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Pesquisa FAPESP junho de 2018

junho de 2018 | Ano 19, n. 268

boeing
e
embraer
Por que a empresa brasileira, com 4 mil engenheiros e
46 modelos de aviões fabricados em quase 50 anos,
é cobiçada pela companhia norte-americana

Leishmaniose Quem são e País tem seus Corrida pelo Há 70 anos, ​​


visceral o que pensam primeiros etanol de cientistas
avança rumo filiados dos unicórnios, 2ª geração se uniam
Ano 19  n.268

aos grandes 10 maiores startups que enfrenta para


centros partidos valem mais de obstáculos fundar
urbanos políticos US$ 1 bilhão tecnológicos a SBPC
ilustração freepik
Está no ar o novo site de
Pesquisa FAPESP
A nova versão ficou com visual mais Além de reproduzir o material da
leve e navegação facilitada. revista mensal impressa, o site
oferece ainda notícias exclusivas,
Na home o conteúdo vem em blocos, vídeos, podcasts, galerias de imagens
bastando rolar para ter rapidamente e todo o acervo com mais de
uma visão geral. 20 anos desde o primeiro Notícias
As imagens estão valorizadas, com FAPESP, gratuitamente.
maior equilíbrio entre o conteúdo Continuam disponíveis as reportagens
visual e o narrado. da revista impressa traduzidas para
Com o novo design, o site passa a ter inglês e espanhol.
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Batalha no vegetal
O fungo amarelo da foto, ainda não descrito, foi retirado da planta
Baccharis oblongifolia, assim como cerca de 60 outras espécies. Cultivado
junto com o fungo Fusarium oxysporum (rosa), que costuma atacar vegetais,
o habitante da planta funcionou como barreira e impediu que o outro,
nocivo a ela, ocupasse toda a placa de Petri. A bióloga Luiza Cheliz
Rodrigues tem estudado as propriedades desses fungos que vivem nas
plantas na defesa contra patógenos e os possíveis usos medicinais
das substâncias que produzem.

Imagem enviada por Luiza Cheliz Rodrigues, estudante de


mestrado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo

PESQUISA FAPESP 268 | 3


junho  268

CAPA POLÍTICA DE C&T 44 Pediatria 64 Biotecnologia


Boeing e Embraer Transplante de medula Ferramenta baseada na
discutem a união de 34 Inovação óssea é alternativa para técnica de RNAi pode
Brasil se destaca em estudo tratar Ipex auxiliar no combate a
seus negócios
sobre startups criadas por pragas agrícolas
p. 18 recém-formados 47 Geociências
Campo magnético mais 68 Empreendedorismo
Novas empresas 37 Difusão fraco estimula debate Começam a surgir as
querem disputar o Nova revista de sobre risco de os polos primeiras empresas de base
inteligência artificial  se inverterem tecnológica bilionárias
mercado mundial
é alvo de boicote no Brasil
de aviação 50 Física
p. 24 Vibrações acústicas dos
CIÊNCIA átomos de materiais sólidos HUMANIDADES
Engenharia podem apresentar spin
brasileira é motivo
40 Saúde pública 72 Ciência política
Leishmaniose visceral 52 Arqueologia Inédito, estudo revela
de cobiça da gigante avança rumo a grandes Povo pré-histórico que quem são os militantes
norte-americana centros urbanos viveu em área hoje no Sul partidários
p. 26 do país amamentava filhos
por até dois anos

ENTREVISTA 54 SBPC
Igor Pacca Há 70 anos, associação de
Físico abriu cientistas era fundada
caminho para a
pesquisa em
geofísica no Brasil TECNOLOGIA
p. 28
58 Bioenergia
Etanol de segunda geração
demora em alcançar
viabilidade econômica

p. 8
Foto da capa  embraer
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Leia no site todos os textos da revista em português, inglês
e espanhol, além de conteúdo exclusivo

vídeo  youtube.com/user/pesquisafapesp

p. 72

78 Fotografia O mundo mediado por algoritmos


Livro reúne imagens de Como e por que os algoritmos têm impacto
revoltas e compõe narrativa crescente no cotidiano
histórica sobre o Brasil bit.ly/vAlgoritmos​
p. 47
84 Ecologia
Mostra sobre a
Amazônia aproxima
arte e ciência 90 Obituário
Alexandre Wollner e
88 Música o moderno conceito
Características formais de identidade visual
das canções de ninar
inserem bebê em contexto 92 Memória
cultural e afetivo Busca por petróleo
   contribuiu para a criação
dos cursos de geologia
SEÇÕES
95 Carreiras Prefeito ambivalente
3 Fotolab Alunos da rede pública Reforma do início do século XX pretendia
de Campinas traçam integrar população ao centro do Rio de Janeiro
6 Comentários caminhos profissionais a bit.ly/2HwY7Vv
partir do ProFIS
7 Carta da editora

8 Boas práticas podcast  bit.ly/PesquisaBr


Biólogo acusado de
manipular imagens ganha Especialistas em
chance de se reabilitar nutrição, saúde e
na produção
11 Dados e conservação de
Publicações científicas: alimentos debatem
Brasil, São Paulo e países os riscos de alimentos
selecionados ultraprocessados
bit.ly/especialalimentos
12 Notas
p. 88
Conteúdo a que a
comentários cartas@fapesp.br
mensagem se refere:

Revista impressa
todos os alunos participem de todos os traba-
Reportagem on-line lhos sem contribuições expressivas para o
texto, visando aumentar a produção individual
Galeria de imagens
de cada envolvido. Apesar de eticamente re-
Vídeo provável, tal atitude tem aumentado nos úl-
timos anos, uma vez que concursos tendem a
Rádio
privilegiar candidatos com maior número de
publicações. Esse comportamento passa ao
largo da contribuição da ciência.
contatos Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ

revistapesquisa.fapesp.br
Muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre o re-
redacao@fapesp.br
Amazônia pré-histórica conhecimento da contribuição intelectual em
PesquisaFapesp
Já estive em um sítio desse dentro da flo- um artigo científico. Gosto muito da proposta
PesquisaFapesp resta (“Mais gente na floresta”, edição do sistema CRediT. Seria ótimo se as revistas
pesquisa_fapesp 267). A impressão que tive foi de que os pés e os autores o adotassem.
Pesquisa Fapesp de jarina mais antigos tinham sido plantados. Juliana Reis
Gesileu Phaspy Ninawa
pesquisafapesp

cartas@fapesp.br Vídeos
R. Joaquim Antunes, 727 Algoritmos Dá até uma dor no coração (vídeo “Prefei-
10º andar
Há um problema em como alguns desses to ambivalente”). O nosso Rio de Janeiro
CEP 05415-012
São Paulo, SP
algoritmos do Facebook trabalham e “es- continua à mercê da especulação e abandono.
colhem” o que mostrar (“O mundo mediado Ruth Claudia
Assinaturas, renovação por algoritmos”, edição 266). Mas nada tira
e mudança de endereço a beleza da matemática aplicada nisso. Língua é vida. Um território onde todo
Envie um e-mail para Francisco Junqueira mundo contribui sempre (vídeo “A rique-
assinaturaspesquisa@
za da língua falada”). O que seria dela sem o
fapesp.br
ou ligue para seu poder de variação?
(11) 3087-4237, Autoria de conveniência Kassia Mariano
de segunda a sexta, Muito interessante o texto “Crédito a quem
das 9h às 19h merece” (edição 266) na seção Boas Prá- Ótima exposição. Grande Ataliba de Cas-
ticas. Além das quatro condutas de autorias tilho! Capaz de transformar uma expli-
Para anunciar 
Contate: Paula Iliadis 
consideradas reprováveis, existe mais uma cação científica em exposição que todo falan-
Por e-mail: que merece destaque por ser a mais danosa te de português compreende.
publicidade@fapesp.br nos dias de hoje, particularmente entre estu- Vanderci Aguilera
Por telefone: dantes de pós-graduação: a autoria de conve-
(11) 3087-4212 niência (convenience authorship). Não são Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas
poucos os laboratórios que estimulam que por motivo de espaço e clareza.
Edições anteriores
Preço atual de capa
acrescido do custo de
postagem.
Peça pelo e-mail: Mais lida do mês no Facebook
clair@fapesp.br
capa

Licenciamento Mais gente na floresta bit.ly/ca267n


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e imagens 192 reações
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Mariana Cabral

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Por telefone:
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6 | junho DE 2018
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
carta da editora
José Goldemberg
Presidente

Eduardo Moacyr Krieger


vice-Presidente

Embraer no divã
Conselho Superior

Carmino Antonio de Souza, Eduardo Moacyr


Krieger, Ignacio Maria Poveda Velasco, fernando
ferreira costa, João Fernando Gomes de Oliveira,
José Goldemberg, Marco Antonio Zago, Marilza
Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, Pedro
Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski,
Vanderlan da Silva Bolzani
Alexandra Ozorio de Almeida | diretora de redação
Conselho Técnico-Administrativo

Carlos américo pacheco


Diretor-presidente

Carlos Henrique de Brito Cruz

O
Diretor Científico

fernando menezes de almeida s dilemas da Embraer são o tema vo – projetou 37 dos 46 modelos de avião
Diretor administrativo
do trio de reportagens que com- que fabricou em seus 49 anos. Reportagem
põe a capa desta edição (página à página 26 trata das engenharias das duas
18). A Embraer nasceu como empresa es- empresas e a da página 24 traz um pano-
issn 1519-8774
tatal em 1969, após um longo período de rama do mercado internacional de aviação.
assimilação e desenvolvimento de compe- Se a fabricação de aviões tornou o Bra-
Conselho editorial
Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, tências essenciais no antigo Centro Tecno- sil mundialmente conhecido, a produção
Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger,
Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia Tavares de lógico da Aeronáutica (1946) e no Instituto de etanol vem sendo há 40 anos uma área
Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira

comitê científico
Tecnológico de Aeronáutica (1950); em em que o país também se destaca. Esse
Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente),
Anamaria Aranha Camargo, Ana Maria Fonseca Almeida,
1994 a empresa foi privatizada e ganhou protagonismo pode ganhar novos contor-
Carlos Américo Pacheco, Carlos Eduardo Negrão, Fabio Kon,
Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Francisco Rafael Martins
novo impulso, alcançando um desempe- nos com a superação dos desafios tecno-
Laurindo, José Goldemberg, José Roberto de França Arruda,
José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luiz Nunes de
nho comercial que, na década seguinte, lógicos enfrentados pelas empresas pro-
Oliveira, Marie-Anne Van Sluys, Maria Julia Manso Alves, Paula
Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Robles Reis
fez dela a terceira maior fabricante de dutoras de etanol de segunda geração, ou
Queiroz, Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli
jatos comerciais do mundo. Às vésperas etanol celulósico, que são objeto de exten-
Coordenador científico
Luiz Henrique Lopes dos Santos
de seu cinquentenário, a empresa estuda sa reportagem do editor Fabrício Marques
diretora de redação nova mudança estrutural. (página 58). As dificuldades variam de
Alexandra Ozorio de Almeida
O dilema principal que a Embraer en- acordo com o tipo de insumo (bagaço ou
frenta resulta da proposta de compra da palha de cana) e as empresas correm para
editor-chefe
Neldson Marcolin

Editores Fabrício Marques (Política de C&T), maioria das ações pela gigante global do obter leveduras mais eficientes e baratas,
Glenda Mezarobba (Humanidades), Marcos Pivetta (Ciência),
Carlos Fioravanti e Ricardo Zorzetto (Editores espe­ciais), setor, a norte-americana Boeing. A empresa equipamentos mais resistentes e processos
Maria Guimarães (Site), Bruno de Pierro (Editor-assistente)

repórteres Christina Queiroz, Rodrigo de Oliveira Andrade


de Seattle promete aportar novos recursos de produção mais rápidos, com vistas a
e Yuri Vasconcelos financeiros, comerciais e tecnológicos. Por tornar o etanol celulósico competitivo com
redatores Jayne Oliveira (Site) e Renata Oliveira
do Prado (Mídias Sociais)
outro lado, a autonomia da empresa bra- outros combustíveis, fósseis ou renováveis.
arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de
sileira ficaria comprometida. Enquanto Geociências é o tema de três textos des-
infografia), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Assistentes)
alguns especialistas ouvidos pelo repórter ta edição. Em entrevista, Igor Pacca conta
fotógrafos Eduardo Cesar e Léo Ramos Chaves
Yuri Vasconcelos defendem que a Boeing sobre as origens da pesquisa institucio-
tem mais a ganhar com a associação, e que
banco de imagens Valter Rodrigues
nalizada em geofísica em São Paulo. Um
Rádio Sarah Caravieri (Produção do programa Pesquisa Brasil)

revisão Alexandre Oliveira e Margô Negro


o futuro da Embraer não depende de um dos primeiros professores do Instituto
Colaboradores Alexandre Affonso, Elisa Carareto, Estúdio
possível acordo, outros dizem o inverso. de Astronomia, Geofísica e Ciências At-
Rebimboca, Fabio Otubo, Henrique Campeã, Márcio Ferrari,
Renato Pedrosa, Suzel Tunes, Victória Flório
O dilema do governo brasileiro não é mosféricas (IAG) da Universidade de São
Revisão técnica Luiz Nunes de Oliveira, Maria Beatriz
menor do que o da empresa. Na privatiza- Paulo, dedicou-se ao campo do paleomag-
Borba Florenzano, Ricardo Trindade, Sérgio Robles Reis Queiroz,
Walter Colli
ção, o Estado reteve uma ação com direitos netismo, o estudo da história da Terra e
especiais (golden share), entre eles o poder do movimento dos continentes através
É proibida a reprodução total ou parcial
de textos, fotos, ilustrações e infográficos
de veto sobre mudanças na estrutura so- da evolução do campo magnético do pla-
sem prévia autorização cietária. Além de aeronaves comerciais, a neta (página 28). Esse campo magnético
Tiragem 28.880 exemplares
IMPRESSão Plural Indústria Gráfica Embraer desenvolve desde a sua origem é gerado por um oceano de ferro líquido
distribuição Dinap
aviões militares e mais recentemente pas- no núcleo da Terra, que cria um imenso
GESTÃO ADMINISTRATIVA FUSP – FUNDAÇÃO DE APOIO À
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO sou a se dedicar também a soluções na área ímã bipolar. Reportagem à página 47 fala
PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727,
10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP
de defesa; uma eventual associação pode- da redução da intensidade desse campo,
FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, ria criar dificuldades para esses projetos. que possibilitaria nova inversão dos po-
Alto da Lapa, São Paulo-SP
Outra questão crucial envolve o destino los magnéticos do planeta, fenômeno que
do corpo técnico do que é considerada a joia ocorreu pela última vez há 780 mil anos.
Secretaria de Desenvolvimento Econômico,
Ciência e Tecnologia

da engenharia brasileira. Nenhuma empresa A seção Memória (página 92) resgata a


Governo do Estado de São Paulo

tem uma proporção tão alta de engenheiros história da criação dos primeiros cursos
entre seus funcionários e um histórico de de geologia no Brasil, impulsionados pela
pesquisa e desenvolvimento tão expressi- busca de petróleo.

PESQUISA FAPESP 268 | 7


Boas práticas

Uma segunda chance


Biólogo demitido da Universidade de Tóquio por manipular imagens recebe
treinamento oferecido por britânico vencedor do Nobel

O
biólogo celular Yoshinori Watanabe, especialista nos artigos, mas nega ter agido de má-fé. “Depois de
em dinâmica dos cromossomos reconhecido um período de reciclagem, espero encontrar um lugar
internacionalmente, foi demitido da para retomar minha carreira científica”, afirmou.
Universidade de Tóquio em abril, após uma investigação O expediente de submeter acusados de má conduta

fotos 1 Elliott Brown / flickr 2 SEIMI TSUTSUI  3 Steven Haywood  ILUSTRAÇão henrique Campeã
concluir que ele modificou imagens e mesclou dados de a processos de reabilitação não é inédito. Entre 2013 e
forma indevida em cinco artigos publicados entre 2008 e 2017, 61 pesquisadores responsabilizados por plágio,
2013. Mas Watanabe – que ingressou na universidade falsificação ou fraude participaram de uma iniciativa
em 1984 na graduação e lá fez toda a carreira – ganhou patrocinada pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH)
uma oportunidade incomum de recomeçar. Trocou dos Estados Unidos que oferecia treinamento e
Tóquio por Londres e, desde o dia 16 de abril, pode ser acompanhamento (ver Pesquisa FAPESP nº 246).
encontrado nas instalações de design futurista do Na maioria dos casos, as irregularidades não tinham
Instituto Francis Crick, centro de pesquisa biomédica sido intencionais e envolviam condutas negligentes ou
dirigido pelo bioquímico britânico Paul Nurse, ganhador desconhecimento de regras. O caso de Watanabe é
do Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2001. único por envolver um pesquisador familiarizado com
Nurse, que foi supervisor de Watanabe em boas práticas científicas – e por atrair a simpatia de
um pós-doutorado nos anos 1990, considerou que o um Nobel. É a primeira vez que o Instituto Francis
ex-pupilo merecia uma segunda chance e o convidou a Crick oferece suporte para reabilitar um pesquisador.
receber treinamento com foco no uso de ferramentas Não há planos de repetir a experiência.
automatizadas para coleta e análise de imagens – A punição ao biólogo foi o ápice de uma crise que
habilidades que, segundo o acusado, faltaram-lhe na agita há dois anos a Universidade de Tóquio, uma
elaboração dos artigos. “A comunidade científica e as das mais importantes do Japão, com 28 mil alunos
instituições precisam refletir melhor sobre como lidar espalhados por cinco campi. Em 2016, foi divulgado um
com casos de reabilitação desse tipo”, disse Nurse à dossiê anônimo que apontava irregularidades em seis
revista Nature. Watanabe admite que cometeu erros laboratórios da instituição. Investigações foram abertas

8 | junho DE 2018
e confirmaram as acusações contra
apenas um dos grupos, o de Watanabe.
Cinco de seus sete papers apontados
como suspeitos continham imagens
manipuladas, dois deles publicados na
revista Science, outros dois na Nature
e um no periódico Embo Reports.
Yuji Tanno, um dos assistentes de
Watanabe, foi responsabilizado pela
manipulação de um dos artigos, mas
o relatório da investigação observou
que ele recebeu aconselhamento
inadequado do mentor.

Financiamento suspenso
Desde que as denúncias se tornaram
públicas, a equipe de Watanabe
na Universidade de Tóquio se
desmanchou. Os 15 pesquisadores que
trabalhavam com ele se transferiram
para outros laboratórios e seu 1

principal projeto de pesquisa teve o Instalações do Instituto Francis


financiamento de US$ 3,7 milhões Crick, onde o biólogo japonês
recebe treinamento em coleta
suspenso. Um editorial publicado no até ensinava os alunos a manipular as e processamento de imagens
jornal anglófono Japan Times citou imagens. Um dos artigos da Science,
o escândalo como reflexo da queda publicado em 2015, já sofreu retratação.
dos indicadores de desempenho Outro, o da Embo Reports, ganhou
científico do país e de cortes uma errata. O pesquisador admitiu A contribuição científica do
orçamentários que aguçaram a disputa os problemas, mas alegou que as pesquisador japonês ajuda a explicar
por financiamento entre grupos de manipulações não buscavam enganar a solidariedade que recebeu. Iain
pesquisa: “Por trás da má conduta pode ninguém nem comprometiam as Cheeseman, do Instituto Whitehead
estar o desejo do pesquisador e de seu conclusões dos artigos. “Assumo de Pesquisa Biomédica, em Cambridge,
laboratório de obter fundos de pesquisa a responsabilidade pelos erros Estados Unidos, saiu em defesa de
até mesmo inventando resultados”. de processamento de dados que Watanabe em uma entrevista à revista
As pesquisas de Watanabe detalham ocorreram em artigos do meu Nature no ano passado, quando o
interações entre proteínas que grupo. Admito que as etapas de escândalo veio à tona. “Watanabe é
orientam a separação de cromossomos. processamento foram impróprias um gigante da ciência e fez um
Nos papers em questão, as imagens para os padrões internacionais, trabalho realmente inovador para a
que mostrariam proteínas envolvidas independentemente de seus efeitos nos compreensão dos processos de
em um experimento foram alteradas resultados finais”, escreveu Watanabe meiose e mitose. Seus achados foram
de modo a torná-las mais convincentes. em um pedido público de desculpas. validados e seguem sendo centrais
Dados de origens diferentes também para a nossa compreensão da divisão
foram combinados de modo impróprio celular”, disse Cheeseman, que
em um gráfico. A investigação da destacou descobertas como a de
Universidade de Tóquio mostrou que uma proteína que tem um papel na
Watanabe agiu de forma deliberada e segregação de cromossomos.
Cheeseman usou sua conta no Twitter
para explicar melhor sua posição e
fez críticas ao colega: “É fundamental
agir de forma transparente na hora
de preparar imagens. Watanabe
manipulou seus dados de forma
desleixada e inadequada”. Observou,
contudo, que há confusão em relação
3
a técnicas consideradas aceitáveis
Demitido, Watanabe de tratamento de imagens e que as
recebeu do seu
ex-supervisor Nurse (acima)
conclusões dos estudos de Watanabe
a oportunidade de não foram maculadas pela
2 se reciclar em Londres manipulação. n Fabrício Marques

PESQUISA FAPESP 268 | 9


Armadilhas que geram casos de má conduta

Em um artigo de opinião desfavorável do conjunto de


publicado na revista Nature, a resultados – e não mais do que
advogada C. K. Gunsalus, diretora isso. Outro é manipular, por
do Centro Nacional de Ética exemplo, imagens, sabendo
Profissional e de Pesquisa que isso não tem impacto nas
da Universidade de Illinois em conclusões do experimento.
Urbana-Champaign, Estados A lista segue com hábitos ligados
Unidos, enumerou armadilhas que à inexperiência, como cometer
frequentemente levam estudantes erros por se sentir constrangido
e pesquisadores a tomar decisões a admitir desconhecimento
equivocadas e se envolver em sobre práticas corriqueiras;
episódios de má conduta científica ou acreditar de forma temerária
– e exortou líderes acadêmicos na veracidade de um resultado
a construir soluções para apenas porque trabalhou duro
manter a situação sob controle. para obtê-lo; ou ainda imaginar
Parte dos problemas se que um experimento deu resultado
relaciona a maus costumes negativo porque o pesquisador
praticados por quem exerce poder. necessariamente cometeu um
Uma das armadilhas, que Gunsalus equívoco em sua execução.
batizou de “pressão do grupo ou O repertório de armadilhas
da autoridade”, consiste em fazer se completa com dois duas estratégias. Uma é avaliar

ILUSTRAÇão henrique Campeã


vista grossa para irregularidades comportamentos bastante de forma prática até que ponto sua
praticadas por líderes de pesquisa conhecidos: cometer exageros cultura de pesquisa realmente
– como, por exemplo, executar na divulgação de achados de valoriza a integridade. “A segunda
instruções diferentes das pesquisa ou fatiar os resultados é o desenvolvimento de uma
aprovadas em protocolos clínicos de um experimento para gerar educação em ética de pesquisa
–, imaginando que, afinal, o chefe vários artigos. Segundo Gunsalus, relevante e integrada à forma
do laboratório é experiente dirigentes de universidades podem como os estudantes aprendem a
e sabe o que está fazendo. Outra controlar esses problemas com fazer ciência”, recomendou ela.
armadilha apontada é a “tentação”,
o ímpeto de participar de arranjos
atraentes, mas viciados, a exemplo
de aceitar ter o nome incluído O golpe da falsa carta de confirmação
em um artigo mesmo sem ter
contribuído de forma significativa
para a pesquisa. Gunsalus A Sociedade Americana dos chegavam às mãos dos editores
menciona um caso real, em que Engenheiros Civis (Asce), que das revistas para serem avaliados.
um estudante de pós-graduação edita mais de 30 periódicos Dos sete pesquisadores
que apenas havia checado técnicos e científicos, tomou ludibriados, dois eram do Irã e
os dados de um manuscrito já conhecimento de um golpe que cinco da China. Angela Cochran,
concluído teve seu nome utilizou o nome de suas revistas. diretora de periódicos da Asce,
adicionado como autor pelo chefe Pelo menos sete pesquisadores propôs em um post do blog The
do laboratório e ficou lisonjeado, foram contatados por supostas Scholarly Kitchen que, além das
sem saber que se tratava empresas de edição de manuscritos taxas e prazos envolvidos no
de uma manobra do autor para científicos – a origem de processo, os editores de revistas
reapresentar um artigo rejeitado uma delas é a China – que se científicas exponham de forma
porque a revista estranhara propunham a ajudar na publicação mais transparente em seus sites
haver apenas uma assinatura de papers em revistas da Asce e as regras para apresentação de
em um trabalho complexo. cobraram uma taxa para fazer um manuscrito – deixando claro,
O rol de armadilhas também o serviço. Pouco tempo depois, por exemplo, que o texto só pode
inclui comportamentos antiéticos os autores receberam uma carta ser enviado para um endereço
que, por envolverem aspectos de confirmação com o timbre específico da publicação e que toda
secundários da pesquisa, acabam das revistas e a data prevista de a correspondência entre autor e
vistos como toleráveis. Um publicação – que jamais aconteceu. editores virá de e-mails gerados
deles é excluir um único dado Os manuscritos nem sequer por esse sistema de submissão.

10 | junho DE 2018
Dados Publicações científicas:
Brasil, São Paulo e países selecionados

Publicações e % do total – Brasil


Foram publicados 53.373 trabalhos
científicos1 em 2016 com pelo menos um n Publicações  n % do total mundial
autor no Brasil, quantidade 4,3 vezes
2,58%
maior do que a de 2000. Desse total, 42% 60.000 3,0%
2,34% 2,39% 2,46%
dos trabalhos, ou 22.672, tinham autores 50.000 2,22% 2,5%
1,74%
1,65% 48.327 53.373 2,0%
no estado de São Paulo. Pesquisadores no 40.000
1,28% 1,48% 43.174
Brasil vêm ampliando sua presença 30.000 1,5%
38.013
33.123
20.000 1,0%
na pesquisa internacional, com 2,58%
18.139 21.976 0,5%
10.000
do total mundial de publicações, 12.417 14.623
0 0
o dobro do percentual de 2000.
2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016

Publicações por 100 mil habitantes n Chile – 58 Publicações em relação à população


n São Paulo – 51 (incluindo países de comparação2)
60
n Turquia – 46
50 n Rússia – 37 No Brasil, foram 26 publicações por
n África do Sul – 30 100 mil habitantes em 2016, abaixo
40
n China – 29 da média mundial (28), enquanto para
30 n Média mundial – 28 São Paulo o valor atingiu 51. Apesar
n Brasil – 26 do crescimento, os países emergentes
20
n Argentina – 24 (e São Paulo) têm índices distantes
10 n Índia – 7 dos líderes Reino Unido (230),
Portugal (191), Estados Unidos (154)
0
e Espanha (152), ausentes do gráfico
2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016
por uma questão de escala.

Citações por publicação, normalizado pela média mundial (=1,00)


1,50 Número de citações por publicação3
1,40 n Reino Unido – 1,46 (incluindo países de comparação)
1,30 n Estados Unidos – 1,36
1,20 n Espanha – 1,29 O número de citações em trabalhos
Média mundial 1,00 n Chile – 1,21 científicos é um indicador de
1,10
1,00 n Portugal – 1,17 visibilidade e impacto das publicações.
0,90 n África do Sul – 1,15 As publicações com autores
0,80 n São Paulo – 1,03 sediados no Brasil ainda recebem
0,70 n China – 0,98 um número menor de citações
0,60 n Argentina – 0,97 do que a média mundial. Já São Paulo
0,50 n Rússia – 0,94 superou a média mundial, em 2016,
0,40 n Brasil – 0,88 ultrapassando Argentina e China. Chile
0,30 n Índia – 0,81 e África do Sul lideram os emergentes,
n Turquia – 0,71 com valores próximos aos de Espanha e
ilustração freepik

0,20
0,10 Portugal. O Reino Unido e os Estados
0 Unidos apresentam os maiores índices.
2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016

1 Publicações dos tipos “Article”, “Proceeding Paper” e “Review”, da base Web of Science/Clarivate;  2 Foram incluídos os demais países-membros do grupo dos Brics (Rússia, Índia, China, África do Sul) e
outros emergentes, como Argentina, Chile e Turquia, além de Espanha, Portugal, Estados unidos e Reino Unido, que não foram incluídos neste gráfico, mas sim no próximo;  3 Foi utilizado o indicador
“Category Normalized Citation Impact” do sistema Incites/Clarivate, que leva em conta as áreas em que as publicações são classificadas, evitando que áreas com mais citações pesem mais que
outras.  Fontes  publicações: Incites/Web of Science/Clarivate (extraído em 17/05/2018); População: IBGE, World Bank.
Notas

A crítica situação
dos golfinhos
na Amazônia

As duas espécies de golfinho de água doce


típicas da Amazônia – o boto-cor-de-rosa (Inia
geoffrensis) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis) – podem
estar sob sério risco de extinção, caso o declínio
populacional observado em uma área de pre-
servação valha para uma região mais vasta e
não protegida por lei. Um levantamento feito
de 1994 a 2017 na Reserva de Desenvolvimen-
to Sustentável Mamirauá, a 500 quilômetros
a oeste de Manaus, indica que a população
dessas duas espécies se reduz à metade a cada
10 anos, apesar de a captura ser proibida. No
caso do boto-cor-de-rosa, que, adulto, atinge
até 2,5 metros (m) de comprimento, a queda
no número de exemplares avistados se acen-
tuou a partir de 2000, quando aumentaram
os relatos de captura acidental por redes de
pesca e do uso de sua carne como isca para
piracatinga (Calophysus macropterus), um bagre
muito consumido na Colômbia. A redução da
população do tucuxi, que mede cerca de 1,5 m
e é mais suscetível a morrer preso nas redes,
mostrou-se constante no período analisado
(PLOS ONE, 2 de maio). Os autores do estudo,
coordenado pela bióloga Vera Maria Ferreira
da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia (Inpa), atribuem a redução dos botos
à captura ilegal fora da reserva, uma vez que em
Mamirauá a ação humana é controlada e outras
espécies de predadores aquáticos continuam
abundantes. Os pesquisadores não sabem se o
que viram ali é representativo de toda a Amazô-
nia, pois não há levantamentos semelhantes em
outras áreas, mas afirmam que a captura para
o uso como isca é disseminada. Hoje, o nível de
ameaça às duas espécies é desconhecido. Se o
declínio observado em Mamirauá valer para a
Botos-cor-de-rosa
Amazônia, elas estariam, segundo os critérios
nadam em área
da União Internacional para a Conservação da de floresta alagada
Natureza, criticamente ameaçadas de extinção. na Amazônia 1

12 | junho DE 2018
Para acelerar
o melhoramento
do gado leiteiro

Um teste genético
concebido pela Empresa
Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa)
pode acelerar o
melhoramento do gado
leiteiro girolando, criado
no Brasil a partir do
cruzamento de animais
da raça gir, resistente a
climas quentes, com 2

os da raça holandesa,
tradicional produtora de Agentes de
leite. A partir do material saúde da OMS
participam
Novo surto de ebola
genético extraído de
células do sangue,
de vacinação
contra ebola
atinge a África
o teste permite verificar na República
se o touro ou a vaca Democrática do
Congo
candidatos a se da produtividade das Na República Democrática do Congo, profissionais
tornarem reprodutores filhas. A nova ferramenta da área da saúde e outras pessoas com alto risco de
apresentam os é fruto de uma parceria serem infectadas pelo vírus ebola, causador de uma
marcadores moleculares da Embrapa Gado de febre hemorrágica que pode matar em até 90%
associados às Leite com a associação dos casos, passaram a receber doses de uma va-
características que se dos criadores e as cina experimental no final de maio. A imunização
deseja desenvolver empresas CRV Lagoa começou pela cidade de Mbandaka, capital da pro­
no rebanho, como maior e Zoetis. “A avaliação víncia de Equador, no noroeste desse país da Áfri-
capacidade de produzir genômica abre a ca Central. Mbandaka tem cerca de 1,2 mi­lhão de
leite e resistência a possibilidade de tornar habitantes e faz fronteira com o Congo. Em maio
doenças. Os marcadores mais rápido o foram identificados os primeiros casos de infecção
de DNA usados no melhoramento dos por ebola na cidade, resultado do avanço de um
teste genético foram rebanhos e de, no futuro, surto iniciado em áreas rurais. Esse é o nono surto
estimados a partir de otimizar o uso de de infecção pelo vírus na República Democráti­
informações do banco barrigas de aluguel, ca do Congo desde 1976, quando o ebola foi des-
de dados e pedigree da uma vez que queremos coberto. De 4 de abril a 15 de maio deste ano,
Associação Brasileira adaptá-lo para permitir 44 casos de febre hemorrágica haviam sido iden-
de Criadores de Girolando. a avaliação genética tificados em três regiões da província de Equador,
O cruzamento desses de embriões antes da com 23 mortes – a infecção por ebola havia sido
fotos 1 Kevin Schafer / Minden Pictures / getty images 2 OMS 3 eduardo cesar

dados permite determinar, implantação”, explica confirmada em parte dos casos, o restante seguia
com maior precisão e o zootecnista Marcos sob investigação. Cerca de 530 pessoas que tive-
em menos tempo, quais Vinícius Barbosa da Silva, ram contato com os doentes passaram a ser acom-
os machos e fêmeas da Embrapa Gado de panhadas pelas autoridades sanitárias. O Ministé-
com maior capacidade Leite. “Atualmente rio da Saúde do país, em parceria com a
reprodutiva e de produção trabalhamos para Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras
de leite. Lançado para o adaptar esse sistema entidades internacionais, iniciou a vacinação de
mercado em maio deste para a raça gir leiteiro.” pequenos grupos de médicos, enfermeiros e pessoas
ano, o teste pretende que haviam tido contato com doentes para tentar
ser uma alternativa 3
conter o avanço do vírus. Até 21 de maio, a empre-
mais ágil aos métodos sa Merck havia disponibilizado para a OMS 8,6 mil
tradicionais de doses da vacina rVSV-Zebov, que se mostrou eficaz
melhoramento, que em surtos anteriores na Guiné e em Serra Leoa.
podem durar uma Chip de DNA Outras 8 mil doses estavam prometidas. Transmi-
criado para avaliar
década porque se tido pelo contato com os fluidos corporais dos in-
as características
baseiam no cruzamento genéticas do fectados, o ebola causa febre, vômitos, diarreia,
de animais e na avaliação gado girolando dores musculares e hemorragia.

