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“Quando não houver

mais espaço no inferno,


os mortos caminharão
sobre a terra”

Dawn of the Dead, 1978


retropunk publicações

Um jogo narrativo distópico


por john bogéa
Terra Devastada Edição Apocalipse é
um jogo narrativo de John Bogéa
Design de jogo, textos e
projeto gráfico por John Bogéa.
Edição editorial por G. Moraes.
Revisão de texto por Rafael Sobral.
Obrigado, Fabrício Caxias, pela parceria
na idealização da primeira edição do Terra
Devastada. E também Dorival Moraes
e todas as pessoas que contribuiram
positivamente nas discussões sobre design
de jogo e playtestes embrionários.
Obrigado, Fernando Del Angeles e toda a
comunidade de fãs, pelo feedback, estímulo
e incentivo para desenvolver uma segunda
edição do Terra Devastada.
Obrigado, Paulo Segundo, Felipe Penna,
Yuri Alves (Seth), Leon Mourão e
Roberto Barreto (Betão), pelos excelentes e
divertidos playtestes de sistema. Primeira tiragem: Setembro de 2016
ISBN: 978-85-64156-52-4
Obrigado, Talita Weh, Fenanda Cascardo,
Marco Milk, Jéssica Tosim, pelo apoio Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei
incondicional na campanha de lançamento 9.610 de 19/02/1998. É proibida a reprodução total
da Edição Apocalipse, Gabriel Vieira, ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem
Raphael Guimarães e Diego Muniz, autorização prévia e por escrito da editora e do autor.
pela conversão do Podcast Obituário 793 no É permitido a impressão da
primeiro cenário oficial de Terra Devastada. Ficha de personagem para uso pessoal.

5
O Dossiê do Fim do Mundo, pág 10.
O Paciente Zero, pág 12.
Caso Kulina, pág 22.
Projeto Acheronte, pág 27.
O Vírus ARN49, pág 35.
Rede Hazma, pág 42.
Guerra Pandêmica, pág 50.

Sobrevientes e Refugiados, pág 58.


Conceitos, pág 64.
Resoluções, pág 76.
Convicção e horror, pág 90.
Infecção, pág 97.
Infectados, pág 101.

A Cruzada Pelo Inferno, pág 120.


regras opcionais, pág 126.
A história, pág 128.
Terror em Anhanguera, pág 133.
Ficha de personagem, pág 165.
Obrigado, Cristovao Andrade Felipe Rodrigues Pereira
Daniel Bezerra Dos Santos Fellipe Martins
Adejan Alves Daniel Dias Fragoso Fernando “Rardlock” Sousa
Aécio Benício Fernandes Daniel Pellucci Fernando Alves De Araújo
Alberto Massoco Ticianelli Daniel Santos Coimbra Filipe “Angelus” Ragazzi
Alessi Cesar Cavalcante Daniella Madureira De Almeida Filipe Barreto Gonçalves
Alex Ribeiro Da Rocha Gomes Danilo Rafael Rocha Silva Flávio Cardoso De Avila
Alexandre Lins De A. Lima Danilo Shindi Yamakishi Flavio Rodrigo Sacilotto
Alexandre Rafael Esperança Davi Da Silva Almeida Saraiva Francis Diego Duarte Almeida
Alexsandro Teixeira Cuenca Davi Nóbrega Gabriel Franchini Tornatore
Aline Callegario David Dornelles Gabriel Guedes Souto
Alisson Vitório De Lima David Oscar Macedo De Moura Gabriel Tomio
Alvaro Diogenes Bastida Demian Machado Walendorff Geovane Passos Ribeiro
Amarilio Silva Derek Stoelting Germano Pilar Ribeiro
André Bogaz E Souza Dido Eliphas Leão De Alencar Gilberto José De Souza Coutinho
André Danelon Diego Augusto De S. Filgueira Gilvan José Gouvea
André David Sitowski Diego Hortêncio Santos Giovanni De Biazzi
André De Freitas David Diogo Cidral De Lima Giulliano Felipe H. Gonçalves
Andre Luis De Oliveira Cruz Diogo Mathias Da Silva Pinto Glauber Henrique F. Da Silva
Andre Luiz De Mello Meirelles Diogo Nogueira Guilherme Euripedes S. Ferreira
Antônio Henrique Melo Cândido Dorival Ramos Millan Guilherme Korn
Antonio Samuel Paiva Brasil Ed Vulcao Guilherme Mathias Vieira
Bruno Augusto Gallo Eder Da Costa Marques Guilherme Oliveira Furutani
Bruno Da Silva Soares Edney ‘Interney’ Souza Guilherme Vieira Honorato
Bruno De Souza Ferreira Edson Sorrilha Filho Gustavo Borba
Bruno Eron Magalhães De Souza Eduardo Fernandes Gustavo Borges
Bruno Guedão Eduardo Fernandes Guto Borges
Bruno Lamps Santana Eduardo Henrique F. Rosa Hebert M. Montarroyos Pinho
Bruno Maricato Villela Eduardo Menescal Hegel Farias
Bruno N Pereira Eduardo Menescal Heitor Augusto
Bruno Prosaiko Eduardo Menescal Helder Lavigne
Bruno Santili Eduardo Moretti De Oliveira Helio Horacio G. De Alcantara
Caio Andre Fernandes Batista Eduardo Rafael Miranda Feitoza Helio Rodrigues Machado Neto
Caio Augusto Da Luz Lima Emerson Leandro Penerari Higor Camara Da Silva
Caio Moya Reis Emílio De Souza Igor Henrique Moura
Carlos Alberto G. Da Silva Filho Erivaldo Fernandes (Erivas) Igor Moreno
Carlos Pereira Fabiano De Jesus Da Silva Igor Philip Salgado F. e Silva
Cassiano Sonaglio Fabio Ayres Isabella Barros Bellini Leite
Cesar Hitos Araujo Fábio Balestro Floriano Iuri Gelbi Silva Londe
Cesar Questor Fabio Cesar De Carvalho Ivan Rodrigues
Cibelle Barnabé Vernay Fabio Ferreira Pauli Izaack Allan Oliveira C. Paula
Cláudio André De Souza Lacerda Fábio Medeiros Jana Bianchi
Claudio Magno De Brito Fábio Pendiuk Janice Ferreira Araujo
Claudio Torcato Fagner Lima Da Silva Janio Do Nascimento Lima
Claus Denean Felipe Lomba Jean Servolo Dos Santos
Crisitano Henrique Da Silva Felipe Malandrin Jefferson Breno L. Pereira
Cristiano “Leishmaniose” Delira Felipe Rafael Jefferson Miranda Pimentel
Cristiano Alexandre Moretti Felipe Ribeiro Cazelli Jefferson Neves
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Jefferson Tadeu Frias Mateus Barradas Rodrigo Pontes De Lima
João Coelho Soares Mateus Eustáquio De Oliveira Rodrigo Zabridus
João Douglas Moção De Oliveira Mateus Itavo Reis Romeu Queiroz Fronzaroli
João Mário Soares Silva Matheus Kenji Hatanaka Romullo Assis Dos Santos
João Paulo Gonçales Matheus Moraes Maluf Romulo Jorge Martins
Joao Paulo Navarro Barbosa Matheus Storpirtis Samuel Brulezi Furlanetto
João Vitor Santiago Matheus Wilhelms Tavares Sarradores Do Amanha
Jorge Alberto Mota Neves Maxwell Araujo Santiago Tavares Saulo Herbert Maia
Jorge Dos Santos Valpaços Michel Engelberg Sérgio Matuda
José Augusto Cesar Pires Junior Mikael Macial De Souza Sérgio Máximo Jr.
José Emygdio Moises Ferrito De Barros Silvio Rivera
José Guilherme Coelho Saad Nei Girão Simone Rolim De Moura
José Lima Júnior Nicholas Ataide Minora Solar Entretenimento
José Rogério Rodrigues De Souza Ofidio Nogueira Tacio Meireles Oliveira
Joycimara Rodrigues Oscar Borges Lucas Talita Weh
Juliano Barbosa Ferraro Oz Junkieshooter Tanise Gayer Do Amaral
Julio Cesar Araújo Paulo Arthur Fernandes Tarcio Luiz Martins Carvalho
Julio Cezar Silva C. De Toledo Paulo César Cipolatt De Oliveira Thales Rodrigues Silva Carmo
Julio França Paulo Ramon N. De Freitas Theo Madureira De A. Lima
Kaique Borges Paulo Roberto Veiga Sousa Thiago Da Silva Fagundes
Kauê Ferro Alves Rodrigues Paulo Segundo Thiago Henrique R. e Silva
Leandro Fernandes Pedro Gonçalves Thiago Leite Ferreira De Sousa
Leandro Raniero Fernandes Pedro Henrique Costa G. Carlos Thiago Lucas Da Silva
Leonardo Arcuri Florencio Pedro Lyra Matoso Thiago Rosa Moreira
Leonardo Batalha Pedro Moreno Feio De Lemos Tiago Meyer Mendes
Leonardo Bomfim Pedro Xavier Borges Tulio C. Gomes
Leonardo De F. Maciel Vilella Pensamento Coletivo Valdir Possani
Leonardo De Queiroz Ribeiro Péricles Sávio Garcia Marques Victor Alexsandro K. Ferreira
Leonardo Estevão Da Mota Rafael Cruz Victor Fappi Dos Santos
Leonardo Machado Almeida Rafael Gustavo Neves Amon Victor Peixoto Pereira
Leonardo Marcelino Vieira Rafael Marcos Garófalo Victor R Fernandes
Leonardo Silva Martins Rafael Pintar Alevato Victor Ventura De Souza
Livia Von Sucro Rafael Soares Da Silva Vinicius De Oliveira
Luan Ferreira Maurer Rafael Wyse R. Dos Santos Viny Sampaio De Brito
Lucas Bernardo Monteiro Raphael Lima Wagner Moreno Schmitz
Luciano Souza Raphael Sardou Wallas Pereira Novo
Luiz Falcão Renê Ricardo Wellington Pequeno Meirelles
Luiz Garay Ahumada Richard Arantes William De Mello Otomo
Lyonn Jarrie V. M. Dos Santos Robert Morais Thompson Wilsius De Mesquita Norte Alves
Marcelino Zanatta Ribeiro Roberto Silva Levita Winneton Dantas
Marcelo De Souza Rocha Roberto Tadashi Wakita Soares Yago Augusto Soares Lopes,
Marcelo Lacerda De Góes Telles Rodrigo Bandeira
Marcelo Lopes De Queiroga Rodrigo Graeff por participarem da campanha
Marco Braga Rodrigo Lemão Souza de publicação do Terra Devastada
Marcos Araujo Rodrigo Lopes Da Conceição Edição Apocalipse. Vocês foram
Marcos Roberto Rodrigues Rodrigo Maia realmente incríveis.
Marcus Maggioli Rodrigo Martin Branco
Marianna Santiago Cunha Lima Rodrigo Nassar Cruz John Bogéa.
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-9-
Ruas desertas, vidraças quebradas, carros abandonados,
buracos de balas nas paredes dos prédios, sangue, moscas e
pedaços de carne pútrida decorando todo o ambiente. Esse
é o atual cenário na maioria das cidades do mundo, locais
que hoje são apenas cidades fantasmas totalmente devas-
tadas. O silêncio é quebrado apenas pelo gemido e andar
trôpego dos infectados pelo Vírus Cerberus, que peram-
bulam sem rumo por entre as ruas. Às vezes solitários, às
vezes em grandes grupos, eles caçam, matam e os que não
são completamente devorados retornam como membros
dessas turbas de monstros. É impossível encontrar um lu-
gar seguro e esperar que eles simplesmente desapareçam.
Eles estão mortos, mas vivos. Alguns deles eram pessoas
conhecidas, amigos e parentes, agora são apenas esfome-
ados, irracionais e sujos. Criaturas em perfeita harmonia
com o novo ambiente desastroso do mundo. Enquanto
nós, sobreviventes - humanos - estamos em processo de
extinção. Somos o elemento estranho nesse novo bioma.
- 10 -
As causas do apocalipse pandêmico área fortemente protegida pelo que
nunca foram totalmente esclarecidas, sobrou das Forças Armadas Brasilei-
o que temos são apenas teorias, cons- ras. Essa talvez seja a maior zona de
piração, especulações e superstição. contenção da América do Sul.
Me chamo Karina Lancastre, sou Há seis meses venho trabalhando
jornalista, nascida em Rondônia e em um dossiê, recolhendo material e
que, até poucas semanas antes do co- fazendo entrevistas sobre os eventos
meço do fim do mundo, mora- que mudaram completamente
va em Palmas, no Tocantins, a civilização humana, tra-
onde trabalhava no portal
çando um roteiro que re-
local de notícias. Fui en-
laciona o apocalipse pan-
caminhada pelo Exérci-
to Brasileiro para uma dêmico com as ativida-
zona de contenção no des ilegais da Cerberus
centro-oeste do Brasil - a Lab - uma corporação
Base Anhanguera - assim multinacional gigante
como vários outros sobre- da indústria bioquímica,
viventes de vários outros Es- conhecida por sua total falta
tados, incluindo imigrantes de países de ética. Aqui conheci muita gente
vizinhos, como a Bolívia, Argentina, interessante, gente que esteve envol-
Peru e Colômbia. Estamos em um vida muito de perto com a verdade
grupo de mais de mil pessoas em uma sobre os infectados.

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O Paciente Zero
Depoimento de Átila A. Sales, antropólogo maranhense, membro da “Ordeiros”, uma
ONG sediada no Brasil que luta pelos direitos humanos em países subdesenvolvidos.
Sales estava em missão na África, investigando surtos de estupros de mulheres
e crianças em vilarejos do interior do Sudão do Sul. A missão era engrossar um
relatório sobre o caso para recorrer a organizações internacionais

O Sudão do Sul era um país que tos humanos do mundo. O lugar es-
tinha acabado de conseguir sua in- tava em uma guerra ferrenha contra
dependência, finalmente livre do si mesmo. Simplesmente não havia
islamismo radical do Sudão, mas respeito algum pela dignidade hu-
que ainda estava aprendendo mana ou direitos civis.
a caminhar sozinho econô-
mica e culturalmente. Na Na época, a Organiza-
época, o país sofria com ção das Nações Unidades
uma guerra civil iniciada (ONU) tinha publicado
pela rivalidade entre o um relatório assustador,
presidente e seu ex-vice, afirmando que o governo
acusado de articular um do Sudão do Sul permitia
golpe de Estado. Diversas que combatentes das forças
milícias se uniram a cada paramilitares aliadas estu-
lado, com confrontos marcados prassem mulheres como parte do
por massacres de caráter étnico. Isso salário. A cultura de estupro, que antes
resultou em uma das mais degradan- era um instrumento de terror e arma
tes e emergenciais situações de direi- de guerra, método usado massivamen-

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te por milícias afiliadas ao Exército
Popular de Libertação do Sudão, agora
estava oficializada, seguindo a filoso-
fia do “façam o que puderem e tomem o
que quiserem”.
Autorizados pelo governo, os
soldados, além de violentarem
mulheres (adultas e crianças),
destruíam casas, plantações e
executavam prisões arbitrárias,
como forma de intimidar os
grupos políticos de oposição à
República.
O pior era que a grande
maioria das vítimas civis
não parecia ser o resultado
dos combates, mas de ataques
deliberados contra a população
inocente. Atrocidades que in-
cluíam matanças de
formas horrendas:
pessoas queimadas
vivas, asfixiadas
em contêineres,
degoladas, castra-
das, enforcadas
ou cortadas em pe-
daços. A Unicef chegou
a denunciar abusos e assassinatos
de centenas de meninas, além dos
sequestros e recrutamentos de meni-

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nos para serem treinados e inseridos interior de Jubek e de Rio Yei. Saímos
como novos soldados nas milícias. de Juba, viajando dois dias inteiros
Era comum ver jovens uniformizados em uma caminhonete velha por uma
e armados com rifles, participando estrada de terra batida até chegar a
ativamente dos massacres. uma comunidade pobre nas extremi-
dades do Estado, quase na fronteira
A ONU montou pouco mais de do Congo. As denúncias
meia dúzia de bases para refugiados indicavam o lugar como A ONU
de guerra, todas lotadas rapidamen- foco dos ataques, e, logo montou pouco
te e com mais pessoas chegando aos que cheguei, percebi a
montes dia após dia. Lembro clara- gravidade dos confli- mais de meia
mente das filas com centenas de fa- tos religiosos no local. dúzia de
mílias esfarrapadas e desesperadas.
Meu contato na comu- bases para
Fiquei “hospedado” em uma dessas
nidade era o pastor Ja-
mes Obi, justamente a refugiados
bases. Lá encontrei com meu par-
pessoa que tinha feito de guerra,
ceiro de missão, um rapaz chamado
Oboabona, contato da Ordeiros, con-
as primeiras denúncias todas lotadas
tratado para me ajudar na viagem
para a Ordeiros. Obi
era voluntário nos mo- rapidamente
pelo interior do Estado como guia,
consultor e tradutor. Meu inglês es-
vimentos sociais contra e com mais
tava um pouco enferrujado, mas,
estupros de crianças pessoas
apesar do sotaque sudanês confuso
e, consequentemen-
te, tido como oposição chegando aos
(pelo menos para mim), conseguia
me comunicar bem com a maioria
das pessoas. Nesse sentido, Oboabo- ao governo e inimigo montes dia
na não teve muito trabalho. do Estado. Ele recebia após dia.
constantes ameaças
Meu objetivo lá era engrossar um de morte de um grupo
relatório daquela situação de crimes terrorista chamado “Culto Ombat-
de guerra no país, tentando assim se”. Contou que, no último ataque, o
justificar intervenções estrangeiras Ombatse invadiu uma escola comuni-
no que estava acontecendo. Comecei tária, sequestrou cerca de 20 crianças
visitando algumas comunidades no e trancou o restante lá dentro. Eles

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tocaram fogo no prédio... Não houve toleravam a presença de outras cren-
sobreviventes. Para se ter uma ideia, ças religiosas, possuíam seu próprio
não havia carroças suficientes para dialeto e se relacionavam apenas com
retirar todos os corpos carbonizados. membros da própria etnia. Os funda-
mentos originais eram tão obscuros,
James também disse que, semanas
que misturavam vários elementos
depois do atentado, uma das crianças
folclóricos africanos, feitiçaria e ri-
sequestradas reapareceu. Um menino
de nove anos chamado Bakri Omeruo. tuais sangrentos envolvendo esca-
Ele foi encontrado atônito, caminhan- rificações, mutilações e sacrifícios
do perdido em uma estrada desativa- de pessoas que, depois da morte, se
da a quinze quilômetros de sua casa. tornariam escravos espirituais. Acre-
Estava realmente muito debilitado e, ditavam em uma espécie de arrebata-
estranhamente, vestido com uma bata mento e retorno de forças espirituais
hospitalar. O caso desse menino era tribais poderosas, que iriam causar o
tão instigante que decidi encontrá-lo, fim do mundo. É uma religião total-
entrevistá-lo e inseri-lo no meu relató- mente apocalíptica.
rio. Não fazia ideia de que, na verdade,
As primeiras milícias Ombatse
estava indo encontrar o que talvez fos-
eram nigerianas e se autoidentifica-
se a origem da devastação da Terra.
vam como um “culto armado”. Inú-
meras células do grupo se espalharam
pelo Congo, República do Chade, Su-
o Culto Ombatse dão e Sudão do Sul, várias delas total-
mente independentes de suas raízes.
Ombatse - que significa algo como Aparentemente, as vertentes Ombatse
“o momento final está chegando” ou “o sudanesas eram bem mais violentas e
fim do mundo está próximo” - era uma trabalhavam como mercenárias para
religião nativa difundida apenas pelo governos e multinacionais - neste caso
povo eggon, que habitava o estado de específico, suponho que na arrecada-
Nasarawa. Os eggon eram extrema- ção forçada de cobaias humanas para
mente fechados e independentes, não testes farmacêuticos da Cerberus Lab.

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O primeiro infectado
Diferente do Sudão, em que a maioria
da população é muçulmana, o Sudão do
Sul era formado por um misto de cristãos
e animistas, o que foi, claro, um dos princi-
pais motivos para a separação dos países. O
que quero dizer é que era muito comum ouvir
histórias sobre espíritos e criaturas que viviam
nas árvores ou encravados na terra. Muitas
pessoas de fato praticavam o animismo.
Quando chegamos na casa da famí-
lia de Bakri - uma casinha de barro,
nos fundos de um sítio - presenciei a
avó do menino, acompanhada do
que parecia ser um “conselho
de anciãs”, fazendo uma es-
pécie de oração enquanto
dançavam e batucavam
tamborins em ritmo
melancólico. A criança
estava acorrentada pelo
pescoço em uma viga de
madeira, com o corpo co-
berto por um pano branco,
dentro de um círculo de sal,
rodeada de ossos, algodão, ovos
e pequenos animais mortos com
entranhas expostas. Quando me
perceberam, calaram imediatamente.
Senti o fedor pútrido horrível que exa-

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lava do corpo do menino, fedor que quando Oboabona me contou sobre
atraía moscas e outros insetos. Jul- o mito da serpente espiritual Dam-
guei ser um caso extremo de necrose ballah, que é uma espécie de divin-
gangrenosa. O menino estava fraco, dade senhora dos espíritos, que dá a
coberto de chagas e com a boca mu- vida e traz a morte, que, nessa região,
tilada, como se tivesse tentado comer também era conhecida por “Zombi”.
os próprios lábios. Estava totalmente As mulheres estavam tentando ex-
fora de si, sem nenhum sinal de ra- trair o suposto veneno espiritual.
cionalidade, reagindo
O menino violentamente a todos A primeira impressão que tive foi
que se tratava de um mal chamado
estava fraco, que via, atacando com
dentadas e arranhões. “doença do cabeceio”. Já tinha visto ca-
coberto de A avó do menino, que sos em diversas famílias de Uganda.
Faz a vítima adormecer profunda-
chagas e visivelmente estava mente e, como sonâmbulos, andarem
com a boca com os braços cheios
de marcas de mordi- sem destino, reagindo com violência
mutilada, das do neto, falava em contra quem cruza seu caminho, lu-
tando, arranhando e mordendo as pes-
como se tivesse um dialeto que eu não soas que tentam detê-las. Não conse-
tentado comer entendia. Repetia com-
pulsivamente “zombi, guem despertar nem mesmo sofrendo
os próprios zombi, zombi...” en- acidentes graves. Geralmente as mães
amarravam os filhos que sofriam des-
lábios. quanto riscava três li- se mal. E era exatamente o que eu es-
nhas paralelas no chão,
tava vendo: uma criança sonâmbula,
tentando ilustrar algo
amarrada e reagindo violentamente
que, até aquele momento, me parecia
à privação. Mas, eu estava enganado.
incompreensível. Fazia mímica com
No caso de Bakri, se tratava de algo
as mãos, pondo três dedos em riste,
ainda mais sinistro e indignante.
simulando um tipo de bote de cobra.
Interpretei que talvez ela estivesse Uma das senhoras me trouxe uma
me avisando que o menino tinha sido pulseira de identificação, que estava
envenenado por uma mamba-negra, no pulso do menino quando o encon-
que era bem comum na região. Foi traram, do mesmo tipo que se usa em

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pacientes de hospital, com um núme- A Cerberus ficou conhecida no
ro de série e a marca da Cerberus Lab mundo - pelo menos entre os grupos
- as três linhas paralelas. Foi quando de atuação humanitária - como umas
tudo começou a fazer bastante senti- das corporações farmacêuticas mais
do e eu comecei a ligar os fatos. corruptas e antiéticas em atividade.
Diversas vezes processada criminal-
mente por experiências de medica-
mentos com consequências altamente
A Cerberus nocivas. Nos anos 1990, durante uma
epidemia de meningi-
A Cerberus Lab te em Kano, centenas
era uma gigante nor- de crianças doentes
te-americana do setor foram objetos dos tes-
bioquímico, biotecno- tes de uma nova vaci-
lógico e farmacêutico, na que prometia rees-
três pilares de atuação truturar os danos da
que eram simboliza- doença. A Cerberus
foi acusada de enga-
dos por três colunas
nar as autoridades lo-
paralelas, rígidas e
cais sobre a segurança
afiadas, como armas.
dos testes. Não infor-
Alegoricamente, as mou às famílias que se
três cabeças de Cérbe- tratava de uma droga
ro, da mitologia grega. A personali- experimental, mesmo sendo fato que
dade da corporação fazia jus à semi- os testes poderiam apresentar efeitos
ótica de sua marca, agiam de forma colaterais prejudiciais à saúde a pon-
impetuosa, com apoio militarizado. to de ser impróprio para uso huma-
Protegiam o teor de suas experiên- no. Alegavam que o estudo clínico
cias com a agressividade de cães de da vacina tinha sido aprovado pela
guarda. Ao que parece, trabalhavam comissão de ética do hospital onde os
exclusivamente para as Forças Ar- testes se realizaram, afirmando que “o
madas dos EUA. composto estava em seu estado final

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de desenvolvimento, portan-
to, seguro”. Nas regiões onde a
Cerberus atuava, não era difícil
e nem caro para uma multina-
cional subornar as pessoas certas
para conseguir as autorizações que
precisavam.
Infelizmente, era comum que
testes ilegais de medicamentos
fossem praticados em comunida-
des de países mais vulneráveis,
como o Sudão do Sul. Usavam
hospitais públicos, prisões ou
asilos como polos de testes, onde
autoridades se mostram particu-
larmente corruptíveis.  Sequer ha-
viam comissões éticas, capazes de
exercer fiscalização para garantir a
prestação de informações comple-
tas aos participantes, que, na maio-
ria das vezes, não faziam ideia de que
estavam sendo cobaias.
 O aumento do desenvolvimento de
novas drogas exigia um correspon-
dente aumento de testes clínicos
para conseguir a aprovação das
instituições oficiais dos gran-
des mercados dos EUA e da
Europa. Para cada teste de
cada novo medicamento,
eram necessários milha-

19
res de voluntários, por isso, alguns humano gigantesco. Os meninos
laboratórios, como a Cerberus, tes- mais fracos, que não poderiam ser
tavam seus medicamentos primeiro recrutados, eram vendidos como co-
em países subdesenvolvidos da Áfri- baias para testes científicos, enquan-
ca, da Ásia ou América do Sul, para to as meninas, vendidas para redes
depois liberar o uso em países de de prostituição infantil. Pessoas de
primeiro mundo. Além da economia localidades tão pobres que ninguém
e da facilidade de se recrutar cobaias se importaria em procurar. Não era
humanas, países subdesenvolvidos como se sumissem crianças brancas
ofereciam outra vantagem: a rapidez. em cidades ricas,  como Nova Ior-
Enquanto que nos EUA, por vezes, le- que e Paris, eram crianças de cida-
vam-se anos para reunir voluntários des invisíveis na África, que ninguém
suficientes para um experimento, em sequer ouviu falar antes. Não havia
países mais pobres, a população é tão comoção. Ninguém se importava.
carente de medicamentos, que busca
cegamente a oportunidade de receber Eu tinha em mãos uma prova cir-
tratamento médico ou vacinação gra- cunstancial que relacionava a Cer-
tuita, reunindo uma quantidade gran- berus ao Culto Ombatse e uma série
de de voluntários em questão de dias. de crimes. Era algo grande e que faria
muito barulho na imprensa. Porém,
também sabia que isso me tornava
um alvo.
Tráfico de cobaias
No momento que peguei naquela
pulseira de identificação, tive cer-
teza que Bakri tinha sido traficado,
A disseminação
vendido pelo Culto Ombatse como Algumas semanas depois do meu
cobaia humana para a Cerberus. Já encontro com Bakri, os familiares e
tinha ouvido falar de casos seme- quase todas as pessoas que tiveram
lhantes na Somália e Nigéria. Milí- contato com ele estavam com os mes-
cias tinham formado um mercado mos sintomas. A coisa foi se multi-

20
plicando por todos os lados, por vá- ta superstição, algumas comunidades
rias famílias. As pessoas ficaram com simplesmente não se abriam para es-
medo e começaram a abandonar a trangeiros e, às vezes, nem para comu-
comunidade, acreditavam que a do- nidades vizinhas. E isso contribuiu
ença era provocada pela significativamente para o avanço da
Algumas feitiçaria dos Ombatse.
Algumas famílias es-
contaminação, dificultando o acesso e
famílias condiam seus parentes a contenção dos infectados.
escondiam doentes em outros vi- Comuniquei o que estava aconte-
seus parentes larejos ou se isolavam
em regiões inóspitas.
cendo para a Ordeiros, que avisou a
ONU, que avisou a OMS, que, no iní-
doentes Migravam para outros cio, estranhamente ignorou o caso.
em outros Estados e até para ou-
vilarejos ou tros países. Mesmo os
que chegavam aos hos-
No retorno à base da ONU, em
Juba, fui abordado por agentes da
se isolavam pitais acabavam ficando Cerberus. Não houve diálogo, nem
em regiões em leitos isolados, sem colaboração. Com aval da OMS, con-
inóspitas. possibilidade de trata-
mento, simplesmente
fiscaram meus documentos, relató-
rios e fotos. Passei por horas intermi-
porque não havia tra- náveis de interrogatório e, por pouco,
tamento adequado. Ninguém sabia o
não me mantiveram preso. Eu tinha
que era aquilo.
contatos influentes dentro da ONU
A África é um continente difícil, que garantiram minha deportação
há muita falta de informação e mui- para o Brasil.

