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NEPV MANAUS

IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

1. Fim do homem: a operação da inteligência, o conhecimento da verdade

Aristóteles diz que podemos encontrar finalidade em tudo o que existe. Ao observar o
rabo do gato, percebemos que ele não está ali por acaso, mas dá equilíbrio ao gato. O olho da águia
permite que ela localiza sua presa a grandes distâncias, e assim, na natureza, percebemos que tudo
o que é criado está inserido em uma rede de relações de causa e efeito.

E podemos encontrar essa finalidade por meio de um critério de utilidade,


especialização. Por exemplo, podemos facilmente perceber que a finalidade dos óculos é corrigir
problemas de visão. Se tentarmos fazer isso colocando um livro ou uma sandália na cara, não
teremos sucesso.

Assim, a finalidade dos óculos é definida ao encontrarmos aquilo que ele é capaz de
fazer de maneira perfeita, que outro objeto não pode fazer. Portanto, vem a pergunta: o que o
homem possui que é apenas dele, em diferenciação aos outros animais: a inteligência e a
capacidade de amar, que, no fim, também é fruto de sua inteligência unida à sua vontade. Santo
Tomás de Aquino, no Comentário à Metafísica, assim coloca:

A operação própria do homem enquanto homem é inteligir, já que é por


isto que difere de todos os demais. Portanto, todo homem é naturalmente
inclinado a inteligir e, por consequência, a conhecer.

Além disso, Santo Tomás de Aquino e Aristóteles afirmam que o homem alcança a
máxima felicidade ao maximamente realizar a própria natureza. Portanto, nada mais associado e
adequado ao desenvolvimento da felicidade humana que o desenvolvimento de sua inteligência ao
grau mais elevado possível.

Para Aristóteles, o objeto da inteligência humana é o ser das coisas, a partir da qual ele
abstrai verdades. O homem percebe que as coisas existem, e a partir daí percebe que as coisas são.
Perceber o ser das coisas é perceber pequenas verdades, e o homem, agrupando e relacionando
essas pequenas verdades por meio de raciocínios, vai descobrindo outras verdades, maiores, até
chegar ao grau máximo do processo de inteligir, chamado de contemplação da verdade. O
catecismo de 1992 assim resume:
De todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar seu
Criador (...) só ele é chamado a compartilhar pelo conhecimento e pelo
amor, a vida de Deus. Foi para este fim que o homem foi criado, e aí reside
a razão fundamental de sua dignidade (CIC, § 356).

Contemplar a verdade é diferente de perceber uma ou outra verdade. É perceber, num


só relance, a verdade de todas as coisas conhecidas, e como elas se relacionam de maneira ordenada
e harmoniosa umas com as outras, apontando, inclusive, para a existência de realidades ainda mais
elevadas, por exemplo, Deus, a primeira das verdades e fonte de todas as outras. Novamente Santo
Tomás vem ao nosso socorro:

Existe, portanto, em todos os homens, o desejo de conhecer as causas das


coisas que vêem; daí nasceu a Filosofia, pois pela admiração das coisas que
os homens viam, cuja causa lhes era oculta, foi que os homens começaram
a filosofar pela primeira vez; e, ao encontrarem as causas, repousavam.
Mas a investigação não cessaria até que encontrassem a primeira de todas
as causas, pois só então julgamos conhecer perfeitamente, quando
encontramos a primeira de todas as causas. O homem, portanto, deseja
conhecer por natureza a primeira causa de todas as coisas como um fim
último.

Cultivar o desapego, as virtudes, a moderação, o amor ao próximo, tudo isso ajuda a


aumentar a capacidade de contemplação da verdade. Aqueles que percorrem esse caminho
descrevem sentirem-se como que iluminados por uma luz em sua razão, e dessa maneira se tornam
capazes de ensinar a outros, que ainda não obtiveram essa luz, portanto, são alunos, como obtê-la.

