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Fernando Pessoa – ortónimo

Quando se fala de Fernando Pessoa, interessa distinguir o ortónimo dos heterónimos.


O seu universo heterónimo permitiu-lhe criar diferentes personalidades com outros
nomes como Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos.
O texto lírico de pessoa “ele mesmo”, como afirma, permite exprimir recordações do
que conserva da emoção.

Fernando Pessoa ortónimo considera que só é possível pela conciliação das oposições
entre realidades objetivas e realidades mentalmente construídas. Dai a necessidade de
intelectualizar o que sente ou pensa, reelaborando essa realidade graças à imaginação
criadora.

A consciência de enfermidade, porque o tempo é um fator de desagregação, cria o


desejo de ser criança de novo, a nostalgia da infância, como um bem perdido, leva-o à
desilusão perante a vida real.
Ao não conseguir fruir a vida pode ser consciente e ao não conseguir conciliar o que
deseja ou idealiza com o que realiza, sente-se frustrado, o que traduz o drama de
personalidade do ortónimo que, tal como os heterónimos, apresenta uma identidade
própria diversa do autor Fernando Pessoa, conservando deste apenas o seu nome.

Rutura e continuidade

Em Fernando Pessoa ortónimo coexistem duas vertentes: a tradicional e a modernista.


Nos primeiros tempos escreveu na língua em que foi educado, ou seja, inglês. Depois,
por influência da poesia de Garrett, começou a escrever em português e algumas das
suas composições apresentam a melancolia, a sensibilidade, a suavidade, a linguagem
simples e o ritmo da lírica tradicional.
O fingimento artístico

Como afirma Fernando Pessoa, a sinceridade intelectual ou metafísica é a única que


interessa à poesia. Daí que o fingimento seja a mais autêntica sinceridade intelectual,
pois “fingir é conhecer-se”.
A voz do poeta fingidor é a voz do poeta da modernidade, despersonalizado, que tenta
encontrar a unidade humana. O poeta recorre à ironia para pôr tudo em causa,
inclusive a própria sinceridade que, com o fingimento, possibilita a construção da arte.

O poeta codifica o poema que o recetor descodifica à sua maneira, mas sem
necessidade de encontrar a pessoa real do escritor. O poeta “Finge tão
completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, enquanto os
recetores “Na dor lida sentem bem, / Não as duas que ele teve / Mas só a que eles não
têm.” Isto significa que o ato poético apenas pode comunicar uma dor fingida,
inventada, pois a dor real (sentida) continua no sujeito, que, por palavras e imagens,
tenta uma representação; e os leitores tendem a considerar uma dor que não é sua,
mas que apreendem de acordo com a sua experiencia de dor, a dor real (“que deveras
sente”), a dor fingida e a “dor lida”.

A dor de pensar

O eu lírico tanto aceita a consciência como sente uma verdadeira dor de pensar, que
traduz insatisfação e duvida sobre a utilidade do pensamento. Impedido de ser feliz,
devido à lucidez, procura a realização do paradoxo de ter uma consciência
inconsciente. Mas ao pensar sobre o pensamento, percebe o vazio que não permite
conciliar a consciência e a inconsciência. O pensamento racional não se coaduna com o
verdadeiro sentir.

A nostalgia da infância

Do mundo perdido da infância, Pessoa sente a nostalgia. Um profundo desencanto e


angústia acompanham o sentido da brevidade da vida e da passagem dos dias. Ao
mesmo tempo que gostava de ter a infância das crianças que brincam, sente a saudade
de uma ternura que lhe passou ao lado.
As características da poesia de Fernando Pessoa

Boiam leves, desatentos,


Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Boiam como folhas mortas


À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhado nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remedio,


Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se para, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

O poema evidencia alguns traços representativos da poesia do ortónimo:


