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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA CÍVEL

DA COMARCA DE CHAPADINHA- PI

Processo n.º 0098575-98.2017.8.18.0000

FRANCISCO BISTURI, já devidamente qualificado nos autos, vem por meio de seu
advogado que esta subscreve, vem à honrosa presença de Vossa Excelência, nesta e na melhor
forma de direito, apresentar tempestivamente CONTESTAÇÃO aos termos de presente Ação
de Indenização por Danos Materiais, Morais e Estéticos que lhe move VANDA VENTANIA,
igualmente qualificada nos autos, conforme fundamentação fática e jurídica a seguir aduzida.

DA SÍNTESE DA PETIÇÃO INICIAL

A AUTORA é uma famosa e rica modelo fotográfica e procurou o médico cirurgião


plástico Dr. Francisco Bisturi. O citado médico atende em sua clínica, na cidade de
Teresina/PI e também na cidade de Vera Mendes/PI, onde o procedimento da AUTORA foi
realizado. Ao se submeter a uma cirurgia reparadora para retirada de um sinal inato no nariz, a
AUTORA solicitou que fosse feita no mesmo ato cirúrgico, uma correção de desvio de septo.
Porém, após a cirurgia percebeu-se que o procedimento não fora bem sucedido. Seu rosto
sofreu uma deformação, resultado de uma suposta imperícia médica.
O RÉU recebeu a carta de citação do processo e na mesma correspondência foi-lhe
encaminhado decisão do Juiz concedendo o benefício da justiça gratuita para AUTORA. O
RÉU afirma que não teve nenhuma surpresa com o ocorrido à AUTORA, uma vez que a
mesma teria sido advertida quanto à imprecisão do resultado, como foi tomado ciência antes
da cirurgia, havendo inclusive um termo de declaração onde Vanda diz ter consciência dos
riscos que envolvia um duplo procedimento.

DAS PRELIMINARES

1- Da incompetência relativa

No artigo 337, II, NCPC, no que no que se trata a incompetência relativa, que aborda a
territorialidade, pode adentrar ao fato que a AUTORA ajuizou a ação na cidade de
Chapadinha – PI essa ação poderia ter sido proposta no lugar do fato onde aconteceu o dano
de acordo com o Art. 53, IV, “a”,

Art. 53. É competente o foro:

IV - do lugar do ato ou fato para a ação:

a) de reparação de dano;

Por meio ainda do Art. 101, I, CDC pode ser ajuizada a ação no local do ato ou fato, ou
no domicílio da AUTORA:

Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços,


sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título, serão observadas as
seguintes normas:

I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;

Então, em meio aos artigos acima citados e expostos, torna- se incompetente o território
em que foi ajuizada a ação contra o RÉU.

2- Da incorreção do valor da causa

Exposta no artigo 337, III, CPC, a respeito da ação proposta pela AUTORA, à causa
foi no valor de R$ 1.000, 00 (mil reais), com isso não corresponde ao valor da ação que busca
a reparação por danos morais, materiais e estéticos alegados pela AUTORA, pois os valores
têm que coincidir na ação. No art. 292, V, do NCPC deixa explícito e com isso o valor da
causa deve ser corrigido por Vossa Excelência de acordo com o § 3o do mesmo artigo citado:

Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será:

V – na ação indenizatória, inclusive a fundada em dano moral, valor pretendido.

§ 3o O juiz corrigirá, de ofício e por arbitramento, o valor da causa quando


verificar que não corresponde ao conteúdo patrimonial em discussão ou ao proveito
econômico perseguido pelo autor, caso em que se procederá ao recolhimento das
custas correspondentes.

No Art. 321, NCPC diz que o juiz verifica e dá prazo de 15 dias para emendar ou
completar a petição inicial, em caso de defeitos ou irregularidades na mesma e no parágrafo
único fala que se o autor não cumprir com as diligências o juiz indeferia a petição inicial.
Vejamos:

Art. 321. O juiz, ao verificar que a petição inicial não preenche os requisitos
dos arts. 319 e 320 ou que apresenta defeitos e irregularidades capazes de dificultar
o julgamento de mérito, determinará que o autor, no prazo de 15 (quinze) dias, a
emende ou a complete, indicando com precisão o que deve ser corrigido ou
completado.