Nasce assim a filosofia, cujo crescimento no seio social se dá por meio da educação, e
aqueles que percorreram com sucesso o caminho dos filósofos se tornaram grandes pessoas,
capazes de solucionar problemas, realizar descobertas, governarem a si mesmos e aos homens ao
seu redor, e se tornaram felizes, tão felizes quanto é possível sem vivendo sem a redenção operada
pelo Senhor Jesus.

Lendo os relatos dos grandes filósofos, nota-se como se contentavam com pouco,
mantinham a dignidade diante da morte, não eram escravos de suas paixões e mesmo quando
incompreendidos não esmoreciam nem se guiavam pela opinião que os outros deles tinham, mas
se realizavam encontrando e ensinando aos outros a verdade. E isso já poderia ser considerado
muita coisa.

2. O cristianismo: a luz e a verdade sobrenaturais

Porém, quando este vem ao mundo, traz algo que os gregos não suspeitavam que
existisse, senão como hipótese e esperança para a outra vida: a beatitude, a elevação do espírito e
da vida humana ao nível da divindade:

Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus;


aos que crêem em seu nome (Jo 1, 12).

Sem aprofundar por hora esta questão, sabemos que Jesus, ao vir ao mundo relevar
Deus para os homens e comunicar sua Graça pela efusão do Espírito Santo, inaugurou um novo
estágio na vida dos homens que a ele se associam. De fato, para compreender o que Jesus fez e o
que isso implica na educação, precisamos refletir a respeito da natureza da graça:

Nossa justificação vem da graça de Deus. A graça é o favor, o socorro


gratuito que Deus nos dá para responder o seu convite, tornar-nos filhos
de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina, da Vida Eterna.

A graça é uma participação na vida divina; introduz-nos na intimidade da


vida trinitária. Pelo batismo, o cristão tem parte na graça de Cristo, cabeça
da Igreja. Como filho adotivo, pode doravante chamar a Deus de Pai, em
união com o filho único. Recebe a vida do Espírito, que nele infunde a
caridade e forma a Igreja.

Esta vocação para a vida eterna é sobrenatural. Depende integralmente da


gratuita de Deus, pois apenas Ele pode se revelar e dar-se a si mesmo. Esta
vocação ultrapassa as capacidades da inteligência e as forças da vontade
do homem, como também de qualquer criatura (CIC, §§ 1196-1198).

A graça, que transforma o homem inteiro, o torna praticante da vida divina. Deus
permite que as capacidades humanas de inteligir e de amar sejam levadas a um nível muito mais
elevado do que o dos filósofos gregos, e os homens tocados pela graça são transformados na sua
capacidade de enxergar e se aprofundar na verdade.
De fato, A Sagrada Escritura testificada que Jesus veio ao mundo não apenas para salvar
os homens do inferno e introduzi-los no paraíso, mas veio também para que se aprofundem na
verdade como nunca antes ocorrera na história:

Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará na verdade plena, pois
não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará
as coisas futuras (Jo 16, 13).

E ainda:

Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da


verdade (1 Tm 2, 4).

Foi Santo Agostinho quem, ao crer, percebeu que, no ato de fé, sua compreensão da
verdades filosóficas e da religião era aumentada, e isso se tornava mais perceptível e grandioso
conforme mais fé Santo Agostinho cultivava, de acordo com o que ele encontrou no Evangelho de
São João:

Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele
era a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, mas as
trevas não a apreenderam (compreenderam) (Jo 1, 4-5).

Outros santos e beatos passaram pela mesma experiência, dessa maneira descobrindo
que o homem não trabalha apenas com a luz da razão natural, conforme pensavam os gregos, mas
pode ter acesso a uma outra luz, sobrenatural, que vem de Deus, e que o capacita a alcançar um
nível de entendimento e de perfeição da inteligência e da virtude que era inimaginável para os
gregos e, ademais, muito mais acessível.

Como outro exemplo disso, o Beato Raimundo Lullo, durante sua vida, notou que, no
estudo da filosofia, o nível dos católicos devotos era consideravelmente superior ao dos pagãos e
daqueles que levavam uma vida dissoluta. Segundo suas observações, um bom católico aprendia,
em 1 ano, o que aqueles que viviam longe do Evangelho e da Igreja levavam, em média, 5 anos, e
isso a duras penas.

