio


procedentes.
A súmula 132 do STJ, diga-se, é absolutamente impertinente ao caso:

“Súmula 132, STJ: A ausência de registro da transferência não implica a


responsabilidade do antigo proprietário por dano resultante de acidente que
envolva o veículo alienado.”

Veja a Apelação Cível 2000.001.02970, do TJ/RJ:

“2000.001.02970. APELACAO. EMBARGOS DE TERCEIRO. VEICULO.


DETRAN. Embargos de Terceiro. Automóvel. A responsabilidade patrimonial do
devedor implica na possibilidade de constrição de "seus bens"em poder de
terceiros e não a regra recíproca. Em consequência, não podem ser penhorados
bens de terceiros em poder do devedor, salvante os casos de responsabilidade
patrimonial secundária prevista nos artigos 592 e 593 do CPC onde não se encarta
a hipótese de um terceiro, pelo simples fato de colocar o seu automóvel à
disposição do devedor responder pelas dívidas do mesmo. Havendo certificado do
Detran comprobatório da propriedade do embargante o ônus da prova sobre
eventual simulação ou fraude cabe ao exequente e não ao embargante. A
declaração do executado de que o bem lhe pertence não é suficiente para destruir o
documento público oriundo do Detran, máxime porque suspeita a declaração do
devedor que pretende exonerar-se da dívida com bem alheio. Aplicação analógica
in malam partem da Súmula que não considera o registro do Detran absoluto para
efeito de imputação de responsabilidade por delito de trânsito. Apelo provido para
livrar o bem do terceiro da constrição judicial.”

Questão 2

Em execução que tem por base sentença penal condenatória transitada em julgado,
movida pelo Banco X em face de Jamil, Wanda, ex-mulher do executado, ajuizou embargos
de terceiro em face do exequente. Sustenta que a penhora recaiu sobre o imóvel de sua
exclusiva propriedade. Alega que, mesmo estando casada com o executado à época da
prática da apropriação indébita, não é ela responsável pela reparação dos danos, a teor
do disposto no art. 1.659, IV do Cód. Civil. A ocorrência do crime se deu em janeiro de
2002, enquanto a construção da moradia se operou de setembro de 1997 a abril de 1999,
inexistindo, assim, a possibilidade desta ter-se beneficiado com o produto do crime. Aduz
que o imóvel deve ser considerado bem de família, pois serve a ela e suas filhas de
residência. Em contestação, o embargado alega ter havido fraude à execução, uma vez que
na separação judicial o imóvel foi atribuído exclusivamente à embargante, quando ela já
tinha inequívoca ciência da demanda executiva movida contra seu ex-marido, inclusive por
força de protesto à alienação de bens. Aduz que a embargante sempre foi do lar, não
auferindo rendimentos compatíveis com a edificação do imóvel e que, embora a construção
tenha sido concluída em abril de 1999, foram realizados acabamentos na casa até meados
de 2003. A meação da embargante é suscetível de penhora, uma vez que, mesmo sendo
pessoal a responsabilidade do executado pela prática do delito, o outro cônjuge responde
por ter se beneficiado com o produto do crime. Finalmente, sustenta que a
impenhorabilidade da Lei 8.009/90 não pode ser oposta quando se tratar de execução de
sentença penal condenatória. Considerados comprovados todos os fatos narrados, decida
os embargos, fundamentadamente.

Michell Nunes Midlej Maron 46


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Resposta à Questão 2

Há clara ocorrência de fraude à execução, porque a cônjuge tinha ciência da lide


quando da transferência do bem, sendo clara a má-fé desta adquirente, e há a insolvência do
executado – estando preenchidos os elementos que delineiam a fraude à execução.
A impenhorabilidade alegada, ademais, não existe, pois a própria Lei 8.009/90 traz
como ressalva esta situação, no artigo 3º, VI:

“Art. 3º A impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil,


fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra natureza, salvo se movido:
(...)
VI - por ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de sentença
penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens.
(...)”

Além de tudo, há clara situação de responsabilidade secundária do cônjuge, porque


certamente reverteu em prol da família a adução do bem em questão.
Veja o REsp. 333.148:

“REsp 333148 / SP DJ 01/07/2002 p. 347 EMBARGOS DE TERCEIRO.


APROPRIAÇÃO INDÉBITA COMETIDA PELO EXECUTADO, EX-MARIDO
DA EMBARGANTE. PENHORA INCIDENTE SOBRE IMÓVEL ATRIBUÍDO A
ESTA QUANDO DA SEPARAÇÃO JUDICIAL DO CASAL. FRAUDE À
EXECUÇÃO. MEAÇÃO. PROVA DE QUE O PRODUTO DO CRIME TENHA
BENEFICIADO A EMBARGANTE E SUA FAMÍLIA. FUNDAMENTO
SUFICIENTE NÃO IMPUGNADO. IMPENHORABILIDADE DO IMÓVEL
RESIDENCIAL. INCIDÊNCIA DA RESSALVA CONSTANTE DO ART. 3º, VI,
DA LEI Nº 8.009, DE 29.3.1990.
– Assertiva de fraude à execução, não impugnada pela recorrente.
– Aspectos fáticos destacados pela decisão recorrida para evidenciar que a
embargante tirara proveito da quantia indevidamente apropriada pelo ex-marido.
Fundamento por si só suficiente.
– Possível no caso a penhora em face da expressa ressalva feita pelo art. 3º, VI, da
Lei nº 8.009, de 29.3.1990.
Recurso especial não conhecido.”

Questão 3

Consumidora que se sentiu lesada em seus direitos promoveu demanda contra o


fabricante do produto e requereu indenização por danos materiais e morais suportados.
Seu pedido foi julgado procedente. Após o trânsito em julgado da sentença, o réu encerrou
informalmente suas atividades com diversas pendências. A autora requereu, então, a
desconsideração da personalidade jurídica do réu, com fundamento no artigo 28 do
Código de Defesa do Consumidor, para que fossem os integrantes do quadro societário do
réu intimados a pagar a quantia executada, na forma do artigo 475-J do CPC. Requereu
ainda que, transcorrido o prazo de 15 dias da data da intimação sem a satisfação do
crédito, fosse expedido mandado de penhora e avaliação sobre os bens particulares dos
sócios da sociedade empresária. Pergunta-se:

Michell Nunes Midlej Maron 47


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

a) Pode o magistrado, durante a fase de cumprimento da sentença, decretar de


ofício a desconsideração da personalidade jurídica do réu e, dessa forma, permitir o
prosseguimento da fase executiva contra os integrantes do quadro societário da empresa-
ré? Fundamente.
b) Havendo requerimento do autor, como no caso concreto acima descrito, seria
possível a desconsideração? Como deverá proceder o magistrado? Fundamente.

Resposta à Questão 3

a) Há duas correntes, sendo certo que a majoritária entende que esta atuação
oficiosa é vedada, ante a carência de norma autorizativa da quebra da inércia
pelo magistrado. Porém, há precedentes esparsos que autorizam esta
desconsideração de ofício, como se vê no REsp. 370.068:

“REsp 370068 / GO. DJ 14/03/2005 p. 318.


Processual Civil. Comercial. Falimentar. Recurso Especial. Ofensa à norma
constitucional. Interesse de agir. Prequestionamento. Decisão. Fundamentação.
Reexame fático-probatório. Falência. Desconsideração da personalidade jurídica.
Indisponibilidade de bens. Ex-diretor de sociedade anônima. Embargos de
declaração. Omissão. Contradição. Inexistência.
- A ofensa à norma constitucional não enseja Recurso Especial.
- O recorrente carece de interesse de agir no tocante à pretensão que já foi atendida
pelo tribunal a quo.
- Falta prequestionamento ao Recurso Especial no ponto que suscita questão não
discutida na corte de origem.
- A desconformidade da decisão com as provas dos autos não revela ausência de
fundamentação.
- É inadmissível o reexame fático-probatório em sede de Recurso Especial.
- Está correta a desconsideração da personalidade jurídica da Sociedade Anônima
falida quando utilizada por sócios controladores, diretores e ex-diretores para
fraudar credores. Nesse caso, o juiz falimentar pode determinar medida cautelar de
indisponibilidade de bens daquelas pessoas, de ofício, na própria sentença
declaratória de falência, presentes os requisitos do fumus boni iuris e os do
periculum in mora.
- A contrariedade do julgado com o disposto na lei não se confunde com omissão
ou a contradição que enseje embargos de declaração.
Recurso Especial não conhecido.”

b) Há, aqui também, duas correntes sobre a sede adequada para efetivar a
desconsideração. A primeira é a que defende o mero incidente processual
cognitivo, no bojo da execução, é suficiente para operacionalizar a
desconsideração da personalidade jurídica, e esta é a orientação do STJ.
Aplicando-se esta corrente, seria possível a desconsideração, no caso em tela,
pela aplicação da teoria menor neste procedimento instrutório a ser regido pelo
juízo da execução.
A corrente contrária, porém, demanda o ajuizamento de processo autônomo
para tanto, quando não seria possível a análise da desconsideração no bojo da
execução: seria via processual inadequada para tanto.

A respeito, veja o julgado do TJ/MG no Agravo 1.0479.00.010727-2/001

Michell Nunes Midlej Maron 48


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“1.0479.00.010727-2/001. Data do Julgamento: 06/10/2007.


EXECUÇÃO DE SENTENÇA. INDENIZAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO DA
PERSONALIDADE JURÍDICA. FALÊNCIA DA EMPRESA. MÁ-
ADMINISTRAÇÃO - NECESSÁRIA OBSERVÂNCIA DO DEVIDO
PROCESSO LEGAL, DO CONTRADITÓRIO DO PRINCÍPIO DA AMPLA
DEFESA - VOTO VENCIDO. É possível a desconsideração da personalidade
jurídica para que os bens dos sócios diretores, quando os da empresa não forem
suficientes para garantir a execução, em demonstrado haver agido com excesso de
poder, ou ocorrer a violação do contrato social ou do estatuto, ou ainda a infração a
lei ou a prática de atos ilícitos, como ainda a falência da empresa devedora por má-
administração. Para desconsiderar a personalidade jurídica de executada,
necessário se faz a instalação de procedimento incidental, com participação da
requerente, e a indispensável citação da empresa devedora e de seus nomeados
sócios para virem acompanhar, querendo, o incidente processual, onde deve lhes
garantir a mais ampla instrução probatória para demonstrar a existência ou não das
condições para aplicação da disregard doctrine, sem o que restam violados os
princípios do devido processo legal e do contraditório, além de não garantir às
partes o direito fundamental da ampla oportunidade de defesa.
DE OFÍCIO, DECRETARAM A NULIDADE PARCIAL DO PROCESSO DE
EXECUÇÃO E DA R. DECISÃO FUSTIGADA, VENCIDO O RELATOR.”
Questão 4

No curso de uma ação de execução fiscal em que foi promovida a citação regular
do executado, houve a penhora de bem móvel consistente em um veículo automotor.
Antonio, terceiro em relação à demanda, promoveu ação de embargos de terceiro (art.
1.046 do CPC) com o objetivo de desconstituir a penhora que recaiu sobre o referido
veículo automotor. Alegou que adquiriu o bem do executado, mas que, por ocasião da
aquisição, não tinha conhecimento da ação executiva que já tramitava contra o vendedor /
executado, nem tampouco tinha conhecimento de que este já havia sido citado na demanda
executiva. Alegou, ainda, que não constava qualquer restrição judicial sobre o veículo
junto ao órgão de trânsito (DETRAN). Aduziu que houve a regular transferência do
veículo, com a expedição dos documentos necessários pelo órgão competente. O Município
alegou em sua contestação (art. 1.053 do CPC) que o fato de não estar registrada no
DETRAN qualquer restrição ao veículo não afasta o direito do exeqüente, uma vez que a
alienação ocorreu após a citação válida do devedor e, portanto, em fraude à execução.
Como deve ser julgada a ação de embargos de terceiro? Decida, dispensada a forma de
sentença, indicando os dispositivos legais pertinentes.

Resposta à Questão 4

A doutrina clássica diria que a citação válida em processo que possa gerar
condenação e a insolvência do devedor são suficientes a desenhar a fraude à execução.
Segundo esta vertente, não há prova do segundo requisito, da insolvência do executado, não
estando, portanto, configurada fraude à execução.
Segundo a novel posição do STJ, posta na súmula 375 desta Corte, é exigido do
exeqüente a demonstração do registro da penhora, ou da ciência do terceiro adquirente, de
que aquele ato de alienação reduziria o devedor à insolvência – o que não aconteceu, in
casu, segundo o enunciado.
De uma ou de outra forma, não houve fraude à execução.

Michell Nunes Midlej Maron 49


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Veja o Ag.Rg. no Ag. 852.414:

“AgRg no Ag 852414 / DF. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE


INSTRUMENTO. DJ 29/06/2007 p. 603.
Agravo no agravo de instrumento. Recurso especial. Embargos de terceiro.
Ausência de restrição junto ao DETRAN. Fraude à execução.
- Não se configura, por si só, fraude à execução a alienação de veículo após à
citação de devedor, se não existia qualquer restrição no DETRAN capaz de indicar
a ocorrência do "conluio para a fraude". Nesse caso, é necessário o credor provar
que o adquirente tinha conhecimento da ação contra o devedor.
Agravo não provido.”

Tema V

A liquidação incidente da sentença (art. 475-A introduzido pela Lei 11232/2005). Conceito. Casos de
iliqüidez da sentença. Nova natureza jurídica da liquidação. Limites da liquidação. Liquidação frustrada.
Modalidades de liquidação: por arbitramento e por artigos. A liquidação da sentença penal condenatória e
da sentença arbitral. A liquidação, promovida por particular, da sentença genérica proferida em sede de
processo coletivo (art. 98, Lei nº 8.078/90).

Notas de Aula9

1. Liquidação de sentença

Os artigos 475-A a 475-H do CPC regulam a matéria, e serão abordados


pontualmente.
Humberto Theodoro Júnior conceitua a liquidação de sentença como o incidente
processual destinado a determinar o valor ou a quantidade da condenação, conferindo
liquidez à sentença condenatória genérica.
Há que se comentar, portanto, a relação entre pedido genérico e sentença ilíquida,
tomando-se o artigo 286 do CPC como referencial:

“Art. 286. O pedido deve ser certo ou determinado. É lícito, porém, formular
pedido genérico: (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
I - nas ações universais, se não puder o autor individuar na petição os bens
demandados; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

9
Aula ministrada pela professora Flávia Pereira Hill, em 1/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 50


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

II - quando não for possível determinar, de modo definitivo, as conseqüências do


ato ou do fato ilícito; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
III - quando a determinação do valor da condenação depender de ato que deva ser
praticado pelo réu. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)”

A regra geral da execução está no já abordado artigo 580 do CPC, que exige
obrigação líquida, certa e exigível para haver execução. Para extrair a liquidez, quando uma
decisão seja certa e exigível, mas ilíquida, é que se presta o incidente de liquidação.
Veja que o pedido genérico é excepcional, admitido nas hipóteses do artigo supra,
porque como regra a liquidez deve ser colhida desde o pedido. Exemplo clássico de pedido
genérico admitido é a compensação por danos morais: a jurisprudência é pacífica em tolerar
este pedido como uma das exceções à liquidez.
A correlação entre a sentença e o pedido determina que se este for certo e líquido,
igualmente o deve ser a sentença. Sendo uma das hipóteses do artigo supra, em que há
pedido genérico, cabe também o dispositivo genérico.
A sentença ilíquida, genérica, não pode, de pronto, ser executada. É preciso que,
após a fase cognitiva e antes da fase executória, seja instaurado um incidente dedicado
exclusivamente a esta atribuição de liquidez. A fase de liquidação de sentença, portanto, é
incidental ao processo sincrético.
Há alguns procedimentos em que a sentença ilíquida é absolutamente vedada,
mesmo que se desenhe uma das hipóteses do artigo 286 do CPC. É o caso, por exemplo, do
artigo 52, I, da Lei 9.099/95:

“Art. 52. A execução da sentença processar-se-á no próprio Juizado, aplicando-se,


no que couber, o disposto no Código de Processo Civil, com as seguintes
alterações:
I - as sentenças serão necessariamente líquidas, contendo a conversão em Bônus do
Tesouro Nacional - BTN ou índice equivalente;
(...)”

Por isso, a liquidação de sentença nos juizados especiais é impossível, por pura falta
de compatibilidade ou necessidade, eis que não há sentença a ser liquidada ali jamais.
Outra hipótese é o procedimento sumário, como se vê no artigo 275, II, “d” e “e”,
do CPC:

“Art. 275. Observar-se-á o procedimento sumário: (Redação dada pela Lei nº


9.245, de 26.12.1995)
(...)
d) de ressarcimento por danos causados em acidente de veículo de via terrestre;
(Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)
e) de cobrança de seguro, relativamente aos danos causados em acidente de
veículo, ressalvados os casos de processo de execução; (Redação dada pela Lei nº
9.245, de 26.12.1995)
(...)”

Nestes casos, também não se admite a prolação de sentença ilíquida, sendo


igualmente incogitável a liquidação de sentença, portanto.
O título executivo extrajudicial jamais será passível de liquidação, pela só razão de
que se não for este título já líquido no nascedouro, sequer se configura como título
executivo. Por isso, não se pode executar título extrajudicial que seja ilíquido.

Michell Nunes Midlej Maron 51


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A doutrina é pacífica em entender que a liquidação é um incidente processual, uma


fase incidental do processo sincrético.
O artigo 475-N, parágrafo único, prevê situações excepcionais, em que é necessária
a instauração de um novo processo, uma nova relação jurídica processual, com o escopo da
liquidação e cumprimento da sentença, como é o caso da execução civil de sentença penal
condenatória, por exemplo:

“Art. 475-N. São títulos executivos judiciais: (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
(...)
II – a sentença penal condenatória transitada em julgado; (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
(...)
IV – a sentença arbitral; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
VI – a sentença estrangeira, homologada pelo Superior Tribunal de Justiça;
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
Parágrafo único. Nos casos dos incisos II, IV e VI, o mandado inicial (art. 475-J)
incluirá a ordem de citação do devedor, no juízo cível, para liquidação ou
execução, conforme o caso. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

1.1. Momento para a liquidação

O momento processual adequado para a instauração da liquidação, como dito, é


após a fase de conhecimento, e antes da fase de cumprimento. O artigo 475-I, § 2º, do CPC,
tempera esta regra, porque determina a liquidação capitular da sentença:

“Art. 475-I. O cumprimento da sentença far-se-á conforme os arts. 461 e 461-A


desta Lei ou, tratando-se de obrigação por quantia certa, por execução, nos termos
dos demais artigos deste Capítulo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
§ 2º Quando na sentença houver uma parte líquida e outra ilíquida, ao credor é
lícito promover simultaneamente a execução daquela e, em autos apartados, a
liquidação desta. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Segundo temperamento vem na possibilidade de instauração de liquidação


provisória, como dispõe o artigo 475-A, § 2º, do CPC:

“Art. 475-A. Quando a sentença não determinar o valor devido, procede-se à sua
liquidação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Do requerimento de liquidação de sentença será a parte intimada, na pessoa de
seu advogado. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º A liquidação poderá ser requerida na pendência de recurso, processando-se em
autos apartados, no juízo de origem, cumprindo ao liquidante instruir o pedido com
cópias das peças processuais pertinentes. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 3º Nos processos sob procedimento comum sumário, referidos no art. 275, inciso
II, alíneas ‘d’ e ‘e’ desta Lei, é defesa a sentença ilíquida, cumprindo ao juiz, se for
o caso, fixar de plano, a seu prudente critério, o valor devido. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)”

Michell Nunes Midlej Maron 52


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Se a decisão liquidanda ainda não transitou em julgado, a liquidação é provisória,


eis que pode ser alterada em qualquer sentido. A interpretação deste § 2º do artigo supra é a
de que, mesmo na pendência de recurso com efeito suspensivo, a liquidação provisória seja
admitida, como meio de incremento da celeridade processual.
O dispositivo fala em “cópias pertinentes”, porque os autos correrão em apartado.
Tais cópias têm sido coladas do artigo 475-O, § 3º, do CPC, mutatis mutandis:

“Art. 475-O. A execução provisória da sentença far-se-á, no que couber, do mesmo


modo que a definitiva, observadas as seguintes normas: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
(...)
§ 3º Ao requerer a execução provisória, o exeqüente instruirá a petição com cópias
autenticadas das seguintes peças do processo, podendo o advogado valer-se do
disposto na parte final do art. 544, § 1o: (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
I – sentença ou acórdão exeqüendo; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
II – certidão de interposição do recurso não dotado de efeito suspensivo; (Incluído
pela Lei nº 11.232, de 2005)
III – procurações outorgadas pelas partes; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
IV – decisão de habilitação, se for o caso; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
V – facultativamente, outras peças processuais que o exeqüente considere
necessárias. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A liquidação provisória é cabível até mesmo contra a Fazenda Pública, porque este
incidente não implica oneração ou invasão patrimonial de qualquer sorte: é a mera
quantificação do débito certificado na sentença.
A liquidação provisória, por óbvio, só terá efeitos se a decisão liquidada for
confirmada. Se o órgão ad quem alterar a decisão, é claro que a liquidação perderá o objeto,
porque o conteúdo da decisão liquidada será outro.

1.2. Princípio da fidelidade ao título

Também chamado de princípio da correlação entre a liquidação e a sentença,


significa que a liquidação deve se ater exclusivamente ao conteúdo da sentença, norteando-
se unicamente pelos critérios ali traçados. Não cabe às partes, na liquidação, rediscutir o
mérito da causa, pois não pode a liquidação funcionar como um sucedâneo recursal.
O artigo 475-G do CPC sedia este princípio:

“Art. 475-G. É defeso, na liquidação, discutir de novo a lide ou modificar a


sentença que a julgou. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Araken de Assis defende que não contraria a sentença a inclusão de juros e correção
monetária ali não previstos, em fase de liquidação. Não é uma ofensa a este princípio da
correlação o cômputo de juros e correção monetária que não foram trazidos expressamente
na sentença. A respeito, veja a súmula 254 do STF:

“Súmula 254, STF: Incluem-se os juros moratórios na liquidação, embora omisso o


pedido inicial ou a condenação.”

1.3. Princípio da fungibilidade das formas de liquidação

Michell Nunes Midlej Maron 53


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Este princípio decorre de uma construção jurisprudencial, que passa pela súmula
344 do STJ:

“Súmula 344, STJ: A liquidação por forma diversa da estabelecida na sentença não
ofende a coisa julgada.”

Como se verá, há duas formas de liquidação possíveis, a por arbitramento e a por


artigos. O que se entende é que, ainda que a sentença aponte uma das formas para que se dê
a liquidação, a outra poderá ser adotada, caso o juiz da liquidação perceba que é mais
adequada do que a apontada.
O que fundamenta esta fungibilidade é o entendimento de que a correção ma
modalidade de liquidação é uma questão de ordem pública, na medida que se trata de direta
observância ao devido processo legal, pois casos há em que uma modalidade não serve para
liquidar com presteza a sentença, somente sendo devido o processo legal se perseguida a
outra modalidade.

1.4. Liquidação de valor zero, ou frustrada

Uma vez que a sentença condenatória tenha previsto condenação genérica, e


determinado a liquidação, pode acontecer que, na apuração do quantum, se perceba que
simplesmente não há valor naquela condenação. Como exemplo, pode uma condenação a
arcar com todo o tratamento médico (genérica, portanto), ao ser liquidada, culminar em
valor zero a ser indenizado, pela simples razão de que não existiram despesas médicas, no
caso. Esta liquidação, portanto, será tida por frustrada.
O reconhecimento de que exista a liquidação de valor zero é praticamente uníssono,
mas Fredie Didier entende que é inadmissível esta situação, porque reputa que se trata de
uma falta de zelo do juiz sentenciante, que poderia ter percebido a falta de repercussão
patrimonial da condenação. Na prática, porém, acontece esta situação corriqueiramente,
quando então a orientação é que a liquidação seja julgada improcedente (sem alteração na
sentença, por óbvio).

1.5. Liquidação por arbitramento

O artigo 475-C do CPC trata desta modalidade de liquidação:

“Art. 475-C. Far-se-á a liquidação por arbitramento quando: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
I – determinado pela sentença ou convencionado pelas partes; (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
II – o exigir a natureza do objeto da liquidação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)”

Michell Nunes Midlej Maron 54


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A liquidação por arbitramento, de fato, nada mais é do que uma perícia. Sempre que
os danos apurados em um processo precisarem de aferição por um técnico, será caso de
liquidação por arbitramento.
A respeito, veja o REsp. 489.195:
“REsp 489195 / RJ. DJ 19/11/2007 p. 230. CIVIL E PROCESSUAL. AÇÃO DE
INDENIZAÇÃO. COLISÃO DE VEÍCULOS. PARALISAÇÃO DE
AUTOMÓVEL DE AUTO-ESCOLA. LUCROS CESSANTES. OMISSÃO NÃO
CONFIGURADA. PREJUÍZO EXISTENTE. APURAÇÃO EM LIQUIDAÇÃO
DE SENTENÇA.
I. Não padece de nulidade acórdão que enfrenta as questões suscitadas, apenas que
de modo adverso à pretensão da parte.
II. Configurados o dano e os lucros cessantes pela paralisação de veículo de auto-
escola necessário ao desenvolvimento das atividades da autora, cabível a sua
condenação, cujo montante, todavia, deve ser apurado em liquidação de sentença,
considerando-se, notadamente, o volume médio de aulas ministradas pela empresa
e o valor das mesmas, porém com a dedução obrigatória das despesas operacionais,
não consignadas na documentação unilateralmente apresentada, que se rejeita.
III. Recurso especial conhecido em parte e parcialmente provido.”

Neste julgado, o STJ entendeu que é cabível a liquidação por arbitramento para a
apuração de lucros cessantes, o que nada mais é do que uma perícia contábil.
O inciso I do artigo supra prevê que as partes possam optar pela liquidação por
arbitramento, ou que a sentença assim o determine. O inciso II, porém, trata de hipótese em
que esta modalidade de liquidação é imperiosa, por conta da peculiaridade do objeto
liquidando.
O procedimento da liquidação por arbitramento vem no artigo subseqüente, 475-D
do CPC, e é bastante auto-explicativo:

“Art. 475-D. Requerida a liquidação por arbitramento, o juiz nomeará o perito e


fixará o prazo para a entrega do laudo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
Parágrafo único. Apresentado o laudo, sobre o qual poderão as partes manifestar-se
no prazo de dez dias, o juiz proferirá decisão ou designará, se necessário,
audiência. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

1.6. Liquidação por artigos

Os artigos 475-E e 475-F do CPC tratam desta modalidade de liquidação:

“Art. 475-E. Far-se-á a liquidação por artigos, quando, para determinar o valor da
condenação, houver necessidade de alegar e provar fato novo. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)”

“Art. 475-F. Na liquidação por artigos, observar-se-á, no que couber, o


procedimento comum (art. 272). (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A liquidação por artigos é aquela que tem por escopo a comprovação de fatos
novos, relevantes ao quantum condenatório. Fato novo não é necessariamente aquele que
ocorreu após a prolação da sentença liquidanda. O marco temporal para identificar se o fato
é novo é o momento em que este foi levado ao conhecimento do juiz: a partir do momento
em que o juiz remete a apuração de determinados fatos à liquidação de sentença, resta claro

Michell Nunes Midlej Maron 55


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

que estes fatos só serão comprovados neste segundo momento, na liquidação de sentença. A
isto se denomina liquidação por artigos.
Como se pode perceber, a liquidação por artigos envolve extenso rito instrutório,
porque ali serão comprovados fatos que pela primeira vez vêm ao processo. Sendo assim, o
artigo 475-F indica que o rito para esta dilação probatória será o comum, ordinário, se
assim o foi a fase e conhecimento do processo, ou sumário, se a fase cognitiva foi sumária.
Se a fase inicial do processo foi em procedimento especial, a doutrina recomenda-se que
sejam observados quais são os elementos a que se aterá a liquidação, e dali fazer o
enquadramento do rito liquidatório em ordinário ou sumário.

1.7. Meros cálculos aritméticos

Pode acontecer de uma sentença ser aparentemente ilíquida, porque não se pode
verificar prontamente o valor de tal condenação, mas na verdade ser líquida, demandando
apenas a realização de cálculos aritméticos para se extrair o valor exato. O artigo 475-B do
CPC é relevante:

“Art. 475-B. Quando a determinação do valor da condenação depender apenas de


cálculo aritmético, o credor requererá o cumprimento da sentença, na forma do art.
475-J desta Lei, instruindo o pedido com a memória discriminada e atualizada do
cálculo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Quando a elaboração da memória do cálculo depender de dados existentes em
poder do devedor ou de terceiro, o juiz, a requerimento do credor, poderá requisitá-
los, fixando prazo de até trinta dias para o cumprimento da diligência. (Incluído
pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Se os dados não forem, injustificadamente, apresentados pelo devedor,
reputar-se-ão corretos os cálculos apresentados pelo credor, e, se não o forem pelo
terceiro, configurar-se-á a situação prevista no art. 362. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
§ 3º Poderá o juiz valer-se do contador do juízo, quando a memória apresentada
pelo credor aparentemente exceder os limites da decisão exeqüenda e, ainda, nos
casos de assistência judiciária. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 4º Se o credor não concordar com os cálculos feitos nos termos do § 3o deste
artigo, far-se-á a execução pelo valor originariamente pretendido, mas a penhora
terá por base o valor encontrado pelo contador. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)”

Baseada nesta redação, a doutrina e a jurisprudência asseveram que a realização de


meros cálculos aritméticos não se trata de uma forma de liquidação de sentença, mas sim de
um mero passo processual, cabendo ao exeqüente instaurar a fase de cumprimento de
sentença, instruindo a execução com a planilha de cálculos.
O § 3º do artigo supra identifica duas hipóteses em que haverá mais do que a mera
apresentação dos cálculos, fazendo-se necessária a remessa do processo ao contador
judicial. A primeira hipótese é quando o exeqüente for beneficiário da gratuidade de justiça,
pois o legislador presumiu que a realização dos cálculos pelo hipossuficiente poderia ser-
lhe ônus de difícil cumprimento. A segunda, quando o juiz supuser que haja excesso nos
cálculos apresentados pelo exeqüente.
Se o valor apurado pelo contador, nestes casos, for menor do que o apresentado pelo
exeqüente, este será ouvido, e se concordar com este valor a menor, a execução prosseguirá
neste novo cálculo. Se o exeqüente discordar, prosseguir-se-á na execução pelo valor maior,

Michell Nunes Midlej Maron 56


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

mas a penhora só poderá ser feita com base no valor menor, obtido pelo contador. Assim se
faz por questão de cautela, e se o executado não impugnar a execução, o valor maior será
identificado como correto, a partir de então.
O § 1º do artigo supra traz prazo para que os elementos em poder de terceiros ou do
próprio executado sejam apresentados, a fim de que se possa compor a planilha de cálculos.
Se o terceiro não apresentar os dados, pode ser decretada busca e apreensão, e pode ser
configurado o crime de desobediência. Se for o executado quem se nega a trazer os
elementos requisitados, o juiz tomará por verdadeiras as informações trazidas pelo
exeqüente.

1.8. Decisão de encerramento da liquidação

Por se tratar de apenas uma fase, um incidente no processo, a liquidação culmina em


uma decisão interlocutória. Esta decisão se somará à sentença liquidanda,
complementando-a. O artigo 475-H não menciona isto expressamente, mas deixa clara esta
natureza pelo recurso que faz atinente a esta decisão:

“Art. 475-H. Da decisão de liquidação caberá agravo de instrumento. (Incluído


pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Quanto ao conteúdo desta decisão, há três correntes a disputar-lhe a definição. A


primeira, majoritária – por todos, Dinamarco –, defende que se trata de decisão
eminentemente declaratória, porque se restringe a declarar o valor da condenação. A
segunda corrente, de Pontes de Miranda e Araken de Assis, defende que se trata de decisão
constitutiva, porque imprime liquidez à sentença que não detinha tal atributo – pelo que
está integrando, adicionando à condenação algo que nela não existia. Terceira corrente, de
Frederico Marques, defende que se trata de decisão condenatória, porque se une à sentença
liquidanda para ser executada, e toda decisão que tem como desdobramento a fase de
cumprimento tem cunho preponderantemente condenatório.
Cabendo o agravo de instrumento, sequer é preciso que haja a prova da urgência,
que se exige, ordinariamente, na configuração do agravo por instrumento, ao invés do
retido. O próprio legislador já se encarregou de ressalvar, expressamente, o cabimento da
modalidade instrumentária do agravo.
O TJ/RJ vem recebendo, por fungibilidade, a apelação que é interposta contra esta
decisão da liquidação, como se agravo de instrumento fosse – sendo imprescindíveis as
cópias, porém. Isto porque, antes desta reforma, tal decisão era tida por sentença,
desafiando apelação. Em breve, entretanto, esta dinâmica deve se alterar, passando a ser
considerado erro grosseiro de interposição.
Não há ônus sucumbenciais na liquidação de sentença, de qualquer modalidade.
Isoladamente, Araken de Assis defende haver tais ônus, sem que haja qualquer adesão
jurisprudencial a sua tese.

1.9. Liquidação da sentença penal condenatória e da sentença arbitral

O já transcrito artigo 475-N, II, do CPC, dispõe que a sentença penal condenatória é
título executivo judicial, a ser executado no cível. O juiz criminal, é claro, não se imiscui
em discussões de valores da condenação ilíquida que proferir, sendo necessária a liquidação

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EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

desta sentença no cível, em regra. É claro que, se for fixado um valor mínimo indenizatório
na sentença criminal, como hoje se permite, não será preciso liquidar-se este título, eis que
o valor não é genérico.
Como já se adiantou, a liquidação desta sentença é feita em um novo processo, e
não em um incidente processual (pelo que se fala, como se vê no dispositivo em comento,
em citação para a liquidação). O rito, porém, é o mesmo das modalidades previstas, por
arbitramento ou por artigos.
A sentença arbitral segue a mesma dinâmica: se o juízo arbitral não fixar valor, a
liquidação será feita na modalidade necessária, por meio de processo autônomo no juízo
cível, prévio à execução.

1.10. Liquidação particular em processos coletivos

O artigo 98 do CDC dispõe que a sentença de processo coletivo que previr


condenação genérica gera legitimidade aos indivíduos que sob sua tutela se enquadrarem
para a execução individual, precedida da necessária liquidação de seus danos:

“Art. 98. A execução poderá ser coletiva, sendo promovida pelos legitimados de
que trata o art. 82, abrangendo as vítimas cujas indenizações já tiveram sido
fixadas em sentença de liquidação, sem prejuízo do ajuizamento de outras
execuções. (Redação dada pela Lei nº 9.008, de 21.3.1995)
§ 1° A execução coletiva far-se-á com base em certidão das sentenças de
liquidação, da qual deverá constar a ocorrência ou não do trânsito em julgado.
§ 2° É competente para a execução o juízo:
I - da liquidação da sentença ou da ação condenatória, no caso de execução
individual;
II - da ação condenatória, quando coletiva a execução.”

Assim, o indivíduo tem o ônus de comprovar seu enquadramento, e a extensão de


seu direito, sendo provável a necessidade de liquidação por artigos, eis que serão fatos
novos apresentados ao juízo.
Veja que a liquidação, neste caso, tem dois momentos: um, para a prova de que o
indivíduo é de fato titular do direito que postula, ou seja, que se enquadra no alcance da
sentença coletiva; e outro, para a prova do valor da indenização a que faz jus, liquidando
propriamente o seu direito.
O TJ/RJ entende que a liquidação, neste caso, pode ser instaurada no juízo prolator,
no local onde se situam os bens a serem alvejados, ou no foro do domicílio da vítima, do
indivíduo liquidante.
O artigo 100 do CDC traz uma última previsão importante:

“Art. 100. Decorrido o prazo de um ano sem habilitação de interessados em


número compatível com a gravidade do dano, poderão os legitimados do art. 82
promover a liquidação e execução da indenização devida.
Parágrafo único. O produto da indenização devida reverterá para o fundo criado
pela Lei n.° 7.347, de 24 de julho de 1985.”

Destarte, se os titulares individuais não promoverem a execução, neste prazo, os


legitimados coletivos para a ações coletivas terão legitimação também para a execução
coletiva, passando pela liquidação coletiva.

Michell Nunes Midlej Maron 58


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Em qualquer destes casos, será realizada a liquidação em processo autônomo,


demandando citação do futuro executado.

Casos Concretos

Questão 1

Tendo sido proferida sentença condenatória ilíquida, foi interposto recurso de


apelação, recebido no duplo efeito. Considerando não ser cabível a execução provisória
da sentença, em razão do disposto no art. 475-I, § 1° CPC, seria cabível a liquidação
daquela sentença enquanto não apreciado o recurso pelo tribunal?

Resposta à Questão 1

Sim: o procedimento de liquidação não precisa ficar interrompido pelo julgamento


do recurso, mesmo estando presente o efeito suspensivo. O § 2º do dispositivo invocado,
475-I do CPC, é bem claro em permitir esta condução provisória da liquidação.

Questão 2

Requerida a liquidação por arbitramento, o magistrado nomeou o perito e fixou o


prazo de trinta dias para a entrega do laudo. Transcorridos três dias da data da nomeação
do perito, as partes, com fundamento no art. 421 § 1°do CPC, indicam assistentes técnicos
e apresentam quesitos a serem formulados ao perito. O magistrado indefere, tanto as
indicações quanto os quesitos formulados. Pergunta-se: é cabível, no procedimento de
liquidação por arbitramento, a indicação de assistentes técnicos e a formulação de
quesitos pelas partes?

Resposta à Questão 2

Michell Nunes Midlej Maron 59


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Sim, é possível, para a maior doutrina e jurisprudência. Por ser a liquidação por
arbitramento uma perícia, podem-se aplicar os dispositivos que regulam a produção da
perícia. O TJ/RJ permite a quesitação da liquidação por arbitramento, tendo julgados
emblemáticos sobre o tema. Veja, por exemplo, o Agravo de Instrumento 2006.002.23587:

“Processo 2006.002.23587 AGRAVO DE INSTRUMENTO. DES. GALDINO


SIQUEIRA NETTO - Julgamento: 09/10/2007 - DECIMA QUINTA CAMARA
CIVEL
Agravos de Instrumento. Três recursos apensados e julgados em conjunto. Ação de
Repetição de Indébito em fase de execução. Expurgo das contas de consumo de
energia elétrica os valores ilegalmente cobrados com base na Portaria 45/86.
Liquidação por arbitramento. Nomeação de perito. Quesitos apresentados pela
parte exeqüente, considerados intempestivos. Retratação. Nova decisão afirmando
que não há que se falar em quesitação, de nenhuma das partes. O próprio perito
pugna pela apresentação de quesitos. Interesse de ambas as partes. Inexistência de
impedimento legal, conforme art. 475-D, do Código de Processo Civil. Reforma da
decisão para possibilitar às partes formularem quesitos. Observância do princípio
segundo o qual a sentença deverá ser executada fielmente, sem ampliação ou
restrição do que nela estiver disposto. Provimento dos dois Agravos de Instrumento
manifestados pelas duas partes, que tratam da possibilidade de formulação de
quesitos. Prejudicado o Agravo de Instrumento que trata da tempestividade da
quesitação da parte autora, diante da retratação ocorrida.”
Tema VI

Procedimento para o cumprimento da sentença em casos de obrigação pecuniária e a defesa do devedor.


Instauração e processamento. Requerimento para início e seu prazo. Incidência ou não de novos honorários
e custas. A multa de 10% prevista no art. 475-J: momento de exigibilidade e dispensa ou não de intimação da
parte ou do advogado. Inviabilidade do arresto (art. 653, CPC). Necessidade ou não de penhora para
garantia do juízo.

Notas de Aula10

1. Considerações gerais sobre o cumprimento de sentença

De início, cumpre afastar uma controvérsia prática que surgiu sobre este momento
processual, após a reforma: são devidos novos honorários advocatícios na fase de
cumprimento de sentença, sem qualquer dúvida, como já pacificou o STJ. Inclusive, aplica-
se aqui a fixação dos honorários já na intimação para cumprimento da sentença, na forma
do artigo 652-A do CPC, pela norma de reenvio do artigo 475-R do mesmo diploma:

“Art. 475-R. Aplicam-se subsidiariamente ao cumprimento da sentença, no que


couber, as normas que regem o processo de execução de título extrajudicial.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

“Art. 652-A. Ao despachar a inicial, o juiz fixará, de plano, os honorários de


advogado a serem pagos pelo executado (art. 20, § 4o). (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
Parágrafo único. No caso de integral pagamento no prazo de 3 (três) dias, a verba
honorária será reduzida pela metade. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

10
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 18/9/2009.

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Há uma discussão se, neste ato de intimação, já deve vir consignada a multa de dez
por cento do artigo 475-J do CPC, já abordado. Vale rever o artigo, porém:

“Art. 475-J. Caso o devedor, condenado ao pagamento de quantia certa ou já


fixada em liquidação, não o efetue no prazo de quinze dias, o montante da
condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento e, a
requerimento do credor e observado o disposto no art. 614, inciso II, desta Lei,
expedir-se-á mandado de penhora e avaliação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
§ 1º Do auto de penhora e de avaliação será de imediato intimado o executado, na
pessoa de seu advogado (arts. 236 e 237), ou, na falta deste, o seu representante
legal, ou pessoalmente, por mandado ou pelo correio, podendo oferecer
impugnação, querendo, no prazo de quinze dias. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
§ 2° Caso o oficial de justiça não possa proceder à avaliação, por depender de
conhecimentos especializados, o juiz, de imediato, nomeará avaliador, assinando-
lhe breve prazo para a entrega do laudo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 3° O exeqüente poderá, em seu requerimento, indicar desde logo os bens a serem
penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 4° Efetuado o pagamento parcial no prazo previsto no caput deste artigo, a multa
de dez por cento incidirá sobre o restante. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 5° Não sendo requerida a execução no prazo de seis meses, o juiz mandará
arquivar os autos, sem prejuízo de seu desarquivamento a pedido da parte.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A primeira controvérsia a respeito desta multa é quanto à sua natureza jurídica e sua
finalidade: a primeira corrente entende se tratar de sanção de direito material, pelo
descumprimento da sentença – algo como uma cláusula penal fixada por lei. Segundo esta
corrente, a multa será sempre devida, objetivamente, sendo constatado o descumprimento.
Deste lado está José Miguel Medina. É corrente um tanto severa, quiçá injusta, pois se o
devedor simplesmente não tem como pagar a dívida: a sanção objetiva pune a
impossibilidade de pagamento, e não a intenção de não pagar. Da mesma forma ocorre se o
devedor, desejoso em pagar, simplesmente não tem tempo hábil para alienar seu patrimônio
e amealhar os fundos necessários.
Segunda corrente defende a natureza de meio de coerção, mera sanção processual,
para estimular o cumprimento da obrigação – caso em que se assemelharia muito às
astreintes. Sendo assim, tendo esta natureza, poderia ser afastada a multa, quando o juiz
entendesse incabível, como qualquer meio de coerção o pode. Parece tese mais razoável,
mas comporta uma crítica: o meio de coerção, em regra, não pode ter a mesma natureza da
obrigação que está sendo descumprida, especialmente porque o meio de coerção deve ser
eficiente: se o devedor não paga dívida pecuniária, igualmente não pagará esta dívida
majorada por sanção coercitiva. Seria, então, mais correta a imposição de uma medida de
subrogação, como a penhora. Neste sentido, a multa pareceria mais punitiva do que
coercitiva, como dispõe a primeira corrente, mas a jurisprudência tem ignorado esta crítica,
fixando astreintes em obrigações pecuniárias, por exemplo, sem restrições – e a multa do
artigo 475-J do CPC pode ser, mesmo, medida processual de coerção. A divergência
persiste.
Se o devedor fizer o depósito do valor, dentro do prazo, mas deixando clara a sua
intenção em impugnar, o depósito deverá conter a multa de dez por cento? Alexandre
Câmara entende que sim: a mens do dispositivo é o pagamento findando a execução,

Michell Nunes Midlej Maron 61


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terminando a discussão. Se o devedor pretende impugnar, deve consignar também o valor


da multa.
A contagem deste prazo de quinze dias gera controvérsias. A intimação,
determinada pela lei, deve ser pessoal à parte ou basta que seja intimado o advogado? O
TJ/RJ pretendeu, inicialmente, que a intimação fosse realizada pessoalmente, tanto que
levou esta matéria à decisão em incidente de uniformização de jurisprudência, e, mesmo
não tendo quorum necessário para ser editada súmula, o entendimento que prevaleceu foi
de que a intimação deve ser pessoal da parte. Atualmente, porém, há jurisprudência nesta
Corte dizendo que a intimação que se faz necessária é apenas do advogado.
A divergência reside no escopo da intimação: o advogado tem poderes processuais
diversos, mas a intimação da sentença é para o cumprimento de uma obrigação material, o
que só incumbe à própria parte. Este é o argumento de quem defende a intimação pessoal.
Se por um lado favorece a segurança do executado, pelo outro gera morosidade muito
maior nesta diligência, prejudicando o exequente.
A intimação na pessoa do advogado, defendida por Athos Gusmão Carneiro, não vê
qualquer insegurança na intimação do cliente na pessoa do advogado, pelo que seria a
regra.
O STJ, por seu turno, tem julgados em que dispensa qualquer intimação: basta
apenas o trânsito em julgado da decisão para que dali conte o prazo de quinze dias. Mesmo
assim, o TJ/RJ tem determinado a intimação do advogado.
Se for adotada a posição do STJ, é forçoso concluir que a multa somente será devida
em caso de execução definitiva: se só pode incidir após o trânsito em julgado, somente na
execução definitiva haverá multa. Segundo as outras correntes, a execução provisória da
multa seria possível, mas Fredie Didier entende que não é possível, ainda assim, porque não
se teria certeza de que é devida. Leonardo Greco discorda, dizendo que se até mesmo a
própria obrigação pode sofrer execução provisória, que dirá a multa.
A título de curiosidade, as mesmas discussões sobre esta multa se repetem nas
astreintes: tanto sobre quem deve ser intimado, quanto à execução provisória, a discussão é
similar. Estranhamente, na execução das astreintes, o STJ defende a intimação pessoal da
parte, sendo que esta Corte, como visto, defende não ser necessária qualquer intimação para
a incidência da multa.
A execução imediata das astreintes, inclusive, seria possível, mesmo havendo defesa
severa contra esta possibilidade, capitaneada por Ada Pellegrini e Dinamarco, que apregoa
que somente após o trânsito em julgado serão exigíveis. Contudo, vedar que sejam
executadas imediatamente é retirar grande parte da coercitividade deste meio.
Ainda em se admitindo a execução imediata das astreintes, há outra controvérsia:
esta execução é definitiva ou provisória? Para Teori Albino Zavascki, é definitiva, porque o
fato gerador não é a existência da obrigação ou não, e sim o descumprimento da decisão
judicial que a impôs (parecendo confundir um pouco as astreintes com o contempt of court,
sanção dedicada a punir descumprimento de decisões). Destarte, a corrente que entende que
a execução imediata das astreintes é provisória parece ser mais coerente.
Pelo ensejo, é cediço que o juiz pode alterar o valor das astreintes, a seu critério de
razoabilidade. Se o fizer, Alexandre Câmara defende que a redução incide
prospectivamente, não retroagindo às parcelas ocorridas anteriores – o valor das astreintes
passadas já está incorporado ao patrimônio do credor. Marinoni entende que a redução pode
retroagir, porque o meio de coerção deve ser eficiente, mas não abusivo; de fato, entende

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EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

este autor, o juiz deveria inclusive modificar o meio de coerção, e não apenas reduzi-lo, em
casos em que a multa diária se faz ineficaz. As astreintes ineficazes se desvirtuam, se
tornando meio de enriquecimento indevido do credor, mais do que meio de coerção contra
o devedor.
Ultrapassadas estas questões, o próximo passo, após a fixação dos honorários
advocatícios, há quem diga que se aplica o artigo 617 do CPC: deferido o cumprimento da
sentença, tal como deferido o processamento da execução autônoma, a prescrição é
interrompida.

“Art. 617. A propositura da execução, deferida pelo juiz, interrompe a prescrição,


mas a citação do devedor deve ser feita com observância do disposto no art. 219.”

Fux defende que o processo é sincrético, mas duas são as ações, uma na cognição, e
uma na fase satisfativa. Por isso, seria aplicável o artigo 617, supra. Para quem entende que
a ação é uma só, tendo sido iniciada na inicial da fase cognitiva, não há nova interrupção da
prescrição – só se interrompe no deferimento da inicial cognitiva. O executado não é citado,
e sim intimado para pagamento ou penhora.
O oficial de justiça fará a penhora e a avaliação. Se não tiver conhecimento técnico
para avaliar, o § 2° do já visto artigo 475-J do CPC determina que será nomeado avaliador
somente para esta tarefa.
O prazo para a impugnação começa na intimação da penhora, como diz o artigo
475-J, § 1°, do CPC. Não se pode entender, com isso, que a penhora seja exigência para que
seja possível a impugnação: a impugnação independe da garantia do juízo, esta se prestando
apenas para a obtenção de efeitos suspensivos na impugnação. A penhora é condição para
concessão de efeito suspensivo à impugnação; sem penhora, a impugnação é admitida, mas
o cumprimento terá seu curso ininterrupto. Assim entendem Alexandre Câmara e Fredie
Didier. É o mesmo raciocínio dos embargos à execução de título executivo extrajudicial.
Mas se a penhora não é condição de procedibilidade, quando terá início o prazo para
a impugnação? Tem-se entendido, ao arrepio da lei, que é necessária a intimação para
pagamento, penhora ou impugnação em quinze dias. Se os autos não estiverem em primeira
instância, a intimação será de quando estiverem disponíveis, retornados de eventual
recurso, por exemplo.
Sobre o termo a quo para impugnar, de acordo com Didier, é possível, e
recomendável, o oferecimento da impugnação sem a necessidade de prévia penhora, que
permanece importante apenas para conferir o efeito suspensivo à execução.
Para ele, o que a regra do artigo 475-J estabeleceu foi um limite temporal máximo para o
oferecimento da impugnação, valendo dizer que esta pode ser apresentada até quinze dias
da intimação da penhora. Mas como a penhora não é requisito essencial ao oferecimento da
impugnação, esta pode ser oferecida antes mesmo da penhora, a qualquer tempo, desde a
intimação da sentença. Daniel Amorim Assumpção Neves, citado por Didier, fala que o
prazo indicado na lei é o prazo máximo, ou seja, após esse prazo ocorre a preclusão
temporal, mas nada impede que o demandado ingresse com a impugnação a qualquer
momento, antes mesmo da constrição judicial. Ainda segundo Daniel Assumpção:

“E nem se alegue que, antes de intimado da penhora, o prazo não terá sido
iniciado, o que vetaria a prática do ato processual, considerando-se que essa tese já
foi amplamente rejeitada pela melhor doutrina.”.

