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A ORIGEM HISTÓRICA E O

DESENVOLVIMENTO DA
DOUTRINA DA TRINDADE
2011
SUMÁRIO

DEDICATÓRIA iii
1. INTRODUÇÃO 07
2. PRÉ-HISTÓRIA DO DOGMA TRINITÁRIO NA IGREJA

ANTIGA 13
2.1 O Conceito dos Pais Apostólicos 13
2.2 Os apologistas do Oriente 17
2.3 Os apologistas do Ocidente 23
2.4 Um vocábulo Novo 28
3. A OPOSIÇÃO ANTITRINITÁRIA E A FORMAÇÃO DO
CONCÍLIO DE NICÉIA 35
3.1 A posição do Imperador Constantino 36

3.2 A oposição sabeliana 38


3.3 A oposição Ariana 40
3.4 A posição de Atanásio 43
3.5 A posição de Hilário de Poitiers 46
3.6 A posição final do Concílio Niceno acerca da Doutrina da
Trindade 48

4. A RELEVÂNCIA PRÁTICA DA DOUTRINA DA TRINDADE


51
4.1 A Relevância da Trindade para a Liderança Cristã 51

4.2 A Relevância da Trindade para a Família Cristã 55


4.3 A Relevância da Trindade para a Missão 57
CONCLUSÃO 62
BIBLIOGRAFIA 65
1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho científico constitui projeto de pesquisa que tem como


objetivo investigar a origem histórica e o desenvolvimento da Doutrina da
Trindade.
O desejo de desenvolver uma pesquisa centrada na história da Doutrina da
Trindade surgiu da “paixão” pelo tema em si, despertada a partir de debates
com movimentos religiosos, aulas sobre o tema, bem como pelo estudo
pessoal das Escrituras. Diante tudo que já foi escrito sobre o tema, fica mais
fácil pesquisar hoje e trazer um apanhado sobre o presente assunto.
O resultado dessa pesquisa visa ampliar o diálogo sobre a Doutrina da
Trindade de forma prática para as matérias relacionadas à área da teologia
sistemática do Seminário Bíblico do Nordeste (SBNE), bem como para todos
aqueles que tiverem interesse sobre o tema.
Através desta investigação se buscará responder, quais os fatores foram
determinantes na história da Igreja para a sistematização da Doutrina da
Trindade como fundamento do teísmo cristão, revelando que, se os primeiros
cristãos aceitavam a Doutrina da Trindade como fundamento de sua fé, visto
que muitos deles foram discípulos dos apóstolos de Jesus, isto criará uma
poderosa ponte entre a história e a contemporaneidade, mostrando que
permanecemos no caminho certo na crença e na defesa da Doutrina Trinitária.
Para criar essa ponte será necessário investigar os principais escritos dos
primeiros pensadores cristãos, para saber se de fato já existia uma defesa da
fé trinitária antes do famoso Concílio de Nicéia. Não menos importante, será
pesquisar quais foram os principais personagens da Igreja, tanto no Oriente
como no Ocidente, que foram influentes nas decisões sobre a Doutrina
Trinitária no Sínodo. E analisar quais as controvérsias que levaram a Igreja a
formular a Doutrina da Trindade, pois levando em considerações essas
investigações históricas, haverá maior clareza para sabermos qual foi à
posição dos primeiros cristãos.
Ao longo da história da igreja, tem havido vários temas teológicos que
suscitaram debates calorosos e dividiram opiniões, e um deles foi a Doutrina
da Trindade. A relevância da Doutrina Trindade para o destino da igreja dos
primeiros séculos foi decisiva, pois formulava como a igreja deveria entender
a pessoa de Deus. Faz-se necessário voltar à história da Doutrina da
Trindade, resgatando seu significado para a teologia cristã, a fim de reafirmá-
la no presente, frente às oposições contemporâneas.
Sendo assim, realizar uma investigação sobre o desenvolvimento histórico da
Doutrina da Trindade entre o II e IV século, é relevante para mostrar que a
doutrina não era alvo apenas de controvérsia teológica, mas uma crença
aceita e defendida pelos cristãos primitivos.
Esta pesquisa contribuirá para reafirmar a crença na Doutrina da Trindade
como parte fundamental da fé cristã, uma vez que esta doutrina se manteve
aceita ao longo dos séculos pela Igreja.
De igual modo também será útil para revelar que a construção do pensamento
trinitário no século II e as controvérsias que surgiram no século IV da Igreja,
que culminaram na formulação famoso Concílio de Nicéia, é um dos
principais fundamentos do Cristianismo desde a Era Apostólica.
O estudo revelará que a Doutrina da Trindade não é uma idéia criada a partir
do paganismo ou da filosofia grega como muitas vezes foi exposto por
teologias não-trinitárias e que, mesmo hoje, foram ressuscitadas por
movimentos religiosos que desconhecem o fundo histórico trinitário ou não
aceitam as evidências históricas da supracitada doutrina. [1]
Portanto, a busca pela confirmação de postulados históricos sobre a Doutrina
da Trindade poderá através dessa pesquisa encontrar um apoio para reafirmar
a crença na Santa Trindade aceita hoje por cristãos em diferentes partes do
mundo.
A presente pesquisa procederá de algumas perguntas de investigação, tais
como: Qual o conceito dos Pais Pré-Nicenos? Quais foram às questões
teológicas que levaram a Igreja a formular a Doutrina da Trindade? Quais
Pais da Igreja foram mais influentes, tanto no Oriente como no Ocidente, na
defesa da Doutrina da Trindade? Quais foram os principais líderes da Igreja
que se levantaram contra a Doutrina da Trindade entre o I e IV século da
Igreja?
O trabalho fundamenta-se em diferentes referências teóricas que tratarão
sobre a origem e desenvolvimento da Doutrina da Trindade.
A abordagem teórica da monografia parte dos estudos de Luis F. Ladaria[2]
sobre a história do dogma trinitário na Igreja Antiga. Ladaria apresenta as
posições dos principais pensadores do II século bem como dos Concílios
Ecumênicos da Igreja sobre a Doutrina da Trindade.
A pesquisa será enriquecida com documentos de alguns Pais da Igreja, como
a Epístola de Barnabé, [3] a Carta de Clemente de Roma, [4] A Carta de
Orígenes[5], Pastor de Hermas[6] e tantas outras, que trarão esclarecimento
de suas posições acerca da fé no Deus cristão.
Rodrigo P. Silva[7] em seus estudos sobre a Trindade também mostra as
opiniões dos líderes cristãos dos primeiros séculos, defendendo que o
Imperador Constantino não formulou a Doutrina da Trindade, como muitas
vezes tem sido sugerido por teologias não-trinitárias.
Além dos teóricos já mencionados, também contribuirão a esta investigação
histórica os autores: Alister E. McGrath, [8] Roger E. Olson[9]e Sinivaldo
Tavares. [10] Destacando com grande riqueza de detalhes qual a consciência
que pais pré-nicenos tinham acerca da Doutrina da Trindade, revelando que
bem antes dos Concílios Ecumênicos a igreja antiga já tinha um conceito
trinitário de Deus.
McGrath expõe os termos usados pelos Pais da Igreja nos primeiros séculos
tais como: Logos, Trinitas e Homoosios, dos quais alguns foram criados por
Tertualino e outros que, desde então, se tornaram normativos na igreja
ocidental.
Olson será enfatizado também no capítulo 6 (Deus Três e Um), que
igualmente desvendará as questões divergentes da fé cristã sobre a Triunidade
e o consenso cristão na história, bem como mostrar os testemunhos de alguns
Pais da Igreja, dentre eles, Irineu, que conforme o autor, afirmar sua crença
na Trindade.
Também haverá a contribuição de Sinivaldo S. Tavares, que trata de uma
síntese trinitária no III século, a qual se detém a princípio em Irineu de Lião,
Tertuliano e Orígenes, depois segue com dois personagens marcantes na
defesa do credo niceno contra os arianos: no Oriente, Atanásio e no Ocidente,
Hilário de Poitiers.
A obra de Danilo Mondoni[11] merece destaque nesta pesquisa,
principalmente o capítulo 9, “Pré-história da formulação dogmática da
Trindade”, pois trata de forma mais detalhada das principais controvérsias
que se levantaram entre o II e IV século da Igreja, revelando a posição e a
logística utilizada pelo Imperador Constantino no auxílio à formulação do
Concílio de Nicéia.
A apresentação de H. P. Bettenson[12] e As Institutas de Calvino[13] serão
utilizadas para trazer a tona qual foi o pensamento do reformador Calvino
quando faz alusão a limitação humana em compreender a natureza do Deus
Trino, enquanto Bettenson vai expor a confissão de fé adotada pelo Concílio
de Nicéia.
Sobre os principais opositores da Doutrina da Trindade na história da Igreja
serão utilizados os aportes de Robert Bowman M. Jr[14] e Ezequias Soares
da Silva[15]. Estes autores trataram da Doutrina da Trindade numa
perspectiva histórico-apologética, apontando as oposições históricas clássicas
à Doutrina da Trindade, como o Sabelianismo e o Arianismo.
Semelhantemente, o autor Robin Keeley[16] faz uma análise bíblico-histórica
sobre a Trindade, resume as “bandeiras” que foram levantadas contra o
pensamento Trinitário, como o Sabelianismo (ou modalismo) e Arianismo e a
posição defendida por Atanásio junto ao Sínodo Niceno.
Bernand Meunir, [17] que é uma fonte relevante, esboça sobre a Trindade em
sua obra, trazendo indagações teológicas tais como: Jesus é outro Deus?
Trindade é uma filosofia? Dentre outros, apresentando os principais
opositores da crença na Doutrina da Trindade.
Na obra de Wayne Grudem[18], no capítulo 14 ele vai aludir sobre “Deus em
três pessoas: a Trindade, sua contribuição será pertinente, pois expõem datas
e nomes dos líderes da Igreja que se opuseram ao Concílio de Nicéia como
foi no caso de Ário e Sabélio. O autor ainda também traz uma breve leitura
histórica sobre o porque da negação da plena divindade do Filho e do Espírito
Santo por partes desses líderes da Igreja.
Nas exposições de Charles Hodge[19] e Augustus Strong[20] sobre a Santa
Trindade, ambos contribuirão para a investigação histórica, trazendo detalhes
sobre a vida e a posição de líderes tais como Ário e Sabélio e os motivos que
levaram a convocação do Concílio de Nicéia, dentre outros detalhes
históricos que marcaram os primeiros séculos da Igreja.
A pesquisa será desenvolvida metodologicamente a partir da investigação
bibliográfica, bem como, baseada no fato de que a história da Igreja é uma
poderosa testemunha para confirmar que a Doutrina da Trindade é parte
inegociável da fé cristã. Primeiramente será investigado o conceito que os
Pais pré-nicenos desenvolveram acerca do Deus do Cristianismo, para
confirmar se desde os primeiros séculos, o Cristianismo já desfrutava de uma
posição trinitária.
Em segundo, a pesquisa apontará as posições que os Pais da Igreja assumiram
nos Concílios Ecumênicos (ou nicenos) para defender a formulação da
Doutrina da Trindade. Pois nessa fase da pesquisa será indicado, que o
pensamento trinitário permanecia também na mente dos Pais do IV século,
sendo de extrema relevância, pois confirmará a continuidade ao longo dos
séculos do pensamento trinitário na Igreja, devendo assim permanecer na
contemporaneidade.
Em terceiro, será pesquisado qual foi a contribuição do Imperador
Constantino para criação do concílio niceno, visto que ele era uma grande
autoridade naquela época (séc. IV), e essa questão teológica (a Trindade)
levantada pela Igreja estava tendo repercussões em todo o Império Romano e,
de alguma forma, ameaçando a paz do governo imperial, divulgando,
também, quais foram os principais líderes da Igreja que se opuseram à
doutrina trinitariana.
Por fim, serão apresentadas, ratificadas, algumas sugestões de aspecto prático
da Doutrina da Trindade, pois sendo o núcleo da fé cristã, é extremamente
relevante focar pontos de caráter prático, bem como ressaltar a necessidade
de resgatar a conotação exercitável dessa doutrina tão fundamental para a fé
cristã. Trilhando por esse caminho espinhoso, porém maravilhoso, que é de
tornar praticável a Doutrina da Trindade para a vida de todos os cristãos, é
que será abordada uma proposta desafiadora, na qual se deve sair do campo
simplesmente acadêmico para o campo da prática e do testemunho cristãos,
tais como: A comunhão da liderança cristã na unidade e diversidade, a
família cristã e a missiologia cristã.
2. PRÉ-HISTÓRIA DO DOGMA TRINITÁRIO NA
IGREJA ANTIGA

2.1 O CONCEITO DOS PAIS APOSTÓLICOS


O conceito de Deus que possui o Cristianismo é diferente de todas as formas
de monoteísmo religioso, pois o Deus cristão é um Deus único e ao mesmo
tempo plural, constituído do Pai, do Filho e do Espírito Santo, porém essa
verdade é a núcleo principal da fé cristã através dos tempos.
Todavia é preciso perguntar: esse conceito de Deus possui evidências
documentais que foram cridas e defendidas após a era apostólica? Na busca
dessa resposta temos a citação daqueles que foram chamados Pais
Apostólicos.[21]

2.1.1 CLEMENTE DE ROMA

Clemente, bispo de Roma (morto por volta de ano 100) se encontra no


ambiente teológico do final do século I. As fórmulas trinitárias já existem em
S. Clemente. Vejamos a citação clara: Por que entre vós existem disputas,
ódios, contendas, cismas e guerras? Acaso não temos um só Deus, um só
Cristo e um só Espírito da graça derramado sobre nós e uma só vocação em
Cristo?”[22]
Embora essa citação de Clemente não seja uma apologia à Doutrina da
Trindade, já percebemos traços de uma consciência trinitária na linguagem de
Clemente, apesar de ter feito essa citação numa admoestação aos crentes de
Coríntios. Em outro momento aparecem também mencionando os Três:
“Acatai ao nosso conselho e não vos arrependereis, pois Deus é vivo, assim
como vivo também são Jesus Cristo e o Espírito Santo, e vivas também são a
fé e a esperança dos eleitos...”[23] Nesta citação de Clemente fica evidente a
necessidade dos Três Nomes serem citados juntos e necessário para a
salvação dos crentes.

2.1.2 INÁCIO DE ANTIOQUIA

Inácio († 105 d.C.), que foi o segundo sucessor de Pedro como pastor em
Antioquia, também ensinava a doutrina da Trindade. Mártir durante o reinado
de Trajano, ele escreveu uma epístola aos cristãos da Trália, dizendo-lhes
que, a despeito do sofrimento, continuassem “em íntima união com Jesus
Cristo, o nosso Deus”.[24]
Interessante que Inácio vem acentuar a divindade de Cristo, mesmo crendo
no único Deus, não oscila em afirmar que Cristo é verdadeiro Deus. No
entanto devemos entender que ainda não existe uma defesa clara da Trindade
no II século da Igreja.
Em outro momento Inácio novamente mostra vestígio de uma perspectiva
trinitária funcional quando diz:

Soube de pessoas que por lá passaram, fazendo-se portadoras de


más doutrinas: não lhes permitistes espalhá-las entre vós, tapando os
ouvidos para não acolher as sementes por eles espalhadas, sabendo
que sois pedras do templo do Pai, preparadas para a construção de
Deus Pai, alçadas para as alturas pela alavanca de Jesus Cristo,
alavanca que é a Cruz, servindo-vos do Espírito Santo como de um
cabo.....[25]

Nesta citação que Inácio coloca cada pessoa em harmonia com a outra, cada
uma exercendo o seu papel de forma funcional no plano da salvação, sem
diminuir e nem exaltar nenhuma em detrimento da outra, antes revelando que
sem elas não é possível concluir o projeto divino da salvação para os homens.
Conforme concorda Luis Ladaria, “As três “pessoas” intervêm, portanto, na
edificação da Igreja e na salvação dos fiéis”.[26]

2.1.3 EPÍSTOLA DE BARNABÉ

Berthold Altaner cita em sua obra que Clemente de Alexandria e Orígenes,


bem como a tradição escrita, em geral, atribuem a Carta de Barnabé ao
“apóstolo” do mesmo nome. Hoje em dia, está fora de toda dúvida que o
“apóstolo” São Barnabé não foi o autor desta carta. Evidentemente que o
autor era gentio, convertido ao Cristianismo. Por sua refutação radicalmente
hostil ao judaísmo, a carta representa um dos escritos mais singulares da
literatura cristã antiga.[27]
Na opinião de Berthold e Alfed, a epístola escrita no fim do século I e
começo do século II, de fato pertence ao Barnabé do livro de Atos dos
Apóstolos, companheiro de Paulo. Enquanto Ladaria lança uma suposta
dúvida quanto à confiabilidade do documento, se de fato pertencia a Barnabé,
usando na epígrafe de sua obra a expressão “pseudo” (falso).
Mas Ladaria entende que essa obra é relevante, pois também reconhece a
natureza divina do Filho de Deus e inclui o Cristo na citação bíblica de Gn
1.26. [28] E pertence há um tempo pós-apostólico. Vejamos a citação de
Barnabé:

Se o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do


mundo inteiro, a quem Deus disse desde a criação do mundo:
‘Façamos o homem à nossa imagem e
Semelhança’, como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens?
Aprendei. Os profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu
respeito. E ele a fim de destruir a morte e mostrar a ressurreição dos
mortos, teve que se encarnar e sofrer, a fim de cumprir a promessa
feita aos pais e preparar para si o povo novo e demonstrar, durante
sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria, depois de ter
realizado a ressurreição.[29]

2.1.4 O “PASTOR” DE HERMAS

Composto segundo o modelo dos apocalipses judaicos (especialmente Esdras


4), o Pastor (Poimén) de Hermas é assim intitulado por causa do anjo em
figura de pastor, que aparece depois da Igreja. O documento foi escrito
provavelmente na primeira metade do século II. A base dessa apreciação é
uma passagem difícil, em que de algum modo parece identificar o Espírito
Santo e o Cristo pré-existente:

O Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas. Essa carne,


em que o Espírito Santo habitou, serviu muito bem ao Espírito,
andando no caminho da santidade e pureza, sem macular em nada o
Espírito. Ela se portou digna e santamente, participou dos trabalhos
do Espírito e colaborou com ele em todas as coisas. Comportou-se
com firmeza e coragem e, por isso, Deus escolheu como
companheira do Espírito Santo. Com efeito, a conduta dessa carne
agradou a Deus, pois ela não maculou na terra, enquanto possuía o
Espírito Santo. Ele tomou então o Filho e os anjos gloriosos por
conselheiros, para que essa carne, que tinha servido ao Espírito
irrepreensivelmente, obtivesse um lugar de repouso e não perecesse
ter perdido a recompensa pelo seu serviço. Toda a carne em que o
Espírito Santo habitou e que for encontrada pura e sem mancha,
receberá sua recompensa. [30]

Diante da citação proposta percebe-se que o pastor de Hermas, faz alusão


sobre haver na divindade mais de uma pessoa, quando ele diz que o Espírito
Santo pré-existe e depois fala de Deus, certamente uma alusão ao Pai,
mostrando vestígio de uma formulação trinitária.
Devemos, no entanto, admitir que não seja uma citação clara da formulação
trinitária, como bem propõe Ladaria dizendo: “Encontramos nos Padres
apostólicos algumas fórmulas triádicas, mas não podemos falar de uma
teologia trinitária elaborada”[31]
Estamos nos primeiros passos e, como podemos observar as citações dos
primeiros líderes da Igreja do fim do I e metade do II século são bastante
ricas, pois revelam uma forma ainda tímida da Doutrina da Trindade, mas já
percebemos que existe a consciência trinitária sobre a natureza do Deus
cristão, sendo assim podemos tomar esses primeiros testemunhos como
válidos para afirmar que a Doutrina da Trindade faz parte determinante para o
teísmo cristão. Como disse Bernard Meunier: “Em compensação, desde o fim
do século II os símbolos de fé são todos estruturados pelos três nomes do Pai,
do Filho e do Espírito Santo. Esta confissão primeira é a pedra de toque,
rudimentar mas resistente...” [32]
No século II havia muita hesitação em interpretar os textos bíblicos, então no
momento o que é facilmente visto é a leitura sobre o aspecto ontológico das
três pessoas divinas, sua ação própria na história da salvação e suas
revelações respectivas.[33]
Entretanto, mesmo assim, com todo esse cuidado, por certo podemos afirmar
que na intimidade Divina, existe mais do que uma pessoa participando dessa
natureza.