PESQUISA FAPESP 268 | 13


pinça córnea na
A comunicação extremidade da maxila”,
contou o paleontólogo
interna das plantas Bhart-Anjan Bhullar,
pesquisador da
As células das plantas se comunicam entre si tro- Universidade Yale e
cando compostos químicos, como os neurônios coordenador do estudo,
no sistema nervoso dos animais. A superfície dos em um comunicado à
neurônios tem moléculas chamadas receptores de imprensa. Nas aves
glutamato. Quando o neurotransmissor glutama- modernas, o bico
to adere ao receptor, poros se abrem na célula e córneo recobre
deixam entrar cálcio, fazendo um impulso elétrico 1 A primeira completamente a
percorrer o neurônio. Mais glutamato é liberado na ave com bico mandíbula, a maxila
extremidade da célula e transmite a informação e outros ossos da
adiante. Plantas não têm neurônios, mas suas cé- boca. Segundo os
lulas são recobertas por receptores semelhantes ao Imagem Uma ave que viveu entre pesquisadores, a ave
do glutamato (GLRs). O biólogo português José Feijó do crânio 95 milhões e 84 milhões I. dispar pode ser
reconstituído de
e seu grupo na Universidade de Maryland, Estados de anos atrás onde hoje considerada como um
Ichthyornis
Unidos, pesquisam o que a ativação dos GLRs e a dispar (no alto) é a América do Norte organismo de transição
entrada de cálcio fazem nas células vegetais. Em e reprodução indica como surgiu o entre os dinossauros
um estudo do qual participou o biólogo brasileiro artística de bico nesses animais. A e as aves modernas.
sua provável
Daniel Damineli, os pesquisadores verificaram que análise de quatro crânios Seu crânio abrigaria um
aparência (acima)
o acionamento dos GLRs é necessário para guiar fossilizados – um cérebro relativamente
a célula reprodutiva masculina de um musgo até descoberto em 2014 e grande e preservaria
seu óvulo (Nature, 24 de julho de 2017). Em outro outros três guardados a musculatura da
trabalho, que contou com a bióloga brasileira Maria havia tempos em mandíbula semelhante à
Teresa Portes, o grupo observou em células de Ara- museus – permitiu a dos dinossauros que não
bidopsis thaliana que esses receptores funcionam pesquisadores dos deram origem às aves.
associados às proteínas Cornichons. Essas proteínas Estados Unidos e do
controlam a atividade dos GLRs e os transportam Reino Unido reconstituir
no interior da célula, mantendo níveis adequados com precisão a cabeça
de cálcio em seus compartimentos (Science, 4 de da ave Ichthyornis Um pesquisador
maio). Para Feijó, a redistribuição dos GLRs forma dispar. Com o tamanho (quase)
uma rede complexa que regula a concentração de de um pombo, essa ave
cálcio e controla a sinalização celular. primitiva, descrita em
presidente
1873 pelo paleontólogo
2
norte-americano Othniel Por pouco, um
Marsh, deveria se pesquisador não foi
parecer com as atuais eleito presidente
gaivotas e é considerada da República Tcheca.

fotos 1 Michael Hanson e Bhart-Anjan S. Bhullar 2 José Feijó / Universidade de Maryland


a espécie mais antiga a O físico-químico Jiří
preservar dentes na Drahoš, de 68 anos,
maxila e na mandíbula – disputou a eleição com o
eles tinham cerca de social-democrata Miloš
1 milímetro e só deviam Zeman e conquistou
ser visíveis com a boca 48% dos votos no
aberta. A reconstrução segundo turno, realizado
do crânio da I. dispar em janeiro deste ano.
sugere que uma pequena Zeman, de 73 anos, foi
estrutura córnea, reeleito com 52% dos
formada apenas por votos. Recém-chegado à
Grãos de pólen queratina, a proteína das política, Drahoš é
(filamentos claros) de
unhas e dos chifres, teria pesquisador do Instituto
Arabidopsis thaliana
crescem mais em surgido inicialmente na de Processos Químicos
direção aos óvulos nas extremidade da maxila, Fundamentais de Praga
plantas com receptores um dos ossos da parte e foi presidente da
GLR preservados
superior da boca (Nature, Academia Tcheca de
(à esq.) do que naquelas
com receptores 3 de maio). “O primeiro Ciências de 2009 a 2017.
defeituosos (à dir.) bico era uma ponta de Ele concorreu à eleição

14 | junho DE 2018
O pediatra colaborador dos nazistas

O pediatra austríaco Hans Asperger clínicas que ele escreveu sobre seus
(1906-1980) tornou-se conhecido por pacientes, o historiador Herwig Czech,
ter estudado e caracterizado uma forma da Universidade de Viena, mostrou que
de autismo que leva seu nome, a síndro- o pediatra aderiu ao regime nazista e
me de Asperger. Em 1944, quando publi- foi recompensado com oportunidades
cou seu estudo sobre a síndrome, que só profissionais, tornando-se professor
receberia reconhecimento internacional na universidade. Segundo o estudo de
nos anos 1980, pouca atenção se deu ao Czech, Asperger participou de organi-
fato de ele ter trabalhado muitos anos zações afiliadas ao partido nazista, legi-
na Viena nazista. Seus eventuais laços timou publicamente políticas de higiene
com o regime de Hitler e suas políticas racial e cooperou com o programa de
de higiene racial geraram controvérsia, eutanásia infantil, contrariando a ideia
mas não foram pesquisados a fundo. de que tentava proteger as crianças sob
Por falta de evidências e com base em seus cuidados: sua benevolência não
declarações do próprio Asperger, criou- se estendia àquelas que não ofereciam
-se a imagem do médico como oponente perspectivas de desenvolvimento ou
do nacional-socialismo alemão. Surgem desafiavam os padrões de educação Asperger
agora informações menos abonado- ou disciplina (Molecular Autism, abril atende garoto
na clínica da
ras. Com base em documentos histó- de 2018). Para Asperger, a clínica de
Universidade
ricos inexplorados, incluindo arquivos eutanásia Spiegelgrund de Viena era de Viena
pessoais de Asperger e as avaliações “necessária”.

sem filiação a partido 4 Diplomas então, as instituições


político e teve apoio de digitais, agora terão dois anos
grupos de centro-direita. para adequar seus
Com postura mais
obrigatórios procedimentos às
aberta à União Europeia, diretrizes de certificação
Drahoš promoveu uma O Ministério da digital da Infraestrutura
campanha com duras Educação (MEC) de Chaves Públicas
críticas a Zeman, O pesquisador publicou em abril uma Brasileira (ICP-Brasil).
Jirí Drahoš, que
considerado uma voz portaria tornando Segundo o MEC, a
concorreu à
pró-Rússia e contrário ao Presidência da obrigatória a medida pretende
acolhimento de República Tcheca emissão de diplomas e inibir fraudes e agilizar
imigrantes. Durante a documentos acadêmicos a expedição dos
3 arquivo pessoal de Hans Asperger 4 Jindrich Nosek / Wikimedia Commons

disputa, o pesquisador na política”, conta o em formato digital. documentos. Mesmo


foi alvo de notícias engenheiro químico A decisão envolve com a obrigatoriedade
falsas. Fotos dele com a Roberto Guardani, instituições de ensino de oferecer a versão
chanceler da Alemanha, professor da Escola superior (públicas e digital, as universidades
Angela Merkel, Politécnica da privadas) de todo o país que desejarem
circularam na internet Universidade de São e inclui registros e poderão seguir emitindo
acompanhadas da Paulo (Poli-USP). Amigo históricos escolares. os documentos também
afirmação de que ambos de Drahoš, Guardani foi Em até três meses, o em papel. Dados do
planejavam inundar a coorientado pelo tcheco órgão pretende divulgar Instituto Nacional de
República Tcheca com em seu doutorado nos os procedimentos Tecnologia da
imigrantes, informação anos 1980. Nos últimos que terão de ser Informação indicam
desmentida por Drahoš. 30 anos, Drahoš esteve adotados pelas que mais de 1,1 milhão
“Drahoš tem contato no Brasil cinco vezes instituições de ensino de diplomas foram
com Merkel, que como professor visitante superior para criar expedidos por
também é química e da Poli-USP e para os sistemas digitais instituições federais
o encorajou a entrar participar de congressos. de emissão. A partir de em 2016.

PESQUISA FAPESP 268 | 15


1 1

Uma relação
complexa entre
insetos e plantas

Pensar em polinização traz


à mente a romântica visão
de abelhas ou beija-flores
voando de flor em flor,
salpicados de pólen. Mas a
história pode ser mais
dramática, como acontece
com orquídeas da espécie
Dichaea cogniauxiana.
Fêmeas de besouros do
gênero Montella, com
2 milímetros de tamanho,
visitam as orquídeas e
transferem pólen do órgão
masculino para o feminino
da mesma flor. Em seguida
depositam ali seus ovos, que
James Collins originam larvas prontas a
Johnson em 1881, banquetear-se no fruto
Princeton revisita ex-escravo que
trabalhou em
formado graças à ação
fertilizadora das mães.
passado escravista Princeton
Quando isso ocorre, as
sementes são devoradas
e a orquídea desperdiça
A Universidade Princeton, uma das mais antigas e pres- seu esforço reprodutivo. Em
tigiadas dos Estados Unidos, divulgou recentemente os cinco anos de observação,
resultados do Princeton and slavery project, que investigou pesquisadores da
o envolvimento da instituição com a escravidão no país. Universidade Estadual de
Alguns documentos indicam que os nove primeiros pre- Campinas (Unicamp)
sidentes (reitores) de Princeton tiveram escravos e que notaram que um terço dos
houve uma venda no campus em 1766. Escravos viveram frutos infestados recebeu
na casa do presidente da universidade até ao menos 1822. ajuda de vespas
O primeiro estudante negro só se formou em Princeton parasitoides, que mataram
nos anos 1890 e obteve o diploma de mestrado. Segundo Fêmea de besouro as larvas de besouro.
o projeto, ainda em andamento, a universidade recebeu do gênero Nesses casos, os frutos das
Montella deposita
doações do lucro obtido com o trabalho escravo. Con- orquídeas se desenvolveram
ovo em flor de
duzido por Martha Sandweiss, professora de história na Dichaea normalmente, segundo
universidade, o Princeton and slavery project localizou ao cogniauxiana estudo que foi parte do
menos 360 documentos. São fotos, anúncios de vendas doutorado do biólogo Carlos
de escravos, descrições sobre a comunidade negra da Eduardo Nunes na Unicamp,
instituição, ilustrações em jornais estudantis e cartas de orientado por Marlies
alunos. Outras 12 universidades norte-americanas, entre Sazima (Current Biology,
elas Harvard, já revelaram seus laços históricos com a março). Os pesquisadores
escravidão. Segundo reportagem de abril no jornal The calculam que o sistema
New York Times, Princeton anunciou a renomeação de compensa para a planta
dois espaços no campus em homenagem a escravos que onde polinizadores gentis
lá viveram ou trabalharam. Um jardim será rebatizado são raros. Com a ajuda das
com o nome de Betsey Stockton, que trabalhou na casa vespas, as orquídeas dessa
dos primeiros presidentes da instituição. O arco sob o qual espécie polinizadas pelo
estudantes passam em cerimônias de formatura levará besouro têm mais chances
o nome de James Collins Johnson, escravo fugitivo que de produzir sementes
trabalhou como zelador e vendedor no campus de 1839 a viáveis do que as não
1843 até ser denunciado a seus proprietários por um aluno. 2 visitadas por esses insetos.

16 | junho DE 2018
3

Maratona no LHC

A Organização Europeia para a Pesquisa Nu- tados mais interessantes. A seleção dessas
clear (Cern) lançou no início de maio um de- colisões é feita por meio de algoritmos de
safio entre cientistas da computação a fim de reconhecimento de padrão, embora o proces-
Magdalena estimular o desenvolvimento de programas so seja lento, contou a cientista da computa-
Skipper, nova
de inteligência artificial para a análise de da- ção Cécile Germain à revista Nature. A aposta
editora-chefe
dos. Motivados a desvendar a constituição em desenvolver algoritmos que usam apren-
fundamental da matéria, os físicos do Grande dizado de máquina surgiu da parceria entre o
Uma mulher no Colisor de Hádrons (LHC), o maior acelerador Cern e a Kaggle Competições. Centenas de
comando da de partículas do mundo, localizado nas proxi- gigabytes de informação sobre colisões de
midades de Genebra, Suíça, pretendem au- partículas foram disponibilizadas para os com-
revista Nature mentar em ao menos 20 vezes o número de petidores que, nos próximos três meses, vão
colisões de partículas realizadas no laborató- usar a base para treinar seus algoritmos a
A geneticista inglesa rio na próxima década. O crescimento no reconstruir trajetórias das partículas de ma-
Magdalena Skipper, número desses eventos deve superar a capa- neira precisa. Os melhores algoritmos selecio­
de 49 anos, é a nova cidade atual de análise do LHC, onde centenas nados na primeira fase da competição serão
editora-chefe da Nature, de milhões de colisões acontecem a cada premiados em julho deste ano no Rio de Ja-
uma das mais prestigiadas segundo. Os detectores do acelerador regis- neiro, durante o Congresso Mundial de Ciências
revistas científicas do tram informações de toda partícula que os da Computação. Os prêmios são de US$ 5 mil,
mundo. É a primeira vez que atravessa, mas armazenam e reconstroem US$ 8 mil e US$ 12 mil. A maratona termina
uma mulher assume a trajetórias apenas das colisões com os resul- em dezembro, em Montreal, Canadá.
função desde o lançamento
da publicação em 1869.
Ela substituirá o físico Philip
Campbell, que a partir do
dia 1º de julho responderá
como editor-chefe do grupo
fotos 1 Biblioteca da Universidade Princeton 2 Carlos Eduardo Nunes / Unicamp 3 Ian Alderman 4 Federico Ronchetti / CERN

Springer Nature. Magdalena


é hoje editora-chefe
da revista Nature
Communications e trabalha
no grupo há mais de
15 anos. Em nota, ela disse
que seu mandato deverá
dar sequência a iniciativas
da Nature para garantir
a reprodutibilidade de
pesquisas. Também 4

salientou a importância da
chamada ciência aberta,
que envolve o acesso livre à
informação e a construção
colaborativa do
conhecimento. Doutora em
genética pela Universidade Imagem de
de Cambridge, no Reino computador
representa
Unido, atuou na elaboração
partículas geradas
do projeto Enciclopédia de pela colisão
Elementos do DNA de núcleos de
(Encode), que tenta chumbo

compreender o gigantesco
volume de informações
produzido pelo Projeto
Genoma Humano.

PESQUISA FAPESP 268 | 17


capa

Um
acordo
no ar
Boeing e Embraer discutem uma união
de seus negócios que pode levar à criação do
maior conglomerado global de aviação

Yuri Vasconcelos

A
notícia pegou todos de surpresa. cujos destaques são o turboélice de ataque leve
Poucos dias antes do Natal de 2017, o e treinamento avançado A-29 Super Tucano e o
diário nova-iorquino The Wall Street recém-lançado cargueiro militar KC-390.
Journal revelou que a Boeing, maior As reações do mercado e do governo foram
empresa do setor aeronáutico, nego- imediatas, mas em direções opostas. As ações
ciava a compra da Embraer, terceira fabricante da Embraer negociadas na bolsa de valores B3,
mundial de jatos comerciais e líder do mercado antiga Bovespa, dispararam 25%, mostrando a
de aviação regional. De acordo com a reporta- aprovação dos agentes financeiros. O Palácio do
gem, a gigante norte-americana teria feito uma Planalto, no entanto, mostrou-se contrário ao
proposta pelo controle total da companhia de negócio. “Em princípio, a Embraer é brasileira.
São José dos Campos (SP), o que significaria a (...) Não se examina a questão da transferência
aquisição de todas as suas divisões, entre elas [de controle]”, declarou o presidente Michel Te-
Detalhe da asa
a bem-sucedida linha de aeronaves comerciais mer. Com a privatização da Embraer em 1994, a do jato E175
com foco no mercado regional, o portfólio de União adquiriu poder de veto sobre questões es- fabricado pela
jatos executivos e os produtos da área de defesa, pecíficas à operação da empresa por meio de uma Embraer

18 | junho DE 2018
Boeing x Embraer
A norte-americana vale quase 50 vezes mais do que a brasileira e tem
uma receita 16 vezes superior. Conheça o perfil das duas companhias

Chicago (Estados Unidos) Sede São José dos Campos (Brasil)


1916 Fundação 1969
141,3 mil Funcionários 18,5 mil
45 mil Engenheiros 4 mil
US$ 3 bilhões Investimento anual em P&D US$ 600 milhões
2.557 Patentes (2017) 360
R$ 214,6 bilhões Valor de mercado US$ 4,4 bilhões
763 Aviões entregues1 (2017) 101
5.864 aviões (US$ 488 bilhões) Encomendas1 (em 31/12/2017) 435 aviões (US$ 13,4 bilhões)
R$ 93,4 bilhões Receita (2017) US$ 5,8 bilhões
Receita por segmento

Aviação Aviação
comercial2 Defesa, comercial
62% Aviação
espaço & 57,7% executiva
segurança
BOEING 25,6%
22% EMBRAER

Serviços Defesa &


globais segurança
Outros3
15,6% Outros4 16,3%
0,4%
0,4%

1. Apenas jatos comerciais; 2. Inclui aviação executiva; 3. Boeing Capital Corporation,


braço financeiro do grupo; 4. Aviação agrícola e serviços aeronáuticos.

Fontes  Boeing, Embraer, Bloomberg, statista

ação de classe especial (golden share), entre elas de negócio apontava para uma parceria específi-
a mudança de controle da companhia. A preocu- ca para a área de aviação comercial por meio da
pação em Brasília, principalmente no Ministério criação de uma terceira empresa, uma joint ven-
da Defesa, recai sobre os projetos militares da ture – as divisões de aviação executiva e militar
Embraer, considerados estratégicos para o país. permaneceriam com a brasileira.
Com a resistência do governo, Boeing e Em- As duas multinacionais têm evitado se pronun-
braer passaram a discutir, sempre de forma con- ciar sobre o tema. Por intermédio de sua assessoria
fidencial, modelos alternativos de aliança. A ne- de imprensa, a Embraer informou que “tem man-
gociação, complexa, inclui a participação de um tido entendimentos [com a Boeing], inclusive por
grupo de trabalho formado por representantes meio do grupo de trabalho do qual o governo bra-
dos ministérios da Fazenda e da Defesa, do Banco sileiro participa, com vistas a avaliar possibilidades
Nacional de Desenvolvimento Econômico e So- para potencial combinação de negócios”. A Boeing,
cial (BNDES), da Força Aérea Brasileira (FAB), por sua vez, declarou no início do ano, por meio de
entre outros. No início de junho, quando esta seu vice-presidente sênior de Comunicação, Phil
embraer

reportagem foi escrita, o desenho mais provável Musser, que a parceria “é uma ótima opção para

PESQUISA FAPESP 268 | 19


as duas empresas” e “uma oportunidade poderosa
para alinhar dois líderes nacionais aeroespaciais”.
Cinco meses após a revelação das conversas,
incertezas ainda pairam sobre o negócio, cujo
desfecho pode ocorrer a qualquer momento. A
primeira delas é a participação de cada sócio na es-
trutura acionária da eventual joint venture. Fontes
com acesso às negociações indicam que a Boeing
deseja ter uma posição majoritária, com 90% das
ações da nova companhia, e controle total sobre a
composição de seu conselho de administração. A
Embraer exige ter pelo menos 20% do negócio e
o direito de fazer indicações ao conselho.
Também não está claro como seria feita a par-
tilha da área de engenharia da Embraer, respon-
sável pelos projetos de inovação da companhia
e um dos grandes ativos da empresa brasileira.
“A engenharia da Embraer é fantástica, de clas-
se mundial”, avalia Richard Aboulafia, analista
da indústria aeronáutica e vice-presidente do
Teal Group, consultoria norte-americana espe- O turboélice militar
cializada nos setores aeroespacial e de defesa. companhias brasileiras que atuam fora do seg- A-29 Super Tucano
(acima) e o jato
O governo brasileiro sinaliza que é importante mento aeroespacial, com impacto positivo para de nova geração
que, independentemente do formato do negócio, o desenvolvimento econômico e o crescimento E195-E2 (à dir.),
a Embraer mantenha um corpo técnico capaz a longo prazo para o país – e o governo quer ga- ambos fabricados pela
de inovar, projetar e construir novos aviões (ver rantir que isso continue ocorrendo. empresa de São José
dos Campos
reportagem na página 26). A unidade de negócios responsável pelos pro-
Outra dúvida, decorrente de qual venha a ser jetos militares, a Embraer Defesa & Segurança
o desenho acionário da nova empresa, é sobre a (EDS), responde por cerca de 16% do faturamento
sustentabilidade financeira e operacional da Em- e controla empresas que atuam em áreas de tec-
braer. Hoje, por volta de 60% de seu faturamento nologias críticas, como Atech (controle de tráfego
vem da divisão de jatos regionais, a mais lucra- aéreo), Visiona (satélites espaciais) e Savis-Bradar
tiva e exatamente o setor cobiçado pela Boeing. (radares e sistemas para vigilância de fronteiras).
Sem recursos provenientes da venda dos aviões Esta última detém importante participação no
comerciais, a empresa brasileira poderá enfren- Sistema Integrado de Monitoramento de Fron-
tar dificuldades a longo prazo. teiras (Sisfron), do Exército.
Uma das preocupações dos analistas é a capa-
cidade de a Embraer continuar tocando projetos CAÇAS SUECOS
militares. Historicamente, há um forte entrela- Há ainda outro nó a ser desatado se a aliança en-
çamento entre as áreas civil e de defesa da com- tre Boeing e Embraer se concretizar: o impacto
panhia, assim como ocorre nas demais empresas sobre a compra dos caças Gripen NG. Esses jatos
aeronáuticas do mundo. Inovações tecnológicas são produzidos pela sueca Saab, concorrente da
desenvolvidas a partir de projetos militares são norte-americana no segmento militar. Fechado
transferidas em algum momento para os jatos em 2014, o contrato de US$ 5,4 bilhões prevê a
comerciais da empresa – e vice-versa. Esse trans- entrega de 36 caças para a Aeronáutica, sendo
bordo de tecnologia também se dá para outras que parte deles será produzida no Brasil. Há dois

49 anos de história 1969 1972


A Embraer tem 100 clientes em Fundação em 19 Voo inaugural do
mais de 50 países. Fabricou 46 modelos de agosto durante o turboélice EMB-110
de aviões e produziu mais de 8 mil regime militar. A Bandeirante, primeira
unidades. Seus aviões transportam cerca empresa foi criada sob aeronave produzida com
de 145 milhões de passageiros por ano controle estatal capacidade inicial para
12 passageiros, depois
estendida para 21
fotos  embraer

que, caso a aliança se concretize, salvaguardas


serão construídas para proteger o contrato com
Analistas temem que o acordo os suecos. “Não é aceitável que uma tecnologia
desenvolvida por uma parceira da Embraer pas-
com a Boeing possa prejudicar se para outra [empresa] e vice-versa”, declarou à
época. Vale destacar que Boeing e Saab são sócias
os projetos militares da brasileira no projeto de um jato militar para treinamento
da Força Aérea dos Estados Unidos.

resposta à airbus e bombardier


anos, a brasileira e a Saab inauguraram o Centro A oferta da Boeing de controlar a Embraer veio
de Projetos e Desenvolvimento do Gripen, em Ga- à tona apenas dois meses depois do anúncio de
vião Peixoto, no interior paulista. Criado para ser um acordo firmado entre a fabricante europeia
o hub de desenvolvimento tecnológico do Gripen Airbus, vice-líder global, e a canadense Bom-
NG no país, o local é segregado de outras áreas bardier. Em outubro de 2017, a Airbus adquiriu
da Embraer – só têm acesso a ele engenheiros e o controle do Programa C Series da Bombardier,
técnicos cadastrados e autorizados. representado pelos jatos CS100 e CS300, com 100
A cooperação industrial previu a transferência a 160 lugares. Com a jogada, o grupo europeu
de tecnologia da sueca para um grupo de empresas sediado em Toulouse, na França, ampliou seu
do polo aeroespacial brasileiro, tendo a Embraer portfólio de produtos e passou a ofertar também
à frente. Especialistas alertam que a venda da em- produtos com capacidade menor – o A319neo,
presa pode representar algum tipo de restrição ao modelo mais compacto da Airbus, transporta
negócio com a Saab. Poucas semanas após o vaza- até 140 passageiros.
mento das negociações entre Boeing e Embraer, o “O movimento da Boeing para comprar a Em-
então ministro da Defesa Raul Jungmann afirmou braer foi, em boa medida, uma resposta à aliança

1980 1985 1994 1997


O avião militar EMB-312 Início de operação Com dificuldades Lançamento do EMB-145,
Tucano faz seu voo do EMB-120 Brasília. financeiras, a Embraer primeiro avião a jato
inaugural. Um dos Até o fim de sua é privatizada. A da Embraer, com
maiores sucessos da produção, em 2001, foram capitalização permitiu 50 assentos. Rebatizado
fábrica, o modelo entregues 352 unidades desenvolver aviões mais posteriormente de
de ataque leve vendeu do turboélice regional, modernos equipados ERJ-145, foi o símbolo do
mais de 600 unidades com 30 assentos com motores a jato renascimento da empresa
firmada entre Airbus e Bombardier”, pondera o políticas e estratégicas, tais como
economista e especialista aeronáutico Marcos a definição sobre novos projetos e
José Barbieri Ferreira, professor da Faculdade de a liberdade de vender aviões, nota-
Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de damente os militares, para outros A Boeing está
Campinas (FCA-Unicamp). “A gigante de Seattle países”, opina o engenheiro aero-
[cidade onde fica a principal fábrica da Boeing] náutico Jorge Eduardo Leal Medei- de olho no
quer se contrapor a sua concorrente europeia, ros, professor do Departamento de
passando a atuar em um segmento no qual está Engenharia de Transportes da Es-
mercado de
ausente”, explica. O menor jato da Boeing, o 737 cola Politécnica da Universidade aviação regional,
MAX, tem 138 assentos. de São Paulo (Poli-USP). “O melhor
Além de fazer frente à concorrente europeia, a seria firmar uma aliança estratégica que deve
Boeing também está de olho no mercado de avia- nas áreas tecnológica e comercial.”
ção regional, que se encontra aquecido. A Em- Para o especialista, independente- absorver 10,5 mil
braer estima para os próximos 20 anos uma de- mente do modelo de negócio, a pala-
manda de mercado para 10.550 aviões comerciais vra final sobre os interesses da Em-
aeronaves
no segmento de até 150 assentos, incluindo mo- braer deve ficar no país. Sem a com- nos próximos
delos turboélices (ver reportagem na página 24). panhia, segundo ele, o país perderia
uma empresa estratégica de tecnolo- 20 anos
PERDAS E GANHOS gia de ponta, que gera empregos qua-
“A brasileira é um ótimo negócio para a Boeing. lificados e é a terceira maior expor-
Além de se aliar ao líder da aviação regional, a tadora nacional. Sua venda também
norte-americana passará a dispor da capacidade pode comprometer a cadeia aeroes-
de desenvolvimento de aeronaves da Embraer. A pacial e de defesa nacional, a única de alta tecnolo-
quantidade de novos projetos nascidos na Em- gia do país e com inserção ativa no mercado global.
braer nos últimos anos é excepcional”, destaca Nem todos pensam assim. Para o consultor
Barbieri. O professor da Unicamp é autor da tese aeronáutico Aboulafia, a Embraer precisa mais
de doutorado “Dinâmica da inovação e mudan- desse acordo do que a Boeing e teria muito a ga-
ças estruturais: Um estudo de caso da indústria nhar com ele. “A empresa está ficando sem espa-
aeronáutica mundial e a inserção brasileira”, ço para crescer, por ter atingido seu limite com
defendida em 2009. as plataformas dedicadas à aviação comercial,
Desde sua criação em 1969, a companhia se- executiva e militar. Se ela desenvolver modelos
diada em São José dos Campos desenvolveu 37 maiores para qualquer um desses segmentos,
modelos de aeronaves, incluindo versões, e pro- encontrará concorrentes muito mais poderosos,
duziu outros nove sob licença. “Nenhuma indús- como a própria Boeing.” O analista do Teal Group
tria aeronáutica desenvolveu tantos aviões como afirma, ainda, que a sinergia existente entre os
nós nos últimos 17 anos”, afirma Rodrigo Silva e portfólios das duas multinacionais é um aspecto
Souza, vice-presidente de marketing da Embraer positivo e favorável ao entendimento.
Aviação Comercial. Ao longo de sua história, a “A família de E-Jets da Embraer é um comple-
Embraer já fabricou 8 mil aeronaves. A cada 10 mento formidável aos jatos comerciais maiores
segundos um avião fabricado pela brasileira de- da Boeing”, destaca Aboulafia. O mesmo ocorre
cola de algum ponto do planeta. com a aviação executiva. A linha de produtos da
Por ser uma empresa tão bem-sucedida, sua Embraer vai do pequeno Phenom 100, para oito
compra é um negócio vantajoso para a Boeing, passageiros, ao Lineage, com 19 assentos, enquan-
mas não necessariamente para o Brasil ou para to a Boeing oferece modelos maiores. A família
a própria Embraer. “A venda do controle da Em- BBJ (Boeing Business Jet) tem como plataforma
braer transferiria para fora do Brasil decisões as aeronaves de grande porte 737 e 787.

1998 2002 2004 2013


Primeiro voo do ERJ-135 Embraer lança o jato Entrada em serviço do Apresentação do
(37 lugares), segundo executivo Legacy 600. E170, primeiro integrante programa de jatos de nova
modelo da família ERJ, Outros seis modelos da família dos E-Jets. geração E2, projetados
formada ainda pelo foram feitos para esse Outros três modelos para suceder os E-Jets.
ERJ-140 (44 assentos). mercado, somando 1,1 mil foram fabricados (E175, A família é composta pelos
Foram produzidos mais aeronaves executivas E190 e E195), com oferta modelos E170-E2,
de mil unidades operando em 60 países de 70 a 130 assentos E190-E2 e E195-E2
embraer

O cargueiro militar
KC-390 é o maior
avião já construído
pela Embraer

“Na área militar, o portfólio delas também é produtos que ficassem com ela. Além disso, a aliança
complementar, e o projeto do cargueiro brasileiro poderia criar sinergias importantes para a fábrica de
KC-390 é particularmente atrativo”, opina Aboula- São José dos Campos desenvolver novos produtos.
fia. O cargueiro vai concorrer com o veterano C-130 Para o engenheiro aeronáutico Ozires Silva, ex-
Hércules, praticamente a única opção nesse seg- -presidente e um dos fundadores da Embraer, se
mento, fabricado pela norte-americana Lockheed bem negociada, a parceria poderá ser vantajosa
Martin, grande rival da Boeing na área de defesa. para as duas empresas. “A Embraer precisa de mais
Além disso, a Boeing não dispõe de um treinador dinheiro para fabricar seus aviões e a Boeing está
avançado turboélice, como o Super Tucano. disposta a colocar esse dinheiro”, declarou Silva
ao jornal Gazeta do Povo, do Paraná. “Eu gostaria
ACESSO AO MERCADO que a Embraer continuasse uma companhia com
O jornalista norte-americano Guy Norris, editor- certo grau de independência da Boeing. Felizmen-
-chefe da revista Aviation Week, prestigiada pu- te, a Boeing concorda com isso. Acho que a melhor
blicação técnica do setor aeronáutico, também solução é essa mesmo: duas companhias indepen-
afirma que a Embraer terá mais a ganhar com a dentes, uma participando da outra”, afirmou.
associação do que a gigante norte-americana. “A Mas, e se o negócio não prosperar, o que ocor-
fabricante brasileira conquistará acesso aos re- rerá com a Embraer? “Sem a Boeing, ela poderá
cursos de engenharia, pesquisa e, principalmente, enfrentar algumas dificuldades, mas conseguirá
ao mercado da Boeing. A longo prazo, a Embraer sobreviver”, opina Barbieri. “A Embraer acabou
colherá mais benefícios do que a Boeing”, calcula. de lançar o primeiro jato da família E2 e entre-
A parceria com a líder mundial do setor, segundo gará este ano à FAB os dois primeiros KC-390,
Norris, ampliará o alcance da Embraer ao merca- de uma encomenda de 28. São produtos tecnolo-
do global. A depender dos detalhes do acordo, ela gicamente excelentes e com ótima aceitação – o
passaria a contar com a força de venda da norte- que deve garantir um bom caixa para a empresa
-americana para comercializar não apenas os jatos tocar novos projetos”, diz. “A Embraer tem boas
regionais da futura joint venture, mas também dos perspectivas para os próximos 15 anos.” n

2015 2017 2017 2018


O KC-390 faz seu Produção da 1.400a Depois de Airbus e Entrega do primeiro
primeiro voo. As aeronave da família E-Jet. Bombardier anunciarem E190-E2, modelo
primeiras unidades O sucesso dos modelos uma parceria, Boeing inaugural da família E2. A
serão entregues à fez da Embraer a terceira e Embraer iniciam empresa tem 280 pedidos
Força Aérea Brasileira maior fabricante de jatos conversas visando a para os três aviões da
(FAB) este ano comerciais, superando a união de seus negócios série, mais modernos e
canadense Bombardier econômicos que os E-Jets
Boeing
Briga nos céus embraer

101

do planeta
763 entregas*
entregas*

bombardier

73
airbus O mercado mundial de aviação é dominado entregas*

por quatro fabricantes, mas novas empresas


718
entregas* querem entrar na disputa

Comac Mitsubishi
(China) United Aircraft (Japão)
Corporation (UAC)
(Rússia) *Jatos comerciais em 2017

Fontes  Boeing, Airbus,


Embraer e Bombardier

O
transporte aéreo de passagei- zeram seus mais recentes movimentos no diversos problemas e a primeira unida-
ros encontra-se em forte ex- intricado tabuleiro da aviação comercial. de entrou em operação apenas em 2016
pansão. O volume de viajantes Historicamente, o mercado aeronáu- – até hoje, foram entregues somente
deve praticamente dobrar em tico tem sido dominado por dois duo- 29 jatos. Para efeito de comparação, os
menos de duas décadas, pulando dos pólios. De um lado, a norte-americana E-Jets E2, mais nova família da Embraer,
atuais 4 bilhões por ano para 7,8 bilhões Boeing, líder mundial em vendas de com capacidade para 90 a 146 ocupantes,
em 2036, segundo projeção da Associa- aviões, disputa com a europeia Airbus, a chegaram ao mercado este ano, menos
ção Internacional de Transportes Aéreos vice-líder, o segmento de jatos de médio de cinco anos depois de serem lançados
(Iata), organização que reúne as maiores e grande porte, acima de 150 passagei- (ver Pesquisa Fapesp nº 265).
empresas de aviação do planeta. Mais ros. Do outro, a Embraer e a canadense Analistas explicam que as negocia-
gente viajando significa mais aeronaves Bombardier são rivais no segmento re- ções para venda de aeronaves são com-
no ar, o que é uma ótima notícia para esse gional, caracterizado por aeronaves me- plexas e demoradas. Como o produto é
setor industrial. nores projetadas para voos mais curtos, de alto valor – os jatos E2 custam por
A Boeing estima que o mercado absor- muitas vezes entre aeroportos secundá- volta de US$ 60 milhões, enquanto um
verá 41 mil novos aviões a jato nos pró- rios. A Embraer lidera o segmento de Boeing 737 MAX (138 lugares) sai por
ximos 20 anos. A procura será maior na aeronaves de até 150 assentos com 30% quase US$ 100 milhões –, as empresas
região da Ásia-Pacífico, que compreende do mercado. aéreas recorrem a financiamentos de
os países da Oceania e do continente asiá- Esse arranjo sofreu um abalo com a longo prazo, em grande parte supridos
tico, excetuando as ex-repúblicas soviéti- compra do Programa C Series da Bom- por organismos governamentais de fo-
cas. A Embraer, por sua vez, estima uma bardier pela Airbus em 2017. Principal mento à exportação, para efetivar o ne-
demanda de 10,5 mil aviões no segmento concorrente da brasileira, a Bombardier gócio. Fabricantes com um portfólio va-
de até 150 assentos, incluindo turboélices, iniciou em 2008 o projeto dos jatos C riado, com aviões de diferentes portes,
até 2036. Considerando apenas aeronaves Series com o objetivo de reconquistar levam vantagem, pois podem oferecer
a jato, como as produzidas pela brasileira, a liderança do setor regional, perdida a venda casada de produtos. Uma linha
poderão ser comercializadas 6,4 mil uni- depois de a brasileira lançar a eficien- de jatos ampla também reduz custos de
dades, totalizando US$ 300 bilhões. É de te família E-Jets no começo dos anos operação, manutenção e treinamento de
olho nessa bolada que Boeing e Airbus fi- 2000. O programa canadense enfrentou pilotos e comissários.

24 | junho DE 2018
regional ERJ-145 e o executivo Legacy
RAIO X DO SETOR 650. A Airbus opera desde 2008 uma
linha de montagem em Tianjin, quinta
Companhias aéreas devem comprar 6,4 mil novos jatos maior cidade chinesa, para finalização
regionais de 70 a 130 assentos nos próximos 20 anos do A320, e a Boeing está construindo,
em parceria com a chinesa Comercial
Demanda em alta Aircraft Corporation of China (Comac),
Projeção de vendas até 2036 uma planta para produzir o 737 MAX em
Zhoushan, no leste do país.
Empresa estatal, a Comac desenvol-
veu o jato regional ARJ21, para cerca
390 de 100 passageiros, primeiro avião co-
2.020 1.150 CIS*
mercial projetado no país e lançado no
América do Norte Europa 220 mercado em 2016. Atualmente, traba-
Oriente
Médio 1.710 lha em um modelo maior, com 160 as-
Ásia-Pacífico sentos, o C919, em fase de testes, que
220 tentará quebrar a hegemonia dos bem-
África
690 -sucedidos A320 e B-737. O programa do
América ARJ21, iniciado em 2002, tem origem
Latina em um contrato dos anos 1980 com a
norte-americana McDonnell Douglas.
Segundo a Comac, 435 unidades do novo
*Comunidade dos Estados Independentes, que modelo regional já foram encomendadas
inclui a Rússia e algumas ex-repúblicas soviéticas.
Fonte Embraer Market Outlook 2017 por 21 clientes.

Divisão do SEGMENTO regional OUTROS CONCORRENTES


Previsão de entregas até 2028 A fabricante chinesa é um dos três atores
que tentam quebrar o duopólio Embraer-
700 -Bombardier no mercado de aviação
600 regional – os outros são a russa United
500 Aircraft Corporation (UAC) e a japone-
400 sa Mitsubishi Aircraft Corporation. Os
300
russos fizeram o primeiro voo do Sukhoi
Superjet 100, com capacidade para 98
200
passageiros, em 2008. A estreia comer-
100
cial do avião aconteceu em 2011. Cinco
0 anos depois, os aviões foram proibidos
E-Jet E2 E-Jet ARJ21 MRJ CRJ NextGen Superjet 100 temporariamente de voar pela autorida-
(Embraer) (Embraer) (Comac) (Mitsubishi) (Bombardier) (UAC)
de aeronáutica da Rússia por apresentar
problemas na fuselagem.
Fonte Relatório Global Fleet & MRO Market Forecasts, da Consultoria Oliver Wyman O terceiro competidor, o jato MRJ
(Mitsubishi Regional Jet), também en-
frenta percalços. O programa foi lançado
A demanda apenas por novos jatos re- ção regional na China com quase 80% há 10 anos, mas até agora nenhuma uni-
gionais, segundo o estudo Embraer mar- de participação. Segundo a empresa, o dade foi entregue. Seu desenvolvimento
ket outlook 2017, partirá principalmente estabelecimento de uma nova operação sofreu seguidos atrasos, o que motivou
da América do Norte (32% do total) e da industrial no país depende de dois fato- cancelamentos de pedidos. A japonesa
região Ásia-Pacífico (27%). O mercado res: encontrar condições adequadas para projetou dois modelos, com capacidade
chinês é um dos que mais devem crescer uma parceria com uma empresa local e o de 70 a 90 ocupantes, e estima que o pri-
no período. A fim de incentivar a aviação volume de pedidos que a nova família de meiro jato entre em operação em meados
regional, o governo local tem estimulado E-Jets E2 receberá de clientes chineses. de 2020, sete anos após o prazo original.
as companhias do país a investir prin- A brasileira manteve uma operação Especialistas apontam que os jatos
cipalmente na compra de aviões de até industrial na China por mais de 10 anos, feitos por chineses e russos são tecnolo-
100 assentos, em vez de priorizar aero- entre 2003 e 2016, por meio de uma joint gicamente inferiores e estão sendo pro-
naves maiores. venture com a companhia Harbin Hafei duzidos para atender o mercado interno
Não por acaso, a Embraer anunciou Aviation Industry – a parceria foi encer- de seus países. Já o avião japonês é uma
recentemente planos para construir rada quando os chineses decidiram ini- incógnita. Por isso, é pouco provável que
uma fábrica no país asiático. Hoje, a ciar uma produção própria sozinhos. Na os três novos competidores ameacem a
companhia domina o mercado de avia- época, foram produzidos por lá o avião liderança da Embraer. n

PESQUISA FAPESP 268 | 25


embraer
4 mil
engenheiros
integram a equipe
da Embraer

7
fábricas
no Brasil
e no exterior

US$ 600
milhões
de investimento
anual em P&D

Engenharia Funcionários da Embraer


trabalham na montagem
de um avião. A empresa

de alto nível
fabrica atualmente sete
modelos de jatos comerciais

Reconhecida mundialmente por sua qualificação, equipe. Isso é um problema para a nor-
te-americana, uma vez que a indústria
equipe técnica da Embraer é motivo de cobiça aeroespacial dos Estados Unidos já não
exerce grande fascínio sobre os recém-
da gigante norte-americana -formados – muitos preferem as empre-
sas de tecnologia da informação e comu-
nicação do Vale do Silício, na Califórnia.

