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Prólogo

(…)
Sou um sobrevivente improvável do Holocausto . Tinha mu ito co nt ra mim e
q u a se n a d a a me u f avo r. E ra ap en as u m rap az it o ; n ão t inh a ligaçõ e s ; n ão t inh a
a p t i d õ e s . M as tive a meu favor um fator que superou tudo o resto: Oskar
S ch in d ler ach ava que a min h a vid a t in h a valo r. Ach ava q u e valia a p e n a e u se r
sa lvo , m e smo qu and o o f act o d e me dar u ma op o rt un id ade d e vive r p un h a a
su a p r óp r ia vida em perigo. Agora é a minha vez de fazer o que puder por ele,
de f a la r so bre o Oskar Sch i nd le r qu e con h e ci.
(… )

U M

(…)
Por muito que repetisse essas rotinas, nunca me cansava delas. Por vezes, nesses dias
quentes de verão, usávamos fatos de banho, pelo menos se desconfiássemos que podiam
andar por ali adultos. Mas normalmente íamos para a água despidos.
O que tornava essas escapadelas ainda mais emocionantes era o facto de a minha
mãe me ter proibido de ir para o rio.
Afinal de contas, eu não sabia nadar.
(…)
O meu nome é Leib Lejzon, embora agora seja conhecido como Leon Leyson. Nasci em
Narewka, uma aldeia agrícola no nordeste da Polónia, perto de Bialystok, não muito longe
da fronteira com a Bielorrússia. Há várias gerações que os meus antepassados Iá viviam;
na verdade, há mais de duzentos anos.
Os meus pais eram pessoas honestas e trabalhadoras, que nunca esperavam algo que
não tivessem merecido. A minha mãe, Chanah,
(…)
Fiquei atónito quando o filho mais novo, um sionista, decidiu abandonar a sua casa
pela Palestina distante. Porque iria ele para tão longe da sua família porquê desistir de
trabalhar e tocar com eles? Agora compreendo que a sua decisão lhe salvou a vida. A
sua mãe, seu pai e os setes irmãos morreram todos no Holocausto.

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(…)
O atual conceito da privacidade era-nos inteiramente desconhecido. Havia uma cama
que todos partilhávamos: a minha mãe, os meus irmãos, a minha irmã e eu.
(…) A nossa aldeia, na orla da floresta de Bialowieza, era habitada por agricultores e
ferreiros, talhantes e alfaiates, professores e lojistas. Éramos uma população rural,
pouco sofisticada e muito trabalhadora, tanto os judeus como os cristãos, cujas vidas
giravam à volta da família, dos nossos calendários religiosos e das estações de semeadura
e colheita.
Aqueles de nós que eram judeus falavam iídiche em casa, polaco em público e hebraico
na escola religiosa ou na sinagoga. Eu também aprendi um pouco de alemão, ensinado
pelos meus pais. Saber alemão viria a revelar-se mais útil para nós do que jamais
poderíamos ter imaginado.
Visto a lei polaca proibir os judeus de possuir terras, como aliás, acontecera com todos os
judeus da Europa durante séculos, o meu avô materno, Jacob Meyer, arrendara terra da
Igreja Ortodoxa Oriental.
(…)
DOIS

(…)
Na manhã seguinte, David e eu partimos em exploração das novas cercanias. Pouco a
pouco, fomo-nos aventurando cada vez mais l o n g e do nosso prédio, primeiro até ao
fundo da rua, depois à volta do quarteirão e, finalmente, até ao rio onde a ponte
Powstancow Slaskich ligava a nossa área às principais através de Cracóvia: o bairro judeu
tradicional de Kazimierz, o bairro histórico da Cidade Velha e o Castelo Wawel, o palácio
real dos reis e rainhas que tinham governado quando Cracóvia era a capital da Polónia
medieval. (…) Sentia-me especialmente atraído pelos grandes parques e edifícios
históricos de Cracóvia, Como a Sinagoga Velha, que datava de 14OO, e a Basílica de Santa
Maria, uma majestosa igreja gótica do século XIV que dominava a praça principal. Era
nessa igreja que, todos os dias ao meio-dia em ponto, tocava o trompetista que eu tinha
ouvido no rádio de Tsalig.
(…) Passado pouco tempo já tinha alguns amigos especiais. (…)
O facto de eu ser judeu e eles não, não parecia ter importância para os meus novos

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amigos. Tudo o que importava era eu partilhar o seu gosto pelas traquinices e a sua
ousadia.
Cracóvia não era apenas uma cidade histórica, mas também um centro cosmopolita e
cultural brilhante, cheio de teatros e cafés, com uma ópera e clubes no turnos. O modesto
rendimento do meu pai não permitia que gozássemos qualquer desses espetáculos.
(…) Em setembro de 1938 celebrámos o Rosh Hashaná, o início do ano judaico, e
observámos o Yom Kippur, o Dia da Expiação, numa bela sinagoga reformista, uma das
mais de cem sinagogas espalhadas por toda a cidade. Havia cerca de sessenta mil judeus
em Cracóvia, aproximadamente um quarto da população da cidade.
(…)
Na minha nova escola primária, um edifício enorme com centenas de crianças do meu
bairro, um dia o meu professor do quarto ano reparou em mim. Dirigiu-se a mim como
Mosiek, o diminutivo de Moshe. A princípio, fiquei muito bem impressionado. Pensei que
ele devia conhecer o meu pai, Moshe, e ter percebido que eu era seu filho. Cheguei
mesmo a sentir-me orgulhoso por o meu pai ser tão conhecido. Só mais tarde vim a saber
que o professor não conhecia o meu pai de lado nenhum e que o nome Mosiek, «pequeno
Moisés», era um insulto reservado a qualquer rapaz judeu, independentemente do
nome do seu pai.
(…) Mas os relatos preocupantes sobre o que se passava na Alemanha tornavam-se
cada vez mais difíceis de evitar.
Outubro de 1938 começou com notícias perturbadoras. Os jornais, os programas de
rádio e as conversas por toda a parte transbordavam de histórias acerca da Alemanha e
de Adolf Hitler, o líder, ou Führer, alemão. Desde a sua chegada ao poder, em 1933, Hitler
e os nazis tinham dedicado o seu tempo a consolidar o controlo, silenciar os seus
opositores e começar a campanha para restabelecer a Alemanha como potência mundial
dominante. Uma parte central do plano de Hitler consistia em marginalizar os judeus,
em fazer de nós «o outro». Ele culpava os judeus por todos os problemas da Alemanha,
passados e presentes, da derrota na Grande Guerra a depressão económica.
(…)
Antes de termos tido oportunidade de assimilar todas essas notícias, fomos atingidos
por outras ainda piores: por ordem de Hitler, milhares de judeus polacos, talvez uns
dezassete mil, tinham sido expulsos da Alemanha. O governo nazi tinha -lhes dito que já

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não eram bem-vindos, que eram indignos de viver em solo alemão. O governo polaco
estava determinado a provar que era tão antissemita como os nazis, pelo que se recusou
a conceder aos refugiados permissão para regressarem à sua terra natal. Chegavam-nos
relatos de que esses judeus polacos estavam a definhar na fronteira, numa esqu álida
terra de ninguém de campos temporários. Por fim, alguns deles conseguiram subornar
os guardas, atravessar a fronteira e fazer-se ao caminho para Cracóvia e outras cidades.
(…)
Veio então a pior das notícias que havíamos tido até ao momento: na Alemanha e na
Áustria, na noite de 9 para 1O de novembro de 1938, sinagogas e rolos da Torá foram
queimados e propriedades judaicas destruídas. Houve espancamentos aleatórios de
judeus e perto de uma centena foram assassinados. Parecia-me inacreditável que as
pessoas nada fizessem enquanto essas coisas horríveis aconteciam. A propaganda nazi
retratou os eventos dessa noite como uma manifestação espontânea contra os judeus,
como represália pelo assassinato de um diplomata alemão em Paris por um jovem judeu
chamado Herschel Grynszpan. (…) Aproveitaram esse acontecimento para impulsionar
uma noite de violência organizada em todo o país. Mais tarde, essa noite seria conhecida
como Kristallnacht, a Noite dos Vidros Partidos, por causa dos milhares de janelas que
haviam sido estilhaçadas em sinagogas, casas e empresas de judeus. Na verdade, naquela
noite partiu-se muito mais do que vidro.
(..)Embora o meu pai tentasse asseverar-me que estávamos seguros e que a situação
acalmaria, tive verdadeiramente medo pela primeira vez.
(…)
Durante o verão de 1939, Cracóvia em peso começou a preparar-se para a guerra a
sério.
(…)
Alguns judeus prepararam-se para a guerra deixando Cracóvia. Raciocinavam que o
Ieste da Polónia, mais perto dos soviéticos, seria mais seguro do que o oeste, tão próximo
da Alemanha. (…) Antes de partir, o homem da família confiou a chave do seu
apartamento ao meu pai, sem duvidar de que em breve regressaria com a família e
voltaria a ocupá-lo. Nunca mais os vimos.
(…)