2.2 OS APOLOGISTAS DO ORIENTE


Em grego, apologia significa defesa. Vários autores (os “apologistas”)
escreveram apologias na segunda metade do século II; os mais conhecidos
são Justino e Tertuliano. Outros prosseguirão o esforço com outros títulos
(Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio de Cesaréia... a obra de Eusébio
em parte perdida tinha duas mil páginas!). [34]
No início, tratava-se de refutar as calúnias que corriam sobre nova religião e
de explicar ao poder romano que o Cristianismo não era perigoso para o
império, a fim de parar as perseguições. Rapidamente, as apologias foram a
ocasião de explicar a fé para um público gentio letrado, e filosófico
ocasionalmente. Elas representam ensaios de inculturação do Cristianismo na
cultura grega. Ao mesmo tempo, as crenças e os costumes dos gentios eram
denunciados com virulência cada vez maior.[35]

2.2.1 JUSTINO

Considerado o mais importante apologista do II século, ele era filósofo por


vocação, e o primeiro dos pais que pode ser chamado de "teólogo". Tentou
mostrar que o Cristianismo é a verdadeira filosofia. Foi martirizado em Roma
em 166.
Seu Diálogo com Trífon (o interlocutor Judeu) discute as relações entre o AT
e o NT (em seus 142 capítulos). É uma vindicação do Cristianismo a partir de
Moisés e dos Profetas contra as objeções dos judeus. Em ambas as apologias,
argumenta-se que é razoável abandonar as tradições que são más e seguir a
verdade. [36]
Justino, no seu diálogo com Trífon, visa mostrar ao seu interlocutor que
Cristo tinha se manifestado no Antigo Testamento a Abraão e insiste que
aquele anjo não é um anjo como os demais, antes é o próprio Deus. Porém,
Trífon acusa os cristãos de professarem um “mais um Deus” além do Pai:
Trífon ____ “Nós lembraremos sua exposição, se você fortalecer [a
sua solução de] essa dificuldade por outros argumentos: mas agora
resuma o discurso e mostre-nos que o Espírito de profecia admite
outro Deus além do Criador de todas as coisas, [ ... ]

Justino: Eu tentarei te persuadir, já que você compreendeu as


Escrituras, [da verdade] do que eu digo, que existe, e que se diz
existir, outro Deus e Senhor, sujeito ao Criador de todas as coisas;
que também é chamado de Anjo, porque Ele anuncia aos homens
tudo o que o Criador de todas as coisas – acima do qual não há outro
Deus – deseja anunciar a eles...[37]
Percebe-se que Justino insiste em afirmar que o anjo que aparece na cena de
Manré é próprio Logos de Deus. Porém, se fizermos uma leitura bem atenta,
veremos que Justino parece cometer uma grande heresia em usar a expressão
“outro Deus” indicando que existe um Deus maior e um Deus menor, ou
ainda fazer pensar que existe uma hierarquia divina, semelhante aos deuses
gregos, como Zeus era o pai e rei dos deuses na mitologia grega.[38]
Mas não devemos julgá-lo tão rapidamente, na verdade quando Justino uso
esse termo “outro Deus”, ele o faz com outro sentido e esclarece assim por
completo o que ele quis dizer:

Volto às Escrituras para tentar vos convencer: aquele de quem se


falou e escreveu que ele apareceu a Abraão, a Jacó, e a Moisés, este
é Deus, diferente do Deus que fez todas as coisas; eu entendo
diferente pelo numero e não pelo pensamento, porque afirmo que ele
nunca fez nem disse outra coisa a não ser o que o autor do mundo,
acima de quem não há outro Deus, quis que ele fizesse e dissesse.
[39]

Essa última passagem faz uma proposta totalmente nova: isto é, do número
em Deus. Deus é vários? Certamente que a expressão utilizada pelo mestre
latino é incapaz de explicar a existência de uma pluralidade em Deus, mas já
é vestígio de uma visão que Deus não está sozinho. Todavia, devido a essa
fraqueza em sua própria redação, Justino se apressa em dizer: “Deus é um
pelo pensamento”.

Nesse raciocínio Justino ainda vai esclarecer esse “outro Deus” usando uma
analogia para revelar que na verdade existe uma geração na divindade:

Deus, como princípio antes de todas as criaturas, gerou certa


potencia racional de si mesmo, a qual é chamada também pelo
Espírito Santo Glória do Senhor e, às vezes, Filho. Todas essas
diversas denominações lhe vêm por estar a serviço da vontade do
Pai, e por ter sido gerada por querer do Pai. E não vemos algo
semelhante em nós? Com efeito, ao emitir uma palavra, geramos a
palavra. Não por corte, de modo que diminuísse a razão que há em
nós ao emiti-la. Algo semelhante vemos também em um fogo que
acende outro, sem que diminua aquele de que se formou a chama.
Será a palavra da sabedoria a que me prestará o seu testemunho, por
ser ele o mesmo Deus gerado do Pai do universo...”[40]

Devemos atentar para pontos pertinentes nessa citação. Percebe-se que a


geração do Filho não se dá por qualquer perda no Pai, antes a geração é
intelectual (ou racional) não física e ainda ele faz o uso da metáfora do fogo
para mostrar que assim como o fogo não se diminui em nenhum sentido
também o é na geração na intimidade da vida divina. A analogia muita
parecida com aquela usada no Concílio de Nicéia no IV século.
Impressionante como Deus faz uso da história para autorevelar-se ao homem,
pois aqui há séculos de abismo entre Justino e o sínodo de Nicéia. Porém
Deus, que é atemporal, conhecedor de todas as coisas, faz uso dos meios
devidos para que cada fase da história corrobore para revelar a sua natureza e
propósito.

2.2.2 ATENÁGORAS
Atenágoras, “filósofo cristão de Atenas” (metade do século II), supera Justino
em linguagem, estilo e ritmo, e possui maior clareza na disposição dos
assuntos. Adota uma atitude mais tolerante para com a filosofia e cultura
grega.[41]
Novamente encontramos fórmulas trinitárias que têm um teor de clareza e
riqueza tremendo, que merecem que sejam citadas neste trabalho. Vejamos:

...De fato, reconhecemos também um Filho de Deus. E que ninguém


considere ridículo que, para mim, Deus tenha um Filho. Com efeito,
nós não pensamos sobre Deus, e também Pai, e sobre seu Filho
como fantasiam vossos poetas, mostrando-nos deuses que não são
em nada melhores do que os homens, mas que o Filho de Deus é o
Verbo do Pai em idéia e operação, pois conforme a ele e por seu
intermédio tudo foi feito, sendo o Pai e o Filho um só. Estando o
Filho no Pai e o Pai no Filho por unidade e poder do espírito, o
Filho de Deus é inteligência e Verbo do Pai. Se, por causa da
eminência de vossa inteligência, vos ocorre perguntar o que quer
dizer "filho", eu o direi livremente: o Filho é o primeiro broto do
Pai, não como feito, pois desde o princípio Deus, que é inteligência
eterna, tinha o Verbo em si mesmo; sendo eternamente racional, mas
como procedendo de Deus, quando todas as coisas materiais eram
natureza informe e terra inerte e estavam misturadas as coisas mais
pesadas com as mais leves, para ser sobre elas idéia e operação. E o
Espírito profético concorda, com o nosso raciocínio, dizendo: "O
Senhor me criou como princípio de seus caminhos para suas obras".
Com efeito, dizemos que o mesmo Espírito Santo, que opera nos
que falam profeticamente, é uma emanação de Deus, emanando e
voltando como um raio de sol. Portanto, quem não se surpreenderá
ao ouvir chamar de ateus indivíduos que admitem um Deus Pai, um
Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram seu poder na unidade
e sua distinção na ordem...[42]

Uma citação de natureza extraordinária, que retrata bem a comunhão de


diversidade do Pai e do Filho, que enfatiza a divindade do Filho, e mostra a
distinção com clareza e forma inteligível, para apoiar sua fórmula trina.
Deve-se notar que Atenágoras, provavelmente citando o texto de Provérbios
8.22, que diz “o Senhor me criou”, entende que criar seria “gerar”, pois se
não fosse assim ele entraria em contradição, pois no final da citação ele diz
que Cristo é o “Deus Filho”, mostrando assim a existência no seio de Deus
um “Logos Imanente[43]” antes da geração.
Pouco depois, a unidade e diversidade estão expressas em termos
semelhantes:

Desejo de conhecer o Deus verdadeiro e o Verbo que dele procede -


qual é a comunicação do Pai com o Filho, que coisa é o Espírito,
qual é a união de tão grandes realidades, qual a distinção dos assim
unidos, do Espírito, do Filho e do Pai.[44]

Aqui se percebe com clareza a distinção feita entre as pessoas do Pai, do


Filho e do Espírito, ainda que não se fale da natureza do Espírito, o que não
invalida a consciência trina que exista na vida divina, antes é visível que se
caminha de forma tímida e cautelosa quando se trata do Deus vivo.

2.2.3 TEÓFILO DE ANTIOQUIA

Teófilo (morto por volta de 186) foi o primeiro líder oriental a empregar o
termo triás (“Trinitas”), a respeito da divindade. Em geral, designa as
Pessoas divinas pelos nomes: Deus, Logos e Sabedoria.[45]
O Pai da Igreja também faz uso de analogias para explicar a Trindade. Ele
diz: “Os três dias que procedem à criação dos luminares são símbolos da
Trindade, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria”
Ladaria diz que Teófilo faz uma suposta confusão entre as Pessoas, dizendo
que a Sabedoria apresentada pelo mestre da Igreja, não era o Filho, mas ao
Espírito Santo, ele vai dizer que isso também acontece com Irineu de Lião.
Entretanto para Ladaria o alicerce principal de Teófilo seria a doutrina dos
dois estados do Verbo, o Logos imanente, no seio do Pai, antes da geração
propriamente dita, e o Logos proferido, isto é quando Deus o gera para criar o
mundo por seu meio. Vejamos a citação capital do mestre oriental:

Verbo de Deus está sempre imanente no coração de Deus. Porque


antes de criar alguma coisa, o tinha por conselheiro, pois era sua
mente e pensamento. E quando Deus quis fazer tudo o que havia
deliberado, gerou esse Verbo proferido, como primogênito de toda
criação, não esvaziando-se de seu Verbo, mas gerando o Verbo e
conversando sempre com ele. [46]

Conforme Ladaria, aqui Teófilo resguarda a eternidade do Logos, mostrando


que ele já existia com Deus na eternidade antes de todas as coisas criadas,
logo o Filho de Deus já existia antes da geração, estando desde de sempre
com o Pai.
Nota-se aqui que o apologista não faz menção do Espírito Santo, parece que
sua maior preocupação seria defender a condição divina de Cristo Jesus.
Porém, não podemos nos esquecer da citação de Atenágoras em considerá-lo,
embora de modo simples, junto ao Pai e ao Filho na Trindade, e,
semelhantemente, Teófilo o faz em sua analogia com os três dias da criação,
incluindo-o na Santa Trindade.

2.2.4 ORÍGENES

Considerado um dos maiores gênios do Cristianismo, Orígenes nasceu por


volta do ano 185, provavelmente em Alexandria, uma das maiores cidade da
bacia mediterrânea, e faz bons estudos. Desde os 18 anos é responsável pela
escola catequética de Alexandria.[47]
Orígenes elabora um discurso trinitário rico, ao mesmo tempo complexo. A
perspectiva por ele adotada é salvífica; sua preocupação maior é com a
Trindade assim como se revelou na economia da salvação e não propriamente
na sua vida imanente.
A doutrina da Trindade de Orígenes possui dois pilares fundamentais.
Primeiro, são muito acentuadas a unidade de Deus, quando ele vai dizer que
somente o Pai é ingênito (sem princípio) e a clara distinção entre a Pessoa do
Filho e do Espírito.
E não menos importante, o segundo pilar, seria Deus-Pai sempre deve ter tido
objetos através dos quais demonstrou sua bondade e seu poder, uma vez que
ele é a bondade e poder perfeitos. Pois mesmo o Filho e o Espírito tendo
participação na divindade, somente o Pai é Deus no sentido de “ser”, como
diz Sinivaldo “Princípio sem princípio”[48]. Vejamos a citação onde
Orígenes faz esta clara distinção:

Consideramos, portanto, que há três hipóstases, o Pai e o Filho e o


Espírito Santo. E ao mesmo tempo te consideramos nada exceto o
Pai ingênito. Portanto, como o mais piedoso e o curso mais
verdadeiro, admitimos que todas as coisas foram feitas por Logos, e
que o Espírito Santo é o mais excelente e o primeiro em ordem de
tudo o que foi feito pelo pai através de Cristo..[49]

Nesta citação de Orígenes é facilmente percebida a distinção entre as pessoas,


bem como a unidade em Deus. Apesar de mantida a unidade das três pessoas
e ter sido o primeiro a desenvolver, de fato, uma doutrina trinitária, não resta
dúvida de que ele não conseguiu esclarecer suficientemente a unidade das
três pessoas divinas. Pelo contrário, teve maior êxito em provocar cismas
com as suas diferenças. Neste ponto, a sua doutrina acerca de Deus apresenta
algumas tensões. Ele, por exemplo, podia dizer que o Filho era uma criatura
do Pai, apesar de insistir na unidade substancial do Pai e do Filho. O
problema que se levanta a partir de sua doutrina evidencia-se especialmente
no fato de, contrariando o Novo Testamento e a Tradição, rejeitar a oração ao
Senhor exaltado, só é permitido orar a Deus-Pai, apesar de que tal oração,
defendia ele, deva ser feita através do Filho e do Espírito Santo.[50]
Alías, nesta citação origenista, a Pessoa do Espírito Santo também está
fazendo parte na obra da salvação, ocupando um lugar de destaque
juntamente com o Filho.
A singularidade do Espírito Santo também é vista nesta outra exposição de
Orígenes:

Penso que o Espírito Santo oferece, por assim dizer, a matéria dos
dons da graça concedidos por Deus àqueles que por Ele e por sua
participação nele são chamados santos. Essa matéria dos carismas,
de que falamos, proviria da atividade de Deus Pai, seria ministrada
por Cristo e teria sua própria consistência no Espírito Santo (In Joh.
II 10,77).[51]

Percebemos como Orígenes trabalha a dinâmica em Deus, apresentando as


três hipóstases do Pai, Filho e do Espírito Santo, apesar de não desenvolver
de forma mais clara, como vão fazer os Capadócios[52] nas formulações dos
concílios I e do II de Constantinopla. Novamente visualizamos a mão do
Deus trino na história revelando de forma sussurrada a sua natureza mais
íntima ao seu povo, mais tarde, séculos depois, já com a nova geração dos
trinitários, essa proposta desse mestre alexandrino foi bem mais
desenvolvida, com mais equilíbrio.
Depois desse estudo sobre os autores orientais, devemos seguir para os
ocidentais (latinos) que também vão trazer sua contribuição, caminhando para
corroborar com tudo o que já foi dito, para confirmar que a Doutrina da
Trindade é parte inegociável da fé cristã e determinante para o teísmo cristão.
2.3 OS APOLOGISTAS DO OCIDENTE

2.3.1 IRINEU DE LIÃO


Irineu nasceu entre 130-135, foi um homem extremamente culto conhecia
bem a literatura helenista e a teologia herética predominante da época; foi
discípulo de Policarpo, sendo este discípulo do Apóstolo João; Irineu tornou-
se bispo na região de Lião[53].
Nos seus escritos as fórmulas trinitárias são ricas, mantendo sempre a
fidelidade com as Escrituras, a sua proposta teológica acerca de Deus, está
relacionada diretamente a “Trindade Imanente”, isto é, a ação do Deus trino
no tempo e no espaço para salvação dos homens.
Para designar as atuações da pessoa do Filho e do Espírito Santo, ele faz uso
de expressões “fabricação” e “disposição”.