O
No Brasil, pelo contrário, a Embraer e o
destino do Departamento de na origem das inovações tecnológicas polo aeronáutico têm demonstrado ca-
Engenharia da Embraer, com- incorporadas a suas aeronaves. pacidade de atrair novos talentos.
posto por 4 mil engenheiros, “A cultura da engenharia brasileira é Um dos motivos do sucesso da enge-
é um tema sensível nas nego- muito rica em conhecimento, com uma nharia da Embraer é a qualificação de seus
ciações da aliança com a Boeing. O corpo visão holística e voltada para aplicações profissionais. A Embraer investe desde o
técnico da brasileira, responsável pela reais, o que dá suporte para estimular ano 2000 em um mestrado profissiona-
criação de novas aeronaves e melhorias novas aplicações em inovação”, afirma lizante com o Instituto Tecnológico de
nas já existentes, é reconhecido por sua Antonini Puppin-Macedo, diretor-geral Aeronáutica (ITA). O Programa de Es-
criatividade, capacidade de inovar e de do Centro de Pesquisa e Tecnologia da pecialização em Engenharia já formou
encontrar soluções para problemas aero- Boeing no Brasil. cerca de 1.500 engenheiros e 200 proje-
náuticos. A empresa investe anualmente Na média, os engenheiros brasilei- tistas, boa parte deles contratada pela em-
US$ 600 milhões em projetos de pesqui- ros são mais jovens do que os da Boeing, presa. “Hoje, a Embraer tem uma área de
sa e desenvolvimento (P&D), que estão que enfrenta um envelhecimento de sua projeto, design e concepção de aeronaves

26 | junho DE 2018
competente, que é cobiçada pela Boeing”, temente, em ações de marketing, venda e
conta o engenheiro Jorge Eduardo Leal Parceria suporte do avião de transporte multimis-
Medeiros, professor do Departamento de são KC-390. As duas empresas também já
Engenharia de Transportes da Poli-USP. tecnológica trabalharam juntas na integração de armas
Não faltam exemplos de bons projetos inteligentes da Boeing ao turboélice Super
desenvolvidos pela empresa brasilei- Embraer e Boeing atuam Tucano (ver infográfico ao lado).
ra. Na área militar, o EMB-312 Tucano, há seis anos em projetos A Boeing inaugurou em 2014 seu Cen-
lançado na década de 1980, é um tur- conjuntos de P&D tro de Pesquisa e Tecnologia em São José
boélice para treinamento que simula a dos Campos. De pequeno porte, tem foco
pilotagem de um jato, reduzindo o cus- na pesquisa em biocombustíveis, metais,
to de formação de pilotos, enquanto o aerodinâmica e eficiência operacional.
novo cargueiro KC-390 é um avião de 2012 “Estabelecemos um modelo colabora-
transporte militar de ponta, equipado » Integração de armas tivo de inovação, combinando ativida-
com tecnologias avançadas (ver Pesquisa inteligentes da Boeing des no centro local com ações de outras
Fapesp no 225). Já os jatos regionais da ao Super Tucano unidades de P&D da Boeing nos Estados
nova família E2 são menos poluentes, Unidos e no mundo, somando a parceria
mais silenciosos e cerca de 10% mais com instituições de pesquisa no Brasil e
econômicos do que seus concorrentes » Projeto de universidades estratégicas nos Estados
diretos, os aviões do Programa C Series segurança de voo Unidos”, explica Puppin-Macedo.
da Bombardier, recentemente compra- (Runway Excursion) O centro brasileiro integra uma rede
do pela Airbus. de 11 unidades da Boeing espalhadas pelo
Uma preocupação dos analistas é o que globo, sendo cinco nos Estados Unidos e
ocorrerá com a área de engenharia da seis em outros países. “O Brasil tem al-
Embraer caso a operação com a Boeing guns dos engenheiros e cientistas mais
se concretize. A companhia funciona hoje inovadores do mundo. Nossa estrutura
com uma estrutura integrada, que aten- 2013 em São José dos Campos abriga algumas
de suas três divisões: aviação comercial, » Apoio da Boeing às das mentes que constroem o futuro da
executiva e militar. Conforme a deman- vendas da aeronave aviação”, afirma o executivo. Segundo
da de projetos, ocorre um deslocamento militar KC-390 ele, a Boeing investe globalmente mais
de engenheiros entre as áreas civil e de de US$ 3 bilhões em P&D por ano e está
defesa. No caso de uma aquisição pela presente em cerca de 65 países com fá-
Boeing, ainda que parcial, há o risco de bricas próprias, centros de manutenção
uma cisão do corpo técnico que, segundo ou escritórios comerciais.
analistas, poderá inviabilizar a empresa. A Embraer também tem atuação glo-
Embora a Embraer tenha uma exce- bal. Seus 18 mil empregados estão distri-
lente engenharia, as demais atividades 2015 buídos por três fábricas no Brasil – em
de P&D correlatas são pequenas quando » Pesquisas em São José dos Campos (aviação comercial
comparadas às desenvolvidas pela Boeing, biocombustíveis e executiva), Gavião Peixoto (militar e
que tem pesquisas importantes em aviôni- componentes para comercial) e Botu-
ca (a eletrônica aplicada à aviação), mate- catu (aeronaves agrícolas) – e quatro no
riais, sistemas aeronáuticos, entre outros. exterior. Em Melbourne e Jacksonville,
A Embraer também é atraente por 2016 ambas na Flórida (EUA), são produzidos,
causa de sua capacidade de produção e » Ampliação da respectivamente, aviões executivos e mi-
inteligência de mercado. A empresa tem parceria para o KC-390, litares, enquanto em Évora, Portugal, o
uma estrutura produtiva moderna, com englobando suporte, foco das duas unidades industriais são
elevado investimento em automação e além das vendas materiais compostos e estruturas me-
digitalização de processos produtivos, tálicas usadas na fabricação dos aviões.
em direção às tecnologias da chamada Analistas afirmam que manter um cor-
indústria 4.0, além de faro para identi- po de engenharia robusto é vital para que
ficar novos nichos de mercado. a indústria aeronáutica supere os desafios
futuros. O mercado exige aviões cada vez
ATUAÇÃO CONJUNTA mais econômicos, silenciosos, confortá-
Caso a parceria entre Boeing e Embraer veis e menos poluentes. As pesquisas para
se concretize, será a confirmação de um » Aplicação de uso de propulsão elétrica estão avançan-
processo de aproximação que já vem de novas tecnologias na do e o emprego de materiais compostos,
alguns anos. Desde 2011, a brasileira tem plataforma de testes mais leves do que o alumínio, deve crescer
um acordo com a norte-americana para ecoDemonstrador nos próximos anos. Esses são alguns de-
estudos conjuntos nas áreas de biocom- safios que a aviação precisa superar para
bustíveis e segurança de voo e, mais recen- Fonte Boeing se manter na vanguarda das inovações. n

PESQUISA FAPESP 268 | 27


idade 88 anos

especialidade
Geofísica

formação
Graduação (1959),
doutorado (1969)
em física na USP

instituição
Universidade
de São Paulo (USP)

produção
científica
Cerca de 41 artigos
científicos e
6 capítulos de livros

28 | JUNHO DE 2018
entrevista Igor Pacca

Em busca dos
segredos
do interior
da Terra

O
Físico abriu caminho para que não se pode dizer de uma conversa com Igor
Pacca é que seja autocentrada, mesmo que o pedi-
a pesquisa em geofísica do inicial dos repórteres tenha sido para ele falar
sobre sua trajetória pessoal e profissional. Com
no Brasil e estudou os delicadeza, aos 88 anos, Pacca lembra dos profes-
movimentos dos continentes sores que admira e das pessoas que dirigiram e ajudaram a criar
o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
por meio da variação do (IAG-USP), do qual ele foi um dos primeiros professores, na
década de 1970, chefe do Departamento de Geofísica durante
campo magnético do planeta 10 anos não consecutivos e diretor, de 1993 a 1997. Com gosto,
ele fala do interior da Terra, contando do sempre inquieto cam-
po magnético do planeta, que fundamenta sua área de trabalho,
o paleomagnetismo – o estudo da evolução e das mudanças de
polaridade do campo magnético, com base no registro de óxi-
Carlos Fioravanti e Bruno de Pierro dos de ferro e outros materiais ferromagnéticos preservados no
interior de rochas. É uma forma de conhecer a história da Ter-
retrato  Léo Ramos Chaves
ra e os movimentos dos continentes. Pacca, com suas equipes,
mostrou que os blocos de rochas que hoje separam a Amazônia
do Centro-Oeste e do Nordeste já estiveram separados por um
mar, estavam colados com blocos da atual América do Norte, e
todos próximos ao atual polo Sul.
Sua mulher, Jesuína Pacca, e seu único filho, Sérgio, são pro-
fessores da USP, ela do Instituto de Física, ele na Escola de Ar-
tes, Ciências e Humanidades. Quando possível, Pacca reúne a
família em seu sítio em Serra Negra, no interior paulista, onde
planta café para consumo próprio. As fotos expostas em frente
a um dos armários de sua sala no IAG, para onde vai quase todo
dia, retratam lugares que visitou em suas expedições de campo
e um laboratório do IAG no Parque do Estado, a antiga sede, no

PESQUISA FAPESP 268 | 29


qual trabalhou. Duas imagens chamam os usados em máquinas elétricas, com

arquivo Pessoal
a atenção: ele cumprimentando dois ex- um ímã e uma bobina, para converter
-presidentes, Fernando Henrique Car- energia mecânica em elétrica. No inte-
doso e Luiz Inácio Lula da Silva. “Não rior da Terra, muitos dínamos, alguns
tenho preconceitos”, ele diz antes de ex- O ano tem mais fortes e outros mais fracos, trans-
plicar que conheceu o primeiro em 1998, formam a energia mecânica da rotação
quando recebeu o título de comendador
da Ordem Nacional do Mérito Cientí-
a mesma em energia eletromagnética. Por isso
que o campo magnético da Terra pas-
fico, e o segundo em 2007, ao receber
outra premiação, a Grã-Cruz, também
duração, mas seia sempre pelo seu interior e exterior.

dessa ordem. O que o paleomagnetismo tem mostra-


o dia varia. do sobre a história do globo terrestre?
Por que o senhor gosta de olhar para O paleomagnetismo ajuda a ver a movi-
dentro da Terra? Há 400 mentação dos continentes, as colisões e as
Porque é fascinante, tem muita coisa pa- junções. Esses movimentos, que necessi-
ra ver. E, claro, muito não conseguimos
ver. Os buracos mais profundos chega-
milhões de tam de uma grande quantidade de ener-
gia, podem dar uma indicação de proces-
ram a apenas 13 quilômetros [km], depois
disso as brocas diamantadas amolecem, anos, o ano sos do interior da Terra. Uma de minhas
pesquisas mostrou que o bloco de rochas
quebram, entortam. As medidas em geral que hoje forma a Amazônia estava sepa-
são indiretas. Quando se faz uma perfu- tinha 400 dias rado de Goiás e do Nordeste por mares,
ração para extrair petróleo, pode-se ob- mais próximo da porção sul do país e qua-
ter muita informação sobre o interior da se colado ao que seria a América do Nor-
Terra. Fontes de informação importantes te. Outra pesquisa coordenada por três
são as ondas sísmicas, geradas pelos tre- geofísicos aqui do IAG – Wilbor Poletti,
mores de terra, cuja velocidade depende Gelvam Hartmann e Ricardo Trindade –,
da variação de densidade das camadas com base em fragmentos de ruínas do
internas do planeta. Os parâmetros elás- sul do Brasil, indicou a variação do cam-
ticos das rochas e a atração gravitacional po magnético terrestre há 350 anos (ver
ajudam a ver a distribuição de massa no Pesquisa FAPESP nos 75 e 244). Uma das
interior da Terra. Ainda há muito por supera a ação da temperatura. No núcleo grandes descobertas dessa área é que a
saber. Em 1910, o geofísico croata An- existe também uma pequena quantidade polaridade do campo magnético da Terra
drija Mohorovičić [1857-1936] propôs de algum elemento químico mais leve está sempre mudando. Há 700 mil anos a
a primeira superfície de separação do que o ferro. Pode ser hidrogênio, car- polaridade era totalmente oposta, o norte
interior de nosso planeta, chamada de bono, potássio, não sabemos o que é. Se onde hoje é o sul, e o sul onde é o nor-
Moho, entre a crosta e o manto, a 10 km fosse só ferro, a massa do núcleo e a da te. Ninguém sabe por quê. Alguns anos
de profundidade nos oceanos e a 40 km Terra seriam muito maiores. atrás a maior intensidade do campo no
nos continentes. Outra descontinuidade hemisfério Norte era o polo Norte, mas
ocorre a cerca de 3 mil km de profun- De onde vem o campo magnético do pla- hoje não é mais. Há um lugar na Sibéria
didade, separando o manto do núcleo. neta, seu objeto de trabalho? em que o campo é mais intenso.
Essa separação é fantástica, porque é Vem do núcleo. A ideia de que a Terra
muito drástica. Há mudanças não só na é um imenso ímã bipolar é bem antiga, O que está estudando atualmente?
pressão e na densidade, mas também nos do século XIII, mas até hoje os proces- Tenho me interessado pela relação entre
materiais, de rochas sólidas do manto, sos de geração do campo geomagnético a rotação da Terra e a frequência de re-
formadas principalmente por silicatos não são completamente entendidos. A versões de polaridade do campo geomag-
de ferro e magnésio, para ferro líquido, energia necessária para gerar o campo nético, que refletem os movimentos do
do núcleo. É líquido porque atingiu a geomagnético pode vir da convecção, núcleo externo. A rotação da Terra está
temperatura de fusão, que depende da produzida pela variação de temperatura intimamente ligada ao campo magnéti-
pressão. Na superfície da Terra, ao nível nas camadas mais internas da Terra. É co e a suas variações, que nos últimos
do mar, a temperatura de fusão do ferro como o movimento da água fervendo na milhões de anos não foram periódicas.
é de 1.500 graus Celsius [ºC]. Os três es- panela, a água que esquenta sobe e a que O problema é que a velocidade de rota-
tados da matéria são também chamados esfria desce, formando células de con- ção não é constante e varia por muitos
de estados de agregação, significando vecção. Na verdade, é mais complicado motivos, como o atrito das marés, na in-
que os átomos nos sólidos estão muito porque, no caso da Terra, a convecção teração com a Lua. Além disso, a Terra
mais juntos do que nos gases e, portanto, de­pende da variação de temperatura e da não é rígida, mas também não é elástica,
a pressão de mega-atmosferas pode su- composição dos materiais. A rotação da­ ou seja, demora para se deformar. A Lua
perar a ação da temperatura, que procura Terra também é importante. Os mode- se opõe à rotação e, por causa da atração
desordenar e separar os átomos. Mas no los teóricos de campo geomagnético são gravitacional, causa uma deformação
núcleo interno a pressão é tão alta que chamados de modelos de dínamo, como aqui e ali, mas a deformação máxima

30 | JUNHO DE 2018
do Departamento de Física da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras [atual
FFLCH] da USP. Lattes não suportava
prestar concurso. Ele esteve para fazer
um concurso na Faculdade Nacional de
Filosofia, do Rio. Orsini e eu levamos a
tese, fizemos a inscrição dele, e ele não
foi. Depois, aqui na USP, ele insistiu para
que fosse aberto um concurso para qua-
lificação de professor na Faculdade de
Filosofia, ainda na rua Maria Antônia.
Abriram um concurso, e de novo Orsini
e eu fizemos a inscrição, e ele não com-
pareceu. Quem se inscreveu e passou no
concurso foi Jayme Tiomno [1920-2011],
mas não ficou muito tempo.

Por quê?
Como professor catedrático, Tiomno
foi convidado para dar a aula inaugural
Serra Geral, na região Sul, com 2 mil km2 e dezenas de derrames basálticos dos cursos da USP em 1969. Na época, o
reitor era o Mário Guimarães Ferri [1918-
1985], que estava viajando. Quem apare-
ceu foi o vice, Alfredo Buzaid [1914-1991],
só vai ocorrer quando a Terra girar um O campo magnético interfere em nosso muito ativo durante o regime militar.
pouco mais, exatamente porque ela não dia a dia? Tiomno tinha trabalhado na Universi-
é elástica. Esse jogo de forças faz com Há uma região em que a intensidade do dade de Brasília e achou que era uma
que o ano tenha a mesma duração, mas campo magnético é muito menor, a Ano- boa ocasião para botar para fora tudo o
o dia varia. Um jeito fácil de guardar es- malia do Atlântico Sul, cujo deslocamen- que ele havia sofrido na capital federal.
sa variação: há 400 milhões de anos, o to ajudamos a definir aqui no IAG. Os E realmente falou dos problemas que
ano tinha 400 dias. Hoje a Terra está gi- tripulantes das estações espaciais têm enfrentou em Brasília. Buzaid estava na
rando mais devagar, portanto o número de se proteger dos raios cósmicos com mesa e só olhava torto. Naquele mesmo
de dias é menor, e a Lua está cada vez uma blindagem pesada quando passam ano, o vice-reitor foi nomeado minis-
mais distante. Há outros fatores influen- pela anomalia. O campo magnético bar- tro da Justiça do governo Médici [1969-
ciando a rotação da Terra. Quando uma ra os raios cósmicos que chegam do Sol 1974], houve uma safra de cassações e
placa tectônica mergulha da superfície ou de fora da galáxia e também inter- Tiomno foi um deles. Durante essa épo-
para o interior da Terra, a distribuição fere no funcionamento dos satélites de ca terrível saíram muitos professores da
de massa muda. Pode mudar também comunicações. Física. Vínhamos trabalhar e tínhamos
quando as geleiras derretem e o nível primeiro de passar por uma barreira de
dos oceanos sobe. É como uma bailari- O senhor é um geofísico que começou policiais, logo na entrada do campus.
na, que gira mais devagar quando põe como físico?
os braços para fora e mais rapidamente Fiz doutorado em física da radiação O senhor sofreu algum tipo de pressão?
quando encolhe os braços, por causa do cósmica com César Lattes [1924-2005]. Eu não era muito ativo nessa área. Mas
momento de inércia e da conservação Meu orientador oficial era Celso Orsi- fui várias vezes falar com Schenberg, que
do momento angular. Infelizmente, os ni [1929-2014], mas na prática foi com também tinha sido cassado e estava no
dados sobre variação do nível do mar ao Lattes que trabalhei durante sete anos. Dops [Departamento de Ordem Políti-
longo de milhões de anos são escassos, Dizem que ninguém nunca conseguiu ca e Social], para resolver um problema
mas podemos ter uma ideia dessa varia- trabalhar com ele tanto tempo... Lattes ou pegar a assinatura dele. Os professo-
ção e da temperatura por meio da pro- era um gênio, mas muito imprevisível, res cassados eram proibidos de entrar na
porção entre dois isótopos de oxigênio, não cumpria compromissos, mandava universidade e aposentados compulsoria-
o O16 e O18. A água do mar tem os dois Orsini e eu no lugar dele às reuniões do mente. José Goldemberg [presidente da
isótopos, mas o 16, mais leve, evapora CNPq [Conselho Nacional de Desenvol- FAPESP desde 2015] e Oscar Sala [1922-
mais facilmente quando a temperatura vimento Científico e Tecnológico], em 2010, presidente da FAPESP de 1985 a
aumenta. Inversamente, o 18 é o mais Brasília. Lattes era professor e pesqui- 1995] também eram professores muito
comum quando a temperatura cai e o sador na UFRJ [Universidade Federal do conceituados, mas de pouca atuação polí-
mar esfria. Medindo a relação entre os Rio de Janeiro] e no CBPF [Centro Bra- tica. Sala era até estrangeiro, nascido em
dois, em conchas antigas, podemos sa- sileiro de Pesquisas Físicas] e veio para Milão, na Itália. E, além dos professores,
ber se a temperatura subiu ou desceu, ou a USP em 1960, convidado por Mário havia os estudantes, que participavam
se o gelo estava concentrado nos polos. Schenberg [1914-1990], que era o chefe muito da política.

PESQUISA FAPESP 268 | 31


esse mistério ficaria mais claro se traba-

arquivo Pessoal
lhassem com rochas de mais de um con-
tinente, Creer coletou amostras de rochas
do Brasil, da Argentina e do Uruguai na
década de 1960 para estudar o movimento
dos continentes. Havia uma briga danada
entre fixistas, que diziam que os conti-
nentes eram fixos, e mobilistas, que de-
fendiam que os continentes se moviam. A
movimentação dos continentes era uma
ideia antiga. Era só olhar para o litoral
da África e da América do Sul e ver que
se encaixam. Em 1913 Alfred Wegener
[1880-1930] publicou o livro A origem
dos continentes e oceanos, mas exagerou
nos argumentos e, por essa e outras ra-
zões, não foi muito bem-aceito na época.
A briga foi até a década de 1970. Falamos
Pacca em trabalho de campo em 1997 em Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso com Creer, ele cedeu os equipamentos e
Cordani e eu fomos buscar em Curitiba.
Eram essencialmente bobinas de des-
Por que resolveu estudar física? Fui atraído pela geofísica para poder tra- magnetização e de Helmholtz, que geram
Foi acidental. Fui criança pobre e tive de balhar em uma área que tivesse relação campo magnético para eliminar o campo
trabalhar cedo para ajudar minha mãe. com o Brasil. Na época me incomodava magnético da Terra, que é pouco intenso,
Meu pai abandonou a família quando fazer ciência sem relação com o país, mas mas tem de ser contido, para fazer as me-
minha irmã tinha 5 anos e eu estava por não havia nada de geofísica no Brasil. O didas de magnetização de rochas. Mon-
nascer. Moramos muito tempo no cen- IAG era ainda um instituto complemen- tamos o laboratório de paleomagnetismo
tro da cidade, na rua Asdrúbal do Nasci- tar da USP. Veio parar na USP em 1955 no Instituto de Física.
mento. Foi lá que tive meu primeiro em- porque um dos diretores brigava com
prego de carteira assinada. Aos 14 anos, todo mundo e o instituto pulava de uma Quais seus primeiros trabalhos na área?
comecei a trabalhar como office boy no secretaria de Estado para outra e chegou Depois de montar o laboratório, contra-
departamento de construções da Light. uma hora que estava completamente ór- tamos um geofísico argentino, Daniel Va-
Eu ganhava meio salário mínimo. Fiquei fão. Em 1968, quando fizeram a reforma lencio, que tinha trabalhado com Creer na
de 1944 a 1946 na Light e depois fui para universitária e criaram os institutos de Inglaterra, e começamos a trabalhar. Ele
uma empresa de telégrafos, a All Ameri- ensino e pesquisa, o IAG ficou de fora. veio para cá e depois passei alguns meses
ca Cables and Radio Inc. Era tudo feito Na Física, havia vagas para professores na Argentina. O primeiro estudo tratou
por telégrafo. A comunicação não era de geofísica, mas nunca preencheram. da polaridade das rochas do arquipélago
imediata, mas em 15 minutos, por cabos Comecei a ver quais eram as grandes de Abrolhos, o que permitiu conhecer
submarinos, chegava a cotação da bol- questões da geofísica, em sismologia, melhor a história da formação das ilhas,
sa de valores de Londres ou Nova York. um campo fundamental porque diz co- que começou há 60 milhões de anos e já
Entre o final do curso secundário [atual mo é a Terra por dentro, e gravimetria, era estudada antes pelo Cordani. Esse
ensino médio] e a faculdade fiquei um o estudo da gravidade. Já era amigo de trabalho saiu em 1972 na Nature Physi-
tempo sem estudar, tinha de ajudar mi- Umberto Cordani, professor do Insti- cal Science, indicando o grande interesse
nha mãe. Fiz vestibular para engenharia, tuto de Geociências que foi muito im- por essa área na época. Ficamos na Física
mas fui reprovado em matemática. Como portante no início da geofísica. Um dia até 1972, quando o IAG foi oficialmente
havia um segundo exame na Faculdade Cordani contou que um geofísico inglês, incorporado como unidade de ensino e
de Filosofia, fiz inscrição para quími- Kenneth Michael Creer, um dos pionei- pesquisa da USP. Antes disso, o IAG, que
ca, mas havia poucas vagas sobrando no ros do paleomagnetismo, tinha come- vem da época do Império, ainda estava
meio do ano e cancelaram a prova. Então çado um laboratório em Curitiba, e não sem destino certo na USP. Havia muitas
fiz física e entrei, em 1959, tirando 10 no foi adiante, mas deixou os aparelhos lá. possibilidades, como a incorporação pelo
exame escrito e no oral de matemática. Na Inglaterra, Creer e Patrick Blackett Instituto de Geociências, pelo Instituto de
Foi acidental, mas gostei muito. [1897-1974], que foi presidente da Royal Física ou pela Escola Politécnica, mas o
Society, tinham começado a determinar então diretor do IAG, Abrahão de Moraes
E como entrou na geofísica? a direção de polo magnético de rochas [1917-1970], que era professor de cálculo
Em 1967, Lattes aceitou o cargo de pro- de diferentes idades da Europa. na Poli, não gostava de nenhuma. Tive
fessor titular no novo Instituto de Física a sorte de ser aluno dele por dois anos.
da Unicamp [Universidade Estadual de O que eles viram? Ele queria que o IAG fosse um instituto
Campinas], mudou-se para Campinas e Viram que o norte das rochas não era o de ensino e pesquisa para desenvolver a
o grupo de pesquisa da USP se desfez. mesmo do da Terra. Como acharam que astronomia, a geofísica e a meteorologia.

32 | JUNHO DE 2018
Como resolveram o destino do IAG? Qual seu trabalho científico de que mais
Em dezembro de 1970, não estava nada se orgulha?
resolvido ainda quando Abrahão morreu, Foi o longo trabalho sobre o magmatis-
de repente. O reitor era o Miguel Reale mo da serra Geral, que se estende pela
[1910-2006], que gostava do Abrahão. Fui atraído região Sul, uma parte do Paraguai, da
No enterro, ele fez um discurso, à beira Argentina e do Uruguai. Foi uma cola-
do túmulo: “Aquele instituto que você
tanto queria, Abrahão, vou fazer força
pela geofísica boração com grupos italianos, princi-
palmente com Enzo Piccirillo, da Uni-
para conseguir”. E o instituto saiu, como
unidade de ensino e pesquisa da USP, em
para poder versidade de Pádua e depois de Trieste,
e Piero Comin-Chiaramonti, de Verona.
1972. Os três departamentos – astrono- É um platô, com dezenas de derrames
mia, geofísica e meteorologia – foram trabalhar basálticos, que se estende por quase 2 mil
criados nessa ocasião. Com astronomia km2. Tem lugares em que a espessura do
não havia problema, era a atividade tra- em uma área basalto é de quase 2 km. Os geólogos já
dicional do instituto. Além disso, três tinham estudado essa região, mas havia
estudantes que Abrahão tinha mandado
fazer doutorado no exterior, Paulo Bene-
que tivesse duas grandes incógnitas. A primeira era
a idade dos derrames basálticos, porque
vides Soares [1939-2017], José de Freitas
Pacheco e Sílvio Ferraz-Mello, já tinham relação na década de 1970, quando começamos a
trabalhar lá, o método de datação ainda
voltado e ingressaram logo no instituto. era potássio argônio, com uma incerteza
Na meteorologia, já existia a estação me- com o Brasil muito alta. A outra era sobre a rapidez
teorológica, nessa época no Parque do com que ocorreram os derrames dessa
Estado, na zona sul de São Paulo, ainda região. Os geólogos pensavam que teriam
sem professores. O diretor do instituto, demorado muito para ocorrer. O paleo-
Giorgio Giacaglia, trouxe estrangeiros, magnetismo conseguiu resolver essas
mas não deu certo. Só deu certo quan- duas questões. Vimos que os derrames
do mandaram Pedro Leite da Silva Dias na região começaram há cerca de 150
[atual diretor do IAG] e Maria Assump- milhões de anos, atingiram o auge há 127
ção Dias, recém-formados em matemáti- milhões e depois foi sossegando. Vimos
ca, fazer doutorado nos Estados Unidos também que foi relativamente rápido.
para depois atuarem como professores Pretendíamos criar logo os cursos de gra- Seis derrames em menos de 1 milhão
e pesquisadores dessa área. A geofísica duação. O de meteorologia foi mais fácil, de anos é pouco tempo, considerando
não tinha nada. A universidade exigia porque era a vocação do instituto, e co- o volume de lava. Era um volume fan-
que o departamento tivesse pelo menos meçou em 1975. O de geofísica é que foi tástico, que saía por fissuras do antigo
cinco docentes, em três categorias. Um difícil. Enfrentamos muita oposição das continente formado pela América do Sul
deles era o próprio Giacaglia, professor associações de geólogos, que não queriam e África. Quando os continentes eram
titular da Poli, que tinha trabalhado com mais concorrentes, do mesmo modo que muito grandes, o calor se acumulava até
geodésia dinâmica. Vieram dois geólogos os engenheiros de minas não queriam fundir a litosfera, a camada mais externa
emprestados da Geociências, Cordani e concorrentes quando se criaram os cursos da Terra, e sair. Esse trabalho na serra
Koji Kawashita. Virei chefe do depar- de geologia no Brasil, no final da década Geral seguiu por uns 20 anos e formou
tamento, porque tinha feito doutorado de 1960, numa época em que se desco- muitos mestres e doutores.
em física e era o único em tempo inte- briu que o país tinha recursos minerais,
gral. Contratamos um auxiliar de ensino, mas não havia mão de obra em quantida- O senhor ainda faz coletas de campo?
Francisco Hiodo, e, por meio do Creer, de e qualidade necessária. Conseguimos A viagem mais recente foi em 2008. Fui
conseguimos uma vaga para um douto- mostrar que as atribuições de geólogos para Camarões, na África, e passei um
rado na Escócia, para onde mandamos e geofísicos eram diferentes, e por fim o mês coletando amostras de rochas no
Marcelo Assumpção, recém-contratado, curso começou, em 1985. O curso de gra- interior do país. Camarões tem forma-
para depois ser professor aqui. Eu aju- duação em astronomia veio bem depois ções vulcânicas mais ou menos alinha-
dava a escolher os nomes. Além de ser porque, no início do instituto, os astrofí- das que vêm do oceano e entram no con-
chefe de departamento, eu dava aula de sicos achavam que não precisavam criar tinente. Isso é muito relevante para
geofísica. O primeiro mestrado foi o de um curso de graduação e poderiam se quem estuda o paleomagnetismo da Ter-
Márcia Ernesto, em 1978. Ela fez a ini- virar com alunos de pós-graduação. Ho- ra. Foi inesquecível também por outra
ciação científica e o mestrado comigo, je os três cursos e os três departamentos razão. Estávamos no interior de Cama-
em paleomagnetismo. Aí começamos a são fortes, talvez os mais fortes do Brasil, rões, que tem uma cultura completa-
acreditar mais no departamento. Agora por causa da qualidade dos professores e mente diferente da nossa, e um dos mo-
não vai morrer, está formando gente. dos estudantes. Na geofísica, avançamos radores, vendo que uma das pesquisa-
bastante com as colaborações internacio- doras do meu grupo trabalhava muito,
Como começaram os cursos de gradua- nais. Tínhamos problemas científicos que perguntou-me se eu não queria trocá-la
ção no IAG? interessavam a cientistas estrangeiros. por algumas cabras. n

PESQUISA FAPESP 268 | 33


política c&T  Inovação y

Empreendedores
precoces
Estudo da OCDE coloca o Brasil entre
os países com grande proporção
de startups criadas por estudantes ou
recém-formados

Bruno de Pierro

U
m relatório elaborado pela Organização para a Coope-
ração e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra
que o empreendedorismo praticado por universitários
ou recém-formados tem destaque em países como
Canadá, Austrália, Índia e Brasil. Nessas nações, a proporção
de estudantes que fundam empresas de base tecnológica, as
startups, é superior a 10% do total de empreendedores – uma
taxa superior a de países como Estados Unidos, Israel, Reino
Unido e França. A OCDE avaliou o perfil de startups registra-
das na base de dados Crunchbase, que reúne informações de
aproximadamente 447 mil empresas inovadoras em 199 países.
No caso do Brasil, contabilizaram-se apenas 290 startups, mas
12% delas tinham sido fundadas por estudantes de graduação ou
recém-formados. Embora apresentem uma taxa de mortalidade
expressiva, essas empresas servem como um termômetro da
importância da inovação entre os jovens e chamam a atenção de
grandes companhias interessadas em novos modelos de negócio.
Observou-se que, nos países analisados, os segmentos de
jogos, transporte, educação e comércio on-line apresentam
maior incidência de empreendedorismo estudantil. Não por
coincidência, são áreas cujas inovações estão geralmente atre-
ladas a softwares e aplicativos, e não exigem grande aporte
de investimento para dar início às atividades. Já em setores
como biotecnologia, saúde, energia e alimentos, as startups
geralmente são criadas por pessoas mais experientes, que
fazem ou concluíram a pós-graduação.