Parágrafo único. Se o autor não cumprir a diligência, o juiz indeferirá a petição


inicial.

3- Da ausência de interesse processual

A ausência de interesse processual está elencada no Art. 337, XI, NCPC. A AUTORA estava
ciente dos riscos que poderia ter e mesmo assim assinou um termo de declaração para fazer a
cirurgia, e com isso o RÉU alega extinção do processo sem resolução de mérito nos termos do
Art. 485, VI, NCPC que dispõe:

Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando:

VI – verificar ausência de legitimidade ou interesse processual.


4- Da indevida concessão do benefício da gratuidade da justiça

A indevida concessão do benéfico da gratuidade da justiça está disposta no Art. 337,


XIII, NCPC. A AUTORA buscou os benefícios da assistência judiciária gratuita na ação
proposta, foi de forma indevida, pois a mesma é uma famosa e rica modelo fotográfica de
acordo com a sua qualificação. Então conclui- se que a AUTORA tem renda suficiente para
assumir as custas processuais e os honorários correspondentes a ação. De acordo com Art.
98, caput, NCPC, não há motivo para que ela seja beneficiada com a gratuidade da justiça,
pois a mesma não se enquadra no artigo. Requer a Vossa Excelência impugne tal pedido
concedido revogando o benefício da Justiça Gratuita.

Art. 98. A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência


de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários
advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei.

DA DEFESA DE MÉRITO

Superadas as preliminares expostas, a título de argumentação (ad argumentandum


tantum) passamos para a análise da matéria meritória.

A aplicação do Código de Defesa do Consumidor no caso em questão é indispensável.


No Art. 6°, III, CDC trata dos direitos básicos do consumidor com as informações adequadas
dos serviços, o RÉU não teve surpresa com a imprecisão do resultado da cirurgia, pois foi
advertido antes.

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com


especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade,
tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem.

Segundo o doutrinador Leandro Cardoso Lages, este artigo é um dos mais importantes
do CDC que elenca o princípio da informação, e que a informação adequada é uma obrigação
imposta ao fornecedor. Menciona novamente que a AUTORA foi advertida antes da cirurgia
do que poderia ocorrer e estava ciente do que poderia acontecer.

O princípio da informação representa se não o mais importante, o mais presente no


texto legal do CDC. Em boa parte dos artigos da lei, a informação é mencionada
como uma obrigação imposta ao fornecedor e um direito do consumidor, que deve
ser informado corretamente a respeito das características, preços, condições e
qualidade dos produtos e serviços sem surpresas ou imprevistos. (LAGES, Leandro
Caldas. Direito do Consumidor: A lei, a jurisprudência e o cotidiano. 3ed. Pág. 73.
Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2016).

Então pode visualizar que foi informado a AUTORA os procedimentos e as


consequências da cirurgia e a mesma insistiu em fazer. O direito de informação decorre do
fato que o consumidor precisa saber do que está consumindo, bem como os riscos
relacionados ao consumo, na medida em que o consumidor aceita sofrer as consequências dos
riscos, desde que informado a respeito.

A responsabilidade dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de


culpa, de acordo com o Art. 14, § 4°. O RÉU alega que a autora assumiu o risco para si, então
a mesma se responsabiliza pelos danos ocorridos em decorrência da cirurgia.

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de


culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos
à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas
sobre sua fruição e riscos.

§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a


verificação de culpa.

O Art. 944, parágrafo único, CC, trata da desproporção entre a gravidade da culpa e do dano,
então pede a Vossa Excelência a redução da indenização equitativamente e proporcional a
ação. A AUTORA contesta indenização por danos materiais e estéticos, sendo que já foi
mencionado que ela estava ciente dos riscos do duplo procedimento. Não há presença de:
imprudência, negligência ou imperícia, e com isso não caracteriza culpa do RÉU. Então não
tem que aceitar o pedido de dano material e estético.

944. A indenização mede-se pela extensão do dano.

Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o


dano, poderá o juiz reduzir, eqüitativamente, a indenização.

Vejamos essas jurisprudências:

AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA.