21
o caso kulina
Depoimento de Olívio Pamplona, o “Cão de Caça”, paraense que morava em
Brasília, agente afastado da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Trabalhou
como consultor no caso dos Índios Kulina, acusados de canibalizarem uma equipe
inteira de pesquisadores da Cerberus Lab no sudoeste do Amazonas.

Trabalhei como agente da ABIN cadores acusavam vários integrantes


por mais de vinte anos antes de pedir de uma aldeia indígena - os Kulina - de
meu afastamento e me mudar com mi- supostamente serem praticantes de ca-
nha família para Brasília. Passei toda nibalismo.
minha infância e adolescência
no sul do Pará e conhecia O caso começou quando
bem como as coisas fun- agentes do Instituto Brasi-
cionavam naquela região, leiro do Meio Ambiente
desde madeireiras ilegais e dos Recursos Naturais
ao mercado negro de ani- Renováveis (IBAMA)
mais silvestres. Acom- encontraram uma série
panhei de perto diversos de corpos esquartejados,
conflitos indígenas com sem órgãos e vísceras,
intervenções do Estado, par- perto da aldeia, dentro do
ticipando, inclusive, de organi- território da reserva, no sudoes-
zações ativistas pró-direitos indígenas te do Amazonas. Os corpos eram de
no Pará e no Amazonas. Na época, re- uma equipe de pesquisa da Cerberus
tornei à região como consultor, convi- Lab, que trabalhava em um laborató-
dado a trabalhar no Caso Kulina. Pes- rio instalado dentro da área florestal

22
dos Kulina. Os pescadores dos rios
que cortam a região disseram que os
índios tinham devorado todos os pes-
quisadores. Viram os índios comendo
órgãos, braços e pernas humanas nas
beiradas dos rios, deixando a água le-
var os pedaços de carne. O caso tinha
aterrorizado os moradores de cida-
des próximas, que se posicionavam
de forma agressiva contra qualquer
indígena que circulasse nas estra-
das ou áreas de comércio.

Fatos duvidosos
O relatório da Polícia Federal in-
formava que os pedaços dos corpos
tinham sido encontrados espalhados
em uma pequena área de clareira, onde
teria acontecido um suposto “banquete
ritual” da aldeia.
Na verdade, achei um pouco absurdo
todos os fatos desse caso. Eu era expe-
riente na área, conhecia algumas aldeias,
inclusive os Kulina. Não reconhecia esse
tipo de costume, nada fazia sentido. Acio-
nei um amigo de infância, que na época
era diretor da OPAN - uma ONG de indi-
genistas especialistas na Amazônia nativa

23
-  que declarou em várias entrevistas da população, a aldeia migrou para
na mídia local, que o canibalismo locais fechados da floresta amazôni-
não era uma característica da cultura ca, dificultando ainda mais as apu-
dos índios Kulina, esse seria um fato rações do caso. Um comportamento
inédito. Eles não eram antropofági- esperado, geralmente algumas tribos
cos. Aliás, apenas nos primórdios das mais puristas se isolam na floresta de-
tribos Tupinambás e Aruaques havia pois de contatos ruins com o homem
o costume de comer carne humana. branco. Na época, a FUNAI adotava
Isso já não acontecia mais em nenhu- a política de respeitar essa escolha dos
ma etnia indígena índios, tentando garantir que eles per-
Eles não eram amazônica. Os Ku- manecessem isolados, só intervindo
antropofágicos. lina eram uma tribo quando surgisse alguma ameaça à so-
Aliás, apenas colérica em vários
sentidos, mas não
brevivência ou à preservação da tribo.
nos primórdios tinham nenhuma
das tribos tendência ao cani-
Tupinambás balismo e, mesmo pesquisa ilegal
e Aruaques se houvesse um caso
desse tipo, a própria
Não era o caso de assassinato an-
havia o tribo expulsaria o tropofágico que interessava à ABIN,
isso era um trabalho para a Polícia
costume de indivíduo do conví- Federal. A nossa missão nesse caso
comer carne vio. era apurar os fatos periféricos que or-
humana. Como a legislação bitavam tudo aquilo. A Cerberus Lab
brasileira proíbe nunca se pronunciou sobre o caso, era
qualquer tipo de investigação em como se eles não se importassem com
tribos indígenas, impedindo a en- as mortes dos cientistas ou simples-
trada em aldeias sem autorização mente não quisessem se expor. Tem-
devidamente aprovada pela FUNAI, pos depois, descobrimos que a insta-
o caso nunca avançou. Além disso, lação da Cerberus na reserva Kulina
por conta das acusações e retaliação era totalmente ilegal, revelando um

24
esquema enorme de corrupção en- de segurança médica, muito menos a
volvendo deputados estaduais e fede- legislação brasileira, praticando uma
rais, além de autoridades da FUNAI violação terrível dos direitos huma-
e IBAMA, que aceitaram propinas nos e indígenas.
milionárias em troca da facilitação da
instalação de inúmeros polos científi- A ABIN sabia da péssima repu-
cos em áreas protegidas do Amazonas. tação da Cerberus Lab e as práticas
agressivas de exploração. O envolvi-
Infelizmente, às vezes, ilegalmente,
mento da corporação no caso Kulina
empresas de cosméticos e produtos
acendeu um sinal de alerta na agên-
farmacêuticos usa-
cia. Suspeitávamos também que o
Faziam testes vam a fauna e flora governo dos EUA estava financiando
químicos em amazônica como
fonte de matéria
tudo, o que tornava o esquema cor-
rupto um caso de conspiração inter-
voluntários -prima para desen- nacional. Sabíamos também que a
Kulina, em troca volver produtos. Cerberus agia com total aval da OMS
de recursos para As corporações por influência direta das Forças Ar-
madas norte-americanas, o que nos
a aldeia, como investiam à revelia
levou a crer que talvez se tratasse de
dos governos, que
geradores de luz e mal sabiam como uma experiência militar em fase de
ferramentas para lidar com essa in- pesquisa - talvez desenvolvimento de
drogas adrenergéticas. Quando vas-
agricultura. dústria e com a ex-
culhamos a instalação da Cerberus,
ploração de comu-
nidades indígenas. na antiga aldeia Kulina, encontramos
Um dos acusados, funcionário de centenas de documentações e catalo-
gações sobre a flora e fauna locais, en-
alta confiança do IBAMA, confessou
volvendo toxinas vegetais e animais,
sob interrogatório que foi pressiona-
além de realizações de experimentos
do pelo governo do Estado a dar co-
em inúmeras espécies de sapos, plan-
bertura a um “ensaio terapêutico” da
tas e insetos.
Cerberus, que não respeitava mini-
mamente as normas e os cânones exi- Faziam testes químicos em volun-
gidos pelos protocolos internacionais tários Kulina, em troca de recursos

25
para a aldeia, como geradores de luz os Kulina voluntários tenham sido
e ferramentas para agricultura. Havia escondidos pela aldeia, levados para
muito sangue no lugar, sinais de com- lugares distantes na floresta ou sim-
bate e centenas de arquivos sobre ma- plesmente fugiram sem rumo.
peamento cerebral e sistema nervoso.
Meu palpite é que os testes detonaram Arquivamos o caso por falta de
a cabeça dos voluntários, despertando articulação nacional e internacio-
um tipo de surto esquizofrênico e an- nal e desinteresse governamental em
tropofágico nos pacientes. Atacaram cutucar uma poderosa da indústria
os cientistas, devorando-os, espalhan- bioquímica, como a Cerberus. Todo
do os pedaços pelas proximidades da o esquema de corrupção permaneceu
aldeia. Depois do acontecido, talvez oculto e sem nenhuma providência.

26
o Projeto acheronte
Depoimento de Jorge M. Sampaio, o “O Prefeito”, goiano, ex-general de
brigada do Comando de Operações Especiais da FAB, participou da operação
de pacificação de Porto Príncipe, na missão MINUSTAH - Missão das
Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, combatendo forças paramilitares
revolucionárias. Acabou descobrindo um esquema conspiratório militar envolvendo
a Cerberus Lab e as Forças Armadas Norte-Americanas, que mantinham polos de
pesquisa científica ilegais no país.

Na época, o Haiti era “o lugar onde o pois do terremoto de 2010, que devas-
diabo tirava férias”, nunca se recuperou tou o lugar, matando milhares de pes-
totalmente do imperialismo francês soas, a maioria esmagadora da popu-
e exploração oportunista de ou- lação sobrevivente passou a viver
tros países, além disso, sofria abaixo da linha da miséria. A
com um longo histórico de ONU, que ficou responsá-
conflitos entre grupos re- vel por coordenar a ajuda
beldes paramilitares. Pro- humanitária, considerou
blemas que nunca permi- -o como o maior desastre
tiram que o país crescesse natural que já enfrentou,
ou se educasse de forma maior ainda que a tsuna-
satisfatória. Tinha o pior mi na Ásia no fim de 2004,
Índice de Desenvolvimento pois no Haiti restaram pou-
Humano (IDH) das Américas, cas estruturas locais para canali-
era visivelmente o país mais subde- zar a ajuda estrangeira. A maioria das
senvolvido deste lado do planeta e, de- cidades quase foi riscada do mapa.

27
A FAB, em uma ação combinada dem no Haiti. O objetivo era estabili-
com a ONU, estava mantendo uma zar o país, pacificar e desarmar grupos
espécie de ponte aérea entre a base da guerrilheiros, promover eleições livres
aeronáutica do Rio de Janeiro e o ae- e retomar o desenvolvimento institu-
roporto de Porto Príncipe. O Gabinete cional e econômico. No entanto, movi-
de Crise do Governo Federal do Brasil, mentos revolucionários de Porto Prín-
que coordenava boa parte das ações de cipe organizavam inúmeras manifes-
ajuda na América do Sul, tinha auto- tações agressivas contra a intervenção
rizado o envio de vários aviões com da ONU. A missão tinha sido acusada
equipes médicas, alimentos e remédios de colaborar com a repressão, a cor-
para atender as vítimas da tragédia. rupção e a epidemia de cólera de 2010
A FAdH - Forças Armadas do Haiti - soldados nepaleses doentes acabaram
- foi extinta em 1995 para tentar evitar contaminando o Rio Artibonite, con-
a repetição dos frequentes golpes mili- tribuindo para a disseminação da do-
tares e assim, teoricamente, preservar ença que tinha sido erradicada do país
a democracia no país. No entanto, os há séculos. Os meios locais de impren-
ex-soldados se mobilizaram de forma sa também apoiavam os paramilitares
independente, criando diversas milí- e seus aliados, criando uma antipatia
cias fortemente armadas. Atacavam e ferrenha entre a população e as tropas
destruíam delegacias de polícia e se- estrangeiras que chegavam ao país.
cretarias municipais em todo o país
para assumir o controle de uma série
de cidades e vilas. Eram cerca de quin-
ze mil homens ocupando bases aban- Vodu e magia negra
donadas do antigo exército, reivin-
Em geral, os haitianos são pratican-
dicando a volta das forças militares,
tes de vodu, mesmo os de orientação
pensões e a retirada das tropas estran-
geiras do país. cristã. O misticismo do Caribe é consi-
derado tabu pela maior parte do mun-
A MINUSTAH era uma missão de do ocidental e, na verdade, pouco tem
paz criada pelo Conselho de Segurança de relação com bonequinhos de pano
da ONU, em 2004, para restaurar a or- perfurados por agulhas. O vodu haitia-

28
no tem raízes africanas, chegou lá
na época dos escravos. É, superfi-
cialmente, um misto esquisito de
catolicismo - imposto pelos co-
lonizadores franceses - e paga-
nismo africano. Raras vertentes
do vodu são tão agressivas e ra-
dicais que, quando viajávamos
pelo interior do país, em certas
estradas, recolhíamos cadáveres
com os abdomens retalhados e
olhos arrancados, vítimas de sa-
cerdotes voduístas bokors, em ri-
tuais de magia negra. Lembro
que, certa vez, participamos de
uma operação de resgate de um
grupo de noviças italianas re-
fém de um culto vodu militari-
zado e violento. As encontramos
mortas, empaladas, suspensas em
estacas, expostas ao longo da es-
trada, como um tipo de aviso
para intimidar intervenções
estrangeiras.

O mito do zumbi
Não eram os rituais sangrentos
que realmente assustavam as tropas,
mas o mito do escravo zumbi, a supos-

29
ta transformação de um ser humano
em morto-vivo por meio de feiti- Projeto Acheronte
çaria vodu. A crença era de que um Estávamos levando remédios para
sacerdote bokor era capaz de roubar a região norte, além dos limites de
o bonange de uma pessoa - sua alma Porto Príncipe, para um vilarejo pró-
- usando uma poção mágica chamada ximo a Fond Diable, que sofria de um
pó-de-zumbi. O medo de zumbis no surto de malária. Os habitantes nos
Haiti é histórico, tratado com tanta receberam com total antipatia, alguns
seriedade que nos anos 1930 foi cria- chegavam a gritar nos mandando em-
da uma lei que condenava a criação bora. Eles estavam zangados e com
de zumbis. Um dos artigos do Código medo, rejeitaram nossos remédios e
Penal Haitiano classifica o uso do pó- se negavam a falar conosco. No en-
de-zumbi como tentativa de assassina- tanto uma senhora chamada Mama
to, se a substância causar aparência de Adonia, ex-enfermeira do Hospital
morte e resultar no enterro da vítima, Geral de Porto Príncipe, herbalis-
o ato era classificado como assassina- ta e dona de um terreiro vodu, im-
to. De fato, essas poções existiam, en- pressionantemente culta e bastante
contramos muitos frascos em diversas influente naquela comunidade, acei-
missões e invasões de terreiros. tou dialogar conosco. Nos falou que
os últimos soldados que apareceram
As análises de laboratório do pó-
no vilarejo para oferecer remédios
de-zumbi indicavam uma composição
só tinham trazido desgraças. Prome-
química bastante curiosa, entre as
teram ajuda médica, internaram os
substâncias, havia diversas neurotoxi- jovens, fizeram experimentos neles,
nas encontradas em espécies de plan- privando-os de sair ou mesmo falar
tas da região. O pó inalado ou ingerido com os familiares.
por seres humanos levava a um estado
letárgico de quase morte, funcionando Adonia nos levou para o meio da
como um tipo primitivo de lobotomia mata, a uma instalação laboratorial
química. Qualquer pessoa nesse estado abandonada, dentro de uma região de
se torna totalmente sugestionável e in- culto voduísta. Dizia que, na época, a
capaz de reagir a dor ou cansaço. comunidade recebia ajuda de tropas

30
norte-americanas, incluindo clínicas suas mãos para que ele não coçasse
móveis da Cerberus Lab. até rasgar a carne. Tinha extrema di-
ficuldade para respirar.
Vasculhando as instalações, des-
cobrimos documentos que intitula- Acabou morrendo em agonia an-
vam a atividade como Projeto Ache- tes mesmo de ser levado a um hos-
ronte. Contudo não ficou claro sobre pital. Teve um velório breve e um
o que, de fato, se tratava esse projeto. enterro humilde no cemitério local,
Depois que chequei as cerca de dois quilômetros ao sul da
Ele acordou listas oficiais de tropas
voluntárias em missões
comunidade. Semanas depois, inex-
plicavelmente, ele acordou dentro do
dentro do médicas no país, não caixão. Com um esforço sobre-hu-
caixão. Com encontrei nenhum re- mano conseguiu quebrar a madeira
um esforço gistro sobre a Cerberus,
o que me levou a con-
e cavar a terra fofa para a superfície.
Vagou semanas na mata, completa-
sobre-humano cluir que era uma ação mente atônito, sem rumo, sem água
conseguiu totalmente clandestina. ou comida, até encontrar uma estra-
quebrar a Segundo Adonia, da e instintivamente seguir por ela.
Foi reconhecido pelos moradores
madeira e quando os agentes
da comunidade, que o resgataram e
abandonaram as insta-
cavar a terra lações, levaram todos levaram para sua casa. Narcisse se
fofa para a os pacientes embora. comunicava com dificuldade, sem
conseguir explicar com detalhes o
superfície. Nunca mais souberam
que tinha acontecido e como tinha
de nada sobre essas
pessoas, com exceção chegado até ali. Mas, apesar de tudo,
de um rapaz chamado Cedric Nar- conseguia responder a perguntas pes-
cisse, que fugiu da privação e passou soais suficientes para que se confir-
semanas escondido no terreiro. Ele masse que ele era, de fato, o homem
estava doente, física e psicologica- que enterraram tempos atrás e que
mente. Apresentava febre, muita dor tinha voltado dos mortos. Depois de
muscular e formigamento intenso na um tempo, sofria com alucinações
pele, a ponto de precisarem amarrar constantes e comportamento vio-

31
lento, apresentando claros sinais de cial dos médicos e psiquiatras. Ficava
insanidade. O encaminharam para em um quarto úmido nos fundos, com
tratamento médico em Porto Prín- grades grossas nas portas e janelas.
cipe e posteriormente para um Asilo Ele era agressivo e, constantemen-
Manicomial. te, tentava arrancar a própria carne
com as unhas, motivo pelo qual pas-
sava a maior parte do
tempo preso em uma
Doença misteriosa camisa de força refor- Ele era
çada com correntes. agressivo e,
Encontrei facilmente o manicômio Também foi flagrado constantemente,
em que Narcisse estava internado. inúmeras vezes se ali-
mentando de ratos ou tentava arrancar
Assim que entrei no pátio principal
da instituição, dezenas de pessoas
pombas vivas que por a própria carne
sujas, de cabelos desgrenhados e cor-
acaso entravam em com as unhas,
pos esquálidos me cercaram. Alguns
seu quarto, obrigando
os enfermeiros a tapa- motivo pelo qual
vestiam uniformes esfarrapados, ti-
nham evidentes doenças de pele e pés
rem sua boca com um passava a maior
descalços. Muitos, porém, estavam
tipo de mordaça feita parte do tempo
completamente nus. Pacientes sem
de gazes. Ele também
apresentava uma série preso em uma
supervisão bebendo água do esgoto
que jorrava sobre o pátio. Nas banhei-
ras coletivas havia fezes e urina no de deformidades cor- camisa de força
lugar de água. Presenciei o momento porais, como tumores reforçada com
e crescimento desor-
denado dos músculos, correntes.
em que os alimentos eram jogados no
chão como se fossem servidos a ani-
mais. O cheiro era detestável. O cená- provavelmente efei-
rio deprimente e indignante, comum tos colaterais resultantes dos testes
de manicômios públicos, era ainda bioquímicos. Estava completamente
pior naquele momento de crise. cego, com os olhos embranquecidos
e secos. Tinha surtos extremos de es-
Narcisse estava isolado, era um pa- quizofrenia paranóica e, nos raros mo-
ciente singular e recebia atenção espe- mentos de lucidez, falava sobre como

32
perdeu o controle sobre si mesmo
e como ficou completamente escra-
vizado depois que injetaram nele
as vacinas. Quando perguntei se ele
sabia algo sobre Acheronte, ficava
aterrorizado só de ouvir a palavra,
absolutamente perturbado e intros-
pectivo. Às vezes, deixava escapar
frases desconexas sobre a criação
de algo grande e perigoso demais, um
tipo de arma venenosa criada pela
ciência deles.
O médico de Narcisse, respon-
sável por suas análises clínicas,
fez questão de me acompanhar.
Era um homem sensato e me-
tódico, que tratava o caso com
clara perplexidade. Contou
que Narcisse apresentava
um estado de saúde bizar-
ro, difícil de compreender
com o nível de tecnologia
que ele tinha disponível.
Com exames básicos, pode-
ria se identificar claramente
um estado de contaminação
viral, algo parecido com ra-
bies virus, mas pior e mais ele-
gante, talvez um tipo de vírus
da raiva nunca antes catalogado.
Além disso, ele apresentava traços

33
de envenenamento por tetrodotoxina va em compreender como as caracte-
da datura stramonium, uma planta co- rísticas tóxicas de uma planta foram
nhecida localmente por zabumba, com mimetizadas na cepa de um vírus.
fortes substâncias psicoativas, anesté- Infelizmente, não contava com uma
sicas e alucinógenas, que tornava as equipe experiente e nem recursos
pessoas totalmente sugestionáveis, para levar adiante uma pesquisa tão
como um tipo de máquina humana complexa quanto essa.
induzível que ignorava os limites do
próprio corpo - justamente um dos Mandei um relatório sobre isso para
elementos do pó-de-zumbi, mas, nessa meus superiores, pedindo encarecida-
versão, alterada em laboratório para mente para que a ONU ou Organiza-
que os efeitos fossem nivelados e con- ção Mundial da Saúde (OMS) fossem
troláveis. Ele conhecia bem os tóxicos informadas e tomassem as devidas
das poções vodu, era um dos maiores atitudes. Como resposta, fui boico-
especialistas do país nesse quesito e, tado. Me deportaram de volta para o
contratado inúmeras vezes como con- Brasil e me afastaram do meu posto.
sultor por empresas farmacêuticas es- Abandonei completamente as inves-
trangeiras, incluindo a Cerberus Lab. tigações sobre o Projeto Acheronte e
Mas nunca participou ativamente de me obriguei a não pensar mais sobre
nenhum projeto. O desafio dele esta- isso até este momento.

34
o vírus arn49
Depoimento de Lionel Veloso, patologista, nascido em Minas Gerais, especialista
em infectologia e bacteriologia. Filiado a CICV (Comitê Internacional da Cruz
Vermelha). Trabalhava como voluntário em comunidades carentes no interior da
China pouco antes da explosão pandêmica. Viu de perto a evolução descontrolada da
doença e chegou a participar do primeiro grupo de pesquisadores a tentar compreender
os sintomas e possíveis causas, na tentativa de desenvolver algum tipo de cura.