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TRÊS

(…)
À medida que os nazis reforçavam o seu controlo sobre Cracóvia, os judeus viram-se
confrontados com todos os tipos de caricaturas insultuosas. Apareceram cartazes
humilhantes, tanto em polaco como em alemão, retratando-nos como criaturas
grotescas e imundas, com grandes narizes aduncos. Nada nessas fotografias fazia
qualquer sentido para mim. A nossa família não tinha muitas roupas, mas a minha mãe
trabalhava com afinco para as manter limpas e nós nunca andávamos sujos. Dei por mim
a estudar os nossos narizes. Nenhum era particularmente grande. Não conseguia
compreender por que motivo os alemães queriam fazer-nos parecer algo que não
éramos.
As restrições multiplicavam-se rapidamente. Parecia que não havia quase nada que
os judeus ainda estivessem autorizados a fazer. Já não nos era permitido sentarmo-nos
nos bancos dos parques. Depois fomos completamente banidos de todos os parques.
Foram colocadas cordas dentro dos elétricos, demarcando os lugares reservados aos
gentios, os polacos não judeus, na frente dos carros, dos destinados aos judeus, na
retaguarda. No início achei essa restrição irritante. Arruinava-me a possibilidade de
participar no jogo de f u g i r ao cobrador com os meus amigos. Mas não tardou que se
tornasse impossível fazer o jogo de todo, porque os judeus f o r a m proibidos de utilizar
qualquer transporte público. Aos poucos, os rapazes com quem eu partilhara tantas
aventuras, que nunca se tinham importado com o facto de eu ser judeu, começaram a
ignorar-me, depois passaram a murmurar palavras desagradáveis quando eu me
aproximava e, por fim, o mais cruel dos meus amigos de outrora disse-me que nunca
mais seriam vistos a brincar com um judeu.
(…) Felizmente Cracóvia foi poupada aos bombardeamentos destrutivos que atingiram
Varsóvia e outras cidades; contudo, mesmo sem a ameaça de bombas, respirava-se
terror nas ruas. Os soldados alemães agiam com impunidade. Nunca se podia prever o
que fariam a seguir. Saquearam empresas judaicas. Expulsaram judeus dos seus
apartamentos e mudavam-se para lá, confiscando os pertences dos proprietários
originais. (…) Para alguns polacos não-judeus tinham-se aberto novas oportunidades.
Uma manhã, vários polacos invadiram o nosso prédio para assaltar o apartamento do

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andar de cima, onde vivia a família judaica que fugira para Varsóvia. (…)
Não muito tempo depois, chegaram empresários nazis, na esperança de fazer fortuna
com a miséria dos proprietários de fábricas judeus, que já não eram autorizados a deter
empresas próprias. A fábrica de vidro onde o meu pai trabalhava foi um desses alvos. O
empresário nazi que tomou conta da empresa despediu imediatamente todos os
trabalhadores judeus. Todos, exceto o meu pai, que foi poupado porque falava alemão.
O novo proprietário fez do meu pai agente de ligação, o equivalente a um tradutor, entre
ele e os polacos cristãos que ainda eram autorizados a trabalhar. (…) No ano seguinte,
talvez até no fim daquele mesmo ano, previa ele, tudo teria terminado. Tal como tinham
partido no fim da Grande Guerra, os alemães partiriam de novo.(…) O meu pai estava a
laborar no mesmo erro que muitos outros cometeram: acreditar que os alemães com
quem estavam a lidar agora não eram diferentes dos que haviam conhecido antes. Não
fazia ideia, nem podia fazer, da desumanidade sem limites e da maldade daquele novo
inimigo.
(…) Orientavam-se apenas pela sua ideologia racista, segundo a qual todos os judeus
tinham riquezas escondidas.
(…)
No início de dezembro de 1939, os nazis decretaram que os judeus não podiam
continuar a frequentar a escola. (…) Era apenas mais uma via pela qual os nazis tentavam
privar-nos de tudo o que tinha valor.
Juntei-me a David e Pesza na procura de emprego.
(…)
Uma tarde, ao voltar do trabalho, vi um dos homens da Gestapo que tinham batido no
meu pai. Tinha a certeza! Não sei o que me possuiu, mas corri atrás dele e implorei-lhe que
me dissesse para onde tinha levado o meu pai. A figura intimidante olhou para mini com
desdém, como se eu fosse menos do que um fio do seu casaco. Se eu tivesse noção do
que estava a fazer, teria receado pela minha vida. Mas não tinha, e talvez a minha ousadia
o tenha impressionado, porque me disse que o meu pai estava na prisão de São Miguel.
Fui a correr ter com David e precipitámo-nos os dois para o centro da cidade, direitos ao
sinistro edifício. E, de facto, as autoridades confirmaram que o nosso pai estava lá.
Embora não nos permitissem vê-lo, o simples facto de sabermos que ele estava vivo deu-
nos um sentimento de propósito renovado. Se ele tinha aguentado, nós poderíamos fazer

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outro tanto.
(…)
Várias semanas depois, sem motivo aparente, o meu pai foi libertado da prisão. O
momento em que ele passou a porta foi de enorme alívio e alegria. No entanto, ao
mesmo tempo trouxe-nos uma tristeza inesperada. Era fácil ver que aquilo por que tinha
passado o modificara. Não era apenas o facto de estar fraco e descarnado; mudara num
sentido mais fundamental. Os nazis não o tinham privado apenas da sua força, embora
ele viesse a encontrar uma grande reserva de forças nos anos seguintes, mas também
da confiança e autoestima que sempre tinham sido a fonte da sua vivaci dade. Agora
falava pouco e andava com os olhos baixos. Tinha perdido o emprego na fábrica de
vidro, mas perdera ao mesmo tempo algo ainda mais precioso: a sua dignidade como
ser humano. Abalou-me até ao âmago ver o meu pai derrotado. Se ele não conseguia
fazer frente aos nazis, como conseguiria eu?
(…) No final de novembro, todos os judeus a partir dos doze anos passaram a ser
obrigados a usar uma b r a ç adeira branca com uma estrela de David azul, que tínhamos
de comprar ao Conselho judeu, o organismo que os nazis tinham nomeado para lidar
com todos os assuntos judaicos . Ser apanhado sem a braçadeira significava prisão e,
provavelmente, tortura e morte.
(…)
O meu pai encontrou a sua própria maneira de desafiar os nazis, ao mesmo tempo
que nos ajudava a sobreviver, ainda que isso significasse fazer algo ilegal. Trabalhava
pela porta do cavalo, fora dos livros, por assim dizer, para a empresa de vidro da rua
Lipowa. Um dia, foi enviado ao outro lado da rua, ao número 4 da Rua Lipowa, a fábrica
de esmalte onde por vezes reparara ferramentas e equipamento antes da guerra. O novo
proprietário, um nazi, precisava que lhe abrissem um cofre. O meu pai não fez perguntas.
Pegou simplesmente nas ferramentas corretas e depressa abriu o cofre. Acabou por ser
a melhor coisa que jamais fizera, pois, inesperadamente, o nazi ofereceu-lhe emprego.
(…)
Qualquer que fosse a sua motivação, o meu pai aceitou o trabalho ali mesmo. Ao fazê -
lo, tomou uma decisão que teve consequências inimagináveis.
O empresário nazi cujo cofre arrombara e que tinha acabado de o contratar era Oskar
Schindler.

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QUATRO

Oskar Schindler foi apodado de muitas coisas: canalha mulherengo, especulador,


bêbado. Quando Schindler deu emprego ao meu pai, eu nunca tinha ouvido nenhum
desse nomes e, mesmo que tivesse, não me teria importado. Cracóvia estava cheia de
alemães que queriam lucrar com a guerra. O nome de Schindler só significava algo para
mim porque ele havia contratado o meu pai.
Esse afortunado encontro por causa do cofre resultou em que o meu pai se tornou um
dos primeiros trabalhadores judeus da empresa que Schindler começou por arrendar,
tendo depois, em novembro de 1939, assumido o lugar de um empresário judeu falido
chamado Abraham Bankier. Na verdade, dos duzentos e cinquenta trabalhadores que
Schindler contratou em 194O, apenas sete eram judeus, os restantes eram gentios
polacos. Schindler renomeou a empresa Deutsche Emalwarenfabrik, F ábrica Alemã de
Esmalte, um nome projetado para apelar aos adjudicatários do exército alemão.
Chamava-lhe Emalia para abreviar. Os exércitos precisam de muito mais do que a r m a s
e balas para travar uma guerra. Como homem de negócios astuto, Schindler aproveitou
a oportunidade e começou a produzir tachos e panelas de esmalte para os alemães, uma
linha de produção que lhe garantia grandes lucros continuados, especialmente po rque
os custos de trabalho eram mínimos. Podia explorar operários polacos por salários baixos
e os judeus por salário nenhum.
(…) Trabalhar para Schindler significava que o meu pai estava oficialmente
empregado. Isso queria dizer que, quando fosse mandado parar na rua por um soldado
alemão ou um polícia que quisesse recrutá-lo para trabalhos forçados, como varrer a
rua, transportar lixo ou limpar gelo no inverno, ele possuía a credencial necessária como
proteção. Chamava-se Bescheinigung e tratava-se de um documento onde se declarava
que o meu pai trabalhava oficialmente para uma empresa alemã. Era um escudo de
proteção e um fator do estatuto.
(…)
Entretanto, em Cracóvia, os alemães endureciam o seu domínio sobre nós. Os pais
judeus já não podiam tranquilizar os filhos com a frase, «Isto vai acabar em breve», pelo
que surgiu um novo estribilho: «Se isto for o pior que acontece».