[ O Pai ] não necessita de ajuda para a fabricação do foi feito, e


para a disposição dos negócios que se referem ao homem, senão que
dispunha de um mistério abundante e impossível de descrever:
servem-lhe para tudo ser feito (progenies) e sua figura (figuratio),
quer dizer, o Filho e o Espírito, o Verbo e a Sabedoria aos quais
estão submetidos todos os anjos (Adversus Haereses IV 7,4).[54]

Nesse momento Irineu já faz menção da “Trindade Imanente”, deixando clara


a posição econômica da Trindade no projeto salvífico, corroborando assim a
mesma proposta que Clemente de Roma, que a atuação do Pai, do Filho e do
Espírito é necessária e inseparável para o sucesso da obra salvífica.
Em outra citação sobre a atuação da Trindade na obra da salvação Irineu diz:
Se o Espírito que possuímos agora como primícia faz-nos clamar
Abbá, Pai (cf. Gl 4,6), o quenão fará toda a graça do Espírito que
será dada aos homens, da parte de Deus. Fará que nós sejamos
semelhantes a Ele [ Deus ] e realizará o beneplácito do Pai, como
quem modela o homem à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn
1,26) (Adversus Haereses V 8,1).[55]

Nessa frase ele faz alusão à atuação do Espírito na economia da Trindade que
levará o homem ao estado de perfeição, modelando o homem à imagem de
Deus; com isso menciona a obra perfeita que Deus tinha criado e deixado no
jardim, Adão e Eva, mostrando que, no mínimo, refletiremos a criação
original.
Além dessas apologias contra os gnósticos e falsos mestres, por volta do ano
177 d.C Irineu faz uma apologia que vai resumir de forma esplendorosa a
atuação da Trindade na salvação dos homens, e mostra com total clareza qual
era a fé defendida pelos apóstolos, diante das ameaças que a Igreja estava
sofrendo em todo o mundo:

Com efeito, a Igreja espalhada pelo mundo inteiro até os confins da


terra recebeu dos apóstolos e seus discípulos a fé em um só Deus,
Pai onipotente, que fez o céu a terra, o mar e tudo o que nele existe;
em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para nossa
salvação; e no Espírito Santo que, pelos profetas, anunciou a
economia de Deus; e a vinda, o nascimento pela virgem, a paixão, a
ressurreição dos mortos, a ascensão ao céu, em seu corpo de Jesus
Cristo, dileto Senhor nosso; e a sua vinda dos céus na glória do Pai,
para recapitular todas as coisas e ressuscitar toda carne do gênero
humano; a fim de que, segundo o beneplácito do Pai invisível,
diante do Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, todo
joelho se dobre nos céus, na terra e nos infernos, e toda língua o
confesse; e execute o juízo de todos...[56]

É digno salientar que nessa referência de Irineu, é mencionada cada pessoa da


Trindade, e principalmente, que Cristo é Deus, Salvador e Rei, confirmando
assim uma pluralidade em Deus, e, por que não dizer, que nessa menção
temos uma clara evidência da Doutrina da Trindade, vindo de uma fonte
totalmente digna de aceitação histórica, sem nenhum vestígio de influência
nicena, visto que o acontecimento se dará no IV século. Tal testemunho
acerca da relação de cada pessoa (Pai, Filho e Espírito) vindo diretamente de
um dos mestres da Igreja antiga, evidencia que já existia vestígio de uma
consciência trina por parte da Igreja antiga.
A posição de Irineu acerca da existência de um único Deus o leva, em certos
momentos, a enfatizar tanto a unidade de Deus, que não teme em usar
expressões que parecem ser modalistas, como se o Filho e o Espírito fossem
apenas maneiras de aparição do único Deus. Em sua exposição da
Proclamação Apostólica, Irineu diz: “A existência e o poder de sua natureza
demonstram que há um só Deus.”[57]
No parecer de Lohse: “O Filho foi gerado pelo Pai já antes do tempo, mas
Irineu recusa-se a fazer qualquer especulação mais detalhada que pretenda
sondar o mistério da geração do Filho.”[58]

2.3.2 TERTULIANO

Natural de Cartago, foi educado em Direito Romano e Retórica. Alcançou


eminência antes de se converter. Estudou grego e escreveu algumas obras
nesta língua. Foi grandemente influenciado pelo estoicismo. A influência do
Direito Romano e da filosofia estóica são claramente visíveis nos seus
escritos. Seus escritos latinos são volumosos e hábeis. Deitaram os alicerces
para a teologia latina, inclusive a toda a terminologia teológica.[59]
Tertuliano é considerado o principal artesão do vocábulo trinitário latino. Foi
ele quem criou a palavra “Trindade” (no latim, Trinitas), expressão que
tornou-se um aspecto característico da teologia cristã, o que será tratado
melhor noutro capítulo.
o mestre latino não difere muito de Irineu, ele igualmente começa com a
pessoa de Deus-Pai, que tem consigo a Palavra e o Espírito e os tirou de si
para a criação do mundo. A sua obra Adversus Praxean, é considerada a obra
capital do ponto de vista da teologia trinitária posterior, graças ao fato de
criar formulações precisas para expressar tanto a unidade de Deus como a
Trindade das pessoas.
A Adversus Praxean é apresentada contra uma proposta teológica chamada
patripassianismo[60] que diz que o Pai desceu à virgem, nasceu, padeceu, ele
é o mesmo Cristo, proposta esta que tenta anular o pensamento trinitário na
obra da salvação. A essa falácia Tertuliano opõe a Regula Fidei:

Porém nós... cremos em um só Deus, mas com essa dispensação que


chamamos ‘economia’, quer dizer, que o único Deus tem também
um Filho, sua palavra, que procede dele mesmo, por meio do qual
tudo foi feito, e sem o qual nada se fez (cf. Jo 1,3-4). [ Cremos ]
que esse Filho do homem foi enviado pelo Pai à virgem, e nasceu
dela, homem e Deus, Filho do homem e Filho de Deus, e foi
chamado Jesus Cristo; que ele padeceu morreu e foi sepultado
segundo as Escrituras (Cf. 1Co 15,3.4), que foi ressuscitado pelo
Pai, e levado de novo ao céu, está sentado à direita do Pai e virá para
julgar os vivos e os mortos. E que depois enviou segundo sua
promessa o Espírito Santo paráclito, santificador da fé daqueles que
crêem no Pai, no Filho e no Espírito Santo.[61]

Esse texto capital mostra explicitamente que Tertuliano defendia uma


unidade diversificada dentro da divindade, expondo assim a riqueza do
pensamento trinitário na economia em Deus, sendo as três pessoas unidas,
mas não são uma só pessoa, confirmando a divindade do Filho e sua plena
humanidade, bem como a atuação do Consolador na obra da salvação.
Então ele rejeita toda forma de monarquianismo, considerando, assim, a
doutrina da igualdade em essência do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o que,
obviamente, já faz parte do pensamento de Tertuliano, apesar de percebermos
uma constante condição de subordinar a pessoa do Filho em relação a Pessoa
do Pai, como veremos a seguir na citação.
Entretanto, essa postura não deve ser vista como algo que comprometa sua
consciência trina em Deus, antes é seu zelo pela teologia sadia e livre de um
princípio “patripassiano” que coloca o Pai como sendo aquele que derramou
seu sangue na cruz, anulando a funcionalidade do Eterno Filho de Deus,
negando, portanto, a Doutrina da Trindade e o pensamento trinitário que vem
se desenvolvendo ao longo da história da Igreja.
Tertuliano, na tentativa de explicar essa unidade e, ao mesmo tempo, sua
distinção, usou uma série de comparações que, com sua aprovação ou sua
rejeição, tiveram grande influência na história da Igreja, como é o caso de
uma passagem do c. 8 do Adversus Praxean:

O tronco não está dividido da raiz, nem o rio da fonte, nem o raio do
sol, nem tampouco a Palavra está separada de Deus. Portanto,
segundo a imagem que esses exemplos proporcionam, confesso que
falo de dois: Deus e sua palavra, o Pai e seu Filho, porque a raiz e o
tronco são duas coisas, mas unidas: e a fonte e o rio são duas
manifestações (species), mas indivisas; e o sol e o raio são duas
formas, mas enlaçadas (cohaerentes). Tudo o que procede de alguma
coisa deve ser algo distinto daquilo de que procede, mas não
separado. Porém, onde há um segundo há duas coisas, e onde há um
terceiro, três. O terceiro é o Espírito a respeito do Pai e do Filho,
como o terceiro a respeito da raiz é o fruto que vem do tronco, e o
terceiro em relação à fonte é o arroio do rio, e o terceiro do sol é a
chispa do raio. De todas as maneiras, nada se aparta da origem do
que tem suas propriedades. Assim a Trindade, derivada do Pai é
através dos graus enlaçados e coesos, não é obstáculo à monarquia e
protege o status da economia.[62]

Temos agora o primeiro mestre da Igreja a utilizar o termo “Trindade” para


designar as três pessoas dentro de uma única divindade, deixando de ser
apenas um eco rumo a uma consciência trinitária para propriamente ser uma
defesa da Doutrina da Trindade.
Isso vai mostrar que um dos homens mais importantes da Igreja antiga, já
possuía uma perspectiva triúna do Deus eterno, levando a Igreja a uma
posição mais ousada e sem medo ou hesitação em dizer que na natureza
divina existem mais de uma pessoa participando, porém sem gerar três
deuses.

2.3.3 HIPÓLITO DE ROMA

Hipólito nasceu antes de 170 (talvez no Oriente grego); segundo Fócio, foi
discípulo de Ireneu, foi presbítero romano no pontificado de Vítor (cerca de
189-98). Violento adversário dos modalistas (Noeto, Cleômenas, Sabélio).
[63] Em 212, Orígenes escutou uma homilia de Hipólito.
Para esse mestre da Igreja o Logos divino não compromete a unicidade
divina, como pensava Noeto (de tendências patripassianas). Para Hipólito a
geração do Filho em nada compromete a unicidade em Deus, antes o Logos
vive no coração do Pai. Há uma unicidade de Deus e em Deus, uma distinção
inseparável do Pai e do Filho. Deus sendo só, era múltiplo, pois não lhe
faltavam nem Logos, nem sabedoria, nem força, nem vontade: tudo estava

nele e ele era o todo.[64]

Contudo, no pensamento teológico desse líder cristão havia uma diferença da


geração do Logos e encarnação do homem Jesus. Na primeira ele indica uma
geração segundo o espírito, revelando que essa distinção não separa o Logos
da unidade divina, enquanto que na segunda, a encarnação no seio da virgem,
apresenta o Filho perfeito de Deus, o homem, e, para apoiar sua tese, ele faz
uso da passagem de Jo 16.28: “Eu saí do Pai e venho”.
Hipólito não faz menção apenas da Pessoa do Pai e do Filho, mas fala,
também, do Espírito Santo, fazendo uso de algumas fórmulas que lembrará
uma visão trinitária em Deus. Na sua apologia contra Noético,ele diz: “Por
meio dele (do Logos) conhecemos o Pai, cremos no Filho e adoramos o
Espírito Santo” [65]
Diante do que foi apresentando, sobre a posição teológica histórica, dos
principais líderes latinos, vai se ratificando de forma linear a posição da
crença na Doutrina da Trindade na Igreja antiga.
Os apologistas não receberam esse título em vão, de fato e de verdade, eles,
em seus tratados, prestam um serviço ao reino de Deus, defendendo a
Doutrina da Santíssima Trindade contra aqueles que se opuseram a ela.
Infelizmente, muitos daqueles que aderem a uma posição antitrinitária se
esquecem de verificar na história que sua posição é contrária ao pensamento
dos principais pensadores da Igreja antiga.

2.4 UM VOCÁBULO NOVO


Novas palavras foram criadas e utilizadas pelos primeiros pensadores cristãos
no período da Igreja antiga para facilitar a compreensão da unidade e
diversidade em Deus que é representada pela pessoa do Pai e do Filho e do
Espírito Santo.
Cada ciência possui suas palavras técnicas com as quais se compreende com
exatidão o que se pretende dizer. A teologia possui um acervo grande de
palavras-chave para expressar o que se pensa na fé. As palavras são para a
teologia mais importante que para qualquer outra ciência, porque a Deus
ninguém vê nem experimenta empiricamente, como experimentamos as
realidades do mundo.[66]

2.4.1 TRINDADE

Dentre os novos vocábulos, encontra-se palavra “Trindade”, a qual não está


literalmente nas Escrituras. Muito embora essa doutrina não fosse
explicitamente mencionada, sua origem pode ser vista primeiramente no
Antigo Testamento, no entanto, na língua hebraica, há aquilo que é
denominado pelos gramáticos de plural honorífico. Bruce Waltke diz sobre
isto que “a maioria dos plurais honoríficos na Bíblia envolvem o Deus de
Israel e o mais comum desses é (Elohim – tradução minha) usado cerca de
2.500 vezes. Quando usado ao Deus de Israel, esse termo usualmente assume
concordância singular (um Deus justo Sl 7:10) quando usado a vários deuses,
leva a concordância plural conforme Êx 20:3; 12:12”.[67] Sobre o plural de
Deus, William Lasor, comentando Gênesis 1.1, vai dizer: “Deus, a forma
plural é usado para principados, anjos, e deuses (que se da com adjetivos
plurais e formas verbais plurais) e para Deus (com forma adjetiva e verbal
singular). O plural se explica 1) um vestígio de politeísmo, 2) plural real, 3)
uma comunidade de pessoa ou a) Deus e sua corte, ou b) na divindade. O uso
da concordância singular parece eliminar 1) e 3a).”[68]
No entanto, no Novo Testamento, é facilmente percebida a fórmula trinitária
em textos como Mateus 28,19: “batizando em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo”; 2 Coríntios 13,13: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor
de Deus, e a comunhão do Espírito Santo esteja com todos vós”. Ninguém
reflete sobre a “trindade”, sobre a relação ontológica dos três... O problema
aparece, progressivamente, quando se toma consciência do desafio lançado à
fé monoteísta pela afirmação de que Jesus Cristo é Deus. [69]
A palavra “trindade” só aparece no fim do século II, e muito timidamente
com Teófilo de Antioquia e Clemente de Alexandria. Tertuliano é o primeiro
que a emprega, abundantemente, em 215, no Contra Praxeas. Até meados do
século III, em grego ou em latim, a palavra tem dificuldade para se impor,
depois disso se torna clássica.[70]
Alister McGrath vai dizer que outras formas foram exploradas, no entanto a
influência de Tertuliano foi tão grande que esse termo tornou-se normativo na
Igreja no ocidente.[71] Interessante é, que talvez muitos pensem, que a
palavra tenha sido criada ou empregada no Concílio de Nicéia, pois quando
se trata desse tema, nos reportamos a esse evento em especial. Todavia, mais
de um século antes, a expressão se tornara conhecida e já com uma centelha
de consciência trinitária sendo desenvolvida.
Infelizmente ao longo da introdução do novo vocábulo na Igreja antiga,
geraram-se alguns problemas no meio daqueles que são mais simples (o
povo) e que tinham se convertido ao Cristianismo, abandonado uma fé
politeísta para a monoteísta. Então, quando Tertuliano fez referência à
Trindade, eles pensaram que estavam voltando à antiga fé que tinham
renunciado. Mas ele esforçou-se para esclarecer que a crença na Trindade, na
verdade, revelaria o Deus único da fé cristã, pois a Trindade deriva da
unidade. [72]
Entretanto a falta entendimento do povo cristão da época é compreensível,
pois até alguns líderes da Igreja tiveram dificuldade com o novo termo.

2.4.2 HIPÓSTASES

O primeiro sentido da palavra “hipóstase” é “o que se mantém por baixo”, o


substrato, o fundamento. Designa algo de sólido, sobre o qual se pode apoiar.
No século III, toma um sentido filosófico: nível de ser, entidade ontológica,
sobretudo no neoplatonismo, que ensina três hipóstases fundamentais: o Um,
o Intelecto, a Alma. [73]
Em teologia, é empregada para dizer contra os monarquianos que o Pai, o
Filho e o Espírito Santo têm, cada um, uma existência concreta, que subsiste
realmente: há três hipóstases.
Fazendo do Pai, do Filho e do Espírito Santo um só ser, os monarquianos
negam a alteridade em Deus. Deus não é mais comunhão fecunda, fonte de
vida e de salvação, ele corre o risco de ser apenas um princípio, o Um dos
filósofos. Os teólogos compreendem que é absolutamente necessário opor-se
a este pensamento, que confessa o Deus cristão somente na aparência das
palavras. Na geração depois de Tertuliano, que fala de “pessoas”, um teólogo
grego vai empregar a palavra hipóstase, a saber,Orígenes. [74]
O novo termo criado, que tem sentido filosófico, em nada desabona a
teologia, pois o que há de errado em utilizar termos filosóficos para explicar a
teologia? Pois foram esses novos termos que foram fundamentais para trazer
luz às questões que estavam obscuras no campo teológico. Muitos podem
acusar os pensadores cristãos de tentarem tornar o Cristianismo em apenas
mais uma filosofia ou que muitas doutrinas centrais da fé cristã são oriundas
do paganismo ou do neoplatonismo, quando na verdade essas acusações são
inverídicas diante do relato histórico do Cristianismo.
Para melhor resistir ao monarquianismo, Orígenes o enfrenta no terreno dos
conceitos, não fugindo diante das palavras novas que surgem, antes as
colocando a serviço da fé. É o primeiro que utiliza a palavra hipóstase para
dizer que cada um, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, tem uma existência real
e distinta. Fica evidente que Orígenes defende e faz uso do termo hipóstase
para explicar a unidade e a diversidade em Deus, deixando clara a
funcionalidade de cada pessoa no mundo criado. Vejamos resumidamente:

Consideramos, portanto, que há três hipóstases, o Pai e o Filho e o


Espírito Santo... admitimos que todas as coisas foram feitas por
Logos, e que o Espírito Santo é o mais excelente e o primeiro em
ordem de tudo o que foi feito pelo pai através de Cristo. [75]

2.4.3 AS “PESSOAS” DIVINAS


É com Tertuliano que a palavra aparece, no Contra Praxeas. A palavra latina
persona poderia ser traduzida, primeiramente, por “personagem”, no sentido
literário (ou “papel” no teatro), como o grego prosôpon. [76]
Na Bíblia grega ou latina, a palavra é utilizada para traduzir a expressão
hebraica “face de Deus”, ou para um profeta que fala “em nome de Deus”,
faz o “papel” de Deus. Daí vem a idéia de que o Verbo, que faz o “papel” de
Deus, o faz por excelência, é um “personagem” que fala por Deus. Vemos
como a palavra podia deslizar da exegese à teologia trinitária, designando o
Verbo.[77]
Dizer que o Verbo é uma “pessoa” que fala em nome de Deus, é significar
que ele recebe de Deus o que ele é; e também, na palavra hipóstase, que ele
tem um modo de existir que lhe é próprio; porque, em latim, a palavra
persona designa a pessoa jurídica, capaz de responder, pessoalmente, por
seus atos. Os termos aqui aludidos, hipóstase e pessoa, se encontrarão no
século IV.
Naturalmente, o termo “pessoa” também não foi satisfatório. Na verdade,
temos lidado com um mistério que está além do pensamento e linguagem
humanos. Agostinho escreveu as famosas frases “Quando alguém pergunta
‘Que três’, a língua humana sofre de uma grande falta de poder. Não
obstante, dizemos “Três pessoas”, não porque deveríamos dizê-lo, mas para
não ficarmos em silêncio” [78]
Todavia, mesmo que o termo não tenha sido satisfatório e pleno, para os
líderes primitivos, foi possível analisar que os novos termos serviram para
tornar inteligível a intimidade em Deus e que esses novos vocábulos foram
ferramentas cruciais para que a Igreja pudesse caminhar rumo à compreensão
em muitos aspectos da pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
2.4.4 HOMOOUSIOS