Trabalhei mais de um ano em uma espalhava-se rápido como uma gripe


comunidade carente a oeste de Pe- superpotente. Ouvíamos falar de cida-
quim, como chefe de um laboratório des inteiras contaminadas e centenas
de infectologia. Na época estu- de pessoas morrendo rapida-
dávamos o H5N1 - o mundo mente. Quando os moradores
tinha acabado de passar da comunidade onde está-
pelo surto de gripe aviá- vamos começaram a ter os
ria - e pelo menos vinte sintomas, iniciamos ime-
casos de Influenza ain- diatamente o processo de
da estavam sob nossa pesquisa. Os corpos apre-
observação. Foi quando sentavam um tipo de ne-
começamos a receber co- crose crônica que afetava
municados do Ministério de o sistema nervoso e fazia os
Saúde sobre uma nova supergri- pacientes perderem totalmen-
pe que se espalhava em vastas áreas do te a sanidade, agindo como animais
território chinês. Os sintomas eram selvagens antropofágicos. Os infecta-
similares aos do vírus da raiva, porém dos literalmente pulavam das macas

35
e atacavam os enfermeiros, devoran- sem dar muitas explicações. A popu-
do-os vivos, como se estivessem esfo- lação obviamente ficou desesperada,
meados. Os enfermeiros que tinham reagindo de forma agressiva. Os mé-
sido feridos por mordidas e arranhões dicos, trajando equipamentos anti-
passavam pelo mesmo processo de contaminação especiais, procuravam
infecção e logo também se tornavam sinais de infecção em cada pessoa. Os
monstros. Nenhum tipo de contato soldados mantinham prontidão, rea-
era eficaz, não entendiam o que dizí- gindo violentamente ao mínimo sinal
amos e não conseguiam desenvolver de qualquer revol-
nenhum tipo de comunicação. Quan- ta popular. Vi muita Os que
do a situação ficou fora de controle, os gente inocente morrer
militares transportaram nosso labora- ao se rebelar contra as
apresentavam
tório para Pequim. intervenções. sintomas
Durante a viagem, o governo de- Quando uma pes-
graves eram
cretou estado de calamidade pública, soa apresentava qual- imediatamente
fechando as fronteiras do país na ten- quer indício de conta- executados
tativa de evitar que a doença se espa- minação, era encami-
lhasse. Inúmeras zonas de quarentena nhada para a capital com tiros na
e diversos centros de tratamento fo- e de lá para centros cabeça e depois
ram instalados, mesmo sendo impos- de pesquisa avançada cremados
sível conter todas as evasões pelas es- para serem estudados,
tradas, aeroportos e vias clandestinas. não como pacientes, em enormes
Nos juntamos a agentes de interven- mas como cobaias. fogueiras...
ção da Cerberus Lab, acompanhados Os que apresentavam
de soldados chineses. Presenciamos sintomas graves eram imediatamen-
a execução de medidas de contenção te executados com tiros na cabeça
radicais - a nível desumano - na tenta- e depois cremados em enormes fo-
tiva de controle de contágio. Sempre gueiras ao ar livre, chamadas de “for-
que identificavam um foco da doen- nos”, cuja fumaça podia ser avistada
ça em alguma comunidade, isolavam a quilômetros de distância — esse
as pessoas em zonas de quarentena era o sinal que a população das ci-

36
dades próximas tinha para fugir o
mais rápido possível. Essa opera-
ção da Cerberus foi desastrosa,
transformou tudo em um caos
ainda maior, assustando e afu-
gentando as pessoas, violando
todo e qualquer conceito a res-
peito de direitos humanos. A
reputação da corporação, que já
era ruim, ficou péssima. Era ób-
vio que não conseguiriam con-
ter o avanço da doença. Além
disso, essa atitude fez com que
as famílias carregassem seus do-
entes para longe de hospitais ou
centros de ajuda governamental.
Fez com que as famílias fossem
para bem longe, contribuindo
para o espalhamento da peste
para o país inteiro.

explosão
Pandêmica
Diferente de outros lugares,
qualquer doença infeccio-
sa na China se espalhava
vertiginosamente rápido.
Era o país mais populoso
do mundo, com quase um

37
bilhão e meio de habitantes, prati- três categorias: classe A, onde está a
camente um quinto da população da cólera, classe B, onde estão listadas 25
Terra morava lá. As cidades eram su- moléstias, como hepatite viral, e clas-
perpopulosas e uma parcela delas com se C, onde inclui dez tipos de doen-
sistemas sanitários precários. A po- ças, entre os quais, está a gripe. Digo
luição urbana em algumas metrópoles essas coisas apenas
para se ter uma ideia A China era
era tão absurda, que causava proble-
mas congênitos em bebês, forçando
os habitantes a usar diariamente más- geral de como a China um barril
caras de proteção respiratória. Além era um barril de pólvo- de pólvora
ra quando se tratava
disso, uma maioria de chineses tinha,
de epidemias. Tudo
quando se
culturalmente, péssimos hábitos em
relação à higiene pessoal e alimenta- lá, nesse sentido, era tratava de
ção, o que às vezes tornava as cidades mais difícil de con- epidemias.
verdadeiros criadouros de vírus, fun- trolar, mesmo quan- Tudo lá, nesse
gos e bactérias. Para ter um panorama do se conhecia os mé-
ainda melhor sobre a relação da Chi- todos mais eficazes de
sentido, era
na com doenças infecciosas, quando contenção. mais difícil
comecei meu trabalho voluntário pela
CICV, a Comissão Chinesa de Saúde e
de controlar,
Com o tempo, fi-
Planejamento Familiar comunicava a camos sabendo que
mesmo quando
morte de quase vinte mil pessoas por quase todos os paí- se conhecia os
doenças infecciosas na parte conti- ses entre lá e a África métodos mais
nental, um total de mais de seis mi- apresentavam sinais eficazes de
lhões de casos de doenças contagiosas
da doença, principal-
só nessa área. Entre os casos, mais
mente a Arábia Saudi-
contenção.
de três milhões foram classificados
como doenças contagiosas de classe A ta, Irã, Afeganistão e
ou B, como AIDS, tuberculose, raiva, Índia, mas foi na China que a doença
hepatite, febre hemorrágica, sífilis, realmente explodiu e, em poucas se-
disenteria e gonorreia. Lá, as doen- manas, espalhou-se pelo mundo in-
ças infecciosas eram classificadas em teiro, devastando a Terra.

38
sos, seja em animais ou humanos,
Virose ARN49 variando apenas o tempo do avanço
Quando cheguei a Pequim, fui de- da doença. O vírus deixava o paciente
signado para integrar uma equipe de com febre alta, redução de frequência
cientistas responsável por estudar a cardíaca e surtos de insanidade, fa-
fundo as causas e origem da epidemia, zendo-o agonizar até a morte. Depois
em parceria forçada com cientistas de morto, um efeito único e quase in-
da Cerberus - que na verdade, agiam compreensível reiniciava o cérebro,
como nossos supervisores. dando “vida” novamente ao corpo.
Os mapeamentos cerebrais revelavam
Logo nos primeiros testes, des- que o tronco encefálico passava por
cobrimos que se tratava de um vírus uma mutação, convertendo-se em um
violento, único e praticamente indes- tipo de bateria adrenergética que man-
trutível. Algo elegante, letal e alta- dava impulsos tão poderosos ao longo
mente contagioso. Partimos do pres- do corpo que reanimava o cadáver,
suposto que a doença poderia ser um dispensando o funcionamento dos
caso massivo de contato com toxinas demais órgãos. Todas as outras regi-
alcaloides ou um novo tipo de lyssavi- ões do cérebro permaneciam desliga-
rus, ainda mais violento e contagioso. das, restando apenas os controles mo-
Essa teoria parecia fazer sentido, já tores básicos e alguns instintos primi-
que a causa da doença era justamen- tivos. Não restava sequer o senso de
te quando o vírus se instalava nos autopreservação ou noção dos limites
nervos periféricos, depois no sistema do corpo. Um infectado poderia, por
nervoso central e dali para as glându- exemplo, caminhar incessantemente
las salivares, de onde se multiplicava até os músculos das pernas explodi-
e propagava através da saliva, conta- rem e ele sequer teria noção do que
minando as pessoas por mordedura estava acontecendo.
ou simplesmente salivando em feri-
das abertas. Inicialmente chamamos a doença
de virose ARN49. E quanto mais es-
Os estágios de infecção eram exa- tudávamos sobre, mais parecia uma
tamente os mesmos em todos os ca- versão agressiva do vírus da raiva,

39
com uma trama ge-
nética extremamente
complexa e impossível
de ser compreendida em
tão pouco tempo. E por
mais assertiva que fossem
nossas teorias, nenhum
exame confirmava nos-
sas suposições, aliás, ne-
nhum exame apresen-
tava qualquer cepa
que conhecêssemos
completamente.
Aquilo não era algo
natural, não perten-
cia a nenhuma linha
lógica evolutiva. Era
como se tivesse sido
produzido em laborató-
rio, uma cria bastarda e
modificada para se tornar
letal e indestrutível, como
uma arma, o que nos levou a
desconfiar do interesse da Cer-
berus em nos deixar acuados e
monitorados.
As teorias de internet, de-
núncias, acusações, processos
e especulações a respeito do en-
volvimento da Cerberus - que to-
dos nós conhecíamos como corpo-

40
ração de interesse militar - se torna- cer, AIDS ou mesmo uma simples gri-
vam tão evidentes que começamos a pe, todos levaram muito tempo para
criar arquivos fantasmas que apenas que pesquisadores encontrassem um
nós tínhamos acesso. Infelizmente, tratamento básico para minimizar os
todo esse material se perdeu na eva- sintomas, precisaríamos de dez vezes
cuação da cidade. mais tempo e conhecimento para fa-
zer o mesmo com o ARN49.
Quando a China perdeu todas as
Composto Garanus frentes de resistência, os agentes da
Cerberus levaram nossos compu-
Chegamos a iniciar o processo de
tadores, espécimes e todo material
desenvolvimento de um soro que pu-
de pesquisa. Fomos roubados e não
desse reverter os sintomas do vírus.
Chamamos o projeto de Soro KVR13, podíamos fazer nada. Fui comple-
o Composto Garanus. Permanecemos tamente desligado da CICV e man-
trabalhando incessantemente, anali- dado de volta para o Brasil. A Cer-
sando dezenas de infectados, tentan- berus assumiu o desenvolvimento
do entender ainda mais como o vírus do Garanus, mas nunca chegaram a
funcionava e evoluía. Mas imagine concluir - ou pelo menos nunca di-
males mais conhecidos, como o cân- vulgaram a conclusão.

41
a rede hazma
Depoimento de Diego Xavier, o “Die-X”, paulista, estudante de cinema que residia
em Nova Iorque. Era estagiário de Edição de Vídeo na CNN Internacional e
colaborador ativo da Rede Hazma, o principal portal de internet de mídia audivisual
independente sobre o apocalipse pandêmico. Na CNN integrava a equipe responsável
por maquiar as notícias relacionadas a epidemia, sob ordens diretas da Time
Warner, que, segundo boatos, estava sendo coagida por “autoridades governamentais
discretas” direto de Washington.

Eu tinha saído de São Paulo para eram exatamente as mesmas: “A epi-


estudar cinema em Nova Iorque e demia de uma nova supergripe chinesa
acabei conseguindo um estágio se espalha do outro lado do mun-
na CNN como editor de ví- do”. A doença já tinha ma-
deo. Meu trabalho era ba- tado milhares de pessoas
sicamente fazer a triagem em poucos dias e estava
do material audiovisual disseminando vertigi-
que chegava dos estú- nosamente rápido. Na
dios correspondentes época, os cientistas acre-
internacionais e encami- ditavam que era um tipo
nhar para a ilha de edição, de fusão agressiva entre o
para ser analisado. A CNN vírus da raiva e meningite,
tinha dezenas de correspon- mas não existia nenhuma base
dentes no mundo todo, eu era da clara pra essa informação, eram ape-
equipe que cuidava do que chegava las especulações de biólogos e médi-
da Ásia e Oriente Médio. As notícias cos que eram divulgadas como fatos

42
comprovados. Os produtores arran- Depois do 11 de setembro, os norte
jaram até um grupo de virologistas -americanos se tornaram ainda mais
para corroborarem com o discur- paranoicos e melindrosos. O gover-
so dos redatores do jornal, além de no tentava constantemente recriar
uma declaração oficial da assessoria a imagem de país indestrutível para o
de imprensa da OMS, que explicava resto do mundo. Além disso, a ideia
os pormenores a respeito do vírus de nação intocável, temida e protegida
ARN49 e o desenvolvimento de uma de todo o mal, acalmava os cidadãos,
vacina pela Cerberus Lab. inspirava nacionalismo e fortalecia
a influência política. Era inadmis-
Os grandes O problema é que sível acreditar que o mundo estava
nós sabíamos que acabando e que os EUA não podiam
canais de aquilo era falso, te- fazer nada. Que as forças armadas,
notícias atro televisivo para ditas mais poderosas do mundo, es-
omitiam muita não alarmar a po- tavam em pleno declínio. A ordem
no estúdio era que: se não estivés-
informação e pulação. Os grandes
semos ganhando a guerra contra os
canais de notícias
criavam notícias omitiam muita infor- infectados, pelo menos diríamos o
otimistas sobre o mação e criavam no- contrário na mídia e evitaríamos o
caos generalizado.
desenvolvimento tícias otimistas sobre
o desenvolvimento de
de uma cura. uma cura. No entan-
O teor das notícias passava para os
telespectadores a sensação de que as
to, tínhamos acesso coisas estavam difíceis, mas que ain-
ao material  bruto antes dos editores da poderíamos manter o controle e
e sabíamos que a Cerberus não estava reverter o problema. Estávamos deli-
tendo sucesso em nenhum teste de beradamente despreparando a popu-
regressão de sintomas. Além disso, lação para o pior. Deixando todos cal-
pelo menos nos fóruns de internet, a mos e sentados em seus sofás, quan-
Cerberus era justamente o laborató- do deveríamos ter dito para fugirem
rio acusado de criar o vírus, tentando para o mais longe possível dos cen-
consertar o desastre que cometeu. tros urbanos. Cada frame era anali-

43
sado e editado apenas pela equipe em
que eu estagiava, com coordenadores O domínio da Hazma
de alta confiança da Time Warner e A Rede Hazma foi uma comuni-
supervisão constante de uns engrava- dade virtual - originalmente israelita
tados do governo, que respondiam di- - de jornalistas independentes, hacke-
reto a Washington DC. Inicialmente, rs, ativistas e colaboradores voluntá-
julguei serem da NSA - Agência de rios, como eu. Funcionava como uma
Segurança Nacional dos EUA. rede anarquista de compartilhamento
Antes de tudo audiovisual na de-
isso, eu já era cola- epnet, disponibili-
borador da Hazma zando publicamen-
e simplesmente não te toda e qualquer
podia continuar mídia relativa aos
contido diante da- eventos do apocalip-
quele circo. Apesar se pandêmico - de
vídeos a cópias de
de todo o cuidado
documentos con-
com a segurança,
fidenciais. Havia
teor e formato em
também uma série
que as notícias eram
gigante de fóruns de
divulgadas, acabei
discussão, hospeda-
me tornando um
dos na própria Haz-
tipo de traficante
ma e em inúmeros
de mídia dentro da outros sites apoiadores na internet
CNN, vazando uma informação ou convencional, de onde brotavam inú-
outra à qual tinha acesso, como en- meras teorias.
trevistas censuradas de diretores da
Cerberus, contaminação de celebri- A Hazma desmentia constante-
dades e líderes políticos, a corrente mente as notícias dos grandes canais
de suicídios no Vaticano, entre ou- de comunicação. Foi, ironicamente,
tras coisas proibidas que ninguém o portal de informações mais confiá-
jamais ficaria sabendo. vel nos últimos dias da Terra. A rede

44
sabia, por exemplo, que a origem não Em menos de 24 horas já contabiliza-
tinha sido na China, como divulga- vam dezenas de milhões de visualiza-
vam os jornais em todo o mundo. Era ções. Outros portais de internet e re-
possível traçar todo o caminho do ví- des sociais replicavam massivamente
rus baseado apenas na timeline das o conteúdo, se apropriando dos fatos,
mídias postadas, uma rota que come- sempre, em todas as ocasiões, se refe-
çava na África, passando pelo Oriente rindo aos infectados como “zumbis”.
Médio, até a Ásia, Por mais clichê que fosse o termo, era
Era impossível depois Europa e, de exatamente com o que eles se pare-
lá, todo o mundo. ciam. Aquela bizarrice toda dos filmes
esconder tudo que de Romero parecia real agora, estava
caía na rede. Os Um dos primei- acontecendo e não sabíamos como nos
ros vídeos postados
grandes veículos sobre isso foi o de
defender. No entanto, o termo não ga-
nhou força e popularidade por tanto
de comunicação um homem que fil- tempo quanto achei que ganharia. O
se renderam. mava uma criança assunto ficou sério demais para isso.
- aparentemente sua
As redações filha - brincando em A Hazma cresceu como formadora
dos jornais uma praça qualquer de opinião e se tornou uma rede gi-
enlouqueceram, de Tel Aviv, quando, gante e global. Havia colaboradores no
de repente, o clima mundo todo produzindo conteúdo in-
as notícias eram afetivo é quebrado cessantemente, vazando informações
incontroláveis e por uma correria e depurando teorias. Era impossível
incensuráveis. descontrolada ao esconder tudo que caía na rede. Os
fundo. Pessoas gri- grandes veículos de comunicação se
tavam perseguidas renderam. As redações dos jornais en-
por outras pessoas. O pai larga a câme- louqueceram, as notícias eram incon-
ra e corre para pegar sua filha, mas é troláveis e incensuráveis. Os canais
derrubado e canibalizado na frente da tradicionais de notícias, como a CNN,
criança, que segundos depois também não conseguiam mais maquiar os fa-
é atacada. O vídeo foi postado na Haz- tos. Os engravatados de Washington
ma com o título “Apocalipse Zumbi”. saíram de cena.

45
A teoria do
Vírus Cerberus
Nos fóruns da Hazma, nasciam
inúmeras teorias sobre a origem
da doença, a maioria relaciona-
da à Cerberus. A mais relevan-
te, popular e fundamentada,
ironicamente, soava como um
tipo de teoria da conspiração
maluca, mas, dado a quanti-
dade de indícios, fazia todo
o sentido. O laboratório teria
criado o Vírus ARN49 como
uma arma biológica financia-
da pelo Governo dos EUA. As
acusações apontavam para
uma trama complexa, assus-
tadora e surreal, mas eram
tantos documentos, grava-
ções de áudio e vídeo, que
poderíamos passar dias para
absorver tudo. Depoimentos
de ex-funcionários, farmacólo-
gos, biólogos, geneticistas e até
de um ex-diretor que, por um bom
tempo, abriu bastante a boca em tele-
jornais contra seus ex-colegas e desafe-
tos. Falava sobre o projeto de desenvolvi-

46
mento de uma superdroga testada em lacional em países subdesenvolvi-
vilas carentes no nordeste africano, dos. Persuasão e suborno de pessoas
Amazônia, Haiti, Filipinas, Índia e influentes dentro da ONU, OMS,
dezenas de outros lugares vulnerá- OTAN e diversas outras organiza-
veis. Operações ilegais envolvendo ções de importância global. Tudo
exploração farmacêutica e corrupção com aparente colaboração do Gover-
governamental e no e Forças Armadas dos EUA.
A devastação militar. Ilegalidade A devastação da Terra teria sido
da Terra teria em pesquisas botâ-
nicas, neurológicas
por meio de baterias de testes dessa
sido por meio e bioquímicas. Uso suposta arma biológica definitiva que
fugiu completamente do controle.
de baterias de hospitais, pre-
de testes (da sídios e até escolas O assunto foi discutido e divulga-
do de forma tão massiva, ganhou tan-
Cerberus Lab) como polos de tes- tos seguidores e colaboradores, que o
dessa suposta tes científicos, indo
contra qualquer ARN49 passou a ser chamado de “Ví-
arma biológica conceito de direitos rus Cerberus”, inclusive pelos jornais
definitiva humanos existente. impressos e TV.
que fugiu Contratação de mi-
completamente lícias de mercená-
do controle. rios na África, Ásia
e América Central
A falência
para captura de co- da Cerberus
baias humanas. Sequestros, assassi-
A pressão internacional sobre a
natos e torturas de adultos e crianças. Cerberus foi tão absurda, que moveu
Projetos nebulosos, desenvolvimen- centenas de processos de investiga-
to de bombas químicas de destruição ções a respeito da atuação de corpo-
em massa. Métodos monstruosos de ração. A assessoria de imprensa do
higienização social e contole popu- laboratório, obviamente, negou qual-

47
quer envolvimento com a pandemia,
alegando que trabalhavam com a co-
operação de vários hospitais e labora-
tórios subsidiados ao redor do mun-
do. Dizia ainda que a Cerberus estava
correndo contra o tempo no desenvol-
vimento de um soro contra o ARN49,
que teorias conspiratórias como essa eram
absurdas, irresponsáveis e paranoicas,
servindo apenas para intensificar o
pânico da população em um mo-
mento delicado de crise global. O
governo dos EUA, assim como
os militares, nunca se mani-
festou a respeito do apoio
financeiro às pesquisas
do laboratório ou so-
bre o desenvolvimen-
to de armas químicas,
porém, desligaram-
se completamente da
corporação.
Mas não importava o
quanto se defendessem,
para a opinião pública era
fato que a Cerberus tinha
criado a doença e deveria
pagar por isso. De forma
alguma poderia ainda ser
responsável pelo desenvol-
vimento de uma cura.

48
A OMS, antes posicionando-se projetos de pesquisa confiscados. A
alheia aos acontecimentos envol- responsabilidade pela continuidade
vendo a Cerberus, se colocou contra do desenvolvimento do soro passaria
a corporação e participou integral- para outras corporações. A Cerberus
mente dos processos de acusação e saiu de cena.
investigação. Exigindo que encer-
rassem todas as suas atividades e Voltei pro Brasil por meio de uma
fechassem suas portas, desativando operação de resgate da OTAN na
todos os laboratórios e suspendendo grande evacuação de Nova Iorque. Nos
qualquer tipo de pesquisa ou proje- levaram para campos de refugiados
to em que estivessem trabalhando. e, depois, cada estrangeiro para seu
Os diretores foram presos e todos os país de origem.

49
a guerra pandêmica
Depoimento de Marta D. Novaes, pernambucana que morava em Brasília, assessora
direta do ministro-chefe da Casa Civil. Participou da equipe estratégica do Gabinete
de Crise do Governo Federal Brasileiro, criada especialmente para combater os
eventos catastróficos do apocalipse pandêmico em território nacional.

Sou filha de militares, passei mi- qualquer indivíduo que manifestasse


nha vida toda transitando entre bases sinais de contaminação.
da Força Aérea Brasileira (FAB) e aca-
demias científicas. Consegui um Infelizmente, essas medidas cau-
currículo impecável e boas in- telares não foram suficientes
dicações que me renderam nem eficazes. Havia rotas
o cargo de assessora do de contrabando, tráfico,
Gabinete de Crise da Se- aeroportos clandestinos,
cretaria de Acompanha- estradas ilegais e diver-
mento e Estudos Institu- sos outros meios de es-
cionais do governo brasi- palhar o vírus para além
leiro. Quando a pandemia do controle de qualquer
se tornou uma ameaça para programa de proteção. O
o Brasil, fechamos aeroportos, Brasil é um país gigantesco
bloqueamos as fronteiras do país e e simplesmente não há meios de
criamos zonas de quarentena em to- monitorar migrações interestaduais
dos os focos identificáveis de vírus, ou de desempenhar qualquer medi-
por menor que fossem, confinando da estratégica de saúde pública dessa

50
magnitude em tão pouco tempo. O ní- senvolvimento de qualquer droga que
vel de disseminação viral estava além revertesse o estado de mortos-vivos dos
de qualquer escala epidêmica conhe- infectados. Cada nação deveria se de-
cida. Não existia protocolo para esse fender como pudesse, travando, lite-
tipo de situação.
ralmente, uma guerra contra os doen-
Na época, pouco antes da guerra, tes ou padeceria.
recebi pessoalmente o comunicado
da OMS - primei- Essa mensagem, replicada para
...não existia ro e último depois todas as autoridades do mundo que
cura, nem do escândalo da
Cerberus Lab. Era
ainda resistiam, deu início a guer-
ra pandêmica. Já não estávamos mais
tratamento, uma mensagem preocupados em salvar os doentes,
nem previsão de preocupante que mas em exterminá-los completamen-
desenvolvimento refletia a derrota
sistemática de vá-
te. Potências como EUA e Coreia do
de qualquer rios países contra Norte incluíram em suas estratégias
de combate o uso de armamento de
droga que os infectados em destruição em massa, como bombas
revertesse um curtíssimo es-
paço de tempo. nucleares.
o estado de Também falavam
Houve um tipo de parceria nuclear
mortos-vivos dos sobre como o mun-
do que, até então, internacional velada, em que um país
infectados. Cada entraria em uma ajudava outro país de interesse com in-
nação deveria se época de maior tervenções nucleares. O Brasil tam-
defender como controle de doen-
ças contagiosas, se
bém fez seus acordos e também ga-
rantiu suas bombas. Uma ideia que
pudesse... deparou com essa obviamente só poderia acabar em um
violenta onda de
vírus causando a falência de todas as desastre ambiental de proporções ini-
nossas forças de contenção. Foram magináveis. O mundo estava conde-
francos em avisar que não existia cura, nado a se tornar um lugar desolado,
nem tratamento, nem previsão de de- tóxico e perigoso.

51
atividades. Foi o ínicio dessa época
A fim dos meios negra em relação à informação. Es-
de comunicação távamos cegos, surdos e mudos para
o resto do mundo. Não fazíamos a
A queda frequente do forneci- menor ideia do que acontecia lá fora,
mento de energia elétrica era só o em outros países e continuamos sem
começo da falência total de servi- saber até hoje.
ços básicos.  As notícias que chega-
vam eram que, em diversas regiões,
grupos inteiros de trabalhadores de
redes elétricas desapareciam. Isso resolução de crise
amedrontava os demais funcioná- O Ministro-Chefe do Gabinete de
rios. A Agência Nacional de Energia Segurança criou uma força tarefa para
Elétrica (ANEEL) informava que, traçar um planejamento de conten-
devido à epidemia, muitos operários ção, como um tipo de evacuação em
estavam afastados de suas obriga- massa das cidades mais populosas
ções, resultando em longos cortes para regiões rurais. A reunião defini-
de abastecimento pela falta de ma- tiva aconteceu no Palácio do Planal-
nutenção, forçando a população a to, a pedido do Presidente da Repú-
tomar medidas de racionamento blica, juntamente com representantes
para poupar o maquinário que fi- da Casa Civil, Ministério da Defesa
caria sob pouca supervisão. Porém, e Comandos das Forças Armadas.
o mundo enfrentava uma crise sem Ficou decidido que, dada a natureza
qualquer precedente e o apagão defi- da crise e agressividade da pandemia,
nitivo era irremediável. Logo em se- que dizimava cidade por cidade em
guida, outros serviços básicos, como uma onda crescente vindo do Norte
fornecimento de água, gás, telefonia e Sudeste do país, seria ideal seguir o
e internet, também se foram. Con- exemplo de outros países na criação
sequentemente todos os canais de de zonas de contenção afastadas dos
rádio e TV também encerraram suas centros urbanos, que serviriam como

52
base de refugiados, protegidas
com o que sobrou do exército.
A população foi avisada para
abandonar suas casas em busca de
abrigo em terrenos elevados dis-
tantes, até que pelotões de resgaste
dessem encaminhamento para as
áreas protegidas mais próximas.
Imediatamente, as pessoas en-
traram em uma corrida deses-
perada de evacuação. O pânico
e desordem eram tão absur-
dos, que foi impossível evitar
os inúmeros acidentes, sa-
ques, arrastões e violência em
diversos níveis. Os infectados
eram como uma avalanche con-
sumindo rua por rua. Arrasavam
favelas - onde as pessoas eram mais
numerosas, tinham menor estrutura
e menos condições de se defender -
multiplicando assustadoramente a
quantidade de doentes. As rodo-
vias de escape ficavam entupi-
das de carros abandonados.
Grupos de sobreviventes
caminhavam para o mais
longe possível de estra-
das e cidades, buscando
abrigo e proteção em
áreas militares.