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(…)
Nos primeiros meses de 194O, eu ainda podia andar pelas ruas de Cracóvia com relativa
liberdade, embora já não sem medo. Conseguia fazer-me «passar» por gentio, pois ainda
era suficientemente jovem para não ter de usar a Estrela de David que nos identificava.
(…) Os soldados, que realidade não eram muito mais velhos do que eu, eram cordiais,
mesmo amigáveis. Visto que eu falava alemão, provavelmente parecia-lhes bastante
inofensivo. (…)
No entanto, os soldados alemães podiam passar num instante de cordiais a brutais.
Se estivessem entediados ou tivessem bebido muito, eram perfeitamente capazes de
agarrar num judeu vestido tradicionalmente e dar-lhe uma sova. (…) Por que motivo os
nazis nos odiavam tanto? Eu conhecia muitos homens, os meus avós incluídos, que
usavam trajes judaicos tradicionais. Não havia nada de demoníaco ou impuro neles, não
havia razão para serem sujeitos a uma tal violência, mas a mensagem transmitida pelos
cartazes de propaganda nazi espalhados por toda a cidade contava uma his tória
diferente.
(…)
Até que, uma noite, experimentei a ira dos soldados em primeira mão. Alguém os
avisou de que eu, o rapazinho que gracejava com eles em alemão, que eles por vezes
tratavam como um irmão mais novo e a quem permitiam a entrada na sua guarita, era
judeu. Estava a dormir quando eles irromperam no nosso apartamento e me arrancaram
da cama pelos cabelos.
«Como te chamas?», gritaram. «És judeu?»
Respondi que sim. Eles esbofetearam-me, furiosos por t e r e m presumido que eu era
uma criança «normal». Felizmente, não levaram a agressão mais longe do que as bofetadas
e saíram abruptamente do nosso apartamento. Corri para os braços da minha mãe, a
tremer e a chorar, e dessa vez era eu a pensar, Se isto for o pior que acontece...
Em maio de 194O, os nazis começaram a implementar uma política destinada a «limpar»
Cracóvia, a capital do território sob controlo alemão chamado Generalgouvernement, da sua
população judaica. Os alemães decretaram que apenas quinze mil judeus seriam
autorizados a permanecer na cidade. (…)
Os meus pais tentaram mais uma vez dar uma interpretação positiva a este novo rumo
dos acontecimentos. Disseram-nos que os judeus que haviam partido iam ter uma vida

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melhor longe da cidade, passando a dispor de espaços menos sobrepovoados e onde não
teriam de suportar a perseguição implacável dos soldados alemães que patrulhavam as
ruas. Até disseram que aqueles que haviam partido «voluntariamente» tinham recebido
dinheiro para comida e para a viagem.
(…)
Se ir viver para fora da cidade era assim tão vantajoso, perguntaram eles, porque
estávamos sempre tão determinados em permanecer em Cracóvia? Os meus pais não
tinham resposta para isso. Mais tarde, o meu irmão David contou-me rumores
assustadores: os deportados não eram enviados para o campo, mas para a morte. Senti-
me dividido entre o desejo de acreditar que esses boatos deviam ser falsos e o
conhecimento de que os nazis eram capazes de tudo. Só precisava de me lembrar do
violento ataque de que o meu pai fora alvo para ter a certeza disso.
(…) Quando o tempo arrefeceu, o meu pai conseguia esconder nos bolsos alguns
bocados de carvão dos fornos da fábrica, apesar de ser proibido trazer fosse o que fosse
das instalações fabris. Durante as longas noites de inverno, esses poucos pedaços de
carvão constituíam a nossa única fonte de calor, que gozávamos todos muito juntos à
volta do fogão. (…)
Os meses seguintes não trouxeram boas notícias para os que viviam sob a ocupação
nazi. Em contrapartida, os nazis adoravam bombardear-nos com os seus êxitos. Os seus
triunfos eram constantemente anunciados na rádio, nos jornais e até mesmo em
grandes ecrãs que eles montavam para passar documentários com cenas das suas
vitórias. Lembro-me de ir para o terreno baldio onde havia um desses ecrãs e assistir a
um interminável desfile de tanques e jubilosos soldados alemães, enquanto
atravessavam a Holanda, a Bélgica, o Luxemburgo e a França em maio e junho de 194O.
Em finais de 194O começaram a circular novos rumores. Seria construído um gueto
numa secção da zona sul de Cracóvia conhecida como Podgórze. A área cercada de
muros altos e os poucos portões seriam continuadamente vigiados por soldados
alemães. Todos os judeus que restavam na cidade seriam forçados a viver no gueto e
não poderiam deixá-lo a menos que lhes fosse dada permissão pelos alemães. Nós
sabíamos que em Varsóvia os j u d e u s haviam sido realojados à força numa pequena
área da cidade, onde viviam em desesperadas condições de sobrepovoamento. Tentei
assimilar a nova possibilidade. Como podia aquilo acontecer? Parecia impossível. Mas

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os rumores depressa se tornaram realidade. Vi erigir muros de três metros e meio de
altura em torno de uma área de edifícios residenciais, não muito longe de nosso
apartamento. Em seguida, os nazis ordenaram que os cinco mil não judeus que viviam
nessa área se mudassem para que quinze mil judeus, — todos os judeus que ainda
permaneciam em Cracóvia fossem amontoados nesses alojamentos.
O meu pai, sempre engenhoso, arranjou maneira de trocar o nosso apartamento por
um que um amigo gentio possuía dentro do gueto, na esperança de que essa troca nos
proporcionasse acomodações melhores do que as que os nazis nos arranjariam. No
início de marco de 1941, empilhámos os nossos pertences numa carroça, que pedimos
emprestada para o efeito, e dissemos adeus ao nosso apartamento, o último laço que
nos ligava à nossa vida outrora promissora na grande cidade.
(…) Quando nos aproximámos dos portões do gueto, fui tomado de pânico. Levantei
os olhos para os muros altos e vi que, com o seu talento para os pormenores sádicos,
os nazis os tinham rematado nos últimos dias com pedras arredondadas que pareciam
lápides. A mensagem implícita era que estávamos a entrar no que viria a ser o nosso
próprio cemitério. Mal conseguia tirar os olhos dos símbolos de morte que nos
«acolhiam». Lancei um olhar para Tsalig, em busca de conforto, mas ele manteve os
olhos baixos e desviados dos meus enquanto passávamos pelos guardas e
transpúnhamos o portão.
Uma vez dentro do gueto dirigimo-nos para a nossa nova casa, que ficava num prédio
na rua Lwowska, número 18. (…) Quando chegámos, um casal, o Sr. e Sra. Luftig, veio
receber-nos à porta. (…) As autoridades responsáveis pelo gueto, que não sabiam da
troca que o meu pai fizera, tinham-lhes atribuído aquele apartamento. (…) tratámos de
nos adaptar, como todos os judeus do gueto tentavam fazer. O meu pai pendurou um
cobertor no meio da sala, para criar espaços separados para a nossa família de seis e os
Luftig.
(…)
Poucos dias depois de nos mudarmos para o gueto, os nazis cerraram os portões,
trancando-nos Iá dentro. Mesmo assim, pensamos, se isto for o pior que acontece... Se
ao menos assim fosse...

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CINCO
(…)
Dado que cerca de quinze mil pessoas se acotovelavam numa área concebida para
albergar cinco mil, no máximo, o sistema de saneamento revelava-se lamentavelmente
inadequado. (…)
Aos olhos dos nazis, nós, os judeus, éramos um único grupo odiado, o exato oposto do
ideal louro e de olhos azuis dos «arianos» puros. Na realidade, esse alegado contraste
não era de todo real. Muitos judeus tinham olhos azuis e cabelos loiros, e muitos alemães
e austríacos, incluindo Adolf Hitler, tinham olhos e cabelos escuros. Mas o dogma nazi
metia os judeus todos no mesmo saco, como o odiado inimigo dos arianos. Para eles, ser
judeu não tinha a ver com aquilo em que acreditávamos, mas com a nossa alegada raça.
(…)
(…) Os rabinos resistiam celebrando serviços religiosos nos dias sagrados judaicos.
Médicos e enfermeiros resistiam lutando para salvar a vida dos doentes e feridos, e
trazendo novas vidas ao mundo. Atores e músicos resistiam criando palcos improvisados
em pátios escondidos, onde apresentavam peças e sátiras, e davam concertos,
afirmando que a beleza e a cultura podiam existir mesmo nas circunstâncias deploráveis
do gueto.
(…) Os judeus resistiram ao ambiente desolado em que eram obrigados a viver através
da partilha das suas esperanças, sonhos e histórias, como o Sr. Luftig fazia comigo.
(…) Arranjei maneira de me manter ocupado durante as ausências de Tsalig.
Frequentava uma escola hebraica secreta no apartamento escurecido de um rabino. (…)
Os meu amigos e eu jogávamos às cartas e explorávamos o labirinto de becos da área.
Encenávamos «espetáculos» espontâneos de nossa autoria no pátio das traseiras do
nosso prédio, e eu imitava uma rotina de comedia com um chapéu a baloiçar na cabeça.
(…)
Até aprendi sozinho (mais ou menos) a andar de bicicleta. (…) Sentia-me quase no ar,
voando pela rua abaixo. Durante aqueles escassos segundos, não fui um prisioneiro num
gueto nazi, fechado atrás de muros altos, mas sim um rapaz de doze anos como qualquer
outro, deleitando-se com um misto de perigo e excitação. Nem mesmo o fim inevitável do

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meu passeio – quando me estampei no meio do chão e fiz um golpe na testa – me
desanimou ou diminuiu o meu entusiasmo.
Esses momentos de diversão eram preciosamente raros. Passava a maior parte do meu
tempo concentrado na tarefa crítica de encontrar comida. (…) A minha mãe inventava as
mais variadas sopas, todas com água como ingrediente principal, e o meu pai, cuja
licença de trabalho lhe permitia sair do gueto para trabalhar na fábrica de Schindler, a
vários quarteirões de distância, tentava trazer uma batata ou um pedaço de pão quando
voltava para casa. (…) Às vezes, havia comida no mercado negro, mas era preciso termos
algo para trocar. Os nazis forneciam quantidad e s limitadas de pão, mas pouco mais.
(…) Eu tinha fome, fome a sério, todo o tempo. O sono tornou-se o meu único alívio,
a única altura em que não estava a pensar em comer, mas era frequente visões de
alimentos encherem os meus sonhos.
(…)
Uma mulher abastada, ocasionalmente que lhe fizesse alguns recados. Um dia, quando
regressei ao seu apartamento, ela pegou num pão de forma inteiro e cortou uma grossa
fatia para mim, a título de pagamento. Vi com espanto a liberalidade com que a barrava
com manteiga. Nem me passou pela cabeça a possibilidade de comer tão inesperado
tesouro sozinho. Em vez disso, levei-o direitinho para a minha mãe. Ela raspou a
manteiga, cortou o pão em fatias mais finas e, em seguida, barrou cada pequena fatia
com a manteiga que raspara. Toda a família partilhou aquela rara guloseima. Foi um
bom dia.
(…)
Um dia o meu pai arranjou coragem para pedir a Schindler quo contratasse o meu
irmão David, então com catorze anos, para trabalhar na sua fábrica, e Schindler acedeu.
(…)
Se a nossa família falava acerca do futuro ou fazia planos de contingência para o caso
de a situação piorar? Na verdade, não. (…) O nosso objetivo era permanecermos vivos
por tempo suficiente para os alemães perderem a guerra e partirem derrotados.
(…)
Em maio de 1942, tivemos o primeiro antegosto de sofrimentos ainda piores que
estavam para vir. Os nazis anunciaram que seria organizado um transporte do gueto para
o campo e incentivaram-nos a apresentarmo-nos como voluntários para trocar as