Assim, existiram poucos grandes filósofos, como Platão, Sócrates e Aristóteles, mas
muitos santos de elevada estatura, doutores e confessores da Igreja. E os santos, complementando
os filósofos, perceberam que a finalidade do homem era não apenas contemplar a verdade, mas
amá-la, pois a Verdade Primeira, que é Deus, fora descoberta não como uma ideia, mas como uma
pessoa, e uma pessoa sumamente amável.

E as pessoas que trilharam esse caminho se tornaram muito mais capazes de


governarem a si mesmas e aos homens, resolver os problemas e manter a paz, do que qualquer
filósofo grego. Construíram a paz onde havia inimizade insolúvel, mantiveram a dignidade diante de
situações atrozmente humilhantes, experimentaram alegrias e gozos que apenas a eles foram
reservados, e muito mais.

Experimentaram, mesmo no meio das perseguições e até mesmo no martírio, uma


felicidade imensa nesta terra, portanto, realizaram aqui o fim para o qual foram criadas, tanto
quanto era possível, realizando aquilo que Platão e Sócrates, milênios antes, já haviam definido
como objetivo do homem. Portanto, trilhar esse caminho mais elevado e mais eficaz para a
realização do fim do homem e ajudar outros a seguir por ele superou a educação filosófica, e
inaugurou a educação cristã.

3. Conceito e operação da educação cristã: o desenvolvimento das duas luzes

Ou seja, pode-se definir a educação cristã como o processo pelo qual alguém se torna
capaz de desenvolver a sua luz sobrenatural ao grau máximo. Pio XI assim declarou:

Por isso o verdadeiro cristão, fruto da verdadeira educação cristã, é o


homem sobrenatural que pensa, julga e opera constantemente e
coerentemente, segundo a sã razão iluminada pela luz sobrenatural dos
exemplos e doutrina de Cristo (Pio XI, DIVINI ILLIUS MAGISTRI)

E o documento do Concílio Vaticano II, diversas vazes afirma em consonância com o


magistério dos Papas anteriores:

Todos os homens, de qualquer estirpe, condição e idade, visto gozarem da


dignidade de pessoa, têm direito inalienável a uma educação (5)
correspondente ao próprio fim (6), acomodada à própria índole, sexo,
cultura e tradições pátrias, e, ao mesmo tempo, aberta ao consórcio
fraterno com os outros povos para favorecer a verdadeira unidade e paz
na terra. A verdadeira educação, porém, pretende a formação da pessoa
humana em ordem ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem das
sociedades de que o homem é membro e em cujas responsabilidades, uma
vez adulto, tomará parte (DECLARAÇÃO CONCILIAR GRAVISSIMUM
EDUCATIONIS, N. 1).

Prosegue:

De igual modo, o sagrado Concílio declara que as, crianças e os


adolescentes têm direito de serem estimulados a estimar rectamente os
valores morais e a abraçá-los pessoalmente, bem como a conhecer e a
amar Deus mais perfeitamente. Por isso, pede insistentemente a todos os
que governam os povos ou orientam a educação, para que providenciem
que a juventude nunca seja privada deste sagrado direito (DECLARAÇÃO
CONCILIAR GRAVISSIMUM EDUCATIONIS, N. 1).

Ademais:

Todos os cristãos que, uma vez feitos nova criatura mediante a


regeneração pela água e pelo Espírito Santo(8), se chamam e são de facto
filhos de Deus, têm direito à educação cristã. Esta procura dar não só a
maturidade da pessoa humana acima descrita, mas tende principalmente
a fazer com que os baptizados, enquanto são introduzidos gradualmente
no conhecimento do mistério da salvação, se tornem cada vez mais
conscientes do dom da fé que receberam; aprendam, principalmente na
acção litúrgica, a adorar Deus Pai em espírito e verdade (cfr. Jo. 4,23),
disponham-se a levar a própria vida segundo o homem novo em justiça e
santidade de verdade (EL 4, 22-24); e assim se aproximem do homem
perfeito, da idade plena de Cristo (cfr. Ef. 4,13) e colaborem no aumento
do Corpo místico (DECLARAÇÃO CONCILIAR GRAVISSIMUM EDUCATIONIS,
N. 2)

E por que a filosofia grega é importante nesse caminho? Porque desenvolver a luz
natural acostuma o homem com a virtude e com a verdade, o que facilita enormemente o
desenvolvimento da luz sobrenatural.