 Elementos aquáticos da simbologia pessoana;
 Componente musical aliterações, assonâncias, paralelismo anafórico, ritmo da
estrofe, rima;
 Simplicidade formal: quintilha, verso de redondilha maior;
 Uso do presente do indicativo;
 Oximoro, adjetivação expressiva, comparação, imagens, metáfora, repetições,
paralelismo;
 Drama de personalidade;
 Eu fragmentado;
 Negativismo
 Desagregação do tempo e de tudo.
Temáticas Poemas
Coexistência de duas vertentes: a tradicional e a modernista
Lirismo tradicional:
 Sensibilidade, suavidade, linguagem simples, ritmo  “Leve, breve, suave”
melodioso; delicadeza que se articula perfeitamente com a  “Não sei, ama, onde era”
musicalidade e o ritmo do verso.  “Ó sino da minha aldeia”
 Simplicidade (mesmo que apenas aparente)..  “Ela canta pobre ceifeira”
 Trocadilhos, metáforas, aliterações, sinestesias.
Rutura:
 Experiencias modernas do simbolismo, do Paulismo e do
 “Impressões do Crepúsculo”
Intersecionismo.
 “Chuva Oblíqua”
 Heteronímia: o seu comportamento levou-o criar
personalidades diferentes, que se revelam na heteronímia.
O fingimento artístico
Tensão sinceridade / fingimento:
 Ato poético apenas como comunicação ou representação.
 A máscara e o fingimento como elaboração mental dos
conceitos que exprimem as emoções ou o que quer
comunicar.
 Tradução dos sentimentos na linguagem do leitor, pois o que
 “Autopsicografia”
se sente é incomunicável.
 “Isto”
 Despersonalizações do poeta fingidor que fala e que se
 “Tudo o que faço ou medito”
identifica com a própria criação poética, como impõem a
modernidade.
 Construção da arte pelo recurso à ironia que põe tudo em
causa, inclusive a própria sinceridade.
 A intelectualização das emoções e dos sentimentos para
elaboração da arte.
Consciência / inconsciência:
 Ser múltiplo sem deixar de ser um.
 Capacidade de despersonalização que lhe permite atingir a
finalidade da arte, isto é aumentar a autoconsciência  “Ela canta, pobre ceifeira”
humana.
 “Ó sino da minha aldeia”
 Impendido de ser feliz, devido à lucidez, procura a realização
 “Não sei ser triste a valer”
do paradoxo de ter uma consciência inconsciente.
 “Liberdade”
Sentir / pensar:
 “Abdicação”
 Fragmentação do eu a busca da totalidade que lhe permita
 “Chuva Oblíqua”
conciliar o pensar e o sentir.
 Intersecionismo entre o material e o sonho, a realidade e a
idealidade como tentativa para encontrar a unidade entre a
experiencia sensível e a inteligência.
A dor de pensar:
 “Gato que brincas na rua”
 Poesia marcada pelo conflito entre o pensar e o sentir, ou
 “Ela canta pobre ceifeira”
entre a ambição da felicidade pura e a frustração que a
 “Sol nulo dos dias vãos”
consciência de si implica.
 “Tudo o que faço ou medito”
 Dor que resulta da distancia entre o que se pretendia
atingir e o que se conseguiu realizar (a “dor que se sente”).
 Não consegue fruir instintivamente a vida por ser
consciente e pela própria enfermidade.
 Certeza de que a lucidez impede a felicidade.
 Insatisfação e dúvida sobre a utilidade do pensamento.
A nostalgia da infância
O tempo e a desagregação: o regresso à infância:
 Pessoa sente a nostalgia do mundo perdido da infância. Ele
que foi “criança contente de nada” e que em adolescente
aspirou a tudo, experimenta agora a desagregação do
tempo e de tudo.
 Infância como espaço de felicidade.
 Profundo desencanto e a angústia acompanham o sentido
da brevidade da vida e da passagem dos dias.
 Evasão no tempo e no espaço como forma de procurar a
 “O menino da sua mãe”
felicidade.
 “Não sei ama, onde era”
 Ao encontra-se em conflito consigo próprio e com o
 “Eros e Psique”
mundo, evade-se no tempo e no espaço, regressando à
 “Quando as crianças brincam”
infância feliz.
 “Quando era criança”
 Ao mesmo tempo que gostava de ter a infância das
crianças que brincam, sente a saudade de uma ternura que
lhe passou ao lado.
 Tenta manter vivo o “enigma” e a “visão do que foi”,
restando-lhe a inquietação, a solidão e a ansiedade.
 Desejo de regresso ao paraíso perdido, à infância perdida,
ao passado feliz.
 Angústia existencial e nostalgia (do Eu, de um bem
perdido, das imagens da infância).