34  z  junho DE 2018


Alex Matioli (à esq.) e
Vinícius Freitas (à dir.)
fundaram suas startups
enquanto ainda
cursavam a graduação

Rafael Ribeiro, diretor da Associação Brasileira de Star-


tups (ABStartups), enxerga uma conjunção de fatores pa-
ra explicar o interesse dos estudantes ou recém-formados.
“Os jovens costumam ser mais tolerantes ao risco e isso faz
com que possíveis fracassos os motivem a seguir adiante”,
avalia. “Somado a isso, o cenário de crise econômica torna o
empreendedorismo uma opção atraente e uma promessa de
independência financeira.” De acordo com o documento da
OCDE, o empreendedorismo estudantil também desperta in-
teresse graças ao sucesso de empresas que se tornaram líderes
mundiais, como o Facebook, a Microsoft e a Apple. Embora
consideradas casos excepcionais, elas foram iniciadas quando
seus fundadores – Mark Zuckerberg, Bill Gates e Steve Jobs,
respectivamente – ainda estavam na graduação, que não foi
concluída por nenhum deles.
O cientista da computação João Machini, de 29 anos, tem
no currículo três empresas que ajudou a fundar no final da
graduação no Instituto de Matemática e Estatística da Uni-
versidade de São Paulo (IME-USP). A mais recente, criada
há quatro anos, é a WorldPackers, uma startup que disponi-
biliza vagas de trabalho voluntário no mundo todo. “Trata-se
de um sistema colaborativo de albergues, pousadas e ONGs
[organizações não governamentais] em que os viajantes tro-
cam diárias por serviços temporários”, explica. A plataforma
tem mais de 1 milhão de usuários, que pagam uma taxa anual
de US$ 49 para utilizar o serviço. Filho de professores uni-
versitários, Machini cogitou seguir carreira acadêmica, mas
desistiu quando ainda fazia iniciação científica. “O empreen-
dedorismo é muito dinâmico. Para que uma nova ideia seja
validada, é preciso estar próximo dos consumidores, e isso
as startups fazem melhor do que as grandes firmas, que têm
processos internos mais burocráticos.”
Uma tendência que ganhou impulso é o surgimento de pro-
gramas criados por empresas como Microsoft, Google, Telefô-
nica e Bradesco para acelerar o desenvolvimento de tecnologias
em startups (ver Pesquisa FAPESP nº 226). “Grandes compa-
nhias têm interesse em conhecer e absorver novos modelos de
negócio criados em empresas nascentes. Muitas delas, como
Uber, Airbnb e Nubank, para citar uma brasileira, cresceram
rapidamente a ponto de ameaçar mercados tradicionais”,
explica Jaercio Barbosa, coordenador da Escola Superior de
Empreendedorismo (ESE) do Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP). “Pro-
gramas de aceleração estimulam os jovens a criar empresas”,
observa Barbosa. A disponibilidade de incubadoras de empre-
sas em universidades também tem um papel importante. “Os
estudantes encontram nesses ambientes apoio institucional
e orientação para aplicar conhecimento na forma de consul-
léo ramos chaves

torias de tecnologia, administração e formatação comercial”,


explica Guilherme Ary Plonski, coordenador científico do
Núcleo de Política e Gestão Tecnológica da USP.

pESQUISA FAPESP 268  z  35


sem passar pelo estágio, as chances de
Jovens no comando meu negócio falhar seriam maiores.” Aos
24 anos, Freitas é um dos sócios da Li-
Startups de países selecionados que foram fundadas por veHere, startup com sede em Campinas
estudantes de graduação e recém-formados (em %) que faz a mediação entre proprietários
de imóveis e estudantes. “Temos uma
plataforma que simplifica a contrata-
15 ção de aluguéis, sem que os estudantes
precisem apresentar fiador ou cheque
caução para alugar um imóvel”, explica.
10
O levantamento da OCDE mostra que
em países mais desenvolvidos, como Suí-
ça, Dinamarca, Alemanha e Estados Uni-
dos, a proporção de startups criadas por
5
pessoas com doutorado é bem maior do
que no Brasil. Nos Estados Unidos, em-
presas fundadas por indivíduos em torno
0 dos 40 anos costumam dar mais certo do
ha que aquelas concebidas por estudantes,

il

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EUA

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na casa dos 20 anos, segundo estudo pu-


Fra
ma

pa
Áu

ret
ga
Ca

Ho

Es
Ale

Sin

ã-B

blicado em abril por pesquisadores do


Gr

MIT e da Universidade de Northwes-


tern no repositório do National Bureau
Fonte  OCDE, com base nas startups registradas na plataforma crunchbase
of Economic Research (NBER). “Em-
preendedores mais maduros geralmente
têm um olhar mais especializado, que é
Criar uma startup durante a gradua- dos estudantes cursaram na universidade fundamental para desenvolver inovações
ção, no entanto, pode se revelar uma de- uma disciplina relacionada ao empreen- mais robustas”, observa Lucimar Dantas,
cisão precoce e açodada, ressalva Mariana dedorismo e, entre as que oferecem tais gerente da Incubadora de Empresas do
Zanatta Inglez, gerente da Incubadora matérias, pouco mais da metade trata Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-
de Empresas da Universidade Estadual mais de reflexões sobre “ter inspiração” -Graduação e Pesquisa de Engenharia da
de Campinas (Unicamp). “Há casos de do que apresenta conhecimento prático. Universidade Federal do Rio de Janeiro
alunos que não conseguem conciliar os “O Brasil tem poucas escolas com a mis- (Coppe-UFRJ).
estudos com a vida de empreendedor”, são de formar empreendedores”, subli- No Brasil, boa parte dos empreende-
diz. “Isso pode prejudicar a formação do nha Jaercio Barbosa, da ESE Sebrae-SP. dores estudantis ainda não completou ou
estudante, que ainda não está maduro o Outro estudo realizado em 2016 pelas tem apenas o bacharelado, como mostra
suficiente para comandar uma empresa.” universidades de Berna e St. Gallen, na a OCDE. “Isso influencia negativamente
Alex Matioli, de 27 anos, cursa adminis- Suíça, aplicou um questionário a mais o teor de inovação tecnológica da em-
tração de empresas na Unicamp e divide de 122 mil estudantes de mil universi- presa”, explica Fabio Kon, professor de
o tempo entre as aulas, o emprego em dades em 50 países. Observou-se que empreendedorismo digital do IME-USP
uma luderia – um bar especializado em 80,3% dos alunos pretendiam trabalhar e membro da Coordenação Adjunta de
jogos de tabuleiro – e a Rubian, startup como funcionários imediatamente após Pesquisa para Inovação da FAPESP. Pa-
que fundou em 2015. “O objetivo é desen- concluírem a graduação. Apenas 8,8% ra ele, não é o caso de desencorajar os
volver extratos bioativos para aplicação demonstraram vontade de fundar a pró- estudantes mais novos a criar startups.
em cosméticos e nutracêuticos, um tipo de pria empresa ao terminarem os estudos. Mas argumenta que é preciso discutir
suplemento alimentar.” A empresa reali- No entanto, 38,2% disseram que abririam abertamente as limitações do modelo de
za pesquisas com urucum e maracujá em um negócio depois de cinco anos de for- empreendedorismo estudantil porque a
parceria com a Unicamp, com apoio do mados – tempo suficiente para fazer uma mortalidade dessas empresas costuma ser
programa Pipe, da FAPESP. Para o estu- pós-graduação ou adquirir experiência maior e pode atrapalhar o desempenho
dante, um obstáculo que precisou superar no mercado de trabalho. acadêmico do estudante. Rafael Ribeiro,
foi a falta de recursos para tirar a empresa da ABStartups, observa que o caminho
do papel. “Não queria contar apenas com maturidade para os empreendedores muito jovens é
a ajuda financeira dos meus pais, por isso Vinícius Freitas, aluno de administra- árduo. “Muitos tendem a falhar quando
comecei a trabalhar em um bar e a jun- ção de empresas do Instituto de Ensino não têm mentoria e ajuda adequada”, diz
tar dinheiro. Também foi fundamental e Pesquisa (Insper), fez estágio de dois Ribeiro. “Todo aluno deve aprender a se
a ajuda de um mentor empresarial, que anos no mercado financeiro antes de fun- relacionar com a comunidade de startups
se tornou sócio e investidor da Rubian.” dar uma empresa. “Trabalhei com gen- para encurtar a sua curva de aprendiza-
Uma pesquisa divulgada no ano passa- te mais experiente e isso acelerou meu gem e conseguir validar seu produto ou
do pelo Sebrae revela que apenas 28,4% aprendizado. Se tivesse empreendido serviço no mercado consumidor.” n

36  z  junho DE 2018


Difusão y

Promessa de

B O i c O T E
Cientistas da computação propõem veto a nova revista de
inteligência artificial por ela não adotar acesso aberto

C
erca de 3 mil pesquisadores e e, em seguida, arquivadas em repositó- ro.” A declaração foi subscrita tanto por
estudantes de computação as- rios de acesso aberto – o ArXiv é uma pesquisadores ligados a instituições de
sinaram em maio um manifesto destinação frequente dos manuscritos. pesquisa, entre as quais a Universidade
se comprometendo a não sub- Esse paradigma se contrapõe ao sistema Harvard e o Massachusetts Institute of
meter artigos a um periódico que deve tradicional de comunicação científica, Technology (MIT), nos Estados Unidos,
ser lançado no início de 2019 nem par- em que o acesso é disponível para quem quanto por especialistas vinculados a
ticipar de seu processo de revisão por se dispuser a pagar para ler, e também empresas como Google, Microsoft, Fa-
pares. A revista em questão é a Nature a um padrão mais moderno que ganhou cebook e IBM. A ausência de nomes da
Machine Intelligence, do grupo Springer espaço nos últimos tempos, no qual o Apple foi sentida.
Nature, que pretende divulgar estudos acesso é aberto, mas o autor precisa pa- Entre os signatários, destacam-se no-
sobre inteligência artificial, aprendizado gar uma taxa para financiar a publicação. mes como os dos cientistas da computa-
de máquina e robótica. A promessa de “Não vemos papel algum, no futuro ção Yann LeCunn, professor da Univer-
boicote tem uma justificativa simples: a da pesquisa em aprendizado de máqui- sidade de Nova York e diretor do braço
produção científica em ciência da com- nas, para revistas de acesso fechado ou de pesquisa em inteligência artificial do
putação, e particularmente em inteligên- que cobram taxas de autores”, informa Facebook, e Yoshua Bengio, da Univer-
cia artificial, segue um modelo peculiar o manifesto. “Em contraste, recebería- sidade de Montreal, no Canadá, pionei-
de publicação em que as descobertas são mos de bom grado novas conferências ros na pesquisa sobre redes neurais. “A
divulgadas e debatidas em conferências e revistas com publicação a custo ze- comunidade de aprendizado de máquina

Ritmos de crescimento Inteligência artificial


Ciência da computação
10 1001101100011100010 1000100010100011100010011
Total da produção científica
Quantas vezes
cresceu, entre 8 100110110001110001001111100010111000100010100011100010011111000101000100010100011100010011
1996 e 2016, o
total da produção
6 100110110001110001001111100010111000100010100011100010011111000101000100010100011100010011
científica e o
número de artigos
publicados 3 100110110001110001001111100010111000100010100011100010011111000101000100010100011100010011
sobre inteligência
artificial e ciência
da computação. 1
1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016
Publicações em
1996 equivalem a 1
FONTE revista Science e scopus

pESQUISA FAPESP 268  z  37


tem feito um grande trabalho ao publicar
pesquisas em acesso aberto; reverter essa Avanço do conhecimento científico
tendência utilizando um modelo fecha-
do não parece ser uma boa ideia”, disse, Evolução do número de publicações de autores do Brasil sobre tópicos
segundo a revista Forbes, Jeff Dean, di- ligados à pesquisa em inteligência artificial*
retor do Google AI, braço de pesquisa do
Google sobre inteligência artificial, outro
400
que assinou a declaração. Segundo dados
da base Scopus compilados pela revista 350
Science, o número de trabalhos científicos
em inteligência artificial multiplicou-se 300
por 10 entre 1996 e 2016, acima da média
da ciência da computação, que cresceu 250
seis vezes no mesmo período. O Brasil
segue a mesma tendência: há pesquisa- 200
dores publicando na área desde os anos
1990. Eles formaram uma força de pes- 150
quisa responsável por uma produção que
mais que dobrou de tamanho entre 2010 100

e 2016 (ver gráfico nesta página).


50

O
responsável pelo manifesto, o
0
cientista da computação Tho-
mas Dietterich, que é professor
1990 1995 2000 2005 2010 2015
emérito da Universidade do Estado de
Oregon, nos Estados Unidos, usou sua
conta no Twitter para convidar colegas * Inteligência artificial, aprendizado de máquina, aprendizagem profunda e redes neurais
a chancelar a declaração. Recebeu em
resposta um tweet da própria revista
Fonte Web of Science
Nature Machine Intelligence, em um tom
conciliador: “Consideramos que a Nature
Machine Intelligence pode coexistir e for-
necer um serviço – para os que estiverem
interessados –, conectando diferentes
campos, oferecendo um canal para tra-
balhos interdisciplinares e conduzindo
um processo rigoroso de avaliação por Dados integrados
pares”. A porta-voz da Springer Natu-
re em Londres, Susie Winter, divulgou Sistema reúne informações sobre a produção de pesquisadores
um comunicado defendendo o modelo: brasileiros em subáreas da ciência da computação
“Acreditamos que a maneira mais justa
de produzir revistas altamente seletivas Pesquisadores das universidades federais área de inteligência artificial. Já em
como essa e garantir sua sustentabilidade de Minas Gerais (UFMG) e de Uberlândia engenharia de software, a Universidade
no longo prazo e para uma comunida- (UFU) criaram um sistema que fornece Federal de Pernambuco (UFPE) conta
de a mais ampla possível é distribuir os dados comparativos sobre a produção com a melhor nota, enquanto o
custos entre muitos leitores”. dos departamentos de ciência da Departamento de Ciência da
A repercussão do manifesto foi gran- computação de instituições de ensino Computação da UFMG tem o escore mais
de, por mobilizar um campo emergente superior do Brasil. Lançado em janeiro, o elevado na área de banco de dados.
de pesquisa na defesa do acesso aber- CSIndex (http://goo.gl/qWuS2w) oferece A coleta das informações é feita por
to e também por contrapor-se a um dos informações que podem ser úteis tanto meio do acompanhamento de artigos
maiores grupos de comunicação científica para avaliar o desempenho de grupos de apresentados em conferências indexadas
do mundo. Mas não chegou a surpreen- pesquisa quanto para orientar estudantes em bases internacionais. Na ciência da
der quem acompanha a evolução do co- na escolha de cursos de mestrado e computação, a publicação de trabalhos
nhecimento em inteligência artificial e doutorado. O serviço reúne e organiza a em conferências costuma ser mais
o ambiente em que ele é produzido. Um produção total dos departamentos em 16 importante do que a publicação de
round anterior desse embate foi travado subáreas, gerando um escore para cada artigos em revistas científicas. O CSIndex
em 2001, quando a cientista da compu- um. O Instituto de Matemática e monitora artigos publicados nos anais de
tação Leslie Kaelbling, do MIT, lançou Estatística da Universidade de São Paulo 162 conferências, distribuídas em
o periódico de acesso aberto Journal of (IME-USP) detém o escore mais alto na subáreas como engenharia de software,

38  z  junho DE 2018


Machine Learning Research (JMLR) como ro. “A revisão por pares existe há mais
Número de publicações por país alternativa à prestigiosa revista Machine de 300 anos e não há evidência de que
na base Web of Science sobre Learning, do Kluwer Academic Press, vá perder importância. Mas há alguns
tópicos ligados à pesquisa em de acesso restrito. À época, boa parte do campos disciplinares mais teóricos, co-
inteligência artificial* conselho editorial da Machine Learning mo algumas áreas da física e da ciência
renunciou e se transferiu para a JMLR. da computação, em que é possível um
A percepção de que o processo tradi- pesquisador apresentar conceitos novos
Estados Unidos 46.214 cional de publicação científica era demo- em um repositório de acesso aberto e
China 37.596 rado para um campo do conhecimento em abri-los para discussão entre os colegas,
Reino Unido 13.417 efervescência levou os cientistas da com- cabendo a eles validá-los ou não”, afir-
Índia 9.742 putação a adotar um modelo em que con- ma. “Já em áreas aplicadas, a revisão por
Alemanha 9.608 ferências e repositórios de acesso aberto pares é essencial. Veja o caso da biologia
Irã 9.114 têm peso preponderante e a revisão por ou da medicina: seria necessário que os
Canadá 8.883 pares é aberta à contribuição de qualquer colegas reproduzissem os experimentos
Japão 8.858 pesquisador e feita após a divulgação dos descritos em repositórios para poder
Espanha 8.249 resultados. Esse modelo continua em evo- validá-los, o que seria inviável.”
Itália 8.153 lução. Em 2013, o cientista da computação O físico Paul Ginsparg, pesquisador da
França 7.313 Andrew McCallum, da Universidade de Universidade Cornell e fundador do re-
Taiwan 7.107 Massachusetts, em Amherst, nos Estados positório ArXiv, elogiou o manifesto dos
Coreia do Sul 6.480 Unidos, criou o site Open Review, por cientistas da computação, mas se mos-
Austrália 6.379 meio do qual autores podem publicar ma- trou cético em relação à sua capacidade
Turquia 5.959 nuscritos apresentados em conferências de influenciar o modelo de publicação
BRASIL 3.851 e convidar colegas para comentá-los. Em científica como um todo. “Pessoalmente,
Polônia 3.226 pouco tempo, as principais conferências não tenho nenhuma animosidade contra
Holanda 3.031 sobre inteligência artificial passaram a o modelo de assinatura”, afirmou à revista
Singapura 3.022 utilizar os serviços do site. Science. Ele considera que os signatários
Malásia 2.681 Rui Seabra Ferreira Júnior, presiden- do manifesto têm uma visão pouco rea-
te da Associação Brasileira de Editores lista sobre a possibilidade de publicar a
Científicos, observa que os modelos de custo zero. “Servidores de repositórios
publicação científica passam por uma são baratos, mas um controle sistemático
fase de transição e ainda não há clareza de qualidade exige mão de obra intensiva
sobre o que deverão se tornar no futu- e custa dinheiro.” n Fabrício Marques

linguagens de programação, arquitetura As conferências de maior prestígio de cientista da computação André Sampaio
de computadores e bancos de dados. ciência da computação têm um processo Gradvohl, da Faculdade de Tecnologia
O sistema usa um algoritmo projetado de seleção bastante rigoroso e em geral da Universidade Estadual de Campinas
para recuperar informações da Digital aceitam menos de 20% dos artigos (Unicamp), é importante que o
Bibliography & Library Project (DBLP), submetidos. Os trabalhos publicados em CSIndex considere outros repositórios
um dos principais repositórios 34 dessas conferências mais disputadas além do DBLP. “A ampliação do
bibliográficos de ciência da computação, receberam peso 1, enquanto os divulgados número de repositórios é recomendável
hospedado na Universidade de Trier, na nas demais têm peso 0,33. para considerar trabalhos
Alemanha. O DBLP indexa mais de “O escore de cada departamento é o publicados em periódicos científicos”,
3 milhões de artigos de 1,7 milhão de resultado da combinação do número de diz o pesquisador, que não participou
autores e é atualizado mensalmente. artigos publicados pelos pesquisadores da concepção do sistema.
“O CSIndex filtra os trabalhos com em conferências ‘top’ e nas demais Para o cientista da computação
autores brasileiros, classificando-os conferências monitoradas pelo CSIndex”, Filipe Saraiva, da Universidade Federal do
segundo as subáreas”, explica o cientista explica Valente. Pará, também não envolvido na criação do
da computação Marco Tulio Valente, A ideia, segundo ele, é que o CSIndex CSIndex, a chance de acompanhar a
da UFMG, um dos criadores do sistema, ao constitua uma plataforma independente, qualidade da produção dos outros
lado do também cientista da computação podendo complementar os sistemas departamentos abre portas para novas
Klérisson Paixão, da UFU. Em seguida, correntes de avaliação, como o realizado colaborações. “É interessante observar
calcula o escore para cada departamento. a cada quatro anos pela Coordenação métricas relacionadas às pesquisas em ciência
O CSIndex monitora a produção científica Nacional de Aperfeiçoamento de da computação desenvolvidas no Brasil, ainda
de 818 cientistas da computação de Pessoal de Nível Superior (Capes), que mais quando se baseiam em um filtro que
universidades públicas e privadas, e de monitora a qualidade dos programas prioriza publicações de alto impacto”,
institutos federais do país. de pós-graduação. Na concepção do avalia. n Rodrigo de Oliveira Andrade

pESQUISA FAPESP 268  z  39


Colônia de Leishmania,
protozoário causador
da leishmaniose visceral

40  z  junho DE 2018


ciência  SAÚDE PÚBLICA y

Um parasita
chega às

metrópoles
Dificuldade de diagnóstico e clima mais quente facilitam avanço
da leishmaniose visceral rumo a grandes centros urbanos

Carlos Fioravanti

V
ista como uma doença rural e restri- registraram cães ou pessoas com leishmaniose
ta à região Nordeste até a década de visceral. De acordo com um estudo publicado
1980, a leishmaniose visceral avan- em fevereiro de 2017 na revista científica PLOS
ça rumo a centros urbanos cada vez Neglected Tropical Diseases, até 2020 o número
maiores. Causada pelo protozoário Leishmania de cães infectados deve aumentar em Balbinos,
infantum chagasi e transmitida pelas picadas das Sabino e Guaimbê, na região central do estado,
fêmeas dos insetos transmissores, principalmen- em razão da proximidade com a rodovia Mare-
te da espécie Lutzomyia longipalpis, conhecida chal Rondon, da temperatura elevada e da ocor-
como mosquito-palha ou birigui, a doença se ins- rência de insetos transmissores; os cães atuam
talou em todas as grandes regiões, com quase me- como reservatórios do protozoário causador da
tade dos casos (47%) concentrados no Nordeste, doença. O número de pessoas infectadas deve
de acordo com o Ministério da Saúde (MS). Em aumentar em Luiziânia, Alto Alegre e Santópolis
DENNIS KUNKEL MICROSCOPY / SCIENCE PHOTO LIBRARY

2016, o MS registrou 3.626 casos em pessoas, com do Aguapeí, também a oeste, em decorrência do
275 mortes, em todo o país. Em 2017, os estados aumento da umidade e da coexistência de insetos
de Rondônia e Amapá registraram pela primeira e cães infectados (veja os mapas na versão on-line
vez casos de cães domésticos com leishmaniose desta reportagem).
e as cidades de Florianópolis e Porto Alegre, os “A leishmaniose visceral está avançando por fal-
primeiros casos em seres humanos. ta de informação que permita diagnosticá-la pre-
Em São Paulo, desde 1999, quando os municí- cocemente”, comentou o médico parasitologista
pios de Araçatuba e Birigui, na região noroeste, Mauro Célio de Almeida Marzochi, pesquisador
registraram os primeiros casos em seres huma- da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de
nos, a leishmaniose visceral propaga-se rumo Janeiro, em um encontro científico promovido pe-
ao litoral. Dos 645 municípios paulistas, 177 já la Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo no

pESQUISA FAPESP 268  z  41


Leishmaniose
visceral no Brasil
Ainda concentrada no Nordeste, doença amapá
Em 2017, primeiros
agora avança para outras regiões registros de cães
infectados nos
próprios municípios
correu os municípios de Embu das Artes
Situação em 2016: e Cotia, na Grande São Paulo, em busca
n Sem casos da possível origem dos casos de leishma-
n 1 a 10 casos niose canina registrados na região desde
n 10 a 50 casos 2003. Não havia Lutzomyia longipalpis,
n 50 a 100 casos mas ele encontrou muitos exemplares de
n 100 a 300 casos Pintomya fischeri, espécie apontada como
n 300 a 589 casos potencial transmissora de Leishmania in-
fantum chagasi. “Mesmo se confirmada,

fonte ministério da saúde


rondônia
a P. fischeri tem um potencial menor de
Em 2017,
primeiros registros
transmissão que a L. longipalpis, o que
de cães infectados poderia explicar a ausência de casos em
nos próprios pessoas nesses municípios.” No mundo,
municípios de acordo com a Organização Mundial
Foz do Iguaçu da Saúde (OMS), o parasita causador da
Em 2015,
primeiro registro
Florianópolis doença pode ser transmitido por cerca
de caso humano
Porto Alegre de 30 espécies de mosquitos.
Em 2016, primeiros
no Paraná A leishmaniose visceral é um pro-
registros de casos
humanos e caninos sem blema típico de países com condições
insetos transmissores higiênicas precárias, já que os insetos
identificados transmissores se reproduzem em matéria
orgânica em decomposição e depósitos
de lixo. Dos 82 países em que já foi iden-
final de abril na Faculdade de Medicina Leishmania. A letalidade é considerada tificada, sete concentram 90% dos casos:
da Universidade de São Paulo (FM-USP). alta, de 7,8% em média, e há poucos me- Índia (6.249 casos em 2016), Sudão do
Em agosto e novembro de 2016, um me- dicamentos contra essa doença. O mais Sul (4.175), Sudão (3.810), Brasil (3.336),
nino de 1 ano e 7 meses e seu irmão de adotado é o antimonial pentavalente, que Etiópia (1.593), Somália (781) e Quênia
4 anos morreram no Guarujá, no litoral consiste na aplicação de injeções intra- (692). Em 2015, a OMS registrou 23.084
paulista, por causa dessa doença, diagnos- musculares diárias durante pelo menos mortes de pessoas no mundo causadas
ticada tardiamente. Em 2017 o Guarujá um mês. Embora eficaz na eliminação pela doença.
registrou outro caso e Votorantim, cidade do parasita, seus efeitos colaterais são
do interior paulista vizinha a Sorocaba, intensos, podendo causar dores muscu- Estratégias reavaliadas
também um, ambos sem mortes. lares, náuseas, vômitos, inflamações nos A identificação de mosquitos, cães ou
“O Lutzomyia longipalpis está bem rins e distúrbios gastrintestinais, cardio- seres humanos infectados em grandes
adaptado às áreas quentes e de vegeta- vasculares e respiratórios. cidades tem motivado uma reavaliação
ção mais aberta, como o Cerrado”, ob- Em áreas de transmissão da leishma- das formas de combate à doença. “As
serva a bióloga Eunice Galati, professora niose visceral, nem sempre se reconhe- estratégias de prevenção e controle de-
da Faculdade de Saúde Pública da Uni- ce o ciclo completo de transmissão da veriam focar na redução das populações
versidade de São Paulo (FSP-USP). “O doença – mosquitos transmissores, cães de Lutzomyia e no bloqueio do contato
desmatamento e a substituição da vege- e seres humanos infectados. Às vezes, entre elas e os hospedeiros nas áreas de
tação nativa por monoculturas podem encontram-se apenas cães infectados e alto risco de transmissão”, enfatiza a mé-
gerar ambientes desfavoráveis para essa insetos. Outras vezes, apenas casos hu- dica veterinária Anaiá da Paixão Sevá,
espécie, que encontra nas cidades um am- manos, como no Guarujá. Outra possi- pesquisadora da Faculdade de Medicina
biente propício para sua sobrevivência.” bilidade é a identificação somente de Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP
A leishmaniose visceral manifesta-se cães e pessoas com leishmaniose, sem e principal autora do artigo prevendo a
nas pessoas inicialmente pela palidez, fe- os insetos transmissores já conhecidos, expansão da área de ocorrência de inse-
bre contínua, emagrecimento, tosse, diar- como em Florianópolis, que registrou tos transmissores, cães e seres humanos
reia e aumento de volume do fígado e do três casos em seres humanos e 125 em infectados. Marzochi, da Fiocruz, res-
baço. Se não tratada, pode ser fatal para cães infectados em 2017. salta a importância da procura de casos
as pessoas, por causa dos danos ao fígado, De 2010 a 2012, o biólogo Fredy Galvis- humanos e caninos como forma de redu-
ao baço e à medula óssea causados pela -Ovallos, pesquisador da FSP-USP, per- zir as mortes causadas por essa doença.

42  z  junho DE 2018


1

Cães de rua e
domésticos são
reservatórios de
Leishmania, parasita
transmitido pelo
inseto Lutzomyia
longipalpis, acima

75% dos cães de uma região e a perda


“A coleira com inseticida protege os da coleira chegar a 40% em seis meses.
“A coleira protege os cães sadios e evi-
cães sadios e evita a transmissão a partir ta a transmissão nos infectados”, afir-
ma o biólogo José Eduardo Tolezano,
dos animais infectados”, diz Tolezano diretor do Centro de Parasitologia do
Instituto Adolfo Lutz (IAL). Ele coor-
denou uma avaliação do uso da coleira
em cerca de 10 mil cães, infectados ou
A eutanásia de cães infectados, prática transmissão. “O uso das coleiras tem um não, em Votuporanga, na região noroeste
recomendada pelo governo como forma impacto maior que a eutanásia na redução do estado de São Paulo. A taxa de infe-
de controle da leishmaniose visceral, “está da transmissão da leishmaniose visceral”, ção nos cães caiu de 12% em 2014 para
cada vez menos sendo considerada”, diz afirma o médico epidemiologista Guilher- 1,5% no final de 2015, quando o estudo
o médico veterinário Francisco Edilson me Werneck, professor da Universidade terminou. “Houve uma clara associação
Ferreira de Lima Júnior, do MS. A eu- Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cada entre a queda de casos de leishmaniose
tanásia se mostrou pouco eficiente por coleira custa em média R$ 100 reais, com em cães e a redução de casos em seres
causa da alta taxa de reposição de cães efeito variável de quatro a seis meses. humanos”, observou Tolezano.
infectados por outros, principalmente fi- O uso da coleira em cães propiciou O biólogo Osias Rangel, pesquisador
lhotes, mais suscetíveis ao parasita. Além uma redução de 60% da população de da Superintendência de Controle de
disso, os proprietários dos animais podem mosquitos transmissores do parasita em Endemias (Sucen), ressalta: “Ações de
assumir o tratamento com a droga milte- partes de Fortaleza, no Ceará, e de 15% controle dos insetos transmissores não
fosina, aprovada para uso veterinário em em um setor de Montes Claros, Minas podem ser interrompidas. Se forem, a
fotos 1 cdc/ James Gathany 2 léo ramos chaves

2017. A medicação tem um custo inicial de Gerais, em comparação com áreas de doença volta”. Werneck enfatiza: “Te-
cerca de R$ 2 mil por mês e não elimina controle nas mesmas cidades, ao longo mos de mudar os pilares estabelecidos
totalmente os parasitas. de 30 meses, de acordo com um estu- há muitos anos, sem comprovação cien-
Como estratégia adicional de controle do publicado em março de 2018 na Me- tífica, sobre prevenção e controle, por-
da leishmaniose, o governo federal está mórias do Instituto Oswaldo Cruz, com que hoje a leishmaniose visceral é uma
avaliando a possibilidade de distribuir – a participação da UFRJ e da Fiocruz. doença urbana”. n
Versão atualizada em 19/06/2018

se tudo der certo, a partir de 2019 – co- De acordo com Werneck, o estudo em
leiras impregnadas com uma solução a Montes Claros também revelou as limi-
4% de inseticida no controle de leishma- tações dessa técnica, ao indicar que não Os artigos científicos mencionados estão listados na
niose visceral em áreas de maior risco de se consegue aplicar a coleira em mais de versão on-line desta reportagem.

pESQUISA FAPESP 268  z  43


Pediatria y

Trocando as defesas
do organismo
Transplante de medula óssea é a melhor alternativa
de longo prazo para a Ipex, doença autoimune infantil rara

44  z  junho DE 2018


Equipe do Instituto
da Criança de
São Paulo retira
sangue da medula de
um doador para
depois transplantar
em uma criança

O
estudo de doenças raras depen- da, baseada no emprego de medicamen-
de, às vezes, de grandes cola- tos imunossupressores, tenta diminuir a
borações internacionais para ação das células de defesa, que, no caso
obter um quadro mais comple- da Ipex, em vez de protegerem o organis-
to ou a melhor abordagem terapêutica de mo contra ameaças externas, se voltam
uma condição clínica que acomete um contra ele. Com base em 96 casos trata-
número reduzido de pacientes. Esse foi dos de 2000 a 2016 nos países participan-
o espírito que norteou o trabalho de uma tes do estudo, a equipe constatou que o
equipe de 83 pesquisadores de 38 centros índice de sucesso das duas terapias foi
médicos de 18 países, incluindo o Brasil. semelhante, embora ligeiramente maior
O time de especialistas confrontou os no caso dos transplantes. Em cerca de
resultados de duas abordagens utiliza- dois terços dos pacientes, os tratamen-
das no tratamento de uma enfermidade tos melhoraram a qualidade de vida dos
autoimune incomum e grave que se ma- doentes, segundo artigo publicado em
nifesta em recém-nascidos apenas do março de 2018 na revista científica Jour-
sexo masculino e é conhecida pela sigla nal of Allergy and Clinical Immunology.
Ipex. Em razão de um defeito genético, No entanto, o perfil dos pacientes que
as células de defesa dessas crianças ata- mais se beneficiaram com a adoção de
cam descontroladamente vários órgãos cada estratégia foi diferente. A análise
de seu próprio organismo. retrospectiva dos casos – 58 tratados
A primeira abordagem, o chamado com células-tronco e 34 com drogas imu-
transplante de células-tronco hemato- nossupressoras – indicou que o trans-
poiéticas (de medula óssea ou de cordão plante se mostrou a melhor estratégia
umbilical), procura dotar a criança de de longo prazo para recém-nascidos ou
léo ramos chaves

novo sistema imunológico, com células crianças ainda sem danos em seus ór-
sadias que não manifestem a doença ou gãos causados pela Ipex. “O transplante
a apresentem em menor grau. A segun- é muito mais caro do que a terapia com

pESQUISA FAPESP 268  z  45


imunossupressores. Pode custar de R$ co das doenças autoimunes. “O estudo
200 mil a R$ 500 mil e requer dois a intensivo da Ipex enriquece nosso co-
quatro meses de internação”, comenta a Uma síntese nhecimento sobre o sistema de defesa
pediatra Juliana Fernandes, do Instituto do organismo e sobre outras doenças
da Criança do Hospital das Clínicas da da Ipex autoimunes, porque permite ver como
Faculdade de Medicina da Universidade as células T reguladoras são essenciais
de São Paulo (FM-USP), que participou para manter a tolerância celular e não
do estudo. “Mas, quando ele dá certo, Nome completo  Síndrome da atacar as outras células do próprio cor-
os pacientes, depois de dois anos, não imunodesregulação, po”, explica a pediatra Magda Carneiro
precisam mais tomar remédios nem ser poliendocrinopatia e enteropatia Sampaio, professora da FM-USP e di-
internados. Já quem faz apenas o trata- ligada ao cromossomo X retora do Instituto da Criança. De acor-
mento imunossupressor provavelmente do com um artigo de 2016 publicado na
terá de ser hospitalizado novamente.” Causa  Mutações no gene forkhead Nature Reviews Cardiology, a disfunção
box P3 (FOXP3), do cromossomo X, das células T reguladoras pode favorecer

P
or isso, o emprego da estratégia me- impedem o desenvolvimento normal o desenvolvimento de doenças cardio-
dicamentosa, que deixa o paciente de um grupo específico de células do vasculares, como aterosclerose, hiper-
mais exposto a pegar infecções, é sangue, os linfócitos T reguladores. tensão, aneurisma abdominal da aorta,
aconselhado apenas em pacientes que Em consequência, as células de hipertensão arterial pulmonar e infarto
já apresentam comprometimento de defesa ​começam a atacar outras do miocárdio.
algum órgão (nesses casos, a adoção do células e órgãos Na Ipex, que reúne sintomas de vá-
transplante produziu resultados ruins, rias doenças autoimunes, as falhas das
segundo o estudo) ou como alternativa Incidência na população  células T reguladoras podem causar, por
para deter a progressão da doença antes Desconhecida. Atinge apenas ordem de frequência, nos casos examina-
do transplante. A universidade paulista recém-nascidos do sexo masculino   dos no estudo: diabetes tipo 1, por causa
participou do estudo com cinco casos de de danos ao pâncreas; diarreias de longa
crianças com Ipex tratadas desde 2008. Manifestações  Diabetes tipo 1, duração; redução da quantidade de célu-
Três das cinco crianças passaram por diarreias de longa duração, las vermelhas do sangue (causando ane-
transplante de células-tronco extraídas da redução da quantidade de células mia), de anticorpos (o que leva a reações
medula dos pais ou, como alternativa, de vermelhas do sangue, de anticorpos alérgicas e manchas vermelhas na pele) e
cordão umbilical. Os transplantes foram e de plaquetas; inflamação e de plaquetas (dificultando a coagulação
pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). danos no fígado, nos rins, nas do sangue); inflamação e danos no fígado,
Às vezes, é necessário repetir o tra- articulações e na glândula tireoide nos rins, nas articulações e na glândula
tamento para dar certo. “Em 2009, um tireoide; e queda de cabelo. Outra con-
menino de 2 anos e 6 quilos tinha diabe- Tratamentos  Medicamentos clusão da análise dos 96 casos foi que os
tes, hepatite, anemia e danos nos rins em imunossupressores ou transplante de sintomas predominantes da síndrome
razão da Ipex”, relata Juliana. O primeiro células-tronco hematopoiéticas independem do tipo de mutação no ge-
transplante não trouxe os resultados de- (de medula óssea ou de cordão ne que controla o amadurecimento dos
sejados, mas o segundo, seis meses de- umbilical), com uma eficácia de 70% linfócitos T reguladores.
pois, foi eficaz. Dos problemas iniciais, “Os dois tratamentos hoje usados para
restou apenas o diabetes no garoto, hoje Ipex ainda precisam melhorar, porque
com 13 anos. Seu irmão gêmeo, que nas- a eficiência de cada um deles chega a
ceu com a mesma doença, apresentava no máximo 70%”, afirma Magda. O tra-
um estado menos grave, mas morreu por diz a pediatra italiana Federica Barzaghi, balho coletivo de análise da síndrome
causa de uma infecção severa antes de do Hospital São Rafael, de Milão, que também evidenciou que a cura defini-
se submeter ao procedimento. O menino coordenou o estudo internacional. “Uma tiva, segundo Federica, somente pode-
que sobreviveu tem um segundo irmão, avaliação dos resultados e uma compa- ria ser atingida pela correção da falha
de 6 anos, que também nasceu com a ração entre os dois tipos de tratamento, genética que causa a doença: “Espera-
Ipex e igualmente passou por dois trans- com uma amostra ampla de casos, nunca mos que a terapia gênica seja possível
plantes de células da medula, o segundo haviam sido feitas.” A doença resulta de em breve para as crianças com os casos
foi bem-sucedido. Eles estão bem e são mutações em um gene do cromossomo mais graves”. n Carlos Fioravanti
acompanhados pelas equipes da USP em X, o forkhead box P3 (FOXP3), que im-
consultas anuais. pede o funcionamento normal de um
Por ser rara, complexa e fatal, a Ipex – grupo específico de células do sangue, Artigos científicos
sigla de síndrome da imunodesregulação, os linfócitos T reguladores. BARZAGHI, F. et al. Long-term follow-up of Ipex syn-
drome patients after different therapeutic strategies:
poliendocrinopatia e enteropatia ligada Quando essas células não funcionam An international multicenter retrospective study. Jour-
ao cromossomo X – sempre gerou incer- direito, instaura-se um desequilíbrio no nal of Allergy and Clinical Immunology. v. 141, n. 3, p.
tezas entre os médicos. “Não existem di- sistema de defesa do organismo e os lin- 1036-49. mar. 2018.
MENG, X. et al. Regulatory T cells in cardiovascular di­
retrizes gerais e o tratamento depende fócitos de outros tipos começam a atacar seases. Nature Reviews Cardiology. v. 13, n. 3, p. 167-79.
da experiência de cada centro médico”, as células do próprio corpo, traço típi- mar. 2016.