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condições superlotadas e insalubres pelo ar fresco e os espaços abertos. Cerca de mil e
quinhentos judeus voluntariaram-se, pensando que tudo seria melhor do que o ambiente
sórdido em que viviam. No entanto, em junho os nazis já se tinham deixado da
amabilidade de pedir voluntários; em vez disso, exigiram que todos os judeus «não
essenciais», o que significava sobretudo os idosos e os que não tinham emprego,
desocupassem os seus apartamentos e partissem nos transportes. Até então, os papéis
do meu pai como operário da fábrica de Schindler tinham protegido a nossa família da
deportação, mas os Luftig não tiveram a mesma sorte.
(…)
Uma semana mais tarde, os nazis tinham outro comboio à espera e começaram a
arrebanhar mais judeus. (…)
No dia 8 de junho, os soldados alemães invadiram o nosso prédio e, mais uma vez,
entraram à força no nosso apartamento. Gritavam: «Schnell! Schnell!» (Depressa!
Depressa!), enquanto o meu pai apresentava a sua licença de trabalho com mãos
trémulas. Ele tinha um Blauschein, uma «folha azul», isto é, uma licença emitida pela
Gestapo, além do seu cartão de identificação. Esperávamos que isso isentasse de novo
a todos da deportação. Mas agora Tsalig tinha dezassete anos e precisava do seu
próprio Blauschein. Tragicamente, não o tinha. (…) Os soldados prenderam os braços
de Tsalig atrás das costas e empurraram-no pela porta fora.
(…)
O choque da prisão de Tsalig ainda nem começara a fazer-se sentir e já ele se fora.
(…)
Enquanto examinava freneticamente os vagões de gado atulhados de pessoas, à
procura de Stern, Schindler avistara Tsalig e reconhecera-o como um dos filhos do seu
empregado Moshe. Chamara-o e dissera-lhe que o tiraria do comboio, mas Tsalig estava
com a sua namorada, Miriam. Como ninguém da família de Miriam trabalhava para
Schindler, não havia nada que este pudesse fazer para a salvar. Tsalig respondera a
Schindler que não podia abandonar Miriam. O meu irmão era esse tipo do homem:
recusou-se a abandonar a namorada, mesmo sabendo que estava a negligenciar a sua
própria segurança.
(…)

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SEIS
(…)
Os transportes tinham esvaziado o gueto de habitantes, incluindo, al ém dos Luftig e
do meu irmão Tsalig, Samuel e o pai de Yossel, o Sr. Bircz, que tinha partilhado comigo
a comida da sua família. Em consequência disso, já não tínhamos problemas de espaço,
mas outros perigos haviam-se agravado seriamente. A fome oprimia-nos a todos. As
doenças alastravam sem qualquer controlo, debilitando, incapacitando e matando
indiscriminadamente. Havia um sentimento avassalador de futilidade. Os subornos não
tinham protegido nem mesmo as pessoas mais abastadas do gueto. Toda a gente tinha
perdido um ente querido.
Por essa altura, a sobrevivência era essencialmente uma q u e s t ão de pura sorte.
(…)
No final do outubro de 1942, chegou aos ouvidos de Schindler a notícia de que i a haver
outro transportes, pelo que ele manteve os seus trabalhadores judeus na fábrica durante
a noite, em vez de os mandar para o gueto.
(…)
No dia seguinte, as SS, uma organização que começara como guarda pessoal de Hitler
e evoluíra até passar a ter grande autoridade sobre a «questão judaica», continuou a
patrulhar o gueto. Ouvíamos os tiros aleatórios, os cães, os gritos. A intuição da minha
mãe tinha sido correta. A Aktion não tinha acabado. Eu já nem sabia ao certo se me
importava. Estava no limite das minhas forças. A fome, a sede e o medo tinham-me
deixado completamente esgotado. (…)
(…)
Já à noite, (…) O meu pai deu-nos as últimas notícias: ele, David e Pesza tinham
recebido ordens para se apresentarem imediatamente no campo de trabalho de Plaszow,
a cerca de quatro quilómetros d o gueto. Pela primeira vez desde que tínhamos sido
f o r ç a d o s a mudar-nos para o gueto, havia cerca de dezoito meses, os cinco membros da
família que ainda permaneciam juntos seriam separados.
À medida que a população do gueto ia diminuindo, as autoridades começaram a
reorganizar os que restavam. Em dezembro, a minha mãe e eu fomos transferidos do Gueto

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B, a secção em que vivíamos, para o Gueto A, a área agora destinada aos trabalhadores.
Foi erigida uma cerca de arame farpado, a dividir as duas secções do gueto. Em seguida,
começou o realojamento. Fomos obrigados a levar apenas o q u e podíamos transportar e
a procurar um espaço para viver no Gueto A.
(…)
Então, em março de 1943, os nazis liquidaram todo o gueto. Os que restaram de nós
seriam enviados para Plaszów. Pelo menos, era o que se dizia. Para ser sincero, fiquei,
satisfeito por ir embora, pensando que voltaríamos a estar juntos os cinco. não tinha
noção do que era Plaszów.
(…)
Quando saí do gueto, com os seus muros coroados de lápides, e comecei a caminhar
pelas ruas de Cracóvia, fiquei atónito ao verificar que a vida parecia igual ao que era
dantes. Era como se eu estivesse num túnel do tempo... ou como se o gueto ficasse
noutro planeta. Pasmei para as pessoas limpas e bem vestidas, atarefadas de um lado
para o outro. Pareciam tão normais, tão felizes... não saberiam o que nós tínhamos
sofrido, a uns escassos quarteirões de distância? Como podiam não saber? Como podiam
não ter feito nada para nos ajudar? Um elétrico parou e os passageiros embarcaram,
alheios à nossa presença. não manifestaram absolutamente nenhum interesse em quem
éramos, para onde íamos ou porquê. Que a nossa miséria, o nosso confinamento e a
nossa dor fossem irrelevantes para as suas vidas era simplesmente incompreensível.
Quando nos aproximámos do campo de Plaszów, pouco depois, continuava
satisfeitíssimo por ter conseguido sair do gueto. A única coisa que me interessava era
estar novamente junto com a minha família. Quando entrei no caos de Plaszów, vi diante
de mim um mundo muito pior do que jamais poderia ter imaginado, muito pior do que
jamais julgara possível. Transpor aqueles portões era como chegar ao mais profundo
círculo do inferno.

SETE
(…)
Plaszów era um mundo alienígena. Fora construído sobre dois cemitérios judeus, que
os nazis tinham profanado e destruído. Era estéril, sombrio, caótico. Pedras, terra,

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arame farpado, cães ferozes, guardas ameaçadores e hectare após hectare de casernas
monótonas, que se prolongavam até onde a vista alcançava. Centenas de prisioneiros
em roupas muito coçadas apressavam-se de tarefa em tarefa, sob a ameaça das armas
empunhadas por guardas alemães e ucranianos. No momento em que entrei nos
portões de Plaszów, convenci-me de que não sairia de lá vivo.
Os guardas começaram por dividir imediatamente o nosso grupo por sexos. Dirigi -me,
arrastando os pés, para a caserna que me fora atribuída, no lado do campo destinado
aos homens. A esperança de encontrar a minha família ruiu quando soube que teria de lá
ficar indefinidamente. N ã o fazia ideia de onde o meu pai e David poderiam estar.
(…)
Então o milagre aconteceu. Alguns dos homens que tinham começado a tomar conta
de mim disseram-me onde os judeus de Schindler tinham sido colocados. Resolvi pro -
curar até encontrar o meu pai e David. (…)
E lá estavam eles.
(…)
Conversámos em voz baixa por alguns minutos cheios de nervosismo. Quando saí, o
meu pai prometeu que iria pedir a Schindler para me contratar. Entretanto, advertiu,
eu devia ficar no lugar que me fora atribuído e não atrair atenções.
Cerca de uma semana depois já sabia o suficiente sobre a disposição do campo para
calcular onde a minha mãe estava. Plaszów era frequentemente caótico, pois os
trabalhos de construção prosseguiam e havia novos prisioneiros a chegar todos os dias.
Uma tarde, aproveitei o pandemónio para me esgueirar para a secção das mulheres e
procurar a minha mãe. Eu era tao pequeno e magro, e o meu cabelo estava tao
desgrenhado, que podia passar por rapariga. Sabia que seria severamente punido se
fosse descoberto. No entanto, valia a pena o risco para tentar encontrar a minha mãe.
Admito que nesse dia tive sorte, pura e simples. Sem grandes voltas nem enganos,
encontrei a sua caserna. Ela estava deitada na sua prateleira de madeira. Quando me
viu, mal podia acreditar nos seus olhos; no entanto, para minha desilusão, parecia mais
assustada do que feliz.
Como chegaste a q u i ? perguntou. Antes que eu pudesse responder e contar-lhe que
tinha encontrado o meu pai e David, ela disse-me: «Não podes ficar. Tens de ir.» Não
conseguiu conter as lágrimas, ao pronunciar as palavras que me mandariam para longe