53
Guerra Urbana Zonas de
Enquanto as pessoas evacuavam contenção
as cidades, as forças armadas se con-
centravam nas capitais para comba- Objetivamente, as zonas de con-
ter diretamente as turbas de zumbis tenção eram adaptações em prédios
que se multiplicavam em escala im- públicos que ofereciam uma estru-
pressionante. Soldados marchavam tura de segurança minimamente
ganhando as ruas e estabelecendo adequada, como hospitais, escolas e,
perímetros de combate. Tanques, he- principalmente, presídios. O gover-
licópteros, aeronaves e todo o arsenal no federal pretendia alocar nesses
disponível foram designados para as
refúgios todos que não estivessem
áreas de conflito. As frentes de com-
bate montadas pela FAB tinham o apresentando os sintomas da doença
reforço de civis armados dispostos a e que não estivessem feridos. Os que
enfrentar as turbas intermináveis que estivessem precisando de cuidados
avançavam contra qualquer ser vivo médicos, por precaução, eram diri-
que pudessem detectar. Ninguém ti- gidos para clínicas móveis posicio-
nha ideia contra o que estava lutando. nadas próximo às saídas das cidades.
O inimigo não temia a ofensiva, não De lá eram levados a áreas de trata-
se intimidava com rifles, morteiros ou mento, adaptadas em acampamen-
granadas. Nunca recuava.
tos ou hospitais públicos em cida-
Os soldados e civis extermina- des no interior dos Estados. Lá as
vam um número incontável, no en- pessoas fariam baterias de exames
tanto, o som das armas e explosões e passariam por triagens. Os que
atraía cada vez mais inimigos. Para estivessem limpos eram encaminha-
cada baixa nas nossas fileiras era um dos para as zonas de contenção, os
monstro a mais no lado de lá. Houve que estivessem contaminados eram
pouquíssimas vitórias e, na maioria confinados e, após a transformação,
delas, poucos retornaram. exterminados e cremados.

54
Na época, quando abandonamos Tínhamos um transmissor de rá-
Brasília da maneira mais conturbada dio portátil e enviávamos repetições
possível. O Ministro Chefe e o Presi- de mensagens pelo menos quatro ve-
dente da República foram deslocados zes por dia, na tentativa de contatar
por helicóptero para bases militares mais sobreviventes e indicar Anhan-
no Nordeste. Eu e os demais funcio- guera como possível lugar seguro.
nários, cerca de 50 pessoas, fomos Além disso, durante o percurso, de-
para Base Anhanguera, adaptada em senvolvemos métodos de comunica-
uma das penitenciárias federais de ção simples, como marcar o asfalto
segurança máxima do Centro-oeste. de rodovias, placas e paredes de pré-
Estávamos distribuídos em cinco ca- dios com sinais indicando a situação
minhões do exército seguindo pela de cidades próximas.
rodovia que ligava a Capital Federal
a Minas Gerais. No entanto, por con- Quando saqueamos cidades infes-
ta das estradas bloqueadas, seguimos tadas em busca de alimentos, água,
a pé, em uma peregrinação árdua que remédios, pilhas, material de limpe-
levou semanas até o destino. za, armas, munição e outros equipa-

55
mentos, descobrimos o quanto o ar que, de certa forma, foram influentes
ao redor de grandes aglomerações de e importantes para manutenção e pla-
infectados pode ser tóxico e envene- nejamento estratégico e administrati-
nar o cérebro, causando além de do- vo do lugar, além de envolvidos dire-
res horríveis, alucinações e surtos de ta ou indiretamente com a Cerberus e
agressividade. O uso de proteção res- no processo de fim do mundo.
piratória em ambientes próximos a
infectados se tornou uma obrigação.
Quando finalmente chegamos a
Anhanguera, havia mais de mil re-
fugiados, soldados e civis trazidos de
diversas cidades do Brasil e países
vizinhos. Uma porção de pessoas

56
57
Terra Devastada é sobre esperanças, traumas, perdas,
riscos e consequências. Sobre sobreviver em um mundo
arrasado por uma pandemia apocalíptica que transfor-
mou a humanidade em monstros débeis, tóxicos e car-
niceiros. Sobre o desespero dos incautos remanescentes
da Terra, fragilizados, exauridos e beirando a insanida-
de. Sobre cruzar ermos contaminados, cidades devas-
tadas, zonas insalubres, territórios desolados e trilhas
nebulosas para além do que se pode imaginar. Sobre
estar perdido entre mortos-vivos sedentos por carne fres-
ca e milícias de mercenários desumanos que farão de
tudo para pilhar qualquer viajante desavisado. Sobre se
tornar uma pessoa pior, calejada, capaz de desapegar de
tudo que ama para se manter vivo por mais uma noite.
Sobre lidar com o mundo depois do fim do mundo.

58
Terra Devastada é um jogo narra-
tivo, um modelo de construção de Você não
histórias colaborativas que converge
conceitos de Role-Playing Games e
é um herói
Story Games. Os jogadores assumem Na realidade de Terra Devastada,
os papéis de personagens protago- ser um dos personagens principais
nistas de uma história, determinan- não significa necessariamente ser
do seus pensamentos, falas e um herói, na verdade, não significa
Cada ações. Criam narrativas co- sequer que sua existência seja mais
letivas em um universo ima- importante do que uma boa lata de
decisão é ginário distópico, no qual a conservas fora do prazo de validade.
uma linha Terra foi devastada por mor- Você não é especial, não tem poderes
extraordinários, não será o salvador
tênue entre tos-vivos. Cada escolha, cada
improviso, cada decisão, do mundo e muito menos receberá
esperança e pode (ou não) mudar comple- admiração pelas suas supostas ten-
desolação, tamente os rumos da história. tativas de heroísmo. Provavelmente,
na maior parte do tempo, não vai ga-
felicidade A mecânica do jogo é sim- rantir nem a própria segurança.
e desgraça, ples e arquitetada para tornar
tudo fluido, livre, imagina- O mundo pandêmico é um lugar
vida e tivo e arriscado. Sem obstá- perigoso, venenoso e de medo cons-
morte. culos criativos, burocracias, tante. Você terá, inevitavelmente,
estereótipos ou metodismos que tomar atitudes ingloriosas para
desnecessários. As decisões dentro se manter vivo por mais alguns dias
do jogo são tensas e podem trans- sem perder a humanidade que ain-
formar completamente a vida de um da lhe resta. Vai fazer sacrifícios que
personagem de uma cena para outra. nem sempre estará disposto a pagar.
Cada decisão é uma linha tênue en- E por mais forte que possa parecer,
tre esperança e desolação, felicidade não será fácil puxar o gatilho e nem
e desgraça, vida e morte. sempre haverá uma segunda chance.

59
Grupo de jogadores Dados personalizados
Jogam de duas a uma quantidade Opcionalmente, Terra Devastada tem
máxima de pessoas em que se possa um conjunto de dados personalizados,
manter uma boa conversa sem bal- em que ícones substituem números pares
búrdia. Uma dessas pessoas vai ser de dados comuns de 6 faces - apenas
o Narrador, um tipo de anfitrião da números pares são válidos no jogo.
história, conhecedor pleno das regras
de Terra Devastada.

Material para jogar


Para jogar Terra Devastada é neces-
sário que cada jogador tenha uma có-
pia da Ficha de Personagem (a matriz
está no final deste livro), vários dados
comuns de seis faces, lápis e borracha.

sessões de jogo
Uma história de Terra Devastada
pode demorar horas, dias, semanas ou
meses antes que chegue ao fim. Cla-
ro que, depois de algum tempo, se a
história ainda não tiver acabado, pode
ser interrompida em algum ponto in-
teressante, e ser retomada de onde pa-

60
rou em outro dia, em uma nova sessão A criação de personagem segue
- Como episódios de uma série de TV cinco passos básicos, resumindo-se
ou capítulos de um livro. em listar aspectos relevantes a respei-
to de sua persona. Transcreva essas in-
formações para a Ficha de Personagem
que se encontra no final deste livro.
O Narrador
Um dos integrantes do grupo as-
sume o papel de Narrador da história,
#1 Crie um nome e, se quiser,
complemente com uma ou
mais alcunhas.
alguém que conheça as regras conti-
das neste livro, que se responsabili-
zará por iniciar a história, introduzir
os desafios, descrever situações, am-
#2 Crie até 12 Características
- aspectos fixos do
personagem - pág. 64.
bientes, mediar as regras e tudo mais
que os outros jogadores precisam para
atuar com seus personagens. #3 Crie 1 Condição inicial -
aspectos temporários do
personagem - pág. 68.
O Narrador também é o responsá-
vel por criar e controlar personagens
antagonistas, coadjuvantes e figurantes. #4 Crie 1 Tormento inicial - um
trauma psicológico que
assombra o personagem ao
longo da história - pág. 73.
Personagens
Os personagens são todos os
#5 Opcionalmente, crie 1
Condição inicial a mais para
cada 1 ponto de Convicção
seres capazes de agir, reagir e in-
teragir na história. São os sobre- marcado - pág. 90. Ou crie
viventes, infectados (pág. 101) ou 1 Característica a mais para
animais (pág. 71) que se fazem rele- cada 1 ponto de Convicção
vantes durante o jogo. obstruído - pág. 93.

61
#1 Crie um nome e, se quiser,
#2 Crie até 12 Características.
complemente com uma alcunha. (pág. 64)

#3
Crie 1 Condição inicial.
(pág.68)

#4
Crie 1 Tormento inicial.
(pág. 73)

#5 Opcionalmente, crie 1 Condição inicial a mais para


cada 1 ponto de Convicção marcado (pág. 90).
Ou crie 1 Característica a mais para cada 1 ponto de
Convicção obstruído (pág. 93).

62
O Protagonista O Antagonista
Um protagonista é um dos perso- Um antagonista é um personagem
nagens principais da história, criado opositor aos protagonistas, criado e
e controlado por um jogador - sobre controlado pelo Narrador. Faz parte
o qual o Narrador não tem nenhum do elenco de vilões da história - infec-
poder de decisão. O grupo de prota- tados, animais ou outros sobreviven-
gonistas - personagens dos jogadores - tes mal-intencionados - concebidos
com o propósito de mover a história
compõem o elenco central do univer-
contra os personagens dos jogadores.
so do jogo, com toda a trama girando
em torno deles. Os jogadores definem
pensamentos, personalidade, aparên-
cia, anseios e todo e qualquer elemen- O Figurante
to de persona que seja interessante no Um figurante é um personagem
contexto do jogo. decorativo criado e controlado pelo
Narrador - infectados, animais ou ou-
tros sobreviventes. Faz parte do elen-
O Coadjuvante co de personagens anônimos, gené-
ricos e superficiais, servindo apenas
Um coadjuvante é um personagem para compor o ambiente como pano
neutro ou favorável aos protagonistas, de fundo das cenas, criando intera-
um amigo, parceiro ou apoiador mis- ções rasas (quando necessário) sem
terioso, criado e controlado pelo Nar- nenhuma importância real para a tra-
rador. É um personagem secundário ma da história.
- outro sobrevivente, animal ou até,
em casos raros, um infectado - que, de Um figurante não precisa necessa-
alguma forma contribui para o pro- riamente ter uma ficha de personagem,
gresso dos personagens dos jogadores saiba mais sobre personagens expres-
na trama da história. sos na pág. 124.

63
conceitos
guém”; “Preso por matar um homem”;
Características “Não saco porra nenhuma de computa-
As Características são aspectos fi- dores”; “Bom de briga”; “Cara de mal”;
xos que estabelecem a identidade do “Não importa o bem que se faça, gente
personagem. Podem ser palavras ou negra e pobre é tratada como bandido”.
frases que definem suas motivações, Outro personagem, militar famoso
experiências, aptidões, filosofias, co- por sua bravura, mas com sérios pro-
nhecimentos, aparência, peculiarida- blemas de relacionamento familiar,
des ou quaisquer outras coisas que poderia ter as seguin-
sejam interessantes e relevantes para tes Características:
sua atuação na história, seja genérico “Bravo”; “Vou até o fi-
As Características
ou especifico, chulo ou nobre, direto nal para cumprir minha são aspectos fixos
ou indireto. missão, não importa as que estabelecem
consequências”; “Levo
meu trabalho a sério”; a identidade do
Exemplos:
Um personagem ex-presidiário “Cicatriz no peito: fe- personagem.
que ganhava a vida como estivador rimento de guerra”;
nas docas da cidade, poderia ter as se- “Herói de Guerra”; “Perito em comba-
guintes Características: “Estivador”; te armado e desarmado”; “Ranzinza”;
“Quero ser um homem direito”; “Conhe- “Conservador”; “Influente entre os mi-
ço os traficantes da cidade”; “Sobrevivi litares”; “Engenheiro mecânico”; “Por
a um dos piores presídios do país”; “Amo minha causa, minha filha saiu de casa
Rosângela, minha namorada”; “Aprendi e nunca mais deu notícias”; “Esperança
a passar fome”; “Não dependo de nin- em um dia conhecer meus netos”.

64
Características de que não sejam redundantes. Por
Redundantes exemplo: Um personagem tem as
Características “Sou bom com armas
Um personagem não pode ser com- de fogo”, “Adoro pistolas” e “Magnum
posto por Características que tenham 44, minha pistola preferida”. Se esse
a mesma definição conceitual de ou- personagem atirar com uma pistola
tras Características já presentes, mes-
Magnum 44, envolve as três Caracte-
mo que possuam títulos diferentes.
rísticas citadas, visto que a ação tem a
Por exemplo: “Uso armas de fogo” e
“Uso armas de pólvora”; “Pavio Curto” ver com todas. Se usar qualquer outro
e “Me irrito com facilidade” etc. tipo de pistola, envolve a primeira e
segunda Característica, se usar um ri-
fle, envolve apenas a primeira.
Características
Contraditórias
Características
Um personagem não pode ser com- Compostas
posto por Características que des-
mentem outras Características, Um personagem pode criar Carac-
como, por exemplo: “Gordo” e “Ma- terísticas que representem dois ou
gro”; “Alto” e “Baixo”; “Rosto belo” e mais conceitos simultaneamente, tor-
“Rosto horrível”, “Atleta” e “Sedentá- nando-a mais abrangente. Por exem-
rio”, “Azarado” e “Sortudo” etc. plo: “Baixinho invocado”; “Chato, feio,
porém charmoso”; “Bonitinha, mas or-
dinária” etc. No entanto, cada Carac-
Características de terística composta, independente da
especializações extensão de seu conceito e da quanti-
Pode-se criar uma ou mais Carac- dade de situações em que possa se en-
terísticas que representem especia- volver, ainda conta apenas como uma
lizações de outra Característica, des- Característica em cada situação.

65
Alterar,
excluir ou
adicionar
Características
No decorrer do jogo,
com base nas ações e
acontecimentos em tor-
no do personagem durante
a história, o Narrador pode
adicionar, retirar ou alterar
Características, justificando
algum tipo de aprendizado, ex-
periência ou situação peculiar
que mudou ou adicionou algum
aspecto do personagem. Por
exemplo: Um determinado per-
sonagem passou a última sessão
de jogo dirigindo um caminhão
em situações de risco, transpor-
tando um grupo de sobreviven-
tes por uma rodovia infestada de
zumbis e diversos outros obstácu-
los, como carros abandonados no
asfalto, entulhos sobre a pista e pon-
tes deterioradas. Apesar das dificul-
dades, conseguiu ser bem-sucedido
inúmeras vezes em diversas ações,
mesmo nunca tendo antes dirigido
um caminhão. O Narrador pode ava-

66
histórico do personagem
Às vezes, na concepção do personagem, para evitar uma lista de
Características e Tormentos dissonantes ou convenientes demais, é necessário
justificar algumas coisas com um breve histórico sobre a vida do personagem,
reunindo em um texto sucinto os acontecimentos e experiências interessantes
desde sua infância até o momento inicial da história.
Exemplo: Rodolfo Menezes se formou em advocacia aos 23 anos de idade, mas o fez
apenas para satisfazer as vontades do pai, no fundo, sempre detestou advogar. Ele era de
família rica e sempre foi apaixonado por carros e motos velozes. De fato, adora dirigir
velozmente. Mesmo sendo um rapaz de péssima aparência e despreocupado com etiqueta,
casou-se aos 25 com o amor de sua infância, uma moça bonita chamada Eliza. Com ela
teve um filho chamado Felipe, de quem sente um grande orgulho. Frequentava o clube de
arqueirismo apenas para acompanhar seu pai, mas se apaixonou pelo esporte. Participou
de vários campeonatos e ganhou alguns títulos da liga regional. (...) quando o apocalipse
chegou, o seu pai não conseguiu sobreviver aos primeiros surtos de zumbis. A morte dele
criou em Rodolfo um ódio mortal pelas criaturas. Desde então, Rodolfo e sua família
viajam por rodovias em busca de um lugar seguro.
Com base nesse histórico, o personagem poderia ter as seguintes
Características: “Amo minha família e sou capaz de fazer qualquer coisa para
protegê-la.”; “Advogado Frustrado”; “Família Rica”; “Paixão por carros e motos”;
“Adoro dirigir em alta velocidade”; “ Feio e deselegante”; “Eliza, amor de minha
vida”; “Felipe, meu filho, meu orgulho”; “Campeão regional de arqueirismo”; “Ódio
por zumbis”; “Saudade do meu falecido Pai”; “Esperança em encontrar algum lugar
seguro”; e o Tormento: “Vi meu pai sendo canibalizado por zumbis”.

67
liar a situação e, se achar realmente copeta” e “Usando Coletes à prova de
relevante e justo, pode conceder ao balas” ou quaisquer outros termos ou
personagem uma nova Característi- expressões que indiquem que ele está
ca, como “Condução de Caminhões”. usando esses equipamentos. Outro
personagem que tenha sido atingido
por tiros no ombro esquerdo, ganha a
Condição “baleado no ombro esquerdo”
Condições ou qualquer outro termo ou expres-
são que indique o ferimento. Outro
As Condições são aspectos tempo- personagem que decida montar em
rários que estabelecem uma situação seu cavalo e atropelar uma turba de
passageira do personagem. São sen- infectados, ganha a
timentos, sensações, humores, feri- Condição “Montado As Condições
mentos, porte de equipamento, con- a cavalo” ou qualquer são aspectos
sequências de determinadas ações outro termo ou ex-
favoráveis ou desfavoráveis etc. pressão que indique
temporários
sua montaria. que estabelecem
Exemplos: Um personagem não
come há mais de dois dias, por isso Certas
uma situação
sequên-
ganha a Condição “Faminto” ou qual- cias de ações podem passageira do
quer outro termo ou expressão que exigir a aplicação de personagem.
sirva para dramatizar a necessidade inúmeras Condições
de comer. Outro personagem acaba ao mesmo tempo.
de ouvir um discurso encorajador que Por exemplo: Um personagem foge
o emociona bastante, por isso ganha de uma turba de infectados, falha ao
a Condição “Confiante” ou qualquer tentar pular do telhado de uma casa
outro termo ou expressão que sirva para outra, despenca cerca de 20m
para dramatizar o quanto ele foi es- direto para uma pilha de sacos de
timulado pelo discurso. Outro per- lixo. O Narrador determina que essa
sonagem sacou sua escopeta e vestiu queda não foi capaz de matá-lo, mas
seu colete à prova de balas, por isso agora está com o corpo completa-
ganha as Condições “Armado com es- mente escoriado e com uma das per-

68
nas quebradas - o jogador pede para ra no braço esquerdo”, adquirida depois
que seja a perna direita, o Narrador de um acidente de motocicleta, pode
concorda. Sendo assim, o persona- durar até 30 dias ou mais para sarar
gem recebe as Condições: “Perna e desaparecer. A Condição “Sem Pa-
direita quebrada” e “Escoriações pelo ciência com idiotas”, adquirida depois
corpo todo”. Além disso, o Narrador de uma longa convivência com desa-
também determina que, depois da fetos, pode ser um sentimento que vai
correria e do resultado do acidente, durar por meses ou anos.
também recebe as Condições “Can-
sado” e “Com muita dor corporal”. O
Narrador poderia encontrar ainda
mais motivos para impor mais Con- Condições semelhantes
dições, como “Tonto”, “Amedrontado” a Características
e “Manco”, mas entende que o per-
sonagem já está bastante penalizado Pode acontecer do personagem
pelas consequências da situação. receber uma Condição com o mes-
mo significado conceitual de uma
de suas Características, criando um
Duração das Condições tipo de redundância acidental. Nes-
se caso, a Característica fica meca-
Condições podem durar alguns se- nicamente nula, até que a Condição
gundos, ou horas, ou dias ou o tempo
suma. Por exemplo: um determina-
que for necessário, relevante ou con-
do personagem tem a Característica
veniente. Por exemplo: a Condição
“Muito cansado”, adquirida depois de “Preguiçoso” e, por conta de alguma
bastante esforço físico, desaparece no situação dentro da história, ganha a
momento em que o personagem des- Condição “Preguiça”. Como as Con-
cansa por algumas horas. A Condição dições são mais imediatistas, a utili-
“Bêbado”, adquirida durante uma zação da Característica no sistema é
noite de farra, pode desaparecer na nula por estar temporariamente re-
manhã seguinte. A Condição “Fratu- presentada pela Condição.

69
Condições reduntantes
e Intensificadas
Um personagem não pode re-
ceber outra Condição que tenha a
mesma definição conceitual de uma
Condição já presente, mesmo que pos-
suam títulos diferentes. No entanto,
nesse caso, é possível intensificar
a Condição anterior, tornando-a
mais rígida ou mais dramática.
Por exemplo: Um determinado
personagem estava “Machucado”,
acabou se machucando novamen-
te, exatamente da mesma forma e
no mesmo lugar, agora está “Ferido
Gravemente”. Outro personagem es-
tava “Apreensivo”, continuou passando
pela mesma situação de tensão, agora
está “A beira de um colapso nervoso”. Ou-
tro personagem estava “Inspirado”, con-
tinuou presenciando situações de
heroísmo e humanismo, agora
está “Com a fé totalmente renova-
da”. Outro personagem, antes es-
tava “Bêbado”, continuou beben-
do incessantemente, agora está em
“Coma alcoólico”.

70
Animais
Animais são personagens antagonistas, coadjuvantes ou figurantes,
totalmente atuantes dentro do jogo. Possuem suas próprias Características,
Condições e Tormentos, baseados no contexto de sua espécie. O processo
de criação de um personagem animal é exatamente o mesmo de um
personagem convencional. Por exemplo: Um cão chamado Rex poderia ter
as Características “Fiel ao dono”; “Invada meu território e eu te mordo”; “Dentes
fortes”; “Faro apurado”; “Audição Apurada”; “Pressentir o perigo”; “Adoro carinho
atrás da orelha”; “Aversão por gatos”; “Medo de aparadores de grama”; “Ódio
por carteiros”; “Pata esquerda ruim” e “Adora o cheiro de lixo do vizinho”. Ter
as Condições “No cio” e “Infestado de pulgas”. Ter o Tormento “Sobrevivi ao
atropelamento do caminhão de lixo”
Animais que possuam faculdades neurológicas suficientes para que tenham
consciência emocional, como mamíferos, aves etc. usam Convicção (pág. 90)
como uma representação de senso de si mesmo. Uma capacidade instintiva
de superação diante de uma situação de conflito, medo, fome, dor etc. Por
exemplo: um rato acuado pode saltar no pescoço de uma pessoa e causar
ferimentos graves. Um gato perseguido por um cão, pode tomar impulso
suficiente para saltar distâncias impressionantes.
Um animal também pode se tornar psicologicamente desestabilizado e ser
assombrado por seus Tormentos (pág. 94). No entanto, as situações de horror
(pág. 91) não estão ligadas ao conceito de moralidade humana, mas a conceitos
como abandono, maus tratos, acidentes, disputas com outros animais e,
dependendo da espécie, desestruturação familiar ou de grupo. Por exemplo:
ratos e galinhas sentem empatia suficiente para se colocar no lugar de outros
bichos e sentirem pena ao vê-los sofrer. Elefantes, cães, raposas e chimpanzés
vivenciam alegria, luto, depressão e lamentam a perda dos amigos.
Outros Animais que não possuam essa consciência emocional não usam
Convicção e são totalmente indiferentes a situações de horror.

71
Condições a Condição “Usando revólver”. Outro
Contraditórias personagem, que estava cavando uma
trincheira com uma pá, é surpreen-
Se o personagem receber uma dido por infectados e passa a usar a
Condição com conceito totalmente pá como se fosse uma arma, ganha a
contrário a outra que ele já tenha, a Condição “Empunhando uma pá como
nova Condição substitui a anterior. arma”. Outro personagem encontra
Condições mais recentes são sempre um escudo de corpo da polícia e deci-
prioridades. Por exemplo: Um deter- de usá-lo para se proteger de possíveis
minado personagem tem a Condição
ataques, ganha a condição “Usando
“Sentindo-se inseguro”, mas algum
escudo de corpo da polícia”. Outro per-
evento dentro da história lhe deu a
sonagem puxa seu machete da mochi-
Condição “Sentindo-se seguro”, a nova
la e ganha a Condição “Empunhando
Condição encerra automaticamente a
machete”. Outro personagem coloca
Condição anterior por ter um concei-
em sua cabeça um capacete de mo-
to diretamente oposto.
tociclista antes de arrancar com sua
moto, ganha a condição “Usando ca-
pacete de motociclista”.
Condições de uso
de equipamento As Condições, neste caso, duram
até que o jogador declare que o perso-
Se o jogador declarar que o perso-
nagem não está mais usando o item.
nagem está usando um determinado
equipamento, como uma arma, ferra-
menta, item de proteção ou qualquer
outro objeto relevante para a ação, condições definitivas
ganha uma Condição que indique e características
isso. Por exemplo: um personagem Quando uma Condição tem, por
puxa seu revólver do coldre e ganha conceito, duração definitiva, ela se

72
torna automaticamente uma Carac-
terística. Por exemplo: um persona-
gem, que tinha uma ferida gangre-
nada na perna esquerda, precisou
amputá-la. Como isto é uma operação
que gera uma consequência de cará-
ter permanente, anota-se como uma
Característica, neste caso: “Perna es-
querda amputada”.