46  z  junho DE 2018


GEOCIÊNCIAS y

O norte da
questão
Redução da intensidade do
campo magnético alimenta
debate sobre o risco de os polos
novamente se inverterem,
como há 780 mil anos

Ricardo Zorzetto

O
comportamento do campo magné-
tico da Terra atualmente divide a
opinião dos especialistas que inves-
tigam como se origina e se mantém
esse escudo invisível que protege o planeta de
partículas energéticas vindas do espaço. Com
base na redução histórica da intensidade do
campo registrada por diferentes métodos cien-
tíficos, alguns pesquisadores, como o geofísico
italiano Angelo De Santis, do Instituto Nacio-
nal de Geofísica e Vulcanologia, em Roma, Representação
defendem a ideia de que os polos magnéticos artística do campo
magnético da Terra,
da Terra podem estar a ponto de iniciar um gerado na parte
lento processo de inversão, como ocorreu há externa do núcleo
780 mil anos, com o sul tomando o lugar do
norte e vice-versa. Outros sustentam que a in-
tensidade do campo varia periodicamente sem
que essa oscilação resulte na troca de posição
dos polos. “Um novo processo de inversão pa- O campo magnético do planeta, porém, não é
rece longe de ocorrer”, diz o geofísico Ricardo estável e vem enfraquecendo continuamente
Trindade, do Instituto de Geofísica, Ciências desde pelo menos 1832, quando o físico e ma-
Atmosféricas e Astronomia da Universidade temático alemão Carl Friedrich Gauss aferiu
de São Paulo (IAG-USP). pela primeira vez sua intensidade. De lá para
Gerado pelo movimento de um oceano in- cá, medições mais frequentes e precisas feitas
candescente de ferro líquido nas profundezas em observatórios em terra e por satélites con-
da Terra, o campo magnético tem a forma de firmam que a intensidade diminui à taxa de 17
aoes medialab / esa

um imenso donut que envolve o planeta (ver nanoteslas (nT) por ano – o campo tem 66 mil
infográfico na pág. 49). Ele se estende por 63 mil nT nos polos e 22 mil nT sobre uma faixa do
quilômetros na face exposta ao Sol e por uma hemisfério Sul que vai da África à América do
distância até 10 vezes maior no lado oposto. Sul. Esse ritmo de decréscimo seria suficiente

pESQUISA FAPESP 268  z  47


1
Aurora boreal registrada em 18 de janeiro de 2005 na região do lago Bear, no Alasca

para, em alguns séculos, o campo se tor- mais débil, que permite às partículas do proteção desigual
nar débil demais em algumas regiões e vento solar chegar às altas camadas da Mapa de intensidade do campo magnético
desencadear a migração dos polos mag- atmosfera, permaneceu estável por um terrestre. A região em azul-escuro
néticos, que pode durar de centenas a al- bom tempo, mas, a partir de 1800, pas- corresponde à anomalia magnética
guns milhares de anos e deixar a Terra sou a crescer em ritmo acelerado. Hoje do Atlântico Sul
mais exposta a partículas vindas do Sol ela se estende por 80 milhões de quilô-
e de outras regiões do espaço. metros quadrados, área 10 vezes maior
Uma razão pela qual os geofísicos es- do que a de 200 anos atrás. Em um arti-
tão interessados em descobrir quando go publicado em 2013 na revista Natural
começa a próxima migração é que essas Hazards and Earth Systems Science, o gru-
partículas podem causar danos aos saté- po afirma que, mantida essa velocidade
lites, às redes de distribuição de energia, de expansão, a Amas ocuparia quase um
à atmosfera do planeta e também aos se- hemisfério já na década de 2030.
res vivos. Há pelo menos 30 anos alguns Se isso ocorrer, se atingiria, segundo
grupos sugerem que seu início poderia os pesquisadores, um ponto de não re- intensidade (em nanoteslas)

ocorrer em décadas, enquanto outros torno. Com o campo muito fraco em uma
afirmam que ela não acontecerá antes região tão vasta, começaria então a mi- 20.000 30.000 40.000 50.000 60.000

de milhares de anos. Em busca de pistas gração dos polos, que poderiam assumir fonte  missão swarm 2014/esa
do possível início, os pesquisadores usam uma configuração inversa à atual, como
dados da intensidade atual e dos últimos já ocorreu – nos últimos 70 milhões de
milhões de anos para alimentar modelos anos, houve, em média, uma inversão a
matemáticos que tentam predizer o com- cada 250 mil anos (a última foi há 780 sidade de Cambridge, no Reino Unido,
portamento futuro do campo magnético. mil anos). “Ainda não temos evidência analisou a redução na intensidade do
Angelo De Santis é um dos que apostam convincente de que o campo magnético campo magnético medida ao longo do
que uma grande mudança pode come- esteja perto de sofrer uma inversão”, século passado e propôs que o enfra-
çar em breve. Com dois colaboradores, contou De Santis em entrevista por e- quecimento poderia ser explicado pelo
o italiano analisou o ritmo de expansão -mail. “Prefiro dizer que temos pistas deslocamento em direção ao polo Sul de
nos últimos 400 anos da área em que o de que algo especial está ocorrendo.” uma estrutura mais quente situada em
campo magnético é mais fraco, a chama- De Santis não está sozinho. No fim dos uma região profunda do planeta, cuja lo-
da anomalia magnética do Atlântico Sul anos 1980, o geofísico britânico David calização na superfície corresponderia a
(Amas). Essa região de campo magnético Gubbins, então pesquisador da Univer- uma área ao sul da África. Em um artigo

48  z  junho DE 2018


publicado em 1987 na Nature, Gubbins
sugeriu que, se os dois fatos estivessem Como age o escudo invisível da Terra
relacionados, a redução de intensidade
“poderia ocasionalmente levar à inversão Campo magnético produzido no interior do planeta desvia as partículas
dos polos”. Em um artigo na Science de eletricamente carregadas vindas do espaço
2006, ele reafirmou a ideia de um início
próximo de inversão ao analisar a inten-
sidade do campo dos últimos 400 anos 2 Bolha protetora
O movimento de um oceano de ferro
registrada em materiais arqueológicos
e concluir que o ritmo de decaimento,
1 Fonte de partículas
A coroa, camada mais
incandescente na parte externa
do núcleo da Terra gera um campo
que era de 2 nT por ano, teria acelera- externa da atmosfera magnético que envolve o planeta
solar, lança o tempo todo
do cerca de sete vezes a partir de 1840. partículas eletricamente
carregadas para o espaço
origem profunda
Em 2002, o geofísico francês Gauthier
Hulot e sua equipe no Instituto de Física
do Globo de Paris reforçaram os argu-
mentos de Gubbins. Eles usaram medi-
ções da intensidade do campo feitas por
Sol
satélites para alimentar modelos mate- Terra
máticos e inferir o que ocorria no inte-
rior da Terra. No trabalho, publicado na
Nature, os pesquisadores concluíram que
regiões do núcleo externo com transporte
de calor em sentido contrário ao da cor-
rente principal do oceano de ferro incan- 3 Área de choque
Na fronteira do campo magnético terrestre, as
descente enfraqueciam o campo medido partículas vindas do Sol desviam-se do planeta.
na superfície e propuseram que padrões Uma parte chega aos polos e gera as auroras
fonte  esa
anormais de transporte antecederiam o 2

início de uma inversão.


Especialista na análise do campo mag-
nético de materiais arqueológicos, Ri- Outro trabalho deste ano joga para das pelo vento solar passariam a intera-
cardo Trindade, do IAG-USP, já havia bem mais adiante o início de uma inver- gir com os gases da atmosfera, alterando
constatado que o campo sobre a América são magnética. Baseando-se em dados sua composição e causando diferentes
do Sul começou a enfraquecer 200 anos dos últimos 2 milhões de anos, o geofí- efeitos”, conta Galante. Se a inversão du-
antes do que se imaginava (ver Pesquisa sico norte-americano Bruce Buffett e o rar centenas de anos, poderia reduzir a
FAPESP nº 244). Mesmo assim, ele es- britânico William Davis, da Universidade camada de ozônio e destruir gases de
tima que uma nova inversão não deve da Califórnia em Berkeley, nos Estados efeito estufa, levando a um resfriamento
começar antes de mil anos. “Quem pro- Unidos, criaram um modelo que projeta do planeta. Caso se estenda demais, par-
põe seu início iminente olha apenas os a evolução futura do campo. Apresenta- te da atmosfera poderia até ser varrida
fotos 1 Senior Airman Joshua Strang / United States Air Force / Wikimedia Commons  2 esa

dados das últimas dezenas ou centenas dos em fevereiro na revista Geophysical para o espaço. No curto prazo, além dos
de anos, que são mais precisos, mas não Research Letters, os resultados indicam efeitos sobre a atmosfera e os sistemas
permite identificar oscilações naturais de que o risco de uma nova inversão só de- de energia e telecomunicações, a entra-
um fenômeno que se repete na escala de ve se tornar importante em 50 mil anos. da de mais partículas vindas do Sol e de
centenas de milhares de anos”, afirma. Quando a inversão começar, o que po- radiação ultravioleta poderia afetar os
Em um estudo recente, o geofísico Wil- de acontecer com o planeta? Segundo animais, aumentando o risco de câncer. n
bor Poletti, aluno de doutorado de Trin- o astrônomo Douglas Galante, pesqui-
dade, analisou a intensidade do campo sador do Laboratório Nacional de Luz
magnético em artefatos cerâmicos e ro- Síncroton, em Campinas, um problema Projeto
chas vulcânicas dos dois últimos milênios. seria o aumento da chegada ao planeta Análise do campo geomagnético histórico da América
Em um artigo publicado em janeiro deste de partículas eletricamente carregadas do Sul (nº 13/16382-0); Modalidade Bolsa de douto-
rado; Pesquisador responsável Ricardo Ivan Ferreira
ano na Physics of the Earth and Planetary vindas do Sol. Essas partículas são me- da Trindade (IAG-USP); Bolsista Wilbor Poletti Silva;
Interiors, o grupo sugere que o campo nos energéticas do que as produzidas Investimento R$ 133.627,11.
vem se enfraquecendo no ritmo atual há por explosões de estrelas na galáxia e
Artigo científico
1.300 anos. “Não houve uma aceleração geralmente são defletidas pelo campo
POLETTI, W. et al. Continuous millennial decrease of the
na taxa de declínio”, conta Poletti. “Se o magnético para a região dos polos, ori- Earth’s magnetic axial dipole. Physics of the Earth and
ritmo atual não se alterar, levará 2,4 mil ginando as auroras boreais e austrais. Planetary Interiors. v. 274, p. 72-86. jan. 2018.
anos para a intensidade chegar próximo a “Sem o campo magnético, ou com ele Os demais artigos mencionados estão listados na versão
zero e a polaridade começar a se inverter.” muito enfraquecido, as partículas trazi- on-line desta reportagem.

pESQUISA FAPESP 268  z  49


Física y

Giro do
barulho
A
Vibrações acústicas s oscilações de átomos no in- atômicos na presença de campos mag-
terior de um sólido produzem néticos. Ou seja, os pesquisadores cons-
dos átomos de excitações que se dispersam tataram que os fônons, pacotes de ener-
pelo material. Essas vibrações gia produzidos por ondas vibracionais,
materiais sólidos constituem ondas que, na mecânica podem apresentar spin. O resultado do
quântica, se comportam em determi- trabalho foi publicado na revista cien-
podem apresentar nadas situações como um fluxo de par- tífica Nature Physics em abril de 2018.
spin, uma das tículas, denominadas fônons. Respon- Os experimentos que levaram à des-
sáveis pela propagação do calor e do coberta dividiram-se em duas partes.
propriedades mais som no material, as oscilações podem Primeiramente, por meio do emprego
ocorrer em duas direções, na vertical de um campo de micro-ondas, os físicos
fundamentais e na horizontal. É como se os átomos geraram em um sólido um tipo de excita-
estivessem conectados por molas e a ção atômica que sabidamente apresenta
da física quântica perturbação em um deles se alastrasse spin, os magnons, vibrações dos elétrons
pelos demais. Uma equipe de físicos da de um átomo associadas às proprieda-
Universidade Federal de Pernambuco des magnéticas de um material. Em se-
Victória Flório (UFPE) mostrou experimentalmente guida, com o auxílio de campos mag-
que, se submetidas a condições especí- néticos, converteram os magnons em
ficas, as vibrações podem se propagar fônons. Esse processo de transformação
de outra forma: além de oscilar para de magnons em fônons, acoplamento no
cima/para baixo e para os lados, giram jargão dos físicos, já era conhecido pela
em torno do próprio eixo. ciência. “Fizemos um experimento cuja
O movimento giratório das ondas nas ideia central era converter uma forma de
entranhas de sólidos corresponde, na excitação na outra, ou seja, magnon em
mecânica quântica, ao spin ou momento fônon”, explica Sergio Machado Rezen-
angular exibido por partículas elemen- de, coordenador do grupo de físicos da
tares, como os elétrons, e por núcleos UFPE que produziu o trabalho.

50  z  JUNHO DE 2018


Spin

Em sólidos, as oscilações
verticais ou horizontais
de um átomo (bola) se
propagam para os demais
como se estivessem
conectados por molas. ausência de momento angular em fônons A evidência de que as vibrações acús-
Agora foi registrado que – e o sistema confirmou o spin nos fônons. ticas dos átomos em sólidos podem apre-
essas vibrações podem
girar em torno do próprio
A natureza do material empregado pa- sentar uma das propriedades mais im-
eixo e apresentar spin rece ter sido determinante para o ines- portantes da física quântica abre portas
perado desfecho dos experimentos na para o estudo do spin dos fônons como
UFPE. Em vez de usarem compostos ma- codificadores da informação. Esse pode
ciços como bastões ou cilindros, como vir a ser um novo ramo da spintrônica, a
usualmente se faz nesse tipo de traba- eletrônica baseada no giro (spin) do elé-
lho, os pesquisadores utilizaram um tipo tron para transmitir sinais e armazenar
de filme fino de granada de ítrio e ferro dados. Na eletrônica convencional, co-
A surpresa veio no final das medições, (Y3Fe5O12), com uma espessura de átomos, mo o nome indica, os sinais são condu-
quando os pesquisadores se deram conta que ocasiona poucas perdas magnéticas. zidos por meio da carga do elétron. Uma
do que tinha ocorrido. “Vimos que, além “Dentro desse filme, as excitações percor- das vantagens de fazer spintrônica com
de se converter em fônons, os magnons rem distâncias da ordem de centímetros”, fônons é que os materiais magnéticos,
tinham transferido para eles uma pro- afirma o físico Antônio Azevedo, também mais complicados de serem produzidos,
priedade que não esperávamos, o spin”, da UFPE, que fabricou o material usado seriam necessários apenas na fase inicial
conta José Holanda, aluno de doutorado no experimento. Essa particularidade do processo, para converter magnons, que
de Rezende e primeiro autor do artigo aparentemente foi determinante para que sempre têm spin, em fônons. “Depois de
sobre o experimento. Nesse tipo de con- o spin dos magnons se transferisse para produzidos, os fônons poderiam carregar
versão, o spin dos magnons normalmente os fônons. “Esse efeito é impossível de o spin para outros materiais não magné-
não se preserva nos fônons. Em razão do ser visto em outros materiais”, esclarece ticos”, sugere Rezende. n
ineditismo da medição, Rezende e seus o físico Matthias Benjamin Jungfleisch,
colegas construíram um sistema óptico do National Argonne Laboratory, nos Es-
de espalhamento de luz para confirmar tados Unidos, que não participou do tra-
léo ramos chaves

Artigo científico
se o spin havia se conservado de fato. A balho e escreveu um comentário sobre
HOLANDA, J. et al. Detecting the phonon spin in magnon-
luz espalhada em um material fornece o artigo dos colegas da UFPE na mesma -phonon conversion experiments. Nature Physics.
informações precisas sobre a presença ou edição da Nature Physics. 2 abr. 2018.

pESQUISA FAPESP 268  z  51


arqueologia y

A idade O
ssos e dentes encontrados em sítios
arqueológicos podem guardar informa-
ções importantes sobre os indivíduos a
que pertenceram, como traços anatômi-

do leite
cos, idade aproximada e presença de doenças. A


reconstituição dos hábitos alimentares, ainda que
de forma parcial, também é possível por meio da
análise da concentração de diferentes isótopos
estáveis de dois elementos químicos que se preser-
vam no esqueleto humano: carbono e nitrogênio.
Um trio de pesquisadores da Universidade de São
Paulo (USP) usou essa abordagem para analisar
fragmentos de 60 indivíduos, adultos e crianças,
que viveram, entre 3.100 e 1.500 anos atrás, na
Pescadores-coletores que viveram há área hoje ocupada pelo sambaqui Jabuticabeira
II, sítio arqueológico localizado no município
3 mil anos em área hoje do litoral catarinense litorâneo de Laguna, cerca de 100 quilômetros ao
sul de Florianópolis, em Santa Catarina. O trabalho
amamentavam filhos até 2 anos de idade reuniu evidências de como deve ter sido o padrão
de amamentação adotado pelas mulheres da popu-
lação de pescadores-coletores que habitou a região.
Marcos Pivetta Segundo o estudo, publicado em 10 de maio
no Journal of Archaeological Science: Reports, os
recém-nascidos alimentavam-se exclusivamen-
te de leite materno até por volta dos 6 meses de
idade, quando outros tipos de comida, ricos em
proteínas ou carboidratos, começavam a ser in-
troduzidos progressivamente em sua dieta. O des-
mame total ocorria entre o segundo e o terceiro

52  z  junho DE 2018


Materiais arqueológicos do sítio
de Jabuticabeira II, em Laguna,
como a mandíbula e os dentes de
bebês (à esq.) e ossos da costela
de crianças, foram usados para
reconstituir a dieta do antigo
povo do sambaqui

ano da criança, em média aos 2,3 anos


de idade. “Não constatamos diferenças
significativas no tempo de amamentação
e no perfil da dieta após o desmame em
função do sexo dos bebês”, comenta o
bioarqueólogo peruano Luis Pezo-Lan-
franco, do Instituto de Biociências (IB) ralmente praticam agricultura, tendem
da USP, principal autor do trabalho. “Mas a desmamar os filhos mais cedo, entre o
esse tópico ainda precisa ser estudado Controlar o primeiro e o segundo ano de idade. Seu
em detalhe.” Aparentemente, os samba- crescimento demográfico é mais acele-
quieiros de Jabuticabeira II não privile- tempo de rado. Nas culturas nômades, sem local
giavam os meninos na hora de repartir fixo de moradia, as populações costu-
a comida, prática às vezes verificada em
amamentação mam ser menores. Há menos alimentos
algumas culturas. era uma forma à disposição e a fase de lactação pode se
A partir da quantidade de carbono e prolongar até os 3 anos de idade como
de nitrogênio extraídos da proteína colá- de os povos forma de espaçar os nascimentos.
geno e do mineral apatita, ambos encon- O cenário populacional no sambaqui
trados em ossos e dentes, as técnicas usa- antigos modular Jabuticabeira II não se encaixa nos mo-
das no trabalho permitem inferir o peso delos mais esquemáticos e pode ser in-
dos principais grupos de alimentos –
seu crescimento terpretado como um caso intermediá-
proteínas animais, gorduras e carboidra- demográfico rio ou de transição. O tempo médio de
tos – na dieta consumida por uma pessoa amamentação das crianças, superior aos
em diferentes fases da vida. “Com elas, dois anos, sinaliza um crescimento de-
simulamos um estudo longitudinal na mográfico significativo, ainda que com
antiga população de Jabuticabeira II e uma intensidade menor do que a asso-
determinamos a idade em que as crian- ciada a grupos totalmente sedentários.
ças eram exclusivamente amamentadas, primeiro molar permanente, por exem- “Os sambaquieiros de Laguna eram vis-
quando passaram a receber alimentação plo, começa a formar sua coroa aproxi- tos como caçadores-coletores nômades,
complementar e foram totalmente des- madamente entre os 6 meses de idade mas tinham muitos recursos marinhos à
mamadas”, comenta a bioarqueóloga e 2 anos e meio e conserva, como uma disposição e cultivavam algumas plan-
Sabine Eggers, professora licenciada do cápsula de tempo, elementos da dieta tas”, pondera Paulo DeBlasis, do Museu
IB e atualmente curadora do Museu de consumida pelo indivíduo quando bebê. de Arqueologia e Etnologia (MAE) da
História Natural de Viena, outra autora Como esse dente se conserva por déca- USP, que escavou Jabuticabeira II e ou-
do estudo. “Também comparamos a die- das, é possível comparar suas diferentes tros sítios na região de Laguna e também
ta das crianças com a dos adultos.” No partes em busca de registros de mudan- é coautor do estudo sobre lactação. “Ti-
total, o estudo analisou 106 segmentos ças alimentares ao longo do tempo. Já as nham uma economia estável e uma boa
de dentes ou ossos (quase sempre cos- costelas guardam a assinatura química densidade populacional, como apontam
telas), de 39 adultos e de 21 jovens de dos ingredientes que entraram no car- vários estudos que fizemos, inclusive
até 18 anos, entre os quais seis bebês. Da dápio dos últimos seis meses da vida de esse sobre o tempo de amamentação.” n
amostra, 20 eram homens, 13 mulheres um indivíduo.
e 27 de sexo indeterminado. Além de fornecer informação sobre
Dentes e ossos são estruturas valiosas práticas alimentares e culturais, o tem- Projeto
para inferir por quanto tempo um re- po de lactação é uma ferramenta para Adaptação e produção de alimentos em baixa escala: Evi-

cém-nascido recebeu leite materno, além estimar a taxa de crescimento de gru- dências bioarqueológicas em populações pré-históricas
litorâneas brasileiras (nº 15/05391-3); Modalidade Bolsa
de outros aspectos da dieta. A estrutura pos pré-históricos. Como mulheres que de Pós-Doutorado; Pesquisadora responsável Regina
fotos  léo ramos chaves

de dentes sadios conserva os elementos amamentam têm menos chance de en- Célia Mingroni Netto (USP); Bolsista Luis Pezo-Lanfranco;
Investimento R$ 182.802,89.
químicos armazenados no momento de gravidar, dar o peito para os bebês é uma
Artigo científico
sua formação. Diferentes segmentos de forma natural de controlar a natalidade.
PEZO-LANFRANCO, L. et al. Weaning process and suba-
um mesmo dente se originam em idades Populações sedentárias, que têm mais dult diets in a monumental Brazilian shellmound. Journal
distintas do desenvolvimento humano. O recursos em sua área de moradia e ge- of Archaeological Science: Reports. 10 mai. 2018.

pESQUISA FAPESP 268  z  53


SBPC y

Rocha e Silva
(centro do grupo) no
jantar da 1a Reunião
Anual da SBPC, em
Campinas (1949)

Cientistas unidos
N
No pós-guerra, ão bastaram as referatas, os animados en-
contros das sextas-feiras entre os cien-
pesquisadores fundaram tistas do Instituto Biológico de São Pau-
lo com outros intelectuais, artistas e um
em São Paulo público geral para tratar de novidades da
associação que iniciou ciência e da cultura. Em 1948, em busca
de espaços mais amplos para promover a
onda de criação de circulação de ideias, criou-se a Sociedade Brasi-
leira para o Progresso da Ciência (SBPC). Prio-
instituições de pesquisa rizando a comunicação entre pesquisadores, a
agremiação ganhou espaço ao lado de instituições
de pesquisa ou de apoio à ciência que emergi-
ram na década de 1950 e moldaram as formas
Primeira de quatro reportagens de produção do trabalho científico válidas ain-
sobre os 70 anos da SBPC da hoje no país.
“A SBPC foi uma forma de autoafirmação dos
cientistas de São Paulo”, observa a historiadora
da ciência Maria Amélia Mascarenhas Dantes,
professora sênior do Departamento de História da

54  z  junho DE 2018


O físico César Lattes
em 1948, ao regressar
da Universidade de
Berkeley, nos
Estados Unidos

Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Huma- então no Biológico, e seu colega Wilson Teixei-
nas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). ra Beraldo (1917-1998), na USP, identificaram a
O Rio de Janeiro era a capital do país e tinha molécula de bradicinina, um poderoso vasodila-
maior visibilidade científica. São Paulo, porém, tador mais tarde usado em medicamentos para
já tinha o que mostrar. Em prédios espalhados controle da hipertensão arterial.
pela cidade, já funcionava a USP, criada em 1934, “Os cientistas de São Paulo queriam um es-
e o Instituto Biológico, de 1927, que era então paço próprio, porque viam que não cabiam na
um dos centros de pesquisa mais importantes Academia Brasileira de Ciências [ABC], que só
do país. Lá estavam pesquisadores egressos do acolhia cientistas notáveis”, diz Maria Amélia.
fotos 1 reprodução jornal unesp  2 folhapress

Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, como Se a ABC, criada em 1916 no Rio de Janeiro, era
o médico Henrique Rocha Lima (1879-1956), di- elitista, a SBPC tratou de ser popular, abrindo-
retor científico do instituto, que havia trabalha- -se para qualquer interessado em ciência. “Ne-
do com Oswaldo Cruz (1872-1917), Adolfo Lutz nhuma qualificação técnica é exigida para a ad-
(1855-1940) e Carlos Chagas (1879-1934) e iden- missão como sócio, mas tão somente o desejo de
tificado a bactéria Rickettsia prowazekii como a contribuir de algum modo para o progresso da
causadora do tifo quando estivera na Alemanha ciência no país”, observou a socióloga Ana Maria
(ver Pesquisa FAPESP nº 231). Em 1948, um dos Fernandes (1948-2018) no livro A construção da
fundadores da SBPC, o médico e farmacologis- ciência no Brasil e a SBPC (Editora UnB, 1990),
ta Maurício Oscar da Rocha e Silva (1910-1983), ao examinar a criação da instituição.

pESQUISA FAPESP 268  z  55


Apesar da origem paulista, a nova associação
começou com 256 sócios-fundadores de todo o
país. Um ano depois havia 352 associados, “em-
bora a composição dos membros estivesse quase
inteiramente restrita a pesquisadores de ciências
exatas e naturais”, observou Ana Maria. Hoje a
SBPC tem cerca de 5 mil membros, depois de
chegar a 16.700 na década de 1980. A Associação
Americana para o Progresso da Ciência (AAAS),
uma das fontes de inspiração da SBPC, começou
em 1849 com 78 membros e atualmente reúne
cerca de 120 mil.

E
m uma primeira reunião, em maio de 1948,
o biólogo Paulo Sawaya (1903-2003), da
USP, Rocha e Silva e o médico José Reis
(1907-2002), do Instituto Biológico, decidiram
convidar os colegas cientistas para fundar uma
associação inspirada em agremiações similares do
Reino Unido, da Argentina e dos Estados Unidos.
Rocha e Silva tinha visto como os cientistas norte-
-americanos e britânicos se organizavam quando
trabalhou nos Estados e Unidos e na Inglaterra,
entre 1940 e 1946. O grupo cresceu quando se 1

reuniram um mês depois, na Associação Paulis-


ta de Medicina, e formaram uma comissão para O biólogo
redigir os estatutos. Paulo Sawaya, Videira, professor da Universidade do Estado do
professor da
Em 8 de julho, o estatuto foi aprovado e a no- USP e um
Rio de Janeiro (Uerj). “Os militares e políticos
va associação formalizada, com a presidência do dos fundadores brasileiros estavam convencidos de que não ha-
advogado e professor da USP Jorge Americano da SBPC veria como garantir a soberania nacional sem de-
(1891-1969). Rocha e Silva assumiu como vice- senvolvimento científico.” Como exemplo desse
-presidente, Sawaya como tesoureiro e Reis co- interesse, o marechal Henrique Lott (1894-1984),
mo secretário-geral. Os primeiros documentos quando trabalhava como adido militar da embai-
definiam a missão da SBPC: defender a ciência e a xada brasileira em Washington, de 1946 a 1948,
independência do pesquisador brasileiro, aumen- mandava informes ao governo sobre as estratégias
tar a cooperação entre as equipes dos centros de dos Estados Unidos para enfrentar a Guerra Fria,
pesquisa e facilitar a compreensão da ciência por que incluía a valorização da ciência e da tecnologia.
especialistas de outras áreas, por meio de publi- “Os Estados Unidos aceleraram a formação
cações, cursos, intervenções junto aos governos e de físicos e os cientistas em geral começaram a
encontros entre cientistas e o público geral. ser vistos como mão de obra necessária do país”,
Em 1948, a situação da pesquisa básica no Bra- observa Videira. “O apoio dos militares à ciência,
sil “era nitidamente desfavorável, se comparada em especial à energia atômica, explica a rapidez
com a das ciências de aplicação, a medicina e a com que as instituições de apoio à ciência foram
tecnologia, por exemplo”, comentou Rocha e criadas.” A física nuclear estava em evidência. A
Silva em um discurso na abertura da 10ª reunião grande estrela na época no Brasil era o físico Cé-
anual da SBPC, realizada em junho de 1958 no sar Lattes (1924-2005), que em 1948 participara
prédio da USP da rua Maria Antônia, no centro da descoberta da partícula elementar méson-pi,
da cidade, e no campus do Butantã. “Os escritores, que o tornou mundialmente conhecido (leia mais
os artistas, os poetas, além dos médicos e meta- sobre Lattes na entrevista com Igor Pacca, na pá-
lurgistas, tinham todos os seus congressos bem gina 28, e em Pesquisa FAPESP nº 110). O inte-
organizados”, disse ele. “Os cientistas permane- resse por essa área facilitou a criação do Centro
ciam indiferentes aos trabalhos de seus colegas, Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) no Rio
que só eram lembrados nas horas de briga, para de Janeiro em janeiro de 1949; em agosto desse
se desfazerem uns dos outros.” ano começou a funcionar a Escola Superior de
As circunstâncias, porém, favoreciam a ciência. Guerra, também no Rio.
“Após a Segunda Guerra Mundial, principalmente Em 1948, um projeto de lei prevendo a criação
nos Estados Unidos, a ciência foi entendida como de um conselho nacional de pesquisa não avançou.
uma forma de segurança nacional”, diz o filósofo Nos anos seguintes, como resultado da articula-
e historiador da ciência Antonio Augusto Passos ção promovida pela ABC e pelo almirante Álvaro

56  z  junho DE 2018


O médico José
Reis, pesquisador
do Instituto
Biológico (acima),
também estava
entre os criadores
2 da entidade

Alberto da Mota e Silva (1889-1976), começou a contexto histórico e científico da criação dessas
ganhar corpo um órgão para gerir inicialmente instituições: “Os cientistas viram que, além de
a política governamental de energia atômica, o ciência, tinham de fazer política”. Maria Amé-
Conselho Nacional de Pesquisa. Instituído formal- lia, da USP, reitera: “A geração de cientistas que
mente em 1951, foi depois renomeado Conselho criou a SBPC era profundamente nacionalista
Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Cien- e otimista e estava convencida de que a ciência
tífico e Tecnológico (CNPq), como relatado pela deveria ajudar a melhorar o país”.
historiadora Ana Maria Ribeiro de Andrade, pes- A partir de 1949, com a primeira das sucessivas
fotos 1 ACERVO SBPC 2 acervo josé reis / casa de oswaldo cruz / fiocruz 3 Centro de Memória do Instituto Biológico

quisadora aposentada do Museu de Astronomia e reuniões anuais, realizada em Campinas, e a pu-


Ciências Afins (MAST), em um artigo de 2001 na blicação da revista Ciência e Cultura, a associação
revista Parcerias Estratégicas. Em 1951 começou de cientistas começou seu trabalho de divulga­
a funcionar também a Coordenação de Aperfei- ção científica para públicos amplos. De modo
çoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), similar, desde 1935 o Instituto Biológico publi-
criada pelo educador Anísio Teixeira (1900-1971). cava a revista mensal O Biológico, escrita pelos
O historiador Heráclio Duarte Tavares, pes- próprios pesquisadores, em linguagem simples,
quisador da Universidade Federal do Rio de Ja- e dirigida a produtores rurais. Vários artigos já
neiro (UFRJ), argumentou em um artigo de 2015 mostravam o prazer de escrever de José Reis, que
na revista Contemporânea que o apoio dos mi- mais tarde ganhou visibilidade com sua coluna
litares, incluindo Lott, foi importante também na Folha de S.Paulo. n Carlos Fioravanti
na criação do Instituto de Física Teórica de São
Paulo (IFT), que começou a funcionar em junho > A próxima reportagem desta série tratará das lutas da SBPC
de 1952 e depois foi incorporado à Universidade em defesa da ciência brasileira.

Estadual Paulista (Unesp). Em agosto desse ano


foi criado no Rio de Janeiro o Instituto de Ma-
Artigos científicos
temática Pura e Aplicada (Impa).
SILVA, M. R. e. Dez anos pelo progresso da ciência. Ciência e Cultura.
v. 10, n. 4, p. 197-203. 1958.
Nacionalismo ANDRADE, A. M. R. de. Ideais políticos. A criação do Conselho Nacional
“A SBPC tentou mostrar que a ciência, como a de Pesquisas. Parcerias Estratégicas. v. 11, p. 221-42. jun. 2001.
TAVARES, H. D. O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e o Instituto
cultura, deveria fazer parte da identidade do país, de Física Teórica sob a ótica militar. Contemporânea. v. 6, n. 6, p.
como os povos de origem germânica no final do 67-82. 2015.
século XVII mostraram que a ciência, a cultura Livro
e a língua eram elementos de unificação nacio- FERNANDES, A. F. A construção da ciência no Brasil e a SBPC. Brasília:
nal”, diz Videira. Ele destaca outro aspecto do Editora UnB, 2ª ed. 2000.

pESQUISA FAPESP 268  z  57


tecnologia  Bioenergia y

Obstáculos A
corrida para produzir comercial-
mente o etanol de segunda geração,
obtido a partir de celulose, está du-

no
rando bem mais do que o esperado.
Vários competidores desistiram no
meio do caminho e hoje vive-se um momento de-
cisivo, com disputa pela liderança. Três plantas
industriais parecem estar próximas de atingir

caminho
um estágio de eficiência tecnológica e viabilidade
econômica. Duas delas estão no Brasil: uma da
Raízen, em Piracicaba (SP), e outra da GranBio,
em São Miguel dos Campos (AL). Ambas utilizam
como matéria-prima resíduos da cana-de-açúcar,
como palha e bagaço, que sobram da produção
tradicional de bioetanol. A terceira, do consórcio
Demora em alcançar a viabilidade Poet-DSM, funciona em Emmetsburg, no estado
norte-americano de Iowa, e converte restos da
econômica do etanol de segunda geração produção de milho em combustível.
A persistência das três empresas é extraor-
afasta investidores, mas algumas dinária em um ambiente que vem acumulando
empresas persistem na corrida expectativas frustradas. Uma década atrás, evi-
dências de que já existia tecnologia madura pa-
ra produzir biocombustíveis em grande escala a
partir de matéria-prima farta – como madeira ou
Fabrício Marques resíduo agrícola – atraíram um considerável vo-
Planta de etanol de
segunda geração
da Raízen, em
Piracicaba (à esq.):
lume de capital de risco, investido na construção celulósico na cidade de Nevada, em Iowa, Estados conversão do bagaço
do que seriam as primeiras plantas comerciais. Unidos, e ainda não conseguiu um comprador. A de cana (acima)
O preço alto do petróleo – com picos acima de empresa anunciou que continuará no mercado de em combustível
está próxima da
US$ 100 por barril entre 2008 e 2011 – e os fortes biocombustíveis oferecendo insumos especiali- viabilidade comercial
incentivos públicos nos Estados Unidos para a zados, como leveduras geneticamente modifica-
produção de etanol de segunda geração tornavam das capazes de melhorar o rendimento dos pro-
o cenário ainda mais atraente. Mas a decisão de dutores. A unidade tem capacidade para produ-
construir as usinas mostrou-se muito mais arris- zir 110 milhões de litros de etanol por ano, mas
cada do que o esperado. Obstáculos nos processos nunca operou comercialmente.
de produção, que impediam o funcionamento

S
contínuo dos equipamentos, associaram-se aos tartups criadas nos Estados Unidos para dar
custos altos de alguns dos insumos, mostrando suporte à indústria acabaram corrigindo
que faltavam pesquisa e investimentos para cons- seus planos de negócio, caso da Solazyme,
truir uma trajetória mais competitiva. de São Francisco, que se dedica à produção de
Seguiu-se um período depressivo. Segundo alimentos, ou da Amyris, de Emeryville, Califór-
dados da consultoria Bloomberg New Energy nia, que agora fabrica cosméticos, fragrâncias e
Finance, os investimentos globais em biocombus- medicamentos contra a malária. “O caminho para
tíveis de nova geração, que chegaram perto de o desenvolvimento da tecnologia tem sido mais
US$ 3 bilhões em 2011, caíram para menos de US$ longo e substancialmente mais dispendioso do
1 bilhão em 2013 e pouco mais de meio bilhão em que havia sido antecipado pelos especialistas”,
2016. Empresas reviram seus planos. O grupo afirma o engenheiro Viler Janeiro, diretor de ne-
espanhol Abengoa fechou em 2015 sua usina em gócios de etanol celulósico do Centro de Tecnolo-
fotos  raízen

Hugoton, Kansas, Estados Unidos. Em novembro gia Canavieira (CTC), empresa de biotecnologia
passado, a multinacional DowDuPont colocou à que construiu uma planta de demonstração no
venda, por US$ 225 milhões, sua planta de etanol município paulista de São Manuel.

pESQUISA FAPESP 268  z  59


1 vantagem, que é a disponibili-
dade de um grande volume de
biomassa na própria usina na
forma de bagaço. Isso ajuda na
busca da viabilidade econômica
e justifica novos investimentos
em pesquisa”, diz Rossell, que
coordenou entre 2010 e 2016
a planta-piloto do Laboratório
Nacional de Ciência e Tecnolo-
gia do Bioetanol (CTBE), vin-
culado ao Centro Nacional de
Pesquisa em Energia e Materiais
(CNPEM), em Campinas.
Já em relação ao aproveita-
mento da palha, há desafios de
ordem logística – ela tem que ser
retirada do campo e trazida pa-
ra a usina – e de produtividade.
O engenheiro químico Antonio
Bonomi, coordenador da divisão
Bioflex, usina Na produção de etanol de de inteligência de processos do
da GranBio em primeira geração, apenas um CTBE, afirma que ainda não se
São Miguel dos
terço da biomassa é utilizada, sabe ao certo o quanto de palha
Campos, Alagoas:
tecnologia por meio da fermentação da O custo das deve ser retirado dos canaviais
importada da Itália sacarose do suco da cana. O para utilizar como matéria-pri-
não funcionou desafio, na segunda geração, enzimas ma. “A manutenção de parte da
como prometido
é aproveitar também o bagaço palha melhora a produtividade
e a palha, fontes de celulose,
necessárias da cana, preservando a umidade
hemicelulose e lignina, que para produzir e os nutrientes.” Somados a es-
respondem pelos outros dois ses desafios, surgiram problemas
terços da energia da planta e etanol de de engenharia que não haviam
não são metabolizados no sis- sido previstos, alguns de solução
tema convencional. De modo segunda cara e complexa, que impediram
geral, as tecnologias aplicadas o funcionamento da maioria das
nas usinas de segunda geração
geração ainda plantas no prazo estipulado.
submetem a biomassa a um é elevado

A
pré-tratamento, para quebrar rtur Milanez, gerente
a estrutura do material ligno- de biocombustíveis do
celulósico; a processos de hi- Banco Nacional de De-
drólise, em que enzimas são senvolvimento Econômico e So-
utilizadas para converter polímeros de celulose cial (BNDES), discorda da percepção corrente de
e hemicelulose em açúcares; e de fermentação, que a demora na viabilidade econômica signifique
com uso de leveduras modificadas geneticamen- um fracasso da tecnologia. “Estamos vivendo a fa-
te que transformam os açúcares provenientes se final de pesquisa e desenvolvimento (P&D). É
da biomassa em etanol. O desenvolvimento de comum, quando são testadas rotas tecnológicas,
leveduras avançou de forma desigual no apro- ocorrer um processo de afunilamento até chegar
veitamento da celulose e da hemicelulose. Há ao processo mais eficiente”, afirma. Em 2011, o
microrganismos mais eficientes na quebra das BNDES e a Financiadora de Estudos e Projetos (Fi-
hexoses, açúcares de seis carbonos originários nep) empenharam R$ 3 bilhões no Plano Conjunto
da celulose, do que na das pentoses, açúcares de de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos
cinco carbonos provenientes da hidrólise da he- Setores Sucroenergético e Sucroquímico (Paiss),
micelulose. Outro gargalo importante para atin- para o desenvolvimento de novas tecnologias de
gir a viabilidade econômica se relaciona ao custo processamento da biomassa de cana. Na carteira
das enzimas necessárias para gerar os açúcares, de projetos apoiados estavam a Raízen e a Gran-
considerado ainda muito elevado. Bio, ao lado de empresas como a Abengoa, o CTC,
Para o engenheiro químico Carlos Eduardo a Petrobras, entre outros.
Vaz Rossell, é crucial melhorar a eficiência das Quem parece mais perto de alcançar a escala
granbio

enzimas e reduzir seu preço. “O Brasil tem uma comercial é a Raízen. Joint venture da brasileira

60  z  junho DE 2018


tá-las em um nível intermediário. “Acreditava-se
Financiamento em queda que o grande gargalo estaria nas etapas biotecno-
lógicas, de enzimas e leveduras, que foram supe-
Investimentos globais no desenvolvimento da próxima geração radas. Ninguém imaginou que haveria problemas
de biocombustíveis e bioquímicos (em milhões de dólares) na parte mecânica do processo, nos equipamentos
do pré-tratamento”, diz. Segundo ele, apostou-se
que o comportamento da celulose na indústria de
3.000
papel se repetiria. “Enquanto a estrutura da lig-
2.500
nocelulose da madeira repele água e amolece no
pré-tratamento, o bagaço de cana funciona como
2.000 uma esponja e forma uma espécie de mingau com
fibras e sílica. Esse material não consegue ser fa-
1.500 cilmente transportado ou desaguado, levando à
erosão, ao entupimento de canalizações e válvulas,
1.000 e ao travamento de roscas”, afirma.