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dela. No último momento, enfiou a mão na pilha de trapos que forrava a prateleira onde
dormia e retirou um pedaço de pão seco do tamanho de uma noz. Era tudo o que a
minha mãe tinha no mundo para me dar, o melhor que ela podia fazer. Tenho a certeza
de que era a única comida de que dispunha. Ela abraçou-me por alguns segundos
preciosos, meteu-me o pão na mão e empurrou-me para fora da porta. (…)
Um dia, ao transportar uma pedra grande, escorreguei numa lápide partida e fiz um
golpe profundo na perna. Tive de ir à enfermaria do campo, para me fazerem um penso.
Soube mais tarde que o comandante do campo de Plaszów, o SS Hauptsturmführer Amon
Goeth, havia entrado na enfermaria pouco depois de eu ter sa ído e baleara todos os
doentes sem exceção, por nenhuma razão para além do facto de que lhe tinha apetecido.
Se eu lá tivesse permanecido apenas alguns minutos a mais, teria sido executado com os
outros. Quando soube o que tinha acontecido, prometi a mim mesmo que, houvesse o
que houvesse, nunca mais iria para a enfermaria.
(…)
«Qual é o total de hoje?», perguntava alguém… Judeus doze, nazis zero… Era sempre
zero para os mortos nazis.
No início do inverno de 1943, a ira de Goeth intensificou-se. Eu tinha recebido ordens
para limpar neve com um grupo de homens. Sem roupas de inverno, estava tão
enregelado que mal conseguia segurar na pá. De repente, o Hauptsturmführer Goeth
apareceu e, por capricho, exigiu que os guardas aplicassem vinte e cinco chicotadas a
cada um de nós com os seus brutais chicotes de couro. Nenhum de nós conseguia
perceber o que provocara aquilo, mas isso não tinha importância. Como comandante,
Goeth podia fazer o que quisesse, com ou sem razão. (…) Fui receber o meu castigo,
juntamente com três homens que tinham o dobro da minha idade e estatura. Os chicotes
possuíam pequenos rolamentos na extremidade, intensificando a dor e os danos que
causavam. Deram-nos ordem para contarmos as chicotadas à medida que as sofríamos.
Se fossemos dominados pela dor e falhássemos um número, os guardas recomeçavam
do princípio.
(…)
Após vinte e cinco golpes, afastei-me a cambalear, delirando de dor. De algum modo,
consegui ir aos tropeções com os outros e retornar o trabalho. Tinha as pernas e as
nádegas a latejar. Ficaram todas negras durante meses e sentar-me era pura tortura.

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(…)
Através das cercas de arame farpado que delimitavam o campo, eu olhava para fora
e, por vezes, via os filhos dos oficiais alemães a marcharem para trás e para a frente, nos
seus uniformes da Juventude Hitleriana, a entoar canções em louvor do Führer, Adolf
Hitler. Eram tão exuberantes, tão cheios de vida, enquanto, a uns escassos metros deles,
eu me arrastava, exausto e deprimido, lutando para sobreviver mais um dia. Só a
espessura do arame farpado separava a minha vida no inferno das suas vidas de
liberdade, mas até podíamos viver em planetas diferentes. Eu nem conseguia começar a
compreender a injustiça de tudo aquilo.
(…)
Apesar de Schindler não me ter contratado, tive um pouco de sorte. A fábrica de
escovas onde eu tinha trabalhado no gueto foi transferida para Plaszów e destacaram-me
para o turno da noite de doze horas. Fiquei aliviado por ter um emprego estável e um
sítio oficial para onde ir. Não fazer nada ou estar à espera da atribuição de tarefas
aleatórias apenas servia para atrair problemas.
(…)
No final de 1943, à força de persuasão e subornos a Goeth e outros líderes das SS,
Schindler obteve permissão para construir um subcampo na propriedade adjacente às
instalações da Emalia. Argumentava que seria muito mais eficiente se os trabalhadores
estivessem a poucos passos da fábrica, em vez de desperdiçarem um tempo precioso a
percorrer os dois quilómetros e meio que separavam a Emalia do campo. As horas
perdidas na formação de linhas e a andar para trás e para a frente entre a fábrica e
Plaszów seriam muito mais bem empregues a produzir bens e lucros. O subcampo de
Schindler foi construído e, na primavera de 1944, o meu pai e David mudaram-se para
Iá. Através da rede do campo, soube que Pesza também tinha sido destacada para um
subcampo semelhante, na propriedade da fábrica de material elétrico onde trabalhava.
(…)
Quando circulou pelo campo a notícia de que Schindler planeava adicionar trinta
judeus à sua força de trabalho, não atribui importância ao assunto. No entanto, poucos
dias depois, soube que havia sido criada uma lista e que o meu nome estava nela, bem
como o da minha mãe. Mal podia acreditar. Parecia bom de mais para ser verdade.
Depois de um ano de esforços, teria o meu pai finalmente conseguido meter-nos na

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fábrica de Schindler?
(…)
Por alguma razão misteriosa, reagiu como se me visse como um ser humano normal,
que fizera um pedido razoável. Terá tido piedade de mim, um rapazinho separado da
família? Terá visto em mim um dos seus próprios filhos? Seria simplesmente um
burocrata a quem não agradava o facto de um nome ter sido riscado de uma lista se m a
sua permissão oficial? Não há maneira de saber. As pessoas como ele podiam fazer o que
quisessem, mostrar misericórdia ou o contrário.
(…) Esperámos o que nos pareceu uma eternidade, até que o portão se abriu.
Finalmente, o nosso grupo começou a andar e eu atrevi-me a pensar que o meu tempo
no inferno talvez estivesse a chegar ao fim.

OITO

Atravessei Cracóvia mais uma vez num estado de total estupefação, agora incapaz de
acreditar na minha sorte. Teria realmente escapado de Plaszów? (…)
Vi a fábrica de Schindler mais à frente. Quando nos aproximámos, fiquei tenso e
apertei a mão da minha mãe com força. O que eu via não era o edifício fabril sem
características particulares de quando o meu pai começara a trabalhar lá. Rodeada por
uma cerca elétrica com imponentes portões metálicos, a Emalia tinha agora um aspeto
sinistro. (…)
Mal passámos os portões, contudo, ganhei novo ânimo. O exterior da fábrica era
uma fachada destinada a aplacar os nazis. No interior, o ambiente era muito diferente.
(…) A comida era um pouco melhor: ao meio-dia, uma tigela do sopa a sério, talvez até
com um pedaço do algum legume, e no final do turno da noite, pão com margarina.
Essas duas parcas refeições não eram, de maneira nenhuma, suficientes para saciar a
minha fome, mas eram mais do que alguma vez tivera em Plaszów, mais do que qualquer
refeição que tivesse comido de uma só vez havia quase dois anos.
(…)
Tive permissão para ficar na mesma caserna do meu pai e do meu irmão. O terrível
isolamento e a solidão que me tinham atormentado abrandaram. Nós os três dividíamos

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um beliche, com David e eu em cima, e o meu pai em baixo. (…)
Foi no «turno judaico», como o turno da noite viria a ser conhecido, que comecei a
conhecer Schindler pessoalmente. Já tinha ouvido muitas histórias acerca das festas
loucas que ele dava nos seus escritórios no segundo andar da fábrica, festas que se
prolongavam pela noite dentro. Agora, no meu posto de trabalho, ouvia os risos e a
música. Após as festividades, Schindler ainda tinha energia para fazer as suas ron das
da fábrica. (…) Possuía uma capacidade incrível para se lembrar de nomes. Eu tinha-me
habituado ao facto de ser, para os nazis, apenas mais um judeu; o meu nome não
importava. Mas Schindler era diferente. Queria claramente saber quem éramos.
Procedia como se se importasse connosco como indivíduos. (…) Alto e forte, com uma
voz tonitruante, perguntava-me como estava a sair-me, quantas peças fizera naquela
noite. Depois calava-se, à espera da minha resposta. Olhava-me nos olhos, não com a
expressão vazia dos nazis, que pareciam não ver, mas com um interesse genuíno e até
mesmo uma centelha de humor. Eu era tão pequeno que tinha de me empoleirar num
caixote de madeira virado ao contrário para chegar aos comandos da máquina.
Schindler parecia divertir-se imenso com isso.
(…)
Fraco, desnutrido e privado de sono, eu não constituía grande ajuda para o esforço de
guerra nazi, mas Schindler não parecia importar-se. Uma noite, parou junto do meu posto
e ficou a observar-me enquanto eu terminava um invólucro, empoleirado no meu caixote
de madeira.
«Quantos desses fizeste hoje?», perguntou.
«Cerca de doze», gabei-me. Schindler sorriu e seguiu o seu caminho, trocando uma
piada particular com o meu pai.
Mais tarde vim a saber que um trabalhador verdadeiramente qualificado produzia sem
dificuldade o dobro desse número.
Noutra ocasião, ao atravessar o piso da fábrica, Schindler apanhou-me longe do meu
posto, a ver uma máquina complexa que estava a ser adaptada para executar uma tarefa
diferente. Fiquei fascinado com a complexidade do procedimento e não me apercebi de
há quanto tempo estava a negligenciar o meu trabalho. Fiquei paralisado quando senti o
familiar cheiro a água-de-colónia e cigarros, sem saber o que havia de fazer. Em Plaszów
teria sido baleado, ou pelo menos chicoteado, por uma infração tão flagrante, por ser