PROVIMENTO. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. VALOR
ARBITRADO. ARTIGO 944 DO CÓDIGO CIVIL. Uma vez demonstrada a
viabilidade de processamento do recurso de revista por provável violação do
disposto no art. 944 do Código Civil, o provimento do agravo de instrumento é
medida que se afigura imperativa. Agravo de instrumento a que se da provimento.
RECURSO DE REVISTA. 1. VALOR DA INDENIZAÇÃO. ARTIGO 944 DO
CÓDIGO CIVIL. Com relação ao valor da indenização fixada na origem,
observando-se o contexto fático delineado no acórdão regional e os parâmetros a
serem observados na fixação do quantum indenizatório, comporta reforma o valor
arbitrado pelo Colegiado a quo (R$ 20.000,00), vez que não observados o s
princípios da equidade, razoabilidade e proporcionalidade, caracterizando a
propalada ofensa ao artigo 944 do Código Civil. Recurso conhecido e provido para
restabelecer o valor da compensação por dano moral fixado na sentença no
importe de R$ 4.580,15. Recurso de revista conhecido e provido. (TST - RR:
6922020135150060, Data de Julgamento: 10/06/2015, Data de Publicação: DEJT
19/06/2015)

De acordo com a jurisprudência, os valores têm que coincidir, pois ao contrario viola o Art.
944, CC.

CIVIL. AÇAO INDENIZATÓRIA. DANO MORAL E DANO MATERIAL.


CULPA LEVE. APELAÇÕES CÍVEL E ADESIVA.
PROPORCIONALIDADE NA FIXAÇAO DO DANO MORAL MANTIDA.
PEDIDO RECURSAL DE REDUÇAO DO DANO MORAL NAO
ACOLHIDO. PEDIDO DE DANOS MATERIAIS NEGADO. SENTENÇA
MANTIDA. RECURSOS IMPROVIDOS. 1. A indenização por danos morais
deve ser fixada em atenção aos parâmetros da causa, encartando, inclusive, critério
de desestímulo para o infrator à prática de outros ilícitos. A particularidade do caso
não aponta para uma reprimenda mais contundente, porquanto o requerido agiu com
culpa leve, ou seja, de baixa reprovabilidade, além ter prestado imediato socorro ao
réu, que veio sofrer apenas lesões leves no infortúnio. Precedente: REsp 453.874/RJ,
Rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, 3ª Turma, DJ 01.12.2003, p. 348. Indenização
a título de dano moral mantida (R$6.000,00). 2. A reparabilidade material
indenizatória só cabe no caso de existir comprovado dano, que é um dos
pressupostos da responsabilidade civil. Na hipótese, após o acidente, o recorrente
tornou a trabalhar normalmente na atividade que antes desenvolvia, afirmando "que
não é necessário fisioterapia" e "que não deixou de ganhar dinheiro no período em
que ficou parado" (fl. 63), o que afasta a aplicação do art. 402 e 950, do Código
Civil de 2002 e art. 7º, inciso XXVIII, da CF. 3. Apelos principal e adesivo
conhecidos e improvidos. Sentença mantida. (TJ-ES - AC: 22050003627 ES
22050003627, Relator: ARNALDO SANTOS SOUZA, Data de Julgamento:
30/10/2007, PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 06/12/2007)

Analisada jurisprudência conclui que o ressarcimento por dano material só justifica com a
comprovação do dano.
DOS PEDIDOS

Diante das exposições feitas, requer que Vossa Excelência conceda:

a) O manifesto da incompetência relativa, encaminhando a ação para o Juízo competente;


b) Incorreção do valor da causa;
c) Julgar improcedente o pedido da AUTORA;
d) Condenar a AUTORA ao pagamento de custas e honorários advocatícios
sucumbenciais;
e) Conceder todos os meios de prova admitidos em direito;
f) Não conceder a inversão do ônus da prova;

DAS PROVAS

O RÉU prova ao alegado por todos os meios no direito admitidos, em especial


documental superveniente que é o termo de declaração assinado pela AUTORA, concedendo
e assumindo os riscos da cirurgia, as perícias e depoimento pessoal de ambas as partes.

Nestes Termos Pede e

Espera Deferimento.

Local e data.

Nome completo e assinatura do advogado.

Número de inscrição da OAB e seccional.


ALUNA: Carla Nayara Cavalcante do Nascimento.

TURMA: 09T7A

PROFESSOR: Fabrício Farias de Carvalho