Tormentos
Os Tormentos são aspectos
fixos - como Características es-
peciais - que representam ex-
periências traumatizantes que
assombram o personagem ao
longo da história, estão perma-
nentemente relacionados ao de-
sequilíbrio psicológico e instabilida-
de emocional. São vivências violentas,
testemunhadas, executadas ou sofridas,
que de alguma forma o fizeram perder
um pouco a fé na humanidade ou em
sua própria noção de civilidade e
racionalidade. Por exemplo: “Vi
uma mulher ser estuprada no giná-
sio da escola”; “Vi meus vizinhos
serem canibalizados por infec-

73
tados”; “Quando era criança, ajudei
meus amigos a enforcar um cachorro”;
“Matei meu filho infectado antes que ele
Milícias
se tornasse um monstro”; “Fui seques- Uma mílicia, em Terra Devastada,
trada e mantida em cativeiro por quase é um agrupamento de sobreviventes
um ano”; “Quase morri vítima de um que segue apenas as próprias regras
ataque de lobos” etc. ou impõe sua nova razão de mundo.

A estabilidade dos Tormentos é Não existem mais leis ou gover-


diretamente influenciada pela de- nos que estabeleçam qualquer tipo
de ordem. Algumas milícias vivem
generação da Convicção do persona-
dentro do próprio conceito de justi-
gem (pág. 94).
ça e se tornam comunidades fecha-
das, outras são declaradamente de-
generadas e saem pelas estradas para
Convicção se aproveitar de viajantes incautos,
mesmo que isso inclua subjugar, tor-
A Convicção é a medida de auto- turar, roubar ou matar. É, por exem-
consciência, força de vontade, auto- plo, Uma gangue de motoqueiros
confiança, autopreservação, fé e espe- agindo como piratas de rodovia; um
rança. É um ímpeto motivacional, que
culto religioso que sacrifica pessoas
impulsiona um personagem a conti-
nuar lutando pela própria vida, pelos em nome de uma divindade pagã;
próprios valores e pelo bem-estar das uma tropa de ex-militares renegados
pessoas que preza. É o que o estimula que agem como mercenários; uma
a enfrentar dificuldades, ignorando o comunidade de interioranos xeno-
medo e acreditando que um obstáculo fóbicos que pregam o neo nazismo;
pode ser superado. uma seita de fanáticos cristãos que
escravizam outros sobreviventes,
A Convicção é representada no um grupo de justiceiros que viaja
jogo por uma escala de 0 a 12 pontos
pelo país enforcando infectados, etc,
(no rodapé da ficha de personagem), que

74
pode diminuir no decorrer do jogo de dores, medos e traumas, é passível de
acordo com o envolvimento do perso- Convicção. Isto é, usam a Convicção
nagem em situações de horror (pág. 91). para melhorar seus testes (pág. 90) e,
Essa redução influencia diretamente a consequentemente, são afetados por
estabilidade dos Tormentos, tornando situações de horror (pág. 91).
psicologicamente frágil e menos passí-
vel do uso de Convicção (pág. 94). Personagens indiferentes a emo-
ções, sensações ou sentimentos, ou que
não tenham consciência de si - como
os infectados, algumas espécies de ani-
Personagens pAssíveis e
mais e raros humanos com problemas
impassíveis de convicção psicológicos - são impassíveis de Con-
Qualquer personagem - humanos e vicção. Isto é, a Convicção é anulada
animais - que sejam conscientes de si, e, consequentemente, não são afetados
afetados por emoções, sentimentos, por situações de horror.

75
Resoluções
personagem: “Ando pelo corredor da se-
Cenas ção de enlatados, dou passos cuidadosos
Uma cena é uma sequência de para fazer o mínimo de barulho possível.
ações que um personagem realiza para Minha arma está em pu-
alcançar um determinado objetivo ou nho e engatilhada. Presto Uma cena
atenção em tudo para não
superar algum conflito (ou sequência
ser surpreendido”. Quan-
é uma
de conflitos) imposto ou descrito pelo
Narrador. São gestos, falas, combates, do termina sua des- sequência de
pensamentos, movimentos ou qual- crição, passa a palavra ações que um
quer outro ato que o faça agir ou inte- para o outro jogador. O personagem
outro jogador descre-
ve sua cena: “Vou logo realiza para
ragir dentro da história, de uma briga
ferrenha a uma conversa amigável.
atrás dele, protegendo sua alcançar um
Exemplo: O Narrador descreve a retaguarda. Coloco cal- determinado
seguinte situação: “Vocês se encontram mamente na mochila al-
na frente de um supermercado abandona- guns enlatados”. Depois
objetivo ou
do. As portas de vidro estão trincadas e que os dois jogadores superar algum
as fechaduras destrancadas. Os produtos declaram suas cenas, a conflito.
nas prateleiras estão empoeirados. Apa- palavra volta para Nar-
rentemente ninguém entra aqui há me- rador impor uma nova situação. O
ses.” Ao terminar a descrição, passa Narrador decide tornar esse ponto da
a palavra para os jogadores. Um dos história mais perigoso e declara: “Vo-
jogadores declara uma cena para seu cês notam um infectado inchado, usando

76
um uniforme do supermercado. Era ob- fúgio está seguro por mais uma noite, a
viamente um dos funcionários. Ele está luz fraca das velas dá um tom de me-
de costas para vocês, em pé, diante de um lancolia ao ambiente. Tudo parece em
anúncio de carne enlatada, balançando o paz”. Baseado nisso o jogador decla-
corpo de um lado para outro como se es- ra: “Meu personagem, cansado, tirou o
tivesse em transe”. A palavra volta para colete grosso, tomou um banho gelado,
os jogadores criarem mais cenas para bebeu algumas doses de whisky, acendeu
lidar com essa nova situação. Eles po- um charuto e foi para a varanda admirar
dem tentar atacar o infectado, podem a noite”. Note que não existe nenhum
ir embora, podem tentar continuar fator complicador relevante (ou inte-
despercebidos e explorar mais o su- ressante) que atrapalhe o andamento
permercado ou qualquer outra atitu- da cena, não há dúvidas,
de que lhes pareça interessante e dê não há obstáculos, não Se há
continuidade à história. há complicações, então
simplesmente acontece.
dúvidas
quanto ao
Rodada de cenas desfecho de
Cada jogador cria uma cena por Cenas Conflituosas uma cena,
vez, na ordem que o grupo achar Se há dúvidas quanto (...) há
mais conveniente. Depois que todos ao desfecho de uma cena, necessidade
tiverem criado suas cenas, termina a dificuldades que o per- de um teste
rodada, e dá-se início a outra. sonagem precisa superar
para seguir adiante na de dados
história, há necessida-
de de um teste de dados para saber se o
Cenas triviais personagem vai ser bem-sucedido ou
Se não há dúvidas quanto ao des- não em seus objetivos. Por exemplo: o
fecho de uma cena, o jogador sim- Narrador diz a um dos jogadores: “O
plesmente declara “o que” e “como” seu personagem está cercado por uma tur-
acontece. Por exemplo: o Narrador ba de infectados em um beco sem saída. Os
descreve a seguinte situação: “O re- infectados avançam com o óbvio objetivo

77
de canibalizá-lo. ” O jogador cria uma que ele queria ou se tudo deu errado e
cena declarando como o seu persona- houve um desfecho frustrante.
gem pretende lidar com esta situação,
Declara-se o objetivo da cena, isto
descrevendo seu objetivo e como pre-
é, o que o personagem quer realizar.
tende alcançá-lo: “Meu personagem vai
Depois se declara as consequências
correr contra os primeiros infectados da
esperadas caso se
turba e empurrá-los, abrindo espaço para consiga alcançar esse
fugir. ” O Narrador considera que a objetivo. Exemplos: Elege-se o
cena tem certo nível de complicação O objetivo é acertar maior número de
e o objetivo levanta dúvidas quanto a cabeça de um infec- Características,
ao desempenho do personagem, en- tado com uma panela,
tão pede um teste de dados para saber a consequência é der- Condições
se o personagem vai conseguir ou não rubá-lo. O objetivo e Tormentos
realizar a cena. Dependendo do resul- é forçar a fechadura
tado, a cena pode ter acontecido exata- de uma porta, a con-
que podem ser
mente como o jogador a descreveu ou sequência é abri-la. contextualizados
ter acontecido de forma terrivelmente O objetivo é escalar de forma
frustrante. um muro alto, a con-
sequência é chegar ao relevante nas
outro lado. O objetivo situações
é ameaçar um grupo da cena
Teste de dados de sobreviventes com
um discurso de ódio, a
Resolver uma cena conflituosa con- consequência é intimidá-los. O objeti-
siste em rolar um punhado de dados vo é atirar no peito de um adversário, a
baseados nas Características e Condi- consequência é matá-lo.
ções relevantes para se alcançar um
determinado objetivo. O resultado Elege-se o maior número de Carac-
da jogada vai definir se o personagem terísticas, Condições e Tormentos que
conseguiu ser bem-sucedido (ou não) podem ser contextualizados de forma
em superar os conflitos da cena. Isto relevante nas situações da cena - seja
é, se as coisas aconteceram do jeito de forma vantajosa ou desvantajosa

78
- argumentando os motivos das esco- ligação direta. O jogador analisa a
lhas e como podem servir para alcan- ficha do personagem e  elege a Carac-
çar os objetivos e consequências de- terística “Adoro filmes de ação”, argu-
sejadas. Baseado nisso, forma-se um mentando que o personagem assistiu
montante de dados: vários filmes em que o básico de uma
ligação direta fica evidente, portanto
+1 dado para cada Característica
relevante e vantajosa.
é relevante e vantajosa, pega 1 dado;
a Característica “Taxista veterano”,

+1 dado para cada Condição


relevante e vantajosa.
argumentando que o personagem,
depois de tantos anos trabalhando
em carros, entende um pouco de ma-
+1 , +2 ou +3 dados para cada
Tormento relevante e van-
tajoso, dependendo do nível
nutenção e sabe como abrir painéis
e ligar fios, portanto é relevante e
vantajosa, pega 1 dado; a Caracterís-
atual de Convicção (pág. 94). tica “Amo minha família mais do que

–1 dado para cada Característica qualquer coisa”, argumentando que a


relevante e desvantajosa. vontade que o personagem tem de
rever sua família é o principal moti-

–1 dado para cada Condição


relevante e desvantajosa.
vo pelo qual quer sair da cidade, por-
tanto é relevante e vantajosa, pega 1
dado; a Característica “Nunca come-
–1 , -2 ou -3 dados para cada
Tormento relevante e desvan-
tajoso, dependendo do nível
teria um crime”, argumentando que,
apesar de tudo, o personagem tem
certo receio moral em roubar o carro
atual de Convicção (pág. 94).
de outra pessoa, portanto é relevante
Exemplo: Um personagem, em e desvantajosa, larga 1 dado; a Con-
fuga, encontra um carro abandonado dição “Promessa de salvar o filho”, o
na rodovia. Parece estar em bom es- personagem prometeu ao filho que o
tado e abastecido, porém sem a cha- salvaria, motivando sua corrida de-
ve na ignição. Ele decide fazer uma sesperada para encontrá-lo, portanto

79
é relevante e vantajoso, pega 1 dado;
e a Condição “Exausto”, o personagem
correu por dez quadras antes de encon-
trar o carro, isso atrapalha sua dispo-
sição, portanto é relevante e desvan-
tajosa, larga 1 dado; o Tormento “Na
adolescência, fui preso injustamente por
roubo”, argumentando que isso o faz
recordar da situação traumatizante,
portanto é relevante e desvantajosa,
larga 1 dado. Além das Característi-
cas, Condições e Tormento, o painel
estava solto, os fios em bom estado
e o interior do carro bem ilumina-
do, uma circunstância (veja tópico a
seguir) relevante e vantajosa, pega
1 dado. Sem mais, há um total de
2 dados para realizar este teste.

Circunstâncias
Vantajosas ou
desvantajosas
Circunstâncias são fatores ex-
ternos que, de alguma forma, são
relevantemente vantajosos ou
desvantajosos para se
alcançar o objeti-
vo do personagem

80
Nem vantagens, em um teste. São elementos do ce-
nem desvantagens nário, situação inusitada, posiciona-
mento no terreno, mudança climáti-
Nenhuma Característica,
ca, auxílio de outro personagem ou
Condição, Tormento ou
Circunstância é totalmente uma qualquer outra coisa que possa ser
vantagem ou desvantagem, por contextualizada na cena.
mais que pareça apontar para algum
lado, é puramente uma questão Exemplos:
de ponto de vista. Dependendo
Atirar em alguém distante en-
do contexto da cena, podem
assumir relevâncias diferentes. Por quanto cai uma chuva forte. A chuva
exemplo: um personagem com a nesse caso é uma circunstância des-
Característica “Maria, meu amor vantajosa, portanto larga-se 1 dado.
verdadeiro” pode se sentir motivado
a enfrentar um grupo de infectados Remar a favor da corrente de um
que está tentando devorar Maria rio, para chegar rápido ao destino. A
ou se sentir inspirado a vencer um corrente do rio é uma circunstância
desafio caso estivesse tentando vantajosa, portanto pega-se 1 dado.
impressioná-la. Em ambos os
casos, o amor por Maria assume Procurar um objeto em uma sala
a função de motivador da ação, com pouquíssima iluminação. A
isto é, a Característica é relevante
e vantajosa, ajuda o personagem pouca iluminação da sala é uma cir-
a alcançar seus objetivos. Caso o cunstância desvantajosa, portanto
personagem estivesse tentando larga-se 1 dado.
contradizer alguma ordem de
Maria ou se recusando ajudá-la, Tentar golpear um adversário pelos
o amor por Maria assumiria a flancos enquanto ele está distraído.
função de desmotivador da ação, A distração do adversário é uma cir-
sendo relevante e desvantajosa, cunstância vantajosa, portanto pega-
atrapalhando o personagem a
se 1 dado.
alcançar seus objetivos.

81
Tarefas coletivas teste de competência
Ser auxiliado ou atrapalhado por O teste é sobre a competência do
outros personagens em uma determi- personagem em realizar tarefas. Por
nada tarefa também conta como cir- exemplo, consertar o motor de um
cunstâncias relevantes. Ser auxiliado carro, nadar para o outro lado de um
por outros personagens - proposital- rio, escalar uma parede, resolver enig-
mente ou não - é considerado circuns- mas, tocar um instrumento musical,
tancialmente relevante e vantajoso, destrancar uma fechadura etc.
portanto pega-se 1 dado para cada Neste caso, depen- Dependendo
personagem que esteja auxilian- dendo do tipo de obje-
do. Ser atrapalhado por outros per- tivo e gravidade da con- do tipo de
sonagens - propositalmente ou não sequência, a jogada pre- objetivo e
- é considerado circunstancialmente cisa acumular de 1 a 3 gravidade da
relevante e desvantajoso, larga-se 1 números pares para ser
dado para cada personagem que es- bem-sucedida - 1 para consequência,
teja atrapalhando. objetivos corriqueiros, a jogada
2 para objetivos mode- precisa
rados e 3 para objetivos
ambiciosos. Porém, essa acumular de
Rolando dados meta é relativa, varian- 1 a 3 números
do de personagem para
Os únicos resultados válidos nos personagem, baseado na
pares...
dados são os números pares (2, 4 e 6). capacidade que cada um
Quanto mais resultados pares melhor. tem de lidar com cada situação (re-
Extraordinariamente, cada número 6 presentada por suas listas de Caracte-
como resultado, gera um dado extra, rísticas, Condições e Tormentos). Isto
que é rolado no mesmo teste, acumu- é, coisas que parecem simples para
lando os resultados. Cada dado extra certos personagens podem não ser tão
que também tiver um 6, gera outro simples para outros. Exemplos: esca-
dado extra, repetindo o processo en- lar um muro de tijolos pode ser cor-
quanto o 6 continuar aparecendo. riqueiro para um personagem atleta e

82
bastante ambicioso para um persona- do rumo certo para sair dali. Então
gem sedentário; encontrar uma trilha realiza um teste para superar essa difi-
no meio de uma floresta pode ser cor- culdade. As Características, Condições
riqueiro para quem conhece a região e e Tormentos relevantes para isso tota-
ambicioso para quem nunca tinha es- lizam 2 dados. O Narrador determina
tado lá antes; dirigir em alta velocida- que, apesar do personagem não conhe-
de pode ser corriqueiro para um piloto cer a região, tem alguma experiência
de corridas e ambicioso para alguém em ambientes silvestres por conta das
que ainda está na auto- inúmeras vezes que acampou com a
Caso se escola; persuadir uma família há alguns anos atrás, portanto
consiga a multidão pode ser corri-
queiro para um político
o objetivo é moderado, requerendo 2
números pares para ser bem-sucedido.
quantidade experiente e ambicioso Rolam-se os dados e obtêm-se apenas
determinada para alguém demasiada- 1 número par. Infelizmente o persona-
mente introvertido; etc.
de números gem é malsucedido e não consegue en-
contrar o caminho certo para a estrada,
pares, as Caso se consiga a
permanecendo perdido na mata.
quantidade determina-
consequências da de números pares, as
são aplicadas consequências são apli-
exatamente cadas exatamente como teste contra
declaradas. Caso não se
como consiga a quantidade de
outros personagens
declaradas. números pares suficien- O teste provoca a reação de outros
tes, o objetivo não é al- personagens - que estejam conscien-
cançado e o Narrador define a forma tes das ações empregadas contra eles
frustrante como a cena acaba. e/ou que sejam capazes de oferecer
Exemplo: Um personagem perdi- algum tipo de resistência - Por exem-
do em uma floresta precisa encontrar plo: uma tentativa de persuasão, com-
o caminho de volta para a estrada. Ele bate, sedução, intimidação, disputa
procura rastros, tenta reconhecer o am- de corrida, discussão, furto, oculta-
biente, mas não consegue se lembrar ção, furtividade, imobilização etc.

83
Neste caso, o teste se torna uma dis-
puta de quem consegue mais resulta-
dos pares. O executor da ação decla-
ra seu objetivo em relação ao outro
personagem e as consequências que
espera que ele sofra. O alvo da ação
declara como pretende se preca-
ver disso, declarando também
seus objetivos e consequências.
Quem obtiver a
O teste maior quantidade
de números pares
(contra outros é bem-sucedido.
personagens) As consequências
se torna são aplicadas ao
outro exatamente
uma disputa como declaradas
de quem pelo personagem
consegue vencedor. Em caso de
mais empate, vence o perso-
nagem com maior escala
resultados de Convicção. Se as escalas
pares. de Convicção forem iguais,
os envolvidos não alcançam
seus objetivos, nada ocorre
como declarado e o Narrador determina
o que acontece sem beneficiar ou preju-
dicar um mais que outro.
Por exemplo: Um personagem está
fugindo por um corredor longo e se de-
para com um trio claramente decidido

84
a detê-lo. Como não há outra
saída, o personagem também
vai atacar. As Características
e Condições relevantes totali-
zam 5 dados. O objetivo do per-
sonagem é correr contra os ad-
versários, empurrando-os com
força, na intenção de derrubá
-los. Rola os dados e obtêm
2 números pares. Os adver-
sários vão tentar resistir
a esta ação, mas para isso
precisam obter um resul-
tado superior. O primeiro
adversário vai tentar apenas
esquivar-se, argumenta suas
Características e Condições, to-
talizando 3 dados. Rola os dados,
obtém 1 número par (um resulta-
do inferior) e falha, sendo derruba-
do. O segundo adversário vai tentar
nocauteá-lo, argumenta suas Cara-
terísticas e Condições, totalizando
4 dados. Rola os dados, obtém 3
números pares (um resultado supe-
rior) e nocauteia o personagem. O
terceiro adversário sequer preci-
sa fazer o teste e apenas ajuda os
outros a arrastarem o fugitivo de
volta para a detenção.

85
Personagens desprevenidos
Um personagem precisa saber
que está envolvido nas ações de
outro personagem para ter direi-
to a resistir. Personagens pegos
desprevenidos não disputam
dados, apenas recebem as conse-
quências, a não ser que tenham
meios - argumentados - de per-
ceber e/ou resistir de forma
inconsciente e/ou passiva.

Dado da sorte
Se não houver dados
para rolar em um teste -
seja por subtrações de Ca-
racterísticas, Condições,
Tormentos ou Circunstân-
cias relevantes e desvantajo-
sas, ou por não haver nada
que se encaixe no contexto
da ação - ainda pode-se
tentar contar com a sorte,
rolando apenas 1 dado
e levando em con-
ta apenas o 6 como
número par válido.

86
Caso se consiga o resultado 6, pode-se
Quando a sorte rolar um novo dado da sorte, acumulan-
não é viável do os resultados, continuando assim
enquanto o 6 aparecer.
O dado da sorte não é válido
para tarefas em que não se pode
contar com a sorte, como objetivos
que envolvam ações muito
complexas, principalmente as Objetivos e
que requeiram conhecimento
técnico avançado, algum tipo Consequencias
de experiência específica ou que As consequências declaradas em
simplesmente não se podem um teste são rigorosamente aplicadas
resolver ao acaso. Nesses casos, as caso o personagem seja bem-sucedi-
ações não podem ser executadas do. Isto é, se alcançar seu objetivo, as
por personagens leigos, que coisas acontecem exatamente como
não tenham pelo menos uma declaradas, independente do quan-
Característica especificamente to são graves ou determinantes. Por
relacionada à área em questão. exemplo: Para consertar o motor de um
Por exemplo: um personagem carro velho, bastaria ser bem-sucedido
sem nenhum conhecimento em no teste de dados para conseguir con-
cardiologia não pode contar com sertar o motor. Para andar silenciosamente
a sorte e obter sucesso ao realizar por um chão de folhas secas, bastaria ser
uma microcirurgia cardíaca, bem-sucedido no teste de dados para
o objetivo é automaticamente conseguir andar silenciosamente sobre fo-
falho. Um personagem sem lhas secas. Para arrombar um cofre de aço,
conhecimento avançado de bastaria ser bem-sucedido no teste de
computação e criptografia não dados para conseguir arrombar o cofre.
pode contar com a sorte e obter Para pular de um carro em movimento e
sucesso na tentativa de hackear rolar para não se machucar demais, bas-
um computador, o objetivo é taria ser bem-sucedido em um teste
automaticamente falho. de dados para pular do carro em movi-

87
mento e sair ape-
nas com pequenas
escoriações. Para
persuadir o moço
bonito do bar, basta-
ria ser melhor que
ele em um teste de
dados para conseguir
persuadi-lo. Para nocautear
meu adversário, bastaria ser
melhor que ele em um tes-
te de dados para conseguir
nocauteá-lo. Para matar meu
adversário, bastaria ser me-
lhor que ele em um teste de
dados par conseguir matá-lo.
E assim por diante.
As consequências de as-
pecto temporário são ano-
tadas como Condições e as
consequências de aspecto
permanente são anotadas como
Características. Por exemplo: um per-
sonagem que tenha sido esfaqueado no
ombro, ganha a Condição “Ferimento de
faca no ombro”, pois ferimentos são aspectos
temporários que o personagem perde depois
que se cura. Outro personagem que tenha
perdido uma das pernas em uma explosão,
ganha a Característica “Perdi a perna direita
em uma explosão”, pois perder uma perna é
um aspecto permanente.

88
Plausibilidade Danos e proteção
Os objetivos e consequências pre- Causar danos e proteger-se de da-
cisam ser humanamente possíveis de nos são fatores interpretados e não
serem realizados dentro dos limites contabilizados. Basta ter uma ideia
de aptidão do personagem, das cir- vaga sobre o quanto estrago uma de-
cunstâncias, das ferramentas disponí- terminada ação ou item é capaz de fa-
veis e dos demais fatores relevantes. zer e/ou como é possível se proteger
É preciso haver meios plausíveis de disso - algumas dessas noções de ca-
se alcançar os objetivos e aplicar as pacidades de danos e proteção podem
consequências declaradas. Caso con- ser determinadas previmanete no Ní-
trário, as ações são inviáveis e vetadas vel de Realismo (pág. 122) da história.
pelo Narrador. Por exemplo: Não é Por exemplo: Um tiro de escopeta é
plausível cortar uma corrente de aço capaz de arrancar fora um braço; um
com as mãos. Não é plausível arrancar golpe de facão afiado pode decapitar
a cabeça de alguém com um soco. Não uma pessoa; uma dose de morfina
é plausível cair dezenas de andares pode cessar a dor de um ferimento;
sobre uma calçada e não morrer. Não um soco na cabeça pode deixar uma
plausível cortar concreto com uma pessoa inconsciente; um colete a pro-
faca. Não é plausível se proteger de va de balas pode proteger o abdômen
um tiro protegendo-se com um prato de tiros; um capacete militar pode
de porcelana. E assim por diante. bloquear um tiro na cabeça; etc.

89
Convicção e horror
A Convicção é representada por querda para a direita com um traço
uma escala de 12 pontos no rodapé simples “ ”. Por exemplo: O joga-
da ficha de personagem. Serve para dor usa 5 pontos de Convicção do seu
ilustrar os ímpetos motivacionais, fé, personagem, somando 5 dados extras
instinto e, ao mesmo tempo, instabi- ao seu teste.
lidade psicológica.

Usando a Convicção
A Convicção é um fator motiva-
cional poderoso, um tipo de crença Recuperando a Convicção
demasiada que impulsiona o perso- Recupera-se 1 ponto de Convic-
nagem de forma extraordinária para ção para cada 1 hora (dentro do jogo)
alcançar seu objetivo. Por exemplo: de meditação, oração, descanso ou
Uma mãe que parte rapidamente para qualquer outra atividade de ponde-
salvar seu filho prestes a ser atrope- ração que acreditar ser edificante e
lado. Um bombeiro que consegue se- que ocupe completamente esse tempo
gurar uma coluna pesadíssima, para (não se pode realizar nenhuma outra
salvar vítimas de um desabamento. ação nesse período ou o tempo vai ser
completamente perdido), como ler a
Some 1 dado extra ao teste para bíblia, cantar, dançar, pintar, ouvir
cada 1 ponto de Convicção marcado. música, ver fotos antigas de família,
Neste caso, marca-se os pontos da es- escutar discursos inspiradores etc.