Michell Nunes Midlej Maron 63


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A corrente majoritária, porém, entende que a penhora ainda é um pressuposto de


admissibilidade da impugnação, e por isso é dali que conta o prazo de quinze dias para
impugnar, por óbvio. Veja abaixo os julgados abaixo:
“2009.002.27601 - AGRAVO DE INSTRUMENTO DES. PAULO MAURICIO
PEREIRA - Julgamento: 11/08/2009 - QUARTA CAMARA CIVEL
1) Cumprimento de sentença. Impugnação. Exigência de prévia garantia do juízo. -
2) O § 1º do art. 475-J, do CPC, é bastante claro no sentido de erigir a requisito
essencial para a admissibilidade da impugnação a prévia penhora e avaliação. –
3) Se o legislador quisesse afastar tal requisito o teria feito, como fez no caso da
execução por título extrajudicial. Art. 736, CPC. 4) Se uma das matérias sobre as
quais pode versar a impugnação é a penhora incorreta ou avaliação errônea (art.
475-L, III, do CPC), lógico que ela tem que preexistir.
5) Precedentes jurisprudenciais. Decisão mantida. Recurso desprovido.”

“2008.002.36494 - AGRAVO DE INSTRUMENTO. JDS. DES. CRISTINA


SERRA FEIJO - Julgamento: 06/05/2009 - VIGESIMA CAMARA CIVEL
Processual Civil. Agravo de Instrumento. Cumprimento de Sentença. Intimação
para cumprimento voluntário. Penhora de quantia inferior ao débito exequendo.
Possibilidade de levantamento. Na nova disciplina processual, o oferecimento de
impugnação não depende da prévia garantia do juízo, nem tem efeito suspensivo
ope legis. Recurso a que se dá provimento.”

“2008.002.30462 - AGRAVO DE INSTRUMENTO JDS. DES. ANTONIO


ILOIZIO BARROS BASTOS - Julgamento: 27/01/2009 - DECIMA SEGUNDA
CAMARA CIVEL
Agravo de instrumento. Cumprimento de sentença. A impugnação prevista no art.
475-J, § 1º, do CPC, necessita de prévia garantia do Juízo. Contudo, o impugnante
não foi parte no processo do conhecimento e, apenas em razão da desconsideração
da personalidade jurídica da empresa devedora, figura no cumprimento de
sentença. Impugnação que tem as feições de embargos à execução, para o qual hoje
já não há necessidade de garantia do Juízo. Aliás, a peça processual apresentada
pelo agravado foi corretamente rotulada como "embargos à execução", tendo o
Juízo "a quo", de ofício, a recebido como impugnação. Diante dessas
circunstâncias, é de ser afastada a exigência de penhora ou depósito para o
oferecimento da defesa do devedor. Agravo improvido.”

“2008.002.32359 - AGRAVO DE INSTRUMENTO DES. CARLOS SANTOS DE


OLIVEIRA - Julgamento: 08/10/2008 - NONA CAMARA CIVEL
AGRAVO DE INSTRUMENTO. REJEIÇÃO À IMPUGNAÇÃO AO
CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. AUSÊNCIA DE SEGURANÇA DO JUÍZO.
NECESSIDADE DE PRÉVIA EXISTÊNCIA DE PENHORA PARA
RECEBIMENTO DA IMPUGNAÇÃO. MANUTENÇÃO DA DECISÃO.1 - É
requisito para o recebimento da impugnação ao cumprimento de sentença a
segurança do juízo, exigência esta que já se fazia presente à época da interposição
de embargos à execução. Com efeito, esta conclusão deriva expressamente do art.
475-J, § 1º do Código de Processo Civil, uma vez mencionado naquele dispositivo
que o prazo para interposição de impugnação ao cumprimento de sentença somente
começa após a intimação da penhora.2- Matéria relativa à prescrição que pode ser
conhecida de ofício, com o advento da Lei 11.280/2006. Ausência de elementos
nos autos que permitam concluir pela prescrição a pretensão autoral. Não há,
ainda, comprovação de que a penhora recairá sobre bem de família, a obstar a
constrição.3- Decisão do juízo singular que determina a apresentação de
documentos para deferimento da gratuidade de justiça. Ausência de conteúdo

Michell Nunes Midlej Maron 64


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

decisório, a impedir o conhecimento da matéria, sob pena de supressão de instância


DECISÃO MONOCRÁTICA. DESPROVIMENTO DO RECURSO.”

“2008.002.32785 - AGRAVO DE INSTRUMENTO DES. CARLOS EDUARDO


PASSOS - Julgamento: 08/10/2008 - SEGUNDA CAMARA CIVEL
CUMPRIMENTO DA SENTENÇA. Penhora. Avaliação. Formalidade
indispensável. Matéria dedutível em sede de objeção de pré-executividade.
Impugnação aos cálculos executórios. Questão a ser suscitada na impugnação por
depender de dilação probatória. Recurso parcialmente provido para condicionar a
intimação para a impugnação à prévia avaliação do bem penhorado.”

“2009.002.18865 - AGRAVO DE INSTRUMENTO. DES. REINALDO P.


ALBERTO FILHO - Julgamento: 19/05/2009 - QUARTA CAMARA CIVEL
E M E N T A: Agravo de Instrumento. Impugnação ao cumprimento do julgado. R.
Decisão hostilizada que rejeitou liminarmente, por ausência de garantia do Juízo.
Devedora indicou bem a penhora, na própria petição de interposição, bem como
efetuou voluntariamente o depósito do valor que entende incontroverso, no
concernente a condenação que lhe foi imposta. Apresentação da aludida peça
processual que está condicionada a garantia do juízo. Princípio da
Instrumentalidade do Processo. Exame de admissibilidade da impugnação que
poderia ser postergado, determinando a prévia penhora do bem nomeado e, caso
necessário, a complementação da garantia. Manutenção do R. Julgado ora
Vergastado que causaria ao Agravante evidente prejuízo. Precedentes deste
Colendo Sodalício, como transcritos na fundamentação. Nulidade evidenciada. R.
Decisão impugnada que se revoga. Entendimentos reiterados e sucessivos, o que
autoriza a aplicação do § 1º- A do art. 557 do C.P.C. que se mostra possível,
atendidos aos requisitos legais. Provimento.” (grifo nosso)

Aplica-se o dispositivo especial de dilatação dos prazos previsto no artigo 191 do


CPC, ao prazo para a impugnação, para Alexandre Câmara:

“Art. 191. Quando os litisconsortes tiverem diferentes procuradores, ser-lhes-ão


contados em dobro os prazos para contestar, para recorrer e, de modo geral, para
falar nos autos.”

Araken de Assis entende que não é cabível esta duplicação, mas prevalece o
entendimento de Câmara.

Michell Nunes Midlej Maron 65


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Casos Concretos

Questão 1

A multa de 10% mencionada no art. 475-J deve ser revertida ao autor ou a


Fazenda Pública? Qual o seu termo inicial? A intimação para cumprimento da obrigação
deve ser realizada pessoalmente ao devedor ou bastaria a intimação do seu advogado
constituído nos autos? Esta multa ainda se justifica no caso do devedor que,
comprovadamente, não dispõe de patrimônio para pagar os seus débitos?

Resposta à Questão 1

Esta multa reverte para o autor. Seu termo inicial, para o STJ, é do dia do trânsito
em julgado da decisão. Quanto à intimação, há duas correntes: Câmara entende que deve
haver intimação pessoal; Atos Gusmão Carneiro entende que basta a intimação do
advogado.
Quanto à objetividade da multa, para quem a entende uma sanção de direito
material, ainda é devida, mesmo quando o devedor não cumpre a sentença porque não tem
recursos; para quem defende que é meio de coerção, pode ser revista pelo magistrado.
Veja o REsp. 954.859:

“REsp 954859 / RS. DJ 27/08/2007 p. 252.


LEI 11.232/2005. ARTIGO 475-J, CPC. CUMPRIMENTO DA SENTENÇA.
MULTA. TERMO INICIAL. INTIMAÇÃO DA PARTE VENCIDA.
DESNECESSIDADE.
1. A intimação da sentença que condena ao pagamento de quantia certa consuma-se
mediante publicação, pelos meios ordinários, a fim de que tenha início o prazo
recursal. Desnecessária a intimação pessoal do devedor.
2. Transitada em julgado a sentença condenatória, não é necessário que a parte
vencida, pessoalmente ou por seu advogado, seja intimada para cumpri-la.
3. Cabe ao vencido cumprir espontaneamente a obrigação, em quinze dias, sob
pena de ver sua dívida automaticamente acrescida de 10%.”

Michell Nunes Midlej Maron 66


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Questão 2

Sandro Vil, desejando cobrar uma dívida escorada em um cheque prescrito, ajuizou
uma ação monitória em face de Hamilton Formoso, no dia 22/01/08. Regularmente citado,
o réu deixou transcorrer o prazo legal sem interpor embargos monitórios, pelo que o juiz
proferiu sentença para condená-lo ao pagamento de R$ 20.000,00 e aos consectários da
sucumbência. A decisão transitou em julgado em 01/04/08, diante da não apresentação de
recurso. Na data de 17/04/08, Sandro protocolou petição perante o juízo que decidiu a
causa em primeiro grau de jurisdição, requerendo a execução do título judicial, com a
expedição do mandado de penhora e avaliação. Outrossim, neste momento, foi procedida a
juntada aos autos, pelo agora exeqüente, da planilha atualizada do débito, acrescendo
uma multa de 10% pela desídia do devedor (art. 475-J do CPC), além de um novo
arbitramento de verba honorária, distinto daquele oportunamente determinado pela
sentença, de forma referencial, no presente, para a fase de cumprimento da sentença. Fato
posterior, já efetivada a penhora e avaliação de bens pelo meirinho, Hamilton,
devidamente intimado, apresentou tempestiva impugnação, em 20/05/08, argüindo que não
fora intimado pessoalmente para cumprimento voluntário do julgado, seja pelo correio ou
por mandado, quiçá por seu advogado através de publicação no Diário Oficial. Sua defesa
sustenta-se, assim, na ocorrência de excesso de execução, pelo não cabimento in casu da
aplicação da respectiva multa, bem como diante do fato de que não seriam devidos novos
honorários advocatícios, uma vez que a Lei 11.232/05 acabou com a execução como
processo autônomo, transformando-a em simples etapa do processo de conhecimento, de
modo que, se não há novo processo, não há nova verba honorária. Ademais, anexou à peça
de defesa um comprovante de depósito judicial, em importe que cinge os termos do
dispositivo da sentença condenatória, conforme planilha também junta. Os autos foram
encaminhados a conclusão. Responda, motivadamente, como o juiz da causa deve decidir
a questão, dirimindo as controvérsias.

Resposta à Questão 2

É devida a nova verba honorária. A intimação pessoal, por seu turno, é questão
divergente, mas no TJ/RJ tem prevalecido que basta a intimação do advogado.
Veja o Agravo de Instrumento 2008.002.16705, do TJ/RJ:

“Processo : 2008.002.16705 AGRAVO DE INSTRUMENTO. DES. ELISABETE


FILIZZOLA - Julgamento: 23/06/2008 - SEGUNDA CAMARA CIVEL .
AGRAVO DE INSTRUMENTO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. LEI
11.232/05. PRAZO DE 15 DIAS PARA PAGAMENTO DO DÉBITO SOB PENA
DE MULTA DE 10% SOBRE O VALOR DA EXECUÇÃO (ART. 475-J, CPC).
TERMO INICIAL PARA A CONFIGURAÇÃO DA MORA. CONTROVÉRSIA.
EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL. DESNECESSIDADE DE INTIMAÇÃO
PESSOAL DO DEVEDOR. IMPOSSIBILIDADE, CONTUDO, DE SE
COMPUTAR A ALUDIDA MULTA DO SIMPLES TRÂNSITO EM JULGADO,
SENDO NECESSÁRIA, AO MENOS, A PRÉVIA INTIMAÇÃO DE SEU
ADVOGADO VIA D.O. PARA FINS DE CONFIGURAÇÃO DA MORA.
POSICIONAMENTO MAJORITÁRIO DESTE E. TJ/RJ E JÁ PACIFICADO
NESTE COLEGIADO. FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS EM
FASE DE CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. POSSIBILIDADE.
INTERPRETAÇÃO SISTEMÁTICO-TELEOLÓGICA DOS ARTS. 475-R E 20,

Michell Nunes Midlej Maron 67


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§4º, DO CPC. HIPÓTESE, TODAVIA, EM QUE AINDA NÃO HOUVE,


EFETIVAMENTE, INÍCIO DE FASE DE CUMPRIMENTO FORÇADO DA
OBRIGAÇÃO, NÃO HAVENDO AZO PARA O ARBITRAMENTO DE NOVOS
HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.Versa a controvérsia recursal sobre o
cumprimento de sentença sob a égide dos artigos 475-J e seguintes, do Código de
Processo Civil, incluídos pela Lei 11.232/2005, notadamente quanto à incidência
da multa prevista pelo legislador em caso de não cumprimento espontâneo do
julgado, bem como quanto ao direito da credora, ora Agravante, de receber ou não
os respectivos honorários advocatícios concernentes à fase de cumprimento do
título judicial.A despeito da controvérsia doutrinário-jurisprudencial ainda
existente acerca do tema, certo é que a jurisprudência majoritária deste E. Tribunal
Estadual - e pacífica desta E. Câmara Cível - a referida multa e os novos
honorários somente devem incidir quando o devedor não cumprir espontaneamente
a obrigação no prazo de quinze dias estipulado pelo artigo 475-J, caput, do CPC, o
qual deve fluir após a sua devida intimação através de seu advogado, devendo ser
afastada apenas a exigência de intimação pessoal do devedor. Pretensão do
Agravante de obter a incidência da inquinada multa e dos novos honorários a
contar do simples trânsito em julgado que não merece acolhimento, tendo a
decisão da i. magistrada de primeiro grau se alinhado aos precedentes da
jurisprudência amplamente majoritária do TJ/RJ e já pacificada no âmbito desta E.
2ª Câmara Cível.RECURSO A QUE SE NEGA SEGUIMENTO, NA FORMA DO
ART. 557, CAPUT, DO CPC.”

Veja também o REsp. 1.050.435:


“REsp 1050435 / SP. DJe 20/06/2008.
PROCESSUAL CIVIL. FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS NA FASE DE
CUMPRIMENTO DA SENTENÇA. CABIMENTO. RECURSO ESPECIAL
PROVIDO.
Muito embora o capítulo do cumprimento de sentença seja omisso quanto à fixação
da verba honorária, a interpretação sistemática e teleológica da norma conduz ao
entendimento de que é cabível arbitramento de honorários.
Recurso especial provido.”

Michell Nunes Midlej Maron 68


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema VII

Procedimento para o cumprimento da sentença em casos de obrigação pecuniária e a defesa do devedor:


continuação. Impugnação e matérias (art. 475-L). Efeito suspensivo da impugnação (art. 475-M). Cognição
exercida na impugnação. Procedimento. Decisão da impugnação e recursos.

Notas de Aula11

1. Impugnação ao cumprimento de sentença

A impugnação, interponível em quinze dias, tem natureza jurídica de incidente


processual, com feições de resposta, para a maior parte da doutrina. Todavia, há quem
defenda que tem natureza jurídica de ação, ao espelho dos embargos à execução.
Luiz Fux é um que assim entende, o que traz reflexos peculiares. Veja um exemplo:
na fase executiva, a matéria deduzida em impugnação foi, por exemplo, vício na citação.
Em adição, se valeu o executado também, concomitantemente, de uma ação rescisória.
Neste caso, haverá litispendência, em se entendendo que a impugnação é ação, pela teoria
da identidade da relação jurídica.
Veja que Fux, e também Leonardo Greco, têm o conceito de ação bastante
ampliado, entendendo que qualquer exercício de provocação do Estado-juiz para definição
de alguma coisa, sobre matéria inovativa (defesa de mérito indireta, por exemplo), é
manifestação do direito de ação. Por isso é que a impugnação assume esta feição.
Prevalece, porém, para majoritaríssima doutrina, a natureza jurídica de incidente
processual defensivo.
Quanto à forma, a impugnação é feita em mera petição.
Quem, na impugnação, alega excesso de execução, deve declarar, por óbvio, o valor
que entende correto, e por que motivo.

“Art. 475-L. A impugnação somente poderá versar sobre: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)

11
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 18/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 69


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

I – falta ou nulidade da citação, se o processo correu à revelia; (Incluído pela Lei nº


11.232, de 2005)
II – inexigibilidade do título; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
III – penhora incorreta ou avaliação errônea; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
IV – ilegitimidade das partes; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
V – excesso de execução; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
VI – qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como
pagamento, novação, compensação, transação ou prescrição, desde que
superveniente à sentença. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo, considera-se também
inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo declarados
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou
interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como
incompatíveis com a Constituição Federal. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Quando o executado alegar que o exeqüente, em excesso de execução, pleiteia
quantia superior à resultante da sentença, cumprir-lhe-á declarar de imediato o
valor que entende correto, sob pena de rejeição liminar dessa impugnação.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A mesma lógica se segue nos embargos, como se verá: quem embarga por excesso
também deve demonstrar o que entende devido. Caso o devedor não indique a parcela que
entende devida, o juiz não poderá permitir a emenda da impugnação: deve rejeitar
liminarmente a impugnação.
Alegado o excesso de execução, o devedor, logicamente, está reconhecendo que
parte da execução é legítima. Sendo assim, esta parte incontroversa será executada
normalmente, e eventual efeito suspensivo na impugnação, ou nos embargos, só atinge a
parte controvertida do valor exequendo.
A impugnação pode correr entranhada nos autos ou em apenso – não criando uma
nova relação processual, neste segundo caso. Ela só é autuada em apenso quando se
amoldar ao que dispõe o artigo 475-M, § 2°, do CPC:

“Art. 475-M. A impugnação não terá efeito suspensivo, podendo o juiz atribuir-lhe
tal efeito desde que relevantes seus fundamentos e o prosseguimento da execução
seja manifestamente suscetível de causar ao executado grave dano de difícil ou
incerta reparação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1° Ainda que atribuído efeito suspensivo à impugnação, é lícito ao exeqüente
requerer o prosseguimento da execução, oferecendo e prestando caução suficiente
e idônea, arbitrada pelo juiz e prestada nos próprios autos. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
§ 2° Deferido efeito suspensivo, a impugnação será instruída e decidida nos
próprios autos e, caso contrário, em autos apartados. (Incluído pela Lei nº 11.232,
de 2005)
§ 3° A decisão que resolver a impugnação é recorrível mediante agravo de
instrumento, salvo quando importar extinção da execução, caso em que caberá
apelação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

É bem lógico :se a impugnação tem efeito suspensivo, ela permanece nos próprios
autos; se não tem, corre em apenso, para que a execução tenha seu curso livre.
Para ganhar efeito suspensivo, a impugnação precisa preencher o que estabelece o
caput do artigo supra: seus fundamentos serem relevantes, e o prosseguimento da execução
ser suscetível de causar grave dano ou de difícil reparação.

Michell Nunes Midlej Maron 70


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O rol de matérias dedutíveis em impugnação se encontra no artigo 475-L do CPC,


supra. Este rol é exemplificativo, mas não porque abre caminho a toda e qualquer
discussão, e sim porque há matérias de defesa que podem ser alegadas e são previstas em
outros dispositivos. Como exemplo, a alegação de vício na sentença arbitral, que vem
prevista no artigo 33, § 3°, da Lei 9.307/96:

“Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário


competente a decretação da nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta
Lei.
(...)
§ 3º A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser argüida
mediante ação de embargos do devedor, conforme o art. 741 e seguintes do Código
de Processo Civil, se houver execução judicial.”

Ali onde consta embargos do devedor, conforme o artigo 741 do CPC, leia-se
impugnação.
As teses defensivas do artigo 475-L, diga-se, são matérias cognoscíveis de ofício, à
exceção do inciso VI, o que é mais um argumento para se entender que a impugnação é
possível antes da penhora.
O inciso I traz um vício que não se convalida: a nulidade de citação pode ser
suscitada a qualquer tempo. Já a ilegitimidade de parte, prevista no inciso IV, não é a
ilegitimidade da etapa de conhecimento – porque esta teria que ter sido alegada na fase
cognitiva, estando preclusa pela sentença. Esta ilegitimidade é da fase executiva, quando,
por exemplo, a demanda corre contra alguém apenas porque se operou a desconsideração
da personalidade jurídica, já na execução: este executado pode entender-se ilegítimo.
O inciso II do artigo 475-L fala em título inexigível, e o § 1° traz o que se entende
por inexigibilidade em relação a leis inconstitucionais. De forma geral, esta tese defensiva
especificamente calcada em inconstitucionalidade pode ser alegada quando, no momento da
prolação da sentença a lei já era inconstitucional, e também quando houve um controle
concentrado de constitucionalidade, em que a lei que deu ensejo à sentença foi considerada
inconstitucional posteriormente, mas com efeitos ex tunc.
O problema é quando a declaração de inconstitucionalidade da lei que fundamentou
a sentença em execução foi declarada inconstitucional a posteriori, mas com efeitos ex
nunc: mesmo neste caso, a doutrina costuma admitir o manejo de ação rescisória da
sentença, que se procedente, permitirá a alegação posterior de inexigibilidade do título
rescindido. Se perdido o prazo da rescisória, não há esta solução.
Humberto Theodoro Junior, por seu lado, defende que a declaração de
inconstitucionalidade da lei fundamentadora da sentença é matéria que sempre azoará a
inexigibilidade do título, a qualquer momento, sem violar a coisa julgada. Sérgio Ricardo
de Arruda Fernandes compartilha desta tese, e diz que o título não se desconstitui, mas sim
perde a eficácia, dispensando inclusive a rescisória, ante a inconstitucionalidade do seu
fundamento.
Interposta a impugnação, o exequente poderá sobre ela se manifestar (havendo
quem chame de impugnação à impugnação, resposta, ou mesmo contestação da
impugnação), contando com cinco dias para tanto, eis que não há prazo específico previsto
e a regra geral é esta, como dispõe o artigo 185 do CPC:

Michell Nunes Midlej Maron 71


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 185. Não havendo preceito legal nem assinação pelo juiz, será de 5 (cinco)
dias o prazo para a prática de ato processual a cargo da parte.”

Há quem defende que sejam dez dias, em analogia à réplica, constante do artigo 326
do CPC:

“Art. 326. Se o réu, reconhecendo o fato em que se fundou a ação, outro Ihe opuser
impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, este será ouvido no prazo
de 10 (dez) dias, facultando-lhe o juiz a produção de prova documental.”

E há ainda quem entenda que sejam quinze dias, pela regra da isonomia: se ao
impugnante é dado este prazo, ao impugnado também deve ser – assim defendendo Fredie
Didier. Cassio Scarpinella, a seu turno, é um dos que entendem que a impugnação é ação, e
por isso serão quinze dias para responder a esta ação, como qualquer contestação.
O TJ/RJ entende que não há custas processuais para a impugnação, tampouco
honorários. A etapa de execução já teve seus honorários fixados.
A decisão que julga a impugnação é impugnável por agravo de instrumento, na
forma do artigo 475-H, ou por apelação, a depender do resultado: se a execução for
fulminada pela decisão, comporta esta apelação – pois é sentença; se não termina a
execução, cabe agravo de instrumento – pois é interlocutória.

“Art. 475-H. Da decisão de liquidação caberá agravo de instrumento. (Incluído


pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Também da rejeição da impugnação cabe agravo de instrumento.

Michell Nunes Midlej Maron 72


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Casos Concretos

Questão 1

Oferecida impugnação ao cumprimento de sentença (475-J) que havia condenado o


réu ao pagamento de quantia certa, o magistrado determina o recolhimento de custas
judiciais pelo impugnante. Traz como fundamento para a sua decisão a mesma norma
estadual que determinava o recolhimento de custas quando do oferecimento de embargos à
execução fundada em título judicial. Pergunta-se: pode o recebimento da impugnação ao
cumprimento de sentença de que trata o artigo 475 - J ser condicionado ao recolhimento
de custas pelo fundamento apresentado? Resposta fundamentada.

Resposta à Questão 1

É incabível a cobrança de taxa para o oferecimento de impugnação, eis que esta é


mero incidente processual.
Veja o Agravo de Instrumento 2007.002.09077, do TJ/RJ:

“Processo 2007.002.09077. AGRAVO DE INSTRUMENTO. DES. LUIZ FELIPE


HADDAD - Julgamento: 24/07/2007 - TERCEIRA CAMARA CIVEL.
Agravo de Instrumento hostilizando decisão do Juízo de 1º grau que determinou,
quanto à impugnação obrada pela entidade previdenciária privada ao procedimento
de cumprimento sentencial, deflagrado por autores vitoriosos em lide cognitiva, o
recolhimento da taxa judiciária e valores correlatos. Efeito suspensivo decretado
pelo Relator. Contra-razões, com preliminar de preclusão consumativa. Não-
sustentação; eis que o decisório não foi fundamentado, logo os embargos
declaratórios se justificaram, com a interrupção do prazo recursal em berlinda. No
mérito, razão que assiste à entidade insurgente. Lei 11232/2005, eficaz em
junho/2006, que pôs fim ao processo executório fundado em títulos judiciais de
condenação, e por conseqüência, aos embargos desconstitutivos. Sobrevivência de
tais institutos hoje cingida aos títulos extrajudiciais. Impugnação, portanto, que
voltou a ser uma peça de defesa, como o era durante a vigência do pretérito CPC
de 1939; por conseguinte, não mais podendo ser revestida de preparo da aludida
taxa ou das aludidas custas. Portaria baixada pela douta CGJ que, com as vênias

Michell Nunes Midlej Maron 73


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

devidas, não pode prevalecer, por destoar da letra expressa do Código Tributário
Fluminense (DL 05/1975) e de ditames explícitos e implícitos da Carta da
República e do Código Tributário Nacional, de específico o princípio da
legalidade. Recurso que se conhece, rejeitada a preliminar contrária. Provimento
do mesmo, no afastar da exigência em tela.”

Questão 2

Requerido pelo autor o cumprimento de sentença transitada em julgado que havia


condenado o réu ao pagamento de quantia certa, foi expedido mandado de penhora e
avaliação (475-J do CPC). Regularmente intimado, o executado oferece impugnação
tempestiva (475-J, parágrafo 1° do CPC), e apresenta como fundamento a realização do
pagamento superveniente à sentença. O magistrado determina que o autor / exeqüente
manifeste-se sobre a impugnação. Doze dias após a intimação do autor / exeqüente, este
protocola uma petição manifestando-se sobre a impugnação apresentada. Pergunta-se:
A) A resposta é tempestiva? Fundamente.
B) E se, ao invés de manifestar-se sobre a impugnação, o autor / exeqüente
formulasse pedido de desistência do cumprimento da sentença? Como deveria proceder o
magistrado? Fundamente.

Resposta à Questão 2

A) Depende da orientação que for seguida, pois há três correntes, uma que defende
ser prazo de cinco dias, outra de dez, e outra de quinze dias.

B) Deve aplicar o artigo 569 do CPC, extinguindo a execução, porque na


impugnação só há matéria processual, e é um incidente processual que segue o
destino da ação executiva.

“Art. 569. O credor tem a faculdade de desistir de toda a execução ou de apenas


algumas medidas executivas.
Parágrafo único. Na desistência da execução, observar-se-á o seguinte: (Incluído
pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
a) serão extintos os embargos que versarem apenas sobre questões processuais,
pagando o credor as custas e os honorários advocatícios; (Incluído pela Lei nº
8.953, de 13.12.1994)
b) nos demais casos, a extinção dependerá da concordância do embargante.
(Incluído pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

Questão 3

Tratando-se de execução fundada em título judicial, a antiga redação do inciso V


do art. 741 possibilitava, até o momento da penhora, a propositura de embargos à
execução em razão de nulidade de execução. O dispositivo não foi reproduzido pelo artigo
475-L, que trata das matérias que poderão ser veiculadas na impugnação ao cumprimento
de sentença. Seria correto concluir que nulidades surgidas durante a fase executória até a
efetivação da penhora somente poderão ser alegadas nos embargos à arrematação e
embargos à adjudicação, na forma do artigo 746 do CPC?

Michell Nunes Midlej Maron 74


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Resposta à Questão 3

O artigo 475-L do CPC é exemplificativo, havendo ali matérias que são inclusive
cognoscíveis de ofício. Por isso, mesmo ausente deste dispositivo, a matéria ali suscitada\
pode ser deduzida em impugnação, sem óbice.

Tema VIII

A execução por quantia certa fundada em título extrajudicial. Finalidade. Fases da execução por quantia
certa contra devedor solvente. Averbação da distribuição (art. 615-A, CPC). A fase da proposição: petição
inicial, fixação de honorários e citação. Parcelamento. Arresto.

Notas de Aula12

1. Execução de título extrajudicial por quantia certa

Esta modalidade vem tratada especialmente nos artigos 652 e seguintes do CPC,
artigos que serão abordados pontualmente.
A reforma da Lei 11.382/06 alterou significantemente a execução de título
extrajudicial. Vale lembrar, porém, que sempre que um procedimento for omisso, poderá se
valer dos demais para suprir as suas lacunas, naquilo que for compatível. Os artigos 598 e
475-R dão a nota:

“Art. 598. Aplicam-se subsidiariamente à execução as disposições que regem o


processo de conhecimento.”

“Art. 475-R. Aplicam-se subsidiariamente ao cumprimento da sentença, no que


couber, as normas que regem o processo de execução de título extrajudicial.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A execução que se estuda, neste tópico, é contra devedor solvente, que é aquele que,
em tese, possui patrimônio suficiente para cumprir a obrigação. O procedimento para
execução de devedor insolvente, por obrigação pecuniária, responde a rito diferente, que
tem início no artigo 748 do CPC, e será estudado em tópico próprio adiante. Destarte, três
são as premissas básicas, para ser este o rito adotado: o título é extrajudicial; a obrigação é
pecuniária, e o devedor é solvente.
Nada impede, porém, que o credor opte pelo outro procedimento, da execução por
via da insolvência civil, ou seja, persiga o rito da execução contra devedor insolvente.

12
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 8/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 75


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Nesta situação, parte-se da premissa que o devedor não tenha patrimônio, mas a decretação
da insolvência é muito similar à de falência, inclusive abrindo concurso de credores – o que
pode não ser a melhor opção, a depender da natureza do crédito em busca.
Iniciada a execução por quantia certa contra devedor solvente, se no seu curso ficar
claro que o devedor é insolvente, terá o credor que ajuizar nova execução, agora contra
devedor insolvente. A convolação dos ritos, diga-se, não é possível, porque os
procedimentos são muito distintos, inclusive implicando mudança de competência: a
insolvência civil é perseguida na vara empresarial, enquanto a execução contra devedor
solvente é de competência da vara cível.
Pelo ensejo, vale dizer que a insolvência civil, quando decretada, equivale a uma
interdição temporária de direitos, porque o insolvente perde toda a administração de
patrimônio, por cinco anos desde a decretação final da insolvência (prazo após o qual todas
suas obrigações são extintas).
Vejamos os dispositivos necessários sobre o procedimento em análise, a começar
pelo artigo 652 do CPC:

“Art. 652. O executado será citado para, no prazo de 3 (três) dias, efetuar o
pagamento da dívida. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Não efetuado o pagamento, munido da segunda via do mandado, o oficial de
justiça procederá de imediato à penhora de bens e a sua avaliação, lavrando-se o
respectivo auto e de tais atos intimando, na mesma oportunidade, o executado.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º O credor poderá, na inicial da execução, indicar bens a serem penhorados (art.
655). (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º O juiz poderá, de ofício ou a requerimento do exeqüente, determinar, a
qualquer tempo, a intimação do executado para indicar bens passíveis de penhora.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4º A intimação do executado far-se-á na pessoa de seu advogado; não o tendo,
será intimado pessoalmente. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 5º Se não localizar o executado para intimá-lo da penhora, o oficial certificará
detalhadamente as diligências realizadas, caso em que o juiz poderá dispensar a
intimação ou determinará novas diligências. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).”

Na petição inicial da execução do título extrajudicial, não se fala em produção de


provas, pela só razão de que não há julgamento de mérito na execução – não há
procedência ou improcedência. Eventualmente, porém, se o advogado do exequente souber
que algum incidente cognitivo será disparado no curso da execução, nada impede que
requeira, desde já, a produção de provas sobre o que for necessário.
Se o credor quiser, e souber, poderá indicar na própria petição inicial os bens do
devedor passíveis de penhora, na forma do § 2º do artigo supra – requerendo já a penhora
on line. O artigo 655-A do CPC, diga-se, é a sede da penhora on line:

“Art. 655-A. Para possibilitar a penhora de dinheiro em depósito ou aplicação


financeira, o juiz, a requerimento do exeqüente, requisitará à autoridade
supervisora do sistema bancário, preferencialmente por meio eletrônico,
informações sobre a existência de ativos em nome do executado, podendo no
mesmo ato determinar sua indisponibilidade, até o valor indicado na execução.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º As informações limitar-se-ão à existência ou não de depósito ou aplicação até
o valor indicado na execução. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).

Michell Nunes Midlej Maron 76


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 2º Compete ao executado comprovar que as quantias depositadas em conta


corrente referem-se à hipótese do inciso IV do caput do art. 649 desta Lei ou que
estão revestidas de outra forma de impenhorabilidade. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 3° Na penhora de percentual do faturamento da empresa executada, será
nomeado depositário, com a atribuição de submeter à aprovação judicial a forma
de efetivação da constrição, bem como de prestar contas mensalmente, entregando
ao exeqüente as quantias recebidas, a fim de serem imputadas no pagamento da
dívida. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4° Quando se tratar de execução contra partido político, o juiz, a requerimento
do exeqüente, requisitará à autoridade supervisora do sistema bancário, nos termos
do que estabelece o caput deste artigo, informações sobre a existência de ativos
tão-somente em nome do órgão partidário que tenha contraído a dívida executada
ou que tenha dado causa a violação de direito ou ao dano, ao qual cabe
exclusivamente a responsabilidade pelos atos praticados, de acordo com o disposto
no art. 15-A da Lei no 9.096, de 19 de setembro de 1995. (Incluído pela Lei nº
11.694, de 2008)”

No regime anterior da execução, a indicação de bens à penhora era feita


primeiramente pelo devedor. A regra, agora, é a indicação de tais bens pelo credor, seja
execução por título extrajudicial ou judicial. Há ressalvas, como a da Lei de Execuções
Fiscais, em que se mantém a indicação do bem na pessoa do devedor.
Vale dizer que se o juiz entender necessário, pode determinar que o devedor seja
responsável por indicar os bens à penhora, como dispõe o artigo 652 do CPC, no § 3º,
supra. Se o devedor não indicar, nem justificar a falta de indicação, a consequência de que
padece é a determinação de sanção pecuniária por este descumprimento, na forma do artigo
600, IV, do CPC: a desatenção à decisão judicial é ato atentatório à dignidade da justiça.
Veja:

“Art. 600. Considera-se atentatório à dignidade da Justiça o ato do executado que:


(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
I - frauda a execução; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
II - se opõe maliciosamente à execução, empregando ardis e meios artificiosos;
(Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
III - resiste injustificadamente às ordens judiciais; (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
IV - intimado, não indica ao juiz, em 5 (cinco) dias, quais são e onde se encontram
os bens sujeitos à penhora e seus respectivos valores. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).”

Repare que este dispositivo supra cria um sistema análogo ao da litigância de má-fé,
mas atinente exclusivamente à execução.
Juntamente com a petição inicial da execução, deve vir o título executivo
extrajudicial, e uma planilha demonstrativa do débito atualizado, na forma do artigo 614, I
e II, do CPC:

“Art. 614. Cumpre ao credor, ao requerer a execução, pedir a citação do devedor e


instruir a petição inicial:
I - com o título executivo extrajudicial; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).

Michell Nunes Midlej Maron 77


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

II - com o demonstrativo do débito atualizado até a data da propositura da ação,


quando se tratar de execução por quantia certa; (Redação dada pela Lei nº 8.953,
de 13.12.1994)
III - com a prova de que se verificou a condição, ou ocorreu o termo (art. 572).
(Incluído pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

Distribuída a inicial, o artigo 615-A do CPC trouxe uma previsão inovativa: a


possibilidade de averbação da certidão de distribuição. Veja:

“Art. 615-A. O exeqüente poderá, no ato da distribuição, obter certidão


comprobatória do ajuizamento da execução, com identificação das partes e valor
da causa, para fins de averbação no registro de imóveis, registro de veículos ou
registro de outros bens sujeitos à penhora ou arresto. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 1º O exeqüente deverá comunicar ao juízo as averbações efetivadas, no prazo de
10 (dez) dias de sua concretização. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° Formalizada penhora sobre bens suficientes para cobrir o valor da dívida, será
determinado o cancelamento das averbações de que trata este artigo relativas
àqueles que não tenham sido penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Presume-se em fraude à execução a alienação ou oneração de bens efetuada
após a averbação (art. 593). (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4º O exeqüente que promover averbação manifestamente indevida indenizará a
parte contrária, nos termos do § 2º do art. 18 desta Lei, processando-se o incidente
em autos apartados. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 5º Os tribunais poderão expedir instruções sobre o cumprimento deste artigo.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Esta averbação tem por escopo delimitar a responsabilidade patrimonial,


concentrando-a no patrimônio presente e futuro do devedor, mas sem deixar escapar os
bens passados que foram alienados com algum tipo de fraude – contra credores, à execução
ou alienação de bens penhorados.
Grande problema há em se definir qual é o momento em que a alienação fraudulenta
se configura como fraude contra credores ou fraude à execução. O artigo 593, II, do CPC,
pretende esclarecer este ponto, mas é dispositivo muito vago. Veja:

“Art. 593. Considera-se em fraude de execução a alienação ou oneração de bens:


I - quando sobre eles pender ação fundada em direito real;
II - quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda
capaz de reduzi-lo à insolvência;
III - nos demais casos expressos em lei.”

“Correr a demanda capaz de reduzir à insolvência” é um marco temporal muito


aberto, sendo fundamental saber se se está falando da distribuição desta demanda, ou da
citação da execução, ou ainda da existência do processo de conhecimento, etc. O artigo
615-A supra pretendeu findar esta discussão, permitindo que a averbação da certidão da
distribuição no RGI, comunicada ao juízo em dez dias 13, faz presumida a fraude à execução
em qualquer alienação posterior a esta averbação, como dispõe o § 3° deste mesmo artigo.
13
Este é um mero prazo processual sem sanção pelo seu descumprimento, pelo que a doutrina defende que se
a comunicação for feita em dez dias, o termo inicial da fraude retrotrai-se até a data da averbação; se a
comunicação passar deste prazo, o termo inicial da fraude à execução será do dia da comunicação, e não
retrotraído. Se não comunicar, a fraude à execução será definida da forma clássica, com todas as correntes que
disputam qual será o momento exato.

Michell Nunes Midlej Maron 78


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A definição precisa do termo inicial para configuração da fraude à execução é


fundamental, porque coincide, este momento, com o termo final da fraude contra credores.
E a diferença entre um e outro vício, como se sabe, é muito grande, principalmente quanto
ao meio de se os comprovar: a fraude contra credores precisa de muitos mais elementos
para se configurar, e demanda a ação pauliana para tanto, enquanto a fraude à execução é
de muito mais fácil constatação.
Não se pode confundir a norma do artigo 615-A com a que vem prevista no artigo
659, § 4°, também do CPC:

“Art. 659. A penhora deverá incidir em tantos bens quantos bastem para o
pagamento do principal atualizado, juros, custas e honorários advocatícios.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Efetuar-se-á a penhora onde quer que se encontrem os bens, ainda que sob a
posse, detenção ou guarda de terceiros. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
§ 2º Não se levará a efeito a penhora, quando evidente que o produto da execução
dos bens encontrados será totalmente absorvido pelo pagamento das custas da
execução.
§ 3º No caso do parágrafo anterior e bem assim quando não encontrar quaisquer
bens penhoráveis, o oficial descreverá na certidão os que guarnecem a residência
ou o estabelecimento do devedor.
§ 4º A penhora de bens imóveis realizar-se-á mediante auto ou termo de penhora,
cabendo ao exeqüente, sem prejuízo da imediata intimação do executado (art. 652,
§ 4º), providenciar, para presunção absoluta de conhecimento por terceiros, a
respectiva averbação no ofício imobiliário, mediante a apresentação de certidão de
inteiro teor do ato, independentemente de mandado judicial. (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).
§ 5º Nos casos do § 4º, quando apresentada certidão da respectiva matrícula, a
penhora de imóveis, independentemente de onde se localizem, será realizada por
termo nos autos, do qual será intimado o executado, pessoalmente ou na pessoa de
seu advogado, e por este ato constituído depositário. (Incluído pela Lei nº 10.444,
de 7.5.2002)
§ 6º Obedecidas as normas de segurança que forem instituídas, sob critérios
uniformes, pelos Tribunais, a penhora de numerário e as averbações de penhoras de
bens imóveis e móveis podem ser realizadas por meios eletrônicos. (Incluído pela
Lei nº 11.382, de 2006).”

O artigo 615-A do CPC trata da averbação da distribuição, enquanto este artigo


supra cuida da averbação do termo de penhora, quando a penhora já se implementou. Este
artigo trata, portanto, da alienação de bem penhorado, terceira modalidade de alienação
fraudulenta, que ocorre em momento posterior àquele em que se configuraria a fraude à
execução.
A norma do artigo 615-A vem sendo utilizada também no cumprimento de sentença,
com uma ressalva: quem fornece a certidão não é o órgão distribuidor, e sim o próprio
cartório do juízo onde corre o cumprimento da sentença. O TRF da Segunda Região já
aplica esta regra, com esta ressalva.
A averbação abusiva é reprimida, pois gera consequências para o exequente, que
indenizará o devedor pelos danos causados, na medida da penalidade imposta pela
litigância de má-fé, do artigo 18 do CPC, como indica o § 4º do artigo 615-A:

Michell Nunes Midlej Maron 79


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 18. O juiz ou tribunal, de ofício ou a requerimento, condenará o litigante de


má-fé a pagar multa não excedente a um por cento sobre o valor da causa e a
indenizar a parte contrária dos prejuízos que esta sofreu, mais os honorários
advocatícios e todas as despesas que efetuou. >(Redação dada pela Lei nº 9.668, de
23.6.1998)
§ 1º Quando forem dois ou mais os litigantes de má-fé, o juiz condenará cada um
na proporção do seu respectivo interesse na causa, ou solidariamente aqueles que
se coligaram para lesar a parte contrária.
§ 2º O valor da indenização será desde logo fixado pelo juiz, em quantia não
superior a 20% (vinte por cento) sobre o valor da causa, ou liquidado por
arbitramento. (Redação dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)”

Emitido o despacho liminar de conteúdo positivo para a citação do executado, este


tem o condão de interromper a prescrição, na forma do artigo 617 do CPC:
“Art. 617. A propositura da execução, deferida pelo juiz, interrompe a prescrição,
mas a citação do devedor deve ser feita com observância do disposto no art. 219.”

No processo de conhecimento, não basta o despacho de citação para interromper a


prescrição: é necessária a efetiva citação. As normas são realmente contrapostas.
Despachada a citação, junto com este “cite-se” o juiz já determinará quais são os
honorários advocatícios a serem suportados pelo executado, na forma inovadora do artigo
652-A do CPC:

“Art. 652-A. Ao despachar a inicial, o juiz fixará, de plano, os honorários de


advogado a serem pagos pelo executado (art. 20, § 4º). (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
Parágrafo único. No caso de integral pagamento no prazo de 3 (três) dias, a verba
honorária será reduzida pela metade. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Esta providência legislativa foi bastante salutar, uma vez que se os honorários forem
fixados apenas na sentença, seria necessária execução posterior à própria execução, apenas
pelos honorários. Fixados já no “cite-se”, a penhora é efetuada já com o valor deste
honorários, incrementando bastante a efetividade do processo. Vale ressaltar que os
honorários são definidos em número inteiro, e não em percentual, porque o legislador fez
questão de apontar para o artigo 20, § 4º, do CPC, como se vê no dispositivo acima.
Os honorários advocatícios definidos no “cite-se” são tidos por provisórios: quem
promove a execução, pode tê-la frustrada no seu curso, pelos embargos. Os honorários, pela
mera distribuição da execução, não podem ser devidos, pelo que o provimento dos
embargos à execução implica cancelamento, pelo juiz, dos honorários fixados na citação.
Humberto Theodoro Júnior, assim como a jurisprudência do STJ, admite a fixação
da verba honorária para os embargos e para a execução, ambos em favor de quem triunfou
– duas verbas separadas; ou a fixação dos honorários apenas nos embargos, sem honorários
na execução, mas com patamar maior, de forma a englobar em uma só verba a remuneração
pela execução e pelos embargos.
A citação do executado não pode ser via postal, pela vedação expressa no artigo
222, “d”, do CPC. Esta citação deve ser feita por oficial de justiça.

“Art. 222. A citação será feita pelo correio, para qualquer comarca do País, exceto:
(Redação dada pela Lei nº 8.710, de 24.9.1993)
(...)
d) nos processos de execução; (Incluído pela Lei nº 8.710, de 24.9.1993)

Michell Nunes Midlej Maron 80


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

(...)”

Na execução fiscal, todavia, a citação postal não só é admitida, como é a primeira


opção legislativa, na forma do artigo 8° da Lei 6.830/80:

“Art. 8º - O executado será citado para, no prazo de 5 (cinco) dias, pagar a dívida
com os juros e multa de mora e encargos indicados na Certidão de Dívida Ativa, ou
garantir a execução, observadas as seguintes normas:
I - a citação será feita pelo correio, com aviso de recepção, se a Fazenda Pública
não a requerer por outra forma;
II - a citação pelo correio considera-se feita na data da entrega da carta no endereço
do executado, ou, se a data for omitida, no aviso de recepção, 10 (dez) dias após a
entrega da carta à agência postal;
III - se o aviso de recepção não retornar no prazo de 15 (quinze) dias da entrega da
carta à agência postal, a citação será feita por Oficial de Justiça ou por edital;
IV - o edital de citação será afixado na sede do Juízo, publicado uma só vez no
órgão oficial, gratuitamente, como expediente judiciário, com o prazo de 30 (trinta)
dias, e conterá, apenas, a indicação da exeqüente, o nome do devedor e dos co-
responsáveis, a quantia devida, a natureza da dívida, a data e o número da inscrição
no Registro da Dívida Ativa, o prazo e o endereço da sede do Juízo.
§ 1º - O executado ausente do País será citado por edital, com prazo de 60
(sessenta) dias.
§ 2º - O despacho do Juiz, que ordenar a citação, interrompe a prescrição.”

A citação por edital é cabível, mas não tem qualquer utilidade prática. O arresto, por
seu turno, é muito mais interessante do que a citação editalícia, para os fins que o credor
pretenda. Veja os artigos 653 e 654 do CPC:

“Art. 653. O oficial de justiça, não encontrando o devedor, arrestar-lhe-á tantos


bens quantos bastem para garantir a execução.
Parágrafo único. Nos 10 (dez) dias seguintes à efetivação do arresto, o oficial de
justiça procurará o devedor três vezes em dias distintos; não o encontrando,
certificará o ocorrido.”

“Art. 654. Compete ao credor, dentro de 10 (dez) dias, contados da data em que foi
intimado do arresto a que se refere o parágrafo único do artigo anterior, requerer a
citação por edital do devedor. Findo o prazo do edital, terá o devedor o prazo a que
se refere o art. 652, convertendo-se o arresto em penhora em caso de não-
pagamento.”

Este instrumento, que hoje é dedicado exclusivamente à execução de título


extrajudicial, em nada se confunde com o conhecido arresto que é medida cautelar. Esta
medida, dos artigos supra, serve para o caso em que o devedor não seja localizado para ser
citado, mas o devedor sabe da localização dos bens componentes do patrimônio do
executado. Neste caso, requer o arresto de tais bens, que é providência tomada pelo oficial
de justiça, que arresta os bens e retorna ao local por três dias. Não comparecendo o
devedor, ao fim destes três dias, o credor promoverá a publicação de edital de citação, o
qual não só produzirá efeitos de citação, como também converterá o arresto em penhora dos
bens – o que é muito mais útil do que a mera citação editalícia direta, que não opera esta
conversão.
Não se pode aplicar este arresto na execução de título judicial, o cumprimento de
sentença, porque como se vê este arresto é prévio à citação: não há citação na fase

Michell Nunes Midlej Maron 81


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

executiva do processo sincrético, pelo que a penhora não precisa deste arresto prévio,
quando ausente o devedor.
Se mesmo após o edital o devedor não for localizado, a súmula 196 do STJ
determina a nomeação de curador especial com poderes para oferecer embargos:

“Súmula 196, STJ: Ao executado que, citado por edital ou por hora certa,
permanecer revel, será nomeado curador especial, com legitimidade para
apresentação de embargos.”