A palavra tornou-se um importante termo teológico quando foi empregada


pelo Concílio de Nicéia, em 325, para descrever o relacionamento entre o
Filho de Deus e o Pai. Mais tarde, foi usada para descrever o relacionamento
entre o Espírito Santo e o Pai e o Filho, isto foi instrumental no
desenvolvimento da Trindade. Homoousios significa literalmente o mesmo
(homo) na substancia (ousia), ou, conforme às vezes é traduzido,
consubstancial.[79]
Todavia é preciso ter cuidado para não confundir o termo, homoousios com
homoiousios, pois esse último contraria o primeiro termo, quando afirma que
o Filho de Deus não é da mesma substância do Pai, antes de uma “substancia
similar”.[80] Interessante que essa controvérsia inteira pendurou por causa de
uma diferença da letra grega, que na verdade fará toda a diferença na história
da Igreja quanto ao seu entendimento entre relação entre o Pai e o Filho.
No entanto, Ladaria vai dizer que aqueles “homoiusianos” (defendem a
substancia similar) não se atreviam em afirmar “homos”, a igualdade ou
identidade da essência, mas sim menciona a essência junto com a
semelhança, para salvar assim a subsistência do Filho. E ainda vai dizer que
os “homoiusianos” contribuíram muito para a vitória final das teses nicenas, e
por isso não parece adequado o qualificativo de “semi-arianos” com que
durante séculos foram conhecidos, entre aqueles que defendem essa posição
teologia, temos: Basílio de Ancira e Jorge de Laodicéia.[81]
Contudo, para determinarmos exatamente qual é a intenção quando se afirma
que o Filho é Homoousios com o Pai, precisamos saber o significado da
igualdade e da substancia às quais se apela. Fica claro que os Pais em Nicéia
não pensavam em homoousios do ponto de vista aristotélico da categoria
primária de ousia, em que ousia é considerada simplesmente como uma coisa
individual. Neste sentido, dizer que o Pai e o Filho são homoousios seria
dizer que estes são simplesmente termos diferentes que apresentam a mesma
realidade única, sem expressar diferença alguma, sendo numericamente
idênticos. Há evidências de que o uso de homoousios foi condenado no
sínodo de Antioquia em 268, porque Paulo de Samosata o empregou
exatamente neste sentido monarquista.[82]
Os Pais não fizeram, uso completo da segunda categoria de Aristóteles, em
que ousia é considerada um gênero ao qual pertencem várias espécies. Os
arianos, segundo parece, entendiam neste sentido o ponto de vista ortodoxo,
porque objetavam que uma doutrina homoousios teria resultado ilógico de
propor uma divisão da substância divina indivisível. Os pais realmente
empregaram muitas analogias de relacionamentos nesta segunda categoria
(tais como o homem e a humanidade), mas também usaram analogias que
expressam um relacionamento muito mais estreito do que entre os membros
de um gênero (tais como o relacionamento entre os raios e o sol, ou entre um
rio e uma nascente). Seja como for, tinham o cuidado de ressaltar as
limitações de semelhantes analogias quando se aplicavam à Deidade.[83]
O termo homoousios parece significar para Atanásio “igual natureza”. O
bispo de Alexandria não se serve ainda do termo nos primeiros escritos, mas
explica e defende seu uso em, De Decretis Mocaemae Synodi. Em De
Synodis prefere-o ao homoiousios; o termo, para Atanásio, indica, ao mesmo
tempo que a igualdade da substância, a procedência da ousía do Filho, gerada
da ousía do Pai. Para esse mestre antigo, homoousios significa que o Filho de
Deus procede do Pai, e por isso têm ambos a mesma essência. Há uma
substância paterna da qual provém o Filho como imagem perfeita; a unidade
dos dois é assim explicada nos termos da unidade da luz e o reflexo.[84]
Nos ensinos da ortodoxia nicena e pós-nicena, o relacionamento essencial
entre o Pai e o Filho (e esse conceito foi aplicado por extensão ao Espírito
Santo também, no período pós-niceno) era visto como um em que o Filho
deriva a Sua ousía do Pai, de maneira que não são numericamente os
mesmos, e de modo que o Pai é apropriadamente a origem da existência do
Filho. Apesar disso, afirma-se que nesta derivação (eterna), o Filho é e
permanece homoousios com o Pai, de modo que aquilo que o Pai é e possui é
exatamente aquilo que o Filho é e possui. Existe, portanto (na declaração
clássica de Archibald Robertson) uma “plena e ininterrupta continuação da
Existência do Pai no Filho”[85]. Embora o emprego de homoousios ainda
deixe muitas perguntas sem resposta, o uso do termo era considerado
necessário por expressar, segundo parecia, melhor do que qualquer outro
termo, uma parte essencial da descrição bíblica do relacionamento entre o Pai
e o Filho, de tal modo que refutasse em definitivo a doutrina ariana de que o
Filho era um ser criado, totalmente diferente do Pai e tendo seu próprio
início.[86]

3. A OPOSIÇÃO ANTITRINITÁRIA E A
FORMAÇÃO DO CONCÍLIO DE NICÉIA

Agora chegamos ao IV século do Cristianismo, auge da discussão da


Doutrina da Trindade. Nos pais pré-nicenos fica fácil perceber uma
consciência extremamente trinitária ou, talvez, binária, pois os mestres da
Igreja estavam preocupados com a relação do Pai e do Filho e não trataram
tanto da Pessoa do Espírito.
No entanto, líderes como Tertuliano, Orígenes e outros, deram um salto no
pensamento trinitário, formulando e fazendo uso de expressões gregas para
tentar explicar de forma fácil a unidade e diversidade que existe no Deus
único. Agora seguiremos para Nicéia.
No dia 20 de maio de 325, a Igreja cristã entrou em uma nova era. Naquele
dia, cerca de 320 bispos reuniram-se em Nicéia, na época uma grande cidade
da Bitína (agora a pequena cidade Iznik, na Turquia). Aquela ocasião marcou
o primeiro concílio “ecumênico[87]” ou mundial da Igreja. Seu objetivo foi
discutir a divindade de Jesus – dizia respeito à própria essência da fé cristã.
[88]
Para resolver a questão a respeito da natureza de Cristo Jesus o Concílio de
Nicéia estava dividido em três partidos, os arianos que mantinham: (1) Que o
Filho devia sua existência à vontade do Pai; (2) que não era eterno; senão que
houve um tempo em que não existia; (3) que ele fora criado do nada; (4) que
ele não era imutável; (5) que sua preeminência consistia em que ele fora o
único criado por Deus imediatamente, enquanto as demais criaturas foram
criadas pelo Filho; (6) inerentemente, ele não era Deus, mas fora feito por
Deus, devido sua natureza exaltada e à relação que mantinha com todas as
demais criaturas, como Criador e Soberano, recebeu o direito ao culto divino.
[89]
O segundo partido seria os semi-arianos, eles sustentavam com os arianos:
(1) que o Filho devia sua existência à vontade do Pai; (2) que ele não era da
mesma essência; (3) portanto, o Filho era subordinado ao Pai, não meramente
em condição ou modo de existência, mas em natureza; (4) o Filho, embora
assim inferior ao Pai, possuindo vida em si mesmo, era fonte de vida, ou seja,
o Criador; (5) o Espírito Santo, segundo a maioria dos arianos, foi criado pelo
Filho – a primeira e mais elevada criatura chamada à existência através de
seu poder.[90]
E o terceiro partido era formado pelos Ortodoxos, que constituíam a grande
maioria. Todos os cristãos adoravam a Cristo. Ele era o objeto supremo do
amor e a base de sua confiança, Ele era seu Deus no mais restrito sentido da
palavra, isto é, defendia a igualdade ontológica de Cristo junto ao Pai.[91]
Verifica-se na história que já houve, desde o II século, sínodos para resolver
questões doutrinárias e disciplinas, evidente que não com a mesma magnitude
do concílio realizado em Nicéia, que teve proporções globais[92]. No entanto
a Igreja já guerreava contra movimentos heréticos (como o gnosticismo, o
platonismo etc.) que se levantaram para perturbar a estabilidade do
Cristianismo. Contudo, diante desse divisor de águas, que é o Concílio de
Nicéia, faz-se imprescindível saber: qual a participação do Imperador, qual é
a antiga e nova ameaça que a Igreja precisa enfrentar ou enfrentou e quais
foram os defensores da Doutrina da Trindade.

3.1 A POSIÇÃO DO IMPERADOR CONSTANTINO


Caminharemos agora rumo ao esclarecimento de qual foi a importância do
Imperador Constantino junto ao Concílio de Nicéia. Não obstante, é bom
ressaltar que Constantino foi considerado o primeiro Imperador Romano a
converte-se ao Cristianismo, quando pouco antes da batalha contra seu
adversário, Maxêncio, Constantino teve uma suposta visão de uma cruz no
céu. Conforme Eusébio de Cesaréia, o mais importante dos antigos
historiadores da Igreja e mais tarde confidente de Constantino, diz: “viu com
seus próprios olhos o emblema de uma cruz luminosa no céu, acima do sol, e
a inscrição vença por meio desta afixada à mesma... Então, em seu nosso, o
Cristo de Deus apareceu-lhe com o sinal que tinha visto no céu e ordenou-lhe
que fizesse uma cópia daquele sinal visto no céu e usasse como proteção em
todas as batalhas contra os seus inimigos”.[93]
Mas existem algumas interpretações dessa “conversão” de Constantino ao
Cristianismo. Como vimos, Eusébio de Cesaréia entende que, de fato, ele
converteu-se ao evangelho de Cristo. Porém outros, como Justo Gonzalez,
vão dizer que, no mínimo, a conversão do Imperador é estranha, pois
Constantino não foi discipulado, participava ainda de cultos pagãos, não se
submetia a nenhum tipo de autoridade pastoral etc.[94]
Contudo, mesmo que Constantino não tenha sido um grande cristão, foi, sem
dúvida, um grande político, pois teve a idéia de unir-se ao movimento que
dominaria o futuro de seu império. Da repentina mudança de relações entre o
império e a Igreja surgiram resultados de alcance mundial. Alguns úteis e
outros danosos, tanto para a Igreja como para o Estado. É fácil de verificar
em que sentido a nova atitude do governo beneficiou a causa do Cristianismo.
Cessaram todas as perseguições. Durante duzentos os anos antes, em nenhum
momento os cristãos estiveram livres de perigos, acusações e morte.
Entretanto, desde a publicação do Edito de Tolerância por Constantino, no
ano 313, até ao término do império, a espada foi não somente embainhada;
foi enterrada.[95] Foi exatamente neste tempo de paz para a Igreja que se
desenvolveu o primeiro sínodo ecumênico de todos os tempos, que seria
decisivo para formular como os cristãos deveriam entender o Deus único.
De fato, o imperador foi quem convocou e fez a abertura do concílio e pôs à
disposição dos bispos os meios de transporte utilizados pelas autoridades
estatais (cursus publicus), pois era de seu maior interesse que essa
controvérsia que atingia a Igreja fosse resolvida e a paz teológica reinasse na
Igreja, provavelmente para que essa crise não refletisse na vida do Império.
[96]
Danilo Mondoni vai dizer: “... com a presença do Imperador este pronunciou
o discurso de abertura, exprimindo o desejo de que a paz da Igreja fosse
estabelecida”.[97]
Constantino, mesmo tendo feito a cerimônia de abertura do Concílio, não
formulou a Doutrina da Trindade, antes ele estava desinformado dos detalhes
da controvérsia que estava para iniciar depois de sua participação. Louhse vai
legitimar essa posição dizendo: “Constantino foi o primeiro imperador a ser
cristão. Basicamente não tinha a mínima idéia sobre as questões com quais se
ocupava a teologia grega.” [98]
Muitos estudiosos, por não explorarem a história da Igreja, têm acusado o
Cristianismo de ter aderido à Doutrina da Trindade, porque ela partiu de um
imperador cristão, que não haveria base nas Escrituras ou na história pré-
nicena para apoiar um pensamento num Deus trino. Entretanto, como
demonstrado nos capítulos anteriores, a Igreja já possuía nos seus primórdios
o alicerce de uma crença no Deus triúno.
O próprio imperador, ao contrário do que muitos pensam, não tinha interesse
algum em “promulgar” uma doutrina trinitária para a Igreja. Se este fosse o
seu intento, não precisaria convocar um Concílio para endossar o seu desejo.
Bastava-lhe repetir o ato de quatro anos antes, quando promulgou o decreto
dominical, e assinar um edito ordenando a todos que adorassem ao Deus-
Triúno. Ademais, Constantino nem possuía conhecimento suficiente para se
posicionar diante da controvérsia que ocupava a teologia grega. Uma carta
por ele enviada por meio do bispo Hósio de Córdova confirma seu
desconhecimento doutrinário a este respeito. Ali ele afirma que o problema
que os bispos estavam discutindo acerca da natureza de Cristo era “uma
questão sem proveito”. [99]
A decisão de como a Igreja deveria compreender o Deus trino partiu daqueles
que faziam parte da liderança da Igreja tanto no Ocidente quanto do Oriente,
como veremos a seguir.

3.2 A OPOSIÇÃO SABELIANA


Sabélio, líder cristão do II século da Igreja, provavelmente nasceu na Líbia ou
no Egito. Em virtude das discussões sobre a cristologia do Logos[100]na
segunda metade do segundo século e na primeira do seguinte, surgiram os
chamados monarquianistas, termo dado por Tertuliano aos opositores da
doutrina do Logos, os alogoi, [101] aqueles que rejeitavam o Evangelho de
João. Os monarquianistas se dividiam em dois grupos: monarquianismo
dinâmico, que ensinava ser Cristo Filho de Deus, mas por adoção, e o
monarquianismo modalista que ensinava ser Cristo apenas uma forma
temporária da manifestação do único Deus. Desta última escola destacou-se o
bispo Sabélio que tornou-se um grande líder desse movimento (por isso seus
seguidores foram chamados de sabelianistas ou sabelianos).[102]
Por volta de 215, Sabélio já ensinava suas doutrinas em Roma. O bispo
modalista ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não eram três
pessoas distintas, mas apenas os três aspectos do Deus único. Segundo este
bispo, nos tempos do Velho Testamento, o Pai se manifestou como
Legislador. Nos tempos do Novo, este Pai era o mesmo Filho encarnado, e
este mesmo Pai fazia o papel do Espírito Santo como inspirador dos profetas.
[103]
Essa é uma das bandeiras clássicas levantadas na história da Igreja por mais
de cem anos em Roma; Dionísio de Alexandria enfrentou o próprio Sabélio,
derrotando o sabelianismo. Depois disso o Cristianismo passou a repudiar o
sabelianismo.[104] Apesar disso, depois de muitos séculos, esse ensinamento
ressuscitou para atacar a Doutrina da Trindade, ou melhor, contra a distinção
na divindade, mesmo que não tenha sido o principal opositor no Concílio de
Nicéia, ele conseguiu atravessar o tempo e gerou adeptos que, até hoje no
século XXI, ensinam e defendem o pensamento sabelianista tais como: o
movimento religioso “Só Jesus”, Tabernáculo da Fé, Voz da Verdade etc.
Todavia, esse pensamento ganhou projeção, pois o sabelianismo não nega a
divindade do Filho de Deus, aliás, ele não admite que Cristo seja distinto do
Pai e do Espírito Santo. Conforme Wayne Grudem, o erro fatal desse tipo de
pensamento, de negar não somente a distinção, mas as relações pessoais entre
os membros da Trindade, revelada nas páginas do Novo Testamento, é que se
perde também a idéia de mediador dos homens, bem como a expiação
propiciada por Cristo.[105]
Infelizmente, esses movimentos religiosos não investigam a história, pois se
o fizessem saberiam que esse pensamento modalista nunca foi adotado pelos
principais mestres pós-apóstolicos como acabamos de estudar, logo no início
deste trabalho, pelo contrário, eles admitem mais de uma pessoa participando
da vida divina.
Ora, aqueles que são considerados as fontes mais fiéis depois dos apóstolos,
aceitam e defendem uma divindade plural. Certamente também esse era o
pensamento dos apóstolos de Cristo, pois, como vimos, Tertuliano e Hipólito
foram os primeiros a levantarem-se contra esse pensamento estranho que
ganhava proporção na Igreja. Porém eles resistiram ao modalismo, sendo
assim, essa proposta não fez parte da ortodoxia cristã ao longo dos séculos e
não serve de resposta para alicerçar o teísmo cristão.