Na verdade, a filosofia é tão importante para a retidão educacional, inclusive a educação


cristã, que Pio XI instrui que as escolas católicas invistam na formação filosófica dos alunos:
Estas nobres tradições exigem que a juventude confiada às escolas
católicas, seja, sem duvida, plenamente instruída nas letras e ciências,
segundo as exigências dos nossos tempos, mas ao mesmo tempo sólida e
profundamente, em especial na sã filosofia (Pio XI, DIVINI ILLIUS
MAGISTRI)

De fato, segundo São Tomás de Aquino, existem duas espécies de virtudes no homem,
as naturais, cujos métodos de aperfeiçoamento são objeto de estudo da ciência moral, e que podem
ser adquiridas por esforço humano, por treinamento, e são objetos da ciência moral estudada e
desenvolvida pelos filósofos, e as virtudes sobrenaturais.

Existe uma castidade natural e uma castidade sobrenatural, uma temperança natural e
uma temperança sobrenatural, e assim por diante. As virtudes naturais só podem ser desenvolvidas
até o máximo humano, mas as sobrenaturais podem ser infusas por Deus até superar inclusive o
grau angélico, como ocorreu com a Virgem Maria.

Operando juntas, luz natural e luz sobrenatural, virtude natural e virtude sobrenatural,
realizam o homem em sua plenitude, pois, segundo Platão e Santo Tomás de Aquino, as virtudes
morais permitem a operação da prudência, e a operação da prudência capacita maximamente o
homem para acertar em suas decisões morais, o que é o mesmo que cumprir os mandamentos de
Deus, e assim crescer na graça até atingir a máxima iluminação da luz sobrenatural, por meio de
uma íntima união com Cristo. Jesus Cristo parece realmente ter relacionado de maneira muito direta
a retidão de vida moral com o próprio conhecimento de Deus:

Se me amais, observareis os meus mandamentos , e rogarei ao Pai, e ele


vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o
Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem
o conhece. Vós o conheceis, porque permanece convosco. Não vos deixarei
órfãos. Eu virei a vós. Ainda um pouco e o mundo não mais me verá, mas
vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Nesse dia compreendereis
que estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós (Jo 14, 15-20).

No versículo abaixo isso fica ainda mais claro. O Senhor relaciona o cumprimento dos
mandamentos, portanto, a retidão da vida moral objeto das virtudes naturais estudada pela filosofia
grega, à própria manifestação de sua pessoas àqueles que o procuram:
Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me
ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e me manifestarei a ele (Jo 14,
21).

Em todo esse processo, como já vimos, deve estar presente a educação. Note-se, por
exemplo, como o catecismo de 1992 afirma:

As virtudes morais crescem pela educação, pelos atos deliberados e pela


perseverança no esforço. A graça divina as purifica e as eleva (CIC, § 1839)

Pois o homem, mesmo tendo a capacidade de enxergar, não verá nada se no ambiente
onde estiver houver luz. Assim também a consciência e a inteligência humana, para alcançarem o
seu grau máximo de perfeição, precisam ser conduzidas por aqueles que já trilharam esse caminho,
especialmente o próprio Jesus por meio da Igreja e de retos professores, do contrário a sua própria
salvação, pelo que já vimos, corre grande risco de não realizar-se.