Esta legitimidade do curador para oferecer embargos já foi bastante controvertida,


porque os embargos são ação, e não defesa. A súmula pôs fim à controvérsia, porém.
Realizada a citação pelo oficial de justiça, conforme a regra geral, após a juntada do
mandado aos autos é que tem início o curso do prazo para as medidas do executado, prazo
de quinze dias. Nos três primeiros dias, o devedor pode pagar a integralidade da dívida. Se
não quiser fazer este pagamento, contará ainda com doze dias para parcelar, na forma do
artigo 745-A, ou para embargar a execução, na forma do artigo 736 do CPC.
Estes três dias para pagamento são depreendidos do artigo 652-A, há pouco
transcrito, em cujo parágrafo único se vê a vantagem de fazê-lo: reduz-se em cinquenta por
cento a verba honorária a ser suportada na execução. A título de comparação, na ação
monitória há previsão similar, porém mais generosa: nesta, há prazo de quinze dias para
pagar, e se o fizer, o executado terá isenção de custas e honorários. Veja o artigo 1.102-C, §
1°, do CPC:

“Art. 1.102-C. No prazo previsto no art. 1.102-B, poderá o réu oferecer embargos,
que suspenderão a eficácia do mandado inicial. Se os embargos não forem opostos,
constituir-se-á, de pleno direito, o título executivo judicial, convertendo-se o
mandado inicial em mandado executivo e prosseguindo-se na forma do Livro I,
Título VIII, Capítulo X, desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1° Cumprindo o réu o mandado, ficará isento de custas e honorários
advocatícios. (Incluído pela Lei nº 9.079, de 14.7.1995)
(...)”

Este benefício implica pagamento em dinheiro, integral. Nestes primeiros dias, a


penhora não pode ser realizada, justamente por esta faculdade dada ao devedor. O artigo
652 do CPC, há pouco transcrito, já no caput deixa isto claro.
Pelo ensejo, vale mencionar que a avaliação, hoje, é feita conjuntamente com a
penhora, pelo mesmo oficial de justiça. Veja o que dispõe o artigo 143, V, do CPC:

“Art. 143. Incumbe ao oficial de justiça:


(...)
V - efetuar avaliações. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

A penhora, então, em regra, ocorrerá somente do quarto dia em diante. Se feita no


prazo dos embargos, nesta dúzia de dias, os vícios que tal penhora contiver poderão ser
deduzidos nos próprios embargos, como diz o artigo 745, II, do CPC, que será visto
adiante. Se a penhora ocorre após o fim do prazo para embargos, seus vícios serão tratados
como fatos supervenientes, e mera petição servirá para chamar atenção do juízo para tais
vícios (que poderia conhecer de qualquer fato superveniente de ofício, diga-se).

Michell Nunes Midlej Maron 82


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Se o executado opta pelo parcelamento, este será feito de forma bem estrita, nos
moldes do artigo 745-A do CPC:

“Art. 745-A. No prazo para embargos, reconhecendo o crédito do exeqüente e


comprovando o depósito de 30% (trinta por cento) do valor em execução, inclusive
custas e honorários de advogado, poderá o executado requerer seja admitido a
pagar o restante em até 6 (seis) parcelas mensais, acrescidas de correção monetária
e juros de 1% (um por cento) ao mês. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Sendo a proposta deferida pelo juiz, o exeqüente levantará a quantia
depositada e serão suspensos os atos executivos; caso indeferida, seguir-se-ão os
atos executivos, mantido o depósito. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º O não pagamento de qualquer das prestações implicará, de pleno direito, o
vencimento das subseqüentes e o prosseguimento do processo, com o imediato
início dos atos executivos, imposta ao executado multa de 10% (dez por cento)
sobre o valor das prestações não pagas e vedada a oposição de embargos. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Assim, o devedor deve pagar trinta por cento da dívida, e o restante em seis parcelas
com juros de um por cento ao mês. Feito nestes moldes, o parcelamento é um direito do
devedor, dispensando anuência do credor para ser deferido. É claro que qualquer
parcelamento mais benéfico ao devedor, outrossim, demanda a concordância do credor.
Durante o curso do parcelamento legal, a execução fica suspensa, sendo extinta ao
final, com o pagamento. Se o parcelamento for feito por acordo, igualmente, a suspensão é
recomendável, mas há juízos que interpretam que deve haver extinção, em analogia ao
artigo 794, II, do CPC:

“Art. 794. Extingue-se a execução quando:


(...)
II - o devedor obtém, por transação ou por qualquer outro meio, a remissão total da
dívida;
(...)”

Se o devedor não honrar o parcelamento, este ato será excluído e a execução


prosseguirá. Neste caso, sofrerá sanção pecuniária de dez por cento sobre o valor que
restava, e não mais poderá embargar.
Vê-se, aqui, que a opção por parcelamento ou embargos à execução é excludente,
reciprocamente. Seria algo semelhante a uma preclusão lógica, mas não se pode assim
chamar porque os embargos, se vierem, consistem em uma ação diversa, e a preclusão só
ocorre no mesmo processo, na mesma ação. Nada impede, porém, que vícios de ordem
pública sejam arguidos, pois são cognoscíveis a qualquer tempo, por simples petição.
Este parcelamento não se aplica no cumprimento de sentença, do título judicial, para
a melhor doutrina. Humberto Theodoro Júnior defende que este parcelamento é um
estímulo ao pagamento, e o rito do cumprimento de sentença não é compatível com este
estímulo, eis que comporta, ao contrário, multa pelo não pagamento, como se sabe. Não
obstante, a jurisprudência, do TJ/RJ inclusive, vem admitindo este parcelamento no
cumprimento de sentença, por motivação mais pragmática, prática, do que jurídica: o
parcelamento cumprido extingue o processo em sete meses, o que é um prazo ótimo, perto
da demora que se pode perceber no cumprimento de sentença.

Michell Nunes Midlej Maron 83


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Deferido o parcelamento é suspenso o processo; e se for esta suspensão posterior à


penhora, esta se desfaz, ou permanecerá o gravame até a extinção da execução? A penhora
permanece: os atos já praticados, até a suspensão, são sempre mantidos.

Casos Concretos

Questão 1

Em determinado processo de execução, fundado em título extrajudicial, o


executado não foi encontrado e foram arrestados bens suficientes à garantia do juízo na
forma prevista no artigo 653 do CPC. O exeqüente, então, promove a publicação de edital
na imprensa, tanto para citar o executado como para convolar o arresto em penhora. Feito
isto e, diante do silêncio do executado, o juiz determina o prosseguimento do feito, com a
preparação para a excussão dos bens. O exeqüente, no entanto, e com vistas a garantir a
regularidade formal do processo, requereu ao juiz a nomeação de curador especial ao
executado, na forma do que determina o artigo 9°, do CPC. O magistrado indefere o
requerimento, ao argumento de que na execução não é necessária a observância do
contraditório, considerando que o direito já se encontra posto no título executivo. Está
correta a decisão? Comente-a.

Resposta à Questão 1

O curador especial deve ser necessariamente nomeado, como se vê na redação da


súmula 196 do STJ. O juiz que deixa de fazê-lo está subvertendo norma de ordem pública,
e a decisão é nula.

Questão 2

O art. 652-A menciona que o juiz, ao despachar a petição inicial da execução por
título extrajudicial, deve fixar os honorários advocatícios na forma do art. 20, parágrafo
4º do Código de Processo Civil, enquanto que o parágrafo único do mesmo dispositivo
menciona que, se o pagamento integral for realizado em 3 dias, esta verba honorária será
reduzida pela metade.Indaga-se:
a) Este artigo pode ser aplicado quando o executado requerer o parcelamento na
forma do art. 745-A?
b) Se forem interpostos embargos do devedor, deverá ocorrer nova condenação em
honorários advocatícios?

Michell Nunes Midlej Maron 84


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

c) Se o pedido formulado nos embargos for acolhido e a execução extinta, ainda


assim persistirão os honorários fixados ao advogado do exeqüente no momento em
que foi determinado o cite-se?

Resposta à Questão 2

a) Não: a redução só é devida quando se der o pagamento em três dias.

b) Sim, porque os embargos são uma nova ação, devendo haver remuneração
advocatícia correspondente.

c) Não, pois os honorários fixados liminarmente na execução são provisórios,


sendo revogados na extinção da execução por força dos embargos.
Questão 3

Pelo novo artigo 615-A do Código de Processo Civil, o exeqüente poderá, no ato de
distribuição, obter certidão comprobatória do ajuizamento da execução, para fins de
averbações em registros diversos. Deve, depois, comunicar ao juízo as averbações
efetivadas no prazo de 10 dias (CPC, artigo 615-A, § 1°). Que prazo é esse? É preclusivo?
E se não for atendido, qual a conseqüência? Serão desconsideradas as averbações?

Resposta à Questão 3

Este prazo é meramente processual, impreclusivo, e se não for atendido faz com que
o termo inicial do período de ocorrência de fraude à execução seja da data em que houve a
comunicação, enquanto que se for observado o prazo, este termo inicial remontará à data da
averbação. De forma alguma, porém, serão desconsideradas as averbações.

Michell Nunes Midlej Maron 85


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema IX

A execução por quantia certa fundada em título extrajudicial: continuação. Os Embargos à execução.
Generalidades. Natureza jurídica. Requisitos genéricos de admissibilidade dos embargos: competência, a
tempestividade e a legitimação. Desnecessidade de penhora (Lei nº 11.382/06). Procedimento. Revelia.
Natureza da decisão. Objeção de não-executividade.

Notas de Aula14

1. Embargos à execução

A Lei 11.382/06 propugnou bastantes alterações nos embargos à execução,


especialmente em relação ao prazo, à penhora, e ao efeito suspensivo. Vejamos cada
aspecto em separado.

1.1. Prazo

O prazo para embargar, antes da reforma, era de dez dias. Atualmente, é de quinze
dias, na forma do artigo 738 do CPC, mas não em todo caso. Veja:

“Art. 738. Os embargos serão oferecidos no prazo de 15 (quinze) dias, contados


da data da juntada aos autos do mandado de citação. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
§ 1º Quando houver mais de um executado, o prazo para cada um deles embargar
conta-se a partir da juntada do respectivo mandado citatório, salvo tratando-se de
cônjuges. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º Nas execuções por carta precatória, a citação do executado será
imediatamente comunicada pelo juiz deprecado ao juiz deprecante, inclusive por
meios eletrônicos, contando-se o prazo para embargos a partir da juntada aos autos
de tal comunicação. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Aos embargos do executado não se aplica o disposto no art. 191 desta Lei.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

14
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 8/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 86


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

No procedimento da insolvência civil, por exemplo, o prazo para embargar não é de


quinze dias, mas sim de dez, porque o procedimento específico contra devedor insolvente
não foi alterado. Veja o artigo 755 do CPC:

“Art. 755. O devedor será citado para, no prazo de 10 (dez) dias, opor embargos;
se os não oferecer, o juiz proferirá, em 10 (dez) dias, a sentença.”

Os embargos oferecidos pela Fazenda Pública têm previsão no artigo 1º-B da Lei
9.494/97, e contam com prazo de trinta dias:

“Art. 1°-B. O prazo a que se refere o caput dos arts. 730 do Código de Processo
Civil, e 884 da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei no
5.452, de 1o de maio de 1943, passa a ser de trinta dias" (NR) (Incluído pela
Medida provisória nº 2.180-35, de 2001)”

Este artigo supostamente alterou o artigo 730 do CPC, que contemplava prazo de
dez dias, como se vê abaixo. Esta questão ainda é alvo de discussão, porém, e será abordada
em tópico próprio adiante.

“Art. 730. Na execução por quantia certa contra a Fazenda Pública, citar-se-á a
devedora para opor embargos em 10 (dez) dias; se esta não os opuser, no prazo
legal, observar-se-ão as seguintes regras: (Vide Lei nº 9.494, de 10.9.1997)
I - o juiz requisitará o pagamento por intermédio do presidente do tribunal
competente;
II - far-se-á o pagamento na ordem de apresentação do precatório e à conta do
respectivo crédito.”

1.2. Penhora

Quanto à penhora, agora se tem que os embargos podem ser oferecidos


independentemente de efetuar-se o gravame. No regime anterior, era necessária a penhora,
e a intimação desta ao executado, a fim de que pudesse somente então ofertar os embargos.
No regime atual, então, a realização da penhora não precisaria ser intimada ao
devedor, porque já fora citado para a execução – não é mais a intimação da penhora que
abre o prazo para embargos. Contudo, há ainda um interesse em realizar-se esta intimação:
ela é o momento em que se abrirá ao executado o prazo para ajuizar o incidente de
substituição do bem penhorado.
Se, após a penhora, o devedor estiver ausente do processo, não podendo ser
intimado da constrição, o artigo 652, § 5°, do CPC, já transcrito, estabelece que o juiz,
casuisticamente, poderá dispensar a realização da intimação da penhora.
O problema da penhora, hoje, é a sua conformação ao rito do cumprimento de
sentença. O § 1º do artigo 475-J do CPC, em interpretação gramatical, dá a entender que o
prazo para impugnar corre da data da intimação da penhora:

“Art. 475-J. Caso o devedor, condenado ao pagamento de quantia certa ou já


fixada em liquidação, não o efetue no prazo de quinze dias, o montante da
condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento e, a
requerimento do credor e observado o disposto no art. 614, inciso II, desta Lei,
expedir-se-á mandado de penhora e avaliação. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)

Michell Nunes Midlej Maron 87


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 1º Do auto de penhora e de avaliação será de imediato intimado o executado, na


pessoa de seu advogado (arts. 236 e 237), ou, na falta deste, o seu representante
legal, ou pessoalmente, por mandado ou pelo correio, podendo oferecer
impugnação, querendo, no prazo de quinze dias. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
§ 2° Caso o oficial de justiça não possa proceder à avaliação, por depender de
conhecimentos especializados, o juiz, de imediato, nomeará avaliador, assinando-
lhe breve prazo para a entrega do laudo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 3° O exeqüente poderá, em seu requerimento, indicar desde logo os bens a serem
penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 4° Efetuado o pagamento parcial no prazo previsto no caput deste artigo, a multa
de dez por cento incidirá sobre o restante. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 5° Não sendo requerida a execução no prazo de seis meses, o juiz mandará
arquivar os autos, sem prejuízo de seu desarquivamento a pedido da parte.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

Em brevíssima suma, eis que o tema conta com tópico próprio para seu estudo, o
rito do cumprimento de sentença é o seguinte: após o trânsito em julgado, o exequente deve
se manifestar, em no máximo seis meses, requerendo que haja o seu cumprimento, na forma
do artigo supra, § 5°. Em seguida, dá-se, já, a expedição do mandado de penhora e
avaliação (não havendo citação, portanto). Após, realiza-se a penhora e avaliação, e há a
intimação do devedor, em pessoa ou pelo seu advogado, a fim de que este apresente a
impugnação. Pela literalidade, portanto, a penhora é necessária para poder haver
impugnação.
Contudo, a doutrina vem defendendo que a penhora não é uma condição para que
possa haver a impugnação. Em verdade, seria apenas uma condição para que a impugnação
tenha efeito suspensivo da decisão em cumprimento. E há ainda quem defenda que a
penhora restou dispensada, porque se para opor embargos não mais é necessária, para a
impugnação também não o seria – o que não parece uma interpretação muito correta, eis
que os pressupostos dos ritos são muito diversos, pois no cumprimento de sentença já
houve toda uma prévia dilação perante o Judiciário, enquanto a execução do título
extrajudicial encontra aqui o primeiro contato com o juízo.
Alexandre Câmara, portanto, defende que a penhora no cumprimento de sentença
tem o escopo precípuo de conferir efeito suspensivo à impugnação, e parece ser a leitura
mais correta do regime atual, porque a impugnação prévia à penhora, desde que sem efeito
suspensivo, não representa qualquer prejuízo ao credor. Entretanto, apesar de coerente, é
uma interpretação contra legem, e gera um efeito prático relevante: impossibilita a
identificação do termo a quo do prazo para a impugnação, eis que a intimação, termo inicial
do prazo na lei, é da penhora.
Pelo ensejo, vejamos o efeito suspensivo dos embargos à execução.

1.3. Efeito suspensivo dos embargos

No regime anterior, os embargos tinham efeito suspensivo automaticamente, ope


legis. Bastava o oferecimento dos embargos para que a execução ficasse suspensa, como
dispunha o antigo artigo 791, I, do CPC. Atualmente, a nova redação deste inciso I aponta
para o artigo 739-A, o que significa que o efeito suspensivo dos embargos não mais é
automático:

Michell Nunes Midlej Maron 88


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 791. Suspende-se a execução:


I - no todo ou em parte, quando recebidos os embargos do devedor (art. 739, § 2º);
(Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
I - no todo ou em parte, quando recebidos com efeito suspensivo os embargos à
execução (art. 739-A); (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
(...)”

“Art. 739-A. Os embargos do executado não terão efeito suspensivo. (Incluído


pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º O juiz poderá, a requerimento do embargante, atribuir efeito suspensivo aos
embargos quando, sendo relevantes seus fundamentos, o prosseguimento da
execução manifestamente possa causar ao executado grave dano de difícil ou
incerta reparação, e desde que a execução já esteja garantida por penhora, depósito
ou caução suficientes. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° A decisão relativa aos efeitos dos embargos poderá, a requerimento da parte,
ser modificada ou revogada a qualquer tempo, em decisão fundamentada, cessando
as circunstâncias que a motivaram. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3° Quando o efeito suspensivo atribuído aos embargos disser respeito apenas a
parte do objeto da execução, essa prosseguirá quanto à parte restante. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4° A concessão de efeito suspensivo aos embargos oferecidos por um dos
executados não suspenderá a execução contra os que não embargaram, quando o
respectivo fundamento disser respeito exclusivamente ao embargante. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 5° Quando o excesso de execução for fundamento dos embargos, o embargante
deverá declarar na petição inicial o valor que entende correto, apresentando
memória do cálculo, sob pena de rejeição liminar dos embargos ou de não
conhecimento desse fundamento. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 6° A concessão de efeito suspensivo não impedirá a efetivação dos atos de
penhora e de avaliação dos bens. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Vê-se, então, que o efeito suspensivo dos embargos agora é ope judicis, e só será
concedido se: houver requerimento do embargante; houver prévia penhora; e houver risco
de dano no prosseguimento da execução.
Destarte, não só não é mais automaticamente suspensa a execução, como sequer
pode ser concedido este efeito suspensivo de ofício. O requerimento do embargante é
necessário, segundo Fredie Didier, porque se assemelha em efeitos a uma “antecipação da
tutela” nos embargos, e como a tutela antecipada, para a maior doutrina 15 e para a
interpretação legalista, não pode ser concedida de ofício, aqui também não poderia.
A necessidade de penhora é um requisito para a concessão da suspensão porque o
credor precisa ficar resguardado em seu direito. E a concessão do efeito suspensivo, neste
momento, é protetiva do executado: é uma cautela legal necessária para ambos os lados,
porque se o credor não tem a penhora, o devedor pode fraudar a execução; e se o credor
obtém a penhora, mas não tem efeito suspensivo, o bem penhorado poderá ser alienado, o
que pode levar à frustração do devedor, em eventual provimento dos embargos.
Daí já se colhe o último requisito, qual seja, a presença de risco de dano irreversível,
que é justamente a frustração do direito do devedor em eventual triunfo nos embargos.
Percebe-se uma certa colisão entre o § 1° e o § 6° do artigo supra: enquanto o
primeiro dispõe que a penhora é necessária e prévia, o segundo diz que a concessão não
15
O ministro Luiz Fux entende que a tutela antecipada pode ser prestada de ofício, porque seria uma espécie
de poder implícito: se foi provocado para prover tutela definitiva, nada impede que faça o menos, ou seja,
proveja tutela provisória, de ofício.

Michell Nunes Midlej Maron 89


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

impedirá os atos de penhora. Mas como “impedirá”, no futuro, se a penhora deve ser
prévia, é pressuposto para a concessão do efeito suspensivo?
Alexandre Câmara aponta esta contradição, exatamente nestes termos, mas a
doutrina tem interpretado este § 6° como referente a uma substituição, renovação, ou
repetição da penhora, o que ocorre no futuro, e escaparia à suspensão do processo: mesmo
já tendo sido suspenso, por conta da prévia penhora, novos atos de penhora poderão ser
realizados em plena suspensão.

1.4. Procedimento dos embargos

Os embargos à execução são oferecidos em petição inicial, que segue a regra geral
do CPC. Ofertados, serão autuados em apenso à execução, na forma do artigo 736,
parágrafo único, do CPC:

“Art. 736. O executado, independentemente de penhora, depósito ou caução,


poderá opor-se à execução por meio de embargos. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
Parágrafo único. Os embargos à execução serão distribuídos por dependência,
autuados em apartado, e instruídos com cópias (art. 544, § 1o, in fine) das peças
processuais relevantes. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Se os embargos forem oferecidos em carta precatória, seguir-se-á a previsão do


artigo 747 do CPC, mantendo-se a regra do julgamento no órgão deprecante, à exceção de
quando o deprecado seja praticante dos atos guerreados nos embargos:

“Art. 747. Na execução por carta, os embargos serão oferecidos no juízo


deprecante ou no juízo deprecado, mas a competência para julgá-los é do juízo
deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou defeitos da penhora, avaliação
ou alienação dos bens. (Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

Tomando a distribuição, o primeiro passo do magistrado é verificar se é caso de


rejeição liminar da inicial dos embargos, e três são hipóteses de rejeição, conforme o artigo
739 do CPC:

“Art. 739. O juiz rejeitará liminarmente os embargos:


I - quando intempestivos; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - quando inepta a petição (art. 295); ou (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
III - quando manifestamente protelatórios. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).”

Os incisos I e II são casos já bem conhecidos de rejeição liminar da petição inicial,


que geram extinção sem resolução do mérito. O inciso III, porém, é específico, e trata dos
embargos protelatórios, hipótese que acarreta extinção do feito com resolução do mérito,
ou seja, trata-se de improcedência liminar, semelhante ao famigerado artigo 285-A do CPC:

Michell Nunes Midlej Maron 90


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 285-A. Quando a matéria controvertida for unicamente de direito e no juízo


já houver sido proferida sentença de total improcedência em outros casos idênticos,
poderá ser dispensada a citação e proferida sentença, reproduzindo-se o teor da
anteriormente prolatada. (Incluído pela Lei nº 11.277, de 2006)
§ 1º Se o autor apelar, é facultado ao juiz decidir, no prazo de 5 (cinco) dias, não
manter a sentença e determinar o prosseguimento da ação. (Incluído pela Lei nº
11.277, de 2006)
§ 2º Caso seja mantida a sentença, será ordenada a citação do réu para responder
ao recurso. (Incluído pela Lei nº 11.277, de 2006)”

Repare que a improcedência liminar dos embargos, calcada no artigo 739, III, do
CPC, é de uso muito mais livre e incondicionado do que a improcedência liminar prevista
pelo artigo 285-A: enquanto neste se exige sentença idêntica em caso análogo, nos
embargos a análise do escopo protelatório pode ser inédita, dispensado qualquer paradigma
prévio.
Leonardo Greco diz que se trata, esta hipótese, de uma sentença de mérito em
cognição sumária, induzindo coisa julgada meramente formal. Por isso, o teor poderia se
novamente discutido em uma ação anulatória, por exemplo. Não é interpretação majoritária,
porque tornaria inútil esta rejeição, eis que a anulatória seria quase um passo obrigatório a
suceder este improvimento liminar.
Superada a fase de análise da rejeição sem que esta se opere, o juiz determinará a
citação do exequente, para responder aos embargos. O artigo 740 do CPC assim determina,
mas não apõe ali o termo citação, expressamente:

“Art. 740. Recebidos os embargos, o juiz mandará intimar o credor para impugná-
los no prazo de 10 (dez) dias, designando em seguida a audiência de instrução e
julgamento.
Parágrafo único. Não se realizará a audiência, se os embargos versarem sobre
matéria de direito ou, sendo de direito e de fato, a prova for exclusivamente
documental; caso em que o juiz proferirá sentença no prazo de 10 (dez) dias.”

“Art. 740. Recebidos os embargos, será o exeqüente ouvido no prazo de 15


(quinze) dias; a seguir, o juiz julgará imediatamente o pedido (art. 330) ou
designará audiência de conciliação, instrução e julgamento, proferindo sentença no
prazo de 10 (dez) dias. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. No caso de embargos manifestamente protelatórios, o juiz
imporá, em favor do exeqüente, multa ao embargante em valor não superior a 20%
(vinte por cento) do valor em execução. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).”

Antes da reforma, o artigo supra já falava em intimação do exequente embargado,


mas a doutrina sempre reputou como verdadeira citação. Hoje, o termo “ouvido”
permanece sendo lido como “citado”, pois esta é a natureza da comunicação dos embargos
ao exequente.
Citado, o credor poderá ofertar impugnação aos embargos, que deve ser oferecida
em prazo de quinze dias. Após a resposta, o juiz poderá julgar desde logo o feito, na forma
do julgamento antecipado, do conhecido artigo 330 do CPC, ou determinar a realização de
audiência de conciliação, instrução e julgamento.
Se o exequente embargado não apresentar qualquer resposta, poderá ser considerado
revel? Haverá revelia nos embargos à execução?

Michell Nunes Midlej Maron 91


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A doutrina e a jurisprudência majoritária estabelecem que não há que se falar em


revelia do exequente, mas surge presunção de bom direito do executado – a qual não faz
presumir, de fato, que são verdadeiras as alegações dos embargos. Entenda: o embargado é
também, claro, exequente, e sua posição já lhe confere presunção muito mais forte de que
seu direito seja bom, porque baseado em um título que tem a mesma força de uma sentença
em seu favor. No momento em que não é oferecida resposta aos embargos, surge também
uma presunção de que o embargante tem bom direito, de fato, mas isto, na prática faz
compensadas as presunções: a análise dos argumentos dos embargos será isenta, neste caso,
porque uma presunção anula a outra.
Destarte, prevalece o entendimento de que não há revelia, mas mesmo aqueles que
entendem que há, defendem que não há presunção de veracidade das alegações do
embargante, porque tal presunção seria anulada pela força do título executivo extrajudicial,
carregado de presunção tão ou mais forte do que a do embargante sem resposta.
Alcançando o momento de decisão dos embargos, o juiz proferirá sentença. Caso
esta seja de improcedência (ou de rejeição liminar, qualquer dos casos), o recurso cabível é
o de apelação, que é recebida exclusivamente no efeito devolutivo, como dispõe o artigo
520, V, do CPC:

“Art. 520. A apelação será recebida em seu efeito devolutivo e suspensivo. Será, no
entanto, recebida só no efeito devolutivo, quando interposta de sentença que:
(Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
(...)
V - rejeitar liminarmente embargos à execução ou julgá-los improcedentes;
(Redação dada pela Lei nº 8.950, de 13.12.1994)
(...)”

1.5. Exceções na execução

As exceções de impedimento, incompetência relativa ou suspeição, são cabíveis na


execução, mas a via da exceção será utilizada apenas quando houver outras matérias a
serem enfrentadas em sede de embargos. Quando a única matéria a ser veiculada for uma
das mencionadas – impedimento, por exemplo –, esta será veiculada nos próprios
embargos à execução.
É simples: se a única matéria de defesa for uma das excepcionáveis, deverá ser
deduzida em sede de embargos, que são a via natural de defesa na execução; se outras
matérias, diversas das excepcionáveis, forem ser levadas a juízo, as matérias de exceção
serão apartadas, deduzidas por meio de exceção, de forma que o rito dos embargos não seja
atabalhoado por tais matérias. Esta deve ser a exegese do artigo 742 do CPC:

“Art. 742. Será oferecida, juntamente com os embargos, a exceção de


incompetência do juízo, bem como a de suspeição ou de impedimento do juiz.”

A Fazenda Pública, por sua vez, suscitará o impedimento, a suspeição ou a


incompetência relativa sempre nos próprios embargos, de acordo com o artigo 741, VII, do
CPC:

“Art. 741. Na execução contra a Fazenda Pública, os embargos só poderão versar


sobre: (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)

Michell Nunes Midlej Maron 92


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

VII - incompetência do juízo da execução, bem como suspeição ou impedimento


do juiz.”

1.6. Reconvenção na execução

A reconvenção, propriamente dita, não tem cabimento na execução. Poderiam,


contudo, os embargos serem utilizados para contrapor pedidos em face do exequente,
assumindo papel de reconvenção na execução? Como exemplo, poderia o embargante
deduzir pedido de compensação por danos morais em face do exequente, coligado à
alegação de execução infundada?
A Lei de Execuções Fiscais, no artigo 16, § 3°, permite concluir que a resposta seja
negativa: os embargos só podem se prestar a fulminar o título executivo, e não para
dedução de pedido em face do exequente. Veja:

“Art. 16 - O executado oferecerá embargos, no prazo de 30 (trinta) dias, contados:


(...)
§ 3º - Não será admitida reconvenção, nem compensação, e as exceções, salvo as
de suspeição, incompetência e impedimentos, serão argüidas como matéria
preliminar e serão processadas e julgadas com os embargos.”

1.7. Objeção de não executividade na execução

A exceção de pré-executividade se presta a ventilar matéria de ordem pública,


cognoscível de ofício pelo juiz – independendo de penhora, ou de qualquer garantia,
portanto.
Ocorre que hoje, como se viu, os embargos podem ser oferecidos sem penhora
prévia, na forma do já abordado artigo 736 do CPC. Por isso, a utilidade da exceção de pré-
executividade caiu por terra, neste aspecto de manejo sem penhora, porque o executado
pode manejar logo os embargos sem penhora prévia.
A doutrina, contudo, ainda encontra interesse na exceção de pré-executividade
quando se tratar da perda de prazo dos embargos, ou ainda quando, já embargada a
execução, a matéria de ordem pública precise ser suscitada, e não o foi nos embargos.
Destarte, a exceção de pré-executividade é cabível, mas não conta com efeito
suspensivo da execução, porque como se viu este efeito depende de enquadramento legal
preciso, o que não alcança a exceção.
Oposta a exceção, esta será levada ao exequente, em respeito ao contraditório. O
que não ocorre, jamais, é dilação probatória neste instrumento, porque a matéria é
unicamente de direito, ou comprovada de plano pelo excipiente.

Michell Nunes Midlej Maron 93


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Casos Concretos

Questão 1

Pelo disposto no artigo 736, do Código de Processo Civil, com a redação conferida
pela Lei 11.382/06, os embargos à execução poderão ser oferecidos independentemente de
penhora, depósito ou caução. Se considerarmos que a exceção ou objeção de pré-
executividade surgiu como criação doutrinária para possibilitar ao executado a veiculação
de matérias do tipo ausência de liquidez ou exigibilidade da obrigação, ausência de
condições para o exercício da ação executiva ou ainda ausência de pressupostos
processuais, entre outras matérias, sem a necessidade de garantia prévia do juízo, será
correto concluir que a objeção de pré-executividade perdeu sua relevância e utilidade?

Resposta à Questão 1

Não: a matéria de ordem pública pode ser alegada a qualquer momento, e nisto
reside o interesse na exceção de pré-executividade, pois ela será a via para dedução desta
matéria.

Questão 2

A Fazenda Pública promoveu execução fiscal em face de sociedade anônima e de


dois de seus sócios diretores, uma vez que apurado, em procedimento administrativo, o
excesso de mandato de ambos. Carlos Eduardo, um dos sócios demandados, se utiliza da
objeção de não-executividade, meio processual para a discussão de matéria de ordem
pública em sede de execução, e argüi a sua ilegitimidade ad causam. Alega que jamais
exerceu poderes de gerência na sociedade. Colaciona a sua petição cópia autenticada dos
estatutos da sociedade anônima. Conclusos os autos, o magistrado verifica que dos
estatutos da sociedade anônima, consta a nomeação do Sr. Carlos Eduardo para a
nomeação do cargo de diretor de marketing, porém, não constam suas atribuições. Como
deverá decidir o magistrado? Fundamente.

Resposta à Questão 2

A exceção precisa ser rejeitada, porque a casuística apresentada faz deduzir que seja
necessária a análise de provas, o que não pode ser feito em objeção de não executividade.
A respeito, veja o Resp. 866.632:

Michell Nunes Midlej Maron 94


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“REsp 866632 / MG. DJ 09/02/2007 p. 300.


PROCESSUAL CIVIL. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535 DO
CPC. REEXAME PROBATÓRIO. SÚMULA 7/STJ.
1. Não se verifica no presente feito a apontada contradição do acórdão recorrido. É
certo que a jurisprudência admite a exceção de pré-executividade como meio
processual para discussão de matéria de ordem pública. Entretanto também é
pacífico que a exceção não comporta a discussão de temas que demandem dilação
probatória, reservada ao âmbito dos embargos de devedor. Essas conclusões nada
têm de contraditórias.
2. Não se caracteriza a omissão do aresto que afasta a exceção de pré-
executividade ao fundamento de que o contrato social não esclarece as funções
exercidas por sócio. Ademais, a circunstância não é suficiente para demonstração
da ilegitimidade passiva em sede de execução fiscal.
3. "A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial" (Súmula
07/STJ).
4. Recurso especial conhecido em parte e improvido.”

Michell Nunes Midlej Maron 95


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema X

A execução por quantia certa fundada em título extrajudicial: continuação. Espécie de embargos: a)
conforme a origem do título: embargos à execução contra Fazenda Pública fundada em título judicial e em
título extrajudicial; b) conforme o objeto da execução: embargos oponíveis à execução por quantia certa,
para entrega de coisa e de obrigação de fazer ou de não fazer; c) quanto à repercussão na marcha do
processo de execução: embargos suspensivos e não suspensivos. O procedimento. A petição inicial. Resposta.
Procedimento subseqüente. Os embargos à arrematação e à adjudicação (art. 746) e breves comentários
sobre os embargos de terceiros (art. 1.046).

Notas de Aula16

1. Espécies de embargos

1.1. Em execução contra a Fazenda Pública

Desde logo, cumpre salientar que a execução contra a Fazenda Pública é sempre
fundada em título judicial: simplesmente não existiria execução de título extrajudicial
contra a Fazenda, em interpretação literal do artigos 100, da CRFB:
“Art. 100. à exceção dos créditos de natureza alimentícia, os pagamentos devidos
pela Fazenda Federal, Estadual ou Municipal, em virtude de sentença judiciária,
far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à
conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas
dotações orçamentárias e nos créditos adicionais abertos para este fim.
(...)”

O artigo 730 do CPC, porém, não faz distinção, e se as vias executórias são
unificadas, contra a Fazenda, não há que se fazer diferença, sendo admissível a execução de
título executivo extrajudicial contra esta, portanto.

“Art. 730. Na execução por quantia certa contra a Fazenda Pública, citar-se-á a
devedora para opor embargos em 10 (dez) dias; se esta não os opuser, no prazo
legal, observar-se-ão as seguintes regras: (Vide Lei nº 9.494, de 10.9.1997)
I - o juiz requisitará o pagamento por intermédio do presidente do tribunal
competente;
II - far-se-á o pagamento na ordem de apresentação do precatório e à conta do
respectivo crédito.”

Outro argumento em prol da admissibilidade da execução de título extrajudicial


contra a Fazenda é a irrazoabilidade de se exigir que o portador de um título desta natureza
16
Aula ministrada pelo professor Wilson Marques, em 9/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 96


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

tenha que ajuizar ação de conhecimento, a fim de que se o converta em sentença, e só então
poder satisfazer seu crédito, que já era líquido, certo e exigível desde sempre.
A melhor conclusão, portanto, é que é admissível esta execução contra a Fazenda. A
jurisprudência, sumulada no enunciado 279 do STJ, encampa esta tese:

“Súmula 279, STJ: É cabível execução por título extrajudicial contra a Fazenda
Pública.”

O artigo 730, supra, determina a citação da Fazenda para opor embargos em dez
dias, mas este prazo é de trinta dias, contados da juntada do mandado de citação aos autos.
A matéria dedutível nos embargos, pela Fazenda, é a que consta do artigo 741 do
CPC:

“Art. 741. Na execução contra a Fazenda Pública, os embargos só poderão versar


sobre: (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
I – falta ou nulidade da citação, se o processo correu à revelia; (Redação dada pela
Lei nº 11.232, de 2005)
II - inexigibilidade do título;
III - ilegitimidade das partes;
IV - cumulação indevida de execuções;
V – excesso de execução; (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
VI – qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como
pagamento, novação, compensação, transação ou prescrição, desde que
superveniente à sentença; (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
Vll - incompetência do juízo da execução, bem como suspeição ou impedimento
do juiz.
Parágrafo único. Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo,
considera-se também inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo
declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em
aplicação ou interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal
Federal como incompatíveis com a Constituição Federal. (Redação pela Lei nº
11.232, de 2005)”

Hoje, como se sabe, o efeito suspensivo dos embargos é ope judicis, em regra não
havendo este efeito. Os embargos oferecidos pela Fazenda, porém, têm efeito suspensivo
ope legis, como o era antes da reforma em quaisquer embargos, pois esta é a conclusão a
que faz chegar o artigo 739-A do CPC, já abordado, em conjunto com o acima transcrito
artigo 730. A lógica é a seguinte: o artigo 730 estabelece que o precatório será expedido se
os embargos não forem oferecidos, ou se forem rejeitados. Ora, se só se pode expedir
precatório nesta circunstância, tem-se que a mera apresentação de embargos é a
responsável pelo não prosseguimento da execução, pela não emissão dos precatórios –
tendo, o oferecimento dos embargos, efeito suspensivo automático, portanto.
O procedimento dos embargos opostos pela Fazenda não é diferente dos embargos
opostos por particulares. A única diferença é esta peculiaridade quanto ao efeito suspensivo.

1.2. Em execução de obrigação de dar, fazer ou não fazer

Quanto às obrigações de dar, fazer ou não fazer, a reforma processual em curso


acabou com a execução de título judicial para entrega de coisa, de fazer ou não fazer. Não

Michell Nunes Midlej Maron 97


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

há mais execução: há efetivação do direito. Se esta execução inexiste, é claro que os


embargos inexistem também.
Contudo, há hipótese rara em que o título executivo extrajudicial consigne a
obrigações destas espécies, dar, fazer ou não fazer (como uma confissão de dívida em que o
devedor se obriga a entregar um bem). Sendo assim, como se operará a efetivação destes
direitos?
Haverá, neste caso, a execução do título extrajudicial para a entrega de coisa. Os
embargos a esta execução, neste caso, consistirão basicamente na alegação das matérias do
artigo 745 do CPC, com destaque para o inciso V:

“Art. 745. Nos embargos, poderá o executado alegar: (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
(...)
V - qualquer matéria que lhe seria lícito deduzir como defesa em processo de
conhecimento. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
(...)”

O artigo 621 do CPC é bastante claro quando dispõe que estas obrigações só são
passíveis de execução se constantes de títulos extrajudiciais, nunca judiciais:

“Art. 621. O devedor de obrigação de entrega de coisa certa, constante de título


executivo extrajudicial, será citado para, dentro de 10 (dez) dias, satisfazer a
obrigação ou, seguro o juízo (art. 737, II), apresentar embargos. (Redação dada
pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
Parágrafo único. O juiz, ao despachar a inicial, poderá fixar multa por dia de atraso
no cumprimento da obrigação, ficando o respectivo valor sujeito a alteração, caso
se revele insuficiente ou excessivo. (Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)”

Os embargos podem ser oferecidos sem que haja depósito da coisa, porque a
exigência do artigo 737 do CPC foi revogada, valendo o artigo 736 para a matéria:

“Art. 737. Não são admissíveis embargos do devedor antes de seguro o juízo:
(Revogado pela Lei nº 11.382, de 2006)
I - pela penhora, na execução por quantia certa; (Revogado pela Lei nº 11.382, de
2006)
II - pelo depósito, na execução para entrega de coisa. (Revogado pela Lei nº
11.382, de 2006)”

“Art. 736. O executado, independentemente de penhora, depósito ou caução,


poderá opor-se à execução por meio de embargos. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
Parágrafo único. Os embargos à execução serão distribuídos por dependência,
autuados em apartado, e instruídos com cópias (art. 544, § 1o, in fine) das peças
processuais relevantes. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

O artigo 738 do CPC alude ao prazo destes embargos:

“Art. 738. Os embargos serão oferecidos no prazo de 15 (quinze) dias, contados


da data da juntada aos autos do mandado de citação. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).

Michell Nunes Midlej Maron 98


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 1° Quando houver mais de um executado, o prazo para cada um deles embargar


conta-se a partir da juntada do respectivo mandado citatório, salvo tratando-se de
cônjuges. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° Nas execuções por carta precatória, a citação do executado será
imediatamente comunicada pelo juiz deprecado ao juiz deprecante, inclusive por
meios eletrônicos, contando-se o prazo para embargos a partir da juntada aos autos
de tal comunicação. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3° Aos embargos do executado não se aplica o disposto no art. 191 desta Lei.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”
1.3. Embargos à arrematação e à adjudicação

Estes embargos, chamados de embargos à segunda fase (porque posteriores à hasta


pública), são destinados à alegação de quaisquer causas de nulidade ou causa de extinção
da obrigação. Veja o artigo 746 do CPC:

“Art. 746. É lícito ao executado, no prazo de 5 (cinco) dias, contados da


adjudicação, alienação ou arrematação, oferecer embargos fundados em nulidade
da execução, ou em causa extintiva da obrigação, desde que superveniente à
penhora, aplicando-se, no que couber, o disposto neste Capítulo. (Redação dada
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Oferecidos embargos, poderá o adquirente desistir da aquisição. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º No caso do § 1o deste artigo, o juiz deferirá de plano o requerimento, com a
imediata liberação do depósito feito pelo adquirente (art. 694, § 1o, inciso IV).
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Caso os embargos sejam declarados manifestamente protelatórios, o juiz
imporá multa ao embargante, não superior a 20% (vinte por cento) do valor da
execução, em favor de quem desistiu da aquisição. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).”

1.4. Embargos de terceiros

Estes embargos são opostos por terceiros, que são pessoas alheias ao processo, à
relação processual, não ocupantes de posição processual alguma, nem como parte principal,
nem como secundária.
O terceiro, por vezes, pode ser atingido em seu patrimônio por uma execução com a
qual sequer teve contato. Por exemplo, o adquirente de bens em fraude à execução, ou o
cônjuge, quando responde pelas dívidas do outro, ou ainda o fiador judicial, etc.
Há que se trazer, aqui, a distinção feita por Liebman entre os titulares da
responsabilidade executória primária e os titulares da secundária: aqueles que figuram no
processo, titularizando a relação jurídica de direito material que fez gerar a obrigação
executada, são os devedores primários. Aqueles que não são partes, não tendo titularizado a
relação jurídica material fundadora da execução, mas têm seu patrimônio atingido, são os
responsáveis, devedores secundários. Desta distinção decorre a regra de que os titulares
primários resistem à pretensão executória por meio de embargos do devedor, enquanto os
titulares secundários resistem pela via dos embargos de terceiros.
O terceiro, no entanto, pode se encontrar em duas situações distintas: a de poder
negar a sujeição de seus bens àquela execução, como quando lhe acusam de adquirir em
fraude à execução, e nega esta ocorrência; ou a de não poder negar a sujeição de seus bens
– por exemplo, quando a fraude à execução ocorreu de fato –, caso em que o terceiro ainda

Michell Nunes Midlej Maron 99


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

poderá alegar matérias de defesa do próprio executado, como o pagamento, ou a simples


inexistência da dívida exequenda, por exemplo. Neste segundo caso, o instrumento não é o
embargo de terceiro, e sim o embargo do devedor, oposto por este terceiro, eis que se
encontra em situação análoga à do devedor.

1.5. Embargos suspensivos e não suspensivos

Como dito, ao contrário do regime anterior, os embargos hoje são, em regra, sem
efeito suspensivo da execução. Os embargos terão efeito suspensivo, excepcionalmente,
quando o prosseguimento da execução representar risco de dano irreparável ao executado,
aliado à probabilidade de bom direito deste devedor.
Para que haja a suspensão, ainda, é preciso que haja a garantia do juízo, pela
penhora. A penhora não é pré-requisito para os embargos, mas o é para que estes tenham
efeito suspensivo.
O artigo 739-A do CPC é relevante, especialmente o § 6°, valendo revê-lo:

“Art. 739-A. Os embargos do executado não terão efeito suspensivo. (Incluído


pela Lei nº 11.382, de 2006).
(...)
§ 6º A concessão de efeito suspensivo não impedirá a efetivação dos atos de
penhora e de avaliação dos bens. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

É condição para suspensão a segurança do juízo, sendo a penhora precedente à


suspensão, pelo que o dispositivo parece temporalmente incoerente. Este § 6º, portanto, é
inaplicável, não fazendo sentido algum.

1.6. Procedimento dos embargos

Se os embargos têm natureza de ação, são instrumentalizados por meio de uma


petição inicial. Tratam-se, em essência, de uma defesa ativa, em que o embargante ataca o
exequente. Sendo ação, a petição inicial conta com todos os elementos de qualquer
exordial.
Araken de Assis diz que os embargos se tratam de uma ação, mas há alguns autores
que defendem, minoritariamente, se tratar de um mero incidente processual.
A pretensão deduzida nos embargos é a de liberação dos efeitos da execução: o
embargante almeja uma declaração de que não está sujeito aos efeitos daquela execução. É
uma ação declaratória, portanto – havendo entendimentos diversos, porém.
A inicial deve ser instruída com todos os documentos pertinentes, inclusive as peças
processuais necessárias. Será protocolada em prazo de quinze dias, mas o termo a quo deste
prazo é hoje de difícil definição: antes, contava-se da intimação da penhora; hoje, como a
penhora é dispensada para ajuizamento dos embargos, o prazo deverá contar desde a
juntada do mandado de citação para a execução aos autos.
Havendo pluralidade de executados, ao contrário do litisconsórcio passivo comum,
em que o prazo só corre desde a juntada do último mandado aos autos, devidamente

Michell Nunes Midlej Maron 100


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

cumprido, na execução o prazo flui desde a juntada aos autos de cada um dos mandados,
para o respectivo executado citado.
No processo de conhecimento, como se sabe, a pluralidade de procuradores dos
litisconsortes faz com que o prazo seja contado em dobro; nos embargos, esta duplicação
não ocorre, porque, novamente, os embargos não são defesa formal, são defesa ativa,
ataque, ação. Não se aplica o artigo 191 do CPC:

“Art. 191. Quando os litisconsortes tiverem diferentes procuradores, ser-lhes-ão


contados em dobro os prazos para contestar, para recorrer e, de modo geral, para
falar nos autos.”

Ajuizada a inicial, o juiz fará a sua admissibilidade. Deferindo o processamento,


determinará a citação; indeferindo, prolatará sentença neste sentido, comportando apelação.
Não há diferença da admissibilidade de qualquer inicial, permitindo-se também a emenda,
eventualmente. O elenco para indeferimento da inicial está no artigo 295 do CPC, mas
também o artigo 739 deste diploma traz hipóteses:

“Art. 295. A petição inicial será indeferida: (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
I - quando for inepta; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
II - quando a parte for manifestamente ilegítima; (Redação dada pela Lei nº 5.925,
de 1º.10.1973)
III - quando o autor carecer de interesse processual; (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
IV - quando o juiz verificar, desde logo, a decadência ou a prescrição (art. 219, §
5o); (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
V - quando o tipo de procedimento, escolhido pelo autor, não corresponder à
natureza da causa, ou ao valor da ação; caso em que só não será indeferida, se
puder adaptar-se ao tipo de procedimento legal; (Redação dada pela Lei nº 5.925,
de 1º.10.1973)
Vl - quando não atendidas as prescrições dos arts. 39, parágrafo único, primeira
parte, e 284. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
Parágrafo único. Considera-se inepta a petição inicial quando: (Redação dada pela
Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
I - Ihe faltar pedido ou causa de pedir; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
II - da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; (Redação dada
pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
III - o pedido for juridicamente impossível; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
IV - contiver pedidos incompatíveis entre si. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)”

“Art. 739. O juiz rejeitará liminarmente os embargos:


I - quando intempestivos; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - quando inepta a petição (art. 295); ou (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
III - quando manifestamente protelatórios. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).”

Michell Nunes Midlej Maron 101


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A resposta do exequente embargado é sob a forma de contestação. Nesta, aí sim,


incidem as regras dedicadas às respostas processuais, como a do artigo 191 do CPC, há
pouco transcrito.
Questão antiga que a lei nova não dirimiu diz respeito à revelia do embargado.
Citado, o exequente que não contesta é revel, mas o problema é identificar os efeitos desta
revelia: haverá presunção de veracidade da narrativa da inicial dos embargos?
Na verdade, não é correto dizer que não há esta presunção: ela existe. Contudo, há
uma outra presunção vigente neste processo, que é a que decorre da própria existência do
título executivo: o exequente conta com a presunção, fortíssima, de existência de seu
direito, fundada na existência de um título executivo que é líquido, certo e exigível.
Desta forma, há uma espécie de compensação de presunções, ou seja: há a revelia,
há a presunção de veracidade, mas esta é anulada pela presunção de existência do direito
fundamentada na existência do título executivo, que é muito mais forte. Em última análise,
há a revelia, mas a ficta confessio, efeito material da revelia, não se opera porque a
presunção de bom direito do exequente revel é mais forte. Esta tese é amplamente
prevalente.
Após o momento da contestação, o capítulo dos embargos não traz norma específica
alguma, e por isso segue-se o rito ordinário, regras gerais de suprimento de lacunas. Por
isso, se não houver necessidade de produção de mais provas, o juiz julgará antecipadamente
a lide. Havendo necessidade de maior instrução, esta produzir-se-á normalmente, podendo
haver inclusive audiências de instrução e julgamento, se necessária qualquer prova oral.
Por fim, passa-se à sentença, que é nos moldes de qualquer sentença comum. A
única peculiaridade da sentença dos embargos é a discussão que há sobre sua natureza, que,
como dito, deve ser tida por declaratória.
Sendo julgados procedentes os embargos, a execução poderá ser por isso extinta, se
a sua procedência levar ao reconhecimento de que a extinção é necessária – constata-se o
pagamento integral, por exemplo. Pode, outrossim, prosseguir a execução, se a procedência
dos embargos não acarretar extinção da obrigação – como quando se alega apenas o
excesso de execução, e este é constatado, por exemplo.
O rito recursal dos embargos é similar a qualquer outro de ações cíveis ordinárias,
comportando apelação, embargos infringentes, recursos excepcionais, etc.
O sucumbente nos embargos será condenado ao pagamento das custas e dos
honorários de advogado, como em qualquer ação ordinária. Inclusive, os honorários fixados
na própria execução – e não nos embargos – são tidos por provisórios, sujeitos a condição
resolutiva (procedência de embargos à execução), eis que se os embargos forem
procedentes, serão revogados, por questão de lógica – afinal, a execução era indevida.
Interposta apelação da sentença de embargos, esta não terá efeito suspensivo caso os
embargos tenham sido julgados improcedentes. Se procedentes, é recebida no duplo efeito.
Se a execução não estava suspensa, o que é a regra, a apelação sem efeito
suspensivo faz com que a execução, por óbvio, prossiga – se os embargos foram julgados
improcedentes, e a execução vinha correndo, deve continuar correndo. Igualmente, a
apelação tendo efeito suspensivo da sentença que julgou procedentes os embargos, a
execução que vinha sendo carreada continuará correndo.
Se a execução estava suspensa, e o julgamento dos embargos foi pela procedência,
sendo atacado por apelação com efeito suspensivo, a suspensão da execução permanece: a

Michell Nunes Midlej Maron 102


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

apelação no duplo efeito retira a eficácia da sentença, e a execução que estava parada
continua parada.
Se a execução estava suspensa, mas os embargos foram julgados improcedentes, a
apelação terá efeito meramente devolutivo, e esta sentença de improcedência produzirá
efeitos: a execução que estava suspensa retomará seu curso.
A natureza da execução quando há pendente apelação contra sentença que julgou
improcedentes os embargos do devedor é peculiar. A execução é definitiva, quando a
sentença transitou em julgado, ou quando fundada em título executivo extrajudicial, nos
termos do artigo 587 do CPC:
“Art. 587. É definitiva a execução fundada em título extrajudicial; é provisória
enquanto pendente apelação da sentença de improcedência dos embargos do
executado, quando recebidos com efeito suspensivo (art. 739). (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).”