3.3 A OPOSIÇÃO ARIANA


O originador do movimento conhecido como arianismo foi Ário (250-336),
um presbitério de Alexandria que, por volta de 318, tornou-se adversário
teológico do seu bispo, Alexandre (†328). Ário teve como grande apoiador,
fora dos limites do Egito, o grande Eusébio de Nicomédia († 342), o primeiro
bispo eminente da era constantiniana.[106]
Sua pregação causou problemas porque considerava Cristo uma criatura; não
uma criatura como as outras, senão privilegiada, mas criatura afinal. Com
outras palavras, negava-lhe claramente a condição divina. Sua preocupação
fundamental era afirmação da unicidade de Deus, comprometida, segundo
ele, se fosse aceita a divindade do Filho. Por outra parte, o conceito de
geração parece-lhe demasiado material, porque implica uma perda ou
diminuição no Pai. Queria também se opor ao sabelianismo, para afirmar a
verdadeira subsistência pessoal do Filho. A carta que Ário dirigiu ao bispo
Alexandre de Alexandria é um bom resumo de sua doutrina:[107]

Conhecemos um só Deus, só incriado (ingênito), só eterno, só


semprincípio, só verdadeiro, só imortal, só inteiramente bom, só
todo-poderoso. Esse Deus gerou um Filho unigênito antes de todos
os séculos, por meio do qual criou os séculos e todas as coisas;
nascido não em aparência, mas em verdade; obediente à sua
vontade, imutável e inalterável; criatura perfeita de Deus, mas não
uma a mais das criaturas; feitura perfeita, mas não como as outras
feituras... é, como dissemos, criado pela vontade do Pai antes dos
tempos e dos séculos, recebe do Pai a vida e o ser, e o Pai o glorifica
ao fazê-lo partícipe de seu ser... O Filho saiu do Pai fora do tempo,
criado e constituído antes dos séculos; não existia antes de nascer,
senão que, nascido fora do tempo antes de todas as coisas, ele recebe
o ser só do Pai... Mas não é eterno, nem coeterno nem incriado
juntamente com o Pai...[108]

Claramente é entendido que, de fato e de verdade, a posição de Ário é para


preservar a unicidade de Deus. É visto com frequência na citação a expressão
“só” para o Pai, bem como a expressão, “ingênito”, mostrando que na
convicção do presbítero alexandrino não é possível Cristo participar
ontologicamente da natureza divina com o Pai, tornando assim o Filho de
Deus apenas mais uma criatura ou deus pagão. Como bem corrobora Strong
fazendo referência a Gwatkin, Studies of Arianism, que diz: “O Cristo ariano
é apenas um ídolo pagão do mundo, inventado para manter um supremo
paganismo num isolamento pagão do mundo.”[109]
Foi a partir de afirmações e crenças como essas supracitadas do líder
alexandrino, que se gerou a controvérsia sobre a Doutrina da Trindade, dando
origem ao Concílio de Nicéia, pois, como a Igreja deveria responder a esse
novo adversário? Não era um tema possível de negociar, antes, a questão
teológica girava em torno da natureza do Filho de Deus, o centro do
Cristianismo estava abalado, pois estava se colocando em dúvida a divindade
do Redentor.
Sendo assim, Ário fortaleceu a sua argumentação citando a Bíblia de um
modo que revelava um profundo estudo das Escrituras, mas que também
causou grande inquietação entre seus opositores. Por exemplo, interpretando
Provérbio 8, quando fala da sabedoria, ele vai dizer que essa sabedoria é
Cristo, e embasa sua tese no verso 22, que diz que a sabedoria foi criada no
princípio da obra de Deus, indicando que Jesus não participava da essência
divina do Pai. Ainda se apropria, também, de passagens dos evangelhos em
que Jesus falou do Pai como “maior do que eu” (Jo 14.28), ou em que se diz
que Jesus cresceu (Lc 2.52), ou sofre privações humanas (sede em Jo 4.7;
19.28, fadiga em Jo 4.6). Ele também deu muita importância a passagens de
outras partes do Novo Testamento que chama Jesus de primogênito (por
exemplo, Rm 8.29; Cl 1.15). Ao estudar a Bíblia, Ário acentuou tudo que
podia encontrar que sugerisse diferenças claras entre o Pai e do Filho.[110]
São essas as argumentações derivadas das Escrituras, das quais Ário se
apropria para fazer sua apologia ao “Cristianismo monoteísta”, que preserva a
unicidade de Deus-Pai, como foi no caso de Orígenes. É bem possível que
essa perspectiva de Ário tenha tido uma profunda influência da teologia
origenista, pois Ário foi discípulo de Luciano de Antioquia, da escola de
Orígenes, que também parte do pressuposto duma defesa excessiva da
unicidade divina.[111]
Todavia, mesmo com todos esses textos supracitados, existiam duas bases
bíblicas que os arianos usavam fortemente. Uma delas, é a que chamava
Cristo de Filho “unigênito”, pois na mentalidade deles, se Cristo foi gerado
pelo Pai então deve ter sido criado, pois, a palavra “gerar”, na experiência
humana, refere-se ao papel do pai na concepção de um filho ; a outra, dizia
que Cristo era o primogênito da criação.[112]
Na contemporaneidade o movimento que abraçou com “unhas e dentes” a
proposta ariana foi o movimento religioso denominado “Testemunhas de
Jeová”. Assim diz Ezequias Soares: “Essa doutrina ariana foi ressuscitada no
final do século XIX por Charles Taze Russell, fundador da seita das
Testemunhas de Jeová, e tal ensino é sustentando ainda hoje pelos seus
adeptos...”[113], mas com uma diferença fundamental, os arianos
consideravam o Espírito Santo como um ser pessoal, ao passo que as
Testemunhas de Jeová ensinam que o “espírito santo” é uma energia ou força
impessoal emitida por Deus.[114]
Houve um momento muito interessante no Concílio de Nicéia, no qual Ário
apresentou sua defesa, as bases de sua apologia, expondo-a como verso
musical ao imperador Constantino, assim ele pôs-se a cantar:

Deus incriado fez o Filho princípio das coisas criadas, e pela adoção
Deus fez o Filho numa projeção de si mesmo. Todavia, a substância
do Pai: O Filho não é igual ao Pai, Nem partilha da mesma
substância, Deus é o Pai de todas a sabedoria, O Filho é o mestre de
seus mistérios. Os membros da Trindade Santa partilham de glórias
desiguais.[115]

Pelo que parece, o mestre do arianismo conhecia bem as Escrituras, porém


não conseguiu analisar outros textos nos quais se diz que o Filho de Deus
seria revestido da natureza humana, estaria semelhante aos homens (Fp 2),
então seria impossível para Ele não sofrer as mesmas necessidades e
limitações como os demais seres humanos. Porém Ário está obcecado em
mostrar que Cristo não poderia ser Deus, por essas fortes marcas de sua
natureza humana, quando na verdade isso revelaria sua plena humanidade,
sem contudo, macular sua divindade. Ao que parece, essa proposta ariana não
satisfaz as reivindicações do concílio de Nicéia, bem como não pode ser o
núcleo da fé cristã. Mas nos capítulos seguintes veremos a posição final do
sínodo que se instalou em Nicéia e veremos se a proposta de Ário foi aceita
pelo Cristianismo do IV século.
O famoso presbítero alexandrino não estava sozinho nesta “briga”. Haverá
também a participação de um grande mestre da antiguidade, Atanásio,
considerado o principal defensor da fé trinitária.

3.4 A POSIÇÃO DE ATANÁSIO

Atanásio, nascido no fim do século III, sucedeu em 328, o bispo Alexandre


de Alexandria (que o tinha trazido como diácono a Nicéia, e do qual era
colaborador), tornando-se um dos primeiros personagens da Igreja do
Oriente. Será bispo de Alexandria até a sua morte, em 373, mas conheceu
vários exílios (em mais de 16 anos!), quando o poder imperial favorecia o
arianismo. [116]
É o pastor de todo Egito, porque o país está inteiramente sob a autoridade do
bispo de Alexandria. Tinha relações bastante estreitas com os monges;
escreveu um clássico da literatura monástica, a Vida de Antônio, pouco
depois da morte deste em 356, para estabelecer um ideal de vida monástica
por meio desse personagem (considerado o pai dos monges). A obra
desempenhou um papel na conversão de Agostinho (ver Confissões, VIII, 6-
7).[117]
O mestre alexandrino é uma das figuras mais importante no Concílio de
Nicéia. Sua proposta trinitária está estritamente ligada à confissão da
divindade de Cristo Jesus, sem a qual seria impossível o homem ser
aperfeiçoado, pois, para Atanásio, reduzir Jesus a um mero mortal ou semi-
deus, tornaria impossível para Ele aproximar os homens do Pai, assim diz ele:
“ [ ... ] se o Filho não fosse Deus verdadeiro não podia ser divinizado, e o
homem não teria podido estar na presença do Pai se o que se tinha revestido
de seu corpo não fosse por natureza o Verbo verdadeiro do Pai (Contra Arian.
II 70).”[118]
Com essa afirmação, Atanásio vai apresentando sua defesa em prol da
Doutrina da Trindade diante dos seus opositores que, ao contrário dele, não
conseguem aceitar que Cristo de fato é o Verdadeiro Deus, com igualdade
ontológica com o Pai. E não somente neste aspecto, mas se prestarmos
atenção com mais cuidado à citação de Atanásio, veremos que sua proposta
se assemelha a de Orígenes naquilo que é referente à salvação dos homens.
O interesse do líder alexandrino era confirmar que, se Cristo é o salvador dos
homens, Ele necessariamente precisa ser de natureza divina.
Sua soteriologia é caracteriza como “física”, isto é, não se trata somente da
liberdade do pecado e da culpa, mas também, do restabelecimento e da
incorruptibilidade da natureza humana, da divinização do homem.
Constantemente aparece esta fórmula nos escritos de Atanásio: “O Verbo se
fez carne para que nós fossemos deificados”.
Ele diz, ainda: “Em Cristo, portanto, a espécie humana foi aperfeiçoada e
restabelecida assim como ela se encontrava no princípio ou, pelo contrário,
não mais com maior graça. Pois, se ressuscitamos dos mortos, não mais
tememos a morte, mas em Cristo sempre reinaremos no céu. Isto, porém,
aconteceu porque a própria Palavra de Deus proveniente do Pai revestiu-se de
carne e se tornou homem”.[119]
Atanásio também tinha a preocupação de confirmar a natureza divina da
Pessoa do Espírito Santo, para afirmar de forma contundente sua crença de
que existe, desde toda a eternidade, uma única comunidade dos três únicos.
Vejamos:

Há uma só forma da divindade que também está no Logos. Um só é


Deus Pai, que também se faz presente no Filho e que está também
no Pneuma, pois em todas as coisas opera mediante o Logos nele
(Espírito). Assim confessamos que Deus é um só na Trindade
(Contra Arian. III 15).[120]

Assim fica demonstrada em sua carta contra o arianismo uma defesa clara da
consubstancialidade do Espírito com igualdade com a Pessoa do Pai e do
Filho, e novamente é percebida uma comunhão das Pessoas Divinas em tudo
o que operam, mesmo que o Concílio de Nicéia não trate com tanto afinco a
natureza do Espírito.
Atanásio consagra muito tempo à luta teológica (e política) contra os arianos:
dentre certo número de obras polêmicas, as mais importantes são os três
discursos contra os arianos (hoje questiona-se a autenticidade do terceiro).
Um dos primeiros que escrevem sobre o Espírito Santo: Cartas a Serapião.
[121]
É bom salientar que mesmo Atanásio sendo o principal expoente da defesa
trinitária no Sínodo que ocorre em Nicéia, sua preocupação não estava focado
no monoteísmo trinitário, onde explica que os três são um só Deus, mas na
divindade do Filho e sua plena encarnação. Em uma de suas citações ele
mostra que o Logos de Deus encarnou e limitou-se, mostrando assim que
Atanásio conseguiu compreender a verdadeira humanidade do Logos divino.
Vejamos:

O que – ou antes Quem – era necessário para tal graça e tal chamado
de que necessitávamos? Quem, exceto o próprio Verbo de Deus, que
também no princípio havia feito todas as coisas a partir do nada?...
Pois ele somente, sendo o Verbo do Pai e estando acima de todos,
era em conseqüência disso capaz de restaurar a todos, e digno de
sofrer em favor de todos e de ser um embaixador de todos juntos ao
Pai.
Para esse propósito, pois, o Verbo de Deus incorpóreo, incorruptível
e imaterial entrou em nosso mundo. Na verdade, num certo sentido
ele nunca estivera longe do mesmo, pois nenhuma parte da criação
jamais havia estado sem Aquele que, enquanto permanece sempre
em união com o Pai, todavia enchetodas as coisas que existem. Mas
agora Ele entrou no mundo de um novo modo, descendo ao nosso
nível em seu amor e auto-revelando-se a nós... [ Apiedando-se ] de
nossa raça, move-se de compaixão por nossas limitações, sendo
incapaz de suportar que a morte tivesse o domínio... Ele tomou para
si mesmo um corpo, um corpo humano semelhante ao nosso. Ele
não quis simplesmente materializar-se ou meramente aparecer.
Tivesse sido assim, Ele poderia ter revelado a sua divina majestade
de algum modo melhor. Não, Ele assumiu o nosso corpo... Ele, o
Poderoso, o Artífice [ Criador ] de tudo, ele mesmo preparou esse
corpo na virgem como um templo para Si mesmo e tomou para Si
próprio, como o instrumento através do qual foi conhecido e no qual
habitou. Assim, tomando um corpo como o nosso, porque todos os
nossos corpos estavam sujeitos à corrupção da morte, Ele entregou o
seu corpo à morte em lugar de todos e o ofereceu ao Pai. Isso Ele fez
por puro amor a nós. [122]

Todavia, mesmo que seu foco seja outro, a perspectiva da Trindade não
estava completamente fora de seus planos, pois quando ele faz menção da
divindade do Filho junto ao Pai ou a consubstancialidade (homooúsios) do
Pai igual ao Filho, diretamente fala de mais de uma pessoa na vida divina e
assim passa a uma expectativa que caminha para a pluralidade no Deus único.
Foram esses os argumentos e citações que Atanásio fez uso para destronar
seu opositor Ário que dizia que Cristo era apenas uma criatura. Em
consonância com a rejeição ariana, Atanásio se apoiou, também, em
experiências concretas. O arianismo estava em oposição às práticas comuns
das multidões de cristãos, como as orações da Igreja que sempre tinham sido
feitas a Deus em nome de Cristo, sendo assim separar o Filho do Pai parecia
cortar a possibilidade de que os seres humanos se comunicassem com divino.
Também no batismo nas Igrejas que usava-se a fórmula trinitária “em nome
do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19); e os hinos da Igreja que
regularmente louvavam a Jesus como Salvador, o qual, vindo da parte de
Deus, restaurou a humanidade caída para Deus. [123]
Sendo assim, temos uma das mais belas defesas da fé trinitária, apresentada
diante daqueles que governavam a Igreja de Deus no IV século, e parece que
mesmo não tendo aceitação plena, as alusões de Atanásio certamente
contribuíram para o Concílio definir qual posição deve tomar para a
formulação de como Deus deveria ser entendido pela Igreja. Porém, nessa
guerra que seria crucial para a Igreja, Atanásio não estava sozinho, ele podia
contar com Hilário, que também vai contribuir para a possível decisão final
do Concílio em Nicéia.

3.5 A POSIÇÃO HILÁRIO DE POITIERS


Hilário foi bispo de Poitiers por cerca de doze anos, no meio dos quais sofre
um exílio no Oriente, de 356 a 360, por causa de sua defesa de Nicéia. Lá,
adquiriu um bom conhecimento das problemáticas orientais, raro no
Ocidente. Opta por um “nicenismo” mais moderado que o de Atanásio,
próximo dos homeousianos como Basílio de Cesaréia.
Ele trouxe também do Oriente um interesse forte pelo monaquismo, e
encoraja a sua implantação em sua região. Na liturgia, desenvolve o uso dos
hinos, antes de Ambrósio.
No Oriente, Hilário escreve uma grande obra teológica, em doze livros: Sobre
a Trindade. Se bem que inspirada por seus predecessores Tertuliano e
Novaciano, sua teologia é pessoal, enriquecida pelos gregos, e representa
uma peça importante do debate trinitário do século IV.[124]
A proposta de Hilário acerca do pensamento de Deus é um pouco diferente
das metáforas alexandrianas por considerá-las insuficientes para demonstrar a
consistência do Filho enquanto palavra do Pai. Defende que o Filho tem uma
consistência real, uma verdadeira realidade, Cristo é considerado por Hilário,
como sendo a imagem, a revelação perfeita do Pai ou ainda a forma, a figura
do Pai. O Espírito Santo é considerado o dom por excelência.
Hilário defende uma forma peculiar na geração em Deus. Para ele não
podemos implicar que se o Filho recebe algo do Pai, isso não quer dizer que o
Pai deixou de possuir o que deu ao Filho e nem perdeu porque concedeu ao
Filho:

Segundo as leis da natureza, não pode ser tudo aquilo que é só uma
porção. O que procede do perfeito é perfeito, porque o que tem tudo
lhe deu tudo. Não se deve pensar que não deu porque ainda tem,
nem também que não tenha porque deu (Trin. II 8).[125]

Não devemos interpretar que haja algum tipo de divisão na natureza divina
ou ruptura ou diminuição da substância do Pai. Essa proposta elimina
qualquer vestígio de subordinacionismo nas relações pessoais entre a Pessoa
do Pai e a do Filho. Além dessa citação, existe uma que é considerada por
Sinivaldo “uma das mais preciosas” contribuições à doutrina cristã de Deus.

Deus em todo momento sabe ser somente amor, somente Pai. O que
ama não tem inveja e o que é Pai é Pai por completo... O Pai é Pai
em tudo quanto nele existe, possui-se inteiramente naquele para o
qual não é Pai somente em parte. De maneira incompreensível,
inenarrável, antes de todo tempo e toda idade, procriou o Unigênito
da substância que nele há, e deu a esse Filho nascido dele, por meio
de seu amor e de sua potência, tudo o que Deus é (Trin. IX 61 e III
3).[126]

Essa proposta de Hilário vai destruir a argumentação apresentada por Ário,


onde ele faz uso de textos chaves que, segundo ele, vão revelar que o Filho é
inferior ao Pai ontologicamente; nessa citação, o mestre do Ocidente e um
dos defensores do símbolo niceno está reafirmando juntamente com Atanásio
que Cristo é nascido de Deus, foi gerado a partir da natureza do Pai, sendo
assim pertencente à mesma majestade do Pai.
Em outra citação Hilário vai partir da famosa passagem da fórmula batismal
de Mt 28,19 para afirmar a relação de cada pessoa da Divindade.

Mandou batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, isto


é, na confissão do autor, do unigênito e do dom. Um só é o autor de
todas as coisas, pois um só é Deus Pai do qual tudo procede. E um
só é Senhor nosso Jesus Cristo, por meio do qual tudo foi feito (1Co
8,6). E um só Espírito, dom em todos... nada ficará faltando em uma
perfeição tão grande, na qual no Pai, no Filho e no Espírito se acham
a infinitude no eterno, a revelação na imagem, o gozo no dom.[127]

Os “Três” aparecem nessa citação capital, mostrando que o Pai é antes de


tudo o autor de todas as coisas, o Filho é sua palavra criadora e o Espírito
Santo o dom de Deus, não criatura. Sendo assim, Hilário contribui fortemente
para que se caminhe para uma decisão acerca da formulação que a Igreja
deveria passar a conhecer.
Realmente é um debate de grande categoria, pois tanto Ário como Atanásio e
Hilário foram mestres extremamente preparados para esse momento crucial
do IV século, pois cada um apresenta a sua forma peculiar de apologia, seja
por meio de analogia, metáforas, termos gregos etc., para buscar iluminar as
mentes que estão participando desse grande evento do Cristianismo.
Infelizmente não podemos, nesse trabalho, desenvolver exaustivamente as
citações, obras e comentários desses grandes mestres da Igreja antiga, bem
como dos demais; recorrendo às fontes utilizadas nesse trabalho se poderá
obter ajuda para se aprofundar nessa discussão na história da Igreja.
As contribuições desses homens foram decisivas para que, tanto o Ocidente
quanto o Oriente, tivessem um esclarecimento e aprofundamento inestimável
para a decisão final do Concílio Ecumênico em Nicéia.