90
Por exemplo: Em um determinado Situações de horror
momento do jogo, um personagem
marcou 4 pontos de Convicção, para Uma situação de horror é qualquer
evento dentro do jogo que seja emo-
somar 4 dados em um teste.
cionalmente chocante, moralmente
reprovável e desumano - degrada-
ção, agressão, assassinato, tortura etc.
No entanto, algumas situações impac-
tam alguns persona-
Tempos depois, decide passar 2 ho- gens mais do que
ras lendo seu livro de autoajuda prefe- outros. Isto é, o que Uma situação
rido (sem realizar nenhuma outra ação horroriza um perso- de horror é
nesse período). O jogador apaga duas nagem, vai depender qualquer evento
marcações na escala de Convicção. de suas experiências
ao longo da vida e dentro do
durante a história, jogo que seja
representadas em emocionalmente
jogo por suas Carac-
terísticas, Condições chocante,
e Tormentos. Por moralmente
exemplo: Um vete- reprovável e
o horror rano de guerra não
ficaria horrorizado desumano.
As experiências violentas viven- ao participar de uma
ciadas por um personagem durante o ação de guerrilha. Uma freira poderia
jogo - seja como testemunha, executor se horrorizar ao se deparar com um
ritual de um culto pagão. Um policial
ou vítima - impactam diretamente so-
não ficaria horrorizado ao ver alguém
bre sua estabilidade psicológica, afe- ser baleado. Uma pessoa que tenha
tando a extensão da Convicção e, con- medo de aranhas poderia se horro-
sequentemente, seu comportamento e rizar ao cair em um ninho de tarân-
sua vontade de continuar vivendo. tulas. Um médico legista não ficaria

91
horrorizado vendo um cadáver mutila-
do. Uma pessoa introvertida poderia se
horrorizar ao ser alvo massivo de cha-
cotas.
Um personagem horrorizado recebe
automaticamente uma Condição que
indique algum tipo de mal-estar emo-
cional ou perturbação momentânea,
como, por exemplo:
“Depressão”, “Náu-
Um personagem sea”, “Aflição”,
horrorizado “Crise de vômito”,
recebe uma “Paranoia”, “Neu-
rose” etc. E ainda
Condição que precisa passar por
indique algum um teste de dados
tipo de mal- envolvendo todas as
suas Características,
estar emocional Condições ou Tor-
ou perturbação mentos que represen-
momentânea... tem força ou fraqueza
emocional, estabilidade
ou instabilidade psico-
lógica, experiências motivacionais ou
desmotivacionais etc.
Para ser bem-sucedido no teste,
vai precisar obter de 1 a 3 nú-
meros pares dependendo da
gravidade da situação em
relação aos seus Tormen-
tos -  1 para situações

92
menos graves que seus Tormentos; 2 Por exemplo:  Um personagem
para situações equivalentes a seus Tor- tem o Tormento “Testemunhei pesso-
mentos e 3 para situações mais graves as sendo canibalizadas por infectados”
que seus Tormentos. Se for bem-suce- e se envolve em uma situação de hor-
dido o personagem releva a situação e ror onde testemunha seu filho sendo
permanece psicologicamente estável, devorado por infectados. Essa é uma
se for malsucedido, obstrui permanen- situação mais grave que seu Tormento
temente de 1 a 3 pontos da escala de e requer 3 números pares em um tes-
Convicção, dependendo de sua ligação te de dados para que ele se mantenha
firme emocionalmente e não degene-
afetiva com a situação -
re. O jogador rola os dados e obtém
Se a situação 1soas se a cena envolver pes-
desconhecidas, 2 se
apenas 2 números pares, infelizmen-
de horror for envolver pessoas conhe- te não consegue, então obstrui per-
manentemente 3 pontos da escala de
mais grave que cidas e 3 se envolver en- Convicção, da direita para a esquerda,
seus Tormentos tes queridos. Neste caso reduzindo permanentemente de 12
atuais, essa se faz uma marcação
permanente, da direita
para 9 pontos.
nova situação para a esquerda, obs-
se torna um truindo completamente
o círculo “ ”.  Essa
novo Tormento. obstrução mostra a evo- Além disso, como a situação foi
lução do desequilíbrio mais grave que seu Tormento atual,
emocional do personagem, reduzindo “Vi meu filho sendo devorado por Infecta-
a escala de Convicção e, consequente- dos” se torna um novo Tormento.
mente, diminui a disponibilidade de
pontos para adicionar dados aos testes.
Além das obstruções, se a situação
Inconsciência
de horror for mais grave que seus Tor- Opcionalmente, o jogador pode
mentos atuais, essa nova situação se declarar a perda de consciência do
torna um novo Tormento. personagem como forma de prote-

93
ge-lo da situação de horror e isentá-lo Se as obstruções estiverem en-
da perda de Convicção. Neste caso, tre 5 e 8 (dentro de 2/3 da escala), os
o personagem recebe uma Condição Tormentos estão desestabilizados e
que indique sua total perda de cons- somam ou subtraem 2 dados quan-
ciência, como “Catatônico”, “Des- do forem relevantes no teste. Além
maiado”, “Histérico” etc. Ficando disso, o personagem
recebe a Condição
completamente inativo e vulnerável
“Atormentado”. Vai
A medida que
enquanto a situação durar ou esteja
fora de sua percepção. começar a ser assom- a escala de
brado por seus Tor- Convicção é
mentos. Alucinando, obstruída e o
tendo pesadelos ter-
personagem fica
Instabilidade ríveis (que pode jul-
gar como premonitó- desmotivado,
dos tormentos rios), ouvindo vozes os Tormentos
que ninguém mais ganham
A medida que a escala de Convic-
escuta, vendo coisas
ção é obstruída e o personagem fica
que ninguém mais
força, ficando
vê. Isso vai acontecer instáveis.
desmotivado, os Tormentos ganham
força, ficando instáveis e interferin-
sempre que o perso-
do diretamente nos testes de dados.
nagem passar por momentos de es-
Se as obstruções estiverem entre 1 tresse. No entanto, ainda tem cons-
e 4 (dentro de 1/3 da escala), os Tor- ciência que essas coisas não são reais.
mentos estão estabilizados e somam +2/-2
ou subtraem 1 dado quando forem
relevantes no teste.

+1/-1 Se as obstruções estiverem entre


9 e 12 (dentro de 3/3 da escala), os
Tormentos estão extremamente de-

94
sestabilizados e somam ou subtraem está vivenciando. Isso vai acontecer
3 dados quando forem relevantes no sempre que o personagem passar
teste.  Além disso, o personagem vai por momentos de estresse.
intensificar a Condição “Atormenta-
do” para “Extremamente Atormen- +3/-3
tado”. Vai passar a
(O personagem) acreditar piamente
Vai passar nos assombros de  Quando a escala estiver comple-
a acreditar seus Tormentos,
por mais absurdos tamente obstruída, o personagem vai
piamente nos que possam parecer. receber a Condição “Surto suicida (ou
assombros de Imagina-se vítima homicida) ”. Vai continuar assombra-
seus Tormentos, de um complô dia- do por seus Tormentos, mas agora vai
reagir de forma mais violenta, tentan-
por mais bólico tramado com
o firme propósito do se matar ou matar as pessoas ao seu
absurdos que de destruí-lo. Acei- redor - como melhor isso se encaixar
possam parecer. tar as alucinações em sua alucinação.
Imagina-se como se fossem
vítima de um reais e não há ar-
gumento nem bom
complô diabólico senso que o con-
tramado com o vença do contrá-
firme propósito rio - as alucinações Delírio Coletivo
de destruí-lo. têm a clara inten-
ção de confundi-lo Opcionalmente, dois ou mais per-
e deixá-lo incapaz sonagens que estejam tendo alucina-
de realizar ações coerentemente. O ções simultaneamente e que estejam
personagem não desmente ou desa- no mesmo ambiente (ou que tenham
credita, fica totalmente sugestioná- algum tipo de interação), comparti-
vel e confia em tudo que acha que lham as alucinações uns dos outros.

95
febre Antropofágica
A febre antropofágica é um distúrbio psicológico grave e peculiar, um mal
causado pela obsessão por infectados e pelo mundo pandêmico. É como se o
personagem doente deste mal, perdesse a referência do que é ser humano.
Emagrece a ponto de ficar cadavérico, desenvolve chagas pelo corpo, perde o
senso de autopreservação e controle sobre os próprios atos. Não demonstra dor
ou qualquer tipo de sensibilidade emocional. Age de forma violenta e irracional,
semelhante a um infectado, atacando outros seres vivos com mordidas, arrancando
e comendo pedaços de carne. É como se ele estivesse contaminado por vírus cerberus,
mimetizando todos os sintomas.
Adquirindo a febre: Opcionalmente, um personagem com toda a escala de
Convicção obstruída, pode adquirir a febre antropofágica como Condição em vez de
surto suicida (ou homicida). O Narrador analisa o histórico do personagem durante
o jogo e o tipo de relacionamento que ele teve com os infectados e com o mundo
pandêmico em geral. Avalia se ele demonstrou algum tipo de obsessão excessiva,
apego ou dependência, a ponto de transformar os infectados no sentido de sua vida.
Por exemplo: um personagem é absolutamente obcecado por abater infectados, sem se
importar se isso pode afetar ou não outros sobreviventes. A obsessão é tão intensa, que, certa
vez, foi capaz de usar outros seres humanos como isca em uma armadilha, apenas para ter a
chance de abater um número maior de infectados de uma só vez. Ele pega dentes e ossos dos
infectados como troféus e usa para decorar seus refúgios, como objetos decorativos do qual
sente profundo orgulho. Essa obsessão se tornou um elemento motivador essencial em quase
todas as ações do personagem dentro da história. Se esse personagem perder completamente a
Convicção, possivelmente pode receber a Condição “febre antropofágica”.

96
infecção
memórias, moralidade, raciocínio,
Mutação autopreservação e tudo mais que de-
encefálica fine alguém como humano, permane-
cem mortas (ou desligadas), sobrando
O Vírus Cerberus invade o cérebro apenas instintos primitivos básicos.
de forma agressiva e inicia um proces-
so de colapso que pode levar de alguns
minutos a várias horas, causando he-
morragia e encerramento da comu- Processo
nicação com outros
O tronco órgãos. A pessoa mor- de Infecção
encefálico re enquanto o tronco Mordidas ou arranhões fortes o su-
passa por encefálico passa por
uma mutação nebu-
ficiente para atravessar a pele e abrir
uma ferida ou qualquer outro meio
uma mutação losa, tornando-se um que possibilite o contato dos fluídos
nebulosa, tipo de “bateria adre- do infectado - sobretudo a saliva -
tornando-se um nergética” que manda com o organismo de um ser vivo, é
o suficiente para transmitir o vírus e
tipo de “bateria impulsos tão fortes
para o resto do corpo condenar a vítima.
adrenergética”. que reanima o cadá-
Se um personagem for contamina-
ver, fazendo-o levan-
do, é preciso fazer um teste de dados
tar e andar. Todas as outras regiões ce-
envolvendo todas as suas Característi-
rebrais, que guardam as experiências,
cas, Condições, Tormentos e Circuns-

97
tâncias relevantes para representar
sua capacidade ou incapacidade de
resistência física e aspectos motiva-
cionais.
Para ser bem-sucedido, precisa-
se obter de 1 a 3 números pares, de-
pendendo da gravidade da lesão - 1
para lesões simples;
Se for bem 2 para lesões graves
sucedido, o e 3 para lesões muito
personagem graves. Se for bem
resiste ao sucedido, o perso-
nagem resiste ao
avanço da avanço da doen-
doença por ça por uma ro-
uma rodada, dada, mas rece-
be uma Condi-
mas recebe ção que indi-
uma Condição que quadro de
que indique c o n t a m i n a -
quadro de ção, infecção
generalizada,
contaminação. processo de
falência múl-
tipla dos órgãos e superativi-
dade cerebral, como por exem-
plo: “Dor de cabeça intensa”;
“Dor corporal intensa”; “Fra-
queza”; “Calafrios”; “Enjoo”;
“Aceleração cardíaca”; “Tremo-

98
“Imunes” res”; “Diarreia”; “Febre alta”; “Necrose
da pele”; “Perda de memória”; “Perda
Raros seres vivos - humanos de cabelos”; “Dificuldade em respirar”;
ou animais - podem ser “imunes” “Náusea”; “Sangramento”; “Chagas
ao Vírus Cerberus. No entanto, corporais”; “Atro-
passam por todo o processo fia muscular” etc.
de infecção e adquirem o O teste se repete Enquanto
mesmo aspecto físico e algumas a cada rodada se- obtiver sucesso,
características de infectados guinte. Enquanto o personagem
comuns (pág. 101) - Cadavéricos, obtiver sucesso,
pele necrosada, chagas, fedor -
o personagem re-
resiste,
siste, acumulando acumulando
sendo facilmente confundidos
com mortos-vivos.
apenas Condições, apenas
Estão constantemente mas, caso falhe, vai Condições,
doentes, obrigatoriamente com morrer imediata-
até 3 Condições simultâneas, mente em um surto mas, caso falhe,
que representem sintomas de de agonia e, na ro- vai morrer
septicemia, como febre, dor de dada seguinte, le- imediatamente
cabeça, dor corporal, sangramento vantar-se como um
etc. Porém, não há falência de infectado - Se for
em um surto de
um protagonista, o agonia e, na
órgãos e nem mutação encefálica.
É como se o processo de infecção
jogador perde auto- rodada seguinte,
nunca se completasse, mantendo
a vítima, fisicamente, sempre no nomia sobre o per- levantar-se como
sonagem, que agora
é um personagem um infectado.
limiar entre a vida e a morte.
Um Imune ainda é um foco de do Narrador.
vírus. A doença está dentro dele e
pode ser transmitida para outros Exemplo: um personagem conta-
personagens da mesma forma que minado tem as Características “Saúde
qualquer infectado comum. de ferro”, e “Atleta”, a Condição “Sen-
tindo-se confiante” e a Circunstância de

99
estar sendo cuidado por uma pessoa
que o ama. Todas relevantes e vanta- Amputação
josas para a situação, totalizando um
Se a contaminação do personagem
montante de 4 dados. O ferimento foi
foi por meio de lesões nos braços ou
muito grave, requerendo pelo menos
3 números pares para resistir à doen- pernas, ele pode, necessariamente na
ça nesta rodada. Rolam-se os dados mesma rodada, amputar o membro
e ele obtém 4 números pares, rece- infeccioso, evitando a evolução da do-
bendo apenas a Condição “Ardendo ença e salvando-se. Se o processo de
em febre”. Na rodada seguinte faz no- amputação demorar mais de uma ro-
vamente o teste e obtém 3 números dada, não vai conter a infecção.
pares, continua resistente à doença e
recebe a Condição “Corpo dolorido”. Caso consiga amputar o membro, o
Na rodada seguinte faz novamente o personagem ganha automaticamente
teste e obtém apenas 1 número par. a Característica “Amputado [descrição
Infelizmente o personagem não re- membro em questão]” e, obviamente,
siste e começa a agonizar, morrendo dentro da história, precisa passar por
rapidamente. Na rodada seguinte, se todo o processo de recuperação e tra-
levanta como um infectado. tamento até que o coto cicatrize.

100
infectados
sem precisar necessariamente possuir
Criando uma ficha de personagem detalhada.
infectados Principalmente se a participação na
história for como um figurante ou
Infectados são personagens anta- obstáculo rápido para os protagonis-
gonistas ou figurantes e possuem suas tas enfrentarem.
próprias Características e Condições
específicas de seu estado morto-vivo. O Narrador joga de 1 a 6 dados
O processo de criação de um infecta- para tudo, de acordo com a relevân-
do é semelhante à de um personagem cia da participação desse personagem,
convencional, cria-se 12 Característi- contexto em que ele está inserido e
cas e 1 Condição inicial. São indife- conservação corporal (quanto maior
rentes à Convicção e, com raras ex- o estado de putrefação, menos efetivo
ceções, a Tormentos, pois perderam ele vai ser).  
completamente a consciência de si
mesmos, agindo puramente por ins-
tinto mecânico.
Características
de infectados
Infectados genéricos
Todas as Características dos in-
Assim como personagens expressos fectados estão relacionadas a sua de-
(pág. 124), um infectado pode ser colo- bilidade, sensorialidade, voracidade,
cado no jogo de forma mais genérica, constituição, anomalias e reminis-

101
cência - não necessariamente todas ser incapaz de se mover, tornando-se
ao mesmo tempo. Características apenas um amontoado infeccioso de
mentais, sociais, ocupacionais, moti- matéria orgânica.
vacionais e demais relacionadas a ne-
cessidade de existir consciência e dis- Ao se imaginar a constituição
cernimento, são nulas. Características corporal do infectado, as demais
relacionadas a peculiaridades físicas Características devem, obrigatoria-
de quando era vivo permanecem se mente, corroborarem com esse esta-
forem relevantes para compor sua es- do de decomposição.
trutura corporal. Por exemplo: “Cor-
Exemplo de Características: “Per-
pulento”; “Alto”; “Baixo”; “Amputado:
Braço esquerdo”, “Corcunda” etc. nas firmes”; “Rápido”; “Resistente”;
“Pútrido”; “Músculos totalmente decom-
postos”; “Corpo em bom estado”; “Bra-
ços fortes”; “Ossos trincados”; “Caindo
características aos pedaços”; “Dentes frouxos”; “Corpo
de constituição inchado” etc.
A força, agilidade, resistência e
mobilidade de um infectado, vão
depender diretamente do estado características
de conservação do seu corpo. Se os de Debilidade
músculos e ossos ainda estiverem
conservados, é capaz de correr e re- Os infectados se tornam débeis
e indiferentes a qualquer estímulo
alizar qualquer outra ação física tão
emocional. Desordenados e desajei-
bem quanto fazia quando era vivo. À tados, nunca cooperam entre si, não
medida que o processo de decompo- seguem rotas e não traçam estratégias,
sição avança, as capacidades físicas na maior parte do tempo permanecem
também diminuem, vai tropegar, atônitos, até que a percepção de um
rastejar e realizar qualquer outra ser vivo os atraiam. São pouco habi-
ação com mais dificuldade, até ficar lidosos, incapazes de realizar tarefas
tão pútrido e enfraquecido, que vai que necessitem de muita coordena-

102
ção, raciocínio ou precisão apurada, podem escutar e cordas vocais con-
como, por exemplo: nadar, mirar, di- servadas lhes permitem grunhir ou
rigir ou usar uma arma de fogo. Com pronunciar com dificuldade palavras
esforço ou por puro instinto mecâni- aleatórias, no entanto, nem sempre
co, executam tarefas que exijam um compreendem o que percebem, e per-
mínimo de habilidade, como, por manecem indiferentes a tudo que não
exemplo, usar um pedaço de pau para seja uma presa em potencial. Clarões e
bater, subir escadas, ligar barulhos chamam a atenção e os atra-
Com esforço interruptores ou puxar em, no entanto, na maioria das vezes,
ou por puro maçanetas de portas. essa atração é mais como uma reação
instinto Exemplo de Caracterís-
de irritação pela perturbação do am-
biente do que por instinto predatório.
mecânico, (os ticas: “Sabe subir escadas”,
infectados) “Sabe abrir portas”, “Sabe Exemplo de Características: “Sur-
usar hastes como armas”,
executam do”, “Cego”, “Odeio barulhos”, “Pala-
“Equilíbrio”, “Sabe ligar vra preferida: carne fresca”; “Fascinado
tarefas que interruptores”; “Abre latas por luzes”, “Olfato conservado”, “Sabe
exijam um de cerveja”; “Acende isquei- distinguir sirenes”; “Reconhece a figura
mínimo de ros”; “Sabe segurar uma de um cachorro” etc.
habilidade. arma e puxar o gatilho” etc.

características
características de Voracidade
de Sensorialidade
Infectados são consumidores vo-
Os sentidos básicos dos infecta- razes de carne, seja de seres humanos
dos são deteriorados e, em alguns ou de animais de sangue quente, mas
casos, devido ao processo de putrefa- apenas enquanto está fresca e proven-
ção corporal, ficam totalmente nulos. do de um corpo vivo. A carne morta
Olhos conservados ainda conseguem não lhes desperta nenhum interesse,
enxergar, ouvidos conservados ainda simplesmente a rejeitam - um dos

103
motivos pelo qual igno-
ram uns aos outros.
Se, por exemplo, es-
tivessem devorando
uma pessoa viva, a
abandonariam assim
que percebessem que
já estava morta, sequer
terminariam de consu-
mir todo o corpo.
Ironicamente, não de-
pendem de nenhum tipo de
alimentação para permane-
cerem reanimados, fazem isso
de forma instintiva, como se
estivessem debilmente progra-
mados para saciar um desejo que
não pode ser saciado ou compre-
endido. Além disso, como os
sistemas digestivo e intestinal
estão mortos, não existe ne-
nhum tipo de digestão. A car-
ne se acumula no estômago
até que escape por rasgões
no abdômen para fora do
corpo.
Um infectado pode
também desenvolver
preferência por tipos de
vítimas específicas -
como se selecionasse

104
entre humano ou animal, entre
idade, raça, gênero ou biótipo -
ou determinadas partes do corpo,
como braços, pernas, cérebro, entra-
nhas, sangue etc.
Exemplo de Características: “Mas-
tigação veloz”; “Degustar sem pres-
sa”; “Roedor de ossos”; “Engole
sem mastigar”; “Devorador de
cérebros”, “Só come corações”,
“Arranca um pedaço e se afas-
ta para comer sossegado”; “Só
devora crianças”, “Mulheres
como vítimas preferidas”; “In-
teresse apenas por animais”;
“Adora beber sangue”; “Sem
atração por pessoas velhas” etc.

características
Reminiscêntes
Características motivacionais
ou afetivas que o infectado tinha
em vida podem reaparecer como
fragmentos reminiscentes de me-
mória. No entanto, o infectado não
tem total discernimento sobre essas me-
mórias, mas, de alguma forma, talvez por
instinto puramente mecânico, se sente in-
fluenciado por ela.

105
Características reminiscentes são
relevantes em testes de dados, mesmo
que a influência seja puramente arti- Putrefação
ficial. Um infectado pode, por exem-
plo, se sentir menos influenciado a elegante
atacar alguém que amava quando era
Um infectado não se decompõe
vivo, ou mais influenciado a atacar da mesma forma e nem na mesma
alguém que odiava. Pode ter um me- velocidade de um cadáver comum.
lhor desempenho se estiver em um O Vírus Cerberus age como um tipo
determinado lugar ou estar passando de conservante adrenergético que
por uma determinada experiência que inibe a deterioração por falta de
gostava quando era vivo, ou ter uma oxigênio, proliferação de bactérias,
queda de desempenho em estar em ação de parasitas e demais fatores
lugares ou passando por experiências convencionais que aceleram a
que detestava quando era vivo. putrefação. Neste caso, o processo
de decomposição pode demorar de
Exemplo de Características: “Ado- alguns meses a dezenas de anos,
rava estar perto do mar”; “Anabela, meu dependendo de como o vírus vai se
amor”; “Reconheço meus filhos”; “Strai- comportar no corpo do infectado.
ght to Heaven, minha música preferida”; Em algumas mutações, o corpo
“Adorava andar de bicicleta”; “Trabalhei cria um tipo de adipocera, uma
mais de vinte anos no metrô”; “Sempre substância orgânica que converte
quis um vestido de noiva” etc. tecidos gordurosos em uma cera
negra que protege os órgãos
internos e retarda a decomposição.
Em outros casos, a pele e tendões
características são ressecados e mumificados, se
de anomalias tornando um tipo de casca seca
que protege os ossos enquanto
O processo de infecção as vezes os órgãos entram em putrefação
pode tomar rumos totalmente im- lentamente.
previsíveis, adicionando uma ou ou-

106
tra peculiaridade rara ao infectado, graves - são definitivos, automatica-
tornando diferente dos demais. São mente uma Característica.
na maioria das vezes alterações sutis
na composição corporal, que podem Exemplo de Características: “Criva-
torna-lo mais perigoso ou pelo menos do de balas”; “Braço arrancado”; “Ma-
mais assustador, como aumento do xilar Arrancado”; “Ferimento aberto no
tórax”; “Ossos das pernas quebrados”;
volume dos músculos,
“Esfaqueado”; “Queimaduras” etc.
(As anomalias) textura da pele, com-
primento dos mem-
São na maioria bros, alongamento
das vezes dos dentes ou unhas, Características
alterações sutis cor dos olhos, desloca-
mento do maxilar etc.
peculiares e inusitadas
na composição Um infectado pode ter um número
Exemplo de Carac- grande de características em relação
corporal, que terísticas: “Boca enor- a diversas circunstâncias totalmente
podem torna-lo me”; “Olhos negros”; peculiares que tenham alguma relação
mais perigoso ou “Dentes alongados”, com seu estado débil, ou comporta-
mento singular, ou relacionado com
“Unhas afiadas”; “De-
pelo menos mais dos compridos”; “Pele sua história de vida (quando era vivo),
assustador. grossa” etc. motivado por um comportamento ins-
tintivo inusitado e incosciente. Um
infectado poderia ter medo de fogo,
ou aversão a latido de cães, ou evitar
Características entrar na água, ou nunca se separar de
de Danos físicos sua fantasia de mascolte de lanchone-
te, ou coleciona os dedos da vítima etc.
Infectados perderam a capacidade
de se regenerar fisicamente. Não po- Exemplo de Características:
dem se curar e suas feridas não cica- “Medo da luz do sol”; “Nunca ataca
trizam, portanto, a maioria dos danos coelhos”; “Fascinado por flores”, “Só
físicos relevantes que um infectado ve- anda de costas”, “bate no peito antes de
nha a sofrer - dos mais leves aos mais devorar alguém” etc.