Ocorre que este artigo faz uma ressalva bastante estranha: se os embargos foram
julgados improcedentes, e a apelação veio a ser recebida com efeito suspensivo, a execução
é considerada provisória. É estranha esta redação, eis que uma execução que era definitiva
só pela força do título extrajudicial, agora, que tem a seu favor também uma decisão de
improcedência do instrumento para sua resistência, passa a ser provisória. A opção
legislativa é realmente incongruente, despropositada.
A sentença que julga os embargos é uma sentença de mérito, eis que a ação é
cognitiva, em busca da tutela judicial de não se submeter àquela execução. Transita em
julgado materialmente e é passível de rescisão, nos casos em que a ação rescisória for
cabível.

1.7. Matérias dedutíveis em embargos

O artigo 745 do CPC traz rol de matérias dedutíveis como fundamentos dos
embargos:

“Art. 745. Nos embargos, poderá o executado alegar: (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
I - nulidade da execução, por não ser executivo o título apresentado; (Incluído pela
Lei nº 11.382, de 2006).
II - penhora incorreta ou avaliação errônea; (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
III - excesso de execução ou cumulação indevida de execuções; (Incluído pela Lei
nº 11.382, de 2006).
IV - retenção por benfeitorias necessárias ou úteis, nos casos de título para entrega
de coisa certa (art. 621); (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
V - qualquer matéria que lhe seria lícito deduzir como defesa em processo de
conhecimento. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Nos embargos de retenção por benfeitorias, poderá o exeqüente requerer a
compensação de seu valor com o dos frutos ou danos considerados devidos pelo
executado, cumprindo ao juiz, para a apuração dos respectivos valores, nomear
perito, fixando-lhe breve prazo para entrega do laudo. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 2º O exeqüente poderá, a qualquer tempo, ser imitido na posse da coisa,
prestando caução ou depositando o valor devido pelas benfeitorias ou resultante da
compensação. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Michell Nunes Midlej Maron 103


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O primeiro argumento é justamente a nulidade da execução pela falta de um dos


seus pressupostos, qual seja, a existência de um título executivo. O que é estranho é que a
lei traga expressamente este pressuposto como causa de procedência dos embargos, mas
silencia quanto aos demais, bem como quanto às condições da ação. Por isso, tem-se
entendido que a leitura deste dispositivo deve ser expansiva, permitindo-se a alegação pelo
embargante de qualquer destas matérias mencionadas, sobre as quais a lei silenciou.
Sobre o excesso de execução, não se pode confundi-lo com o excesso de liquidação:
este ocorre quando se liquida mais do que se condenou, e o recurso, na própria fase de
liquidação, é o caminho para se insurgir contra este excesso. O excesso de execução, por
seu turno, ocorre quando se executa por mais do que se condenou, ou mais do que se
liquidou, e é esta situação que é combatida por meio de embargos à execução. O artigo 743
do CPC enumera, de forma pouco precisa, diga-se, os casos em que há excesso de
execução:

“Art. 743. Há excesso de execução:


I - quando o credor pleiteia quantia superior à do título;
II - quando recai sobre coisa diversa daquela declarada no título;
III - quando se processa de modo diferente do que foi determinado na sentença;
IV - quando o credor, sem cumprir a prestação que Ihe corresponde, exige o
adimplemento da do devedor (art. 582);
V - se o credor não provar que a condição se realizou.”

Em verdade, só há excesso de execução, tecnicamente, no inciso I deste artigo


supra. Os demais, são casos de falta de interesse na execução.
Alegado excesso na execução, o embargante deve apontar, desde logo, quanto
entende que seja realmente devido na execução. Ao alegar excesso, está reconhecendo que
a execução é devida, mas não no montante que lhe é apresentado, pelo que deve demonstrar
qual seja este montante.
O inciso V do artigo 745 é, certamente, o mais relevante, porque estabelece a
possibilidade de que qualquer matéria de defesa que seria dedutível em processo de
conhecimento seja deduzida nos embargos, o que diferencia ainda mais este instrumento da
impugnação ao cumprimento de sentença, em que esta dinâmica não é admissível, eis que
ofenderia à coisa julgada (pois as matérias de processo de conhecimento deveriam ter nele
sido trazidas). Na execução de título extrajudicial, as matérias desta sorte não contaram
com processo de conhecimento prévio à formação do título, como no judicial, pelo que a
única oportunidade para serem alegadas é nos embargos. Isto não transforma os embargos
em defesa: ainda têm natureza de ação, mesmo que a matéria neles veiculada seja de
defesa.
A gama deste inciso V, porém, não é irrestrita. Matérias que naturalmente são
dedutíveis em defesa, como nulidades, por exemplo, podem ser trazidas, mas aquelas que
não seriam matérias de alegação em defesa, e sim de ataque – como as anulabilidades – não
poderiam ser aqui discutidas. A ação de embargos somente pode veicular matéria de defesa,
e não de ataque: mesmo sendo uma ação, em essência deve conter matéria defensiva.

1.8. Parcelamento da dívida exequenda

Michell Nunes Midlej Maron 104


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O artigo 745-A do CPC, inovação da reforma já abordada, permite que o devedor


obtenha o parcelamento de sua dívida, e se preenchidos os requisitos para tanto, este
parcelamento é um direito subjetivo do devedor, dispensando anuência do credor. Reveja:

“Art. 745-A. No prazo para embargos, reconhecendo o crédito do exeqüente e


comprovando o depósito de 30% (trinta por cento) do valor em execução, inclusive
custas e honorários de advogado, poderá o executado requerer seja admitido a
pagar o restante em até 6 (seis) parcelas mensais, acrescidas de correção monetária
e juros de 1% (um por cento) ao mês. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Sendo a proposta deferida pelo juiz, o exeqüente levantará a quantia
depositada e serão suspensos os atos executivos; caso indeferida, seguir-se-ão os
atos executivos, mantido o depósito. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º O não pagamento de qualquer das prestações implicará, de pleno direito, o
vencimento das subseqüentes e o prosseguimento do processo, com o imediato
início dos atos executivos, imposta ao executado multa de 10% (dez por cento)
sobre o valor das prestações não pagas e vedada a oposição de embargos. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).”

O credor, em contrapartida, faz jus à multa de dez por cento, em caso de


inadimplemento do parcelamento, como dita o § 2° do artigo supra.

Michell Nunes Midlej Maron 105


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Casos Concretos

Questão 1

Luciana Barros moveu ação de execução por título extrajudicial em face de José
Peixoto e sua esposa, por falta de pagamento dos alugueres referentes ao imóvel X, sito na
rua Y, nº 8, Centro, nesta cidade. O feito foi distribuído para a 4ª Vara Cível da Capital. Os
locatários executados argüiram, sob a forma de exceção de pré-executividade, a nulidade
do título que embasa a execução por carecer de liquidez e certeza, tendo em vista que a
locação foi prorrogada por tempo indeterminado após expirado o prazo contratual
estabelecido por sentença, e a locadora foi notificada pelo executado acerca da rescisão
do contrato para que recebesse as chaves do imóvel no prazo de 30 dias, prazo este
esgotado e entrega de chaves recusada. Pleitearam também os executados, o
reconhecimento de conexão, pois há em curso, na 2ª Vara Cível da Capital, ação de
consignação em pagamento por recusa injustificada de recebimento dos alugueres do
mesmo imóvel, em face da exeqüente, onde inclusive esta, devidamente citada, recebeu as
chaves. Pediram assim, a reunião dos processos. A autora respondeu impugnando a
reunião dos processos, sustentando decorrer a ação consignatória de um equívoco e que as
partes são diversas, visto que a consignatória teve como autora a sociedade pertencente
aos executados, Marcel Cozinhas LTDA.
1) Sendo você o juiz da 4ª Vara Cível, profira decisão sobre a conexão entre
processo de execução e de conhecimento, fundamentando.
2) Cabível na espécie a exceção de pré-executividade?

Resposta à Questão 1

1) A reunião dos processos, aqui, é desnecessária, eis que a execução não tem
julgamento, propriamente dito, e este é o escopo da reunião de processos, em
regra. Obstar uma ação até que a outra seja julgada, por relação de
prejudicialidade que se perceba, é possível; o que não é necessário é o
julgamento conjunto, a reunião. Há, portanto, conexão por prejudicialidade, e há
suspensão, mas não há reunião ou julgamento conjunto.

2) A exceção de pré-executividade é sempre cabível quando ocorrer a necessidade


de suscitar matéria de ordem pública, cognoscível de ofício. O título executivo,
no caso – contrato de aluguel – não é líquido, por natureza, e é uma exceção

Michell Nunes Midlej Maron 106


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

admissível à regra geral. Esta alegação de iliquidez como defesa, portanto, não
só é improcedente, como não é matéria de exceção de pré-executividade.

Questão 2

Numa execução fiscal, a executada requereu em antecipação de tutela a suspensão


da execução por meio de uma exceção de pré-executividade, com o fim de obter
declaração incidental de inconstitucionalidade da exigência da contribuição ao salário
educação. O INSS, exeqüente, impugnou o pedido antecipatório, pois o instituto da tutela
antecipada não é compatível com a exceção de pré-executividade, e, a exceção, também é
meio impróprio para questionar a constitucionalidade da contribuição. Assiste razão ao
exeqüente? Por quê?

Resposta à Questão 2

A antecipação da tutela, a provisão imediata de algo que se pretende obter no


julgamento final do mérito, não faz qualquer sentido na execução fiscal, porque
simplesmente não há mérito a ser antecipado. O exequente não tem qualquer razão.

Michell Nunes Midlej Maron 107


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Tema XI

Procedimento comum entre a execução fundada em título executivo judicial e extrajudicial. Penhora e
avaliação. Conceito de penhora. Efeitos processuais e materiais. Modificação da penhora: repetição,
ampliação, redução e substituição da penhora. Objeto da penhora. Bens penhoráveis e bens impenhoráveis.
Avaliação: momento e possibilidade de repetição.

Notas de Aula17

1. Penhora

Na execução de título executivo extrajudicial, feita a citação do devedor, este


contará com prazo de três dias para efetuar o pagamento. Pagando a dívida, a execução se
extingue desde logo. Não pagando, passados os três dias, o oficial de justiça será
incumbido, desde logo, de efetuar a penhora dos bens do devedor.
É possível que o exequente tenha indicado, já na inicial, os bens do devedor que
devem ser alvejados, caso em que a penhora recairá sobre tais bens. Não tendo sido
indicados, o oficial de justiça buscará bens penhoráveis no patrimônio do devedor, e neles
imporá o gravame.
O executado deve nomear bens à penhora, eventualmente. Anteriormente, a
nomeação dos bens devia ser feita por ele, e no mesmo prazo para pagamento, que era de
vinte e quatro horas, e não de três dias.
Se não forem localizados bens do devedor, o juiz convocará este executado a sua
presença, a fim de apontar onde se encontram e quais são os seus bens penhoráveis, sob
pena de, omitindo-se sobre tais bens, e sendo eles encontrados adiante, padecer de multa de
até vinte por cento sobre o valor atualizado do débito.
A natureza jurídica da penhora é de ato executório, através do qual se apreendem
bens do patrimônio do devedor a serem empregados na satisfação do crédito do exequente.
Este ato é próprio da execução por quantia certa contra devedor solvente, porque contra o
devedor insolvente, por óbvio, não há o que ser penhorado.
A penhora produz efeitos processuais e materiais. Vejamo-los.

1.1. Efeitos processuais da penhora

17
Aula ministrada pelo professor Wilson Marques, em 9/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 108


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No campo processual, o primeiro efeito é o da individualização dos bens do


devedor que servirão à execução, eis que há bens que não se subsumem à penhora, como é
cediço.
A penhora serve também como garantia da própria execução, deixando claro que o
seguimento do curso da execução não será em vão, ou seja, haverá frutos do trabalho
executório que se leva a cabo.
Outro efeito da penhora é o estabelecimento do direito de preferência, na forma do
artigo 612 do CPC:

“Art. 612. Ressalvado o caso de insolvência do devedor, em que tem lugar o


concurso universal (art. 751, III), realiza-se a execução no interesse do credor, que
adquire, pela penhora, o direito de preferência sobre os bens penhorados.”

Vige aqui o brocardo prius in tempore potior in jure, significando que aquele que
primeiro obtém a penhora tem preferência no pagamento de seu crédito diante daqueles
outros credores que penhoraram o mesmo bem, mas mais tarde. Na insolvência, diga-se,
vigora princípio oposto: o pars conditio creditorum, segundo o qual todos os credores
recebem frações iguais do crédito em execução, na proporção de seus créditos. Este tema
será alvo de estudo dedicado, adiante.
A preempção criada para o exequente pela penhora não afasta, porém, as demais
garantias e privilégios que recaiam sobre o bem penhorado. Estes terão respeitada a sua
garantia, somente após a qual a penhora incidirá.

1.2. Efeitos materiais da penhora

O primeiro efeito material da penhora é privar o devedor da posse direta do bem


penhorado, ainda quando o depositário do bem penhorado seja o próprio executado. A
posse é o poder de fato sobre determinada coisa, permitindo o exercício pleno ou não de
uma ou mais de uma das faculdades que identificam o domínio. Difere da detenção
justamente porque nesta última não há esta liberdade de uso e gozo – e o depositário é
exatamente, e necessariamente, pessoa que não dispõe de uso e gozo da coisa, sendo
portanto detentor, e não possuidor. Poder de fato sem aproveitamento econômico é
detenção, e não posse.
Sendo assim, o executado que tenha bem penhorado em seu poder de fato, não mais
tem posse, tendo mera detenção: tem dever de guarda e restituição do bem no exato estado
do momento em que se lhe transformou a posse em detenção.
Outro efeito material da penhora é tornar ineficazes todos os atos de disposição dos
bens penhorados praticados pelo devedor, em relação ao credor penhorante, dali por diante.
E veja que estes atos de disposição praticados pelo devedor são válidos e eficazes, perante
terceiros; perante o credor, são ineficazes, tidos por inocorridos.
Humberto Theodoro Júnior, dentre outros, defende que a alienação de bem
penhorado (ou qualquer bem sujeito a medidas constritivas) é um caso de fraude à
execução. Esta orientação, porém, não parece ser a mais correta, porque esta alienação nada
produz contra o credor: é-lhe ineficaz, em nada perturbando a satisfação de seu crédito, ao
final. E repare que não se exige, para configuração da ineficácia, a presença dos requisitos
da fraude à execução: basta que o bem esteja penhorado para que sua alienação seja
subjetivamente ineficaz perante o credor.

Michell Nunes Midlej Maron 109


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2. Inovações reformistas da penhora

Antes da reforma, como visto, era o devedor quem tinha o direito de nomear bens
de seu patrimônio para a satisfação do crédito exequendo. Hoje, este direito assiste primeiro
ao credor, e somente após ao devedor (e por fim ao oficial de justiça, quando não houver
indicação de nenhuma das partes).
O artigo 653 do CPC trazia uma espécie de pré-penhora, o arresto, já abordado.
Reveja:

“Art. 653. O oficial de justiça, não encontrando o devedor, arrestar-lhe-á tantos


bens quantos bastem para garantir a execução.
Parágrafo único. Nos 10 (dez) dias seguintes à efetivação do arresto, o oficial de
justiça procurará o devedor três vezes em dias distintos; não o encontrando,
certificará o ocorrido.”

Com a reforma, em que a penhora passou a ser realizada logo no início, no mesmo
momento em que este dispositivo permitia a realização deste arresto, parece que o
dispositivo supra perdeu a sua razão de ser, a não ser que se imagine situação em que o
oficial de justiça arreste cautelarmente desde logo os bens, na citação, e somente após o
prazo de três dias para pagamento se converta este arresto cautelar em penhora – o que é
pouco prático, diga-se. O dispositivo não foi revogado, é fato, mas sua utilidade é quase
nenhuma.
A ordem legal de preferências também sofreu alterações, como se vê no artigo 655
do CPC:

“Art. 655. A penhora observará, preferencialmente, a seguinte ordem: (Redação


dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
I - dinheiro, em espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira;
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - veículos de via terrestre; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
III - bens móveis em geral; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
IV - bens imóveis; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
V - navios e aeronaves; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VI - ações e quotas de sociedades empresárias; (Redação dada pela Lei nº 11.382,
de 2006).
VII - percentual do faturamento de empresa devedora; (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
VIII - pedras e metais preciosos; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
IX - títulos da dívida pública da União, Estados e Distrito Federal com cotação em
mercado; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
X - títulos e valores mobiliários com cotação em mercado; (Redação dada pela Lei
nº 11.382, de 2006).
XI - outros direitos. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Na execução de crédito com garantia hipotecária, pignoratícia ou anticrética,
a penhora recairá, preferencialmente, sobre a coisa dada em garantia; se a coisa
pertencer a terceiro garantidor, será também esse intimado da penhora. (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º Recaindo a penhora em bens imóveis, será intimado também o cônjuge do
executado. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Michell Nunes Midlej Maron 110


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O primeiro lugar ainda é o mesmo, o dinheiro, que é o bem mais líquido que se
pode conceber. Contudo, antes da reforma, falava-se apenas no dinheiro em espécie, e não
nas aplicações financeiras, como hoje consta, o que gera um problema intrincado: o
dinheiro, bem fungível que é, quando depositado, consiste em um contrato de depósito
irregular, depósito de coisa fungível. Este depósito se regula pelo mútuo, e neste contrato,
o CC estabelece que o mutuante transfere ao mutuário o domínio e a propriedade do bem
emprestado. Veja os artigos 645 e 587 do CC:

“Art. 645. O depósito de coisas fungíveis, em que o depositário se obrigue a


restituir objetos do mesmo gênero, qualidade e quantidade, regular-se-á pelo
disposto acerca do mútuo.”

“Art. 587. Este empréstimo transfere o domínio da coisa emprestada ao mutuário,


por cuja conta correm todos os riscos dela desde a tradição.”

Assim, quando o CPC alude ao dinheiro que esteja aplicado, está criando uma outra
hipótese em que a execução recairá sobre bem de terceiro, porque o bem que está
depositado na instituição financeira, enquanto lá estiver, pertence a ela, e não ao
depositante. Por isso, tecnicamente, o que se penhora, quando se busca o dinheiro aplicado,
é o crédito que o devedor possui perante a instituição financeira mutuária. A súmula 328 do
STJ trata bem do tema, deixando claro que todo o numerário que estiver em poder do
banco, por conta do desenho legal do depósito, pertence mesmo ao banco:

“Súmula 328, STJ: Na execução contra instituição financeira, é penhorável o


numerário disponível, excluídas as reservas bancárias mantidas no Banco Central.”

A segunda posição na escala de bens penhoráveis, hoje, é ocupada pelos


automóveis, que outrora encontravam-se em sexto lugar – alteração que foi providência
positiva da reforma. Igualmente positiva é a colocação dos móveis em terceiro lugar, antes
dos imóveis. A nova ordem realmente incrementa a efetividade da execução.
Havendo execução de crédito real, o sistema não se alterou, como se vê no § 1º do
artigo 655 do CPC: o crédito desta natureza fará com que a penhora se concentre no bem
garantidor da dívida – afinal, é para isto que serve a garantia real que fora criada sobre
aquele bem. Veja que a penhora recai preferencialmente sobre o bem, e o que exceda esta
garantia alvejará outros bens do patrimônio, seguindo a ordem legal imposta neste artigo
em comento.
Se o bem dado em garantia for de terceiro, o que é perfeitamente possível, quando
este terceiro tenha prestado a garantia, surge uma questão interessante: qual é a posição que
o terceiro garantidor ocupará na execução do devedor, por ele garantido? É legitimado
passivo na execução contra o devedor?
Humberto Theodoro Júnior diz que sim, e, inclusive, trata-se de litisconsórcio
passivo necessário, se o exequente pretende implicar o bem do terceiro na satisfação de seu
crédito. Contudo, não parece ser a melhor orientação, porque o dispositivo fala em
execução do crédito, e não da garantia: os titulares da relação creditícia são credor e
devedor, e não credor e garantidor.
Quando a penhora recai sobre bem imóvel, a intimação do cônjuge do executado é
necessária, a não ser que se trate de casamento celebrado no regime de separação total de
bens, na forma do artigo 1.647 do CC:

Michell Nunes Midlej Maron 111


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem
autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta:
I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis;
II - pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos;
III - prestar fiança ou aval;
IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam
integrar futura meação.
Parágrafo único. São válidas as doações nupciais feitas aos filhos quando casarem
ou estabelecerem economia separada.”

2.1. Penhora on line

O artigo 655-A do CPC, já transcrito, é a sede deste instituto. Reveja:

“Art. 655-A. Para possibilitar a penhora de dinheiro em depósito ou aplicação


financeira, o juiz, a requerimento do exeqüente, requisitará à autoridade
supervisora do sistema bancário, preferencialmente por meio eletrônico,
informações sobre a existência de ativos em nome do executado, podendo no
mesmo ato determinar sua indisponibilidade, até o valor indicado na execução.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º As informações limitar-se-ão à existência ou não de depósito ou aplicação até
o valor indicado na execução. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° Compete ao executado comprovar que as quantias depositadas em conta
corrente referem-se à hipótese do inciso IV do caput do art. 649 desta Lei ou que
estão revestidas de outra forma de impenhorabilidade. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 3º Na penhora de percentual do faturamento da empresa executada, será
nomeado depositário, com a atribuição de submeter à aprovação judicial a forma
de efetivação da constrição, bem como de prestar contas mensalmente, entregando
ao exeqüente as quantias recebidas, a fim de serem imputadas no pagamento da
dívida. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4º Quando se tratar de execução contra partido político, o juiz, a requerimento do
exeqüente, requisitará à autoridade supervisora do sistema bancário, nos termos do
que estabelece o caput deste artigo, informações sobre a existência de ativos tão-
somente em nome do órgão partidário que tenha contraído a dívida executada ou
que tenha dado causa a violação de direito ou ao dano, ao qual cabe
exclusivamente a responsabilidade pelos atos praticados, de acordo com o disposto
no art. 15-A da Lei no 9.096, de 19 de setembro de 1995. (Incluído pela Lei nº
11.694, de 2008)”

Por intermédio do Banco Central, o juiz da causa requisita informações sobre bens
do executado, que lhe chegarão ao conhecimento pela via do convênio chamado Bacen Jud,
que é o meio de envio dos dados ao juízo, e subsequente bloqueio, pelas mãos deste
magistrado, dos valores depositados.
O inconveniente maior desta medida é que todos os depósitos do devedor ficam
inicialmente bloqueados, e, mesmo que depois a penhora venha a se concentrar em apenas
um, a indisponibilidade do excesso é um tremendo problema para o executado. E mais:
pode recair, o bloqueio, sobre bens impenhoráveis, como a remuneração alimentar do
executado, o que é verdadeiro absurdo.

Michell Nunes Midlej Maron 112


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2.2. Penhora de faturamento

A penhora pode recair também sobre o crédito resultante do faturamento, a penhora


de faturamento, na forma do § 3° do artigo supra. Isto já era admitido pela jurisprudência,
antes mesmo da vigência do dispositivo em questão, e os requisitos para tal providência são
oriundos do que a jurisprudência já exigia, à época. O principal requisito é o não
comprometimento da sobrevida da sociedade executada, pois é claro que a continuidade da
empresa deve ser preservada – permitindo-se o bloqueio em percentual casuístico que deve
ser aferido contabilmente.

2.3. Penhora de bem indivisível

Havendo bem indivisível de que o devedor seja co-proprietário, como se opera a


penhora?
Esta questão é especialmente importante quando se trata de resguardar o quinhão do
cônjuge não devedor. Na constância do casamento, em regra, cada cônjuge responde por
sua dívida, e o modus operandi desta responsabilização apartada, em caso de necessidade
de invasão de bem indivisível, já acarretou muitos problemas no passado.
Duas soluções parecem ser possíveis: a penhora de metade do bem, simplesmente; e
a penhora de todo o bem, apurando-se o valor e repassando metade ao cônjuge não devedor.
Ambos os sistemas apresentam inconvenientes: se se penhorar todo o bem, excutindo-o e
repassando metade ao não devedor, este pode não ter qualquer interesse em haver o valor
do bem, pois tinha muito mais interesse no próprio bem. Se se penhorar apenas metade do
bem, a sua venda em hasta pública será praticamente impossível, eis que provavelmente
ninguém adquirirá metade de um bem indivisível.
A Lei 11.382/06 parece ter solucionado este problema: no artigo 655-B do CPC,
preconiza a norma que a penhora recai sobre o bem inteiro, e seja assim levado à hasta
pública, preferindo desconsiderar a vontade do cônjuge não devedor do que permitir a
excussão desvalorizada (ou mesmo frustrada) de parte do bem. Veja:

“Art. 655-B. Tratando-se de penhora em bem indivisível, a meação do cônjuge


alheio à execução recairá sobre o produto da alienação do bem. (Incluído pela Lei
nº 11.382, de 2006).”

2.4. Substituição da penhora

O artigo 656 do CPC dá a nota:

“Art. 656. A parte poderá requerer a substituição da penhora: (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).
I - se não obedecer à ordem legal; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - se não incidir sobre os bens designados em lei, contrato ou ato judicial para o
pagamento; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
III - se, havendo bens no foro da execução, outros houverem sido penhorados;
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
IV - se, havendo bens livres, a penhora houver recaído sobre bens já penhorados ou
objeto de gravame; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

Michell Nunes Midlej Maron 113


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V - se incidir sobre bens de baixa liquidez; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
VI - se fracassar a tentativa de alienação judicial do bem; ou (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).
VII - se o devedor não indicar o valor dos bens ou omitir qualquer das indicações a
que se referem os incisos I a IV do parágrafo único do art. 668 desta Lei. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º É dever do executado (art. 600), no prazo fixado pelo juiz, indicar onde se
encontram os bens sujeitos à execução, exibir a prova de sua propriedade e, se for
o caso, certidão negativa de ônus, bem como abster-se de qualquer atitude que
dificulte ou embarace a realização da penhora (art. 14, parágrafo único). (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º A penhora pode ser substituída por fiança bancária ou seguro garantia judicial,
em valor não inferior ao do débito constante da inicial, mais 30% (trinta por cento).
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º O executado somente poderá oferecer bem imóvel em substituição caso o
requeira com a expressa anuência do cônjuge. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).”

A substituição da penhora por fiança bancária, permitida no § 2° deste artigo, é


uma boa inovação legal. Isto porque a constrição de determinados bens pode oferecer
inconvenientes tais para o devedor que a sua libertação, sem prejuizo para o credor, deve
ser facultada.

2.5. Bens impenhoráveis

O remanejamento destes bens, no CPC, foi bastante proficiente. Veja os artigos 649
e 650 do CPC, com as redações antigas e as alteradas:

“Art. 649. São absolutamente impenhoráveis:


I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;
II - as provisões de alimento e de combustível, necessárias à manutenção do
devedor e de sua família durante 1 (um) mês;
III - o anel nupcial e os retratos de família;
IV - os vencimentos dos magistrados, dos professores e dos funcionários públicos,
o soldo e os salários, salvo para pagamento de prestação alimentícia;
V - os equipamentos dos militares;
Vl - os livros, as máquinas, os utensílios e os instrumentos, necessários ou úteis ao
exercício de qualquer profissão;
Vll - as pensões, as tenças ou os montepios, percebidos dos cofres públicos, ou de
institutos de previdência, bem como os provenientes de liberalidade de terceiro,
quando destinados ao sustento do devedor ou da sua família;
Vlll - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se estas forem
penhoradas;
IX - o seguro de vida;
X - o imóvel rural, até um modulo, desde que este seja o único de que disponha o
devedor, ressalvada a hipoteca para fins de financiamento agropecuário. (Incluído
pela Lei nº 7.513, de 9.7.1986)
II - os móveis, pertences e utilidades domésticas que guarnecem a residência do
executado, salvo os de elevado valor ou que ultrapassem as necessidades comuns
correspondentes a um médio padrão de vida; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).
III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de
elevado valor; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

Michell Nunes Midlej Maron 114


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IV - os vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações, proventos de


aposentadoria, pensões, pecúlios e montepios; as quantias recebidas por
liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e sua família, os
ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, observado
o disposto no § 3o deste artigo; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros
bens móveis necessários ou úteis ao exercício de qualquer profissão; (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VI - o seguro de vida; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem
penhoradas; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada
pela família; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação
compulsória em educação, saúde ou assistência social; (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).
X - até o limite de 40 (quarenta) salários mínimos, a quantia depositada em
caderneta de poupança. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos, nos termos da lei, por
partido político. (Incluído pela Lei nº 11.694, de 2008)
§ 1° A impenhorabilidade não é oponível à cobrança do crédito concedido para a
aquisição do próprio bem. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° O disposto no inciso IV do caput deste artigo não se aplica no caso de
penhora para pagamento de prestação alimentícia. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).
§ 3° (VETADO). (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

“Art. 650. Podem ser penhorados, à falta de outros bens:


I - os frutos e os rendimentos dos bens inalienáveis, salvo se destinados a
alimentos de incapazes, bem como de mulher viúva, solteira, desquitada, ou de
pessoas idosas;
II - as imagens e os objetos do culto religioso, sendo de grande valor.”

“Art. 650. Podem ser penhorados, à falta de outros bens, os frutos e rendimentos
dos bens inalienáveis, salvo se destinados à satisfação de prestação alimentícia.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. (VETADO) (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Michell Nunes Midlej Maron 115


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Casos Concretos

Questão 1

Os embargos somente terão efeito suspensivo se o embargante requerer, se houver


fumaça do bom direito e perigo na demora e, ainda, se houver garantia do juízo (artigo
739-A, parágrafo 1°, do Código de Processo Civil). Em outras palavras, o efeito
suspensivo depende da garantia do juízo. Por que é, então, que o parágrafo 6° do artigo
739-A do Código de Processo Civil estabelece que a concessão de efeito suspensivo não
impede a efetivação de atos de penhora e avaliação de bens?

Resposta à Questão 1

Este § 6º é simplesmente uma aberração legislativa. Este dispositivo é inaplicável,


ante a exata lógica traçada no enunciado: a suspensão só ocorre se o embargante requerer,
se houver fumaça do bom direito e perigo na demora, e se houver garantia do juízo.

Questão 2

No curso de processo de execução com pretensão fundada em título extrajudicial,


foi realizada pelo credor indicação de bens a serem penhorados, com flagrante violação à
gradação legal trazida pelo artigo 655 do Código de Processo Civil. Pergunta-se:
A) Há alguma possibilidade de a referida nomeação subsistir? Fundamente.
B) Quais critérios deveriam ser utilizados pelo magistrado para verificar a
legalidade do ato? Fundamente.

Resposta à Questão 2

A) O credor não sabe, necessariamente, qual é a posição na gradação que um


determinado bem do devedor ocupa. Sendo assim, até que o devedor suscite a
presença de bem de seu patrimônio em escala primacial, a penhora subsistirá.
Havendo indicação, a substituição se operará.

B) Justamente verificar se há bens em posição anterior na penhora, e, se houver,


permitir a substituição, ou manter a penhora se não houver pedido desta
substituição.

Michell Nunes Midlej Maron 116


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Questão 3

Durante fase de execução, o magistrado indeferiu requerimento de penhora "on-


line", ao argumento de que ele não utilizava o Sistema Bacen Jud e que o convênio
celebrado entre o Banco Central e o Tribunal de Justiça não obrigava o julgador a
cadastrar-se através de senha individual. Ainda que assim o fosse, entendia que a penhora
"on line" pressupunha o esgotamento pelo credor de todas as diligências para apuração do
patrimônio do devedor. Somente após tais providências seria cabível a intervenção do
Poder Judiciário junto aos órgãos públicos para a localização de bens do devedor. Dessa
decisão foi interposto agravo por instrumento (já que a modalidade retida é considerada
pela jurisprudência como incompatível com a execução), sob o fundamento de que o
Sistema Bacen Jud servia para acelerar e facilitar a prestação da atividade jurisdicional e
que, portanto, o magistrado não poderia dele dispor. Como deve ser decidido o agravo?
Fundamente.

Resposta à Questão 3

A penhora on line não é uma faculdade do juiz. Está na lei. É um método de


constrição que se impõe, quando cabível.
Tampouco, diga-se, se exige que haja esgotamento de diligências quaisquer, porque
a penhora desta modalidade já incide sobre dinheiro, que é o primeiro bem penhorável na
ordem legal.

Questão 4

Átila promoveu ação de execução fundada em título extrajudicial em face de


Rodrigo. O oficial de justiça promoveu a penhora e a avaliação de um trator e o executado
permaneceu como depositário judicial do bem na forma do artigo 666, parágrafo 1° do
CPC. Com o julgamento de improcedência dos embargos à execução, o executado foi
intimado a entregar o bem (trator) ou depositar o seu equivalente em dinheiro. Não
atendeu à determinação do juízo, porém, manifestou-se nos autos da execução informando
que o bem havia perecido, sem fornecer prova do alegado. O magistrado da Vara Cível,
diante da ausência de entrega do bem ou de seu equivalente em dinheiro, decretou a prisão
do executado com fundamento no artigo 666, parágrafo 3° do CPC. Correta a decisão do
magistrado, considerando a vedação à prisão civil por dívida constante no Decreto 678 de
06 de novembro de 1992, Pacto de São José da Costa Rica? Fundamente.

Resposta à Questão 4

A prisão do depositário não mais tem amparo, mesmo que a CRFB assim
permitisse, outrora, pelo que até mesmo sem ação própria era possível esta prisão, como
dizia a súmula 619 do STF:

“Súmula 619, STF: A prisão do depositário judicial pode ser decretada no próprio
processo em que se constituiu o encargo, independentemente da propositura de
ação de depósito.”

Michell Nunes Midlej Maron 117


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Ocorre que, após a adesão do Brasil ao Pacto de São José da Costa Rica, que diz
que não é permitida qualquer prisão por dívida, salvo a de alimentos, o STF debateu
diversas vezes a matéria, culminando na posição final de que não mais é tolerável esta
prisão. Veja a ementa do emblemático HC 87.585, do STF:

“HC 87585 / TO – TOCANTINS. HABEAS CORPUS. Relator(a): Min. MARCO


AURÉLIO. Julgamento: 03/12/2008. Órgão Julgador: Tribunal Pleno.
Ementa: DEPOSITÁRIO INFIEL - PRISÃO. A subscrição pelo Brasil do Pacto de
São José da Costa Rica, limitando a prisão civil por dívida ao descumprimento
inescusável de prestação alimentícia, implicou a derrogação das normas
estritamente legais referentes à prisão do depositário infiel.”

Em verdade, surgem hoje duas correntes sobre o tema, no STF: a primeira, reputa o
tratado como norma supralegal – superior à lei ordinária sobre o tema, mas inferior à
CRFB (corrente que prevaleceu); a segunda, que tem status constitucional. Seja pela
primeira, seja pela segunda corrente, a prisão do depositário infiel é hoje inviável: pela
prevalente, é inviável porque a CRFB autoriza, mas as normas infraconstitucionais não
mais regulamentam em que hipóteses, e o pacto, hoje vigente, só permite na prisão por
alimentos.

Michell Nunes Midlej Maron 118


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema XII

Procedimento comum entre a execução fundada em título executivo judicial e extrajudicial. A expropriação
segundo o CPC: adjudicação, alienação por iniciativa particular, alienação em hasta pública e usufruto de
móvel ou imóvel. Possibilidade de alienação por meio eletrônico. Procedimento para cada uma dessas
espécies.

Notas de Aula18

1. Procedimentos comuns da execução de título executivo judicial e extrajudicial

O artigo 475-R do CPC cria a regra que permite a comunhão de procedimentos


executivos em determinados casos:

“Art. 475-R. Aplicam-se subsidiariamente ao cumprimento da sentença, no que


couber, as normas que regem o processo de execução de título extrajudicial.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)”

A fase de expropriação forçada, em que se busca a satisfação efetiva do direito do


credor. A Lei 11.382/06 alterou bastante a concepção destas medidas expropriatórias,
promovendo a sua celeridade. Por exemplo, a arrematação de bens é hoje a ultima ratio, eis
que morosa e gravosa a ambas as partes, preferindo-se outros expedientes mais efetivos.
Criou-se, assim, uma ordem de preferência, em que a adjudicação direta surge
como primeira opção. Esta forma de satisfação do direito se aproxima um pouco da dação
em pagamento, pois o próprio bem penhorado é entregue ao credor. Sendo inviável ou
indesejada a adjudicação, passa-se à segunda alternativa, que é a alienação dos bens
penhorados por iniciativa particular, método mais célere do que a alienação em hasta
pública: tanto o exequente como o executado podem pretender vender o bem, por si
mesmos ou por meio de corretores. Se ainda esta medida de alienação particular for
impossível, aí então será preciso haver a arrematação do bem em hasta pública.
A lei procurou também criar mecanismos modernos de simplificação de cada um
destes procedimentos, como a admissão de meios eletrônicos, e a dispensa de algumas
formalidades que eram meramente burocráticas na arrematação.
Outra inovação na arrematação é a possibilidade de que seja o preço pago
parceladamente, pelo adquirente em hasta pública. É altamente favorável esta medida, eis
que incremente muito os interessados em adquirir o bem.
Além disso, a remição do bem penhorado pelo cônjuge, ascendente ou descendente
do devedor foi abolida. Não se confunda com a remição da execução, que nada mais é do
que o pagamento desta, ainda possível.
18
Aula ministrada pelo professor Wilson Marques, em 10/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 119


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Ao lado da adjudicação, são formas de pagamento a entrega do produto da


expropriação ao exequente, ou seja, o valor em que foi transformado o bem, na alienação
particular ou na arrematação; e a constituição do usufruto sobre bens móveis ou imóveis do
devedor, instituto muito parecido com a anticrese. Neste último, será nomeado
administrador dos rendimentos do credor, proveniente do bem, a fim de paulatinamente
pagar ao credor. Todos estes institutos serão vistos amiúde, adiante.

Nesta seara, a avaliação é ato que ganha destaque. É em função do valor da


avaliação que todos os atos satisfativos se parametrizam – adjudicação, alienação particular
ou arrematação. O valor obtido pelo bem deve ser (quase) sempre igual ou superior ao
medido na avaliação. Quase, porque em segunda abertura para arrematação, o bem será
alienado por qualquer preço, desde que não seja preço vil.
A avaliação é a estimação pecuniária do bem penhorado. É ela que determina o
preço mínimo, em princípio, do bem penhorado.
Outra função da avaliação é permitir que haja uma noção para os interessados dos
lanços que devem efetuar, a fim de saber se o negócio jurídico lhes é favorável.
A avaliação pode ser dispensada, na forma do artigo 684 do CPC:

“Art. 684. Não se procederá à avaliação se:


I - o exeqüente aceitar a estimativa feita pelo executado (art. 668, parágrafo único,
inciso V); (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - se tratar de títulos ou de mercadorias, que tenham cotação em bolsa,
comprovada por certidão ou publicação oficial;”

Existem outros casos em que não haverá avaliação, por questão de lógica: a penhora
de dinheiro é a mais clara hipótese.
O momento da avaliação, agora, é concomitante à penhora: o oficial de justiça é
também avaliador. Surtirá um só auto, de penhora e avaliação.

1.1. Adjudicação

A adjudicação é ato executório através do qual o exequente, ou outro legitimado,


consente em receber aquilo que é devido por meio da obtenção do próprio bem penhorado,
e não do produto de sua venda. É muito similar à dação em pagamento, de fato, mas
adjudicação tem natureza jurídica diversa, porque a dação pressupõe consentimento do
devedor, o que aqui não ocorre (da mesma forma que a arrematação não é compra e venda).
Veja o artigo 685-A do CPC:

“Art. 685-A. É lícito ao exeqüente, oferecendo preço não inferior ao da avaliação,


requerer lhe sejam adjudicados os bens penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 1° Se o valor do crédito for inferior ao dos bens, o adjudicante depositará de
imediato a diferença, ficando esta à disposição do executado; se superior, a
execução prosseguirá pelo saldo remanescente. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).
§ 2° Idêntico direito pode ser exercido pelo credor com garantia real, pelos
credores concorrentes que hajam penhorado o mesmo bem, pelo cônjuge, pelos
descendentes ou ascendentes do executado. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).

Michell Nunes Midlej Maron 120


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 3° Havendo mais de um pretendente, proceder-se-á entre eles à licitação; em


igualdade de oferta, terá preferência o cônjuge, descendente ou ascendente, nessa
ordem. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4° No caso de penhora de quota, procedida por exeqüente alheio à sociedade,
esta será intimada, assegurando preferência aos sócios. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
§ 5° Decididas eventuais questões, o juiz mandará lavrar o auto de adjudicação.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Não pode haver adjudicação por preço inferior ao da avaliação, como se vê.
Como se disse, não mais podem remir o bem o cônjuge, os ascentendes e os
descendentes. Contudo, podem requerer adjudicação, o que faz com que o efeito prático
seja o mesmo.
A legitimação para adjudicar está no caput e no § 2° do artigo supra, mas há que se
perceber uma extensão de legitimação especial no § 4°: a sociedade e os demais sócios
podem pedir adjudicação de cotas de outro sócio que estão penhoradas, preferindo a
terceiros, evitando a entrada de estranhos no quadro social.
Deferida a adjudicação, se houver perfeita coincidência numérica entre o valor do
crédito e o do bem adjudicado, a execução se extingue sem percalços. Se o preço do bem
adjudicado for inferior ou superior ao crédito exequendo, outrossim, há que se solucionar a
diferença: se o bem adjudicado for de valor maior, é preciso que o exequente deposite em
favor do credor o valor que recebeu em excedente; se for menor, a execução prosseguirá
pelo valor faltante.
Pode acontecer, entretanto, de o valor do crédito ser idêntico ou superior ao valor do
bem adjudicado, e ainda assim ser preciso o depósito do valor integral do bem adjudicado
para obter o bem. Assim ocorre quando houver, por exemplo, credores com privilégios reais
sobre o bem. Note que, nesta situação, a adjudicação não representará pagamento, porque o
credor adjudicante simplesmente adquiriu o bem, pagando por ele, ainda persistindo credor
do executado. Quem levantará o depósito são os credores com privilégio, e não o devedor,
por óbvio; restando valor depositado após a satisfação destes credores privilegiados, o
credor que adjudicou o bem prosseguirá na execução, levantando seu próprio depósito
restante, e ainda perseguindo eventual diferença, se houver.
Questão que fraciona a doutrina é quanto à legitimação para adjudicar pelo credor
com garantia real. De um lado – por todos, Humberto Theodoro Júnior –, defende a
doutrina que este credor receberá seu crédito no momento da entrega do produto,
independentemente da propositura de ação hipotecária própria (por exemplo). O seu direito
ao levantamento do produto, fruto de qualquer que seja o método de pagamento, decorre do
próprio direito real que lhe assiste, bastando a exibição da prova de seu privilégio. É
corrente problemática, porque permite que haja o recebimento, por este credor, à revelia de
um crivo processual que permita contraditar seu título de privilégio (um contrato de penhor
falso, por exemplo).
Do outro lado, Frederico Marques entende que o credor privilegiado precisará
propor ação própria de execução, penhorando o mesmo bem garantidor, que alhures é
adjudicado, para pretender levantar o valor com a devida preferência. Assim o é porque
nesta dinâmica, ele estará submetendo o seu título de privilégio ao contraditório, para fixar-
se em um título executivo judicial, ao final. Do contrário, a chance de fraude é severa.

1.1.1. Pressupostos da adjudicação

Michell Nunes Midlej Maron 121


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Primeiro pressuposto é o requerimento do interessado: não existe adjudicação


contra a vontade do credor.
Segundo pressuposto é que a oferta de adjudicação corresponda a preço não inferior
ao da avaliação. O credor exequente pode até adquirir o bem por preço menor do que
avaliado, mas nunca em adjudicação: concorrerá como qualquer outro interessado na
segunda hasta pública de arrematação, se esta ocorrer.
Pode acontecer de haver mais de um candidato à adjudicação: exequente e outro
credor, ou ainda o cônjuge do executado. Neste caso, promover-se-á uma licitação entre os
interessados, e o que oferecer maior valor pelo bem adjudicará a si. Se os lanços forem
iguais, o desempate depende das pessoas envolvidas: se há cônjuge, ascendente ou
descendente interessados, eles preferem ao exequente ou outros.
Se a penhora é de cotas, a sociedade prefere sempre, como dito.
O prazo para adjudicar o bem não está na lei. Quando a lei silencia, a adjudicação
poderá ser requerida depois da avaliação, sendo esta o termo a quo. O termo ad quem,
porém, não é temporal, e sim lógico: só é possível a adjudicação até quando não for
promovida a segunda modalidade de excussão, qual seja, a venda particular ou a hasta
pública. Antes de adentrar nestas modalidades de satisfação, porém, é recomendável que o
juiz questione expressamente às partes interessadas se estas pretendem adjudicar ou não;
após a negativa, passar-se-á à outra modalidade, encerrando-se o prazo para adjudicação.
O juiz deferirá a adjudicação a um interessado, por meio de uma decisão
interlocutória, que pode ser atacada por agravo de instrumento. Aperfeiçoada, lavra-se o
auto de adjudicação, e é expedida a carta de adjudicação, que será hábil a transcrever a
propriedade no registro, se imóvel, ou demandar a entrega, se móvel (por meio de
cumprimento de mandado de entrega).
O registro a ser efetuado no RGI, quando bem imóvel, é aquisitivo do registro,
como é regra geral da transmissão de propriedade de bens imóveis. Todavia, na situação da
adjudicação judicial de bem, escapa-se à regra: a propriedade é transmitida pela emissão da
carta de adjudicação, e não pelo registro: a prova da propriedade se faz pela decisão
judicial, sendo dali constituído o direito. O registro, porém, é ainda necessário, para fins de
publicidade – situação que também se dá na usucapião, por exemplo.

1.2. Alienação por iniciativa particular

Esta modalidade de expropriação forçada, inovação da reforma, se encontra no


artigo 685-C do CPC:

“Art. 685-C. Não realizada a adjudicação dos bens penhorados, o exeqüente


poderá requerer sejam eles alienados por sua própria iniciativa ou por intermédio
de corretor credenciado perante a autoridade judiciária. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
§ 1° O juiz fixará o prazo em que a alienação deve ser efetivada, a forma de
publicidade, o preço mínimo (art. 680), as condições de pagamento e as garantias,
bem como, se for o caso, a comissão de corretagem. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 2° A alienação será formalizada por termo nos autos, assinado pelo juiz, pelo
exeqüente, pelo adquirente e, se for presente, pelo executado, expedindo-se carta

Michell Nunes Midlej Maron 122


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

de alienação do imóvel para o devido registro imobiliário, ou, se bem móvel,


mandado de entrega ao adquirente. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Os Tribunais poderão expedir provimentos detalhando o procedimento da
alienação prevista neste artigo, inclusive com o concurso de meios eletrônicos, e
dispondo sobre o credenciamento dos corretores, os quais deverão estar em
exercício profissional por não menos de 5 (cinco) anos. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).”

A razão de ser desta medida é justamente evitar a próxima espécie de expropriação,


que é a arrematação em hasta pública, procedimento altamente complicado e ineficiente. Só
se cogita da alienação particular se nenhum daqueles a quem é facultado adjudicar se
demonstrar interessado, e só se passa à arrematação se a alienação particular não for ser
procedida. Há uma escala de preferência.
Qualquer bem pode ser expropriado nesta modalidade, móvel ou imóvel. Sendo
imóvel, é possível a ajuda de corretor de imóveis, daqueles cadastrados no tribunal.
O legitimado a requerer a alienação por esta forma, que é o exequente, propõe as
condições do negócio ao juízo, na forma de um esboço do que se pode esperar como
produto da venda particular. O juiz, de posse deste esboço, verificará as condições
propostas, a fim de aferir se é razoável. A venda particular não pode ser procedida por valor
inferior à avaliação pericial do bem, mas veja que mesmo sendo superior, pode ser
insatisfatória, se o mercado demonstrar que o valor potencial do bem pode ser superior.
O juiz, então, deferirá o pedido, se escorreito, com ou sem ressalvas à proposta
apresentada. Fixará o preço, o prazo e as demais condições que entender cabíveis, como a
admissão de garantias, se alienação a prazo. Admitido corretor, este deve ser um daqueles
cadastrados no tribunal.
Levado ao mercado pelo exequente (ou pelo corretor admitido), será colhida a
proposta que surgir, e esta será levada ao juízo para apreciação. Veja que não se tratará de
mais de um esboço, e sim de uma proposta concreta. Se o juiz encontrá-la satisfatória,
determinará a lavratura de um termo nos autos, corporificando processualmente aquela
proposta, que se tornará, a partir dali, um ato executório oficial.
Neste passo, será expedida uma carta de alienação, equivalente processual à carta
de adjudicação ou de arrematação, quando se tratar de bem imóvel, capaz de promover a
transcrição do registro de imóveis. Tratando-se de bem móvel, será expedida carta de
entrega. Expedida a carta, de qualquer espécie, está expropriado o bem.