O
500 s problemas enfrentados pela Raízen na
operação experimental de segunda geração
0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
não impediram a usina de seguir produzin-
do na primeira geração – enquanto os concorren-
tes montaram unidades exclusivas de etanol celu-
fonte  bloomberg Cosan e da multinacional Shell, a empresa montou lósico e não conseguiam fazê-las funcionar. Stuchi
new energy finance
em 2014 uma planta em Piracicaba que produz ao explica que a estratégia de produzir os dois tipos
mesmo tempo as duas gerações do combustível. de etanol permitiu várias sinergias. “Na primeira
Na última safra, produziu 12 milhões de litros de geração, obtemos um excedente de biomassa que
etanol celulósico – a meta é atingir 25 milhões de faz parte do custo operacional. Aproveitamos essa
litros neste ano e 40 milhões de litros, capacidade matéria-prima, que está na usina, para o etanol de
total instalada, no ano que vem. A Raízen valeu-se segunda geração. Também há processos conver-
de um investimento feito na década passada pela gentes de fermentação e destilação. Outro ponto
Shell: a participação na empresa Iogen Energia, é a demanda por água. Parte-se de biomassa só-
que tem uma planta-piloto de etanol extraído de lida e é necessário fazer sua diluição – e eu posso
palha de trigo em Ottawa, no Canadá. “Fizemos utilizar a água evaporada na unidade de primeira
uma análise da viabilidade da tecnologia e vimos geração. Isso ajudou a conter a necessidade de in-
que era interessante”, conta Antonio Stuchi, dire- vestimentos complementares e a demonstrar aos
tor-executivo de Tecnologias e Projetos da Raízen. acionistas que nossos processos poderiam ser mais
No Canadá, a ideia de aproveitar a palha de competitivos.” A produção conjunta de primeira
trigo não vingou: o processo demandava uma e de segunda geração está sendo útil para garan-
quantidade de água considerada antieconômi- tir a sustentabilidade do processo, mas isso não
ca. Mas o conhecimento foi útil para a estraté- significa que o modelo híbrido será dominante.
gia da Raízen. “Tínhamos dúvida se as enzimas “A vantagem de uma planta que opera apenas a
teriam eficiência e estávamos no escuro em re- segunda geração é que ela teria mais flexibilidade
lação à capacidade das leveduras de atuar sobre para produzir, trazendo matéria-prima de outras
as pentoses”, lembra. Nenhum desses temores culturas adequadas ao processo produtivo”, diz
se concretizou. “Mas fomos pegos de surpresa Artur Milanez, do BNDES.
com problemas de engenharia.” O elevado nível Um expediente adotado na montagem das usi-
de sujeira na biomassa levou à criação de uma nas de segunda geração foi combinar tecnologias
etapa de pré-limpeza. Também foi preciso re- licenciadas de outras empresas. Milanez lembra
desenhar o processo de separação de açúcares que existia uma crença de que o Brasil poderia se
e de lignina e introduzir mais filtros e centrífu- valer das tecnologias desenvolvidas no exterior,
gas. Mas o principal problema era a corrosão dos bastando eventuais ajustes de “tropicalização”.
equipamentos no pré-tratamento, levando a uma “Sempre acreditamos que as adequações às ca-
operação intermitente. “A agressividade da palha racterísticas da biomassa brasileira seriam um
da cana, rica em sílica, era muito maior do que a desafio e o sucesso da Raízen mostra que era
da palha de trigo”, afirma Stuchi. indispensável criar soluções localmente”, afirma.
O engenheiro-agrônomo Gonçalo Pereira, pro- A GranBio comprou licenças de várias tecno-
fessor do Instituto de Biologia da Unicamp que foi logias para estabelecer sua usina em Alagoas, a
cofundador e cientista-chefe da GranBio, observa Bioflex. A DSM, da Holanda, forneceu a primeira
que as empresas cometeram o erro de transferir levedura testada, a Novozymes, da Dinamarca,
tecnologias de plantas-piloto para usinas sem tes- enzimas para hidrólise, enquanto a italiana Mos-

pESQUISA FAPESP 268  z  61


si Ghisolfi (MG) foi a responsável pelos sistemas
de pré-tratamento e hidrólise. A tecnologia não
funcionou como o prometido, em especial o pa-
cote adquirido do grupo da Itália. “O que se viu
no primeiro momento foi um autêntico colapso
do sistema”, reconhece Bernardo Gradin, presi-
dente da GranBio. Para complicar a situação, a
GranBio perdeu seu principal interlocutor jun-
to à MG com a morte trágica de um dos donos
do grupo, Guido Ghisolfi, um aparente suicídio,
em março de 2015, apenas quatro meses após a
Bioflex iniciar seus testes. “Passamos quase um
ano sem poder tocar na planta, que estava pas-
sando por perícias. O pioneirismo exigiu muito
mais paciência do que imaginávamos.”

A
disputa foi parar em uma corte de arbi-
tragem em Londres e o caso deve ter uma
solução negociada em breve. No final de 1
2017, a empresa italiana entrou em recuperação
judicial e interrompeu as atividades da planta
que havia construído na cidade de Crescentino
para produzir etanol a partir de palha de arroz
e de trigo, e de cana-do-reino. Além dos R$ 750 Agressividade da palha de cana,
milhões gastos na construção da planta e do sis-
tema de cogeração de energia, a GranBio inves- rica em sílica, causou erosão
tiu R$ 150 milhões em P&D, o que envolveu uma
equipe de 45 pesquisadores e a aquisição de pa-
nos equipamentos de pré-tratamento
tentes complementares, com apoio financeiro da
Finep. Também investiu mais R$ 40 milhões em
P&D para o desenvolvimento de variedades da
chamada cana energia, capaz de fornecer mais interrompendo a produção. Foi necessário sim-
de 2,5 vezes biomassa do que a cana tradicional. plificar o processo, eliminando uma de suas eta-
Hoje, pouca coisa sobrou na Bioflex do pacote pas. “Saímos de uma tecnologia que se mostrou
oferecido pelos italianos. Um novo processo de inviável, com dois estágios de pré-tratamento,
pré-tratamento foi desenvolvido e a hidrólise sendo um deles com a steam-explosion, para uma
enzimática estendida. A M&G prometia promo- tecnologia com um único estágio de cozimento
ver a hidrólise em apenas 19 horas, enquanto a menos severo, conhecido como LHW (Liquid Hot
tecnologia atual requer entre 48 e 90 horas. Pa- Water), acrescido de uma etapa de tratamento
ra dar suporte ao novo processo, foi necessário mecânico das fibras usando um equipamento
construir seis tanques de fermentação além dos específico para esse fim”, explica Gradin. Com
dois que existiam, a fim de abrigar a biomassa por isso, a planta começou a operar: em 2017, atingiu
um período maior e adequar o sistema de efluen- capacidade para 28 milhões de litros de etanol
tes. A GranBio investiu em tecnologia própria – de segunda geração – 5 milhões de litros foram
criou, por exemplo, leveduras em parceria com a exportados para os Estados Unidos.
Unicamp – e foi buscar tecnologia fora: investiu Para assegurar a viabilidade comercial, são
em uma empresa norte-americana, a American necessários mais recursos – R$ 35 milhões neste
Process Inc. (API), que havia desenvolvido pla- ano e R$ 45 milhões em 2019 – para alcançar uma
taformas de pré-tratamento de biomassa para produção de 45 milhões de litros e 60 milhões
produção de açúcar celulósico. Detém hoje mais de litros, respectivamente. Em agosto, Gradin vai
de uma centena de patentes nos Estados Unidos. apresentar a GranBio em um evento na Holanda
A corrosão dos equipamentos também foi um como uma empresa diferente daquela de 2014,
problema sério para a empresa. Em um processo agora com tecnologias desenvolvidas no Brasil e
conhecido como explosão de vapor (steam-explo- capacidade de licenciá-las mundialmente.
sion), em que a biomassa é submetida a condi- Embora discreto, um aumento do interesse na
ções de temperatura e de pressão muito elevadas segunda geração é estimulado por nova escala-
e sofre descompressão repentina, o choque do da dos preços do petróleo – na casa dos US$ 75
material com as paredes dos equipamentos do dólares o barril nos últimos meses. Em entre-
pré-tratamento provocava avarias quase diárias, vista ao jornal Financial Times, Feike Sijbesma,

62  z  junho DE 2018


Planta de etanol
celulósico da
DowDuPont, nos
Estados Unidos, que
está à venda (à dir.),
e fardos de palha
de milho coletados
no estado de Iowa
para produção do
combustível (à esq.)

executivo da holandesa DSM, que produz etanol premia a produção sustentável de etanol, pode
celulósico em Iowa, Estados Unidos, em parceria servir como um estímulo adicional à segunda
com a norte-americana Poet, disse que a cotação geração (ver Pesquisa FAPESP nº 266).
do petróleo amplia as chances de a empresa ofe- Pioneiro na pesquisa da utilização de biomassa
recer um produto competitivo. “Qual é o pata- para produção de energia, o biólogo norte-ame-
mar confortável para nós? Por volta de US$ 70 ricano Lee Lynd, professor da Thayer School of
o barril”, disse. Engineering, no Dartmouth College, sustenta
Batizada de Project Liberty, a planta da Poet- que um equívoco cometido por governos e inves-
-DSM foi inaugurada em 2014. Sua meta é pro- tidores foi apostar maciçamente na construção
duzir 72 galões (272,5 litros) por tonelada de de grandes usinas, preocupando-se menos em
resíduo de milho e ela está perto disso: já obteve financiar avanços tecnológicos capazes de re-
70 galões (265 litros) por tonelada. Há um ano, o duzir custos de produção. No desenvolvimento
consórcio Poet-DSM anunciou a construção de das energias solar e eólica, ele observa, inves-
uma unidade para fabricar as enzimas usadas tiu-se primeiro em nichos para depois buscar
para quebrar a celulose dos resíduos de milho. alvos mais ambiciosos. Aplicações iniciais de
Segundo Sijbesma, o principal desafio tem sido pequeno porte propiciam um aprendizado mais
organizar a coleta de resíduos de milho. A exem- rápido, defendeu Lynd em um artigo publicado
plo do que ocorreu com a cana, há dificuldades em outubro na revista Nature Biotechnology. “As
para remover sujeira e areia do material. tecnologias das baterias foram empregadas em
produtos eletrônicos antes de serem usadas em

N
a avaliação de Antonio Bonomi, do CTBE, carros híbridos”, exemplificou.
parte da fragilidade no esforço de pesquisa Lynd foi um dos fundadores da Mascoma, em-
em busca do álcool de celulose se deve ao presa de pesquisa em biocombustíveis que em
fato de não existir um mercado mundial do com- 2005 recebeu aportes de investidores como Vi-
bustível capaz de pressionar por avanços tecno- nod Khosla, o fundador da Sun Microsystems, e
lógicos. “E mesmo no Brasil a segunda geração do Departamento de Energia dos Estados Unidos.
enfrenta a concorrência de primeira geração, uma Como aconteceu com outras startups, não con-
fotos 1 iowa state university 2 dupont

rota de sucesso que funciona muito bem.” Uma seguiu viabilizar a meta de converter biomassa
conjuntura mais favorável surgiu há dois anos, não comestível em etanol. Em 2014, a Mascoma
quando a Conferência de Paris estabeleceu o com- foi vendida para uma empresa canadense, a Lal-
promisso de limitar o aumento da temperatura lemand, interessada em leveduras desenvolvidas
no planeta e propôs cenários de baixa emissão segundo uma técnica criada por Lynd. O biólogo,
de carbono em que a energia de biomassa tem contudo, não desistiu dos planos originais. Tra-
papel essencial. No Brasil, o lançamento de uma balha em outra empresa, a Enchi, com propósitos
nova Política Nacional de Biocombustíveis, que semelhantes aos da Mascoma. n

pESQUISA FAPESP 268  z  63


BIOTECNOLOGIA y

Genes
em silêncio
O
Ferramenta setor agrícola conta com uma Nacional de Biossegurança (CTNBio),
nova ferramenta biotecno- do Ministério da Ciência, Tecnologia,
molecular baseada lógica para combater pragas Inovações e Comunicações (MCTIC),
agrícolas, que causam grandes o produto ainda não foi comercializado.
na técnica de RNA perdas às lavouras no mundo todo. As Criadas em laboratório, as moléculas
de interferência pode multinacionais norte-americanas Mon- de RNAi neutralizam a ação de um gene-
santo, recém-adquirida pela alemã Bayer, -alvo em um organismo qualquer – daí a
auxiliar no combate e DowDuPont obtiveram no ano passado expressão silenciamento gênico. Seu me-
aprovação para uso comercial nos Esta- canismo de ação é similar ao que ocorre
a pragas agrícolas dos Unidos de uma semente transgêni- naturalmente em todos os seres vivos ao
ca feita com a técnica de silenciamento lutar contra ataques virais. Quando isso
gênico por RNA (ácido ribonucleico) de ocorre, as defesas do organismo tentam
Yuri Vasconcelos interferência, ou simplesmente RNAi. neutralizar a ação do invasor, silenciando
Com efeito inseticida, ela foi criada pa- seus genes. De modo análogo, a tecnolo-
ra controlar a larva-alfinete americana gia de RNAi faz com que a célula ataque
(Diabrotica virgifera), fase larval de um o produto de seu próprio gene, como se
besouro que é a principal ameaça às estivesse destruindo o material genético
plantações de milho naquele país. É a viral, num processo similar ao de uma res-
primeira vez que moléculas de RNAi são posta autoimune. No uso agrícola, o RNAi
usadas no combate a pragas do campo. é programado para inativar genes especí-
No Brasil, a empresa Tropical Melho- ficos de pragas e patógenos associados a
ramento & Genética (TMG), com sede processos essenciais à sua sobrevivência.
no Paraná e especializada em melhora- A descoberta de que o processo de in-
mento genético de soja e algodão, espera terferência por RNA poderia ser usado a
dispor ainda este ano de uma molécula de favor do organismo humano rendeu aos
RNAi para uso contra o percevejo-da-soja pesquisadores Andrew Fire e Craig Mel-
(Euschistus heros), importante praga da lo, do Instituto Carnegie, de Washington,
foto goodfreephotos.com ilustração  freepik

oleaginosa. O desenvolvimento da tecno- o prêmio Nobel de Medicina de 2006.


logia está sendo feito por pesquisadores O achado foi promissor porque revelou
da Universidade Estadual de Campinas uma nova forma de assumir o coman-
(Unicamp). A Empresa Brasileira de Pes- do celular, abrindo um amplo leque de
quisa Agropecuária (Embrapa) também aplicações. Desde então, a ferramenta é
já criou um feijão transgênico com a téc- aplicada na pesquisa básica para estudo
nica de RNAi, mas para controle de um da função gênica e, na área da saúde, é
vírus, conhecido como mosaico-dourado, vista como uma promessa para o trata-
que ataca esse plantio. Embora já apro- mento de doenças genéticas (ver Pes-
vado desde 2011 pela Comissão Técnica quisa FAPESP nº 133).

64  z  junho DE 2018


Para entender como essa nova tec- interfere no processo de tradução do
nologia funciona é preciso lembrar de RNA mensageiro em proteína, fragmen-
processos da biologia celular, especifica- tando-o. Ela intercepta e destrói as in-
mente o mecanismo de expressão gené- formações celulares conduzidas pelo
tica. Genes são segmentos da molécula RNA dentro da célula antes que sejam
de DNA que controlam as funções meta- processadas e originem proteínas. Dessa
bólicas das células, principalmente por forma, o processo de expressão gênica
meio da produção de proteínas. “Nossa que dependia dos dados contidos naque-
informação genética está toda arma- le RNA não irá mais ocorrer.
zenada em nosso DNA. Para dar vida e
uso a essa informação, o DNA deve, ini- Milho pioneiro
cialmente, ser transcrito em RNA. Em O milho transgênico lançado pela Mon-
seguida, esse RNA santo e DowDuPont foi batizado interna-
mensageiro é tra- mente de DvSnf7 e seu nome comercial
duzido para proteí- é SmartStax. A sopa de letras é forma-
nas. Esse é o proces- da pelas iniciais da lagarta Diabrotica
larva-alfinete so básico de expres- virgifera e o nome do gene-alvo, Snf7.
americana são gênica”, explica Quando o inseto se alimenta da planta,
A praga (Diabrotica virgifera) o biólogo Alexandre a molécula de RNAi entra em seu orga-
ataca a lavoura do milho nos Garcia, gestor de nismo e silencia o gene Snf7, impedindo
Estados Unidos (abaixo) e causa pesquisa da TMG. a produção de uma proteína que é vi-
grandes perdas aos agricultores Como o nome dei- tal para o funcionamento de tecidos da
xa claro, a molécula larva-alfinete americana. O resultado é
sintética de RNAi a morte do inseto, conhecido como “o
foto  claudio bezerra
PERCEVEJO- será destinado a controlar
-DA-SOJA o percevejo-da-soja, uma
das maiores ameaças à soji-
cultora nacional. “Espera-
mos ter definido até o fim
besouro de US$ 1 bilhão” por causa do do ano as melhores molé-
enorme prejuízo causado aos agricultores Com cerca de 11 milímetros de culas de RNA. Todo o tra-
norte-americanos. A química brasileira comprimento, o Euschistus balho será feito em caráter
Renata Bolognesi integrou a equipe da heros é considerado uma das experimental e por meio
Monsanto que criou o milho transgênico. principais ameaças às plantações de estudos controlados”,
“A aplicação da tecnologia de RNAi na da oleaginosa no país conta Garcia, da TMG,
agricultura é bastante promissora”, des- destacando que o cami-
taca o engenheiro-agrônomo Henrique nho para essas moléculas
Marques-Souza, professor do Instituto se tornarem um produto
de Biologia (IB) da Unicamp e líder de comercial é longo e depen-
um grupo de pesquisa nacional sobre de tanto da tecnologia usada para pro-
silenciamento gênico. Ele se especia- mover sua aplicação como do cenário
lizou no tema durante o doutorado na de aprovações legais.
Universidade de Colônia, na Alemanha, Segundo Marques-Souza, há duas for-
concluído em 2007, e o pós-doutorado na O maior desafio mas de fazer com que as moléculas de
Universidade da Califórnia, em Berkeley, RNAi entrem em contato com as pragas:
Estados Unidos, realizado entre 2008 e para a criação pela criação de plantas transgênicas, co-
2010. De volta ao Brasil, passou a lecio- mo a Monsanto e a DowDuPont procede-
nar na Unicamp, onde criou o Brazilian
de um inseticida ram com o milho DvSnf7, ou pelo desen-
Laboratory on Silencing Technologies com RNAi para volvimento de produtos inseticidas. Essa
(Blast) e derivou seus estudos sobre si- é a escolha da TMG, que planeja criar um
lenciamento gênico para a agricultura. aplicação tópica produto para aplicação tópica, como, por
Em 2012, Marques-Souza e o enge- exemplo, um pulverizador. “Além de di-
nheiro-agrônomo Antonio Vargas de é a reduzida minuir o tempo gasto para a produção de
Oliveira Figueira, do Centro de Energia uma planta transgênica, o RNAi tópico
Nuclear na Agricultura da Universidade
estabilidade pode ser considerado um produto natu-
de São Paulo (Cena-USP), montaram da molécula no ral, pois se trata de uma molécula bioló-
um banco de sequências da traça-do- gica que não causa alterações genéticas
-tomateiro (Tuta absoluta) e realizaram ambiente na cultura de interesse ou no organismo
ensaios de silenciamento gênico para desejado”, explica Marques-Souza.
diversos genes do inseto. “Esse trabalho A criação de um inseticida com RNAi,
deu visibilidade ao nosso grupo. Hoje, no entanto, não é trivial, e alguns obs-
podemos desenvolver a tecnologia de táculos precisam ser superados. “Essas
RNAi para virtualmente qualquer praga moléculas se degradam rapidamente no
de qualquer cultura”, afirma o pesquisa- ambiente, o que dificulta a criação de
dor da Unicamp. No ano passado, a técni- um produto para aplicação na lavoura.
ca foi licenciada para a TMG pela Inova, Por isso, já existem investigações que
a agência de inovação da Unicamp. buscam empregar recursos da nano-
O primeiro produto a ser desenvol- tecnologia para proteger a molécula de
vido com a ferramenta pela empresa RNAi [ver Pesquisa FAPESP nº 266] e

66  z  junho DE 2018


Como funciona a técnica
As moléculas de RNAi inativam genes vitais para a sobrevivência de insetos que atacam plantações
ilustração alexandre affonso

1 Sintetizadas em 2 São introduzidas 3 Ao entrar em seu 4 Como esse gene


laboratório, as moléculas no inseto que se deseja organismo, elas atuam em está associado a um
de RNAi podem ser usadas controlar no momento seu processo celular, processo vital da
para produção de plantas em que ele se alimenta impedindo que o produto do praga, ao ser
transgênicas ou na da planta ou após a gene-alvo (RNA mensageiro) silenciado ele ocasiona
formulação de inseticidas aplicação tópica seja copiado como proteína a morte do inseto

Fontes  henrique marques-souza e Alexandre garcia

elevar sua estabilidade”, destaca o bió- ser superada. “Quando se seleciona um transgenia e classificando-a de Técnica
logo Fernando Luís Cônsoli, do Depar- gene-alvo para atingir o organismo de Inovadora de Melhoramento de Precisão
tamento de Entomologia e Acarologia da uma praga, devemos ter o cuidado de (Timp). Com isso, ela não estará neces-
Escola Superior de Agricultura Luiz de não escolher uma sequência gênica que sariamente sujeita aos mesmos critérios
Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, seja complementar a um gene da planta de aprovação exigidos para organismos
interior paulista. ou de qualquer outro organismo que se geneticamente modificados.
O nanoencapsulamento de moléculas alimente dela. Se este cuidado for toma- “O processo para gerar uma planta
de RNAi é o tema do projeto de douto- do, o silenciamento gênico só ocorrerá transgênica e passar por todos os meca-
rado do biólogo Cyro von Zuben, aluno no organismo-alvo”, diz. “A garantia de nismos regulatórios globais para aprovar
do IB-Unicamp orientado por Marques- que o RNAi não terá nenhum efeito em seu cultivo comercial é extremamente
-Souza. Até o fim do ano deverão ser rea- humanos só virá com muito estudo.” caro e demorado, podendo ultrapassar
lizados ensaios com nanopartículas de Alexandre Garcia reforça: “A tecno- os US$ 100 milhões e 15 anos”, diz Gar-
argila, em conjunto com o Instituto de logia é baseada em sequências de RNA. cia. “O uso da tecnologia de RNAi como
Pesquisas Tecnológicas (IPT), do go- Todos os seres vivos possuem sequências produto de aplicação tópica, para o caso
verno paulista, e com o Laboratório Na- em comum, mas as espécies têm inúme- do percevejo-da-soja, é mais promissor.
cional de Nanotecnologia (LNNano), do ras sequências únicas que as diferenciam Essa tecnologia deverá estar à disposi-
Centro Nacional de Pesquisa em Ener- de outras espécies”. Hoje, com a quanti- ção dos agricultores brasileiros em al-
gia e Materiais (CNPEM), para diversas dade de informações e bases de dados de guns anos.” n
espécies-alvos em estudo no laboratório genomas à disposição, é possível achar
Blast. Na Austrália, um grupo de pesqui- sequências que são exclusivas da espécie-
sa publicou há pouco tempo um artigo -alvo e desenhar moléculas que irão atuar Projeto
descrevendo o uso de nanopartículas apenas nessas sequências. “Dessa forma, RNAi para controle de Tuta absoluta em tomateiro (nº

que garantem a integridade e a entrega todo o processo se torna específico e ex- 11/12869-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular;
Pesquisador responsável Antônio Vargas de Oliveira
de RNAi por 30 dias. clusivo para o organismo-alvo”, sustenta. Figueira (USP); Investimento R$ 153.800,39.
Cônsoli também alerta que o proces-
Artigos científicos
so de seleção de moléculas de RNAi de- NORMA DA CTNBIO
PARTHASARATHY, R. et. al. Physiological and cellular
ve considerar o risco de elas afetarem Um passo importante para a regulamen- responses caused by RNAi-mediated suppression of Snf7
a própria planta ou organismos não al- tação do uso do RNAi tópico no Brasil foi orthologue in western corn rootworm (Diabrotica virgi-
vo da tecnologia, inclusive o homem. dado no início do ano quando a CTNBio fera virgifera) larvae. PLOS ONE. On-line. 18 jan. 2013.
CAMARGO, R. A. et. al. RNA interference as a gene si-
De acordo com Marques-Souza, essa publicou uma normativa definindo a tec- lencing tool to control Tuta absoluta in tomato (Solanum
é uma preocupação real, mas que pode nologia como um método que não envolve lycopersicum). PeerJ. On-line. 15 dez. 2016.

pESQUISA FAPESP 268  z  67


US$
850.000
EMPREENDEDORISMO y

Começam a surgir as primeiras


startups bilionárias no Brasil

US$
Hábitat de
unicó
700.000

rn
io
s
US$
300.000

unicórnios
US$
250.000

US$
100.000

US$
570.000

US$
50.000
Suzel Tunes

O
primeiro trimestre de 2018 foi marcante para
o segmento tecnológico brasileiro: em pouco
menos de dois meses, duas startups entraram
para o seleto Clube dos Unicórnios – nome pela
US$ qual a investidora norte-americana Aileen Lee batizou o
1 bi grupo das empresas de base tecnológica que alcançam
o valor de mercado de US$ 1 bilhão. Em artigo escrito
em 2013, a investidora estimava que apenas 0,07% das
startups conseguiriam realizar a proeza – quase tão
“rara e mágica” quanto o animal da mitologia.
A primeira startup a alcançar o feito foi a 99 Tec-
nologia, que nasceu em 2012 oferecendo um apli-
cativo (App) para táxis. Em janeiro deste ano, a 99
foi avaliada em U$ 1 bilhão e adquirida pela chi-
nesa Didi Chuxing – que já tinha participação na
startup desde janeiro de 2017, quando investiu
mais de US$ 100 milhões.
Em março, o Nubank chegou a esse valor,
depois de conseguir investimentos de US$ 150
milhões. O Nubank é uma fintech – startup vestimentos em empresas
financeira – criada em 2013 para oferecer de base tecnológica, mas não
cartões de crédito sem anuidade e taxas de achou nada interessante. Em
juros abaixo da média de mercado. O em- 2013 se demitiu e teve a ideia
preendimento foi concebido pelo colom- de criar um cartão de crédito
biano David Vélez, 36 anos, formado em diferente, gerenciado apenas por
engenharia pela Universidade Stanford, aplicativo. Quando conseguiu o pri-
Estados Unidos; pelo norte-americano meiro investimento, convidou para
Edward Wible, 34 anos, que cursou sócios Cristina, que levou a experiên-
ciência da computação na Universi- cia adquirida no Itaucard, e Wible, que
dade Princeton, também nos Esta- estava na Argentina e é especialista em
dos Unidos; e pela brasileira Cristi- big data. Mais de 3 milhões de usuários de
na Junqueira, 35 anos, engenheira cartões de crédito depois, em março deste
de produção graduada na Escola ano, Vélez anunciou que o Nubank havia se
Politécnica da Universidade de tornado um unicórnio. Já se especula que o
São Paulo (Poli-USP). Os três próximo poderá ser a Movile, dona de aplicativos
fizeram MBA em negócios. populares como o iFood e o PlayKids.
Vélez veio a São Paulo em Vélez costuma dizer que o Nubank nasceu e pros-
2011 como funcionário da perou durante a crise econômica. O cenário adverso
Sequoia – fundo de capi- dos últimos anos também não assusta Renato Freitas,
tal de risco norte-ameri- engenheiro mecatrônico formado pela Poli-USP, um dos
cano – para prospectar fundadores da 99 Táxis. “A parte interessante de trabalhar
oportunidades de in- com projetos inovadores é que eles sofrem muito pouco
com a flutuação macroeconômica. Sempre há espaço para
novas tecnologias. Depois que a 99 virou unicórnio e está sen-
do seguida de outros, acho que o Brasil vai atrair mais olhares
de investidores estrangeiros, o que deve aquecer o mercado de
startups”, afirma.
Um modelo de negócios comprovado, que gere valor; escalável,
ou seja, capaz de crescer rapidamente; e competências que tragam
um diferencial competitivo às empresas são os fatores que podem le-
var uma startup a se transformar em unicórnio, na avaliação de Marcelo
Caldeira Pedroso, livre-docente pela Faculdade de Economia, Administra-

pESQUISA FAPESP 268  z  69


ção e Contabilidade da USP (FEA-USP) tanto sucesso. O que fez a diferença na
e coordenador do Mestrado Profissional 99 foi o time. Sempre buscamos con-
em Empreendedorismo da FEA-USP. A tratar pessoas com paixão pelo desafio
99 é uma das empresas que preencheram da empresa”, afirma. O grupo inicial foi
esses critérios. Outros composto por Lambrecht e Freitas, fo-
Para começar, os fundadores da 99 cados no desenvolvimento do produto,
inspiraram-se em um negócio que já ha- desenvolveram e Paulo Veras, também ex-aluno da Poli,
via sido testado com sucesso no exterior. que já contava com experiência na cria-
Segundo Freitas, a ideia da empresa sur-
App semelhante ção de startups como a Tesla, uma das
giu quando Ariel Lambrecht, colega na e não obtiveram primeiras empresas especializadas no
mecatrônica da Poli, viajou à Alemanha desenvolvimento de sites e e-commerce.
e usou o primeiro aplicativo de táxi do sucesso. O que “Nós três somos bem diferentes, ape-
mundo, o MyTaxi. “Achamos uma boa sar de termos a mesma formação. Eu
ideia lançar isso no Brasil por conta dos fez a diferença sempre cuidei mais da área de tecnologia
desafios de transporte que existem aqui: e como ela se relaciona com o produto.
transporte público caro, trânsito conges-
na 99 foi o Paulo tratava de negócios, do financeiro,
tionado, entre outros”, conta Freitas. O time, diz Renato marketing e recursos humanos. E Ariel
investimento inicial foi de R$ 50 mil. foi responsável principalmente por pro-
O desafio da expansão foi vencido pelo Freitas, um duto, ele era a ‘cola’ que juntava várias
conhecimento aprofundado das caracte- áreas, principalmente focado em como
rísticas e necessidades do público-alvo. dos criadores da elas impactam os nossos clientes”, afirma
“Os taxistas, na época, ainda utilizavam Freitas. Em 2017, a empresa ampliou os
o que chamamos feature phones, ou seja,
empresa seus serviços: passou a aceitar também
aqueles que não são smartphone. Fize- motoristas particulares, tornando-se
mos um trabalho bastante intenso para concorrente da norte-americana Uber,
ensiná-los quais smartphones comprar, já instalada no Brasil desde 2014. Cres-
como utilizá-los e quais aplicativos po- ceu ainda mais e chamou a atenção da
deriam ajudá-los no dia a dia”, relata. chinesa Didi Chuxing, que busca superar
Freitas conta que, junto com Ariel, pes- nos indicaram, depois, que os taxistas a Uber no mercado global, expandindo-
quisava a localização de pontos de táxi preferiam nosso App, pois o considera- -se pela América Latina.
pelo Google Maps e saía para “panfletar” vam mais intuitivo e fácil de usar.” Hoje, já sob o controle da Didi Chu-
praticamente todos os dias, durante os xing, a 99 conecta mais de 300 mil mo-

M
primeiros meses da empresa, em 2012. as, segundo Freitas, não foi nem toristas a 14 milhões de passageiros em
“Já era o aplicativo final, as únicas pes- o aplicativo nem a oportunidade mais de 400 cidades no Brasil. Em feve-
soas que usaram no período de desen- de negócio a razão preponde- reiro de 2018 lançou um novo aplicativo,
volvimento fomos Ariel e eu. Mas o de- rante para o sucesso da 99, mas o terceiro desenvolvido em parceria por brasileiros
senvolvimento não parou nunca, sempre fator apontado por Pedroso, da FEA: as e chineses. “O desenvolvimento envolveu
tivemos coisas novas. Essa proximidade competências da equipe. “Muitas em- mais de 250 profissionais dos times de en-
nos permitiu entender melhor o perfil presas desenvolveram o mesmo serviço genharia e produto no Brasil e na China”,
desse público e conseguimos traduzir as por aplicativo, tiveram a mesma opor- diz João Costa, líder da área de produtos
análises no nosso aplicativo. Pesquisas tunidade de negócio e não obtiveram da 99. “O App tem um algoritmo que uti-
liza inteligência artificial para acelerar a
distribuição de corridas, reduzindo em
até 20% o tempo em que um passageiro
espera por um motorista”, afirma.
Após a venda da 99, Freitas e Lam-
brecht partiram para uma nova emprei-
tada, agora em sociedade com Eduardo
Musa, ex-CEO da Caloi: um serviço de
compartilhamento de bicicletas com sis-
tema de redistribuição livre, pelo qual as
bikes são liberadas por meio de um aplica-
tivo de celular. Chamado de dockless, esse
modelo dispensa as estações obrigatórias
de parada: as bicicletas são equipadas com
GPS e podem ser deixadas em qualquer
lugar após o uso. O próximo usuário pre-
cisará destravá-la usando o celular para
ler o QRCode, que é estampado na bike.