107
Condições
de infectados
Infectados são indiferentes
a Condições que representem
sensações, emoções, motivações,
dor, medo, estresse, esgotamen-
to físico etc. As terminações
nervosas, discernimento, ne-
cessidades fisiológicas e senso
de limitações do próprio corpo
são completamente nulos. São
capazes de caminhar inces-
santemente até suas pernas se
quebrarem, não precisam in-
gerir água, nem dormir, nem de
oxigênio para se manter em plena
atividade. Por exemplo: a Condição
“Corpo em chamas”, apesar de destruir
o corpo do infectado, não lhe causa
nenhum tipo de sensação de incomo-
do. Pode ser relevante e desvantajosa
para ações que necessitem de uma
boa constituição física, ou relevantes
e vantajosas para atacar suas presas, já
que agora pode incendiá-las também.
Condições que representem porte de
itens - se o infectado for capaz de portar algo
- permanecem inalteradas.

108
Pode-se criar 1 Condição ini-
Animais cial para o Infectado. Por exemplo:
Infectados “Vestido com traje militar”; “Portan-
do martelo”; “Usando capacete de
A criação de um animal infectado motoqueiro”; “Encharcado de lama”;
é igual a de um infectado comum. “Infestado de moscas”; “Carregando
Porém, o Vírus Cerberus só consegue um animal morto”; “Arpão atravessa-
sobreviver e evoluir em animais de do no peito” etc.
sangue quente, como aves e mamí-
feros, raríssimas vezes em outras
espécies. Geralmente animais de
sangue frio, como répteis e anfíbios,
quando infectados, apresentam todos
Nulidade de
os sintomas do processo de infecção,
porém morrem por definitivo, sem
Convicção
reanimação. Insetos, aracnídeos e Infectados são indiferentes ao
demais bichos não são acometidos. conceito de fé e esperança, não
O processo de infecção e sintomas possuem nenhuma consciência
de um animal é exatamente o mesmo de si, senso de moralidade ou ím-
de seres humanos. peto motivacional real, além dos
instintos mecânicos de devorar
As habilidades naturais de cada
espécie mudam conforme o estado seres vivos. A Convicção é nula.
de conservação corporal. Por exem- Suas atitudes são completamente
plo: pássaros bem conservados ainda comandadas por instintos débeis
conseguem voar, mas à medida que e impulsos automáticos. Não exis-
apodrecem, perdem essa capacidade,
te qualquer noção de moralidade,
limitando-se ao chão. Macacos bem
conservados, podem se pendurar em culpa ou consciência. São com-
árvores e pular de galhos em galhos, pletamente insensíveis a valores
mas à medida que apodrecem, per- humanos e, consequentemente, a
dem essa capacidade. situações de horror (pág. 91).

109
Tormentos
Reminiscêntes
Opcionalmente, assim com
uma Característica Reminis-
cente, às vezes fragmentos de
Tormentos que o infectado
tinha quando era vivo po-
dem se manifestar depois
da mutação encefálica,
como memória reminis-
cente, gerando reações me-
cânicas extremas. Mesmo
que a influência seja pura-
mente artificial, o infectado
vai reagir de forma mais extre-
ma, somando +3 dados para
cada Tormento relevante e van-
tajoso e -3 para cada Tormento
relevante e desvantajoso.
Tormentos Reminiscentes não
são comuns em todos os Infectados,
mas se for interessante, pode-se
criar de 1 a 3 Tormentos remi-
niscentes para um infecta-
do, baseado no quanto se
pretende tornar o per-
sonagem instável.

110
Padrões de Ataque
infectados Quando infectados estão atacan-
do, sempre vão, primariamente, ten-
Amalgamados tar morder seu alvo e, só se isso es-
tiver fora de alcance, vão optar por
Raramente, certo número
agarrar, bater ou arranhar. Quando
variante de infectados, que por
caso tenham ficado pressionados estão sob ataque, nunca se defendem,
entre si por um longo período nunca recuam ou demonstram qual-
de putrefação, ficam fundidos quer noção de perigo.
uns aos outros pela carne,
colados por fluídos viscosos,
como irmãos siameses. É como se frenesi
o Vírus Cerberus amalgamasse os
corpos, enlaçando músculos e Sempre que um infectado atacar
calcificando os ossos. No entanto, um alvo e não conseguir atingi-lo,
cada infectado no coletivo ainda entra automaticamente em frenesi.
é uma criatura independente, Vai focar apenas nesse alvo e ignorar
configurando um comportamento qualquer outro ser vivo próximo, ga-
caótico de mobilidade atrapalhada nhando, a cada rodada consecutiva,
e disputa de vontades. +1 dado extra sempre que voltar a
atacá-lo. Vai permanecer nesse esta-
Ao realizar ações, cada
do até conseguir devorar a vítima ou
infectado do amálgama que tenha
perder o seu rastro.
o mesmo interesse, vai somar
1 dado extra ao teste. Assim
como cada infectado que tenha
desinteresse na ação vai subtrair extravaso de adrenergia
1 dado do teste. (Saiba mais sobre
Tarefas Coletivas na Pá. 85).   Quando está em frenesi, o cérebro
do infectado pode liberar uma descar-
ga de adrenergia aumentando a inten-

111
sidade de seu ataque. Depois disso vai inertes e definitivamente mortos. Se o
“desligar” e se restabelecer. infectado fosse decapitado, o resto do
corpo permaneceria inerte, morto, mas
Ao ter um extravaso de adrenergia, a cabeça continuaria ativa.
o infectado pode dobrar a quantidade
de dados no ataque e se manter inati- Se o tronco encefálico for destru-
vo por 2 rodadas, ou triplicar a quan- ído, o infectado fica totalmente ina-
tidade de dados no ataque e se manter tivo, sem impulsos
inativo por 3 rodadas, ou quadrupli- adrenergéticos, voltan- Se o tronco
car a quantidade de dados no ataque e
do a condição de ca- encefálico for
ter o cérebro autodestruído.
dáver. Porém, o corpo destruído, o
O tempo que o infectado perma- morto do infectado - e
nece inativo não corta a contagem de seus eventuais pedaços
infectado fica
dados do estado de frenesi. - mesmo sem a influ- totalmente
ência do tronco ence- inativo, sem
fálico, continua extre- impulsos
mamente infeccioso e adrenergéticos,
cérebro mutante passível de contaminar
voltando a
e Corpo infecto outras pessoas caso te-
nham contato com os condição de
A única coisa que mantém um in-
fectado em atividade é a influência
fluídos do corpo. cadáver.
adrenergética do tronco encefálico
dominado pelo Vírus Cerberus, que
manda impulsos para todo o resto
do corpo. Membros, músculos e os-
Senso Mutante
sos são como marionetes responden- A mutação encefálica desenvolve
do a esses impulsos. Se, por acaso, os um tipo de sentido extra superapura-
braços e pernas do infectado forem do parecido com o senso eletrorreceptivo
amputados, deixariam de receber os de tubarões. O infectado se torna sen-
impulsos cerebrais e permaneceriam sível a mudanças térmicas e/ou elétri-

112
cas naturalmente emitidas por seres
Infectados vivos próximos. É como se todo o
corpo se transformasse em um tipo de
despertos sensor capaz de detectar automatica-
Raras vezes, o cérebro de um mente qualquer sinal de vida, até uma
infectado desperta algumas áreas mínima batida de coração ou sangue
inativas, anulando sua debilidade. correndo nas veias.
Possibilitando que ele pense de Assim que captam
forma estratégica, tenha noções
de autopreservação (apesar de
a presença de uma Assim que
continuar indiferente a dor e
presa em potencial,
iniciam uma perse-
captam a
necessidades fisiológicas), se guição incessante até presença de
comunique e consiga se defender.
Todas as Características e
alcança-la, devorá-la uma presa
ou serem bloqueados em potencial,
Tormentos de quando era vivo por algum obstáculo
voltam a ser efetivas. Consegue intransponível. Por iniciam uma
realizar normalmente qualquer
ação que conseguia realizar quando
exemplo: um infec- perseguição
tado que tenha ras-
vivo, com a limitação do estado de treado uma pessoa
incessante
conservação do corpo. atrás de um muro até alcança-
No entanto, o cérebro desperto alto, vai procurar la, devorá-
uma passagem para
distorce completamente as noções
de identidade, realidade ou do que alcançá-la ou se de- la ou serem
está de fato acontecendo consigo. bater contra a parede bloqueados.
Sua personalidade, racionalidade até perder o rastro.
e noções de caráter e sociabilidade
O raio sensorial pode variar de
estão permanentemente
uma dezena a uma centena de metros,
corrompidas. Como se estivesse em
dependendo do quanto o ambiente
estado constante de misantropia
está propício e livre de interferências
psicótica. Permanecendo com a
- ou do quanto o Narrador achar in-
Convicção nula e completamente
teressante tornar um determinado in-
indiferente a situações de horror.

113
fectado um caçador perigoso. Rola-
se de 1 a 6 dados (+Características,
Condições ou Tormentos reminis-
centes relevantes para percepção
de presas que o infectado venha a
possuir), dependendo das inter-
ferências sensoriais do ambien-
te - 1 dado para ambientes com
muita interferência a 6 dados
para ambientes sem nenhuma
interferência - Cada número
par como resultado equivale
a uma área de 10m de raio.
Qualquer ser vivo dentro
dessa área é imediatamente
percebido.

Transe Afetivo
A memória reminiscente
de Características pode colocar
o infectado em estado de transe
e adoração profunda, caso ele se
depare com eventos, pessoas ou ex-
periências que estejam relacionadas
a essa memória de forma afetiva. Por
exemplo: um infectado que, em vida,
era um bom guitarrista, pode reconhecer
uma guitarra, arrastar a mão pelas cordas e,
mesmo sendo incapaz de extrair música do

114
instrumento, ficará instintivamente
INfectados apegado ao objeto. Um infectado que
encontra um ente querido, pode reco-
aberrantes brar a afetividade pela pessoa e tentar
se reconfortar ao lado dela. Pode, in-
A forma como o Vírus Cerberus clusive, se esforçar para grunhir uma
se comporta no organismo ou duas palavras curtas se suas cordas
de um infectado é totalmente vocais não estiverem totalmente dete-
imprevisível e, em alguns casos rioradas. Um infec-
raros, causa deformidades aberrantes tado que, em vida,
no corpo do infectado, como gostava de ver o pôr Um infectado
extrapolações anatômicas bizarras do sol, pode ficar fas- que encontra
com funcionalidades surreais, cinado se, por acaso,
caracterizando armas biológicas em sua caminhada,
um ente
acidentais. Por exemplo: Projeção dos se deparar com o sol querido, pode
ossos e coluna vertebral a ponto de se pondo. recobrar a
romper para fora do corpo, criando
uma fileira de estacas. Enrijecimento Se for interessante afetividade
extremo da pele criando um tipo de para a história ativar pela pessoa
o transe afetivo, o
Narrador pode fazer e tentar se
carapaça protetora. Poros que expelem
flatulência ou fluídos infecciosos.
Braços extremamente alongados, um teste pelo infec- reconfortar
capazes de chicotear e enlaçar presas. tado, rolando de 1 a 3 ao lado dela.
Protuberâncias alongadas e funcionais dados (1 para pesso-
que parecem membros extras. Erupção as, objetos ou experi-
de olhos disfuncionais pelo corpo etc. ências que faziam parte de sua rotina,
2 para pessoas, objetos ou experiên-
As distorções podem ser criadas cias que realmente gostava, 3 para
livremente como Características, pessoas, objetos ou experiências que
porém, precisam necessariamente ser verdadeiramente amava). O transe
“acidentes” de mutação anatômica, sem fica ativo por um número de rodadas
nenhuma função elegante, como, por equivalente a quantidade de números
exemplo, criar asas para voar.

115
pares no resultado do teste. Depois
disso, os instintos mecânicos do in-
fectado voltam à tona.

Odor infeccioso
O ar fétido ao redor de um gru-
po massivo de infectados se torna
tão tóxico que, quando inalado
por um personagem sem prote-
ção respiratória adequada, gera, a
cada rodada de
exposição, uma
O ar fétido ao Condição que
redor de um represente algum
grupo massivo tipo de mal-es-
tar, como “Ardor
de infectados nos olhos”, “formi-
se torna tão gamento da pele”,
tóxico que (...) “Tontura”, “Ânsia de
vômito”, “Inflamação
pode envenenar na garganta” etc. Se
o cérebro, for inalado por um pe-
comprometendo ríodo maior que 3 roda-
das, pode envenenar o cé-
a racionalidade. rebro, comprometendo a
racionalidade e instinto
de autopreservação do personagem. Neste
caso é preciso fazer um teste envolvendo
todas as suas Características, Condições

116
ou Tormentos relevantes para repre- seguinte enquanto estiver exposto ao
sentar sua capacidade de resistência odor. Caso falhe, o personagem come-
física, psicológica e motivacional. ça a delirar com seus Tormentos, que
Para ser bem-sucedido no teste, pre- se manifestarão em forma de alucina-
cisa-se obter de 1 a 3 números pares ções. Vai acreditar piamente em tudo
dependendo da intensidade do odor que se mostra, por mais absurdo que
(1 para o odor de um agrupamento de posso parecer. Não desmente ou desa-
dezenas de infectados, 2 para o odor credita, fica totalmente sugestionável
de um agrupamento de centenas de e confia em tudo que acha que está vi-
infectados e 3 para o odor de um agru- venciando.
pamento de milhares de infectados).
Se for bem-sucedido, o personagem O delírio dura até que o persona-
mantém a racionalidade, mas conti- gem esteja livre do odor infeccioso
nua recebendo Condições de mal-es- por um número de rodadas igual ao
tar. O teste se repete a cada rodada que esteve exposto.

117
referências para infectados
Há uma série de referências para criação de infectados na cultura pop,
sobre zumbis e apocalipse zumbi. São filmes, livros, quadrinhos, games,
documentários etc. Que podem ser muito úteis para estimular a criativi-
dade e desenvolver bons personagens e boas histórias.
Filmes como A Noite dos Mortos Vivos de George Romero e o remake de
Tom Savini; Zumbi II - A Volta dos Mortos e Pavor na Cidade dos Zumbis de
Lúcio Fulci; O Despertar dos Mortos de George Romero e o remake de Zack
Snyder; Dia dos Mortos, Terra dos Mortos e Diário dos Mortos de George Ro-
mero; Extermínio de Dany Boile; Extermínio 2 de Juan Carlos Fresnadillo;
REC de Jaume Balagueró e Paco Plaza; A Volta dos Mortos Vivos de Dan
O’Bannon; The Quick: O Caçador de Zumbis de Gerald Nott; The Zombie
Diaries de Michael Bartlett e Kevin Gates. Séries de TV como Dead Set de
Yann Demange e Charlie Brooker; The Walking Dead de Robert Kirkman;
The Strain de Guillermo del Toro. Documentários como Docs: Zombiema-
nia de Donna Davies; A Verdade Sobre os Zumbs de Michael Wafer para a
NatGeo Channel. Vídeogames como Dead Island da Techland; Série Resi-
dent Evil da Capcom; Left 4 Dead da EA; Red Dead Redemption: Undead
Nightmare da Rockstar Games; DayZ da Bohemia Interactive Studio; The
Last of Us da Naughty Dog. Quadrinhos como iZombie de Chris Robertson,
Mike Allred&Gilberrt Hernández; Zombies vs Robots de Chis Ryall & Ashley
Wood; XXXombies de Rick Remender & Kieron Dwyer; Blackest Night de
Geoff Jones & Ivan Reis; Black Gas de Warren Ellis & Max Fiumara; The
Walking Dead de Robert Kirkman e Tony Moore. E Livros como A Ilha da
Magia de Willian Seabrook; Guerra Mundial Z e O Guia de Sobrevivência a
Zumbis de Max Brooks; Eu Sou a Lenda de Richard Matheson; Série Apo-
calipse Z de Manel Loureiro; O Livro dos Mortos de Jamie Russell; Genera-
tion Dead de Daniel Waters; The Laughing Corpse de Laurell K. Hamilton;
Celular de Stephen King; Herbert West: Reanimator de H. P. Lovecraft.

118
119
O mundo sucumbiu a uma pandemia apocalíptica
que converteu os seres vivos em infectados carni-
ceiros. Um vírus criado em laboratório - um tipo de
arma biológica sem fins esclarecidos - que se espa-
lhou pelo mundo dando início a um processo de con-
tágio vertiginoso, colocando a raça humana em ex-
tinção. Os poucos sobreviventes se arriscam em uma
jornada em busca de um paraíso perdido, onde possam
recomeçar a vida e anestesiar a dor das perdas, dos
traumas, da fome, da possibilidade de serem os úl-
timos seres humanos sobre a Terra. Cruzam cidades
fantasmas e terrenos desolados, enfrentando turbas
intermináveis de infectados. Uma missão ingrata e
utópica, sustentada apenas por uma esperança ingê-
nua e fé de que as coisas podem melhorar.

120
Uma pessoa do grupo - aquele que desconexos, absurdos, descontextuali-
tiver maior conhecimento das regras zados ou destoantes em relação ao nível
de Terra Devastada, que seja imparcial de realismo determinado para a história.
e goste de contar histórias - assume a
função de Narrador. Um tipo de anfi- Em suma, o Narrador descreve uma
trião do jogo, que se determinada situação, local ou elemen-
to em que os protagonistas estão inseri-
Um tipo de responsabilizará
introduzir os desa-
por
dos e os jogadores reagem, descreven-
anfitrião do fios, descrever situa- do como seus personagens lidam com
isso. Por exemplo:
jogo, que se ções, elementos e am-
responsabilizará bientes, mediar as re-
gras, criar e controlar
Narrador: Vocês chegam a uma cabana
abandonada com as portas
por introduzir os os coadjuvantes, anta- e janelas escancaradas. O
desafios, descrever gonistas e figurantes, ambiente escuro exala um
situações, inseri-los na história fedor de podridão que infesta
elementos e eçãopromover a intera-
entre os protago-
o ambiente. Os gemidos das
turbas de infectados ficaram
ambientes, mediar nistas (personagens para trás.
as regras, criar dos jogadores). Cabe Jogador 1 e 2: Vamos entrar na cabana.
e controlar os apelele,de também, o pa-
aplicar, alterar Jogador 1: Vou fechar as portas e janelas.
coadjuvantes, ou excluir Condições, Existe algum ferrolho, fecha-
antagonistas e Características e Tor- dura ou coisa parecida?
figurantes. mentos, sem arbitra- Narrador: Sim, as trancas das portas e ja-
riedade, justifican-
nelas parecem em bom estado.
do-se com base nos
acontecimentos da história, contextos Jogador 1: Então vou trancá-las tentan-
e regras. Vetar testes e outras ações de- do fazer o mínimo de baru-
terminantes dos protagonistas, caso lho possível.
considere os objetivos e consequências
Narrador: As dobradiças rangem um pou-

121
co, mas nada alarmante. minhas características “Es-
tudante de enfermagem” e
Jogador 2: Vou tentar descobrir de onde
“Percepção perfeita”.
vem o cheiro de podridão.
Meu personagem diz “vou Narrador: Essa é uma tarefa fácil para
vasculhar a cabana, fique você, precisa de 1 número par
atento! ”. em um teste de dados.
Narrador: A cabana tem três ambientes.
Jogador 2: Consegui 2 números pares.
Sala e cozinha conjugada,
local onde vocês estão agora, Narrador: Ele realmente está morto.
um banheiro pequeno e um Quando observava o corpo,
quarto. Por onde você come- você notou que há um buraco
ça?
de bala na nuca dele.
Jogador 2: Vou no quarto.
Narrador: Ao entrar no quarto, você vê
um corpo pútrido estirado em Nível de
uma cama de solteiro. Em
um dos cantos há um guar- realismo
da-roupa antigo e uma escri- O nível de realismo é um parâme-
vaninha. tro imaginário que pauta os aconte-
Jogador 2: Ele está mesmo morto? Quer cimentos da história, uma definição
dizer, meu personagem vai do quanto a realidade dentro do jogo
verificar o corpo. Se aproxi- é verossímil, tomando como base o
ma cuidadosamente da cama mundo real. É uma ideia geral e con-
e procura por ferimentos pa- sensual de como a física funciona na
recidos com uma mordida. história, e, baseado nisso, o quanto
Como ele é enfermeiro, sabe certas ações podem ser plausíveis
bem como distinguir ferimen- ou não. Algumas histórias tendem
tos. Para isso vou usar as a ser mais realistas e situações ab-

122
surdas demais são desestimuladas algo que não entendemos e que não
ou vetadas, na tentativa de manter podemos conter ou remediar. O tom
o universo imaginário mais denso e da narrativa deve ser, na maior parte
real. Outras histórias tendem a criar do tempo, instigante. Os aconteci-
situações inusitadas e extraordiná- mentos devem promover a incerteza
rias, flertando com o surreal. O nar- e criar lacunas a respeito dos fatores
rador compartilha que levaram ao apocalipse pandêmi-
co, restando apenas
O narrador com os jogadores o
teorias e especula-
ções conspiratórias. O teor das
nível de realidade
compartilha definido, explican-
com os do com clareza as Mantendo os perso- histórias pode
nagens constante- carregar a ideia
jogadores noções de plausi- mente desconforta-
o nível de bilidade determi-
dos, acuados e curio-
misantrópica de
sos. É justamente ódio à natureza
nadas, o quanto a
realidade física é relevante e
definido, quais são os limites a curiosidade que humana e
vai impulsioná-los desprezo aos
explicando do absurdo. Dessa adiante na história.
com clareza forma eles tendem Fazê-los seguir em antigos valores
as noções de açater frente pelo corredor civilizacionais
mais seguran-
ao contextualizar escuro cheio de gru-
plausibilidade suas cenas. nhidos, abrir a porta machada de san-
gue que dá para um galpão misterioso,
seguir por uma estrada abandonada
Tom e teor em busca de um possível refúgio etc.
Terra Devastada não é, necessaria- O teor das histórias pode carregar a
mente, um jogo sobre infectados. Aci- ideia misantrópica de ódio à natureza
ma de tudo é um jogo sobre pessoas, humana e desprezo aos antigos valo-
limites e a fragilidade da condição res civilizacionais, pondo os persona-
humana quando nos deparamos com gens a pensar se é realmente melhor

123
continuar lutando pela vida e lidar
com a sensação de ser uma espécie
em extinção ou se entregar de vez a
argumentação,
um estado pleno de desumanidade. O
tema de cada história pode rumar para
Contexto e
assuntos desconcertantes e problema-
tizadores que historicamente orbitam
Circunstância
O Narrador, durante o jogo, é
o gênero, pois a figura do infectado estimulado a tomar uma série de
pode representar coisas diferentes decisões espontâneas, fazer avaliações
para diferentes culturas, serve como e, acima de tudo, interpretar
metáfora para o colapso social, para os aspectos dos personagens e
a morte, a vida após a morte ou sim- contextualizá-los em cada situação.
Na verdade, tudo durante a partida
plesmente uma representação bizarra
depende de contexto, circunstância
da rotina insone do cidadão moderno. e argumentação. Nas regras do
Pode ser um recipiente vazio esperan- jogo, não há decisões absolutas,
do para ser preenchidos de ideias in- parâmetros engessados, fórmulas,
convenientemente necessárias. tabelas ou qualquer modelo pré-
determinado que detenha o poder
da escolha pela criatividade,
imaginação ou simples bom senso,
Personagens fazendo o Narrador tomar decisões
menos automáticas e mecanizadas.
expressos Há referências e sugestões de
como aplicar metas, dificuldades,
Coadjuvantes, antagonistas e,
Condições e Consequências. Dessa
principalmente, figurantes, sejam forma, o Narrador é induzido a
eles sobreviventes, animais ou infec- pensar de forma mais intuitiva,
tados, podem ser colocados no jogo do tipo “eu escolho isto porque nesse
de forma mais expressa e genérica, momento e nessa situação é o que faz
sem precisarem necessariamente mais sentido”.

124
possuir ficha de personagem ou defi- dade de construir um personagem
nições claras de Características, Con- detalhado. O Narrador joga de 1 a
dições ou Tormentos. 6 dados para tudo, de acordo com
a relevância da participação desse
Isso se faz necessário sempre personagem e contexto em que ele
que ações de interação com perso- está inserido.  Por exemplo, um ma-
nagens que não foram previamen- rinheiro joga uma quantidade maior
te programados para a história são de dados para ações que forem co-
inevitáveis - o que pode ser bastan- muns em sua área de atuação. E uma
te recorrente em relação aos figu- quantidade menor de dados a medi-
rantes. Neste caso, não há necessi- da que as ações fogem desse escopo.

125
regras opcionais
3 representarão habilidades físicas, 3
Características representarão conhecimentos acadê-
por nicho temático micos, 3 representarão motivações e 3
representarão frustrações.
Opcionalmente, as características
podem ser criadas dentro de nichos
temáticos pré-definidos, forçando
um tipo de padronização na criação Características
de personagens de acordo com o tipo de vínculo
de tom que cada história se propõe.
Opcionalmente, pode-se definir
A determinação de quantos e quais que, das 12 características iniciais,
serão esses nichos e quantas Caracte- pelo menos 2 sejam destinadas a cos-
rísticas se destinam a cada um deles, turar ligações interpessoais mais est-
fica a cargo do Narrador. reitas entre os personagens do grupo,
Por exemplo, pode ser definido determinando um relacionamento
antecipadamente que a criação de prévio, como se eles já se conheces-
Características dos personagens será sem e já tivessem opiniões formadas
dividida igualmente entre quatro uns sobre os outros, acelerando dras-
nichos: habilidades físicas, conhe- ticamente a interação no grupo.
cimentos acadêmicos, motivações e O teor e a forma como essas Carac-
frustrações. Portanto, obrigatoria- terísticas vão ser ajustadas e divididas
mente, das 12 características iniciais, fica a cargo do Narrador. Por exem-

126
plo: cada jogador pode criar 1 Carac- gem por várias semanas. Ou determi-
terística para representar uma relação na que o desafeto do seu personagem
boa com o personagem do jogador começa a ter algum tipo de respeito por
sentado a sua esquerda e 1 Caracte- ele e ajudá-lo a resolver uma dificuldade
rística para representar uma relação naquela cena.
ruim com o personagem do jogador
sentado a sua direita (ou vice-versa).