1.3. Arrematação em hasta pública

Esta última modalidade de expropriação forçada a ser apresentada é também a


última preferível. Veja o artigo 686 do CPC:

“Art. 686. Não requerida a adjudicação e não realizada a alienação particular do


bem penhorado, será expedido o edital de hasta pública, que conterá: (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
I - a descrição do bem penhorado, com suas características e, tratando-se de
imóvel, a situação e divisas, com remissão à matrícula e aos registros; (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - o valor do bem; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

Michell Nunes Midlej Maron 123


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

III - o lugar onde estiverem os móveis, veículos e semoventes; e, sendo direito e


ação, os autos do processo, em que foram penhorados; (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
IV - o dia e a hora de realização da praça, se bem imóvel, ou o local, dia e hora de
realização do leilão, se bem móvel; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
V - menção da existência de ônus, recurso ou causa pendente sobre os bens a
serem arrematados; (Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
VI - a comunicação de que, se o bem não alcançar lanço superior à importância da
avaliação, seguir-se-á, em dia e hora que forem desde logo designados entre os dez
e os vinte dias seguintes, a sua alienação pelo maior lanço (art. 692). (Redação
dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
§ 1° No caso do art. 684, II, constará do edital o valor da última cotação anterior à
expedição deste. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
§ 2° A praça realizar-se-á no átrio do edifício do Fórum; o leilão, onde estiverem os
bens, ou no lugar designado pelo juiz. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
§ 3° Quando o valor dos bens penhorados não exceder 60 (sessenta) vezes o valor
do salário mínimo vigente na data da avaliação, será dispensada a publicação de
editais; nesse caso, o preço da arrematação não será inferior ao da avaliação.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

A arrematação não é uma compra e venda. Não é correto se falar em venda em hasta
pública judicial, porque para haver compra e venda, que é contrato, é imperativo o
consenso, o que passa longe daqui, vez que estamos em sede de expropriação forçada do
bem. Esta diferenciação, muito correta, só foi feita em 1855, na obra de Paula Batista, em
seu compêndio de processo civil, porque até então se entendia que havia consenso entre
executado e adquirente, sendo que o executado era apenas representado pelo juiz – o que
definiria a operação como compra e venda.
Hoje, então, não se fala mais em venda em hasta pública judicial: a arrematação é
ato executório de excussão forçada. Há dois atos unilaterais: um, do juiz, expropriando o
bem; outro, do adquirente, manifestando interesse em pagar o preço – o que não significa
que surja um último ato bilateral, muito menos consensual.

1.3.1. Atos preparatórios

A estrutura material da arrematação é de um ato complexo, resultante de uma soma


de atos. A primeira etapa da arrematação é a dos atos preparatórios, dos quais consta a
avaliação como principal. A seguir, é necessária a publicação de editais e avisos, noticiando
ao público que, em determinado dia, hora e local, aquele determinado bem será levado à
hasta pública – em primeira e, eventualmente, segunda praça ou leilão. Veja que além dos
editais é necessário que haja avisos dirigidos a determinadas pessoas, que têm direito à
notificação pessoal da hasta a ser procedida.
A publicação dos editais tem a finalidade de divulgar a hasta pública, na esperança
de quanto maior o número de pessoas cientes, maior o número de interessados acorrerão ao
ato, proporcionando atingir maior preço pelo bem. Os elementos dos editais estão no artigo
686, supra, mas o mais relevante é o que vem consignado no inciso V: o edital deve fazer
menção à existência de ônus, recurso ou causa pendente sobre os bens a serem arrematados.
A questão que surge é quanto à definição do que seja considerado recurso pendente.
Até 2002, este recurso se tratava apenas daquele que impugnava a sentença que
julgou os embargos do devedor. O artigo se referia apenas à apelação interposta da sentença

Michell Nunes Midlej Maron 124


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

que julgou os embargos, e não àquela interposta contra a sentença exequenda, porque
simplesmente não existia possibilidade de se levar bens à hasta pública em execução
provisória: nesta, o ponto em que se parava o procedimento era justamente este, da
arrematação. Em 2002, com a Lei 10.444, o artigo 588, II, do CPC (cuja previsão resta
consubstanciada no artigo 475-O, III, do CPC, hoje), passou a admitir a arrematação em
hasta pública na execução provisória, na qual podem ser levados a cabo todos os atos de
excussão, com a só diferença de que o levantamento dos valores depende de caução.
“Art. 588. A execução provisória da sentença far-se-á do mesmo modo que a
definitiva, observadas as seguintes normas: (Redação dada pela Lei nº 10.444, de
7.5.2002) (Revogado pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
II - o levantamento de depósito em dinheiro, e a prática de atos que importem
alienação de domínio ou dos quais possa resultar grave dano ao executado,
dependem de caução idônea, requerida e prestada nos próprios autos da execução;
(Redação dada pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002) (Revogado pela Lei nº 11.232, de
2005)
(...)”

“Art. 475-O. A execução provisória da sentença far-se-á, no que couber, do mesmo


modo que a definitiva, observadas as seguintes normas: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
(...)
III – o levantamento de depósito em dinheiro e a prática de atos que importem
alienação de propriedade ou dos quais possa resultar grave dano ao executado
dependem de caução suficiente e idônea, arbitrada de plano pelo juiz e prestada
nos próprios autos. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
(...)”

O recurso a que se refere o artigo 686, V, do CPC, então, pode ser tanto o da
sentença que julga os embargos do devedor quanto o da sentença exequenda.
Ainda quanto a esta fase, a intimação do executado, um dos que devem ser avisados
especialmente da arrematação, devia ser pessoal. Sem tal aviso pessoal, não se poderia
realizar a arrematação, sob pena de nulidade. A reforma alterou esta circunstância, fazendo
com que a intimação seja devida apenas na pessoa do advogado do executado, a fim de
evitar burla ao procedimento pelo executado que se furtava à intimação. Se o executado não
tiver advogado nos autos, somente então, deverá ser intimado pessoalmente, pois deve ser-
lhe facultado remir a execução.
Não encontrado o devedor, por estar em local incerto, a jurisprudência permite a
intimação por edital, mesmo já tendo havido o edital para ciência geral – que parece um
descompasso, eis que se já houve edital, não faz sentido uma nova comunicação idêntica.
A ausência de intimação do devedor é causa de nulidade absoluta da arrematação.
Além do devedor, o artigo 698 do CPC – que se aplica a todas as modalidades de
alienação judicial – impõe a intimação também de outras pessoas, diretamente relacionadas
àquele bem:

“Art. 698. Não se efetuará a adjudicação ou alienação de bem do executado sem


que da execução seja cientificado, por qualquer modo idôneo e com pelo menos 10
(dez) dias de antecedência, o senhorio direto, o credor com garantia real ou com
penhora anteriormente averbada, que não seja de qualquer modo parte na
execução. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Michell Nunes Midlej Maron 125


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Com relação ao credor hipotecário, há uma particularidade: a sua intimação é


necessária como condição de extinção da própria hipoteca, porque a arrematação tem este
efeito (de extinguir a hipoteca). Assim, o credor hipotecário vai exercer seus direitos sobre
o produto da alienação, eis que o bem imóvel passará livre e desembaraçado ao adquirente;
para tanto, precisa ser cientificado para o exercício de tais direitos.
A falta de intimação do senhorio direto, do credor com garantia real ou com penhora
anterior, segundo o artigo 619 do CPC, é a ineficácia da alienação:

“Art. 619. A alienação de bem aforado ou gravado por penhor, hipoteca, anticrese
ou usufruto será ineficaz em relação ao senhorio direto, ou ao credor pignoratício,
hipotecário, anticrético, ou usufrutuário, que não houver sido intimado.”

Sendo ineficaz, é válida para o adquirente, mas é ineficaz perante os não intimados:
mantêm sua condição de credores especiais. No entanto, o artigo 694 do CPC dispõe de
forma bem diferente, ao remeter ao artigo 698 supra no seu § 1°, VI:

“Art. 694. Assinado o auto pelo juiz, pelo arrematante e pelo serventuário da
justiça ou leiloeiro, a arrematação considerar-se-á perfeita, acabada e irretratável,
ainda que venham a ser julgados procedentes os embargos do executado. (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1° A arrematação poderá, no entanto, ser tornada sem efeito: (Renumerado com
alteração do paragrafo único, pela Lei nº 11.382, de 2006).
I - por vício de nulidade; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - se não for pago o preço ou se não for prestada a caução; (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).
III - quando o arrematante provar, nos 5 (cinco) dias seguintes, a existência de
ônus real ou de gravame (art. 686, inciso V) não mencionado no edital; (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
IV - a requerimento do arrematante, na hipótese de embargos à arrematação (art.
746, §§ 1o e 2o); (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
V - quando realizada por preço vil (art. 692); (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).
VI - nos casos previstos neste Código (art. 698). (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).
§ 2° No caso de procedência dos embargos, o executado terá direito a haver do
exeqüente o valor por este recebido como produto da arrematação; caso inferior ao
valor do bem, haverá do exeqüente também a diferença. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).”

Ser tornada sem efeito, aqui, será desfeita, ou seja, nulificada. Há, portanto, uma
antinomia entre as normas: uma diz que é ineficaz; outra, que é nula. Assim se soluciona:
aqueles não intimados podem requerer a realização de nova hasta pública, fazendo
prevalecer o artigo 694 do CPC, ou podem preferir que não se anule, mantendo-se a hasta
feita, mas exercendo seu direito correspondente, ante a ineficácia – prevalecendo, então, o
artigo 619 do CPC (se a arrematação foi feita por bom preço, por exemplo). A opção
favorece ao credor não intimado, sendo deixada a seu critério.

1.3.2. Licitação

A segunda etapa da arrematação é a licitação: trata-se da colheita real de ofertas


pelo bem que está sendo objeto de arrematação. Quem mais pagar pelo bem, o haverá para

Michell Nunes Midlej Maron 126


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

si – será o licitante vencedor. Será praça, se bem imóvel, e leilão, se móvel, distinção de
nomenclatura que não faz qualquer sentido.
Na primeira praça ou leilão se apurará valor igual ou superior ao da avaliação. Não
havendo oferta que alcance esta pretensão, será procedida segunda praça ou leilão, que se
contentará com proposta inferior ao valor de avaliação do bem – desde que não seja preço
vil.
Terminada a licitação, o licitante vencedor obterá o auto de arrematação – terceira
etapa da arrematação – considerando-se realizada, de então, a excussão do bem.
O pagamento do preço pelo arrematante pode ser de forma imediata, assim que
declarado vencedor seu lanço, ou em prazo de quinze dias, desde que preste caução. Veja o
artigo 690 do CPC:

“Art. 690. A arrematação far-se-á mediante o pagamento imediato do preço pelo


arrematante ou, no prazo de até 15 (quinze) dias, mediante caução. (Redação dada
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1° Tratando-se de bem imóvel, quem estiver interessado em adquiri-lo em
prestações poderá apresentar por escrito sua proposta, nunca inferior à avaliação,
com oferta de pelo menos 30% (trinta por cento) à vista, sendo o restante garantido
por hipoteca sobre o próprio imóvel. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° As propostas para aquisição em prestações, que serão juntadas aos autos,
indicarão o prazo, a modalidade e as condições de pagamento do saldo. (Redação
dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3° O juiz decidirá por ocasião da praça, dando o bem por arrematado pelo
apresentante do melhor lanço ou proposta mais conveniente. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
§ 4° No caso de arrematação a prazo, os pagamentos feitos pelo arrematante
pertencerão ao exeqüente até o limite de seu crédito, e os subseqüentes ao
executado. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

O pagamento dos tributos incidentes sobre os bens imóveis levados à arrematação é


regido pelo artigo 130 do CTN:

“Art. 130. Os créditos tributários relativos a impostos cujo fato gerador seja a
propriedade, o domínio útil ou a posse de bens imóveis, e bem assim os relativos a
taxas pela prestação de serviços referentes a tais bens, ou a contribuições de
melhoria, subrogam-se na pessoa dos respectivos adquirentes, salvo quando conste
do título a prova de sua quitação.
Parágrafo único. No caso de arrematação em hasta pública, a sub-rogação ocorre
sobre o respectivo preço.”

A regra é que quem responde são os adquirentes, em negócios jurídicos usuais, mas
na hasta pública a situação é diferente: a subrogação do valor incide sobre o preço, e não na
pessoa do adquirente: é do preço pago que será descontado o valor dos tributos, ou seja,
quem, suporta, efetivamente, o peso dos tributos é o alienante.
Normalmente, podem arrematar bens em hasta pública aqueles que estejam em
plena administração de seus bens, sem qualquer restrição – inclusive o próprio exequente,
que pode preferir arrematar do que adjudicar, esperançoso em obter preço menor. Contudo,
há pessoas que são proibidas de arrematar, como dispõe o artigo 690-A do CPC:

“Art. 690-A. É admitido a lançar todo aquele que estiver na livre administração de
seus bens, com exceção: (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).

Michell Nunes Midlej Maron 127


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I - dos tutores, curadores, testamenteiros, administradores, síndicos ou liquidantes,


quanto aos bens confiados a sua guarda e responsabilidade; (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
II - dos mandatários, quanto aos bens de cuja administração ou alienação estejam
encarregados; (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
III - do juiz, membro do Ministério Público e da Defensoria Pública, escrivão e
demais servidores e auxiliares da Justiça. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. O exeqüente, se vier a arrematar os bens, não estará obrigado a
exibir o preço; mas, se o valor dos bens exceder o seu crédito, depositará, dentro de
3 (três) dias, a diferença, sob pena de ser tornada sem efeito a arrematação e, neste
caso, os bens serão levados a nova praça ou leilão à custa do exeqüente. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Lavrado o auto de arrematação, são produzidos os documentos necessários à prova


desta arrematação. Antes, aguardava-se vinte e quatro horas, a fim de que a remição fosse
oportunizada; hoje, a lavratura é imediata. Veja o artigo 693 do CPC, antes e depois da
reforma:

“Art. 693. A arrematação constará de auto, que será lavrado 24 (vinte e quatro)
horas depois de realizada a praça ou o leilão.”

“Art. 693. A arrematação constará de auto que será lavrado de imediato, nele
mencionadas as condições pelas quais foi alienado o bem. (Redação dada pela Lei
nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. A ordem de entrega do bem móvel ou a carta de arrematação do
bem imóvel será expedida depois de efetuado o depósito ou prestadas as garantias
pelo arrematante. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

A propriedade é adquirida desde quando há a decisão judicial considerando acabada


a arrematação, e não com o registro, mesmo no caso de imóveis.
O artigo 694 do CPC, há pouco transcrito, fala da oposição de embargos pelo
executado, mas, como dito, a arrematação só se torna sem efeito nos casos arrolados nos
incisos do § 1° deste artigo. Tais embargos são aqueles do artigo 746 do CPC:

“Art. 746. É lícito ao executado, no prazo de 5 (cinco) dias, contados da


adjudicação, alienação ou arrematação, oferecer embargos fundados em nulidade
da execução, ou em causa extintiva da obrigação, desde que superveniente à
penhora, aplicando-se, no que couber, o disposto neste Capítulo. (Redação dada
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1° Oferecidos embargos, poderá o adquirente desistir da aquisição. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° No caso do § 1o deste artigo, o juiz deferirá de plano o requerimento, com a
imediata liberação do depósito feito pelo adquirente (art. 694, § 1o, inciso IV).
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3° Caso os embargos sejam declarados manifestamente protelatórios, o juiz
imporá multa ao embargante, não superior a 20% (vinte por cento) do valor da
execução, em favor de quem desistiu da aquisição. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).”

1.3.3. Hasta pública eletrônica

Michell Nunes Midlej Maron 128


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O artigo 619-A do CPC permite a realização da hasta pública por meio eletrônico,
pela internet. Veja:

“Art. 689-A. O procedimento previsto nos arts. 686 a 689 poderá ser substituído, a
requerimento do exeqüente, por alienação realizada por meio da rede mundial de
computadores, com uso de páginas virtuais criadas pelos Tribunais ou por
entidades públicas ou privadas em convênio com eles firmado. (Incluído pela Lei
nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. O Conselho da Justiça Federal e os Tribunais de Justiça, no
âmbito das suas respectivas competências, regulamentarão esta modalidade de
alienação, atendendo aos requisitos de ampla publicidade, autenticidade e
segurança, com observância das regras estabelecidas na legislação sobre
certificação digital. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Ainda não se vê aplicação prática desta forma de execução, mas tudo caminha para
que seja o método usual no futuro. Os atos de alienação serão todos feitos de forma
eletrônica, mas com o mesmo conteúdo.

1.4. Usufruto de móvel ou imóvel

O CPC traz como modalidade de execução a constituição de usufruto em favor do


credor, o que se assemelha bastante ao instituto da anticrese, para efeitos de satisfação do
crédito.
O usufruto se opera pela entrega do bem ao credor para, através da colheita dos
rendimentos que este gere, vá se pagando ao longo do tempo, amortizando a dívida. Paga a
integralidade da dívida, pelos frutos do bem dado em usufruto, finda-se o usufruto. Esta
medida pode ser a melhor, porque menos gravosa ao devedor, que não perde o bem.
Antigamente, havia o usufruto de empresa, o que era inaplicável na praxe; e não
havia o usufruto de bem móvel, que é um pouco mais factível. Exemplo que poderia ser
vislumbrado na prática é o do usufruto sobre um táxi do devedor: os frutos do táxi pagariam
a dívida, e não a alienação do próprio táxi.
Veja os artigos 716 a 724 do CPC, pontualmente comentados:

“Art. 716. O juiz pode conceder ao exeqüente o usufruto de móvel ou imóvel,


quando o reputar menos gravoso ao executado e eficiente para o recebimento do
crédito. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

O usufruto não pode ser concedido ex officio: deve ser requerido pelo exequente.
Requerido, abrirá o juiz para contraditório pelo executado, que pode não desejar esta forma
de execução.
“Art. 717. Decretado o usufruto, perde o executado o gozo do móvel ou imóvel,
até que o exeqüente seja pago do principal, juros, custas e honorários advocatícios.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

“Art. 718. O usufruto tem eficácia, assim em relação ao executado como a


terceiros, a partir da publicação da decisão que o conceda. (Redação dada pela Lei
nº 11.382, de 2006).”

“Art. 719. Na sentença, o juiz nomeará administrador que será investido de todos
os poderes que concernem ao usufrutuário.

Michell Nunes Midlej Maron 129


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Parágrafo único. Pode ser administrador:


I - o credor, consentindo o devedor;
II - o devedor, consentindo o credor.”
A decisão que impõe o usufruto não necessariamente é uma sentença, sendo mesmo
uma decisão interlocutória, apesar de assim a chamar o dispositivo supra.
“Art. 720. Quando o usufruto recair sobre o quinhão do condômino na co-
propriedade, o administrador exercerá os direitos que cabiam ao executado.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

“Art. 721. E lícito ao credor, antes da realização da praça, requerer-lhe seja


atribuído, em pagamento do crédito, o usufruto do imóvel penhorado.”

“Art. 722. Ouvido o executado, o juiz nomeará perito para avaliar os frutos e
rendimentos do bem e calcular o tempo necessário para o pagamento da dívida.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1° Após a manifestação das partes sobre o laudo, proferirá o juiz decisão; caso
deferido o usufruto de imóvel, ordenará a expedição de carta para averbação no
respectivo registro. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2° Constarão da carta a identificação do imóvel e cópias do laudo e da decisão.
(Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

“Art. 723. Se o imóvel estiver arrendado, o inquilino pagará o aluguel diretamente


ao usufrutuário, salvo se houver administrador.”

“Art. 724. O exeqüente usufrutuário poderá celebrar locação do móvel ou imóvel,


ouvido o executado. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. Havendo discordância, o juiz decidirá a melhor forma de
exercício do usufruto. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

A similaridade com a anticrese é notável, muito mais do que a própria definição de


usufruto.

Michell Nunes Midlej Maron 130


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Casos Concretos

Questão 1

Em execução por quantia certa contra devedor solvente encontra-se penhorado


certo bem, cujo valor foi fixado na avaliação em cem mil reais. No primeiro leilão não
houve lanço que alcançasse o valor da avaliação, designando-se um segundo leilão. No
segundo leilão, houve um lanço no valor de trinta mil reais, aceito pelo leiloeiro. O
executado, no entanto, impugna o ato, afirmando que o preço é vil, requerendo a
observância do artigo 692, do CPC. Está correto o executado?

Resposta à Questão 1

A questão impõe a exegese do que seja preço vil, conceito jurídico indeterminado.
Há um claro subjetivismo, mas a jurisprudência tem definido que é vil aquele preço inferior
a sessenta por cento do valor de avaliação, havendo quem decida ser vil apenas aquele
preço inferior a cinquenta, ou, no mínimo, quarenta por cento. Uma boa média para não ser
vil é superar cinquenta por cento.
No caso, o preço é claramente vil: trinta por cento do valor de avaliação é muito
pouco. Na jurisprudência, não se encontra admissão de valores inferiores a quarenta por
cento do valor avaliado. Está correto o executado, e por isso a alienação deve ser
invalidada, na forma do artigo 692 do CPC:

“Art. 692. Não será aceito lanço que, em segunda praça ou leilão, ofereça preço
vil. (Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
Parágrafo único. Será suspensa a arrematação logo que o produto da alienação dos
bens bastar para o pagamento do credor. (Incluído pela Lei nº 8.953, de
13.12.1994).”

Questão 2

A Lei n° 11.382/06 criou uma nova modalidade de expropriação dos bens


penhorados em fase executiva ou processo autônomo de execução. Trata-se da alienação
por iniciativa do particular, instituto regulado no artigo 685-C do Código de Processo
Civil e seus parágrafos. Acerca desse instituto, pergunta-se:
A) Como deverá proceder o magistrado quando um credor, com garantia real,
requerer a adjudicação com fundamento no parágrafo 2° do artigo 685-A do
Código de Processo Civil e o exeqüente requerer a alienação por iniciativa
particular de que trata o artigo 685-C do Código de Processo Civil? Há alguma
ordem legal de preferência a incidir sobre os meios expropriatórios?
B) A alienação por iniciativa particular depende de requerimento do exeqüente ou,
uma vez manifestado o desinteresse do exeqüente pela adjudicação, poderá o
magistrado determiná-la ex officio?

Michell Nunes Midlej Maron 131


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C) Se o exeqüente optar pela utilização de corretor de sua confiança, que não


esteja credenciado junto ao tribunal na forma do artigo 685-C e parágrafo 3° do
Código de Processo Civil, a comissão devida poderá ser incluída nos custos
processuais da execução a serem suportados pelo executado?
D) Se o termo de que trata o parágrafo 2° do artigo 685-C não for assinado pelo
executado presente ao ato, este ter-se-á aperfeiçoado, terá validade?

Resposta à Questão 2

A) A ordem é imperativa: se o caso é de adjudicação, não se pode proceder à


alienação por iniciativa particular, tampouco à arrematação. Somente não sendo
caso de adjudicação, quer porque não requerida, quer porque pedida de forma
irregular, é que se encaminhará à alienação por iniciativa particular.
B) A opção pela alienação por iniciativa particular é dada ao exequente, à primeira
leitura do artigo 685-C, já visto, e por isso não seria dado ao executado ou ao
juiz requerer esta modalidade de satisfação. Contudo, a interpretação literal do
dispositivo não pode ser obtusa, e por isso, em apreço à isonomia processual e à
menor gravosidade para o executado, poderá ser empreendido este meio a
requerimento do executado ou ex officio pelo juiz.
Vale ressaltar, porém, que se o exequente não requereu esta modalidade,
ele não pode sofrer a incumbência de arcar com seus custos.
C) Depende. Se no programa previamente proposto pelo interessado e aprovado
pelo juiz, já houver sido estabelecida a comissão do corretor, esta se torna parte
das custas do processo – e quem pagará as custas é o executado. Outrossim,
pode ser que o interessado na alienação particular não consigne esta parcela no
plano de alienação, por crer desnecessária a corretagem, mas posteriormente
precisa se valer de um corretor, por dificuldades na venda: neste caso, não
poderá este custo ser levado ao processo, devendo ser suportado pelo próprio
interessado.
D) Claro que sim, porque se fosse condicionada a validade do ato à assinatura do
executado, este teria o poder de frustrar, de mão própria, o aperfeiçoamento do
ato. Mesmo sem a assinatura do executado, o ato se aperfeiçoa, validamente.

Michell Nunes Midlej Maron 132


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Tema XIII

Procedimento comum entre a execução fundada em título executivo judicial e extrajudicial. A suspensão e a
extinção do processo de execução autônomo ou da fase executiva.

Notas de Aula19

1. Suspensão e extinção do processo de execução autônomo ou da fase executiva

Com a sua suspensão, a execução não deixa de existir, e não deixa de produzir
efeitos: apenas deixa de caminhar aos atos subseqüentes àquele momento em que se
suspendeu. Cessada a causa da suspensão, o processo retomará o percurso exatamente de
onde estava.
A causa da suspensão do processo, entretanto, pode eventualmente se converter em
uma causa de extinção. Imagine-se, por exemplo, a suspensão provocada pela oposição de
embargos do devedor com este efeito suspensivo. Processados os embargos, a sentença que
os julgar procedentes – reconhece o pagamento, por exemplo – terá o condão de extinguir a
execução, por óbvio, não havendo qualquer lógica em ser retomada a execução.
Na hipótese em que os embargos são julgados procedentes, a própria sentença dos
embargos automaticamente extinguirá a execução, ou será necessária outra sentença, na
própria execução, extinguindo-a, eis que os embargos têm natureza de ação autônoma
incidental à execução? Alguns autores entendem que a própria sentença dos embargos
extinguem a execução, quando sentença de procedência, porque é a consequencia lógica e
automática desta decisão. Entretanto, a corrente mais formalista, e que prevalece, entende
que é preciso que haja uma sentença dedicada à extinção da execução, nos autos desta,
apartada da sentença dos embargos – afinal, são ações distintas.
Há duas formas de suspensão da execução, a necessária e a voluntária. A suspensão
necessária, ou ex lege, se dá quando a lei estabelece-a como obrigatória. Quando a lei não
impuser a suspensão, mas o juiz achar por bem operá-la, trata-se de suspensão voluntária.
A exceção de incompetência, suspeição ou impedimento, por exemplo, é causa de
suspensão ex lege, na forma do artigo 306 do CPC:

“Art. 306. Recebida a exceção, o processo ficará suspenso (art. 265, III), até que
seja definitivamente julgada.”

Veja o artigo 791 do CPC:

“Art. 791. Suspende-se a execução:


I - no todo ou em parte, quando recebidos com efeito suspensivo os embargos à
execução (art. 739-A); (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).
II - nas hipóteses previstas no art. 265, I a III;
III - quando o devedor não possuir bens penhoráveis.”

19
Aula ministrada pelo professor Wilson Marques, em 10/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 133


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O inciso I do artigo supra é bem literal, assim como o III é bem lógico; o inciso II,
remete ao artigo 265, I a III, que segue transcrito:

“Art. 265. Suspende-se o processo:


I - pela morte ou perda da capacidade processual de qualquer das partes, de seu
representante legal ou de seu procurador;
II - pela convenção das partes; (Vide Lei nº 11.481, de 2007)
III - quando for oposta exceção de incompetência do juízo, da câmara ou do
tribunal, bem como de suspeição ou impedimento do juiz;
(...)
§ 1° No caso de morte ou perda da capacidade processual de qualquer das partes,
ou de seu representante legal, provado o falecimento ou a incapacidade, o juiz
suspenderá o processo, salvo se já tiver iniciado a audiência de instrução e
julgamento; caso em que:
a) o advogado continuará no processo até o encerramento da audiência;
b) o processo só se suspenderá a partir da publicação da sentença ou do acórdão.
§ 2° No caso de morte do procurador de qualquer das partes, ainda que iniciada a
audiência de instrução e julgamento, o juiz marcará, a fim de que a parte constitua
novo mandatário, o prazo de 20 (vinte) dias, findo o qual extinguirá o processo
sem julgamento do mérito, se o autor não nomear novo mandatário, ou mandará
prosseguir no processo, à revelia do réu, tendo falecido o advogado deste.
§ 3° A suspensão do processo por convenção das partes, de que trata o no II, nunca
poderá exceder 6 (seis) meses; findo o prazo, o escrivão fará os autos conclusos ao
juiz, que ordenará o prosseguimento do processo.
§ 4º No caso do no III, a exceção, em primeiro grau da jurisdição, será processada
na forma do disposto neste Livro, Título VIII, Capítulo II, Seção III; e, no tribunal,
consoante lhe estabelecer o regimento interno.
(...)”

Morta ou tornada incapaz uma das partes, representante legal ou procurador, o


processo suspende-se até que haja a sucessão processual ou a regularização da
representação, respectivamente.
A suspensão voluntária, como dito, pode ser procedida pelo juiz quando achar
necessário, ou por vontade das partes. Exequente e executado, em petição conjunta, podem
requerer a suspensão, na forma do artigo 792 do CPC:

“Art. 792. Convindo as partes, o juiz declarará suspensa a execução durante o


prazo concedido pelo credor, para que o devedor cumpra voluntariamente a
obrigação.
Parágrafo único. Findo o prazo sem cumprimento da obrigação, o processo
retomará o seu curso. (Incluído pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994).”

Esta suspensão convencionada não pode protrair-se por mais de seis meses, como
diz o artigo 265, § 3°, supra, no processo de conhecimento. Na execução, não há este limite
temporal, como se vê no artigo 792, supra. Muito lógica esta ausência de limite, pois assim
não se impede que o credor conceda prazo maior ao devedor para cumprir a obrigação, no
ajuste que fizerem.
Nada impede que as partes convencionem, transacionem, para extinguir a execução,
e não para suspendê-la. Podem, peticionando ao juízo conjuntamente, informar do acordo
extrajudicial que pactuaram, culminando na extinção, e não na suspensão. É claro que, se o
acordo envolver concessão de parcelamento, prazo, ou qualquer outra medida que torne

Michell Nunes Midlej Maron 134


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

diferida a satisfação, o credor preferirá a suspensão, porque se descumprido o ajuste,


retoma a execução.
Antigamente, antes das reformas, havia uma severa controvérsia acerca da
possibilidade ou não da suspensão da execução por meio de uma ação cautelar incidental
ao curso de uma ação rescisória da sentença que está sendo executada. Antes de 2006, a
tese dominante era a de que esta cautelar era inadmissível, eis que seria ofensa à coisa
julgada exequenda. A respeito, veja o enunciado 234 do extinto TFR:

“Súmula 234, TFR: Medida Cautelar em Ação Rescisória para Obstar os Efeitos da
Coisa Julgada – Cabimento.
‘Não cabe medida cautelar em ação rescisória para obstar os efeitos da coisa
julgada.’”

O artigo 489 do CPC agora diz, expressamente, que a ação rescisória não suspende
a execução da sentença, trazendo como meio de obter esta suspensão justamente a cautelar
incidental, sem a qual pode acontecer de a ação rescisória tornar-se inútil, ao final – pondo
fim a esta discussão, por força legal. Veja:

“Art. 489. O ajuizamento da ação rescisória não impede o cumprimento da


sentença ou acórdão rescindendo, ressalvada a concessão, caso imprescindíveis e
sob os pressupostos previstos em lei, de medidas de natureza cautelar ou
antecipatória de tutela. (Redação dada pela Lei nº 11.280, de 2006).”

É uma suspensão voluntária, legada ao critério do juiz sobre a necessidade ou não


da cautela requerida. Em regra, portanto, a propositura da ação rescisória não suspende a
execução, mas pode haver esta suspensão tanto em liminar na própria rescisória, quanto em
cautelar incidental a esta.
A suspensão parcial é possível, sendo realizada quando apenas parte do valor
exequendo é impugnada em embargos que recebem efeito suspensivo – alega excesso de
execução, portanto: a execução prossegue quanto à parte incontroversa, suspendendo-se a
parte embargada até o julgamento dos embargos.
Tratando agora da extinção da execução, vejamos o artigo 794 do CPC:

“Art. 794. Extingue-se a execução quando:


I - o devedor satisfaz a obrigação;
II - o devedor obtém, por transação ou por qualquer outro meio, a remissão total da
dívida;
III - o credor renunciar ao crédito.”

O processo de execução finda, na sua normalidade, com a satisfação do crédito


devido. A execução se destina a esta efetivação do direito material consagrado em título
executivo. Recebido pelo credor aquilo que lhe era devido – pela adjudicação, pela
alienação por iniciativa particular, pela arrematação ou pelo usufruto – o processo não tem
mais porque existir.
Pode acontecer, porém, de haver outras circunstâncias a extinguirem o processo,
que não a satisfação judicial do direito do credor. Pode o fim da execução acontecer pela
atenção à transação empreendida entre as partes, na qual se fez a novação, a remissão, a
dação de bens, o que quer que seja acatado pelo credor, e informado ao juízo. Pode,

Michell Nunes Midlej Maron 135


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

inclusive, o credor renunciar ao crédito, simplesmente – o que termina a execução por falta
de objeto.
Há razões anômalas que podem extinguir a execução, como a pura desistência por
parte do exequente. E esta desistência, ao contrário da que se passa no processo de
conhecimento, é unilateral, não dependendo da anuência do executado citado.
A prescrição da dívida originária do crédito não extingue a execução. A prescrição é
a perda do direito subjetivo de exigir o cumprimento de determinado dever jurídico pela
outra parte, perda que decorre da inércia em determinado prazo – diferente da decadência,
que é o poder de simplesmente sujeitar a parte contrária a determinada situação, sem que
seja necessária a exigência do cumprimento de qualquer dever – não há dever, há simples
sujeição. A prescrição, portanto, impede a pretensão de haver o cumprimento do dever, e
por isso não extingue a execução, eis que o direito material, o crédito exequendo, ainda
persiste, forte, nada impedindo o curso da execução.
A extinção da execução é feita por sentença, na forma do artigo 795 do CPC:

“Art. 795. A extinção só produz efeito quando declarada por sentença.”

A natureza jurídica deste ato, se é uma sentença ou não, é também discutida, porque
o conceito de sentença não se amolda a este ato: não há lide alguma sendo resolvida.
Contudo, a lei mantém este nomen a este ato judicial, e é difícil conceituar este ato a
qualquer moldura legal, qualquer classificação legal dos atos judiciais. De qualquer forma,
é o ato que encerra a execução.

Michell Nunes Midlej Maron 136


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Casos Concretos

Questão 1

Em razão da inexistência de bens a serem penhorados, certa execução foi suspensa.


Anos depois, já passado o lapso de tempo prescricional da dívida, o executado requer a
extinção do processo pela prescrição. Deve ser extinta a execução?

Resposta à Questão 1

A inexistência de bens penhoráveis acarreta a suspensão do processo de execução,


mas não permite que haja a prescrição intercorrente – entre a suspensão e o ato
subsequente. A prescrição é uma punição ao titular do direito subjetivo que fica inerte, o
que não é o caso: o credor não quedou-se inerte, quando poderia agir; ao contrário, foi
impedido de agir, de continuar buscando sua satisfação, porque o devedor não tem bens
penhoráveis.
Destarte, no caso, sequer há que se falar em prescrição. A execução perdurará
indefinidamente, suspensa, até o ponto em que surjam bens penhoráveis, ou o exequente
dela desista. Do contrário, permanece suspensa sine die.

Questão 2

Tício ingressa em juízo com execução por quantia certa contra devedor solvente em
face de Caio. No decorrer do processo, os dois ingressam com petição conjunta requerendo
a suspensão da execução diante da possibilidade de acordo para o pagamento da dívida.
Deve ser deferida a suspensão?

Resposta à Questão 2

Sem dúvida: é caso de expressa admissibilidade da suspensão, na forma do artigo


792 do CPC. E mais: a suspensão por acordo na execução não tem prazo limite, como
ocorre na suspensão convencional (do artigo 265, II e § 3° do CPC), podendo perdurar
enquanto as partes quiserem.

Michell Nunes Midlej Maron 137


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema XIV

Procedimento especial de execução por quantia certa: em face da Fazenda Pública. Legitimidade ativa e
passiva. Título executivo. Honorários (art. 1º-D, Lei nº 9.494/97). Honorários devidos em execuções não
embargadas. Precatórios e Requisições de Pequeno Valor. Art. 730 do CPC. Artigo 100 da CF/88.
Parcelamento de Precatórios (art. 78, ADCT). Questões controvertidas. Jurisprudência. Doutrina. O novo
art. 741, alterado pela Lei 11.232/2005. Aplicabilidade ou não do procedimento estatuído no art. 475-J.

Notas de Aula20

1. Execução da Fazenda Pública por quantia certa

Este procedimento, regulado no CPC nos artigos 730 e 731, pressupõe a ocupação
do pólo passivo da execução pela Fazenda Pública, e que haja um título judicial ou
extrajudicial continente de obrigação de pagar. Se o título representar obrigação de fazer,
não fazer ou entregar coisa, a execução da Fazenda será idêntica à do particular, não
havendo qualquer especificidade a ser seguida. Veja os artigos do CPC:

“Art. 730. Na execução por quantia certa contra a Fazenda Pública, citar-se-á a
devedora para opor embargos em 10 (dez) dias; se esta não os opuser, no prazo
legal, observar-se-ão as seguintes regras: (Vide Lei nº 9.494, de 10.9.1997)
I - o juiz requisitará o pagamento por intermédio do presidente do tribunal
competente;
II - far-se-á o pagamento na ordem de apresentação do precatório e à conta do
respectivo crédito.”

“Art. 731. Se o credor for preterido no seu direito de preferência, o presidente do


tribunal, que expediu a ordem, poderá, depois de ouvido o chefe do Ministério
Público, ordenar o seqüestro da quantia necessária para satisfazer o débito.”

A razão de ser deste procedimento especial é a atenção à natureza igualmente


especial do regime dos bens públicos. Estes bens, como se sabe, são impenhoráveis,
imprescritíveis e não-oneráveis, além de relativamente inalienáveis (ao menos enquanto
afetados). Como é o patrimônio do devedor que responde pela obrigação, e o patrimônio da
Fazenda devedora tem esta natureza especial, a sua execução é diferenciada: como seu
patrimônio é, em regra, inalcançável, a satisfação da dívida será por meio de precatórios ou
de requisições de pequeno valor, doravante RPV.
A RPV tem balizas fixadas no artigo 87 do ADCT, em norma contível. Veja:

“Art. 87. Para efeito do que dispõem o § 3º do art. 100 da Constituição Federal e o
art. 78 deste Ato das Disposições Constitucionais Transitórias serão considerados
de pequeno valor, até que se dê a publicação oficial das respectivas leis definidoras
pelos entes da Federação, observado o disposto no § 4º do art. 100 da Constituição
Federal, os débitos ou obrigações consignados em precatório judiciário, que
20
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 11/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 138


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

tenham valor igual ou inferior a: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 37, de


2002)
I - quarenta salários-mínimos, perante a Fazenda dos Estados e do Distrito Federal;
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 37, de 2002)
II - trinta salários-mínimos, perante a Fazenda dos Municípios. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 37, de 2002)
Parágrafo único. Se o valor da execução ultrapassar o estabelecido neste artigo, o
pagamento far-se-á, sempre, por meio de precatório, sendo facultada à parte
exeqüente a renúncia ao crédito do valor excedente, para que possa optar pelo
pagamento do saldo sem o precatório, da forma prevista no § 3º do art. 100.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 37, de 2002)”

Para a seara federal, o RPV chega a sessenta salários-mínimos.


Como o parágrafo único do dispositivo supra já diz, tudo que superar o valor
pagável por meio de RPV, será pago por meio de precatórios.
O pagamento da RPV é muito mais célere do que o pagamento do precatório. Veja:
todo ano é criada uma lei orçamentária, na qual são alocados recursos para tais requisições,
em uma previsão genérica para todos os pagamentos. Há uma só rubrica, com previsão
geral de um valor total para ser gasto com RPVs durante o ano, montante este que pode ser
superior ou inferior ao que efetivamente se fizer devido no ano. Se for inferior, um adendo
ao orçamento será necessário, injetando-se mais recursos para este fim.
Uma vez que o Judiciário requisite o valor, como o montante da rubrica genérica é
gerido pelo presidente do respectivo TJ, a dinâmica para recebimento é muito mais simples
e rápida. O juiz requisita ao presidente, o qual determinará o depósito em determinada
conta, comunicando ao juiz esta autorização; em seguida, basta que o juiz emita o mandado
de levantamento para a parte credora. Qualquer mora, aqui, é por mera burocracia
cartorária, e não por problemas orçamentários.
O rito dos precatórios, porém, é muito diferente, e é absurdamente lento. Entenda
porque: quando o juiz requisita o precatório ao presidente do seu tribunal, este encaminhará
à Fazenda respectiva – no âmbito federal, ao Ministério do Planejamento –, para que a
despesa seja incluída na próxima lei orçamentária, que pode ser a do próximo ano ou do
ano subsequente, a depender de quando houve a requisição. Além disso, o precatório pode
ser alvo de parcelamento, como se vê no artigo 78 do ADCT, em até dez anos:

“Art. 78. Ressalvados os créditos definidos em lei como de pequeno valor, os de


natureza alimentícia, os de que trata o art. 33 deste Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias e suas complementações e os que já tiverem os seus
respectivos recursos liberados ou depositados em juízo, os precatórios pendentes
na data de promulgação desta Emenda e os que decorram de ações iniciais
ajuizadas até 31 de dezembro de 1999 serão liquidados pelo seu valor real, em
moeda corrente, acrescido de juros legais, em prestações anuais, iguais e
sucessivas, no prazo máximo de dez anos, permitida a cessão dos créditos.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 30, de 2000)
§ 1º É permitida a decomposição de parcelas, a critério do credor. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 30, de 2000)
§ 2º As prestações anuais a que se refere o caput deste artigo terão, se não
liquidadas até o final do exercício a que se referem, poder liberatório do
pagamento de tributos da entidade devedora. (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 30, de 2000)
§ 3º O prazo referido no caput deste artigo fica reduzido para dois anos, nos casos
de precatórios judiciais originários de desapropriação de imóvel residencial do

Michell Nunes Midlej Maron 139


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

credor, desde que comprovadamente único à época da imissão na posse. (Incluído


pela Emenda Constitucional nº 30, de 2000)
§ 4º O Presidente do Tribunal competente deverá, vencido o prazo ou em caso de
omissão no orçamento, ou preterição ao direito de precedência, a requerimento do
credor, requisitar ou determinar o seqüestro de recursos financeiros da entidade
executada, suficientes à satisfação da prestação. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 30, de 2000)”

O parcelamento não é admissível em todas as situações, porém: somente os


processos ajuizados até 31 de dezembro de 1999, ou os precatórios pendentes de pagamento
até esta data, podem ser parcelados. Veja que há clara quebra da isonomia, porque o credor
que tem seu crédito pendente desde 1999 poderá ter que aguardar ainda dez anos até o
recebimento da integralidade do débito, enquanto o credor que ajuíza ação hoje terá seu
crédito incluído já no próximo orçamento. Esta desigualdade já foi levada ao STF, mas esta
Corte decidiu que não há quebra de isonomia porque todos serão pagos, de uma ou de outra
forma – decisão mais política do que jurídica, claramente.

1.1. Legitimidade passiva

Como visto, é a Fazenda Pública quem tem direito ao procedimento especial de


execução, ou seja, quem pode estar no pólo passivo desta execução especial. Contudo, é
preciso delimitar exatamente quem é considerado entidade pública para tanto: apenas a
União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, e as autarquias e fundações
autárquicas são sujeitas a esta execução. Assim o é, como dito, pela natureza dos bens
públicos, e os destes entes e entidades são eminentemente públicos, com os atributos
impedientes da excussão já mencionados.
Sociedades de economia mista e empresas públicas, em regra, têm bens regidos pelo
direito privado, e por isso não precisam da execução especial da Fazenda Pública.
A ECT, Empresa de Correios e Telégrafos, é uma exceção, por conta do Decreto-Lei
509/69: esta empresa pública tem ali a si garantido o tratamento processual da Fazenda
Pública, com todas as prerrogativas – prazo em quádruplo para contestar, reexame
necessário na sucumbência, etc. O STF, inclusive, já declarou que este diploma foi
recepcionado pela CRFB, sem ressalvas. Por isso, a execução da ECT segue o rito da
Fazenda Pública.
Ocorre que esta empresa pública não tem previsão orçamentária, não podendo criar
um rito próprio de precatórios. Sendo assim, a dívida da ECT é incluída no rol de
precatórios da União.

1.2. Títulos executivos extrajudiciais contra a Fazenda Pública

O artigo 100 da CRFB, sede do tratamento orçamentário das sentenças judiciais


contra a Fazenda, estabelece o rito dos precatórios e da RPV. Por tratar apenas de sentenças,
surgiu tese doutrinária que defendia que a execução da fazenda pública somente seria
possível em se tratando de título executivo judicial, e nunca extrajudicial. Veja o
dispositivo:

“Art. 100. à exceção dos créditos de natureza alimentícia, os pagamentos devidos


pela Fazenda Federal, Estadual ou Municipal, em virtude de sentença judiciária,

Michell Nunes Midlej Maron 140


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à


conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas
dotações orçamentárias e nos créditos adicionais abertos para este fim.
§ 1º É obrigatória a inclusão, no orçamento das entidades de direito público, de
verba necessária ao pagamento de seus débitos oriundos de sentenças transitadas
em julgado, constantes de precatórios judiciários, apresentados até 1º de julho,
fazendo-se o pagamento até o final do exercício seguinte, quando terão seus
valores atualizados monetariamente.(Redação dada pela Emenda Constitucional nº
30, de 2000)
§ 1º-A Os débitos de natureza alimentícia compreendem aqueles decorrentes de
salários, vencimentos, proventos, pensões e suas complementações, benefícios
previdenciários e indenizações por morte ou invalidez, fundadas na
responsabilidade civil, em virtude de sentença transitada em julgado.(Incluído pela
Emenda Constitucional nº 30, de 2000)
§ 2º As dotações orçamentárias e os créditos abertos serão consignados diretamente
ao Poder Judiciário, cabendo ao Presidente do Tribunal que proferir a decisão
exeqüenda determinar o pagamento segundo as possibilidades do depósito, e
autorizar, a requerimento do credor, e exclusivamente para o caso de preterimento
de seu direito de precedência, o seqüestro da quantia necessária à satisfação do
débito.(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 30, de 2000)
§ 3º O disposto no caput deste artigo, relativamente à expedição de precatórios,
não se aplica aos pagamentos de obrigações definidas em lei como de pequeno
valor que a Fazenda Federal, Estadual, Distrital ou Municipal deva fazer em
virtude de sentença judicial transitada em julgado. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 30, de 2000)
§ 4º São vedados a expedição de precatório complementar ou suplementar de valor
pago, bem como fracionamento, repartição ou quebra do valor da execução, a fim
de que seu pagamento não se faça, em parte, na forma estabelecida no § 3º deste
artigo e, em parte, mediante expedição de precatório. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 37, de 2002)
§ 5º A lei poderá fixar valores distintos para o fim previsto no § 3º deste artigo,
segundo as diferentes capacidades das entidades de direito público. (Parágrafo
incluído pela Emenda Constitucional nº 30, de 2000 e Renumerado pela Emenda
Constitucional nº 37, de 2002)
§ 6º O Presidente do Tribunal competente que, por ato comissivo ou omissivo,
retardar ou tentar frustrar a liquidação regular de precatório incorrerá em crime de
responsabilidade. (Parágrafo incluído pela Emenda Constitucional nº 30, de 2000 e
Renumerado pela Emenda Constitucional nº 37, de 2002)”

Este posicionamento é mais do que superado, havendo até mesmo a súmula 279 do
STJ a permitir a execução de título executivo extrajudicial contra a Fazenda:

“Súmula 279, STJ: É cabível execução por título extrajudicial contra a Fazenda
Pública.”

Humberto Theodoro Júnior propõe que quando a execução for por título
extrajudicial, e não forem oferecidos embargos pela Fazenda, o juiz deve proferir sentença
incidental somente com a finalidade de requisitar o precatório, atendendo ao artigo 100 da
CRFB. Para ele, então, é possível a execução de título executivo da fazenda, mas o rito dos
precatórios necessariamente será acessado apenas pela previsão do crédito em sentença. Em
que pese haver até mesmo um julgado do STF neste sentido, a praxe é a requisição direta
do precatório pelo juízo, sem proferir sentença incidental alguma.

Michell Nunes Midlej Maron 141


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Como se sabe, a natureza do título, em regra, muda o procedimento de sua


execução: se judicial, seguir-se-á o rito do cumprimento de sentença, do artigo 475-J do
CPC; se extrajudicial, segue-se a execução direta. Contudo, para a Fazenda Pública
devedora, não há esta variação: o título executivo por quantia certa seguirá sempre o
mesmo rito, debalde a sua natureza judicial ou extrajudicial. Mesmo por isso, o
procedimento do artigo 730 do CPC é raríssimo caso em que se permite até mesmo a
cumulação de execução de título judicial e extrajudicial, porque o rito para ambos é
rigorosamente o mesmo.
Nesta cumulação, nesta execução cumulada, o máximo da peculiaridade será uma
modificação no conteúdo das matérias dedutíveis nos embargos: para o título judicial, o
fundamento vem no artigo 741 do CPC; para o extrajudicial, é fundamento o artigo 745 do
mesmo Código (ambos os dispositivos já abordados). O procedimento, porém, é um só.
Na execução contra a Fazenda Pública, como se vê, não vige o sincretismo
processual. A reforma executória não alcançou, neste aspecto, a execução contra a Fazenda.
Toda execução destes moldes será, portanto, como era antes da reforma: execução
autônoma de título extrajudicial, em nova ação de execução, e não em fase executiva de
processo sincrético. Alexandre Câmara, todavia, é um autor que defende que mesmo aqui se
instalou o processo sincrético, mesmo não havendo previsão legal.