É por isso que Pio XI afirma com tanta gravidade:

É portanto da máxima importância não errar na educação, como não errar


na direção para o fim ultimo com o qual está conexa intima e
necessariamente toda a obra da educação. Na verdade, consistindo a
educação essencialmente na formação do homem como ele deve ser e
portar-se, nesta vida terrena, em ordem a alcançar o fim sublime para que
foi criado, é claro que, assim como não se pode dar verdadeira educação
sem que esta seja ordenada para o fim ultimo, assim na ordem actual da
Providencia, isto é, depois que Deus se nos revelou no Seu Filho Unigênito
que é o único ‘caminho, verdade e vida’, não pode dar-se educação
adequada e perfeita senão a cristã (Pio XI, DIVINI ILLIUS MAGISTRI)

Por isso, na educação cristã, luz natural e luz sobrenatural devem ser ensinadas juntas,
e em grau excelente. Não se trata de uma educação que possa ser dada em poucos anos, como
ocorre na educação atual, preparatória para o trabalho, mas é processo que deveria durar a vida
inteira:

A educação da consciência é tarefa de toda a vida. Desde os primeiros


anos, alerta a criança para conhecimento e para a prática da lei interior
reconhecida pela lei moral. Uma educação prudente ensina a virtude,
preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos sentimentos de
culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza, e
das faltas humanas. A educação da consciência garante a liberdade e gera
paz no coração (CIC, § 1.784).

Alguém poderia objetar que, dispondo o homem da graça sobrenatural dada por Deus,
não haveria necessidade de recorrer a filosofias pagãs, bastando crescer na fé e contando com o
auxílio de Deus. Entretanto, Santo Agostino afirma:

Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.

Dessa maneira, os santos atestam que a graça não elimina a necessidade do esforço
humano, antes lhe dá sentido e faz com que frutifique. Todos devem, a seu modo, procurar a
santificação, e nesse sentido, os filósofos pagãos deixaram um método muito preciso e eficaz, que,
purificado dos seus erros pela fé da Igreja, é válido a ponto de ser recomendado pela Igreja, e
obrigatório par os padres.

3. A Educação como Missão e Direito da Igreja

Por tudo isso, nota-se que a educação está no centro mesmo da fé cristã, a ponto de
Jesus, ao ascender aos céus, ter ordenado expressamente à Igreja que fosse pelo mundo inteiro
para ensinar os povos, o que é recordado por vários papas ao longo dos séculos. Vejamos
novamente Pio XI:

É pois com pleno direito que a Igreja promove as letras, as ciências e as


artes, enquanto necessárias ou úteis à educação cristã, e a toda a sua obra
para a salvação das almas, fundando e mantendo até escolas e instituições
próprias em todo o género de disciplina e em todo o grau de cultura (Pio
XI, DIVINI ILLIUS MAGISTRI).

E ainda:

Quanto à extensão da missão educativa da Igreja, estende-se esta a todos


os povos, sem restrição alguma, segundo o preceito de Cristo: “Ensinai
todas as gentes”;nem há poder terreno que a possa legitimamente
contrastar ou impedir (Pio XI, DIVINI ILLIUS MAGISTRI).
Portanto, a Igreja sempre entendeu ser sua missão e direito não passível de diminuição
ou regulamentação pelo Estado educar, e educar não apenas aos católicos, mas a todos, por
mandado do próprio Jesus Cristo, que vê na educação a chave para a salvação das almas.

De fato, São Paulo mesmo diz que a fé chega aos homens pela instrução do ouvido, e
como a fé diz respeito às verdades sobrenaturais relativas a Deus, precisam, quanto à inteligência,
de um grau de abstração muito elevado para serem adequadamente compreendidas e vividas tanto
quanto é possível ao ser humano, e o processo educativo deve contribuir, levando a inteligência à
sua máxima perfectibilidade, de maneira a colaborar para o crescimento da fé e a formação do
homem sobrenatural.

E a Igreja deve ensinar não apenas a inteligência em si, mas fomentar as virtudes morais
necessárias ao seu desenvolvimento, portanto, é da Igreja a responsabilidade de definir o conteúdo
da própria moral e do direito natural, o qual também deve ser mostrado aos homens e incutido
neles como parte fundamental do processo formativo:

A autoridade do magistério se estende também aos preceitos específicos


da lei natural, porque sua observância, exigida pelo Criador, é necessária
para a salvação. Recordando as prescrições da lei natural, o magistério da
Igreja exerce parte essencial da sua missão profética de anunciar aos
homens o que os homens são de verdade e recordar-lhes o que devem ser
diante de Deus (CIC, § 2036).