Negociando Intervenções
Intervenções Opcionalmente, o jogador pode ne-
gociar uma intervenção com o Narra-
narrativas dor (que pode estar disposto a negociar
Intervenções são formas de o jo- ou não). Os pontos na escala de Convic-
gador interferir na história de forma ção funcionam como moeda de troca. O
arbitrária e conveniente ao próprio Narrador determina - arbitrariamente
personagem, inserindo elementos, - o custo de cada intervenção, cobran-
situações e definições que achar ne- do uma quantidade de marcações ou
cessário, como se assumisse o papel obstruções que julgar justo, conve-
do Narrador por uma cena. Por exem- niente ou interessante de acordo com
plo: O jogador determina que há uma os benefícios que o personagem rece-
porta aberta em um beco sem saída que berá. Intervenções simples, como, por
ninguém havia notado antes e que conve- exemplo, encontrar um par de sapatos em
nientemente está destrancada, por onde uma lata de lixo, podem custar pouco,
seu personagem pode fugir. Ou deter- de 1 a 6 marcações na escala, depen-
mina que o seu personagem encon- dendo do quanto isso for interessante
trou uma arma carregada no porta-luvas para a história. Intervenções muito
de um carro aleatório estacionado na rua. ambiciosas ou surreais demais para a
Ou determina que seu personagem situação, como, por exemplo, um raio
encontrou um caminhão capotado na derrubar um poste e esmagar a turba de
rodovia, cheio de comida enlatada, que infectados que o perseguia, podem custar
poderá matar a fome do seu persona- de 1 a 3 obstruções.

127
A história
A construção de uma história par-
Criando te de uma série de questionamentos,
possibilidades e obstáculos a serem
histórias superados. Quais os elementos e re-
As histórias em Terra Devastada ferências interessantes para compor o
são sobre jornadas. Sobreviventes enredo? Quais possíveis antagonistas
cruzando cidades infestadas e ter- e coadjuvantes?  O
renos desolados, em busca de um que será explorado? A construção
Qual objetivo da jor-
refúgio seguro ou um lugar melhor
nada dos sobreviven-
de uma história
tes? Que mistérios parte de
para se viver. Na maioria das vezes
buscam algo que sequer sabem se é
seriam instigantes? uma série de
possível alcançar, como o Soro Ga-
A trama vai se de- questionamentos,
ranus - que, teoricamente, é o único senrolar em refúgios,
tratamento contra o processo de in- cidades, estradas, possibilidades
fecção - perdido em algum laborató- terrenos, prédios, e obstáculos a
rio abandonado da Cerberus Lab; ou zonas de contenção, serem superados.
em busca de uma zona de contenção onde mais? Quais as
onde possam ficar em segurança na possibilidades de conflitos? Quais
companhia de outros sobreviventes; os elementos que, de alguma forma,
ou ainda correr atrás do mito de um possam atrapalhar os protagonistas a
lugar que não foi afetado pela pan- concluir seus objetivos? Onde seria
demia, como uma ilha paradisíaca interessante pôr os protagonistas em
ou vale isolado. perigo e onde seria interessante ajudá

128
-los? Em que ponto as relações entre mas que orbitam a história, fazê-los
cada um dos personagens pode piorar se importar com o que acontece e se
ou melhorar? Onde caberia drama, sentirem parte do cenário.
suspense, terror, romance, ação?

Vínculo de grupo De alguma


primeiro ato ou O Narrador pode forma o
configuração estimular a criação caminho
da história de vínculos (bons ou de cada um
ruins) entre os per-
sonagens e formar, cruza com
Inicialmente, o Narrador estabe- o outro,
mesmo que indireta-
lece um lugar seguro, onde tudo está
em aparente ordem e as coisas fun- mente, um grupo de gerando a
cionam como deveriam protagonistas. De al- necessidade
guma forma o cami-
Inicialmente, funcionar. Localiza os nho de cada um cruza de se agrupar,
o Narrador protagonistas e apresenta
todos os outros persona- com o outro, gerando seja por
estabelece gens, mostra seus humo- a necessidade de se afinidade,
um lugar res, pretensões, frustra- agrupar, seja por afini-interesse ou
dade, interesse ou ne-
seguro, onde ções, planos, motivações cessidade. O processo necessidade.
tudo está eDescreve
impressões iniciais.
ambientes, es- de formação de grupo
em aparente truturas, atmosfera, tom é lento, não avança necessariamen-
ordem. e o teor da história. te na história, mas pode render boas
horas - ou sessões - de narrativas a
Este é um ato que pre- respeito de relações interpessoais,
cisa necessariamente ser longo, mas interações e alinhamentos, até que
não maçante. Serve para envolver cada um se posicione, encontre e as-
os protagonistas nos pequenos dra- suma seu papel no time.

129
Opcionalmente, como forma de
acelerar a introdução da história, os
personagens podem começar como
Espelho do
um grupo formado. Todos possuem
relações bem definidas já na criação
Mundo real
de cada personagem. (Características Pode ser interessante reimaginar
de Vínculo, pág. 126). cidades conhecidas do mundo real,
e, principalmente, a sua própria
cidade, por uma perspectiva
pós-apocalíptica e usá-la como
Criando relevância localidade onde se passa a história.
para os protagonistas Ruas, prédios, espaços públicos,
condomínios, periferias, tudo
O Narrador pode adicionar ele-
infestado por infectados. Há
mentos interessantes dentro da his- uma familiarização mais natural
tória que possam se relacionar dire- com as referências, proporções e
tamente a cada pro- estruturas. A ambientação se torna
O Narrador tagonista, fazendo
com que cada um
muito mais fácil de ser explicada
e compreendida. Por exemplo:
pode adicionar deles se sinta útil O centro de Brasília foi atingido
elementos dentro da história. por uma bomba nuclear e agora
interessantes Se, por exemplo, um restam apenas ruínas. As linhas de
metrô de São Paulo agora são um
dentro da dos protagonistas
for mecânico, adi- tipo de cidadela subterrânea que
história que cione conflitos que refugia milhares de sobreviventes.
possam se ponham as aptidões A Rocinha, no Rio de Janeiro, é a
maior concentração de infectados
relacionar dele à prova, como
veículos precisan- do país. Existe um laboratório
diretamente do de conserto ou desativado da Cerberus no
subúrbio de Manaus. Existe uma
a cada qualquer mecanismo ilha no arquipélago do Marajó que
protagonista. quebrado que precisa não foi afetada pela pandemia etc.
estar em ordem para

130
garantir a segurança do grupo. Esses para serem resolvidos, não há drama,
elementos servem para manter for- não há ação, não há nada para ser
talecida a sensação de protagonismo, contado. Protagonistas precisam ter
estimulando o interesse dos jogadores séries de problemas ao longo do jogo,
na história. principalmente no segundo ato. Pre-
cisam superar obstáculos, vencer di-
ficuldades e aprender com os erros.
No entanto, os problemas precisam
segundo ato ou o fazer algum sentido, serem solucio-
grande problema náveis e estarem de alguma forma
conectados com o teor da história.
O Narrador enche os protagonis-
tas de problemas e desconstrói a sen-
sação inicial de ordem e segurança.
Os personagens enfrentam uma série terceiro ato ou o
de conflitos e obstáculos confronto final
Problemas individuais, até encon-
trarem um problema O Narrador coloca
são o que que envolve o grupo os protagonistas dian- O Narrador
motivam todo, de forma que pre- te do conflito final, coloca os
uma história, cisem estar juntos para criando uma sensação protagonistas
de clímax e rumo final
se não há superá-lo. da história, sem dar a
diante do
problemas chance de voltar atrás. conflito final,
para serem a importância Os protagonistas pre- criando uma
resolvidos dos problemas cisam necessariamente sensação
enfrentar esse último
(...) não há Problemas são o que obstáculo. No entanto,
de clímax e
nada para ser motivam uma história, não se deve limitar as rumo final da
contado. se não há problemas possibilidades de reso- história.

131
lução do desfecho. Um bom desfecho, odiado pelo grupo, de alguma for-
em teoria, seria acabar com o proble- ma, é a chave para solucionar vários
ma. Um desfecho seguro (ou desfecho problemas etc.
ruim) seria relevar ou fugir do pro-
blema, mantendo a integridade dos
personagens. Um desfecho dramático
seria padecer diante do problema. Amadurecimento
de personagens
Opcionalmente, ao entrar em cada
Reviravoltas ato, os personagens ganham 3 novas
Características baseadas em suas ex-
Reviravoltas são pequenas reve-
periências passadas. Revisam suas
lações, porém surpreendentes, que características anteriores de acordo
fazem grandes mudanças nos rumos com suas novas experiências vividas
da história. Boas narrativas são im- no jogo (pág. 66).
previsíveis, emocionantes e transfor-
madoras. O narrador pode adicionar
uma reviravolta no final de cada ato,
marcando a passagem das fases da Bônus de
história de um jeito instigante.
Intervenção
Por exemplo: um personagem
aliado se revela um traidor, assu- Narrativa
mindo um papel de antagonista. Os Opcionalmente, ao entrar em cada
protagonistas acham que estavam ato, os personagens ganham direito a
em um lugar seguro, mas descobrem fazer uma intervenção narrativa gra-
que estão no centro de todo o peri- tuita, sem precisar negociar Convicção
go da história. Uma catástrofe acon- com o Narrador (Pág. 127). Caso o per-
tece dando fim a todos os recursos sonagem não use a intervenção, esse
dos protagonistas. Um personagem direito acumula para o próximo ato.

132
História rápida
terror em Anhanguera
Esta é uma história pronta, com uma trama curta para durar, em média, uma ou
duas sessões. Há alguns personagens prontos e a possibilidade de continuar a história
para além do que está planejado aqui.

É talvez a mais importante da Amé-


Protagonistas rica Latina ainda em atividade, com
pouco mais de mil refugiados moran-
Os protagonistas são residentes do entre as grades. Localiza-se entre
comuns de Anhanguera, residentes Goiás e Minas Gerais, próximo a mu-
tanto do Bloco A quanto da Favela. nicípios que eram consideravelmen-
Também são afetados pelas arbitrarie- te populosos dos dois Estados. Hoje,
dades, problemas e conflitos do lugar. ambos se tornaram concentrações
Podem exercer qualquer função co- massivas de infectados que migram
mum - feirantes, produtores da hor- todos os dias em direção a Anhangue-
ta, faxineiros etc. - com exceção das ra, seguindo uns aos outros de forma
equipes de segurança, administração mecânica, perseguindo saqueadores
e manutenção. ou atraídos pela grande presença de
vida no lugar.
Já faz pelo menos 1 ano que o
Primeiro ato:
mundo sucumbiu ao Vírus Cerberus.
A comunidade Os sobreviventes estão em aparente
segurança, isolados do resto do mun-
Anhanguera é uma das zonas de do, vivendo em uma comunidade au-
contenção brasileiras, foi improvisada tossustentável (ou quase), se aventu-
pela FAB em um presídio federal que rando fora da comunidade apenas na
ainda estava em fase de construção. necessidade de saquear cidades próxi-

- 133 -
mas em busca de mantimentos e fer- No entanto é um homem de ação e
ramentas de alta necessidade. não de planejamento, motivo pelo
qual se cerca de pessoas disponíveis
Não há mais militares em Anhan- a ajudá-lo em suas tarefas administra-
guera, as tropas deixaram a comu- tivas.
nidade sob direção dos próprios
refugiados, para integrar as frentes O Prefeito reside na Ala de Fun-
de combates na última inves- cionários, junto com outros re-
tida da Guerra Pandêmica. fugiados que ajudam na ad-
Nunca mais retornaram. ministração do local. Na
área da Diretoria aconte-
Não há luz elétri- ce as reuniões adminis-
ca. Os Geradores de trativas com os líderes
Eletricidade quebraram de cada setor, além das
assembleias gerais com o
há meses. Sem nenhuma
máximo de representantes
previsão de conserto por dos residentes.
falta de profissionais aptos
Ele é implacável em exe-
e peças. Jorge cutar a justiça - ou sua per-
Sampaio cepção do que é justiça - ex-
pulsando da comunidade
O prefeito (O Prefeito) todos que não se adequam
Jorge Sampaio (Pág. 27) é a seu método de liderança.
O Prefeito. Ex-militar que está na co- Deixando-os entregues a própria sor-
ordenação geral de Anhanguera. Car- te, no mar de infectados do lado de
go dado a ele ainda pela FAB, quando fora.
foram embora. É extremamente res-
peitado por todos dentro da comu- Ultimamente, O Prefeito está re-
nidade. Apesar de sua austeridade e cluso, cada vez mais distante de suas
impulsividade, todos acreditam pia- responsabilidades, deixando quase
mente em seu senso de justiça, julga- todas as decisões a cargo dos líderes
mento e capacidade administrativa. de cada setor. Alguns boatos sugerem

- 134 -
- 135 -
que ele está em depressão profunda, revezam entre as torres de vigilância e
perdendo a sanidade, incapaz de diri- os portões de entrada. Ninguém entra
gir Anhanguera. ou sai sem a autorização deles. Todos
estão armados com armas de fogo - de
espingardas e pistolas -  e munição ra-
Grades e portões cionada. Além disso, usam comunica-
dores portáteis com baterias limitadas,
As grades externas são altas e re-
lativamente afastadas dos prédios acionados apenas em casos de extrema
internos. Há 12 torres de vi- necessidade.
gilância ao longo da cerca. O líder da equipe de
A entrada é selada por segurança é Olívio Pam-
duas sequências de por- plona, “O Cão de Caça”
tões corrediços, fechados (Pág. 22). Ele é uma ex-
com correntes e cadeados
tensão d’O Prefeito, bem
grossos.
mais presente na vida dos
Milhares de infectados residentes, fazendo rondas
permanecem cercando os aleatórias pela comunidade,
quatro lados da comunida- sempre fuçando e vigiando.
de, amontoando-se, pressio- Olívio É temido por todos, atuan-
nando-se contra as grades. Pamplona do como um tipo de “polícia
No entanto, não oferecem interna”, mantendo a ordem
nenhum perigo para quem (Cão de entre os residentes.
se manter afastado. Caça)
Ele fez da equipe de segu-
Existe uma equipe nume- rança um clube de elite den-
rosa de refugiados que cuidam da se-
tro de Anhanguera, com uma lealdade
gurança de toda a comunidade. Todos
com algum tipo de antecedente militar e obediência quase religiosa a suas de-
ou treinamento de combate - soldados terminações. Eles nunca questionam
remanescentes, bombeiros, policiais suas ordens. Não respondem a nin-
militares, guardas municipais etc. se guém além d’O Prefeito e de Olívio.

- 136 -
O bloco A para manter o Bloco A com constante
fornecimento de água e manutenção
O Bloco A é o conjunto de celas de esgoto. Enquanto que os outros se-
improvisadas para abrigar famílias. tores de Anhanguera precisam racio-
São 5 andares e mais de 50 quartos em nar esse recurso.
cada andar, cada um medindo pouco
mais de 10 metros quadrados. Dentro
há beliches e um pequeno banheiro.
Os primeiros refugiados, os que fo-
A favela
ram encaminhados pela FAB, ficam A Favela é um acampamento
nesse setor. É considerado um setor no pátio interno de Anhangue-
luxuoso dentro da comunida- ra, onde vivem os refugiados
de, confortável, limpo e or- que conseguiram chegar à
ganizado. comunidade sozinhos, a
maioria seguindo pela
O Bloco A é conside- rodovia. Na época, ape-
rado um setor elitista, sar de Anhanguera estar
pois os residentes têm completamente lotada, a
melhores condições de FAB permitiu que todos
vida. Também se conside- entrassem e se acomodas-
ram mais dignos de morar sem como pudessem. Cede-
em Anhanguera, pois faziam ram barracas de lona, redes,
parte da programação origi- Marta colchonetes e mosquiteiros.
nal de refugiados da FAB.
Novaes Átila Sales (pág. 12) é
Marta Novaes (pág. 50) é
o coordenador da Favela.
a coordenadora do Bloco A. Os resi-
dentes se apoiam nela para defender É conhecido por ser um humanista
suas reivindicações e necessidades. convicto, evita qualquer situação de
Principalmente sobre sua participa- violência e injustiça. É também um
ção na produção da horta e forneci- opositor político d’O Prefeito, des-
mento de água encanada. É acusada crente de sua capacidade administra-
de manipular a equipe de cisternas tiva e de seu senso de justiça.

- 137 -
A horta guera foi fixada. Há paredões sem re-
boco, colunas de concreto e armações
Há uma horta comunitária respon- de aço, deixando grandes vãos aber-
sável por toda a produção de alimen- tos, impossíveis de serem bloqueados.
tos dentro da comunidade, forçando
os residentes de Anhanguera a ter Aqui também funciona uma feira
uma dieta vegetariana. Todos dentro organizada pelos moradores da Fa-
da comunidade têm alguma participa- vela. Onde cada produtor da Horta
ção na horta, como forma de garantir pode negociar alimentos em troca de
a própria alimentação. Mesmo serviços, benefícios ou algum
assim, há uma participação
objeto de valor. A maioria
- e dedicação - bem maior
de residentes da Favela. dos moradores do Bloco
A adquire seus manti-
Átila também é coor- mentos dessa forma.
denador da Horta, deter-
minando os lotes e par-
ticipação na produção de Cisternas
alimentos com base na de-
dicação de trabalho. É acusado Há um sistema de cister-
nas e poços artesianos total-
constantemente de utilizar de Àtila mente funcionais. Existe uma
sua liderança para beneficiar
os Residentes da Favela, ce- Sales equipe de refugiados respon-
dendo mais espaço e oportu- sável pela manutenção estru-
nidade de produção. Mantendo-os tural desse setor, fazendo pequenos
sempre bem alimentados, enquanto o serviços nas tubulações de água e es-
Bloco B precisa racionar comida. goto.
A liderança da equipe de manu-
O bloco B - A feira tenção das tubulações de água e es-
goto é de Diego Xavier, o “Die-X”
O Bloco B é um setor que ainda (pág. 42). Mesmo sem nenhuma expe-
estava em construção quando Anhan- riência em trabalhos de manutenção,

- 138 -
é um bom coordenador de equipe e residentes de Anhanguera que, de al-
muito bem relacionado com as lide- guma forma, tiveram conhecimento
ranças de Anhanguera. Faz parte do de alguns fatos importantes sobre as
Bloco A, dividindo um quarto com origens e desenvolvimento da doença.
Marta Novaes.
Karina conhece todo mundo
As opiniões sobre ele são dividi- dentro de Anhanguera e pode forne-
das. Os residentes do Bloco A apro- cer informações relevantes sobre a
vam completamente sua coordena- história de cada um (pág.
ção, mas os moradores da Favela 12 - 56) ou responder
questionam as responsa- questões relevan-
bilidades atribuídas tes sobre o Apo-
a ele, pois o acham calipse Pandê-
completamente mico, origens do
incapaz de exercer Vírus Cerberus,
suas funções, mes- teorias etc.
mo não existindo
nenhum outro vo-
O Calabouço
luntário para ocupar Karina
o cargo. Eles acusam O Calabouço se
Diego Marta de usá-lo para tornou o centro de Lancastre
pesquisa de Lio-
Xavier beneficiar o Bloco A. nel Veloso (pág. 35). Ele trabalha
(Die-X) sozinho, passando dias trancado e
Auditório incomunicável. Recentemente, vol-
tou a desenvolver um possível soro
Aqui, Karina Lancastre (pág. 11), que talvez reverta o avanço do Ví-
organiza uma série de documentá- rus Cerberus. Apesar da total falta de
rios sobre o Apocalipse Pandêmico. estrutura, conseguiu improvisar um
Ela está montando um dossiê sobre o laboratório com o material recolhi-
Fim do Mundo, entrevistando alguns do na enfermaria.

- 139 -
O Calabouço era, originalmente, A maioria dos residentes tem
o setor de confinamento e câmaras medo de Lionel. Ele desenvolveu há-
escuras para prisioneiros, onde se bitos esquisitos, como caminhar ren-
destinariam os presos mais perigo- te às grades tarde da noite e ter horas
sos ou sob algum tipo de castigo ad- de discussão consigo mesmo enquan-
ministrativo. O lugar tem 2 andares to perambula pelo cemitério. No en-
subterrâneos de câmaras herméticas tanto, todos têm esperanças em seu
e algumas salas administrativas ilu- trabalho, principalmente O Prefeito,
minadas por velas e claraboias. É por isso ninguém questiona seus
um ambiente escuro, úmido métodos e costumes.
e extremamente infeccio-
so, pois as celas dos fun-
dos estão cheias de restos Outras áreas
mortais de infectados
abatidos nos arredores A Capela é um lo-
das grades. Os corpos são cal iluminado, confor-
mantidos como objeto de tável e cheio de objetos
estudo de Lionel (ler Odor sacros. Acabou se tornando
Infeccioso, pág. 116). um lugar de confraterniza-
Lionel ção, apesar de não existir
Apenas Lionel e Olívio Veloso nenhum padre oficial em
têm permissão de entrar no Anhanguera.
calabouço - determinação d’O Pre-
feito - devidamente vestidos com O Cemitério é aonde os corpos dos
trajes anticontaminação. Qualquer refugiados que vieram a falecer são
enterrados.
outra pessoa que queira acessar o
laboratório sem permissão, além de As Salas de Visitação se tornaram
correr o risco de contaminação, é depósitos de mantimentos, armas e
imediatamente tratado como um pe- munição, protegidos pela equipe de
rigo para a comunidade. segurança de Olívio.

- 140 -
O Refeitório se tornou uma gran- Os protagonistas podem ser envolvi-
de cozinha comunitária, dividido dos diretamente ou indiretamente no caso
entre os moradores do Bloco A e da dos desaparecidos. Podem, por exemplo,
Favela. Não há fornecimento de gás serem escolhidos para formar uma das
e todos os alimentos são preparados
equipes de busca de Olívio. Podem ter al-
crus e temperados.
gum ente querido também desaparecido.
A Biblioteca não possui nenhum Podem iniciar uma investigação inde-
livro. É usada como depósito de ferra- pendente como forma de conseguir moral
mentas da equipe das cisternas e pro- suficiente com líderes de Anhanguera etc.
dutores da horta.
Os Vestiários são banheiros comuni-
tários, divididos entre os moradores
Teorias
do Bloco A e da Favela. Marta aposta na possibilidade de
haver um louco assassino, residente
na Favela, matando as pessoas. Os
Segundo ato: moradores do Bloco A corroboram
com a ideia de Marta e acrescentam
desaparecidos que isso é um tipo de retaliação vio-
lenta e estúpida.
Algumas pessoas começam a de-
saparecer em Anhanguera, princi- Átila acredita que talvez os desa-
palmente residentes da Favela. Não parecidos tenham se aproximado de-
há explicações sobre o ocorrido. Olí- mais das grades e tenham sido devo-
vio mobiliza a equipe de segurança rados - apesar de não haver nenhum
e também cria equipes de busca com rastro que aponte isso. A maioria dos
residentes comuns. Ele não participa moradores da Favela acredita que
pessoalmente das buscas e dá a im- existe um residente do Bloco A que
pressão de não estar engajado o sufi- está exterminando favelados, se li-
ciente nos ocorridos. vrando de “gente inconveniente”.

- 141 -
Marta vai acusar Átila de enco- alega que está ajudando Lionel nos
bertar assassinatos e Átila vai acusar experimentos.
Marta de usar a situação para criar
O que acontece de fato é que Lio-
uma guerra política desnecessária.
nel e Olívio estão obcecados em
desenvolver uma cura para o Vírus
Atentados e julgamentos Cerberus. São eles os culpados pelos
desaparecimentos em Anhanguera.
O clima conflituoso entre o Blo- Lionel precisava de cobaias vivas
co A e a Favela vai estimular aten- para seus experimentos e Olívio cap-
tados de ambos os lados. Moradores turava residentes que, por acaso, es-
do Bloco A vão destruir a Horta e, tivessem mais vulneráveis (realidade
como resposta, moradores da Favela da maioria dos moradores da Favela).
vão destruir as tubulações da cister-
na. Olívio organiza grupos de inves- Os experimentos de Lionel con-
tigação para encontrar os culpados sistem em infectar pessoas com o Ví-
dos atentados. O Prefeito organiza rus Cerberus, testar uma série de com-
julgamentos públicos, sentenciado postos e dissecá-las.
os culpados à expulsão da comuni- As pessoas desaparecidas estão
dade, que são empurrados para fora presas em celas individuais de confi-
das grades, para entre os milhares de namento. Algumas estão infectadas,
infectados do lado de fora. outras não. No entanto, todas estão
drogadas e não conseguem racionali-
zar o que está acontecendo.

Fatos ocultos Algumas pessoas podem relatar


terem ouvido gritos assustadores
Lionel, Olívio e integrantes da vindos do calabouço. No entanto,
equipe de segurança se encontram Olívio, obviamente, vai ignorar qual-
todas as noites no Calabouço. Olívio quer relato desse tipo.

- 142 -
O Prefeito acredita tanto no trabalho que consiste em contaminá-los com
de Lionel, que vai ignorar qualquer Vírus Cerberus.
denúncia e, provavelmente, destratar
Se os protagonistas derrotarem a
quem insistir nisso. equipe de segurança e frustrarem os
planos de Lionel, Olívio usa o comu-
nicador para ordenar que a equipe de
terceiro ato: segurança abra os portões, deixando
Portões abertos milhares de Infectados invadirem
Anhanguera.
Se os protagonistas invadirem o
Calabouço e descobrirem os planos
de Olívio e Lionel, a equipe de segu- Fuga de Anhanguera
rança entra em ação, atacando os pro-
tagonistas. Se os protagonistas forem Quando Anhanguera estiver sendo
rendidos, vão permanecer trancados invadida por infectados, os protago-
em celas individuais, esperando o nistas precisam encontrar um jeito
momento de serem usados como co- de salvar as próprias e vidas e escapar
baias dos experimentos de Lionel - o para um lugar seguro.

Personagens
A seguir uma série de personagens relevantes para a história. Jorge Sampaio,
Olívio Pamplona, Marta Novaes, Átila Sales, Diego Xavier, Karina Lancastre
e Lionel Veloso podem ser coadjuvantes ou antagonistas. Roberto Soares, Cass
Sonaglio, Ofidio Nogueira, Cibelle barnabé, Lucas Bernardo e Paulo Ramon
podem ser Protagonistas (ou cada jogador pode criar seu próprio protagonista
se preferir). Também há uma série de infectados predefinidos: Andarilho trô-
pego, Criança desmorta, Regurgitador infeccioso, Comedora de cérebros, Glu-
tão insaciável, Caçadora implacável, Bocarra Aberrante e Cão pútrido.

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