1.3. Execução provisória contra a Fazenda Pública

O artigo 2º-B, da Lei 9.494/97, é relevante para este tópico:

“Art. 2º-B. A sentença que tenha por objeto a liberação de recurso, inclusão em
folha de pagamento, reclassificação, equiparação, concessão de aumento ou
extensão de vantagens a servidores da União, dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios, inclusive de suas autarquias e fundações, somente poderá ser
executada após seu trânsito em julgado. (NR) (Incluído pela Medida provisória nº
2.180-35, de 2001)”

Na leitura deste artigo poder-se-ia concluir que somente há execução definitiva


contra a Fazenda Pública, porque ali se exige o trânsito em julgado para quase todas as
hipóteses possíveis. Contudo, o STJ tem permitido a execução provisória da Fazenda por
créditos de natureza alimentar, subsistenciais, em julgados esparsos.
Outra execução que poderia, em tese, ser provisória, é a que se destina ao custeio de
medicamentos. Como em regra esta obrigação é identificada como de fazer, e não de pagar
– é obrigação de prestar o tratamento –, sequer seria subsumida à previsão do artigo supra,
pelo que a execução provisória seria perfeitamente cabível.
A regra, portanto, é mesmo que a execução de obrigação de pagar contra a Fazenda
seja somente a definitiva.
Veja uma situação peculiar: se for iniciada a execução definitiva, e forem oferecidos
embargos à execução, e estes forem julgados improcedentes, sobrevindo recurso de
apelação, pela Fazenda, poderá ser requisitado o precatório ou a RPV, ou será necessário
aguardar também o trânsito em julgado dos embargos?
A interpretação majoritária é de que o trânsito em julgado dos embargos deve ser
também aguardado, somente após o quê pode haver requisição do precatório ou da RPV.
Esta leitura é colhida do artigo 100, §§ 1° e 3° da CRFB, há pouco transcrito, e que falam
em trânsito em julgado como requisito para o pagamento.

Michell Nunes Midlej Maron 142


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A regra, portanto, é a espera do trânsito em julgado da decisão judicial, para início


da execução do título judicial, e do trânsito em julgado desta execução para haver a
requisição do precatório ou da RPV. Não é raro haver decisões permitindo o registro
provisório de requisições de precatórios e RPV, porém.
1.4. Procedimento da execução contra a Fazenda Pública

Protocolada a inicial executória, o juiz, ao determinar a citação da entidade pública,


já fixará desde logo os honorários advocatícios. É importante ver o que dispõe o artigo 1°-
D da Lei 9.494/97:

“Art. 1º-D. Não serão devidos honorários advocatícios pela Fazenda Pública nas
execuções não embargadas. (NR) (Incluído pela Medida provisória nº 2.180-35, de
2001)”

É necessário, aqui, descrever um curso hipotético de um processo, até alcançar este


ponto. Suponha-se que tenha havido um processo judicial contra a Fazenda; neste, há os
honorários respectivos. Em seguida, há uma petição inicial de execução, na qual igualmente
serão fixados honorários respectivos a esta execução. Adiante, há os embargos pela
Fazenda, e nestes, cuja natureza é de ação, há novamente a fixação de outros honorários,
próprios desta relação. Por isso, numa execução contra a Fazenda Pública por título
executivo extrajudicial, o advogado vitorioso pode acabar fazendo jus a três verbas
honorárias distintas, o que é perfeitamente correto.
Não havendo embargos, é claro que não há honorários devidos respectivamente a
estes. O que este artigo supra fez foi eliminar também, neste caso de não oposição de
embargos, a verba que já era devida pelo ajuizamento da execução, segunda verba possível
em prol do exequente.
O STF foi consultado sobre esta norma, e decidiu que é escorreita, ao seguinte
argumento: mesmo que a Fazenda não se oponha ao pagamento que lhe é exigido em
execução, é imperativo o ajuizamento desta, porque o rito dos precatórios e RPVs é
inafastável. Sendo assim, se não há outro meio de a Fazenda pagar o que deve, mesmo que
o queira, é justo que não lhe seja cobrada a verba honorária, porque não é possível à
Fazenda pagar por meio diverso da execução.
Mas este dispositivo só tem aplicação em execuções de grande valor, pagas por
precatório, e no âmbito federal, segundo o STF. Destarte, em execução por RPV haveria
condenação em honorários, mas como o curso de execução de pequeno valor corre, no
âmbito federal, nos Juizados Especiais Federais, e nestes não há condenação em honorários,
a situação fica na mesma: também não haverá honorários, neste caso, mas por este outro
motivo, e não pela vigência do artigo supra para a RPV.
Em suma: se a Fazenda Federal não embargar, em execuções de grande valor, não
há honorários de execução, na forma do artigo em comento; se a execução for por pequeno
valor, também não há honorários, mas por conta da regra dos Juizados, e não por esta
vedação legal.
O STJ, entretanto, tem um enunciado de sua súmula que trata de situação similar,
mas diz exatamente o oposto do que se concluiu acima. Veja o enunciado 345 do STJ:

“Súmula 345, STJ: São devidos honorários advocatícios pela Fazenda Pública nas
execuções individuais de sentença proferida em ações coletivas, ainda que não
embargadas.”

Michell Nunes Midlej Maron 143


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O fundamento para esta exceção é que a execução, aqui, é conduzida por advogado
distinto, porque não é o litigante na ação civil pública quem conduzirá a execução
individual, e sim o patrono do credor particularizado – fazendo jus aos honorários, portanto.
Citada a Fazenda, esta pode simplesmente ficar silente, ou embargar. Mas pode
também ofertar proposta de pagamento, anuindo na execução sofrida, mas o pagamento
oriundo desta proposta não escapará do rito dos precatórios ou das RPVs. Esta proposta de
pagamento não suspende ou interrompe o prazo dos embargos.
Pode a Fazenda embargar total ou parcialmente, opondo-se contra a totalidade ou
apenas parte do valor executado. Opondo-se parcialmente, reconhece a parte não
embargada como incontroversa; sendo o caso, diga-se, o valor da causa nos embargos é
somente referente à parte embargada, e o valor incontroverso pode desde logo ser
requisitado.
Repare que pode surgir uma dúvida, na requisição do valor parcialmente
reconhecido: se a execução for de grande valor, mas a parcela incontroversa for de pequeno
valor, requisitar-se-á esta por RPV, ou seguirá como parâmetro o valor integral, sendo
necessária a requisição de precatório?
O artigo 100, § 4°, da CRFB, há pouco transcrito, veda o fracionamento de
precatórios. Sendo assim, mesmo que a parcela incontroversa seja de menor valor, a dívida
deve ser considerada na sua integralidade para fins de definição do modo de requisição, e
por isso será necessária a via do precatório, mesmo se a parcela incontroversa que for ser
requisitada seja digna de RPV. Trata-se da vigência do princípio da unidade dos
precatórios, que apregoa esta impossibilidade de fracionamento jurídico do precatório.
Tendo sido requisitado o precatório do valor incontroverso, se ao final o restante se
demonstrar devido, será feita uma retificação no mesmo precatório já requisitado, a fim de
ali incluir o valor restante. Se os embargos, outrossim, forem acolhidos, o juiz deverá
proceder da seguinte forma: será necessária a solicitação do cancelamento do precatório
requisitado, porque a parte incontroversa se demonstrou a única devida, e portanto é este o
valor global a ser pago; como é de pequeno valor, no exemplo, deverá ser requisitado RPV,
e não precatório. Veja que se o valor incontroverso requisitado já fosse grande, devido por
precatório, nada aconteceria: permaneceria vigente o precatório do valor incontroverso.
Há uma ressalva quando houver litisconsórcio ativo na execução contra a Fazenda:
o valor da causa será o total dos pedidos cumulados, mas a requisição, a qualquer tempo,
será analisada por litisconsorte, e não globalmente: a cada credor, será requisitado o
cabimento de RPV ou precatório. Vale dizer que incluem-se aí os advogados, como
credores litisconsortes na execução, pelos seus honorários.
O levantamento dos valores, a obtenção do alvará, pode ou não implicar
recolhimento de imposto de renda: dependerá da natureza do valor devido, que está sendo
levantado. Se for verba indenizatória, por exemplo, não há tributação pelo IR.
O prazo para a Fazenda embargar é de trinta dias, na forma do artigo 1°-B da Lei
9.494/97, mesmo que o artigo 730 do CPC fale em dez dias, como se vê.

“Art. 1°-B. O prazo a que se refere o caput dos arts. 730 do Código de Processo
Civil, e 884 da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei no
5.452, de 1o de maio de 1943, passa a ser de trinta dias" (NR) (Incluído pela
Medida provisória nº 2.180-35, de 2001)”

Michell Nunes Midlej Maron 144


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Na justiça comum este prazo de trinta dias tem prevalecido. Contudo, esta alteração
está em discussão no STF, e há decisão liminar sobrestando todos os processos de execução
em que esta norma supra está sendo aplicada. Na justiça laboral, diga-se, esta norma é
inconstitucional, e tem prevalecido a antiga redação do artigo 884 da CLT, que prevê cinco
dias para os embargos:

“Art. 884 - Garantida a execução ou penhorados os bens, terá o executado 5


(cinco) dias para apresentar embargos, cabendo igual prazo ao exeqüente para
impugnação. (Vide Medida Provisória nº 2.180-35, de 2001)
§ 1º - A matéria de defesa será restrita às alegações de cumprimento da decisão ou
do acordo, quitação ou prescrição da divida.
§ 2º - Se na defesa tiverem sido arroladas testemunhas, poderá o Juiz ou o
Presidente do Tribunal, caso julgue necessários seus depoimentos, marcar
audiência para a produção das provas, a qual deverá realizar-se dentro de 5 (cinco)
dias.
§ 3º - Somente nos embargos à penhora poderá o executado impugnar a sentença
de liquidação, cabendo ao exeqüente igual direito e no mesmo prazo. (Incluído
pela Lei nº 2.244, de 23.6.1954)
§ 4º Julgar-se-ão na mesma sentença os embargos e as impugnações à liquidação
apresentadas pelos credores trabalhista e previdenciário. (Redação dada pela Lei nº
10.035, de 25.10.2000)
§ 5º Considera-se inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo
declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal ou em aplicação ou
interpretação tidas por incompatíveis com a Constituição Federal. (Incluído pela
Medida provisória nº 2.180-35, de 2001)”

A matéria ventilável nos embargos está no artigo 741 do CPC, já transcrito, que foi
alterado para comportar a matéria alegável pela Fazenda em execução de título judicial,
enquanto os fundamentos para discussão de execução de título extrajudicial vêm no artigo
745 do CPC, também já visto.
A Fazenda Pública pode opor exceções, inclusive a de pré-executividade (apesar de
esta não ter utilidade, porque podem os embargos tratar de tudo que ali é dedutível).
Se ajuizados embargos, e forem estes julgados improcedentes, a apelação da
Fazenda não terá efeito suspensivo, mas o trânsito em julgado deve ser alcançado, a fim de
que haja a requisição correspondente.
A improcedência dos embargos não desperta reexame necessário, porque este
reexame só cabe quando a Fazenda é condenada a pagar valor acima de sessenta salários-
mínimos, na forma do artigo 475 do CPC, e a sentença de improcedência dos embargos é
declaratória, e não condenatória.

“Art. 475. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão
depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: (Redação dada pela Lei nº 10.352,
de 26.12.2001)
I - proferida contra a União, o Estado, o Distrito Federal, o Município, e as
respectivas autarquias e fundações de direito público; (Redação dada pela Lei nº
10.352, de 26.12.2001)
II - que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à execução de dívida
ativa da Fazenda Pública (art. 585, VI). (Redação dada pela Lei nº 10.352, de
26.12.2001)
§ 1° Nos casos previstos neste artigo, o juiz ordenará a remessa dos autos ao
tribunal, haja ou não apelação; não o fazendo, deverá o presidente do tribunal
avocá-los. (Incluído pela Lei nº 10.352, de 26.12.2001)

Michell Nunes Midlej Maron 145


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

§ 2° Não se aplica o disposto neste artigo sempre que a condenação, ou o direito


controvertido, for de valor certo não excedente a 60 (sessenta) salários mínimos,
bem como no caso de procedência dos embargos do devedor na execução de dívida
ativa do mesmo valor. (Incluído pela Lei nº 10.352, de 26.12.2001)
§ 3° Também não se aplica o disposto neste artigo quando a sentença estiver
fundada em jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula
deste Tribunal ou do tribunal superior competente. (Incluído pela Lei nº 10.352, de
26.12.2001)”

Transitando em julgado a execução, o juiz fará a respectiva requisição ao presidente


do tribunal. Os autos, porém, não saem de seu domínio, eis que as eventuais questões
incidentais21 que sobrevenham deverão ser por ele decididas.
A informação e requisição é feita em meio eletrônico, não surtindo necessidade de
remessa de cópias físicas quaisquer. O presidente do tribunal, na gerência das requisições,
não atua jurisdicionalmente, mas apenas administrativamente, descabendo recursos de sua
atuação, na forma da súmula 733 do STF. Pode, porém, retificar erros materiais, mas nunca
se imiscui no mérito do valor requisitado.

“Súmula 733, STF: Não cabe recurso extraordinário contra decisão proferida no
processamento de precatórios.”

Descabe recurso, mas cabe mandado de segurança, para o próprio tribunal, se for o
caso.
Seguindo-se ao atendimento da requisição pelo presidente do tribunal, ela é
encaminhada à Fazenda devedora. Se a requisição for feita até primeiro de julho, deve ser
feito o pagamento até o fim do mesmo exercício; se após julho, o pagamento pode ser feito
até o último dia do exercício seguinte. Mas veja que surge uma questão: a definição do
exercício é feita pela requisição do juiz ao presidente, ou do presidente à Fazenda
devedora?
O CJF entende que a requisição que deve ser feita até julho para definir se o
pagamento é devido no mesmo exercício é a que o juiz faz ao presidente do tribunal,
porque não há como se controlar a chegada da requisição do presidente à Fazenda
devedora.

1.4.1. Preterição

A preterição na ordem de qualquer pagamento gera a pretensão ao sequestro,


previsto no artigo 731 do CPC, há pouco transcrito. A preterição é muito rara, diga-se, mas
quando ocorrer, o preterido deverá instaurar o pedido de sequestro perante a presidência do
tribunal.
A doutrina, capitaneada por Alexandre Câmara e Humberto Theodoro Júnior,
defende que este processo tem natureza jurisdicional, e no pólo passivo deve figurar o
credor que recebeu antes da hora. De outro lado, Araken de Assis e Ernani Fidélis
defendem que quem figura no pólo passivo do sequestro é a Fazenda que pagou
erroneamente, e não o credor que recebeu antecipadamente
21
Não há mais o outrora chamado precatório complementar, para contemplação de correção monetária e juros
moratórios: estes ajustes são automáticos. Quanto aos juros, vale dizer que eles não são devidos se o
pagamento for no mesmo exercício financeiro, que finda em 31 de dezembro de cada ano; somente
ultrapassado o exercício, há mora.

Michell Nunes Midlej Maron 146


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O STF, por seu turno, nega que haja caráter jurisdicional neste sequestro, reputando-
o providência administrativa, porque o que se pretende, ali, é a imediata liberação do valor
que foi preterido, e não a devolução do que foi pago a quem era também credor.
Se simplesmente não há qualquer pagamento de verbas condenatórias pela Fazenda,
não ocorre preterição, e sim o puro descumprimento de decisão judicial, ao que o artigo 34,
VI, da CRFB, sede dos princípios constitucionais sensíveis, comina possibilidade de
intervenção:

“Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:
(...)
VI - prover a execução de lei federal, ordem ou decisão judicial;
(...)”

Mas veja que só se pode falar em intervenção se o descumprimento da ordem for


injustificado. Não sendo imotivado, o descumprimento apenas acarretará o reenvio da
dívida para o exercício seguinte, já com encargos da mora, agora.

1.4.2. Dívida de natureza alimentar

O artigo 100 da CRFB, no § 1°-A, há pouco transcrito, trata especialmente da dívida


de natureza alimentar.
Conforme já se pôde antever, o STJ tem permitido a execução provisória de dívidas
de natureza alimentar.
Este créditos não podem ser sacados na “boca do caixa”, porém; não escapam à
regra do artigo 730 do CPC, contando apenas com uma preferência no seu pagamento,
diante das dívidas não-alimentares. Veja as súmulas 144, do STJ, e 655, do STF:

“Súmula 144, STJ: Os créditos de natureza alimentícia gozam de preferência,


desvinculados os precatórios da ordem cronológica dos créditos de natureza
diversa.”

“Súmula 655, STF: A exceção prevista no art. 100, “caput”, da Constituição, em


favor dos créditos de natureza alimentícia, não dispensa a expedição de precatório,
limitando-se a isentá-los da observância da ordem cronológica dos precatórios
decorrentes de condenações de outra natureza.”

Destarte, o que ocorre é a criação de uma lista apartada de precatórios de dívidas de


natureza alimentar, a fim de que seja esta paga antes das demais.

1.4.3. Especificidades da RPV

A RPV pode ter lugar em qualquer juízo, uma vez que o parâmetro para definir se é
esta a via é somente o valor.
No Juizado Especial Federal, há uma particularidade excepcionalíssima: ali, o rito é
sincrético, ou seja, transitada em julgado a sentença a requisição do RPV é imediata, nem
se falando no rito do artigo 730 do CPC. Veja o artigo 17 da Lei 10.259/01:

“Art. 17. Tratando-se de obrigação de pagar quantia certa, após o trânsito em


julgado da decisão, o pagamento será efetuado no prazo de sessenta dias, contados

Michell Nunes Midlej Maron 147


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

da entrega da requisição, por ordem do Juiz, à autoridade citada para a causa, na


agência mais próxima da Caixa Econômica Federal ou do Banco do Brasil,
independentemente de precatório.
§ 1° Para os efeitos do § 3o do art. 100 da Constituição Federal, as obrigações ali
definidas como de pequeno valor, a serem pagas independentemente de precatório,
terão como limite o mesmo valor estabelecido nesta Lei para a competência do
Juizado Especial Federal Cível (art. 3o, caput).
§ 2° Desatendida a requisição judicial, o Juiz determinará o seqüestro do
numerário suficiente ao cumprimento da decisão.
§ 3° São vedados o fracionamento, repartição ou quebra do valor da execução, de
modo que o pagamento se faça, em parte, na forma estabelecida no § 1o deste
artigo, e, em parte, mediante expedição do precatório, e a expedição de precatório
complementar ou suplementar do valor pago.
§ 4° Se o valor da execução ultrapassar o estabelecido no § 1o, o pagamento far-se-
á, sempre, por meio do precatório, sendo facultado à parte exeqüente a renúncia ao
crédito do valor excedente, para que possa optar pelo pagamento do saldo sem o
precatório, da forma lá prevista.”

Casos Concretos

Michell Nunes Midlej Maron 148


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Questão 1

Alberto promove execução contra a União para a cobrança de dívida no valor de


R$ 100.000,00 (cem mil reais). Regularmente citada, a União opõe Embargos à Execução
impugnando a cobrança de parte da quantia executada, R$ 90.000,00 (noventa mil Reais).
O magistrado recebe os embargos e determina o prosseguimento da execução contra a
União quanto à parte incontroversa, R$ 10.000,00 (dez mil Reais), com a expedição de
RPV (Requisição de Pequeno Valor). Pergunta-se: há ofensa ao artigo 100 § 4° da CRFB?

Resposta à Questão 1

A requisição deve ser de precatórios, eis que o valor incontroverso é parte de um


valor global superior ao limite da RPV. Há, sim, ofensa ao dispositivo constitucional
mencionado, se houver RPV.
Veja o RE 484.770:

“RE 484770 / RS - RIO GRANDE DO SUL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO.


Relator(a): Min. SEPÚLVEDA PERTENCE. Julgamento: 06/06/2006. Órgão
Julgador: Primeira Turma.
EMENTA: 1. Execução contra a Fazenda Pública: recurso extraordinário:
descabimento: controvérsia relativa às exigências para a inclusão do precatório no
orçamento, de natureza infraconstitucional, de exame inviável no RE. 2. Execução
contra a Fazenda Pública: fracionamento do valor da execução em parcelas
controversa e incontroversa, sem que isso implique em alteração de regime de
pagamento, que é definido pelo valor global da obrigação: ausência, no caso, de
violação do art. 100, §§ 1º e 4º, da Constituição Federal.”

Questão 2

Poderá o credor da Fazenda Pública que contra ela possuir um título judicial e
dois títulos extrajudiciais, todos eles traduzindo obrigações certas, líquidas e exigíveis,
cumular todas as execuções numa única ação e num único processo?

Resposta à Questão 2

Sim: é um raríssimo caso em que se permite a cumulação de títulos executivos de


naturezas diversas, judicial e extrajudicial, porque o procedimento será o mesmo, diferindo
apenas a eventual matéria de embargos.

Tema XV

Michell Nunes Midlej Maron 149


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Procedimento especial de execução por quantia certa: promoção pela Fazenda Pública. Execução Fiscal
(Lei nº 6.830/80). Possibilidade de a Fazenda Pública promover execução com fundamento no art. 475-J:
hipóteses já admitidas pela jurisprudência - execução de honorários advocatícios em juízo comum e em
Juizado Especial (Leis nº 9.099/95 e 10.259/01).

Notas de Aula22

1. Execução fiscal

A Lei 6.830/80 é o diploma que regula a execução fiscal para recebimento, pela
Fazenda, de suas dívidas ativas tributárias e não tributárias.
Nem sempre, diga-se, a Fazenda se vale da execução fiscal para obter a satisfação
de seus créditos. Por exemplo, a Fazenda se utilizará eventualmente do procedimento de
cumprimento de sentença, do já visto artigo 475-J do CPC, como quando a Fazenda tem
verba honorária a receber do particular perdedor em determinada lide, por exemplo. Em
regra, contudo, o procedimento é a execução fiscal, via LEF.
A certidão da dívida ativa é o título executivo extrajudicial. Em regra, este título
vem em conjunto com a própria petição inicial, como dispõe o artigo 6º, § 2°, da LEF:

“Art. 6º - A petição inicial indicará apenas:


(...)
§ 2º - A petição inicial e a Certidão de Dívida Ativa poderão constituir um único
documento, preparado inclusive por processo eletrônico.
(...)”

1.1. Legitimidade

A legitimidade ativa para a execução fiscal vem consignada no artigo 1° deste


diploma:

“Art. 1º - A execução judicial para cobrança da Dívida Ativa da União, dos


Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e respectivas autarquias será regida
por esta Lei e, subsidiariamente, pelo Código de Processo Civil.”

Os conselhos de fiscalização de atividades profissionais se valem, também, da


execução fiscal. A competência, nestes casos, é da Justiça Federal, pois é atribuição da
União fiscalizar o desempenho de atividades profissionais, na forma do artigo 21, XXIV, da
CRFB, como conclui a súmula 66 do STJ. Veja:

“Art. 21. Compete à União:


(...)
XXIV - organizar, manter e executar a inspeção do trabalho;
(...)”

“Súmula 66, STJ: Compete à Justiça Federal processar e julgar execução fiscal
promovida por conselho de fiscalização profissional.”
Quando o exequente for conselho regional, ainda se justifica a competência federal?
A jurisprudência tem entendido que não, majoritariamente, entendendo que neste caso é
22
Aula ministrada pelo professor Rodolfo Kronemberg Hartmann, em 11/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 150


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

estadual. A súmula supra, porém, em sua lógica, não diferencia, estabelecendo que a
competência é sempre federal, dando ensejo a divergências sobre este aspecto.

1.2. Intervenção do MP

A presença da Fazenda na execução fiscal não enseja a intervenção do MP como


custos legis, na forma da súmula 189 do STJ, porque o interesse público presente na
execução fiscal é meramente secundário, e somente o primário demanda a presença do MP
como fiscal da lei. Veja:

“Súmula 189, STJ: É desnecessária a intervenção do Ministério Público nas


execuções fiscais.”

Se numa execução fiscal for deflagrado o controle difuso de constitucionalidade,


por este motivo o MP deverá, agora, atuar como custos legis, porque a validade de normas é
interesse público primário, despertando o atuar do MP, instituição que é legitimada para
propor controle concentrado, se verificar que é necessário.

1.3. Emenda da inicial

A petição inicial da execução fiscal pode ser emendada, para fins de


redirecionamento da execução fiscal para a figura dos sócios, alheios à certidão da dívida
ativa e da petição inicial: formalmente, a petição inicial deve ser emendada, incluindo-se no
pólo passivo os sócios a serem executados (não sendo necessária a substituição da certidão
da dívida ativa, porém). Se não há a emenda da inicial, os sócios permanecem como
terceiros, e se forem afetados, o instrumento de discussão é o embargo de terceiro.
Pelo ensejo, vale mencionar que a emenda da CDA é possível, segundo o artigo 2°,
§ 8°, da LEF, e é bastante comum quando se trata de parcelamento tributário. Veja:

“Art. 2º - Constitui Dívida Ativa da Fazenda Pública aquela definida como


tributária ou não tributária na Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964, com as
alterações posteriores, que estatui normas gerais de direito financeiro para
elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos
Municípios e do Distrito Federal.
(...)
§ 8º - Até a decisão de primeira instância, a Certidão de Dívida Ativa poderá ser
emendada ou substituída, assegurada ao executado a devolução do prazo para
embargos.
(...)”

Feito o parcelamento, a execução precisará prosseguir pelo valor da parcela, e a


CDA precisa ser emendada, adequando-se a este valor.

1.4. Procedimentos iniciais

Michell Nunes Midlej Maron 151


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Chegando a inicial ao juiz, pode esta ser indeferida, pois como qualquer inicial, é
feito juízo de sua admissibilidade. Na esfera federal, em relação à União, a dívida tributária
de até dez mil reais deve ser inscrita na dívida ativa, mas a sua execução será facultativa
(para o INSS, este valor é de dois mil e quinhentos reais). Se uma execução de valor abaixo
deste limite for ajuizada, o juiz não poderá entender que falta interesse de agir nesta ação. O
STF, contudo, vinha entendendo que estas execuções careciam de interesse, mas sua
jurisprudência assim se orientava quando o patamar era de apenas mil reais, e, sendo hoje a
facultatividade até dez mil reais, não mais se fala em falta de interesse, porque o valor não é
mais irrisório.
Determinada a citação, admitida a inicial, no próprio despacho liminar de conteúdo
positivo o juiz fixará os honorários advocatícios da execução. Como o CPC é aplicável
subsidiariamente no que for compatível com a LEF (no que esta for omissa), aplica-se o
artigo 652-A do CPC à execução fiscal:

“Art. 652-A. Ao despachar a inicial, o juiz fixará, de plano, os honorários de


advogado a serem pagos pelo executado (art. 20, § 4o). (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
Parágrafo único. No caso de integral pagamento no prazo de 3 (três) dias, a verba
honorária será reduzida pela metade. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

O “cite-se” também interrompe a citação, como dispõe o artigo 8°, § 2°, da LEF:

“Art. 8º - O executado será citado para, no prazo de 5 (cinco) dias, pagar a dívida
com os juros e multa de mora e encargos indicados na Certidão de Dívida Ativa, ou
garantir a execução, observadas as seguintes normas:
I - a citação será feita pelo correio, com aviso de recepção, se a Fazenda Pública
não a requerer por outra forma;
II - a citação pelo correio considera-se feita na data da entrega da carta no endereço
do executado, ou, se a data for omitida, no aviso de recepção, 10 (dez) dias após a
entrega da carta à agência postal;
III - se o aviso de recepção não retornar no prazo de 15 (quinze) dias da entrega da
carta à agência postal, a citação será feita por Oficial de Justiça ou por edital;
IV - o edital de citação será afixado na sede do Juízo, publicado uma só vez no
órgão oficial, gratuitamente, como expediente judiciário, com o prazo de 30 (trinta)
dias, e conterá, apenas, a indicação da exeqüente, o nome do devedor e dos co-
responsáveis, a quantia devida, a natureza da dívida, a data e o número da inscrição
no Registro da Dívida Ativa, o prazo e o endereço da sede do Juízo.
§ 1º - O executado ausente do País será citado por edital, com prazo de 60
(sessenta) dias.
§ 2º - O despacho do Juiz, que ordenar a citação, interrompe a prescrição.”

Na execução fiscal, porém, não se aplica o artigo 222, “d”, do CPC:

“Art. 222. A citação será feita pelo correio, para qualquer comarca do País, exceto:
(Redação dada pela Lei nº 8.710, de 24.9.1993)
(...)
d) nos processos de execução; (Incluído pela Lei nº 8.710, de 24.9.1993)
(...)”

Michell Nunes Midlej Maron 152


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Não só a citação postal é permitida na execução fiscal, como a primeira tentativa de


citação é sempre postal, e somente quando frustrada se procede à citação por oficial de
justiça.
O devedor fiscal é citado para pagar, ou indicar bens à penhora, em prazo de cinco
dias, como se vê no artigo 8°, supra. Surge a questão: pode o devedor fiscal requerer o
parcelamento previsto no já transcrito artigo 745-A do CPC?
Este cabimento dependerá da natureza da dívida: se na execução fiscal se está
buscando satisfação de um crédito tributário, o parcelamento não pode ser requerido na
forma do CPC, porque o parcelamento de dívida tributária demanda lei específica, na forma
do artigo 155-A do CTN:

“Art. 155-A. O parcelamento será concedido na forma e condição estabelecidas em


lei específica. (Incluído pela Lcp nº 104, de 10.1.2001)
(...)”

Se, outrossim, a dívida for fiscal de natureza não tributária, nada obsta que se
aplique este dispositivo do CPC, facultado o parcelamento ao devedor.
É aplicável, também na execução fiscal, a rejeição liminar de embargos, prevista no
artigo 739, III, do CPC, também já discutido.
Se o executado preferir indicar bens à penhora, ao invés de pagar, o artigo 11 da
LEF estabelece a gradação legal de interesse dos bens. Repare que na execução fiscal vige
o regime antigo, em que o devedor é quem indica bens à penhora, e não o credor, como o é
na execução comum atual, pós reforma.

“Art. 11 - A penhora ou arresto de bens obedecerá à seguinte ordem:


I - dinheiro;
II - título da dívida pública, bem como título de crédito, que tenham cotação em
bolsa;
III - pedras e metais preciosos;
IV - imóveis;
V - navios e aeronaves;
VI - veículos;
VII - móveis ou semoventes; e
VIII - direitos e ações.
§ 1º - Excepcionalmente, a penhora poderá recair sobre estabelecimento comercial,
industrial ou agrícola, bem como em plantações ou edifícios em construção.
§ 2º - A penhora efetuada em dinheiro será convertida no depósito de que trata o
inciso I do artigo 9º.
§ 3º - O Juiz ordenará a remoção do bem penhorado para depósito judicial,
particular ou da Fazenda Pública exeqüente, sempre que esta o requerer, em
qualquer fase do processo.”

Caso a nomeação pelo devedor não observe a ordem deste artigo, ela será ineficaz, e
o direito de nomeação será passado ao credor, ao fisco.

1.5. Embargos à execução fiscal

Na execução fiscal, como se vê, a penhora ainda é uma condição para recebimento
dos embargos. O prazo dos embargos é de trinta dias, na forma do artigo 16 da LEF:

Michell Nunes Midlej Maron 153


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 16 - O executado oferecerá embargos, no prazo de 30 (trinta) dias, contados:


I - do depósito;
II - da juntada da prova da fiança bancária;
III - da intimação da penhora.
§ 1º - Não são admissíveis embargos do executado antes de garantida a execução.
§ 2º - No prazo dos embargos, o executado deverá alegar toda matéria útil à defesa,
requerer provas e juntar aos autos os documentos e rol de testemunhas, até três, ou,
a critério do juiz, até o dobro desse limite.
§ 3º - Não será admitida reconvenção, nem compensação, e as exceções, salvo as
de suspeição, incompetência e impedimentos, serão argüidas como matéria
preliminar e serão processadas e julgadas com os embargos.”

A LEF nada fala a respeito do efeito suspensivo dos embargos, pelo que se aplica o
artigo 739-A, § 1º, do CPC, já abordado: não mais há este efeito suspensivo
automaticamente, sendo necessário o requerimento do embargante, a penhora prévia e o
risco de dano para que a suspensão seja deferida.
O embargado será intimado para impugnar os embargos, também em prazo de trinta
dias, na forma do artigo 17 da LEF:

“Art. 17 - Recebidos os embargos, o Juiz mandará intimar a Fazenda, para


impugná-los no prazo de 30 (trinta) dias, designando, em seguida, audiência de
instrução e julgamento.
Parágrafo Único - Não se realizará audiência, se os embargos versarem sobre
matéria de direito, ou, sendo de direito e de fato, a prova for exclusivamente
documental, caso em que o Juiz proferirá a sentença no prazo de 30 (trinta) dias.”

É cabível – e muito frequente, ante a necessidade de garantia do juízo – a exceção


de pré executividade, na execução fiscal.
Após a impugnação dos embargos, estes irão conclusos ao juiz para julgamento.
A execução fiscal é definitiva, eis que lastreada em título executivo extrajudicial, a
CDA. Contudo, se os embargos que ensejaram suspensão da execução forem julgados
improcedentes, deles caberá apelação sem efeito suspensivo, o que fará com que a
execução que estava suspensa volte a tramitar. Sendo o caso, se fosse execução comum,
pré-reforma, nesta volta ao curso a execução manter-se-ia definitiva (o que o STJ entende
que é a dinâmica, mesmo hoje); na execução fiscal, porém, a execução que era definitiva,
neste momento específico se tornará provisória. Aplica-se o novel artigo 587 do CPC,
segundo o STJ:

“Art. 587. É definitiva a execução fundada em título extrajudicial; é provisória


enquanto pendente apelação da sentença de improcedência dos embargos do
executado, quando recebidos com efeito suspensivo (art. 739). (Redação dada pela
Lei nº 11.382, de 2006).”

Se a execução fiscal permanecesse definitiva, poderia haver liquidação do bem


penhorado pelo fisco (enquanto na provisória esta liquidação demanda que o exequente
ofereça caução, e a Fazenda não pode prestar caução, ante a inaptidão dos bens públicos
para qualquer oneração). Se os embargos viessem a ser procedentes, a devida devolução do
bem seria inviável, restando ao executado vencedor a pesarosa via dos precatórios. Esta é a
razão para que a execução se torne provisória, neste caso.

Michell Nunes Midlej Maron 154


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

1.6. Remição

O executado poderá remir o bem penhorado, resgatando-o em troca de dinheiro. A


remição vige forte, ainda, na execução fiscal, como se vê no artigo 15 da Lei 6.830/80:

“Art. 15 - Em qualquer fase do processo, será deferida pelo Juiz:


I - ao executado, a substituição da penhora por depósito em dinheiro ou fiança
bancária; e
II - à Fazenda Pública, a substituição dos bens penhorados por outros,
independentemente da ordem enumerada no artigo 11, bem como o reforço da
penhora insuficiente.”

O CPC, no artigo 651, trata da remição:

“Art. 651. Antes de adjudicados ou alienados os bens, pode o executado, a todo


tempo, remir a execução, pagando ou consignando a importância atualizada da
dívida, mais juros, custas e honorários advocatícios. (Redação dada pela Lei nº
11.382, de 2006).”

Como curiosidade, o artigo 1.482 do CC também prevê a remição, mas esta norma
está mitigada pela reforma processual, que só admite a remição pelo próprio executado,
como se vê no dispositivo acima. Veja:

“Art. 1.482. Realizada a praça, o executado poderá, até a assinatura do auto de


arrematação ou até que seja publicada a sentença de adjudicação, remir o imóvel
hipotecado, oferecendo preço igual ao da avaliação, se não tiver havido licitantes,
ou ao do maior lance oferecido. Igual direito caberá ao cônjuge, aos descendentes
ou ascendentes do executado.”

1.7. Execução por precatória

O artigo 20 da LEF estabelece que na execução por precatória, os embargos podem


ser apresentados e julgados no juízo deprecado, a depender da matéria. A norma é idêntica à
que agora vige no CPC, o já mencionado artigo 747 deste Código:

“Art. 20 - Na execução por carta, os embargos do executado serão oferecidos no


Juízo deprecado, que os remeterá ao Juízo deprecante, para instrução e julgamento.
Parágrafo Único - Quando os embargos tiverem por objeto vícios ou
irregularidades de atos do próprio Juízo deprecado, caber-lhe -á unicamente o
julgamento dessa matéria.”

1.8. Embargos à arrematação ou adjudicação

Na execução comum, só há legitimidade para embargar a arrematação ou


adjudicação pelo executado, em cinco dias, na forma do artigo 746, contados do
aperfeiçoamento da arrematação ou da adjudicação. Este momento, em que a arrematação
ou adjudicação se torna perfeita, é o ato da assinatura do respectivo auto: é dali que correm
os cinco dias, na execução comum.

“Art. 746. É lícito ao executado, no prazo de 5 (cinco) dias, contados da


adjudicação, alienação ou arrematação, oferecer embargos fundados em nulidade

Michell Nunes Midlej Maron 155


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

da execução, ou em causa extintiva da obrigação, desde que superveniente à


penhora, aplicando-se, no que couber, o disposto neste Capítulo. (Redação dada
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 1º Oferecidos embargos, poderá o adquirente desistir da aquisição. (Incluído
pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 2º No caso do § 1o deste artigo, o juiz deferirá de plano o requerimento, com a
imediata liberação do depósito feito pelo adquirente (art. 694, § 1o, inciso IV).
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Caso os embargos sejam declarados manifestamente protelatórios, o juiz
imporá multa ao embargante, não superior a 20% (vinte por cento) do valor da
execução, em favor de quem desistiu da aquisição. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).”

Já na execução fiscal, em que a adjudicação não é a primeira opção expropriatória,


como se vê no artigo 24, II, “b”, da LEF, a Fazenda Pública poderá adjudicar o bem após a
arrematação. Por isso, mesmo depois da assinatura do auto de arrematação, esta só se torna
perfeita após o decurso dos trinta dias, de que a Fazenda dispõe para adjudicar o bem.
Assim, na execução fiscal, o termo inicial para os embargos à arrematação é o fim do curso
de trinta dias, e da adjudicação, a sua efetivação.

“Art. 24 - A Fazenda Pública poderá adjudicar os bens penhorados:


I - antes do leilão, pelo preço da avaliação, se a execução não for embargada ou se
rejeitados os embargos;
II - findo o leilão:
a) se não houver licitante, pelo preço da avaliação;
b) havendo licitantes, com preferência, em igualdade de condições com a melhor
oferta, no prazo de 30 (trinta) dias.
Parágrafo Único - Se o preço da avaliação ou o valor da melhor oferta for superior
ao dos créditos da Fazenda Pública, a adjudicação somente será deferida pelo Juiz
se a diferença for depositada, pela exeqüente, à ordem do Juízo, no prazo de 30
(trinta) dias.”

1.9. Cancelamento da inscrição na dívida ativa

O artigo 26 da LEF determina que a execução fiscal será extinta sem qualquer ônus
para as partes, se a inscrição na dívida ativa for cancelada antes da sentença:

“Art. 26 - Se, antes da decisão de primeira instância, a inscrição de Divida Ativa


for, a qualquer título, cancelada, a execução fiscal será extinta, sem qualquer ônus
para as partes.”

Contudo, se houve a angularização da execução fiscal, participando o executado por


meio de embargos, há que se condenar o fisco nos honorários de advogado deste, na forma
da súmula 153 do STJ:

“Súmula 153, STJ: A desistência da execução fiscal, após o oferecimento dos


embargos, não exime o exequente dos encargos da sucumbência.”

1.10. Embargos infringentes na execução fiscal de alçada

Michell Nunes Midlej Maron 156


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O artigo 34 da LEF trata dos embargos infringentes em execuções fiscais de alçada,


recurso específico desta seara:

“Art. 34 - Das sentenças de primeira instância proferidas em execuções de valor


igual ou inferior a 50 (cinqüenta) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional -
ORTN, só se admitirão embargos infringentes e de declaração.
§ 1º - Para os efeitos deste artigo considerar-se-á o valor da dívida monetariamente
atualizado e acrescido de multa e juros de mora e de mais encargos legais, na data
da distribuição.
§ 2º - Os embargos infringentes, instruídos, ou não, com documentos novos, serão
deduzidos, no prazo de 10 (dez) dias perante o mesmo Juízo, em petição
fundamentada.
§ 3º - Ouvido o embargado, no prazo de 10 (dez) dias, serão os autos conclusos ao
Juiz, que, dentro de 20 (vinte) dias, os rejeitará ou reformará a sentença.”

Da decisão destes embargos cabe diretamente o recursos extraordinário, porque


representa o exaurimento da via ordinária recursal, neste âmbito. Veja a súmula 640 do
STF:

“Súmula 640, STF: É cabível recurso extraordinário contra decisão proferida por
juiz de primeiro grau nas causas de alçada, ou por turma recursal de juizado
especial cível e criminal.”

Não cabe, porém, recurso especial, eis que a decisão não promanou de tribunal, mas
sim de juízo de primeiro grau.

1.11. Prescrição

A prescrição, na execução fiscal, é tratada no artigo 40 da LEF:

“Art. 40 - O Juiz suspenderá o curso da execução, enquanto não for localizado o


devedor ou encontrados bens sobre os quais possa recair a penhora, e, nesses casos,
não correrá o prazo de prescrição.
§ 1º - Suspenso o curso da execução, será aberta vista dos autos ao representante
judicial da Fazenda Pública.
§ 2º - Decorrido o prazo máximo de 1 (um) ano, sem que seja localizado o devedor
ou encontrados bens penhoráveis, o Juiz ordenará o arquivamento dos autos.
§ 3º - Encontrados que sejam, a qualquer tempo, o devedor ou os bens, serão
desarquivados os autos para prosseguimento da execução.
§ 4° Se da decisão que ordenar o arquivamento tiver decorrido o prazo
prescricional, o juiz, depois de ouvida a Fazenda Pública, poderá, de ofício,
reconhecer a prescrição intercorrente e decretá-la de imediato. (Incluído pela Lei nº
11.051, de 2004)”

A interrupção da prescrição ocorre no “cite-se”, e permanece sem curso este prazo.


Não tendo sido localizados bens passíveis de penhora, será aberta vista à Fazenda para, por
um ano, buscar estes bens, após o qual iniciará o curso do prazo prescricional de cinco
anos, para a prescrição do crédito. Findo este prazo, a prescrição será decretada, após uma
nova abertura de vista à Fazenda, na forma do § 4º do artigo supra23.

23
Esta norma foi discutida em sua constitucionalidade, eis que é matéria de prescrição tributária tratada em lei
ordinária, quando se exige lei complementar para este assunto. O STJ entendeu que esta norma é meramente

Michell Nunes Midlej Maron 157


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Casos Concretos

Questão 1

processual, e não materialmente tributária, pelo que é perfeitamente constitucional.

Michell Nunes Midlej Maron 158


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Trata-se de execução fiscal promovida pelo Estado do Rio de Janeiro contra


Calçados Ltda., fundada em certidão de dívida ativa extraída em nome da
executada.Citada a executada, na forma do artigo 8° da Lei n° 6.830/1980, permaneceu
inerte.O magistrado determinou então, na forma do artigo 10 da Lei n° 6.830/1980, fosse
promovida a penhora de bens da executada suficientes à satisfação do crédito exeqüendo.
A diligência do oficial de justiça foi infrutífera. Diante da certidão negativa do oficial de
justiça o procurador do estado peticiona, requerendo a penhora dos bens particulares dos
sócios-administradores da executada. A petição foi instruída com documento expedido
pela Junta Comercial, em que constava a dissolução irregular da pessoa jurídica. O
magistrado defere o pedido com fundamento no artigo 135, III da Lei n° 5.172/1966
(CTN).Pergunta-se:
A) Correta a decisão? Fundamente.
B) De qual medida processual poderão se valer os sócios administradores caso
pretendam se insurgir contra a penhora de seus bens particulares? Fundamente.

Resposta à Questão 1

A) A decisão foi incorreta: seria necessária a emenda da inicial para a inclusão dos
sócios no pólo passivo, pois do contrário eles são considerados terceiros.

B) Poderão, neste ponto, valer-se de embargos de terceiro, eis que ainda não estão
formalmente integrados à lide como partes.

Veja o Resp. 171.150:

“REsp 171150 / SP. DJ 24/08/1998 p. 65.


PROCESSO CIVIL. EMBARGOS DE TERCEIRO. PENHORA DE BENS DE
QUEM NÃO FOI CITADO NOS AUTOS DA EXECUÇÃO FISCAL. Se a
penhora não foi precedida de citação na execução fiscal, o responsável tributário
tem embargos de terceiro para afastá-la, sem prejuízo de sua renovação pelos
meios regulares, nisso esgotando-se a prestação jurisdicional; a exigibilidade do
crédito tributário só pode ser discutida nos embargos do devedor. Recurso especial
conhecido e provido.”

Tema XVI

Michell Nunes Midlej Maron 159


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Procedimento especial de execução por quantia certa: em face de devedor insolvente. Conceito.
Generalidades. Da declaração de insolvência requerida: a) por credor; b) por devedor ou seu espólio.
Declaração judicial de insolvência. Atribuição do administrador. Procedimento.

Notas de Aula24

1. Execução por quantia certa em face de devedor insolvente

Considera-se insolvente aquele devedor que não dispõe de patrimônio suficiente


para pagar todas as suas dívidas. É um conceito de mera constatação contábil. Veja o artigo
748 do CPC:

“Art. 748. Dá-se a insolvência toda vez que as dívidas excederem à importância
dos bens do devedor.”

A execução contra este tipo de devedor é diferente da contra o devedor solvente. A


primeira característica distintiva fundamental é a sua universalidade: a execução contra este
devedor é objetiva e subjetivamente universal.
No sentido objetivo, é universal porque abrange todos os bens patrimoniais do
devedor, diferindo da execução do solvente, que se concentra apenas nos bens quanto
bastantes para assegurar a satisfação da dívida. Aqui, arrecadar-se-á todos os bens, porque
nem assim são suficientes para atender a todos os credores. É universal no sentido subjetivo
porque abrange todos os credores daquele devedor insolvente.
Na execução singular, aplica-se o brocardo prior in tempore potior in jure, ou seja,
quem primeiro executa tem preferência na satisfação: após satisfazer a integralidade de seu
crédito, o que restar passa ao segundo lugar. Na universal, aplica-se outro princípio: o pars
conditio creditorum, que coloca os credores em uma posição de igualdade, em cada classe,
ou seja, cada um receberá a proporção devida em percentual, se não for possível a
satisfação do crédito de todos.
Para se instaurar a execução contra devedor insolvente, não basta a constatação da
insolvência contábil: é preciso que haja a declaração judicial de insolvência. Além disso, é
pressuposto desta execução que o executado não seja empresário, ou qualquer dos sujeitos
que devem se submeter ao processo de falência: para empresários, segue-se a execução
universal da falência; para os não empresários, quer pessoas naturais, quer pessoas jurídicas
não empresárias, segue-se este rito da insolvência.
Esta execução comporta duas fases bem definidas: a inicial, em que se cogita e
verifica da existência ou não da insolvência contábil. Caracterizada, o juiz declara tal
situação de insolvência, passando à segunda fase, que é aquela em que os bens são
expropriados, arrecadados, alienados, e feitos os pagamentos nas proporções devidas. A
primeira fase, como se vê, é mais cognitiva do que propriamente executória, assumindo este
rito o caráter executivo próprio apenas na segunda fase.
A declaração de insolvência pode ser requerida, inicialmente, por qualquer credor
quirografário munido de título executivo judicial ou extrajudicial, líquido, certo e exigível.
Os credores com garantia real, com privilégios de qualquer sorte, não têm interesse em
reclamar a insolvência do devedor. Também pode o próprio devedor requerer a declaração
de sua insolvência – o que é similar à autofalência, no rito falimentar, empresarial. O juiz

24
Aula ministrada pelo professor Wilson Marques, em 14/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 160


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

jamais poderá declarar a insolvência ex officio: a provocação de um dos legitimados é


imprescindível – ne procedit judex ex officio. Veja o artigo 753 do CPC:

“Art. 753. A declaração de insolvência pode ser requerida:


I - por qualquer credor quirografário;
II - pelo devedor;
III - pelo inventariante do espólio do devedor.”

A declaração de insolvência só se impõe quando constatada a insolvência contábil,


por óbvio, e para demonstrar este desequilíbrio patrimonial diante do passivo, toda prova é
cabível. Há situações, porém, que a lei faz presumir insolvência, por observação de certos
atos e circunstâncias do devedor que levam a esta conclusão. Veja o artigo 750 do CPC:

“Art. 750. Presume-se a insolvência quando:


I - o devedor não possuir outros bens livres e desembaraçados para nomear à
penhora;
II - forem arrestados bens do devedor, com fundamento no art. 813, I, II e III.”

Imagine-se que, proposta a execução contra devedor solvente, constata-se que não
há bens a serem penhorados: a insolvência é presumível, se não se encontra nenhum bem
penhorável, ou, mesmo que o haja, sequer é suficiente para atender a este credor singular
que iniciou a execução tendo-o por solvente.
Também quando arrestados os bens do devedor, na forma do artigo 813, I, II e III do
CPC, há presunção de insolvência:

“Art. 813. O arresto tem lugar:


I - quando o devedor sem domicílio certo intenta ausentar-se ou alienar os bens que
possui, ou deixa de pagar a obrigação no prazo estipulado;
II - quando o devedor, que tem domicílio:
a) se ausenta ou tenta ausentar-se furtivamente;
b) caindo em insolvência, aliena ou tenta alienar bens que possui; contrai ou tenta
contrair dívidas extraordinárias; põe ou tenta pôr os seus bens em nome de
terceiros; ou comete outro qualquer artifício fraudulento, a fim de frustrar a
execução ou lesar credores;
III - quando o devedor, que possui bens de raiz, intenta aliená-los, hipotecá-los ou
dá-los em anticrese, sem ficar com algum ou alguns, livres e desembargados,
equivalentes às dívidas;
(...)”

1.1. Insolvência requerida pelo credor

A insolvência requerida pelo credor tem início por uma verdadeira petição inicial,
na qual se expressa a pretensão de execução por quantia certa contra devedor insolvente.
Abre-se, então, aquela fase cognitiva, a fim de constatar e declarar a insolvência. O devedor
se defenderá mediante embargos (mesmo que se trate de uma fase cognitiva, de fato),
embargos estes que, peculiarmente, têm natureza de defesa, e não de ação autônoma. É uma
verdadeira contestação nomeada de embargos, diferentemente dos embargos do devedor
singular solvente, que têm natureza de ação porque não há nenhuma nota cognitiva no rito
executivo contra devedor solvente, como aqui o há. Veja os artigos 754 e 755 do CPC:

Michell Nunes Midlej Maron 161


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 754. O credor requererá a declaração de insolvência do devedor, instruindo o


pedido com título executivo judicial ou extrajudicial (art. 586).”