Pio IX vai não apenas afirmar que a Igreja tem esse direito, como que sempre soube
executá-lo com maestria:

E a Igreja pode e soube realizar uma tal obra, porque a sua missão
educativa estende-se mesmo aos infiéis, — sendo chamados todos os
homens a entrar no Reino de Deus e a conseguir a salvação eterna. Como
em nossos dias em que as suas Missões espalham escolas aos milhares por
todas as regiões e países, ainda não cristãos, — desde as duas margens do
Ganges até ao rio Amarelo e às grandes ilhas e arquipélagos do Oceano,
desde o Continente negro até à Terra do Fogo e à gélida Alasca, assim
também, em todos os tempos, a Igreja com os seus Missionários, educou,
para a vida cristã e para a civilização, os diversos povos que hoje
constituem as nações cristãs do mundo civilizado (Pio XI, DIVINI ILLIUS
MAGISTRI)

Isso acontece porque a Igreja é a sociedade perfeita de que falava Platão na República,
e é também a Cidade de Deus de que fala Santo Agostinho. A Igreja enquanto organização separada
da sociedade civil, congregou em si, desde o colégio dos 12 Apóstolos e seus sucessores, os homens
mais virtuosos e inteligentes, mais sábios e santos, capazes de resolver os problemas que se
apresentavam e governar, pelo puro prestígio, sema força das armas, a sociedade de seu tempo.

Notava-se naqueles que eram educados pela Igreja uma imensa capacidade de
abstração, tão em falta nos dias de hoje, que permitia ao homem descobrir e saber, com
naturalidade, entre outras coisas, que Deus realmente existe e que o homem possui uma alma
imortal, para além das outras coisas maravilhosas que constituem a Revelação que a Igreja guardou
e difundiu no mundo, os quais juntos levam a um nível de conhecimento nunca antes imaginado
por nenhum filósofo grego:

Sem dúvida, a inteligência humana já pode encontrar uma resposta para a


questão das origens. Com efeito, a existência de Deus Criador pode ser
conhecida com certeza por meio de suas obras graças à luz da razão
humana, ainda que este conhecimento seja muitas vezes obscurecido e
desfigurado pelo erro. É por isso que a fé vem confirmar e iluminar a razão
na compreensão correta desta verdade (CIC, § 286).

De fato, como já vimos, Santo Agostinho, que antes de se converter ao cristianismo já


havia se convertido à filosofia a partir do sistema de ensino das escolas retóricas, é claro em
informar o quão superior é a filosofia em relação à retórica, e o quão mais superior ainda é a filosofia
iluminada pela Revelação cristã diante da filosofia que conta apenas com o esforço humano.

Isto é maximamente encontrado na história de conversão de Santo Agostinho, que


percorreu em sua vida todo o caminho desde o relativismo até se tornar um doutor da Igreja, como
relata em suas Confissões:

Ocorreu-me ao pensamento ter havido uns filósofos chamados


acadêmicos, mais prudentes do que os outros, porque julgavam que de
tudo se havia de duvidar e sustentavam que nada de verdadeiro podia ser
compreendido pelo homem. Ao meu espírito, que ainda não conhecia tal
doutrina, parecia que tinham raciocinado com esperteza, como
vulgarmente se julgava (Confissões, Livro V, versão Vozes de Bolso, 6ª Ed,
pp. 120-121).

Nesta época Santo Agostinho ensinava retórica em Roma, depois em Milão onde
conheceu Santo Ambrósio e escutava suas pregações, mas não tinha nenhum compromisso com a
verdade, e visitava o bispo principalmente pela eloquência de seu discurso, não pela doutrina
exposta:

Contudo, quanto mais meditava, refletindo e comparando as teorias


acerca do mundo material e de toda a natureza acessível aos sentidos do
corpo, mais e mais me capacitava de que a maioria dos filósofos tivera
opiniões muito mais prováveis (Confissões, Livro V, versão Vozes de Bolso,
6ª Ed, pp. 126).