70  z  junho DE 2018


O ecossistema evoluiu, mas as startups
continuam voltadas apenas para o
mercado interno, afirma Pinho, da UFSCar

Batizada de Yellow, a startup pretende Segundo Miranda, a entrada do setor mento Econômico (OCDE), fornece um
oferecer, a partir de julho, 20 mil bicicle- privado no campo da inovação seria um retrato sobre a inovação no Brasil.
tas para deslocamentos curtos na cida- dos principais fatores para a criação de Para o economista Marcelo Pinho, do
de de São Paulo, com o plano de chegar um hábitat favorável às startups. “Há 10 Centro de Ciências Exatas e Tecnologia
a 100 mil. “A ideia da Yellow surgiu na anos, as incubadoras eram quase exclusi- da Universidade Federal de São Carlos
China, nós fomos para lá e utilizamos um vamente iniciativas universitárias. Hoje, (UFSCar) e pesquisador nas áreas de
serviço semelhante. Gostamos muito de grandes corporações financiam incuba- economia industrial e economia da tec-
fazer benchmark, entender como outras doras e coworkings, criando unidades nologia, a universidade tem um papel
empresas solucionaram os problemas em de negócios que tentam fazer inovação importante na capacitação dos futuros
outros países. Mas não gostamos de co- disruptiva. Ao assumir o protagonismo, empreendedores, mas a estratégia tecno-
piar. Desenvolvemos a solução do zero, a empresa trouxe uma dinâmica nova ao lógica parte da experiência empresarial.
considerando os aprendizados de outras setor”, diz ele. O aumento do interesse É nesse ponto que a maioria das startups
empresas e nossos valores”, diz Freitas. privado pela inovação ocorreu junto com brasileiras cometeria seu “pecado origi-
a diminuição do investimento público, nal”. “As empresas de base tecnológica

O
sucesso dessas novas empresas resultado da crise econômica. brasileiras não costumam desenvolver
inovadoras não foi uma surpre- “O investimento em inovação caiu dra- inovações em escala global nem visar
sa para alguns dos estudiosos do maticamente a partir de 2014. Hoje está mercados fora do país”, afirma ele.
mundo corporativo. O Brasil finalmente no nível mais baixo dos últimos 10 anos”, Pinho avalia que as brasileiras geral-
estaria vivendo um momento de “amadu- afirma Miranda, referindo-se a dados da mente operam em nichos, o que limita
recimento do ecossistema de inovação”, Financiadora de Estudos e Projetos (Fi- seu crescimento horizontal, ou seja, a
como define Moacir de Miranda, che- nep). Segundo o relatório Indicadores expansão em seus mercados de origem.
fe do Departamento da FEA-USP. “Es- nacionais de ciência, tecnologia e inovação A restrição no posicionamento de mer-
tamos entrando agora no século XXI”, 2017, do Ministério da Ciência, Tecnolo- cado geralmente está associada a uma
afirma. Para o pesquisador, o mercado gia, Inovações e Comunicações (MCTIC), estratégia tecnológica que não leva à
Júlia cherem rodrigues e freepick

tem percebido que a gestão estratégica entre 2014 e 2015 o investimento do setor inovação primária. “Essas empresas fre-
do conhecimento é uma questão de so- privado do país em P&D aumentou de R$ quentemente adotam a reprodução de
brevivência. “As empresas estão inves- 37,4 bilhões para R$ 38,1 bilhões, apesar um negócio que já foi desenvolvido no
tindo no conhecimento como diferencial da crise econômica. A publicação, que exterior.” Por isso, ele não é tão otimista
competitivo. O que discutíamos há 20 reúne dados da Pesquisa de Inovação do em relação ao atual estágio de desenvol-
anos está começando a acontecer agora IBGE (Pintec) e estudos feitos pela Orga- vimento das startups no país.
em larga escala.” nização para a Cooperação e Desenvolvi- Segundo o pesquisador, pelo fato de
que outros empecilhos ao crescimento de
empresas tenham sido atenuados nos últi-
mos anos – com a multiplicação de esque-
mas privados de financiamento e uma le-
gislação mais favorável ao relacionamento
universidade-empresa com a criação do
Marco Legal da Ciência, Tecnologia e
Inovação –, entende-se que houve uma
evolução no ecossistema. No entanto, as
empresas de base tecnológica ainda são
voltadas essencialmente ao mercado in-
terno, um problema compartilhado com
outras economias periféricas. n

pESQUISA FAPESP 268  z  71


humanidades   CIÊncia política y

infográfico ana paula campos ilustraçãO estúdio rebimboca


A vida nos

partidos
políticos
Inédito
no país
, estudo
revela
quem são e o
que pensam

s
s partidário
os militante

Glenda Mezarobba

O
s militantes dos maiores partidos
políticos brasileiros são mais velhos,
mais escolarizados e com rendimen-
to superior à média da população.
Apesar de suas crenças e atitudes
positivas em relação à participação política e às
instituições, estão insatisfeitos com a democracia
intrapartidária. Os dados são resultado do primei-
ro levantamento feito com filiados partidários no
Brasil e fazem parte do projeto temático “Organi-
zação e funcionamento da política representativa
no estado de São Paulo (1994 e 2014)”, desenvol-
vido nos últimos cinco anos sob responsabilida-
de de Rachel Meneguello, professora titular do
Departamento de Ciência Política do Instituto Total de
de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade entrevistados
Estadual de Campinas (DCP-IFCH-Unicamp). 445
72  z  junho DE 2018
Perfil dos filiados
Escolaridade

Superior Ensino médio Fundamental


(completo ou não) (completo ou não) (completo ou não)
sexo

59,3% 36,4% 4,3%

Mulheres Homens

32,8% 67,2%
do total de do total de
militantes militantes

Renda familiar
52,4% 47,6%
do eleitorado do eleitorado
(em salários mínimos – sm)
em SP em SP

%
%

%
9,8
9,9
2 a 5 sm

5,1
5 a 10 sm
10 a 20 sm
Mais de 20 sm 27,4% 27,2% 20,4%
Sem resposta
Até 2 sm

Militantes

Faixa etária 4% 17% 29% 39% 11%

16-24 anos
25-34 anos
35-44 anos
45-59 anos Eleitorado em SP
60 anos ou mais
15% 23% 20% 25% 17%

58,9%

Militantes
%
%
%
7%

0,4
0,2
2,2

Cor
(autodeclaração) 71,7% 18,4%
Ocupação
22,2% Branco
Funcionalismo público
Preto
Prestação de serviços
Pardo
Comércio Eleitorado em SP
Amarelo
%

11,8%
%
%
5,5

Outros
1,4
0,1

Indígena
3,1% Indústria
2,2% Sem resposta 63,9% 29,1%
1,7% Sem resposta

Fonte  projeto temático “Organização e funcionamento da política representativa no estado de são paulo (1994 e 2014)”
A pesquisa foi realizada no estado de São Pau- informaram ganhar entre 2 e 5 salários mínimos.
lo com 445 integrantes dos 10 maiores partidos Religião Número praticamente idêntico declarou receber
brasileiros, que reúnem cerca de 80% dos filiados entre 5 e 10 salários mínimos e cerca de 10% dos
no país: DEM, PDT, PMDB, PP, PPS, PR, PSB, militantes mais de 20 salários mínimos.
PSDB, PT e PTB. Responsáveis pela eleição de O perfil não surpreendeu os estudiosos. “Tanto
86% dos deputados federais em 2010 e de 72%, os surveys gerais como as entrevistas realizadas
quatro anos depois, tais agremiações concentram apenas com filiados traçam o mesmo perfil do
2,4 milhões dos 3 milhões de filiados no estado militante contemporâneo nas democracias mais
mais desenvolvido economicamente do país, que tradicionais: homem, mais velho do que a média
conta com 32 milhões de votantes, aproximada- da população, e com status superior em termos
mente 20% do eleitorado nacional. O número de renda e escolaridade”, explica Amaral. A ocu-
de entrevistados, todos com filiação partidária pação prevalecente dos militantes entrevistados
autodeclarada, respeitou a proporção de filia- é o funcionalismo público; 58,9% são servidores
dos da dezena de partidos selecionados. Os da- de empresas ou órgãos públicos. Dos entrevista-
dos foram coletados entre outubro e dezembro dos, 45% informaram que exerciam ou já haviam
de 2013, em 22 municípios de todas as regiões exercido alguma atividade remunerada ligada ao
de São Paulo, inclusive a capital, escolhidos por partido. A predominância de servidores públicos
sorteio. O projeto inova ao fazer um estudo in- entre os militantes políticos pode ser compreen-
terno da vida partidária. “Trata-se da primeira 58%
dida, na avaliação de Amaral, pela importância
pesquisa, de natureza acadêmica, no país, que dos recursos estatais para o funcionamento das
ouviu diretamente integrantes de partidos polí- agremiações. “Cada vez mais os partidos depen-
ticos”, informa Rachel. dem de recursos estatais. Tanto para campanhas e
O ineditismo da pesquisa pode ser compreen- eleições quanto para fazer suas máquinas funcio-
dido à luz da dificuldade de acesso aos dados narem. Os políticos indicam para suas assessorias
sobre militância. No Brasil, a filiação partidária e cargos de confiança pessoas ligadas aos próprios
é regulamentada e controlada pela justiça elei- partidos. Esses assessores realizam atividades
toral e constitui requisito obrigatório para quem vinculadas ao Estado, mas também partidárias,
quer se candidatar a um cargo eletivo. Mas, além como campanhas e encontros com militantes,
de serem sigilosas as informações que poderiam 19,8% por exemplo”, diz. De acordo com o pesquisador,
permitir a localização dos filiados, a maioria das trata-se de fenômeno comum a todos os partidos
siglas também não tem um registro preciso de políticos, em todo o mundo.
seus integrantes. “Tudo isso dificulta a realiza-
ção de surveys com amostragem representati- 11,7% Ativismo
va do universo dos filiados”, observa o cientista Movidos por suas convicções políticas, 37,1% dos
político Oswaldo do Amaral, professor do DCP- militantes decidiram se filiar a um partido, en-
6,8%
-Unicamp, que, junto com o também cientista quanto 28,5% resolveram se inscrever pela pos-
2,6%
político Pedro Floriano Ribeiro, do Departamento sibilidade de convivência partidária. A maioria
1,1%
de Ciências Sociais da Universidade Federal de dos militantes (29,2%) foi recrutada pela própria
São Carlos (DCS-UFSCar), responde pela análise legenda, inclusive em comícios eleitorais, ou se-
dos dados. Para contornar esse obstáculo, optou- Católica guiu sugestão de amigos e parentes (27,6%). 9,2%
-se por concentrar a coleta de informações em Evangélica aceitaram ingressar em um partido depois de te-
pontos de encontro da militância, como diretórios Espírita rem sido procurados por políticos eleitos e 8,8%
municipais, prédios públicos, além de praças e Não tem inscreveram-se em decorrência de participação
avenidas centrais. Outras sindical. Cerca de um quarto dos militantes faz
O resultado desse esforço permitiu aos pesqui- Sem resposta contribuições financeiras periódicas à legenda à
sadores traçar o perfil sociodemográfico dos mi- qual está filiado – mensalmente ou anualmente.
litantes e compará-lo a características da popula- Fonte projeto temático Percentual praticamente idêntico fez doações
“Organização e
ção em geral. Enquanto o eleitorado do estado de funcionamento da política para as campanhas eleitorais de 2010 ou 2012.
representativa no estado
São Paulo é predominantemente feminino, com de são paulo (1994 e 2014)” A maioria dos filiados pode ser considerada
52,4% de mulheres votantes, a militância é majo- atuante. 89% disseram dedicar algum tempo por
ritariamente masculina, com 67,2% dos filiados. mês ao fazer partidário e 81% declararam ter se
Dos militantes, 68% estão na faixa etária entre envolvido em alguma atividade em 2013, ano da
35 e 59 anos – contra 45% do eleitorado estadual. pesquisa, quando não houve eleições no país.
Autodeclararam-se brancos 71,7% dos militantes. 26% informaram destinar mais de 30 horas por
A exemplo do observado na população brasileira, mês ao partido. Naquele ano, mais de 50% par-
a religião predominante é a católica, com 58% dos ticiparam de reuniões do diretório local, 44% se
filiados. A maioria dos militantes entrevistados, encontraram com representantes eleitos e 33%
representada por 59,3%, tem curso superior, ainda estiveram envolvidos no recrutamento de novos
que incompleto. Em relação à renda familiar, 27,4% integrantes. Quando questionados sobre as prin-

74  z  junho DE 2018


Militância dedicada média mensal de horas
destinadas ao partido

Atividades
desempenhadas 22,9% Comício eleitoral 210 militantes 95 militantes
Distribuição de panfletos Até 10h/mês 10 a 30h/mês
24,9% e outros materiais
Participação na eleição
31,9% do diretório 23,1%
Recrutamento de
33,3%
outros filiados
51%
Participação na
43,1%
convenção partidária

44,3% Encontro com 26%


representante eleito

53,7% Reunião no
diretório municipal
107 militantes
Mais de 30h/mês
Fonte projeto temático
“Organização e
funcionamento da
política representativa
no estado de são paulo
(1994 e 2014)”

cipais funções que um partido deve desempenhar, em breve, em periódico internacional da área.
a maioria dos militantes indicou aquelas consi- “Quanto maior a crença na importância da atua-
deradas, pelos estudiosos, “representativas clás- ção política individual ou do partido, maior a
sicas”, de articulação e expressão de demandas: chance de dedicar mais horas às atividades par-
47% citaram a promoção de ideias e ideologias e tidárias”, observam em artigo conjunto. Confir-
42% a representação de grupos sociais. “Trata-se mando a expectativa dos pesquisadores, escola-
de visão idealizada do partido, como ponte entre ridade e sexo têm impacto no nível de ativismo.
a sociedade civil e o governo”, observa Ribeiro. “Ter frequentado um curso superior amplia a
Para compreender a intensidade da participa- probabilidade de participação mais intensa nas
ção política, Amaral e Ribeiro utilizaram um mo- atividades partidárias em cerca de 70%; ser ho-
delo analítico derivado do “modelo geral de in- mem, em mais de 50%.” Segundo Amaral e Ribei-
centivos”. Desenvolvido pelos britânicos Patrick ro, a variável “tipos de incentivo” não apresentou
Seyd e Paul Whiteley, a partir de 1992, o modelo significância estatística. “Os principais motivos
reúne explicações sociopsicológicas e da teoria para a filiação não são capazes, isoladamente, de
dos incentivos e é considerado o mais completo explicar a participação de maior intensidade, o
para se compreender a participação de indiví- que contraria parte de nossa hipótese e da lite-
duos. Segundo Amaral e Ribeiro, a variável de- ratura que afirma a importância dos incentivos
pendente foi construída tomando como base o coletivos como principal motivação do ativis-
número de horas que os filiados destinam, men- mo.” A única variável que apresentou resultado
salmente, ao fazer partidário. A opção se deveu diferente do imaginado foi “status ocupacional”:
a três razões: a existência de trabalhos compa- “Os militantes que possuem trabalho formal par-
rativos recentes que utilizam a mesma medida ticipam menos das atividades partidárias. Como
para dimensionar o nível de ativismo dos filiados, a variável ‘escolaridade’ continuou atuando no
o fato de as atividades mais comumente desem- sentido esperado, é difícil fazer considerações
penhadas serem muito similares entre si e a cons- mais definitivas a respeito desse resultado”, es-
tatação de que cada militante realiza, em média, creveram os pesquisadores.
3,38 atividades distintas. Considerando as cate-
gorias existentes nos questionários aplicados, os eficácia
militantes foram reunidos em três grupos: os que Em relação à eficácia da própria participação po-
se dedicam por até 10 horas ao mês, os que se de­ lítica, para 68% dos militantes o voto individual
di­cam entre 10 e 30 horas por mês e os que se tem muita influência nos rumos do Brasil. O nível
dedi­cam mais de 30 horas mensais. de influência dos partidos na política nacional,
Os pesquisadores constataram que os três tipos por sua vez, recebeu média 5,4 dos respectivos
de eficácia política avaliados – eficácia do voto, filiados, considerada a escala que vai de 1 (pouca)
do partido e da atuação no partido – mostraram- a 7 (muita). A maioria dos militantes, entretan-
-se estatisticamente significativos. Os resultados to, apontou considerar reduzida sua influência,
da aplicação do modelo serão tornados públicos quando avaliada a participação individual no

pESQUISA FAPESP 268  z  75


processo decisório do próprio partido. A média
geral de 3,76 pode ser interpretada, explicam Razões
os autores do artigo, como sintoma de avalia-
ção negativa acerca da democracia interna das para a
agremiações e sugere que os militantes não veem
muitos canais de participação. “Essa insatisfação
militância
com a democracia intrapartidária é também en-
contrada entre os filiados das democracias mais
estabelecidas”, informam.
De acordo com Amaral e Ribeiro, os resulta-
dos da pesquisa reforçam o que indica parte da
literatura recente sobre os partidos brasileiros e
contrariam argumento disseminado por aqueles
Convicções políticas
que insistem em considerá-los meras “ficções le-
37,1%
gais”. Também descontroem noção sugerida pelo
senso comum: os partidos políticos têm vida in-
terna mesmo fora dos períodos eleitorais e existe
um “núcleo duro” de militantes que não difere
Convivência partidária 28,5%
muito, em quantidade e perfil, do encontrado em
agremiações de outros países. Considerado seu
nível de enraizamento, os partidos brasileiros não
são frágeis como se poderia supor. Há crença na Tradição familiar 15,1%
eficácia da ação política, mas, refutando parte da
Carreira política 8,5%
hipótese inicial dos pesquisadores, o tipo de be-
nefício esperado pelo militante não impacta em Chances de emprego 7,2%
Outros motivos 3,4%
seu nível de ativismo no interior do partido. “A Sem resposta 0,2%
busca por incentivos coletivos, importante fator
explicativo da participação de alta intensidade
Fonte  projeto temático “Organização e funcionamento da
em outros contextos, não é significativa entre os política representativa no estado de são paulo (1994 e 2014)”

militantes brasileiros”, registram. Além disso, a


crença nas instituições é superior à observada
na população em geral.
Confiança nas instituições
Bases de dados
Cerca de 17 milhões de brasileiros, o que significa Militantes  População Brasil
mais de 11% do eleitorado nacional, estão filiados
a um dos 35 partidos políticos existentes no país. 75%
Forças Armadas
De acordo com Amaral e Ribeiro, a porcentagem 63%
é superior à encontrada em democracias euro-
72%
peias mais antigas, cuja taxa média é de 5%, e Igreja
47%
também maior do que a observada em países co-
62%
mo Espanha e Portugal e nações pós-comunistas. Poder judiciário
34%
Uma das possíveis explicações para o fenômeno,
cuja compreensão depende do aprofundamento Polícia
59%
31%
das análises, estaria no grande número de muni-
cípios brasileiros e no vasto terreno de competi- Governo
59%
ção que isso representa. Além disso, os registros 33%

oficiais e dos próprios partidos costumam ser 56%


Empresários
superestimados. “Isso ocorre em todos os países 36%
e é reconhecido pela literatura internacional. No 54%
Partidos políticos
caso do estado de São Paulo, além de indicar a 5%
entrada de novos filiados alguns meses antes das
51%
eleições municipais, e a permanência dos que já Televisão
29%
integravam as agremiações, há que se considerar
49%
que os partidos não costumam registrar a saída Congresso Nacional
17%
de seus militantes”, explica Amaral. Ribeiro diz
que os achados da pesquisa realizada no estado
Fontes Dados da militância (N=445): projeto temático “Organização e funcionamento da
podem ser extrapolados conceitualmente para política representativa no Estado de São Paulo (1994 e 2014)”. Dados da população
brasileira (N=3300): Fundação Getulio Vargas. Nos dois levantamentos, realizados em 2013,
todo o país. “Creio que vamos encontrar militan- os dados expressam a soma das categorias “muita confiança” e “alguma confiança”

76  z  junho DE 2018


tes ativos nos principais partidos de outras uni-
dades da federação, mas só será possível afirmar, Filiação partidária no Brasil
com segurança, que os resultados da pesquisa
são válidos para todo o país quando for reali- Número de filiados dos 10 maiores partidos, entre
zado um levantamento nacional, nos mesmos 2002 e 2015, em milhões de integrantes
moldes”, observa.
Constituído para analisar a organização e o 2002 2006 2010 2012 2015
funcionamento da política representativa no es-
tado de São Paulo, entre 1994 e 2014, o perfil da 2,2 2,0 2,3 2,4 2,3
1,1 1,2 1,2
militância partidária paulista é apenas um dos 1,0 1,0 1,0 1,0 1,1 1,1 1,1
0,5
0,7 0,7 0,8 0,8
aspectos desenvolvidos no âmbito do projeto
temático coordenado por Rachel Meneguello e PDT PFL/DEM PL/PR PMDB
integrado por outros seis professores e 25 estu- (atual MDB)
dantes de quatro instituições de ensino superior e 1,4 1,3 1,4 1,4 1,4 1,3 1,4 1,4
pesquisa do estado – além de UFSCar e Unicamp, 0,4 0,4 0,5 0,5 0,6 0,6 1,1 1,1
0,3 0,4 0,3 0,5
também participaram as universidades Estadual
Paulista (Unesp) e de São Paulo (USP). “A busca PP PPS PSB PSDB
pelo perfil dos filiados insere-se na análise mais
ampla das características da política partidária
1,4 1,6 1,6
e de como ela reflete as movimentações da so- 0,8 1,1 Total de 15,1 15,3
ciedade”, observa Rachel. “A política dos par- filiados 13,9
tidos sempre foi um domínio masculino e, ape- PT
11,6
sar das iniciativas para maior incorporação das 11,1
mulheres, com a política de cotas, por exemplo,
1,2 1,2 1,2
as organizações reproduzem o predomínio dos 0,8 1,0

homens na sua organização interna, inclusive no


âmbito da filiação e militância. As agremiações PTB
têm políticas muito limitadas para o estímulo à
participação feminina, e nenhuma das agremia- 2,9
3,3

ções estudadas apresentou mais do que 40% de 2,5


1,7 1,7
mulheres no conjunto de entrevistados”, pontua.
Afora identificar a estrutura organizacional dos
partidos políticos e entender seu funcionamento, Outros
o projeto também trabalhou as dimensões com- Fonte  dados oficiais
petitivas e representativas da política estadual. do tribunal superior
eleitoral (TSE)
Por sua ênfase na pesquisa empírica, constituiu
um expressivo banco de dados, com informações
envolvendo padrões de competição e votação no
estado, as bases das forças políticas e suas estra- todo o sistema representativo”, explica Rachel,
tégias eleitorais e de organização, aspectos da lembrando que ambas as crises são observadas
atuação das elites parlamentares locais e a qua- nas democracias partidárias contemporâneas.
lidade da relação entre os eleitores e o sistema “Os partidos políticos em todo o mundo têm ti-
de representação em São Paulo. do dificuldades em ajustar-se às transformações
Boa parte dessas informações, além de inúme- estruturais da política. O cenário generalizado é
ros mapas que mostram a distribuição local das de forte insatisfação com as instituições e com as
preferências políticas do eleitor paulista desde respostas que apresentam. Mas esse é menos um
1994, já está disponível no site do projeto ou na problema dos partidos em si e mais dos governos
página do Centro de Estudos de Opinião Pública representativos contemporâneos”, avalia. Se con-
(Cesop), núcleo de pesquisa interdisciplinar esta- siderarmos que são pelo menos três as funções
belecido pela Unicamp em 1992. “O questionário essenciais de um partido político – organizar a
do survey sobre militância partidária, por exem- competição política, governar e conduzir as ati-
plo, pode ser utilizado para replicar a pesquisa em vidades do Legislativo –, o trabalho dos pesqui-
outros estados”, informa Rachel. Estudiosa dos sadores está apenas começando. n
partidos e eleições, ela tem constatado um cres-
cente interesse pelo tema e diz que a reflexão em
torno da representatividade partidária constitui Projeto
hoje “um desafio mundial”. “Uma das principais Organização e funcionamento da política representativa no estado
de São Paulo (1994 e 2014) (nº 12/19330-8); Modalidade Auxílio à
motivações gerais do projeto foi confrontar a cri- Pesquisa – Temático; Pesquisadora responsável Rachel Meneguello
se dos partidos e a crise institucional que afeta (Unicamp); Investimento R$ 793.416,55.

pESQUISA FAPESP 268  z  77


Rendição de integrantes da Aeronáutica que sequestraram aviões
para depor o presidente Juscelino Kubitschek (Aragarças, GO, 1959)

78  z  junho DE 2018


fotografia y

olhar conflitante
Livro reúne imagens
de revoltas,
revoluções e guerras
civis e compõe
narrativa histórica
sobre o Brasil

Christina Queiroz

F
otografias antigas, identificadas em uma pesqui-
sa multidisciplinar desenvolvida durante dois
anos e financiada pelo Instituto Moreira Salles
(IMS), começam a dar visibilidade a aspectos
pouco conhecidos da história nacional. Em uma
delas, produzida em um tempo em que retratos eram
feitos com o uso de câmeras pesadas e filmes em chapa,
um grupo de homens interrompe um combate para po-
sar para o fotógrafo. O registro seria banal, não estivesse
em cena a iminente decapitação de um prisioneiro (ver
página 87). A imagem faz parte do livro Conflitos: Foto-
grafia e violência política no Brasil 1889-1964, que reúne os
resultados do projeto e evidencia o uso disseminado da
violência, pelo Estado brasileiro, suas elites e população,
na solução de disputas. Localizadas por uma equipe de
Campanella Neto /CPDOC JB

historiadores, sociólogos e estudiosos da fotografia, as


cerca de 400 imagens, muitas delas inéditas ou pouco
conhecidas, oferecem uma nova perspectiva de leitura
da nação, baseada em eventos brutais.

pESQUISA FAPESP 268  z  79


Cartão-postal com
imagem de bonde
tombado no Rio
de Janeiro, em 1904,
durante a Revolta
da Vacina

O quadro histórico da fotografia bra- pautada pelos contrastes sociais”, analisa


sileira se formou por meio de represen- Ana Maria. De acordo com ela, autores
tações icônicas da nação, como os retra- modernistas como Hans Gunthr Flieg,
tos do Rio de Janeiro de Marc Ferrez um dos pioneiros da fotografia publicitá-
(1843-1923), da Bahia de Pierre Verger ria, e Jean Manzon (1915-1990), por meio
(1902-1996) e os de São Paulo, feitos por de um fotojornalismo sensacionalista,
Alice Brill (1920-2013), observa Heloísa imprimiram em seus trabalhos a imagem
Espada, coordenadora de artes do IMS de uma nação em constante progresso
e uma das organizadoras do projeto, ao e sem conflitos sociais. No decorrer dos
lado de Angela Alonso, professora do anos 1930, a propaganda do Estado Novo
Departamento de Sociologia da Univer- (1937-1945) difundiu o mito da nação que
sidade de São Paulo (USP) e presidente Secretaria do
se modernizava e onde não havia confli-
do Centro Brasileiro de Análise e Plane- 1º Batalhão do Quartel tos raciais. “Tal noção foi disseminada
jamento (Cebrap). Diferentemente do da Luz, em São Paulo, por intermédio dos livros escolares e
que o novo livro procura mostrar, He- em 1924, após
pelos meios de comunicação e passou
bombardeio na
loísa Espada destaca que o repertório revolta tenentista
a permear o imaginário da população”,
fotográfico dos autores mencionados
se caracterizou por visões otimistas do
país, próximas à ideia de que o Brasil é
uma nação pacífica, onde os conflitos
são resolvidos sem o uso da violência.

D
e acordo com Ana Maria Mauad,
professora de história da Uni-
versidade Federal Fluminense
(UFF), enquanto Ferrez ajudou a cons-
truir a história da fotografia de paisagem,
Verger buscou desenvolver uma imagem
do Brasil distanciada do registro do exó-
tico e do pitoresco, comum no século
XIX. “Eles responderam visualmente a
demandas específicas de suas experiên-
cias fotográficas. Suas produções são
amplas e diversificadas, como também
é o caso de Alice Brill, que, em seus tra-
balhos, evidencia uma visão de São Paulo 2

80  z  junho DE 2018


afirma Ângela Castro Gomes, professora 3

de história da UFF.
As fotos de Conflitos capturam cenas
envolvendo as elites políticas, o aparato
de repressão do Estado e a população,
em que “a violência operou como forma
de ação para todos os atores em luta”,
segundo Angela Alonso.

A
o reunir fotografias que se con-
trapõem a narrativas visuais he-
roicas e mistificantes, o objetivo
foi, segundo Heloísa Espada, dar visibi-
lidade a outras que evidenciam aspectos
menos conhecidos da história nacional.
Exemplo disso é a foto citada no primei-
ro parágrafo, que mostra a pose do grupo
de combatentes militares antes da degola
de um prisioneiro durante a Revolução
Federalista, em Ponta Grossa, Paraná,
em 1894. “Uma inscrição no verso da
imagem indica que aquilo não foi uma
fotos 1 Fotógrafo desconhecido /Coleção Mons /Jamil Nassif Abib  2 Aniceto de Barros Lobo /Acervo Instituto Moreira Salles  3 Fotógrafo desconhecido /Agência O Globo

encenação e que o sujeito foi decapitado


em seguida”, observa Heloísa Espada. A
Revolução Federalista foi uma disputa
entre dois grupos políticos gaúchos em
torno do governo de Júlio de Castilho
(1860-1903), que acabou se espalhando
pela região Sul do país. Apesar de ser
um conflito conhecido, alguns aspectos, 1 Is abor rendit que
como o grande número de decapitações, Antus, quatur sinciaeri
Jeaquam inihil
permaneceram encobertos. “Das 10 mil
molestiunt at volores
pessoas mortas nesse embate, pelo me-
nos mil foram degoladas. Na década de
1890, essa prática se disseminou pelo
país”, diz Angela Alonso. Isso aconte-
ceu não apenas pela necessidade dos Depredação da sede do PSD em Porto Alegre, após suicídio de Getúlio Vargas, em 1954
combatentes de economizar munição,
explica a socióloga, mas também por vidade do povo brasileiro. “A violência é
seu caráter simbólico. uma característica constante da vida po-
Fotos como a do prisioneiro prestes lítica brasileira”, constata Angela Alon-
a ter seu pescoço cortado pretendem so, que se ocupou de pesquisar conflitos
chamar a atenção para o fato de a vio- Imagens de ocorridos no Brasil entre 1889 e 1916.
lência ter sido uma das formas adota- Constatação idêntica foi feita por Ân-
das para a solução de conflitos, quando conflitos gela Castro Gomes ao identificar o uso
conveniente, pela elite brasileira. “Gran- disseminado e ininterrupto da força, en-
de parte das fotos mostra o enfrentamen-
circularam pelo tre 1922 e 1938, atingindo o meio rural e
to entre facções da elite governamental Brasil por urbano. Dois exemplos desses episódios
ou de suas dissidências regionais, civis são a Revolução de 1924, quando mili-
e militares, que em muitos momentos meio de revistas tares se rebelaram em São Paulo con-
disputavam a direção do país”, detalha. tra o governo do então presidente Artur
Mas o uso da violência não se restringiu ilustradas e Bernardes (1875-1955), que privilegia-
a esses grupos, observa. Estratos sociais va a elite agrária, e a cidade se tornou
mais baixos também se insubordinavam.
cartões-postais um campo de batalha, incluindo a cons-
As imagens da Revolta da Vacina, que trução de barricadas e a ocorrência de
aconteceu em 1904 no Rio de Janeiro bombardeios; e a atuação do bando de
contra a obrigatoriedade de imunização, cangaceiros chefiado por Lampião (1898-
assinalam esse aspecto da história, con- 1938), que desafiou o governo central
trariando o estereótipo da suposta passi- saqueando propriedades e vilarejos no

pESQUISA FAPESP 268  z  81


Nordeste do país e acabou sendo dego- saram na vida pública nacional, ao realizar
lado junto com todo seu grupo. o primeiro bloqueio de estradas de que se
Uma rebelião de posseiros ocorrida em tem notícia no país.
1957 em Porecatu, no sudoeste do Paraná, é Os motins que aconteceram no Rio de
outro episódio pouco conhecido da histó- Janeiro e em Porto Alegre após o suicí-
ria nacional que o livro resgata. Ao analisar Fotografias dio de Vargas também estão registrados
imagens do período compreendido entre no livro. O grau de violência do período
o suicídio de Getúlio Vargas (1882-1954) e procuram pode ser dimensionado pelas imagens de
o golpe militar de 1964, a historiadora He- pessoas ateando fogo a carros e agências
loísa Starling, professora da Universidade
mostrar de bancos norte-americanos, ou protes-
Federal de Minas Gerais (UFMG), identi- a violência tando contra a imprensa pela campanha
ficou em jornais do Arquivo Nacional fo- feita contra o governante. A historiado-
tografias reveladoras como as de posseiros como ra explica que parte dessas descobertas
que se rebelaram contra companhias de só foi possível porque a pesquisa não
colonização privada, que afirmavam ser característica se limitou à análise do material icono-
donas de terras onde estavam assentadas gráfico divulgado em revistas e jornais
15 mil famílias de trabalhadores rurais des-
constante da época: “Para os historiadores, fotos
de 1943. “Identificamos fotos da rebelião da vida política não publicadas, como as encontradas
que mostram, por exemplo, a presença no Arquivo Nacional, podem conter in-
do treinador de futebol e jornalista João brasileira formações valiosas. O olhar do editor é
Saldanha [1917-1990]. Como integrante do diferente do olhar do historiador”.
Partido Comunista, ele esteve na cidade
para treinar os rebeldes”, informa. Con- Tecnologia visual
forme Heloísa Starling, a rebelião marca o Para além da informação visual acerca
momento em que os camponeses ingres- de aspecto pouco discutido da história

Flávio de Barros /Acervo Instituto Moreira Salles / © Museu da República

Prisão de jagunços por tropas do Exército em Canudos, BA, em 1897. Grupo se opunha ao governo republicano e se recusava a pagar impostos

82  z  junho DE 2018


Execução de
Affonso de Oliveira Mello /Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil

2
um rebelde
contrário a
Floriano Peixoto
em Ponta Grossa,
PR, em 1894.
Estúdios
fotográficos eram
contratados
por grupos rivais
para retratar
acampamentos,
tropas e vitórias

brasileira, as imagens do livro permi- fotografia, em envelope fechado. “Hoje, medida que foi se desenvolvendo, o foto-
tem vislumbrar o desenvolvimento da estamos acostumados com as imagens jornalismo ajudou a compor o aconteci-
técnica fotográfica e o modus operandi circulando por meio das redes sociais, mento moderno, ao reproduzir imagens
de quem as capturou. Na última década mas naquele tempo elas se difundiam em diversos lugares e de maneira quase
do século XIX, por exemplo, os confli- por intermédio de revistas ilustradas imediata”, observa Ana Maria Mauad.
tos do início da República renderam e dos cartões-postais”, destaca Heloísa Concebido para mostrar as fotografias
cenas estáticas, feitas por profissionais Espada. No Brasil, os postais eram pro- em seu formato original, no livro op-
previamente contratados para registrar duzidos em tiragens que variavam entre tou-se por não ampliar boa parte delas.
cenários de destruição. “As câmeras pe- 5 mil e 20 mil unidades. Foi dessa forma “Expor todas as imagens em tamanhos
sadas e os filmes em chapa exigiam que que, até a década de 1930, as imagens de grandes não serviria a nosso propósito.
as pessoas ficassem imóveis, posando todos os conflitos e guerras civis nacio- Decidimos, por exemplo, exibir a famosa
para as fotos”, detalha Heloísa Espada. nais percorreram o país. foto das cabeças decapitadas do bando
Os mesmos profissionais e estúdios que de Lampião apenas no formato original

N
vendiam essas imagens para publica- os anos 1930, Angela Gomes con- de cartão-postal. Além de já ser suficien-
ções ilustradas como Careta e Revista ta que houve um crescimento das temente impactante, assim também foi
da Semana também as comercializa- revistas ilustradas, expandindo possível evidenciar seu modo de circu-
vam de forma avulsa. Foi desse modo ainda mais o contato com as fotogra- lação”, finaliza. O projeto envolveu 13
que elas passaram a ser colecionadas, fias. “Essas publicações continham mais pesquisadores e a consulta a 50 arquivos,
por pessoas de todo o país, em álbuns imagens do que os jornais, de maneira entre acervos públicos e coleções priva-
de fotografia. que a população ampliou sua experiên- das, de museus históricos, jornais e de
Na mesma época, a indústria de car- cia visual e também emocional com os agências de notícias e imagens. Até 29
tões-postais, criada no século XIX, vivia conflitos”, explica. O fotojornalismo co- de julho, exposição com parte das fotos
um processo de expansão, o que contri- meçou a ser delineado como profissão publicadas no livro está em cartaz no
buiu não apenas para aumentar a circula- nas primeiras três décadas do século pas- IMS de São Paulo. n
ção dos registros de violência, mas tam- sado, consolidando-se nos anos 1940,
bém para sua disseminação. Entre outros com a expansão da indústria gráfica.
Livro
motivos, o uso do postal difundiu-se pe- Antes disso, o trabalho dos fotógrafos
ALONSO, A. e ESPADA, H. (orgs.). Conflitos: Fotografia
lo aspecto econômico. Era mais barato era pouco reconhecido. Muitas imagens e violência política no Brasil 1889-1964. São Paulo:
enviar um cartão do que remeter uma eram publicadas sem crédito ao autor. “À Instituto Moreira Salles, 2018.

pESQUISA FAPESP 268  z  83


Área externa do MuBe
com a instalação
Ainozama, de Fernando
Limberger (2018), em
primeiro plano

84  z  junho DE 2018


ecologia y

Artista na
expedição,
biólogo
no museu
Mostra
Amazônia: Os novos
viajantes, em São Paulo,
aproxima arte e ciência

Maria Guimarães

U
ma opção por ampliar o alcance da descober-
ta científica levou a bióloga Lúcia Lohmann,
em 2016, a convidar profissionais com no-
vos olhares para integrar uma expedição à
Amazônia. Enquanto ela e sua equipe percorriam os
rios Negro e Branco coletando plantas para investigar
a história evolutiva das espécies, a artista plástica
portuguesa Gabriela Albergaria, o cineasta Gustavo
Almeida e o fotógrafo Léo Ramos Chaves, integrante
da equipe de Pesquisa FAPESP, faziam seus registros.
Depois disso, outro encontro – com o filósofo Cauê
Alves, curador-geral do Museu Brasileiro da Escul-
tura e Ecologia (MuBE), de São Paulo – culminou na
exposição inaugurada em 12 de maio, com curadoria
de ambos. Amazônia: Os novos viajantes fica em cartaz
até 29 de julho e traça um caminho entre os explora-
dores do século XIX e as viagens atuais. Também traz
de volta a vocação inicial de ser um museu dedicado
à ecologia, em paralelo à arte.
A distância entre os livros repletos de ilustrações
deslumbrantes dos naturalistas antigos e os artigos
léo ramos chaves

científicos do grupo de Lúcia, professora no Ins-


tituto de Biociências da Universidade de São Pau-
lo (IB-USP), parece infinita. Mas viajantes como

pESQUISA FAPESP 268  z  85


mados sobre areia vermelha do artista
plástico Fernando Limberger. Ao longo
do tempo, sementes escondidas na areia
germinam e emergem as folhas verdís-
simas do capim braquiária, especialista
em recolonizar áreas devastadas. “Já a
estufa de Alberto Baraya com plantas de
plástico nos lembra que grande parte do
que preservamos se torna artificial”, co-
menta a cocuradora e bióloga. Para ela,
causa um desconforto essencial.