“Art. 755. O devedor será citado para, no prazo de 10 (dez) dias, opor embargos;
se os não oferecer, o juiz proferirá, em 10 (dez) dias, a sentença.”

Apesar de a maior parte da doutrina entender assim, que estes embargos têm
natureza de contestação, Humberto Theodoro Júnior defende que são exatamente os
mesmos embargos do devedor com natureza de ação, nada mais. É minoritário, porém,
porque estes embargos são uma impugnação à cognição (papel exercido por contestação), e
não à execução, como os embargos comuns.
Citado, além de responder por meio de embargos, o devedor pode ter outras
atitudes. Pode simplesmente pagar a dívida, extinguindo o processo: com o pagamento,
prova que não é insolvente, e elimina qualquer objeto da demanda.
Pode o devedor também depositar em juízo a quantia demandada, a fim de discutir
se é devida ou não, se o credor é legitimo ou não, etc. – depósito elisivo, como é chamado.
Se prosseguindo a discussão, comprovar-se que o devedor depositante tem razão, ele
levantará o depósito, extinguindo a execução; se estava errado, quem levanta é a parte
contrária, o credor. A única certeza, após o depósito elisivo, é que jamais haverá declaração
de insolvência: o devedor é solvente, pois demonstrou capacidade patrimonial para saldar a
dívida, no depósito efetuado.
Veja os artigos 756 e 757 do CPC:

“Art. 756. Nos embargos pode o devedor alegar:


I - que não paga por ocorrer alguma das causas enumeradas nos arts. 741, 742 e
745, conforme o pedido de insolvência se funde em título judicial ou
extrajudicial;”
II - que o seu ativo é superior ao passivo.”

“Art. 757. O devedor elidirá o pedido de insolvência se, no prazo para opor
embargos, depositar a importância do crédito, para lhe discutir a legitimidade ou o
valor.”

Terceira atitude que pode o devedor tomar, quando citado para a execução como
insolvente, é a de simplesmente silenciar, quedando-se inerte. A consequência desta inércia
é a revelia: se estamos diante de uma fase cognitiva, a ausência de argumentação contrária,
na via dos embargos contestatórios, implica revelia, com todos seus efeitos – especialmente
a presunção de veracidade da alegação de insolvência. Silente o devedor, portanto, o juiz
provavelmente julgará procedente a petição de declaração de insolvência, e a sentença
declarará esta insolvência, passando então à fase executiva.
Note-se que se falou que o juiz provavelmente declarará a insolvência, na hipótese
da revelia, e não certamente. Isto porque pode haver a falta de algum pressuposto ou
condição para tanto, como a inexigibilidade do título, a ilegitimidade do requerente, etc.
Nestes casos, mesmo com revelia, haverá improcedência do pedido ou extinção por
carência de ação.
Se o devedor oferecer a resistência que a lei lhe faculta, os embargos elisivos, pode
neles argumentar que a dívida é inexistente, ou que está sendo cobrada a maior. O devedor
pode alegar, virtualmente, tudo aquilo que lhe for de direito. Pode também resumir sua
defesa à alegação de que não é insolvente, ou seja, não contesta a dívida sob qualquer

Michell Nunes Midlej Maron 162


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

aspecto, mas sim a qualidade de insolvente que se lhe imputa o credor. Demonstrando que
não é insolvente, a execução se extinguirá, não podendo haver a convolação desta execução
naquela contra devedor solvente.
Vencida a fase postulatória, o juiz decidirá quem tem razão, credor ou devedor,
declarando ou não a insolvência, por sentença. Antes disso, nada impede que haja a
produção de provas, ou qualquer outro passo procedimental colhido por analogia ao rito
ordinário – réplica, providências preliminares, audiência de instrução e julgamento, etc.

1.2. Autoinsolvência

Pode o devedor, ou seu espólio, constatando sua insuficiência patrimonial, ele


próprio requerer a declaração de sua insolvência, de forma a sanear as dívidas que sobre si
pesam. É claro que este requerimento é uma faculdade do devedor ou do espólio.
A autoinsolvência é também detonada por meio de uma petição inicial, da qual
constam alguns requisitos especiais, similares à autofalência. É preciso que o devedor, na
inicial, relacione todos os seus credores e respectivos créditos, com a qualificação de cada
crédito (com garantia real, privilégio, quirografário, etc.). É também necessário que
inventarie todos os seus bens do ativo, relacionando-os com a respectiva avaliação, por si
atribuída – com isto demonstrando a inabilidade do ativo para cobrir o passivo.
O devedor precisa, também, demonstrar as causas que o levaram àquele estado de
insolvência. Veja os artigos 759 e 760 do CPC:

“Art. 759. É lícito ao devedor ou ao seu espólio, a todo tempo, requerer a


declaração de insolvência.”

“Art. 760. A petição, dirigida ao juiz da comarca em que o devedor tem o seu
domicílio, conterá:
I - a relação nominal de todos os credores, com a indicação do domicílio de cada
um, bem como da importância e da natureza dos respectivos créditos;
II - a individuação de todos os bens, com a estimativa do valor de cada um;
III - o relatório do estado patrimonial, com a exposição das causas que
determinaram a insolvência.”

Não haverá citação dos credores, nesta situação. O juiz simplesmente verificará,
após oitiva do MP (ante o interesse público na lide), se estão presentes as condições da
insolvência, e a declarará ou não. A decisão que declara ou não a insolvência, nesta
primeira fase, é uma sentença, para a maior parte da doutrina – por todos, Barbosa Moreira.
Para Alexandre Câmara, é decisão interlocutória, porque não termina o processo (parecendo
estar mais afeito ao conceito antigo de sentença). A decisão é mesmo uma sentença, porque
responde à pretensão inicial – declarar ou não a insolvência. E a última decisão, que
termina a execução, por qualquer que seja o motivo, é também uma sentença. Veja que,
então, trata-se de uma resposta escalonada à pretensão inicial, sempre, a execução contra o
insolvente, quando declarada a insolvência.

1.3. Declaração de insolvência

A sentença que declara a insolvência é, por óbvio, declaratória, mas é


predominantemente constitutiva. Isto porque este ato acarretará uma série de alterações na

Michell Nunes Midlej Maron 163


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

situação material do executado, criando uma nova situação jurídica – o que é aspecto
constitutivo. Estes efeitos estão no artigo 751 do CPC:

“Art. 751. A declaração de insolvência do devedor produz:


I - o vencimento antecipado das suas dívidas;
II - a arrecadação de todos os seus bens suscetíveis de penhora, quer os atuais, quer
os adquiridos no curso do processo;
III - a execução por concurso universal dos seus credores.”

Além disso, o devedor que for declarado insolvente perderá o poder de


administração de seus bens, o que é uma drástica modificação material dos fatos –
evidenciando a clara natureza constitutiva da sentença. Veja o artigo 752 do CPC:

“Art. 752. Declarada a insolvência, o devedor perde o direito de administrar os


seus bens e de dispor deles, até a liquidação total da massa.”

A maior modificação material induzida por esta sentença constitutiva, porém, é a


expropriação final dos bens, arrecadados para satisfazer quantos créditos comportarem.
Na sentença declaratória da insolvência, o juiz nomeia desde logo o administrador
da massa do ativo do devedor, e determina a expedição de editais convocatórios dos
credores para, em prazo de vinte dias, declarem se concordem com o crédito, apresentando
seus respectivos títulos. Veja o artigo 761 do CPC:

“Art. 761. Na sentença, que declarar a insolvência, o juiz:


I - nomeará, dentre os maiores credores, um administrador da massa;
II - mandará expedir edital, convocando os credores para que apresentem, no prazo
de 20 (vinte) dias, a declaração do crédito, acompanhada do respectivo título.”

Nesta oportunidade, os credores poderão impugnar tanto o valor dado a seus


créditos quanto os créditos dos demais credores, se constatarem irregularidades.
Finda a fase cognitiva, passa-se à execução propriamente dita, objetiva e
subjetivamente universal, da qual constaram todos os bens patrimoniais, excutíveis, do
devedor, e todos os credores apontados.
Arrecadados os bens, serão eles alienados em hasta pública, nos moldes e
modalidades já vistos, geralmente transformando o produto da massa em dinheiro, porque é
a forma mais provável de se conseguir adimplir os credores na ordem legal.

1.4. Ordem dos créditos no concurso de credores

A ordem de pagamento neste concurso de credores é determinada por uma diversa


gama de dispositivos, como se vê, por exemplo, no artigo 961 do CC:

“Art. 961. O crédito real prefere ao pessoal de qualquer espécie; o crédito pessoal
privilegiado, ao simples; e o privilégio especial, ao geral.”

Em síntese, pode-se traçar a seguinte ordem neste concurso de credores com títulos
executivos hábeis: em primeiro lugar, receberão aqueles credores titulares de créditos
trabalhistas; em seguida, antes de passar aos próximos credores, há o pagamento das

Michell Nunes Midlej Maron 164


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

custas processuais, o que não pode ser considerada uma posição no rol de credores,
propriamente dita.
Segunda categoria a receber, portanto, é a dos credores com créditos resultantes de
acidentes trabalhistas.
Em seguida, em terceiro lugar, os créditos fiscais, categoria que tem uma ordem
interna: primeiro são pagos os créditos federais; em seguida, os estaduais; e por último os
municipais.
A seguir, em quarto lugar, passa-se ao adimplemento dos credores com garantia
real, detentores de penhor, hipoteca, anticrese ou alienação fiduciária.
Em quinto lugar, passa-se ao pagamento dos créditos com privilégio especial.
Em sexto lugar, são pagos os créditos com privilégio geral.
Em último, passa-se ao pagamento dos credores quirografários.
Cada uma das classes deve ser inteiramente adimplida, para somente então se passar
à classe seguinte. Se, alcançando uma das classes, o valor não for suficiente para adimplir
todos os credores daquela classe, haverá um rateio entre eles: cada um receberá percentual
do valor dedicado a sua classe, se o montante não puder pagar toda a classe.
Vê-se, portanto, que o princípio pars conditio creditorum se impõe de forma
intraclasse, ou seja, é vigente para os credores de uma mesma classe. A ordem legal deve
ser respeitada, de classe para classe, ou seja, não há igualdade de direito de crédito entre
credores de classes diferentes – a igualdade vigora apenas entre os credores de uma mesma
classe.
As declarações de crédito são autuadas, e os credores concorrentes são intimados,
como dito, para apresentar impugnações, que podem versar sobre quaisquer aspectos dos
créditos – categoria, montante, ou mesmo a própria existência.
Não havendo impugnação, ou resolvidas as que foram propostas, é hora de se
formar o quadro geral de credores. Neste momento, far-se-á a contabilização do ativo e do
passivo, expressando, já, a ordem dos credores, e a quem caberá receber quanto – atividade
incumbida ao contador judicial. Certamente, necessariamente, os credores quirografários
receberão percentuais, se é que receberão alguma coisa, porque se fossem receber a
integralidade não haveria insolvência, e sim solvência.
Se o juiz detectar algum erro no quadro geral de credores, ou se algum credor
apontar tal erro, os autos retornarão ao contador para apurar o que está errado, e refazer o
quadro. Quando este quadro for finalmente aprovado pelo juiz, passar-se-á à fase de efetivo
pagamento aos credores.

1.4.1. Credores retardatários

Pode acontecer de haver algum credor que não se habilitou no processo, a tempo de
formar o quadro geral de credores: é o chamado credor retardatário, aquele que tinha
condições de declarar seu crédito e não o fez, por desídia, ou qualquer que seja a razão.
Embora retardatário, não ficará excluído do rateio, perdendo o crédito. Não perde seu
crédito nem o direito a participar do rateio, apenas perdendo direito a tomar parte do rateio
que eventualmente já tenha sido efetuado – e que não será desfeito.
Para ter direito a seu crédito, este credor retardatário, no entanto, deverá entrar com
uma ação direta, justamente para que seu crédito seja reconhecido, e incluso na respectiva
categoria, na forma do artigo 784 do CPC. Esta razão não terá qualquer sentido se o

Michell Nunes Midlej Maron 165


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

processo houver sido extinto, porque então o patrimônio do devedor terá se extirpado.
Deverá, este credor, guardar seu crédito, aguardando que o devedor amealhe patrimônio
para uma possível execução futura.

“Art. 784. Ao credor retardatário é assegurado o direito de disputar, por ação


direta, antes do rateio final, a prelação ou a cota proporcional ao seu crédito.”

Sendo ajuizada a ação direta de habilitação, os demais credores serão citados para
impugnar aquele crédito, se quiserem, tal como foi oportunizada a impugnação
originalmente contra todos os créditos habilitados tempestivamente. Proceder-se-á a um rito
cognitivo, com eventual fase probatória, e, não havendo irregularidade, constatada pelo juiz
ou pela impugnação procedente, o pedido do retardatário será julgado procedente, e seu
crédito passará a compor a respectiva categoria do quadro geral de credores. Se verificada
alguma irregularidade, o pedido será julgado improcedente, e o crédito não será habilitado.
Da sentença que habilita ou não o crédito do retardatário caberá apelação25.
Quando incluído o crédito do retardatário, se não houve ainda a repartição dos
valores, ele simplesmente será incluído no quadro, e concorrerá como qualquer outro credor
de sua classe.

1.5. Extinção das obrigações

Em relação àqueles credores que receberem a integralidade de seu débito, por óbvio,
a obrigação do devedor fica naturalmente extinta. Em relação àqueles que só receberam
percentual, porém, a extinção é igualmente parcial, o que significa que, surgindo mais bens
no patrimônio do devedor, serão promovidas novas arrecadações, alienações e rateios,
pagando a cada um mais um percentual, até que se adimpla toda a dívida.
Este procedimento, porém, de novas arrecadações e pagamentos aos credores
remanescentes pelas dívidas parciais, tem um limite temporal. Não pode o devedor ficar
perpetuamente sob a espada da dívida, pendente sobre seu patrimônio eternamente. A lei
prevê, então, para estas novas arrecadações, o prazo de cinco anos, contados da data de
encerramento do processo de insolvência, que se dá quando é prolatada a sentença de
extinção do processo, quando finda o último rateio do patrimônio conhecido do devedor.
Veja o artigo 778 do CPC:

“Art. 778. Consideram-se extintas todas as obrigações do devedor, decorrido o


prazo de 5 (cinco) anos, contados da data do encerramento do processo de
insolvência.”

Passados cinco anos, o devedor poderá pedir ao juízo da insolvência que decrete a
extinção das obrigações, conforme admite o artigo 779 do CPC:

25
Pode ser requerida a reserva de montante, quando da apelação, para o caso de ser esta provida, a fim de que
o credor que foi rechaçado na sentença não seja prejudicado, mas para que também não seja estagnado o
procedimento satisfativo. Reservado o valor, se ao final for procedente o crédito, o credor o receberá; se for
realmente improcedente, o montante retorna à massa, redistribuído entre os credores que já receberam, na
ordem legal.

Michell Nunes Midlej Maron 166


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 779. É lícito ao devedor requerer ao juízo da insolvência a extinção das


obrigações; o juiz mandará publicar edital, com o prazo de 30 (trinta) dias, no
órgão oficial e em outro jornal de grande circulação.”

Este pedido de extinção se trata de mais uma ação incidental à insolvência, iniciada
por petição. Expedidos os editais, poderão os credores impugnar o pedido de extinção, na
forma do artigo 780 do CPC:

“Art. 780. No prazo estabelecido no artigo antecedente, qualquer credor poderá


opor-se ao pedido, alegando que:
I - não transcorreram 5 (cinco) anos da data do encerramento da insolvência;
II - o devedor adquiriu bens, sujeitos à arrecadação (art. 776).”

Se nada restar comprovado que impeça a extinção das obrigações, a sentença será
procedente, e devedor retornará à liberdade para a prática de atos da vida civil. Veja os
artigos 781 e 782 do CPC:

“Art. 781. Ouvido o devedor no prazo de 10 (dez) dias, o juiz proferirá sentença;
havendo provas a produzir, o juiz designará audiência de instrução e julgamento.”

“Art. 782. A sentença, que declarar extintas as obrigações, será publicada por
edital, ficando o devedor habilitado a praticar todos os atos da vida civil.”

Casos Concretos

Questão 1

Michell Nunes Midlej Maron 167


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

No curso de execução de prestação pecuniária fundada em título executivo


extrajudicial, o magistrado, considerando a insuficiência de bens do devedor para a
satisfação da dívida executada, profere decisão ex officio, “transformando” o processo de
execução contra devedor solvente em processo de execução contra devedor insolvente.
Pergunta-se:
A) Correta a decisão do magistrado? Fundamente.
B) Se houvesse requerimento do exeqüente, a “transformação” seria possível?

Resposta à Questão 1

A) Completamente errada. Não se pode alterar a natureza da ação, nem mesmo a


requerimento do próprio autor, quanto mais ex officio.
B) Como dito, não se pode alterar a natureza da ação, a requerimento ou de ofício.
O que o autor deveria fazer é, simplesmente, desistir da ação proposta e ajuizar
uma nova. A única possibilidade de se vislumbrar algo como esta
“transformação”, aqui, é a alteração do pedido e da causa de pedir antes da
citação. Fora isso, não é possível a dita transformação.

Tema XVII

Procedimento especial de execução por quantia certa: dívida alimentar decorrente de ato ilícito ou
decorrente de vínculo de parentesco. Reflexos da Lei nº 11.232/05 nestes procedimentos.

Michell Nunes Midlej Maron 168


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Notas de Aula26

1. Execução de alimentos

A dívida alimentar pode surgir tanto por conta de uma relação de parentesco como
por uma questão de responsabilidade civil, e surgirá de uma decisão interlocutória ou de
uma sentença. Em qualquer dos casos, a execução seguirá a mesma forma, aqui abordada.
Esta execução é uma espécie do gênero execução contra devedor solvente, tendo
peculiaridades atentas à natureza do crédito exequendo.
Antes da instauração do processo sincrético, era cediço que duas eram as espécies
de execução de alimentos: a execução comum, nos exatos moldes de qualquer execução
comum contra devedor solvente; e a execução especial, com possibilidade de prisão civil,
respectivamente apontadas nos artigos 732 e 733 do CPC:

“Art. 732. A execução de sentença, que condena ao pagamento de prestação


alimentícia, far-se-á conforme o disposto no Capítulo IV deste Título.
Parágrafo único. Recaindo a penhora em dinheiro, o oferecimento de embargos
não obsta a que o exeqüente levante mensalmente a importância da prestação.”

“Art. 733. Na execução de sentença ou de decisão, que fixa os alimentos


provisionais, o juiz mandará citar o devedor para, em 3 (três) dias, efetuar o
pagamento, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo.
§ 1° Se o devedor não pagar, nem se escusar, o juiz decretar-lhe-á a prisão pelo
prazo de 1 (um) a 3 (três) meses.
§ 2° O cumprimento da pena não exime o devedor do pagamento das prestações
vencidas e vincendas. (Redação dada pela Lei nº 6.515, de 26.12.1977)
§ 3° Paga a prestação alimentícia, o juiz suspenderá o cumprimento da ordem de
prisão.”

A reforma operada pela Lei 11.232/05, porém, fez nascer dúvida sobre a
manutenção destas duas formas de execução. A lei não tratou destes artigos supra
expressamente, fazendo surgir a dúvida se seriam aplicáveis ou não os seus preceitos a estas
execuções – o sincretismo, a multa automática pelo não pagamento, etc.
Humberto Theodoro Junior defende que não houve qualquer alteração: se a reforma
não apontou para estes dispositivos, em nada lhes pertine, continuando tudo como antes.
Assim, a execução de alimentos, por uma ou outra forma, deve ser efetuada de forma
autônoma, em ação de execução autônoma, e não em fase executiva.
Esta não é a melhor orientação, contudo. Se a reforma veio agilizar a satisfação dos
créditos, não faz sentido esta agilidade ser menor justamente nos créditos mais relevantes e
urgentes, que são os alimentares.
Por isso, ao menos quanto à execução alimentar comum, a maior doutrina entende
que toda a reforma é aplicável, correndo esta execução sob o processo sincrético, hoje. A
execução da prestação alimentar do artigo 732 do CPC, portanto, segue exatamente o
mesmo rito da execução de qualquer título executivo judicial contra devedor solvente, o
cumprimento de sentença, sem ressalvas. Assim, remete-se a tudo que foi discorrido sobre
tal execução, com todas as discussões cabíveis (inclusive sobre a multa e seu termo a quo),

26
Aula ministrada pelo professor Wilson Marques, em 14/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 169


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

no tópico a ela dedicado. O mesmo se fala sobre a execução provisória, que aqui é também
tratada conforme a regra geral.
A execução especial dos alimentos, do artigo 733, supra, tem também a si aplicável
a reforma processual advinda da Lei 11.232/05, naquilo que for agilizar o processo.
Objetivamente, o que mudou é que passou a ser uma fase do processo sincrético, e não uma
execução autônoma de título judicial; e aplica-se a multa de dez por cento, pelo não
pagamento espontâneo.
A dualidade de modalidade de execuções se justifica pela alta relevância do crédito
do qual o credor parte em busca, e da natureza das relações que ensejam este crédito. A
opcionalidade é conferida ao credor justamente porque pode ele não pretender expor o
devedor às consequências gravosas da modalidade especial, que comina a prisão civil caso
não haja adimplemento da prestação devida. Simplesmente, pode o filho querer receber a
dívida, mas não querer que seu pai seja submetido à prisão, mesmo sendo sua subsistência
que está em jogo; ou pode entender que este caminho mais pesaroso é o necessário, mesmo
que seu pai vá ser exposto a medida coercitiva de tal severidade.
Feita a opção, não há fungibilidade, não há conversibilidade. Optada a via comum,
em que o caminho é a penhora, não pode haver requerimento da prisão; da mesma forma,
optando pela via especial do artigo 733 do CPC, a coerção é feita pela prisão, não podendo
ser requerida penhora.
Há jurisprudência nos tribunais superiores que dispõe que a execução do artigo 733
do CPC só pode redundar na prisão do devedor quando ele não tiver bens penhoráveis. Ou
seja: as Cortes Maiores criam uma espécie de subsidiariedade entre os ritos: havendo bens
penhoráveis, o rito a ser seguido é o do artigo 732; não havendo, pode ser seguido o rito do
artigo 733. Elimina-se, com isso, a opção dada ao credor. Esta jurisprudência é
frontalmente contrária à lei, que não criou esta subsidiariedade de forma alguma, e mais:
cria uma regra de desigualdade, porque aqueles devedores ricos, proprietários de bens
penhoráveis, jamais poderão sofrer o rito da prisão civil, enquanto o devedor pobre, sem
bens para garantir o pagamento, será submetido à prisão. Por tudo isso, não tem prevalecido
esta orientação: há, realmente, uma alternatividade de ritos, cuja opção é dada ao credor, e
somente a ele.
Se alguma subsidiariedade deveria existir é na via inversa: sendo insuficiente a
coerção da prisão, e havendo bens excutíveis, passar-se-ia à execução comum, à penhora.
Isto sim privilegiaria a mens legislatorum, protetiva do crédito alimentar.
Ainda segundo a jurisprudência, execução especial com prisão civil não é
admissível quando se tratar apenas da cobrança de diferenças nos valores. Assim, se o
devedor pagar a menor, não poderá ser executado no rito especial por esta diferença. Esta
posição é criticável, porque a diferença na prestação ainda é de natureza alimentar, não
havendo justificativa plausível para esta diferenciação – ao contrário, é diferença que
parece fomentar o mau comportamento do devedor, que, sabedor de que não poderá ser
preso, paga a menor, intencionalmente levando o restante do débito à execução comum.
Corretamente, agora, a jurisprudência é pacífica em dizer que não é admissível o
rito do artigo 733 para a cobrança autonômica de juros, custas processuais e honorários
advocatícios. Estas verbas fogem ao conceito de alimentos, e por isso não podem despertar
prisão civil, que é constitucionalmente dedicada apenas ao devedor alimentar.

Michell Nunes Midlej Maron 170


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Já a correção monetária, esta sim integra a prestação alimentar: é dívida de


alimentos, porque é a própria recomposição do valor da prestação alimentar. Por isso, a
correção poderá, sim, ser executada na forma do artigo 733 do CPC.
O devedor, qualquer que seja a execução, não é citado, é intimado, pois o processo é
sincrético, como visto. Na execução especial, será intimado para pagar, provar que o fez, ou
justificar porque não o fez, sob pena de prisão. É claro que o devedor poderá, aqui, deduzir
outras matérias defensivas, impugnando o valor da dívida, reputando a execução excessiva
ou inexigível, ou seja, pode alegar qualquer matéria de defesa, que reduza o valor ou
mesmo o elimine. A interpretação do dispositivo, neste aspecto, deve ser extensiva.
Apreciada a justificação, em rito cognitivo normal, se o juiz entender que o devedor
realmente não tem condições de pagar, nem de forma parcelada, nem menos do que o
pedido ou estipulado, ele não vai decretar a prisão: poderá abrir prazo para que o devedor
passe a auferir renda, reduzir o montante, ou tomar qualquer providência que julgue hábil a
possibilitar o pagamento no futuro.

1.1. Competência

A regra geral da competência para estas execuções é a que vem traçada no artigo
475-P, II, do CPC:

“Art. 475-P. O cumprimento da sentença efetuar-se-á perante: (Incluído pela Lei nº


11.232, de 2005)
(...)
II – o juízo que processou a causa no primeiro grau de jurisdição; (Incluído pela
Lei nº 11.232, de 2005)
(...)
Parágrafo único. No caso do inciso II do caput deste artigo, o exeqüente poderá
optar pelo juízo do local onde se encontram bens sujeitos à expropriação ou pelo
do atual domicílio do executado, casos em que a remessa dos autos do processo
será solicitada ao juízo de origem. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005).”

A competência é do juízo de primeiro grau, mesmo que os alimentos tenham sido


fixados em segunda instância,m por via do provimento de recurso.
Há, porém, uma diferença a ser observada, hoje: pode o exequente optar por outro
juízo para o cumprimento da sentença, qual seja, aquele em que há bens do devedor a serem
penhorados, ou o juízo do domicílio do réu. A escolha é do exequente, na forma do
parágrafo único do artigo supra. É uma rara exceção em que a competência de juízo é
legada à vontade da parte, porque em regra a competência de juízo é absoluta.
Determinada a competência, é iniciado o cumprimento nos mesmos autos, como em
qualquer execução sincrética. Se a execução for provisória, porém, a continuidade nos
mesmos autos pode ser mais difícil de se operar, especialmente se a competência escolhida
for diversa da originária. Neste caso, far-se-á a execução provisória por meio de
requerimento, instruído com as peças necessárias, que iniciará novos autos no juízo
competente – algo como uma carta de sentença, mas sem este nomen e esta formalidade da
carta de sentença.
Nelson Nery Júnior defende tese em que entende que a regra do artigo 100, II, do
CPC prepondera, por interesse público, sobre esta regra do artigo 475-P, II, do mesmo
Código. Veja:

Michell Nunes Midlej Maron 171


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 100. É competente o foro:


(...)
II - do domicílio ou da residência do alimentando, para a ação em que se pedem
alimentos;
(...)”

Por conta disso, se o credor, o alimentando, mudar de domicílio, a execução deverá


acompanhá-lo ao seu atual domicílio, passando para lá a competência, e não mantida no
juízo original. O cumprimento da sentença será no juízo do domicílio do exequente.
Esta tese de Nelson Nery, apesar de contar até mesmo com jurisprudência aderente
no TJ/SP, não parece ser a mais acertada. A competência traçada no artigo 100, II, do CPC,
é para o processo de conhecimento, original da sentença de alimentos, e só – não para a
execução, para o cumprimento desta sentença, que tem a regra própria traçada no artigo
475-P, II e parágrafo único, do CPC. Na execução não se pede os alimentos: se pede o
cumprimento da obrigação judicialmente definida. Prevalece, portanto, para o cumprimento
da sentença de alimentos, o artigo mais específico, qual seja, o 475-P.

1.2. Alimentos fixados em cartório

A Lei 11.441/07 permite o divórcio e a separação consensuais por escritura pública,


diretamente no cartório. Nesta escritura serão fixados os alimentos para o cônjuge que deles
precisar (não para filhos, pois os havendo menores não é possível este procedimento
cartorário). Veja o artigo 1.124-A do CPC:

“Art. 1.124-A. A separação consensual e o divórcio consensual, não havendo


filhos menores ou incapazes do casal e observados os requisitos legais quanto aos
prazos, poderão ser realizados por escritura pública, da qual constarão as
disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns e à pensão
alimentícia e, ainda, ao acordo quanto à retomada pelo cônjuge de seu nome de
solteiro ou à manutenção do nome adotado quando se deu o casamento. (Incluído
pela Lei nº 11.441, de 2007).
§ 1° A escritura não depende de homologação judicial e constitui título hábil para
o registro civil e o registro de imóveis. (Incluído pela Lei nº 11.441, de 2007).
§ 2º O tabelião somente lavrará a escritura se os contratantes estiverem assistidos
por advogado comum ou advogados de cada um deles ou por defensor público,
cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial. (Redação dada pela Lei nº
11.965, de 2009)
§ 3° A escritura e demais atos notariais serão gratuitos àqueles que se declararem
pobres sob as penas da lei. (Incluído pela Lei nº 11.441, de 2007).”

Quando assim fixados, se os alimentos não forem pagos, qual é o instrumento para o
alimentando havê-los?
Veja que os artigos 732 e 733 do CPC aludem à execução da sentença que fixar
alimentos, e não da escritura pública. Em leitura literal, não poderia, portanto, haver
execução desta escritura, nos moldes destes artigos, pelo que seria necessária, a rigor, uma
execução de título extrajudicial, para haver os alimentos ali consignados.
Esta solução afastará muito a procura pela solução cartorária, porque, como já se
pôde ver, a execução de título extrajudicial é muito menos favorável do que o cumprimento
de sentença.

Michell Nunes Midlej Maron 172


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Todavia, fica difícil enquadrar a escritura pública no alcance dos artigos 732 e 733
do CPC, expressamente dedicados ao cumprimento de decisões judiciais. Mesmo assim,
parece que este será o caminho adotado – a execução da escritura pública como se sentença
fosse –, sob pena de se esvaziar o tremendo avanço que foi a desjudicialização desta
questão.
A problemática, contudo, é severa, e ainda não tem solução jurisprudencial, e nem
mesmo doutrina dedicada.

1.3. Alimentos indenizatórios

Os alimentos civis, decorrentes não do direito de família, mas sim da


responsabilidade civil, têm tratamento similar aos alimentos por parentesco. Veja o artigo
948, II, do CC:

“Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras


reparações:
I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da
família;
II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em
conta a duração provável da vida da vítima.”

Quanto à execução comum dos alimentos, do artigo 732 do CPC, nada há de


duvidoso em se executar estes alimentos indenizatórios por seu rito, eis que é cumprimento
de sentença, como qualquer outro. Dúvida surge é se é possível a invocação do artigo 733
do CPC, a execução especial com prisão civil, para cumprimento desta indenização
inadimplida.
A doutrina majoritária defende que sim: se se está falando em alimentos, quer sejam
eles familiares, quer oriundos da responsabilidade civil, o tratamento deve ser o mesmo,
aplicando-se a este tudo que se aplica àquele – não há diferença. Esta doutrina majoritária é
bem coerente, porque leva em conta a posição do credor dos alimentos, e a natureza
emergencial e subsistencial desta prestação, que é a mesma, quer seja o alimentando
necessitado por um ou por outro motivo – pela relação de parentesco ou morte do provedor.
Pelo outro lado, há quem defenda que os alimentos a que se referem os artigos 732 e
733 do CPC são exclusivamente aqueles de direito familiar, e não aqueles indenizatórios.
Esta corrente não tem muito embasamento, pois cria uma diferença anti-isonômica entre os
alimentandos, que, essencialmente, têm a mesma necessidade.

1.4. Desconto em folha

O artigo 734 do CPC permite o desconto da prestação alimentícia na folha de


pagamento do alimentante condenado. Veja:

“Art. 734. Quando o devedor for funcionário público, militar, diretor ou gerente de
empresa, bem como empregado sujeito à legislação do trabalho, o juiz mandará
descontar em folha de pagamento a importância da prestação alimentícia.
Parágrafo único. A comunicação será feita à autoridade, à empresa ou ao
empregador por ofício, de que constarão os nomes do credor, do devedor, a
importância da prestação e o tempo de sua duração.”

Michell Nunes Midlej Maron 173


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Sendo este o caso, simplesmente inexistirá qualquer forma de execução da sentença,


pela só razão de que não haverá inadimplemento possível por parte do devedor, enquanto os
descontos estiverem sendo regularmente realizados. Não há interesse em executar a
sentença.
Suponha-se, porém, que os descontos deixem de ser feitos, quer porque a empresa
simplesmente parou de efetivar este procedimento, quer porque fechou as portas, ou mesmo
porque o alimentante foi despedido. Nestes casos, abre-se ao alimentando a dupla opção
das execuções: poderá, normalmente, peticionar pelo cumprimento da sentença, na forma
do artigo 732 ou do 733 do CPC.
O STJ, em decisão antiga, decidiu que o desconto em folha só pode ser admitido em
relação aos alimentos futuros, e não aos pretéritos, devidos e não pagos até a sentença. Não
parece ter muita coerência esta decisão, porque não há amparo em qualquer lógica,
princípio ou regra: o artigo supra não faz esta distinção. Contudo, há o precedente.

1.5. Créditos longínquos

A dívida alimentar vencida há mais de três meses não pode ensejar a execução
especial com prisão do devedor. Veja a súmula 309 do STJ:

“Súmula 309, STJ: O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é
o que compreende as três prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as
que se vencerem no curso do processo.(*).
(*) julgando o HC 53.068-MS, na sessão de 22/03/2006, a Segunda Seção
deliberou pela ALTERAÇÃO da súmula n. 309. REDAÇÃO ANTERIOR (decisão
de 27/04/2005, DJ 04/05/2005): O débito alimentar que autoriza a prisão civil do
alimentante é o que compreende as três prestações anteriores à citação e as que
vencerem no curso do processo.”

A justificativa desta posição é a de que os alimentos vencidos há tanto tempo, na


verdade, não têm mais a urgência essencial, subsistencial, que caracteriza o débito
alimentar. Por isso, a execução de prestações alimentares vencidas há mais de três meses,
os chamados “alimentos velhos”, deve seguir o curso do artigo 732 do CPC. Os alimentos
dos últimos três meses, porém, podem ensejar execução especial, na forma do artigo 733 do
CPC.
O que justifica a perda da possibilidade da via especial, que conta com a prisão
civil, é a presumível falta de urgência que o credor demonstra em haver tais alimentos, eis
que deixou passar tanto tempo sem buscá-los judicialmente. Não havendo a urgência
subsistencial, não se justificaria a gravosidade da medida de coerção da prisão civil.
Há quem defenda que, se os alimentos não perdem esta natureza jamais, não há que
se falar em perda da possibilidade de execução especial dos créditos longínquos. Se a causa
do crédito é a mesma, os meios de execução devem ser os mesmos.
Seguindo-se a súmula, se houver uma dívida alimentar de dez meses, haverá duas
execuções: pelos três últimos meses, execução especial, com prisão civil; as sete mais
velhas, pela execução comum, do artigo 732 do CPC.
1.6. Natureza da prisão

Michell Nunes Midlej Maron 174


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A prisão civil não é pena. É um meio de coerção, dedicado exclusivamente a


compelir o devedor a adimplir seu débito, tal como as astreintes compelem ao
adimplemento da decisão judicial.
Por não ser pena, assim que for paga a dívida, a prisão é sustada, como dispõe o
artigo 733, § 3°, do CPC. Fosse pena, mesmo que houvesse o pagamento do débito, o
devedor ainda permaneceria preso, pelo tempo determinado.
A prisão também não pode ser tida como forma de pagamento, por óbvio. Não é
porque o devedor foi preso que, cumprindo o tempo de prisão determinado, deixará de ser
devedor: terminado o tempo de prisão, ainda continua devedor dos mesmos alimentos
impagos que ensejaram a prisão.
O mesmo devedor de alimentos pode ser preso quantas vezes forem necessárias,
sempre que inadimplir a prestação. Antes de 1977, porém, o § 2° do artigo 733 do CPC
vedava a reiteração da prisão, o que hoje não subsiste. Veja o teor anterior do dispositivo:

“(...)
§ 2 º O cumprimento da pena não exime o devedor do pagamento das prestações
vencidas ou vincendas; mas o juiz não lhe imporá segunda pena, ainda que haja
inadimplemento posterior.
(...)”

A Lei do Divórcio acabou com esta restrição, como se pode ver no teor atual do § 2°
deste artigo, há pouco transcrito. Quantas prisões forem necessárias serão decretadas,
quantas vezes o devedor se tornar inadimplente. Mas repare que a nova prisão só pode ser
decretada por nova dívida: se o devedor foi preso pelo mês de setembro, por exemplo, e, até
o final do período da prisão não o pagou, não pode o juiz determinar nova prisão pelo
mesmo mês de setembro. Agora, se inadimpliu este mês; foi preso; pagou a dívida; e em
outubro veio a inadimplir novamente este outro mês, nada obsta a decretação de nova
prisão coercitiva, agora para pagamento do mês de outubro. Em síntese: por cada prestação,
ou período de três prestações, só pode ser preso uma vez, mas se inadimplir nova prestação,
ou período de prestações, será novamente preso.
O § 3° do artigo 733 determina que uma vez paga a prestação alimentícia, a prisão
será sustada. Atente-se, porém, que o pagamento a que se refere é das parcelas iniciais que
ensejaram a execução, e também daquelas vencidas no curso do processo. Para ser solto,
tem que ficar em dia com as prestações iniciais, e todas mais que sobrevierem impagas, até
a prisão. A súmula 309 do STJ reflete este entendimento, oriundo de uma interpretação
sistemática do ordenamento, que em situações similares (inadimplemento de alugueres, por
exemplo), dá esta nota – a mora só se purga pelo pagamento também daquilo vencido no
curso do processo.
Alimentos provisionais não se confundem com provisórios: provisionais são aqueles
alimentos fixados em uma ação cautelar, destinados a manter o alimentando até que haja a
ação de alimentos propriamente dita, e que nela se fixem os provisórios, em antecipação de
tutela, e os definitivos, ao final. Hoje, não há sentido nesta cautelar, porque os alimentos
provisórios podem ser requeridos desde logo, na inicial de alimentos, com natureza
antecipatória. Por isso, o termo “provisionais”, no artigo 733 do CPC, deve ser lido de
forma ampla, ou seja: quaisquer alimentos são executáveis neste rito, provisórios,
definitivos, e eventualmente provisionais, se alguém ainda se der ao trabalho de ajuizar
com esta cautelar inútil.

Michell Nunes Midlej Maron 175


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A prisão do devedor de alimentos pode ser decretada de ofício, desde que na ação
judicial ajuizada já pelo rito do artigo 733 do CPC – considera-se, esta escolha de rito, um
pedido implícito da prisão. Se foi ajuizada pelo rito do artigo 732, é claro que não pode
haver prisão, nem de ofício, e nem mesmo a requerimento, como dito.

Casos Concretos

Michell Nunes Midlej Maron 176


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Questão 1

Caio foi condenado a pagar alimentos e deixou de cumprir a obrigação. Foi


executado e acabou tendo a prisão decretada por um mês. Como era primário e de bons
antecedentes requereu a concessão de sursis. É possível o deferimento do pedido?
Considerando que Caio é advogado, teria ele direito a prisão especial se o sursis não fosse
possível?

Resposta à Questão 1

Claro que não: a prisão civil não é pena, é medida de coerção, e o sursis é um
instituto de direito penal, dedicado à suspensão da pena.
Quanto à prisão especial, por ser graduado superior, o artigo 295, VII, do CPP,
estabelece esta prerrogativa ao réu, que pode, sim se estender à prisão civil.

“Art. 295. Serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, à disposição da


autoridade competente, quando sujeitos a prisão antes de condenação definitiva:
(...)
VII - os diplomados por qualquer das faculdades superiores da República;
(...)”

Questão 2

Foram fixados alimentos provisórios, na forma do disposto no artigo 4°, da Lei


5.478/68. O réu não cumpre a obrigação alimentar estabelecida provisoriamente e o
credor requer a execução de acordo com o artigo 733, do CPC. O devedor alega a
impossibilidade jurídica de tal execução, considerando que o dispositivo legal invocado
fala em execução de sentença ou de alimentos provisionais, e estes são os previstos no
artigo 852, do CPC. Tem razão o executado?Se não, qual seria a base legal da pretensão
do exeqüente?

Resposta à Questão 2

Não tem razão alguma: o artigo 733 do CPC deve ser interpretado de forma
inteligente, compreensiva, abrangendo quaisquer tipos de alimentos, e não apenas os
provisionais. Simplesmente, não há qualquer lógica em se manter sua aplicabilidade
adstrita aos alimentos provisionais, sobremaneira porque hoje em franco desuso.

Questão 3

Gohan, menor impúbere até então residente na cidade do Rio de Janeiro, propôs
ação de alimentos em face de seu pai, Goku, tendo sido a sua pretensão julgada
inteiramente procedente pelo juízo competente desta mesma Comarca. Ocorre que, após o
trânsito em julgado, Gohan mudou de domicílio para a cidade de São Paulo, onde foi
distribuída a ação de execução deste julgado. Indaga-se:

Michell Nunes Midlej Maron 177


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

a) Existe algum argumento que possa sustentar a distribuição da ação de execução


na Comarca de São Paulo, mesmo diante da regra expressa nos artigos 575, II e
475-P, ambos do CPC?
b) A ação de execução acima mencionada poderia ter sido ajuizada pelo Ministério
Público? Em caso afirmativo, haveria a necessidade da presença de um outro
membro do parquet para funcionar neste mesmo processo como custos legis (artigo
82, I, CPC)?

Resposta à Questão 3

a) Sim: pode-se invocar o artigo 100, II, do CPC, porque a execução passa a
acompanhar o alimentando, seguindo-o ao seu domicílio. Contudo, é tese
equivocada, prevalecendo mesmo o artigo 475-P, II, do CPC.
b) Sim, na forma do artigo 201, III, do ECA, entrega esta atribuição ao MP, mas
apenas quando se tratar de menor desamparado. Havendo pai, mãe, tutor, a estes
incumbe promover a ação.

“Art. 201. Compete ao Ministério Público:


(...)
III - promover e acompanhar as ações de alimentos e os procedimentos de
suspensão e destituição do pátrio poder, nomeação e remoção de tutores, curadores
e guardiães, bem como oficiar em todos os demais procedimentos da competência
da Justiça da Infância e da Juventude;
(...)”

Se o MP for autor da ação, será sim necessária a presença de outro


membro para oficiar como custos legis, não podendo o mesmo membro atuar
em ambas as posições.

Michell Nunes Midlej Maron 178


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Tema XVIII

Procedimento especial de execução por quantia certa: Juizado Especial. Procedimento específico previsto na
Lei nº 9.099/95 e aplicação do procedimento estabelecido pela Lei nº 11.232/05 em casos de título executivo
judicial. Instauração e desenvolvimento. Incidência, ou não, da multa prevista no art. 475-J. Defesa do
executado e necessidade, ou não, de garantia do juízo. Etapa expropriatória. Extinção do processo.

Notas de Aula27

1. Execução da sentença de pagar quantia certa nos Juizados Especiais

O artigo 52 da Lei 9.099/95 disciplina a matéria:

“Art. 52. A execução da sentença processar-se-á no próprio Juizado, aplicando-se,


no que couber, o disposto no Código de Processo Civil, com as seguintes
alterações:
I - as sentenças serão necessariamente líquidas, contendo a conversão em Bônus do
Tesouro Nacional - BTN ou índice equivalente;
II - os cálculos de conversão de índices, de honorários, de juros e de outras
parcelas serão efetuados por servidor judicial;
III - a intimação da sentença será feita, sempre que possível, na própria audiência
em que for proferida. Nessa intimação, o vencido será instado a cumprir a sentença
tão logo ocorra seu trânsito em julgado, e advertido dos efeitos do seu
descumprimento (inciso V);
IV - não cumprida voluntariamente a sentença transitada em julgado, e tendo
havido solicitação do interessado, que poderá ser verbal, proceder-se-á desde logo
à execução, dispensada nova citação;
V - nos casos de obrigação de entregar, de fazer, ou de não fazer, o Juiz, na
sentença ou na fase de execução, cominará multa diária, arbitrada de acordo com
as condições econômicas do devedor, para a hipótese de inadimplemento. Não
cumprida a obrigação, o credor poderá requerer a elevação da multa ou a
transformação da condenação em perdas e danos, que o Juiz de imediato arbitrará,
seguindo-se a execução por quantia certa, incluída a multa vencida de obrigação de
dar, quando evidenciada a malícia do devedor na execução do julgado;
VI - na obrigação de fazer, o Juiz pode determinar o cumprimento por outrem,
fixado o valor que o devedor deve depositar para as despesas, sob pena de multa
diária;
VII - na alienação forçada dos bens, o Juiz poderá autorizar o devedor, o credor ou
terceira pessoa idônea a tratar da alienação do bem penhorado, a qual se
aperfeiçoará em juízo até a data fixada para a praça ou leilão. Sendo o preço
inferior ao da avaliação, as partes serão ouvidas. Se o pagamento não for à vista,
será oferecida caução idônea, nos casos de alienação de bem móvel, ou hipotecado
o imóvel;
VIII - é dispensada a publicação de editais em jornais, quando se tratar de
alienação de bens de pequeno valor;
IX - o devedor poderá oferecer embargos, nos autos da execução, versando sobre:
a) falta ou nulidade da citação no processo, se ele correu à revelia;
b) manifesto excesso de execução;
c) erro de cálculo;
d) causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, superveniente à
sentença.”

27
Aula ministrada pelo professor Ademar Vidal Neto, em 15/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 179


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Já no caput se vê um aspecto relevante: a competência dos juizados, funcional, é


absoluta para a execução das sentenças ali proferidas.
Em virtude da necessárias celeridade e eficiência do rito no juizado, o legislador
afastou a fase de liquidação de sentença, ao contrário do procedimento judicial ordinário.
Nos juizados, é defeso ao juiz proferir sentença ilíquida.
Imagine-se o seguinte: se o juiz do juizado condena o réu em quarenta salários-
mínimos, e vem o credor, autor, demandar no cumprimento desta sentença valor
correspondente a duzentos salários. Aplica-se o artigo 475-B, §§ 3° e 4°, do CPC?

“Art. 475-B. Quando a determinação do valor da condenação depender apenas de


cálculo aritmético, o credor requererá o cumprimento da sentença, na forma do art.
475-J desta Lei, instruindo o pedido com a memória discriminada e atualizada do
cálculo. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Quando a elaboração da memória do cálculo depender de dados existentes em
poder do devedor ou de terceiro, o juiz, a requerimento do credor, poderá requisitá-
los, fixando prazo de até trinta dias para o cumprimento da diligência. (Incluído
pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Se os dados não forem, injustificadamente, apresentados pelo devedor,
reputar-se-ão corretos os cálculos apresentados pelo credor, e, se não o forem pelo
terceiro, configurar-se-á a situação prevista no art. 362. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
§ 3º Poderá o juiz valer-se do contador do juízo, quando a memória apresentada
pelo credor aparentemente exceder os limites da decisão exeqüenda e, ainda, nos
casos de assistência judiciária. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 4º Se o credor não concordar com os cálculos feitos nos termos do § 3° deste
artigo, far-se-á a execução pelo valor originariamente pretendido, mas a penhora
terá por base o valor encontrado pelo contador. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)”

Esta dinâmica se aplica, sim, aos juizados, não havendo incompatibilidade deste
envio ao contador judicial para confirmação dos cálculos apresentados pelo credor. De fato,
há três casos em que a remessa ao contador é necessária: quando a planilha apresentada
pelo credor for patentemente discrepante, ou seja caso de assistência judiciária, na forma do
§ 3°; ou quando o credor estiver em juízo pessoalmente, sem representação de advogado,
pelo que se presume que não tenha perícia suficiente na formulação dos cálculos.
O caput do artigo 52 da Lei 9.099/95 já determina a aplicabilidade das disposições
do CPC ao rito do juizado, quando compatíveis. Questiona-se, então: o conhecido artigo
475-J do CPC se aplica no juizado?
A doutrina entende que é perfeitamente aplicável. O Fonaje conta com dois
enunciados sobre o tema, o 97 e o 105:

“Enunciado 97 – O artigo 475, "j" do CPC – Lei 11.323/2005 – aplica-se aos


Juizados Especiais, ainda que o valor da multa somado ao da execução ultrapasse o
valor de 40 salários mínimos (aprovado no XIX Encontro – Aracaju/SE)”

“Enunciado 105 - Caso o devedor, condenado ao pagamento de quantia certa, não


o efetue no prazo de quinze dias, contados do trânsito em julgado,
independentemente de nova intimação, o montante da condenação será acrescido
de multa no percentual de 10% (aprovado no XIX Encontro – Aracaju/SE)”

Michell Nunes Midlej Maron 180


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Neste aspecto, o procedimento do juizado, então, é bastante similar ao ordinário:


transitada em julgado a sentença, o devedor conta com quinze dias28 para pagamento
espontâneo, e se não o fizer incidirá automaticamente a multa do artigo em questão,
acrescendo-se dez por cento ao valor da execução, pouco importando se ultrapassar, com
isso, o teto admitido no juizado, de quarenta salários-mínimos de referência.
Se o devedor pagar integralmente a dívida, a multa não incide. Mas e se ele pagar
apenas parte do devido, por erro ou mesmo por malícia? Sendo parcial o pagamento, a
multa incidirá sobre o valor remanescente, qualquer que seja a causa do pagamento a
menor.
A ausência de pagamento, pelo devedor, faz com que a execução prossiga pelo
montante integral, adicionado da multa de dez por cento. Contudo, é necessário que o
credor requeira este prosseguimento ao juiz, na forma do inciso IV do artigo 52, supra. A
solicitação de cumprimento é necessária, podendo ser até mesmo verbal, nos juizados.
Apresentado o requerimento, com a planilha de débito, o juiz determinará a
expedição do mandado de avaliação e penhora. Neste momento do procedimento, faz-se
relevante o que dispõe o enunciado 112 do Fonaje:

“Enunciado 112 - A intimação da penhora e avaliação realizada na pessoa do


executado dispensa a intimação do advogado. Sempre que possível o oficial de
Justiça deve proceder a intimação do executado no mesmo momento da constrição
judicial (art.º 475, § 1º CPC). (Aprovado no XX Encontro – São Paulo/SP)”

O Fonaje realizou, ali, uma boa interpretação do artigo 475-J, § 1º, do CPC, que
vale ser revisto:

“(...)
§ 1° Do auto de penhora e de avaliação será de imediato intimado o executado, na
pessoa de seu advogado (arts. 236 e 237), ou, na falta deste, o seu representante
legal, ou pessoalmente, por mandado ou pelo correio, podendo oferecer
impugnação, querendo, no prazo de quinze dias. (Incluído pela Lei nº 11.232, de
2005)
(...)”