Santo Agostinho foi percebendo que as teses dos acadêmicos e dos maniqueístas eram
fracas diante dos argumentos expostos por outros filósofos e pelos católicos, os quais fizeram Santo
Agostinho perceber que por anos não conhecera o real ensinamento da Igreja, mas rejeitava a Igreja
por pensar que ela ensinasse doutrinas que nunca ensinou.

Santo Agostinho percebeu que a Escritura era ensina por Santo Ambrósio de maneira
razoável e agradável, e que este explicava sentidos no texto que escapavam àqueles que liam os
textos em seu sentido literal, entre os quais o próprio Agostinho, que não entendia adequadamente,
e nos quais ainda não acreditava, sendo ainda um professor de retórica que sofria ao contrastar a
sua tristeza com a alegria de um mendigo que encontrou na rua:

Ele, com certeza, andava alegre e eu preocupado; ele vivia seguro e eu


cheio de inquietações. Se alguém me perguntasse se preferia andar alegre
ou perturbado, responderia: andar alegre. Se, porém, de novo me
perguntasse se antes queria ser como o ébrio ou como eu era, escolheria
viver acabrunhado por cuidados e temores (...). Pois da ciência não tirava
alegria, antes, com ela, procurava simplesmente agradar aos homens, não
para os instruir, mas só para lhes ser agradável (...). Sem dúvida, ele era
mais feliz, não só porque transbordava de hilariedade – porém eu era
devorado por ansiedades, mas porque ele adquiria o vinho desejando
prosperidade aos seus benfeitores, enquanto eu procurava a ostentação
na mentira (Confissões, Livro VI, versão Vozes de Bolso, 6ª Ed, pp. 136-
137).

Em sua angústia, Santo Agostinho alternava o tempo entre a convivência com amantes,
as aulas de retórica, a frequência às pregações de Santo Ambrósio e à busca angustiante da verdade
com seus amigos. Parecia que nunca sairia dessa busca e dessa angústia, até que tomou em mãos
as Sagradas Escrituras e, tendo lido determinadas passagens, recolheu-se interiormente e acreditou.
O que aconteceu então vai descrito:

Entrei e, com aquela vista da minha alma, vi acima dos meus olhos
interiores e acima do meu espírito, a Luz Imutável. Esta não era o brilho
vulgar que é visível a todo homem, nem era do mesmo gênero, embora
fosse maior. Era como se brilhasse muito mais clara e abrangesse tudo com
a sua grandeza. Não era nada disto, mas outra coisa, outra coisa muito
diferente de todas estas (...).

Quem conhece a Verdade, conhece a Luz Imutável. E quem a conhece,


conhece a Eternidade (...). Quando pela primeira vez voz conheci (...) tremi
com amor e horror (Confissões, Livro VI, versão Vozes de Bolso, 6ª Ed, p.
168).

A partir daí, a vida de Santo Agostinho passou por uma profunda transformação.
Abandonou a profissão de retor, tornou-se filósofo, depois bispo, depois santo. Sua vida apresenta
a perfeita gradação que deve caracterizar a educação católica: primeiro, aprende-se que existe a
verdade, depois que esta verdade é Deus, a partir do qual se ordenam todas as coisas e por fim
produz-se na alma a santidade, que torna o homem divino e realiza nesta terra o que Deus dele
espera: sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.

Os Evangelhos atestam ser esta a educação que realmente realiza a máxima felicidade
humana:

Se compreenderdes isso e o praticardes, felizes sereis (Jo 13, 17).

Por isso, diz Pio IX:

É falso portanto todo o naturalismo pedagógico que, na educação da


juventude, exclui ou menospreza por todos os meios a formação
sobrenatural cristã; é também errado todo o método de educação que, no
todo ou em parte se funda sobre a negação ou esquecimento do pecado
original e da graça, e, por conseguinte, unicamente sobre as forças da
natureza humana.