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«um judeu preguiçoso e irresponsável». Mas Schindler passou por mim sem dizer uma
palavra. Poucos dias depois, fui informado de que o meu irmão e eu íamos ser transferidos
para a secção de produção de ferramentas da fábrica, que exigia maiores competências e
significava também que estaríamos com o nosso pai. Em vez de me castigar, Schindler
tinha-me recompensado pela minha curiosidade.
Às vezes, na manhã após uma das suas visitas noturnas, eu ia buscar as minhas rações
apenas para descobrir que Schindler deixara instruções para que me fossem dadas duas
porções. Ele tinha de fazer um esforço especial para isso, e eu sentia-me esmagado pela
sua bonda d e . Outras vezes, parava na estação de trabalho do meu pai, punha-lhe a mão
no ombro e dizia: «Vai correr tudo bem, Moshe». Um verdadeiro nazi que assistisse a uma
atitude d essas , a um tratamento tão humano de um judeu, teria assassinado os dois sem
um momento de hesitação. Mas Schindler chegava mesmo a demorar-se a conversar com o
meu pai vários minutos de cada vez. Por vezes, depois de ele partir, o meu pai descobria
meio maço de cigarros, um valioso presente que Schindler deixara «acidentalmente» ao
lado da sua máquina. O meu pai trocava os cigarros por pão.
(…) Schindler ousava r e b elar-se contra a lei vigente, que consistia em torturar e
exterminar os judeus, em não nos tratar como seres humanos. Fazer isso era arriscar a
prisão num campo de trabalhos forçados ou de concentração ou mesmo a execução. O
simples facto de se referir a nós pelo nome, em vez de recorrer a um grunhido e a uma
praga, era punível. Ao tratar-nos com respeito, Schindler resistia à ideologia racista nazi
que construíra uma hierarquia da humanidade na qual os judeus ocupavam o lugar mais
baixo.
(…)
Desde o verão de 1941, quando a Alemanha violara o seu pacto com a União Soviética,
conquistara territórios ocupados pelos soviéticos e invadira a União Soviética, a vitória
alemã parecia apenas uma questão de tempo, mas, na verdade, o tempo estava contra
os alemães. Tinham avançado tão rapidamente, com a sua célebre estratégia da Blitzkrieg,
a «guerra relâmpago», que as suas linhas de abastecimento não conseguiam acompan har
o avanço das tropas. (...) Quando soubemos da rendição do Sexto Exército Alemão, no
início de fevereiro de 1943, compreendemos que a derrota alemã era provável.
Se ao menos conseguíssemos aguentar-nos...
No verão de 1944, circulavam notícias de que a guerra pendia agora para o lado dos

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aliados, principalmente os americanos e os britânicos no Ocidente e os soviéticos no
Leste. (…) Em meados de julho, o Exército Vermelho da União Soviética tinha chegado
à fronteira polaca anterior à guerra. (…)
Quando descobrimos que os empresários alemães estavam a fazer as malas, a
abandonar as suas fábricas e a fugir da Cracóvia, com tanto dinheiro e objetos de valor
quanto pudessem transportar, soubemos que a Alemanha estava realmente a perder a
guerra.
(…) Tinham-nos chegado rumores de que Plaszów e todos os seus subcampos iam ser
demolidos e os seus habitantes enviados para Auschwitz, um enorme campo de
concentração e extermínio nazi. As probabilidades de se sair vivo de Auschwitz eram
quase nulas.
As notícias seguintes revelaram-se muito mais preocupantes. A fábrica de Schindler ia
fechar e ele ia começar a reduzir a sua força de trabalho. Circulou uma lista com os
nomes daqueles que iam ser enviados de novo para Plaszów. O meu nome constava dela,
bem como os do meu pai e de David. Acabou-se, pensei. Era o fim. (…)
O meu pai tentou animar-nos. «Schindler tem um plano», disse-nos ele. «Vai mudar
a fábrica para uma cidade na Checoslováquia e leva-nos para lá.» Mas eu não conseguia
acreditar em nada disso. Não via como Schindler poderia desmontar, deslocar e
reconstruir toda a fábrica. Porque se sujeitaria ele às complexidades de nos transferir,
quando podia obter fácil e gratuitamente outros trabalhadores judeus no local das
novas instalações? Mesmo que quisesse levar-nos, como iria ele convencer os
administradores nazis, especialmente Amon Goeth, que era indubitavelmente aquele que
tinha a última palavra a nosso respeito, a alinharem num esquema tão louco? (…)
(…)
O termo caiu no chão de cimento com um estrondo explosivo. Isso chamou a atenção
de Schindler, que se virou para nós. Era a minha oportunidade. «Estão a mandar-nos
embora», gritei. «O meu pai, o meu irmão e eu!» Schindler fez imediatamente sinal para
que os guardas nos puxassem da fila. Recebemos ordem de voltar para a Emalia.
(…)
Enquanto a maquinaria era transportada de comboio, a Emalia fechou e nós,
juntamente com todos os outros trabalhadores judeus, fomos mandados para Plaszów,
onde aguardaríamos a nossa vez de nos reunirmos a Schindler.

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(…) O exército soviético estava a aproximar-se e os alemães concentravam todas as
energias em cobrir os seus rastos. Ao longo da semana seguinte, alguns trabalhadores,
entre os quais o meu irmão David, tiveram de exumar centenas de corpos das valas
comuns para onde haviam sido atirados e cremá-los.
Quando regressou a caserna, David estava em estado de choque. Debatia-se para
encontrar palavras para descrever que tinha visto. Chorou ao contar-nos que tivera de
se esticar literalmente para dentro das sepulturas, içar e transportar os corpos em
decomposição para as piras. Fizemos o nosso melhor para o consolarmos, mas não
podíamos fazer desaparecer a memória do que ele tinha visto, nem o cheiro da morte
que empestava as suas roupas e a sua pele. David tinha apenas dezassete anos.
(…)
O nosso pai ousou dirigir-se a Schindler com um último pedido: que a sua filha muito
amada, a quem não via há dois anos, fosse acrescentada à lista de trabalhadores que iam
para Brunnlitz. Schindler acedeu sem hesitar, pelo que passámos a ter um quinto membro
da família connosco. A nossa sorte parecia simplesmente surpreendente.
Lembro-me perfeitamente da data em que saímos de Plaszów pela última vez. Foi
no dia 15 de outubro de 1944.
(…)
Ao fim de seis anos, estava a deixar Cracóvia, a cidade dos sonhos da minha infância,
a cidade que se tornara um pesadelo, e a partir para o desconhecido.

NOVE

Campo de Concentração de Gross-Rosen. Apenas duzentos e oitenta quilómetros


milhão de quilómetros do mundo civilizado.
Outubro de 1944.
(…)
Na noite em que chegámos de Cracóvia, arrastámo-nos para fora dos vagões de gado
e formámos num campo vago. Mandaram-nos despir e deixar as nossas roupas onde
estávamos. Fizeram-nos marchar para os duches. Por essa altura, tínhamos ouvido
histórias horripilantes sobre duches que expeliam gás venenoso, mas, neste caso, apenas
escorreu água gelada. Após o duche, as nossas cabeças foram rapadas e nós fomos

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enviados de novo para o campo, onde nos perfilamos nus na noite fria de outubro.
Esperamos que algo acontecesse, mas nada se passou. À medida que as horas se
arrastavam, íamos ficando cada vez mais enregelados.
(…)
Nenhum de nós fazia a mais pequena ideia do que a nossa presença em Gross-Rosen
significava. Porque estávamos ali? (…)
À medida que o nosso tempo em Gross-Rosen se prolongava, cada vez nos
assemelhávamos mais a mortos-vivos. Misteriosamente, uma tarde, fomos conduzidos
para outro vagão de gado. As portas fecharam-se e arrancamos para a noite, com destino
ainda incerto. De manhã, quando as portas se abriram, vimos que tínhamos finalmente
chegado a Brunnlitz, na região dos Sudetas. Arrastámo-nos da
estação de comboios para o campo de trabalho de Schindler. Desta vez, o campo teria
de produzir munições para a guerra.
(…) Já em Brunnlitz, soubemos que as mulheres não tinham chegado de Cracóvia. O seu
comboio havia sido desviado para Auschwitz.
Quando o meu pai soube da notícia, a cor drenou do seu rosto. Nunca o tinha visto
tao angustiado. Fomos informados de que Schindler já estava a caminho de Auschwitz,
para ir buscar as mulheres, mas era difícil acreditar que mesmo ele pudesse conseguir
tal proeza.
De algum modo, Oskar Schindler conseguiu o que parecia impossível. Distribuiu
subornos gigantescos aos nazis que ocupavam lugares de comando em Auschwitz, ao
mesmo tempo que argumentava que as mulheres eram «especialistas», «altamente
treinadas» e «insubstituíveis». Por incrível que pareça, os seus esforços foram coroados
de êxito e as mulheres foram metidas num comboio, desta vez para Br unnlitz.
(…)
De algum modo, Schindler conseguiu convencer os nazis de que nos éramos úteis e
produtivos, embora não tenhamos produzido quase nenhuma munição utilizável durante
os oito meses que passámos no Campo de Brunnlitz.
(…)
Também conseguia obter pequenas porções de comida do pessoal da cozinha. Tratava-
se de presos políticos, que formavam a resistência clandestina do campo. (…) Aceitaram
deixar-me recolher os restos de água numa lata. Eu pousava então a lata num tubo de

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vapor até a água evaporar, deixando pedacinhos de comida sólida no fundo. Conseguia
sempre ser inventivo quando se tratava de conseguir um pouco mais para comer.
(…)
Uma vez, depois de ter parado a falar comigo no meu posto de trabalho, Schindler
ordenou à pessoa que elaborava os horários para me transferir para o turno de dia. Essa
transferência provavelmente salvou a minha vida. O turno de dia era muito mais fácil,
mental e fisicamente. (…)
Schindler contava-nos os movimentos na frente oriental. No início de 1945, soubemos
que o exército soviético tinha libertado Auschwitz e Cracóvia. Os prisioneiros mais
conhecedores de geografia esboçavam mapas na terra, i l u s t r a n d o o avanço do
exército soviético. Os seus mapas que o progresso das tropas parecesse mais real. Não
faltava muito, diziam eles, para que o exército chegasse.
(…)
Na realidade, os meus receios não eram assim do rebuscados. Foi bom que eu não
soubesse na altura que, em abril de 1945, as SS haviam recebido ordens para matar
todos os trabalhadores judeus da fábrica, mas que Schindler conseguira frustrar o plano
e fazer com que o oficial responsável das SS fosse transferido para fora da área antes
que tivesse tempo de cumprir as instruções. Por essa altura, os oficiais e soldados
alemães tinham começado a fugir, a fazer tudo o que podiam para evitar a captura pelo
exército soviético, que se aproximava rapidamente. No meio do caos, Schindler
aproveitou novamente uma oportunidade para agir em nosso benefício. Foi a um dos
armazéns nazis abandonados e trouxe centenas de peças de pano azul-marinho e
centenas de garrafas de vodca.
(…) Os soldados fugiram sem dizer uma palavra, mas Schindler ficou. N ão conseguiu
partir sem se despedir, e reuniu os seus judeus uma última vez. Depois de tantos anos
de medo constante, tive dificuldade em acreditar que o que ele estava a dizer podia
realmente ser verdade.
«Estão livres», disse-nos ele.
Livres!
Ficámos sem palavras. O que havia para dizer? Que palavras poderiam exprimir o
tumulto de emoções que sentíamos? A liberdade parecia uma fantasia impossível. Antes
de partir, Schindler pediu que n ã o nos vingássemos nas pessoas da vila vizinha, já que