Gramaticalmente, este texto dá a entender que a intimação deveria ser feita


preferencialmente na pessoa do advogado, o que não é correto. A intimação da constrição
deve se dirigir ao devedor, que é quem terá o bem da vida constrangido. Por isso, a regra é
exatamente inversa: busca-se o próprio devedor para a intimação, e somente na sua
ausência se buscará o seu advogado.
Intimado o devedor (ou o advogado, se ausente a parte), começa a correr o prazo de
quinze dias para a eventual oposição de embargos à execução (ainda é assim chamada a
defesa do executado no cumprimento da sentença no juizado, e não impugnação). Repare
que nos juizados a sistemática é diferente do cumprimento de sentença comum, ou da
execução de título extrajudicial, onde se inicia o prazo para impugnação ou embargos à
execução da data em que é juntado o mandado de intimação ou citação aos autos. Nos
juizados, a contagem começa da data da efetivação do ato de comunicação, e não da sua
juntada. Veja o enunciado 13 do Fonaje:
28
O STJ entende que este prazo começa a correr do dia em que a decisão exequenda transitar em julgado,
independentemente de qualquer intimação da parte para o pagamento, porque basta a intimação do advogado
da prolação da sentença para que este saiba da existência do dever de pagar.

Michell Nunes Midlej Maron 181


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Enunciado 13 - Os prazos processuais nos Juizados Especiais Cíveis, contam-se


da data da intimação ou ciência do ato respectivo, e não da juntada do
comprovante da intimação, observando-se as regras de contagem do CPC ou do
Código Civil, conforme o caso. (Nova Redação aprovada no XXI Encontro -
Vitória/ES)”

No juizado, o oferecimento dos embargos à execução do título judicial (que


correspondem à impugnação ao cumprimento de sentença, e não aos embargos à execução
de título extrajudicial, como visto) demanda prévia garantia do juízo? Como se sabe, no
cumprimento de sentença, o legislador ainda exige a penhora prévia à impugnação, e por
isso esta dinâmica se repete no rito do juizado. Na execução de título extrajudicial nos
juizados, segue-se a nova dinâmica imposta no CPC, que é a dispensa de penhora para o
oferecimento de embargos.
Considera-se garantido o juízo apenas quando se implementa a penhora do valor
integral da dívida, ou quando há a penhora de parte do montante, eis que o único
patrimônio penhorável do devedor era insuficiente perante o débito? Dependendo da
resposta, o início do prazo para oferecimento de embargos vai variar, ou seja, se já se
considera garantido o juízo na penhora parcial, é dali que tem início; se precisa haver a
garantia da integralidade do débito, ainda não terá início o prazo na penhora parcial.
A contagem do prazo de embargos tem início da data em que houve a efetiva
constrição do patrimônio do devedor, ainda que em montante insuficiente. Oferecidos
erroneamente os embargos, extemporâneos ou intempestivos (antes ou depois do prazo), a
jurisprudência tem extinto os embargos sem resolução de mérito – mesmo que a doutrina
recomende que, no oferecimento prévio ao prazo, se suspenda o curso dos embargos até a
efetivação da penhora, e não se os extinga (se intempestivos, outrossim, os embargos
devem mesmo ser extintos).
Os embargos à execução, no juizado, não têm o efeito suspensivo automático da
execução, tendo sido aqui acompanhada a alteração promovida na regra geral do CPC. Só
haverá suspensão da execução se o juiz entender por bem atribuir este efeito suspensivo aos
embargos, ante a presença de periculum in mora e fumus boni juris nos embargos.
A matéria dedutível nos embargos, no juizado, está arrolada no inciso IX do artigo
52 da Lei 9.099/95, supra.
Julgados improcedentes os embargos, o embargante será condenado ao pagamento
de honorários, nos termos do artigo 55, II, da Lei 9.099/95:

“Art. 55. A sentença de primeiro grau não condenará o vencido em custas e


honorários de advogado, ressalvados os casos de litigância de má-fé. Em segundo
grau, o recorrente, vencido, pagará as custas e honorários de advogado, que serão
fixados entre dez por cento e vinte por cento do valor de condenação ou, não
havendo condenação, do valor corrigido da causa.
Parágrafo único. Na execução não serão contadas custas, salvo quando:
I - reconhecida a litigância de má-fé;
II - improcedentes os embargos do devedor;
III - tratar-se de execução de sentença que tenha sido objeto de recurso improvido
do devedor.”

Da decisão de improcedência dos embargos cabe recurso inominado, mas a


execução prossegue, caminhando à fase de expropriação. A Lei 9.099/95 não fala desta fase

Michell Nunes Midlej Maron 182


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

de expropriação, e por isso é necessário buscar o tratamento normativo dado à matéria no


CPC. Ali, como se sabe, a expropriação tem norte no artigo 685 e seguintes:

“Art. 685. Após a avaliação, poderá mandar o juiz, a requerimento do interessado e


ouvida a parte contrária:
I - reduzir a penhora aos bens suficientes, ou transferi-la para outros, que bastem à
execução, se o valor dos penhorados for consideravelmente superior ao crédito do
exeqüente e acessórios;
Il - ampliar a penhora, ou transferi-la para outros bens mais valiosos, se o valor dos
penhorados for inferior ao referido crédito.
Parágrafo único. Uma vez cumpridas essas providências, o juiz dará início aos
atos de expropriação de bens. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Até a entrada em vigor da reforma executória do CPC, a regra geral da execução por
quantia certa determinava que se liquidassem os bens do devedor, a fim de transformá-los
em dinheiro e, somente então, pagar ao credor. Hoje, a regra geral faz prevalecer a
adjudicação direta do bem penhorado ao credor, e somente após a manifestação deste
credor no sentido de que não deseja haver o bem para si, será necessária a sua
transformação em dinheiro.
Se o credor não deseja haver o bem na espécie, a família do devedor pode pretender
a adjudicação do bem a si, antes da sua leva à hasta pública. Veja o artigo 685-A do CPC:

“Art. 685-A. É lícito ao exeqüente, oferecendo preço não inferior ao da avaliação,


requerer lhe sejam adjudicados os bens penhorados. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 1° Se o valor do crédito for inferior ao dos bens, o adjudicante depositará de
imediato a diferença, ficando esta à disposição do executado; se superior, a
execução prosseguirá pelo saldo remanescente. (Incluído pela Lei nº 11.382, de
2006).
§ 2° Idêntico direito pode ser exercido pelo credor com garantia real, pelos
credores concorrentes que hajam penhorado o mesmo bem, pelo cônjuge, pelos
descendentes ou ascendentes do executado. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3° Havendo mais de um pretendente, proceder-se-á entre eles à licitação; em
igualdade de oferta, terá preferência o cônjuge, descendente ou ascendente, nessa
ordem. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 4° No caso de penhora de quota, procedida por exeqüente alheio à sociedade,
esta será intimada, assegurando preferência aos sócios. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
§ 5° Decididas eventuais questões, o juiz mandará lavrar o auto de adjudicação.
(Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).”

Toda esta dinâmica se aplica aos juizados, sem diferenças relevantes.


Se não houver interesse de ninguém na adjudicação, passar-se-á à arrematação. O
CPC trouxe ainda uma terceira modalidade de excussão do bem, a chamada alienação por
iniciativa particular, hoje prevista no artigo 685-C do CPC:

“Art. 685-C. Não realizada a adjudicação dos bens penhorados, o exeqüente


poderá requerer sejam eles alienados por sua própria iniciativa ou por intermédio
de corretor credenciado perante a autoridade judiciária. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).
§ 1° O juiz fixará o prazo em que a alienação deve ser efetivada, a forma de
publicidade, o preço mínimo (art. 680), as condições de pagamento e as garantias,

Michell Nunes Midlej Maron 183


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

bem como, se for o caso, a comissão de corretagem. (Incluído pela Lei nº 11.382,
de 2006).
§ 2° A alienação será formalizada por termo nos autos, assinado pelo juiz, pelo
exeqüente, pelo adquirente e, se for presente, pelo executado, expedindo-se carta
de alienação do imóvel para o devido registro imobiliário, ou, se bem móvel,
mandado de entrega ao adquirente. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).
§ 3º Os Tribunais poderão expedir provimentos detalhando o procedimento da
alienação prevista neste artigo, inclusive com o concurso de meios eletrônicos, e
dispondo sobre o credenciamento dos corretores, os quais deverão estar em
exercício profissional por não menos de 5 (cinco) anos. (Incluído pela Lei nº
11.382, de 2006).”

A Lei 9.099/95 já contemplava esta modalidade, no já transcrito artigo 52, VII. Para
ser possível esta dinâmica, é preciso que alguém – credor, devedor ou terceiro – se
apresente com a intenção de promover a alienação privada, e que o juiz autorize tal venda.
A norma do juizado, em verdade, é mais proficiente do que a do CPC. Aqui, o juiz
marca desde logo a realização do leilão judicial, e faculta às partes a realização da venda
privada até a data da hasta pública.
Surgindo pessoa interessada na compra, por valor igual ou superior ao avaliado, a
alienação particular substituirá a hasta pública, que será cancelada. Se a oferta particular for
inferior ao valor da avaliação do bem, as partes serão ouvidas para anuir ou não na
alienação, eis que esta venda pode não satisfazer suas expectativas, tanto do credor quanto
do devedor. Se um deles discordar, não se realiza a alienação privada, e a hasta pública será
o caminho.
A fase de expropriação, nos juizados especiais, é problemática, pelo seguinte:
muitas vezes, a penhora recai sobre bens de pequeno valor, e de difícil venda em hasta
pública. Por esta dificuldade, o enunciado 71 do Fonaje faz a seguinte previsão:

“Enunciado 71 - É cabível a designação de audiência de conciliação em execução


de título judicial.”

Esta audiência consiste em uma chance de compor a situação, ante a dificuldade de


se promover a satisfação do crédito em questão.
Adjudicado ou alienado o bem, de qualquer das formas, o devedor ainda poderá
contar com os embargos à adjudicação ou arrematação, também nos juizados. Mas veja o
que diz o enunciado 81 do Fonaje:

“Enunciado 81 – A arrematação e a adjudicação podem ser impugnadas, no prazo


de cinco dias do ato, por simples pedido. (Aprovado no XII Encontro, Maceió-AL-
Alteração aprovada no XXI Encontro- Vitória/ES)”

Destarte, não é preciso um processo autônomo para estes embargos, como o são no
processo civil regular. No juizado, os embargos são incidentes ao processo executório,
operados no bojo do cumprimento.
Terminada a eventual discussão dos embargos à arrematação ou adjudicação, nada
mais há a ser feito: o processo será extinto, por sentença. Se a integralidade do crédito
exequendo não for satisfeita, e não houver mais bens a serem penhorados, há algumas
providências a serem tomadas em prol do credor. Veja os enunciados 75 e 76 do Fonaje:
“Enunciado 75 - Substitui o Enunciado 45 - A hipótese do § 4º, do 53, da Lei
9.099/1995, também se aplica às execuções de título judicial, entregando-se ao

Michell Nunes Midlej Maron 184


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

exeqüente, no caso, certidão do seu crédito, como título para futura execução, sem
prejuízo da manutenção do nome do executado no Cartório Distribuidor. (Nova
Redação aprovada no XXI Encontro – Vitória/ES)”

“Enunciado 76 - Substitui o Enunciado 55 - No processo de execução, esgotados


os meios de defesa e inexistindo bens para a garantia do débito, expede-se a pedido
do exeqüente certidão de dívida para fins de inscrição no serviço de Proteção ao
Crédito - SPC e SERASA, sob pena de responsabilidade.”

A previsão do enunciado 75 é problemática, eis que contraria frontalmente o artigo


791, III, do CPC:

“Art. 791. Suspende-se a execução:


(...)
III - quando o devedor não possuir bens penhoráveis.”

Assim, a execução não deve ser extinta, para dar lugar a uma nova execução na
percepção de bens penhoráveis no futuro, mas sim suspensa, por previsão legal expressa,
aqui aplicável.

1.1. Execução provisória da sentença no juizado

O artigo 52, III, da Lei 9.099/95, há pouco transcrito, dá a entender, em


interpretação literal, que a sentença do juizado só pode ser executada após o trânsito em
julgado – não se admitindo a execução provisória, em sede de juizados especiais, portanto.
É claro que esta leitura gramatical não pode prevalecer, especialmente diante da
guia maior dos juizados, que é a celeridade e eficiência do processo. Ademais, a regra do
recurso inominado é a sua recepção apenas no efeito devolutivo, o que faz ainda mais clara
a exequibilidade provisória da sentença.
É claro, porém, que na execução provisória da sentença não incidirá a multa de dez
por cento pela falta de pagamento espontâneo, porque esta pressupõe ter havido trânsito em
julgado da condenação. Veja, a respeito, o Resp. 1.100.658:

“REsp 1100658 / SP DJe 21/05/2009


PROCESSUAL CIVIL – MULTA DO ART. 475-J DO CPC – INCIDÊNCIA NA
EXECUÇÃO PROVISÓRIA – IMPOSSIBILIDADE – INCOMPATIBILIDADE
LÓGICA – NECESSIDADE DE AFASTAMENTO DA MULTA.
1. O artigo 475-J, com redação dada pela Lei n. 11.232/2005, foi instituído com o
objetivo de estimular o devedor a realizar o pagamento da dívida objeto de sua
condenação, evitando assim a incidência da multa pelo inadimplemento da
obrigação constante do título executivo.
2. A execução provisória não tem como escopo primordial o pagamento da dívida,
mas sim de antecipar os atos executivos, garantindo o resultado útil da execução.
3. Compelir o litigante a efetuar o pagamento sob pena de multa, ainda pendente de
julgamento o seu recurso, implica em obrigá-lo a praticar ato incompatível com o
seu direito de recorrer (art. 503, parágrafo único do CPC), tornando inadmissível o
recurso.
4. Por incompatibilidade lógica, a multa do artigo 475-J do CPC não se aplica na
execução provisória. Tal entendimento não afronta os princípios que inspiraram o
legislador da reforma. Doutrina.
Recurso especial provido.”

Michell Nunes Midlej Maron 185


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Este é o único precedente sobre o tema, no STJ, não sendo possível, ainda, falar que
esta é a posição cristalizada desta Corte.

1.2. Execução de sentença de obrigação de fazer, não fazer e entregar coisa nos Juizados

A dinâmica desta execução, nos juizados, é idêntica à realizada em qualquer outro


juízo comum, tendo estudo em tópico próprio. Contudo, há uma só ressalva a ser feita, ante
a previsão do artigo 52, V, da Lei 9.099/95, já transcrito. Este dispositivos pode levar a uma
interpretação equivocada, na medida que parece limitar os meios de coerção facultados ao
juiz à multa diária, o que não é verdade. Aqui, como em qualquer execução desta espécie, o
juiz tem ampla liberdade para determinar a providência que julgar necessária para a
efetivação da sentença. Aplica-se, portanto, o § 5° do artigo 461 do CPC:

“Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou
não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o
pedido, determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente ao
do adimplemento. (Redação dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
(...)
§ 5o Para a efetivação da tutela específica ou a obtenção do resultado prático
equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas
necessárias, tais como a imposição de multa por tempo de atraso, busca e
apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras e impedimento de
atividade nociva, se necessário com requisição de força policial. (Redação dada
pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
(...)”

Casos Concretos

Questão 1

Michell Nunes Midlej Maron 186


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Em sede de Juizado Especial Cível Estadual, o magistrado condena o réu a pagar


ao autor quantia líquida correspondente a 40 salários mínimos (art. 52, I, L. 9.099/95).
Decorridos 20 dias do trânsito em julgado da sentença sem que tenha havido o
cumprimento voluntário da condenação, o autor formula requerimento de instauração da
fase de execução contra o réu, requerendo ainda a aplicação da multa de que trata o art.
475 - J do CPC.O magistrado determina a penhora de bens do executado em tantos bens
quanto bastem para a satisfação do crédito exeqüendo (incluída a multa de 10% do art.
475 - J, CPC). Efetuada a penhora, o executado, regularmente intimado, oferece embargos
(art. 52, IX da Lei n° 9.099/95), alegando, em síntese, que não poderia incidir a multa do
art. 475 - J do CPC, por ausência de previsão legal, bem como por ultrapassar o limite de
40 salários mínimos aplicável aos juizados. Pergunta-se: a multa de 10% do artigo 475 - J
do CPC pode ser aplicada no procedimento dos Juizados Especiais Cíveis Estaduais?
Fundamente.

Resposta à Questão 1

A multa incide no juizado, sem ressalvas, tal como no rito ordinário de


cumprimento de sentença. Ainda que o valor resultante extrapole o teto condenatório do
juizado especial, nada obsta a sua aplicação, como meio de propugnar a efetivação
voluntária da sentença.

Tema XIX

Mecanismos para a efetivação e cumprimento das decisões interlocutórias que imponham obrigação de fazer,
não fazer e entregar coisa. Meios de coerção e meios de sub-rogação: fungibilidade e concessão ex officio.
Astreintes: momento e meio processual adequado para a sua exigibilidade. Execução provisória e/ou

Michell Nunes Midlej Maron 187


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

definitiva das astreintes. Redução ou ampliação das astreintes. Sanções aplicáveis àqueles que procrastinam
a marcha processual.

Notas de Aula29

1. Execução de decisões interlocutórias

O § 3° do artigo 461 do CPC é a norma que autoriza expressamente a execução das


decisões interlocutórias:

“Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou
não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o
pedido, determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente ao
do adimplemento. (Redação dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
(...)
§ 3° Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de
ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou
mediante justificação prévia, citado o réu. A medida liminar poderá ser revogada
ou modificada, a qualquer tempo, em decisão fundamentada. (Incluído pela Lei nº
8.952, de 13.12.1994)
(...)”

Repare que mesmo que este dispositivo inexistisse, a simples regra geral da
antecipação da tutela seria suficiente para autorizar a decisão liminar e a sua execução.
Mesmo porque é preciso que os requisitos da antecipação de tutela, do conhecido artigo
273 do CPC, estejam presentes, quais sejam, o fumus boni juris e o periculum in mora, para
que este § 3° do artigo supra seja aplicável.
O juiz pode conceder a liminar de forma inaudita altera parte, ou depois de citar
este, se entender necessário. As liminares inaudita altera parte são sempre
excepcionalíssimas, ou seja, a regra geral é que haja a citação do réu, prévia à concessão da
liminar. As hipóteses de liminar inaudita são: se a oitiva do réu for por em perigo o direito,
ante a tremenda urgência do que se pleiteia, ou ante a possibilidade de o réu frustrar o
cumprimento, ficando necessário o efeito surpresa da ordem judicial.
O procedimento da execução da liminar é exatamente o mesmo procedimento da
execução de qualquer título executivo judicial, variando de acordo com a obrigação que
contiver, de fazer, não fazer ou dar coisa. Na decisão, o juiz estabelece a obrigação a ser
cumprida, fixa um prazo e a sanção pelo descumprimento. A efetivação, então, passa a se
dar nos mesmos termos das decisões judiciais finais.
Acontece que esta execução é provisória, porque a própria decisão é provisória. Isto
significa que os atos que possam prejudicar o devedor demandarão caução, sendo esta a
principal diferença da execução definitiva.
Quando o juiz antecipa os efeitos da tutela em caso muito urgente, não se pode
entender que haja a exata dinâmica dos artigos 461 e 461-A do CPC no que diz respeito à
forma de cumprimento: a urgência pode ser tamanha que não se pode falar em concessão de
prazo para cumprimento da decisão, para somente então adotar medidas coercitivas. Por
isso, admite-se, por exemplo, a busca e apreensão de medicamentos expedida
imediatamente, inclusive de forma inaudita altera parte. A regra, porém, é mesmo seguir-se
a exata dinâmica dos artigos 461 e 461-A do CPC, sem diferenças.
29
Aula ministrada pelo professor Ademar Vidal Neto, em 16/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 188


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A multa aplicada pode ser executada provisoriamente, ou seja, as astreintes podem


ser cobradas mesmo antes da sentença. É claro que será uma execução provisória, com a
adstrição que esta impõe à não causação de danos irreversíveis ao devedor.

Casos Concretos

Questão 1

Tendo sido concedida tutela liminar na forma do § 3° do art. 461, do Código de


Processo Civil, o magistrado, buscando atingir a efetividade de sua decisão, aplica o § 4°
do mesmo artigo para fixar multa diária em valor que considerou razoável. Pergunta-se:

Michell Nunes Midlej Maron 189


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

poderá o magistrado, de ofício, verificando que a multa se tornou excessiva, reduzir o seu
valor com efeitos retroativos? Fundamente.

Resposta à Questão 1

Sim: a revisibilidade da multa é perfeitamente admissível, na forma do artigo 461, §


6°, do CPC. As astreintes não fazem coisa julgada, no curso do processo, e por isso o juiz
pode majorar, minorar, ou alterar esta medida como entender melhor e suficiente para a
efetivação da decisão.

Tema XX

Cumprimento da sentença que reconhece obrigação de entregar a coisa. Procedimento para o título
executivo judicial e extrajudicial.

Notas de Aula30

30
Aula ministrada pelo professor Ademar Vidal Neto, em 16/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 190


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

1. Execução de obrigação de dar fundada em título executivo judicial

Estas obrigações têm tutela específica no artigo 461-A do CPC:

“Art. 461-A. Na ação que tenha por objeto a entrega de coisa, o juiz, ao conceder a
tutela específica, fixará o prazo para o cumprimento da obrigação. (Incluído pela
Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
§ 1° Tratando-se de entrega de coisa determinada pelo gênero e quantidade, o
credor a individualizará na petição inicial, se lhe couber a escolha; cabendo ao
devedor escolher, este a entregará individualizada, no prazo fixado pelo juiz.
(Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
§ 2° Não cumprida a obrigação no prazo estabelecido, expedir-se-á em favor do
credor mandado de busca e apreensão ou de imissão na posse, conforme se tratar
de coisa móvel ou imóvel. (Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
§ 3° Aplica-se à ação prevista neste artigo o disposto nos §§ 1° a 6° do art. 461.
(Incluído pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)”

Primeira referência fundamental, aqui, é a este § 3° do artigo supra: o procedimento


para efetivação das sentenças de entregar coisa é o mesmo das obrigações de fazer e não
fazer fundadas em título executivo judicial, como previsto no artigo antecedente, 461 do
CPC.
Assim, o procedimento tem início na prolação de uma sentença que define oi objeto
a ser entregue; o prazo em que este deve ser entregue, e a sanção para descumprimento da
obrigação no prazo dado. O devedor deve ser intimado pessoalmente para cumprir a
decisão, e esta intimação deve ser realizada a requerimento do credor, a partir de quando a
sentença for exigível.
Em relação ao artigo 461 do CPC, a execução de dar coisa apresenta uma
particularidade, porém, especialmente a de dar coisa certa: no artigo 461, há uma gradação
a ser observada, primeiro concentrando-se na obrigação específica, depois na obtenção de
resultado equivalente, e somente então na conversão em perdas e danos. Neste caso, não há
esta dinâmica: se o devedor tem que entregar um determinado bem, não há que se falar em
resultado prático equivalente, por exemplo – já se passa às perdas e danos, se não for
possível o cumprimento in natura.
Quanto às astreintes, a sua fixação não é preferencial, apesar de possível, porque a
melhor medida é a busca e apreensão: o bem a ser dado existe no mundo fático, e por isso é
mais correta esta solução do que a aplicação da multa, ao contrário da obrigação de fazer,
por exemplo, que depende da vontade do devedor.
Imitido o credor na posse, há a satisfação da obrigação, e findo estará o processo.
Se, outrossim, não for encontrado o bem, a conversão em perdas e danos será necessária, e
como agora o que se perseguirá é dinheiro, o artigo 475-J do CPC ditará o procedimento.
Para a coisa certa, como se vê, a conformação dos procedimentos é simples. As
maiores problemáticas surgem é quando se fala em obrigação de dar coisa incerta. O juiz,
nesta sentença, não pode especificar o bem, e com isso a execução precisa ter início
justamente por este ato de concentração da obrigação.
Remontando ao estudo das obrigações, sabe-se que há casos em que é dado ao
credor realizar esta escolha, e há casos em que ela incumbe ao devedor. A mesma lógica se
dá em sede judicial: aquele que naturalmente é incumbido da escolha é aqui também
instado a operar a concentração da obrigação. Veja o artigo 244 do CC, regra geral da
especificação:

Michell Nunes Midlej Maron 191


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 244. Nas coisas determinadas pelo gênero e pela quantidade, a escolha
pertence ao devedor, se o contrário não resultar do título da obrigação; mas não
poderá dar a coisa pior, nem será obrigado a prestar a melhor.”

O § 1° do artigo 461-A do CPC trata da incerteza, e quando a escolha é dada ao


credor, surge uma controvérsia na doutrina. Alguns autores, como Alexandre Câmara,
entendem que a especificação do bem deve ser feita na petição inicial da fase cognitiva, e
não da executória; mas a corrente que prevalece, capitaneada por Dinamarco, entende que a
petição inicial a que se refere o dispositivo é a da fase executória, concentrando ali o credor
o bem sobre o qual deve incidir a execução. É claro que, já tendo havido a concentração em
momento anterior, extrajudicial, esta deve ser respeitada, e o credor deve se reduzir a
informá-la ao juiz, na inicial cognitiva.
Qualquer problema identificado na escolha será resolvido em incidente processual
na forma da impugnação do artigo 630 do CPC.

“Art. 630. Qualquer das partes poderá, em 48 (quarenta e oito) horas, impugnar a
escolha feita pela outra, e o juiz decidirá de plano, ou, se necessário, ouvindo
perito de sua nomeação.”

Efetivada a concentração, qualquer que seja a forma, passa-se ao cumprimento da


sentença, agora nos moldes da coisa certa, exatamente como abordado.

Casos Concretos

Questão 1

Por sentença, Pastor Alberto foi condenado a restituir à Igreja Cristã Presbiteriana
Missionária coisa certa (imóvel, móveis, utensílios e documentos da Igreja).Transitada em
julgado a decisão judicial, a vencedora pediu e o juiz lhe deferiu a expedição de mandado
de imissão na posse dos bens imóveis em causa e a expedição de mandado de busca e
apreensão dos bens móveis em causa. Alegando que não foi citado para a execução,
Alberto pretende a reconsideração da decisão, a fim de sustar os atos executórios "com

Michell Nunes Midlej Maron 192


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

imediato efeito repristinatório ao ato atacado e retorno ao status quo ante".A autora
aduziu que o requerimento, dirigido à expedição de mandado de imissão na posse e de
mandado de busca e apreensão, independe da instauração de processo de execução, pois a
natureza da ação possessória já ostenta a necessária eficácia executiva lato sensu. Diante
do caso concreto, DECIDA.

Resposta à Questão 1

Não existe citação nesta circunstância: o processo é sincrético, cabendo mera


intimação para cumprimento da sentença. O juiz pode, contudo, tomar o termo “citação”
como intimação, e, verificando que não houve esta comunicação, nulificar o procedimento.

Questão 2

A) Qual a diferença entre astreintes, indenização por perdas e danos e a cláusula


penal?
B) Pode o juiz estabelecer uma multa, sem requerimento do demandante, pelo
atraso no cumprimento das obrigações de entrega de coisa certa?

Resposta à Questão 2

A) As astreintes são um meio de coerção psicológica, a fim de compelir o devedor


ao cumprimento da decisão; a indenização por perdas e danos se destina a re
compor o status quo ante daquele que padece indevidamente por tais perdas e
danos; e a cláusula penal moratória é uma sanção pela parte que descumpre
determinada obrigação.
B) Sim: a medida é dedicada a efetivar a decisão judicial, o que interessa ao Estado.
Por isso, o artigo 461, § 4°, do CPC, dá esta competência ex officio ao juiz.

Tema XXI

Cumprimento da sentença que reconhece obrigação de fazer e não fazer. Procedimento para o título
executivo judicial e extrajudicial.

Notas de Aula31

1. Execução de decisões de fazer, não fazer e entregar coisa

31
Aula ministrada pelo professor Ademar Vidal Neto, em 15/9/2009.

Michell Nunes Midlej Maron 193


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Desde logo, é importante dizer que a execução das decisões interlocutórias que
condenam a fazer, não fazer ou entregar coisa é exatamente igual à execução da sentença
que assim condena. Por isso, tudo que se dirá aqui é aplicável ao estudo da execução de
sentença ou decisão interlocutória de fazer, não fazer ou dar coisa certa.
Por trás deste tipo de execução, está, fundamentalmente, a efetividade do processo.
O juízo deve dar ao credor tudo, e exatamente, aquilo que ele deveria receber se o devedor
houvesse cumprido a obrigação espontaneamente. Nas obrigações de fazer, não fazer ou dar
coisa, é esta obrigação que deve tentar ser entregue pelo juízo, e não algo alternativo. A
entrega da obrigação específica é o desfecho ideal de todo processo; a conversão em perdas
e danos deve ser tida por ultima ratio.
Em 1994, o artigo 461 do CPC entrou em vigor, sendo muito festejado ante seu
escopo promotor da tutela específica da obrigação, especialmente por força do § 5° deste
artigo. Veja:

“Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou
não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o
pedido, determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente ao
do adimplemento. (Redação dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
§ 1° A obrigação somente se converterá em perdas e danos se o autor o requerer ou
se impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático
correspondente. (Incluído pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
§ 2° A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa (art. 287).
(Incluído pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
§ 3° Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de
ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou
mediante justificação prévia, citado o réu. A medida liminar poderá ser revogada
ou modificada, a qualquer tempo, em decisão fundamentada. (Incluído pela Lei nº
8.952, de 13.12.1994)
§ 4° O juiz poderá, na hipótese do parágrafo anterior ou na sentença, impor multa
diária ao réu, independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou
compatível com a obrigação, fixando-lhe prazo razoável para o cumprimento do
preceito. (Incluído pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
§ 5° Para a efetivação da tutela específica ou a obtenção do resultado prático
equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas
necessárias, tais como a imposição de multa por tempo de atraso, busca e
apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras e impedimento de
atividade nociva, se necessário com requisição de força policial. (Redação dada
pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)
§ 6° O juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade da multa, caso
verifique que se tornou insuficiente ou excessiva. (Incluído pela Lei nº 10.444, de
7.5.2002)”
Se a conversão em perdas e danos vier a ser procedida, porém, a execução da
sentença seguirá o rito do cumprimento de sentença, na forma do famigerado já bem
abordado artigo 475-J do CPC, e seguintes, porque passará a ser uma execução para entrega
de dinheiro, que é ali regulada.
A sentença condenatória em obrigação de fazer, não fazer ou dar coisa é o
pressuposto lógico da execução desta espécie. A natureza desta decisão depende da
classificação que se adote: se for adotada a classificação trinária, trata-se de sentença
condenatória, por óbvio; se se adotar a classificação quinária, esta sentença é executória
lato sensu, pois define o objeto da obrigação, o prazo para o seu cumprimento, e a sanção
aplicável em caso de descumprimento.

Michell Nunes Midlej Maron 194


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

O processo se inicia com a citação pessoal do devedor, conforme jurisprudência


pacificada. Proferida a sentença, a apelação eventual será recebida no duplo efeito. Tendo
este efeito suspensivo, a sentença permanecerá ineficaz, e por isso inexequível. Julgado o
recurso, se o réu interpuser recursos excepcionais, estes têm apenas efeito devolutivo, pelo
que, a partir dali, a decisão de segunda instância já poderá ser executada: se o credor
desejar executar provisoriamente o acórdão, deverá promover a intimação pessoal de seu
teor ao devedor.
A intimação deve ser pessoal, e não na figura do advogado, porque é a parte quem
deverá efetuar alguma conduta, e não o advogado. De fato, este é um norte geral para a
definição de a quem deve se dirigir a intimação: é àquele que terá que efetuar alguma
providência. Se for o advogado quem deve agir, dando andamento a algum ato processual, a
intimação a ele se dirige; se for a parte quem deve atuar pessoalmente, a intimação deve
ser-lhe pessoal.
O juiz não poderá efetuar a intimação pessoal do devedor. Este ato é dado à
conveniência do exequente, a exemplo do que se passa no cumprimento de sentença de
pagar quantia certa. Há quem defenda, minoritariamente, este atuar oficioso do juiz, mas é
entendimento que não deve prevalecer.
Iniciada a execução provisória, intimado o devedor pessoalmente, começa a fluir o
prazo determinado na sentença para cumprimento da obrigação ali imposta. O devedor só
tem duas possibilidades, neste momento: cumprir ou não a decisão judicial. Cumprida,
comunica isto ao juízo, que, diante desta comunicação, intimará as partes para, no prazo de
dez dias, se manifestarem sobre a prestação, para que ele verificar se a obrigação foi efetiva
e satisfatoriamente cumprida (pois pode ter havido adimplemento imperfeito). Este prazo
de dez dias se encontra no artigo 635 do CPC:

“Art. 635. Prestado o fato, o juiz ouvirá as partes no prazo de 10 (dez) dias; não
havendo impugnação, dará por cumprida a obrigação; em caso contrário, decidirá a
impugnação.”

Pelo ensejo, diga-se: as normas referentes à execução de título executivo


extrajudicial se aplicam subsidiariamente ao cumprimento de decisões judiciais de fazer,
não fazer ou dar coisa.
Constatada a suficiência da prestação empreendida, o juiz extingue o processo.
Discordando o credor, e o juiz dando-lhe razão, a execução prosseguirá na forma devida,
pois o devedor não se desincumbiu da sua obrigação.
Se o devedor, intimado para cumprir a sentença, ao contrário, não a cumpre, incidirá
a cominação estipulada na sentença, como a multa diária, as astreintes (medida esta que é o
mais corriqueiro dos meios de coerção). Qualquer que seja a medida escolhida pelo juiz
para coactar o devedor ao cumprimento, esta será posta em prática quando do
descumprimento da decisão.
As medidas de coerção podem ser de pressão psicológica, como as astreintes, ou
medidas de subrogação, que procedem à invasão direta do patrimônio do devedor, tal como
a busca e apreensão.
Pela sua importância, prática e jurídica, vejamos as astreintes de forma amiúde.

1.1. Astreintes

Michell Nunes Midlej Maron 195


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

Astreintes não é sinônimo de multa diária. A periodicidade das astreintes pode ser
livremente estabelecida pelo juízo, de acordo com a necessidade, e não apenas diária. Nada
impede, por exemplo, que uma astreintes seja fixada em periodicidade de horas, ou até
mesmo de minutos, se o caso demandar urgência tal que indique esta necessidade.
A incidência e a exigibilidade das astreintes é ponto um tanto controvertido.
Vejamos um exemplo: se o juiz profere sentença, da qual há apelação no duplo efeito,
enquanto pender o julgamento do recurso a sentença não tem eficácia, não podendo as
astreintes ali cominadas serem exigidas. O prazo para cumprimento da obrigação, como
visto, só pode ser contado quando não estiver suspensa a eficácia da decisão, e se o credor
promover a intimação pessoal do devedor para cumprimento. Somente após o prazo
determinado na decisão exequível é que as astreintes começam a incidir.
A multa será exigível, será executável, desde quando o credor quiser, a partir da
incidência: nada impede que o credor venha a executar provisoriamente a multa que tenha
incidido pelo descumprimento da decisão, quando bem entender, se ocorreu a incidência
(ou seja, se a sentença não estiver com a eficácia cumprida). É claro que, enquanto a
sentença estiver sem eficácia (na pendência de apelo com efeito suspensivo, por exemplo),
a multa não incide, e não há o que se executar provisoriamente.
Pode o credor, também, preferir aguardar o trânsito em julgado da sentença, mas
não é necessário este aguardo, se a multa incidiu.
Tendo sido iniciada a execução provisória da multa, se a sentença for modificada,
esta multa perde sua causa jurídica. Tendo o executado padecido de prejuízos com a
execução provisória, estes serão suportados, agora, pelo exequente derrotado.
A incidência das astreintes, é claro, só ocorre até o cumprimento da obrigação pelo
devedor. Uma vez cumprida, cessa a incidência das astreintes.
O § 2° do artigo 461 do CPC, supra, fala que a multa não se confunde com as
perdas e danos eventualmente percebidas. Isto significa que, em casos concretos, em que a
incidência da multa por longo período não tem o efeito coativo esperado, o juiz converte a
obrigação em perdas e danos, não suprimindo a multa até então incidida. Destarte, o credor
que tem a obrigação específica frustrada terá agora a seu dispor o valor em que esta foi
convertida, e o valor acumulado das astreintes que incidiram até o momento da conversão,
podendo executar ambos. Uma verba não se confunde ou se substitui à outra.
As astreintes podem ser fixadas de ofício pelo juízo, como autoriza o § 4°do artigo
em comento, sem que isto viole a inércia ou a congruência.
Não se pode confundir as astreintes com a cláusula penal de obrigações, o que
significa que não há, aqui, a limitação das astreintes ao valor teto da obrigação principal,
como o há na cláusula penal.
O § 6° do artigo 461 do CPC é altamente relevante: segundo este dispositivo, pode
o juiz alterar o valor da multa, enquanto ela incide; ou reduzir o valor global alcançado pela
incidência, quando este se demonstrar excessivo. Em outras palavras: as astreintes não
fazem coisa julgada, nem mesmo formal.

1.2. Resultado prático equivalente

É mesmo o § 5° deste artigo 461 do CPC a maior inovação na tutela específica de


obrigações de fazer, não fazer ou dar coisa. É este dispositivo que dá ampla liberdade ao

Michell Nunes Midlej Maron 196


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

juiz para, diante da casuística, decidir qual será a melhor medida coercitiva a ser empregada
para obter a tutela específica ou resultado equivalente.
Esta obtenção de “resultado prático equivalente” a que alude o dispositivo é uma
fantástica inovação. Trata-se de uma providência intermediária entre a tutela específica,
resultado prioritário, e a conversão em perdas e danos, ultima ratio. Exemplo desta medida
seria, em uma obrigação de reparar uma determinado bem, se negando o devedor a fazê-lo,
o juiz determinar que outra pessoa o faça, à custa do devedor.
Ao optar por uma ou outra medida, o juiz deverá estar atento à sua efetividade, mas
também à menor gravosidade para o devedor. Há que se observar uma gradação nas
medidas, da mais branda (porém ainda efetiva) à mais severa.
Dentre estas medidas, uma que gera enorme polêmica é a prisão do devedor
descumpridor da decisão judicial. Há autores que defendem, como Marinoni, se tratar de
prisão civil admissível, mas é posição tremendamente incoerente, permissa venia, porque a
CRFB fala expressamente em vedação à prisão por dívida, o que seria, para este autor,
débito pecuniário, e não débito em obrigações de fazer, não fazer ou dar.
Outros autores defendem que esta prisão é possível, e tem mesmo natureza civil,
mas ao argumento de que pesa mais, na ponderação dos valores, a segurança das
obrigações, a efetividade das decisões judiciais, do que a vedação à prisão civil por dívida.
É claro que a posição destes autores não pode prevalecer, e a prisão por
descumprimento de decisão judicial não pode ter natureza civil. Contudo, a discussão é
mais interessante quando se fala que o descumprimento da decisão poderia ensejar
cometimento do crime de desobediência, do artigo 330 do CP, ensejando a prisão em
flagrante (prisão-condução, porque o auto de prisão em flagrante não pode ser lavrado,
dada a pena de pequena monta deste crime):

“Desobediência
Art. 330 - Desobedecer a ordem legal de funcionário público:
Pena - detenção, de quinze dias a seis meses, e multa.”

A doutrina se digladia, e, apesar de corriqueira na jurisprudência a expedição de


mandados de condução de devedores, especialmente em primeira instância, a controvérsia é
severa.

1.3. Conversão em perdas e danos

Não tendo sido obtida a tutela específica, tampouco sendo possível o resultado
prático equivalente, será convertida a obrigação em perdas e danos.
Esta conversão se opera por meio de uma liquidação incidental, dedicada a apurar o
valor pecuniário equivalente à prestação específica que não pôde ser obtida. Nesta
liquidação, as partes podem se manifestar, concordando ou discordando do valor ali obtido.
Alcançando um valor final, a execução prosseguirá pela forma padrão de execução
de título judicial de obrigação de pagar quantia certa: seguirá o rito do artigo 475-J do CPC,
desde então.

1.4. Obrigação de não fazer

Michell Nunes Midlej Maron 197


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

A execução para a tutela específica da obrigação de não fazer, há que se diferenciar


a obrigação de não fazer permanente da instantânea.
A primeira é aquela que se protrai no tempo, devendo a inação ser observada de
forma perene. Como exemplo, uma sentença que condene uma indústria a não emitir gases
poluentes: esta obrigação de não fazer é permanente, estendendo-se por tempo
indeterminável.
Para se obter a tutela específica desta obrigação permanente de não fazer, poderá o
juiz escolher qualquer das medidas de coerção cabíveis, como as astreintes por dia de
descumprimento.
A segunda, obrigação de não fazer instantânea, é aquela que se concentra em um
ato, que, se feito, implica descumprimento. Como exemplo, uma determinação sentencial
para que determinada informação seja mantida em sigilo: veiculada a informação, há o
descumprimento irreversível. Neste caso, as astreintes serão fixadas, mas havido o
descumprimento, não haverá mais tutela específica a ser perseguida, ou resultado
equivalente: a única solução é mesmo a conversão em perdas e danos. E veja que a multa
incidirá uma única vez, no momento do descumprimento, pelo que seu valor deve ser bem
medido, sem incidir em excessos.
Na obrigação permanente de não fazer, o juiz extinguirá a execução, quando se
demonstrar que a conduta de não fazer vem sido cumprida. Se, após a extinção, o devedor
descumprir a obrigação, a sentença permanecerá exequível.

1.5. Defesa do executado

Mesmo tratando-se de cumprimento de título executivo judicial, a defesa do


devedor não se dá por meio da impugnação. Tampouco se opera por meio de embargos.
Aqui, o devedor se insurge contra a execução por meio de simples petição, cabendo, ainda
recorrer das decisões que lhe sejam desfavoráveis.

2. Execuções de obrigações de fazer ou não fazer fundadas em título extrajudicial

Por força do artigo 644 do CPC, as regras aplicadas à execução de fazer, não fazer
ou dar coisa, baseadas em título executivo extrajudicial, se aplicam subsidiariamente às
disposições do artigos 461 e 461-A do CPC, ou seja, a execução destas obrigações calcadas
em título judicial. Esta regra não é uma via de mão dupla: o contrário não procede, ou seja,
a execução de título extrajudicial, nestes casos, não sofre aplicação dos artigos 461 e 461-A
do CPC. Veja:

“Art. 644. A sentença relativa a obrigação de fazer ou não fazer cumpre-se de


acordo com o art. 461, observando-se, subsidiariamente, o disposto neste Capítulo.
(Redação dada pela Lei nº 10.444, de 7.5.2002)”

O procedimento que se estudará, daqui por diante, simplesmente não ocorre na


praxe forense, ante sua inutilidade. E esta inaplicabilidade dos meios coercitivos dos artigos
supramencionados é um bom indício desta falta de utilidade.
O artigo 632 do CPC traz a regra inicial:

Michell Nunes Midlej Maron 198


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 632. Quando o objeto da execução for obrigação de fazer, o devedor será
citado para satisfazê-la no prazo que o juiz lhe assinar, se outro não estiver
determinado no título executivo. (Redação dada pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

Mesmo que neste artigo não venha cominada a medida coercitiva de que pode se
valer o juiz, este poderá cominar, a seu critério, aquilo que entender devido e necessário,
como autoriza o artigo 645 do CPC:

“Art. 645. Na execução de obrigação de fazer ou não fazer, fundada em título


extrajudicial, o juiz, ao despachar a inicial, fixará multa por dia de atraso no
cumprimento da obrigação e a data a partir da qual será devida. (Redação dada
pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)
Parágrafo único. Se o valor da multa estiver previsto no título, o juiz poderá
reduzi-lo se excessivo. (Incluído pela Lei nº 8.953, de 13.12.1994)”

Assim, o devedor será citado para cumprir a obrigação titulada, no prazo previsto no
título ou que o juiz fixar, sob pena de multa diária.
O artigo 633 do CPC dispõem que:

“Art. 633. Se, no prazo fixado, o devedor não satisfizer a obrigação, é lícito ao
credor, nos próprios autos do processo, requerer que ela seja executada à custa do
devedor, ou haver perdas e danos; caso em que ela se converte em indenização.
Parágrafo único. O valor das perdas e danos será apurado em liquidação, seguindo-
se a execução para cobrança de quantia certa.”

“Art. 634. Se o fato puder ser prestado por terceiro, é lícito ao juiz, a requerimento
do exeqüente, decidir que aquele o realize à custa do executado. (Redação dada
pela Lei nº 11.382, de 2006).
Parágrafo único. O exeqüente adiantará as quantias previstas na proposta que,
ouvidas as partes, o juiz houver aprovado. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de
2006).”

O sistema traçado nestes artigos, em suma, dispõe que se o executado não cumpre a
obrigação, ou o credor poderá pedir a conversão da obrigação em indenização por perdas e
danos, prosseguindo na forma da execução para recebimento de quantia certa, do artigo
475-J e seguintes do CPC; ou requerer que a obrigação seja cumprida, na espécie, por um
terceiro, à custa do devedor. É claro que somente poderá ser feita esta última opção se a
obrigação puder ser cumprida por terceiros, pois se for infungível, não há quem possa
cumprir, senão o próprio devedor.
Feita a segunda opção, o exequente adiantará ao terceiro o pagamento do terceiro
que cumprirá a obrigação, e, a posteriori, receber do devedor a quantia aprovada pelo juízo.
A aprovação pelo juiz ocorrerá após a colheita de três orçamentos e a oitiva das
partes sobre a proposta. É claro que a conversão direta em perdas e danos é muito mais
lógica, quando cominada multa e o devedor não cumprir a obrigação.
Os artigos 635 e 636 do CPC dispõem:

“Art. 635. Prestado o fato, o juiz ouvirá as partes no prazo de 10 (dez) dias; não
havendo impugnação, dará por cumprida a obrigação; em caso contrário, decidirá a
impugnação.”

Michell Nunes Midlej Maron 199


EMERJ – CP IV Direito Processual Civil IV

“Art. 636. Se o contratante não prestar o fato no prazo, ou se o praticar de modo


incompleto ou defeituoso, poderá o credor requerer ao juiz, no prazo de 10 (dez)
dias, que o autorize a concluí-lo, ou a repará-lo, por conta do contratante.
Parágrafo único. Ouvido o contratante no prazo de 5 (cinco) dias, o juiz mandará
avaliar o custo das despesas necessárias e condenará o contratante a pagá-lo.”

Impugnado o cumprimento alegado, instaura-se um incidente processual cognitivo,


em que serão provados os fatos alegados pelo devedor, que defende ter adimplido o dever, e
o credor, que alega insatisfação com a prestação. Resolvida a impugnação, o juiz decidirá:
se o executado tem razão, ou seja, seu cumprimento é satisfatório, a execução tem fim; se o
exequente tem razão, por não ser suficiente a prestação, a execução prosseguirá, insistindo
no cumprimento específico, ou convertendo-o em perdas e danos.
O artigo 636 do CPC deixa claro que se o credor preferir, pode terminar o fato
defeituoso à sua forma, recebendo a diferença do devedor em dinheiro. O artigo 637 do
CPC estabelece que:

“Art. 637. Se o credor quiser executar, ou mandar executar, sob sua direção e
vigilância, as obras e trabalhos necessários à prestação do fato, terá preferência, em
igualdade de condições de oferta, ao terceiro.”

Assim, se o credor quiser, ele próprio pode, por mão própria, executar o fato, e será
remunerado pelo devedor como se no mercado estivesse atuando. É algo pouco factível,
mas a lei o faculta.
O artigo 638 do CPC é praticamente inútil, porque simplesmente menciona aquilo
que já é a regra geral:

“Art. 638. Nas obrigações de fazer, quando for convencionado que o devedor a
faça pessoalmente, o credor poderá requerer ao juiz que Ihe assine prazo para
cumpri-la.
Parágrafo único. Havendo recusa ou mora do devedor, a obrigação pessoal do
devedor converter-se-á em perdas e danos, aplicando-se outrossim o disposto no
art. 633.”

Como se vê, as medidas traçadas para este rito de execução, de título extrajudicial
para cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, são muito ineficazes. Por isso,
questionar-se-ia se não seria dado ao credor optar pelo rito do cumprimento de sentença,
ajuizando uma ação de conhecimento para ao final obter o título judicial e passar à fase
executória sincrética, muito mais favorável ante as novéis previsões do § 5° do artigo 461
do CPC.
Parte da doutrina entende, ao tratar do tema de forma genérica, que não há interesse
de agir na propositura da ação de conhecimento quando há título executivo, eis que a via
executória já é de plano acessível – é a corrente majoritária. Outra parcela diz que, qualquer
que seja o título executivo extrajudicial, o ajuizamento da ação de cognição é possível por
conta da eventual dúvida que o credor tenha se este preenche ou não os requisitos da
exequibilidade, dúvida que o propugna à via cognitiva para que não se exponha ao risco da
sucumbência na execução – havendo utilidade, portanto.
Contudo, esta discussão sobre o interesse refoge um pouco ao caso em debate,
porqu