Tais são na sua generalidade aqueles sistemas modernos, de vários nomes,


que apelam para uma pretendida autonomia e ilimitada liberdade da
criança, e que diminuem ou suprimem até, a autoridade e a acção do
educador, atribuindo ao educando um primado exclusivo de iniciativa e
uma actividade independente de toda a lei superior natural e divina, na
obra da sua educação (Pio XI, DIVINI ILLIUS MAGISTRI)

Realmente, em toda parte onde essa autoridade da Igreja para educar e ensinar o direito
natural e a moral, e educar o homem para a perfectibilidade tanto da luz da razão natural quanto
da sobrenatural, nota-se a corrosão do tecido social e retorna a sociedade, a despeito do avanço
técnico das ciências, e o retorno ao estado de paganismo dos tempos antigos, e com ele à cultura
da morte, como já vimos anteriormente.

Por toda parte avançam as pautas do aborto, do casamento homossexual, do gênero,


da eutanásia, da poligamia, do incesto, do crime generalizado, do materialismo, etc. E nas
universidades, parte-se de princípios falsos que impedem o uso adequado da inteligência tanto
pelos que aí são formados quanto, pela formação inadequada dos pedagogos, a todos aqueles que
ingressam nas escolas.

Veremos em encontros posteriores como Hegel, com a sua dialética, influenciou


profundamente a forma como o ser humano compreende a si mesmo a à sua mente, com sérias
consequências na pedagogia moderna, esta, por sua vez, já decadente com relação ao que vimos
acima. Quando analisarmos a situação da educação no Brasil, veremos que por aqui a coisa está
muito ruim, e se algo não for feito pelos católicos, irá ficar muito pior.

4. Necessidade e licitude da colaboração dos leigos

Olhando para a coisa do ponto de vista da população em geral, bem como da maioria
dos leigos católicos, notamos uma tremenda ignorância com relação a tudo isso, causada pelo fato
de terem sido, eles mesmos, educados segundo uma pedagogia anticristã.
Mesmo os pais católicos, como os pagãos, consideram que as melhores escolas são
aquelas que obtém os maiores índices de aprovação no vestibular, porque se está pensando com
isso em obter diplomas para o exercício de profissões que gerem relevante ganho econômico, e é
nisso que os pais pensam ao matricular seus filhos, e os próprios professores assim motivam seus
alunos nas salas de aula.

Além disso, trata-se de uma educação que é regida pelo Estado, e não pela Igreja, apesar
de, pelo que foi exposto, ser evidente que a educação como foi idealizada pelos filósofos e por Jesus
Cristo estar intimamente ligada à salvação do homem, razão pela qual deveria ser regida pela Igreja,
jamais pelo Estado, especialmente o Estado moderno, concebido para se opor à Igreja e ao
catolicismo, não para conviver pacificamente com ele.

Isso quando a escola e a universidade não se tornam locais de formação de militantes


das mais diversas ideologias, promovendo abertamente o aborto, o gênero, a eutanásia, a vida
sexual desregrada, e tudo aquilo que não apenas vai na contramão do Evangelho, mas embota e
escraviza a inteligência humana, ou seja, desnaturaliza o homem, o deforma, tornando-o
progressivamente incapaz de utilizar a própria inteligência cujo uso excelente constituiu a sua
finalidade.

Ademais, mesmo a educação católica, que no período tridentino foi quase totalmente
baseada no sistema jesuíta, o qual por sua vez era baseado nas instituições de retórica de
Quintiliano, que por sua vez era um tratado de educação retórica, que já era uma corruptela da
educação filosófica, que, cristianizado se tornou a ratio studiorium, e que se mostrou incapaz de
impedir o processo de degradação da sociedade mesmo nos países católicos, o que já se viu em
aulas anteriores.

Por isso, todos, clérigos e também os leigos, precisam tomar consciência da gravida da
situação. Dada a enorme importância da educação, e dada a vocação particular dos leigos, que
servem a Deus no mundo através de seu trabalho, é fundamental que sejamos capazes, cada um a
seu modo, de dar a vida pela questão educacional, como nos chama a própria Igreja:

Na obra de ensinar e aplicar a moral cristã, a Igreja necessita do


devotamento dos pastores, da ciência dos teólogos, da contribuição de
todos os cristãos e dos homens de boa vontade (CIC, § 2038).

12/06/2018