3.6 A POSIÇÃO FINAL DO CONCÍLIO NICENO


ACERCA DA DOUTRINA DA TRINDADE
Chegamos ao final dessa que foi a maior controvérsia da Igreja antiga, que
marcou para sempre o pensamento cristão através dos séculos e que, para
muitos, ainda não foi solucionado totalmente, entretanto, com a decisão final
do sínodo que se reuniu em Nicéia, o Cristianismo do IV século poderia, no
mínimo, ter uma posição formulada de como deveriam compreender a
natureza de Deus.
Diante de tudo que foi apresentado, houve um vencedor nesse Concílio, e ele
foi o bispo Atanásio. A proposta de Ário, que defendia que Cristo era apenas
uma criatura, foi considerada inadmissível. A defesa de Atanásio, baseada no
argumento de considerar que seria impossível Jesus salvar os homens se ele
não fosse Deus, acrescentou lhe a vitória para todo o mundo cristão do IV
século. Assim, o concílio formulou sua declaração que, a princípio, seria o
fundamento para a vida e a teologia cristã. As principais afirmações foram as
seguintes: (1) Cristo era verdadeiro Deus de Deus, o próprio Jesus era Deus
no mesmo sentido em que o Pai era Deus. (2) Cristo tinha a mesma
substância do Pai. A palavra grega usada nessa expressão (homoousios, de
homo, “mesmo” e ousia, “substância”). (3) Cristo foi gerado, não feito. Isto é,
Jesus nunca foi formado como as outras coisas e pessoas haviam sido criadas.
(4) Cristo se fez humano por nós homens e para nossa salvação. Essa
expressão sintetizou de modo sucinto a essência da preocupação de Atanásio.
[128]
Apesar dessa vitória gloriosa, a formulação nicena do ano 325 não obteve
imediatamente o consenso da Igreja. A lógica de Ário continuou a exercer um
forte apelo. Devemos considerar a importância de Ário para tal evento, pois
ao longo da história da Igreja têm surgido personagens como ele que têm
levado a Igreja através dos séculos a formular e sistematizar suas doutrinas e
canôn para melhor servir ao reino de Deus.
O concílio de Nicéia depois formulou sua declaração ou credo niceno ou
Atanasiano, visto que os estudiosos confirmam que Atanásio não foi o autor,
contudo é uma declaração que vai sintetizar todo o pensamento do mestre de
Alexandria.

Cremos em um Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas


visíveis e invisíveis;
e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai,
unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só
substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que
estão no céu e as que estão na terra; o qual foi por nós homens e por
nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem e sofreu e
ressuscitou ao terceiro dia, e subiu ao céu e novamente deve vir para
julgar os vivos e os mortos; e no Espírito Santo.[129]

Esse, que foi o primeiro credo desenvolvido e aceito, é considerado, depois


do credo apostólico, uma das formulações credais mais importantes do
Cristianismo. Nele se percebe claramente as propostas de Atanásio, que
demonstram que Cristo não é nenhuma criatura, antes Deus verdadeiro.
Também menciona a Pessoa do Espírito Santo não como um ser impessoal,
separado do Pai e do Filho ou apenas uma máscara do Pai que atuou na
história humana.
A maioria dos bispos presentes no Concílio assinou a confissão. Entre estes
também se encontravam os que, por causa de suas posições teológicas, não
poderiam nunca assinar tal documento, como foi o caso de Eusébio de
Cesáreia. O conceito “homousios”, incluído no credo pelo próprio
Constantino, escandalizava a muitos bispos e teólogos do Oriente. Até a
maioria dos arianos foi obrigado a subscrever o credo. Somente Ário e dois
de seus amigos se recusaram a assinar os documentos e por isso foram
excomungados, já que junto à confissão de Nicéia foram também emitidos os
juízos daqueles que não assinassem ou discordasse da confissão de fé nicena:
[130]

E a quantos dizem: “Ele era quando não era” e “Antes de nascer, Ele
não era” ou que “Foi feito do não existente” bem como a quantos
alegam ser o Filho de Deus “de outra substancia ou essência” ou
“feito” ou “mutável” ou “alterável”
A todos estes a Igreja Católica e Apostólica Anatemiza.[131]

Assim, a sentença foi emitida pelo Concílio a todos aqueles que professam
uma fé diferente da exposta publicamente em Nicéia. Certamente aquele ano
marcou para sempre a vida da Igreja pois, até hoje, é motivo de estudos,
críticas, curiosidades, desconfianças etc., visto que foi realizado durante o
império de Constantino. Entretanto, como temos estudado, o grande defensor
da fé aceita em Nicéia foi Atanásio, e a vitória foi da Igreja, sendo aceita até
hoje como a fundamentação para o teísmo cristão em todo o mundo.
Porém, a teologia ariana não foi totalmente vencida. Depois desses embates
surgiram os Concílio I e II, agora os de Constantinopla, do qual vão participar
uns 150 bispos com bem menos projeção do que o de Nicéia, porém vão
tratar de questões que abarcam a unicidade de Deus, a Pessoa do Espírito
Santo e, conseqüentemente, vão refletir na Pessoa de Cristo. Contudo não
iremos tratar nesse trabalho desses novos desdobramentos dos concílios na
Igreja, sugerimos que o leitor consulte a bibliografia que, certamente, aponta
obras que abrangem a continuidade dos concílios, promovendo o
enriquecimento da investigação sobre essa parte fascinante da história da
Igreja que são os Dogmas e Concílios.

4. A RELEVÂNCIA PRÁTICA DA DOUTRINA DA


TRINDADE

Apesar da vitória de Atanásio no Concílio de Nicéia no ano 325, reafirmando


a crença no Deus Único e Trino, ainda hoje tem surgido o desafio de tornar a
doutrina trinitária prática. É preciso resgatar a necessidade de tornar aplicável
essa doutrina que é o núcleo da fé cristã, pois quando uma doutrina
permanece só no campo cognitivo, está fadada ao fracasso e será esquecida.
Neste capítulo reafirmaremos a relevância da Doutrina da Trindade para a
liderança cristã, família e missão da igreja de Cristo.

4.1 A RELEVÂNCIA DA TRINDADE PARA A


LIDERANÇA CRISTÃ
Diante de vários exemplos que podem ser citados, observa-se que a
comunhão que existe nas “divinas pessoas” é o maior de todos, pois revela,
de forma perfeita, como deve ser a relação entre os cristãos e, especialmente,
aqueles que governam a casa de Deus.
Nosso Senhor enfatiza claramente a comunhão que deve existir na Igreja de
Deus, dizendo: “para que todos sejam um; assim como tu, ó Pai, és em mim,
e eu em ti, que também eles sejam um em nós; para que o mundo creia que tu
me enviaste.” (Jo 17.21). Essa comunhão existente entre o Pai e o Filho, é o
que a Trindade deseja que se reflita na vida da Igreja de todas as épocas.
Jesus orava naquele momento pelos seus discípulos contemporâneos e
também por aqueles que, no futuro, creriam Nele (Jo 17.20,21). O texto
ressalta essa unidade como sendo fator que revelaria a messianidade do Filho,
quando diz “para que o mundo creia que tu me enviaste.” (v.21) Então a
comunhão é crucial para o crescimento do reino de Deus na Terra. Como
bem disse Leonardo Boff: “Na Trindade o que faz a união dos divinos Três é
a comunhão entre eles e a completa entrega de uma Pessoa às outras. Da
mesma forma deve ocorrer na Igreja...” [132]
Ora, quando a Igreja de Cristo, em particular aqueles que a lideram[133],
compreenderem que a união é uma característica fundamental na vida divina
e que Deus, em sua intimidade, nunca esteve só, antes vive em comunhão de
pessoas, então passa a ser um desafio essa prática na vida cristã. Assim, a
partir dessa percepção, se terá uma vida cristã frutífera, pois geralmente
quando se começa a falar em comunhão se dá maior destaque ao aspecto
horizontal, isto é, o relacionamento fraternal; por que não começar essa
fundamentação sob uma ótica vertical? Uma comunhão que deve ter seu
princípio no próprio Deus Trino para, depois, refletir na, Igreja por fim, no
ministério? Pois uma vida cristã ou pastoral que não parar para repensar
nessa perspectiva tem, provavelmente, esquecido que a comunhão não
começa no homem, antes se inicia em Deus.
Esse equilíbrio deve partir de cada cristão e especialmente da liderança;
quando ele comprar a idéia de viver e refletir essa comunhão, então essa
proposta vai permear-se em toda a Igreja. A liderança cristã não deve ser
apenas uma, mas una em suas decisões administrativas, em suas posturas
junto à doutrina e no testemunho de companheiro que deve existir entre
aqueles que foram chamados para ser santo em Jesus, pois ninguém é uma
ilha, nem tão pouco o ministério pastoral.
Quando refletimos nas Escrituras sobre comunhão e o “não andar sozinho”,
então visualizamos Paulo em suas viagens missionárias, dificilmente o
veremos sozinho: num dado momento ele está com Barnabé (At 12.25);
depois em sua prisão ele tem a companhia de Silas (At 16.25); numa de suas
viagens se recusou a levar João Marcos (At 15.39), mas depois disse a
Timóteo que o trouxesse consigo, pois ele era útil para o ministério (2Tm
4.11) .
É preciso aprender com esses fatos da vida de Paulo, pois ao que parece, ele
nunca esteve sozinho em suas investidas ministeriais, mas sim acompanhado,
em comunhão com os irmãos de ministério. Por que, então, existem crentes
ou pastores que vivem ministérios solitários? Sem companheiros para orar,
ou para meditar na Palavra? Essa diversidade é necessária, pois amadurece o
povo de Deus e sua liderança na caminhada dura, porém gloriosa, que é a da
vida cristã, sempre buscando refletir a comunhão que existe no próprio Deus,
como disse Pedro Crisólogo: “Um só Deus, mas não solitário”.[134]
Pois, no momento em que se busca o diálogo, quebram-se as barreiras do
individualismo que já têm varrido o mundo caído, sem Deus! E que,
infelizmente, tem tentando entrar na Igreja de Deus, ao ponto de atingir
aqueles que foram chamados para serem os guardiões dela, a Igreja. Todavia
temos um Deus de comunhão, um Deus que, antes mesmo de tudo existir, já
mantinha uma perfeita comunhão, onde o Pai tem o Filho, o Filho tem o
Espírito Santo e o Espírito Santo tem a ambos, esperando o momento certo
para se auto-revelar a nós, para que também viéssemos compreender e
participar dessa comunidade maravilhosa, chamada Trindade.
À medida que nos abandonamos nas mãos de Deus, nossa identidade passa
ser uma responsabilidade dele e não mais nossa. Eu sou quem sou, não pelo
fato de não ser você, nem mesmo pela comparação que desde cedo faço em
relação aos outros, mas porque sou único diante de Deus, e é somente na
presença dele que me descubro verdadeiramente. A partir daí, a identidade
pessoal do homem não é afirmada pelo que faz ou tem, mas pelo que é na
relação com outro. É assim que a Trindade vive, é assim que as pessoas na
Trindade definem sua identidade. [135]Deus como Trindade transcendente o
conceito individualístico de pessoa numa forma radical. C.S Lewis escreve
que:

“... aprendemos da doutrina da Santíssima Trindade que alguma


coisa análoga à sociedade existe dentro do ser divino desde toda a
eternidade que Deus é amor; não no sentido da concepção platônica
de amor; mas porque nele a reciprocidade concreta de amor existe
antes dos mundos e é, por isto, compartilhada com as criaturas”.
[136]

Seria impossível para o homem viver fora dum sistema comunitário, pois
assim como seu Criador em sua natureza é comunidade, também a vida
daqueles que foram criados à sua imagem e semelhança (imago Dei) têm por
inerência uma vida em sociedade. Pois mesmo caído, o homem não perdeu o
reflexo do Deus Trino, porém, para refleti-lo perfeitamente, é preciso voltar-
se ao Deus único para que possa compreender que ele foi criado para viver
essa comunhão através de Cristo Jesus.
Deve-se observar também que na comunhão divina existe uma diversidade
que se chama na teologia de “Trindade Econômica”, isto é, uma Trindade
como se vê revelada na obra de redenção e na experiência humana[137]. É
também quando as pessoas da Trindade assumem suas atuações funcionais,
sem com isso aumentar ou diminuir nenhuma delas. Assim deve ser o desafio
para a vida da Igreja; ninguém é maior ou menor dentro do reino de Deus,
antes possuem funcionalidades diferentes. Onde o Pai envia o Filho, e o Pai e
o Filho enviam o Espírito Santo. (Jo 14.26).
Paulo deixa isso bem claro em sua carta de 1ª Coríntios 12 quando ele faz
alusão à unidade e diversidade do corpo de Cristo, onde todos os membros
mesmo sendo distintos são igualmente relevantes para o crescimento de todo
o corpo.
Todavia, temos em Jesus o exemplo máximo de ordem funcional, sem com
isso perder sua igualdade ontológica junto aos demais membros da Trindade,
antes veio ao mundo com o propósito de cumprir os desígnios do Pai, sendo
servo. Gene Wilker afirma que a principal lição que aprendeu foi que “Jesus
ensinou e personificou a liderança como serviço” [138]
Na missão trinitária, Jesus foi o único membro divino encarregado de
encarnar-se e assumir para sempre a natureza humana, e isto é algo tremendo!
O Deus infinito tornou-se humano. Temos uma pista de o que isso representa
na carta de Paulo aos Filipenses, no capítulo 2, que revela o caráter do reino
de Deus, um reino onde a diversidade e unidade em nada comprometem o
status das pessoas na Trindade; um reino de serviço, onde cada um tem sua
atuação na vida humana, assim deve ser a leitura de todos que pastoreiam o
povo de Deus.
Mas, infelizmente, hoje em dia muitos líderes não repensam sua postura à luz
da Trindade, a qual possui ricas aplicações para vida cristã, antes preferem
caminhar num ministério solitário, sem comunhão com outras pessoas,
pastores ou crentes outros ainda se colocam no pináculo de exaltação como
se fossem dono da Igreja, quando na verdade vão contra a proposta de
humilhação de Cristo, “que embora sendo Deus, não considerou que o ser
igual a Deus, era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo,
vindo a ser servo” (Fp 2.6). Cristo não queria assumir uma falsa encarnação,
como foi sugerido no VI século da Igreja por Nestório de Constantinopla,
antes Ele estava interessado em assumir o compromisso de resgatar o homem
perdido, e para tanto foi necessário tornar-se como um de nós. Como diz o
escritor Myer Pearlman “O Filho de Deus se fez filho do homem para tornar
os filhos dos homens filhos de Deus”. [139]
O interesse de Cristo era a glória do Pai (v.11)., Ele não exercia sua função
em conflito com a comunidade, antes veio cumprir sua missão para que a
Trindade tivesse a glória devida. Wilker corrobora dizendo:

Para Jesus, o modelo de liderança era o serviço. Ele jamais serviu a


si mesmo. Num primeiro momento, liderou como servo do Pai
celestial, o qual lhe dera a missão. Se observarmos a vida de Jesus
de um nível mais elevado, veremos que tudo o que Ele fazia estava a
serviço da sua missão. Sua missão principal era servir, não à sua
própria vontade, mas à vontade do Pai (Jo 6:38)[140]

Esse é mais um desafio para os cristãos e sua liderança. Buscar em meio à


diversidade um alvo em comum, a saber, o bem-estar de toda a comunidade,
da coletividade e não da individualidade que em nada reflete o Deus Trino,
pois sem a consciência de interdependência, mutualidade, reciprocidade e
serviço, jamais seremos capazes de desenvolver uma liderança com uma
perspectiva trinitária. Pois este é o grande desafio e mais alto ideal da
administração eclesiástica: buscar equilibrar os dons, talentos de cada um no
corpo de Cristo.

4.2 A RELEVÂNCIA DA TRINDADE PARA A


FAMÍLIA CRISTÃ
Para quem está acostumado com a situação atual da família, o título pode
aparecer estranho. O modelo para família é a Santíssima Trindade, isso
mesmo. E, por sua vez, o melhor modelo que temos para representar e revelar
o que é a Trindade, é a família humana, que vive sua vocação verdadeira.
É importante lembrar a citação de Paulo a Timóteo, (1Tm 3), quando o
Apóstolo vai instruir o seu filho na fé acerca das qualidades que o líder
precisa exercer. Uma delas é governar bem sua própria casa, pois como
poderia liderar outros se não consegue ser líder dentro de seu próprio lar?
O exemplo de líder no lar é mais importante do que qualquer relação trinitária
que o crente ou pastor deve desenvolver dentro da Igreja, pois se ele não
consegue manter sua família sob sua liderança em seus domínios, onde ele se
revela sem reservas, então será impossível para tal crente ter sucesso na
Igreja de Deus. Certamente foi isso que Paulo estava ensinando ao jovem
pastor Timóteo.
A instituição da família foi criada antes da própria Igreja de Deus, pois nos
remete ao princípio da criação, quando Deus criou Adão e Eva, os primeiros
a refletir a imagem do Deus Trino. No seu tratado do Mistério da Trindade,
Agostinho faz um comentário de Gn 1,26, dizendo que o homem foi feito à
imagem do Deus-Trino: imago Trinitatis[141]. Sendo assim, foi no jardim
que Deus institui, não só a família, mas o governo que deveria dominar sobre
todas as coisas, e institui Adão como o cabeça federal da raça humana
juntamente com Eva (Gn 1.28) o primeiro princípio de autoridade
criada pelo Deus Trino.
É nessa instituição que as pessoas envolvidas deveriam doar-se uma a outra
plenamente, amando-se mutuamente, respeitando a diferença do outro, sem
constrangimento ou medo, com a ajuda do Espírito Santo, pois somente assim
refletirá a natureza do próprio Deus, na qual reside um grande mistério, dois
tornam-se um, semelhante à Santíssima Trindade, quando Três são Um.
Todavia, os casais não refletirão simplesmente a Trindade por estarem
meramente casados, mas quando, estando no matrimônio, conseguem tornar-
se um. Como bem comentou Luiz Santabárbara quando diz: A imagem de
Deus mais autêntica não seria nem Adão nem Eva em separados, e sim Adão
e Eva juntos; ou, como preferiu dizer Gregório de Nazianzo, Adão e Eva e
Set: três pessoas e uma família.[142]
Nessa dinâmica relacional que deve existir na família, surge o amor, que é o
vínculo da perfeição (Cl 3.14) e, na construção desse amor, vem a
descendência que dará continuidade a esse reflexo que existe dentro da vida
trinitária, fazendo com que o homem assuma o papel de pai, o sustentador do
lar, o provedor da família, e a mulher com o papel de mãe. Sendo assim, cada
um passa a se preocupar com a terceira vida que ambos geraram. Outro fato
interessante é que cada um assume uma ordem funcional, sem com isso
perderem sua dignidade ou valor ontológico como humano, assumindo, na
vida prática, o modelo funcional da Trindade. Corroborando com essa
verdade Boff vai dizer:

Na família temos uma imagem, das mais ricas, da Santíssima


Trindade. Primeiramente existem os três elementos: pai-mãe-
criança. Em seguida há a distinção das pessoas. Um não é a outra.
Cada qual tem a sua autonomia e sua tarefa própria. Entretanto,
estão relacionados por laços vitais e fortes, como o amor.[143]

Conforme Boff é possível vivenciar essa realidade divina nos lares como
maridos, esposas e filhos[144]. Muitas vezes, porém, quando se fala de Deus,
ou de sua eternidade, como sendo tão distante dos crentes, como bem observa
Ed René: “Ai meu Deus!”, “Deus te acompanhe”, “Deus te abençoe”, “Deus
te ajude”, “Deus lhe pague”, “Deus te guie”, “Vai com Deus”, “Meu Deus do
céu”. “Deus para lá”, “Deus pra cá”. Na verdade, Deus é muito falado e
pouco experimentando. [145]
Mas, diante desse quadro, o desafio é criar pontes para tornar praticável essa
verdade eterna. Então se percebe que viver uma vida que reflita a comunhão e
o caráter de Deus, não é algo longínquo, antes está perto de todos os cristãos,
dentro de cada regenerado é somente praticar o que dantes foi revelado nas
Escrituras.
Infelizmente muitos perdem de aprender e alegrar-se na presença de Deus,
simplesmente por acharem impossível viver tal realidade trinitária, ou
acontece, até mesmo, de praticarem, mas não conseguem vislumbrar que
certas atitudes são o retrato vívido da comunhão das pessoas divinas.
Sendo assim, qualquer cristão que deseja ter sucesso na vida, precisa
considerar relevante a busca da reafirmação da doutrina da Trindade, não
somente em aspecto apologético ou histórico, mas também em aspecto
pessoal, familiar, social etc. É preciso resgatar nos púlpitos das igrejas a
necessidade de estudar essa Doutrina em campos mais íntimos de nossa vida.
Só a partir do momento que o cristão consegue superar as barreiras que o
impede de viver uma vida que refletia o Deus Triúno, será possível ter
comunhão na Igreja local, será possível viver uma dimensão de diversidade
dentro da comunidade de fé na qual ele está inserido.