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o tinham ajudado a manter-nos vivos. Deu a cada um de nós um rolo de tecido e uma
garrafa de vodca, bens que sabia que poderíamos trocar por comida, abrigo e roupas.
Não tive oportunidade de me despedir pessoalmente de Schindler, mas participei com
todos os outros trabalhadores em presenteá-lo com um anel, feito do dente de ouro de
um prisioneiro, que tinha uma inscrição em hebraico, extraída do Talmude: «Quem salva
uma vida salva o mundo inteiro.»
(…)
Esperámos no limbo, depois da partida de Schindler, pela chegada dos soviéticos. (…)
No dia 8 de maio de 1945 chegou a resposta. Um soldado russo solitário veio até aos
portões. Perguntou quem éramos; respondemos que éramos judeus da Polónia. Ele disse
que estávamos livres e que arrancássemos os números e triângulos dos nossos
uniformes. Quando recordo esse momento, tenho a impressão de que os arrancámos
todos em uníssono, em afirmação da nossa solidariedade e vitória.
Apesar das probabilidades avassaladoras, tínhamos conseguido. Miraculosamente,
Oskar Schindler, esse homem complexo e cheio de contradições — oportunista nazi,
intrigante, corajoso rebelde, salvador, herói — salvara cerca de mil e duzentos judeus
de uma morte quase certa.

DEZ

Depois de o soldado partir, os portões abriram-se. Eu estava em estado de choque.


Todos estávamos. Tínhamos passado de pessoas aprisionadas há anos para pessoas
livres. Sentia-me confuso, fraco e em êxtase, tudo ao mesmo tempo.
(…)
Por fim, as autoridades checas forneceram transporte gratuito de comboio para
aqueles de nós que quisessem voltar para a Polónia.
Desta vez, os vagões de gado tinham beliches e as portas de correr permaneceram
abertas. Podíamos respirar os aromas da primavera e apreciar a vista das regiões rurais
que atravessávamos. Do meu lugar, ia examinando a paisagem e poucos sinais vi da
guerra que dizimara as nossas vidas. Das árvores brotavam folhas novas, flores silvestres
desabrochavam por toda a parte. As cicatrizes da guerra, que eu sentia t ão

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it
profundamente, não eram visíveis na paisagem. Era quase como se aqueles terríveis anos
de sofrimento nunca tivessem acontecido, mas bastava-me olhar para os rostos
desgastados e cansados dos meus pais para saber que isso não era verdade.
(…)
Infelizmente, em Cracóvia, não tardei a perceber que o sofrimento não tinha acabado.
Os meus pais, David, Pesza eu chegámos ainda com os uniformes às riscas de prisioneiros.
Agarrámos nas nossas únicas posses — as peças de tecido e as garrafas de vodca que
Schindler nos dera — e atravessámos a cidade um pouco a medo, em direção ao nosso
antigo bairro. Fomos recebidos por olhares curiosos e com uma indiferença que me
perturbou profundamente. Encontramos Wojek, o bondoso gentio que tinha vendido os
fatos do meu pai, e estabelecemos contacto com um antigo vizinho da Rua Przemyslowa.
Ele deixou-nos ficar algumas noites no seu apartamento e decidiu dar uma pequena festa
em honra do meu pai. (…)
(…)Alguns eram antissemitas e tinham ficado satisfeitos por nos ver fora daquilo que
consideravam ser o seu país, apesar do facto de lá viverem judeus há mais de mil anos.
Agora tínhamos regressado e provocávamos-lhes ansiedade, embora estivéssemos
simplesmente a tentar ajustar-nos à liberdade e a começar a reconstruir as nossas vidas.
(…) Precisávamos urgentemente de um sítio nosso para viver. Arranjámos
alojamento num dormitório para estudantes, que fora transformado em centro de
acolhimento para refugiados. Era isso que nós éramos agora. Refugiados. Estrangeiros,
ironicamente, num país onde os judeus tinham uma longa história. (…)
Nesse verão, a reação em Cracóvia contra os judeus retornados intensificou-se. (…) O
meu pai ia todos os dias para o trabalho, enquanto o resto da família passava a maior
parte do tempo na sua casa improvisada, com medo de se aventurar a sair. Seria esse o
nosso futuro? Tínhamos sobrevivido à guerra, ao gueto e aos campos de concentração,
apenas para continuarmos a viver com medo?
No dia 11 de agosto de 1945, eclodiram motins quando u m rapaz gentio alegou que
os judeus estavam a tentar matá-lo. O nosso prédio foi atacado por vândalos, que
atiraram novamente pedras às janelas e arrastaram pessoas do primeiro andar para as
espancar com as mãos nuas. (…)
Se pudéssemos voltar para Narewka .... sugeriu a minha mãe. Dizia aquilo muitas vezes
depois da guerra. (…)

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«Não podemos voltar ainda», respondeu o meu pai. «Talvez nunca.»
Depois transmitiu-nos as suas notícias devastadoras. (…) Atrás do exército alemão
invasor tinham chegado esquadrões da morte das SS, chamados Einsatzgruppen, que
varriam as aldeias do leste da Polónia com o único propósito de assassinar judeus.
Tinham chegado a Narewka em agosto de 1941. Levaram todos os judeus de sexo
masculino da aldeia, cerca de quinhentos, para um prado perto da floresta, abateram-
nos a tiros de metralhadora e enterraram-nos numa vala comum. Em seguida, as SS
levaram as mulheres e crianças judias para um celeiro próximo, onde as mantiveram
um dia, após o que também foram executadas.
(…)
Muitos anos depois voltei a Narewka. Um polaco gentio que conheci lá contou-me
como um jovem judeu tentara fugir, mas, como ele disse, «um dos nossos» — por outras
palavras, um não-judeu — vira-o e denunciara-o às SS, que o balearam imediatamente.
(…)
No início de 1946, David e Pesza resolveram voltar para a Checoslováquia, para ver se
poderiam estabelecer-se lá. (…)
Poucos meses depois, os meus pais pediram a ajuda de uma organização sionista, um
dos grupos cujo objetivo era estabelecer um Estado nacional judeu. Esperávamos que efes
pudessem tirar-nos clandestinamente da Polónia. Não considerámos ir para a Palestina
sob o domínio britânico, pois a vida lá seria demasiado difícil para os meus pais. Depois
de várias semanas de espera ansiosa, abriu-se a nossa janela de oportunidade. Pagámos
um pequeno suborno a um guarda e passámos a fronteira. Atravessámos a Checoslováquia
de comboio e chegámos finalmente a Salzburgo, na Áustria. Aí, uma organização de apoio
das Nações Unidas encaminhou-nos para um campo de refugiados em Wetzlar, Alemanha,
na zona de ocupação americana. Por um lado, parecia estranho estarmos na Alemanha, de
todos os países onde podíamos ter ido parar; por outro, era bom estarmos a iniciar um
novo capítulo das nossas vidas.
(…)
Nunca senti que o campo de refugiados fosse um lar, mas fui-me habituado à vida lá,
enquanto esperávamos para ver que país nos permitiria emigrar para o seu território.
Havia muitas pessoas como nós, à procura de um lugar que as aceitasse.
Os alemães tinham posto fim à minha escolaridade pouco depois de eu ter completado

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dez anos. Os meus pais estavam preocupados com a minha falta de instrução e com o
que isso poderia significar para o meu futuro. O meu pai come çou a procurar alguém
para me ensinar, para me ajudar a recuperar pelo menos parte do que havia perdido. Na
vila próxima encontrou um antigo engenheiro alemão, que estava agora desempregado e
tinha cinco filhos para alimentar. (…)
Com o tempo, aprendi a apreciar as minhas aulas com o Dr. Neu. Depois das minhas
experiências com Oskar Schindler, sentia que era capaz de distinguir entre os alemães
que tinham sido verdadeiros nazis e aqueles que tinham mantido alguma humanidade,
mesmo que tivessem aderido ao Partido Nazi. Concluí que os verdadeiros crentes
baixavam os olhos para os sapatos ou punham-se a dar corda ao relógio sempre que a
guerra era referida. Quando alguém falava do que os judeus tinham passado, a sua
resposta automática era: «Não sabíamos.». O Dr. Neu não era assim. Fazia-me perguntas
acerca das minhas experiências e ouvia com interesse genuíno o que eu lhe dizia.
Lembrava-me a forma como Oskar Schindler me fazia perguntas e esperava pelas minhas
respostas. O Dr. Neu não tentava branquear o que tinha acontecido. (…)
Finalmente, em maio de 1949, após quase três anos no campo de refugiados,
recebemos a notícia de que o nosso pedido de emigração havia sido aprovado. Era quase
inacreditável que íamos de facto para os Estados Unidos da América! Apanh ámos o
comboio para Bremerhaven, na Alemanha, e, em seguida, atravessámos o oceano
Atlântico até Boston, Massachusetts, numa viagem de nove dias num antigo navio de
guerra. Passei todo o tempo que pude no convés, a olhar para o mar que se estendia em
todas as direções. Algo na sua majestade, na sua vastidão, me proporcionava uma paz
que nunca tinha conhecido.
(…)
O filho do tio Morris, Dave Golner, que vivia em Connecticut, veio ter connosco
enquanto passávamos pela emigração, depois de o nosso navio ter atracado no porto de
Boston. (…)
Soube-nos bem viajar de comboio dessa vez, sentados numa carruagem de
passageiros, em bancos estofados, e não amontoados num vagão de gado.