G
abriela Albergaria, que integrou
a expedição, participa com duas
obras. Uma delas é uma paleta
de cores que recolheu acompanhando o
trabalho de campo e buscando adaptar o
olhar à mata cerrada. “A ideia era encon-
trar as espécies de trepadeiras que vivem
nas copas das árvores. Por isso se fez a
viagem durante as cheias dos rios Negro e
Branco”, conta, demonstrando uma aten-
ção aos aspectos e processos científicos
que alimentaram seu trabalho. “As saídas
eram tudo menos contemplativas, e no iní-
cio eu não entendia como distinguir uma
planta de outra no meio daquela amálga-
ma de folhas e plantas verdes; no final já
os alemães Karl Friedrich Philipp von O barco destruído de conseguia distinguir algumas.”
Martius (1794-1868) e Johann Baptist Maurício Adinolfi Ela instalou um estúdio no barco em
(Estorvo escorbuto,
von Spix (1781-1826), por exemplo, esta- 2018) foi feito para a
uma mesa na cozinha onde catalogava
beleceram as bases para muita pesquisa exposição cores e registros, enquanto no segun-
com um levantamento de espécies de do piso os pesquisadores organizavam
plantas e a elaboração de mapas, entre o material coletado em um laboratório
outras contribuições. “Hoje precisamos improvisado. “A preparação das plantas
de Waze para ir até a esquina”, brinca Al- para retirada de DNA é totalmente di-
ves. “Mas temos na exposição um mapa ferente de fazer um herbário, em que o
da Amazônia feito por Martius e Spix, material é seco e prensado entre folhas de
sem recursos tecnológicos, que é mui- jornal com cuidado para manter a forma.
to semelhante ao que se conhece hoje.” Para o estudo do DNA e da anatomia, a
Lúcia e Alves reuniram um diverso forma é completamente desnecessária,
acervo artístico contemporâneo sobre Jovens examinam o que interessa são mínimos pedaços co-
a Amazônia, que vai desde meados do publicações do século locados em saquinhos de chá ou em um
XIX diante do vídeo
século XX até obras feitas especialmen- Vai que vai, de Ana
líquido dentro de uns frasquinhos, quase
te para a mostra, como os troncos quei- Paula Oliveira (2015) alquimia. Entrou, para mim, no nível da

86  z  junho DE 2018


Equipamento de prensagem e armazenamento de material coletado registrado em fotos de Léo Ramos Chaves: Série prensa, Série coleta e Infusão (2016)

ram que precisam se movimentar para


divulgar seu trabalho para não especia-
A exposição traz de volta a vocação listas. Alves celebra a presença, antes
rara, de biólogos entre os visitantes. “É
inicial do MuBE de ser dedicado à uma oportunidade de mostrar o museu
também como lugar de pesquisa”, diz.
ecologia, em paralelo à arte Restabelecer o projeto inicial – ser
um museu de escultura e ecologia foi a
condição imposta para a concessão do
terreno pela prefeitura em 1986 – tam-
fantasia. Do encantamento”, relembra de flores feitas pela inglesa Margaret bém valoriza o prédio projetado pelo
a portuguesa. “A presença dos artistas Mee (1909-1988) entre os anos 1950 e arquiteto Paulo Mendes da Rocha, assim
nos fez pensar de outra maneira sobre o 1980 convivem com precisas ilustrações como o jardim, desenhado pelo paisagis-
trabalho e seu significado”, conta Lúcia. botânicas em nanquim desenhadas por ta Roberto Burle Marx. “O teto recolhe
“Eles questionam de uma maneira que Barbara Alongi e Klei Sousa para docu- água e direciona para uma cisterna que
não estamos acostumados.” mentar espécies descritas por Lúcia e alimenta os espelhos d’água”, ressalta Al-
Enquanto o vídeo produzido por Gus- seus alunos. “A necessidade de repre- ves. É um exemplo de atenção à questão
tavo Almeida durante a viagem é proje- sentação é muito importante em todos ambiental, para a qual o curador também
tado em uma parede, o visitante passeia os estudos científicos. Esse é um ponto pretende chamar a atenção do público.
pelo mundo da ciência. “Apesar da longa de comunicação essencial entre arte e “É o problema mais urgente que temos
idade da floresta Amazônica, estamos ciência”, reflete Gabriela. A outra obra para resolver no mundo agora.” n
descobrindo que muitas das espécies de sua autoria incluída na mostra é uma
hoje viventes nesse bioma são, na ver- árvore transformada em cubos de tama-
Amazônia: Os novos viajantes
dade, mais recentes do que se pensava”, nhos crescentes – ou decrescentes. “É
Terça a domingo, das 10h às 18h, até 29 de julho
pondera Lúcia. Os vários e complexos geométrico, racional, contido”, descreve
fotos  léo ramos chaves

Rua Alemanha, 221, São Paulo.


resultados dessa pesquisa, representa- Cauê Alves. “Representa a arte e a ciên- Projeto
dos nos artigos científicos expostos, não cia, o orgânico e o inorgânico.” Estruturação e evolução da biota amazônica e seu am-
chegam a estar integrados na mostra. Lúcia avalia que a exposição chama a biente: Uma abordagem integrativa (nº 12/50260-6);
Modalidade Programa Biota/Dimensions-NSF; Pesqui-
Em outro paralelo entre arte e ciên- atenção do público para a Amazônia. Ao sadores responsáveis Lúcia Lohmann (IB-USP) e Joel
cia, as delicadas e coloridas aquarelas mesmo tempo, pesquisadores percebe- Cracraft (AMNH); Investimento R$ 5.186.545,11.

pESQUISA FAPESP 268  z  87


música y

Características formais das canções de ninar


induzem ao sono e inserem
bebê em contexto cultural e afetivo

Márcio Ferrari

O
interesse da psicóloga Silvia De A permanência e a recorrência de te- tório, suas origens étnicas e sociais, mas
Ambrosis Pinheiro Machado mas musicais e narrativos e a presença também obter pistas sobre a sonoridade
pelo universo das canções de de figuras protetoras e de figuras que e seus desdobramentos nas relações hu-
ninar é antigo. Começou na provocam medo despertaram a curio- manas em torno do recém-nascido. “A
década de 1980, durante suas atividades sidade de Silvia, que, em sua pesquisa canção de ninar tem efeito não apenas
no campo da psicoprofilaxia da infância, fonográfica, reuniu canções presentes na sobre a criança pequena, conduzindo-a
atendendo famílias de recém-nascidos e memória de pais, avós e educadores, em ao sono, mas também sobre os adultos,
orientando pais e educadores. “O convívio diversas cidades de Minas Gerais, Rio de que encontram, nesse canto, uma opor-
com grupos familiares de várias regiões, Janeiro e São Paulo. Ao debruçar-se so- tunidade para expressar seus sentimentos
durante a implantação de programa de bre a bibliografia brasileira a respeito das e lembranças remotas”, observa a auto-
atendimento psicológico domiciliar pós- canções de ninar, sua atenção voltou-se ra, referindo-se aos efeitos da repetição
-natal e a observação do desenvolvimento para aspectos formais das composições, sonora sobre quem canta e quem ouve.
de crianças em uma etapa importante, de como a métrica, a intercalação de versos Isso levou a pesquisadora a refletir,
organização de si mesmas no mundo, e a sonoridade das palavras. O foco de por exemplo, sobre a presença insisten-
me propiciaram o contato com uma ri- seu trabalho se dividiu, então, em duas te da vogal “u” em diversos elementos
ca tradição brasileira”, conta Silvia. Sua vertentes. Além do formato propriamen- das canções de ninar como sapo cururu
pesquisa de doutorado, realizada cerca te dito do acalanto, o gênero musical em (ou jururu), murucututu, tutu marambá,
de três décadas depois, no Departamento que se inserem essas cantigas, a psicólo- angu, murundu, sussussu, entre outros. As
de Teoria Literária e Literatura Compa- ga também decidiu investigar a presença características sonoras de tais palavras,
rada da Faculdade de Filosofia, Letras e dessas músicas em ambientes familiares de origem indígena, haviam sido abor-
Ciências Humanas da Universidade de ou de cuidados com recém-nascidos. dadas anteriormente por Alfredo Bosi,
São Paulo (FFLCH-USP), serviu como A canção de ninar já foi objeto de estu- crítico de literatura e professor emérito
base para o livro Canção de ninar brasi- do em distintas áreas do conhecimento. da USP, e por Kaka Werá Jecupé, escritor
leira: Aproximações, publicado no final No Brasil, o musicólogo Renato Almeida e estudioso da história e da cultura tupi,
do ano passado pela Edusp. A escolha (1895-1981), por exemplo, observou seus além de Mário de Andrade (1893-1945). A
pela área de letras se deveu à intenção aspectos etnográficos, enquanto Florestan recorrência do “u”, explica Silvia, é uma
de estudar a cantiga de ninar “como um Fernandes (1920-1995), os sociológicos. alusão a sons ancestrais que “aproximam
dos primeiros objetos de arte e cultura a Dessas e de outras pesquisas, Silvia pô- a vogal do ambiente noturno da floresta”.
que o ser humano é exposto”, diz Silvia. de aproveitar o levantamento do reper- “Cantar palavras construídas com o som

88  z  junho DE 2018


à necessidade de induzir ao torpor por
meio de um desenho melódico suave. Seus
efeitos ficam guardados por toda a vida”.
Ao contrário do que ocorre com o sen-
tido da visão, por exemplo, as competên-
cias auditivas dos bebês já estão muito
bem desenvolvidas nos últimos meses de
gestação. “Estímulos por meio de música,
no trimestre final da gravidez, voltam a
ser respondidos depois, dando provas da
qualidade da percepção e da memória
do bebê nessa fase”, informa a musico-
terapeuta Ambra Palazzi, do Núcleo de
Infância e Família (Nudif ) do Instituto
de Psicologia da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). Além
disso, como revelam pesquisas envol-
vendo a gravação de sons, o ambiente
intrauterino é bastante ruidoso, com uma
de ‘u’ ativa funções emocionais e, confor- relacionada às ações do adulto enquanto profusão de tons graves advindos das fun-
me a figura, veicula para gerações futuras canta: embalar, acolher, oferecer o colo, ções físicas da mãe e também um acesso
núcleos sagrados das culturas indígenas”, a voz e o calor do seu corpo. “A criança relativamente claro aos sons vindos do
analisa. É uma característica nacional pequena não necessariamente entende exterior. A voz materna é o que mais se
tão persistente que pode ser encontrada a letra, mas se acalma com o conforto da sobressai, sendo transmitida de forma
inclusive em acalantos contemporâneos, voz cálida e familiar. Simultaneamente, tanto auditiva quanto vibracional. “Ao
como em uma canção feita por Caetano está sendo inserida na cultura em que nascer, o bebê já tem um repertório rico
Veloso para um filho recém-nascido, cujo nasceu e vive”, explica Silvia. de sonoridades”, observa Teca. “Mas,
título é “Tudo, tudo, tudo”. Para ela, as canções de ninar – que têm entre todos os estímulos auditivos a que
o monotonismo e a repetição como mar- um bebê é submetido, a voz materna é
Assombração cas constitutivas – também tematizam a a que mais o envolve”, informa Ambra,
Além das representações de origem indí- melancolia da mãe no período puerpe- destacando que o canto encontra mais
gena, também os personagens portugue- ral e o modo de superá-la. Maria Teresa respostas do que a fala, porque conse-
ses, como a cuca e o bicho-papão, estão (Teca) Alencar de Brito, professora do gue engajar e transmitir mais emoções
presentes nas canções brasileiras. Nas Departamento de Música da Escola de e fortalecer o vínculo com a mãe. “Não é
letras das músicas se alternam figuras Comunicações e Artes da Universidade por acaso que as canções de ninar têm a
ameaçadoras e de terror, como em Boi da de São Paulo (ECA-USP), concorda: “Por mesma estrutura, e muitas vezes a mesma
ilustraçãO elisa carareto

cara preta e Nana nenê, que teriam fun- suas características especificamente escala pentatônica, em todo o mundo.” n
ção disciplinadora do sono, e referências musicais, as cantigas de ninar em todo
à presença protetora da mãe, de santos e o mundo encerram um saber sobre os
anjos, garantidores do sossego necessário cuidados com a primeira infância. Não Livro
para dormir. A passagem da inquietação à toa, revelam respeito pelos bebês e seu MACHADO, S. De A. P. Canção de ninar brasileira: Apro-
para a tranquilidade está diretamente tempo de desenvolvimento, atendendo ximações. São Paulo: Edusp, 2017.

pESQUISA FAPESP 268  z  89


obituário y

Ponte para o mundo


Alexandre Wollner implantou o moderno
conceito de identidade visual e ajudou a fundar
o ensino acadêmico de design no Brasil

Christina Queiroz

Reprodução da série
Constelações, 2013

O
designer gráfico Alexandre Wollner Wollner integrou a primeira turma do curso de
contava que passou parte da infância iniciação artística do Instituto de Arte Contem-
acompanhando o cotidiano da mãe, porânea do Museu de Arte de São Paulo (Masp)
costureira, e do pai, dono de uma tipo- entre 1951 e 1953, e teve como professores o crí-
grafia. “Imagino o menino pequeno, fascinado tico, expositor e negociador de obras de arte Pie-
ao observar os dois trabalhando com a trans- tro Maria Bardi (1900-1999) – um dos criadores
formação da matéria”, comenta Maria Cecilia do museu –, e os arquitetos Lina Bo Bardi (1914-
Loschiavo dos Santos, professora titular de de- 1992) e Jacob Ruchti (1917-1974). “Ele era um
sign da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo jovem de condições socioeconômicas modestas
da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Os e começou a trabalhar com design gráfico pro-
pais iugoslavos haviam imigrado para São Paulo duzindo cartazes para divulgação de exposições
onde nasceu o garoto que se tornaria uma das no museu”, conta Maria Cecília. Em 1951, parti-
maiores referências em design no Brasil. Foi cipou da montagem da exposição do suíço Max
também um dos responsáveis por inaugurar o Bill (1908-1994), artista plástico e designer que
ensino acadêmico na área, além de implantar o estudou na vanguardista Bauhaus, escola alemã
conceito moderno de identidade visual no país de design, arquitetura e artes plásticas, e impor-
com um trabalho marcado por características tante referência para o grupo de arquitetos e ar-
geométricas, lógicas e funcionais. O designer tistas concretos do país. “Bill foi um dos grandes
morreu dia 4 de maio, em decorrência de um aci- paradigmas do design gráfico e de produto, no
dente vascular cerebral. Deixou mulher e filho. mundo, e Wollner sentiu esse impacto ao entrar
em contato com seu trabalho.”
Dois anos depois, o talento de Wollner foi reco-
nhecido com o prêmio de jovem pintor revelação
na 2ª edição da Bienal Internacional de São Pau-
lo, pelas obras criadas no Masp. Ainda em 1953,
foi indicado por Bardi para integrar a primeira
turma de alunos da Hochschule für Gestaltung
(HfG), escola criada pelo próprio Bill.
“Com o aprendizado em Ulm, Wollner se afas-
tou das belas-artes, da manualidade, das artes e
ofícios e passou a se valer de apuro técnico para
desenvolver seu trabalho”, relata João de Souza
Leite, professor da Escola Superior de Desenho
Eucatex, 1967 Industrial da Universidade do Estado do Rio de
Sardinhas Coqueiro, 1958 (reestruturada em 2003) Janeiro (Esdi-Uerj). Maria Cecília, da USP, diz

90 | junho DE 2018
que a experiência na Alemanha fortaleceu a ten-
foto Isa Grinspum Ferraz / cortesia do museu da casa brasileira

dência preexistente em Wollner de orientar-se


pelo rigor formal e pela geometrização, eviden-
ciando proximidade com ideias concretistas.
“Wollner estabeleceu uma ponte entre o Brasil
e os grandes nomes do design no mundo”, afir-
ma a professora.
O arquiteto Francisco Inácio Scaramelli Ho-
mem de Melo, também professor da FAU-USP,
explica que antes da escola de Ulm o design no
Brasil era feito de maneira empírica. “Não havia
uma questão teórica que embasasse o trabalho.
Quem atuava com design eram pessoas com ta-
lento para o desenho e para a ilustração”, afirma
Melo. O design modernista rompeu com essa pro-
dução intuitiva, ao defender que o ofício devia se
basear no conhecimento teórico e na noção de
elaboração de projetos. “Por causa disso, desig-
ners modernistas como Wollner se empenharam
em criar escolas”, explica.

Símbolo de modernidade Wollner em


Após retornar ao Brasil, em 1963 Wollner fundou depoimento sobre de visual. Em 1958, em parceria com o fotógrafo
Lina Bo Bardi
a Esdi – junto com Karl Heinz Bergmiller, seu Geraldo de Barros (1923-1998), o designer Ru-
para exposição
colega em Ulm –, a primeira escola de design de sobre a arquiteta ben Martins (1929-1968), o publicitário Walter
nível superior do país. A criação da instituição era realizada no Macedo e Bergmiller, criou um dos primeiros
um projeto do então governador Carlos Lacerda Museu da Casa escritórios modernos de design no Brasil, o For-
Brasileira em 2014
(1914-1977) e do secretário de Educação Carlos minform. Souza Leite conta que o grupo passou
Flexa Ribeiro (1914-1991), ex-diretor-executivo a atuar de acordo com os ensinamentos da escola
do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro de Ulm, utilizando abordagem tecnocientífica do
(MAM-RJ), e foi financiada com recursos esta- design e incorporando esses conceitos à criação
duais. “A Esdi funcionou como símbolo de moder- da identidade visual de marcas, à publicidade e
nidade e marcou a profissionalização do design a projetos gráficos para jornais. São dessa época
no Brasil”, explica Souza Leite. Em 1975 a escola o design das latas de sardinha Coqueiro e a iden-
foi incorporada pela Uerj. Wollner lecionou na tidade visual dos elevadores Atlas, por exemplo.
Esdi até meados dos anos 1980. Souza Leite foi Souza Leite explica que, como parte dos apren-
seu aluno em 1965 e lembra como, até o final da dizados em Ulm, os trabalhos de Wollner são
vida, o designer defendia seus pontos de vista marcados por desenhos feitos com o uso de com-
com veemência. Para ele, era preciso separar o passo, esquadro, régua, triângulos, quadrados e
design da arte e do ofício artesanal. Além disso, círculos. “Quase todos os desenhos que ele fez
em uma visão que se baseava em sua formação foram desenvolvidos a partir de noções da geo-
na escola alemã, Wollner afirmava que o design metria regular.” Wollner presenciou a “libertação”
devia ser utilizado para a produção em série e em desses instrumentos quando os computadores
larga escala, e não apenas para butiques. começaram a ser usados na profissão. “Ainda
Após os estudos na Alemanha, Wollner tam- assim, ele continuou com os mesmos valores em
bém elaborou numerosos projetos de identida- seus projetos, apoiando-se em uma geometria
precisa. Todos os seus trabalhos revelam essa
essência”, conta.
Em seus últimos anos de vida, Wollner reto-
mou as pinturas construtivas, compondo gravu-
ras impressas a partir do computador, e atuava
no Comitê de Programação do Museu da Casa
Brasileira. Giancarlo Latorraca, diretor técnico
da instituição, destaca que em 2013, ao completar
60 anos de carreira, o designer foi tema de uma
retrospectiva organizada pelo Museu de Artes
Aplicadas de Frankfurt: “A mostra apresentou
Museu de Arte Contemporânea Wollner como um dos designers mais importan-
da USP, 1970 Elevadores Atlas, 1958 tes da segunda metade do século XX”. n

PESQUISA FAPESP 268 | 91


memória

Conhecimento do
C
om a descoberta do primeiro poço
brasileiro de petróleo, em Salvador (BA),
em 1939, o recém-criado Conselho

fundo
Nacional de Petróleo (CNP) viu-se diante
da escassez de conhecimento geológico e da
falta de mão de obra qualificada para as atividades
de refino e exploração do óleo. O problema
perdurou por mais de uma década, até a criação

da terra
da Petrobras, em 1953, que se encarregou de formar
sua própria força de trabalho, contribuindo para a
criação dos primeiros cursos de geologia no Brasil
e para que o país, anos mais tarde, se tornasse o
maior produtor de petróleo da América Latina
e um dos 20 maiores do mundo, com
aproximadamente 2.560 barris por dia, em média.
A busca por petróleo no Brasil começou durante
o império, por meio da criação da Comissão
Busca por petróleo Geológica do Império, em 1875. Chefiada pelo
geólogo canadense-americano Charles Frederick
contribuiu para a criação Hartt (1840-1878), foi encarregada de fazer um
mapa geológico do país, identificando de forma
dos primeiros cursos de mais sistemática suas riquezas minerais.
geologia no Brasil Posteriormente, a Comissão Geográfica e Geológica
de São Paulo, criada em 1886 e liderada pelo
norte-americano Orville Derby (1851-1915),
realizou cartas geológicas, geográficas e
topográficas do estado e prospectou áreas para
Rodrigo de Oliveira Andrade extração de petróleo e apatita.
Essa busca se intensificou no final do século
XIX, quando o petróleo passou a ser visto como
uma potencial fonte de energia. Em 1897, o país fez

Criação da Petrobras
por Getúlio Vargas
(com a mão suja de
óleo), em outubro
de 1953, impulsionou a
prospecção pelo país 1

92 | junho DE 2018
ensino da geologia no Brasil.
Com a criação da Petrobras,
um ano depois, esse setor se
transformou no Centro
de Aperfeiçoamento e
Pesquisas de Petróleo
(Cenap), que iniciou um
programa de preparação de
mão de obra especializada.
“Havia uma conjunção
política e um atraso
tecnológico e econômico
que fizeram com que o
Brasil se lançasse em um
esforço de modernização
que demandava a atuação
de geólogos, como durante
2 o governo de Juscelino
Poço no interior da Bahia na década de 1960: falta de mão de obra especializada prejudicou a busca pelo óleo Kubitschek [1956-1961]”,
comenta o geólogo
Emilio Barroso, do Instituto
a primeira sondagem geólogos ganhou força de Geociências da
profunda na região de Tatuí, nessa época também por Universidade Federal do
interior de São Paulo — Lançada em 1957, conta da criação da Rio de Janeiro (UFRJ),
apenas água sulfurosa foi Campanha de Vale do Rio Doce, em 1942, que analisou a história da
encontrada. Outras dedicada à exploração das criação dos primeiros
perfurações foram feitas
Formação de riquezas minerais do cursos de geologia no Rio.
nos anos seguintes sem que Geólogos subsolo brasileiro. Diante Segundo ele, esses
nenhum poço de valor estimulou a disso, o conselho contratou profissionais também
comercial fosse achado. “O criação de cursos geólogos e empresas foram importantes para a
fracasso das prospecções estrangeiros especializados construção de hidrelétricas
era atribuído à falta de em diferentes em geofísica. e prospecção de minerais
geólogos e de conhecimento regiões do Brasil para produção de aço e
sobre a estrutura geológica mão de obra própria alumínio.
do país”, esclarece a Em meio a debates A formação de geólogos
historiadora Drielli Peyerl, nacionalistas, o CNP optou no Cenap começou em abril
que fez o doutorado e um por investir na formação de de 1957, em Salvador,
estágio de pós-doutorado seus próprios profissionais. com o curso de introdução
sobre o tema no Instituto de As indicações sobre a Ainda em 1952, criou o à geologia. Em julho do
Geociências da existência de petróleo no Setor de Supervisão e mesmo ano a Petrobras
Universidade Estadual de Brasil nessa época eram Aperfeiçoamento Técnico inaugurou outra disciplina,
Campinas (IGe-Unicamp). vagas, raras e controversas. (SSAT), uma das principais a de geologia do petróleo,
Drielli analisou o papel Isso fez com que o país iniciativas relacionadas ao em parceria com a
do CNP e da Petrobras fosse considerado um
na criação dos primeiros território sem petróleo. Em
cursos de geologia no abril de 1938, Getúlio Vargas
Brasil a partir do acervo (1882-1954) tentou dar
do paleontólogo novo impulso à busca pelo
fotos 1 alesp 2 e 3 acervo frederico waldemar lange

Frederico Waldemar óleo e criou o CNP,


Lange (1911-1988), com responsável pela regulação
documentos sobre seus do setor de óleo e gás no
estudos em geologia e Brasil. Seu corpo de
paleontologia, mapas técnicos, no entanto, era
geomorfológicos e políticos, insuficiente para expandir
relatórios internos da a indústria do petróleo no
Petrobras e livros e país, dificuldade ainda mais Paleontólogo
Frederico
artigos sobre os avanços evidente após a descoberta
Lange em
nessas áreas em meados do do primeiro poço brasileiro, trabalho no
século XX no Brasil. em 1939. A demanda por laboratório 3

PESQUISA FAPESP 268 | 93


mario assine / unesp
Universidade da Bahia, atual Equipe de geólogos
Universidade Federal da da Unesp de
Rio Claro analisa
Bahia. Para que as outras rochas na serra
universidades brasileiras do Tonã, na Bahia:
pudessem contar com estudos científicos
programas de formação em em foco

geologia como o oferecido


pela Petrobras, o governo
lançou a Campanha de
Formação de Geólogos um dos principais
(Cage), que estimulou a exportadores
criação das cadeiras de do mundo – embora, por
geologia nas universidades razões técnicas e
de São Paulo, Ouro Preto, econômicas, o país precise
Rio Grande do Sul e importar petróleo leve para
Pernambuco. misturar com o nacional, do
Diante disso, a Petrobras tipo denso, mais difícil de
transformou seu curso em refinar. Também ampliou o
uma especialização voltada desenvolvimento de
apenas à geologia do pesquisas relacionadas a
petróleo, oferecida para todo o arcabouço geológico
aprimorar as habilidades dos do país, com impacto não
geólogos brasileiros de apenas no setor de óleo,
acordo com suas demandas gás e bens minerais.
de trabalho e pesquisas. Em “A partir de então, os
1968, com a descoberta do geólogos também passaram
primeiro poço em águas a atuar na construção de
profundas, a estatal passou a estradas e túneis, e em
investir em cursos para a estudos sobre contaminação
exploração de petróleo na e erosão de solos e desastres
plataforma continental. naturais”, destaca Emilio. no Brasil. Todos os anos,
“Essas especializações se De meados do século cerca de 300 novos geólogos
mantêm até hoje na passado para hoje, a se formam no país.
Universidade Petrobras”, mudança foi radical. Os Além de questões
ressalta Drielli, autora do dados mais recentes da envolvendo a prospecção
livro O petróleo no Brasil: Sociedade Brasileira de e extração de petróleo e
Exploração, capacitação Geologia (SBG) indicam minerais, as pesquisas
técnica e ensino de que, até 2011, o Brasil As pesquisas hoje empreendidas no campo da
geociências (1864-1968), contava com cerca de 8 mil não se ocupam geologia não se ocupam mais
publicado em junho de 2017 geólogos e geofísicos, dos apenas do presente, mas
a partir de sua tese de quais a maioria atuava na
apenas do também da reconstituição
doutorado. A proposta é que Petrobras (19,5%) e na Vale presente, mas do passado do planeta,
os profissionais recebam (2,5%). O restante estava também da ampliando o conhecimento
capacitação técnica e espalhado pela Companhia reconstituição sobre a composição,
adquiram vivência sobre a de Pesquisa de Recursos estrutura e evolução da
empresa e a indústria de Minerais, no Departamento do passado da Terra a partir da análise de
petróleo antes de começarem Nacional de Pesquisa Terra, por meio seus minerais, rochas e
a desempenhar suas funções. Mineral e em empresas de análises de fósseis. Por sua vez, os
públicas e privadas de resultados dos estudos
minerais, rochas
novas frentes mineração e de consultoria científicos de monitoramento
Para Drielli, a contribuição ambiental. Nas instituições e fósseis contínuo das dinâmicas
da estatal para a formação de pesquisa e ensino terrestres, em geral, são
de mão de obra qualificada superior, ainda de acordo convertidos em estratégias
foi decisiva para que, anos com a SBG, avalia-se que de conservação e de
mais tarde, o Brasil atuem cerca de 1.200 gerenciamento dos recursos
alcançasse sua geólogos e geofísicos, hídricos, energéticos e
autossuficiência em espalhados pelos 57 minerais, dos solos aráveis,
petróleo, almejada desde a programas da área de e usados para tentar reduzir
década de 1940, tornando-se geociências disponíveis hoje os desastres naturais. n

94 | junho DE 2018
carreiras

ensino superior

Horizonte ampliado
Alunos da rede pública de Campinas traçam novos caminhos profissionais
a partir do ProFIS, curso de formação geral oferecido pela Unicamp

C
onhecer e experimentar o fazer científico mercado de trabalho”, diz o físico Marcelo
antes mesmo de ingressar em um curso Knobel, reitor da Unicamp e um dos
convencional de graduação. Essa é a idealizadores do programa.
oportunidade que os melhores alunos das escolas O ProFIS tem duração de dois anos, durante
da rede pública de Campinas têm por meio do os quais os alunos são encorajados a refletir sobre
Programa de Formação Interdisciplinar Superior a escolha da carreira profissional. Uma das
da Universidade Estadual de Campinas disciplinas, coordenada pelo Serviço de Apoio ao
(ProFIS-Unicamp), projeto de formação geral Estudante (SAE) da universidade, é voltada
semelhante ao oferecido em instituições de ao desenvolvimento de autoconhecimento em
ensino superior dos Estados Unidos, como a relação a valores, interesses e habilidades, além
Universidade da Califórnia, em Berkeley, por de oferecer informações sobre as diferentes
exemplo. “Por meio do ProFIS, os estudantes formas de atuação profissional. Também nessa
podem cursar disciplinas em todos os institutos disciplina os alunos são apresentados às grades
da Unicamp e entrar em contato com curriculares dos cursos oferecidos pela Unicamp
conhecimentos básicos do mundo natural, social e às atividades empreendidas em cada profissão.
e artístico, a partir de disciplinas voltadas ao Em seguida, discutem as melhores opções,
desenvolvimento de habilidades de comunicação de acordo com suas habilidades e interesses.
oral e escrita, raciocínio lógico e responsabilidade “A possibilidade de poder circular pelas
ética, social e ambiental, e suas relações com o faculdades e institutos da Unicamp nos permite

O ProFIS ampliou
em cerca de 3%
a participação
de alunos de escola
pública na Unicamp

A primeira edição contou


fotos  ARQUIVO PESSOAL

com 731 inscritos


de 88 escolas públicas de
ensino médio de Campinas

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sentir a realidade dos cursos, cidadãos mais conscientes”,
conhecer os alunos e professores, destaca Mariana Nery.
e refletir sobre nossas opções Outro aspecto inovador é a
de carreira”, destaca possibilidade de desenvolvimento
Marcos Vaz, ex-aluno do ProFIS. de uma pesquisa de iniciação
“Isso nos possibilita fazer uma científica no segundo ano do curso.
escolha mais consciente do curso A proposta é que os alunos, sob
que pretendemos seguir na orientação de um professor ou
graduação”, afirma o estudante, que pesquisador da Unicamp, de
atualmente cursa o primeiro ano qualquer área do conhecimento,
de medicina na Faculdade de sejam inseridos no cotidiano de
Ciências Médicas da instituição. processos criativos ou científicos e
elaborem um projeto. “Trata-se do
orientação profissional único curso da Unicamp com
Vaz conta que sempre se interessou iniciação científica obrigatória”,
por medicina e que, por intermédio destaca Knobel. “Espera-se que, 77% dos
do ProFIS, pôde refinar sua por meio da iniciação científica, matriculados
escolha, assistindo a algumas aulas os estudantes sejam capazes
do próprio curso e conversando de desenvolver habilidades de do programa
com professores e alunos em pesquisa e de refletir sobre constituem a
diferentes estágios. “Ingressamos problemas reais, usando conceitos, primeira geração
na graduação já como veteranos técnicas e métodos científicos.”
da Unicamp”, observa. Mais do Os resultados desses projetos são a ingressar no
que isso, na avaliação da compartilhados pelos alunos ensino superior
bióloga Mariana Freitas Nery, na Mostra Científica do ProFIS
em suas famílias
coordenadora do ProFIS, os alunos e no Congresso Interno de
que passam pelo programa iniciam Iniciação Científica da Unicamp,
a graduação mais maduros do que que acontece uma vez por ano.
os colegas que ingressam por meio A ideia é que se familiarizem
do vestibular, destacando-se por com a dinâmica envolvendo
sua postura crítica e socialmente a apresentação de trabalhos em
engajada. “Muitos fazem questão eventos acadêmicos, aprendam a
de participar das discussões do
conselho universitário e
dos centros acadêmicos da
universidade, além de trabalharem ação afirmativa
em projetos de relevância social”,
informa a pesquisadora. Ensino democratizado
Exemplo disso é Bárbara Cardoso
Miranda, aluna da primeira turma ProFIS amplia participação de alunos de escolas públicas na universidade
do ProFIS que se formou no
início deste ano em fonoaudiologia.
Na graduação, por iniciativa Lançado em 2011, o ProFIS Após ser aprovado e terminar com
própria, articulou-se com seleciona, com base em notas do sucesso os dois anos do programa,
professores e colegas de diversos Enem, até dois dos melhores alunos o aluno recebe um certificado de
cursos para participar do Projeto do último ano do ensino médio de conclusão de curso sequencial
Rondon, empreendimento do cada uma das 95 escolas públicas de de complementação de estudos,
governo federal cujo principal Campinas. Todos os alunos podem podendo escolher, dentre os 61
objetivo é levar universitários participar. Basta se inscrever no cursos de graduação oferecidos pela
a pequenas cidades do interior do programa, que assegura pelo menos instituição, o que pretende seguir,
país para trabalhar em projetos uma vaga a cada escola. A estratégia sem a necessidade de se submeter
de desenvolvimento local. “Por ser se soma aos esforços do Programa ao vestibular, de acordo com o seu
ilustração  nome do ilustrador

um curso de formação geral, o de Ação Afirmativa e Inclusão desempenho e vagas disponíveis.


programa permite a esses jovens Social (Paais), que desde 2004 Desde que foi criado, o programa
expandir sua visão de mundo a concede, também a alunos egressos ampliou em 3% a participação de
partir de discussões sobre as de escolas públicas, bônus sobre a alunos oriundos de escolas públicas
instituições sociais e questões nota da segunda fase do vestibular. na universidade. Em sua primeira
ambientais, históricas, éticas,
entre outras, tornando-os

96 | junho DE 2018
produzir pôsteres e a defender superado é a distância até a
ideias e conceitos baseados em universidade. A maioria dos
procedimentos e argumentos A proporção de estudantes mora em bairros
científicos. afastados e tem de vencer longos
O impacto dessa formação
alunos que percursos. “Para eles, não basta
preliminar é bastante perceptível cursaram toda oferecer o ingresso na universidade.
entre os estudantes que passaram É preciso criar estratégias de
pelo ProFIS, como evidencia a educação básica acolhimento e permanência”,
trajetória de Felipe Roberto na rede pública é esclarece a bióloga. Dentre as
Francisco, que, aos 25 anos de medidas adotadas pela instituição, a
idade, concluiu a graduação no de 92,5% entre concessão de bolsa-auxílio no valor
Instituto de Biologia e ingressou no alunos do ProFIS de R$ 400 e alimentação gratuita
doutorado direto da própria no restaurante universitário
Unicamp (ver perfil na página 98). revelaram-se acertadas.
“O ProFIS foi determinante para Um dos desdobramentos da
que eu pudesse compreender a iniciativa empreendida pelo ProFIS
dinâmica de produção do é a transformação dos alunos em
conhecimento científico, da agentes multiplicadores, engajados
concepção dos objetivos aos rapidamente à nova realidade na divulgação do programa nos
métodos, passando pela redação do acadêmica e às aulas em tempo bairros onde vivem e nas escolas que
trabalho. Esse conhecimento me integral. “Eles precisam se esforçar frequentaram. “Muitos estudantes
permitiu dar um salto na carreira muito para conseguir acompanhar da rede pública nem sequer sabiam
acadêmica, ingressando no as aulas e lidar com as deficiências que podiam pleitear uma vaga em
doutorado logo após a graduação”, de formação, sobretudo em universidade gratuita”, comenta
diz Francisco, um dos 16 estudantes disciplinas como matemática, Mariana. Graças a esse esforço de
da primeira turma do ProFIS física, química e produção de divulgação, isso está mudando.
que concluiu a graduação em texto”, explica Mariana. Ao todo, “A maioria das escolas já prepara
fotos  ARQUIVO PESSOAL

biologia este ano na Unicamp. os estudantes devem cursar as 28 seus alunos para o Exame Nacional
Os primeiros semestres do disciplinas obrigatórias do ProFIS e do Ensino Médio (Enem),
programa costumam ser os mais duas disciplinas eletivas, escolhidas vislumbrando uma possível vaga no
difíceis para os egressos de escolas em qualquer curso de graduação ProFIS”, ela completa. n
públicas, que precisam se adaptar da instituição. Outro obstáculo a ser Rodrigo de Oliveira Andrade

Alunos da turma
seleção foram 731 inscritos Superior da Unicamp (ProFIS): de 2015 em aula
sobre evolução
de 88 escolas públicas. Todas as Contribuições do estudo longitudinal,
120 vagas disponíveis foram lançado em dezembro pelo Núcleo
preenchidas. Além de terem cursado de Estudos de Políticas Públicas
o ensino médio completo em escola (Nepp) da Unicamp, cerca de 40% primeira geração a ingressar no
pública, pré-requisito do programa, dos alunos da primeira turma do ensino superior em suas famílias,
92,5% também haviam utilizado a ProFIS são pardos ou pretos, em comparação aos cerca de 46%
rede pública no ensino fundamental. percentual 2,7 vezes superior ao de dos matriculados a partir do
De acordo com o relatório A matriculados a partir do vestibular. vestibular. 33% dos pais de alunos
avaliação continuada do Programa Em relação à escolaridade dos pais, do programa cursaram o ensino
de Formação Interdisciplinar 77% dos matriculados constituem a fundamental e 44% o ensino médio.

PESQUISA FAPESP 268 | 97


perfil

Armazenando conhecimento
Felipe Francisco abandonou o emprego de estoquista e hoje faz doutorado em biologia

A
possibilidade de que pudesse se dedicar às do curso que pretendia se
ingressar em uma atividades. matricular na graduação.
universidade pública A principal dificuldade nos “Sempre me senti atraído pelo
sempre esteve distante do primeiros meses foi conseguir conceito de evolução das
horizonte do biólogo Felipe se adaptar à realidade espécies”, conta. “Durante
Roberto Francisco, de 25 anos acadêmica. Estranhava tanto as o ProFIS, entrei em contato
de idade. Morador da aulas em tempo integral com a geologia e fiquei dividido
periferia de Campinas, seus quanto o nível de exigência entre as duas áreas. Após
planos na adolescência se do curso. “Aos poucos, com a participar de aulas em ambos
resumiam a concluir o ensino ajuda dos colegas e de alguns os cursos e conversar com
médio e fazer um curso professores, esses desafios alguns professores,
técnico. A principal opção era foram sendo gradualmente percebi que gostaria de me
mecatrônica, não exatamente superados”, relembra. aprofundar em assuntos
por se sentir vocacionado, Por sua vez, a iniciação ligados à biologia”, explica.
mas por acreditar constituir científica que desenvolveu no Francisco conta que quando
boas chances de inserção segundo ano do programa começou a frequentar o curso
profissional. sob orientação da bióloga de biologia tinha medo de
A trajetória começou a Vera Nisaka Solferini foi não conseguir acompanhar os
mudar nos últimos meses do determinante para a escolha colegas. “Achava que precisava
ano letivo de 2010, quando ser duas vezes melhor para
assistiu a uma palestra sobre conseguir compensar
o ProFIS, da Unicamp, o desnível que julgava existir
que começaria a funcionar no entre mim e eles.”
ano seguinte. “Como as O conteúdo programático
inscrições eram gratuitas, do ProFIS e a maturidade
candidatei-me”, diz. Alguns adquirida na faculdade
meses depois recebeu uma garantiram ao biólogo não
ligação de um amigo, apenas as condições necessárias
parabenizando-o por ingressar para concluir a graduação como
na universidade. “Achei que ele para habilitar-se a um doutorado
estava brincando”, relembra. direto. “Estagiei no laboratório
“Não acreditei quando vi que da professora Anete Pereira
havia sido aceito.” de Souza durante o curso.
Francisco conta que no Depois ela me convidou para o
Jardim Eulina, bairro onde doutorado”, diz. “Como
vive, não tem notícia de que pretendo seguir a carreira
alguém tenha cursado uma acadêmica, aceitei sem hesitar.”
universidade pública antes O objetivo agora é fazer o
dele. Para seus amigos e mapeamento genético da
vizinhos, a Unicamp se seringueira (Hevea brasiliensis) e
resumia ao Hospital de identificar eventuais genes de
Clínicas. Aos 18 anos, quando relevância comercial. Além do
foi selecionado pelo programa, doutorado, hoje Francisco
decidiu largar o emprego que também dá aulas de biologia em
havia acabado de conseguir, um curso preparatório para
como estoquista em uma vestibulandos, na periferia de
empresa da cidade, para se Campinas. “Sinto que preciso
devolver algo à sociedade, uma
léo ramos chaves

aplicar apenas aos estudos.


A bolsa e o auxílio-transporte vez que fui formado com
concedido pela universidade dinheiro público”, conclui o
foram fundamentais para estudante. R.O.A.

98 | junho DE 2018
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