4.3 A RELEVÂNCIA DA TRINDADE PARA A


MISSÃO
Não há conceito unânime, na teologia, em torno do termo missão.
Geralmente quando se fala de missão na Bíblia, em especial no Novo
Testamento, vem logo à mente, que esse ministério tem apenas um
representante maior, que é Cristo Jesus. Entretanto, se for feita uma leitura
mais acurada será visto que, na verdade, a obra missionária não é apenas um
serviço de uma pessoa, mas de Três, da Trindade.
Nas páginas do Antigo Testamento já vemos a atuação do Deus Trino
trazendo a salvação. Começa com a visita a Adão e Eva, quando eles pecam
no jardim do Éden. Lá, foi anunciada a solução para pecado (Gn 3.15). Desse
ponto ela floresceu até que se concretizou na cruz do Calvário. Dessa forma,
Deus, de maneira miraculosa, drástica e libertadora, entrou na história em
Jesus Cristo, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a
lei. Cristo Jesus, a segunda pessoa da Trindade tornou-se o grande Apóstolo
de Deus, o Profeta, Sacerdote e Rei. Ele era, realmente, o enviado.[146]
A essência trinitária permeia todas as Escrituras. É o Pai que envia o Filho e
ambos enviam o Espírito Santo, revelando assim o interesse do Deus único
em trazer o homem caído à comunhão trinitária novamente, como bem
comenta Gildásio Reis, analisando Mateus 28.16-20, dizendo: “A natureza
trinitária da missão e a natureza missionária da Trindade... assinala que a
missão não é, somente um mandato de Cristo sendo uma expressão do
processo de envio entre o Pai, Filho e o Espírito Santo”.[147]
É preciso resgatar a importância das missões para a Igreja de Cristo, pois é
um instrumento usado pelo Cristianismo para glorificar a Deus e fazê-lo
conhecido entre as nações, como o único Deus verdadeiro e soberano nos
céus e na terra. Pois se não houver uma reflexão da liderança, bem como de
todos os crentes, nessa verdade fundamental, haverá sérios desvios
doutrinários e teológicos no exercício do cumprimento da ordem missionária
de Cristo.
Ao falar sobre a origem da missão, Timóteo Carriker[148] diz que antes de
ter uma conotação humana ou como tarefa da igreja, a missão é
primeiramente uma categoria que pertence a Deus. Afirma que a missão antes
de ser da igreja, é missio Dei. É preciso entender que o homem não é o
personagem central quando se fala em missões. É verdade que Deus usa
agentes humanos para cumprir a grande comissão, porém nunca devemos
esquecer que o protagonista desse drama de alcançar o mundo perdido é o
Deus Trino e não o homem.
David Bosch entende exatamente assim, ele distingue entre missão e missões.
O primeiro conceito se refere à missio Dei. A missão de Deus diz respeito à
auto-revelação de Deus como aquele que ama este mundo de modo inefável e
absoluto. Descreve a ação de Deus através do povo de Deus e de sua presença
no mundo. Já o segundo, é concernente à ação missionária das igrejas, aos
seus programas e instituições, formas particulares de participação na missão
de Deus. [149]
Todavia, se a liderança, bem como toda a Igreja, viver mais intensamente na
dependência de Deus, isto é, evitando a auto-sucifiência e independência na
obra missionária, com muita humildade e orações, é que será possível ser
capacitado para participar dessa grande obra e se passará a compreender o
conceito primário de missões. É através Dele que os corações dos perdidos
são abertos para receber ao Filho, e é também tarefa do Espírito Santo:
convencer, iluminar as mentes dos caídos, trazê-los ao entendimento da cruz
de Cristo, que resultará na busca de respostas às suas indagações, em relação
à realidade última, significado para vida humana, esperança no futuro etc.
Essas respostas são de cunho espiritual e carecem necessariamente da atuação
do Deus Trino. Alan Roxburgh comentando sobre isso diz:

Se os cristãos conhecerem o mundo agora pela sua fé em Jesus


Cristo, então eles também o conhecerão como o mundo material que
foi criado tem sido resgatado por Deus Pai, Deus o Filho e Deus o
Espírito Santo. Perguntas sobre a natureza da realidade última e a
vida do ser humano são o âmago da busca humana por significado
ao redor do globo, hoje. Elas se apóiam na base das mudanças
volumosas e as mudanças de perspectivas deste nosso período da
história. A menos que entendamos o que está em jogo com estas
perguntas e como respondê-las como cristão, nossa missiologia não
penetrará de forma transformadora e redentora no âmago das
questões do nosso tempo. Estas não são questões frustrantes,
acadêmicas ou abstratas que interferem em um evangelho “puro” e
“simples”. Elas são os fundamentos para qualquer compromisso fiel
do evangelho com o mundo no qual vivemos.[150]

Portanto, é nesse contexto que os cristãos devem entender o propósito de


Deus com relação ao mundo, em que Ele se revela para tratar das
necessidades do ser humano. A Igreja faz parte dessa obra cujo papel é
anunciar as boas-novas de Deus. Paul Hilbert ao falar sobre a missão de Deus
afirma que a teologia de missões deve iniciar com Deus e não com os
homens. Trata-se da história da criação da queda e da redenção de Deus para
o mundo.[151]
Sendo assim, a Igreja, a partir do momento que compreende a natureza
trinitária de Deus, descobre que sua missão primária é glorificar a Deus e
anunciar sua glória no mundo através da mensagem transformadora do
evangelho de Cristo Jesus. Deus enviou seu Filho como uma expressão
concreta do seu amor pelo mundo. Ele não veio apenas para resolver os
problemas de natureza sociopolítica, mas veio para amar, e foi este amor que
fez dele um revolucionário. O propósito da missão de Jesus não era somente
dar pão aos famintos como se o homem fosse apenas corpo, ou salvar sua
alma do inferno como se fosse apenas um ser espiritual; seu propósito era
redimi-lo integralmente. [152]
Portanto, resgatar a importância da Doutrina da Trindade para Igreja cristã é
crucial. Essa iniciativa deve partir de cada crente e, certamente, refletirá em
toda a comunidade cristã, pois o pensar divino, é o agir em conjunto, é um
agir triúno, não é somente um que atua na obra da salvação, antes os Três;
não é apenas um que atua na obra missionária no mundo, antes são os Três.
Por que então se percebe um individualismo tão grande em muitas
comunidades de fé, onde somente um idealiza um projeto para Deus? E
somente um é que, às vezes, leva esse projeto ao seu desfecho? Infelizmente
se têm esquecido detalhes tão cruciais da intimidade divina, tais como: a
glória de Deus acima de tudo (1ª Co 10.31), a comunhão, o trabalho em
conjunto ou em comunidade, a riqueza da diversidade etc. (1ª Co 12.12-31).
E o que tem invadido a Igreja são as propostas do mundo pós-modernos que
não tem nada de Deus. (Rm 12.2)
Em toda a atividade da Igreja, se ela buscar refletir as implicações que
existem, e que são muitas na Trindade, e com humildade reconhecer que
muitos têm falhado em por em prática essa verdade fundamental, então será
mais uma doutrina que sairá dos núcleos acadêmicos com toda a sua teoria
bem passiva, para a prática ativa e determinada a sofrer as consequências por
viver e respirar uma perspectiva trinitária, fazendo assim, certamente, Deus
vai honrar a iniciativa e determinação do seu povo em buscar viver em seus
padrões. Sobre essa verdade, comenta Alan Roxburg:

Enquanto a confissão trinitária continuar apenas parecendo óbvia e


nós continuarmos comprometidos profundamente com uma fé
evangélica em um Deus que se apresenta como três indivíduos, a
Trindade geralmente fica banida ao nível de uma doutrina teológica.
É deixada para o campo dos teólogos acadêmicos para que estes
elaborem explicações sobre elas, ao invés de colocarmos esta
realidade como sendo modeladora da essência de uma missiologia
evangélica.[153]

Infelizmente muitas igrejas, missionários e cristãos que têm paixão pelos


povos perdidos, talvez não consigam cumprir o seu chamado pelo fato de não
viverem honestamente a essência de uma missiologia trinitária, de uma
missiologia que confia em Deus para suprir suas necessidades, num Deus
que, quando veio ao mundo, nasceu pobre, sem um berço para dormir sua
primeira noite (Lc 2.7), mas Ele veio! Sabe por que Ele veio? Porque Ele
confiava no Pai! Sabe por que muitos não vão? Porque não confiam no Pai,
antes confiam primeiramente no sustento. Então se deve perguntar: quem
chamou a Igreja para missões? Quem chamou o missionário? Não foi o Deus
supridor de todas as coisas? Não foi o Deus que disse que estariam com sua
Igreja todos os dias? (Mt 28.20). É preciso romper a incredulidade e o medo
dos corações para ir avante e cumprir, cabalmente, a vontade do Pai de fazer
discípulos entre todas as nações, pois a Igreja não está sozinha, ela tem
consigo o Emanuel, Deus Conosco. Corroborando com essa posição, Gildásio
diz: “...A presença permanente do Senhor ressuscitada em sua Igreja
missionária a sustentará e animará até que termine a era e seja completo o
triunfo do reino de Deus...” [154]
CONCLUSÃO

Diante dessa viagem na história da Igreja, foi possível, através dos muitos
escritos, autores e documentos da Igreja, descobrir que ao longo dos séculos a
Igreja de Cristo tem enfrentado muitos inimigos. Graças ao Deus Trino, ela
tem sido vitoriosa e tem conseguido fundamentar os pilares cristãos de forma
firme e louvável diante dos dilemas, seja teológico, seja perseguição imperial
etc. Cumprindo a palavra dita por Jesus: “edificarei a minha igreja, e as
portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18), e assim tem sido.
Também aprende-se que após a ascensão de Cristo e a morte dos apóstolos a
Igreja tem se mantido firme nos principais pontos doutrinários, em especial
na Doutrina da Santíssima Trindade, que é na verdade o núcleo da fé cristã,
como vai dizer Bernard Meunier: “é a partir do conceito que se tem de Deus
que se vai nortear a vida da Igreja”, pois aquilo que se crê será aquilo que
influenciará toda a nossa vida prática.
Entretanto deve-se questionar, diante de quase um século de controvérsia,
uma reunião como essa, sendo organizada pelo governo, tendo os principais
expoentes do pensamento cristão do IV século (tanto do Oriente como
Ocidente), participando de forma fervorosa, buscando respostas que fossem
convincentes e pudessem ser aceitas pelo Cristianismo da época, pergunto:
será que resolveu definitivamente a questão doutrina acerca de Deus? Será
que realmente foi necessário gerar uma ferida interna dessa magnitude,
quando na verdade a Igreja tinha acabado de sair de uma perseguição imposta
por Diocleciano? Conclui-se que sim!
Era necessário, então, determinar se a Doutrina da Trindade era o fundamento
para o teísmo cristão decidir em qual Deus o Cristianismo acreditava. Seria
ele impessoal? Seria uno solitário? Seria trino? Enfim, qual era o Deus que
deveria ser louvado nas igrejas, cantado nos hinos? A quem eram dirigidas as
orações no mais profundo sigilo do nosso coração? Ora, se viéssemos a crer
no Deus que fosse diferente daquele revelado nas Santas Escrituras, então
teríamos um Deus solitário, como poderia ele ter comunhão com os homens?
Então buscando ao longo da rica história da Igreja, os fundamentos que foram
determinantes à construção da Doutrina da Trindade, considera-se que eles
foram: A posição dos Pais Apostólicos, que são aqueles mestres que
sucederam imediatamente os discípulos de Cristo depois de suas mortes, foi
crucial, pois muitos deles foram discípulos aos pés de João, de Pedro etc.,
então são fontes humanas fiéis e acima de quaisquer suspeitas. Os Pais dos
primeiros séculos já possuíam uma formulação trina do Deus cristão, mesmo
sendo tímida, mas já entendiam que na Divindade exista Pai, Filho e Espírito
Santo; sendo assim, essas testemunhas foram determinantes para que a
Doutrina da Trindade tenha se tornado um dos principais fundamentos da fé
Cristã.
Outra fundamentação digna de nota foram os vocábulos e termos que foram
criados já no século II para compreender melhor a intimidade que existe no
Deus único, como a expressão “Trindade”, “Hipóstase” etc., que, mesmo não
sendo bíblicas, foram extremamente úteis para fazer compreensível a
proposta de homens como Tertuliano e Orígenes, que, sem medo de enfrentar
seus opositores no terreno dos conceitos, não recuaram diante das palavras de
caráter filosófico, colocando-as a serviço da fé; vale salientar que tais termos
antecedem os famosos concílios ecumênicos, uma vez que muitos ainda
entendem que a Doutrina da Trindade não faz parte dos primórdios da fé
cristã, sendo assim tais expressões estão livres dessa falsa acusação.
E não menos importante a posição de Constantino no desenvolvimento do
Concílio de Nicéia, pois foi possível desmistificar esse conceito de que a
formulação do pensamento trinitário se deu a partir de propostas e
posicionamento do próprio imperador. Mas como vimos, ele apenas deu o
suporte logístico que o sínodo carecia para que fosse possível reunir os
líderes nessa reunião global, sendo assim é pertinente esclarecer essa questão,
pois mostrará que a Doutrina da Trindade não foi formulada por cismas do
governo, se mantendo como fundamento da fé.
Tem-se ainda a contribuição dos mestres Atanásio e Hilário, que foram os
personagens mais ilustres nessa questão que inquietava o coração do
Cristianismo no IV século. Eles sim, foram responsáveis por convencer o
Concílio de que a Doutrina da Santa Trindade é bíblica e que seria impossível
haver salvação e paz se o Redentor também não detivesse plena divindade
juntamente com o Pai. Sendo assim, eles foram vitoriosos nesse que foi o
primeiro e o maior concílio ecumênico do Cristianismo do IV século.
A batalha teológica, que durou quase um século, tem mostrado que Deus tem
se auto-revelado aos homens para que eles saibam que o Deus do
Cristianismo, é o Deus Verdadeiro que deve ser aceito e defendido a partir de
um Deus que é comunhão, que tem em sua natureza o Pai, o Filho e o
Espírito Santo, e que ele sendo assim pode manter um relacionamento íntimo
com os seres finitos, os homens, o que evidencia que, desde toda a
eternidade, Deus nunca esteve sozinho.
Mesmo diante desse simples e básico trabalho, onde foram estudados e
pesquisados provas documentais, testemunhos, compêndios etc., nunca será
possível esquadrinhar a natureza desse Deus tremendo, antes é um eterno
mistério de profundidade abissal, que nos leva a contentar-nos humildemente
em aceitar o que as Escrituras revelaram para a edificação e, assim, silenciar,
lembrando da advertência de Calvino:

Entendamos que, se nos mistérios secretos da Escritura nos convém


ser sóbrios e modestos, certamente este que no momento tratamos
não requer menos modéstia e sobriedade; mas é preciso estar bem de
sobreaviso, para que nem nosso conhecimento,nem nossa língua vá
além do que a Palavra de Deus nos designou. Pois, como haja a
mente humana, que ainda não pode estatuir ao certo de que natureza
seja a massa do sol, que, entretanto se vê diariamente com os olhos,
de reduzir à sua parca medida a imensurável essência de Deus?
Muito pelo contrário, como haja de, por sua própria operação,
penetrar até a substância de Deus, a fim de perscrutá-la, ela que não
alcança nem ao menos a sua própria? Por cuja razão, de bom grado
deixemos a Deus o conhecimento de si mesmo, pois, além de tudo,
como o diz Hilário, ele próprio, que não foi conhecido, a não ser por
si mesmo, é de si mesmo a única testemunha idônea. Ora,
deixaremos com ele o que lhe compete se o concebermos tal como
ele se nos manifesta; e só poderemos inteirar-nos disto por
intermédio de sua Palavra.[155]