EPÍLOGO

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Nos Estados Unidos, raramente falava sobre as minhas experiências durante a guerra.
Era demasiado difícil explicá-las. Nem sequer parecia existir vocabulário que me
permitisse comunicar aquilo por que tinha passado. (…)
Os meus pais e eu tratámos de nos instalar e de arranjar trabalho. Ficámos algumas
semanas em casa da minha tia Shaina, agora conhecida como Jenny, antes de nos
mudar-nos para um apartamento de uma assoalhada no prédio onde o meu tio Morris,
irmão da minha mãe, vivia. Os meus pais ficaram com o quarto e eu armei um divã para
mim na cozinha; era uma clara melhoria depois dos beliches sobre lotados dos campos
de concentração. Sentia-me muito grato.
Matriculámo-nos os três em aulas de inglês para estrangeiros, que
frequentávamos três noites por semana na Manual Arts High School.
(…)
A minha mãe dedicou-se a cuidar do meu pai e a organizar um lar para nós. Isolada do
mundo em que crescera, parecia-me estar solitária e à deriva. (…)
Eu aprendia línguas com facilidade, pelo que não levei muito tempo a sentir-me à
vontade quando conversava em inglês. Com a ajuda do tio Morris, fui contratado como
operador de máquinas pela US Electrical Motors e matriculei-me na Los Angeles Trade-
Technical College. Aprendi nos livros o que o meu pai aprendera fazendo, mas
trabalhávamos os dois juntos para dominar os desafios colocados pela conversão de
medidas métricas nos respetivos equivalentes em polegadas, pés e jardas. Durante um
ano e meio, assistia às aulas de manhã e trabalhava à tarde e à noite, até à meia-noite.
(…)
Em 1951 concluí o meu curso na escola comercial e, embora não fosse cidadão
americano, a minha convocação para servir no exército dos Estados Unidos chegou
pelo correio, certinha como um relógio. (…)
Perto do fim do meu treino, fui transferido para uma base perto de Atlanta, Geórgia.
Um fim de semana recebemos licença para ir à cidade. Embarquei no autocarro e dirigi-
me ao meu lugar favorito, na parte de trás, para dormir uma soneca. Espantei-me quando
o motorista parou o autocarro e veio ter comigo. «Não pode sentar-se aí», disse ele. «Os
bancos da retaguarda são para negros. Tem de ir para a frente do veículo.» As suas
palavras atingiram-me como um bofetão. De repente, voltei a Cracóvia, quando os nazis
ordenaram que os judeus viajassem na retaguarda dos autocarros (antes de nos proibirem

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de utilizar quaisquer transportes públicos). O contexto era muito diferente, mas, mesmo
assim, quase fez com que a minha cabeça explodisse. Porque existiria algo assi m na
América? Eu acreditara erradamente que uma tal discriminação se dirigira
exclusivamente aos judeus sob a opressão nazi. Agora descobria que havia desigualdade
e preconceito naquele país que já aprendera a amar.
(…)
Quando conclui o serviço militar e voltei para Los Angeles, tomei a decisão de
prosseguir com a minha edução. A GI Bill 1 tornou isso possível. Encontrei-me com um
conselheiro do Los Angeles City College, que me pediu o meu diploma do ensino
secundário. Expliquei-lhe que não tinha, que a minha educação formal terminara pouco
depois de eu completar dez anos. Ele mostrou-se desconcertado, pelo que lhe dei
pormenores suficientes para explicar o meu passado. O conselheiro avaliou a minha
experiência no exército e teve uma inspiração. Sugeriu q ue eu ponderasse a
possibilidade de me tornar professor de artes industriais. «Se conseguir uma média de C,
pode ficar na escola e obter o seu diploma», afirmou. Eu não podia acreditar. «Isso é tudo
o que tenho de fazer?», perguntei. Ele garantiu-me que sim.
Acabei com uma média muito melhor do que C. Terminei o LACC e pedi transferência
para a Cal State Los Angeles, onde concluí o meu bacharelato e obtive uma credencial
para o ensino. Com o tempo, fiz um mestrado em educação na Universidade de
Pepperdine.
Comecei a ensinar na Escola Secundária de Huntington Park em 1959. Permaneci nessa
escola por trinta e nove anos. (…)
Por mais que seguisse em frente e tivesse construído uma vida para mim próprio, só
quando conheci a minha futura esposa, Lis, senti que podia curar-me verdadeiramente.
(…) Casámos nesse verão. Alguns anos depois fomos viver para Fullerton, Califórnia.
Temos uma filha e um filho, a quem educámos como crianças americanas normais, sem
o peso do passado da minha família. Não partilhei as experiências da minha infância e
adolescência com eles até que tivessem idade para compreender. Queria transmitir aos

1
Lei que regula a concessão de ajuda financeira aos soldados americanos para lhes dar a
oportunidade de adquirirem educação superior. ( N I )

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nossos filhos um legado de liberdade, não um legado de medo. Claro que fui partilhando
gradualmente o meu passado com eles, aos poucos, à medida que cresciam.
O meu irmão e a minha irmã também casaram e fundaram as suas próprias famílias
em Israel. David tem três rapazes e uma rapariga, e ainda vive no kibutz Gan Shmuel,
célebre pelos seus pomares e pelas exportações de peixes tropicais e concentrados de
fruta. Pesza mudou o seu nome para Aviva depois de t e r emigrado para Israel. Tem três
filhos, seis netos e uma bisneta ainda bebé. Vive em Kiryat Haim, uma bela cidade na
costa do Mediterrâneo, a norte de Haifa.
Foi muito mais difícil para os meus pais do que para mim encontrar o seu rumo num
novo país. Tinham sobrevivido ao inimaginável, tal como três dos seus filhos, mas a
guerra abrira uma ferida nos seus c o r a ç õ e s que nunca cicatrizou. Não havia um dia
em que não pensassem em Hershel e Tsalig, e em toda a família que haviam perdido.
Fisicamente, os anos de sofrimento tinham deixado as suas marcas. Uma vez, em
Plaszów, um guarda golpeou a minha mãe na cabeça com uma tábua. O golpe rebentou-
lhe definitivamente o tímpano. Ela dizia que, pelo resto da sua vida, ouvia os seus dois
filhos assassinados a chamá-la nesse ouvido.
O meu pai continuou a ter aulas de inglês, determinado como estava em dominar o
idioma. Trocou o trabalho de auxiliar por um emprego numa fábrica coma operador de
máquinas. Não tardou que a sua aptidão como operário experiente se tornasse evidente,
e isso ajudou-o a recuperar um pouco do orgulho e autoestima que possuíra nos anos
anteriores à guerra. (…)
Schindler debateu-se com dificuldades depois da gue r r a . O seu estilo, feito de
manigâncias e manobras de bastidores, não era apropriado para um homem de negócios
em tempo de paz. Meteu-se numa série do empreendimentos mal sucedidos e foi à
falência mais do que uma vez. Nos últimos tempos de vida, era sustentado por
contribuições que recebia de organizações judaicas. Para muitos dos seus compatriotas
alemães, Schindler tinha sido um traidor ao seu país, um «amante de judeus». Morreu
em 1974, em circunstâncias humildes, em Hildesheim, no que era então a Alemanha
Ocidental.
Até à sua morte, Schindler manteve contacto com alguns dos seus antigos
trabalhadores. A nossa gratidão significava muito para ele. Pensava em nós, os
Schindlerjuden, os judeus de Schindler, como os filhos que nunca tivera. Pediu para ser

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enterrado em Jerusalém. «Os meus filhos estão aqui», disse ele uma vez. (…)
Foi por uma feliz coincidência que o escritor Thomas Keneally entrou na loja de malas
de viagem que os Page possuíam em Beverly Hills, tendo ficado fascinado com a história
que Leopold lhe contou. (…)
A sua mulher, Mila, que também constava da «lista», ainda é viva e é uma minha amiga
muito querida. É o último membro-fundador sobrevivente do Clube «1 9 39 », uma
organização de sobreviventes do Holocausto, oriundos principalmente da Polónia, e dos
seus descendentes.
(…)
Ao longo dos anos, a partir de livros e documentários, e, especialmente, dos meus
companheiros sobreviventes da «lista» de Schindler, fiquei a saber muito mais acerca do
que Schindler fez e de quanto arriscou para proteger as nossas vidas. O seu contabilista,
Itzhak Stern, achava que Schindler se empenhara em salvar judeus depois de ter
testemunhado os assassínios em massa durante a liquidação do gueto de Cracóvia. (…)
Em 1943, Oskar Schindler foi detido e passou um breve período na prisão devido às
suas atividades no mercado negro. Nesse mesmo ano, os nazis ameaçaram fechar a sua
fábrica se ele não trocasse a manufatura de esmalte pela produção de armamento.
Schindler foi forçado a ceder, mas ironicamente, essa mudança foi o que salvou as nossas
vidas perto do fim da guerra, quando ele argumentou que os seu s trabalhadores
«especializados» tinham de ser transferidos para Brunnlitz. Alegar que operários
especializados na produção de esmalte eram «essenciais» não teria significado nada
para os que tomavam as decisões, mas o argumento de que eram essenciais para a
produção de munições da Alemanha fez a diferença.
(…)
Lembro-me de uma entrevista de televisão que vi uma vez, com o escritor e intelectual
Joseph Campbell. Nunca esqueci a sua definição de herói. Campbell disse que um herói é
um ser humano vulgar que faz «a melhor das coisas no pior dos tempos». Oskar Schindler
personifica essa definição.
(…)
Leon Leyson, 15 de setembro de 2O12

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