Por fim, diante da problemática que foi lançada por esse trabalho, considera-
se que a história da Igreja tem confirmado que a Doutrina da Trindade é parte
fundamental do teísmo cristão tanto de antes, como de hoje e para sempre; e
não somente isso, mas todos os cristãos são convidados hoje, agora, a viver
essa doutrina, seja na comunhão e diversidade da liderança na Igreja, seja na
família ou ainda nas investidas que se propõe a fazer para expandir o reino de
Deus (missão), como disse Leonardo Boff: “... Por causa da Santíssima
Trindade, somos convidados a manter relações de comunhão com todos,
dando e recebendo e juntos construindo uma convivência rica, aberta,
respeitosa das diferenças e benéfica para todos.”[156]
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[1] Teologias não-trinitárias tais como: Tabernáculo da fé fundado por William Marrion
Branham por volta do ano 1933. Ver:< http://
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[2] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005.
[3] EPÍSTOLA DE BARNABÉ. Disponível em:
<http://www.autoresespiritasclassicos.com /Evangelhos%
20Apocrifos/Apocrifos/1/28%20-%20Ep%C3%ADstola%20de%20barbabe.pdf>. Acesso
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[4] CLEMENTE ROMA. Cartas aos Coríntios. Disponível em:
<http://sumateologica.files.wordpress.
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[5] ORÍGENES. Comentário sobre o evangelho de João 2. Disponível em:
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[6] PASTOR DE HERMAS. Disponível em: <
http://www.amai.jc.nom.br/Pastor_de_Hermas.pdf>. Acesso em: 24 de fev. de 2011.
[7] SILVA, Rodrigo P. Um Dogma de Constantino? Disponível em:
<http: // www.centrowhite. org.br/antigo/textos. pdf/03/parousia_iii.pdf. >. Acesso em:
mai de 2010.
[8] MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica. Uma teologia
Cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
[9] OLSON, Roger E. História da Controvérsia na teologia Cristã: 2000 anos de
unidade e diversidade São Paulo: Vida, 2004.
[10] TAVARES, Sinivaldo S. Trindade e Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.
[11] MONDONI, Danilo. História da Igreja na Antiguidade. 2ª ed. São Paulo: Loyola,
2006.
[12] BETTENSON, H P. Documentos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: JUERP ⁄ASTE,
1983.
[13] CALVINO, João. As institutas ou tratados da religião cristã. Trad. Waldyr
Carvalho Luz, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana , S/C, 1985.
[14] BOWMAN, Robert M. Jr. Por que devo crer na Trindade. 2ª ed. São Paulo:
Candeia, 2001.
[15] SILVA, Esequias Soares da. Como responder às Testemunhas de Jeová. Vol. 1. 3ª
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[16] KEELEY, Robin, org. Fundamentos da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2000.
[17] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005.
[18] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
[19] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
[20] STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. Vol. 1. São Paulo: Teológica, 2002.
[21] O nome “pais apostólicos” tem sua origem na Igreja do Ocidente do século II. São
chamados assim, os homens que tiveram contato direto com os apóstolos ou, então, foram
citados por alguns deles. Instituto Cristão de Pesquisa. Ver: Pais Apostólicos. Disponível
em: <http://www.icp.com.br/51materia2.asp>. Acesso em: 25 de fev. de 2011.
[22] CLEMENTE ROMA. Cartas aos Coríntios. Disponível em:
<http://sumateologica.files.wordpress.com
/2010/02/clemente_romano_cartas_aos_corintios.pdf >. Acesso em: 23 de fev. de 2011.
[23] Ibid., p. 58.2.
[24] SILVA, Rodrigo P. Um Dogma de Constantino? Disponível em: <
http:/www.centrowhite.org.br/antigo/
textos.pdf/03/parousia_iii.pdf. p 7>. Acesso em: mai de 2010.
[25] INÁCIO ANTIOQUIA. Carta aos Efésios. Disponível em:
<http://www.tradicaocatolica.com.br/pais-da-igreja/tratados/25-carta-aos-efesios>. Acesso
em: 23 de fev. de 2011.
[26] LADARIA, f. Luis. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 137.

[27] ALTANER, Berthold – STUIBER Alfed. Patrologia: Vida, obras dos Padres da
Igreja 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 63.
[28] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005. p 138
[29] EPÍSTOLA DE BARNABÉ. Disponível em:
<http://www.autoresespiritasclassicos.com /Evangelhos
%20Apocrifos/Apocrifos/1/28%20-%20Ep%C3%ADstola%20de%20barbabe.pdf >.
Acesso em: 23 de fev. de 2011.

[30] PASTOR DE HERMAS. Disponível em: <


http://www.amai.jc.nom.br/Pastor_de_Hermas.pdf>. Acesso em: 24 de fev. de 2011.
[31] Ibid., p. 140.
[32] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 63.
[33] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 63.
[34] Ibid.,p. 51.
[35] Ibid.,p. 51.
[36] OLIVEIRA, Djalma. Os pais apologéticos Orientais (gregos) e Ocidentais
(latinos). Disponível em: <http://presbiterianoscalvinistas.blogspot.com/2010/08/os-pais-
apologeticos-orientais-gregos-e.html>. Acesso em: 09 fev. de 2010.
[37] JUSTINO. Diálogo com Trifon. Disponível em: <
http://www.newadvent.org/fathers/01285.htm>. Acesso em: 23 fev. de 2011.
[38] PERCÍLIA, Eliene. Mitologia Grega. Disponível em:
<http://www.brasilescola.com/mitologia/zeus.htm>. Acesso em 25 dez. de 2010.
[39] JUSTINO. Diálogo com Trifon. op.cit.,
[40] JUSTINO. Diálogo com Trifon. op.cit., 61.
[41] ALTANER, Berthold – STUIBER Alfed. Patrologia. Vida, obras dos Padres da
Igreja. 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 84.
[42] ANTENÁGORAS DE ATENAS. Petição em favor dos cristãos. Disponível em: <
http://www.4shared.com /document/REWuA7j2/Atengoras_de_Atenas_-_Petio_em.html>.
Acesso em: 23 de fev. de 2011.
[43] “Logos Imamente” é uma expressão que é usada para referir-se a ação de Deus no
mundo.
[44] Ibid., 10.
[45] ALTANER, Berthold – STUIBER Alfed. Patrologia. Vida, obras dos Padres da
Igreja. 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 86.
[46]TEÓFILO DE ANTIOQUIA. II Livro a Autólico. trad. Ivo Storniolo, Euclides M.
Balancin, Coleção Patrística Vol II Padres Apologistas Ed. Paulus. Disponível em:
<http://www. 4shared.com/get/kZlMpoEJ/ STefilo_de_Antioquia_-
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23 de fev. de 2011.
[47] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola.
2005, p. 60.
[48] TAVARES, Sinivaldo S. Trindade e Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, p.109.
[49] ORÍGENES. Comentário sobre o evangelho de João 2. Disponível em:
<http://origen-commentary-on-john-2.blogspot.com/>. Acesso em: 23 de fev. de 2011
[50] LOUSE, Bernhard. A fé cristã através dos tempos. São Leopoldo: Sinodal. 1972, p.
52.
[51] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 173.
[52] São eles; Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo são a nova
geração de crente que defende a fé trinitária, depois do Concílio de Nicéia.
[53] OLIVEIRA, Djalma. Os pais apologéticos Orientais (gregos) e Ocidentais
(latinos). Disponível em: <http://presbiterianoscalvinistas.blogspot.com/2010/08/os-pais-
apologeticos-orientais-gregos-e.html>.Acesso em: 09 fev. de 2010.
[54] TAVARES, Sinivaldo S. Trindade e Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, p. 105.
[55] Ibid.,105.
[56] OLSON, Roger E. História da Controvérsia na teologia Cristã: 2000 anos de
unidade e diversidade. São Paulo: Vida. 2004, p.189.
[57] LOUSE, Bernhard. A fé cristã através dos tempos. São Leopoldo: Sinodal, 1972, p.
50.
[58] Ibid., p 50.
[59]OLIVEIRA, Djalma. Os pais apologéticos Orientais (gregos) e Ocidentais (latinos).
Disponível em: <http://presbiterianoscalvinistas.blogspot.com/2010/08/os-pais-
apologeticos-orientais-gregos-e.html>. Acesso em: 09 fev. de 2010.
[60] Patripassianismo, termo forjado a partir de duas palavras latinas, parter (pai) e passio
(sofrimento, Paixão) passou a ser conhecida também por Sabelianismo, pois foi ilustrado
por um teólogo do século III, Sabélio. Ver. MEUNIER, Bernard ; 2005, p. 57.
[61] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 156.
[62] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 159.
[63] ALTANER. Berthold – STUIBER Alfed. Patrologia: Vida, obras dos Padres da
Igreja. 2ª Ed. São Paulo. Paulinas, 1988, p.171.
[64] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 164.
[65] Ibid., p 164, 165, 166.
[66] BOFF, Leonardo. A Trindade e a Sociedade. 5ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1999, p.
80.
[67] WALTKE, Bruce K. O’ CONNOR, Michael. An introduction to biblical Hebrew
syntax. Eisenbrauns: Winona Lake, Indiana 1990, p. 122.
[68] LASOR, William Sanford. Manual de Hebreo Bíblico. Bogotá: CLC. 2003, p. 120.
[69] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola.
2005, p. 59.
[70] Ibid., p.59
[71] MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica. Uma teologia
Cristã. São Paulo: Shedd Publicações. 2005, p. 375.
[72] BOFF, Leonardo. A Trindade e a Sociedade. 5ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1999, p.
81.
[73] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 60.
[74] Ibid., p. 60.
[75] ORÍGENES. Comentário sobre o evangelho de João 2. Disponível em:
<http://origen-commentary-on-john-2.blogspot.com/>. Acesso em: 23 de fev. de 2011.
[76] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 62.
[77] Ibid., p. 62.
[78] KEELEY, Robin, org. Fundamentos da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2000, p.
114.
[79] ELWELL, Walter A. Enciclopédia histórico-teológica da Igreja Cristã. São Paulo:
Vida Nova, 1984, p. 267.
[80] MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica. Uma teologia
Cristã. São Paulo: Shedd Publicações. 2005, p. 376.
[81] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 202.
[82] ELWELL, Walter A. Enciclopédia histórico-teológica da Igreja Cristã. São Paulo:
Vida Nova, 1984, p. 270
[83] Ibid., p. 270.
[84] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 205.
[85] ELWELL, Walter A. Enciclopédia histórico-teológica da Igreja Cristã. São Paulo:
Vida Nova, 1984, p. 270
[86] Ibid., p. 267.
[87] Concílio ecumênico em Nicéia, o primeiro da história a igreja (a palavra ecumênico
significa: que se refere a todo o mundo habitado, em grego oikouménè) ver. MEUNIER,
Bernard: 2005, p. 68.
[88] NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã, 2000, p. 52.
[89] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 342, 343.
[90] Ibid., p. 343.
[91] Ibid., p 342, 343.
[92] MONDONI, Danilo. História da Igreja na Antiguidade. 2ª ed. São Paulo: Loyola,
2006, p. 124.
[93] NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã, 2000, p.54.
[94] GONZALES, Justo L. A Era dos Gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1978, p. 30.
[95] HURLBUT, Lyman Jesse. História da Igreja Cristã. São Paulo: Vida, 1979, p. 70.
[96] LOUSE, Bernhard. A fé cristã através dos tempos. São Leopoldo: Sinodal, 1972, p.
56.
[97] MONDONI, Danilo. História da Igreja na Antiguidade. 2ª ed. São Paulo: Loyola,
2006, p. 124.
[98] Idid., p. 124 .
[99]SILVA, Rodrigo P. Um Dogma de Constantino? Disponível em:
<http: //www.centrowhite.org.br/antigo /textos.pdf/03/parousia_iii.pdf. p 7>. Acesso em:
09 fev. de 2010.
[100] Logos, termo grego traduzido por Verbo, “Palavra” em Jo 1.1,14. É uma expressão
filosófica que quer dizer “Razão”. É a expressão e o meio de comunicação da vontade, e
não há equivalente na linguagem moderna. João, emprega esse termo para mostrar de
maneira clara a deidade absoluta de Cristo. Ver. SILVA. Esequias Soares da. p. 34.
[101] Logoi, plural de Logos; alogoi, contrário a doutrina do Logos. Ver. SILVA.
Esequias Soares da. p. 35
[102] SILVA, Esequias Soares da. Como responder às Testemunhas de Jeová. Vol. 1. 3ª
ed. São Paulo: Candeia, 1995, p. 35.
[103] Ibid., p. 35.
[104] RINALDI, Natanael. Seitas Modalistas. Disponível em: <http://www. cacp.org. br
/seitasdiversas/ artigo. asp x? lng=PT-BR&article=410&cont=1&menu=8&submenu=1>.
Acesso em: 27 nov. de 2010.
[105] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.178.
[106] CAMPOS, Heber de Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos. São Paulo:
Cultura Cristã. 2ª Ed. 2002.
[107] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p 183.
[108] Ibid., p. 184.
[109] STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. Vol. 1. São Paulo: Teológica, 2002,
p. 489.
[110] NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã, 2000, p. 56.
[111] MOLTMANN, Jurgen. Trindade e o Reino de Deus. Rio de Janeiro: Vozes 2000,
p. 143.
[112] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.
178.
[113] SILVA, Esequias Soares da. Como responder às Testemunhas de Jeová. Vol. 1.
3ª ed. São Paulo: Candeia, 1995, p. 36.
[114] BOWMAN, Robert M. Jr. Por que devo crer na Trindade. 2ª ed. São Paulo:
Candeia, 2001, p. 43.
[115] NOLL. Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã, 2000, p. 58.
[116] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 72.
[117] Ibid., 72
[118] TAVARES, Sinivaldo S. Trindade e Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, p. 111.
[119] LOUSE, Bernhard. A fé cristã através dos tempos. São Leopoldo: Sinodal, 1972,
p. 66.
[120] TAVARES, Sinivaldo S. Trindade e Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, p. 112.
[121] MEUNIER, BERNARD. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 73.
[122] NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã. 2000, p. 61.
[123] NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã, 2000, p. 62.
[124] MEUNIER, Bernard. O Nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola,
2005, p. 73,74.
[125] TAVARES, Sinivaldo S. Trindade e Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, p. 113.
[126] Ibid., p 113.
[127] LADARIA, Luis F. O Deus vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 207.
[128] NOLL. Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. São Paulo:
Cultura Cristã, 2000, p.62.
[129] BETTENSON, H P. Documentos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: Editora JUERP
⁄ASTE, 1983, p. 55
[130] LOUSE. Bernhard. A fé cristã através dos tempos. São Leopoldo: Sinodal, 1972,
p. 58.
[131] Ibid., p. 59.
[132] BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a Melhor Comunidade. 9ª ed. São
Paulo: Vozes, 2004, p. 113.
[133] A igreja reflete o que seus lideres são, se eles vivem em comunhão a igreja refletirá
comunhão.
[134] SANTABÁRBARA. Luiz Gonzáles Carvajal. Notícias de Deus Pai! São Paulo:
Loyola, 1999, p. 174.
[135] LOSKY, Vladimir. A Trindade e a Espiritualidade. In: Ricardo Barbosa de Souza.
O caminho do Coração. Curitiba: Encontro, 1998, p. 71.
[136] Ibid., p. 78.
[137] BERKHOF, Louis.Teologia Sistemática. Campinas: Luz Para o Caminho, 2ª Ed.
2001, p. 80.
[138] WILKER, Gene C. Último Degrau da Liderança: Descobrindo os Segredos da
Liderança de Jesus. Trad. Neide Siqueira. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 21.
[139] PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1970,
p. 104.
[140] WILKER, Gene C. Último Degrau da Liderança: Descobrindo os Segredos da
Liderança de Jesus. Trad. Neide Siqueira. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 22.
[141] KIRCHNER, Luís. A trindade, arquétipo da família − a família, sacramento da
trindade. Disponível em:
<http://www.3pinformatica.com.br/redemptor/fotos/fotos/admin/imagens/
revistas/pdf/trindade.pdf>. Acesso em: 15 fev. de 2011.
[142] SANTABÁRBARA. Luiz Gonzáles Carvajal. Notícias de Deus Pai! São Paulo:
Loyola, 1999, p. 175.
[143] BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a Melhor Comunidade. 9ª ed. São
Paulo: 2004, p. 78,79.
[144] É preciso considerar que toda imagem, analogia ou exemplo que for dado na criação
para ilustrar a Trindade tende a ser problemática e paupérrima, pois não consegue de forma
plena demonstrar a natureza trinitária.
[145] KIVITZ. Ed René. Koinonia - Manual para líderes de pequenos grupos. 2 ed. São
Paulo: Press Abba, 1997, p.5.
[146] PETERS, George W. Teologia bíblica de missões. Rio de Janeiro: CPAD, 2000, p.
76.
[147] REIS, Gildásio. Paradigmas Missiológicos no Novo Testamento. Disponível em:
<http://www. monergismo. com/textos/missoes/paradigmas-missoes_gildasio.pdf > Acesso
em: 02 de mar. de 2011.
[148] CARRIKER, Charles Timothy, 1992, p163. apud BARBOSA, Resende Anderson.
Missões Numa Perspectiva Conceitual. Disponível em: <http://www. andersonbarbosa.
com.br/site/missoes-numa-perspectiva-conceitual/> Acesso em: 02 de mar. de 2011.
[149] ERVINO, Zwetsch Roberto. Missão como com-paixão. Disponível em: <
http://tede.est.edu.br/tede /tde_busca/ arquivo.php?codArquivo=61 > Acesso em: 02 de
mar. de 2011.
[150] ROXBURGH, Alan. Repensando a Missiologia Trinitária. In: TAYLOR, D.
William. Missiologia Global para o século XXI: A consulta de Foz do Iguaçu. Londrina:
Descoberta, 2001, p.254.
[151]HIEBERT, Paul G. O evangelho e a diversidade das culturas, 1999 p17. apud
BARBOSA, Resende Anderson. Missões Numa Perspectiva Conceitual. Disponível em:
< http://www.andersonbarbosa.com.br/site/ missoes-numa-perspectiva-conceitual/> Acesso
em: 02 de mar. de 2011.
[152] LOSKY, Vladimir. A Trindade e a Espiritualidade. In: Ricardo Barbosa de Souza.
O caminho do Coração. Curitiba: Encontro, 1998, p 75.
[153] ROXBURGH, Alan. Repensando a Missiologia Trinitária. In: TAYLOR, D.
William. Missiologia Global para o século XXI: A consulta de Foz do Iguaçu. Londrina:
Descoberta, 2001, p.254.
[154] REIS, Gildásio. Paradigmas Missiológicos no Novo Testamento. Disponível em:
<http:// www. monergismo. com/textos/missoes/paradigmas-missoes_gildasio.pdf >.
Acesso em: 02 de mar. de 2011.
[155] CALVINO, João. As institutas ou tratados da religião cristã. Trad. Waldyr
Carvalho Luz, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana , S/C, V. I. 13,21, 1985. p 162.
[156] BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a Melhor Comunidade. 9ª ed. São
Paulo: 2004. p 27.